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CLUBE MUNDO

Relações Internacionais
Demétrio Magnoli
13/9/2010 Falanges da moralidade

“Francamente, deslavadamente inconstitucional”. O veredito sobre a chamada Lei da


Ficha Limpa é de Eros Grau, na primeira entrevista que concedeu após se aposentar do
Supremo Tribunal Federal (STF), publicada pelo Estado de S. Paulo de (3 de agosto.
Grau provavelmente não conhece a saga do vereador Adilson Mariano, do PT de
Joinville. Se a conhecesse, poderia usá-la para ilustrar seu veredito.

Vereador campeão de votos de seu partido em Santa Catarina, Mariano liderou uma
manifestação pública contra o aumento de passagens de ônibus em Joinville, em 2006.
Na ocasião, seus apelos evitaram um confronto entre a polícia e os manifestantes.
Contudo, o Tribunal de Justiça estadual condenou-o à prisão, acatando a acusação de
impedir o funcionamento de serviço de utilidade pública.

Eu e você podemos ter opiniões distintas sobre a decisão, que está pendente de recurso
na instância superior. Mas o “crime” de Mariano não consta na relação de crimes contra
a administração pública da Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, sua candidatura a
deputado estadual foi provisoriamente suspensa pelos juízes eleitorais. No meio tempo,
as empresas de ônibus da cidade deflagraram sua própria campanha, usando a suspensão
para qualificá-lo como um “ficha suja”. No fim, o tribunal eleitoral do estado acatou a
candidatura, mas o dano já estava feito. Os falangistas da moralidade defendem
interesses pecuniários bem definidos.

“A moralidade pública é moralidade segundo os padrões e limites do estado de direito”,


ensina Grau. E pergunta: “Qual moralidade? A sua ou a minha? Há muitas
moralidades.” Ophir Cavalcante, presidente da OAB, tem uma resposta: vale a
moralidade dele mesmo, que qualifica como “moralidade média da população”. A
entidade que um dia, num passado que só vive como memória, defendeu as liberdades
contra a ditadura, hoje faz lobby pelos privilégios dos advogados. Quem mede a
“moralidade média”, Ophir? A OAB? As ONGs?

“Não fomos eleitos”, alerta Grau, dirigindo-se aos juízes que almejam substituir os
legisladores. A moda pegou, pois confere poder e prestígio. O TSE, interpretando a
péssima lei eleitoral com o voluntarismo dos Ophires, arroga-se a prerrogativa de
supervisionar editorialmente a imprensa. Na tevê e no rádio, a opinião independente e
os humoristas estão sob uma modalidade curiosa de censura: quase tudo pode ser
declarado “campanha eleitoral irregular”, sujeitando emissoras até à suspensão do sinal.
A “campanha regular”, entenda-se, é o monopólio da palavra conferido aos
marqueteiros no horário eleitoral gratuito. E isso, claro, em nome da democracia.

“O perecimento das democracias começa assim. A escalada castra primeiro os direitos


políticos, em seguida as garantias de liberdade.” No mesmo dia em que Grau fez a
advertência, os juízes eleitorais, embriagados pela cachaça do poder e operando como
tribunal de exceção, determinaram um “direito de resposta” do PT a uma reportagem de
uma revista semanal sobre as relações do partido com as Farc. Quando começarão a
censurar diretamente os jornais sob alegações de “moralidade eleitoral”, como já se faz
com o Estado, em nome da privacidade, no caso dos nebulosos negócios da família
Sarney, um exemplo de Ficha Limpíssima?
Do multiculturalismo à deportação
Demétrio Magnoli

“O crápula da República”, estampou na capa a revista francesa Marianne de 7 de


agosto, sobre uma foto do presidente Nicolas Sarkozy. Dias antes, em Grenoble, Sarkozy
pronunciara um discurso odiento: “A nacionalidade francesa deve poder ser retirada de todas
as pessoas de origem estrangeira que deliberadamente atentaram contra a vida de um policial,
de um militar ou de qualquer outro agente da autoridade pública. (...) Eu sustento ainda que a
aquisição da nacionalidade francesa por um menor delinquente no momento da maioridade não
seja mais automática.”
A pretexto de combater a violência urbana, Sarkozy pressiona pela introdução de uma
fronteira de sangue entre os cidadãos. Os “franceses de casta” acusados de delitos contra as
autoridades conservariam seus direitos nacionais. Os franceses “de origem estrangeira” – isto
é, para iluminar o que está implícito, os cidadãos de outra “etnia” – perderiam tais direitos,
sujeitando-se à deportação. A mudança não pressupõe que ninguém seja acusado de um ato
de delinquência. Antes disso, todas as pessoas de origem estrangeira teriam sido rebaixadas a
cidadãos de segunda classe, pois possuiriam apenas uma nacionalidade precária, condicional.
Grenoble representou a conclusão coerente de uma trajetória, não um raio no céu
limpo. O ponto de partida foi o multiculturalismo. O ponto de chegada é a deportação. Se há um
paradoxo nisso, ele é apenas aparente.
Há três anos, Sarkozy criou um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. No
nome, há uma tese: a imigração constituiria ameaça à identidade nacional, definida segundo
critérios étnicos. A tese condensa uma reação contra a história republicana francesa. Desde a
Constituição de 1793, que consagrou o princípio do direito da terra, a cidadania é definida
como um contrato entre iguais: os habitantes da França. No lugar disso, o “crápula da
República” recupera o mito monarquista da “França de mil anos”: o fruto do encontro entre os
francos e a religião católica.
A Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen tenta restaurar o mito anacrônico por meio da
celebração romântica do passado, que assoma na imagem santificada de Joana D’Arc.
Sarkozy almeja um fim idêntico, mas pelo recurso ao multiculturalismo contemporâneo. Em
2008, o “crápula da República” encomendou um plano de ação em favor da “diversidade” e da
“igualdade” entre as etnias. Tudo começaria com a reformulação do censo, para a produção de
estatísticas étnicas da população. Na França, em nome do contrato republicano da igualdade,
os censos não indagam sobre origem ou religião. Mas o projeto multiculturalista não pode viver
sem isso, pois precisa colar rótulos étnicos em cada pessoa. Evidentemente, tais rótulos
também são indispensáveis para identificar cidadãos de segunda classe e promover a
deportação dos “indesejáveis”.
Tanto quanto no Brasil, o governo francês ganhou aplausos entusiasmados da rede de
ONGs sustentadas pela Fundação Ford para a política de classificação racial dos cidadãos.
Contudo, uma onda de resistência partiu de defensores de direitos humanos e de movimentos
antirracistas. A escritora Caroline Fourest observou que “as estatísticas étnicas reforçarão o
racismo”. Samuel Thomas, da organização SOS Racismo, conectou o discurso multiculturalista
aos “nostálgicos da época colonial”. A feminista Fadela Amara qualificou as “estatísticas
étnicas, a discriminação positiva, as cotas” como “uma caricatura”. E foi ao ponto: “Nossa
república não deve se tornar um mosaico de comunidades. Nenhuma pessoa deve, uma vez
mais, portar a estrela amarela”.
O “mosaico de comunidades” é o ideal do multiculturalismo. Na França, o recurso à
“estrela amarela” propiciaria o delineamento de uma “nação gaulesa” circundada por uma
miríade de “etnias minoritárias”. No Brasil, propicia a fabricação de um Estado binacional
composto por uma “nação branca” (ou “eurodescedente”) e uma “nação negra” (ou
“afrodescendente”). Lá, as minorias ganham a pecha de “estrangeiros”; aqui, todos seriam
“estrangeiros” numa terra de exílio. Há mais uma diferença. A esquerda francesa, que acredita
na democracia e enxerga-se como herdeira da Constituição de 1793, rejeita a rotulagem étnica.
A esquerda brasileira, com honrosas exceções, cultua tiranias e despreza o princípio da
igualdade política. Por isso, alinha-se com os arautos da política de raças.
Todos devem portar a estrela amarela – eis o programa do multiculturalismo. Também
é a plataforma de Charles Wilson, líder de um partido neonazista americano que almeja enviar
os negros e latinos “de volta a seus países”. Ele emprega uma linguagem paralela à dos
nossos racialistas e reivindica algo que define como seus direitos raciais: “Eu tenho orgulho de
ser branco. Estou falando de minha herança, e consideram isso um crime de ódio. Podemos
dizer poder negro, poder latino, mas se você disser poder branco cai todo mundo em cima.”
Nos idos de 2006, o chefe da Frente Nacional reclamou do “excesso de negros” na
seleção francesa de futebol. O zagueiro Thuram, nascido em Guadalupe, replicou oferecendo-
lhe uma aula de história: “Não sou negro, sou francês. Le Pen deveria saber que assim como
existem negros franceses, existem loiros e morenos. Viva a França! Mas não a França que Le
Pen quer, e sim a França verdadeira.” É a “França verdadeira” que está em perigo quando o
“crápula da República” tenta dividi-la segundo linhas oficiais de cor. Um “Brasil verdadeiro”, que
vive na consciência das pessoas comuns de todas as cores, também está ameaçado pela maré
montante das políticas raciais implantadas sob a cínica alegação do combate ao racismo.
“Como os militantes antirracistas poderiam apoiar o estabelecimento de categorias
etno-raciais?”, pergunta, indignado, Samuel Thomas. Eis uma boa questão para os racialistas
brasileiros que se travestem como militantes antirracistas.
30/8/2010 Lula e o cordial “fascismo à brasileira”
Calma. Não se pretende, aqui, afirmar que Luiz Inácio Lula da Silva preside um
governo fascista, nem que ele próprio simpatize com Adolf ou Benito. A coisa é bem mais
complicada. Ao contrário do que sugerem as aparências, o governo Lula, independentemente
de suas intenções, acentuou, em vez de diminuir, as características fascistóides do Estado
brasileiro. Vivemos a barbárie em nosso cotidiano, mas estamos contentes com o carro novo, a
televisão de 42 polegadas e a última versão do iPhone. E, secretamente, até acreditamos que
o futuro imediato do Brasil é brilhante. A coisa vai muito mal.
Um indício indiscutível da barbárie é dado pelas estatísticas sobre a extrema violência
policial, combinada com a ação de esquadrões da morte e milícias, contra as populações de
jovens e trabalhadore(a)s que vivem nas favelas e periferias. Se, em outubro de 1992, o
massacre de 111 presos do Carandiru causou comoção, hoje as execuções somam UM
CARANDIRU POR DIA, segundo estimativas conservadoras da ONU (v. o quadro anexo). Os
fatos são inegáveis: o Estado brasileiro pratica uma política de terrorismo contra o(a)s
trabalhadore(a)s e jovens da cidade e do campo, por meio direto e indireto (não apenas na
forma da violência física, mas também nas medidas típicas de regimes racistas, como o uso do
expediente inconstitucional do mandado de busca coletiva em favelas).
Certo: não é justo atribuir ao governo Lula o quadro geral de terrorismo de Estado. Ele
é parte constitutiva da história do país – dos 400 anos de escravidão oficial à atual prática da
escravidão oficiosa, passando pelos massacres de Palmares e Canudos, pelas políticas
“higiênicas” do princípio do século 20, pelas ações da Gestapo varguista de Filinto Müller e pela
ditadura militar de 1964 - 1985. OK. Mas é justo afirmar que o governo Lula recuou
inaceitavelmente em face dos ataques da direita fascistóide, em particular no que se refere ao
Plano Nacional de Direitos Humanos 3, e principalmente nos itens referentes às investigações
e punições dos responsáveis pelas torturas e assassinatos sob a ditadura. O mesmo aparato
repressivo, e não raro os mesmos assassinos e torturadores estão por trás das mortes e
execuções atuais.
Não se trata “apenas” de um problema moral, por repugnante que seja, e sim político.
Lula recuou porque o seu governo é de conciliação de classes. Mais precisamente: é um
governo ancorado, em uma ponta, ao capital financeiro; na outra ponta, apoiado pelas classes
e setores sociais que, ao longo da história, sempre foram consideradas uma espécie de “lixo
humano” – o “subproletaridado”, na definição do economista Paul Singer: um contingente de
trabalhadores não qualificados, sem carteira profissional e de baixíssima renda que constitui a
metade da população economicamente ativa.
Se houvesse uma investigação sobre os responsáveis pelos crimes da ditadura, a
Justiça teria que condenar muitos dos atuais apoiadores do governo Lula, incluindo
empresários que financiaram a Operação Bandeirantes, e políticos que hoje fazem parte do
arco de alianças da base governista (a começar por José Sarney, presidente da Arena, o
partido da ditadura).
O jogo arquitetado por Lula, que mobiliza com eficácia as duas pontas do espectro
social – o capital financeiro e o “subproletariado” – representa algo novo na política brasileira: a
abertura de uma aparente possibilidade de melhorar a distribuição de renda e ampliar a
democracia, no quadro da ordem e do respeito às regras do jogo financeiro internacional. Essa
caracterização é feita pelo sociólogo André Singer (porta-voz do governo Lula durante o
primeiro mandato), no texto “As bases sociais do lulismo”, publicado em dezembro de 2009.
O “lulismo”, diz Singer, foi uma reação às três derrotas eleitorais sucessivas sofridas
por Lula (1989, 1994 e 1998), quando ficou claro que nem ele nem o PT tinham o apoio do
“subproletariado”. Esses setores, ao contrário do que se poderia imaginar, eram hostis ao PT,
à CUT e aos movimentos grevistas, por sentirem que eles pioravam a crise econômica e,
portanto, as suas próprias condições de vida (Singer demonstra meticulosamente a hipótese,
por meio de estudos e pesquisas de opinião e voto feitos à época).
O próprio Lula admitia, então, que a base de apoio eleitoral do PT era constituída pelo
funcionalismo público, pela classe média instruída e pelos operários qualificados (com carteira
assinada). Em 1989, o “subproletariado” votou no Fernando Collor de Mello da “caça aos
marajás”, muito mais por desconfiar do discurso socialista de Lula e por um sentimento
genérico de “vingança contra os ricos” que Collor prometia punir. Em 1994 e 1998, foram a
estabilidade do Plano Real e a ideia de “ordem” com Fernando Henrique Cardoso (sempre
escorado no apoio do capital financeiro e nos preciosos serviços da mídia, em particular da
Rede Globo) que seduziram o “subproletaridado” e uma parcela da classe média, para derrotar
o candidato do PT.
O “Lulinha paz e amor” da Carta aos Brasileiros de 2002 – que declarou os seus
compromissos inquebrantáveis com o capital financeiro – já demonstrava o seu afastamento do
programa original do PT. O seu complemento, endereçado ao “subproletariado”, foi o Programa
Fome Zero. A essência do que seria sua administração foi revelada já no discurso de posse,
proferido em 1º de janeiro de 2003, no Congresso Nacional: de um total de 3.824 palavras,
“trabalhadores” aparece apenas três vezes. Não há no discurso um único chamado à
mobilização popular, substituída pela idéia de “colaboração”, “generosidade do povo”, “fé no
amanhã”, “alegria de viver”, “paciência”, “perseverança” etc. Os trabalhadores são encorajados
a manter uma postura passiva e resignada, ao passo que as iniciativas da vida política são
depositadas nas mãos dos chefes de Brasília.

Em contrapartida, Lula manteve rigorosamente o compromisso de 2002: assegurou a


ferro e fogo o superávit primário (isto é, o pagamento dos juros escorchantes ao capital
financeiro, às custas de verbas para a saúde, educação, saneamento básico e infra-estrutura
pública) e deu autonomia ao Banco Central, presidido por um banqueiro “ortodoxo”. Na outra
ponta, o Fome Zero foi substituído pelo Programa Bolsa Família. Às vésperas das eleições de
2006, atendia a cerca de 11,4 milhões de famílias, com um orçamento de R$ 7,5 bilhões. Entre
os milhões daqueles que votaram em Lula pela primeira vez em 2006, a maioria eram mulheres
de renda baixa, o público alvo por excelência do PBF. Lula foi reeleito com folga em 2006,
apesar do escândalo do mensalão, com o apoio do capital financeiro e de um setor que não lia
(e não lê) jornal, não compreendia o que estava em questão mas que, pela primeira vez,
começava a escapar do fantasma da fome.
Em síntese: foi o voto atrasado, despolitizado e des-ideologizado, cooptado com os
recursos oferecidos pelo capital financeiro, que assegurou a vitória de Lula.
O segundo mandato, ainda em curso, foi aperfeiçoado com vários programas
destinados ao “subproletariado” e aos setores tradicionalmente marginalizados: “Luz para
todos” (eletrificação rural), construção de cisternas no semiárido, apoio ao pequeno agricultor.
Além disso, Lula criou e expandiu linhas de financiamento popular, como o “crédito consignado”
que permitiram a entrada desses setores na esfera do consumo. As classes médias e parte
significativa do “subproletariado” passaram a consumir (ainda que às custas de um
endividamento insano e brutal).
O conjunto das medidas distributivas endereçadas aos pobres constitui,
aparentemente, uma face “progressista” do governo Lula. Mas ela teve como contrapartida o
paraíso assegurado ao capital financeiro, com todas as conseqüências conhecidas. Essa
política, que só poder entendida e criticada em seu conjunto, foi aplicada mediante o
desmantelamento das organizações autônomas e independentes dos trabalhadores e dos
movimentos sociais que poderiam apresentar qualquer tipo de resistência às estratégias
colocadas em marcha pelo imperialismo transnacional.
Lideranças de trabalhadores importantes foram corrompidas e/ou cooptadas para
ocupar cargos regiamente pagos pelo Estado; aqueles que resistiram, foram marginalizados,
expulsos do PT, afastados dos postos de direção da CUT e de outras centrais; grupos e
movimentos que não se submeteram ao jogo foram economicamente estrangulados. Os vários
e importantes movimentos grevistas que, apesar de tudo, conseguiram ganhar alguma
expressão importante, não tiveram força suficiente para romper a camisa de força imposta pelo
“lulismo”. O próprio PT tornou-se apenas uma caricatura de si próprio, colocado à sombra do
cacique Lula.
Com o apoio da mídia e dos profetas do capital financeiro (jornalistas, “especialistas” e
intelectuais oportunistas ou até bem intencionados), criou-se a percepção de que o Brasil
passa por uma “grande fase de sua história”. Supostamente, somos agora uma potência no
cenário mundial, Lula é “o cara” saudado por Barack Obama. Como diz o sociólogo Chico de
Oliveira, estamos todos contentes, e aí reside o perigo. O nosso contentamento explica o
silêncio diante da do morticínio diário dos milhares de jovens das favelas e “periferias”, e nos
torna cúmplices passivos do acobertamento dos crimes da ditadura.
Mas o que vai acontecer quando a “crise grega”, ou outra pior chegar ao Brasil e a
“marolinha” virar um tsunami? Como os trabalhadores – desorganizados, impotentes e
desmoralizados - poderão se defender contra uma máquina repressiva fascistóide, aliás
treinada no Haiti? “Tem gente que só compreende a brasa quando ela entra nas profundezas
da carne”, escreve Chico Buarque na Fazenda modelo, citado por Leandro Konder em seu
esclarecedor livro Introdução ao fascismo (Expressão Popular). No mesmo livro, Konder retoma
a definição precisa e clássica do fascismo, dada pelo comunista búlgaro Dmitrov, em agosto de
1935, durante o 7º Congresso da Terceira Internacional: “É a ditadura terrorista aberta dos
elementos mais reacionários e mais imperialistas do capital financeiro”.
Hum... O cheiro de brasa empesteia o ar.
Recursos oceânicos são alvo de disputas entre Estados

As primeiras fotos da Terra tomadas do espaço comprovaram algo já conhecido: nosso


planeta deveria se chamar Oceano ou Água, no lugar de Terra. Cerca de 70% da
superfície do planeta é recoberta por uma imensa massa líquida que alguns denominam
Oceano Mundial, tradicionalmente dividido em entidades geográficas menores – o
Pacífico, o Atlântico, o Índico e o Ártico. Cada um dos quatro oceanos engloba porções
menores, os mares, delimitados normalmente por ilhas ou por recortes do litoral. Esse
imenso mundo líquido, em constante movimento, condiciona a vida em nosso planeta.

Os oceanos desempenham papel crucial no equilíbrio ecológico mundial, pois regulam


o clima e o ciclo da água, ensejam trocas gasosas com a atmosfera e influem na
composição do ar. Além disso, apresentam uma vasta e rica biodiversidade composta
por milhões de espécies, a maioria delas ainda pouco conhecida.

As características da água do mar – temperatura, salinidade, densidade – e diversos


fatores externos que exercem influência sobre as massas líquidas, como os ventos, a
força de Coriolis e a atração gravitacional lunar, determinam o deslocamento das águas
oceânicas. Tais deslocamentos, que se verificam entre o fundo e a superfície e de um
ponto para outro do globo, são responsáveis pelos fenômenos das marés e das correntes
marinhas. Verdadeiros “rios” que cruzam os oceanos, as correntes marinhas interferem
na variação das temperaturas e na distribuição das chuvas das regiões litorâneas sujeitas
à sua ação.

As influências mais diretas do oceano sobre as áreas continentais não vão além dos 100
quilômetros da linha de costa. Nessas faixas, que não representam mais de um quinto
das terras emersas, habita atualmente pouco mais da metade da população mundial. De
acordo com as projeções, em 2025 a população das áreas litorâneas atingirá três quartos
do total. Já hoje, cerca de 70% das maiores cidades do mundo são costeiras. Os
ecossistemas costeiros são áreas de grande fragilidade ambiental As pressões exercidas
por atividades humanas – como a pesca, o tráfego marítimo, a urbanização, as
instalações industriais – causam impactos em graus de intensidade variável sobre os
recifes coralíneos, os mangues, os estuários e a vegetação litorânea em geral.

Não há como negar a importância econômica dos oceanos e mares. Os oceanos são os
grandes corredores do intercâmbio global de mercadorias: atualmente, cerca de 90% dos
bens comercializados no mundo circulam através de navios. A atividade pesqueira,
praticada de forma predatória, contribui para reduzir dramaticamente os estoques de
determinados tipos de peixes, especialmente os de maior valor comercial.
Inúmeros recursos minerais, como ouro, níquel, magnésio e hidrocarbonetos, são
encontrados nas águas rasas ou profundas dos oceanos. Cerca de 30% do petróleo do
mundo é extraído em plataformas marítimas. Se o sal, o petróleo e outros minerais são
extraídos há algum tempo, outras riquezas ainda aguardam o desenvolvimento de
tecnologias capazes de reduzir os custos de extração. No entanto, os minerais
escondidos sob os oceanos podem se tornar recursos essenciais em futuro não muito
distante.

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar, firmada em Montego Bay,
nas Bahamas, em 1982, definiu a divisão geopolítica das águas oceânicas em mar
territorial, mar contíguo e zona econômica exclusiva. Definiu-se também que cada país
litorâneo exerceria soberania decrescente à medida em que aumenta a distância entre a
costa e o alto mar. A partir daí, a soberania deixaria de existir. Decidiu-se ainda que o
fundo do mar, fora da jurisdição nacional, passaria a ser considerado patrimônio comum
da humanidade. Mesmo assim, as tentativas de imposição de leis internacionais mais
rígidas de controle sobre abusos esbarram na soberania dos países sobre as águas
territoriais e nas controvérsias a respeito da aplicação da legislação sobre as águas
internacionais. Além disso, os Estados Unidos e alguns outros países rejeitaram a
Convenção.

Por serem locais de passagem e de intercâmbios comerciais, e também por abrigarem


recursos minerais e biológicos diversificados, os espaços marítimos são objeto de
crescente competição internacional. As grandes potências, que possuem os meios mais
eficazes para explorar os recursos marinhos, tendem a favorecer um regime de ampla
liberdade de exploração das riquezas oceânicas. Por outro lado, os Estados menos
desenvolvidos tentam tirar proveito de sua situação geográfica para estabelecer direitos
sobre espaços marítimos mais amplos, nas proximidades de seu litoral. Tensões
geopolíticas entre países relacionadas à soberania sobre áreas oceânicas pipocam por
todos os lados, no mundo inteiro.

No Atlântico Sul, por exemplo, destaca-se a antiga disputa entre Grã-Bretanha e


Argentina pela soberania sobre o arquipélago das Malvinas (Falklands). As ilhas foram
ocupadas pelos britânicos no século XIX, gerando um situação de fato nunca
reconhecida pelos argentinos. Os dois países travaram, em 1982, uma guerra pela posse
das Malvinas. A derrota militar argentina acelerou a queda da ditadura no país sul-
americano. A tensão reacendeu-se há pouco, após a decisão britânica de iniciar a
exploração de petróleo na plataforma continental do arquipélago.

O petróleo ativa tensões e reivindicações sobre as águas oceânicas em outros lugares


também. Na hipótese de continuidade do rápido derretimento da calota polar do Ártico,
ficará aberta a via para a exploração de vastas reservas de petróleo e gás, estimadas
como as maiores ainda remanescentes no mundo. Os países da região ártica,
especialmente a Rússia, já tomam a iniciativa de requerer direitos sobre águas até agora
consideradas internacionais.
21/6/2010 A questão da água na Mesopotâmia

A expressão geopolítica da água designa as rivalidades políticas sobre a repartição e a


exploração dos recursos hídricos. Tais rivalidades existem não somente entre países
cujos territórios são atravessados por um mesmo rio, mas também no interior de um
mesmo Estado, gerando tensões entre regiões que buscam tirar proveito dos recursos
das bacias hidrográficas mais ou menos próximas.

As “rivalidades hidráulicas” se exacerbaram pela combinação de uma série de fatores: o


expressivo incremento da população e das áreas irrigadas, o grande desperdício de água
e o aumento da poluição dos mananciais. Contribuíram também os enormes avanços dos
meios tecnológicos postos à disposição das sociedades pelas empresas de engenharia
civil, que permitiram a realização de grandes obras, como barragens e canais, pelas
quais se modificou sensivelmente os cursos dos rios e seus débitos.

No mundo atual, 260 bacias hidrográficas são reconhecidas como internacionais. As


águas de 13 delas são utilizadas em conjunto por cinco ou mais países. Quase metade da
população mundial vive numa bacia hidrográfica dividida entre dois ou mais países.
Alguns exemplos: a bacia do Danúbio drena territórios de 11 Estados, a do Nilo banha
10, as do Níger e Congo, 11, e a do Amazonas, sete.

Existem zonas potencialmente hidroconflitivas em todos os continentes, mas elas


apresentam situações mais dramáticas nas áreas onde a água é naturalmente escassa –
isto é, em regiões áridas e semi-áridas. Um dos melhores exemplos são as tensões que
se verificam na região da Mesopotâmia envolvendo as bacias dos rios Tigre e Eufrates,
cujas águas são de grande interesse para Turquia, Síria e Iraque.

Os dois rios têm suas nascentes nas úmidas regiões montanhosas da Anatólia oriental,
no sudeste da Turquia. O Tigre, ao deixar o território turco, atravessa o Iraque, enquanto
o Eufrates cruza áreas do território sírio antes de drenar terras do Iraque. Pouco antes do
estuário, no Golfo Pérsico, as águas de ambos os rios se juntam formando o canal de
Chatt-el-Arab.

O curso dos rios tem implicações geopolíticas. A Turquia, que exerce soberania sobre o
alto vale dos dois rios, beneficia-se de uma situação hídrica muito mais favorável que a
de seus vizinhos situados a jusante. Dados sobre determinados usos desses rios
iluminam alguns aspectos das questões hídricas que envolvem os três países.

A Turquia controla 98% do débito do Eufrates e 45% do débito do Tigre. Quanto à


dependência de água, isto é, dos recursos hídricos gerados fora do país, os números
indicam que a Síria possui um índice de 80%; o Iraque, de 53% e a Turquia, apenas 1%.
Em relação ao uso da água no setor agrícola a Síria, com 95%, e o Iraque, com 92%,
colocam-se bem acima da média mundial, que é de 70%. Já a Turquia, com 74% está
próxima da média. A Síria é o país que mais usa água para produção hidrelétrica (41%),
enquanto os números para a Turquia e Iraque são, respectivamente, 25% e 1%.

O Eufrates e seus afluentes são as principais fontes de água da Síria e neles está
depositada a esperança do país de aumentar a produção de alimentos para sua crescente
população. Mais de 80% da população do Iraque depende do uso da água dos dois rios.
As reivindicações dos três países, praticamente incompatíveis, se tornam mais
complicadas por conta de conflitos étnicos e reminiscências históricas.

Sírios e iraquianos reivindicam direitos ancestrais sobre os recursos hídricos. Os


primeiros alegam que o Eufrates é um curso fluvial internacional e que as disputas que o
envolvem deveriam ser negociadas internacionalmente. Os iraquianos, por sua vez,
advogam os mesmo direitos que incluiriam a anterioridade do uso dos recursos hídricos,
tomando como referência a longínqua civilização suméria.

Todavia, Síria e Iraque também têm problemas entre si no que diz respeito à partilha das
águas do Eufrates. Um acordo de 1990 dividiu o fluxo do Eufrates, cabendo 53% aos
iraquianos e 42% para os sírios, mas antes disso os dois países quase entraram em
guerra pelo controle do recurso escasso. Entretanto, o fator que mais acirra essas
disputas é o projeto turco de exploração econômica dos recursos hídricos regionais.

Nos anos 70, o governo turco elaborou uma política hidráulica ambiciosa, denominada
Projeto da Grande Anatólia (PGA). Iniciado em 1989 e com previsão de conclusão em
2010, o PGA pretende mudar radicalmente a paisagem do sudeste da Turquia,
incorporando ao país 1,7 milhão de hectares de terras irrigadas. São 13 projetos
integrados – seis sobre o rio Tigre e sete sobre o Eufrates, 22 reservatórios de água e 19
centrais hidrelétricas. Para a Turquia, o PGA vai melhorar as condições de vida de cerca
dos 5 milhões de habitantes que vivem naquela parte do país.

Apesar da importância econômica e social do PGA, não se deve perder de vista o seu
lugar nas estratégias geopolíticas internas da Turquia. A região onde está sendo
implementado o projeto é, historicamente, a base territorial da minoria curda, sobre a
qual se assentam correntes políticas separatistas. As obras do PGA, especialmente a
construção de barragens, servem como justificativas oficiais para desalojar populações
curdas de suas áreas tradicionais. Ao mesmo tempo, a melhoria da infraestrutura viária
estimula as migrações de turcos étnicos para a região curda.

Na Turquia, como na Mesopotâmia em geral, os cursos d’água e as fronteiras políticas


configuram linhas incongruentes. Nesta incongruência encontram-se as sementes de
conflitos presentes e futuros.
18/10/2010 Censo 2010 deverá confirmar tendências demográficas conhecidas

Começou no último mês de agosto a coleta dos dados populacionais do 12º


recenseamento demográfico a ser realizado pelo Brasil. Quando os dados mais gerais –
população total e população por regiões e estados – forem divulgados, serão
confirmadas e detalhadas algumas tendências demográficas já bastante conhecidas.
Além do Censo, que é decenal, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
produz anualmente a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), uma fonte
de importantes informações no período intercensitário.

Uma primeira e óbvia constatação do censo será a continuidade do crescimento da


população do país, o que se verifica desde o primeiro recenseamento nacional, ainda no
Império, em 1872. As estimativas evidenciam que o número de brasileiros, em 2010,
alcança a marca aproximada de 195 milhões – cerca de 25 milhões mais que a
população recenseada em 2000. A população absoluta é quase 20 vezes maior que
aquela registrada pelo censo pioneiro. Ao longo do século XX, o contingente
demográfico do Brasil foi acrescido em mais de 150 milhões de pessoas. Dois terços
desse total nasceu nos últimos 50 anos.

Se compararmos o aumento numérico da população brasileira nesta primeira década do


século XXI com a população total dos quase 200 países do mundo atual, constataremos
que a cifra de 25 milhões é superior ao efetivo populacional de pelo menos 150 nações.
Nas Américas, apenas seis países – Estados Unidos, México, Canadá, Argentina,
Colômbia e Peru – apresentam um população total superior a 25 milhões de habitantes.

O Brasil é atualmente o quinto país mais populoso do mundo, superado apenas pela
China (1,3 bilhão), Índia (1,2 bilhão), Estados Unidos (300 milhões) e Indonésia (240
milhões). Em função da dinâmica demográfica específica de cada país, nas próximas
décadas ocorrerão mudanças nesse ranking. Assim, por volta de 2035, a Índia
ultrapassará a China, tornando-se o país mais populoso do mundo. No horizonte de
2050, o Brasil será ultrapassado por Paquistão, Bangladesh e Nigéria.

Não faz muito tempo que se acreditava que o Brasil atingiria a cifra de 200 milhões de
habitantes antes do ano 2000. Isso, contudo, só ocorrerá um pouco antes de 2015. No
início da década de 1960 ainda não se vislumbravam os efeitos da transição
demográfica que acompanhou o processo de modernização econômica e social do país.
Levando-se em consideração que, atualmente, o saldo migratório é quase insignificante
e que será mantida a tendência à redução do crescimento vegetativo, pode-se prever o
início da redução da população total brasileira para algum ponto entre 2040 e 2045.
O cenário de distribuição da população pelas regiões brasileiras também não trará
surpresas. As cinco grandes regiões do país conhecerão incremento demográfico e, em
todas elas, o ritmo do crescimento vegetativo continuará apresentando redução
significativa. A posição de cada uma das regiões no ranking populacional do país
seguirá inalterada em relação aos censos anteriores. O Sudeste, com pouco mais 42% da
população total, continuará sendo a região mais populosa, seguida do Nordeste, Sul,
Norte e Centro-Oeste. As duas últimas regiões, onde encontram-se importantes
fronteiras de recursos, continuam atraindo migrantes de outras regiões do país. Por
conta disso, são elas que apresentam aumento sistemático de participação na população
total do país.

Os estados de maior população permanecerão sendo São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná – que, juntos, abrigam cerca de 60% dos
habitantes do país. Há uma hipótese curiosa, a ser testada. No horizonte de 2020, o
Sudeste, especialmente o Rio de Janeiro, talvez conheça alguma ampliação marginal na
participação na população total do país, em decorrência tanto de eventos como a Copa
do Mundo (2014) e a Olimpíada (2016) quanto dos expressivos investimentos previstos
para a exploração do pré-sal.