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O mundo da prática ­ A cultura

Convite à Filosofia
De Marilena Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Unidade 8
O mundo da prática

Capítulo 1
A cultura

Natureza humana?

É  muito  comum  ouvirmos  e  dizermos  frases  do


tipo:  “chorar  é  próprio  da  natureza  humana”  e
“homem  não  chora”.  Ou  então:  “é  da  natureza
humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as
mulheres  são  naturalmente  frágeis  e  sensíveis,  porque  nasceram  para  a  maternidade”,  bem  como  esta  outra:
“fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.

Com  freqüência  ouvimos  dizer:  “os  homens  são  fortes  e  racionais,  feitos  para  o  comando  e  a  vida  pública”,
donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego
que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são naturalmente
violentos,  os  judeus  são  naturalmente  avarentos,  os  árabes  são  naturalmente  comerciantes  espertos,  os
franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.

Frases  como  essas,  e  muitas  outras,  pressupõem,  por  um  lado,  que  existe  uma  natureza  humana,  a  mesma
em  todos  os  tempos  e  lugares  e,  por  outro  lado,  que  existe  uma  diferença  de  natureza  entre  homens  e
mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma natureza
humana  universal  e  uma  natureza  humana  diferenciada  por  espécies,  à  maneira  da  diferença  entre  várias
espécies de plantas ou de animais.

Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas  particulares,  de
modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano
(são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça,
ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada.

Dizer  que  alguma  coisa  é  natural  ou  por  natureza  significa  dizer  que  essa  coisa  existe  necessária  e
universalmente  como  efeito  de  uma  causa  necessária  e  universal.  Essa  causa  é  a  Natureza.  Significa  dizer,
portanto,  que  tal  coisa  não  depende  da  ação  e  intenção  dos  seres  humanos.  Assim  como  é  da  natureza  dos
corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta
por H2O, ou como é da natureza da abelha produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza
que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a
teria  diversificado  por  espécies  naturais  (brancos,  negros,  índios,  pobres,  ricos,  judeus,  árabes,  homens,
mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).

Que  aconteceria  com  as  frases  que  mencionamos  acima  se  mostrássemos  que  algumas  delas  são
contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade?

Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem
não  chora”,  pois,  se  isso  fosse  verdade,  o  homem  teria  que  ser  considerado  algo  que  escapa  das  leis  da
Natureza,  já  que  chorar  é  considerado  natural.  O  mesmo  acontece  com  a  frase  sobre  o  medo  e  a  coragem:
nelas  é  dito  que  o  medo  é  natural,  mas  que  uma  certa  pessoa  é  admirável  porque  não  tem  medo.  Aqui,  a
contradição  é  ainda  maior  do  que  a  anterior,  uma  vez  que  parecemos  ter  admiração  por  quem,
misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.

Em  certas  sociedades,  o  sistema  de  alianças,  que  fundamenta  as  relações  de  parentesco  sobre  as  quais  a
comunidade  está  organizada,  exige  que  a  criança  seja  levada,  ao  nascer,  à  irmã  do  pai,  que  deverá
responsabilizar­se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança
seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não
com  a  mãe  biológica.  Se  assim  é,  como  fica  a  afirmação  de  que  as  mulheres  amam  naturalmente  os  seus
filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?

Em  certas  sociedades,  considera­se  que  a  mulher  é  impura  para  lidar  com  a  terra  e  com  os  alimentos.  Por
esse  motivo,  o  cultivo  da  terra,  a  alimentação  e  a  casa  ficam  sob  os  cuidados  dos  homens,  cabendo  às
mulheres  a  guerra  e  o  comando  da  comunidade.  Se  assim  é,  como  fica  a  frase  que  afirma  que  o  homem  foi
feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita
pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?

Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou
mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus.
Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores brancos imigrantes e que
a  maioria  dos  escravos  libertados  ficasse  no  desemprego,  sem  habitação,  sem  alimentação  e  sem  qualquer
direito social, econômico e político.

Em  outras  palavras,  foram  impedidos  de  trabalhar  e  foram  mantidos  sem  direitos,  tais  como  viviam  quando
estavam no cativeiro. Além disso, sabe­se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram
os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande
força  física,  grande  capacidade  de  trabalho  e  muita  inteligência  para  realizar  tarefas  com  objetos  técnicos
como  o  engenho  de  açúcar.  Se  assim  é,  se  a  escravidão  foi  instituída  por  causa  da  grande  capacidade  e
inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso
da mão­de­obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de
que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?

Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os
seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em
cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência
das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação
determina  o  modo  de  ser,  agir  e  pensar  e  que  a  idéia  de  um  gênero  humano  natural  e  de  espécies  humanas
naturais  não  possui  fundamento  na  realidade.  Veríamos  –  graças  às  ciências  humanas  e  à  Filosofia  –  que  a
idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta
cientificamente,  filosoficamente  e  empiricamente.  Por  quê?  Porque  os  seres  humanos  são  culturais  ou
históricos.

Culto, inculto: cultura

“Pedro é muito culto, conhece várias línguas, entende de arte e de literatura.”

“Imagine!  É  claro  que  o  Luís  não  pode  ocupar  o  cargo  que  pleiteia.  Não  tem  cultura  nenhuma.  É  semi­
analfabeto!”

“Não  creio  que  a  cultura  francesa  ou  alemã  sejam  superiores  à  brasileira.  Você  acha  que  há  alguma  coisa
superior a nossa música popular?”

“Ouvi  uma  conferência  que  criticava  a  cultura  de  massa,  mas  me  pareceu  que  a  conferencista  defendia  a
cultura de elite. Por isso, não concordei inteiramente com ela.”

“O  livro  de  Silva  sobre  a  cultura  dos  guaranis  é  bem  interessante.  Aprendi  que  o  modo  como  entendem  a
religião e a guerra é muito diferente do nosso.”

Essas  frases  e  muitas  outras  que  fazem  parte  do  nosso  dia­a­dia  indicam  que  empregamos  a
palavra  cultura(ou  seus  derivados,  como  culto,  inculto)  em  sentidos  muito  diferentes  e,  por  vezes,
contraditórios.

Na  primeira  e  na  segunda  frase  que  mencionamos  acima,  cultura  é  identificada  com  a  posse  de  certos
conhecimentos (línguas, arte, literatura, ser alfabetizado). Nelas, fala­se em ter  e  não  ter  cultura,  ser  ou  não
ser culto. A posse de cultura é vista como algo positivo, enquanto “ser inculto” é considerado algo negativo. A
segunda  frase  deixa  entrever  que  “ter  cultura”  habilita  alguém  a  ocupar  algum  posto  ou  cargo,  pois  “não  ter
cultura”  significa  não  estar  preparado  para  uma  certa  posição  ou  função.  Nessas  duas  primeiras  frases,  a
palavra  cultura  sugere  também  prestígio  e  respeito,  como  se  “ter  cultura”  ou  “ser  culto”  fosse  o  mesmo  que
“ser importante”, “ser superior”.

Ora, quando passamos à terceira frase, a cultura já não parece ser uma propriedade de um indivíduo, mas uma
qualidade  de  uma  coletividade  –  franceses,  alemães,  brasileiros.  Também  é  interessante  observar  que  a
coletividade  aparece  como  um  adjetivo  qualificativo  para  distinguir  tipos  de  Cultura:  a  francesa,  a  alemã,  a
brasileira. Nessa frase, a Cultura surge como algo que existe em si e por si mesma e que pode ser comparada
(Cultura superior, Cultura inferior).

Além  disso,  a  Cultura  aparece  representada  por  uma  atividade  artística,  a  música  popular.  Isso  permite
estabelecer  duas  relações  diferentes  com  as  primeiras  frases:  1.  De  fato,  a  terceira  frase,  como  a  primeira,
identifica  Cultura  e  artes  (entender  de  arte  e  literatura,  na  primeira  frase;  a  música  popular  brasileira,  na
terceira);  2.  No  entanto,  algo  curioso  acontece  quando  passamos  das  duas  primeiras  frases  à  terceira.  Com
efeito, nas duas primeiras, “culto” e “inculto” surgiam como diferenças sociais. Num país como o nosso, dizer
que  alguém  é  inculto  porque  é  semi­analfabeto  deixa  transparecer  que  Cultura  é  algo  que  pertence  a  certas
camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas, enquanto a incultura está do lado dos não­privilegiados
socialmente, portanto, do lado do povo e do popular. Entretanto, a terceira frase afirma que a cultura brasileira
não  é  inferior  à  francesa  ou  à  alemã  por  causa  de  nossa  música  popular.  Não  estaríamos  diante  de  uma
contradição? Como poderia haver cultura popular (a música), se o popular é inculto?

Já a quarta frase (a que se refere à conferência sobre cultura de massa) introduz um novo significado para a
palavra  cultura.  Nela  não  se  trata  mais  de  pessoas  cultas  ou  incultas,  nem  de  uma  coletividade  que  possui
uma  atividade  cultural  que  possa  ser  comparada  à  de  outras.  Agora,  estamos  diante  da  idéia  de  que  numa
mesma coletividade ou numa mesma sociedade pode haver dois tipos de Cultura: a de massa e a de elite. A
frase não nos diz o que é a Cultura. (Seria posse de conhecimentos? Ou seria atividade artística?) Entretanto,
a  frase  nos  informa  sobre  uma  oposição  entre  formas  de  cultura,  dependendo  de  sua  origem  e  de  sua
destinação, pois “cultura de massa” tanto pode significar “originada na massa” quanto “destinada à massa”, e o
mesmo pode ser dito da “cultura de elite” (originada na elite ou destinada à elite).

Finalmente,  a  última  frase  que  mencionamos  como  exemplo  apresenta  um  sentido  totalmente  diverso  dos
anteriores  no  que  toca  à  palavra  cultura.  Fala­se,  agora,  na  cultura  dos  guaranis  e  esta  aparece  em  duas
manifestações: a guerra e a religião (que, portanto, nada tem a ver com a posse de conhecimentos, atividade
artística,  massa  ou  elite).  Nessa  última  frase,  a  cultura  aparece  como  algo  dos  guaranis  –  e  como  alguma
coisa que não se limita ao campo dos conhecimentos e das artes, pois se refere à relação dos guaranis com
osagrado (a religião) e com o conflito e a morte (a guerra).

Vemos, assim, que passar da naturalização dos seres humanos à Cultura não resolve nossas dificuldades de
compreensão  dos  humanos,  uma  vez  que,  agora,  precisamos  perguntar:  Como  é  possível  a
palavra culturapossuir tantos sentidos, alguns deles contraditórios com outros?

Natureza e Cultura

No pensamento ocidental, Natureza possui vários sentidos:

● princípio de vida ou princípio ativo que anima e movimenta os seres. Nesse sentido, fala­se em “deixar agir a
Natureza”  ou  “seguir  a  Natureza”  para  significar  que  se  trata  de  uma  força  espontânea,  capaz  de  gerar  e  de
cuidar de todos os seres por ela criados e movidos. A Natureza é a substância (matéria e forma) dos seres;

● essência própria de um ser ou aquilo que um ser é necessária e universalmente. Neste sentido, a natureza
de  alguma  coisa  é  o  conjunto  de  qualidades,  propriedades  e  atributos  que  a  definem,  é  seu  caráter  ou  sua
índole inata, espontânea. Aqui, Natureza se opõe às idéias de acidental (o que pode ser ou deixar de ser) e de
adquirido por costume ou pela relação com as circunstâncias;

● organização universal e necessária dos seres segundo uma ordem regida por leis naturais. Neste sentido, a
Natureza  se  caracteriza  pelo  ordenamento  dos  seres,  pela  regularidade  dos  fenômenos  ou  dos  fatos,  pela
freqüência, constância e repetição de encadeamentos fixos entre as coisas, isto é, de relações de causalidade
entre  elas.  Em  outros  termos,  a  Natureza  é  a  ordem  e  a  conexão  universal  e  necessária  entre  as  coisas,
expressas em leis naturais;

● tudo o que existe no Universo sem a intervenção da vontade e da ação humanas. Neste sentido, Natureza
opõe­se a artificial, artefato, artifício, técnico e tecnológico. Natural é tudo quanto se produz e se desenvolve
sem qualquer interferência humana;

●  conjunto  de  tudo  quanto  existe  e  é  percebido  pelos  humanos  como  o  meio  e  o  ambiente  no  qual  vivem.  A
Natureza,  aqui,  tanto  significa  o  conjunto  das  condições  físicas  onde  vivemos,  quanto  aquelas  coisas  que
contemplamos  com  emoção  (a  paisagem,  o  mar,  o  céu,  as  estrelas,  terremotos,  eclipses,  tufões,  erupções
vulcânicas,  etc.).  A  Natureza  é  o  mundo  visível  como  meio  ambiente  e  como  aquilo  que  existe  fora  de  nós,
mesmo que provoque idéias e sentimentos em nós;

●   para  as  ciências  contemporâneas,  a  Natureza  não  é  apenas  a  realidade  externa,  dada  e  observada,
percebida  diretamente  por  nós,  mas  é  um  objeto  de  conhecimento  construído  pelas  operações  científicas,
umcampo  objetivo  produzido  pela  atividade  do  conhecimento,  com  o  auxílio  de  instrumentos  tecnológicos.
Neste  sentido,  a  Natureza,  paradoxalmente,  torna­se  algo  que  passa  a  depender  da  interferência  ou  da
intervenção humana, pois o objeto natural é construído cientificamente.

Esse último sentido da idéia de Natureza indica uma diferença entre a concepção comum e a científica, pois a
primeira considera a Natureza nos cinco primeiros significados que apontamos, enquanto a segunda considera
a Natureza como uma noção ou um conceito produzido pelos próprios homens e, nesse caso, como artifício,
artefato, construção humana. Em outras palavras, a própria idéia de Natureza tornou­se um objeto cultural.

Mas, afinal, o que é a Cultura?

Dois são os significados iniciais da noção de Cultura:

1. vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar, Cultura significava o cuidado
do  homem  com  a  Natureza.  Donde:  agricultura.  Significava,  também,  cuidado  dos  homens  com  os  deuses.
Donde: culto. Significava ainda, o cuidado com a alma e o corpo das crianças, com sua educação e formação.
Donde: puericultura (em latim, puer significa menino; puera, menina). A Cultura era o cultivo ou a educação do
espírito das crianças para tornarem­se membros excelentes ou virtuosos da sociedade pelo aperfeiçoamento e
refinamento das qualidades naturais (caráter, índole, temperamento);

2. a partir do século XVIII, Cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos seres
humanos,  resultados  expressos  em  obras,  feitos,  ações  e  instituições:  as  artes,  as  ciências,  a  Filosofia,  os
ofícios,  a  religião  e  o  Estado.  Torna­se  sinônimo  de  civilização,  pois  os  pensadores  julgavam  que  os
resultados  da  formação­educação  aparecem  com  maior  clareza  e  nitidez  na  vida  social  e  política  ou  na  vida
civil (a palavra civil vem do latim: cives, cidadão; civitas, a cidade­Estado).

No primeiro sentido, a Cultura é o aprimoramento da natureza humana pela educação em sentido amplo, isto é,
como formação das crianças não só pela alfabetização, mas também pela iniciação à vida da coletividade por
meio do aprendizado da música, dança, ginástica, gramática, poesia, retórica, história, Filosofia, etc. A pessoa
culta era a pessoa moralmente virtuosa, politicamente consciente e participante, intelectualmente desenvolvida
pelo  conhecimento  das  ciências,  das  artes  e  da  Filosofia.  É  este  sentido  que  leva  muitos,  ainda  hoje,  a  falar
em “cultos” e “incultos”.

Podemos  observar  que  neste  primeiro  sentido  Cultura  e  Natureza  não  se  opõem.  Os  humanos  são
considerados seres naturais, embora diferentes dos animais e das plantas. Sua natureza, porém, não pode ser
deixada  por  conta  própria,  porque  tenderá  a  ser  agressiva,  destrutiva,  ignorante,  precisando  por  isso  ser
educada, formada, cultivada de acordo com os ideais de sua sociedade. A Cultura é uma  segunda  natureza,
que  a  educação  e  os  costumes  acrescentam  à  primeira  natureza,  isto  é,  uma  natureza  adquirida,  que
melhora, aperfeiçoa e desenvolve a natureza inata de cada um.

No  segundo  sentido,  isto  é,  naquele  formulado  a  partir  do  século  XVIII,  tem  início  a  separação  e,
posteriormente,  a  oposição  entre  Natureza  e  Cultura.  Os  pensadores  consideram,  sobretudo  a  partir  de  Kant,
que há entre o homem e a Natureza uma diferença essencial: esta opera mecanicamente de acordo com leis
necessárias de causa e efeito, mas aquele é dotado de liberdade e razão, agindo por escolha, de acordo com
valores e fins. A Natureza é o reino da necessidade causal, do determinismo cego. A humanidade ou Cultura é
o  reino  da  finalidade  livre,  das  escolhas  racionais,  dos  valores,  da  distinção  entre  bem  e  mal,  verdadeiro  e
falso, justo e injusto, sagrado e profano, belo e feio.

À medida que este segundo sentido foi prevalecendo, Cultura passou a significar, em primeiro lugar, as obras
humanas  que  se  exprimem  numa  civilização,  mas,  em  segundo  lugar,  passou  a  significar  a  relação  que  os
humanos,  socialmente  organizados,  estabelecem  com  o  tempo  e  com  o  espaço,  com  os  outros  humanos  e
com  a  Natureza,  relações  que  se  transformam  e  variam.  Agora,  Cultura  torna­se  sinônimo  de  História.  A
Natureza é o reino da repetição; a Cultura, o da transformação  racional;  portanto,  é  a  relação  dos  humanos
com o tempo e no tempo.

Cultura e História

Foi  Hegel  e,  depois  dele,  Marx  que  enfatizaram  a  Cultura  como  História.  Para  o  primeiro,  o  tempo  é  o  modo
como o Espírito Absoluto ou a razão se manifesta e se desenvolve através das obras e instituições – religião,
artes,  ciências,  Filosofia,  instituições  sociais,  instituições  políticas.  A  cada  período  de  sua  temporalidade,  o
Espírito ou razão engendra uma Cultura determinada, que exprime o estágio de desenvolvimento espiritual ou
racional da humanidade – China, Índia, Egito, Israel, Grécia, Roma, Inglaterra, França, Alemanha seriam fases
da  vida  do  Espírito  ou  da  razão,  cada  qual  exprimindo­se  com  uma  Cultura  própria  e  ultrapassada  pelas
seguintes, num progresso contínuo.

Para  Marx,  há  em  Hegel  um  engano  básico,  qual  seja,  confundir  a  História­Cultura  com  a  manifestação  do
Espírito.  A  História­Cultura  é  o  modo  como,  em  condições  determinadas  e  não  escolhidas,  os  homens
produzem  materialmente  (pelo  trabalho,  pela  organização  econômica)  sua  existência  e  dão  sentido  a  essa
produção  material.  A  História­Cultura  não  narra  o  movimento  temporal  do  Espírito,  mas  as  lutas  reais  dos
seres humanos reais que produzem e reproduzem suas condições materiais de existência, isto é, produzem e
reproduzem as relações sociais,  pelas  quais  distinguem­se  da  Natureza  e  diferenciam­se  uns  dos  outros  em
classes sociais antagônicas.

O  movimento  da  História­Cultura  é  realizado  pela  luta  das  classes  sociais  para  vencer  formas  de  exploração
econômica,  opressão  social,  dominação  política.  Despotismo  asiático,  modo  de  produção  antigo  (Grécia,
Roma), modo de produção feudal (Idade Média), capitalismo comercial ou mercantil, capitalismo industrial são
as maneiras pelas quais surgem e se organizam as formações sociais, internamente divididas por lutas, cujo
fim  dependerá  da  capacidade  de  organização  política  e  de  consciência  da  última  classe  social  explorada  (o
proletariado, produzido pelo capitalismo industrial) para eliminar a desigualdade e injustiça históricas.

Cultura e antropologia

Diferentemente de Hegel e Marx, que tomam a Cultura pela perspectiva histórica ou pela relação dos humanos
com o tempo, a antropologia considera a Cultura por um outro prisma.

O antropólogo procura, antes de tudo, determinar em que momento e de que maneira os humanos se afirmam
como  diferentes  da  Natureza  fazendo  o  mundo  cultural  surgir.  Tradicionalmente,  dizia­se  que  os  humanos
diferem  da  Natureza  graças  à  linguagem  e  à  ação  por  liberdade.  O  antropólogo,  sem  negar  essa  afirmação,
procura algo mais profundo do que isso como início das culturas. Assim, para muitos antropólogos, a diferença
homem­Natureza  surge  quando  os  humanos  decretam  uma  lei  que  não  poderá  ser  transgredida  sem  levar  o
culpado  à  morte,  exigida  pela  comunidade:  a  lei  da  proibição  do  incesto,  desconhecida  pelos  animais.  Para
muitos  antropólogos,  a  diferença  homem­Natureza  também  é  estabelecida  quando  os  humanos  definem  uma
lei  que,  se  transgredida,  causa  a  ruína  da  comunidade  e  do  indivíduo:  a  lei  que  separa  o  cru  e  o  cozido,
desconhecida dos animais.

Não vamos aqui entrar nos detalhes das discussões antropológicas. O importante, para nós, é perceber que os
antropólogos  buscam  algo  que  demarque  o  momento  da  separação  homem­Natureza  como  instante  de
surgimento  da  Cultura.  Esse  algo  é  uma  regra  ou  norma  humana  que  opera  como  lei  universal,  isto  é,  válida
para todos os homens e para toda a comunidade.

A lei humana é um imperativo social que organiza toda a vida dos indivíduos e da comunidade, determinando o
modo  como  são  criados  os  costumes,  como  são  transmitidos  de  geração  em  geração,  como  fundam  as
instituições  sociais  (religião,  família,  formas  do  trabalho,  guerra  e  paz,  distribuição  das  tarefas,  formas  do
poder, etc.). A lei não é uma simples proibição para certas coisas e obrigação para outras, mas é a afirmação
de  que  os  humanos  são  capazes  de  criar  uma  ordem  de  existência  que  não  é  simplesmente  natural  (física,
biológica). Esta ordem é a ordem simbólica.

Vimos  que  um  símbolo  é  alguma  coisa  que  se  apresenta  no  lugar  de  outra  e  presentifica  algo  que  está
ausente.  Quando  dizemos  que  a  Cultura  é  a  invenção  de  uma  ordem  simbólica,  estamos  dizendo  que  nela  e
por ela os humanos atribuem à realidade significações novas por meio das quais são capazes de se relacionar
com  o  ausente:  pela  palavra,  pelo  trabalho,  pela  memória,  pela  diferenciação  do  tempo  (passado,  presente,
futuro), pela diferenciação do espaço (próximo, distante, grande, pequeno, alto, baixo), pela diferenciação entre
o  visível  e  o  invisível  (os  deuses,  o  passado,  o  distante  no  espaço)  e  pela  atribuição  de  valores  às  coisas  e
aos  homens  (bom,  mau,  justo,  injusto,  verdadeiro,  falso,  belo,  feio,  possível,  impossível,  necessário,
contingente).

Comunicação  (por  palavras,  gestos,  sinais,  escrita,  monumentos),  trabalho  (transformação  da  Natureza),
relação  com  o  tempo  e  o  espaço  enquanto  valores,  diferenciação  entre  sagrado  e  profano,  determinação  de
regras  e  normas  para  a  realização  do  desejo,  percepção  da  morte  e  doação  de  sentido  a  ela,  percepção  da
diferença sexual e doação de sentido a ela, interdições e punição das transgressões, determinação da origem
e  da  forma  do  poder  legítimo  e  ilegítimo,  criação  de  formas  expressivas  para  a  relação  com  o  outro,  com  o
sagrado  e  com  o  tempo  (dança,  música,  rituais,  guerra,  paz,  pintura,  escultura,  construção  da  habitação,
culinária, tecelagem, vestuário, etc.) são as principais manifestações do surgimento da Cultura.

Em termos antropológicos, podemos, então, definir a Cultura como tendo três sentidos principais:

1. criação da ordem simbólica da lei, isto é, de sistemas de interdições e obrigações, estabelecidos a partir da
atribuição  de  valores  a  coisas  (boas,  más,  perigosas,  sagradas,  diabólicas),  a  humanos  e  suas  relações
(diferença sexual e proibição do incesto, virgindade, fertilidade, puro­impuro, virilidade; diferença etária e forma
de tratamento dos mais velhos e mais jovens; diferença de autoridade e formas de relação com o poder, etc.)
e  aos  acontecimentos  (significado  da  guerra,  da  peste,  da  fome,  do  nascimento  e  da  morte,  obrigação  de
enterrar os mortos, proibição de ver o parto, etc.);

2. criação de uma ordem simbólica da linguagem, do trabalho, do espaço, do tempo, do sagrado e do profano,
do visível e do invisível. Os símbolos surgem tanto para representar quanto para interpretar a realidade, dando­
lhe sentido pela presença do humano no mundo;

3. conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais os humanos se relacionam entre si
e com a Natureza e dela se distinguem, agindo sobre ela ou através dela, modificando­a. Este conjunto funda
a organização social, sua transformação e sua transmissão de geração a geração.

Em  sentido  antropológico,  não  falamos  em  Cultura,  no  singular,  mas  em  culturas,  no  plural,  pois  a  lei,  os
valores,  as  crenças,  as  práticas  e  instituições  variam  de  formação  social  para  formação  social.  Além  disso,
uma  mesma  sociedade,  por  ser  temporal  e  histórica,  passa  por  transformações  culturais  amplas  e,  sob  esse
aspecto,  antropologia  e  História  se  completam,  ainda  que  os  ritmos  temporais  das  várias  sociedades  não
sejam os mesmos, algumas mudando mais lentamente e outras mais rapidamente.

A esse sentido histórico­antropológico amplo, podemos acrescentar um outro, restrito, ligado ao antigo sentido
de cultivo do espírito: a Cultura como criação de obras da sensibilidade e da imaginação – as obras de arte – e
como  criação  de  obras  da  inteligência  e  da  reflexão  –  as  obras  de  pensamento.  É  esse  segundo  sentido  que
leva o senso comum a identificar Cultura e escola (educação formal), de um lado, e, de outro lado, a identificar
Cultura e belas­artes (música, pintura, escultura, dança, literatura, teatro, cinema, etc.).

Se,  porém,  reunirmos  o  sentido  amplo  e  o  sentido  restrito,  compreenderemos  que  a  Cultura  é  a  maneira  pela
qual  os  humanos  se  humanizam  por  meio  de  práticas  que  criam  a  existência  social,  econômica,  política,
religiosa, intelectual e artística.

A religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, os hábitos à mesa, as cerimônias, o
modo de relacionar­se com os mais velhos e os mais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as
técnicas, as instituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumes diante da morte, a
guerra, o trabalho, as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas,
as diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui a Cultura como invenção da relação com o Outro.

Quem é o Outro? Antes de tudo, é a Natureza. A naturalidade é o Outro da humanidade. A seguir, os deuses,
maiores  do  que  os  humanos,  superiores  e  poderosos.  Depois,  os  outros  humanos,  os  diferentes  de  nós
mesmos: os estrangeiros, os antepassados e os descendentes, os inimigos e os amigos, os homens para as
mulheres,  as  mulheres  para  os  homens,  os  mais  velhos  para  os  jovens,  os  mais  jovens  para  os  velhos,  etc.
Em sociedades como a nossa, divididas em classes sociais, o Outro é também a outra classe social, diferente
da nossa, de modo que a divisão social coloca o Outro no interior da mesma sociedade e define relações de
conflito, exploração, opressão, luta. Entre os inúmeros resultados da existência da alteridade (o ser um Outro)
no interior da mesma sociedade, encontramos a divisão entre cultura de elite e cultura popular, cultura erudita
e cultura de massa.

Estamos,  agora,  em  condições  de  perceber  por  que  as  frases  de  nosso  cotidiano  sobre  “cultos”  e  “incultos”
indicam preconceitos e não conceitos. Que preconceitos?

● Aquele que ignora que, em sentido antropológico e histórico, todos os  humanos  são  cultos,  pois  são  todos


seres culturais;

● Aquele que reduz a Cultura à escola e às belas­artes, sem se dar conta de que aquela e estas são efeito da
vida cultural e um dos aspectos da Cultura, mas não toda a Cultura;

● Aquele que, partindo da Cultura como cultivo do espírito (obras de pensamento e obras de arte), ignora que a
separação  entre  “cultos”  e  “incultos”,  em  sociedades  divididas  em  classes  sociais,  é  resultado  de  uma
organização  social  que  confere  a  alguns  o  direito  de  produção  e  acesso  às  obras,  negando­o  a  outros,  de  tal
maneira que, em lugar de um direito, tem­se, de um lado, privilégio e, de outro, exclusão. Em outras palavras,
usa­se a Cultura como instrumento de discriminação social, econômica e política.

Novamente a História

Os  estudiosos,  partindo  da  filosofia  da  história  e  da  antropologia,  distinguem  dois  grandes  tipos  de  cultura:  a
das comunidades e a das sociedades.

Uma  comunidade  é  um  grupo  ou  uma  coletividade  onde  as  pessoas  se  conhecem,  tratam­se  pelo  primeiro
nome,  possuem  contatos  cotidianos  cara  a  cara,  compartilham  os  mesmos  sentimentos  e  idéias  e  possuem
um destino comum.

Uma sociedade é uma coletividade internamente dividida em grupos e classes sociais e na qual há indivíduos
isolados  uns  dos  outros.  Seus  membros  não  se  conhecem  pessoalmente  nem  intimamente.  Cada  classe
social é antagônica à outra ou às outras, com valores e sentimentos diferentes e mesmo opostos. As relações
não  são  pessoais,  mas  sociais,  isto  é,  os  indivíduos,  grupos  e  classes  se  relacionam  pela  mediação  de
instituições como a família, a escola, a fábrica, o comércio, os partidos políticos e o Estado.

Os  agrupamentos  indígenas,  por  exemplo,  são  comunidades,  portanto,  internamente  unos  e  indivisos.  Em
contrapartida, nós vivemos em sociedade e não em comunidade.
O tempo, nas comunidades, possui um ritmo lento, as transformações são raras e, em geral, causadas por um
acontecimento externo que as afeta (por exemplo, a conquista e colonização branca imposta aos índios). Por
isso, se diz que a comunidade está na História ou no tempo, mas não é histórica.

Ao contrário, a sociedade é histórica, ou seja, para ela as transformações são constantes e velozes, causadas
pelas lutas e pelas divisões internas. Diz­se, então, que uma sociedade é histórica quando, para ela, ter uma
história e estar no tempo são um problema, uma indagação que ela não cessa de responder. Por quê?

Uma  comunidade  baseia­se  em  mitos  fundadores  ou  narrativas  sobre  sua  origem  e  sobre  o  que  nela
aconteceu,  acontece  e  acontecerá.  Os  mitos  capturam  o  tempo  e  oferecem  explicações  satisfatórias  para
todos sobre o presente, o passado e o futuro.

Numa  sociedade,  porém,  cada  classe  social  procura  explicar  a  origem  da  sociedade  e  de  suas  mudanças  e,
conseqüentemente,  há  diferentes  explicações  para  o  surgimento,  a  forma  e  a  transformação  sociais.  Os
grupos  dominantes  narram  a  história  da  sociedade  de  modo  diferente  e  oposto  à  narrativa  dos  grupos
dominados.

A  classe  que  domina  e  a  que  é  dominada  possuem,  portanto,  concepções  diferentes  e  contrárias  sobre  as
causas  dos  acontecimentos,  não  havendo  uma  explicação  única  e  idêntica  para  todos  sobre  a  origem  da
sociedade e suas transformações. Eis, por que, para uma sociedade, ser histórica é um problema e não uma
solução. Em outras palavras, enquanto o mito unifica o tempo comunitário, as histórias sociais multiplicam as
interpretações sobre as causas e os efeitos temporais.

Finalmente, uma comunidade cria a mesma Cultura  para  todos  os  seus  membros,  mas  numa  sociedade  isso
não é possível, e as diferentes classes sociais produzem culturas diferentes e mesmo antagônicas. Por esse
motivo  é  que  as  sociedades  conhecem  um  fenômeno  inexistente  nas  comunidades:  a  ideologia.  Esta  é
resultado  da  imposição  da  cultura  dos  dominantes  à  sociedade  inteira,  como  se  todas  as  classes  e  todos  os
grupos sociais pudessem e devessem ter a mesma Cultura, embora vivendo em condições sociais diferentes.

A  ideologia  é  uma  das  maneiras  pelas  quais  as  sociedades  históricas  buscam  oferecer  a  imagem  de  uma
única Cultura e de uma única história, ocultando a divisão social interna.