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LÍNGUA PORTUGUESA I

ANDREA D. G. DE CARAMÉS

RESENHA DO LIVRO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO, O QUE É, COMO


SE FAZ

O livro Preconceito lingüístico, o que é, como se faz, de edições Loyola, escrito

por Marcos Bagno, na sua vigésima sexta edição, apresenta uma série de aspectos

voltados a denunciar e combater o preconceito lingüístico que se encontra instalado

na sociedade brasileira e que sutilmente aliena aos alunos, aos cidadãos, a todos

aqueles brasileiros que não seguem o rumo marcado pelo conquistador. Seu autor,

Marcos Bagno, reconhecido lingüista, tradutor e escritor premiado, é Doutor em

Filologia e Língua Portuguesa pela USP e seus livros são muito usados nas

universidades brasileiras.

A obra citada está composta por um prólogo, quatro capítulos e um anexo. O

prefácio cujo título é Primeiras palavras apresenta a obra citando a Aristóteles, faz

referência à capa do livro na qual o autor homenageia seus sogros analfabetos e por

tanto vítimas do preconceito e se posiciona como um lutador científico contra a

exclusão social.

O primeiro capítulo é A mitologia do preconceito lingüístico, nele o autor cita

oito mitos e ressalta que se continuar a sustentá-los se estará alimentando ainda

mais o preconceito lingüístico, desrespeitando a auto-estima do povo e as

variedades lingüísticas. Os mitos enunciados são “A língua portuguesa falada no

Brasil apresenta uma unidade surpreendente”, “Brasileiro não sabe português/ Só

em Portugal se fala bem português”, “Português é muito difícil”, “As pessoas sem

instrução falam tudo errado”, “O lugar onde melhor se fala português é o

Maranhão”, “O certo é falar assim porque se escreve assim”, “É preciso saber

gramática para falar e escrever bem”, e por último “O domínio da norma culta é um

instrumento de ascensão social”.

O círculo vicioso do preconceito lingüístico é o segundo capítulo apresentado

no livro, nele o autor se refere aos elementos que formam esse círculo, a gramática

tradicional, os métodos tradicionais de ensino, os livros didáticos e os comandos


paragramaticais. Marcos Bagno detém-se bastante neste último elemento definindo-

o como “todo esse arsenal de livros, manuais de redação de empresas jornalísticas,

programas de rádio e de televisão, colunas de jornal e de revista, CD-ROMS,

‘consultórios gramaticais’ por telefone e por aí fora,,,” e cita a várias pessoas,

inclusive algumas que já morreram, para pô-las em evidência como pessoas

factíveis de erro e preconceituosas.

O terceiro capítulo da obra é A desconstrução do preconceito lingüístico, nele

Bagno ressalta a crise no ensino da língua portuguesa e como o preconceito

lingüístico está arraigado na sociedade, chamando a uma conscientização para

“elevar o grau da própria auto-estima lingüística”, e questionando a noção de

“erro”. Já no final deste capítulo, o autor justifica o uso do substantivo

desconstrução no título, já que desconstruir, segundo o dicionário Houaiss é

desfazer para reconstruir (o que está construído, estruturado), freqüentemente

fugindo a alguns princípios estabelecidos pela tradição. E assim ele faz. Marcos

Bagno começa a construir uma série de estratégias para “subverter” o preconceito

lingüístico.

O quarto capítulo é O preconceito contra a lingüística e os lingüistas, nele

Marcos Bagno defende energicamente a lingüística e os lingüistas dos ataques dos

gramáticos midiáticos que ele nomeia no título do capítulo como “preconceito”. Esta

parte do livro é encerrada com uma série de perguntas sumamente interessantes

que tem como objetivo levar, mais uma vez, ao leitor a refletir sobre a pouca

idoneidade dos representantes parlamentares, sobre como nem sempre o domínio

da norma culta facilita a ascensão social já que senão os lingüistas seriam ouvidos e

reconhecidos, mas, lamentavelmente, existem interesses que não permitem que

isto aconteça.

Por último aparece como anexo A carta de Marcos Bagno à revista Veja, nela

ele expressa seu desagrado a uma matéria publicada pela revista e assinada por

João Gabriel de Lima. Esta epístola permite que os leitores que não tiveram acesso à
matéria observem como o preconceito está instalado na sociedade e a maneira de

agir dos “comandos paragramaticais”.

Segundo a minha opinião o livro Preconceito lingüístico, o que é, como se faz

deve ser lido por todos aqueles que trabalham na área educativa já que reflete um

estigma que ficou instalado na sociedade brasileira e que em silêncio foi

distanciando o povo da sua própria língua fazendo com que a sentisse alheia, como

estrangeira, e como Marcos Bagno diz a escola é não a única responsável, mas,

cabe a ela grande parte da responsabilidade nesta questão. Este livro deveria ser

colocado também debaixo do travesseiro de cada um dos membros da Academia

Brasileira de Letras já que eles deveriam velar pela língua de seu povo e não pela do

colonizador. Quem não fez seus, alguns dos mitos citados por Bagno? Quem não

escutou alguém falando que o “português é muito difícil” ou que “o brasileiro não

sabe português”, que “só em Portugal se fala bem português”?

Bagno demonstra que a norma culta deve continuar sendo ensinada, mas, deixando

o autoritarismo de lado e respeitando as variedades lingüísticas que não devem

continuar sendo rotuladas como erradas. A escola tem que conseguir que o aluno

possa adequar a norma ao contexto social em que está inserido. Os alunos são

pessoas que tem uma historia de vida e a escola não pode continuar a não prestar

atenção a isso. Uma criança começa sua alfabetização com quase sete anos de

experiência de língua portuguesa, o que não deve continuar sendo ignorado.

A única objeção que tenho para fazer é que no final, mais precisamente no quarto

capítulo, o tom do autor passa a ser exacerbado o que me provocou uma sensação

de assanhamento para com o Professor Pasquale Cipro Neto, já que o nomeia umas

treze vezes e para com o gramático Napoleão Mendes de Almeida quem também é

muito citado. Eu senti que Marcos Bagno estava esforçando-se demais por

demonstrar a pouca erudição e o preconceituoso das palavras destas pessoas,

quase que chegando ao extremo de cometer também discriminação. Esta parte da

obra acabou sendo, no meu ponto de vista, pouco afortunada, já que do lado do

anexo acaba dando uma imagem de redundância. Contudo considero a obra

excelente, digna de ser lida, analisada e a partir dela refletir sobre ação pedagógica.