Você está na página 1de 2

FASBAM – FACULDADE SÃO BASÍLIO MAGNO

BACHARELADO EM FILOSOFIA
DISCIPLINA DE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA I
PROF. ME. SOTER SCHILLER
MARCO ANTÔNIO PENSAK

UMA NARRATIVA BRASILEIRA SOBRE A ORIGEM DO HOMEM

Quando falamos sobre a origem do homem, rapidamente nos vêm a


mente a questão do criacionismo judaico ou, então, do evolucionismo de Charles
Darwin. Já quando falamos a partir de uma questão mitológica, chegamos até a
excetuar nossas crenças para abrirmos margem à mitologia grega amplamente
conhecida no Ocidente.
Pois bem, haja visto o estofo que já possuímos a partir das concepções
tidas como “tradicionais”, vamos nos propor a conhecer como a mitologia
brasileira tinha a sua visão de criação do homem. Temos como base as
considerações de Malinowski e Lévi-Strauss sobre mito e antropologia, que
tiveram grande influência na segunda metade do século XX. Porém, logo nos
deparamos com a escassez de referencial teórico sobre a mitologia brasileira em
si.
Em épocas pré-colombianas, tínhamos em nosso continente povos
primitivos, como os que habitavam as terras brasileiras, e tínhamos aqueles que
já eram considerados civilizações agrícolas, ainda que simples, como por
exemplo, os incas, no Peru; e os olmecas, no México. Portanto, a primeira
nuance que podemos destacar é a não uniformidade dos povos que habitavam
as terras americanas antes da colonização. Se não havia uniformidade, até
mesmo em terras brasileiras, não havia, por conseguinte, uma única narrativa
mitológica. Logo, temos que tratar de mitologias brasileiras.
De acordo com Kumu e Kenhíri apud Melatti1, podemos destacar a
narrativa indígena do aparecimento do ser humano pelos dessanas, povo do
noroeste da Amazônia. Os dessanas consideram a origem do Universo a partir
das trevas e com uma mulher, chamada de Yebá bëló, que se fez a si mesma a

1 Melatti, Julio Cezar. Mitologia indígena. Universidade de Brasília: Brasília, 2001.


partir de seis coisas invisíveis: bancos, suportes de panela, cuias, cuias de coca,
pés de maniva e cigarros. A cada vez que ela mascava folhas de coca e fumava
cigarros, um tipo de evolução acontecia, como por exemplo, o surgimento de
uma esfera de quartzo que incorporou as trevas e que serviu de habitação.
A questão de criação dos seres humanos começou quando Yebá bëló
mascou folhas de coca que retirava da boca e as transformou em homens,
conhecidos como cinco trovões, um tipo de heróis que ainda não eram homens
(podemos aqui fazer uma analogia aos deuses gregos). Estes trovões foram os
responsáveis criarem a luz e os rios. Eles também deveriam ser os responsáveis
por criar a humanidade, porém não a conseguiram; fazendo com que Yebá bëló
mascasse mais folhas de coca e fumasse cigarros para criar um outro ser, o
Ëmëko sulãn Palãmin, desta vez invisível, para que fizesse as camadas do
universo e a humanidade. Este ser, por sua vez, causou ciúmes nos trovões,
com exceção do terceiro que foi até o oceano e se transformou em uma cobra
gigante, que era a canoa transformadora da humanidade. Os outros trovões,
aqueles que haviam ganhado alguns enfeites masculinos e femininos de Yebá
bëló, entraram na canoa e tinham seus enfeites transformados em seres
humanos que dali surgiam como peixes e saíam para montar suas casas.
Podemos perceber, portanto, uma profunda ligação dos dessanas com a
natureza. É nela e a partir dela que os seus heróis são retratados porque é ela
que sustenta toda a vida ali presente. É dela que provém tudo, inclusive o bem
e o mal, tratado pelo ciúme, mas também é ela que resolve a situação, sendo,
portanto, a responsável pela ordem.