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ABORDAGENS FEMINISTAS DE ANÁLISE DE


DISCURSO: A FORMAÇÃO DE UM CAMPO

Isadora Costa Mendes


Lúcia Freitas

N
este texto, propomos esboçar a formação de um
campo de estudos discursivos de viés feminista dentro
da Linguística Aplicada. Trata-se de uma profusão de
trabalhos com foco na temática de gênero e sexualidade que
assumem uma perspectiva feminista declarada e que reivin-
dicam a inclusão do termo “Feminista” a produções acadêmi-
cas de Análise de Discurso. Iniciamos essa retomada a partir
da própria formação do campo de estudos discursivos, dos
quais se originaram algumas vertentes canônicas de Análise
de Discurso, para esboçarmos, em seguida, as vertentes femi-
nistas pioneiras nesse âmbito e as obras introdutórias que as
divulgaram inicialmente.

Formação do campo de estudos de discurso


Para compreendermos o que são abordagens feministas
de discurso, consideramos importante retomar a própria
formação da área de estudos discursivos, uma vez que as
correntes feministas sobre as quais pretendemos nos deter,
mais à frente, emprestam muitas de suas ferramentas analíticas
416 Pesquisas em Educação e Linguagem

de correntes que se constituíram nessa área. Assim, desenvol-


vemos, neste tópico, uma breve reconstituição do campo do
que veio a ser considerado Análise de Discurso, doravante AD.
Talvez, possamos identificar a gênese da AD ainda na
tradição da cultura ocidental de lidar com textos (Pinto,
1999). Desde a antiguidade grega, o interesse pelo discurso já
se manifestava na prática interpretativa dos oráculos e na
prática da retórica. Esta vai aos poucos ampliar seu campo,
encadeando o que mais tarde denominou-se Hermenêutica
que, por sua vez, no século XIX, inspirou o florescimento da
Filologia, considerada o primeiro enfoque do estudo da
linguagem como ação (VAN DIJK, 2008). Essa disciplina deu
origem a muitas práticas escolares; uma delas, a explicação de
textos à francesa, que tinha por fim o ensino de interpretação
de escrita literária.
Também apoiada na Hermenêutica, mas revestida de
empirismo e cientificidade, nos anos de 1930, começou a se
desenvolver a Análise de Conteúdo (FRANCO, 2005 apud
VIEIRA, 2002), método de tratamento de informação semân-
tica em textos, que ganhou grande espaço nas ciências huma-
nas e sociais. Nesta mesma época, na linguística, sob o domí-
nio estruturalista, paralelamente, teve início um movimento
que considerava o texto como unidade de análise, a Tagmê-
nica, de Kenneth Pike (VIEIRA, 2002).
Entretanto, há que se considerar que a abertura do
campo daquilo que se chamaria discurso, fixou-se com os
formalistas russos por volta dos anos de 1950 (Pinto, 1999),
ano em que, nos Estados Unidos, o linguista Zelling Harris
publicou o clássico Discourse Analysis, obra na qual apontou
meios de ultrapassar o limite analítico da frase. A partir daí,
Abordagens feministas de análise de discurso 417

surgiu com diferentes nomes e em diversas disciplinas das


humanidades e das ciências sociais o estudo moderno do
discurso (VAN DIJK, 2008).

Vertentes canônicas de Análise de Discurso


Nesse momento, é importante que se destaque a atuação
de alguns teóricos que tiveram grande influência na constitui-
ção dos estudos modernos de discurso. Benveniste (1989) se
singulariza pelo conceito de enunciação; Bakhtin (1997) pela
crítica ao objetivismo abstrato e pela noção de dialogismo;
Foucault (2002) pelas formações discursivas; Pêcheux (2002)
com a materialidade discursiva; Althusser (1971), com os
aparelhos ideológicos, e assim por diante.
A partir de tais contribuições, em meados da década de
1960, houve uma verdadeira proliferação dos usos do termo
“Análise de Discurso (AD)”. Essa polissemia fez com que a AD
se movesse por diferentes esforços analíticos em diversas áreas
do conhecimento, como a etnometodologia, a psicologia cogni-
tiva e social, a comunicação e assim por diante. Essa polissemia
se evidenciou no próprio âmbito da linguística, onde surgiram
enfoques transdisciplinares cada vez mais específicos.
Ainda em meados da década de 1960, na França, surgiu
um grupo de pesquisadores liderados por Michel Pêcheux,
com a chamada Análise Automática de Discurso. Os esforços
desse grupo desembocam na constituição de uma corrente que
se tornou conhecida com AD francesa. No início, os estudos
buscaram compreender o momento político por que passava a
França então, em meados dos anos 1960, quando ocorria um
forte movimento liderado por universitários, lutando por
reformas no ensino e na sociedade. O grupo de Pêcheux se
418 Pesquisas em Educação e Linguagem

propôs a estudar aquele contexto, tendo como base os diferen-


tes discursos produzidos e reproduzidos na ocasião.
Para além de uma análise gramatical e linguística, segundo
Brandão (2012, p. 6) a AD busca estudar “os elementos históri-
cos, sociais, culturais, ideológicos que cercam a produção de um
discurso e nele se refletem; o espaço que esse discurso ocupa em
relação a outros discursos produzidos e que circulam na comu-
nidade”. A AD francesa é uma corrente específica consagrada, à
qual, pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento recor-
rem para realizarem trabalhos analíticos.
No campo da Linguística Aplicada, especificamente,
nascem paralelamente à AD francesa, abordagens linguísticas
com enfoque discursivo com características variadas e que, aos
poucos, foram sendo consideradas canônicas na Linguística
Aplicada. Como é o caso da Pragmática, que se desenvolveu
paralelamente no mesmo contexto dos acontecimentos narra-
dos anteriormente, mas fora da França, em países de origem
anglo-saxônica. Stephen Levinson (2007, apud LIONS, 2008) é
apontado como um teórico referencial dessa corrente e que a
define, segundo Lins (2008), nos seguintes termos:

[... ] a Pragmática tem a ver mais com a análise daquilo


que as pessoas querem significar ao produzir enuncia-
dos do que com que as palavras e as frases dos enuncia-
dos podem significar por si próprios. Assim, esse
estudo envolve a interpretação do que as pessoas
querem dizer, quando inseridas em contextos particu-
lares, e como esses contextos podem influenciar aquilo
que é dito; ou seja, a Pragmática leva em consideração
como os falantes organizam o que querem dizer, de
acordo com a pessoa com quem vão interagir, o lugar
onde vão estar, o momento histórico que estão vivendo
Abordagens feministas de análise de discurso 419

e sob que circunstâncias estão atuando. São considera-


das, também, as interferências que os ouvintes fazem
sobre o que é dito, com vistas a captarem as intenções
do falante. Isso envolve, ainda, a análise do não-dito
como parte daquilo que é comunicado, ou seja, é levada
em consideração, também, a investigação do “signifi-
cado invisível”.

Outra corrente que compõe o campo de estudos de


linguagem com foco na perspectiva discursiva é a Estilística,
termo cunhando pelo linguista Charles Bally em meados do
século XX e que fundamenta o conceito basilar dos estudos
que surgem, posteriormente, sobre estilísticas e estilos: “a
linguagem não se presta apenas para expressar ideias, mas
também sentimentos” (HENRIQUES, 2011, p. 53). Assim,
segundo Henriques (2011), quando o falante se apropria do
sistema linguístico, suas representações, expressas por meio
da comunicação, demonstram um contraste entre os compo-
nentes emocional e intelectivo, notando-se a afetividade no
uso da língua falada.
Desse modo, os estudos da estilística foram se dividindo
em recortes a fim de abarcarem especificidades no universo
da linguagem. Conceberam-se, elencados por Henriques
(2011), tipos de estilísticas, como a estilística descritiva ou
linguística voltada para os aspectos afetivos da língua, capa-
cidade de expressão do sujeito, a estilística idealista ou literá-
ria, cujo interesse maior se volta às relações entre forma e
conteúdo na busca pela criação poética, dentre outras várias
correntes deste campo.
Paralelamente, desenvolve-se também no âmbito dos
estudos de linguagem uma abordagem que ficou conhecida
como Análise da Conversa (AC), com um referencial metodo-
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lógico advindo do trabalho de Harold Garfinkel, na obra


Studies in Ethnomethodology, em 1967. Essa corrente se carac-
teriza como uma proposta sociológica de pensar cada vivência
cotidiana dos sujeitos, como momentos de construções sociais
permeadas por atos de comunicações e conversa, e que são
compreendidos como tal. De acordo com Silva, Andrade e
Ostermann (2009):

[... ] se os métodos tradicionais da Sociologia traba-


lham com conceitos apriorísticos em relação a classes
sociais, grupos étnicos, gêneros, poder, dentre outros,
os etnometodólogos investigam como, nos eventos de
fala-em-interação, as pessoas se organizam de forma a
constituir essas identidades (e relações) de maneira que
elas sejam relevantes socialmente em contextos situa-
dos. A AC pode ser entendida, então, como o aparato
metodológico através do qual essa investigação é passí-
vel de ser realizada (SILVA; ANDRADE; OSTER-
MANN, 2009, p. 3).

Na AC é fundamental a perspectiva “naturalística”, que é a


noção que determina que os dados sejam coletados em conver-
sas reais que não foram forçadas por um roteiro de entrevistas
estabelecidas, mas sim, de forma natural. Nessa lógica, as análi-
ses em AC são voltadas para falas dos sujeitos participantes da
pesquisa, uma vez que têm a intenção de observar minunciosa-
mente as ações interacionais desses falantes.
Ainda nos interessa citar, como uma das correntes expres-
sivas que compõem o polissêmico campo de Análise de
Discurso, a conhecida Análise Crítica do Discurso ou Análise
de Discurso Crítica (ACD/ADC). É uma vertente de AD que
surgiu entre o final da década de 1980 e início da década de
1990. Durante um simpósio realizado no ano de 1991, em
Abordagens feministas de análise de discurso 421

Amsterdã, onde estavam presentes estudiosos do campo da


Linguística Aplicada, como Van Dijk, Norman Fairclough,
Gunther Kress, Van Leeuwen e Ruth Wodak, e foram discuti-
dos métodos e teorias daquilo que a partir de então passou a
ser chamado de ACD ou ADC.
Para Wodak (2004, p. 224) “a ACD/ADC tem um interesse
particular na relação entre linguagem e poder”, bem como
estuda as interações sociais a partir da análise de textos, numa
concepção de discurso como forma de ação social. “Em um
sentido amplo, refere-se a um conjunto de abordagens científicas
e interdisciplinares para estudos críticos da linguagem como
prática social” (RAMALHO; RESENDE, 2011, p. 12). Assim,
Wodak (2004) afirma ainda que a ACD, por meio do uso da
linguagem, objetiva detectar e analisar criticamente as relações
de desigualdade social legitimadas na sociedade, além de enten-
der a linguagem como veículo ideológico, de dominação e poder.
São relevantes para as análises nessa corrente não apenas o texto
oral ou escrito, mas também o sujeito e todo o contexto, a estru-
tura, o tempo e o espaço que cerca uma situação.

As abordagens feministas de análise de discurso


O que estamos chamando, neste texto, de abordagens femi-
nistas de discurso caracteriza-se como um conjunto de traba-
lhos originários do campo de estudos discursivos da temática de
gênero/sexualidade (HOLMES; MEYERHOFF, 2003; EHRLICH;
MEYERHOFF; HOLMES, 2014) que, gradativamente, começa-
ram a assumir uma perspectiva feminista declarada.
Estamos empregando os termos abordagem e feminista,
ambos no plural, pois tanto os estudos discursivos articula-
dos pelas categorias “gênero” e “sexualidade” quanto as
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correntes feministas dentro e fora da Linguística não consti-


tuem um campo homogêneo e coeso. Como bem observa
Bucholtz (2003), o próprio rótulo “feminista”, no singular, na
realidade cobre uma pluralidade de correntes específicas.
Não obstante, a existência das diferentes vertentes de femi-
nismos, há uma convergência comum nesses estudos no
sentido de compreender e superar as desigualdades sociais
relacionadas ao gênero e à sexualidade em suas intersecções
com outras categorias como classe, raça, etnia, geração, etc.
(BUCHOLTZ, 2014).
Da mesma forma que o feminismo em si é múltiplo,
também o são as correntes de estudos discursivos com pers-
pectiva feminista, cujas formas teórico-metodológicas variam,
embora, estejam unidas pelo mesmo empenho político geral.
Tal diversidade é percebida nos próprios rótulos adotados por
algumas dessas vertentes: Análise da Conversa Feminista
(KITZINGER, 2000), Estilística Feminista (MILLS, 1995),
Pragmática Feminista (CHRISTIE, 2000), Análise Crítica
Feminista de Discurso (LAZAR, 2005, 2007) e Análise de
Discurso Feminista Pós-Estruturalista (BAXTER 2003, 2008).
Tais propostas se desenvolvem a partir daquelas corren-
tes teóricas já consideradas canônicas que aqui citamos. De
modo geral, esses estudos promovem uma reapropriação das
ferramentas teóricas e analíticas dessas correntes, orientados
aos propósitos feministas de denunciar, desconstruir e supe-
rar os códigos da linguagem que naturalizam e perpetuam
sistemas sexistas.
A reapropriação é uma prática feminista que, como obser-
vou Audre Lorde (2007) visa subverter o poder que exercem as
dinâmicas do patriarcado, das quais a ciência está também
Abordagens feministas de análise de discurso 423

investida. Nesse sentido, os estudos de linguagem de viés femi-


nista estão se reapropriando do conhecimento já instituído no
campo da Linguística Aplicada, para empreender mudanças
de paradigmas dentro desse mesmo campo. A seguir, descre-
vemos sucintamente algumas das abordagens feministas de
análise de discurso.

Pragmática Feminista
A Pragmática Feminista segue o padrão interdisciplinar
da Pragmática canônica, mas enquadra suas bases analíticas
sob uma perspectiva feminista. A primeira pesquisadora que
produziu um estudo sistematizado sobre esta corrente foi a
feminista Christine Christie na obra Gender and Language:
Towards a Feminist Pragmatics publicada no ano 2000. No
livro, Christie (2000) retoma uma gama de teorias pragmáti-
cas, como a teoria dos atos de fala, os princípios colaborativos
da conversação, a teoria das máscaras e polidez, pressuposição,
implicatura, coerência textual, etc., e demonstra de que forma
cada uma delas pode beneficiar a investigação feminista.
Para a Pragmática Feminista os elementos dessas teorias,
como, por exemplo, uma única estratégia de polidez, pode ser
entendida diferentemente, dependendo do gênero dos interlo-
cutores, que inclusive define essas próprias estratégias, a
maneira como são selecionadas e seus impactos no funciona-
mento de seu uso. Por outro lado, enfatiza-se também que os
estudos pragmáticos feministas devem ser capazes de abordar
os recentes desenvolvimentos dentro dos feminismos que leva-
ram a uma mudança de conceptualização do gênero como
categoria social ou cultural, a uma conceptualização do gênero
como uma manifestação verbal.
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Em síntese, a premissa elementar que orienta os trabalhos


que se desenvolvem a partir dessa corrente é de que a pragmá-
tica fornece um sólido apoio descritivo para análises de lingua-
gem, e o feminismo promove ricos insights sobre fenômenos
socioculturais como o gênero (CHRISTIE, 2000, p. 30).

Estilística Feminista
A Estilística Feminista tem suas raízes nas teorias e práti-
cas da Crítica Feminista que se originou nos Estados Unidos e
na França e que tem entre seus expoentes os nomes de Virginia
Woolf, Helena Cixous, Luce Irigaray, entre outras. Tradicional-
mente a Estilística é considerada o estudo linguístico dos vários
componentes do estilo literário (ou não-literário) de escritoras
ou escritores. A vertente feminista, sucessora da Estilística
Crítica, muda o foco de uma análise rigorosa do texto em si
para uma análise dos fatores que determinam o significado do
texto em seu contexto social que atinge questões de gênero.
Essa abordagem conta com o pioneirismo de Sara Mills, na
obra introdutória, Feminist Stylistics, publicada em Londres, em
1995. A autora (MILLS, 1995) descreve essa abordagem como
uma forma de estilística politicamente motivada cujo objetivo é
desenvolver uma consciência da maneira como o gênero é
tratado nos textos. O objetivo geral é desmascarar ideologias
patriarcais e desnaturalizá-las, por meio de um minucioso
exame linguístico e da explicação da teoria linguística para
expor a lógica da análise textual feminista. É uma abordagem
que se estende sobre uma ampla gama de categorias de análise
textual como o ethos feminista e sua ideologia subjacente.
Ela acrescenta que a estilística feminista vai além da mera
descrição da discriminação sexual em obras literárias, mas se
Abordagens feministas de análise de discurso 425

amplia para incluir um estudo sobre as formas em que, ponto


de vista, agência, metáfora ou transitividade estão inesperada-
mente relacionados com questões de gênero. É uma abordagem
que reconhece a luta dialética entre os protagonistas e antago-
nistas da escrita feminista, bem como a luta entre fraseologia
linguística e realidade social e ideologia (UFOT, 2012).

Análise da Conversa Feminista


Outra abordagem que vem sendo explorada por teóricas
feministas e utilizada em pesquisas nos campos de gênero e
sexualidade, é a Análise da Conversa Feminista, que tem como
principal propagadora a feminista e pesquisadora Celia Kitzin-
ger. Em uma entrevista com a também feminista e pesquisadora
Ana Cristina Ostermann (2012), Kitzinger afirma que a Análise
da Conversa Feminista se distingue de seu correlato canônico, a
AC, na medida em que aproveita as poderosas ferramentas e
metodologia analítica para fins especificamente feministas.
As considerações da autora mostram que sempre houve,
nas pesquisas de AC, trabalhos sobre gênero e sexualidade elabo-
rados por feministas, porém, por muitas vezes, essas contribui-
ções foram ignoradas como estudos feministas dentro dessa
corrente. A própria representação feminina na AC foi pouco
destacada frente o protagonismo masculino. A AC feminista,
para Kitzinger (2000, p. 173) consiste em uma “ferramenta útil
para a compreensão de como, as nossas interações de fala
comuns e mundanas, que produzem a ordem social em que
vivemos, “fazem” poder e impotência, opressão e resistência”.
Nesse sentido, para Kitzinger (2000, p. 189), “na AC femi-
nista, opressão e resistência não são simplesmente teorias e
conceitos abstratos, mas tornam-se visíveis como práticas
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concretas dos membros sociais na interação”.  A autora acre-


dita que essa ferramenta é de grande relevância para as pesqui-
sas de gênero e sexualidade, uma vez que a conversa é muito
utilizada na ordem social dos discursos.

Análise de Discurso Crítica Feminista (ADCF)


A Análise de Discurso Crítica Feminista (ADCF),
proposta por Michelle Lazar, sugere pensar a ACD/ADC no
âmbito dos estudos feministas “com o objetivo de desenvol-
ver ricas análises do funcionamento complexo do poder e da
ideologia no discurso na sustentação hierárquica de gênero”
(LAZAR, 2007, p. 141).
Lazar foi a primeira teórica a propor esta abordagem
metodológica por meio de sua obra Feminist Critical Discourse
Analysis: Gender, Power and Ideology in Discourse. Publicada
em Londres, no ano de 2005, a obra baseia-se, principalmente
em autoras e autores como Norman Fairclough, Ruth Wodak,
Carmen Rosa Caldas-Coulthard, dentre outros. Lazar (2007)
justifica a iniciativa de explorar a categoria gênero por enten-
der quão problemáticas se apresentam as questões de gênero na
divisão de papeis femininos e masculinos na sociedade.
A autora enfatiza a influência do patriarcado quando se
trata de estudos e métodos acadêmicos e, sobretudo, o descaso
de categorias de sexualidade, raça, gênero, classe social, dentre
outras na construção das pesquisas nos campos humanos e
sociais de estudo. A ACD/ADC feminista visa uma compreen-
são sistematizada do complexo funcionamento do poder e da
ideologia discursiva na sustentação hierárquica das relações de
gênero e “arranjos sociais”. A ideologia se torna cada vez mais
complexa e sutil (LAZAR, 2007).
Abordagens feministas de análise de discurso 427

Para a autora, o objetivo da ADCF é “mostrar as formas


complexas, sutis, e às vezes não tão sutis, em que frequente-
mente pressupostos de gênero assumidos e relações de poder
hegemônicas, são produzidos, sustentados, negociados e desa-
fiados em diferentes contextos e comunidades” (LAZAR, 2007,
p. 142). Os trabalhos nessa corrente têm o interesse de estabe-
lecer uma política feminista de articulação reconhecendo sexo
e o gênero como categorias onipresentes nas práticas sociais.
Procura-se uma mudança social ao se assumir, nesses estudos,
um ativismo comprometido com os próprios movimentos
feministas que lutam em prol da equidade entre os gêneros.

Análise Pós-Estruturalista Feminista do Discurso (APEFD)


A Análise Pós-Estruturalista Feminista do Discurso
(APEFD) é representada principalmente pela teórica feminista
Judith Baxter que tem percebido um grande interesse de
pesquisas internacionais nesta área como uma abordagem
teórica e metodológica para os estudos de gênero e linguagem.
Em sua obra Positioning Gender in Discourse: A Feminist
Methodology, publicada em 2003, a autora buscou definir a
APEFD, fundamentada principalmente nos estudos formalis-
tas de Bakhtin, nos pós-estruturalistas Foucault e Derrida e em
estudos feministas (BAXTER, 2008).
A autora define a APEFD como uma abordagem de análise
de discursos baseada em princípios pós-estruturalistas de
complexidade, pluralidade, ambiguidade, conexão, reconheci-
mento, diversidade, linguagem textual, funcionalidade e trans-
formação.  A perspectiva feminista nos estudos pós-estrutura-
listas de discurso considera  a diferenciação de gênero em
termos de seu poder sistemático de discriminar os seres huma-
428 Pesquisas em Educação e Linguagem

nos de acordo com seu gênero e sexualidade. A diferenciação


de gênero é construída, representada e distribuída nos discur-
sos dominantes entre discursos concorrentes e é tarefa da
APEFD analisar todos os tipos de texto.
Essa autora ainda entende que APEFD é uma abordagem
“suplementar”, simultaneamente complementando e minando
outros métodos (BAXTER, 2008, p. 3). No plano teórico, Baxter
afirma que a APEFD tem ligações paralelas com a proposta de
Lazar (2005), por compartilharem um princípio fundamental
de empreender análises discursivas para evidenciar questões
de poder. Mas a APEFD tem suas raízes teóricas originadas no
pós-estruturalismo e adota uma postura “anti-materialista”
sobre os discursos produzidos na realidade social, o que a dife-
rencia da ACD/ADC Feminista, que segue uma tradição
pós-marxista.
A partir da premissa de que falantes não existem fora do
discurso, a APEFD enfoca a construção discursiva das subjeti-
vidades. Para isso, utiliza conceitos basilares apoiados na
Teoria da Performatividade de Austin da forma como foram
reapropriados por Judith Butler (1990 apud BAXTER, 2008). A
“performatividade” compreende o gênero como algo que é
“feito” pelas pessoas nas suas práticas sociais/discursivas e não
uma característica natural por elas herdada.
Por fim, quanto à questão metodológica, a APEFD se
desenvolve como uma abordagem de dados significativamente
diferente das demais abordagens da análise do discurso. Como
esclarece Baxter (2008), fundamentada no conceito de “polifo-
nia” de Bakhtin (1981) a APEFD visa proporcionar múltiplas
vozes e relatos distintos com os participantes da pesquisa, com
um mínimo de entrelaçamento usual de comentários autorais,
Abordagens feministas de análise de discurso 429

eles podem em seguida, fazer seus próprios comentá-


rios, completando um ao outro. Propicia também, como carac-
terística metodológica, o princípio de “heteroglossia” de
Bakhtin (1981), que visa incluir e criar espaço para vozes que
de outra forma seriam silenciadas, vozes de pessoas que nunca
falam. Na utilização destes princípios pós-estruturalistas
Baxter (2008) afirma que o interesse principal das pesquisas
que utilizam essa ferramenta teórica e metodológica, é,
portanto, a busca de riqueza e pluralidade de significados.

Considerações Finais
Nosso principal objetivo neste texto, ao retomarmos sucin-
tamente o percurso entre a formação do campo de estudos
discursivos até a proliferação de abordagens feministas de
Análise de Discurso, foi apenas esboçar essa trajetória de forma
panorâmica. Na realidade, todas as correntes feministas aqui
citadas estão em pleno desenvolvimento de suas bases teórico-
metodológicas. De modo geral, essas abordagens são herdeiras
dos estudos que vinham se desenvolvendo no âmbito da Linguís-
tica Aplicada sob o rótulo genérico de estudos de gênero e sexua-
lidade. Não obstante, apesar de serem trabalhos voltados para os
aspectos de linguagem em relação a essas duas categorias, nem
todos estavam baseados em noções feministas propriamente.
Abordagens feministas buscam a problematização de um
modelo científico patriarcal que orienta as pesquisas acadêmi-
cas. Os feminismos tratam a produção de conhecimento,
alinhado à produção de poder e desafiam a objetividade cientí-
fica, demonstrando como ela mascara essas relações, especial-
mente quanto às assimetrias entre os gêneros. Tal objetividade
está ligada diretamente a construções sociais hegemônicas.
430 Pesquisas em Educação e Linguagem

Nessa medida, as abordagens feministas se desenvolvem por


uma dialética que questiona a ciência como verdade, e que
propõe uma cientificidade que se garante e se legitima pela
“localização do saber” (HARAWAY, 1995).
As abordagens feministas de Análise de Discurso que
listamos aqui são alguns exemplos de iniciativas dentro da
Linguística Aplicada que buscam essa objetividade localizada.
Por isso, o termo feminista já é de antemão expresso nos rótu-
los das correntes. Mais que investir na montagem de aparatos
metodológicos, esses estudos linguísticos feministas usam os
aparatos já dispostos em correntes canônicas e os direcionam
para os interesses políticos próprios dos movimentos que lutam
pela conquista de equidade entre os gêneros.
Assim, as correntes que aqui esboçamos são algumas
iniciativas nessa direção que gradativamente começam a se
propagar. No Brasil, por exemplo, há tempos linguistas como,
Ana Cristina Ostermann, Débora Figueiredo, Viviane Herberle
(2006), Carmen Rosa Caldas-Coulthard (1996), Suzana Funk
(2007), apenas para citar algumas, têm publicado trabalhos sob
os eixos linguagem/gênero/sexualidade com perspectivas femi-
nistas, sem, contudo, assumi-las nominalmente. Mas a adesão
a essas propostas tem crescido em todo o mundo. E este texto
procurou servir como um guia inicial para estudos mais apro-
fundados sobre esse movimento crescente, bem como para
inspirar pesquisas com essas propostas.

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Abordagens feministas de análise de discurso 431

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