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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Centro de Filosofia e Ciências Humanas


Instituto de História
Programa de Pós-Graduação em História Social

Francisco Aimara Carvalho Ribeiro

Terratenentes-Mercadores:
tráfico e sociedade em Cabo Verde, 1460 - 1613

2011
ii

Dissertação de Mestrado

Terratenentes-Mercadores:
tráfico e sociedade em Cabo Verde, 1460 - 1613

Mestrando: Francisco Aimara Carvalho Ribeiro

Orientador: Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em História Social
da Universidade Federal do Rio de Janeiro como
requisito parcial para a obtenção do título de
Mestre em História.

Rio de Janeiro
Junho de 2011
iii

Francisco Aimara Carvalho Ribeiro

Terratenentes-Mercadores:
tráfico e sociedade em Cabo Verde, 1460 - 1613

Dissertação de mestrado submetida ao Programa de


Pós-Graduação em História Social (PPGHIS),
Instituto História (IH), da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em
História.

Banca examinadora

________________________________________________

Presidente, Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso


Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (orientador)

________________________________________________

Prof. Dr. Roberto Guedes Ferreira


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ (arguidor)

________________________________________________

Prof. (a) Dr (a). Mônica Lima e Souza


Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (arguidor)

Rio de Janeiro
Junho de 2011
iv

Ribeiro, Francisco Aimara Carvalho.


Terratenentes-mercadores: tráfico e sociedade em Cabo Verde, 1460-1613 /
Francisco Aimara Carvalho Ribeiro. – Rio de Janeiro: UFRJ/IH, 2011.
xi; 99f.
Orientador: João Luís Ribeiro Fragoso
Dissertação (mestrado) – UFRJ/ PPGHIS/ Programa de Pós-Graduação em
História Social, 2011.
Referências Bibliográficas: f. 92-99.
1. Portugal – Cabo Verde – Período colonial. 2. Império Ultramarino
Português – Época Moderna. 3. Senegâmbia - História. 4. Tráfico de escravos. 5.
Escravidão. I. Fragoso, João Luís Ribeiro. II. Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Social. III.
Título.
v

RESUMO

Este trabalho tem por objetivo apresentar as condições em que se deu o tráfico de
escravos na região da Senegâmbia, ou Alta Guiné, na África Ocidental (compreendida
entre o rio Senegal e a Serra Leoa) a partir do estabelecimento português no arquipélago
de Cabo Verde, onde, em consequência deste comércio, se formou uma sociedade nos
moldes coloniais, nos séculos XV e XVI. Nossa hipótese é de que, em Cabo Verde, a
colonização se deu em função do tráfico de escravos, ou resgate de cativos, como
aparece nas fontes coevas. Portanto, o tráfico de escravos constituía a principal
finalidade da colonização das ilhas neste período, na medida em que a própria produção
econômica das ilhas era voltada para atender as necessidades comerciais do mercado
fornecedor de escravos da Senegâmbia. Ao mesmo tempo, as ilhas serviam de
entreposto de escravos para a exportação para as outras ilhas atlânticas e para a
América. Por supormos que a importância de Cabo Verde, neste negócio escravista
tenha sido maior durante o século XVI, delimitamos o recorte temporal da pesquisa
desde a descoberta do arquipélago até o início do XVII. Neste sentido, estudamos a
constituição de uma elite de terratenentes-mercadores, responsáveis, ao mesmo tempo,
pela produção dos artigos que funcionariam como moeda de troca na costa africana e
pela armação dos navios mercantis para aquelas paragens. O foco da análise incide na
trajetória do mulato natural de Cabo Verde, o Cavaleiro de Cristo de nome André
Álvares de Almada, compreendida como uma plataforma para examinar o
funcionamento da sociedade das ilhas e as conexões de sua elite no mundo Atlântico em
formação.

Palavras-chave: Império Português; Cabo Verde; Escravidão; Tráfico de escravos.

Rio de Janeiro
Junho de 2011
vi

ABSTRACT

This research aims to present the conditions in which it has been developed the slave
trade in the region of Senegambia, Upper Guinea and in West Africa (between the
Senegal river and Sierra Leone) from the Portuguese settlement in the Cape Verde
archipelago, where, as a result of this trade, has appeared a colonial society in XVth and
XVIth Centuries. Our hypothesis is that in Cape Verde, the colonization was a result
either to the slave trade or to the rescue of captives, as the historical sources indicates.
Therefore, the slave trade was the main purpose of the colonization of these islands
during this period, hence all the economic production of the islands was directed to
attend the commercial necessities of the market which traded slaves from Senegambia.
At the same time, the islands served as a warehouse for slaves for exportation to other
Atlantic islands and to America. Due to the supposition that the importance of Cape
Verde in slavery business has reached its apex during the XVIth Century, we have
delimited the period of this research from the discovery of the archipelago until the
early XVIIth Century. As a consequence, we study the formation of an elite of
landowners and merchants, responsible either for the production of articles that served
as a bargaining coin on the African coast, and for the building of merchant ships to
those regions. Our analysis focuses the trajectory of a mulatto born in Cape Verde, a
Knight of Christ named André Alvares de Almada, understood as a platform to examine
the functioning of society of the islands and the connections of his elite in the formation
of the Atlantic world.

Keywords: Portuguese Maritime Empire; Cape Verde; Slavery; Slave trade.

Rio de Janeiro
Junho de 2011
vii

À minha querida irmã Maíra. Saudades.


Aos meus pais, Milton e Carlota, carinhosamente.
viii

AGRADECIMENTOS

Olhando hoje para o passado, acredito que a história desta pesquisa tenha
começado há muitos anos nas muralhas de Óbidos quando, ainda um menino, escutei da
boca de meu pai, com atenção e encantamento, o relato dos feitos do Rei Alfonso
Henriques na conquista daquela cidade. De lá para cá, meu fascínio pela Expansão
portuguesa tem me levado pelos mais variados caminhos, pelos quais encontrei muitos
novos temas para estudar e pessoas para me aconselhar, ajudar e trocar histórias
comigo.
É chegada, então, a hora de agradecer.
Em primeiro lugar agradeço à minha mãe, Carlota, e ao meu pai, Milton, por
sempre terem estado ao meu lado me apoiando e me guiando quando necessário em
minha trajetória até aqui.
A Naiara, minha companheira nesta jornada, que além de ser um exemplo de
dedicação e afinco em relação ao seu próprio trabalho, tem sido o meu porto seguro e
acalanto nos últimos tempos. Minha chance para amar.
Agradeço também aos meus familiares queridos, núcleo referencial que me
preserva no mundo: meus avós, Milton, Beatriz e Aparecida; meus tios, Paulinho,
Cecília, Antônio, Luciano e Fernando; meus primos, Caio, Pedro, Marcinha e sua linda
filha Carol, além do peralta Pedro Luciano. A Marina, grande amiga eleitora. Ao João
Calafate, meu tio consorte, grande amigo e um apaixonado por Cabo Verde. João foi
desde o início um entusiasta deste projeto e uma boa fonte de informações sobre a
cultura cabo-verdiana. À Conceição, que tem me educado e alimentado todos esses
anos.
Aos meus caros amigos, família que a fortuna me trouxe, Sereno, Flávio,
Bernardo, Emiliano e Léo sem os quais a vida não teria a menor graça, sobre tudo as
tardes de domingo. Aos meus confrades de Santa Teresa, Tonho, Fábio, Felipe e Kaled
um abraço caloroso e a certeza de que a vida é muito mais suave com boa companhia e
alegrias baratas. Meus cumprimentos ao meu amigo Tchalin, incomparável capoeirista e
único camarada cabo-verdiano que tenho; e aos demais camaradas capoeiristas do grupo
Aluandê, principalmente ao Contramestre Célio, pelas incontáveis rodas, papo e arte
que tornaram os últimos anos tão agradáveis.
ix

Agradeço também às pessoas que me acompanharam e me incentivaram desde


muito tempo ao longo da minha formação, sempre em curso, como ser humano. Meus
padrinhos Chico e Graça, minha prima emprestada Maria (emprestada sim, mas mais
parece um presente) e toda a grande família de amigos dos meus pais que me rodearam
de carinho, atenção e bom humor, Ruth, Tenório, Clarice, Vilma, Marília, Tonico,
Cláudia, Natércia, Lívia, Reiko, Ovídeo e Lurdinha.
Ao meu orientador, professor João Fragoso, não só pela leitura atenta e dicas
valiosas com as quais me orientou neste projeto, mas também por apostar nele. Pelas
inúmeras oportunidades que me foram dadas desde a graduação em sua pesquisa sobre
as relações entre senhores e escravos no Rio de Janeiro do século XVIII, ensinando- me
o cuidado e o trato das fontes, a importância de cada detalhe para tentar reconstruir
histórias a partir de fragmentos, muitas vezes, aparentemente, sem muito o que contar.
Pelo acompanhamento de toda a minha trajetória acadêmica até aqui e, sobretudo, pela
calma e tranquilidade que me transmitiu em momentos decisivos em que eu parecia
vacilar. Por me ajudar, sobretudo, a seguir adiante.
Ao professor Manolo Florentino pelo cuidado e atenção a mim dispensados
durante o curso de metodologia de pesquisa em História, nas conversas posteriores e
durante a sua participação em minha banca de qualificação de mestrado; ao professor,
Roberto Guedes, pela preciosa leitura e acompanhamento de meu trabalho desde a
qualificação; e, por fim, à professora Mônica Lima por aceitar arguir este trabalho de
pesquisa tão próximo de sua conclusão. A ela, minha sincera gratidão tanto pela
pesquisadora de História da África que é, quanto pelo exemplo de profissional do
ensino de História, papel que desempenha magistralmente há tantos anos e que nos
aproximou quando da minha formação como professor no Colégio de Aplicação da
UFRJ.
À professora Fátima Gouveia, in memoriam, que foi amiga e exemplo desde a
tenra infância e que, infelizmente, não me pôde dar o prazer de ler este trabalho. Em sua
homenagem, agradeço também ao seu filho Luigi, meu bom amigo.
Aos professores Carlos Gabriel Guimarães, Marcelo da Rocha Wanderley,
Mariza de Carvalho Soares, Aparecida Mota e Ronald Raminelli agradeço a leitura e os
conselhos no decorrer da fase de desenvolvimento desta dissertação.
Ao Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ, pelo apoio
institucional para a elaboração desta pesquisa, principalmente ao Coordenador Antônio
Carlos de Jucá Sampaio pela compreensão demonstrada diante do pedido de
x

prorrogação do prazo para a defesa da dissertação. Agradeço também às funcionárias


Rita e Sandra que sempre me trataram com muito respeito e consideração.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior - CAPES,
órgão financiador de minha pesquisa e um dos elementos essenciais do bom andamento
de meu trabalho, da minha formação acadêmica e cujo suporte pude contar no último
ano.
Aos professores e colegas com quem tive o prazer de dividir mesas de
comunicação e debate ao longo desta trajetória e que contribuíram com suas críticas
para enriquecer este trabalho: Alexandre Vieira Ribeiro, Andrea Marzano, Cecília
Guimarães, Ingrid Oliveira, Flávia Maria de Carvalho, Letícia Destro, Jonas Vargas,
Leandro Braga Andrade, Siméia Nazaré Lopes, Clara Farias de Araújo e Rafaela
Balsinhas.
Agradeço especialmente às professoras Marina Berthet e Ana Maria Mauad pela
maneira aberta e generosa com que sempre me receberam para conversar sobreas
dúvidas e anseios em relação à carreira de historiador.
Aos funcionários da Biblioteca São Paulo de Vasconcelos, do Real Gabinete
Português de Leitura, da Biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro e do Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro que tornaram
possível a consulta de bibliografia necessária e incontornável para a escrita desta
dissertação.
A todas estas pessoas, a minha leal gratidão. Com elas divido os méritos pela
conclusão desta etapa de minha vida acadêmica. Se o trabalho do pesquisador é um
exercício solitário de juntar caquinhos, certamente não seria possível sem o amparo de
uma vasta rede de relações que nos situa e nos promove. Afinal, nenhum homem é uma
ilha.
xi

SUMÁRIO

Introdução ...................................................................................................................... 1

Capítulo I – Cabo Verde e a Senegâmbia na montagem


do circuito Atlântico de tráfico de escravos .............................................................. 6
1. A Expansão portuguesa: uma revisão bibliográfica ............................................ 7
2. A Senegâmbia, ou “os Rios da Guiné do Cabo Verde” ..................................... 14
3. Cabo Verde e o comércio nos rios da Guiné ..................................................... 24
4. Considerações finais ........................................................................................ 29

Capítulo II – A sociedade cabo-verdiana e a formação do


Atlântico português ..................................................................................................... 30
1. Cabo Verde e o Império ..................................................................................... 32
a) Concessões mercantis e a dinâmica da
Expansão portuguesa no Atlântico .............................................................. 34
b) A consolidação do domínio português sobre o Atlântico
a partir da ocupação de seus arquipélagos ................................................... 37
2. As ilhas de Santiago e do Fogo: produção e demografia .................................. 39
3. Poder político, econômico e administrativo em Cabo Verde ............................ 41
a) A formação da sociedade colonial de Cabo Verde por intermédio do
terratenente-mercador e seu papel no tráfico (sécs. XV e XVI) .................. 43
b) Decadência dos terratenentes-mercadores (séc. XVII) ................................ 48
c) A família de André Álvares de Almada ...................................................... 48
4. Mestiçagem e poder local .................................................................................. 53

Capítulo III – O circuito atlântico de escravos nos séculos XVI e XVII ................ 63
1. A escravidão e o tráfico de cativos na África Ocidental ................................... 64
2. Cabo Verde e o tráfico atlântico ........................................................................ 69
a) A oferta de escravos africanos ..................................................................... 72
b) A procura americana .................................................................................... 76
3. Montagem da economia escravista no Novo Mundo ........................................ 83
4. Considerações finais .......................................................................................... 89

Conclusão ..................................................................................................................... 90

Referências Bibliográficas .......................................................................................... 92


Introdução

Nos últimos anos temos assistido a um crescente interesse da sociedade


brasileira e da historiografia nacional pelo estudo e debate de questões relativas ao
funcionamento do Brasil colonial no contexto do Império marítimo português, assim
como pela História da África e dos africanos na diáspora. Se por um lado a utilização
sistemática do conceito de império pôs em cheque e até mesmo substituiu uma visão até
então centrada na relação metrópole-colônia, por outro as políticas públicas de
promoção da igualdade racial e estudos acerca do tema da discriminação racial também
contribuíram para o desenvolvimento de pesquisas relativas à História da África e da
escravidão 1 no contexto do Império português.
Este trabalho se apresenta na conjunção destes dois temas, apresentando como a
formação da sociedade colonial portuguesa no arquipélago de Cabo Verde contribuiu
para a formação do Império português, para o conhecimento e constante contato com o
continente africano ao sul do Deserto do Saara, e para a construção do circuito do
tráfico de cativos no Atlântico e da plantation americana estribada na escravidão negra.
Se hoje a relevância de temas como a discriminação racial no Brasil, as cotas
universitárias e demais políticas de compensação e inclusão das camadas mais pobres da
população brasileira, que não coincidentemente tem se mostrado serem
afrodescendentes, está tão em voga em nossa politica interna e externa – como no caso
da visita recente do Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva ao Senegal,
quando se desculpou publicamente na Ilha de Goreia pelo papel do Brasil no tráfico de
escravos –, devemos em grande parte ao reconhecimento do papel desempenhado por
negros e mulatos na constituição política, territorial, cultural, linguística e histórica
brasileira. Este reconhecimento vem se afirmando pelos notáveis avanços da história

1
COSTA E SILVA, Alberto. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2002. Ver também, do mesmo autor, A enxada e a lança: a África antes dos
portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
2

social dos negros e mulatos no Brasil, a partir de novas leituras de nossa história
colonial revendo e rediscutindo conceitos propostos pelo luso-tropicalismo de Gilberto
Freyre, e de sua apropriação pelo salazarismo, a partir de novos paradigmas e
abordagens que demonstram os conflitos, negociações, acertos e, muitas vezes, a
violência das relações entre senhores e escravos.
Ao mesmo tempo em que vemos crescer o interesse por pesquisas referentes à
constituição do tecido social do Brasil Colônia e das relações entre os diversos fios
deste tecido, passamos a compreender a América portuguesa não mais apenas como
uma colônia dependente da metrópole, ou numa relação exclusiva com a mesma.
2
Trabalhos seminais de João Fragoso como o Antigo Regime nos Trópicos e Nas
3
rotas do Império contribuíram para a percepção da história nacional conectada às
diversas partes do Império marítimo português – para usar a expressão cunhada por
Boxer. Estes trabalhos aproximaram muito a produção historiográfica nacional de novos
interlocutores do outro lado do Atlântico incentivando a cooperação entre historiadores
brasileiros e portugueses para o entendimento mais abrangente possível deste mundo
português do qual o Brasil fazia parte.
A América portuguesa é hoje compreendida como parte de um conjunto
heterogêneo de possessões ultramarinas, que tinham sua relação com a metrópole
extremamente influenciadas pelas conjunturas específicas e processos históricos de cada
ocupação. Assim, a noção rígida de uma metrópole centralizadora e uma colônia
obediente dá lugar à percepção das diversas relações de poder entre o centro e a
periferia, na figura de suas elites locais, de acordo com o caráter corporativo de uma
sociedade de Antigo Regime. Para tal, a concepção de monarquia pluricontinental
portuguesa, de Nuno Gonçalo Monteiro,4 se apresenta como fundamental.
Neste sentido, para perceber os elementos que influenciaram na formação da
sociedade escravista colonial em Cabo Verde, pretendi estudar e apresentar nesta
dissertação de mestrado como se organizava política e economicamente o continente
africano próximo ao arquipélago durante o início de sua colonização entre fins do
século XV, ao longo do século XVI e princípios do século XVII. Os esforços para a
compreensão e apresentação de respostas a este problemas estão expostos no primeiro

2
FRAGOSO, BICALHO & GOUVEIA. Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa
(séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
3
FRAGOSO, João... [et al.], organizadores. Nas Rotas do Império: eixos mercantis e relações sociais
no mundo português. Vitória: Edufes; Lisboa: IICT, 2006.
4
MONTEIRO, CARDIM & SOARES (Coord.). Optima Pars: elites ibero-americanas do Antigo
Regime. Lisboa: ICS, 2005.
3

capítulo deste trabalho. O segundo capítulo se concentra na organização e construção da


sociedade colonial cabo-verdiana no mesmo período, enquanto o terceiro busca
apresentar e analisar os dados que foram possíveis coletar a respeito do funcionamento
do tráfico transatlântico de escravos africanos a partir do arquipélago de Cabo Verde, de
seu volume e de sua relação com a totalidade do tráfico africano nos séculos XVI e
XVII.
A pesquisa historiográfica nos campos da História da África e, sobretudo, da
Época Moderna guarda alguns desafios a serem contornados. Dentre eles, o principal é,
sem dúvida, a existência, conservação e o acesso a fontes primárias que nos deem
testemunho da aventura dos primeiros habitantes portugueses do arquipélago, de sua
relação com o continente próximo e com as diversas pontas do emaranhado de redes
comerciais e administrativas que formavam aquele mundo em expansão.
Felizmente o esforço copista das escolas histórico-geográficas que se
multiplicaram pela Europa em finais do século XIX e inícios do século XX nos legou o
mais precioso bem para um jovem historiador brasileiro da historia da África
portuguesa. Graças aos esforços de historiadores como Senna Barcelos e,
principalmente, do Padre António Brásio, em estudar, compilar, transcrever, editar e
5
publicar em sua Monumenta Missionária Africana uma série de documentos
presentes na Torre do Tombo e nos arquivos públicos de Portugal relativos à presença
lusa no continente africano, hoje me foi possível ler e estudar cartas da câmara de
Santiago de Cabo Verde a Sua Majestade, saber quem eram seus vereadores e
signatários, as suas demandas, o que alcançaram, enfim, o próprio funcionamento da
dinâmica do império português naquelas paragens.
Está na segunda série da MMA, por exemplo, o Tratado Breve dos Rios da Guiné
de Cabo Verde escrito pelo Cavaleiro de Cristo e mulato natural de Cabo Verde, André
Álvares de Almada, que nos serviu de principal suporte para apresentar, no primeiro
capítulo, a conjuntura política africana do período estudado. Assim como também está
na MMA o provimento de André de Almada como Cavaleiro de Cristo com as devidas
6
objeções por conta de seu defeito de sangue e posteriores dispensas da Mesa de

5
Sobre isto, ver: SENNA BARCELOS, Christiano José. Subsídios para a História de Cabo Verde e
Guiné. Tipografia da Academia Real de Sciencias de Lisboa, 1899; e BRÁSIO, A. Monumenta
Missionária Africana, 1ª e 2ª Séries. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, publicada entre 1952 e 1968.
6
O lugar social de uma pessoa na sociedade de Antigo Regime era profundamente marcado pela sua
origem familiar. Para se tornar cavaleiro, uma pessoa deveria comprovar sua pureza de sangue, o que
significava atestar não possuir origem judia, negra ou indígena. Porém, o Rei poderia perdoar estes
4

Consciência e Ordem de Sua Majestade. Este precioso documento pôde nos servir para
exemplificar, no capítulo II, como a Coroa precisava relaxar seus estritos padrões sobre
a origem e o reconhecimento dos seus mais valorosos e leis súditos em terras tropicais,
principalmente em África.
Deste modo, com base na trajetória de Almada, foi possível corroborar a tese de
Iva Cabral de que, em Cabo Verde, muitos filhos de fidalgos da Casa Real eram mulatos
e constituíram, a partir de meados do XVI, a elite principal da terra, e foram
reconhecidos pela coroa como tal. 7
Documentos que testemunham a organização demográfica e política das ilhas
bem como a apresentação de suas elites locais através do período estudado também se
encontram na coletânea do Padre Brásio. Neste sentido, a Monumenta Missionaria
Africana constitui o maior fundo documental que sustenta esta dissertação.
No entanto, também encontramos documentação preciosa, muitas vezes para
efeito de comparação nos dois volumes do Corpo Documental da História Geral de
Cabo Verde,8 publicados na década de 1990. Aliás, a própria coleção HGCV,
coordenada por Luís de Albuquerque e Maria Emília Madeira Santos constitui uma das
principais fontes bibliográficas para a realização deste trabalho, tendo em vista a
qualidade da obra e a grande falta de estudos relativos ao arquipélago de Cabo Verde
existentes no Brasil.
O terceiro capítulo da dissertação trata das questões relativas ao tráfico de
escravos e ao estabelecimento de um circuito comercial atlântico de cativos,
comparando os números globais do tráfico no período estudado ao volume de cativos
exportado a partir de Cabo Verde. O objetivo central do capítulo é demonstrar o
crescimento e a importância do arquipélago como entreposto de escravos, assim como
relacionar a sua decadência com a perda de importância no mesmo circuito.
Para tal, foram fundamentais as informações reunidas no banco de dados The
Trans-Atlantic Slave Trade Database,9 de Eltis, Florentino e Richarson. Este banco de

defeitos se julgasse necessário. Sobre isto, ver o dossiê Pureza, raça e hierarquias no Império colonial
português, revista Tempo, volume 15, nº 30, Janeiro-Junho de 2011.
7
CABRAL, Iva. “Elites atlânticas: Ribeira Grande do Cabo Verde (séculos XVI-XVIII)”. In: Actas do
Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5
de Novembro de 2005.
8
ALBUQUERQUE & MADEIRA SANTOS (Coordenadores). História Geral de Cabo Verde. Volume
I. 2ª edição. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 2001. Ver também, MADEIRA SANTOS (Coord.). História
Geral de Cabo Verde. Volume II. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 1995.
9
ELTIS, D.; RICHARDSON, D.; BERHENS, S.; & FLORENTINO, M. The Trans-Atlantic Slave
Trade Database. (www.slavevoyages.com).
5

dados apresenta subsídios para o estudo de cada viagem negreira catalogada para a
América desde 1514 até meados do XIX, além de prover as estimativas mais
verossímeis acerca do volume global do tráfico e de sua progressão cronológica. 10
Com base nestas informações procurei analisar o número de viagens negreiras de
acordo com os locais de procedência e comparar com os resultados para os locais de
destino para saber de onde vinham e para onde iam os escravos africanos ao longo dos
séculos XVI e XVII. O recorte temporal deste trabalho obedece, portanto, os limites
cronológicos entre a descoberta e início da colonização de Cabo Verde e a grande crise
provocada pela sua perda de importância no tráfico atlântico de cativos. A consequência
da decadência de Cabo Verde como protagonista do tráfico transatlântico foi o
abandono do arquipélago pela elite branca de origem reinol, em inícios do século XVII.
Este processo é abordado principalmente nos capítulos um e dois, mas as explicações
para tal fenômeno aparecem claramente nos números apresentados no terceiro capítulo e
na apresentação do volume do comércio cabo-verdiano de acordo com cada período de
sua história.

10
Manolo Florentino utiliza as mesmas fontes para traçar um panorama do tráfico atlântico entre o XVI e
o fim do XVIII. Seu trabalho me foi apresentado pelo próprio após a sua participação em minha banca de
qualificação de mestrado e foi de grande ajuda para a confecção do terceiro capítulo. FLORENTINO,
Manolo. “Aspectos do tráfico negreiro na África ocidental (1500-1800)”. In: GOUVÊA, Fátima &
FRAGOSO, João. O Brasil Colonial, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, no prelo.
6

Capítulo I

Cabo Verde e a Senegâmbia na montagem do circuito Atlântico de tráfico de


escravos

As navegações portuguesas do século XV abriram para a Europa os caminhos do


Oceano Atlântico, trazendo para o universo europeu, logo de início, algo que até então
era marginal e tutelado pela intermediação dos árabes e berberes do Magrebe: o contato
com a África subsaariana.
Este capítulo se propõe a analisar as circunstâncias e o modo como se deu este
contato entre os portugueses e os povos autóctones da Senegâmbia, também chamada
Alta Guiné ou Guiné do Cabo Verde, a primeira região subsaariana a ter contato com os
portugueses. No entanto, a mera exposição de um elenco de fatos e informações sobre
as conquistas e acordos feitos pelos portugueses na Costa africana não faz parte dos
objetivos deste texto. Antes disso, gostaria de abordar as trocas culturais e econômicas
geradas a partir do comércio, com o estabelecimento de fortalezas e feitorias na Costa
africana. Ou seja, analisar os acontecimentos em decorrência da expansão marítima pelo
Atlântico a partir de um ponto de vista relacional entre os diferentes povos, práticas
culturais, políticas e necessidades econômicas que tiveram que se colocar de acordo
para desfrutar dos benefícios daquele encontro que, em última análise, mudou o mundo,
tornando-o cada vez mais sem fronteiras.
Nesse sentido o capítulo se divide em três tópicos principais. O primeiro
apresenta um resumo da expansão ultramarina portuguesa ao mesmo tempo em que
procura fazer uma revisão bibliográfica das principais obras da historiografia recente
sobre o assunto. Esta seção termina com a apresentação do arquipélago de Cabo Verde e
do estabelecimento português neste local como principal ponto de apoio para a
navegação no Atlântico e suporte para o contato com a Guiné.
7

O segundo tópico traz uma descrição dos povos da Costa e do contexto sócio-
político da Senegâmbia, ao passo que evidencia as formas de interação entre os
portugueses e cada uma das diferentes sociedades locais. Esta parte do texto se apoia
principalmente no relato do viajante cabo-verdiano André Alvares de Almada, que
escreveu o Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde, em 1594. Mas também
contribuíram para a formação de uma ideia do que era a região os relatos de viajantes
como: o veneziano Alvise de Cadamosto, que explorou os rios da Guiné – Senegal e
Gâmbia, principalmente – em meados do século XV, e a quem alguns autores atribuem
a descoberta do arquipélago de Cabo Verde; do diplomata magrebino Hassan al-
Wazzan, também conhecido pelo nome latino de Johanes Leo Aficanus, ou Leon, o
africano, que viajou através do Saara na primeira metade do século XVI; e alguns outros
relatos como o do inglês Richard Jobson, 1623, o do francês Alexis de Saint-Lo, 1637,
além do relato da viagem do florentino Francesco Carletti, entre 1594 e 1606. 11
Finalmente, a terceira e última seção deste capitulo se dedica a explorar e as
relações comerciais na região da Senegâmbia, com destaque para o tráfico de escravos,
mesmo anterior à chegada dos portugueses. Aqui, os esforços se concentram
principalmente em analisar o papel relevante dos homens de Cabo Verde tanto no
comércio norte-sul entre os reinos da região com no trato com a Europa e assim
encaminhar a discussão que será realizada no próximo capítulo, sobre a sociedade cabo-
verdiana.

1. A Expansão Portuguesa: uma revisão historiográfica

Com a conquista de Ceuta, em 1415, os portugueses se apoderaram de uma


importante cidade magrebina e uma das principais pontas do comércio transaariano de
ouro e escravos. A tomada de Ceuta pode ser encarada tanto como uma continuação da
Reconquista Ibérica contra os mouros – ou seja, motivada por uma ideologia religiosa
de guerra santa -, quanto como o início de uma jornada imperial lusitana, motivada
principalmente por aspectos econômicos. Segundo Vitorino Magalhães Godinho,12
mesmo que o fervor religioso da sociedade lusitana possa ter motivado a empreitada,

11
Infelizmente não pude comparar os relatos de cada um destes viajantes nesta dissertação. Porém,
pretendo fazer isto futuramente numa pesquisa de doutorado.
12
GODINHO, Vitorino Magalhães. O ―Mediterrâneo‖ saariano e as caravanas do ouro: geografia
econômica do Saara Ocidental e Central do IX ao XVI século. São Paulo: Coleção da Revista de
história, 1956.
8

certamente o importante papel desempenhado pela cidade de Ceuta como porto e praça
de comércio para ouro e os escravos que as caravanas traziam desde a cidade de
Timbuctu,13 do outro lado do Deserto do Saara, no Mali, estava entre os fatores
determinantes que levaram D. João I à empresa de sua conquista.
O debate sobre as motivações da Expansão portuguesa e dos descobrimentos que se
seguiram à conquista de Ceuta tem marcado a historiografia sobre o assunto desde
muito tempo. Um dos principais textos de época sobre os quais se debruçaram os
historiadores, Crônica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara,14 originou
duas linhas de interpretação distintas sobre as grandes navegações. Zurara era o cronista
oficial da Coroa portuguesa e buscava em seu documento justificar as ações lusitanas e
enaltecer os heróis de tamanhas façanhas. Principalmente o Infante D. Henrique,
retratado como um grande príncipe cristão, preocupado em procurar portos amigos
Além-mar onde seria mais seguro e lucrativo para comerciar, como o reino do Preste
João. A partir da crônica de Zurara, Jaime Cortesão defendia que os descobrimentos se
deviam à criação de uma classe de mercadores burgueses a serviço de uma mentalidade
nacional extremamente religiosa. Para ele, os objetivos econômicos da Expansão
estariam subordinados aos interesses político-religiosos da destruição do Islã e da
difusão da fé católica. 15 Por outro lado, Veiga Simões sustentava a ideia de que apesar
de argumentos religiosos e o espírito cruzadístico terem servido à Expansão, estes
apenas justificariam o anseio por rendas de uma sociedade em que uma burguesia
mercantil tinha cada vez mais espaço. 16
O historiador britânico Charles Boxer aparentemente conseguiu conciliar as duas
formas de pensamento, em O império marítimo português,17 ao afirmar que fatores
religiosos, econômicos, estratégicos e políticos confluíram para tornar possível a
expansão portuguesa. Vitorino Magalhaes Godinho, em A economia dos
descobrimentos,18 corrobora a ideia de que não se pode atribuir uma única diretriz para
a expansão, mas sim uma convergência entre a necessidade de novas rotas comerciais e
mercados para a burguesia crescente e o desejo da nobreza guerreira por mais
territórios, honras e mercês.
13
Também chamada como Tombouctu, no Mali.
14
ZURARA, Gomes Eanes de. Crônicas dos feitos da Guiné. Lisboa: Agência Geral das Colônias,
1949.
15
GODINHO, Vitorino Magalhães de. A economia dos descobrimentos portugueses. Lisboa: Livraria
Sá da Costa Editora,1962.
16
ALBUQUERQUE, Luís. Os descobrimentos portugueses. Lisboa: publicações Alfa, 1985.
17
BOXER, C. R. O império marítimo português, 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
18
GODINHO. Op. Cit. 1962.
9

Luís Felipe Thomaz, em De Ceuta a Timor,19 busca nas próprias contradições


internas da sociedade portuguesa as razões para a expansão. Segundo ele as razões para
a Expansão seriam: a presença de uma nobreza empobrecida e decadente após a crise do
século XIV; mudanças jurídicas limitadoras dos privilégios da nobreza e fortalecedoras
do poder monárquico, como a Lei Mental, de 1434; a liberdade e o apoio de que
gozavam os mercadores instalados em Lisboa junto à Corte; e a necessidade da jovem
dinastia de Avis em se afirmar e construir alternativas que permitissem a Portugal ao
mesmo tempo manter a vizinha Castela afastada e a sua própria nobreza sob controle.
Assim, a expansão serviria como uma válvula de escape para as tensões internas do
reino.
Deste modo, a expansão portuguesa contemplou tanto aos interesses daqueles que
buscavam o alargamento das fronteiras comerciais, quanto àqueles que desejavam o
aumento territorial. Durante o século XV, dois impérios estavam em construção em
Portugal, um marítimo e comercial, enchendo o mundo de feitorias com mercadorias de
todas as partes cruzando os mares, e outro guerreiro e territorialista se agarrando com
todas as forças às conquistas no Marrocos.
Ambas as iniciativas de conquista compartilhavam da justificativa religiosa para
legitimar seus esforços. Portugal era um reino extremamente católico, com um
sentimento cruzadístico bastante arraigado desde a Reconquista. As concepções de
mundo e a própria ordenação social do reino se baseava nos princípios da escolástica
católica. Neste sentido, cabe ressaltar que a religião servia de justificativa para muitas
guerras consideradas justas. De acordo com Maria do Rosário Pimentel, as motivações
religiosas constituíam o principal arcabouço teórico, principalmente a nível jurídico, da
ação político-militar e, não vejo por que não acrescentar, da ação econômica também.
Nos documentos políticos emitidos pelo Vaticano podemos identificar como o
Papado podia servir de árbitro entre as diversas potências europeias e, ao mesmo tempo,
justificar as ações destas potências em nome da fé. Várias bulas papais concedem aos
reis de Portugal ora o direito de escravizar os pagãos e os infiéis, sob o pretexto da
evangelização, ora garantem aos mesmos a soberania dos territórios descobertos ao sul
do cabo Bojador, em detrimento das outras nações da cristandade ocidental.20

19
THOMAZ, Luís Felipe Ribeiro. De Ceuta a Timor. Lisboa: Difel, 1994.
20
Breve “Pro Parte Tue” de Julio II, 31 de Janeiro de 1508. In: BRÁSIO, António. Monumenta
Missionária Africana, 2ª série. Volume II. Doc. 12. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1958. Concede
a D. Manuel I utilizar o trabalho dos infiéis, sendo em proveito da propagação da fé católica.
10

Segundo António Manuel Hespanha, não há um padrão evidente na forma como se


deu a expansão portuguesa. “Ou seja, a heterogeneidade de laços políticos impedia o
estabelecimento de uma regra uniforme de governo ao mesmo tempo que criava limites
ao poder da Coroa e de seus delegados.” 21
Neste sentido, Boxer afirma que, na falta de uma estratégia ou de uma constituição
de projeto colonial coeso, instituições como as câmaras e as misericórdias de cada
localidade do império marítimo português serviram para dar corpo e unidade ao mesmo.
Vejamos como se desenvolveu o império marítimo, o que mais nos interessa.

21
HESPANHA. A. M. “A constituição do Império português. Revisão de alguns enviesamentos
correntes”. In: FRAGOSO, BICALHO & GOUVEIA. Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial
portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
11

Mapa 1: Expansão portuguesa no Atlântico


12

A conquista de Ceuta de pouco adiantou para os portugueses se firmarem no


lucrativo comércio transaariano. Segundo Costa e Silva, os árabes e berberes
marroquinos – controladores do trato através do Saara – não estavam interessados em
fazer negócio com os portugueses. A concorrência dos mercadores lusitanos também
não era interessante para muitos mercadores da península itálica que costumavam vir
tratar no norte África. Sendo assim, a maior parte das caravanas que iam para Ceuta
mudaram seu destino final, deixando os portugueses à margem comércio das caravanas
com os povos ao sul do deserto do Saara. 22
Mas, se a via terrestre para os mercados subsaarianos era de difícil acesso e
praticamente inacessível àqueles que não dominassem os caminhos do deserto e
estivessem amparados em redes muito bem consolidadas de confiança, crédito e
segurança – como aquelas estabelecidas pela rota das caravanas – havia ainda a
possibilidade de alcançar as mesmas regiões por mar.
Graças aos avanços técnicos náuticos – que permitiam desde algum tempo
viagens do Mar do Norte ao Mediterrâneo – à contínua exploração marítima e aos
acúmulos de conhecimento tanto sobre as correntes do Atlântico quanto da leitura dos
astros necessária para se guiarem em alto mar, os portugueses, primeiro, e os demais
europeus, imediatamente após, foram capazes de tornar rápido e viável viajar pelo
Oceano Atlântico.23
Deste modo, ao longo do século XV, os portugueses rumaram cada vez mais ao
sul na costa africana. Diante da dificuldade inicial em transpor o cabo Bojador
margeando a costa, as embarcações precisavam se distanciar cada vez mais do litoral,
descobrindo, ou “redescobrindo”, as ilhas atlânticas africanas. Em 1534, a passagem
pelo cabo Bojador e o regresso seguro das embarcações que haviam vencido o “mar
tenebroso” inaugurou um novo caminho para o sul.
Assim, os pilotos lusitanos começaram a tomar conhecimento das correntes
atlânticas que se tornariam verdadeiras “estradas” para a expansão geopolítica e
comercial europeia através dos séculos seguintes.
A ação portuguesa nas costas africanas visava deslocar as caravanas
transaarianas que rumavam para o norte, ou pelo menos parte delas, para negociar com
eles no litoral. O primeiro entreposto para este fim foi Arguim, na atual Mauritânia. Ali,

22
COSTA E SILVA, A. da. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2002.
23
THORNTON, J. A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2004.
13

desde a década de 1440, se trocava tecidos, cavalos e trigo por goma-arábica, ouro e
escravos. A presença cada vez mais frequente dos navegantes portugueses ao sul do
Deserto do Saara na Costa Ocidental africana trouxe duas consequências imediatas para
a região: primeiro, a necessidade dos portugueses de estabelecer um assentamento
seguro para se instalarem e participarem do lucrativo comércio da região – coisa que
encontraram no arquipélago de Cabo Verde; segundo, a chegada dos navios mercantes
lusos fez com que efetivamente parte das caravanas se deslocasse para comerciar com
eles no litoral, mudando a configuração interna dos poderes políticos e econômicos do
continente – principalmente na Senegâmbia, área defronte ao estabelecimento
português.
É curioso notar, como a ocupação dos arquipélagos atlânticos descobertos
durante a exploração do oceano pelas naus portuguesas serviu ao comércio marítimo
assim como os oásis serviam para as caravanas no deserto. Desta maneira, os
portugueses constituíram sua própria rede de amparo ao comércio e à navegação
transoceânica. Além de servirem de esteio aos navios amigos, as fortificações nestes
arquipélagos cumpriam o papel essencial de assegurar para Portugal a primazia do mar
e o monopólio da exploração dos mercados próximos.

Mapa 1: Cabo Verde e a Senegâmbia


14

2. A Senegâmbia, ou ―os Rios da Guiné do Cabo Verde‖ 24

“Quis escrever algumas cousas dos Rios da


Guiné [e] Cabo Verde, começando do Rio
Sanagá (sic) até à Serra Leoa que é o limite da
25
ilha de Santiago.”

Segundo Gonzalo Aguirre Beltrán, “o tráfico de escravos não adquiriu importância


até depois de os portugueses atingirem o Cabo Verde e cessarem de depender dos
26
muçulmanos para satisfazer suas necessidades de mão-de-obra.” Ora, aqui se
apresenta um elemento fundamental para a compreensão das motivações iniciais para a
ocupação de Cabo Verde: a anterioridade da escravidão e, portanto, do comércio de
escravos tanto na região da costa da Guiné quanto na Península Ibérica em relação à
chegada dos portugueses por ali.
Beltrán se debruça sobre as origens tribais dos escravos no México. Ele atribui
ao antigo costume romano de indicar a origem dos cativos em seus contratos de compra
e venda o fato de hoje podermos estudar a procedência dos cativos que formaram a
27
principal força motriz da colonização americana. Enquanto durante o período de
vigência do tráfico atlântico este costume servia para determinar características
somáticas e peculiaridades psicológicas dos cativos entendidos como mercadorias – a
altura e força ou sua disposição para o trabalho, por exemplo –, hoje a origem dos
escravos serve a dois objetivos principais: de um lado estudar os tipos físicos que
moldaram a população mexicana, neste caso particular, mas creio eu que o mesmo serve
para toda a América e parte do Atlântico; de outro lado, e o mais importante dos dois,
investigar a procedência dos cativos
fornece a chave que nos revela que culturas africanas intervieram na
integração do complexo colonial da Nova Espanha. Os negros não só
tiveram uma contribuição bilogical, mas, como portadores de cultura, eles
também ofereceram uma bagagem cultural, os restos da qual ainda estão

24
ALMADA, “Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde dês do Rio de Sanagá até os baixos de
Santa Ana de todas as nações de negros que há na dita costa e de seus costumes, armas, trajos,
juramentos, guerras…”. In: BRÁSIO, António. Monumenta Missionária Africana. 2ª série. Volume III.
Doc. 92. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1964.
25
Idem. Ibidem. Doc. 92.
26
BELTRAN, G. A. The Rivers of Guinea. The Journal of Negro History, Vol. 31, Nº 3, pp. 290-316.
(Jul. 1946). p. 290. “The slave trade did not acquire importance until after the Portuguese navigators
reached Cape Verde and ceased from that time to depend on the Mohammedans to meet their labor
needs”. (tradução minha).
27
BELTRAN, G. A. Historical Background. The Journal of Negro History, Vol. 31, Nº 3, pp. 269-289.
(Jul. 1946). p. 269.
15

presentes no México. A determinação da origem desses sobreviventes só


será possível quando sabemos que as culturas a partir dos quais são
28
derivados. (grifo meu)

Ora, se esta preocupação com as origens dos cativos serve para entender a
América de hoje, acredito que ela é ainda mais importante para o entendimento da
construção do circuito atlântico de tráfico de escravos, durante a qual o arquipélago de
Cabo Verde e seus colonos tiveram participação fundamental como agentes pioneiros e
intermediários. Investigar as origens dos cativos africanos comerciados ao longo do
XVI e princípios do XVII é o mesmo que investigar os limites da atuação dos
comerciantes de Cabo Verde.
O próprio Aguirre Beltrán se refere a Santiago do Cabo Verde como “o mais
importante centro de comércio de escravos no século XVI” e que os “Negros de Cabo
Verde”, ou aqueles que entraram com este nome no México nada mais eram do que os
“Negros da Guiné”,29 trazidos dos “rios da Guiné”, expressão de usada pelo morador e
vizinho de Santiago André Álvares d‟Almada para designar a região entre o Cabo Verde
e a atual Serra Leoa. Aliás, o relato de Almada, Tratado Breve dos Rios de Guiné do
30
Cabo Verde , será nosso mestre de cerimônia para a apresentação desta região, que
em sua maior parte hoje conhecemos por Senegâmbia, e dos povos que nela habitavam.
Em fins do século XVI, Almada é designado procurador pela câmara da Ribeira
Grande de Santiago para advogar junto ao Rei as causas dos vizinhos de Cabo Verde. A
principal queixa dos cabo-verdianos era o abandono de uma região tão produtiva para a
Coroa ibérica – neste momento estava em vigência a União Ibérica, 1580-1640 – diante
das investidas de negociantes de franceses, ingleses e holandeses. Para fortalecer a
presença portuguesa na região, Almada chega a sugerir o investimento na colonização
da Serra Leoa, onde tantos moradores de Cabo Verde haviam se lançado à própria sorte,
em detrimento do investimento na colonização do Brasil. Enfim, para justificar a
validade de suas demandas junto ao rei, este mulato natural do Cabo Verde elabora um
tratado que é uma preciosa descrição da região no período estudado. O tratado está

28
Idem. Ibidem. 269- 270. “it provides the key which discloses to us which African cultures intervened in
the integration of the new-Spanish complex. Negroes not only afforded a biological contribution but,
bearers of culture, they also offered a cultural bearing, the survivals of which are still present in Mexico.
The determination of the origin of these survivals will only be possible when we know the cultures from
which they are derived”. (tradução minha).
29
BELTRÁN, G. A. The Rivers of Guinea. Op. Cit. (Jul. 1946).
30
ALMADA, “Tratado Breve...”. Op. Cit.
16

dividido em dezenove capítulos, cada um apresentando um povo ou costume específico


da Costa da Guiné.
Segundo o Álvares d‟Almada, os rios da guiné formavam uma espécie de ilha,
pois se acreditava que estes rios nada mais eram do que os afluentes do rio Níger que
corriam para o oeste através dos reinos do Mali e de Timbuctu até desembocarem no
Oceano divididos em sete “braços”, desde a Baía de Arguim até Bissau. Somente entre
1795 e 1797, Mungo Park estabeleceu o fato de que o Níger corre do oeste para o leste,
e não o contrário.31
Quando os portugueses chegaram a esta região, os primeiros povos com os quais
tiveram contato e comerciaram foram aqueles que habitavam próximos ao Cabo Verde,
entre os rios Senegal e Gâmbia. Estes povos estavam organizados sob a administração
da Confederação dos Jalofos, que dominavam a região a partir do interior e tinham os
povos da Costa com seus tributários. A Confederação dos Jalofos fazia fronteira ao
Norte com o rio Senegal, ao Sul com o rio Gâmbia e à Leste com o Futa Toro senegalês,
terra onde vivia o povo fula – também chamado como fulo e atualmente são conhecido
como fulbe.

31
PARK, Mungo. Travels in the interior district of Africa. Realizado sob a direção da African
Association nos anos de 1795, 1796 e 1797. Londres, 1799. p. 195.
17

32
Mapa 3: A Confederação dos Jalofos na 2ª metade do XV

Como podemos observar no mapa 3 o povo jalofo propriamente dito habitava em


maior número no interior e tinha lá o centro de seu poder, controlando a passagem das
caravanas saarianas que atravessavam a região de norte a sul. A Confederação
dominava as províncias costeiras do Waalo, Caior (Kayoor), Baol, Sine (Siin) e Wuli.
Os jalofos eram negros islamizados. O explorador alemão Heinrich Barth, que
viajou pela região em meados do XIX, dá conta de que este nome lhes foi dado pelos
fulbe, em cujo idioma, olof significa negro. Sendo assim, jalofo seria uma corruptela de
olof, “negro”.33 Boubacar Barry afirma que a Confederação dos Jalofos formou-se
durante a crise de sucessão do Mansa Sulayman, chefe do poderoso Império do Mali
que dominava a região desde de o arco do Níger até as Costas da Senegâmbia, em
meados do século XIV.

32
Le Jalof dans la moitié du XVe siècle. Tirado de BOULÈGUE, Jean. Le Grand Jolof (XIIIe-XVIe
siècle). Blois - Paris: Façades - Karthala, 1987, p.12.
33
TAUXIER, L. Le noir de Bondoukou. Koulangos-Dyolas-Abrons, Paris, 1921, p. 14. Apud:
BELTRÁN, G. A. The Rivers of Guinea. Op. Cit. (Jul. 1946). p. 294.
18

A dissolução do antigo Império do Mali também contribuiu para a ascensão do


poderoso reino mandinga do Gabu, também chamado Kaabu, ao Sul do rio Gâmbia.
Estes eram os mesmos que receberam as naus do mercador veneziano a soldo do rei de
34
Portugal Alvise da Cadamosto a flechadas quando este por ali passou em meados do
século XV. Trataremos de apresentar melhor este Estado mais adiante no texto.
Almada descreve que, diferentemente dos fulos, os jalofos se organizam por
linhagens matrilineares, costume também observado entre os barbacins e mandingas. Os
homens usavam “batas, calças e carapuças, cabelos trançados. Levavam espadas de três
palmos e meio, sem guarda”. O autor ressalta ainda que estes negros são “bons
cavaleiros, milicianos disciplinados e homens de guerra”.35
De fato, os jalofos eram excelentes cavaleiros e lutavam a cavalo. Por esta razão,
estes animais tinham grande valor comercial na região desde a sua introdução pelas
caravanas séculos antes. Os cavalos eram extremamente importantes na guerra e para a
reprodução social, possuir cavalos e até mesmo crinas de cavalos era sinal de riqueza e
status social entre diversos povos da Costa. Entre os jalofos não era diferente. Aguirre
Beltrán cita que a entrada de jalofos chegou a ser proibida na ilha de Hispaniola (atuais
Santo Domingo e Haiti) em fins do século XVI, muito provavelmente por seu caráter
belicoso e sua extrema habilidade em combate a cavalo.36 No entanto a sobrevivência
destes animais em terras do mosquito Tsé-tsé e da doença do sono era extremamente
difícil, assim como a sua reprodução. A única solução era importá-los. Isto incentivou a
criação de cavalos pelos portugueses em Cabo Verde, como uma das grandes moedas de
troca para o resgate na Guiné. Este assunto será abordado mais detalhadamente no
capítulo seguinte quando discutirmos a ocupação do arquipélago de Cabo Verde.37
Almada afirma que os jalofos são grandes criadores de gado vacum e cabrum, mas
que seus cavalos, assim como os dos mandingas e berbacins vem da terra dos fulos. Isto
parece confirmar que a maior parte dos cavalos vinha através das caravanas e que estas
tendiam a não vender fêmeas para evitar a criação local e manter a clientela. Entretanto,
a incidência da doença do sono parece ser a razão mais adequada para a necessidade de
importação destes animais.
34
Alvise da Cadamosto (1432-1488) descobriu algumas das ilhas de Cabo Verde em 1455 e desbravou os
rios Gâmbia e Senegal. Sobre este navegador, ver MAURO, Alessandra, “Cadamosto, Alvise da”, in Luís
de Albuquerque [dir.],Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, vol I, Lisboa, Círculo
de Leitores, 1994, pp. 156-157.
35
ALMADA, “Tratado Breve ...” Op. Cit. Doc. 92.
36
BELTRÁN, G. A. The Rivers of Guinea. Op. Cit. (Jul. 1946). p. 292.
37
WEBB JR, J. The horse and the slave trade between the Western Sahara and Senegambia. The
Journal of African History, vol. 34, Nº 2 (1993), pp. 221-246.
19

Segundo o mesmo autor, os jalofos davam extremo valor ao sal, produto que era
trazido desde o rio Gâmbia por mercadores mandingas, o que alimentava o comércio
intra-regional muito antes da chegada dos portugueses. Somente os reis e senhores
jalofos tinham acesso ao sal e em troca davam ouro, escravos e panos finos. Porém,
após a chegada dos portugueses e sua instalação em Cabo Verde, estes últimos tenderam
a substituir os mandingas intermediando o comércio de sal na região. Ao que parece, os
resgates da guiné tornaram os portugueses os principais agentes comerciais locais,
dominando o comercio intra-regional também, além do trato com a Europa e a América.
Sobre os costumes dos jalofos, Almada indica que eles tinham entre seus hábitos se
alimentarem “galinhas pintadas” (hoje chamadas d‟angola), vacas, cabras, lebres,
coelhos e gazelas, além de arroz, milho (maçaroca e branco), gergelim, manteiga, mel e
leite. O que é particularmente interessante notar é que a maior parte destes alimentos foi
introduzida com sucesso nas ilhas do Cabo Verde e passou a fazer parte da alimentação
dos colonos, principalmente o milho.
Sobre as roupas e vestimentas, eram de muito bom algodão, tingido de preto, branco
ou anil. Nos portos do sul, no Wuli, durante muito tempo se comerciou com os
portugueses que intermediavam também o comércio local de couros, marfim, cera,
goma, âmbar e ouro e, sobretudo, escravos.
Ao longo dos séculos XV e XVI, a Confederação dos Jalofos e toda a região
passaram por abalos políticos, econômicos e populacionais motivados pelo desvio das
rotas tradicionais de comércio do interior para o litoral após a chegada dos portugueses.
Este fato concorreu para a mudança das configurações políticas e econômicas internas
da Confederação dos Jalofos, e contribuiu para o seu desmembramento, conforme as
províncias costeiras foram conquistando sua autonomia. A mudança do eixo econômico
fortaleceu principalmente os chefes militares locais, chamados sebbe (ceddo, no
singular), e sua violência arbitrária.
No final do século XVI, portanto, já não havia mais a Confederação dos Jalofos.
Tampouco os portugueses podiam comerciar naquelas paragens. Mas, embora durante o
período que escreve Almada, o rei do Caior, chamado Gudumel tenha expulsado os
portugueses dali para privilegiar o trato com ingleses e franceses, o comércio seguiu nas
mãos dos lançados afro-portugueses que dominavam as rotas mercantis terrestres e dos
rios da região. Homens como, por exemplo, o cristão-novo João Ferreira, natural do
Crato, a quem Almada atribui grande destaque por ter se tornado genro do Grande-Fula.
João era conhecido como Ganagoga, “aquele que fala todas as línguas”, em fula, e,
20

ainda segundo Almada, chegou mesmo a dominar o comércio de marfim na região com
a licença do senhor de Casão – que poderia ser provavelmente o porto de Casão, no
Wuli, ou a cidade de Kasa (ver mapa 3), que empresta seu nome ao rio Casamance –,
Mansa, vale lembrar, era o antigo título do chefe do Mali, significando senhor ou rei
entre muitos dos povos da região. 38
Ao sul de Caior, na margem norte do Gâmbia, aparecem os barbacins e os borçalos
de que nos fala Álvares d‟Almada. Ambos são povos sereres e aparecem em nosso
mapa como sendo os habitantes dos territórios de Sine e Salum, respectivamente. Estes
povos não eram islamizados e com eles viviam muitos lançados.
No final do século XVI, os babarcins estavam divididos entre os súditos do reino do
Gudumel de Caior, ao norte, e os do reino de Borçalo, ao sul. É provável que barbacins
sejam os Berbesi das listas de escravos no México que Gonzalo Aguirre Beltrán
consultou para o seu Tribal origins of slaves in Mexico. Barbacins cultivavam o milho,
o arroz, feijões, tomavam vinho de milho e vinho de Palma. Almada relata que eles
eram animistas, pois cultuavam a lua nova e as grandes árvores eram tidas como
templos onde se sacrificavam animais. Ao lado destes, estava o reino de Borçalo, onde
viviam barbacins, jalofos e mandingas, cada um com um capitão-governador designado
pelo rei.
O rio Gâmbia tinha, em fins do XVI, muitos reinos. Próximo ao reino de Borçalo
estava o reino mandinga de Cantor, vassalo do reino do Gabu, os senhores do rio
Gâmbia. Os habitantes de Cantor, ou Kantora, eram guerreiros bastante belicosos e
atacavam com azagaias extremamente peçonhentas. Não era qualquer navio que podia
subir o rio e tinham que estar sempre atentos à emboscadas, pois os mandingas
construíam fortalezas ao longo dos estreitamentos do rio. Almada destaca também que
ao longo do rio havia mais religiosos muçulmanos do que em qualquer outra parte da
Guiné.

E há da banda Norte três casas principais, como entre nós [portugueses]


[há] conventos, de grande religião e devoção entre eles, nas quais residem
estes religiosos e os que aprendem para este feito; a primeira é na boca
deste Rio [Gâmbia] (...); a segunda casa fica a setenta léguas desta primeira,
ao longo deste Rio (...) e chama-se o passo onde está este convento, Malor;
fica a terceira casa apartada desta segunda cinquenta léguas e da primeira
cento e vinte, em uma aldeia uma légua metida pela terra, chamada Sutuco.

38
ALMADA, “Tratado Breve ...” Op. Cit. Doc. 92.
21

O maior destes religiosos (...) chamam eles (sic) Ale-mane, e trazem anel
39
como Bispo. E todas estas três casas estão na parte Norte do Rio.

Estes religiosos andavam sempre com pequenos livros encadernados e material para
escreverem. E tinham bastante contato com caravanas de outros reinos da região. Os
principais produtos do resgate nesta área são “cavalos, roupa branca da Índia, contaria
da Índia, de Veneza, pano vermelho, papel, cravo, manilhas de cobre (...) e entre todas a
mais estimada é a cola, fruto que se dá na Serra Leoa e seus limites; e vale tanto neste
Rio, que dão tudo a troco dela, assim com roupa, escravos e ouro.”

Em 1578, nesta mesma cidade de Sutuco, no Wuli, à margem do rio Gâmbia (ver
mapa 3) Álvares d‟Almada encontrou as grandes cáfilas.

Na aldeia chamada Sutuco, há trato de ouro, que trazem ali mercadores


Mandingas, que também são religiosos; este ouro, que aqui trazem, vem o
mais dele em pó, e dele em peça é muito fino; estes mercadores são mui
entendidos, assim nos pesos como no mais; trazem balanças mui subtis,
marchetadas de prata, e cordões de retros; trazem uns escritórios pequenos
de couro cru, sem fechos, nas gavetas trazem os pesos, que são de latão, da
feição de dados; e o marco é como uma maça de espada; trazem este ouro
em canos de penas grossas de aves, e em ossos de gatos, escondido tudo em
atilhos metidos pelos vestidos; trazem-no desta forma, porque passam por
muitos Reinos, e são roubados muitas vezes, sem embargo de trazerem as
cáfilas capitães e gente de guarda. E cada cáfila que traz mais de mil
40
facheiros.

Provavelmente estas cáfilas vinham do reino Denyanke dos Fulbe, no Senegal, a “terra
do Grande-Fula, pois o tempo de viagem é o mesmo que as cáfilas fulas levavam no
século seguinte para viajar até o sul e comerciar com os ingleses. Este fato provocava
espanto nos franceses que tinham sua companhia de comércio no Senegal.

Em seu tratado, Almada faz menção a relatos na região de uma grande guerra,
cem anos antes do momento em que ele escreve, envolvendo fulas, mandingas e vários
outros povos da região que ainda aparecerão neste tópico, como, por exemplo,
cassangas, bunhuns, buramos e beafares. Esta guerra referida pelo autor foi muito
provavelmente a grande migração de fulas comandados por Kolly Tengela que
revolucionou a Senegâmbia em fins do século XV, que foi seguida pela ascensão do

39
Idem. Ibidem. p. 275.
40
Idem. Ibidem. p. 277.
22

reino Denianke, no vale do rio Senegal, e do reino do Gabu, entre o Casamance e o


Gâmbia.
Ora, enfim é chegado o momento de apresentar o reino do Gabu e os reinos dos
beafadas, na atual Guiné Equatorial, e dos sapes, na Serra Leoa, os últimos lugares em
que os homens de Cabo Verde conseguiam resgatar sem a interferência de franceses e
ingleses no final do século XVI.

O Gabu era um reino mandinga fundado em fins do século XIII após a migração
deste povo desde o arco-do-Níger. Eles eram tributários do Mansa do Mali, pois
conquistaram e governavam esta terra em nome dele. A organização dos povos da Costa
da Senegâmbia em sua maioria se dava da seguinte forma, como explica Almada sobre
o senhor de Kasa:

Sem embargo deste Rei ser poderoso, dá obediência a um Farim que é entre
eles como imperador, e este a dá a outro que fica por sobre ele, e desta
maneira vão dando obediência uns aos outros até irem dar ao Farim de
Olimansa, digo Mandimança, que é imperador dos negros, donde tomaram
41
este nome os Mandingas, e Casamansa, (...).

Ou seja, os reis a que ele se refere são os chefes locais, encarregados da justiça e
da arrecadação dos tributos a serem passados ao Farim, antiga designação para o
governador mandinga vassalo do Mali. O fato de ainda no final do século XVI, os
senhores de Kasa e do Gabu se intitularem Farim denota a primazia mesmo que
simbólica do Mandimansa, o Imperador do Mali.

Segundo Jean Boulègue,

ao sul do Gâmbia, a maior parte da região dependia em principio do


império do Mali, mas, desde o século XVI, isto não era mais que uma
autoridade de referência que se diluía através de múltiplas ligações. O
Mansa do Mali era representado por quatro grandes farins (farem, chefe,
42
em mandinga).

41
Idem. Ibidem. p. 298.
42
BOULÈGUE, J. “Présences portugaises et societés societés africaines sur la côte de la „Guinée du Cap-
Vert‟ aux XVIe et XVII siècles”. In: LANG, Jürgen. Cabo Verde: origens de sua sociedade e do seu
crioulo. Tübingen: Günter Narr Verlag. pp. 48-49. “Au sud de la Gambie, (...) la majeure partie de la
région dépendait en príncipe de l‟empire du Mali mais, dès le XVIe siècle, ce n‟était plus qu‟une autorité
de référence qui se diluait à travers de multiples relais. Le Mansa du Mali était representé par quatre
grands farins (faren, chef, em manding)”. Tradução minha.
23

Outro viajante a registrar tal disposição politica e social na região é André Donelha,
em 1615.

Através de relatos como os de Almada e Donelha e da análise de Boulègue,


sociedades de grande diversidade étnica que formam unidades politicas de dimensões
territoriais bastante restritas, às quais Almada chama de “reinos”, se apresentam diante
de nossos olhos. Toda esta diversidade, juntamente com a enorme distância e a
frouxidão de laços que separavam a Costa da Senegâmbia do império do Mali,
contribuiu largamente para a formação e ascensão de novos poderes ao ocaso daquele.
O fato de o Farim de Kasa assumir o título de Kasa-Mansa – inclusive emprestando este
nome ao rio –, por exemplo, só vem corroborar esta ideia. O mesmo se deu no reino do
Gabu.

Em todas estas terras e nos rios Casamance, Grande, São Domingos até a Serra
Leoa, os vizinhos de Cabo Verde tinham tratos e resgates, andando por toda a parte, se
instalando junto de falupes, buramos, beafares e sapes. Lutando e tentando se impor aos
hostis bijagós, muitas vezes se lançando à própria sorte sem o auxílio nem sequer
autorização da coroa portuguesa. Estes homens foram os pioneiros do comércio e da
colonização europeia na região – por isso eram chamados lançados ou tangomãos –,
asseguraram os investimentos iniciais para suportar o tráfico atlântico e sustentar a
ocupação do Novo Mundo. Claro que nisto muitos obtiveram lucro, não pensavam em
construir um projeto colonial, mas antes fazer fortuna. A forma com fizeram isto é o
nosso próximo assunto.
24

3. Cabo Verde e o comércio nos rios da Guiné

A presença portuguesa na Costa da Senegâmbia se apresenta segundo modalidades


diversas e apresentando em cena atores distintos. O Estado português se contentou em
assegurar e regular a ocupação do arquipélago de Cabo Verde e somente se envolveu
diretamente em ações no continente no final do século XVII, mesmo assim, em áreas
muito circunscritas.
Deste modo, o contato com os povos da Guiné se deu principalmente através dos
comerciantes, aqueles vindos de Portugal e, sobretudo, os comerciantes de Cabo Verde.
Isto por que desde 1466 os vizinhos da Ribeira Grande tinham o privilégio do resgate de
cativos e demais mercadorias na Guiné. Este direito concedido aos moradores de Cabo
Verde visava possibilitar a ocupação das ilhas, uma vez que o que realmente interessava
na região era o contato com o continente. Este assunto será exaustivamente tratado no
capítulo a seguir. Fato é que os habitantes do Cabo Verde, dada a sua proximidade
geográfica e mesmo cultural, estavam muitos melhor familiarizados com a região e
encabeçaram os contatos com a Guiné.
Muitos destes comerciantes tornaram-se lançados, vivendo entre os povos da Costa
e intermediando o trato com os europeus, tanto portugueses quanto franceses e ingleses,
mais tarde. Estes homens podiam vir diretamente de Portugal ou de Cabo Verde. Há
notícias de que um número considerável dentre eles seria de cristãos-novos.43 A coroa
portuguesa tentou proibir a prática dos lançados por diversas vezes e muitos
comerciantes de Cabo Verde atribuíam a sua falta de fidelidade nos negócios,
comerciando sempre com aquele que fizesse a melhor oferta, a perda de valorosos locais
de resgates no Caior e no rio Gâmbia.
Com o passar do tempo os lançados e seus descendentes passaram a formar
comunidades de afro-portugueses espalhados por toda a costa e a dominar o comércio
local. Já citamos o caso do cristão-novo João Ferreira, que se tornou genro do Grande-
Fula e dominava o trato de marfim entre os rios Gâmbia e Senegal, mas outro caso
curioso e ao mesmo tempo sintomático das características dos grupos de lançados é o de
Dona Catarina. Em 1681, o navegador inglês John Barbot a encontra na cidade de
litorânea de Rufisque, no Caior, e a apresenta como uma rica dama negra viúva de um

43
GREEN, Tobias. Creolization and jewish presence in Cabo Verde, 1497-1672. Tese de
Doutoramento defendida na Uuniversidade de Birmingham, Inglaterra, julho de 2006.
25

comerciante português. Ao que parece era costume nas comunidades afro-portuguesas


na região o comércio ser controlado por mulheres viúvas e lançados lusos.44
Tais comunidades lusas ou mesmo luso-africanas sempre precisaram contar com a
proteção e boa vontade dos chefes locais. André Álvares d‟Almada conta que antes do
resgate em Caior ser perdido para ingleses e franceses, ajudados pelos lançados, “o
maior trato que tinham os moradores da ilha de Santiago era para esta terra do Budumel,
no tempo que nela reinava um rei chamado Nhogor, muito amigo dos nossos”. Isto teria
sido num tempo de uma grande fome causada por gafanhotos, praga que também
assolava vez ou outra as ilhas do Cabo Verde. Durante este período, “se vendiam os
escravos por meio alqueire de milho ou feijão, e tiravam as mães os filhos de si e os
vendiam dizendo que mais valia viverem cativos do que morrerem de fome”.45
Entretanto, este ponto lucrativo de comércio foi perdido quando os cabo-
verdianos perceberam que o rei seguinte cobrava taxas elevadas deles e folgava com
franceses e ingleses. Em fins do XVI, já começavam a se afirmar por ali os franceses.
Segundo Almada, eram os lançados portugueses que intermediavam as trocas de
franceses e ingleses no Caior. “E estes portugueses são os que dão despachos aos
ingleses e franceses, adquirindo-lhes os despachos de rio em rio e muitas léguas pelo
sertão”.46
Já foi dito anteriormente que a região da Senegâmbia possuía rotas comerciais
estabelecidas num eixo norte-sul. Ao aportarem na região, os portugueses substituíram
gradualmente os mercadores locais, principalmente no trato de sal e cola. Com o tempo,
estas rotas, mesmo as terrestres passaram a ser controladas pelas comunidades luso-
africanas da Senegâmbia.47
Ao sul do Gâmbia, entretanto, os cabo-verdianos conseguiram estabelecer
praticamente um monopólio do comércio e do resgate de cativos. Entre o Rio
Casamansa e a Serra Leoa, os mercadores do Cabo Verde resgatavam constantemente,
muitas vezes com o acordo e proteção das comunidades locais. Junto às populações
autóctones, muitos cabo-verdianos fizeram moradia. Para apresentar os casos mais
conhecidos, utilizaremos o mapa abaixo das populações da Guiné do Cabo Verde.

44
BARBOT, John. Description of the Coasts of North and South-Guinea, and of Ethiopia Inferior,
vulgarly Angola, being a new and accurate Account of the Western maritime countries of Africa. In
six books, 1737.
45
ALMADA. Op. Cit. p. 251.
46
Idem. Ibidem.
47
Havia grupos de mercadores mandinga, depois identificados como diulas ou julas. Havia duas redes
principais de mercadores mandingas na região. Uma biafadas-sape, outra bainuk-bak.
26

Mapa 4: A Senegâmbia com a distribuição aproximada dos povos da Costa nos séculos XV e XVI

Entre os rios Cacheu e Geba viviam os buramos (no mapa, aparecem como Brame e
são atualmente chamados pepéis). Hoje esta região constitui o Estado da Guiné-Bissau e
à época de sua independência chegou a formar uma república unida junto com Cabo
Verde. As raízes desta ligação profunda entre os dois países atuais datam do século XVI
quando os vizinhos de Santiago liderados por Manuel Lopes Cardoso se organizaram
27

para construir, às margens do São Domingos, um forte para expulsar os ingleses dali e
assegurar para si o resgate naquele rio.Em fins do XVI, Almada informa que ao lado do
forte havia se formado uma aldeia com 800 habitantes entre brancos e negros. Todos
cristãos. No Tratado Breve, Almada pede que a aldeia, chamada Cacheu, seja alçada à
condição de vila.48

Outros relatos sobre a fundação de Cacheu dão conta de que ali os portugueses e
luso-africanos viviam misturados aos povos autóctones, mas não querendo mais viver
assim e temendo por sua segurança, os brancos fundaram uma aldeia só para eles e
tiveram a proteção das autoridades locais. Tornaram-se então, “danus di tcham”
(derivação em idioma kriol da expressão “donos de chão”, em português). Para isso,
pagavam tributos aos pepéis. A fundação desta fortificação não teve qualquer apoio da
Coroa portuguesa, sustentando-se inteiramente do esforço e da fortuna daqueles que iam
de Cabo Verde para lá traficar e da comunidade de luso-africanos que se formava ao
redor destes.

Para lá, iam feitores e padres desde as ilhas de Cabo Verde – Santiago era, desde
1532, sede do Bispado do Cabo Verde e da Guiné do Cabo Verde – para rezarem missa
e darem confissão aos cristãos que viviam no continente. Almada conta que o rei dos
buramos tinha o costume de assistir à missa, e que

pasmava este rei quando via que o feitor do rio, a quem eles tem em muita
conta, e todos os mais faziam muita conta de um clérigo preto por que em o
vendo se alevantava logo o feitor da cadeira em que estava sentado e lhe
dava, e o mesmo todos faziam. Dizia o rei e mais fidalgos que, sem
embargo daquele homem ser preto como eles, lhes faziam os [portugueses]
tanta honra por que falava com Deus. E o rei ia muito ao forte quando se
49
dizia missa.

Boulègue sustenta que “os luso-africanos que habitavam ao sul do Gâmbia, assim
como os cabo-verdianos que se instalaram temporariamente entre eles, podiam seguir
uma estratégia própria, diferente da de Portugal e da dos poderes africanos”, coisa que
aqueles que haviam se instalado no Caior, como João Ferreira ou Dona Catarina, não
podiam fazer. Diferentemente destes, os “danus di tcham” eram em sua maioria
descendentes de portugueses que se misturavam às comunidades matrilineares banhuns
e pepeis para construírem solidas redes comerciais.

48
ALMADA. Op. Cit. p. 298.
49
ALMADA. Op. Cit. p. 302.
28

Após Cacheu receber da Coroa portuguesa o “foro de cidade”, em 1605, o tráfico na


região só fez aumentar, levando Cacheu a desbancar Santiago como principal porto de
exportação de cativos na região. Entretanto, as comunidades luso-africanas, mesmo em
Cacheu, tendiam a respeitar interesses próprios, frequentemente diferentes daqueles da
Coroa portuguesa, como, por exemplo, a vocação para o livre comércio. Um caso
exemplar deste comportamento dos luso-africanos foi a revolta encabeçada pela rica
comerciante da família dos Vaz – descendentes de cristãos-novos e bijagós –, de
Cacheu, Nhá Bibiana Vaz, contra o governador português na região, em 1684-85. Na
ocasião, o governador chegou a ser aprisionado e levado para um armazém desta família
na cidade de Farim, rio acima. Porém, a revolta foi controlada, ainda que os
responsáveis não tenham sido punidos.50

Portanto, no conjunto da “Guiné do Cabo Verde”, os luso-africanos permaneceram


estreitamente ligados de diversas maneiras às sociedades africanas de onde eles tinham
saído. As escolhas políticas, estratégicas e até mesmo matrimoniais deste grupo, assim
como seu papel na economia, os prendiam à África. Sua identidade era fluida e cheia de
influência de parte a parte, que não excluíam pertencimentos étnicos locais. O
surgimento da língua crioula e ate mesmo de uma arquitetura particular, com varandas
e, às vezes, até mesmo casas de sobrado foram notadas por viajantes do XVI, que falam
de uma “arquitetura crioula”, demonstrada por Peter Mark em Portuguese style and
luso-african identity.51

50
HAVIK, Peter. “A dinâmica das relações de gênero e parentesco num contexto comercial”. Afro-Ásia,
27 (2002), 79-120.
51
MARK. Peter. ―Portuguese‖ style and Luso-African Identity: precolonial Senegâmbia, sixteenth-
seventeenth centuries. Bloomington: Indiana University Press, 2002. pp. 33-58.
29

Considerações finais

Em alguns momentos capitais da recente história africana como durante a campanha


abolicionista, nos séculos XVIII e XIX, e durante a luta de libertação dos países
africanos ao longo do século XX, ganhou força na historiografia a ideia de que o tráfico
de escravos foi o grande responsável pelo subdesenvolvimento da África e que os
africanos teriam sido corrompidos por estímulos externos para pactuar e participar do
tráfico negreiro.

Não me cabe aqui discutir as responsabilidades sobre o subdesenvolvimento deste


ou daquele país africano, mas acredito que não se pode conceber uma relação comercial
tão duradoura quanto o tráfico de cativos, seja na sua vertente terrestre, seja na vertente
marítima, sem que nas duas pontas do relacionamento haja grupos interessados no
funcionamento do mesmo.

Neste sentido, creio que a grande contribuição deste capítulo é pôr em evidência
como a configuração dos povos da Senegâmbia e da Costa da Guiné se modificou a
partir da chegada dos europeus e como isto influiu na emergência de novos poderes
locais.

Sendo assim, o tráfico atlântico fortaleceu grupos até então marginais na


configuração política da Costa africana. Estes grupos abraçaram o comércio com os
europeus como uma oportunidade de enriquecer às custas de uma prática institucional
há muito conhecida na África, a escravidão.

Portanto, podemos afirmar que nem a escravidão era estranha aos povos autóctones
antes da chegada dos portugueses, nem o tráfico atlântico se impôs contra a vontade dos
mesmos. Quanto a isto, este capítulo mostrou vários exemplos de cooperação entre
portugueses, franceses, ingleses, luso-africanos e africanos com o intuito de trocar
mercadorias que iam desde a cola, os tecidos, o ouro, até a mercadoria humana, o
escravo.
30

Capítulo II

A sociedade cabo-verdiana e a formação do Atlântico português

Como mencionado no capítulo anterior, a descoberta, em 1460, do arquipélago


de Cabo Verde – situado em frente ao promontório africano que lhe dá nome e com o
qual forma uma “garganta” para a navegação – possibilitou aos portugueses um local
seguro para se instalarem e comerciarem na Costa da Guiné, na África Ocidental.
Quando da sua descoberta, as ilhas estavam desertas, fato este que concorreu para que
os portugueses implantassem ali a sua soberania e desenvolvessem uma classe mercantil
ao abrigo da instável situação política dos reinos da costa e dos rios da Guiné.
Para acessar as redes de comércio desta região costeira próxima ao arquipélago,
constituiu-se em Cabo Verde um espaço privilegiado para a atuação logístico-comercial
na costa africana.52 Era, portanto, de essencial interesse da Coroa portuguesa ocupar
este espaço para desenvolver o comércio de escravos, chamado resgate de cativos,53 que
ganhava a cada dia mais importância.
Com o propósito de regular e incentivar a ocupação das ilhas, três documentos
com força de lei foram emitidos pelo rei D. Afonso V. Em 1460, foi publicada a Carta
54
de Doação das ditas ilhas ao Infante D. Fernando (que, aliás, possuía também o
senhorio das demais ilhas atlânticas, por ser herdeiro de seu tio, o Infante D.
Henriques), sendo assim o arquipélago seria patrimônio da Casa do Duque de Viseu e
52
Ver HORTA, José da Silva. “„O nosso Guiné‟: representações luso-africanas do espaço guineense
(sécs. XVI-XVII)”. In: Actas do Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime:
poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5 de Novembro de 2005. ALMADA, “Tratado Breve dos Rios de
Guiné do Cabo Verde dês do Rio de Sanagá até os baixos de Santa Ana de todas as nações de negros que
há na dita costa e de seus costumes, armas, trajos, juramentos, guerras…”. In: BRÁSIO, António.
Monumenta Missionária Africana. 2ª série. Volume III. Doc. 92. Lisboa: Agência Geral do Ultramar,
1964.
53
O termo resgate traduz com precisão a justificativa teológica para a escravização e comércio de negros
e mouros. Segundo Mariza Soares, “a noção de resgate está associada a salvação dos povos gentios. Os
portugueses compram africanos supostamente condenados a morte garantindo-lhes a vida e a
possibilidade de salvação das suas almas”. SOARES, M. de C. Devotos da cor. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000. p.241.
54
BRÁSIO, António. Monumenta Missionária Africana, 2ª série. Lisboa: Agência Geral do Ultramar,
1958.
31

este, responsável por sua povoação. Em 1466, a Coroa emitiu a Carta de privilégios aos
moradores de Santiago e, em 1472, a Carta de declaração e limitação de privilégios
dos moradores de Santiago. 55
Segundo Barcelos, Afonso V doou, por carta régia de 3 de Dezembro de 1460,
as ilhas de Cabo Verde descobertas por Antônio de Noli em nome do Infante D.
Henrique (Santiago, Fogo, Maio, Boa Vista e Sal) ao seu irmão D. Fernando. Isto se deu
pouco menos de um mês após a morte de D. Henrique em 13 de Novembro daquele
mesmo ano. Dois anos mais tarde, em 19 de Setembro de 1462, o Rei confirma a doação
ao irmão em caráter “perpétuo e irrevogável” não apenas das cinco ilhas descobertas no
tempo de D. Henrique por de Noli, como também das ilhas restantes do arquipélago
(Brava, S. Nicolau, S. Vicente, Santo Antão e Santa Luzia) descobertas em nome de D.
Fernando.56
Desde 1461, provavelmente, a ilha de Santiago foi dividida em duas capitanias:
uma ao sul, entregue a de Noli, que fundou ali a Ribeira Grande; outra ao norte,
chamada dos Alcatrazes e entregue a Diogo Afonso, contador da ilha da Madeira. Não
se tem as cartas régias que criaram as capitanias, porém, o fato é referido na carta de
doação da capitania dos Alcatrazes outorgada a Rodrigo Afonso, sobrinho de Diogo
Afonso, em 9 de Abril de 1473, e ratificada em 1485 e 1496.
Santiago é a maior ilha e com mais recursos hídricos do arquipélago. Consta que
Antônio de Noli, seu irmão Bartolomeu e seu sobrinho Rafael já vinham povoando-a
desde 1461 com alguns genoveses, portugueses do Alentejo e Algarve, e com muitos
negros resgatados na Guiné. Mas é a partir da Carta de privilégios de 1466 (e sua
posterior limitação em 1472) que a ocupação se deu de forma mais efetiva. A dita Carta
concedia aos moradores de Santiago o privilégio, ou exclusivo, do comércio com a
Guiné, entre o rio Senegal e a Serra Leoa. Este direito concedido aos moradores de
Santiago concorreu para que se estabelecesse na ilha uma classe mercantil de
intermediários entre os mercados da Guiné, os contratadores da Península Ibérica
(principalmente Lisboa e Sevilha), as demais ilhas do Atlântico (Canárias e Madeira,
sobretudo) e, posteriormente, as praças americanas (Antilhas, México, Nova Granada,
na atual Colômbia, e norte do Brasil).

55
Idem. Ibidem.
56
SENNA BARCELOS, Christiano José. Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné, I, pp. 21.
Tipografia da Academia Real de Sciencias de Lisboa, 1899.
32

Todo este intenso trato contribuiu para o surgimento de portos importantes onde
se instalavam, ainda que provisoriamente, muitos comerciantes (estantes) e marinheiros
(mareantes) reinóis e estrangeiros. O incremento dos resgates fez crescer a cidade da
Ribeira Grande de Santiago, centro da vida política e econômica do arquipélago e,
desde 1533, sede do bispado de Cabo Verde com jurisdição sob toda a Guiné.57
Neste sentido, se por um lado a posição geográfica de Cabo Verde e sua
condição insular, onde os portugueses puderam facilmente estabelecer sua soberania,
proporcionavam ao arquipélago um papel preponderante no mundo Atlântico; foi o
privilégio concedido aos vizinhos de Santiago sobre os resgates da Guiné que tornaram
as ilhas uma peça fundamental no tabuleiro de xadrez da expansão comercial europeia,
nos séculos XVI e XVII.
Neste capítulo veremos como se deu a formação da sociedade colonial em Cabo
Verde, assim como sua vida política e administrativa. Desta forma poderemos
compreender como esta sociedade se apresentava diante de um mundo em rápida
transformação pela navegação e comércio de gêneros e pessoas, ao mesmo tempo
suportando-o e dialogando com ele.

1. Cabo Verde e o Império

E mais, Senhor. A dita ilha é tão alongada destes


reinos e tão má de doenças, que necessita que
lhes dê Vossa Alteza o dito Privilégio, e ainda
outros, somente por habitarem na dita ilha, e se
não despovoar [sic], porque uma das principais
58
escápulas da Índia e da Guiné, é a dita ilha.

As ilhas Atlânticas em geral e em particular o arquipélago de Cabo Verde


cumpriram um papel essencial de apoio à navegação da Carreira da Índia durante a
expansão portuguesa e o período colonial. A expansão e os grandes descobrimentos
foram feitos ao mesmo tempo em que se formavam no Oceano Atlântico um conjunto
de redes e rotas de comércio de ponta a ponta. Afinal, como sustentam os autores

57
A diocese de Cabo Verde foi criada pela bula papal Pro excellenti praeminentia, da chancelaria de
Clemente VII, datada de 31 de Janeiro de 1533, e abrangia além das ilhas do arquipélago, a Costa da
Guiné entre o rio Gâmbia e a Serra Leoa. Ibidem. Vol. II, pp. 249-252.
58
BRÁSIO, A. Monumenta. 2ª série, volume II. Doc. 14, pp. 38-39.
33

citados no capitulo anterior quando tratamos da expansão, o Império português


constituiu-se em primeiro lugar como um império mercantil e administrativo.
Neste sentido, para firmar sua presença nos mares e terras recém descobertos e
dar continuidade à expansão, a Coroa portuguesa teve a compreensão de que deveria
prover seus agentes colonizadores de certos direitos e privilégios que os tornassem
parceiros na conquista, para além de súditos.
Assim, a Carta de privilégios de 12 de junho de 1466 admite que “a ilha de
Santiago que é através do Cabo Verde e que por ser tão alongada de nossos reinos a
gente não quer ir lá viver senão com mui grandes liberdades e franquezas”.59 Para
atender a tal demanda, o rei decretou no artigo segundo da dita carta que “os moradores
da dita ilha que daqui em diante para sempre hajam [sic] e tenham licença para cada vez
que lhes aprouver poderem ir com navios a tratar e resgatar em todos os nossos tratos
das partes da Guiné”, exceto o porto de Arguim e suas áreas demarcadas, para onde o
rei arrendava uma licença especial. Este artigo ainda estabelece que os moradores
tivessem, pela “licença e lugar” do soberano, o direito de levar “todas as mercadorias
que [...] tiverem e quiserem levar, salvo armas e ferramentas, navios e aparelhos
deles”.60
A carta estabelece ainda que os moradores deveriam pagar um quarto de todos
os negros e mercadorias que porventura resgatassem nas ditas partes da Guiné em
direitos (impostos) à Coroa, no entanto, depois de feito isto, eles poderiam vender a
quem bem entendessem, no reino ou fora dele sem que fosse preciso pagar novamente
impostos sobre aqueles produtos. Também fica acordado que os escravos e gêneros
vendidos nas ilhas e para fora delas, assim como as mercadorias trocadas com as
Canárias, Madeira e Açores ficavam isentas de tributação desde que comprovadas a sua
origem.
Por último, a carta institui que, se caso a Coroa arrende o trato da Guiné, este
arrendamento “não exceda nem embargue esta licença que assim damos ao dito meu
irmão (D. Fernando) para os moradores da dita ilha (Santiago)” resgatarem na Costa.61
Aqui aparece o propósito do rei de arrendar os “tratos e resgates da Guiné”. Isto
por que embora o povoamento de Santiago fosse de suma importância para o
fortalecimento da posição portuguesa na região, havia a necessidade de continuar a

59
Idem. 2ª série, volume I. Doc. 56.
60
Idem. Ibidem.
61
Idem. Ibidem.
34

exploração da costa africana para além da Serra Leoa e a expansão. Esta tarefa foi
entregue aos grandes comerciantes de Lisboa com trânsito na corte.
Segundo Aurélio de Oliveira, a associação da Coroa lusitana e da classe
mercantil tornou possível “a garantia e consolidação da independência” portuguesa.
Esta se deu com a “construção do círculo atlântico em sucessivas etapas de alargamento
e consolidação econômica”, permitindo a Portugal resistir “ao esforço tentacular das
Castelas, que entretanto e durante o mesmo período, foram engolindo todas as
construções hispânicas”. Assim, se o “círculo Atlântico construiu-se, consolidou-se e
defendeu-se numa área vital e preferencial como objetivo imediato para os particulares”,
ele era, ao mesmo tempo, “estratégico para a Coroa”. 62

a. Concessões mercantis e a dinâmica da expansão portuguesa no Atlântico

A construção deste Atlântico estratégico a que nos referíamos a pouco se deu então
com a iniciativa e o envolvimento de particulares com seus interesses privados, “sempre
com licença e autorização (...) da Coroa”, mas assumindo “todos os riscos e
consequências da exploração e ocupação dos espaços”.63
Um contrato paradigmático para o estudo do arrendamento das áreas descobertas e a
serem descobertas no Atlântico pela Coroa portuguesa são as Concessões a Fernão
Gomes, entre 1469-1474.
Outros contratos de arrendamento foram realizados posteriormente, os principais
dentre eles foram as Concessões a Fernão Teles e as Concessões a Fernão de Loronha,
ou Fernando de Noronha. Todos eles estabelecendo grandes redes de tráfico no
Atlântico e mobilizando grandes fortunas. Seus contratos seguiram o modelo do
arrendamento a Fernão Gomes.
Os aspectos essenciais do acerto com Fernão Gomes concediam a ele explorar toda
a extensão de costa que viesse a descobrir desde a Serra Leoa ao sul. O arrendatário
ficava obrigado a descobrir 100 léguas por ano, totalizando 500 léguas de costa
descoberta ao fim dos cinco anos de contrato. Nestas terras deveriam ser colocados
padrões pelo arrendatário reivindicando a posse para o rei de Portugal. Para obter tal
regalia teria que pagar 200.000 reais brancos à Coroa. Entretanto, em 1470, a volta do

62
OLIVEIRA. A. “As Concessões mercantis e a construção atlântica portuguesa”. In: Actas do
Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5
de Novembro de 2005.
63
Idem. Ibidem.
35

navegador Soeiro da Costa com um carregamento de malagueta motivou um aditamento


ao contrato de 1469 que estabelecia também o monopólio do resgate da pimenta por
Fernão Gomes, pelo qual deveria pagar mais cem mil reais anuais de renda. Assim, a
partir do segundo ano de contrato, Gomes passou a pagar 300 mil reais ao erário régio.64
As expedições não eram necessariamente capitaneadas por Fernão Gomes. Junto
com ele trabalhavam muitos outros mercadores, capitães, pilotos e marinheiros em
regime de contratos de parceria, fosse qual fosse a participação de cada um nos lucros.
Assim, os homens de Gomes descobriram a Costa da Mina, o Golfo da Guiné e suas
ilhas, dentre elas o arquipélago de São Tomé e Príncipe, chegando até o Cabo de Santa
Catarina, no atual Gabão.

Mapa 2 As descobertas de Fernão Gomes e seus homens no Golfo da Guiné 65

64
Monumenta. 2ª série. I . Doc. 65.
65
Fonte: CORTESÃO, Jaime. Os descobrimentos portugueses. Lisboa: Imprensa nacional – Casa da
Moeda, 1990.
36

Embora o arrendamento e a carta de privilégios aos moradores de Santiago


estabelecessem muito bem os limites de atuação de cada um, não faltaram conflitos
entre as partes. Os desentendimentos entre Fernão Gomes e o capitão-donatário da
Ribeira Grande, Antônio de Noli, motivaram a Carta de declaração e limitação de
Privilégios de 8 de fevereiro de 1472.
O preâmbulo da dita carta dá conta de que a disputa entre as partes se devia ao fato
de o capitão de Santiago ter armado uma caravela na ilha da Madeira para ir resgatar nas
partes da Guiné arrendadas a Fernão Gomes. Noli e os vizinhos de Santiago
argumentavam que a carta de 1466 lhes outorgava o direito para
mandar algumas caravelas ou outros navios às ditas partes da Guiné, crendo
que por bem e virtude dela , o poderiam justamente fazer, assim como irem
a qualquer parte como em partirem de qualquer lugar como isso mesmo em
poderem levar quaisquer mercadorias que houvessem de quaisquer terras e
partes, ou que poderem outrossim por quaisquer parceiros ou companheiros
66
ir ou mandar como para si mesmos.

Ou seja, os moradores de Cabo Verde entendiam e argumentavam que tinham o


direito de armar, navegar, comerciar de qualquer porto para a “as ditas partes da Guiné”.
Diante de tais argumentos, o rei pede a seus juristas para analisarem a carta de 1466 e
ordena que “o capitão e os moradores da dita ilha não mandem nem vão a outras
algumas partes resgatar, salvo àquelas que então sabidas e descobertas eram ao tempo
do dito privilégio”, a saber, “até a Serra Leoa”. 67
Como podemos verificar a partir de tal narrativa, a Coroa deu razão a Fernão
Dias, constatando que de fato os moradores de Santiago haviam penetrado a área
arrendada a ele. Porém, a carta de limitações não serviu apenas para dirimir o conflito
entre o arrendatário e os vizinhos da Ribeira Grande. Juntamente com a reafirmação dos
limites territoriais do privilégio concedido aos moradores, a Coroa estabeleceu novas
regras para a ocupação do espaço do arquipélago de Cabo Verde e a participação de
seus moradores no tráfico.
A seguir veremos as consequências desta limitação. Antes, porém, gostaria de
resumir a importância das concessões mercantis para a formação de um Atlântico
português: a profunda participação de interesses particulares à frente da expansão
marítima lusitana contribuiu para a formação de um espaço sólido e comprometido com
a atuação comercial lusitana. Muito embora a Coroa não estivesse à frente das

66
Monumenta. 2ª série, I. Doc. 67.
67
Idem. Ibidem.
37

iniciativas de exploração, ela regulava a concessão de licenças e as concedia aos


homens de sua confiança. Estes sim formaram os povoamentos e redes de interesses
comerciais que anos mais tarde ligavam os três continentes banhados pelo Atlântico.

b. A consolidação do domínio português sobre o Atlântico a partir da


ocupação de seus arquipélagos

A Carta de limitações dos privilégios, de 1472, estipulava que os moradores


trocassem na Guiné somente as mercadorias fruto de suas “novidades e colheita”, ou
seja, produzidas na própria ilha. Os navios também deveriam “ser de pertença dos
moradores e por eles armados e capitaneados, ficando vedada a parceria com não
moradores, nacionais e estrangeiros”.68 Esta restrição, ao mesmo tempo em que limitava
o resgate às, provavelmente, ainda incipientes mercadorias produzidas na própria ilha,
incentivava a real ocupação do território de forma produtiva, atrelando a atividade
mercantil a uma correspondente produção interna assentada na propriedade rural. Esta
medida contribuiu para a conversão do capital mercantil para o capital produtivo,
quando não, na conversão de mercadores em terratenentes.69 Ou seja, houve a formação
de uma elite de armadores que também eram proprietários rurais.
Estes terratenentes-mercadores eram, em sua maioria membros da baixa nobreza
portuguesa, homens da Casa de Viseu e também cavaleiros da Casa Real. Por conta
desta origem, a primeira elite de Cabo Verde era muito bem relacionada na corte,
situação de que se valeram várias vezes quando confrontada pelos oficiais régios,
conforme veremos mais adiante. De fato, “foram eles que, com a importação de
milhares de escravos, como mão-de-obra, criaram uma produção interna que através da
agricultura e da pecuária fornecia os produtos responsáveis pelo resgate na Costa”.70

68
BRÁSIO. A. Monumenta... Op. Cit. 1958.
69
Ver a noção de proprietário-armador apresentada por Maria Emília Madeira Santos e Iva Cabral.
SANTOS, Maria Emília Madeira; & CABRAL, Iva. «O nascer de uma sociedade através do morador-
armador». In: História Geral de Cabo Verde (coord. Luís de ALBUQUERQUE e Maria Emília Madeira
SANTOS), vol. I, Lisboa, Edição conjunta de Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga do
Instituto de Investigação Científica Tropical e da Direcção Geral do Património Cultural de Cabo Verde,
1991.
70
CABRAL, Iva. “Ribeira Grande: vida urbana, gente, mercancia, estagnação”. In História Geral de
Cabo Verde (coord. Maria Emília Madeira SANTOS), vol. II, Lisboa, Edição conjunta de Centro de
Estudos de História e Cartografia Antiga do Instituto de Investigação Científica Tropical e da Direcção
Geral do Património Cultural de Cabo Verde, 1995. P.232.
38

Cabe destacar a particularidade da ocupação dos arquipélagos atlânticos como os


Açores, a Madeira e o Cabo Verde, pois diferentemente do Brasil, estes receberam
inicialmente fidalgos da pequena nobreza entre seus principais colonizadores.

Segundo Stuart Schwartz,

A primeira geração de senhores de engenho da Bahia tinha origens sociais


muito menos ilustres do que as propaladas pelas gerações subsequentes. Se
bem que houvesse homens de famílias nobres ou com altos cargos públicos
com Mem de Sá, proprietário do Engenho Sergipe, ou com Antônio
Cardoso de Barros , filho do tesoureiro régio da Bahia e fidalgo da casa de
El-Rey, muitos dos primeiros senhores de engenho vinham de origens
71
menos eminentes.

Ora, podemos então afirmar que em Cabo Verde se desenvolve a colonização


voltada para o tráfico transatlântico de escravos encorajado pela Coroa, levado a cabo
muitas vezes por fidalgos, para abastecer engenhos de plebeus, portanto pessoas de
origem menos eminente, na América.

Que a origem da população envolvida na expansão era em sua imensa maioria das
camadas mais pobres do povo português, não se tinha grande dúvida. Entretanto a
participação de fidalgos, ainda que da pequena nobreza, na tarefa hercúlea de construir
um sistema atlântico português com o suor do próprio rosto comandando viagens
comerciais e de abastecimento de cativos entre a África, a Península Ibérica e a
América, me parece ser uma grande novidade que espero poder averiguar mais a fundo
numa pesquisa futura.

71
SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835.
São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 225.
39

2. As ilhas de Santiago e do Fogo: produção e demografia

Em 1513, o corregedor Pedro Guimarães escreveu ao rei informando que viviam


na vila da Ribeira Grande, em Santiago, cinquenta e oito vizinhos homens honrados e
brancos, dezesseis vizinhos negros, cinquenta e seis estantes, quatro mulheres brancas
solteiras e dez negras solteiras, além de doze clérigos, incluindo o vigário da dita ilha,
72
três frades e dois pregadores. No entanto, as estimativas do corregedor não podem
nos dar uma noção exata do número de habitantes da Ribeira Grande, pois excluem da
contagem as mulheres casadas e as crianças – por certo cada vizinho possuía por trás de
si uma família – além da gente flutuante e dos escravos, que se supõe fossem a maioria
da população. Outras estimativas, datadas de 1582, foram feitas pelo Sargento-mor da
ilha de Santiago, Francisco de Andrade. Em sua relação, o oficial tem uma preocupação
descritiva e quantitativa sobre a ocupação tanto da ilha de Santiago, quanto da ilha do
Fogo. Andrade estima em 13.408 almas a população de Santiago, tendo mais de
73
quinhentos vizinhos. Para a ilha do Fogo, o sargento-mor estimava 2300 almas.
Entretanto, mais uma vez podem-se contestar estes números visto que as crianças, os
forasteiros e pessoas marginais – presos, forros pobres, escravos fugidos, entre outros –
não foram contados. O que se pode tirar destes relatos, é que havia uma sociedade
organizada em Cabo Verde no século XVI, e que esta conheceu um vertiginoso
crescimento ao longo do século, tendo seu número de vizinhos multiplicado em quase
dez vezes. Foram estes homens, organizados na câmara municipal, que se constituíram
armadores de navios e promoveram a escalada do tráfico de escravos entre a África e as
Américas.
A Relação pormenorizada acerca da população e da organização comercial, social e
religiosa do arquipélago de Cabo Verde feita pelo Sargento-mor de Santiago e vizinho
da Ribeira Grande, Francisco de Andrade, em 26 de Janeiro de 1582, serviu para

72
ANTT, Corpo Cronológico, I-12-120, HGCV, Corpo Documental, volume I, p. 221. 22 de maio de
1513. Os vizinhos eram os moradores abastados, proprietários de casas e terrenos no perímetro do
município, somente estes homens possuíam o direito de participar das eleições municipais e servir nos
cargos da câmara. Chama a atenção a distinção entre os vizinhos honrados e brancos e os vizinhos negros.
Até 1546, apenas os vizinhos brancos poderiam servir na câmara, nesta data, porém, um alvará régio
concedeu o mesmo direito aos vizinhos “baços e pretos”. BRÁSIO, A. Monumenta Missionária
Africana, Série II, vol. II, p. 386. Documento nº 117. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1963. Este
assunto será melhor tratado em nosso próximo capítulo quando discutiremos a sociedade cabo-verdiana
no século XVI.
73
BRÁSIO, A. Monumenta Missionária Africana, Série II, vol. III, p. 97. Documento nº 42. Lisboa:
Agência Geral do Ultramar, 1964.
40

António Correia e Silva montar este quadro demonstrativo das freguesias da ilha de
Santiago e da estimativa de sua população.

Tabela 1 Demografia de Santiago em fins do XVI

Fonte: CORREIA E SILVA. “Espaço, ecologia e economia interna”. In: História Geral de Cabo Verde.
Volume I. 2ª edição. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 2001.
41

3. Poder político, econômico e administrativo em Cabo Verde


Ao analisar a elite local cabo-verdiana, Iva Cabral afirma que o poder local em
Santiago foi ocupado por três elites diferentes em sua composição social, econômica e
racial ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII.
A primeira elite (finais do século XV e século XVI) – reinol, nobre, urbana,
cosmopolita, armadora, proprietária rural – era uma ramificação da elite
reinol, que se aventurara e se instalara no arquipélago recém-descoberto
para comerciar em segurança com o continente fronteiro, aproveitando,
plenamente, dos privilégios comerciais e fiscais que D. Afonso doa, em
74
1466, aos vizinhos de Santiago.

Ainda segundo a mesma autora, a elite de Cabo Verde no XVI mantinha estreita
relação com os reinóis arrendatários dos direitos reais como os quartos e as vintenas de
todas as mercadorias importadas pelos moradores da costa africana, como também dos
dízimos da terra na ilha de Santiago. Esses seriam parceiros preferenciais e grandes
interessados na multiplicação de embarcações armadas na ilha para a costa da Guiné.
Além disto, a primeira elite da Ribeira Grande sempre procurou controlar o poder local,
seja ocupando os cargos concelhios (camarários) ou fazendo eleger para estes cargos
pessoas da sua relação. Apesar desta proeminência local, Iva Cabral ressalta o fato de
que a elite de Cabo Verde no XVI detinha o seu verdadeiro poder através da
comunicação privilegiada que mantinham com o reino. Como, por exemplo, demonstra
a carta do corregedor Pero Guimarães ao Rei quando este diz que “nesta ilha há pessoas
que dizem que se o corregedor que Vossa Alteza a ela mandar não for de suas vontades
que com mui boas testemunhas falsas os farão sair mais que a passo...”.75
Cabe ressaltar que os homens que compunham esta primeira elite, os vizinhos de
Santiago no século XVI, foram para a ilha possivelmente atendendo a um pedido do
Infante D. Fernando, pois eram homens de sua Casa e serviço. A própria Carta de
Doação, de 1466, nos informa a este respeito quando afirma que “a quantos esta minha
carta virem fazemos saber que o Infante Dom Fernando [...], nos enviou dizer como
havera [sic] quatro anos ele começara a povoar a sua ilha de Santigo”.76

74
CABRAL, Iva. “Elites atlânticas: Ribeira Grande do Cabo Verde (séculos XVI-XVIII)”. In: Actas do
Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5
de Novembro de 2005.
75
ANTT, Corpo Cronológico [CC], I-36-93, de 6 de Maio de 1517.
76
BRÁSIO. Monumenta... Op. Cit. 2ª série.
42

77
Foi esta elite que fundou a cidade da Ribeira Grande e transformou Santiago
no depósito de escravos mais procurado pelos navios negreiros durante o século XVI e
o início do XVII. Os terratenentes-mercadores dominavam o tráfico com o continente e
abasteciam os outros moradores do arquipélago de comida e escravos através de
encomendas feitas aos navios armados por eles. Estes homens também detinham o
controle sobre os principais cargos locais, como ofícios régios e cargos camarários,
utilizando-os para controlar o mercado de escravos, regulando o preço de acordo com
suas próprias expectativas. Em 1549, o Frei Gaspar da Silveira atesta que “não vem
navio da Guiné que velho e menino antes que saia já vem com o preço feito”, razão pela
qual a ilha estaria “muito rica”.78
De passagem por Cabo Verde em fins do XVI, o mercador florentino Francesco
Carletti testemunha que o Atlântico, espaço onde se desenvolvia este comércio seria
sulcado na vertical até Santiago e, então, na horizontal até Cartagena, nas Índias de
Castela. Em Santiago, “os grandes mercadores locais guardavam nas suas fazendas no
interior da ilha parte dos cativos que possuíam para vender. Assim, quando corria a
notícia da chegada de navios negreiros, apressavam-se a organizar mostras e
loteamentos de africanos”. 79
Se analisarmos os dados referentes às viagens negreiras durante o século XVI,
podemos ter uma ideia aproximada do volume do tráfico que passou por Cabo Verde.
Acreditamos que, sendo a América Central espanhola e o Caribe as principais áreas de
desembarque de cativos na América ao longo do período estudado, Cabo Verde seria
um dos principais esteios para a navegação na rota entre as costas africana e americana.
A viagem entre Santiago e Cartagena, por exemplo, durava em média cerca de quarenta
dias. Seria lógico então supor que muitos navios, ainda que não tivesse no arquipélago a
origem de seus carregamentos, fizessem ali uma escala para abastecer-se de água,
mantimentos e quem sabe até de tripulantes antes de cruzar o Atlântico.
O terceiro capítulo desta dissertação é dedicado a analisar o volume, o
funcionamento e as implicações do tráfico de escravos e de Cabo Verde como
entreposto de escravos num cenário internacional. Aqui, neste segundo capítulo, os
77
O primeiro donatário de Cabo Verde foi Antônio de Noli, que recebeu a capitania sul da ilha de
Santiago e ali fundou, juntamente com seu irmão, a cidade da Ribeira Grande.
78
ANTT, Corpo Cronológico, I-83-49, de 9 de Dezembro de 1549, publicado na Monumenta... Op. Cit.
2ª série.
79
TORRÃO, Maria Manuel Ferraz; TEIXEIRA, André. “Negócios de um florentino em Cabo Verde:
descrições e reflexões sobre a sociedade e o tráfico em finais do século XVI”. (p. 9). In: Actas do
Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5
de Novembro de 2005.
43

aspectos internos da formação e do funcionamento do entreposto negreiro em Cabo


Verde são nosso principal objeto. Para examinar tal objeto, devemos partir da análise da
primeira elite cabo verdiana.

a. A formação da sociedade colonial de Cabo Verde por intermédio do


terratenente-mercador e seu papel no tráfico de escravos atlântico
(séculos XV e XVI)

Já falamos aqui brevemente da importância das redes comerciais marítimas das


quais Cabo Verde fazia parte, mas pouco dissemos a respeito da ocupação efetiva das
ilhas. Nem só do porto da Ribeira Grande e dos entrepostos litorâneos vivia o comércio,
e nem só dele se fez a colonização das ilhas. Desde cedo se iniciou a ocupação do
interior com a criação extensiva de cavalos e o cultivo do algodão, pautados pelas
necessidades do trato da Guiné, cujos mercados atribuíam grande valor real e simbólico
a estes produtos. Os cavalos eram importantes tanto para a guerra quanto para atribuir
status ao seu dono. Como estes não sobreviviam muito tempo na Senegâmbia por conta
da doença do sono e nem se reproduziam na quantidade que as guerras locais
demandavam, consequentemente, tinham que ser constantemente importados e
possuíam alto valor de compra. Os panos de algodão também eram valorizados na
região, pois funcionavam como moeda de troca nas transações comerciais.
Razões de logística comercial, portanto de ordem econômica, colaboraram para
que a produção destas mercadorias fosse realizada próxima aos mercados consumidores,
principalmente no caso dos cavalos, que a longa distância da Europa e o perigo do
transporte acarretavam grandes perdas ao carregamento.
Além de todas estas vantagens econômicas, uma decisão da ordem política
também contribuiu para a implantação de uma economia agropecuária voltada para a
exportação em Santiago. A Carta de limitações dos privilégios, de 1472, estipulava que
os moradores não mais poderiam comerciar livremente com a Guiné todos os produtos
que porventura tivessem (como faziam anteriormente, salvo armas, navios e
ferramentas), mas somente as mercadorias advindas das suas “novidades e colheita”, ou
seja, produzidas na própria ilha. Os navios também deveriam “ser de pertença dos
moradores e por eles armados e capitaneados, ficando vedada a parceria com não
44

80
moradores, nacionais e estrangeiros” . Esta medida contribuiu para a conversão do
capital mercantil para o capital produtivo, quando não, na conversão de mercadores em
terratenentes. Ou seja, acarretou na formação de uma elite de armadores proprietários
81
rurais. Estes homens atuavam no trato com a costa africana e, posteriormente,
reexportavam os escravos para a Europa e as Antilhas. O poder e o prestígio social
frequentemente acompanhavam o seu sucesso econômico. 82
A melhor descrição do poder econômico e social desses moradores-armadores
encontra-se num documento, datado de 1533, que apresenta o perfil de Diogo
83
Gonçalves, um dos primeiros homens negros de Santiago que alcançaram, através de
seu poder econômico e prestígio social, o status de “homem branco”, e que também

sempre continuadamente tevera [sic] cavalos e que andara e mantevera [sic]


sua casa honradamente [...] e dava de comer a muitos cavaleiros e
escudeiros na sua mesa e todo o necessário agasalhamento [sic] por espaço
de hum ano e as vezes mais e menos tudo a sua custa e tinha navios que
84
mandava a Guiné como pessoa principal que era na dita ilha [...] .

Por meio deste fragmento podemos perceber a importância de se “viver


honradamente” para a ascensão social. A sociedade cabo-verdiana de então era dividida
entre a “câmara e os oficiais dela fidalgos cavaleiros e pessoas nobres do regimento da
terra” – proprietários e armadores, em geral – e o povo “homens baços e pretos forros
[carpinteiros, mercadores, mareantes]”.85 Notadamente, fazer parte da câmara tornava
os mulatos membros da chamada nobreza da terra, um claro sinal de ascensão social,
possibilitando a eles o pleno exercício da cidadania enquanto súditos privilegiados que
dispõem de um canal de diálogo direto com o poder central.
No primeiro momento, o modelo de colonização foi de natureza exclusivamente
mercantil, realizando os seus moradores o transporte, a compra e a venda de
mercadorias. A partir do segundo momento, a lei, conforme a limitação de 1472, exorta
de forma coercitiva os moradores mercadores a organizarem um complexo produtivo
capaz de prover de mercadorias as armações da costa. A partir deste momento é
engendrado na ilha um sistema para a produção de gêneros com os quais se pudesse
80
BRÁSIO. Monumenta, 2ª série, I. Doc. nº 67.
81
CARREIRA, António. Cabo Verde... op. cit. p. 41.
82
MADEIRA SANTOS, M. E. & CABRAL, I. M. “O nascer de uma sociedade através do morador-
armador”. In: História Geral de Cabo Verde. Volume I. 2ª edição. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 2001.
83
Sobre Diogo Gonçalves, ver COHEN, Zelinda, “O caso do preto que virou branco”, no semanário
Tribuna, 1 de Dezembro de 1989.
84
ANTT, Chancelaria de D. João III, Doações e Privilégios, liv. 45, fl. 62 v.º, documento 1, de 11 de
Julho de 1533.
85
ANTT, Fragmentos, maço 9, nº 10, de 23 de Dezembro de 1555.
45

traficar. Por exemplo, o plantio de algodão, o fabrico de tecidos e a produção de couros


a ser exportada para a Europa.
Mas de que forma foram ocupadas estas ilhas? Como foi realizado o acesso a
terra e a que lógica este obedeceu? A partir daí, como se deram a organização política e
administrativa do território?
As ilhas eram propriedade da casa senhorial do Duque de Viseu – foram doadas
a D. Fernando, a quem D. Manoel, seu filho e futuro Rei de Portugal, sucedeu. Estes
senhores promoveram a povoação da ilha concedendo terras a pessoas da sua casa na
forma de capitanias-donatárias, a quem nomeavam procuradores de sua jurisdição sobre
os territórios doados. Competia aos ditos capitães distribuir as terras em sesmarias, um
recurso jurídico-institucional amplamente usado na expansão portuguesa para fixar os
vassalos ou colonos nos novos territórios. Porém, a doação destas terras estava
condicionada a uma contrapartida exigida dos sesmeiros: tornar a terra produtiva em até
cinco anos, sendo, no máximo, este prazo prorrogado por mais cinco anos. Se neste
período o proprietário tivesse sucesso, entraria na posse definitiva das mesmas. Caso
contrário, as terras seriam confiscadas e cedidas à outra pessoa para que as explorassem.
Ou seja, o acesso à terra estava condicionado à capacidade do proprietário de produzir.
Exatamente por se esperar uma produção rápida, a doação das terras deveria ser
feita àqueles que possuíam condições materiais para o estabelecimento de tal empresa.
Sementes, instrumentos para o beneficiamento das mercadorias (como as moendas, por
exemplo), gado, víveres e, principalmente, a mão-de-obra, escrava e africana por
excelência, necessitavam de um aporte de capital inicial muito grande, o qual não era
qualquer um que podia fazer frente. Alguns autores defendem a ideia de que o
povoamento do interior teria sido feito por casais camponeses alentejanos e do Algarve.
Embora se tenha notícia da chegada de contingentes camponeses europeus com
86
os primeiros povoadores , não cremos ser provável que tais indivíduos pudessem
realizar a contento tal tarefa. A montagem das plantações coube aos mercadores,
pessoas ligadas ao trato, e muitas vezes oficiais régios nas ilhas que enriqueceram com
cobranças de direitos sobre o trato ou como procuradores de comerciantes lisboetas.
Além destes, talvez cristãos novos, tenham agido na colonização do interior, juntamente
com os negros, livres, forros e escravos que compunham a mão de obra, é claro.

86
Sobre isto, ver CARREIRA, António. Cabo Verde – formação e extinção de uma sociedade
escravocrata (1460-1878). Praia: IPC, 2000.
46

No tocante à ocupação e produção dos espaços geográficos do interior cabe


destacar que a agricultura em Santiago seguiu o curso das ribeiras, instalando-se em
terras irrigadas. O gado (cavalos, sobretudo, pois o gado vacum era mais utilizado para
o consumo e produção de derivados, como a manteiga, destinados, em grande parte, à
população de origem europeia) ocupou as terras mais altas. Por isso, as propriedades
tenderam a não serem contínuas, nem de monocultura, sendo dispersas ao longo das
várias ribeiras e produzindo diversos produtos (algodão, cana-de-açúcar, milho, entre
outros). Concorreu para isto o movimentado mercado de terras de fins de quatrocentos,
levando a que muitos proprietários possuíssem terras em diferentes partes da ilha de
Santiago distantes umas das outras. Mesmo na ilha do Fogo, onde as terras eram altas,
secas e só davam uma colheita por ano, o solo vulcânico fértil (chão de massapé) e as
muitas praias e pequenos portos de fácil acesso por mar possibilitaram um escoamento
mais fácil da produção aos proprietários que, muitas vezes, eram moradores da cidade
da Ribeira Grande.
A sociedade cabo-verdiana, tanto nas vilas e cidade da Ribeira Grande quanto no
campo, foi desde o princípio marcada pela escravidão e pela mestiçagem. A população
negra constituía a imensa maioria da população das ilhas e, diante do quadro social
apresentado, a maneira mais fácil de ascensão social estava no alinhamento aos métodos
e normas da cultura branca europeia e, consequentemente, com os senhores. As formas
de proceder da sociedade escravocrata forneceram as condições necessárias à
acomodação da vida social, aliando-se àqueles elementos escravos, pretos ou mestiços,
criados em seu seio, ou seja, devidamente aculturados, estabelecendo parâmetros de
prêmio e castigo e construindo bases de negociação entre os diversos atores sociais
envolvidos na criação da escravidão colonial.
Não que a escravidão tenha sido pacífica, abertamente aceita e que contra ela
nenhum escravo tenha se levantado. Embora a escravidão fosse praticada na
Senegâmbia, como também em outras partes da África, desde muito antes de a chegada
dos portugueses, houve conflitos no arquipélago e não foram poucos. No entanto, as
tensões entre os atores sociais, inclusive os escravos, servissem para criar hábitos e
precedentes que fundaram a escravidão moderna e levaram ao fato de que, conhecendo
as regras do jogo, os indivíduos agissem dentro das normas, isoladamente ou enquanto
pequenas unidades familiares ou de família extensa, para promoverem sua ascensão em
47

87
melhores condições de negociar a vida social. Assim, as estratégias de acordo com
estratégias individuais ou grupais, as pessoas poderiam interferir no seu espaço social e,
conforme o seu sucesso, conquistar uma posição melhor para si e para os seus. 88
As propriedades rurais no inicio da colonização em Cabo Verde eram, em sua
maioria, pequenas domínios.89 Mesmo a partir do século XVI, quando aparecem
terrenos maiores vinculadas em morgadios ou capelas 90 – um sistema de transmissão de
patrimônio de geração para geração que regula a estrutura social e a fundiária na medida
em que são formadas pela reunião de algumas propriedades num conjunto indivisível e
inalienável.91 Pequenas propriedades não necessitam de um grande contingente de
escravos, logo a escravaria em cada fazenda não era muito numerosa, sendo boa parte
dela constituída de ladinos (escravos aculturados, cristãos, na maior parte das vezes
nascidos nas ilhas) e não por boçais (africanos), que em sua maioria eram enviados para
a América.
Assim, a relação entre senhores e escravos em Cabo Verde era muito próxima; o
senhor alforriava seus escravos após algum tempo de serviço, principalmente os
domésticos. Houve casos de senhores que tornavam forros seus escravos feitores, que
exerciam postos de comando e gestão em suas propriedades. Nestes casos a alforria
funcionava como um prêmio pelo bom serviço, um exemplo a ser seguido. Notem bem
que, apesar de se tratar de uma sociedade de Antigo Regime, onde bem ou mal o lugar
de nascimento de cada um deixava uma marca indelével, este não constituía um limite
puro e simples às suas aspirações de liberdade ou ascensão social. Havia, portanto,
mobilidade social.
Outro fator que contribuiu para a aculturação dos cativos foi a concessão de lotes
de terras que permitia ao escravo trabalhar seis dias para o senhor e um para seu próprio

87
Para um bom entendimento do assunto, ver CABRAL, Iva. “Ribeira Grande: vida urbana, gente,
mercadoria e estagnação”. In: MADEIRA SANTOS, Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo
Verde. Volume II. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 1995.
88
Sobre isto, ver ELIAS, N. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. Ver
também BARTH, F. Process and form in social life: selected essays of Fredrik Barth, vol. I. London:
Routledge & Kegan Paul, 1981. Este último título é essencial para a compreensão do conceito de
estratégia.
89
Nas ilhas atlânticas, como em Cabo Verde, a terra era de propriedade da casa de Viseu e da monarquia,
posteriormente, com a elevação desta casa ao trono. As terras eram então doadas aos colonos, mas
poderiam ser tomadas de volta se o monarca assim o quisesse.
90
“André Rodrigues dos Mosquitos, contador real, enriquecido na ilha, vem a comprar várias
propriedades, que posteriormente vincula”. CORREIA E SILVA, A. “Espaço, ecologia...” op. cit. pp.
203.
91
A vinculação de bens foi instituída pela Lei Mental de 1534 para proteger as linhagens de casas nobres
e deveria ser homologada pelo rei.
48

92
ganho e sustento. Contra as sublevações, contestações da ordem e para manter a
disciplina quando os senhores retiravam dos escravos algum direito adquirido, havia
sempre a violência física, castigo para mostrar o caminho que não deveria ser seguido.
Voltaremos a este assunto mais adiante quando tratarmos da questão da
mestiçagem, do papel dos mulatos em na ilha de Santiago e das relações entre senhores
e escravos em Cabo Verde e no mundo Atlântico português.

b. Decadência dos terratenentes-mercadores (século XVII)


Com a perda da primazia do resgate e, consequentemente, da arrecadação, nas
costas da Guiné, Cabo Verde se empobrecia e na cidade da Ribeira Grande não
circulava mais grossos cabedais como antes. No início do século XVII, a perda do
monopólio dos vizinhos de Santiago sobre o resgate da Guiné para mercadores de
Lisboa e de Castela, além da invasão do litoral africano por piratas franceses, ingleses e
dinamarqueses levou a não renovação da elite de terratenentes-mercadores que
sustentava o tráfico. Sem os lucros avultantes do comércio negreiro, Santiago deixa de
ser atrativa para os reinóis.
Assim, abre-se espaço em Cabo Verde para a emergência de uma nova elite de
“filhos da terra”. Há então uma crescente interiorização da sociedade de Santiago. A
cidade da Ribeira Grande já não é mais um importante centro comercial e a ilha passa a
viver praticamente da subsistência. Nesse processo, os mestiços chegam ao poder local,
filhos de portugueses e também senhores de terras e escravos, estes homens ainda estão
ligados ao tráfico Atlântico de cativos, mas sofrem com a concorrência dos
contratadores da Guiné, que em vez de fazerem escala em Cabo Verde, preferiam ir
direto de Cacheu ou dos rios da Guiné para seus destinos. Diferentemente dos
arrendatários de direitos régios parceiros da primeira elite de Santiago, estes
contratadores não tinham nada a ganhar com a escala na ilha.
Assim, Santiago perde cada vez mais importância no Atlântico português e, após
a Restauração, esta segunda elite de mulatos que ainda persistiam na Ribeira Grande, dá
lugar a uma elite mestiça e endógena, extremamente rural e militarizada.93

92
Ver CORREIA E SILVA, António Leão. “A sociedade agrária: gentes das águas: senhores, escravos e
forros”. In: MADEIRA SANTOS, Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo Verde. Volume II.
Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 1995. p. 317.
93
SOARES, Maria João. “Crioulos indómitos” e vadios: identidade e crioulização em Cabo Verde –
séculos XVII-XVII. In: Actas do Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime:
poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5 de Novembro de 2005.
49

c. A família de André Alvares de Almada: um exemplo de família da


primeira elite cabo-verdiana e de sua transformação para de
permanecer na Guiné

Conforme foi apresentado no capítulo I, André Álvares de Almada foi um legítimo


representante da primeira elite de cabo-verde. Mulato, natural do Cabo Verde, era
também Cavaleiro de Cristo, letrado, comerciante, membro da elite política local, da
câmara da Ribeira Grande, com relações na corte em Lisboa e posteriormente em
Madri, além de ter sido comandante de Companhia – portanto um chefe militar, em
Santiago.
Seu pai, Ciprião Álvares de Almada, Cavaleiro da Ordem de Santiago, serviu como
almoxarife da Ribeira Grande entre 1563 e 1564. Ali, se casou com uma mulata e se
tornou vizinho de Santiago, trilhando o caminho que já havia seduzido muitos
funcionários da administração régia antes dele: instalar-se em Cabo Verde para
enriquecer no comércio com a Guiné. Em 1579, Ciprião aparece como procurador de
moradores reinóis para os resgates na Costa africana.
Em 1580, André é eleito procurador pelo povo de Santiago para ir a Portugal tratar
com a Coroa o modo como povoar a Serra Leoa. Aqui podemos vislumbrar como a
primeira elite de Cabo Verde era atuante politicamente para os seus melhores interesses
e sobrevivência.
Em fins do século XVI, a região costeira defronte ao arquipélago, entre os rios
Senegal e Gâmbia, já estava infestada de navios ingleses e franceses. A proibição da
Coroa portuguesa para evitar que seus súditos se instalassem na Guiné de pouco
adiantava. Muitos lançados e comunidades luso-africanas que dominavam a
intermediação do tráfico no continente negociavam com quem oferecesse as melhores
condições, pouco importando a nacionalidade.
O resgate dos vizinhos da Ribeira Grande rumava cada vez mais para o sul e eles se
organizaram e fizeram uma povoação às margens do rio Cacheu, também dito São
Domingos. Crescia entre os vizinhos de cabo-verde a ideia de que, para sobreviverem,
deveriam colonizar a costa da Guiné, correndo o risco de, se não o fizessem, perder o
rico comércio com os povos autóctones da Costa. Para defender esta ideia e conseguir
reconhecimento e legitimidade a estas demandas, os moradores de Santiago enviaram o
jovem André Almada a Lisboa.
50

Este não conseguiu ser recebido na corte, pois chegou em meio a crise sucessória
que levou a União das Coroas Ibéricas. Em 1594, sem ter conseguido ser recebido em
audiência por El-Rey, escreveu o Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde
para informar Sua Majestade da situação de seus conterrâneos e de suas demandas. Seu
relato rende frutos e o povoamento de Cacheu é reconhecido, tendo sido alçado à
condição de cidade no ano de 1615.
Em 1578, 1598 e 1601, André e/ou seu pai, estiveram resgatando na Guiné. André
chegou mesmo a registrar em seu tratado que encontrou cáfilas de mercadores islâmicos
oriundos do interior do rio Senegal na cidade de Casão, no Wuli, 120 léguas adentro do
rio Gâmbia. E que só não trocou ouro com eles por não possuir, à época, manilhas de
cobre suficientes para a operação comercial. Almada lamentou muito este fato.
André também atuou como capitão de uma companhia de ordenanças na defesa
militar da Ribeira Grande contra ataques de piratas. Este fato atesta a sua posição entre
os principais vizinhos de Santiago, visto que a maior parte dos oficiais destas
companhias pertencia à camada dos proprietários de terra, a mais abastada da ilha. Estes
tinham que arcar com cavalos, escravos e armas. O fato de servirem a sua própria custa
é uma clara demonstração de riqueza, visto que não era prevista qualquer remuneração
para os soldados, nem mesmo para os capitães de ordenanças. 94
No ano de 1614, o filho de André, Verde Dinis Eanes de Afonseca, também mulato
natural do Cabo, e seu pai Ciprião assinam documento da câmara de Santiago pedindo
ao Rei que intervisse no arrendamento dos Asientos e dos resgates, pois estes, por se
dirigirem diretamente as partes da Guiné, não mais passavam por Cabo Verde, nem pela
alfândega da Ribeira Grande.
Sem recolher impostos e sem dinheiro para circular e comprar alimentos para
abastecer seus próprios navios e população, a câmara da Ribeira Grande passou uma
postura, em 1613, autorizando o uso de panos da índia como moeda corrente no
arquipélago. Decisões como esta demonstram o caráter da câmara de julgar os assuntos
e medidas necessários para zelar pelo bem comum.
Dinis Eanes ainda aparece como Juiz da câmara da Ribeira Grande em 1615 e como
postulante a capitania de Cacheu em 1624. Atua na câmara de vereadores até pelo
menos a década de quarenta do século dezessete. A família de Almada pode nos servir

94
BALENO, Ilídio Cabral. “Pressões externas. Reações ao corso e à pirataria”. In. MADEIRA SANTOS,
Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo Verde. Volume II. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 1995.
pp. 125-188.
51

como um bom exemplo de como funcionavam as primeiras famílias da terra em Cabo


Verde no século XVI.

Família de André Álvares de Almada95

Nome Naturalidade Categoria social e Funções na Outras Atividades Cronologia na


genealogia Administração documentação
Pública e
Camarária
Ciprião Cavaleiro da Serviu de Age como 1563-1614
Álvares de Ordem de Almoxarife da procurador de
Almada Santiago Ribeira Grande moradores reinóis
(1563-1564) (1579)
Vizinho da cidade
da Ribeira Grande Assina Capitão de uma
documento Companhia (1598)
Filho de João Câmara da
Álvares de Ribeira Grande
Almada (1614)

Casou em
Santiago com uma
mulata
André Mulato Cavaleiro da Faz parte da Eleito procurador 1580-1647
Álvares de natural de Ordem de Cristo Câmara da pelo povo de
Almada Cabo Verde Ribeira Grande Santiago para ir a
Vizinho da cidade (1647) Portugal tratar com
da Ribeira Grande a Coroa o modo
como povoar a
Filho de Ciprião Serra Leoa (1580)
Álvares de
Almada Escreveu o Tratado
Breve dos Rios da
Guiné do Cabo
Verde (1594)

Capitão de uma
Companhia (1598)

Procurador em
Santiago de
moradores reinóis
(1601)

95
Quadro construído a partir de CABRAL, Iva. “Vizinhos da cidade da Ribeira Grande”. In: MADEIRA
SANTOS, Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo Verde. Volume II. Lisboa; Praia: IICT;
INCCV, 1995. Apêndices, pp. 515-516.
52

Dinis Eanes Mulato Vizinho da cidade Assina 1613-1639


de Afonseca natural de da documento da
Cabo Verde Câmara da
Ribeira Grande Ribeira Grande
(1614)
Filho de André
Álvares de Juiz da Câmara
Almada da Ribeira
Grande (1615)

Pede ao Rei a
Capitania de
Cacheu (1624)

Assina o
assento tomado
na Câmara da
Ribeira Grande
contra os
Jesuítas (1626)
Provedor da
Fazenda Real
em Santiago
(1634)

Assina
documento da
Câmara da
Ribeira Grande
(1639)
53

4. Mestiçagem e poder local

Em 26 de maio de 1546, alguns moradores de Santiago, em Cabo Verde,


96
escreveram uma carta ao Rei D. João III de Portugal agradecendo a Sua Majestade o
fato de tê-los feito mercê e privilégio de servirem nos cargos da câmara da dita cidade,
“apesar de serem mulatos e de raça preta”, estendendo, assim, a eles um privilégio
concedido já aos mulatos da ilha de São Tomé em 1528.97 No caso dos vizinhos 98
de
Santiago, o argumento usado por eles para alcançar tal mercê era de que, ao se
colocarem a serviço de Deus e do Rei, estariam fazendo o bem da “república e do povo
miúdo”, uma vez que a “terra seria mais bem vigiada, corrigida e resguardada, não
andando tantos escravos no campo fugidos”. Não sendo “vexados” pelos ricos e
poderosos, os pobres poderiam ser senhores de sua vontade e os escravos não teriam
ânimo para formar quadrilhas e causarem danos à ordem, pois disso se assegurariam
pessoalmente os novos oficiais.
Em tempo, os ditos vizinhos mulatos aproveitam a carta para salientar que
tomariam sempre o partido dos interesses de Sua Majestade contra os interesses de
pessoas poderosas – possivelmente membros da primeira elite ou funcionários régios -,
que, segundo eles, estariam agindo exclusivamente em interesse próprio ao trazerem
99
cada vez mais parentes para tornarem-se vizinhos da ilha e atuarem no resgate de
cativos na costa da Guiné, inflacionando o mercado em detrimento dos interesses
régios. Os vizinhos de Santiago possuíam o privilégio de resgatarem escravos na costa
defronte ao arquipélago. Tais pessoas poderosas – provavelmente, os membros da
primeira elite de terratenentes-mercadores – estariam agindo igualmente em prejuízo
das “honras” dos referidos mulatos, razão pela qual pedem ao Rei que envie um
corregedor que faça cumprir seu alvará e fazê-los entrar nos cargos da oficialidade local,
assim como previsto.

96
BRÁSIO, A. Monumenta Missionária Africana, Série II, vol. II, p. 386. Documento nº 117. Lisboa:
Agência Geral do Ultramar, 1963.
97
Cf. Monumenta, I Série, vol. I, p. 500. Documentos de 10-8-1520 e 7-8-1528.
98
Vizinho é o termo utilizado na documentação coeva para designar o morador com plenos direitos
políticos em cada localidade. Sendo assim, um vizinho de Cabo Verde é aquele que goza de todos os
privilégios concedidos pela monarquia ao habitante do arquipélago.
99
Resgate é a forma como, no século XVI, chamava-se o tráfico de escravos na região estudada. Isto se
deve a uma justificativa religiosa segundo a qual os portugueses estariam prestando um serviço às almas
dos homens escravizados, resgatando-os do paganismo e das falsas crenças para o contato com a
verdadeira fé, a católica.
54

A partir da história narrada nesta carta gostaríamos de propor um exercício


interpretativo acerca da relação entre indivíduo e sociedade no Arquipélago de Cabo
Verde no século XVI. Tentaremos analisar o porquê das demandas dos mulatos ao Rei,
de que forma se engendrou e se reproduziu a sociedade formada por estes homens?
Seriam estes homens indivíduos? Qual o papel social de cada uma das personagens –
mulatos, escravos fugidos, “pessoas poderosas” – que se apresentam no documento?
Esperamos ao menos esboçar uma resposta provisória para estas perguntas.
A relação entre indivíduo e sociedade tem sido um tema recorrente de debates no
campo das ciências humanas, principalmente no campo das ciências sociais. Muitos
autores se perguntaram sobre que tipo de formação é esta a que chamamos “sociedade”.
Por que a compomos em conjunto se nenhum de nós a planejou ou pretendeu? Até se
poderia crer no homem natural ou selvagem que um dia, em tempos imemoriais,
resolveu se tornar social e juntou-se a todos os outros homens estabelecendo um
contrato, mas isto nos parece no mínimo improvável. Sendo um animal gregário, o
homem é social por natureza, isto é, procura estabelecer relações de interdependência
com seus semelhantes para sobreviver. Porém, ele o faz de acordo com algumas normas.
Até que ponto o indivíduo define estas normas ou é definido por elas? Eis a nossa
questão inicial.
Norbert Elias, em Sociedade dos indivíduos, se preocupa em construir uma
alternativa de análise social que respondesse a esta pergunta sem cair nem no
reducionismo das teses liberais, de que a sociedade é o somatório de todos os
indivíduos, ou no das teses totalitárias, de que a sociedade determina os atos e desejos
de cada individuo para que se mantenha a unidade social, seja pela existência de um
espírito coletivo ou seja pela coerção de um Estado forte que representa a manutenção
da unidade social e a vontade da maioria. Para tanto, Elias propõe que a sociedade é
100
formada por indivíduos em relação uns com os outros, porém que esta relação se
daria entre as funções desempenhadas por cada indivíduo dentro do grupo. Não
necessariamente os indivíduos precisariam se conhecer para estarem em relação uns
com os outros, bastaria para isso que reconhecessem a função desempenhada por cada

100
Há dúvidas se esta noção de indivíduo pode ser aplicada a uma sociedade de Antigo Regime. Fragoso
ressalta que a sociedade de Antigo regime era caracterizada pela organização em torno de núcleos
familiares e mesmo de uma família extensa (parentelas fictícias). FRAGOSO, J. O Antigo Regime nos
Trópicos. Op. Cit. No entanto, não creio que o pertencimento a um grupo familiar seja impedimento para
a ação individual.
55

um na operação da sociedade como um todo. Cada indivíduo está preso a um


determinado ritual ou modo de comportamento no qual se insere.
A ordem invisível dessa forma de vida em comum, que não pode ser
diretamente percebida, oferece ao indivíduo uma gama mais ou menos
restrita de funções e modos de comportamento possíveis. Por nascimento,
ele está inserido num complexo funcional de estrutura bem definida; deve
conformar-se a ele, moldar-se de acordo com ele e, talvez, desenvolver-se
mais, com base nele. Até sua liberdade de escolha entre as funções pré-
existentes é bastante limitada. Depende largamente do ponto em que ele
nasce e cresce nessa teia humana, das funções e da situação de seus pais
101
(...).

Então, Elias afirma que as pessoas só propiciaram o surgimento de instituições


permanentes de controle e organização social na medida em que havia entre elas uma
ligação funcional pré-existente que não é apenas somatória, mas está contida numa rede
de dependências e tensões específicas. Esta rede é o parâmetro para o desenvolvimento
dos indivíduos e o limite para as suas ações individuais. O homem se tornaria um
indivíduo conforme aprendesse a dominar os códigos e normas de seus pais e parentes
antes deles, isto é, de seu meio. Da mesma forma, o modo como os indivíduos se
portam é determinada pelas relações passadas e presentes com outras pessoas. “Somente
nas relações com outros seres humanos é que a criatura impulsiva e desamparada que
vem ao mundo se transforma na pessoa psicologicamente desenvolvida que tem o
caráter de um indivíduo e merece o nome de ser humano adulto”. 102
Ou seja, o indivíduo só pode existir dentro das normas do grupo a que pertence,
de sua sociedade, muito embora, tenha alguma incidência sobre elas, pois como agente e
transmissor das mesmas transforma-as no exercício de suas funções.
Ora, os vizinhos mulatos e de raça preta de Santiago compartilhavam
determinadas normas e comportamentos comuns a todo o império português,
reivindicando sobre si o amparo das resoluções régias para dirimir os conflitos
resultantes da interação social dos diversos indivíduos presentes em Cabo Verde. Por
reconhecerem estas normas e agirem de acordo com elas, reivindicaram o direito de
participar ativamente da ordem política estabelecida. Estes indivíduos, mesmo marcados
pela “mancha” da escravidão, que a cor de suas peles e sua própria denominação –
“mulatos de raça preta” – denunciavam, consideravam-se súditos de um rei europeu e
foram considerados por este também como súditos e mais, “homens bons”, isto é, aptos

101
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. pp. 21.
102
Id. Ibid. pp. 27.
56

ao serviço régio e legítimos representantes da comunidade portuguesa em Cabo Verde,


ou, pelo menos, de parte significativa dela.
A interação social gerava conflitos sobre os quais a Coroa deveria intervir
trazendo a justiça. A esta interação social Georg Simmel chama de sociação. Este autor
define sociação como:

a forma na qual os indivíduos, em razão dos seus interesses – sensoriais,


ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela
causalidade ou teleologicamente – , se desenvolvem conjuntamente na
direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam. Esses
103
interesses (...) formam a base da sociedade humana.

Simmel também não entende a sociedade como uma entidade fechada em si


mesma e auto-determinada, mas sim um círculo de indivíduos ligados uns aos outros
por relações mútuas. “Ela [a sociedade] é um acontecer [grifo do autor] que tem uma
função pela qual cada um recebe de outrem ou comunica a outrem um destino e uma
forma”. 104 Por isso, para ele não se deveria falar em sociedade, mas em sociação.
Este último autor vê o indivíduo como o diferente, o mais capaz, aquele que se
destaca da massa. Segundo ele, há uma igualdade inconsciente – nos seus instintos mais
básicos – e uma diferença consciente – uma busca por diferenciação – entre as pessoas.
Há uma diferença de nível, entre o sujeito indivíduo e o sujeito massa, que se dissemina
na sociedade. Os homens, quando estão na massa, na coletividade, estariam sujeitos a
comportamentos que os rebaixaria aos seus instintos mais primitivos.

O comer e o beber, as funções mais antigas e, espiritualmente falando, as


mais vazias, são o meio de reunião – frequentemente o único – que propicia
a ligação entre pessoas e círculos mais heterogêneos. Mesmo o contato
social entre pessoas muito cultas mostra uma tendência a desembocar no
relato das anedotas mais baixas. (...) Por isso, a necessidade de prestar
tributo às grandes massas – e sobretudo a necessidade de se expor
continuamente a elas – arruína facilmente o caráter: ela rebaixa o indivíduo,
retirando-o da posição elevada por sua formação e levando-o a um ponto no
105
qual ele pode se adequar a qualquer um.

O que vemos na carta dos moradores de Santiago de 1546 pode ser entendido
como um traço deste acontecer, no qual os vizinhos mulatos buscam se diferenciar de
todo o resto de sua sociedade. Construir para si um espaço de legitimidade fora da

103
SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. pp.
60.
104
Id. Ibid. pp. 18.
105
Id. Ibid. pp. 49.
57

massa, que está sempre à margem do governo. Ao mesmo tempo, os mulatos de Cabo
Verde atribuem para a sua aptidão aos cargos oficiais uma importância na garantia da
ordem pública e da liderança da comunidade ante a ameaça do desgoverno de escravos
fugidos, marginais à sociedade legal e organizados em quadrilhas.
Temos diante de nós dois exemplos: o dos mulatos de Santiago, que buscam se
individualizar dentro das normas; e os escravos fugidos, que buscam na transgressão das
normas mecanismos de construção de uma norma alternativa; uma sociedade paralela na
quadrilha. Como chegamos a isto e como estudar estes processos nas ciências sociais?
Voltemos à tese de Norbert Elias sobre sociedade para então analisarmos a transgressão
social.
Para Elias, um problema específico da psicologia confere-lhe um papel
importante na análise científica das dimensões cultural e social dos seres humanos. Fato
este que concorre para que a psicologia contribua bastante para a formulação do estudo
da sociedade enquanto rede de relações funcionais entre indivíduos. Assim, cabe à
psicologia por um lado,

investigar a estrutura e as leis naturais de todas as funções auto-reguladoras


humanas, dirigidas para os outros seres e coisas, que desempenham um
papel nas relações que a pessoa mantém com eles e que, por sua
maleabilidade natural, compõe o material a ser moldado por essas relações.
Por outro lado, ela tem que rastrear o processo pelo qual essas funções de
controle mais maleáveis, juntamente com determinada estrutura social e
com o convívio com outras pessoas, diferenciam-se de maneira a dar
origem a uma forma individual específica. Por fim, ela tem que esclarecer a
estrutura geral deste processo de diferenciação e moldagem e explicar,
detalhadamente, como é que a forma particular de controle comportamental
que se consolida num “caráter”, numa composição individual dentro do
indivíduo, com base num determinado conjunto de relações, numa
moldagem social especifica, funciona, posteriormente, no convívio com as
106
outras pessoas.

Em suma, o que para os animais em geral é um padrão fixo de comportamento


diante do mundo, no homem tem que ser construído culturalmente e socialmente no
convívio com os outros homens. Só assim surge o indivíduo, o homem social realiza o
que o homem natural só é em potência. No entanto, este processo de sociação e de
individuação não ocorre sem tensões de tipo e intensidade específicos entre pessoas e
grupos sociais pelo monopólio de bens e valores sociais dos quais dependem a
subsistência e sobrevivência do grupo.

106
ELIAS, N. A sociedade ... op. cit. pp. 41.
58

Por exemplo, questões ligadas à esfera econômica, como o monopólio dos bens
de produção, ou a atuação no resgate de cativos nos mercados escravos da Guiné, são
condicionadas à esfera de poder e legitimação, que em último caso estão ligadas ao
monopólio da violência. Assim, diferenciações econômicas dependem de diferenciações
de poder. A tensão entre quem domina a esfera econômica e a esfera de poder, em caso
de não ser o mesmo grupo, gera uma divisão cada vez maior no interior da sociedade e,
consequentemente, mudanças nas suas relações. É possível que os mulatos de Cabo
Verde neste período, por serem o maior contingente populacional e cada vez mais se
tornarem proprietários de terras e dos meios de produção, buscassem uma posição
política condizente com suas demandas econômicas e sociais.
Estes processos de mudança podem dar margens a diferentes espaços de ação
individual, como demonstra Marshall Sahlins ao discutir a importância do indivíduo na
história. Este autor propõe duas circunstâncias diferentes de atuação individual no
processo de mudança histórica: a ação conjuntural, em que o individuo se apresenta
enquanto motivador da história; e a ação sistêmica, em que a estrutura das relações
sociais ou um encadeamento de fatos aparece como principal motivador da mudança
histórica. 107
Simmel também se preocupa com o peso e o significado do indivíduo como tal
na circunstância social. Sobre isto afirma que somente se a sociabilidade não tiver
qualquer finalidade objetiva fora do instante sociável, esta se apoiaria totalmente nas
personalidades. Elias, por sua vez, sustenta que o que caracteriza o lugar de cada
indivíduo na sociedade e a margem de decisão que lhe é acessível depende da estrutura
e da constelação histórica da sociedade na qual ele vive e age. A liberdade de ação de
cada um está de acordo com a função que se exerce na sociedade, “aquilo que
chamamos „poder‟ não passa de uma expressão para designar a extensão especial da
margem individual de ação associada a certas posições sociais”. 108
Sendo assim, toda posição de mando só existe se há quem a reconheça. Se a
posição social define seu grau de individuação e sua margem de ação na história, resta
aos escravos e às camadas camponesas – para alcançar algum tipo de liderança e
margem de ação histórica – abandonar a terra e o convívio da sociedade dominante para
viver à margem, no banditismo, criando suas próprias normas no interior de suas

107
SAHLINS, Marshall. História e Cultura: apologias a Tucídides. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
2006.
108
ELIAS. A sociedade... op. cit. pp. 50.
59

quadrilhas. A posição de mando nestes grupos marginais é só o que resta aos


miseráveis. No entanto, esta posição os exclui completamente da sociedade, tornando-os
delinquentes e anômicos, pois indivíduos só existem dentro da norma.
Para os escravos em Cabo Verde no século XVI ser reconhecido socialmente
significava reconhecer sua própria condição inferior de escravo e, dentro dos limites
dela, isto é, submetendo-se às normas, negociar as melhores condições possíveis de
cativeiro até a manumissão. Porém, é possível para um escravo diferenciar-se e até ser
indivíduo?
Primo Levi relata no livro É isto um homem? como é possível individuar-se,
diferenciar-se, mesmo sob as condições mais adversas. No caso, um campo de
concentração e extermínio de judeus e outras minorias durante a II Guerra Mundial.
Segundo este livro, a capacidade de adaptação, sobrevivência e criação de novas
identidades e formas de sociabilidade do homem é impressionante. Isto não
necessariamente é uma coisa boa, mas a alternativa é bem pior, como demonstra o
diálogo a seguir sobre o campo de concentração de Auschwitz: “[por que passarmos por
tudo isto?] A explicação é repugnante, porém simples: neste lugar tudo é proibido, não
por motivos inexplicáveis, e sim por que o Campo foi criado para isso. Se quisermos
viver aqui, teremos de aprendê-lo, bem depressa”. 109
Neste mundo de privações, novas sociabilidades se constroem, a principal delas
atribui à antiguidade no Campo um status mais elevado socialmente. Os novatos não
conhecem as regras do jogo, os antigos, já faz tempo, brigam por cada sopro de vida.
Onde há pouco pão, não necessariamente há tanta fome quanto deveria: as pessoas
diferenciam-se pelos mais diversos aspectos e estratégias, desde a lei do mais forte até a
do mais frágil que é amigo de todos e consegue as melhores funções. Todos estão em
busca de algo que lhes permita se alimentar e sobreviver de alguma forma. Para isso,
criam regras. O conhecimento destas regras e o fato de agirem de acordo com elas
determinam quem são os estabelecidos – os mais antigos, que já conhecem as normas de
funcionamento do Campo e desenvolveram relações e formas de diferenciação que lhes
permitissem sobreviver – e quem são os outsiders – os recém-chegados que ainda não
conhecem as regras.

109
LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988. pp. 27.
60

Norbert Elias trata este tema em outra obra, Os estabelecidos e os outsiders.110


Neste livro, o autor procura estabelecer um método de análise sociológica das relações
de poder a partir de uma pequena comunidade empregando os conceitos elaborados em
A sociedade dos indivíduos num estudo de caso a partir, do qual tenta formular uma
constante universal da relação entre estabelecidos e outsiders. Esta, segundo ele, é a
seguinte:
o grupo estabelecido atribuía a seus membros características humanas
superiores; excluía todos os membros do outro grupo do contato social não
profissional com seus próprios membros; e o tabu em torno destes contatos
era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa, no
caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas contra os
111
suspeitos de transgressão.

Ora, não é justamente este o procedimento das “pessoas poderosas”


estabelecidas no seio da sociedade cabo-verdiana contra as aspirações de poder dos
mulatos? As famílias mais antigas estariam agindo – com “injúrias de feias palavras” –
em prejuízo das honras dos mulatos, razão pela qual pedem a presença de um
corregedor régio que faça cumprir o alvará que lhes tornava aptos a servir na câmara e
observar o respeito entre estes dois grupos.
Elias afirma que os estabelecidos formam uma coletividade – nós ou we group –
que busca na coesão interna de comportamentos de seus membros estabelecer uma
identidade como membros de um grupo superior, estigmatizando os outros. Assim,
outsider é tido como um anômico em relação ao estabelecidos, por não dominarem ou
compartilharem seus códigos. Isto se dá exatamente por haver entre estes dois grupos
uma tensão por poder. O monopólio dos valores e, também, a crença sobre quem é
melhor que quem, são armas poderosas nesta disputa. A estigmatização pode surtir um
efeito paralisante nos grupos de menor poder. Por outro lado, se os outsiders os
injuriam, os estabelecidos estão tão bem protegidos em sua coesão interna grupal que
não se importam com o que dizem os outros. “Enquanto o equilíbrio de poder entre eles
é muito desigual, seus termos estigmatizantes [dos outsiders contra os estabelecidos]
não significam nada, não tem poder de feri-los. Quando eles começam a ser insultuosos,
é sinal de que a relação de forças está mudando”. 112

110
ELIAS, Norbert & SCOTSON, John. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de
poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
111
Id. Ibid. pp. 20.
112
Id. Ibid. pp. 27
61

O autor chama a atenção para as conotações raciais da relação estabelecidos-


outsiders, dizendo que
foi em decorrência desse longo processo de interpenetração, no qual grupos
com diferentes características físicas tornaram-se interdependentes como
senhores e escravos, ou ocupando outras posições com grandes diferenciais
de poder, que as diferenças na aparência física passaram a ser sinal de
pertença das pessoas em grupos, com pertenças diferentes e com normas
113
distintas.

Assim, a relação entre senhor e escravo também seria marcada por diferenciais
de poder fundados não na cor da pele, mas em suas funções, em quem são os
estabelecidos e quem são os outsiders. “Todos os grupos que se distinguiam dos demais
por sua posição e suas funções sociais tornavam-se hereditários, sendo, em princípio,
ainda que nem sempre na prática, inacessíveis aos que não nasciam no seu seio [do
grupo estabelecido]”. 114
Deste modo, podemos chegar a duas conclusões parciais sobre os papéis sociais
de cada uma das personagens – mulatos, escravos fugidos e “pessoas poderosas” – que
se apresentam no documento: (1) todas estas personagens só poderiam atuar dentro da
dinâmica de funcionamento da sociedade, isto é, pelo exercício de uma função dentro da
norma estabelecida; (2) Ao fazerem isto reconheciam suas funções hierarquizadas
dentro da norma e assim atribuíam estigmas às diferenças de funções e grupos. Estes
estigmas eram cada vez mais acentuados na medida em que crescia a tensão por poder
entre os grupos.
Por exemplo, os escravos podem escolher fugir e viver fora da norma, mas só
vão poder interferir na norma à medida em que a aceitam e atuam nela e sobre ela. O
banditismo, a quadrilha, é o não ser. Mas, quando se reconhece o sistema de relações e
se age no interior dele, mesmo que em uma posição inferior, está aberto o caminho da
transformação, das trocas e diferenciações. O caminho da individuação. Este caminho
também leva a uma resposta dos grupos estabelecidos em posições superiores de poder,
à medida que reforçam neles um sentimento de coesão interna e formação de uma
moral, para a proteção de sua posição privilegiada, que estigmatize o outro sempre
como inferior e, cada vez mais, atribuindo a características físicas e morais, diferenças
que são primordialmente sociais.

113
Id. Ibid. pp. 46.
114
Id. Ibid. pp. 47.
62

Cabo Verde do século XVI – assim como todas as sociedades humanas – está
repleto de tensões sociais e lutas por poder. Nestas tensões aparecem indivíduos atuando
junto com outros indivíduos com que se relacionam e formam grupos contra outros
grupos de indivíduos. Não nos foi possível, desta vez, identificar as assinaturas e
perseguir as trajetórias dos mulatos que assinaram a carta de 1546, mas acreditamos que
este é um caminho possível para observarmos, na prática, as imbricadas relações sociais
presentes no processo de expansão portuguesa da época moderna.

Considerações finais

Ao longo dos séculos XV e XVI, se formou em Cabo Verde uma sociedade


colonial escravocrata produtora de gêneros voltados para a atuação no tráfico atlântico
de escravos.

A primeira elite de Cabo Verde era, sobretudo de origem reinol, branca, e com
estreitas ligações com a corte, em Lisboa. Portanto, gozavam de influência política
razoável para defender seus interesses como principais agentes do resgate de cativos na
Senegâmbia.

Com a perda da importância de Cabo Verde como entreposto de escravos para


abastecer as colônias que surgiam nas Américas, a elite cabo-verdiana de origem reinol
entrou em decadência e migrou das ilhas. Em seu lugar ascenderam os grupos de
proprietários mulatos, filhos da primeira elite com escravas da terra.

Exemplos como o da família de André Álvares de Almada servem para


demonstrar a trajetória familiar dos membros destas elites insulares na tentativa de
perpetuarem seu poder, sua influência local e, quando possível, no âmbito imperial, para
favorecer seus interesses e permanecer atuando nas costas da Guiné a partir do Cabo
Verde.
63

Capítulo III

O circuito atlântico de tráfico de escravos nos séculos XVI e XVII

O circuito atlântico de tráfico de escravos promoveu o deslocamento de cerca de


doze milhões de homens, mulheres e crianças entre a África, a Europa e a América,
desde o principio da Era Moderna até meados do século XIX. Tal deslocamento
permitiu a viabilidade da plantation americana, da presença europeia na costa africana e
a formação das grandes fortunas negreiras que movimentavam navios e negócios por
todos os lados do Oceano Atlântico.
Esta seção do trabalho se concentra no papel da elite de Cabo Verde como peça
chave na engrenagem que movia o circuito atlântico de tráfico de cativos. Enquanto nos
dois primeiros capítulos foram abordadas as questões relativas à apresentação das
sociedades exportadoras de cativos na Senegâmbia e à construção da sociedade cabo-
verdiana, principalmente em função dos resgates na Guiné, este terceiro e último
capítulo têm por objetivo apresentar a formação do circuito do tráfico propriamente
dito. Ou seja, a construção das rotas negreiras nas quais atuavam os agentes de Cabo
Verde e o volume deste comércio.
Vale lembrar que, como vimos no primeiro capítulo, a escravidão não era
desconhecida na África antes da chegada dos europeus, muito pelo contrário. Nem
tampouco o tráfico de escravos era algo estranho às sociedades da África Ocidental, em
geral, e da Senegâmbia, em particular. O comércio da mercadoria humana já era
praticado pelo menos desde o século VII entre o Sahel e o Magreb através do Saara.
Apesar de ter havido razias e capturas de cativos por parte dos portugueses e
outros europeus ao longo do período em que vigorou o tráfico de escravos africanos, a
escravidão negra não se caracterizou em nenhum momento como uma imposição dos
europeus sobre os africanos em geral. Pelo contrário, ao longo do século XVI e XVII,
vemos a mudança nas relações de poder político entre os reinos e povos da Costa da
64

Guiné justamente pela associação comercial entre determinados povos e, ou, elites
locais africanas com os europeus.
Para apresentar o cenário geral da formação do circuito atlântico de tráfico de
escravos e o papel de Cabo Verde neste mesmo processo, este capítulo será dividido da
seguinte maneira: o primeiro tópico fará uma breve apresentação da escravidão na
África antes da chegada dos europeus e da demanda das rotas terrestres para abastecer
de cativos o mundo islâmico, a chamada rota das caravanas. O segundo tópico, tratará
da demanda europeia por cativos demonstrando a importância do estabelecimento
português em Cabo Verde como entreposto comercial e ponto de concentração e
redistribuição de cativos para a Península Ibérica, num primeiro momento, e para a
colonização da América, logo após. Por último, discutiremos a procura americana por
escravos enquanto Cabo Verde foi sua principal fonte de abastecimento. Este trabalho
tem seu limite na medida em Cabo Verde deixa de ser protagonista do tráfico no
Atlântico na medida em que emergem o Brasil e os empreendimentos coloniais ingleses,
franceses e holandeses no Caribe.

1. A escravidão e o tráfico de cativos na África continental


“Le maitre engendre chaque jour l’esclave em lui
115
laissant quotidiennement la vie”

Não é novidade que a escravidão na África Ocidental, por exemplo, é anterior a


chegada dos europeus. Registros de sociedades escravistas são tão numerosos quanto
antigos. Mesmo no Egito Antigo encontramos referências à escravidão negra. No
entanto, nem toda escravidão é ou foi igual, seu entendimento muda de acordo com a
época e sociedade na qual está inserida.
Durante a segunda metade do século XX, parte da historiografia sobre o tráfico,
principalmente trabalhos de historiadores demógrafos e preocupados com história social
e política, como Walter Rodney, tentaram explicar o subdesenvolvimento africano atual
através de tráfico de cativos. Esta historiografia tendia a ver os africanos praticamente
como “bons selvagens” corrompidos pela cobiça e maldade dos europeus. O que os
historiadores que defendiam esta posição não notaram, ou pareceram não dar
importância, é que a escravidão era disseminada nas sociedades africanas, assim como

115
MEILLASSOUX, Claude. Anthropologie de l’esclavage: le ventre de fer et d’argent. Paris: Presses
Universitaires de France, 1996.
65

também o era comércio de escravos. Trabalhos como o de John Fage serviram para
afirmar esta última ideia.116
John Thornton sustenta que principalmente os fatos ocorridos antes de 1680 – ou
seja, o próprio contato e funcionamento do trato dos portugueses e cabo-verdianos nos
rios da Guiné – o que reforça a posição de Fage. Segundo Thornton, a escravidão era
amplamente difundida na África e o comércio atlântico deve ser entendido como
resultado desta escravidão interna. Ele também salienta que, para entender corretamente
o papel da instituição escravidão na África, é preciso perceber que as estruturas sociais
africanas imprimiram à sua escravidão um caráter totalmente distinto do significado que
esta instituição adquiriu na Europa e na América modernas.
Assim, a escravidão não deve ser entendida como um impacto ou imposição externa
a África, mas como algo desenvolvido e encorajado de forma racional pelas sociedades
africanas que participaram do tráfico de cativos. A escravidão africana diferia do
modelo escravista que vigorou na Europa e na América fundamentalmente por se basear
em princípios e sistemas legais totalmente distintos. Na África atlântica os escravos
eram a única forma de propriedade geradora de rendimentos. Como nos sistemas legais
africanos, diferentemente da Europa, a propriedade privada da terra não era a principal
fonte de renda e lucro, por ser esta uma propriedade coletiva, o escravo era a única
propriedade produtiva. Praticamente todas as sociedades agrícolas da África Ocidental
dependiam da escravidão para sua subsistência.
Outro aspecto importante da escravidão africana diz respeito à configuração política
dos reinos locais. Na costa da Guiné, por exemplo, tanto nos reinos islâmicos, quanto
nas linhagens matrilineares, o poder real só conseguia se afirmar sobre as numerosas
descendências reais e complexas redes de parentelas que disputavam o poder apoiando-
se em exércitos de cativos leais. Não raro, o chefe da guarda real, o líder dos escravos
decidia a sucessão para um partido da nobreza ou para o outro. Um caso destes foi
registrado entre os cassangas do rio Casamansa por André Álvares de Almada, em finais
do século XVI:
É costume desta terra que o Rei que entrar no reinado, quando está vago,
seja eleito pelo capitão dos escravos do Rei passado, que ficam sendo da
coroa. E o eleger não é por voto, nem mais cerimônias que aquele a quem o
capitão der obediência que seja Rei, há de ser pessoa que toque à casa real,
irmão, filhos de irmão, filhos do Rei. E o posto que haja muitos herdeiros e
haja mais velho a quem de direito pertença o Reino, é o Rei aquele que
elege o capitão; alguns entram por força das armas. Estes que assim entram

116
FAGE, John D. História da África. Lisboa: Edições 70, 2010.
66

se metem logo nos Paços Reais, e os que entram em paz são obedecidos por
todos.”

Logo, como podemos perceber no relato acima, por vezes os escravos, por não
estarem incluídos nas relações sociais de parentesco envolvidas na sucessão,
desempenhavam um papel de destaque na vida política local, sendo o fiel da balança
que permitia a paz e a continuidade nos reinos costeiros em momentos de transição.
Este papel de destaque certamente também era desempenhado durante os reinados,
sendo os cativos um exercito leal somente ao seu chefe e senhor.
Aliás, este é um aspecto comum às sociedades africana e americana. Por ser o
cativo destituído de suas raízes, de seu pertencimento social, por se tornar propriedade
de seu senhor, o escravo permitia ao seu senhor dispor de grande poder político e status
social, por não depender exclusivamente das suas alianças e parentelas. Claro que, na
mesma medida que um escravo armado fortalecia a posição de uma determinada casa, o
simples fato de carregar armas e defender seu senhor dava ao cativo melhores condições
de negociar e viver no cativeiro.
Segundo Philip Curtin, muitas sociedades da Senegâmbia se dividiam entre
homens livres, castas profissionais e escravos. Manolo Florentino117 afirma que por ser
a escravidão uma estrutura por si só contraditória, já que o escravo é ao mesmo tempo
propriedade e ser humano, esta contradição só pode ser resolvida no plano da ideologia.
Sobre isto, ele identifica, na África Ocidental, duas grandes linguagens do cativeiro com
as seguintes características:
Características da primeira linguagem, que predominava nas regiões islamizadas:
a. Religião como principal fonte de legitimação da escravatura. Não ser
muçulmano tornava os indivíduos passíveis de escravização.
b. Grande parte dos postos da administração estatal era ocupada por cativos,
embora o número destes fosse pequeno em comparação com os escravos que
trabalhavam na agricultura.
c. Escravas podiam se tornar esposas e concubinas. Assim, os filhos destas com
os senhores seriam livres.
d. A emancipação existia como possibilidade concreta e se realizava a partir de
um ato formal do amo.

117
FLORENTINO, Manolo. “Aspectos do tráfico negreiro na África ocidental (1500-1800)”. In:
GOUVÊA, Fátima & FRAGOSO, João. O Brasil Colonial, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
no prelo.
67

Características da segunda linguagem, própria das sociedades baseada no parentesco e


nas linhagens:
a. Os escravos eram definidos por serem estrangeiros e, portanto, não se
ligarem aos grupos domésticos por laços parentais.
b. Não havia ato formal de emancipação, mas sim um lento e gradual processo
de integração do cativo ao grupo de parentesco.
c. A escravidão existia ao lado de outras formas de dependência pessoal.
d. O escravo era igualmente um instrumento de produção e de reprodução.
e. Mulheres eram muito apreciadas por ser o principal produtor agrícola.

Estas duas linguagens do cativeiro se reforçam e se reformam ao longo do


período do tráfico atlântico. Embora, assim como a escravidão, o tráfico de escravos não
fosse ignorado em parte alguma do continente africano – estando presente na Costa
Oriental que alimentava o Oceano Índico de cativos e na África Ocidental que
alimentava o Egito, o Mediterrâneo e o Oriente próximo -, o tráfico atlântico provocou
mudanças nas configurações politicas das regiões por ele afetadas. Como vimos no
capítulo I, usando o exemplo da Confederação dos Jalofos na Senegâmbia, a chegada
das caravelas deu aos povos costeiros maiores subsídios para conquistarem sua
autonomia dos reinos do interior, que até então dominavam o comércio exterior através
das rotas de caravanas.
Segundo Costa e Silva, por muito tempo tentou se responder a seguinte questão:
as caravelas superaram as caravanas? Ou seja, o tráfico atlântico superou o tráfico
transaariano em número de cativos exportados? Esta questão nos leva a uma inevitável
comparação de números, porém, antes de qualquer coisa, devo ressaltar que o tempo de
vigência de cada sistema comercial, a intensidade e o perfil dos cativos exportados pelos
mesmos são muito discrepantes.
Enquanto a demanda por cativos europeia e americana foi, sobretudo, masculina
e cresceu paralelamente à implementação da colonização e do sistema de plantation na
América, entre os séculos XVI e XIX, a demanda do mundo islâmico foi, na grande
maioria, feminina e diluída ao longo de treze séculos, como podemos verificar abaixo.
Os números do circuito atlântico serão apresentados no tópico a seguir sobre
Cabo Verde e o tráfico.
68

Tabela 2: Exportações de escravos africanos para o mundo islâmico (650-1900)118

Global Estimate of Trans- East African Slave Trade Estimates


Saharan Slave Trade
Red Sea Coast Swahili Cost
Period Total Period Total Period Total
650-800 150.000 800-1800 2.000.000 800-1700 900.000
800-900 300.000 1800-1890 1.000.000 1700-1800 200.000
900-1100 1.740.000 1800-1850 150.000
1100-1400 1 650.000 1850-1875 775.000
1400-1500 430.000
1500-1600 550.000
1600-1700 710.000
1700-1800 715.000
1800-1880 1.165.000
1880-1900 40.000
Sub-Total 7.450.000

Desert Edge 5%
Retention

Mortality 20%

Total 9.387.000 3.000.000 2.025.000

118
Fonte: MANNING, Patrick. Slavery and African Life: Occidental, Oriental, and African Slave
Trades. New York, Cambridge University Press, 1990.
69

2. Cabo Verde e o tráfico atlântico

Não resta dúvida de que a ocupação do arquipélago de Cabo Verde se deu em


função da necessidade portuguesa de fazer valer sobre a Senegâmbia, entendida na
época como Guiné e posteriormente como Alta Guiné, seu senhorio marítimo e
comercial, funcionando como centro das operações lusas na região e para afugentar
mercadores a serviço de outras potências europeias.
Para acessar as redes de comércio desta região, Cabo Verde constituiu-se em um
espaço privilegiado de atuação logístico-mercantil na costa africana. Era, portanto, de
essencial interesse da Coroa portuguesa ocupar efetivamente o arquipélago. A expansão
marítima portuguesa foi incentivada pelo Infante D. Henrique e após a sua morte, em
1460, seu sucessor e sobrinho D. Fernando, Duque de Viseu, continuou a patrocinar
viagens exploratórias no Atlântico. A casa de Viseu impulsionava as viagens
ultramarinas armando navios e fornecendo homens e cavaleiros para esta empreitada,
pois, por determinação régia, possuía o senhorio marítimo e das terras encontradas.
Assim, o cavaleiro da casa ducal, Diogo Gomes, e outros navegantes a serviço do
Infante como o veneziano Alvise de Cadamosto e Antônio de Noli, descobriram ao
longo das décadas de 1450 e 1460 as diversas ilhas que formam o arquipélago de Cabo
Verde.119
Destarte, o modelo de ocupação e uso econômico das ilhas foi servir de base
para os resgates da Guiné e assegurar o controle da rota comercial do Atlântico Sul.
Para garantir meios de sobrevivência e tornar interessante para algum colono reinol se
120
instalar em Cabo Verde, a Carta de privilégios de 1466 concedeu aos vizinhos de
Cabo Verde, os primeiros homens a se instalar por lá, o direito de resgatar de cativos na
Guiné, entre o Cabo Branco e a Serra Leoa. 121 Em 1472, este privilégio de comerciar na

119
Ver MATOS, A. T. (Org.). Nova história da expansão portuguesa — a colonização atlântica. Vol.
III, t. I e II. Lisboa: Estampa, 2005. O Senhorio marítimo foi concedido ao primeiro Duque de Viseu, o
Infante D. Henrique, pelo rei D. João I, seu pai. Quando da ascensão de D. Manoel I ao trono, em 1495, o
senhorio marítimo foi incorporado à casa régia. D. Manoel era filho de D. Fernando, segundo Duque de
Viseu. Voltaremos a este assunto mais adiante.
120
Vizinho é o termo utilizado na documentação coeva para designar o morador com plenos direitos
políticos em cada localidade. Sendo assim, um vizinho de Cabo Verde é aquele que goza de todos os
privilégios concedidos pela monarquia ao habitante do arquipélago.
121
CARREIRA, António, Cabo Verde: formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-
1878). Praia: IPC, 2000; SENNA BARCELOS, Christiano José. Subsídios para a História de Cabo
Verde e Guiné, I, pp. 21. Tipografia da Academia Real de Sciencias de Lisboa, 1899; Brásio, A.
Monumenta... op.cit.
70

Costa africana foi limitado ao uso de mercadorias produzidas nas ilhas, incentivando
que o tráfico de cativos servisse para a real ocupação do território das ilhas. 122
Paralelamente, a Coroa portuguesa costurou no Tratado de Tordesilhas um
acordo com Castela sobre o direito exclusivo dos portugueses de explorar a Costa da
África. Ao mesmo tempo, Portugal reservava à Coroa a exploração do trato na fortaleza
de Arguim, concedia aos vizinhos de Cabo Verde o comércio desde ali até a Serra Leoa
e arrendava o direito de explorar a Costa da Pimenta em diante rumo ao sul a grandes
comerciantes lisboetas. Nenhum navio deveria se dirigir à Costa africana sem a
autorização expressa da Coroa portuguesa.
Assim, estava reservado aos colonos de Cabo Verde um importante papel no
comércio com a África. Uma vez que a Carta de privilégios lhes concedia o direito de
resgatar na Guiné, os cabo-verdianos podiam agir como intermediários na compra e
exportação de cativos africanos. Este direito contribuiu para que os homens instalados
em Cabo Verde se estabelecessem como únicos representantes da monarquia portuguesa
entre o Cabo Branco e a Serra Leoa. Santiago era a sede do Bispado desde 1532 e desde
muito antes disso se apresentava como ponto culminante de diversas redes comerciais
que se espalhavam pela Guiné.
No capítulo anterior vimos como se formou em Cabo Verde uma sociedade
hierarquizada, extremamente católica e pautada na mesma lógica de Antigo Regime em
vigor em Portugal, mas em que no topo da pirâmide social, ou seja, do poder local
estavam proprietários rurais traficantes de escravos. Homens que produziam panos de
algodão, milho, criavam cavalos, com o único objetivo de armar navios para comerciar
no continente africano próximo. Estes homens eram, na maior parte das vezes, oriundos
da pequena nobreza a serviço da Casa ducal e, ou, pessoas que chegaram às ilhas para
cumprir algum cargo administrativo e se deixaram ficar envolvendo-se no lucrativo
comércio da região.
Ora, se Cabo Verde pôde se viabilizar como espaço colonial e ponto de apoio e
viragem de pessoas, navios e capitais pelo Oceano Atlântico, foi graças ao privilégio
concedido aos seus moradores e, logicamente, à interdição deste mesmo direito a outros
comerciantes.
O privilégio do Resgate da Guiné permitiu a elite cabo-verdiana transformar o
arquipélago no principal entreposto de escravos do Atlântico durante o século XVI.

122
BRÁSIO. Monumenta, 2ª série, I. Doc. nº 67.
71

Conforme a colonização da América avançava e as primeiras plantações de açúcar em


Hispaniola, no México e em Cuba se desenvolviam, Cabo Verde via sua importância e
volume de tráfico de escravos se multiplicarem. 123
Em maio de 1510, o Procurador dos moradores de Santiago junto ao Rei, João
Jorge, refere-se à ilha como “huã das principaes escapullas124 da Jndia e Guinee [sic]”, e
ressalta ainda a doação, por parte dos moradores da ilha, de setenta negros à armada de
Afonso de Albuquerque que rumava para a Índia, em 1504.125 Este testemunho nos
confirma a posição privilegiada e imprescindível do estabelecimento em Cabo Verde
para a navegação e comércio através do Atlântico.
Podemos ter uma ideia da importância do tráfico e do volume de negócios nos
quais Cabo Verde estava envolvido neste período de formação do circuito atlântico de
tráfico de escravos ao analisarmos as informações constantes na base de dados The
Trans-Atlantic Slave Trade Database.126 A partir destes dados podemos construir uma
imagem do que foi: a) a oferta de cativos em África; b) a procura americana por
escravos; e c) o papel desempenhado Cabo Verde e pelos cabo-verdianos como
intermediários neste processo de formação do mundo Atlântico.

123
Sobre este assunto, ver: RIVERA, Germán Peralta. El comercio negrero em América Latina, 1595-
1640. Lima: Editorial Universitaria, 2005. Ver também: ALBERTO, Solange .... [et al.]; compiladores,
VELEZ, Diana Bonnett... [et al.]. La Nueva Granada Colonial. Bogotá: Uniandes; CESO, 2005.
124
Esteios, apoios.
125
BRÁSIO, Monumenta. Op cit. Vol 2. Doc. Nº 14. Pág. 38.
126
ELTIS, D.; RICHARDSON, D.; BERHENS, S.; & FLORENTINO, M. The Trans-Atlantic Slave
Trade Database. (www.slavevoyages.com) acessado pela última vez em 13 de março de 2010. Nos
referiremos a esta fonte a partir de agora apenas como TSTD.
72

a. A oferta de escravos africanos

A tabela abaixo, que mostra o volume de cativos transportados nos navios


negreiros ao longo século XVI, de acordo com a data da viagem:

Tabela 3: Fluxo do tráfico atlântico de escravos embarcados no século XVI de acordo com a região
de origem

Sudeste
Costa Baía África Centro- africano e
Senegâmbia e Serra Costa da Costa dos
do de Ocidental e ilhas do Totais
Bacia Atlântica Leoa Pimenta Escravos
Ouro Biafra St. Helena Oceano
Índico

1501-
57.184 0 0 0 0 2.080 4.862 0 64.126
1550

% 89 0 0 0 0 3,2 7,6 0 100

1551-
90.098 1.405 2.482 0 0 6.379 113.016 0 213.380
1600

% 42,2 0,6 1,2 0 0 3 53 0 100

Totais 147.282 1.405 2.482 0 0 8.459 117.878 0 277.506

% 53 100

Fonte: The Trans-Atlantic Slave Trade Database. (www.slavevoyages.com) acessado pela última vez
em 13 de março de 2010.

Ao longo da segunda metade do século XVI, o tráfico português que


praticamente só abastecia os arquipélagos atlânticos e a Península Ibérica, mais do que
triplica em volume de cativos exportados na medida em que a empresa colonial
agroexportadora começa a funcionar na América. Esta precisava de braços, já que a
população indígena do Caribe diminuía com grande rapidez.
Percebemos de forma clara, então, como se incrementou o tráfico pessoas a
partir da segunda metade do século XVI. Logicamente é de se imaginar que este
crescimento tenha trazido grandes transformações não só aos mercados produtores
africanos, como no caso das transformações políticas da Senegâmbia a que nos
referimos anteriormente, mas também para a sociedade colonial cabo-verdiana. O
aumento da procura americana, com a colonização das Índias de Castela, provavelmente
serviu para impulsionar a economia de Cabo Verde.
73

Esta posição privilegiada talvez tenha sido a responsável pelo fortalecimento da


economia escravista de produção e comércio no arquipélago. Trabalhamos com a
hipótese de que os vizinhos da Ribeira Grande eram armadores e proprietários de terras.
Portanto, eles atuavam tanto na produção mercadorias de grande circulação nos
mercados costeiros africanos, quanto na armação de navios para aquisição e
reexportação de cativos. Estes homens também dispunham de escravarias. Sabemos, por
exemplo, que em 1582, alguns vizinhos da Ribeira Grande possuíam cerca de cem
escravos nas suas fazendas.127
As propriedades de Cabo Verde, a partir da segunda metade do XVI, passam a
funcionar não apenas para a produção de bens, mas também, e principalmente para a
aculturação dos escravos. Ou seja, para iniciar os cativos no idioma e nos costumes da
escravidão engendrada pelos europeus e pela plantation americana. Assim, o
arquipélago de Cabo Verde passa a funcionar como o principal ponto de agrupamento,
conversão e redistribuição de cativos para o Oceano Atlântico.
De passagem por Cabo Verde em fins do XVI, o mercador florentino Francesco
Carletti testemunha que o Atlântico, espaço onde se desenvolvia este comércio seria
sulcado na vertical até Santiago e, então, na horizontal até Cartagena, nas Índias de
Castela.
Em 1594, Francesco tornou-se procurador de uma dama sevilhana, obteve o
despacho da Casa de Contratação, inscreveu seu nome e dos marinheiros que viajavam
consigo nos registros legais e partiu do porto de San Lucar de Barrameda, próximo à
Sevilha, com setenta e cinco licenças para introdução de escravos nas Índias. Seu
destino foi o arquipélago português de Cabo Verde, o maior entreposto de escravos da
época. Ali, “os grandes mercadores locais guardavam nas suas fazendas no interior da
ilha parte dos cativos que possuíam para vender. Assim, quando corria a notícia da
chegada de navios negreiros, apressavam-se a organizar mostras e loteamentos de
africanos”. 128
Se analisarmos os dados referentes às viagens negreiras durante o século XVI,
podemos ter uma ideia aproximada do volume do tráfico que passou por Cabo Verde.
Acreditamos que, sendo a América Central espanhola e o Caribe as principais áreas de

127
“Relação de Francisco de Andrade sobre as ilhas de Cabo Verde”. In: BRÁSIO, A. Monumenta... Op.
Cit. 2ª série, vol III, doc 42, pp. 97-107.
128
TORRÃO, Maria Manuel Ferraz; TEIXEIRA, André. “Negócios de um florentino em Cabo Verde:
descrições e reflexões sobre a sociedade e o tráfico em finais do século XVI”. (p. 9). In: Actas do
Congresso Internacional ―Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades‖. Lisboa, 2 a 5
de Novembro de 2005.
74

desembarque de cativos na América ao longo do período estudado, Cabo Verde seria


um dos principais esteios para a navegação na rota entre as costas africana e americana.
A viagem entre Santiago e Cartagena, por exemplo, durava em média cerca de quarenta
129
dias. Seria lógico então supor que muitos navios, ainda que não tivesse no
arquipélago a origem de seus carregamentos, fizessem ali uma escala para abastecer-se
de água, mantimentos e quem sabe até de tripulantes antes de cruzar o Atlântico.
A tabela sobre o fluxo de cativos de acordo com a região de procedência
demonstra a importância da África Ocidental para o tráfico negreiro no XVI. Esta região
foi responsável por quase 60% do resgate de cativos africanos ao longo do século XVI,
ao passo que a África Centro-Ocidental foi responsável por cerca de 40% dos escravos
traficados. Mesmo assim, os números de exportação da África Centro-Ocidental
somente começam a se tornar significativos à medida que a colonização do Brasil toma
fôlego e o arquipélago de São Tomé e Príncipe se torna também um entreposto de
escravos ao invés de principalmente produtor de açúcar, no último quartel do XVI.

Tabela 4: Fluxo do tráfico atlântico de escravos embarcados no século XVII de acordo com a região
de origem

Sudeste
África
Senegâmbia africano e
Serra Costa do Costa Baía do Baía de Centro-
e Bacia ilhas do Totais
Leoa Barlavento do Ouro Benim Biafra Ocidental e
Atlântica Oceano
St. Helena
Índico

1601-
54.222 1.372 0 2.497 9.609 36.461 563.388 345 667.893
1650

% 8,2 0,3 0 0,45 1,5 5,5 84 0,05 100

1651-
81.882 5.471 1.350 106.182 260.204 149.860 571.418 31.370 1.207.738
1700

% 6,8 0,5 0,1 8,8 21.5 12,5 47,3 2,5 100

Totais 283.386 8.248 3.832 108.679 269.813 194.780 1.252.684 31.715 2.153.137

% 13,2 0,4 0,2 5 12,5 9 58,2 1.5 100

129
Para algumas viagens registradas no TSTD, é possível aferir o tempo de viagem comparando a data de
saída do navio com a data de chegada. O tempo de uma viagem de Cabo Verde a Cartagena, por exemplo,
variava de 40 a 42 dias de translado.
75

Estes dados corroboram nossa opinião de que, durante o século XVI, Cabo
Verde despontou como principal entreposto de escravos do Atlântico, principalmente
por que a região da Senegâmbia e o porto de Santiago eram responsáveis sozinhos por
53% dos escravos exportados por todas as regiões da África.
Durante o século seguinte as posições se inverteriam e Cabo Verde e a
Senegâmbia perdem importância proporcionalmente ao avanço do volume de tráfico da
África Centro-Ocidental. Podemos notar na tabela acima como o volume de tráfico da
África Centro-Ocidental cresce ao longo da segunda metade do XVI para então se
afirmar como a maior região produtora de escravos no século seguinte. O aumento do
volume de resgate de cativos da África Centro-Ocidental coincide com a decadência de
Cabo Verde enquanto principal entreposto de escravos do Atlântico e a ascensão de São
Tomé a esta mesma posição. Isto se deve, em parte, à reconfiguração do tráfico
Atlântico e de mudanças nos destinos dos navios negreiros portugueses.
Tais mudanças podem ser melhor entendidas comparando os dados da oferta de
escravos africanos, de acordo com a região de procedência, com os dados da demanda
de cativos na América, de acordo com as regiões de destino dos negros no Novo
Mundo.
Entretanto, cabe ressaltar, como demonstra o gráfico abaixo, que o tráfico de
escravos na Senegâmbia manteve estáveis os índices de exportação de cativos. O que
fez pender a balança a favor da África Centro-Ocidental como principal fornecedora de
cativos para a América foi a sua densidade demográfica maior e, sobretudo, a
emergência da América portuguesa como o maior mercado importador de cativos.

Gráfico 1: Comparação das exportações das áreas exploradas principalmente a partir de Cabo
Verde e principalmente a partir de São Tomé, nos séculos XVI e XVII

600.000
500.000
400.000
300.000 Senegâmbia e
Bacia Atlântica
200.000
100.000 África Centro-
Ocidental
0
76

b. A procura americana

A outra ponta do lucrativo comércio de escravos, aquela que fomentou o


aumento da procura por cativos, o maior mercado consumidor foi sem dúvida a
América. Apesar de muitos autores destacarem a ilha da Madeira130 e a Península
Ibérica como grandes importadores de escravos, a experiência escravista nestes lugares
serviu em alguma medida para preparar o que estava por vir. Nem de longe o volume do
tráfico durante o século XV e primeira metade do XVI pode competir com a grande
engrenagem devoradora de braços e almas que se formou após a instalação da plantation
americana. Assim como os números do volume do tráfico para a América na segunda
metade do XVI e durante o XVII também não se comparam às proporções alcançadas
por este trato no seu apogeu entre o XVIII e o XIX.
Dos destinos para as viagens negreiras nas Américas, os principais deles eram
Cartagena de las Índias, no antigo Vice-Reinado da Nova Granada e atual Colômbia, e
Veracruz, no atual México, com cerca de 40% e 13% do total de escravos traficados
durante o século XVI, respectivamente. Cartagena funcionava não só como principal
porto espanhol no Caribe de então como também era a porta de entrada para os escravos
destinados às minas de prata do Vice-Reinado do Peru. Por lá também escoava a
produção de metais preciosos peruana. Veracruz era o principal porto Atlântico da Nova
Espanha.
A tabela a seguir nos dá uma clara ideia da diversidade de destinações dos
navios negreiros na América, da quantidade de escravos que cada região americana
recebeu e quando. No último tópico deste capítulo, sobre a montagem da economia
escravista no Novo Mundo, está uma tabela com as viagens negreiras de acordo com os
portos de chegada na América, nos permite aferir o tamanho da ocupação espanhola na
região e sua procura por cativos. A maior parte desta demanda era suprida por iniciativa
de traficantes portugueses que atuavam nos dois lados do Atlântico e faziam esta
travessia. Durante a União Ibérica, ao passo que a mão de obra africana substituía
paulatinamente a mão de obra indígena que definhava em face da exploração e das

130
Ivana Elbl estima em 156 mil o número de escravos exportados das costas africanas para a Península
Ibérica e para as ilhas atlânticas entre 1441 e 1521. Philip Curtin sugere que estes valores cheguem
apenas até 78 mil escravos até 1525. Entretanto, poucas foram as viagens para estas localidades que
apareceram em nossa pesquisa no TSTD para viagens entre 1514 e 1613. ELBL, I. “The volume of the
early atlantic slave trade, 1450–1521”. The Journal of African History, 38, pp. 31-75, Cambridge
University Press, 3/1997; CURTIN, P. The atlantic slave trade: a census. Madison: The University of
Wisconsin Press, 1969.
77

doenças trazidas pelos europeus, muitos portugueses se estabeleceram na América


espanhola e atuavam nos seus principais portos.

Tabela 5: Fluxo do tráfico de escravos embarcados nos séculos XVI e XVII de acordo com a região
de destino

América
Caribe Caribe América Caribe América
Europa do Brasil África Totais
Inglês Francês Holandesa Dinamarquês espanhola
Norte

1501-
637 0 0 0 0 0 63.489 0 0 64.126
1550

% 1 0 0 0 0 0 99 0 0 100

1551-
266 0 0 0 0 0 178.428 34.686 0 213.380
1600

% 0,1 0 0 0 0 0 83,6 16,3 0 100

1601-
120 141 34.726 628 0 0 254.362 377.649 267 667.893
1650

% 0,02 0,03 5,2 1 0 0 38,2 56,5 0,05 100

1651-
3.519 19.815 370.391 49.728 145.980 22.610 58.939 532.712 4.045 1.207.738
1700

% 2,7 1,5 30 4 11 2 4,5 44 0,3 100

Totais 4.542 19.956 405.117 50.356 145.980 22.610 555.218 945.047 4.312 2.153.137

% 0,02 1 18,8 2,3 7 1,06 25,8 44 0,02 100

Fonte: Eltis, David; Richardson, David; Berhens, Stephen; Florentino, Manolo. The trans-atlantic slave
trade database. http://www.slavevoyages.org/tast/assessment/estimates.faces

Podemos ter uma evidência da presença lusitana ao confrontarmos a


nacionalidade das bandeiras dos navios negreiros atuantes no trato de escravos no
período.
78

Tabela 6: Bandeiras dos navios negreiros nas viagens entre 1514-1613


Nº de
Nº de Nº de escravos
Bandeiras % escravos % %
viagens desembarcados
embarcados
Espanha 23 3,2 3.257 2,25 2.383 2,25
França 1 0,1 59 0,05 45 0,05
Grã-
19 2,7 1.923 1,35 1.442 1,35
Bretanha
Holanda 7 1 1.909 1,35 1.630 1,55
Portugal 298 43 71.842 49 51.657 49
Sem
referência 346 50 67.533 46 48.348 45,8
de bandeira
Total 694 100 146.523 100 105.505 100
Fonte: The Trans-Atlantic Slave Trade Database. (www.slavevoyages.com) acessado pela última vez
em 13 de março de 2010.

Enquanto os navios com bandeira espanhola representam pouco mais de 2% do


total de viagens, os portugueses eram responsáveis por quase metade de tudo que se
traficou entre 1514 e 1613. Uma fatia considerável do mercado. Vale a pena salientar
que as viagens incluídas na pesquisa são apenas aquelas que trazem informações sobre a
sua partida e a sua chegada, ou seja, aquelas que geram registro nas autoridades
alfandegárias. Franceses, ingleses e holandeses, muito afeitos à prática da pirataria neste
período, dificilmente gerariam muitos registros. Talvez por isso sua parcela de
participação no mercado de cativos seja tão pequena.
No entanto, a mesma consideração pode ser feita para os navios portugueses e
espanhóis, já que é impossível através do banco de dados com o qual trabalhamos
estimar o número de escravos contrabandeados. Outro fator importante a ser sublinhado
é que não dispomos de informações sobre a nacionalidade de quase metade – 46% – das
viagens, o que pode, seguramente, mascarar uma participação ainda mais efetiva dos
comerciantes portugueses no trato. Se para a documentação de viagens que traz
referências à bandeira dos navios, a participação portuguesa já representa quase a
totalidade das viagens, pode-se supor que as outras viagens tivessem a mesma
característica, até porque os nomes dos navios e capitães são em sua maioria lusitanos.
Ora, estes comerciantes portugueses atuavam no tráfico da Senegâmbia, sejam
os instalados em Cabo Verde ou em associação com estes para o resgate ou apoio
logístico às embarcações que faziam a travessia do atlântico. Então, o arquipélago não
só estava localizado no centro das rotas comerciais atlânticas como também participava
ativamente delas. Os comerciantes, armadores e pilotos que por ali passavam ou se
79

instalavam eram responsáveis diretos pela empresa mercantil que promoveu uma das
maiores transformações econômica, demográfica, e cultural da história da humanidade,
a fundação da América colonial através da migração forçada de milhares de vidas
africanas. No meio disto tudo estava a sociedade cabo-verdiana e seus atores sociais.

131
Mapa III – O espaço econômico Cabo Verde – Costa da Guiné e o comércio intercontinental

Como salientamos anteriormente, o período estudado compreende-se entre a


descoberta de Cabo Verde e o que entendemos ser o declínio de sua importância no
tráfico de escravos transatlântico. Para marcar o fim deste ciclo, escolhemos a data de
1613, por entendermos que, nesse momento, as transformações ocorridas no cenário

131
FERRAZ TORRÃO, Maria Manuel. “Rotas comerciais, agentes econômicos, meios de pagamento”.
In: MADEIRA SANTOS, Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo Verde. Volume II. Lisboa;
Praia: IICT; INCCV, 1995. p. 95.
80

político internacional e no mercado da Guiné levaram a uma profunda transformação da


sociedade das ilhas de Santiago e Fogo. Disputas com os arrendatários dos Asientos,
perdas de arrecadação fiscal frente ao crescimento de Cacheu, freqüentes ataques
piratas, fome, falta de dinheiro e decréscimo brusco da população urbana levou Santiago
a uma profunda crise institucional e econômica.
A entrada de franceses e ingleses na expansão comercial marítima no século
XVI, principalmente de meados para o final do século, e dos holandeses, no início do
século seguinte, provocou muitas perdas aos portugueses. O mesmo Diego Florez de
Valdez, citado anteriormente, alerta o soberano da União Ibérica:

Soy informado que son tan señores desta costa de Guinea, y destas islas,
franceses é ingleses que non son señores los naturales de estar em sus casas,
segun los muchus ecesos que aqui hacen; (...) por donde conviene que
vuostra Majestad sea más señor della, com fuerzas de poderla defender á
132
cualquiera enemigo que quisiese poblalla.

Sobre a competição de outras potencias européias na Senegâmbia vale destacar


dois aspectos. Em primeiro lugar, foi contestado e desconsiderado após as reformas
protestantes o exclusivo português sobre o Atlântico sul e a costa da Guiné concertado
com Castela em Tordesilhas e homologado por bula papal. Piratas ingleses, franceses e
holandeses agiam na costa africana, pilhando e aterrorizando comerciantes ibéricos.
Em segundo lugar, os lançados – europeus que se instalaram na costa continental
por sua própria conta e risco, criando suas próprias relações de amizade e comércio com
as populações locais – portugueses nas costas da Guiné e os reis vassalos 133 africanos
não tinham nenhum escrúpulo em negociar com quer que fosse desde que pela melhor
oferta, fazendo, obviamente, subir o preço dos resgates.
Assim, instalaram-se na região contrabandistas e estrangeiros que passaram a
atrapalhar o domínio português sobre o trato de cativos. Em terceiro lugar, a Coroa
Ibérica arrendava o direito de comerciar ao sul de Serra Leoa e também na costa da
Guiné ao sul de Cabo Verde. Já era assim desde o tempo de D. Afonso e estava previsto
na Carta de privilégios dos moradores de Santiago. Porém, as necessidades fiscais de
arrecadação dos Habsburgo levaram a que vários arrendamentos sucessivos fossem
feitos a fim de adiantar à Coroa o dinheiro dos direitos. As cobranças não mais eram

132
BRÁSIO. A. Monumenta Missionária Africana. 2ª Série. Vol. III. Doc. 41. pp. 94. Lisboa: Agencia
Geral do Ultramar, 1964.
133
Os Reis de Portugal do século XVI intitulavam-se “Rei de Portugal e Algarves d‟Aquém e d‟Além
Mar em África, senhor da Guiné...”.
81

efetuadas no porto da Ribeira Grande. Passando os navios ao largo, a cidade não tinha
como arrecadar nem mesmo o suficiente para as suas ordinárias (despesas), que vinham
do erário régio arrecadado na feitoria e alfândega de Cabo Verde.
Além destes fatores, a prevalência de Cacheu, no rio São Domingos, na
Senegâmbia, enquanto feitoria portuguesa responsável pelo trato da Guiné levou a que
mesmo os armadores da ilha passassem a partir diretamente da costa para a Europa ou
América, mudando o caráter de sucessão dos bens fundiários, contribuindo assim,
decisivamente, para o declínio da sociedade mercantil e urbana das ilhas. 134
Como já apontamos anteriormente, surgiu, no século XVI, a vinculação das
135
terras nas ilhas. Muitos foram os casos de morgadios ou capelas constituídas por
moradores ao longo deste período e por todo o século seguinte. A vinculação era uma
forma de manutenção do patrimônio familiar nas mãos de um único herdeiro
administrador (morgado), que ficava, então, encarregado de cumprir as determinações
estipuladas no ato de sua instituição. Há diferenças no caráter de morgadios e capelas,
entretanto o que nos interessa aqui são duas características comuns a essas instituições.
Primeiro, o administrador ficava responsável pela manutenção do conjunto de bens
vinculado, podendo sempre aumentá-lo, mas nunca subtraí-lo de qualquer parte. Depois,
por estabelecer um conjunto de bens inalienável, a vinculação retira do mercado uma
parcela considerável de terras.
A vinculação como artifício jurídico para a proteção de um patrimônio tem
raízes na sociedade medieval tardia portuguesa e não obedece a uma lógica produtiva de
mercado. Pode funcionar como exemplo da economia de Antigo Regime, onde a lógica
de mercado era frequentemente subvertida em prol de elementos estratégicos familiares,
ideológico-religiosos ou de caráter localista de proteção da república, da ordem
estabelecida. A adoção de práticas como a vinculação em Cabo Verde foi absolutamente
contraditória se analisarmos sua utilização de forma teleológica a partir de um ponto de
vista contemporâneo. O estrangulamento produtivo das ilhas provocado pela retirada de

134
Maria Manuel Ferraz Torrão faz minuciosa abordagem da “viragem” do tráfico de Cabo Verde para a
Guiné. FERRAZ TORRÃO, Maria Manuel. “Rotas comerciais, agentes econômicos, meios de
pagamento”. In: MADEIRA SANTOS, Maria Emília (Coord.). História Geral de Cabo Verde. Volume
II. Lisboa; Praia: IICT; INCCV, 1995.
135
Ambos os tipos de vinculação tinham como objetivo a manutenção da propriedade e a reprodução da
família, através de seu conjunto de bens, seu nome e sua honra. Sobre este último aspecto, a diferença
entre morgados e capelas é significativa. As capelas eram instituídas com encargos e obrigações para com
a homenagem às almas do instituidor e seus familiares, gerando onerosas despesas não reprodutivas ao
patrimônio vinculado. Correia e Silva aponta as missas, pensões, esmolas e homenagens aos proprietários
rurais como um fator contributivo para o encarecimento das mercadorias das ilhas. CORREIA E SILVA,
A. “Cabo Verde e a geopolítica...” op. cit. pp. 9.
82

terras do mercado contribuiu fatalmente para a derrocada de economia local, entretanto


estas práticas eram características da sociedade portuguesa de Antigo Regime e
definidoras das categorias sociais que a formavam. Portanto esta sociedade não
conhecia o remédio para suas mazelas econômicas, pois nem mesmo era capaz de
diagnosticas seu próprio mal.
A todos estes fatores somaram-se a enorme falta de dinheiro e a fome no
arquipélago em princípios do XVII. Em 1613, só circulavam cartas de câmbio, ordens
de pagamento e papel-moeda nas ilhas, fato que gerou uma crise econômica tão grande
que a câmara da cidade da Ribeira Grande aprovou uma postura 136 autorizando o uso de
panos como moeda corrente. Por isto 1613 foi escolhido como nossa data-limite.
Estas mudanças todas ocorreram numa sociedade que, após anos de sucessivas
secas e fome entre 1609 e 1611, necessitava de dinheiro para comprar víveres às naus
que para lá se endereçavam para tratar, fato que vinha rareando nos últimos tempos.
Santiago viu neste período um rápido e brutal decréscimo populacional urbano, vendo-
se alijada e marginalizada do tráfico e levando a que muitos dos que pudessem dali sair
fossem embora tanto para a Europa, América, quanto, principalmente, para a costa
africana tornando-se lançados.
O tráfico de escravos constituía o fim maior da colonização das ilhas neste
período, na medida em que a própria produção econômica das ilhas seria em grande
medida voltada para atender às necessidades comerciais do mercado da Senegâmbia.
Quando a América Central espanhola e o Caribe deixam de ser o principal destino dos
negreiros portugueses com o fim dos Asientos em 1640, e quando a ilha de Santiago
deixa de ser o principal entreposto de escravos para o Atlântico, Cabo Verde declina e
empobrece muito, pois nunca foi um arquipélago rico por seus próprios produtos. Ou
seja, Cabo Verde começa a perder importância dentro do império português.

136
Resolução com força de Lei.
83

3. Montagem da economia escravista no Novo Mundo

Neste trabalho nos propomos a estudar Cabo Verde a partir de dois conceitos
chave, são eles o Mundo Atlântico137 e o Império Ultramarino português.138
Acreditamos que tanto um conceito quanto outro são significativos para nos ajudar a
explicar a ocupação das ilhas pelos portugueses. No entanto, para o período e a natureza
do problema que pesquisamos – escravidão e tráfico –, o conceito de mundo Atlântico
pode nos ser muito mais útil para entender a colônia em questão, apesar de também
termos em conta a relação de Cabo Verde com a parte oriental do império português,
sendo importante no apoio para a navegação da carreira das índias, que traziam para a
região os panos orientais tão valorizados no comércio com a África Ocidental. Portanto,
nossa preocupação é muito mais sobre as relações mercantis e culturais que ligavam
cada uma das pontas do tráfico de escravos para formar o chamado Mundo Atlântico.
Nesta parte do hemisfério, o conceito de império português está muito mais
condicionado a um conjunto de práticas e concepções de mundo levadas a cabo pelos
navegadores e comerciantes portugueses do que por um efetivo controle estatal das
ações.
Até aqui, concentramos nossos esforços de análise, principalmente, em uma das
pontas deste mundo atlântico, a África, mas como se organizou a empresa colonial do
outro lado do oceano, na América? Como e onde se estabeleceram as colônias ibéricas
na América com as quais dialogavam Cabo Verde e outras praças africanas? Qual era a
demanda por escravos nestas novas colônias, o que e como produziam? Ou seja, como
se formou o mundo escravista colonial nas duas margens do Atlântico a partir dos
fluxos migratórios e mercantis que os conectavam. São algumas das perguntas que
procuraremos responder aqui, mesmo que provisoriamente.
David Wheat, em sua recente tese de doutorado intitulada The afro-portuguese
maritime world and the foundations of spanish caribbean society, afirma que, no
século XVI e princípios do XVII, o Caribe espanhol foi uma extensão do mundo luso-
africano, notadamente no período da União Ibérica, 1580-1640. Esta relação dava-se em
137
Sobre o mundo Atlântico ver, por exemplo: LOVEJOY, P. A escravidão na África: uma história de
suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002; GILROY, P. O Atlântico negro:
modernidade e dupla consciência. São Paulo: Ed. 34; Rio de Janeiro: UCAM/CEAA, 2001;
THORNTON, J. A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2004; entre outros autores que dedicaram suas obras às diferentes conexões entre a Europa, a
África e a América que transformaram o mundo a partir do século XVI.
138
Sobre este conceito, ver BOXER, C. R. O império marítimo português, 1415-1825. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.
84

larga medida em função do tráfico de escravos para a região, mesmo antes do período
dos Asientos portugueses, 1595-1640. E embora os laços que ligavam Portugal ao
Caribe espanhol tenham diminuído após a Restauração do reino de Portugal em 1640,
traficantes e os escravos da primeira grande onda de imigrantes forçados da África para
a América já haviam se tornado agentes decisivos para a expansão e consolidação da
Era de Ouro das colônias caribenhas espanholas. 139
Ao longo do século XVI, os portos de Veracruz, no Vice-Reino da Nova
Espanha, e Cartagena de las Índias, no Vice-reinado de Nova Granada, tornaram-se os
dois principais portos de entrada de escravos africanos na América espanhola. Ao passo
que a mão de obra indígena diminuía por conta das constantes epidemias que
devastaram a população ameríndia logo no primeiro século de contato com o europeu, e
também teve sua escravização proibida pela coroa espanhola em meados do XVI, ainda
que a lei não fosse respeitada por todos, a importação de mão de obra africana crescia
no Caribe, através da imigração forçada e do trabalho compulsório, ou seja, da
montagem do sistema trans-atlântico de tráfico de escravos.
A tese de Wheat é de fundamental ajuda para o entendimento deste momento da
colonização espanhola na América. Seu trabalho é dividido em quatro capítulos, dos
quais os três primeiros nos interessam diretamente. Cada um deles trata
respectivamente: do mundo marítimo português e o Caribe espanhol; do tráfico
transatlântico para Cartagena entre 1570 e 1640; e do mundo rural das colônias,
analisando as complexas relações entre escravos e colonos que formavam o
campesinato colonial.
Como já demonstramos anteriormente o sistema atlântico do qual Cabo Verde
fazia parte serviu para alimentar as colônias americanas em formação de mão de obra,
no entanto o estudo de Wheat nos mostra como este processo serviu também para
alimentar a América de agentes colonizadores, sejam eles marujos, pilotos, capitães,
negociantes, escravos e libertos que estavam em constante movimento de um lado a
outro do oceano.
As redes interpessoais transatlânticas de comércio estabelecidas por estes
agentes conectavam e formavam o chamado mundo português desde de Luanda até as
Filipinas, passando pelo porto de Veracruz, com bifurcação para as minas de prata do

139
WHEAT, D. The afro-portuguese maritime world and the foundations of spanish caribbean
society, 1570-1640. Dissertation submitted to the Faculty of the Graduate School of Vanderbilt
University in partial fulfillment of the requeriments for the degree in Doctor of Philosophy of History.
Nashvile: agosto de 2009. P. 9.
85

Peru via Cartagena.140 Os homens envolvidos no tráfico traziam para estas áreas, além
de suas conexões mercantis, todo um conhecimento sobre a interação social com os
africanos. Os portugueses desenvolveram no atlântico o idioma da escravidão que
implementaram primeiro no Caribe espanhol e depois na América portuguesa. Muitas
pessoas circulavam entre tripulantes de navios negreiros, contrabandistas e colonos
como representantes comerciais e profissionais liberais, como ourives, por exemplo.
O português Jorge Rodriguez Lisboa navegou diversas vezes para Cartagena,
onde residiu por algum tempo, viajou também para a Nova Espanha e para a ilha de
Cuba, tanto a partir de Cabo Verde quanto de Angola com navios carregados de
escravos, conforme o próprio afirmou em seu pedido de renovação de licença para
navegar para as o Caribe espanhol. Em 1608, de volta a Europa, Lisboa, formou uma
parceria com seu tio Simon Rodrigues de Lisboa para traficar 132 escravos da Guiné
para Cartagena e, em 1611, Jorge Rodrigues recebeu autorização da coroa espanhola
para permanecer no Caribe por mais um ano, graças à recomendação do presidente da
Audiencia do Panamá. 141 Domingo Diaz chegou a Cartagena em um negreiro vindo de
Cabo Verde por volta de 1600, serviu como soldado por aproximadamente treze anos
até montar um pequeno negócio de transporte de roupas e alimentos entre Cartagena e
Maracaibo. Outro navegante, Ignácio de Acosta, chegou em Cartagena vindo de São
Tomé num navio negreiro aos 19 anos em 1627 e três anos mais tarde trabalhava como
ourives na cidade. 142
Ao analisarmos conjuntamente estes fragmentos de histórias pessoais podemos
vislumbrar de que maneira os homens portugueses de diferentes categorias sociais
entravam na sociedade caribenha espanhola carregando sua experiência no mundo
africano através de sua participação no trafico atlântico de escravos.
Estes homens foram diretamente responsáveis pelo incremento espantoso do
tráfico a partir da década de 1570, como mostra a tabela abaixo:
A presença portuguesa foi tão grande quanto diversificada no Caribe espanhol.
Onde havia assentamentos, havia necessidade de cativos. Onde se comprava escravos, lá
estava um traficante português ou luso-africano. A tabela VIII demonstra a diversidade
de portos onde os escravos traficados entre 1514 e 1613 foram desembarcados. Nela,

140
VENTURA, M. da G. A. Portugueses no Peru no tempo da União Ibérica: mobilidade,
cumplicidades e vivências. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005.
141
AGI-SF R. 2, nº 84. Consulta sobre “prorrogacion a Jorge Rodrigues Lisboa português por dos anos la
liçençia que tiene para estar em las Yndias”. Madri, 26 de março de 1611.
142
WHEAT, D. Op. cit. pp. 38 e 39.
86

podemos perceber quantas áreas diferentes estavam em desenvolvimento no período e a


abrangência das redes mercantis portuguesas.

Tabela VII – Relação completa dos destinos dos navios negreiros entre 1514 e 1613
Nº de
Nº de Nº de escravos
Destinos % escravos % %
viagens desembarcados
embarcados
Bahia 3 0,43 528 0,4 480 0,45
Borburata/VEN 8 1,15 824 0,6 670 0,63
Caibarien/CUB 1 0,15 82 0,05 58 0,05
Campeche/MEX 13 1,87 3.194 2,2 2.396 2,3
Caracas 2 0,28 604 0,4 429 0,4
Cartagena 242 34,9 57.397 39,1 41.313 39,1
Cienfuegos 1 0,15 40 0,03 18 0,01
Cuba 2 0,28 162 0,11 115 0,1
Havana 8 1,15 1.438 1 987 1
Hispaniola 1 0,15 300 0,2 312 0,3
Jamaica 16 2,3 3.246 2,2 2.281 2,16
La Guiara 3 0,43 749 0,5 531 0,50
Lisboa 1 0,15 400 0,3 284 0,3
Margarita 4 0,57 703 0,5 502 0,5
Middelburg/HOL 1 0,15 183 0,12 130 0,15
Monte Christi 3 0,43 300 0,2 213 0,20
Nova Espanha 7 1 1.553 1 1.105 1
Pernambuco 4 0,57 785 0,53 702 0,7
Puerto Rico 9 1,3 1.168 0,8 833 0,8
Rio de Janeiro 2 0,28 334 0,23 287 0,3
Rio de la Hacha 9 1,3 974 0,7 684 0,64
San Juan 1 0,15 201 0,13 175 0,16
Santa Marta 1 0,15 256 0,2 163 0,15
Santo Domingo 17 2,45 3.623 2,5 2.677 2,53
Sevilha 1 0,15 120 0,1 85 0,08
Trinidad 1 0,15 544 0,4 470 0,44
Venezuela 2 0,28 429 0,3 304 0,3
Veracruz 79 11,38 19.025 13 13.835 13,1
Vigo 1 0,15 237 0,2 168 0,15
Sem referência
251 36,15 47.041 32 33.339 31,5
de destino
Total 694 100 146.523 100 105.505 100
Fonte: The Trans-Atlantic Slave Trade Database. (www.slavevoyages.com) acessado pela última vez
em 13 de março de 2010.
87

Tabela VIII - Das viagens sem referência do porto de destino


Região de Nº de escravos Nº de escravos % do total de
Nº de viagens
destino embarcados desembarcados viagens
América
Central 106 18.181 12.947 42,5
espanhola
Brasil 1 334 287 0,5
Índias
1
Ocidentais 2 614 528
espanholas
Sem referência
142 27.912 19.577 56
de região
Total 251 47.041 33.339 100
Fonte: The Trans-Atlantic Slave Trade Database. (www.slavevoyages.com) acessado pela última vez
em 13 de março de 2010.

Com estas tabelas, pretendemos demonstrar que as principais áreas que recebiam
escravos eram o México – através de Veracruz – e Cartagena, por onde entravam os
escravos para as plantações de cana-de-açúcar caribenhas e para as minas do Peru. No
entanto, outras áreas como Cuba, Santo Domingo, Margarita, Puerto Rico, Rio de la
Hacha, San Juan e Santa Marta, também contribuíram para o incrível crescimento do
tráfico nas últimas décadas do século XVI e inicio do XVII.
A demanda por escravos na América serviu para suprir as plantations de açúcar
recém criadas e de produção ainda incipiente da Nova Granada e da Nova Espanha e, ao
mesmo tempo, criar novos valores de diferenciação social. Com o advento da sociedade
escravista colonial, a posse de cativos tornou-se fator distintivo de honra e poder.
Muitos senhores de Cartagena e da Cidade do México possuíam escravos armados para
servi-los como um exército particular.
Os negros vindos da Senegâmbia tinham grande valor para este serviço, pois
muitos eram frutos da guerra civil entre os Jalofos e conheciam a arte de combater a
cavalo. Segundo María Elena Martinez, o alcaide del crimen da Audiencia Cidade do
México no início do século XVII, Lopez de Azoca se queixou ao Conselho das Índias
de que muitos indivíduos de status social menor continuamente compravam ofícios e
postos no governo local para obterem permissão de andar na companhia de escravos
armados. 143 Ter escravos reforçava posições de poder.

143
MARTINEZ, M. E. “The black blood of New Spain: Limpieza de Sangre, racial violence, and
gendered power in early colonial Mexico”. The William and Mary Quarterly, Third Series, Vol. 61,
No. 3 (Jul., 2004), pp. 479-520.
88

Por outro lado, da mesma forma que serviam em armas para seus senhores,
legitimando-os, quando estes mesmos escravos se rebelavam utilizavam sua experiência
de vida contra a sua opressão. James Sweet, em seu livro sobre como os escravos
recriaram a África nas Américas, ressalta que “na década de 40 do século XVI, na zona
das Caraíbas espanholas, comunidades Uolofes fugidos combateram com seus antigos
senhores recorrendo aos mesmos conhecimentos de cavalaria que haviam aprendido nas
144
guerras da Senegâmbia”. Martinez também relata que as encostas e planícies entre
Orizaba e Veracruz – uma região de produção de açúcar na Nova Espanha – foram lugar
de distúrbios crônicos itinerantes por partes grupos de escravos fugidos que
periodicamente invadiam cidades e plantações. Ela também chama a atenção para vários
pequenos assentamentos quilombolas nesta região.
Estes assentamentos quilombolas reforçam a tese que Wheat sustenta para o
mundo rural no caribe espanhol retratado no terceiro capitulo de seu trabalho, de que os
negros foram os principais agentes da colonização espanhola no Caribe, atuando,
sobretudo, na agricultura alimentícia para abastecer as cidades do Novo Mundo. Para
ele,
a forte dependência do império espanhol pela agricultura dos trabalhadores
negros para sustentar as cidades portuárias principais, põe em cheque a
noção de que o „homem branco‟ era o principal agente da colonização
européia das Américas. O trabalho agrícola, em Cartagena, Havana, Santo
Domingo, Cidade do Panamá, Jamaica e Porto Rico era associado com as
populações negras rurais; diversas ocupações rurais nessas áreas foram
geralmente associados à produção de culturas pecuária e alimentares, ao
contrário das culturas de exportação como o açúcar. Com modelos de
plantação de açúcar em mente, os historiadores da escravidão colonial nas
Américas, associaram em grande medida o trabalho escravo nas zonas
rurais, com o isolamento, a ignorância e a imobilidade. No entanto, tais
caracterizações são tão imprecisas para africano e populações crioulas
rurais do Caribe quanto o eram para o campesinato europeu do início da era
moderna. Ligados aos centros urbanos e ao mundo exterior, por mares, rios,
baías e rotas terrestres, o Caribe rural era um mundo em constante
movimento, apresentando diversas formas de interação social que as elites
urbanas procuravam controlar, geralmente sem sucesso. A proeminência de
pessoas livres de cor entre os proprietários rurais é talvez o marco mais
significativo da, anteriormente subestimada, complexidade do Caribe
145
rural.

144
SWEET, J. Recriar a África: cultura, parentesco e religião no mundo afro-português, 1440-1770.
Lisboa: Edições 70, 2007. p. 113.
145
WHEAT, Op cit. pp. 11 e 12. “The Spanish empire‟s heavy reliance on black agricultural workers to
sustain key port cities calls into question the notion that “white settlers” were necessarily the principal
agents of European colonization of the Americas. Agricultural labor in Cartagena, Havana, Santo
Domingo, Panama City, Jamaica, and Puerto Rico was associated with rural black populations; diverse
rural occupations in these areas were generally associated with the production of food crops and
livestock, as opposed to export crops such as sugar. With sugar plantation models in mind, historians of
slavery in the colonial Americas have largely equated agricultural slave labor in rural areas with isolation,
ignorance, and immobility. Yet such characterizations are as inaccurate for the Caribbean‟s rural African
89

Considerações finais

A partir do que foi apresentado até aqui, podemos concluir que o século XVI
assistiu a um espantoso crescimento do tráfico de escravos trazidos para a América de
diversas regiões africanas como a Senegâmbia, a Costa dos Escravos e a África Centro-
Ocidental.
A posição central de Cabo Verde nesse cenário de expansão do tráfico atlântico
contribuiu em larga medida para a sua afirmação enquanto entreposto comercial de
escravos entre a África, a Europa e a América. Este fato acarretou na formação nas ilhas
de uma elite de proprietários rurais armadores de navios negreiros para alimentar a
demanda cada vez maior por mão de obra que impulsionou a conquista ibérica da
América e a formação de um mundo colonial atlântico em expansão.
Durante este processo, surgiram tanto nas ilhas africanas quanto na América
novas sociedades, híbridas, que combinavam elementos jurídicos e práticas sociais de
Antigo Regime com valores culturais africanos e mestiços que nasceram do esforço e
acomodação dos agentes sociais envolvidos nesta empreitada de colonização. As trocas
mercantis e culturais levadas a cabo durante as enormes migrações populacionais dos
séculos XVI e XVII propiciaram sociedades, de alguma forma, mais abertas do que as
sociedades europeias e proporcionaram a diversos agentes a possibilidade de ascensão
social.

and Afrocreole populations as they were for early modern European peasantries. Linked to urban centers
and the outside world by coastlines, rivers, inlets, and overland routes, the rural Caribbean was a world of
constant movement, featuring diverse forms of social interaction which urban elites sought to control,
usually unsuccessfully. The prominence of free people of color, including African-born ex-slaves, among
rural landowners is perhaps the most significant marker of the rural Caribbean‟s previously under-
estimated complexity”.
90

Conclusão

Ao longo da expansão ibérica se constituiu no Oceano Atlântico uma série de


redes mercantis ligando portos e pessoas na Europa, na África e na América através do
tráfico de escravos africanos e formando um circuito atlântico. Este circuito, do qual
Cabo Verde fazia parte, serviu para alimentar as colônias americanas em formação não
só de mão-de-obra compulsória, mas também serviu para alimentar a América de
agentes colonizadores, sejam eles marujos, pilotos, capitães, negociantes, escravos e
libertos que conheciam o idioma da escravatura, estavam familiarizados com ele e em
constante movimento de um lado a outro do oceano.
Cabe ressaltar que a presença portuguesa na África e sua experiência anterior
nas ilhas atlânticas possibilitou a construção de um precioso conhecimento sobre o
funcionamento de sociedades escravistas, tendo em vista que esta estrutura não era
estranha às sociedades africanas, e foi muito bem testada e adaptada em Cabo Verde,
São Tomé e na Madeira, por exemplo.
Assim, as redes interpessoais transatlânticas de comércio estabelecidas por estes
agentes conectavam e formavam o chamado mundo português desde Luanda até as
Filipinas, passando pelo porto de Veracruz, com bifurcação para as minas de prata do
Peru via Cartagena.146 Os homens envolvidos no tráfico traziam para estas áreas, além
de suas conexões mercantis, todo um conhecimento sobre a interação social com os
africanos. Os portugueses desenvolveram no atlântico o idioma da escravidão que
implementaram primeiro no Caribe espanhol e depois na América portuguesa. Muitas
pessoas circulavam entre tripulantes de navios negreiros, contrabandistas e colonos
como representantes comerciais e profissionais liberais, como ourives, por exemplo.
O português Jorge Rodriguez Lisboa navegou diversas vezes para Cartagena,
onde residiu por algum tempo, viajou também para a Nova Espanha e para a ilha de
Cuba, tanto a partir de Cabo Verde quanto de Angola com navios carregados de
escravos, conforme o próprio afirmou em seu pedido de renovação de licença para

146
VENTURA, M. da G. A. Portugueses no Peru no tempo da União Ibérica: mobilidade, cumplicidades
e vivências. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005.
91

navegar as ilhas do Caribe espanhol. Em 1608, de volta à Europa, formou uma parceria
com seu tio Simon Rodrigues de Lisboa para traficar 132 escravos da Guiné para
Cartagena e, em 1611, Jorge Rodrigues recebeu autorização da coroa espanhola para
permanecer no Caribe por mais um ano, graças à recomendação do presidente da
Audiencia do Panamá.147 Domingo Diaz chegou a Cartagena em um negreiro vindo de
Cabo Verde por volta de 1600, serviu como soldado por aproximadamente treze anos
até montar um pequeno negócio de transporte de roupas e alimentos entre Cartagena e
Maracaibo. Outro navegante, Ignácio de Acosta, chegou a Cartagena vindo de São
Tomé num navio negreiro aos 19 anos em 1627 e três anos mais tarde trabalhava como
ourives na cidade.148
Ao analisarmos conjuntamente estes fragmentos de histórias pessoais podemos
entrever de que maneira os homens portugueses de diferentes categorias sociais
formaram o Atlântico português a partir de suas experiências com o tráfico, a
escravidão, o catolicismo e a monarquia.
A circulação de pessoas ligadas à monarquia portuguesa pelo Atlântico mostra
com as redes sociais mantinham a unidade dessa Talassocracia, se assim podemos
chamar. Isso foi possível devido a sua estrutura social corporativa, que legitima o poder
local, permitindo, muitas das vezes, a mestiçagem.149
Essas redes sociais estavam assentadas, essencialmente, no comércio de escravos
que vinculava a mão-de-obra à área de produção. Porém, as relações que surgem desse
tráfico de homens são muito mais complexas do que o simples abastecimento de força
humana para as lavouras. Os escravos, principalmente nos arquipélagos de Cabo Verde
e São Tomé e Príncipe, acabam fazendo parte do tecido social e muitos deles, libertos
pelo próprio rei, ou seus descendentes, tornaram-se homens de grande proeminência na
comunidade local, poder esse reconhecido pela própria coroa portuguesa.

147
AGI-SF R. 2, nº 84. Consulta sobre “prorrogacion a Jorge Rodrigues Lisboa português por dos anos la
liçençia que tiene para estar em las Yndias”. Madri, 26 de março de 1611.
148
WHEAT, D. The afro-portuguese maritime world and the foundations of spanish caribbean
society, 1570-1640. Dissertation submitted to the Faculty of the Graduate School of Vanderbilt
University in partial fulfillment of the requeriments for the degree in Doctor of Philosophy of History.
Nashvile: agosto de 2009. pp. 38 e 39.
149
Hebe Mattos considera “a legitimidade e a existência prévia da instituição da escravidão no Império
português como condição básica para o processo de constituição de uma sociedade católica e escravista
no Brasil colonial”. MATTOS, Hebe. “A escravidão moderna nos quadros do Império português: o
Antigo Regime em perspectiva atlântica”. In: O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial
portuguesa (séculos XVI-XVII), p. 143. A respeito disto, acreditamos que a mesma chave de leitura
pode ser estendida às ilhas atlânticas portuguesas, como Cabo Verde e São Tomé, por exemplo.
92

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