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8 Figuras de efeito sonoro Aliteragao Aliteracao € a repetigao da mesma consoante ao longo do poema. O leitor deve buscar seu efeito, em fungao da significagdo do texto. No soneto “Bragos”, de Cruz e Souza, aparecem varias aliteragdes. O texto corresponde a0 que 0 titulo anuncia: a descrigdo de membros superiores femi- ninos. Observe as aliteragGes em destaque, e procure veri- ficar em que medida clas sugerem a visio da parte do corpo que esta sendo descrita, As consoantes “BR” da palavra- -titulo bragos vao levar a sonoridade desta palavra-chave para outras, produzindo um tipo de aliteragao. Além desta, note também as outras aliteragdes destacadas no texto (S, V, T, M). BRAGOS BRaGoS nerVosoS, BRancaS opulénCias, BRuMaiS BRencuraS, filgidaS BRancures alVuraS caSTaS, VirginaiS alVuras, laTeSCénCiaS daS raraS laTeSCénCias. SL AS faSCinanTeS, MérbidaS dorMénGiaS doS TeuS aBfaGoS de leTais flexuras, produzem SenSaGdeS de agreS TorTuras, doS desejoS aS MornaS floreSCénCias. BRaGoS nerVosoS, TenTadoraS SerpeS que prendem, TeTanizam coMo oS herpes, doS delirioS na TréMula coorTe Pompa de carneS TépidaS e floreas, BRaGoS de eSTranhaS correGdeS MarMéreas, aberToS para o AMor e para a MorTe! Assonancia Assondncia é 0 nome que se da repetigao da mesma vogal no poema. Observe a assonancia de “A”, vogal t6ni- ca do nome feminino que da titulo a letra da cangao “Clara”, de Caetano Veloso: QuANdo A mANhA mAdrugAvA cAlmA Alta clara CIArA mori de Amor Seja na forma nasal (an, 4), seja na forma oral (a), a mesma vogal predomina na estrofe onde o tema é a mulher chamada CLARA. Dado o significado do nome ¢ a hora luminosa do dia (“manha madrugava”), 0 som que se tepete parece sugerir luz, claridade. Nao estou afirmando que a vogal “a” significa esta ou aquela idéia, nem poderia fazé-lo, Esta letra ou outra, bem como qualquer repeticiio, s6 adquire sentido apoiada nos outros elementos do texto. Certos poemas sao particularmente ricos em alitera- ses e assoniincias, como “Violoncelo”, de Camilo Pes- sanha (aliteragao de S, TR, L, M e assonancia de A e O): re TREMULOS ASTROS SOLidOeS LAcuSTReS LeMeS @ MASTAOS. E OS ALAbASTROS dOS bALAUSTReS! As figuras sonoras de repetic’o ndo tém um sentido por si proprias, mas somam seu efeito a significacdo do poema, cujo titulo jé sugere a musicalidade que vai per- corré-lo, Note-se que a métrica © as rimas associam-se as repétigoes de letras na musicalidade e ritmo de “Violon- celo”. As correspondéncias sonoras reforgam a correspon- déncia entre os diferentes universos: celeste (astros), aqué- tico (lemes, lacustre) e mineral (alabastro). Repetic¢ao de palavras A repeticéo de palavras & um recurso muito freqiiente. Quando acontece sempre na mesma posigdo (inicio, meio ou final de varios versos), recebe 0 nome de andjora. Observe como a empregou Oswald de Andrade, no poema “Vicio na fala”, tentativa postica bem-humorada de apro- ximar a linguagem falada da eserita: Para dizerem milho dizem mio Para melhor, dizem mid Para pior pid Para telha dizem tela Para telhado dizem teiado E véo fazendo telhedos No inicio dos cinco primeiros versos, a mesma palavra: para, Si enumerados varios termos “falados” € “escritos”, © verso final quebra a enumeragdo, Interrompe a repe- tigo e conclui: a ago (“fazendo”) acontece, apesar da fala errada. Mais uma vez, vé-se que & dificil analisar 0 33 aspecto ritmico sem associé-lo aos demais, Por outro lado, sem a anilise dos recursos sonoros, os demais aspectos talvez fiquem bem menos ricos € sugestivos. No mesmo poema de Oswald de Andrade, aparece outra anéfora, No meio dos versos 1, 2, 4 e 5, repete-se a palavra “dizem”, enfatizando o lado oral da lingua por- tuguesa, téo valorizado pelos modernistas, particularmente Oswald e Mirio de Andrade (que, apesar do sobrenome igual, nao eram parents). Ha repetigdes de palavras que nfo ocorrem sempre na mesma posigao, mas de modo misturado no poema. O importante € localizar a repeticdo, e depois verificar qual 2 sua contribuicéo para a interpretago do texto, Ha casos em que 0 poeta faz uma espécie de “jogo” com os sons, alternando a posigo de sons semelhantes no interior d> palavras diferentes, como Mario Quintana: ‘A TENTAGAO E O ANAGRAMA Quem vé um fruto Pensa logo em furto Neste distico, Mario Quintana revela grande habili- dade poética. A partir da troca de posicao entre “u" e “r" em “fruto/furto”, quanta sugestao! . © recurso sonoro pode confirmar o sentido do texto. Ou, em outros casos, criar tensdo (ambigiiidade, duplici- dade de sentido). Observe a estrofe abaixo, de “Hora de ter saudade", de Ribeiro Couto. Ocorre identidade de sons; mas a diferenga grdfica (da escrita) produz diversidade de sentido. Lei Houve aguele tempo (E agora, que a chuva chora, ove aquele tempo!). Observe os termos houve (v. haver) e ouve (Vv. ouvir). Do ponto de vista sonoro, identidade; do ponto de vista semintico, diferenga, Surge uma tensio que enriquece o sentido do poema. O poeta lamenta o tempo que passou, Depois, ironicamente, faz alusio ao clima do momento presente. Porém a nostalgia aparece: “a chuva chora” (ali- teracdo de “ch”) e o termo ouve € ambiguo, duplo, Trata- -se do verbo ouvir, mas o leitor é remetido a0 primeiro verso, inevitavelmente. Conclusio: ao lado da ironia, a mégoa da saudade, Onomatopéia Chama-se onomatopéia a figura em que 0 som da letra que se repete lembra o som do objeto nomeado, como © do refrdo do poema “Os sinos”, de Manuel Bandeira: Sino de Belém, pelos que inda vém! Sino de Belém, bate bem-bem-bem. Sino da Paixdo, pelos que la vio! Sino da Paixao, bate bao-bd0-bao. ‘As onomatopéias remetem ao som dos sinos, elemento central do poema que os anuncia ja no titulo. 9 Poemas de forma fixa Formas e géneros tradicionais Algumas composigées em verso 1ém um padrao fixo determinante de sua estrutura, © mais conhecido, dentre os poemas de forma fixa, € 0 soneto, formado por dois quartetos ¢ dois tercetos, querido dos poetas de todas as €pocas. O mais popular é a quadrinha, o quarteto de sen- tido complete. Ha muitos outros, dentre os quais destaco alguns, em ripida descrigao. Balada: feita para ser cantada, baseia-se no principio da repeticdo que facilita gravar o texto na meméria. A mesma idéia ou a mesma frase repete-se ao término de cada estrofe. Costuma apresentar trés oitavas (estrofes de ito versos), geralmente com versos de oito silabas. Vilancete: comega com um “mote” ou motivo, tema a ser desenvolvido. O mote esta contido numa estrofe curta inicial. A seguir, vm as “voltas”, trés ou mais estrofes maiores que desenvolvem € glosam o mote. Nas estrofes da volta repete-s. um dos versos do mote. Ode: entre os antigos gregos ¢ romanos, ligava-se & misica, passando depois a um poema lirico em que se