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MOSTRAS DE ARTE HÍBRIDA: CONFLUÊNCIAS ENTRE ROCK, LITERATURA

E ÓPERA

LOPEZ, Cristian Javier1

INTRODUÇÃO

As confluências entre a literatura e a música estiveram desde sempre presentes ao


longo da história das criações artísticas do homem. Assim, por diversos meios, como a
composição musical e poética, entre outras, ele retratou seu mundo e suas vivencias,
comunicando aspectos que são próprios da sua subjetividade. A música é considerada como
um meio de expressão e comunicação; uma linguagem própria que nos possibilita o
conhecimento do mundo, das demais pessoas e de nós mesmos. A literatura, por sua parte, é a
arte que busca explorar ao máximo o poder expressivo, evocativo e representativo dos signos
linguísticos utilizados pelo homem em seu processo mais comum de comunicação.
Essas duas linguagens – literatura e música –, na atualidade, não representam tão
somente a junção de duas artes distintas, senão todo um complexo de inter-relações e
interdisciplinaridades que oferecem inúmeras possibilidades de criação e interpretação. Na
contemporaneidade, estudos culturais artísticos, agregados aos estudos literários, vêm
servindo como base de fomento para a compreensão dos processos de criação inerentes à
subjetividade do indivíduo. Baseando-se nos estudos de Literatura Comparada, é possível
identificar uma série de obras que conjugam as artes literária e musical produzidas em solo
latino-americano, como no Brasil, por exemplo, na obra do grupo de Rock Legião Urbana, os
cantores Edson Cordeiro e Cassia Eller, na Argentina com os cantores Mercedes Sosa e
Charly García.
Nesse sentido, observa-se uma necessidade de realizar uma pesquisa acadêmica
voltada ao campo de comparação literário-musical com foco na obra dos cantores
anteriormente citados, com o objetivo de compreender, ainda que parcialmente, como o
processo de confluência se dá também na criação de produções híbridas. Tais criações

1
(UNIVERSIDAD NACIONAL DE TUCUMÁN/ANHANGUERA/UNIOESTE)- cj_lopez2@hotmail.com
caracterizam-se pela mistura de diferentes estilos literários e musicais, considerados por muito
tempo como antagônicos. Para isso, torna-se necessário o estudo das obras, ou seja, Monte
Castelo (CD As quatro estações 1989), I can´t get no satisfaction (CD Edson Cordeiro 1992),
Inconsciente colectivo (CD Como um pájaro libre 1983).
Investigar sobre essa confluência significa buscar por raízes que remontam às origens
da fusão entre literatura e música e, assim, compreender a função social que essa sempre teve
ao longo da nossa história.

DESDE AS ORIGENS

Quando nos remontamos às origens da história podemos observar que o homem


manifestou-se como ser social capaz de expressar-se por meio das diferentes linguagens.
Destaca-se que foi, e segue sendo ainda hoje, o seu desejo inconsciente de se expressar que o
leva e dirige em busca de diversas formas que lhe sirvam e pelas quais possa se manifestar
frente às mais variadas circunstâncias. Como uma característica geral, vemos que em todas as
diferentes épocas, culturas e povos existiu esta necessidade extrema do homem de se
comunicar com o seu meio. Como exemplo disso, podemos citar, já nos começos da história,
as primeiras criações gráficas chamadas de “Arte rupestre”. Com elas, sem conhecer a escrita
ainda, o homem retratava seu mundo e suas vivências e deixava registrado às gerações
vindouras muitas de suas lutas, aprendizagens e formas de representação.
A importância de manter vivas as conquistas, as descobertas e as tantas outras
experiências vivenciadas e transmitidas oralmente de geração a geração levou nossos
antepassados a encontrar muitos meios de registrá-las. Tais distintas formas de comunicação
foram evoluindo até que se chegou a um complexo sistema chamado escrita que, sempre
calcado na base oral, possibilitou um acúmulo maior e uma sistematização mais precisa de
informações, facilitando o acesso a elas, tal qual concebidas em sua época, por indivíduos
distanciados no tempo. Este feito, como todos sabemos, marcou o limite entre a pré-história e
o início da história.
Assim, a escrita tornou-se um instrumento, um meio, uma ferramenta pelo qual os
homens passaram, ao lado da oralidade, a registrar a sua visão dos acontecimentos, aqueles
que julgaram relevantes, expondo, assim, a sua leitura de mundo. Esta leitura, ou seja, a visão,
a concepção e o entendimento da realidade impregnada pela intenção de explicar aquilo que
lhe parecia raro ou estranho possibilita ao homem criar uma imagem do mundo que o cerca.
De acordo com Merino (2002, p. 57), “la narración de ficciones ha sido el instrumento
natural de ser humano para explicar el mundo a su medida desde que tuvo conciencia de
existir en él. […] somos el homo sapiens porque somos el homo narrans”. Estes registros, por
sua vez, passaram a ser as fontes referenciais das quais hoje nos servimos para realizar a
leitura de nosso mundo, para entender nossa realidade, consequência destas vivências
passadas. Contudo, dentro desse sistema evolutivo o ser humano desenvolveu outras preciosas
formas de comunicação: as artes. Por meio delas o homem pôde também expressar grande
parte de sua subjetividade.
A música é um desses meios de expressão e comunicação que o ser humano foi
aperfeiçoando e ampliando ao longo de toda a história; uma linguagem própria que possibilita
o conhecimento do mundo interior, das outras pessoas e de nós mesmos. Conforme expressa
William Lovelock (2001, p. 9), “a música não ‘progrediu’ no sentido de que ficou
continuamente ‘cada vez melhor’ [...]. Só em tempos comparativamente recentes é que se
obteve uma compreensão clara do valor de grande parte da música mais antiga [...]”. O
empenho dos musicólogos nesse sentido representa um dos mais significativos esforços em
busca da história dessas formas peculiares de expressão desenvolvidos pelo homem ao longo
de sua existência.
Por outro lado, ao dominar e aperfeiçoar cada vez mais o sistema da escrita, o homem
passou a efetuar seus registros com uma maior riqueza de nuances, empregando um maior e
mais diversificado conjunto de técnicas narrativas. Esse fato levou-o, em certo momento, a
optar por distintas formas de registros, separando aqueles que se propunham a ser objetivos,
mais científicos e passíveis de comprovação daqueles mais subjetivos, mais voltados para a
exploração do potencial da própria linguagem.
O desenvolvimento do potencial representativo da linguagem conduz ao aparecimento
da arte literária – uma expressão artística que explora ao máximo o poder expressivo,
evocativo e representativo dos signos linguísticos, utilizados pelo homem em seu processo
mais comum de comunicação – ampliando, desse modo, a própria essência da linguagem,
uma vez que: […] la literatura nos permite vivir en un mundo cuyas leyes transgreden las
leyes inflexibles por las que transcurre nuestra vida real, emancipados de la cárcel del
espacio y del tiempo, en la impunidad para el exceso y dueños de una soberanía que no
conoce límites. (VARGAS LLOSA, 2002, p. 394).
Nomeamos algumas civilizações, a modo de exemplo, que promoveram, de forma
relevante, a confluência entre literatura e música.
1- Grécia: uma civilização que nos deixou como legado uma vasta coleção literária,
bem como em outras artes. A música, na Grécia, estava ligada a diversos aspectos da vida
cotidiana, política e religiosa. Foi o grande filósofo Pitágoras, a quem se confere a descoberta
das leis da harmonia e da relação aritmética da escala musical, que teve singular importância
nesse contexto, transcendendo fronteiras e oferecendo-nos as bases do sistema musical
ocidental.
2- Índia: nessa civilização encontramos um valioso exemplo de como as expressões
literárias e musicais se entrelaçam na vida dos povos. Esta relação está plasmada nos livros
Vedas. Estes livros são um conjunto de quatro escritos em sânscrito, de caráter religioso,
dentro dos quais se fixa, detalhadamente, os diferentes rituais do brahmanismo.
Especificamente no livro chamado Samaveda – Veda dos cantos rituais – estão plasmados até
os modos vocais em que devem ser executadas as canções para os rituais.
3- Povos pré-colombianos: entre os habitantes nativos da América Latina destacamos
as civilizações astecas, maias, incas y guaranis em especial, pois tinham em suas estruturas
sociais uma relação estreita entre as diferentes áreas e a música. Séculos depois da conquista
da América os catequizadores, ao aprender a língua dos nativos, passam a relatar essa relação
ao recopilar as histórias, hábitos e costumes desses povos. Exemplo disso é o Chilan Balan e
o Popol Vuh, dois grandes escritos que sobreviveram até nossos dias. São uma coleção de
textos que expõe a criação do mundo, do homem e dos animais, calendários e rituais. Ditos
escritos, influenciados pela visão dos conquistadores, foram traduzidos a vários idiomas como
o Espanhol e o Francês.
As primeiras composições musicais estavam relacionadas, diretamente, com a
transmissão de valores e costumes próprios de cada cultura. Essa relação estava ligada a atos
da vida cotidiana, religiosa, cultural e política. Nesse sentido, Loverlock (2001, p. 6-7)
registra: “a história do desenvolvimento de uma arte não pode ser tratada isoladamente. A
música, tal como a pintura, a escultura ou a arquitetura, tem sido afetada continuamente por
fatores externos, em espacial as condições e mudanças eclesiásticas e sociais”. Desde suas
origens também a literatura passou, ao igual que a música, por sua forma oralizada de
expressão e esteve sujeita às condições sociais vigentes em cada sociedade que a adotou como
forma especial de arte. É a tradição oral que nos deu o nascimento das historias, fábulas,
lendas, contos, e tantas outras formas de criação que cada povo utilizava e, assim, construía
seu legado artístico, histórico e cultural. Esses conhecimentos se transmitiram de geração em
geração, em rituais quase sagrados em muitas culturas, perpetuando-se ao longo dos séculos.
AS CONFLUÊNCIAS

As artes, como no exposto anteriormente, sempre tiveram um ponto central em suas


interelações: a necessidade do ser humano em comunicar-se. Por meio delas, o homem
conseguiu se expressar e, portanto, abranger com suas criações diferentes partes das
sociedades. As artes cumpririam, assim, um papel estético e social e não foram somente meio
de mero divertimento.
Seguindo nessa linha de pensamento sobre a atuação das artes na sociedade,
mencionamos que a música do rock nasceu como uma resposta aos cânones rígidos da
sociedade estadunidense dos anos 50 que impunha o “modelo de vida americana”. Os jovens
não encaixavam nesse cenário dos Estados Unidos, conforme registra Sergio Pujol em Las
ideas del rock:

Al promediar los años 50, la expresión rock and roll se impone en el ámbito
de la música popular norteamericana y en seguida se exporta a todo el
mundo. Una exportación lingüística revelaría escasa novedad en las voces
combinadas de rock y roll, pero el maridaje tiene una carga explosiva. A
poco de andar, salta a la vista que aquello está protagonizado por jóvenes
que cantan y tocan para jóvenes. […] Pero no se trata sólo de juventud. Si
nos atenemos a los informes sociológicos de aquellos años (Passerini:
1996), el joven norteamericano promedio es conservador y apático. […] El
rock and roll, en cambio, es rebelde. (PUJOL, 2007, p. 15).

O espírito contestador do Rock esteve presente desde sua concepção, abrangendo uma
faixa etária própria da juventude que, ainda hoje, prima por este estilo musical. Além disso, o
autor destaca que pouco depois do seu nascimento, este estilo musical se expandiria para o
mundo todo, chegando, assim, a formar a grande cultura desta música que é conhecida hoje.
O Rock chegou a se diversificar das mais variadas formas, incorporando elementos de
outras áreas e estilos de música. Nesse sentido Pujol menciona, como exemplo, o rock
“Sinfônico”. O autor comenta que

[…] los pastiches eruditos del rock abundan y los críticos se han dedicado a
descubrirlos, como en un juego: la ‘Suite en re mayor’ de Bach en ‘A whiter
shade of pale’ de Procol Harum; el ‘Boureé’ de la ‘Suite en mi menor’ –
otra vez Bach, un favorito – en el tema homónimo de Jethro Tull; el
completo Cuadros de una exposición de Mussorsky grabado por Emerson,
Lake & Palmer, una de las Gymnopedie de Satie en versión de Blood, Sweat
& Tears. (PUJOL, 2007, p. 106).
Percebe-se que a música erudita é acolhida por aquela que há duas décadas fazia-lhe
frente, desenvolvendo, desse modo, um novo conceito dentro do Rock. Contudo, a música do
rock que se estendeu ao longo do globo, foi assimilada pelas diferentes culturas que a sua vez
criaram produções com características próprias. Tal é o caso da canção “I Can't Get No
Satisfaction” da banda de rock inglês The Rolling Stones, lançada em 1965. Essa canção teve
uma versão interpretada pelo brasileiro Edson Cordeiro, em parceria com a cantora Cassia
Eller. Tal produção musical mistura em sua composição, partes da ária da Rainha da Noite da
ópera Die Zauberflöte (1791), em português A Flauta Mágica. Vejamos, abaixo, como nessa
nova versão, as duas obras formam um conjunto harmônico que, na interpretação dos artistas
brasileiros, adquire ainda uma tonalidade especial:

I can get no satisfaction Satisfaction


I can't get no Verstossen sei auf ewig
Satisfaction Verlassen sei auf ewig
I can't get no Zertrümmert sei'n auf ewig
Satisfaction Alle Bande der Natur,
And I try Verstossen, verlassen, und zertrümmert
And I try Alle Bande der Natur
And I try I can't get no
And I try I can't get no
I can't get no Alle Bande der Natur
Satisfaction When I'm driving my car
I can't get no And that man comes on the radio
Satisfaction And is telling me more and more about
Meine Tochter nimmermehr Some useless information
I can't get no Hört! Hört!
I can't get no Hört der Mutter Schwur!
I can't get no I can't get no

Percebe-se, nesta obra, a mistura interessante entre o rock e a música acadêmica


entrelaçando-se, não só pela música em si, mas, também no sentido literário das letras que a
compõem. Enquanto a letra do rock envia uma mensagem de uma insatisfação, a letra da ária
da Rainha da noite, nesse trecho, expressa uma atitude de condenação, estabelecendo um jogo
entre o sentido de querer e buscar por satisfação, mas que essa é uma atitude totalmente
condenada até por não ser vista como natural. Tal contrate entre o desejo, a busca e a
condição não realizada ganha muito em representação pela interpretação feita em dueto por
Edson Cordeiro e Cassia Eller.
Para a seguinte análise, o objeto de estudo é a reconhecida canção Monte Castelo, do
grupo Legião Urbana. Este é um claro exemplo de como as diferentes áreas desenvolveram
um caminho de integração na atualidade. Desta maneira os diferentes grupos artísticos e
literários conseguem promover uma verdadeira integração que, no passado, tanto enriqueceu
as expressões culturais de muitos povos e, da mesma maneira, continua esta parceria na
contemporaneidade já com uma consciência mais clara do que se pode gerar com essa
conjunção entre literatura e música.
Legião Urbana foi um grupo de rock brasileiro dos anos 90´, do século passado, que
realizou uma mistura entre um texto bíblico (1ºCorintios, 13: 1, 2) com versos do soneto
“Amor é fogo que arde sem se ver”, do português Luiz de Camões (1524-1580), na canção
“Monte Castelo”, cuja letra mencionamos abaixo:

Monte Castelo É um não querer mais que bem querer;


É solitário andar por entre a gente;
Ainda que eu falasse É um não contentar-se de contente;
A língua dos homens É cuidar que se ganha em se perder.
E falasse a língua dos anjos, É um estar-se preso por vontade;
Sem amor eu nada seria. É servir a quem vence, o vencedor;
É só o amor! É só o amor É um ter com quem nos mata a lealdade.
Que conhece o que é verdade. Tão contrário a si é o mesmo amor.
O amor é bom, não quer o mal, Estou acordado e todos dormem.
Não sente inveja ou se envaidece. Todos dormem. Todos dormem.
O amor é o fogo que arde sem se ver; Agora vejo em parte,
É ferida que dói e não se sente; Mas então veremos face a face.
É um contentamento descontente; É só o amor! É só o amor
É dor que desatina sem doer. Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse Ainda que eu falasse
A língua dos homens A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria. Sem amor eu nada seria.
Essa intertextualidade literária em conjunto com a interdisciplinaridade artística
possibilita uma nova mirada aos diferentes elementos que se conjugam nessa canção,
reunindo espaços, tempos e formas de expressões diferentes em um só objeto artístico. A
leitura/compreensão, em tais casos, passa a ser um processo de releitura crítica. Tais
entrecruzamentos e conjunções, a sua vez, necessitam ser compreendidos para que, no final, o
texto (ou objeto artístico) possa ser reconstruído pelo leitor/ouvinte quem é quem, por fim,
outorga a sua significação em seu novo contexto. Essa significação passa a existir para o
leitor/ouvinte crítico, conforme defende Sandra Nitrini (2000, 164-165), pois

[...] a intertextualidade introduz um novo modo de leitura que solapa a


linearidade do texto. Cada referência textual é o lugar que oferece uma
alternativa: seguir a leitura encarando-a como um fragmento qualquer
que faz parte da sintagmática do texto ou, então, voltar ao texto de
origem, operando uma espécie de anamnésia, isto é, uma invocação
voluntária do passado, em que a referência intertextual aparece como
elemento paradigmático “deslocado” e provindo de uma sintagmática
esquecida. Estes dois processos operando simultaneamente semeiam o
texto com bifurcações que ampliam o seu espaço semântico.

Esse processo de construção do sentido se amplia ainda mais quando a


intertextualidade se encontra presente em um objeto composto, híbrido e heterogêneo de
literatura e música. A conjugação obtida nessa canção de Legião Urbana2, que aproxima um
texto bíblico com um soneto clássico do século XVI e que é musicalizado no século XX,
expressa claramente o que Linda Hutcheon (1991, p. 157) comentou ao mencionar que “a
intertextualidade pós-moderna é uma manifestação formal de desejo de reduzir a distância
entre o passado e o presente do leitor e também de um desejo de reescrever o passado dentro
de um novo contexto”.
Nesse sentido, a busca pela compreensão é auxiliada pela intertextualidade que,
segundo Laurent Jenny (1979, 10) lança outro olhar sobre o texto primeiro e “o olhar
intertextual é então um olhar crítico: é isso que o define”. Essa nova perspectiva na qual se
expressam as mensagens primeiras reflete o que defende Julia Kristeva (1974, 64) como o
essencial neste dialogo entre textos, ao afirmar que “em lugar da noção de intersubjetividade,
instala-se a de intertextualidade e a linguagem poética lê-se pelo menos como ‘dupla’”. As

2
Esa banda lanzó su primer disco en 1985 y la canción “Monte Castelo” hace parte del trabajo “As quatro
estações”, de 1989, por la grabadora EMI Music.
tantas possibilidades de leitura do texto poético/artístico e musical demonstram como é
significativa essa conjunção entre as artes e os diferentes gêneros textuais na
contemporaneidade. E é nesse contexto atual de mutuas relações entre literatura e outras artes
que a afirmação de Julia Kristeva (1974,176) de que “todo texto se arma como um mosaico de
citações; todo texto é a absorção e transformação de outro texto” gana seu sentido, revelado
em produções como nessa canção “Monte Castelo”.
Para a seguinte análise valemo-nos da canção “Inconsciente colectivo”. Esta é uma
reconhecida música do rock argentino, composta pelo músico Charly García, que foi gravada
pela primeira vez no ano de 1982. Tal obra pertence ao álbum “Yendo de la cama al living”, e
destaca-se que esta produção foi considerada como um dos melhores disco do rock argentino,
pela revista “Rolling Stone”. A estreia da “Inconsciente colectivo” foi realizada em 1980. Esta
canção de García, adquire ainda mais importância pelo fato de ser cantada pela cantora
folclórica argentina Mercedes Sosa que, segundo a pesquisa, significou um fato histórico por
ter rompido com o preconceito entre a impossibilidade de misturar a música do rock com a
música folclórica argentina. A seguir mencionamos a letra da canção:

Inconsciente Coléctivo pero ella siempre está.


Mercedes Sosa Ayer soñé con los hambrientos, los locos,
los que se fueron, los que estan en prisión.
Nace una flor, todos los días sale el sol, hoy desperté cantando esta canción,
de vez en cuando escuchas aquella voz que ya fue escrita hace tiempo atrás
como de pan, gustosa de cantar y es necesario cantar de nuevo una vez
en los aleros de la mente con las más...
chicharras.
Pero a la vez existe un transformador
que se consume lo mejor que tenés,
te tira atrás, te pide más y más,
y llega un punto en que no querés.

Mama la libertad,
siempre la llevarás
dentro del co - ra - zón,
te pueden corromper,
te puedes olvidar,
O fato de ter sido cantada por uma das figuras mais importante do folclore argentino
deu relevância à letra na qual o desejo de liberdade é claramente marcado, pois relembra que
o término da ditadura na Argentina estava chegando a seu final.

REFERÊNCIAS

BARTHES, R. O rumor da Língua. Trad. Mário Larangeira. São Paulo: Brasiliense, 1988.
BERTI, E. Rockología:documentos de los ´80. Bs. As: Ed. Galerna. 2012.
COUTINHO, E. A reconfiguração de identidades na produção literária da América latina. IN:
CARVALHAL, T. F. Culturas, Contextos e Discursos – Limiares Críticos no Comparatismo.
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GONZÁLEZ CANTOS, M. D.; SOLER FIÉRREZ, M. P.; RODRÍGUEZ MARÍN, R. Glosa
Lengua y Literatura 3. Barcelona: Ed. Vicens Vives. 1996.
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CARVALHAL, T. F. Culturas, Contextos e Discursos – Limiares Críticos no Comparatismo.
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PUJOL, S. Las ideas del rock: genealogía de la música rebelde. Rosario: Ed. Homo Sapiens.
2007.