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HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA I

CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD


História da Filosofia Moderna I - Prof. Ms. Osmair Severino Botelho.

Osmair Severino Botelho é mestre em Filosofia pela Pontifícia


Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), cuja dissertação
Eros: a outra face da dialética platônica discute a formação do
filósofo a partir da dialética erótica exposta no diálogo O
banquete de Platão. O professor Osmair também é especialista
em filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). É
licenciado em Filosofia, pela Universidade Estadual do Oeste
do Paraná - Unioeste, campus de Toledo - e em História, pelo
Centro Universitário Barão de Mauá - Ribeirão Preto-SP. É
professor de Filosofia e Metodologia Científica em vários
cursos do Centro Universitário Claretiano. Trabalha no Centro
de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto - Instituto de Filosofia Dom Felício, em
Brodoswki, e no Colégio Vita et Pax, em Ribeirão Preto.

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Osmair Severino Botelho

HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA I


Caderno de Referência de Conteúdo

Batatais
Claretiano
2013
© Ação Educacional Claretiana, 2011 – Batatais (SP)
Versão: dez./2013

190 B76h

Botelho, Osmair Severino


História da filosofia moderna I / Osmair Severino Botelho – Batatais, SP :
Claretiano, 2013.
216 p.

ISBN: 978-85-67425-70-2

1. Contexto Histórico do surgimento da Filosofia Moderna. 2. Novas concepções


religiosas no Renascimento. 3. A nova visão política no Renascimento. 4.
Cosmologia e ciência dos séculos 16 e 17. I. História da filosofia moderna I.

CDD 190

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Camila Maria Nardi Matos Felipe Aleixo
Carolina de Andrade Baviera Filipi Andrade de Deus Silveira
Cátia Aparecida Ribeiro Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz
Dandara Louise Vieira Matavelli Rodrigo Ferreira Daverni
Elaine Aparecida de Lima Moraes Sônia Galindo Melo
Josiane Marchiori Martins
Talita Cristina Bartolomeu
Lidiane Maria Magalini
Vanessa Vergani Machado
Luciana A. Mani Adami
Luciana dos Santos Sançana de Melo
Luis Henrique de Souza Projeto gráfico, diagramação e capa
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SUMÁRIO

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO


1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 7
2 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO....................................................................... 9
3 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 37

Unidade 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DA FILOSOFIA


MODERNA
1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 39
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 40
3 ORIENTAÇÕES GERAIS PARA O ESTUDO ........................................................ 40
4 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 42
5 AMBIENTE HISTÓRICO PARA O APARECIMENTO DA FILOSOFIA
MODERNA.......................................................................................................... 42
6 CIÊNCIA RENASCENTISTA................................................................................. 48
7 FILOSOFIA RENASCENTISTA............................................................................. 51
8 ARISTOTELISMO RENASCENTISTA................................................................... 60
9 CETICISMO RENASCENTISTA............................................................................ 63
10 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 67
11 CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 68
12 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 69
13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 69

Unidade 2 – NOVAS CONCEPÇÕES RELIGIOSAS NO RENASCIMENTO


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 71
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 71
3 ORIENTAÇÕES GERAIS PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................... 72
4 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 74
5 PHILOSOPHIA CHRISTI DE ERASMO DE ROTERDÃ.............................................. 75
6 REFORMA RELIGIOSA E MARTINHO LUTERO . ............................................... 83
7 REFORMA CATÓLICA: A CONTRA OFENSIVA CATÓLICA................................. 99
8 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 103
9 CONSIDERAÇÕES............................................................................................... 104
10 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 105
11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 105

Unidade 3 – A NOVA VISÃO POLÍTICA NO RENASCIMENTO


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 107
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 108
3 ORIENTAÇÕES GERAIS PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................... 108
4 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 111
5 REALISMO POLÍTICO DE NICOLAU MAQUIAVEL............................................. 113
6 POLÍTICA UTÓPICA DE THOMAS MORE.......................................................... 135
7 PROPOSTA DE UMA CIDADE IDEAL EM TOMMASO CAMPANELLA............... 142
8 SOBERANIA ABSOLUTA DO ESTADO DE JEAN BODIN . ................................. 147
9 JUSNATURALISMO DE HUGO GROTIUS........................................................... 149
10 CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 151
11 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 152
12 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 153
13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 154

Unidade 4 – COSMOLOGIA E CIÊNCIA DOS SÉCULOS 16 E 17


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 155
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 156
3 ORIENTAÇÕES GERAIS PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................... 156
4 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 158
5 A FÍSICA ESSENCIALISTA DE ARISTÓTELES...................................................... 160
6 A SISTEMATIZAÇÃO DA FÍSICA EM PTOLOMEU.............................................. 165
7 OS NOVOS MÉTODOS CIENTÍFICOS DE LEONARDO DA VINCI................. 167
8 O MÉTODO INDUTIVO DE FRANCIS BACON.................................................... 169
9 BERNARDINO TELÉSIO E A FÍSICA QUANTITATIVA......................................... 174
10 O MODELO HELIOCÊNTRICO DE NICOLAU COPÉRNICO................................ 177
11 TYCHO BRAHE E O FIM DAS ESFERAS CRISTALINAS....................................... 182
12 GIORDANO BRUNO E A INFINITUDE DO UNIVERSO...................................... 185
13 GALILEU GALILEI E A IGUALDADE DO UNIVERSSO........................................ 191
14 JOHANNES KEPLER E AS ÓRBITAS ELÍPTICAS DOS PLANETAS....................... 197
15 ISAAC NEWTON E A ORIGEN DA FÍSICA CLÁSSICA......................................... 204
16 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 211
17 CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 213
18 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 215
19 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 215

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Caderno de
Referência de
Conteúdo

CRC

Ementa––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Contexto Histórico do surgimento da Filosofia Moderna. Novas concepções reli-
giosas no Renascimento. A nova visão política no Renascimento. Cosmologia e
ciência dos séculos 16 e 17.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

1. INTRODUÇÃO
Seja bem vindo(a) ao estudo do Caderno de Referência de
Conteúdo História da Filosofia Moderna I, disponibilizada para
você em ambiente virtual.

O que você vai aprender?


No decorrer das quatro unidades que compõem este CRC,
você terá uma visão completa do ambiente histórico que propor-
cionou o aparecimento e o desenvolvimento da filosofia moderna.
8 © História da Filosofia Moderna I

Você conhecerá a importância do Renascimento italiano


para o aparecimento de uma nova visão do homem, de política, de
religião e de ciência. Perceberá que esse ambiente torna impres-
cindível a crítica à filosofia aristotélico-tomista, que perdurou por
toda a Idade Média e, além disso, estudará a retomada de alguns
aspectos da filosofia da antiga Grécia, principalmente o platonis-
mo, o que deu origem ao neoplatonismo, ao aristotelismo renas-
centista e ao ceticismo moderno.
Você entrará em contato com as primeiras tentativas de re-
forma do pensamento religioso, como crítica ao cristianismo vi-
gente, além da oposição ao poder central de Roma. Conhecerá a
reação da Igreja Católica para barrar o avanço das Igrejas protes-
tantes e verá como todas as reformas contribuíram para a forma-
ção do pensamento moderno.
O que mais? Entrará em contato com as novas ideias políticas
que apareceram na esteira do Renascimento; verá que algumas pro-
punham sociedades idealizadas, enquanto outras procuravam se ater
à análise real dos fatos vinculados ao poder. Compreenderá como es-
sas correntes influenciaram toda a filosofia política subsequente.
Por fim, você entrará em contato com o ambiente científico
dos séculos 16 e 17. Conhecerá como os "filósofos-cientistas" des-
se período, baseados na razão e na experimentação, criticaram e
superaram a chamada ciência aristotélico-ptolomaica. Entrará em
contato com os métodos, as inquietações, as experimentações e
as teses dos principais pensadores que contribuíram para o desen-
volvimento das ciências modernas e conhecerá como tal contribui-
ção influenciou o desenvolvimento da filosofia moderna.

O que é importante saber


É importante saber que durante mais de 1500 anos, desde
o aparecimento do cristianismo e seus dogmas, o pensamento
e o comportamento do homem ocidental foram moldados com
base na determinação da teologia cristã. Devido a um conjunto
© Caderno de Referência de Conteúdo 9

de acontecimentos, essa supremacia foi questionada e superada,


originando o que chamamos filosofia moderna.
É importante, também, saber que a análise dos principais
fatos que proporcionaram essa transição, bem como a discussão
sobre os problemas mais relevantes desse período, levarão você à
compreensão da constituição do pensamento moderno em todos
os seus aspectos, a saber: filosófico, religioso, político e científico.
Desejamos que, ao final do estudo deste CRC, você tenha
construído um conjunto de ideias que lhe permita analisar, discutir
e apresentar aquilo que é mais relevante para compreender o pen-
samento moderno. Esperamos que você seja capaz de apresentar
o que é fundamental nos diversos autores desse período para o
desenvolvimento não só do pensamento de uma época, mas, tam-
bém, para a construção da reflexão filosófica posterior.
Assim, convidamos você a desenvolver uma postura crítica
e consciente diante dos acontecimentos e, com isso, sentir-se ins-
tigado pelo desejo de conhecimento e de transformação que nos
proporciona o debate filosófico.
Seja bem-vindo e faça parte deste novo processo de constru-
ção do saber!

2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO

Abordagem Geral
Prof. Dr. Stefan Vassilev Krastanov
Doutor em filosofia pela UFSCAR com a tese "Nietzsche:
pathos artístico versus consciência ética".

Este tópico apresenta uma visão geral do que será estudado.


Aqui você entrará em contato com os assuntos principais do CRC
de forma breve e geral. O aprofundamento dessas questões será
tratado em cada uma das unidades deste material. Desse modo,
esta abordagem geral fornece o conhecimento básico necessário

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10 © História da Filosofia Moderna I

para que seu conhecimento seja construído em uma base sólida -


científica e cultural - para que no futuro exercício de sua profissão
você a exerça com ética e responsabilidade. Vamos começar nossa
aventura pelo conhecimento do CRC História da Filosofia Moderna
I?
Introdução
Vamos falar sobre a História da Filosofia Moderna. Para me-
lhor compreendermos esse período tão importante não só da fi-
losofia, mas também das ciências e das artes, ou seja, da visão
cultural da modernidade, faremos uma breve abordagem da situ-
ação histórica. Inicialmente, vamos refletir, antes de tudo, sobre o
fenômeno do Renascimento com suas expressões culturais e ar-
tísticas. Em seguida, falaremos sobre as mudanças religiosas e a
instauração da ciência moderna.
Período renascentista
Pois bem, podemos dizer que o rigor exagerado da época me-
dieval gerou como sua oposição natural, o Renascimento. O primei-
ro traço específico da cultura renascentista é o rompimento da hie-
rarquia medieval expressa em graus divinos e terrestres. Vamos ver!
A hierarquia medieval estabelecia que o homem possuía um
lugar fixo no meio das criaturas. Qualquer ímpeto de mudar a posi-
ção ocupada por um indivíduo era entendido no período medieval
como pecado.
Um rompimento com essa hierarquia começa a se esboçar
por meio de mudanças na construção que o homem faz de si, o
que vai provocar uma aproximação gradativa do homem a Deus. O
homem assemelha-se a Deus - ele é criador e artista da sua própria
vida. Ele pretende conhecer, até criar mundos, mesmo corrigir as
falhas da construção divina. Rafael, por exemplo, costumava dizer
que o artista deve apresentar nas suas obras não o mundo como
foi criado (é claro por Deus), mas como deveria ser criado.
© Caderno de Referência de Conteúdo 11

Homem é aquele que se faz a si mesmo e não aquele tinha


herdado via sangue nobre (propriedade, status) seu status de hu-
manidade. E é por isso que ser nobre deixa de ser tão importan-
te, mais ainda, deixa de ser essencial. Justamente isso levou Dante
Alighieri, que teve origem nobre, a se inscrever na sociedade dos
farmacêuticos para ser eleito no conselho republicano de Florença.
Essa visão nova que rompe com a tradição medieval indica
que o homem possui valor por si mesmo. Essa é a essência do hu-
manismo renascentista, - conforme a famosa expressão do grego
Protágoras - "o homem é a medida a todas as coisas". O homem é
criador e denominador do mundo, tudo passa a ser avaliado por
seu caleidoscópio. Ele se torna individualista.
É possível então entender o Renascimento, no sentido lite-
ral, como um período de ressurgimento dos ideais greco-romanos
na arte, na moral, na política e na educação. No entanto, não po-
demos reduzir essa época gloriosa da história humana apenas a
uma réplica do mundo antigo. O Renascimento é anúncio à época
nova - uma época de descobertas científicas, geográficas e artísti-
cas. Mas tudo isso começou quando a religião perdeu o monopólio
sobre a vida espiritual dos homens.
O homem então descobriu o mundo para si (em contraposi-
ção ao milênio anterior que dedicava a sua vida a Deus). Assim, o
mundo do Renascimento começou a girar - não ao redor da terra,
nem ao redor do sol - ele girava em volta do homem. O novo mo-
vimento da cultura e da filosofia era antropocêntrico.
O homem renascido não queria mais sofrer as consequên-
cias do pecado, como inspirava a religiosidade medieval. Ao con-
trário, queria viver e ser feliz na vida terrena, usufruindo-se dos
frutos maravilhosos da existência.
Foi um dos primeiros, o renascentista florentino Giovane Pico
dela Mirândola, que, na sua obra bastante ousada Discurso sobre
dignidade humana, de 1486, inspirou a liberdade do ser humano
da hierarquia medieval e lhe concedeu o direito de escolha: levar

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12 © História da Filosofia Moderna I

o caminho digno do Criador ou esquivar-se nas ondas do confor-


mismo. Esquematicamente, esse rompimento pode se apresentar
assim:
1) Vê-se que no Renascimento o homem rompe essa deter-
minação medieval.
2) A ele cabe a escolha – tomar o caminho do criador ou
decair da sua essência.
3) É ele que cria o seu próprio modo de ser.
Novas concepções filosóficas da modernidade - Naturalismo
Durante os séculos 14 e 15, a visão naturalista predomina na
consciência renascentista. Essa nova visão influencia em muito a
compreensão estética do mundo. O pavor diante das forças natu-
rais foi superado pela visão naturalista que introduz a presença do
homem na natureza. O homem começa a valorizar sua naturalida-
de. Esse mundo foi o da natureza – corporal, sensível e vital.
Humanismo
Assim a filosofia abandonou as trevas medievais sob a luz da
natureza. Fora das portas das universidades escolásticas, o homem
apreendia um universalismo novo - o humanismo. Este possuía um
caráter mundano, livre e aberto. A ressurreição do homem levou
pensadores, cientistas e artistas do Renascimento a descobrir uma
nova medida para ele – o universalismo. O homem tornou-se divi-
no, sem destituir Deus do trono.
O humanismo, demonstrativamente, opõe-se à igreja e à sua
estreita e dogmática visão para o mundo. O homem novo tinha in-
teresses enciclopédicos e educação humanitária (studia humanita-
tis) incluindo gramática, retórica, poesia, história, ética etc. Dante
Alighieri escreveu A divina comédia, mas também - Sobre língua
italiana, Monarquia, Banquete... Francesco Petrarca, o primeiro
humanista, ganhou popularidade com seus poemas, tratados fi-
losóficos, cartas, com sua atuação política e sua publicidade. Foi
ele quem batizou a época, pois sabemos que justamente Petrarca
atribuiu o nome "Renascimento" para a sua época.
© Caderno de Referência de Conteúdo 13

A arte como filosofia do renascimento


A capacidade de filosofar sempre era vista como a faculdade
de recriar o mundo em sua idealidade. Mas na época medieval
essa função foi reprimida à força pela tradição teológica dominan-
te. O papel da filosofia de recriar o mundo, na época do renasci-
mento, foi atestado pela arte.
Os trabalhos filosóficos da época não se destacam com ino-
vação e riqueza especulativa, mas se reduzem, sobretudo, em
mero trabalho bibliográfico: classificação e tradução de autores
antigos. Os saberes tradicionais da filosofia - a visão sinótica e ar-
quitetônica, as relações axiológicas - foram plenamente apreendi-
das pela arte (literatura, pintura e arquitetura).
Leonardo da Vinci
O representante mais célebre dessa tensão cultural do Re-
nascimento, sem dúvida nenhuma, é Leonardo da Vinci. Vamos
conhecer um pouco desse grande gênio e suas ideias sobre a arte.
No seu Tratado sobre arte, Leonardo identifica a filosofia
com a arte: "A arte é filosofia" - diz o gênio com uma voz que não
admite objeções: "(...) a arte significa filosofia da natureza". O ar-
tista é como o Demiurgo. As obras de arte são obras da natureza.
A pintura, conforme Leonardo, é a única reprodutora de todas as
criações visíveis da natureza.
O gênio concebe a pintura como sendo ciência e filha legí-
tima da natureza, pois é suscitada pela natureza. "A pintura (...)
- afirma Leonardo - é superior a qualquer outra atividade, pois ela
contém todas as formas - existentes e não existentes da natureza".
Nesse sentido, a pintura é não só a fonte de todas as artes
e artesanatos, mas a fonte de todas as ciências. O artista-criador
necessita das ciências para as suas obras a fim de apresentar ver-
dadeiramente o mundo. Esse é o motivo que leva Leonardo a com-
preensão universalista de modo enciclopédico. Essa é a razão pela
qual o gênio se torna o primeiro cientista experimental, dando as-
sim os fundamentos da ciência moderna...

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14 © História da Filosofia Moderna I

Ele necessita de mecânica, matemática, ótica, arquitetura,


cosmologia, astronomia, anatomia, biologia, química, fisiologia...
e, diferentemente de Deus que faz o mundo pelo verbo, Leonardo,
para o mesmo propósito, utiliza-se das ciências e das tecnologias.
Por isso esse novo universalismo não é supraterrestre, mas enci-
clopédico, geral e natural.
Leonardo não faz o mundo por imagem e semelhança divina,
mas descreve o mundo utilizando imagens vivas, que dão vida ao
mundo. E visto que a vida humana é breve, e os gênios mortais, o
mundo de Leonardo não foi acabado, mas onde ele tivera o tempo
de inspirar vida - esse mundo é perfeito.
O artista, como Homo Universale, chega à perfeição na des-
crição do mundo, de todo o mundo natural "da terra ao céu". O
homem está no centro do Universo como filósofo. Quando o artis-
ta vira homo universale, a arte vira filosofia.
O herói como artista
Temos que destacar que, por volta de 1500, o Renascimento
revela alguns traços inéditos. Na sua análise sobre a cultura re-
nascentista, o grande historiador das civilizações - Kenneth Clarck
escreve: "O Renascimento por volta de 1500 já não é o mundo dos
homens livres, dos homens ativos e realistas, mas é o mundo dos
titãs e heróis" (1969, p. 141, tradução nossa).
Agora, o campo central dos acontecimentos culturais é
Roma. Essa mudança ocorre graças ao virtuoso papa Julius II, que
trouxe para Roma os três grandes gênios – Bramantes, Michelan-
gelo e Rafael. Esta personalidade extraordinária concebe algo tão
grandioso e tão fantástico que não se compara com nada. Resolve
destruir a velha basílica de São Pedro - uma das maiores e mais
velhas igrejas do mundo ocidental - e, sem dúvida, a mais adorada,
e, em seu lugar, ele almeja edificar um novo templo inspirado nos
dois ideais renascentistas – as formas perfeitas do quadrado e do
círculo.
© Caderno de Referência de Conteúdo 15

O novo templo deveria assumir estilo e tamanho que ultra-


passe as ruínas da antiguidade. Apesar de que o Papa Julius II não
presenciará a obra grandiosa em sua forma acabada (ela seria ter-
minada um século depois), não resta dúvida da personalidade ex-
traordinária deste sacerdote que marca profundamente a época.
Um dos responsáveis para realização deste projeto sobre-
-humano foi Michelangelo - o homem que assimila, em uma nova
versão, a arte antiga, atribuindo a ela mais força, vitalidade e pro-
fundidade. Este gênio que se serve, para suas obras, do modelo
grego-romano anuncia uma fase inédita e desconhecida até então
no mundo antigo.
Com seu Davi (Figura 1), Michelangelo desenha a presença
do homem-titã. À primeira vista, a obra se parece muito com o mo-
delo antigo, mas, justamente na parte superior (cabeça de Davi),
notamos um traço que revela a força espiritual que o mundo anti-
go jamais conhecera - o heroísmo humano - inimigo de todo eude-
monismo antigo e medieval; a força de continuar apesar de tudo;
a decisão demoníaca de enfrentar sem trégua as forças cegas do
destino. Pela primeira vez, nas obras de Michelangelo, manifesta-
mente, aparece o corpo humano – que era objeto de vergonha e
desprezo na época medieval – como um objeto que possa revelar
energia vital e perfeição absoluta do divino.

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16 © História da Filosofia Moderna I

Figura 1 Davi. Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/discovirtual/


aulas/7327/imagens/daviavidadeumtmido.jpg>. Acesso em: 19 maio 2010.

As obras do gênio florentino, sem dúvida alguma, nos reve-


lam uma filosofia em imagens. Basta apenas contemplar a sua obra
A criação, realizada na Capela Cistina, para nos sentirmos perple-
xos diante do ideal e da clareza que Michelangelo nos oferece.
A obra é composta por séries de imagens que representam
sucessivamente os episódios do primeiro livro da Bíblia - A cria-
ção. Das referidas imagens, percebe-se o que mais interessava Mi-
chelangelo - o espírito. As imagens dos afrescos começam com a
criação e terminam com a embriaguez de Noé. Mas Michelangelo
nos obriga a observá-las ao inverso - e elas, realmente, são dese-
nhadas ao inverso. Ao entrar na Capela – acima está Noé. O que
plenamente predomina nesta imagem é o corpo. No lado oposto,
acima do altar, está o Criador que divide a luz da escuridão. Entre
esses dois episódios está inserida a imagem central - a criação do
homem. Esta é uma daquelas raras obras, que simultaneamente
são demasiado profundas e plenamente compreensíveis. O signi-
© Caderno de Referência de Conteúdo 17

ficado da obra é claro e se impõe à primeira vista. O homem, com


seu corpo belo, está deitado sobre terra em pose semelhante da-
queles deuses antigos do vinho e da fertilidade, do tipo dionisíaco,
que foram ligados a terra e não queriam abandoná-la. O homem
estende a mão para cima como se ela quase tocasse a mão do
Criador. Desse corpo maravilhoso é que Deus vai esculpir a alma
humana. Tudo se passa como se os afrescos da Capela Cistina fos-
sem um poema da força criativa, que Michelangelo queria inspirar.
O homem é semelhante a Deus no seu poder de criar.

Figura 2 A criação. Disponível em: <http://najornada.files.wordpress.com/2009/08/a-


criacao-de-adao-michelangelo.jpg>. Acesso em: 19 maio 2010.

As mudanças religiosas e a instauração da ciência moderna


Não podemos deixar de falar sobre a situação histórica que
tornou possível o fenômeno do Renascimento com suas expres-
sões artísticas e culturais. Neste contexto, é importante que você
conheça um pouco mais sobre as mudanças religiosas e sobre a
instauração da ciência moderna.

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18 © História da Filosofia Moderna I

Podemos dizer que todas essas mudanças de ênfase huma-


nista naturalmente conduziram à reformulação da visão religiosa.
Os principais responsáveis por esta reforma são Erasmo e Lu-
tero. O primeiro introduziu traços humanistas na religião católica;
o segundo deu origem ao protestantismo, rompendo assim a uni-
dade da religião cristã.
Vamos primeiramente conhecer Erasmo.
Erasmo nasceu em Roterdã em 1466, ordenado sacerdote
em 1492, ele aparece como grande crítico da filosofia escolástica
e toda metafísica que distancia, segundo ele, o homem da sua ver-
dadeira vida, ocupando-se com problemas inúteis e insolúveis.
Segundo Erasmo, essas buscas metafísicas e cosmológicas
são veladas para o entendimento humano e só causam confusões.
Em vez disso, a verdadeira reflexão filosófica deve descobrir e co-
nhecer a si mesmo ao modo de Sócrates. Conforme Erasmo, a re-
forma religiosa deve remover todas as complicações causadas pe-
las disputas escolásticas e retornar às origens dos textos sagrados
e, antes de tudo, ao Novo Testamento.
Na sua obra mais célebre – Elogio da Loucura, escrita em
1509 - encontramos, grosso modo, o espírito filosófico de Eras-
mo. Mas por que loucura e qual o significado que Erasmo atribui
a ela?
Dedicada ao seu amigo Thomas Morus, a obra Elogio da Lou-
cura apresenta a loucura como uma deusa que conduz as ações
humanas. O fruto da loucura são os costumes, os atos, as cidades,
ela mantém os governos, a religião e a justiça; ela crítica as ações
humanas denunciando sua mediocridade e hipocrisia.
A loucura, conforme Erasmo, é o elemento indispensável
para a existência do homem, e como a existência tem lados nega-
tivos e lados positivos, a loucura também seria considerada con-
forme esses termos.
© Caderno de Referência de Conteúdo 19

Mas a maior crítica de Erasmo é contra as instituições reli-


giosas. Ele fazia parte da igreja católica, mas condenava a sua hie-
rarquia que suscitava guerras e corrupções em busca do poder e
do dinheiro. Erasmo é considerado o principal pensador do huma-
nismo. Por causa da sua erudição universal, foi chamado, por seus
contemporâneos, de pensador incomparável e mestre do mundo.
Suas ideias exerceram influência tamanha sobre os tempos mo-
dernos.
Agora, vamos conhecer um pouco de Lutero!
Inicialmente, Lutero dedica-se à reinterpretação do princípio
da distinção entre as leis sagradas vindas do judaísmo e os Evange-
lhos. Assim, conforme ele, tal princípio conduz ao ponto essencial
para o estudo das Escrituras. Notou, ainda, que a falta de clareza
na distinção da Lei e dos Evangelhos era a causa da incorreta com-
preensão dos Evangelhos de Jesus pela Igreja de seu tempo crian-
do e fomentando muitos erros teológicos. Historicamente vista,
a reforma promovida por Lutero tem não só uma expressão reli-
giosa, mas também expressão política e social que, certamente,
mudaram a face da vida social.
Igualmente a Terturiano, Lutero nega categoricamente a fun-
ção da filosofia, reduzindo-a em mera ocupação intelectual sem
nenhum sentido para a salvação. Pelo contrário, a fé é que vai le-
var o homem para a graça divina. A crítica feroz luterana, antes de
tudo, é dirigida a Aristóteles e sua razão filosófica, que nas univer-
sidades escolásticas desviou muitos cristãos do caminho decente
da fé. Recomendava que as obras de Aristóteles devessem ser abo-
lidas e proibidas. Servindo-se do manifesto renascentista de volta
às origens, Lutero elabora a reformulação religiosa, em termos da
remoção da tradição que impregnava elementos inúteis à sacrali-
dade cristã. O único meio de salvação, afirma Lutero, é a fé.
Podemos dizer que o ensino de Lutero promove ruptura não
só em termos religiosos, mas também em termos culturais. A dou-
trina de Lutero mostra-se como subversão dos ideais humanistas.

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20 © História da Filosofia Moderna I

Essa ruptura foi possível devido ao grande trabalho, empreendido


pelo mentor protestante, de traduzir os textos sagrados em ale-
mão e, com isso, popularizar seus ideais de reforma.
Essa ruptura ocorre num momento histórico de abuso e cor-
rupção no cristianismo católico, servindo, para Lutero, como pano
de fundo sobre o qual ele enuncia sua doutrina.
O golpe contra a igreja católica foi dado por Lutero em mo-
mento oportuno, anunciando as principais teses da sua doutrina
da renovação religiosa. Vejamos quais são!
1) O homem pode ser justificado e salvo somente pela fé.
2) A escritura é a única fonte de fé e da salvação.
3) Não há hierarquia clerical, mas sacerdócio universal e li-
vre exame da Escrituras.
Com base nesses três pontos, podemos compreender toda a
doutrina de Lutero. Em última análise, esses pontos negam a tra-
dição cultural e as conquistas que se iniciaram na época do Renas-
cimento com os mestres florentinos.
Novas concepções políticas
As mudanças históricas e culturais atingem não só as ciên-
cias, as artes e a religião, mas também a política e a vida social.
A compreensão dessas mudanças nos dá condição de entender
a visão política da época. No campo das teorias políticas, maior
destaque merece Maquiavel. Vamos conhecer um pouco das suas
ideias políticas?!
Maquiavel
Segundo Maquiavel, toda cidade está originariamente dividi-
da por dois desejos opostos: o desejo dos poderosos de oprimir e
comandar; e o desejo do povo de não ser oprimido e comandado.
Essa divisão nos mostra que a cidade não é uma comunidade ho-
mogênea que nasce da vontade divina, da razão ou da natureza.
© Caderno de Referência de Conteúdo 21

A finalidade política, segundo Maquiavel, não é a promoção


do bem comum, como pensavam os clássicos, mas a manutenção
do poder. O verdadeiro príncipe, conforme o autor, é aquele que
sabe tomar e conservar o poder.
O príncipe deveria ter virtú (as qualidades que tornam pos-
sível a manutenção do poder), e não virtude (no sentido clássico)
mesmo que para isso deva se utilizar da violência, da mentira, da
astúcia e da força. Enquanto a tradição clássica afirmava que a vir-
tude é indispensável para o exercício da política e ética – Maquia-
vel – inspira a ideia de virtú. Virtude, se pensarmos em Aristóteles,
é meio termo entre dois vícios que se alcança através do hábito.
Esse hábito, para Maquiavel, é inadmissível para o poder político,
pois torna alvo fácil ao príncipe, porque, agindo sempre da mesma
maneira (que é o hábito), será bastante previsível.
A política, segundo Maquiavel, nada tem a ver com as vir-
tudes éticas. O que poderia ser imoral, do ponto de vista ético,
poderia ser virtú, do ponto de vista político.
Antes de concluir nossa síntese, vamos apresentar breve-
mente os responsáveis da instauração das ciências modernas.
Ciência
Depois de um longo sono dogmático religioso, vivido no pe-
ríodo medieval, segundo o qual tudo era revelado por Deus e, por-
tanto, não poderia ser admitido nada de novo que não constasse
nos textos sagrados, em que toda novidade foi vista como pecado
e, como tal, punida nas fogueiras pela Santa Inquisição, conclui-se,
obviamente, esta época não era propícia para se fazer ciência!
A época do Renascimento rompe a teia das verdades revela-
das, o que, por sua vez, abre o caminho das ciências.
Vamos conhecer agora alguns dos responsáveis pela instau-
ração da ciência moderna.
1) A Leonardo cabe o mérito de ser Fundador da ciência
experimental, que, por meio de rigorosas observações e

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22 © História da Filosofia Moderna I

repetições, levava às descobertas científicas. O método


experimental, todavia, deveria ser completado pela teo-
ria, para tornar possível o conhecimento científico.
2) Francis Bacon é o outro pensador que busca postular
um método infalível para o conhecimento científico.
Considerado pai do empirismo inglês, Bacon revê critica-
mente os métodos utilizados pelos clássicos e introduz a
indução científica, que deve, por meio de observação e
experimentação, ascender, gradativamente, aos termos
gerais para encontrar as causas dos fenômenos naturais.
Mas para que isso seja possível, será necessário, confor-
me entende Bacon, uma purificação dos preconceitos
ou, como ele os chama, ídolos, que vocês terão oportu-
nidade de conhecer em detalhes.
3) Nicolau Copérnico. Outro nome célebre da ciência mo-
derna é Copérnico. Ele deu um golpe mortal contra o
Geocentrismo reinante, substituindo-o pelo heliocen-
trismo. Essa revolução copernicana abalou profunda-
mente a visão reinante e contribuiu para a mudança das
ciências. O modelo aristotélico-ptolomaico foi irreversi-
velmente superado abrindo o espaço para novas possi-
bilidades na astronomia e na ciência.
4) O próximo pensador com tamanho mérito na tarefa de
se romper com a visão dogmática foi Giordano Bruno.
Podemos caracterizar a filosofia de Bruno como uma re-
tomada dos princípios do neoplatonismo e do herme-
tismo pré-cristão, notadamente nos trabalhos que co-
nhecemos como O Corpus Hermeticum. Bruno defendia
uma visão naturalista e espiritualista, conforme a qual
todas as coisas, perceptíveis ou não, estão interligadas.
Na sua cosmologia, ele inspira a ideia de pluralidade dos
mundos habitados, sendo a Terra apenas mais um de
vários planetas que giram em volta de outros sistemas.
Por toda essa ousadia no pensar, Bruno – que estava sé-
culos adiante de seu tempo – pagou um alto preço. Mas
sua coragem serviu de exemplo e incentivo ao progresso
científico e filosófico posterior.
5) Outro pensador cuja importância é indiscutível para o
desenvolvimento das ciências modernas foi Galileu Ga-
© Caderno de Referência de Conteúdo 23

lilei. Ele abertamente confronta a ciência aristotélica e,


antes de tudo, as suas ideias sobre física, que até en-
tão dominavam a ciência. Muitas ideias introduzidas por
Aristóteles foram colocadas em discussão e rejeitadas
por Galilei. A partir das suas observações sobre astro-
nomia, Galileu desenvolveu a visão heliocentrista de
Copérnico. Justamente por isso foi acusado de herege e
obrigado a negar tais ideias. No entanto, anos mais tar-
de, o astrônomo insistiu nas ideias. Isso causou a ira da
igreja católica, que o condenou e proibiu suas obras. Eis
algumas das descobertas de Galileu:
a) ele produziu a luneta astronômica, com a qual des-
cobriu as montanhas da lua, os satélites de júpiter,
as manchas solares e fases nos planetas Mercúrio e
Vênus;
b) produziu também a balança hidrostática;
c) o compasso geométrico e militar;
d) foi o primeiro a contestar as ideias de Aristóteles;
e) descobriu que a massa não influi na velocidade da
queda de corpos; estudou as oscilações do pêndulo
e criou o 1º mecanismo pendular.
6) Falta ainda falarmos brevemente e, por último, sobre
Newton. Isaac Newton foi um dos maiores cientistas
dessa época. Físico e matemático, Newton criou, junto
com Leibniz, o cálculo diferencial e integral. No entanto,
o seu maior mérito revela-se na física, na qual desco-
briu e enunciou várias leis como a lei fundamental da
dinâmica e a teoria da gravitação universal. Para ele, a
função da ciência reduzia-se em descobrir leis universais
e enunciá-las de forma precisa e racional. Na sua obra –
Philosophiae Naturalis Principia Mathematica – Newton
anuncia a lei da gravidade. A obra trata essencialmente
de questões da física, astronomia e mecânica (leis dos
movimentos, movimentos de corpos em meios resis-
tentes, vibrações isotérmicas, velocidade do som, den-
sidade do ar, queda dos corpos na atmosfera, pressão
atmosférica, entre outros).

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24 © História da Filosofia Moderna I

Após essa breve abordagem, não resta dúvida da importân-


cia extraordinária dessa época da história da humanidade e, com
certeza, indispensável para a reflexão filosófica, que embasada no
passado deve descobrir o rumo e o sentido para o futuro.
Com isso chegamos ao fim da nossa abordagem geral. Ire-
mos aprofundar esses conhecimentos ao longo do estudo das
unidades. Esperamos que essa breve reflexão tenha suscitado em
você o interesse para aprofundar suas pesquisas ao longo do estu-
do do CRC. Bons estudos!

Glossário de Conceitos
O Glossário permite a você uma consulta rápida e precisa
das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio
dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento
dos temas tratados no CRC História da Filosofia Moderna I. Veja a
seguir a definição dos principais conceitos:
1) Absoluto: aquilo que possui em si mesmo sua própria ra-
zão de ser, não comportando nenhum limite, sendo con-
siderado independente de toda relação com o outro.
2) Abstrato: aquilo que é considerado como separado, in-
dependente de suas determinações concretas ou aci-
dentais.
3) Acidente: aquilo que não pertence à essência ou à natu-
reza de uma coisa; aquilo que pode ou não acontecer.
4) Afasia: condição ou atividade de não reagir diante de
adversidades; não fazer nada.
5) Agnosticismo: doutrina segundo a qual é impossível
todo conhecimento que ultrapassa o campo da explica-
ção da ciência ou que vai além da explicação sensível.
6) Agnóstico: aquele que não acredita no sobrenatural, em
Deus ou em algo divino.
7) Alegoria: representação de uma ideia por meio de ima-
gens.
8) Alma: primeiro princípio imaterial da vida.
© Caderno de Referência de Conteúdo 25

9) Animismo: doutrina segundo a qual a alma constitui o


princípio da vida orgânica e do pensamento; crença se-
gundo a qual a natureza é regida por almas ou espíritos
análogos às vontades dos homens.
10) Antropocentrismo: concepção segundo a qual o homem
é situado e explicado como centro do universo.
11) Aporia: dificuldade ou obstáculo que impede o progres-
so da investigação.
12) Aristocracia: sistema político em que o poder é exerci-
do por uma pequena parte da população aceita como a
melhor.
13) Ascese: método ou exercício moral que supõe o controle
das paixões e o domínio dos instintos a favor da razão.
14) Ataraxia: estado da alma que nada consegue perturbar;
imperturbabilidade da alma.
15) Ateísmo: postura que nega a existência de Deus.
16) Atomismo: teoria física que defende que os corpos são
compostos de elementos extensos, simples e indivisíveis
que, combinados, podem explicar todos os corpos e suas
propriedades.
17) Atributo: termo que é negado ou afirmado de um sujei-
to.
18) Bem: aquilo que possui um valor moral positivo, consti-
tuindo o objeto ou o fim da ação humana.
19) Bom-senso: qualidade do espírito humano que permi-
te distinguir o verdadeiro do falso, o certo do errado, o
bom do ruim.
20) Burguesia: classe social que se desenvolve com o rea-
parecimento e o crescimento do comércio, a partir do
século 14, e que se torna dona do capital e dos meios de
produção.
21) Causa: tudo aquilo que determina a constituição e a na-
tureza de um ser ou de um fenômeno.
22) Causalidade: princípio fundamental da razão aplicada
segundo a qual todo fenômeno possui uma causa.
23) Categorias: são os diversos modos em que o ser (objeto
da mesma natureza) se apresenta.

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26 © História da Filosofia Moderna I

24) Ceticismo: concepção filosófica segundo a qual o conhe-


cimento certo e definitivo sobre algo pode ser buscado,
mas nunca será atingindo.
25) Conceito: ideia abstrata; ato de apreender abstratamen-
te um objeto.
26) Concreto: designação do real, do particular, daquilo que
se percebe pelos sentidos.
27) Conformismo: submissão mais ou menos mecânica às
diretrizes pelas quais um grupo social, numa época ou
num dado lugar, define as atitudes que lhe convém ado-
tar nos domínios do pensamento e da ação.
28) Contingência: caráter de tudo aquilo que é concebido
como podendo ou não ser ou acontecer.
29) Convencionalismo: doutrina segundo a qual as regras
sociais e as regras da linguagem resultam de simples
convenções humanas.
30) Cosmo: palavra grega que significa "universo" e designa
o céu estrelado enquanto nele podemos discernir certa
"ordem", certa "beleza" e certa "harmonia" nas conste-
lações astrais.
31) Cosmogonia: teoria sobre a origem do universo, geral-
mente fundada em lendas ou mitos e ligada à metafísi-
ca.
32) Cosmologia: conjunto de ciências que tratam das leis ou
propriedades da matéria em geral; teoria científica so-
bre a origem e funcionamento do universo.
33) Crise: mudança decisiva no curso de uma evolução, pro-
vocando um conflito e uma ruptura violenta do equilí-
brio.
34) Dedução: raciocínio que permite tirar de uma ou várias
proposições uma conclusão que delas decorre logica-
mente.
35) Deísmo: doutrina que aceita a existência de um Deus
criador, mas rejeita sua ação ou a intervenção na nature-
za ou na história do homem.
36) Demonstração: operação intelectiva que, partindo de
proposições já consideradas conhecidas ou demonstra-
© Caderno de Referência de Conteúdo 27

das, permite estabelecer a verdade de outra proposição


chamada conclusão.
37) Dialética: arte de discutir (Sócrates): método de pen-
samento que permite elevar-se do sensível ao inteligí-
vel conhecimento (Platão): parte da lógica que tem por
objeto os argumentos prováveis (Aristóteles); modo de
conceber a realidade como processo dinâmico e evolu-
tivo (Hegel).
38) Discursivo: modo de conhecimento que atinge seu ob-
jetivo através das etapas de um raciocínio ou de uma
demonstração.
39) Dogma: doutrina ou opinião filosófica transmitida de
modo impositivo e sem uma contestação por uma escola
ou corrente de pensamento.
40) Doutrina: conjunto de princípios, de ideias, que servem
de base a um sistema religioso, político, filosófico ou
científico.
41) Dualismo: doutrina segundo a qual a realidade é com-
posta de duas substâncias independentes e incompatí-
veis: matéria e espírito.
42) Ecletismo: método filosófico que consiste em retirar dos
diferentes sistemas de pensamentos certos elementos
ou teses para fundi-los num novo sistema.
43) Emanação: forma de panteísmo segundo a qual o uni-
verso não foi criado por um ato livre da potência divina,
mas emana ou procede necessariamente como efeito de
uma lei da natureza divina.
44) Empirismo: sistema filosófico que defende que todo co-
nhecimento humano é derivado, direta ou indiretamen-
te, da experiência.
45) Enunciado: proposição que não afirma nem nega, mas
que é apresentada como hipótese ou definição.
46) Escolástica: referente ao método e às doutrinas ensina-
das nas Escolas e Universidades da Europa dos séculos
10 até o século 16.
47) Essência: aquilo que a coisa é ou que faz dela aquilo que
ela é.

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28 © História da Filosofia Moderna I

48) Especulação: ato ou atividade intelectual dirigida pura e


simplesmente para o ato de conhecer.
49) Ética: parte da filosofia que se ocupa com a reflexão a
respeito das noções e princípios que fundamentam a
vida moral.
50) Fideísmo: doutrina que admite verdades de fé indepen-
dentes de toda e qualquer justificativa racional.
51) Filologia: estudo científico da origem das palavras de
uma determinada língua.
52) Finalismo: doutrina que tende a explicar a ordem do
mundo segundo um fim determinado.
53) Generalização: operação que consiste em aplicar a toda
uma classe de seres ou de fatos o que se verificou ou
comprovou de um ou de alguns deles.
54) Geocentrismo: teoria física aceita até o século 16, se-
gundo a qual a Terra era o centro do Universo.
55) Gnose: conhecimento esotérico e perfeito das coisas di-
vinas pelo qual se pretende explicar o sentido profundo
de todas as religiões.
56) Hedonismo: doutrina moral que faz do prazer o supre-
mo bem do homem.
57) Heliocentrismo: teoria física defendida a partir do sécu-
lo 16, segundo a qual a Terra e todos os planetas conhe-
cidos giravam em torno do Sol.
58) Hilemorfismo: doutrina filosófica que afirma serem os
corpos resultados de dois princípios distintos e comple-
mentares: a matéria e a forma.
59) Hipótese: explicação provisória de fenômenos obser-
vados que necessitam de verificação; proposição aceita
provisoriamente até que sua veracidade seja confirma-
da mediante verificação; juízos baseados em probabili-
dade.
60) Histórico: tudo aquilo que se desenvolve no tempo e
que afeta o homem direta ou indiretamente.
61) Humanismo: movimento cultural do Renascimento, ca-
racterizado pelo culto às letras antigas e por um natura-
lismo mais ou menos acentuado.
© Caderno de Referência de Conteúdo 29

62) Imanente: tudo aquilo que é interior ao ser ou ao objeto


dado do pensamento e que se opõe ao transcendente.
63) Inato: tudo aquilo que existe num ser desde seu surgi-
mento e que pertence à sua natureza.
64) Indução: raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual
se passa do particular para o universal, do especial ao
geral, do conhecimento dos fatos ao conhecimento das
leis.
65) Inteligibilidade: qualidade do que é inteligível; o que
pode ser compreendido.
66) Intuição: forma de conhecimento que permite à mente
captar algo de modo direto e imediato.
67) Irracional: tudo aquilo que, no homem, não constitui
produto de uma ação consciente e dirigida pela razão.
68) Laicização: ato de tornar algo ou alguém leigo (laico),
isto é, não mais religioso; diz-se também secularização.
69) Lei: relação estabelecida entre dois acontecimentos.
70) Liberdade: capacidade de poder decidir e agir por si
mesmo, com autodeterminação, independentemente
de toda coerção exterior.
71) Mecanicismo: teoria que pretende explicar todos os
fenômenos naturais a partir de uma relação de causa e
efeito natural.
72) Metafísica: metafísica ou ontologia designa a filosofia
primeira, isto é, a filosofia que procura os princípios e as
causas primeiras e que estuda o ser enquanto ser; parte
da filosofia que tem por objeto o estudo da essência das
coisas.
73) Mentalidade: modo espontâneo de pensar que, numa
época dada, depende das influências de um meio so-
cial.
74) Método: ordem que se deve impor aos diferentes pas-
sos necessários para se chegar a um fim determinado;
caminho ou etapas a serem percorridas para se chegar à
verdade científica.

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30 © História da Filosofia Moderna I

75) Misticismo: crença numa ordem de realidades sobrena-


turais e na possibilidade de uma união íntima e direta
com a divindade.
76) Mito: relato fabuloso contando uma história que serve
ao mesmo tempo de origem e de justificação de um gru-
po social.
77) Mnemônico: que concerne à memória; forma abreviada
ou condicional destinada a ajudar a memória.
78) Monismo: doutrina segundo a qual tudo se deduz de um
único princípio.
79) Moral: conjunto de normas livres e conscientes adota-
das que visam a organizar as relações das pessoas na
sociedade tendo em vista o bem e o mal; conjunto dos
costumes e valores de uma sociedade, com caráter nor-
mativo.
80) Moralidade: propriedade pela qual os atos humanos se
acham em conformidade com a regra ideal da conduta
humana.
81) Moralismo: apego excessivo à letra das regras morais
em detrimento de seu espírito.
82) Necessidade: aquilo que não pode ser diferente do que
é; aquilo que não pode ser concebido de modo diferen-
te.
83) Ontologia: parte da filosofia que estuda o ser enquanto
ser, isto é, independente de suas determinações particu-
lares e naquilo que constitui sua inteligibilidade própria.
84) Ortodoxia: conformidade ou obediência de um ensi-
namento, de uma concepção ou de uma prática a uma
doutrina religiosa oficial, à doutrina de uma escola de
pensamento ou à doutrina de um partido.
85) Orfismo: doutrina atribuída a Orfeu, herói da mitologia
grega, segundo a qual a alma está exilada ao corpo para
se purificar de penas passadas.
86) Organicismo: doutrina segundo a qual as atividades vi-
tais são o resultado da disposição dos órgãos.
© Caderno de Referência de Conteúdo 31

87) Panteísmo: sistema que afirma ser Deus e a natureza


uma mesma realidade; doutrina que diviniza a natureza,
afirmando que Deus está em tudo.
88) Paradoxo: proposição que contraria a opinião comum
ou que se opõe aos conhecimentos de um meio ou de
uma época.
89) Percepção: ato de conhecer.
90) Princípios: aquilo que constitui o fundamento ou a ra-
zão de ser de um fenômeno; proposição que constitui
uma norma moral ou uma regra de conduta; proposição
inicial de uma dedução da qual derivamos outras propo-
sições que delas resultam necessariamente.
91) Raciocínio: operação discursiva do pensamento que
consiste em encadear logicamente juízos e deles tirar
uma conclusão.
92) Racionalismo: doutrina filosófica que professa a capa-
cidade da razão humana conhecer e estabelecer verda-
des.
93) Razão: é a faculdade de conhecer, compreender e apre-
ender as relações intelectuais.
94) Reflexão: ato do conhecimento que se volta sobre
si mesmo, tomando por objeto seu próprio ato.
95) Sincretismo: mistura de doutrinas de diferentes
origens e difíceis de conciliar entre si.
96) Sistema: conjunto de elementos interdependentes
formando um todo organizado.
97) Substância: que é apto para existir em si.
98) Teísmo: doutrina que professa a existência de Deus
pessoal, necessariamente único, e livre criador e condu-
tor de tudo o que existe.
99) Teleologia: estudo da finalidade em seu sentido
mais geral.
100) Teocracia: regime político no qual o poder civil não se
distingue do poder religioso e é exercido por este.
101) Teocentrismo: concepção segundo a qual deve ser pen-
sado e explicado a partir da aceitação da existência e da
ação de Deus no Mundo e na História.

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32 © História da Filosofia Moderna I

102) Teoria: conhecimento puramente especulativo.


103) Transcendência: ato de ultrapassar, de ir além de; algo
que é distinto da consciência.
104) Transcendente: aquilo que, por oposição à imanente,
dever ser pensado como exterior, além, e, no caso reli-
gioso, superior.
105) Tomismo: doutrina fundada nos princípios apresentados
por Santo Tomás de Aquino.
106) Usura: lucro exagerado e fraudulento.
107) Utopia: imaginação de um mundo construído segundo
certos princípios diferentes daqueles que governam o
mundo real; concepção quimérica, irrealizável.
108) Verossímil: que tem aparência de verdade.
109) Virtù: termo criado por Maquiavel, correspondendo à
virtude, que significa a condição natural de um preten-
dente a príncipe que sabe compreender a realidade e
agir na hora certa para atingir seus objetivos.
110) Vitalismo: doutrina que atribui à atividade vital uma
substância completa, de natureza imaterial, e distinta da
alma.

Esquema dos conceitos-chave


Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais
importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um
Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você
mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o
seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o
seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas
próprias percepções.
É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos
Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en-
tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais
complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você
na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de
ensino.
© Caderno de Referência de Conteúdo 33

Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-


se que, por meio da organização das ideias e dos princípios em
esquemas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu co-
nhecimento de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pe-
dagógicos significativos no seu processo de ensino e aprendiza-
gem.
Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es-
colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas
em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda,
na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es-
tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos
conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim,
novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem
pontos de ancoragem. 
Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape-
nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci-
so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure
como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con-
siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais
de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei-
tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez
que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog-
nitivas, outros serão também relembrados.
Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é
você o principal agente da construção do próprio conhecimento,
por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações in-
ternas e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por ob-
jetivo tornar significativa a sua aprendizagem, transformando o
seu conhecimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja,
estabelecendo uma relação entre aquilo que você acabou de co-
nhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo
(adaptado do site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/eduto-
ols/mapasconceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em:
11 mar. 2010).

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34 © História da Filosofia Moderna I

Figura 1 Esquema de Conceitos-chave do Caderno de Referência de Conteúdo História da


Filosofia Moderna I.
© Caderno de Referência de Conteúdo 35

Como você pôde observar, o mapa anterior lhe apresenta


uma visão geral dos conceitos mais importantes deste estudo. Se-
guindo este mapa, você poderá transitar entre um e outro concei-
to do CRC e descobrir o caminho para construir o seu processo en-
sino-aprendizagem. Por exemplo, o conceito Racionalismo implica
em você conhecer as etapas da formação do pensamento moder-
no com a crise da Idade Média e a formação de um novo tipo de
sociedade no Renascimento, sem o domínio conceitual deste pro-
cesso explicitado pelo esquema anterior, pode-se ter uma visão
confusa do tratamento da temática da Filosofia Moderna I propos-
to pelos autores deste CRC.
Observamos que o mapa conceitual é mais um dos recursos
de aprendizagem que vem somar-se àqueles disponíveis no am-
biente virtual com suas ferramentas interativas, bem como às ati-
vidades didático-pedagógicas realizadas presencialmente no polo.
Lembre-se de que você, como aluno na modalidade EaD, pode
valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio conheci-
mento.

Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados. Estas questões
podem ser: de múltipla escolha, abertas com respostas objetivas
ou dissertativas. Responder, discutir e comentar estas questões e
relacioná-las com a prática do ensino de Filosofia, pode ser uma
forma de você medir o seu conhecimento, ter contato com ques-
tões pertinentes ao assunto tratado pode ajudá-lo na preparação
para a prova final, que será dissertativa. Mais ainda: é uma ma-
neira privilegiada de você adquirir uma formação sólida para a sua
prática profissional.
No final de cada unidade você encontrará um gabarito para
conferir suas respostas sobre as questões propostas (de múltipla
escolha e abertas objetivas).

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36 © História da Filosofia Moderna I

Lembramos que as questões dissertativas, de interpretação pes-


soal, não possuem uma resposta objetiva e, portanto, não terão
tratamento no item gabarito. Você pode comentar suas respostas
com o seu tutor.

Bibliografia Básica
É fundamental que você use a bibliografia básica em seus
estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as biblio-
grafias complementares.

Figuras (ilustrações, quadros...)


As ilustrações neste material instrucional fazem parte inte-
grante dos conteúdos; não são meramente ilustrativas. Elas esque-
matizam e resumem conteúdos explicitados no texto. Não deixe
de observar a relação dessas figuras com os conteúdos do CRC,
pois relacionar aquilo que está no campo visual com o conceitual
faz parte de uma boa formação intelectual.

Dicas (motivacionais)
O estudo deste CRC convida você a olhar, de forma
mais apurada, a Educação como processo de emancipação do
ser humano. É importante que você se atente às explicações
teóricas, práticas e científicas que estão presentes nos meios de
comunicação, bem como partilhe suas descobertas com seus
colegas, pois, ao compartilhar com outras pessoas aquilo que você
observa, permite-se descobrir algo que ainda não se conhece,
aprendendo a ver e a notar o que não havia sido percebido
antes. Observar é, portanto, uma capacidade que nos impele à
maturidade.
Você, como aluno do curso de Graduação na modalidade
EaD e futuro profissional da educação, necessita de uma forma-
ção conceitual sólida e consistente. Para isso, você contará com
© Caderno de Referência de Conteúdo 37

a ajuda do tutor a distância, do tutor presencial e, sobretudo, da


interação com seus colegas. Sugerimos, pois, que organize bem o
seu tempo e realize as atividades nas datas estipuladas.
É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em
seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-
rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ-
ções científicas.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discuta
a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoaulas.
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os
conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos
para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas,
pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure-
cimento intelectual.
Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na
modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando
sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a
este CRC, entre em contato com seu tutor. Ele estará pronto para
ajudar você.

3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CLARK, Kenneth. Civilisation. Harmondsworth, GB: Penguin, 1982 (ed. orig. 1969).

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Claretiano - Centro Universitário
EAD
Contexto Histórico
do Surgimento
da Filosofia
Moderna 1

1. OBJETIVOS
• C onhecer o ambiente histórico que deu origem à filosofia
moderna.
• Diferenciar a mentalidade medieval da mentalidade mo-
derna.
• Discutir o humanismo renascentista e as novas represen-
tações que propôs com relação ao homem, aos valores, à
mentalidade e à ciência.
• Analisar as características e os principais autores das cha-
madas filosofias renascentistas, a saber: o neoplatonismo
renascentista, o aristotelismo renascentista e o ceticismo
renascentista.
40 © História da Filosofia Moderna I

2. CONTEÚDOS
• A mbiente histórico para o aparecimento da filosofia mo-
derna.
• Ciência renascentista.
• Filosofia renascentista: o neoplatonismo renascentista; o
aristotelismo renascentista; o ceticismo renascentista.

3. ORIENTAÇÕES GERAIS PARA O ESTUDO


1) Para que este estudo possa ter um maior êxito, reco-
mendamos as leituras dos seguintes livros: AQUINO, Ru-
bim Santos Leão de et al. História das sociedades: das
sociedades modernas às sociedades atuais. 2. ed. rev.
e atualizada. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1983, p.
69-79; BURNS, Edward Mcnall. História da civilização
ocidental: do homem da caverna até a bomba atômica.
2. ed. Porto Alegre: Globo, 1971, p. 353-424 v. 1; BUR-
CHARD, Jacob. A civilização do renascimento italiano.
Lisboa: Presença, 1983; GREEN, V. H. H. Renascimento
e Reforma: a Europa entre 1450-1660. Lisboa: Dom Qui-
xote, 1991; SICHEL, Edith. O renascimento. 2. ed. Rio de
Janeiro: Zahar, 1992.
2) Recomendamos a leitura do livro do Pe. Lima Vaz sobre
a passagem da ciência renascentista para a ciência mo-
derna propriamente dita. Cf. VAZ, Henrique Cláudio de
Lima. Escrito de filosofia IV: introdução à ética filosófica
1. São Paulo: Loyola, 1999. p. 257-265. Sobre a relação
da religião e a ciência no Renascimento, procure ler:
WOORTMANN, Klass. Religião e ciência no Renascimen-
to. Brasília: Editora da UNB, 1997.
3) Sobre o ceticismo de Montaigne, cf. GIOVANNI, R.; AN-
TISERI, D. História da filosofia: do humanismo a Kant. 3.
ed. São Paulo: Paulus, 1990, p. 96 - 97, v. 2.
4) O corpus hermeticum é um conjunto de dezessete tra-
tados atribuídos a Hermes Trimegisto, figura mítica que
os antigos identificavam com o deus egípcio Toth, cria-
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 41

dor da escrita, a quem os gregos relacionaram com o


seu deus Hermes. Pela historiografia moderna, sabe-se
que na antiguidade tardia, sobretudo nos séculos 2º e 3º
d.C., alguns teólogos-filósofos pagãos, em oposição ao
cristianismo crescente, produziram uma série de escritos
que apresentaram sob o nome desse deus, para se opor
às escrituras, apresentados também como "revelações"
divinas. Esses escritos combinavam elementos do plato-
nismo, das doutrinas cristãs e uma gnose mítico-mágica.
Os padres cristãos, ao entrarem em contato com esses
escritos, acreditaram que eles remontavam à época dos
patriarcas, pensando que eles fossem obras de uma es-
pécie de profeta pagão. Nesses escritos está uma apre-
sentação da criação do mundo e do homem por meio da
ação divina. Mas foi com Ficino que a consagração acon-
teceu. Após a tradução, o Corpus hermeticum tornou-se
o texto basilar do pensamento humano-renascentista.
Para saber mais, veja: GIOVANNI, R.; ANTISERI, D. Histó-
ria da filosofia: do humanismo a Kant. 3. ed. São Paulo:
Paulus, 1990, p. 32-39, v. 2.
5) Lembre-se de que, para os comentadores, a Cabala tem
origem medieval e apresenta influências helenísticas,
mas seus formuladores a fizeram remontar às antigas
tradições judaicas. Portanto, a concepção renascentista,
assumida também por Pico Della Mirandola, é um gran-
de equívoco. Cf. GIOVANNI, R.; ANTISERI, D. História da
filosofia: do humanismo a Kant. 3. ed. São Paulo: Paulus,
1990, p. 78, v. 2.
6) Antes de iniciar os estudos desta unidade, pode ser inte-
ressante conhecer um pouco da biografia de Paracelso.
Para saber mais, acesse os sites indicados.

Paracelso
Batizado com o nome alemão Theophrast Bombast Von Hohenheim, filho de
médico e também ele um médico, Paracelso muda seu nome para Philippus
Aureolus Theophrastus Bombastus Paracelsus, por se considerar maior que o
médico romano Celso. Ele se destaca pela ruptura com a tradição médica fun-
damentada nas obras de Galeno e Avicena (disponível em: <www.sin-italy.org>.
Acesso em: 12 dez. 2005).

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42 © História da Filosofia Moderna I

4. INTRODUÇÃO
"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem
nunca os haver tentado abrir" (DESCARTES).

Antes de iniciarmos nosso exame sobre a História da Filoso-


fia Moderna I, com suas preocupações, características, questiona-
mentos etc., é necessário conhecermos o ambiente histórico no
qual ela se originou. Por isso, no início dos nossos estudos, convi-
damos você a conhecer e a analisar alguns fatos que provocaram o
fim da Idade Média e o surgimento da Modernidade.

5. AMBIENTE HISTÓRICO PARA O APARECIMENTO


DA FILOSOFIA MODERNA
Foram, sem dúvida, a queda do Império Romano do Oriente
em 1453 e a descoberta da América em 1492 os dois marcos para
o início da Idade Moderna. Porém, a transição foi lenta e, muitas
vezes, insensível.
Antes, no século 14, na poesia, já brotava o espírito novo
que produziria um novo estilo de vida e uma nova época (o gran-
de poeta italiano Petrarca (1304-1374) retratava bem esse "dolce
stil nuovo"). São essas mudanças que nos interessam a partir de
agora.
Os séculos 15 e 16 são pródigos em fatos que proporciona-
ram uma mudança radical na mentalidade e no comportamento
do homem europeu. Vamos conhecer algumas dessas mudanças,
tendo como ponto de referência as esferas política, cultural, eco-
nômica, social e religiosa.

Lembre-se de que, na estrutura feudal, um grande proprietário de


terra (o suserano) podia dividir sua propriedade com um nobre
(vassalo), desde que esse prometesse fidelidade em várias situ-
ações. Essa relação social é diferente da relação entre o senhor
feudal e o servo; estes eram obrigados a trabalhar e a prestar ao
senhor uma série de obrigações por servidão.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 43

ESFERA ACONTECIMENTOS
Há um declínio lento e gradual do feudalismo, enquanto ocorre a as-
censão do capitalismo mercantil, que ganha força com as grandes nave-
Econômica
gações, fazendo que o comércio e a vida urbana reapareçam por quase
toda a Europa.
A descentralização do poder, fundamentada na relação de suserania e
Política vassalagem, dá lugar à formação das monarquias nacionais, com o po-
der centralizado nas mãos de um soberano que exerce o poder baseado
em sua autoridade.
A nobreza perde espaço para uma burguesia comercial ávida por pro-
vocar mudanças na fechada sociedade estamentária medieval (a socie-
Social
dade medieval era formada por três estamentos ou estados: o clero, os
nobres e o povo, sem nenhuma mobilidade social).
Até o início do século 16 predomina o catolicismo romano, e, com a
modernidade, há uma ruptura provocada pelas Reformas Protestantes
Religiosa
(falamos reformas porque cada estado estava interessado em criar uma
"igreja nacional" para romper com o universalismo católico).
A mentalidade teocêntrica medieval dá lugar à mentalidade moderna
Cultural baseada no humanismo antropocêntrico, o que provocou o aparecimen-
to do Renascimento cultural.

Todas as mudanças ocorridas ao longo dos séculos 15 e 16


formaram um conjunto de valores que se chocou com a mentalida-
de medieval construída ao longo de quase mil anos.
Como você já sabe, essa mentalidade era marcada pela re-
ligiosidade, ou seja, todos os pensamentos e ações dos homens
medievais estavam voltados para a fé, para o misticismo, o que
proporcionou o aparecimento de um modelo de homem obedien-
te à Igreja Católica e à sua hierarquia (vista como a representante
de Deus no mundo). Contudo, o ser humano vivia resignado, obe-
diente e cego aos dogmas religiosos.
O oposto deste homem medieval e de todas as suas carac-
terísticas anteriormente citadas é o homem do modelo burguês,
que é ambicioso, individualista, rebelde, prático e gasta toda a sua
energia não na contemplação, mas na análise e na transformação
do mundo em que vive.

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44 © História da Filosofia Moderna I

Uma nova concepção do homem––––––––––––––––––––––––


O homem burguês – diferente do grego que buscava a harmonia da natureza
e do medieval que se contentava apenas em observar e contemplar as ações
divinas no mundo – quer compreender o mundo para usufruir, para torná-lo me-
lhor para viver.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Temos este esquema:

ANTIGO HARMONIA

HOMEM MEDIEVAL CONTEMPLAÇÃO


NATUREZA

MODERNO COMPREENDER PARA USUFRUIR

Com esse homem surge uma nova mentalidade e um con-


junto de novos valores:
a) o teocentrismo é substituído pelo antropocentrismo,
criando o humanismo moderno;
b) a explicação do mundo pela fé cede lugar a uma explica-
ção racional que se manifestará no racionalismo moder-
no, principalmente nas ciências modernas;
c) o mundo coletivo e fraternal da cristandade medieval é
substituído pelo individualismo e pelas diferenças dos
homens livres, o que marca o aparecimento e o desen-
volvimento do individualismo burguês, com seu espírito
de competição e concorrência;
d) o saber, que durante toda a Idade Média, foi controlado
pela Igreja, começa a ser substituído por um saber leigo,
ávido de novos conhecimentos.
Essa necessidade cultural dá início a um movimento intelec-
tual iniciado na Itália, por volta do final do século 14 e início do
século 15, que chamamos de Renascimento cultural.
A característica fundamental desse movimento é a preocu-
pação em resgatar e retomar a cultura clássica (greco-latina), que
havia sido preterida durante toda a Idade Média.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 45

O próprio conceito de Renascimento aponta para certo pre-


conceito contra a Idade Média, à qual os renascentistas se refe-
riam como "Idade das Trevas" ou "Época da Barbárie". Contudo, se
os medievais não tivessem preservado os escritos antigos, onde os
homens modernos encontrariam sua fonte de inspiração?
Os renascentistas pretendiam retomar e usar a cultura clás-
sica, principalmente seu antropocentrismo e racionalismo natura-
lista, como fonte de inspiração. Tinham como objetivo recolocar o
homem no lugar de onde, segundo eles, ele não deveria ter saído,
a saber, do centro das preocupações.
Aqui poderíamos discutir as causas do aparecimento do Re-
nascimento na Itália e suas características principais, mas o intuito
não é esse. O que queremos mostrar é que esse movimento cul-
tural modificou o modo de pensar e de agir dos homens do século
15 e 16, o que contribuiu para o aparecimento e desenvolvimento
da filosofia e das ciências modernas.
Antes de examinar esses temas, vamos conhecer dois pontos
importantes para a continuação do nosso estudo: o humanismo e
seus objetivos.
Humanista era quem, desde o século 14, dedicava-se à refor-
mulação dos estudos universitários. Essa reformulação pretendia,
sobretudo, dar uma nova direção ao ensino universitário, domina-
do desde meados da Idade Média pelo método escolástico, me-
diante a valorização dos estudos humanísticos, isto é, da filosofia,
da história, da poesia etc.
Essa mudança deveria reconduzir o olhar do homem para
si mesmo, e não mais somente para a natureza exterior; naquele
momento, o objetivo do homem era conhecer-se melhor.
Para a concretização dessa inovação, esses homens passa-
ram a valorizar os estudos do grego e do latim, línguas nas quais
eram escritos os textos de autores da Antiguidade Clássica, além
de outras línguas orientais como o hebraico, o árabe e o sânscrito.

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46 © História da Filosofia Moderna I

Mas essa "reforma universitária" tinha também como obje-


tivo a revitalização do cristianismo, com base em certos ideais da
antiguidade que valorizavam a liberdade individual e a crença no
poder da razão.
Com o desenvolvimento do Renascimento, o termo huma-
nista passou a caracterizar todos (pintores, escultores, escritores,
clérigos etc.) que se demonstravam inconformados com a cultura
herdada da Idade Média, e que, por isso, bradavam por mudan-
ças.
Todas essas mudanças criaram um ambiente propício para
que se formasse uma visão nova de homem, que exigia dele:
a) força individual, para que se tornasse o modelo do mun-
do;
b) força de iniciativa, começando seus projetos por si mes-
mo;
c) força de habilidade, sendo capaz de fazer por si mesmo;
d) força de inteligência, capaz de agir pela sua própria ra-
cionalidade;
e) força de virtude, capaz de saber escolher as ocasiões exa-
tas para transformar o curso dos acontecimentos, rom-
pendo com a visão determinista da Idade Média;
f) força de audácia, capaz de arriscar-se.
O homem virtuoso deve ser inserido em seu tempo e não
buscar um modelo ideal, um homem abstrato, com ações já de-
terminadas pelos sistemas filosóficos anteriores, sobretudo pela
Igreja.
Esse novo homem deve construir a virtude partindo de si
mesmo, de suas realizações pessoais. Por isso, apresenta-se cada
vez mais como um indivíduo que busca a fama, fugindo daquele
anonimato medieval, fundamentado na coletividade, seja de uma
raça, de um feudo ou da Igreja, que o obrigava a ser despojado de
qualquer vaidade pessoal e de estar completamente a serviço de
Deus e da Igreja.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 47

O artista renascentista representa esse homem novo e toda


sua capacidade inventiva:
a) Ele é audacioso, não se conforma com as circunstâncias
e forja o próprio mundo.
b) Ele é ativo, criativo e empreendedor (diferente do ho-
mem contemplativo e especulativo que caracterizou a
escolástica).
c) Ele não fica restrito a um só ofício (pintura, escultura,
arquitetura etc.), porque não se considera um reles faze-
dor de arte, como na visão do artesão medieval.
d) Ele procura dominar todo um conjunto de saberes, tor-
nando-se um "homem universal", aquele que tudo sabe
e faz.

Figura 1 Leonardo Da Vinci.

O grande representante desse homem-artista é Leonardo


Da Vinci (1452-1519).
Leonardo Da Vinci escreveu e desenhou sobre quase tudo.
Em cerca de 6 mil páginas de manuscritos que nos restam, há es-
tudos de praticamente todas as áreas do saber: geometria, anato-
mia, geologia, botânica, astronomia, óptica, mecânica, arquitetu-
ra, projetos bélicos etc.
Há, principalmente, a mais fantástica coleção de invenções
e soluções de engenharia já imaginadas por um único homem:
esboços de helicópteros, submarinos, paraquedas, veículos, em-

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48 © História da Filosofia Moderna I

barcações, máquinas voadoras, turbinas, teares, canhões, pontes,


carros de combate etc.
Da Vinci gastava muitas de suas noites dissecando cadáve-
res, em meio aos odores da morte e da decomposição. O quanto
ele era habilidoso nessas técnicas é o que mostram seus desenhos
anatômicos, considerados superiores aos do célebre Andreas Ve-
salius, o grande anatomista do Renascimento (SUPERINTERESSAN-
TE, 1997).
Diante de todas essas transformações, o mundo não seria
mais o mesmo, da mesma forma que a ciência e a filosofia não
seriam mais as mesmas; elas também sofreriam uma grande trans-
formação.

6. CIÊNCIA RENASCENTISTA
Nos séculos 15 e 16, não se pode falar ainda de uma "ciência
moderna" no sentido que a conhecemos hoje. Antes de ela sur-
gir e se desenvolver há uma passagem gradual de uma explicação
mística e organicista para uma explicação mecanicista da natureza.
O primeiro tipo de produção é o que se chama de ciência renas-
centista.
A mudança na explicação mecânica da natureza ocorreu por
causa da inovação tecnológica que atingiu a Europa do século 14
em diante como, por exemplo, os avanços nos meios de trans-
porte, tanto o terrestre, com a melhoria dos veículos de tração
animal, quanto o marítimo, com a construção das caravelas pelos
portugueses.
Essa melhoria nos transportes possibilitou que os europeus
entrassem em contato com instrumentos que não conheciam. Ins-
trumentos que tanto serviriam para a invenção de outros como
para melhora dos já conhecidos (dentre os quais podemos citar: a
luneta, o astrolábio, o termômetro, o relógio, a imprensa, a tinta,
o papel e a pólvora).
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 49

Com isso temos uma série de melhorias no campo da meta-


lurgia, o que possibilitou a invenção e a construção de uma série
de instrumentos para melhorar a compreensão do mundo no qual
o homem estava inserido e que até pouco tempo era explicado
somente por teses religiosas. A partir desse momento, essas teses
foram revistas e substituídas por outras.
As novas teses deixaram os fundamentos contemplativos e
iluminados do misticismo medieval e passaram a orientar-se pela
experiência que, para o renascentista, nunca o engana. Essa con-
cepção tem a ver com o gênio inventivo do artista-engenheiro
renascentista (engenheiro no sentido de criador), que superou a
atividade meramente prática do artesão medieval. O artista renas-
centista inventava e calculava, portanto, guiava-se pela razão.
Mesmo não podendo classificar e diferenciar a ciência renas-
centista da ciência moderna, os seus construtores apresentaram
um método que se aproxima daquele que será amplamente utili-
zado pelos modernos cientistas: o método da experiência, basea-
do nas observações. Ao olhar a natureza, o renascentista acredi-
tava no seu poder de representar, de copiar o mundo exatamente
como ele é. Desse modo, o renascentista torna-se um observador
meticuloso da natureza. Como exemplo dessa observação, pode-
mos destacar os seguintes casos:
• Leonardo Da Vinci fez descrições minuciosas do corpo hu-
mano;
• o médico Andréa Vesalio introduz novas técnicas para a
dissecação de cadáveres;
• o quadro Adoração do Cordeiro Místico, dos holandeses
Hubert e Janvan Eykc, traz mais de 50 espécies de vege-
tais diferentes, realmente observados na natureza.
Esse gosto pela observação corresponde a uma busca de
segredos ocultos presentes nas próprias coisas, que as fazem se
aproximarem ou se afastarem. Assim, a ciência renascentista cor-

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50 © História da Filosofia Moderna I

responde à busca de segredos que agem sobre as coisas, aproxi-


mando-as ou separando-as; acreditava-se nas forças da simpatia
e da antipatia. Uma clara referência ao pré-socrático Empédocles,
para quem a origem de todas as coisas depende da ação de duas
forças antagônicas: o amor e o ódio. Também Platão, em O Ban-
quete, discute a existência de forças que agem para aproximar as
realidades opostas para criar a harmonia e a ordem. É assim tanto
na natureza como na sociedade.
Aqui se vê que o renascentista acreditava que as coisas se
relacionavam entre si e com o todo, formando a natureza. Por isso,
era necessário encontrar algo de semelhante e que provocava a
aproximação entre as coisas na natureza, de modo que tudo agia
sobre tudo.
Por causa dessas ações, acreditava-se que plantas, minerais
e astros podiam agir sobre os corpos. Nesse sentido, a medicina
seria uma ciência que deveria buscar as plantas ou os minerais
adequados para agir sobre as partes doentes do corpo a fim de
conservar a saúde ou curar uma doença, como pensava Paracelso
(1493-1541), médico que realizou uma série de experiências com
plantas e minerais.
Havia também aqueles que acreditavam que os astros po-
diam interferir sobre as ações e o futuro dos homens. Não é por
acaso que a astrologia e a magia coexistiam lado a lado com outras
ciências sem nenhum problema. Perceba como a ciência foi se es-
truturando e agrupando novos saberes na modernidade.
Finalizando, podemos dizer que, na ciência renascentista,
tudo se assemelha a tudo. Desse modo, ela investiga não as causas
que fazem com que certas coisas ajam sobre outras, mas busca o
significado comum que está oculto no interior de cada coisa.
O mundo não seria então composto por um movimento me-
cânico, mas por uma relação secreta entre tudo. Por isso, fazer ci-
ência seria buscar esse significado oculto, uma espécie de signifi-
cado a ser descoberto nas próprias coisas. Esse significado contém
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 51

uma mensagem velada que, se interpretada, apresentaria a verda-


de da natureza e do próprio destino dos homens.
Esse ambiente criou as condições para o desenvolvimen-
to crítico racionalista, que se tornou disposto a experimentar e a
examinar livremente os fenômenos. A partir desse momento, o
cientista tornou-se o oposto do homem religioso, que, obediente,
acreditava e agia em nome da fé.
Para esse novo investigador, antes de estabelecer crenças e
fazer inferências sobre o mundo, era necessário investigar, medir,
pesar, observar cuidadosamente. Foi esse espírito que, aos pou-
cos, contaminou homens geniais como:
1) Nicolau Copérnico (1473-1543).
2) Bernardino Telésio (1509-1588).
3) Giordano Bruno (1548-1600).
4) Paracelso (1453-1541).
5) Miguel de Servet (1511-1553).
6) Versálio (1514-1564).
7) William Hervey (1578-1657).
8) Galileu Galilei (1564-1642).
Eles provocaram a grande revolução científica na moderni-
dade.
Todas essas transformações culturais irão influenciar a nova
concepção filosófica do Renascimento. No tópico a seguir, você irá
tomar contato com a nova orientação filosófica que se instaura na
Europa a partir de então. Acompanhe!

7. FILOSOFIA RENASCENTISTA
Nesse período que estamos estudando, não houve uma pro-
dução filosófica do porte de Platão, Aristóteles ou de Santo Tomás
de Aquino. A grande inovação só aparecerá com o racionalismo
cartesiano. Nesses dois séculos em questão, 15 e 16, do ponto de
vista filosófico, acontece a retomada das principais correntes filo-

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52 © História da Filosofia Moderna I

sóficas antigas, tendo destaque o platonismo, o aristotelismo e o


ceticismo antigos; também o estoicismo e o epicurismo foram dis-
seminados, embora em menor escala. É esse ambiente filosófico
que chamamos de Filosofia Renascentista.

Neoplatonismo Renascentista

Para uma melhor compreensão do neoplatonismo renascentista,


recomendamos o contato com os neoplatônicos dos séculos 2º
a.C. ao 4º d.C. Segundo Giovanni Reale e Dario Antisseri, após a
morte de Platão, a Academia por ele fundada sofreu uma série de
mudanças. Na época helenística, deslizou para o ceticismo e de-
pois para instâncias ecléticas, absorvendo, sobretudo, elementos
estoicos. No período imperial, houve um esforço para uma siste-
matização metafísica de conjunto, iniciada com os medioplatôni-
cos e culminou com Plotino e os neoplatônicos tardios. Para sa-
ber mais, recomendamos a leitura de REALE, G.; ANTISSERI, D.
História da filosofia: Antigüidade e Idade Média. 4. ed. São Paulo:
Paulus, 1990, p. 272-282; p. 329-330; p. 338-355. v.1.

Figura 2 Francesco Petrarca.

Petrarca (1304-1374), um dos "pais" do Renascimento italia-


no, retratou o objetivo principal do neoplatonismo renascentista.
Ele diz:
Em termos divinos, Platão elevou-se mais alto [...], se bem que nem
Aristóteles nem ele mesmo conseguiram o que se propunham. Não
obstante, Platão, eu insisto nisto, aproximou-se mais da verdade, e
isto é um fato incontestável para qualquer leitor assíduo de livros
cristãos (apud VÁRIOS AUTORES, 1987. v. 2. p. 197).
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 53

Essas palavras deixam clara a direção da filosofia renascen-


tista do século 15: reabilitar Platão em oposição ao predomínio
do pensamento aristotélico que dominou toda a escolástica, re-
tomando a leitura das obras no original e a sua tradução para o
latim.
Mas a leitura dos textos platônicos continuou seguindo a luz
da tradição posterior, ou seja, aquela leitura que os neoplatônicos
do século 2º ao 4º d.C. tornaram canônica.
Além de Platão, outras correntes pagãs são retomadas sem
nenhum perigo para o cristianismo, como o corpus hermeticum
e o oráculo caldeus, correntes de pensamento mágico-teológico
que também utilizaram conceitos do platonismo original, mas com
uma finalidade religiosa. Por isso, o Platão a ser retomado tem um
ponto em especial: a religiosidade. Essa reabilitação tem a ver com
o próprio interesse renascentista de construir um humanismo cris-
tão que se mantivesse distante das disputas escolares tão caras
aos doutores escolásticos.
Esse movimento filosófico renascentista aparece e desenvol-
ve-se a partir da criação da Academia Platônica de Florença, em
1462, com o intuito de realizar a síntese entre a filosofia grega e o
cristianismo. Por isso, o neoplatonismo renascentista é carregado
de elementos pagãos. Três pensadores destacam-se nesse perí-
odo: Nicolau de Cusa (1400-1464), Marsílio Ficino (1433-1499) e
Giovanni Pico Della Mirandola (1467-1494).
Antes de prosseguirmos com nossos estudos, vamos relem-
brar um pouco da história da Academia fundada por Platão.

Uma breve história sobre a Academia––––––––––––––––––––


A Academia Platônica, criada pelo filósofo ateniense em 387 a.C., foi definitiva-
mente fechada em 529 d.C. pelo édito do imperador Justiniano, que, por influên-
cia do cristianismo e em oposição ao ceticismo que tomara conta da Academia,
proibia qualquer ofício público aos pagãos. Em 1462, na cidade italiana de Flo-
rença, alguns humanistas abriram a Academia Platônica de Florença, fato que dá
início ao que chamamos de neoplatonismo renascentista.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

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54 © História da Filosofia Moderna I

Você conhecerá, a seguir, as principais teses de Nicolau de


Cusa. Acompanhe!

Nicolau de Cusa (1400-1464).

Figura 3 Nicolau de Cusa.

Cardeal da Igreja Católica, ele foi o primeiro grande repre-


sentante do neoplatonismo renascentista. Seu intento, como per-
tencente a esse período humanista, era rejuvenescer o cristianis-
mo, libertando-o da aridez da lógica aristotélica.
Seu ponto de partida é a crítica à filosofia do Estagirita, so-
bretudo ao princípio da não contradição. Para Nicolau, o princípio
da não contradição consegue responder à necessidade do mundo
da natureza, o mundo finito, mas não consegue explicar o mundo
infinito, o mundo das coisas divinas. Para o pensador renascentis-
ta, há um abismo entre o finito e o infinito que a razão lógica não
consegue superar.
A saída para essa dificuldade, também, como propõe o hu-
manismo renascentista, é o retorno do homem para seu interior,
de forma a reconhecer a limitação da sua capacidade de conhecer
e de ter consciência da sua ignorância.
Aqui está presente um dos temas caros a Nicolau: a douta
ignorância. Com essa atitude, Nicolau defende a aspiração de in-
tuir diretamente a verdade, sem as inúteis distinções feitas pela
escolástica.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 55

Podemos reconhecer nessa proposta o retorno do homem


para seu interior, o método socrático presente nos diálogos de Pla-
tão: "conhece-te a ti mesmo". É o reconhecimento de que "só sei
que nada sei", ambiente adequado para iniciar a busca da verda-
de. Só que, para o pensador renascentista, a verdade é Deus.
O único que tudo sabe é Deus, que é inacessível à razão, mas
está presente em tudo. Os homens devem contentar-se com sua
"douta ignorância", que nada mais é que uma combinação entre
humildade, ceticismo e atenção à variedade humana. A mente hu-
mana deve reconhecer-se limitada e finita diante de Deus; no en-
tanto, ela o anseia e busca-o constantemente.
Outros temas do neoplatonismo são ressuscitados por Ni-
colau. Deus, como o Uno de Plotino, envolve a totalidade do Uni-
verso em seus múltiplos aspectos, até mesmo os contraditórios.
Para o pensador renascentista, Deus é o Ser Supremo em que se
conciliam todas as oposições, isto é, no infinito (Deus) todas as
diferenças desaparecem e os opostos se conciliam (coincidentias
oppositorum).
Do ponto de vista cosmológico, a visão de Nicolau afirma que
Deus é transcendente ao mundo, o cria e imprime nele a sua mar-
ca, isto é, Deus inclui todas as coisas e também as explica: Deus é
em todas as coisas o que elas são. Desse modo, Deus está contra-
ído (manifestado) no Universo onde cada ser resume o Universo
inteiro.
Para o pensador, essa visão não significa um panteísmo. Mas
a falta de uma explicação mais clara deixa pairar dúvidas a esse
respeito, tanto que muitos pensadores seguintes, como Giordano
Bruno (renascentista), Spinoza e Schelling (modernos), buscaram
em Nicolau de Cusa as bases para defender um monismo, seja es-
piritual ou material.

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56 © História da Filosofia Moderna I

Marsílio Ficino (1433-1499)

Marsílio Ficino retoma e interpreta a dialética erótica de Platão pre-


sente no Banquete. Nesse diálogo, Eros ou o amor é apresentado
como um daimon, um gênio que impulsiona o homem na busca
da verdadeira beleza que é a sabedoria. Nesse sentido, conferir
nosso trabalho de dissertação. BOTELHO, O. S. Eros: a outra face
da dialética platônica. Dissertação de Mestrado em Filosofia. São
Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005.

Figura 4 Marsílio Ficino.

Ficino foi o grande organizador da Academia Platônica de


Florença. Ele desenvolveu uma intensa atividade cultural como
tradutor, filósofo e mago. Foi um dos responsáveis pela tradução
das obras completas de Platão e do Corpus hermeticum, e escre-
veu uma obra que comenta o Banquete de Platão, intitulada Do
amor.
Esse neoplatônico convicto, além da influência pagã, teve
grande influência de Santo Agostinho e de São Boaventura nas
suas interpretações da obra platônica. Por isso, dois tópicos ga-
nham destaques nas suas reflexões: Deus e o homem.
Deus é o ser transcendente que cria sem necessidade algu-
ma, cria por bondade, porque quer. Mas esse Deus, afirma Ficino,
tem "familiaridade" com o homem. Essa posição ele assume justa-
mente para demonstrar a dignidade do homem. Nesse momento
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 57

ele retoma toda a tradição grega de valorização do homem, em


especial a obra de Platão, que representa a capacidade humana de
elevar-se ao mundo inteligível, para se unir a Deus. Essa ascensão
deve ser realizada pela alma. A alma retorna à fonte do verdadeiro
amor que é Deus.
Nesse ponto está presente outra questão muito debatida
nessa época que é a imortalidade da alma e a sua demonstrabili-
dade filosófica. Ficino, numa postura claramente agostiniana, diz
que cada homem possui sua própria alma imortal, criada por Deus.
Essa alma deve buscar a Deus, fonte de saber e de perfeição, fora
dela, galgando degraus ascendentes de perfeição, até alcançar a
máxima perfeição divina.
Não há dúvida de que essa posição renascentista procurava
"cristianizar" Platão, fazendo uma síntese do platonismo e da fé
cristã, colocando toda a tradição pagã a serviço da fé. Nesse sen-
tido, é bom frisar que Ficino acreditava numa filosofia "revelada",
isto é, Cristo seria o complemento da revelação iniciada com Her-
mes Trimegisto, Orfeu, Zoroastro, Pitágoras e Platão. Todos esses
pensadores, sábios ou mágicos, foram iluminados pelo logos, en-
quanto os cristãos são iluminados pela fé.
Dois outros assuntos eram caros a Ficino. Primeiro, ele acre-
ditava haver uma magia natural, isto é, ele acreditava que "o es-
pírito do céu" podia influenciar as coisas materiais, de modo que
cristianismo, medicina e astrologia podiam se conjugar entre si.
Em segundo lugar, Ficino tinha uma preocupação com a educação.
Para ele, a educação consistia na formação da moral, da virtú (no
sentido grego da palavra areté) em um tríplice sentido de virtude
moral, força e classe ou categoria humana: saber fazer, saber dizer
e saber apresentar-se.
O homem consegue essa formação com o seu próprio es-
forço e com a ajuda divina (novamente referência a Platão, para
quem a verdadeira educação só é possível pelo esforço do próprio
discípulo, ajudado por um mestre iniciado na filosofia).

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58 © História da Filosofia Moderna I

Giovanni Pico Della Mirandola (1463-1494)

Figura 5 Giovanni Pico Della Mirandola.

Esse nobre italiano renascentista, que pertenceu à Academia


de Florença, não pôde, por causa de sua curta vida, apresentar por
completa a sua visão de mundo e de ser humano, uma das mais
belas do período renascentista.
Pico Della Mirandola segue o mesmo itinerário de Ficino: tem
como tema central a dignidade do homem. Em sua obra Discurso
sobre a dignidade do homem, o filósofo renascentista considera o
homem um ser criado por Deus, com liberdade, e posto no mundo
para dominá-lo, da forma que achar melhor. Mas, mesmo tendo
influência de Ficino nas suas temáticas, Pico Dela Mirandola traz
algumas diferenças e divergências com relação ao célebre organi-
zador da Academia.
Pico traz algumas novidades que não estavam presentes no
pensamento de Ficino. Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 77), po-
dem ser destacadas as seguintes inovações:
a) agrega a Cabala (ou Caabala) à magia e ao hermetismo
de Ficino;
b) envolve Aristóteles na construção de sua reflexão;
c) coloca-se contra algumas inovações que alguns huma-
nistas queriam inserir na Escolástica, defendendo, por-
tanto, certas conquistas desse movimento;
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 59

d) demonstrou interesse em renovar a religião não só no


plano teórico, mas também os costumes e atos religio-
sos.
O homem, ao dominar o mundo, iria se conhecendo e se
formando. Por isso, Pico quis criar uma religião leiga misturando
elementos cristãos, judaicos e helênicos. Vejamos qual a relação
de Pico com a Cabala!
Pico e a Cabala
Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 77-78), a Cabala é uma
doutrina mística ligada à teologia judaica, decorrente de uma re-
velação especial feita por Deus aos judeus, para que esse povo pu-
desse conhecê-Lo melhor e que pudessem compreender melhor
a Bíblia.
Segundo os mesmos comentadores, esse movimento míti-
co teológico conjuga dois aspectos: um teórico-doutinário, que
possibilita uma particular interpretação "alegórica" das Sagradas
Escrituras, e um aspecto prático-mágico, que acreditava no poder
sagrado da língua hebraica e no poder dos anjos oportunamente
evocados, bem como nos dez nomes que indicam os poderes e
atributos de Deus, chamados de sefirot.
Assim, Pico considerava a Cabala uma expressão verdadeira
da antiga tradição, até Moisés, que a teria transmitido oralmente,
sob a forma de iniciação esotérica. Por esse motivo, Pico dedicou-
-se intensamente ao estudo da língua hebraica, sem a qual a práti-
ca da Cabala seria ineficaz.
O resultado desse estudo concretiza-se nas famosas Nove-
centas Teses, inspiradas na filosofia, na Cabala e na teologia, e que
procuram unificar aristotélicos e platônicos, filosofia e religião,
magia e Cabala.
Muitas dessas teses foram julgadas heréticas e condenadas.
Em razão disso, Pico sofreu uma série de perseguições, inclusive
sendo preso e obrigado a fugir para a França. Só foi libertado por
influência de Lourenço de Médici, o Magnífico, que intercedeu por
ele junto ao papa Alexandre VI em 1493.

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60 © História da Filosofia Moderna I

Outro tema muito caro a Pico é a doutrina da dignidade do


homem. Para muitos comentadores, a obra O discurso sobre a
dignidade do homem, obra que contém a premissa geral de toda
reflexão de Pico e, portanto, é considerada o manifesto do huma-
nismo renascentista.
Como vimos anteriormente, Pico sofreu influência de Ficino.
Para Ficino, por influência do contato com a sabedoria oriental,
principalmente a de Hermes Trimegisto, o homem é um grande
milagre de Deus e da natureza. Pico assume também essa tese.
Para ele todas as criaturas da natureza são dotadas de uma essên-
cia que as determina ser aquilo que são, e não outra coisa.
O milagre do homem está justamente em não ter uma natu-
reza predeterminada, mas constituída de tal modo que ele mesmo
possa se plasmar e se esculpir segundo a sua escolha.
A grandeza e o milagre do homem estão no fato de ele ser ar-
tífice de si mesmo, autoconstrutor, nos diz Reale e Antiseri (1990,
p. 82). Para Pico, enquanto Deus criou a natureza dotada de leis
prescritas, Ele criou o homem sem um lugar determinado, sem
nenhum aspecto próprio, sem nenhuma prerrogativa pré-fixada,
para que, assim, ele pudesse criá-las segundo a sua vontade e mo-
tivos. O homem foi posto no mundo por Deus para compreendê-lo
e dominá-lo da forma que lhe for mais conveniente; por seu livre
- arbítrio, ele pode degenerar para coisas inferiores ou ascender
para coisas superiores. Tudo depende de suas escolhas e ações.

8. ARISTOTELISMO RENASCENTISTA
Não foi só o neoplatonismo que se renovou nos séculos 15
e 16. Também o Aristotelismo é retomado, mas com característi-
cas e interpretações próprias. Se o neoplatonismo renascentista
desenvolveu-se ligado à Academia Platônica de Florença, centro
cultural dedicado à educação e à discussão da obra de Platão, o
aristotelismo desenvolveu-se ligado à Universidade de Pádua.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 61

Porém, este aristotelismo é diferente daquele levado pela


escolástica, que tinha como objetivo a investigação da natureza
para justificar a fé e a existência de Deus. Antes de apresentarmos
as características do aristotelismo renascentista, vejamos quais fo-
ram as interpretações que o aristotelismo recebeu.
Segundo a leitura de Giovanni e Antiseri (1990, p. 84), foram
três as interpretações básicas do aristotelismo.
1) A primeira é a alexandrina, que remonta a Alexandre de
Afrodisia, e sustentava que o homem possui o intelecto
potencial, mas que o intelecto agente é a própria Causa
suprema (Deus) que torna possível o conhecimento ao
iluminar o intelecto potencial. Essa concepção leva-o a
não aceitar a imortalidade da alma, uma vez que ela de-
veria coincidir com o intelecto agente.
2) Uma segunda interpretação vem da análise de Averróis,
que, no século 11, submeteu as obras aristotélicas a um
rigoroso comentário. Essa corrente aristotélica defende
a tese segundo a qual haveria um intelecto único e sepa-
rado para todos os homens. Essa visão impossibilita se
falar de imortalidade da alma, uma vez que só era imor-
tal o Intelecto único. Também se fazia uma diferenciação
das verdades acessíveis pela razão daquelas que eram
acessíveis somente pela fé.
3) Por fim, havia a interpretação tomista que tentou a con-
ciliação entre aristotelismo e doutrina cristã, a partir
do século 13. Essa interpretação dominou a Europa por
toda a escolástica.
O que o aristotelismo renascentista propõe é reavaliar essas
concepções, depurá-las de modo que o desenvolvimento da in-
vestigação científica ficasse garantido. Assim, os vários temas aris-
totélicos foram retomados e reavaliados, principalmente aqueles
que eram mais discutidos naquele período, como os problemas
lógicos, epistemológicos, físicos e a concepção de alma.

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62 © História da Filosofia Moderna I

Pedro Pomponazzi (1462-1525)


O pensador que é considerado o mais interessante dos aris-
totélicos renascentistas chama-se Pedro Pomponazzi. Esse pensa-
dor renascentista foi averroísta, mas pouco a pouco deixa o aver-
roísmo e, depois de longa reflexão acerca das soluções opostas de
Averróis e Santo Tomás, assume as posições próximas as de Ale-
xandre, embora formuladas de modo diferente. Sua obra mais po-
lêmica é Sobre a imortalidade da alma.
Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 88), nessa obra, a alma é
apresentada como o princípio do entender e do querer imanente
do homem. Diferentemente da alma sensitiva do homem, a alma
intelectiva é capaz de conhecer o universal e o suprassensível. Po-
rém, ela não é uma inteligência separada do corpo, tanto que ela
só pode conhecer por imagens que se originam dos sentidos. Para
Pomponazzi, em oposição à tradição tomista, a alma não pode
existir sem o corpo, pois, sem ele, não poderia realizar a sua fun-
ção própria. Assim, ela deve ser considerada uma forma que nasce
e perece com o corpo, não tendo nenhuma possibilidade de agir
sem o corpo.
Essa concepção provoca uma torrente de críticas, já que o
dogma da imortalidade da alma era absolutamente fundamental
para os neoplatônicos e, em geral, aceito por todos os cristãos.
Mas, ainda segundo Reale e Antiseri, Pomponazzi não era
absolutamente contra a imortalidade da alma, mas declarava que
esse dogma cristão não era demonstrável com segurança pela ra-
zão. Para esse pensador, a imortalidade é um artigo da fé, como a
revelação e as escrituras canônicas, e como tal, deve ser discutida
somente nos parâmetros da fé, sendo outros instrumentos inapro-
priados para discussão.
Outro ponto que pode ser destacado na filosofia de Pompo-
nazzi diz respeito à virtude ou à vida moral. Ele sustenta que a vida
moral se salva mais com a tese da mortalidade do que com a tese
da imortalidade da alma, porque aquele que é bom tendo em vista
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 63

os prêmios do além está de alguma forma corrompendo a pureza


da virtude, submetendo-a a algo fora dela. Para ele, retomando o
que já estava presente em Sócrates e nos filósofos estoicos, a feli-
cidade está nas ações virtuosas ("conhece-te a ti mesmo", "contro-
le suas vontades"), enquanto a infelicidade está nos vícios. Nesse
sentido, muito próximo do que defendia Pico, Pomponazzi tam-
bém parece afirmar que o homem pode se "elevar" ou "decair"
segundo as suas ações.
Também é interessante a discussão levada adiante por
Pomponazzi, em sua obra O livro dos encantamentos, em que ele
afirma que todos os acontecimentos, sem exceção, podem ser ex-
plicados por razões naturais, inclusive aquilo que acontece com
os homens. Assim, não há nada de sobrenatural; os milagres são
fenômenos naturais que somente os ignorantes os veem como in-
tervenções divinas.
Mas a grande contribuição de Pomponazzi está no fato de
começar a preferir a experiência à autoridade dos escritos de Aris-
tóteles (também da Bíblia) quando estes se colocavam contrários
àquela. Para ele, é a experiência, e não os discursos ou os escritos,
que tem razão. Assim, ele proclama a autonomia da razão na in-
vestigação e na busca das verdades; a filosofia e a ciência começa-
vam a se libertarem para conhecer o mundo.

O que você pensa sobre a ideia de Pomponazzi de que a vida mo-


ral se salva mais com a tese da mortalidade do que com a tese da
imortalidade da alma? Isso ocorre porque aquele que é bom tendo
em vista os prêmios do além está de alguma forma corrompendo a
pureza da virtude, submetendo-a a algo fora dela. Você concorda
com tal ideia?

9. CETICISMO RENASCENTISTA
Como vimos anteriormente, em termos filosóficos, no sécu-
lo 15 e 16 predominou a retomada de Platão, pelos neoplatônicos
de Florença, e de Aristóteles, na Universidade de Pádua.

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64 © História da Filosofia Moderna I

Mas, nesse mesmo período, há um crescimento daquelas fi-


losofias ditas imperiais ou helenísticas: o estoicismo, o epicurismo
e, sobretudo, o ceticismo na formulação de Sexto Empírico (que
viveu na segunda metade do século 2º d.C.) nas obras Esboços Pir-
rônicos, Contra os matemáticos e Contra os dogmáticos. O francês
Michel de Montaigne foi o grande representante desse movimen-
to filosófico renascentista.

Michel de Montaigne

Figura 6 Michel de Montaigne.

Montaigne –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Autor de um só livro: Ensaios. Mas nesse livro único, escrito sem estrutura pre-
estabelecida, sem método, ao acaso dos acontecimentos e das leituras, procu-
ra entregar-se por inteiro aos seus leitores. Publica quatro edições sucessivas
dos Ensaios. Ia dizer quatro moagens: a primeira, com 47 anos, em 1580. Volta
ao texto, corrige-o, remata-o e, ao morrer (em 1592), deixa um exemplar da obra
sobrecarregado de variantes e de acréscimos, que as edições posteriores têm
que tomar em consideração. Entrementes Montaigne viaja pela Alemanha do Sul
e pela Itália (1580-81) e desempenha de 1581 a 1585 as importantes funções
de Maire de Bordéus. Essa experiência da vida pública, nesses tempos assaz
perturbados pelas guerras religiosas, essas observações colhidas nos países
estrangeiros, Montaigne as comunicará a seus leitores para que delas se be-
neficiem (Disponível em: <http://www.consciencia.org/montaigne-gide.shtml>.
Acesso em: 18 maio 2010).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Mas antes desse eminente pensador francês, outros autores
publicaram obras de cunho cético, são eles:
• João Franscisco Pico Della Mirandola (1469-1533): publi-
cou Exame das fatuidades das teorias dos pagãos e da
verdade da doutrina cristã (1520).
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 65

• Heinrich Corneluis (1486-1535): publicou Incerteza e fa-


tuidade das ciências e das artes (1530). É nesse ambiente
que aparece o ceticismo de Montaigne.
As reflexões filosóficas de Montaigne encontram-se nos En-
saios, obra escrita entre 1580 e 1588. Não há nessa obra uma crí-
tica veemente à religião; aliás, o pensador francês parece conviver
com uma fé sincera. O seu ceticismo consiste numa desconfiança
da razão. Para ele a fé está em um plano diferente da razão, sen-
do inatacável pela scepse (dúvida). Assim, o interesse da reflexão
de Montaigne é analisar o próprio homem, traçar um retrato do
próprio homem. Para tanto, ele retoma a proposta socrática do
"conhece-te a ti mesmo". Esse é o verdadeiro problema filosófico.
Ele acreditava que o conhecimento de si mesmo poderia conduzir
à felicidade. Esse espírito retoma a tradição antiga, ao dizer que a
autêntica filosofia (sagesse) deve ensinar como se deve viver para
ser feliz. Aqui se trata de uma retomada da ataraxia (a tranquilida-
de da alma) dos pensadores helenísticos.
O caminho para essa felicidade, na visão do pensador fran-
cês, inspira-se na renúncia, que também havia sido proposta por
Sexto Empírico: a renúncia à pretensão de se obter um conheci-
mento absoluto. Assim, a suspensão de juízo seria a grande sages-
se, o caminho para a tranquilidade.
Por isso ele se propôs a estudar o homem a partir dele mes-
mo: "[...] estudo a mim mesmo, mais do que a qualquer coisa, e
este estudo constitui toda a minha física e toda a minha metafísi-
ca", dizia ele nos Ensaios (MONTAIGNE, 1987, p. 7). Nesse estudo,
ele o faz não só na tradição cética radical e ingênua, mas acrescido
de sugestões estoicas e epicuristas.
É dentro desse quadro filosófico que encontramos o retrato
do homem, traçado por Montaigne: o homem é um ser "estranho"
e "absurdo", um "mostro" e um "milagre", porque nunca cessa de
mudar. Daí a impossibilidade de uma essência humana. O homem
só é verdadeiro nas suas transformações. Todas as teorias, as con-

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66 © História da Filosofia Moderna I

venções sociais e políticas que quiseram criar uma imagem única


do homem se equivocaram.
O homem se forma em contato com a sociedade em que
vive; por isso ele é mísero, limitado e medíocre. Por isso, não há
como conhecer a essência do homem (um homem universal, um
modelo para os homens); só é possível conhecer as particularida-
des dos homens e as suas singularidades: vivendo no mundo, ob-
servando outros que vivem no mundo e procurarando conhecer a
si mesmo; esse homem é um eu que tem sentimentos, um ser de
carne e osso.
Por causa dessa situação, não se pode estabelecer os mes-
mos preceitos para todos os homens, pois cada um deve construir
sua própria sabedoria à sua medida, e só poder ser sábio de sua
própria sabedoria. Daí aparece a máxima para buscar está sabedo-
ria: "dizer sim a vida em qualquer circunstância", nos lembra Reale
e Antiseri (1990, p. 96). Assim, o homem deve abrir-se para todas
as experiências da vida, não podendo isolar-se do mundo.
O mundo é a casa da vida: nele que se vive e nele se deve
buscar compreendê-la. A vontade de afirmar a vida é o fundamen-
to da sabedoria. O homem ganhou a vida de presente e ater-se aos
aspectos negativos da vida é negá-la.
É sábio aquele que sabe rejeitar todos os argumentos contra
a vida e sabe dizer sim a tudo que é vida, mesmo, diante da dor,
da doença e da morte. Saber viver significa não ter necessidade de
mais nada além do próprio ato de viver, nos lembra Reale e Anti-
seri (1990, p. 97).
Para terminar nossa análise, é bom lembrar que a obra de
Montaigne, bem como de outros pensadores daquele período,
como Erasmo de Roterdam (1465-1536), François Rabelais (1494-
1553), Miguel de Cervantes (1547-1616) e até mesmo o português
Gil Vicente (1465-1537), é um rico exame do comportamento hu-
mano daquela época de transição em seus aspectos mais variados,
como: tristeza, mentira, medo, alegria, amizade, morte, doenças e,
principalmente, costumes.
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 67

Analisados esses aspectos, só poderia aparecer uma inter-


rogação: o que se pode saber de absoluto do homem; ou, dito de
outro modo, o que sei? Assim, esse ceticismo é fruto das crises
pelas quais passava a sociedade, a perda de valores antigos e a ins-
tabilidade diante dos novos. Diante desse quadro é compreensível
que Montaigne, e muitos outros, criticassem a razão, julgando-a
incapaz de atingir a verdade.

10. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS


As questões autoavaliativas têm como propósito a autoveri-
ficação do processo de aprendizagem durante o estudo da unida-
de. Por isso não deixe de responder às questões colocadas no final
de cada unidade para conferir a sua aprendizagem!
Sugerimos que você procure responder, discutir e comentar
as questões a seguir que tratam da temática desenvolvida nesta
unidade, ou seja, da História da Filosofia Moderna I, da síntese
destes problemas e do estabelecimento dos paralelos entre algu-
mas correntes filosóficas e suas preocupações.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
você testar seu desempenho. Se você encontrar dificuldade em
respondê-las, procure revisar os conteúdos estudados para saná-
-las. Este é um momento ímpar para você fazer uma revisão desta
unidade. Lembre-se de que no ensino a distância a construção do
conhecimento se dá de forma cooperativa e colaborativa; portan-
to, compartilhe com seus colegas suas descobertas.
1) Procure traçar um paralelo entre a mentalidade medieval, predominante na
Europa dos séculos 12 a 14, com a mentalidade que começa a aparecer ao
longo dos séculos 15 e 16, analisando os motivos dessas mudanças nos vá-
rios campos ou esferas: na economia, na política, na sociedade, na religião
e na cultura.

2) Tente elaborar um quadro com as características do homem moderno, em


oposição às do homem medieval, qual ou quais delas podem ser considera-
das as mais importantes?

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68 © História da Filosofia Moderna I

3) Como os valores modernos, a saber, antropocentrismo, racionalismo e indi-


vidualismo, contribuíram para o desenvolvimento de um novo homem? Faça
um resumo das suas anotações ao longo do estudo da unidade.

4) Qual era a principal intenção dos chamados renascentistas ao retomar a cul-


tura clássica? Eles conseguiram alcançar esse objetivo? Justifique.

5) Por humanista devemos entender aqueles intelectuais que, desde o século


14, dedicavam-se à reformulação dos estudos universitários. Faça uma lista
com alguns objetivos que orientavam essa reformulação e indique a impor-
tância desses objetivos para o desenvolvimento do pensamento moderno.

6) Com o ambiente humanista, aparecem as condições propícias para se falar


de um novo homem, guiado por novas forças. Essas novas forças impulsio-
nam o homem para quais atitudes?

7) Pode-se falar que o aparecimento das ciências modernas tem a ver com as
novidades tecnológicas que surgiram ao longo dos séculos 14 e 15, possibi-
litando uma nova interpretação da natureza. Cite essas novidades e aponte
como elas contribuíram para a nova visão de natureza.

8) Como você diferenciaria a ciência renascentista da ciência moderna propria-


mente dita?

9) Por que podemos falar de uma filosofia renascentista, produzida entre a se-
gunda metade do século 15 e a primeira metade do século 16?

10) Aponte quais as características principais do Neoplatonismo Renascentista.

11) Apresente, de maneira sintética, os principais pontos das preocupações filo-


sóficas dos três grandes representantes do Neoplatonismo Renascentista.

12) Pode-se falar de três interpretações do pensamento aristotélico. Quais são


essas três interpretações e quais são as diferenças básicas entre elas?

13) Apresente as principais preocupações filosóficas do Aristotelismo Renascen-


tista.

14) Como Montaigne vê o homem moderno e a sua relação com a vida e o mun-
do? Poderíamos falar de uma essência comum para o homem, caso seguís-
semos a orientação de Montaigne?

11. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, entramos em contato com os principais
acontecimentos históricos que proporcionaram o surgimento de
uma nova mentalidade na Europa durante os séculos 15 e 16. Vi-
© U1 - Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Moderna 69

mos como um conjunto de fatores ocorridos ao longo dos séculos


15 e 16 proporcionou a passagem de uma mentalidade medieval
para uma mentalidade moderna. Vimos, também, que essa men-
talidade se concretizou no que os historiadores chamam de Renas-
cimento ou Renascença.
Ao logo desse período tomou corpo, a partir de uma reto-
mada dos grandes filósofos antigos, uma forma nova de pensar o
mundo, o homem e a sociedade chamada filosofia renascentista
que nada mais era do que uma tentativa de satisfazer às necessi-
dades e às curiosidades de alguns intelectuais da época. Esse pe-
ríodo não inovou apenas na reflexão filosófica, mas também nas
artes, nas ciências, na religião e na política. Na próxima unidade,
entraremos em contato com as novas ideias religiosas que toma-
ram corpo no século 16.

12. E-REFERÊNCIAS

Lista de Figuras
Figura 1 Leonardo Da Vinci. Disponível em: <http://www.apav.it/mat/arte/pittura/img/
leonardo_da_vinci.jpg>. Acesso em: 18 maio 2010.
Figura 2 Francisco Petrarca. Disponível em:<http://images.zeno.org/Literatur/I/big/
petrarca.jpg>. Acesso em: 18 maio 2010.
Figura 3 Nicolau de Cusa. Disponível em: <http://www.adeportugal.org/jornal/images/
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Figura 4 Marsílio Ficino. Disponível em: <http://symploke.trujaman.org/index.
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70 © História da Filosofia Moderna I

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