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Os

Emblemas de ALCIATO
(ed. Christian Wechel, Paris, 1540)
comentados em Português

apresentação e notas de Manuel J. Gandra


Os
Emblemas de ALCIATO
(ed. Christian Wechel, Paris, 1540)
comentados em Português

apresentação e notas de Manuel J. Gandra

Mafra, 2012
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sem a prévia autorização por escrito do autor.

© Manuel J. Gandra
Mafra, Dezembro de 2012

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Tel.: 963075514
BREVE NOTA SOBRE ALCIATO E SUA RECEPÇÃO EM
PORTUGAL

André Alciato (1492-1550) estudou em Milão (1504), sua cidade natal, Pavia (1507) e
Bolonha (1511), onde obteve o grau de doutor em Cânones, no ano de 1514. Aí conheceu Filippo
Fasanini, tradutor de Horapolo, tendo mantido contacto com os círculos humanistas
venezianos e florentinos interessados na cultura hieroglífica.
Em 1516, publica, em Estrasburgo, os seus primeiros trabalhos sobre Jurisprudência.
A instabilidade política na Lombardia obrigá-lo-ia, entretanto, a dirigir-se para Avignon
(França), em 1518, onde permaneceu até 1522, tendo feito amizade com Albutio, Peutinger,
Erasmo, etc.
Regressado a Milão, onde vive entre 1522 e 1527, prossegue aos seus estudos, realizando
traduções e iniciando a composição dos Emblemata.
A convite de Francisco I de França leccionaria em Bourges (1529-1533), grangeando
prestígio e fama. Volta a Pavia de onde partirá, em 1537, para Bolonha, e daí, em 1542, para
Ferrara.
Em 1546, declina o cardinalato, que lhe é oferecido por Paulo III, porém aceita tornar-se
protonotário apostólico. No mesmo ano regressa a Pavia onde se fixaria até ao fim da vida.
O núcleo da obra mais divulgada e influente de Alciato começou como uma singela
colectânea de 30 epigramas gregos traduzidos e incluídos nos Selecta epigrammata graeca
(Basileia, 1529). O material publicado por Heinrich Steiner, em 1531, ainda sem qualquer
ilustração, constaria desses e de outros textos similares, encabeçados por frases sentenciosas,
que Alciato oferecera ao seu amigo Conrad Peutinger.
Na génese do seu Emblematum Liber (Augsburgo, 1531), o livro que inaugurou o género
emblemático, Alciato teve a Ilíada e a Odisseia, os fabulários latinos (de Fedro e Esopo), a
cerâmica e numismáticas clássicas, os epigramas gregos (nomeadamente os da Antologia
Planudea 1, do período alexandrino), as obras de Ovídio, Aulo Gélio, Plínio, Ateneu, Eliano,
Pausanias, etc., as colecções de provérbios e máximas que sistematizavam a ética greco-latina
(Dísticos Morais de Catão e a Antologia de Estobeu), a Bíblia, os bestiários, a heráldica, a
literatura alegórica medievais, etc., e, designadamente, as invenções hieroglíficas de Horapollo
e Colonna, bem assim como os elencos de apólogos e provérbios em circulação nos meios

1 Também denominada Antologia Grega. Trata-se de uma colectânea de epigramas gregos de várias épocas,
recolhidos pelo erudito Paris, Badius Ascensius, 1531; Basileia, 1549; Veneza, P. e J. Nicolini, 1550; Paris, Estienne,
1566; Francoforte, Herdeiros de Wechel, 1600. Existe reedição contemporânea: Anthologie Grecque, deuxième
partie, Anthologie de Planude, Paris, Les Belles Lettres, 1980. O médico Brás Luís de Abreu, reproduz uns versos
latinos de Alciati, vertidos do grego, in Portugal Médico, Lisboa, 1726, p. 732, §§ 70 e 71, alusivos à barba,
acrescentando que esta “devia ser o ornamento mais precioso de um varão sábio, visto que é judicioso emblema de
um homem douto”.
1 Edição princeps: Paris, 1500. Reeditados em 1508 (Veneza) e 1515 (Basileia), consideravelmente ampliados. Ver

também Primera parte de las Sentencias que hasta nuestros tiempos, para edificacion de Buenos costumbres,
estan por diversos Autores escriptas […], Lisboa, Germão Galhardo, 1554, fl. 102v-106 [BN: Res 2613 V] e Coimbra,
João Álvares, 1555, p. 212s. [BPÉ: Res 760]. Cf. Artur Moreira de Sá, De Re Erasmiana, Lisboa, 1977, p. 282-
289.grego Máximo Planudes (1255-1305), cuja edição princeps data de 1494 (Florença), sob a direcção de outro
erudito grego, Janus Lascaris. Outras edições quinhentistas: Veneza, Aldo Manucio, 1503, 1521 e 1551; Florença,
Giuntina, 1519; Paris, Badius Ascensius, 1531; Basileia, 1549; Veneza, P. e J. Nicolini, 1550; Paris, Estienne, 1566;
Francoforte, Herdeiros de Wechel, 1600. Existe reedição contemporânea: Anthologie Grecque, deuxième partie,
Anthologie de Planude, Paris, Les Belles Lettres, 1980. O médico Brás Luís de Abreu, reproduz uns versos latinos de
Alciati, vertidos do grego, in Portugal Médico, Lisboa, 1726, p. 732, §§ 70 e 71, alusivos à barba, acrescentando que
esta “devia ser o ornamento mais precioso de um varão sábio, visto que é judicioso emblema de um homem douto”.
humanistas, compendiados em diversas obras, com destaque para os Adagia 2 do mestre de
Roterdão, Erasmo (1466-1536).
Foi amplíssima em Portugal a aceitação da obra deste jurisconsulto milanês e muito
popular até aos finais da centúria de setecentos.
Leite de Vasconcelos referenciou, em 1917, para cima de cinco dezenas de exemplares
em bibliotecas públicas e privadas nacionais 3.
É conhecido o quanto D. João de Meneses Sotomaior, encarecia os Emblemata 4, a
ponto de, correspondendo a uma sua solicitação, Sebastião Stockhamer ter composto, em 1552,
os sucintos comentários, posteriormente impressos em Lião (1556), Antuérpia (1565, 1566 e
1567) e Genebra (1614). O entusiasmo do 7º Senhor de Cantanhede pelo livro seria de tal ordem
“que não só o tinha à mão em casa, como até em viagem o levava consigo”.
Eventualmente, aquele aristocrata terá levado os Emblemata consigo para a Índia, em
1605, onde, de resto, terão circulado outros livros congéneres, chegados na bagagem de fidalgos
empenhados em alguma campanha militar ou comercial, e de missionários, maioritariamente
jesuítas, decerto.
Com efeito, em 1602, contava o inquisidor António de Barros que no cárcere do Santo
Ofício de Goa aparecera “a ocultas um exemplar do Livro dos Emblemas de Alciato” que para lá
fora enviado pela mãe do judeu João Nunes, para este se desenfadar, livro “assaz prejudicial”,
no entender do referido inquisidor 5.
Convém, ainda, registar a ocorrência de motivos inspirados (Fortuna foi um dos
favoritos) em Alciato (e em Achile Bocchi) em colchas bordadas indo-portuguesas e sino-
portuguesas 6.
Nas letras profanas os Emblemata inspiraram notoriamente Luís de Camões. Em abono
da verdade, a influência exercida pela literatura emblemática (Alciato, Camerarius,
Bartolomeus Anulus, Joannes Sambucus, etc.) em Camões foi de imediato constatada por
alguns dos seus editores seiscentistas 7.
Diversos apontaram a origem emblemática de uma série de versos que descrevem a Ilha
dos Amores, designamente aqueles que se reportam à cidreira 8, ao pêssego 9, ou ao olmeiro 10.
Por seu turno, os versos 43-39 da Ode VII do vate parecem concitar a convicção da
generalidade dos exegetas, desde Faria e Sousa 11, quanto a traduzirem o sentido do emblema 15
(120 de edições ulteriores) de Alciato (Paupertatem summis ingeniis obesse ne provehantur =

2 Edição princeps: Paris, 1500. Reeditados em 1508 (Veneza) e 1515 (Basileia), consideravelmente ampliados. Ver
também Primera parte de las Sentencias que hasta nuestros tiempos, para edificacion de Buenos costumbres, estan
por diversos Autores escriptas […], Lisboa, Germão Galhardo, 1554, fl. 102v-106 [BN: Res 2613 V] e Coimbra, João
Álvares, 1555, p. 212s. [BPÉ: Res 760]. Cf. Artur Moreira de Sá, De Re Erasmiana, Lisboa, 1977, p. 282-289.
3 Joaquim Leite de Vasconcelos, Emblemas de Alciati explicados em Português: manuscrito do séc. XVI-XVII ora

trazido a lume, Porto, 1917.


4 Cf. Maria Helena de Teves Costa, A Emblemática de Alciato em Portugal no século XVI, in O Humanismo

Português (1500-1600) Primeiro Simpósio Nacional, Lisboa, 1988, p. 435-461.


5 Cf. António Baião, A Inquisição de Goa – Correspondência dos Inquisidores da Índia (1569-1630), v. 1, Lisboa.

1930, p. 343.
6 Cf. Maria João Ferreira, Ganimedes e a Fortuna. Exemplos de temáticas mitológicas clássicas em peças têxteis

bordadas sinoportuguesas, in Oriente, n. 12 (Ago. 2005), p. 90-114. Ver também João Nuno Alçada, A Tempestade
do Triunfo de Inverno como “topos” da “Fortuna” Marítima na Corte de D. João III, in Arquivos do Centro Cultural
Calouste Gulbenkian, v. 37 (1998), p. 53-66.
7 Cf. Manuel Correia, Os Lusíadas do grande Luís de Camoens […] comentados pelo licenciado […], Lisboa, 1613, fl.

251r; Bartolomeu Pachão, Fábula dos planetas moralizada […], Lisboa, 1633, fl. 88v; Faria e Sousa, Rimas Várias de
Luís de Camoens, Lisboa, 1689, 2ª parte, p. 166; etc. Ver Marion Ehrardt, Repercussões Emblemáticas na obra de
Camões, in Arquivos do Centro Cultural Português, v. 8 (1974), p. 553-566; Yara Frateschi Vieira, A Tradição
emblemática em Camões: presença e função discursiva, in Estudos Portugueses e Africanos, n. 5 (1985), p. 123-135 e
Emblema, alegoria e história no episódio da Ilha dos Amores, in Revista Camoniana, s. 2, v. 4 (1981), p. 93-109;
Maria Helena de Teves C. Ureña Prieto, Tópicos da iconologia Renascentista na Poesia Camoniana, in Actas da I
Reunião Internacional de Camonistas, S. Paulo, 1987, p. 669-702; Martim de Albuquerque, Emblematismo e
Camões, in A Expressão do poder em Luís de Camões, Lisboa, 1988, p. 265-290.
8 Cf. Os Lusíadas, IX, 56.
9 Idem, IX, 58.
10 Ibidem, Ix, 59.
11 Ver Vida del Poeta, VI, col. 22.
A pobreza prejudica os maiores engenhos e impede que progridam), por sua vez inspirado
num hieróglifo da Hipnerotomachia Poliphili de Colonna 12:

“Sempre foram engenhos peregrinos


Da Fortuna envejados;
Que, quando levantados
Por um braço nas asa são da Fama,
Tanto por outro a sorte, que os desama,
E o peso da gravidade
Os oprime da vil necessidade”.

Tal constatação torna francamente consistente a possibilidade da origem emblemática


de outras imagens consignadas na mesma Ode, caso dos versos 4-6, similares no sentido aos do
epigrama do emblema 24 (36 em edições ulteriores) de Alciato (Obdurandum adversus
urgentia = Há que resistir ao prémio):

“da gloriosa palma, que não perde


A presunção sublime
Nem por força do peso algum se oprime” 13.

Convém, não obstante, adoptar redobradas cautelas no que concerne às atribuições


genéticas no emblematismo literário e não confundir estruturas ou funções emblemáticas com
meros motivos emblemáticos, i. e., distinguir, tanto quanto possível, as influências directas das
indirectas.
No caso em apreço, por exemplo, a imagem poética da palmeira, como emblema da
constância, pode ter sido inspirada a Camões por Gélio, Plutarco, Aristóteles, Xenofonte,
Teofrasto, Estrabão, Plínio ou Erasmo.

Ocasião, atribuída a João de Ruão [Museu Machado de Castro].


Na filactéria que rodeia a figura feminina lê-se “Pera a Vida e pera a Morte”.
Enigma de Francisco de Holanda (Da Ciência do Desegno, fl. 50r)

12 Cf. Ludwig Volkmann, Bilderschriften der Renaissance, Hieroglyphic und Emblematik in ihren Beziehungen und
Fortwirkungen, Nieuwkoop, 1969, p. 43.
13 Glosa o tema na Ode Querendo escrever, um dia […], v. 111 e em Os Lusíadas, VIII, 76.
Tal cautela deve subjazer à exegese de inúmeros outros textos literários, pese embora a
influência maior ou menor creditável a Alciato, sofrida por André Rodrigues Eborense 14,
António Ferreira 15, Francisco Leitão Ferreira 16, António Delicado 17, António de Sousa de
Macedo 18, bem como inúmeros outros de entre os quais se destacam Manuel Faria e Sousa,
Manuel Severim de Faria e Bocage.
Nas artes são tributários de Alciato João de Ruão 19, Francisco de Holanda, bem assim
como os autores de muitos dos programas iconográficos dos espaços emblemáticos, destinados
às entradas régias e aos jardins de muitas quintas de recreio e palácios, desse modo
transformados em autênticas Moradas Filosofais, de que são paradigmáticas a Quinta da
Bacalhoa (Azeitão) e o Palácio Fronteira (Lisboa).

Mas até as Apólices do Real Erário, instituídas por Alvará de 1797, testemunham a glosa
dos repertórios emblemáticos de Alciato, mediante a transposição de algumas das suas
alegorias, como, a título de exemplo: o leão acossado por uma matilha de cães (figurando a Ira
e a Cólera dos seres em estado selvagem, que o homem avisado deve evitar) e a vanidade dos
maldizentes ou ímpetos vãos, exposta no emblema 164 (o cão julga ver na Lua a imagem de um
outro da sua espécie, ladrando-lhe incessantemente e exaurindo, desse modo vão, todas as suas
energias) 20.
Já no século XIX, também o pintor António Manuel da Fonseca utilizaria os Emblemata
para compôr diversas das suas obras, designadamente um painel transparente de pintura
expressamente encomendado pelo barão de Quintela para a iluminação do seu Palácio das
Laranjeiras, na noite do dia 22 de Outubro de 1820 21:

“[…] o objecto principal é o Retrato do nosso Amável Soberano, e da Sua Augusta Esposa,
levantados em baixo relevo em uma medalha de ouro, a qual vão colocar sobre um Pedestal de

14 Cf. Sententiae, Lisboa, 1554; Lião, 1557; Coimbra, 1569; Paris, 1569; Veneza, 1572; Colónia, 1593.
15 Carta para António de Castilho (Coimbra, 30 de Junho de 1557): “os alciatos em que me V. m. falou, se todavia os
escusa me fará mercê mui grande mandarmos”. Ver Poemas Lusitanos, v. 2, Lisboa, Clássicos Sá da Costa, p. 154-155.
Cf. Brito Rebelo, Cartas de António Ferreira e Diogo Bernardes a António de Castilho, in Archivo Histórico
Português, v. 1 (1903), p. 138, 148, 185 e 187.
16 Nova Arte de Conceitos, Lisboa, 1718-1721.
17 Adágios Portugueses reduzidos a lugares comuns, Lisboa, 1651.
18 Eva e Ave, ou Maria Triunfante, Lisboa, 1716 [BPNM: 2-13-18-8].
19 Alegado autor de um medalhão com a figura da Ocasião, datável de ca. 1540, destinado a uma casa do Largo da Sé

Velha de Coimbra, actualmente no Museu Nacional Machado de Castro. Erroneamente descrita como Fortuna por
Pedro Dias e, antes dele, por Guido Battelli, Um Medalhão da Renascença Italiana no Museu Machado de Castro, in
Ilustração Moderna, a. 6, n. 52 (Jul.-Ago. 1931), p. 326.
20 Cf. Arte e Imagem nas notas do Banco de Lisboa (1846-1996), Lisboa, 196, p. 112-114.
21 Cf. Henrique de Campos Ferreira de Lima, António Manuel da Fonseca, Litógrafo, in Museu, v. 3, n. 6 (Jun. 1944),

p. 25-26.
uma Coluna Egípcia duas Figuras, uma o Amor da Pátria, que é caracterizado em um Mancebo
guerreiro, que tem ao peito uma das Quinas Portuguesas; o mesmo pega com a mão direita nos
Retratos, e com a esquerda mostra quanto avalia, e estima a Justiça, que se vê à esquerda do
Quadro, pegando com a direita na dita medalha, e com a esquerda impunha as varas
Consulares.
Junto ao Amor da Pátria se vê a Fidelidade figurada em um Menino, e um Cão, tendo na direita
duas chaves; e em o meio das duas figuras ditas a Felicidade Pública coroada de flores,
entornando a Cornucópia da abundância.
Na parte superior do Quadro, junto à mesma Medalha, se vê o Amor da Virtude, que com a mão
direita ampara os ditos Retratos, e com a esquerda segura o símbolo da Memória perdurável,
figurada em uma Cobra, que morde a cauda. a qual é sustida tambem pela Gratidão
simbolizada por um Menino que abraça uma Cegonha. À esquerda do dito Quadro se vê o
Tempo curvado, sustendo sobre as asas um Livro, em que se lê a História ditada pela Verdade,
que está à sua direita, caracterizada com hum Sol, que lhe alumia o peito, e na mão esquerda
tem uma Palma.
Finalmente ao lado direito do dito Quadro se vê a Generosidade, junto a ela um Leão, e com
mãos liberais distribui ricas medalhas, e preciosas jóias, mostrando o quanto estima as Artes, e
olhando benigna para o Génio da Pintura, caracterizada por um Menino, que tem na mão
esquerda umas asas, e na direita lhe pesa uma grande pedra. Este Emblema é de Alciato.
Lisboa: Na Impressão Régia. Com Licença da Comissão da Censura” 22.

A influência de Alciato e de seus mais notórios discípulos não foi menor entre teólogos e
moralistas, que empregaram emblemas para interpretações ao divino, como sucedeu com Frei
Heitor Pinto 23 e Manuel Bernardes, em particular, e com os jesuítas, em geral, seus mais
estrénuos adeptos e divulgadores, bem como com os respectivos discípulos 24.
Outro exemplo é o oratório da duquesa de Bragança D. Catarina (Paço de Vila Viçosa),
concebido pelo pintor Tomás Luís 25.
A única tradução portuguesa conhecida (Declaração Magistral sobre os Emblemas de
Alciato com todas as Historias, Antiguidades, Moralidades, e Doctrina tocante aos bons
costumes 26) foi realizada, em 1695, por Teotónio Cerqueira de Barros, cavaleiro da Ordem de
Cristo, familiar do Santo Ofício natural da Vila de Barca Província do Minho, a partir da edição
de Diego Lopez (1615) 27.

***
Os comentários portugueses de Alciato, objecto da presente edição, provêm de um
volume dos Emblemata patrocinada por Christian Wechel e impressa em Paris, no ano de
1540, outrora propriedade do padre João da França e adquirido num alfarrabista lusitano por
J. Leite de Vasconcelos.
O texto português, como referiu Vasconcelos no seu estudo já citado, é de 5 mãos distintas: 1ª
(2ª metade séc. XVI) – a maioria dos emblemas; 2ª (séc. XVII) – emblemas 19, 20, 22, 24, 27,
28, 30, 32, 33 e 35; 3ª (séc. XVII tardio) – emblema 76; 4ª (séc. XVII tardio) – emblema 87; 5ª
(séc. XVII tardio) – emblema 100.

22 A Analise do Painel transparente que mandou fazer o Barão de Quintella, pelo pintor António Manoel da
Fonseca, Filho, para a illuminação do seu Palácio das Larangeiras, para a noute do dia 22 de Outubro de 1820,
circulou impressa numa folha volante, impressa de um só lado, profusamente distribuída. A Mnemosine Constitucional
transcreve quase na íntegra, o mesmo texto.
23 Imagem da Vida Christam, Lisboa, 1681 [BPNM: 2-13-8-12] e Segunda Parte dos Diálogos da Vida Christam,

Lisboa, 1593 [BPNM: 2-13-3-16].


24 A título meramente exemplificativo, anoto de Pedro José Supico de Morais, Collecção Moral de Apothegmas, ou

ditos agudos, e sentenciosos, Parte I, Lisboa Oriental, Oficina Augustiniana, 1732 e Parte II, Coimbra, Francisco de
Oliveira, 1761, obra na qual se acham inúmeras remissões para os Emblemata de Alciato. Apenas na Parte II, registo,
sem pretender ser exaustivo: p. 75, 76, 117, 125, 145, 149, 308, 354, 365, 373, 383, 401, 406.
25 Cf. Vítor Serrão, O pintor maneirista Tomás Luís e o antigo retábulo da igreja da Misericórdia de Aldeia Galega

do Ribatejo (1591-1597), in Artis, n. 1 (2002), p. 211-235, especialmente, p. 229-231.


26 [BN: cod. 9221 = F 268 e F 1476].
27 Rubem Amaral Júnior, promoveu a edição do códice em apreço, antepondo uma “breve apresentação” à respectiva

transcrição diplomática, s. l., s. d. [2006] [BN: L 94402 V].


EMBLEMA 1

Ad illustrissimum Maximilianum ducem Mediol[anensem]


[Dedicado ao Ilustríssimo Maximiliano duque de Milão]
(Brasão de armas do duque de Milão: uma guivra lança da boca um menino)

Estas são as armas do duque de Milão, tidas em muita veneração, porque também foram insígnias de
Alexandre Magno: pinta-se um menino que sai de uma serpente, porque Alexandre foi tido por filho de
Júpiter, rei dos Deuses, o qual se adorava em Grécia, em figura de serpente.

EMBLEMA 2

Foedera
[As alianças]
(Uma viola pousada num sofá)

Por esta viola se significam os concertos e assim como faltando uma corda, ou não estando bem
temperada, o som não presta, assim o concerto, se falta uma condição, ou outra está mal explicada, não
presta.

EMBLEMA 3

In silentium
[Sobre o silêncio]
(Um homem com o index da mão direita posto na boca)

Tem esta figura o dedo na boca para mostrar como os homens hão-de calar, porque se um cala, ainda
que seja parvo, cuidam que sabe muito: donde se diz na Sagrada Escritura: Stultus si tacuerit, sapiens
reputabitur [Provérbios, XVII, 28].

EMBLEMA 4

Etiam ferocissimos domari


[Até os mais ferozes são domados]
(Marco António num carro puxado por dois leões)

Significa esta figura como ainda os muito poderosos são, às vezes, domados doutros mais poderosos.
Porque António, capitão dos Romanos, para significar como domara ainda poderosos capitães fez um
triunfo em o qual o coche onde ele ia era levado por leões, significando que quem domava leões domaria
homens, ainda que poderosos.
EMBLEMA 5

Gratiam referendam
[Um favor deve ser retribuído]
(Uma cegonha leva a mãe às costas, e apresenta-lhe um peixe)

Ensina esta figura como se há-de fazer bem, esperando que se o fizer também lho farão. Porque a
cegonha, quando os filhos são pequenos traz-lhes de comer com muita diligência, porque eles também
lho trazem a ela quando é velha, e não somente lhe trazem de comer, mas levam-na às costas.

EMBLEMAS 6

Concordiae Symbolorum
[O símbolo da Concórdia]
(Um ceptro entre duas aves, que estão voltadas para ele)

Pinta-se aqui a Concórdia, porque as codornizes [no original: cornices = gralhas] são as aves que
guardam grande paz e lealdade entre sim e estão tendo mão em um ceptro, para dar a entender que a
conservação do ceptro e do rei depende da paz e concórdia do povo.

EMBLEMA 7

Potentíssimas affectus amor


[O amor é afecto poderosíssimo]
(Cupido num carro puxado por dois leões)

Mostra-se aqui quanto o amor divino pode porque, assim como este menino governa estes leões, assim
ele modera os homens, por mãos que sejam, e faz deles quanto quer.

EMBLEMA 8

Non vulganda consilia


[Os planos não devem ser divulgados]
(Uma bandeira com a figura do Minotauro atravessada
por uma faixa em que se lê SPQR = Senatus Populusque Romanus)

Contém-se aqui a figura do Minotauro, o qual era meio homem, meio touro, e está fechado no labirinto:
por ele se significam os sinais com que na guerra se entendem os soldados uns aos outros; está no
labirinto fechado, para se dar a entender com quanto silêncio e fidelidade se devem esconder dos
inimigos, etc.
EMBLEMA 9

In victoriam dolo partam


[Sobre a vitória obtida com dolo]
(A virtude, em forma de mulher, chora desgrenhada sobre o sepulcro de Ajax)

Está a Virtude chorando junto da sepultura de Ajax, porque os juízes gregos deram sentença que se
dessem as armas de Aquiles a Ulisses, e não a Ajax, que as merecia. Por isto se dá a entender que muitos
varões bons às vezes são privados de seu direito por sentença dos maus.

EMBLEMA 10

Reuerentiam in matrimonio requiri


[Fidelidade requerida no matrimónio]

[O emblema 10 não tem explicação]

EMBLEMA 11

In avaros, vel quibus metior conditio ab extraneis offertur


[Sobre os avaros, ou de como, às vezes, se comportam melhor com estranhos]
(Vista do oceano: na parte anterior do quadro avulta uma nau, donde se precipita Arion à água, e nesta
nada um golfinho [= delfim], e boia uma lira; ao longe quase junto da praia, vai Arion a cavalo num
golfinho [= delfim], tocando lira todo ancho) [Pescar em águas turvas]

Contém-se aqui Arion, insigne tangedor, o qual, indo em uma nau, quiseram matar uns ladrões que iam
com ele, para lhe apanhar o dinheiro que ganhara a cantar e tanger. Ele vendo-se neste ponto, pediu que
o deixassem cantar um pouco: concedendo-lho, acudiram os golfinhos [= delfins], e deitando-se ele na
água, o levaram a porto seguro. Donde se vê que pior é a avareza dos homens, que as próprias feras.

EMBLEMA 12

Amicitia etiam post mortem durans


(Um olmo velho com uma vide viçosa enroscada nele)
[A amizade persiste ainda depois da morte]

Pinta-se aqui um amigo verdadeiro, que ainda no tempo dos trabalhos, e depois da morte, não
desampara o amigo. Porque esta árvore, ainda depois de seca, sustenta a videira fresca, qual sustentara
de pequenina; e paga-lhe a videira muito bem, porque as folhas que faltam à árvore seca lhe dá ela,
enramando-a com as suas.
EMBLEMA 13

Nec verbo nec facto quenquam laedendum


[Não prejudiques, nem por palavras, nem por acções]
(Némesis de pé voltada para a direita, leva pendente da mão esquerda um freio)

Ensina o tento que os homens hão-de ter era que não agravem a ninguém, nem por obra, nem por
palavra. A razão é porque Némesis, que era a Deusa da Justiça, para onde quer que um homem vai,
sempre lhe vai seguindo as pegadas, e vê tudo o que cada um faz e diz; e leva um freio na mão para
enfrear os que forem desencaminhados.

EMBLEMA 14

Desidiam abijciendam
[Há que desterrar a preguiça]
(Um velho sentado numa medida)

Havia entre os Gregos uma medida, a qual para cada dia bastava a quem quer. E porque havia alguns
preguiçosos que só com is[s]o se contentavam e não trabalhavam nada, admoesta-os a não se contentar
com isto senão que trabalhem, etc.

EMBLEMA 15

Paupertatem summis ingeniis obesse ne prouehantur


[A pobreza prejudica aos maiores engenhos e impede que progridam]
(Um menino com asas na mão esquerda, e uma pedra pendurada do braço direito)

As asas que tem em uma mão são engenho e habilidade; a pedra que tem na outra é a pobreza: donde se
tira que faz muito mal a pobreza aos mo[ços] de habilidade, porque não podem com a pobreza continuar
os estudos nem ter os livros e mais coisas nece[ssári]as.

EMBLEMA 16

In Occasionem
[Sobre a Ocasião]
(Figura da Ocasião com asas nos pés, uma faca na dextra, cabelo flutuante sobre a fronte, e calva a parte
posterior da cabeça)

Pinta-se aqui a Ocasião com asas nos pés, para mostrar como passa depressa; com cabelos na testa, para
os homens pegarem dela. Tem a outra parte da cabeça calva, porque se uma vez escapa, não a podem
tornar a tomar.
EMBLEMA 17

Ocni effigies de his qui meretricibus donant quod in bonos usus verti debeat
[Imagem da Preguiça, ou dos dão a rameiras o que deveria ser aplicado a melhores usos]

[Emblema sem comentário]

EMBLEMA 18

Virtuti fortuna comes


[A fortuna é companheira da virtude]
(O caduceu posto entre duas cornucópias)

Contém-se aqui a vara de Mercúrio cercada com duas pontas de boi, pelas quais se entende abundância
de todas as coisas, e estão juntas com a vara de Mercúrio que significa a sabedoria, a qual, todo aquele
que tiver terá todas as mais coisas.

EMBLEMA 19

Ex pace ubertas
[Da paz nasce a abundância]
(Uma ave num ninho sobre um rochedo em meio do mar)

Isto significa o cuidado que deve ter um rei e príncipe para com os seus porque assim como o maçarico,
quando vê o mar quieto e que não há tempestades, faz seu ninho no meio do mar de vides e espigas de
trigo, como alguns dizem, assim o rei e príncipe há-de prover todos seus povos e províncias de tudo
necessário, tendo primeiro grande cuidado que não haja tempestades de guerras e discórdias, para que
assim vivam mais seguramente e em paz, porque dela nasce a abundância das coisas.

EMBLEMA 20

In eos qui supra vires quicquam audent


[Sobre os que ousam ir mais além das suas forças]
(De um lado, Hércules dorme debaixo de uma árvore, cercado de Pigmeus;
do outro está desperto e envolvendo estes na pele do Leão)

O que está debaixo da árvore é Hércules dormindo. Os que arremetem a ele são os Pigmeus, homens
muito pequenos, da estatura de um côvado, os quais, presumindo de suas forças, determinavam matar a
Hércules, mas ele acordado, tomou-os, e como pulgas entre os dedos os matou. Donde se tira que
aqueles que não sabem nada, e se tomam com os doutos e sábios, não somente não alcançam o que
pretendiam, mas ficam com muita ignomínia e desonra sua. E assim nos ensina a não fazermos coisa
nenhuma sobre nossas forças.
EMBLEMA 21

Princeps subditorum incolumitatem procurans


[Do Príncipe que busca a segurança dos súbditos]
(Um golfinho enroscado na haste de uma âncora)

Mostra-se aqui quanto o príncipe e prelado no tempo da adversidade, há-de procurar de conservar os
seus, assim como esta ancora é remédio ao[s] marinheiros quando os ventos mais sopram e o mar se
embraveça; o delfim que está pegado na âncora está ajudando[-a] a meter[-se] na areia, para que a não
leve [a] água, e assim fique a nau na tormenta mais segura. Pois se um peixe se compadece dos homens
em tempo de trabalho com quanto mais razão se devem os homens de compadecer uns dos outros?

EMBLEMA 22

Mutuum auxilium
[Da ajuda recíproca]
(Um cego com um coxo às costas)

O que está em cima é manco, o de baixo é cego: de modo que o cego leva o manco às costas e o manco de
cima guia o cego por onde há-de ir. Isto mostra como os homens se hão-de ajudar uns aos outros, como
diz o Apóstolo: Alter alterius onera portate [S. Paulo, ad Galatas, VI, 2]

EMBLEMA 23

Ex arduis perpetuum nomen


[A fama eterna alcança-se mediante coisas difíceis]

[Não tem comentário]

EMBLEMA 24

Obdurandum adversus urgentia


[Há que resistir ao prémio]
(Uma palmeira com tâmaras, e um menino suspenso nas ramas para as colher)

Admoesta-nos como nunca nós havemos de acabar com nenhumas adversidades, mas sempre ir por
diante e resistir à fortuna, assim como a palma, a qual, por mais que carregue por ela para baixo, sempre
faz força para cima.
EMBLEMA 25

Tumulus meretricis
[A sepultura da rameira]
(Um sepulcro que encerra um cadáver decomposto, e tem esculpido no lado direito
um carneiro perseguido de uma leoa)

Pinta-se aqui uma mulher posta na sepultura toda desfeita e podre, bem diferente daquele tempo em
que ela enganava os homens e andava após eles: que isso significa a leoa que vai após o carneiro que, por
derradeiro, não pode vir bem ao carneiro em a companhia da leoa.

EMBLEMA 26

In parasitos
[Sobre os parasitas]
(Um caranguejo grande, no mar; ao longe outros, de dimensões menores;
adiante, na praia uma travessa ou prato com dois, ainda menores)

Este cancro [caranguejo] significa os calaceiros e chocarreiros porque, assim como este tem os olhos
muito vivos e espertos, assim estes os têm para ver as fraquezas dos outros, para motejarem delas; e
assim como este tem o ventre maior que o corpo, assim estes tudo se lhe vai em comer. Têm muitas
mãos, porque tudo apanham calaçando [ociosamente].

EMBLEMA 27

Concordia
[A concórdia]
(Dois capitães a mão direita um ao outro, entre dois exércitos)

Toca aqui um costume antigo dos Romanos que ainda se usa: era que quando se faziam pazes entre
alguns exércitos ou cidades, as principais cabeças de uma e outra parte davam, as mãos uns aos outros
em sinal de paz e concórdia.

EMBLEMA 28

Quae supra nos nihil ad nos


[As coisas que nos transcendem não são para nós]
(Prometeu atado a uma árvore, roendo-lhe uma águia o coração)

Este é Prometeu, o qual, fazendo uma imagem de barro, furtou por meio de Minerva o fogo do Céu para
fazer vivente a imagem: o qual sabendo Júpiter, o mandou atar em uma rocha de pés e mãos, e uma
águia que sempre lhe estivesse roendo o coração. Esta fábula se acomoda àqueles que querem
esquadrinhar os mistérios altos a que não pode chegar nosso entendimento, os quais ficam cegos assim
como os que põem os olhos no sol ao meio-dia, porque diz o Sábio: qui scrutatur maiestatem
opprimetur a gloria [Salomão, Provérbios, XXV, 27: “qui scrutat est maiestatis opprimetur a gloria”].
EMBLEMA 29

In amatores meretricum
[Sobre os que amam as rameiras]
(Um pescador vestido de pele de cabra, apanha um peixe numa rede)

Trata-se aqui como as más mulheres enganam os tristes dos homens e os enredam.

EMBLEMA 30

Albutii ad D. Alciatum suadens [sic] ut de tumultibus


Italicis se subducat, et in Gallia profiteatur
[De Albúcio para Alciato para o convencer a que se aparte das contendas italianas e trabalhe em França]
(Um menino nu leva nas mãos um açafate de pêssegos)

Este Emblema é de Albucio, o qual fez, persuadindo a Alciato que se saísse das revoltas e tumultos de
Itália, e se fosse para França, onde podia valer mais com suas letras, porque assim como o pessegueiro,
segundo alguns dizem, em Pérsia era peçonhento, mas plantando-o em Itália, mudou a natureza e deu
fruto muito bom e saudável, assim mesmo Alciato, se for para outra pátria e deixar a sua, valerá muito
mais.

EMBLEMA 31

Parvam culinam duobus ganeonibus non sufficere


[Uma mesa pobre não é suficiente para dois truões]
(Uma árvore com uma ave que não deixa aproximar-se outra que voa para lá)

Assim como aquele passarinho está picando o outro e não no deixa pôr no ramo, assim fazem os homens
uns aos outros, parecendo-lhe que não haverá para eles e para os outros.

EMBLEMA 32

In Deo laetandum
[Alegremo-nos em Deus]
(Um menino Ganimedes a cavalo numa águia.
Em cima uma inscrição latina, em baixo uma grega: Docet animas in caelum a Deo raptas: pro Jove,
pro aquila amor, pró Ganymede animae possunt intelligi]

Este menino é Ganimedes ao qual fingiram os Poetas que mandara Júpiter uma águia que o levasse para
o Céu, mas tomando isto um sentido mais verdadeiro, por Júpiter se entende Deus, pela águia o amor,
por Ganimedes uma alma, a qual Deus por grande amor leva a gozar da glória e bem-aventurança.
EMBLEMA 33

Inviolabiles telo Cupidinis


[Invulneráveis às setas de Cúpido]

[Emblema sem comentário]

EMBLEMA 34

Spes proxima
[A esperança próxima]
(Uma nau em tormenta, no mar; à vista, no céu, dois astros, Castor e Pollux, irmãos de Helena)

Ensina a ter esperança, assim como a têm os que vêem em uma grande tormenta no mar, que vendo
socorro, cobram novo ânimo, aludindo à fábula de Helena.

EMBLEMA 35

Non tibi sed religioni


[Não a ti, senão à Religião]
(Um burro leva no dorso um andor de Ísis; adiante está gente posta de joelhos no chão,
reverentemente e de mãos erguidas atrás o arreio azorraga o animal)

Levava este animal a imagem de uma deusa, à qual toda a gente que passava fazia reverência e adorava;
o animal vendo diante de si a gente de joelhos, começou a inchar e ensoberbecer, cuidando que lhe
faziam a ele aquela reverência, mas o que o guiava lhe deu com os azorragues, dizendo: “Não és tu deus,
animal! Mas levas à deusa que adoram os homens”. Isto se acomoda mui bem àqueles que têm alguma
dignidade na igreja de Deus e se ensoberbecem quando os veneram e honram, sendo assim que os não
veneram a eles, se não a Deus que representam.

EMBLEMA 36

In illaudata laudantes
[Sobre aqueles que louvam o que não é louvável]
(Um elefante ao pé de um troféu)

Não hão os homens de estimar as coisas que acontece mais a caso que por seu esforço, porque Antíoco,
posto que venceu os Gálatas, todavia não estimou muito a vitória, pois não foi alcançada tanto, pelas
forças dos soldados quanto por razão de um elefante que espantou os cavalos dos contrários. A pintura
significa um troféu que Antíoco pôs depois da vitória.
EMBLEMA 37

Justa vindicta
[O justo castigo]
(O Cíclope repousa numa caverna, perto do seu gado Ulisses e um companheiro atraem-no)

Toca-se aqui aquela história comprida de Ulisses com o Gigante Cíclope. A suma dela é que assim como
Ulisses matou o Gigante, vingando-se dele, assim finalmente quem faz mal o vem a pagar e o que pior é,
que muitas vezes lho faz um Ulisses fraco, ainda que o que fez o mal seja um Gigante, o qual estava
dormindo quando Ulisses o matou: dando a entender que quando um está mais descuidado, então paga
o que tem feito.

EMBLEMA 38

Tandem, tamdem iustitia obtinet


[Mais tarde ou mais cedo a justiça prevalece]
(Túmulo de Ajax, à beira-mar; nas águas um escudo)

Significa-se aqui como por derradeiro o seu torna a seu dono. Porque Ulisses tinha um escudo de Ajax e
permitiu Deus que com uma tormenta que teve lhe caísse no mar, e as ondas depois de muito tempo o
trouxeram à praia aonde estava o sepulcro de Ajax, que era já morto, sobre o qual o puseram; e assim
por derradeiro lhe tornou às mãos ou vivo ou morto.

EMBLEMA 39

In fecunditatem sibi ipsi damnosam


[Sobre a fecundidade que se auto-prejudica]
(Três rapazinhos procuram colher nozes em uma nogueira:
um atira-lhe pedras com a mão, outro com uma funda; outro atira-lhe com paus)

Há alguns que lhe fora melhor não ser ricos e ditosos, porque as riquezas lhe são causa de se perderem e
de os tratarem mal e invejarem-nos. Mostra-se isto na nogueira que está no caminho a qual, se não
tivera nozes, não lhe atiraram os moços às tarascoadas [pedradas], mas porque as tem fazem má pesar
dela; melhor lhe fora não as ter.

EMBLEMA 40

Fortuna virtutem superans


[A fortuna que vence a virtude]
(Suicídio de Bruto, que se espeta na própria espada)

Toca como Bruto se matou vendo que Pompeio Magno fora vencido de César, atribuindo isto mais à
fortuna que à fraqueza dos soldados de Pompeio, dando a entender que a boa dita de César, não a
valentia, destruiu a Pompeio.
EMBLEMA 41

Ex litterarum studiis immortalitatem acquiri


[Imortalidade alcançada mercê do estudo das Letras]
(Um tritão dentro da rosca de uma serpente que morde a cauda)

Tem esta serpente com o cabo na boca para fazer um círculo, o qual não tem cabo, e no meio está um
trombeteiro de Neptuno, que significa que neste círculo, está apregoando os louvores dos homens
ilustres.

EMBLEMA 42

Custodiendas virgines
[As virgens devem guardar-se]
(Palas de vara na mão, junto de uma árvore, e com um dragão aos pés)

Fingiam os antigos que Palas, como era virgem tinha cuidado de guardar as demais, e por isso a pintam
com a vara na mão e com um drago aos pés, o qual é figura do cuidado com que as mães devem de
guardar as filhas.

EMBLEMA 43

Auxilium nunquam deficiens


[A ajuda nunca falta]
(Um soldado vai nadando sobre um escudo; na praia vêem-se outros soldados)

Ensina nunca um homem haver de desesperar socorro, porque este homem que vem nadando por este
mar, fugindo doutros que da terra o queriam matar, com um mesmo escudo se salvou, assim dos
homens da terra como das ondas do mar: dos homens se livrou pelejando e emparando-se com o
escudo, do mar se livrou deitando-se a nadar no mesmo escudo ou adarga.

EMBLEMA 44

Amor filiorum
[O amor aos filhos]
(Uma ave pousada num ninho sob uma árvore)

Mostra o amor que os homens devem de ter [a]os filhos, pois se conta do pombo torcaz que antes que
venha o verão cria, e para que os filhos tenham a cama mole, depena-se muitas penas e assim fica quase
nu, padecendo o frio por livrar os filhos dele.
EMBLEMA 45

Ex bello pax
[A paz engendrada pela guerra]
(Um elmo e junto dele três abelhas que voam)

Significa como às vezes da boa guerra vem boa paz, porque este elmo que no tempo da guerra servia de
pelejar, agora há aí tanta paz que serve de cortiço de abelhas: dando a entender que a guerra que em
algum tempo era fel, depois veio a parar em mel.

EMBLEMA 46

Submovendam ignorantiam
[A ignorância deve ser desterrada]
(Esfinge)

Toca-se aqui a história da Esfinge, a qual punha a todos este enigma, e quem lho não adivinhava,
matava-o. Até que veio o grande adivinhador Édipo, e adivinhou, e ela de paixão de lho adivinharem,
morreu. Os enigma era este: qual era o animal que andava em quatro pés e em dois e em três. Édipo
disse-lhe que era o homem, o qual, sendo menino, anda em quatro pés, silicet [a saber], com os dois pés
e com duas mãos, sendo homem, anda com dois pés; sendo velho anda com três, trazendo bordão. A
Esfinge significa a ignorância e Édipo significa o sábio, o qual primeiro se há-de conhecer assim que as
outras coisas.

EMBLEMA 47

Semper praesto esse infortunia


[Os infortúnios não se fazem esperar]
(Três damas jogam os dados numa mesa redonda)

Ensina aqui como as coisas adversas mais certas vêm que as prósperas, porque as três figuras mostram
como estando três jogando os dados, a quem primeiro havia de morrer, a que[m] lhe saiu o dado da
morte começou a zombar e matar-se de riso. Nisto cai um pedaço do telhado e matou[-a].

EMBLEMA 48

Mentem non formam plus pollere


[Mais vale a inteligência que a beleza]
(Uma raposa com uma cabeça humana entre as mãos)

Mostra com uma fábula como o entendimento e prudência é o que monta em um homem, e não outro
dote corporal. Foi, diz ele, uma raposa a uma varanda achou nela uma cabeça de um homem feita de
pão, muito bem pintada, que parece viva e tomando-a nas mãos, disse: “ó que cabeça esta, mas não tem
miolo!” dando a entender que pouco montava a formosura de fora, se lhe falta o juízo.
EMBLEMA 49

In facile a virtude desciscentes


[Sobre aqueles que facilmente se apartam da virtude]
(Uma nau detida por um caracol e uma rémora)

Ia esta nau correndo com as velas cheias: eis que chega aquele peixinho bem pequeno a que chamam
rémora, e teve tanta força, que teve a nau que não corresse. E isto é certo que há este peixinho no mar,
que tem tanta força. Assim vai um homem correndo a velas cheias na virtude e nas letras, senão eis que
em uma ocasião bem pequena uma mulherinha, ou não sei quê, e é poderosa para o reter até que o meta
no fundo no inferno.

EMBLEMA 50

Prudentes vino abstinent


[Os prudentes abstêm-se de vinho]
(Uma oliveira que tem enroscada em si uma vide)

Esta árvore é uma oliveira, que é arvore de Palas, deusa da sapiência. Queixava-se esta oliveira da
videira., que a tem enredada e carregada com suas uvas, e dizia que a deixasse e que tirasse as suas uvas
porque ela que era árvore de Palas, e que Palas que não bebia vinho: dando a entender que as mulheres
não hão-de beber vinho, nem os homens sábios, pois a deusa da sabedoria o não bebe.

EMBLEMA 51

In avaros
[Sobre os avarentos]
(Um burro vai carregado com uma carga de comida e pasta as folhas de um cardo)

Compara aqui um avarento - que por poupar nem aos outros nem a si dá nada - a um jumento que vai
muitas vezes carregado de coisas muito boas e não as come, nem toca nos alforges de que vai carregado,
senão, quando muito, se acha um cargaço no caminho, pega dele.

EMBLEMA 52

Maturandum
[Devagar, mas sempre no tempo exacto]
(Uma seta fixa no chão, com uma rémora enroscada nela)

Ensina que não hão os homens de ser nem muito apressados, nem muito vagarosos: e por isso pinta
uma seta envolta naquele animal a que chamam [rémora = echeneis], o qual é muito vagaroso, e assim
seu vagar se apressa com a velocidade da seta, e esta com o vagar daqueles se tempera. E assim fica tudo
concertado.
EMBLEMA 53

In astrologos
[Sobre os astrólogos]
(Ícaro precipita-se do céu no mar)

Zomba aqui dos Matemáticos, que querem prognosticar muitas coisas do Céu e do que há-de acontecer,
os quais muitas vezes se enganam e lhe acontece o que aconteceu a Ícaro, filho de Dédalo, o qual,
fazendo-lhe o pai Dédalo umas asas pegadas com cera para fugir de uma fortaleza onde estava preso, e
dizendo-lhe que não voasse muito alto porque da quentura do Sol se lhe derreteria a cera, e lhe cairiam
as asas ele depois que se viu no ar quis ir lá bem acima a ver o Céu, derreteram-se-lhe as asas e caiu no
mar e morreu. Assim acontece aos que querem esquadrinhar muito as coisas de cima.

EMBLEMA 54

A minimis quoque timendum


[Há que temer os pequenos]
(Uma águia diante de uma carocha que desce de uma árvore)

Ensina como ainda de inimigos pequenos se um há-de guardar. Quem dissera que uma carocha se havia
de meter entre as penas de uma águia e ser levada da mesma águia ao ninho que estava em uma alta
árvore, e depois que a águia tornou a voar, ela, ficando sem a águia a ver no ninho, lhe chupou os ovos, e
depois se deitou a voar?

EMBLEMA 55

Parem delinquentis et suasoris culpam esse


[É idêntica a culpa do delinquente quanto a daquele que o incentiva]
(Soldados que levam preso para um castelo um trombeteiro ou corneta)

Mostra como os que dão maus conselhos devem de ser castigados igualmente com os que os tomam.
Porque a pintura significa como um exército vencendo ao outro, o que venceu cativou o que tangia a
trombeta bastarda no arraial dos inimigos, o qual, vendo-se preso, dizia que ele que não pelejava e que
nem espada trazia, senão uma trombeta e que pois não matara nenhum na peleja, que não havia para
queo tratassem daquela maneira. Os vencedores lhe responderam: “Mais mal fizeste tu que
nenhum,nporque ainda que não tinhas espada, com esta trombeta incitavas os ânimos dos soldados a
pelejar contra nós”. Esta trombeta é a língua do que dá maus conselhos.

EMBLEMA 56

Firmissima convelli non posse


[As coisas muito firmes não podem ser arrancadas]
(Um carvalho batido dos ventos)

Esta árvore é um carvalho, o qual, ainda que o vento lhe arranque as folhas, todavia a ele nunca o
arranca. Assim há-de ser o homem forte e constante, sem que o movam os ventos ou da vaidade ou da
adversidade.
EMBLEMA 57

Cum larvis non luctandum


[Com os mortos não se luta]
(Um leão caído ao pé de três coelhos)

Mostra como ainda os muito fortes de noite hão medo, porque o leão de noite, um coelho ou rato que
bula, logo se lhe arrepiam os cabelos.

EMBLEMA 58

Aliquid mali propter vicinum malum


[O dano do vizinho pode acarretar outro dano]
(Uma panela de metal e outra de barro levadas por um rio)

Ensina como se há-de fugir a má companhia, porque finge duas panelas, uma de cobre, a outra de barro,
as quais vinham por um rio abaixo com muita fúria. Diz a de cobre à de barro: “Companheira, chegai-
vos para cá, para que, assim de conserva, vamos ambas a salvamento”. Diz a de barro: “Não sou tão
parva como isso, que me chegue a vós porque eu hei-de ser a que hei-de ficar pior do partido, por ser de
barro mole, e vós de cobre duro”.

EMBLEMA 59

In senatum boni principis


[Sobre o conselho do bom Príncipe]
(Uma assembleia de varões com as mãos decepadas, presidida por um rei cego)

Pinta-se aqui um senado de um príncipe verdadeiro. Entre os seus desembargadores está o príncipe
cego, dando a entender que o que julga não há de ter olhos, para respeitar a este mais que àquele se não
que só lhe basta ter orelhas. Os desembargadores estão assentados para mostrar como hão-de ser
constantes e não leves. Têm as mãos cortadas, para dar a entender que as justiças não hão-de ter mãos
para tomarem peitas.

EMBLEMA 60

In deprehensum
[Sobre o capturado]
(Um homem tem uma enguia presa na mão direita entre folhas de figueira)

Mostra como não faltam manhas para apanhar ainda aqueles que muitas vezes escapam. A pintura é um
homem que andava após uma enguia, e escorregava-lhe das mãos. Tomou uma folha de figueira e [a]
apertou com ela, da qual, como folha seja áspera, não se pode escoar.
EMBLEMA 61

In fidem uxoriam
[Sobre a fidelidade das esposas]

[Emblema sem comentário]

EMBLEMA 62

Quod non capit Christus rapid fiscus


[O que não leva Cristo, arrebata-o o fisco]
(Um rei expreme na mão direita uma esponja)

É figura de um tirano, o qual sofre que os homens com ruins tratos enriqueçam, e depois que os vê ricos
então lhe [vem] a vontade de os castigar para lhe[s] confiscar as fazendas.

EMBLEMA 63

Nec quaestioni quidem cedendum


[Não há que ceder aos tormentos]
(Figura-se uma leoa)

Conta-se aqui uma história de uma mulher chamada Leo [aliás, Leoa = leaena], a qual, por não
descobrir um segredo, sofreu infinitos tormentos pelo que em Atenas se lhe alevantou uma leoa, porque
assim se chama para que ficasse em eterna memória sua.

EMBLEMA 64

In temerarios
[Sobre os temerários]
(Faetonte precipitado do carro do Sol)

Conta-se aqui a história de Faetonte, da qual os homens hão-de aprender a não ser temerários, porque
este moço Faetonte, sendo filho do Sol pediu um dia a seu pai que no seu coche lhe deixasse dar uma
vista ao mundo pelo Céu. E não querendo o pai, porque temia que o moço se perdesse, todavia, vendo-o
muito importunado, lhe deu o coche. O moço depois que se viu no meio do Céu, zombando os cavalos
dele, caiu e se fez em pedaços. E não lhe acontecera isto, se tomara o conselho do pai.
EMBLEMA 65

De Morte et Amore
[Da Morte e do Amor]

[Emblema não comentado]

EMBLEMA 66

In formosam fato praereptam


[Sobre a bela arrebatada prematuramente pelo fado]

[Emblema sem comentário]

EMBLEMA 67

In statuam Bacchi
[Sobra a imagem de Baco]
(Baco debaixo de uma parreira com um tambor sobre os joelhos)

Esta é a imagem de Baco, a que os antigos chamavam Deus do vinho, a demasia do qual fez os homens
semelhantes a esta imagem, a qual está toda preguiçosa, fazendo desatinos com o tambor e outras coisas
semelhantes.

EMBLEMA 68

In momentaneam felicitatem
[Sobre a felicidade efémera]
(Uma cabaceira enleada num pinheiro)

Mostra quão pouco dura a felicidade. Pinta uma aboboreira [aliás, cabaceira], a qual, trepando por um
pinheiro, o cercou todo até o cimo, e depois que assim se viu, cuidou que fazia vantagem a todas as
demais árvores e assim começou a zombar até do mesmo pinheiro, o qual lhe respondeu: “Breve é esta
tua glória, porque daqui a dois dias vem o Inverno, em o qual te secarás, e eu ficarei verde como dantes”.
EMBLEMA 69

Pietas filiorum in parentes


[A piedade dos filhos para com os pais]
(Eneias com Anquises às costas foge de Tróia incendiada)

Para ensinar a piedade que os filhos hão-de ter para os pais traz aquela história de Eneias, o qual, para
livrar seu pai Anquises da destruição de Tróia e dos inimigos que lhe vinham no alcance, tomou o pai às
costas e um filhozinho seu pela mão e assim os livrou a ambos, sendo um velho e o outro menino [este
não é figurado no emblema].

EMBLEMA 70

Alius peccat, alius plectitur


[Pagam os justos pelo s pecadores]
(Um velho tem atirado ao chão com uma pedra que um cão abocanha)

Ensina nesta figura como muitas vezes, o que peca, a justiça não o castiga, senão o que não tem culpa,
porque o cão, se lhe atiram, vai pegar na pedra que não tem culpa, e deixa quem atirou a pedra.

EMBLEMA 71

In studiosum captum amore


[Sobre o estudioso apanhado pelo amor]

[Emblema não comentado]

EMBLEMA 72

Amor virtutis alium Cupidinem superans


[O Amor da virtude (Anteros) vence o outro Cúpido]

[Emblema não comentado]


EMBLEMA 73

Vis amoris
[A força do amor]

[Emblema não comentado]

EMBLEMA 74

Justa ultio
[A justa vingança]
(Um corvo agarra com as patas um escorpião)

Mostra como muitas vezes a um homem acontece o mal que quer fazer aos outros: porque pinta um
corvo o qual costumava pilhar outras aves e, um dia, pilhando um escorpião, o escorpião mordeu[-o] no
pé indo-o levando pelo ar; o corvo que viu que o escorpião que o queria matar, deixa-o cair do alto, e
chegando abaixo morre, e assim ficou com o que queria fazer ao corvo.

EMBLEMA 75

In eum qui truculentia suorum perierit


[Sobre aquele que perecerá em consequência da maldade dos seus]
(Um golfinho estendido numa praia)

Ensina como aqueles que nem para os seus são bons, mas antes são cruéis, quais devem de ser para os
outros. Porque a pintura é um delfim deitado fora do mar, na areia, com as grandes tempestades do mar,
e está-se queixando de Neptuno, Deus do mar, dizendo que se ele aos peixes, que são seus filhos, com
tempestades faz fazer naufrágio, que fará aos homens quando navegarem pelo mar, que são seus
inimigos, pois lhe tomam os peixes? Por isso, que os homens se não devem de confiar do mar, pois
ainda aos filhos trata tão mal.

EMBLEMA 76

Potentia amoris
[O poder do amor]
(Cupido com um peixe na mão direita, e um ramo de flores na esquerda)

O amor as[s]im na terra como mar tem domínio, por isso o pintou as[s]im com um peixe na mão e um
ramalhete de flores na outra.
EMBLEMA 77

Qua dii vocant eundum


[Há que seguir por onde nos dizem os deuses]
(Busto de Mercúrio)

Esta pintura ensina como os homens hão-de acudir às inspirações de Deus, e deixar-se guiar por onde
ele os levar. Porque aquela figura é de Mercúrio, posta em uma encruzilhada de estradas, mostrando o
caminho aos caminhantes, os quais, se vão por onde ele aponta com o dedo, vão bem, mas se se desviam
ou tomam outro caminho, perdem-se.

EMBLEMA 78

In simulacrum Spei
[Sobre a imagem da Esperança]
(Três figuras: da Spes, com setas na mão, quebradas, e uma águia ao pé do Bonus Eventus e de Cupido)

Esta é a imagem da Esperança. Está vestida de verde, porque a cor verde significa esperança. O menino
que está junto dela é o Bom Acontecimento. Na mão tem as setas da morte quebradas, para dar a
entender que aos vivos é dado esperar, mas os mortos não. Tem junto de si uma gralha, a qual ave
sempre diz “cras”, que quer dizer “amanhã” e nunca diz “hoje”. Assim a Esperança sempre diz
“amanhã”.

EMBLEMA 79

Illicitum non sperandum


[Não há que esperar o ilícito]
(Imagens da Spes e de Némesis)

Estas imagens, uma é da Esperança, outra é de Némesis, Deusa que castiga os delitos. Pintam-nas
ambas para significar que se um homem esperar o que não deve, que a Némesis que o há-de castigar.

EMBLEMA 80

Pax
[A paz]
(Um elefante conduz um coche)

Significa a paz. Porque este elefante no tempo da guerra, com sua ferocidade destruía exércitos, porém,
no tempo da paz ia manso, sofreu que lhe pusessem o jugo para levar por Roma o coche de César.
EMBLEMA 81

Anteros, id est, Amor uirtutis


[Anteros, i. e., o amor da virtude]
(Um menino, Cúpido nu, com uma coroa na cabeça e três na mão)

[Emblema sem comentário. O espaço vazio foi preenchido por um adágio, de outra mão: “A quem Deus
quer ajudar, o vento lhe apanha a lenha”]

EMBLEMA 82

Signa fortium
[As insígnias dos fortes]
(Uma águia deitada sobre o túmulo de Aristómenes)

Nesta figura alude à águia que o imperador Carlos V (ao qual chama Aristómenes) trazia na sua
bandeira, a qual águia, assim como é sinal e insígnia dos fortes, como era o Imperador Carlos V, assim a
pomba é insígnia dos tímidos e covardes.

EMBLEMA 83

Qui alta contemplantur cadere


[Caem aqueles que contemplam as coisas altas]
(Um caçador que atira com flecha a uma ave, é mordido por uma serpente)

Mostra aqui como aqueles que querem especular coisas altas, esquecendo-se das baixas e das que têm
presentes, são muitas vezes destruídos. Mostra isto neste homem, que andando com os olhos no ar para
atirar áquela ave, e não vendo por onde punha os pés, foi pô-los sobre uma bicha, a qual lhe mordeu os
pés e deu com ele em terra.

EMBLEMA 84

Impossibile
[O impossível]
(Três pessoas lavam um preto)

Ensina como os homens não hão-de intentar coisas impossíveis, por que estas figuras todas estão
ocupadas em lavar um negro, para ver se o podem fazer alvo; mas, por mais que lavem, sempre ele ficará
negro.
EMBLEMA 85

Aere quandoque salutem redimendam


[Para salvar-se, não há que olhar a gastos]
(Um castor, perseguido por cães, arranca a si próprio as partes genitais)

Para a explicação desta figura se pode trazer o que dizem do elefante, se é verdade, que quando se vê
muito apertado e de algum modo entendendo que os caçadores que o querem tomar por amor dos
dentes de que fazem o marfim, que se chega a uma árvore, e abanando os dentes nela, os tira e os deixa
ali como se dissera: ”Caçadores, deixai-me, se buscais os dentes, vêde-los aí”. Pois se o elefante, por
salvar a vida, sofre esta dor, que deve fazer o homem por salvar a sua alma?
[A explicação não diz respeito ao emblema, não obstante idêntica, apesar de evitar referência às partes
genitais do castor. O que o autor refere acerca do elefante, acha-se em Solino, Memorabilia, cap. 25]

EMBLEMA 86

Captivus ob gulam
[Aprisionado pela gula]
(Um rato penetra na concha bivalva de uma ostra)

Mostra como a gula de um é muitas vezes a causa da sua morte. Porque pinta um rato, o qual foi ter com
uma ostra que estava naquele lugar onde ele costumava a furtar, e começou a querer roer na ostra, que
tinha as conchas abertas. Não sabendo ele o que era, a ostra, como se sentiu morder, apertou as conchas
e ficou pela cabeça o rato, e pagou quanto tinha feito. Se o rato não fora tão guloso, pode ser que vivera
mais.

EMBLEMA 87

Dives indoctus
[O rico ignorante]
(Um homem, montado numa ovelha, passa um rio)

Vai passando um rio em uma ovelha de ouro, a qual…

EMBLEMA 88

In adulatores
[Sobre os aduladores]
(Figura de um camaleão)

Pinta aqui um adulador. A figura é o camaleonte (= camaleão), o qual se sustenta do ar e toma tais cores
quais são as coisas em que está senão nunca toma cor de branco. Assim o adulador toma as cores
daqueles a quem quer adular e lisongear, que é o mesmo que veste-se da condição e do humor daquele a
quem lisongeia, para que tudo lhe louve; mas não toma cor branca, porque nunca louva coisas boas e
castas, senão as que são do humor do lisongeado.
EMBLEMA 89

Dulcia quandoque amara fieri


[Às vezes, as coisas doces tornam-se amargas]
(Cupido, rodeado de abelhas, dirige-se para a mãe)

Ensina como as coisas doces e gostosas se tornam muitas vezes em amargas: porque aquele menino,
sendo sua mãe ausente, vendo umas abelhas, e cuidando que eram algumas aves, foi para as tomar, e
elas todo o morderam. Assim que em lugar de darem do mel àquele menino deram do fel, que é o
mesmo que morderem-no.

EMBLEMA 90

Fere simile, ex Theocrito


[Quase semelhante ao precedente, mas extraído de Teócrito]

[Emblema sem comentário]

EMBLEMA 91

In eum qui sibi ipsi damnum apparat


[Sobre aquele que atrai o dano sobre si próprio]
(Um lobinho mama numa cabra)

Significa-se aqui aquilo que diz: “Criai vós o corvo, e ele tirar-vos-á o olho” [adágio consignado in Bento
Pereira, Florilégio, Lisboa, 1655]. Pinta-se isto noutra figura, a saber uma cabra, a qual dá de mamar a
um lobinho pequenino, o qual achando o pastor no mato trouxe-o, e por não morrer deu-lhe uma cabra
que com seu leite o criasse. E por isto a cabra se queixa da parvoíce do pastor, que cria aquele que depois
lhe há-de destruir o gado, e nem a cabra, que agora em pequeno lhe dá o leite, há-de deixar.

EMBLEMA 92

Remedia in arduo, mala in prono esse


[Os males chegam facilmente e os remédios com dificuldade]
(Uma mulher alada que voa, e em terra duas encostadas a muletas com outra mulher em meio delas)

Mostra como os trabalhos vêm depressa e os remédios deles muito devagar. Porque os gentios fingiam a
Fúria que fazia o mal ser muito ligeira, tanto que voava, e por isso a pintam com as asas mas as que
remediavam o mal que ela fazia pintavam-nas mancas e velhas que escassamente, se podiam bulir, para
darem a entender quão devagar vinha o remédio do mal e quão depressa vinha o mesmo mal.
EMBLEMA 93

Eloquentia fortitudine praestantior


[A eloquência pode mais que a força]
(Hércules com a clava na mão direita, o arco na esquerda,
e uma cadeia que lhe sai da boca e prende pelo pescoço uma multidão de pessoas)

Mostra como a eloquência e prudência é mais poderosa para render os corações dos homens que a
fortaleza, porque Hércules não com sua eloquência, domou e rendeu os Franceses. Tem uma cadeia que
lhe sai da boca e prende aqueles homens para dar a entender que às palavras que lhe saiam da boca
prendia e rendia os Franceses a quem ele governou.

EMBLEMA 94

In receptatores sicariorum
[Sobre aqueles que se rodeiam de rufiões]
(Acteon em forma de veado, perseguido dos seus cães)

Isto é contra aquele que recolhe e favorece os que anda[m] de noite arruando e fazendo coisas mal feitas
porque a este acontece o que aconteceu a Acteão, o qual, porque o mereceu, andando à caça se converteu
em veado. Os seus mesmos cães que o viram, cuidando que na verdade era veado, arremeteram com ele,
e por mais que ele dizia que não era veado, senão que era seu dono Acteão, eles o mataram. Assim
acontece aos que favorecem malfeitores, que um dia esses mesmos malfeitores, não tendo já mal que
fazer [se] voltam contra quem os favoreceu.

EMBLEMA 95

Fidei symbolum
[Símbolo da Fé]
(A figura do Amor entre as da Verdade e da Honra)

São estas três figuras sinais de três coisas que conservam a fé, porque uma é a da Honra, outra a do
Amor, outra a da Verdade. Porque para um gabar bem a fé, há-de ter amor à fé, e há-de ser homem de
verdade e de honra.

EMBLEMA 96

In vitam humanam
[Sobre a vida humana]
(Demócrito e Heraclito sentados a uma mesa, rindo um, afligindo-se outro)

Alude aqui àqueles dois filósofos Heraclito e Demócrito, dos quais o primeiro todas as vezes que saia
fora de casa não fazia senão chorar porque tudo o que via lhe pareciam misérias, o segundo todas as
vezes que saia de casa não fazia senão rir, porque tudo o que via lhe parecia zombaria, e tudo o que os
homens faziam e pretendiam e o porque se desvelavam, eram ninharias.
EMBLEMA 97

In statuam Amoris
[Sobre a imagem do Amor]

[Este emblema não tem comentário]

EMBLEMA 98

Ei qui semel sua prodegerit, aliena credi non oportere


[Não convém confiar os bens alheios a quem delapida os seus]
(Figura de mulher, ou Medeia, que apunhala um filho, e tem outro morto aos pés)

Mostra como que[m] não tem lei com os seus mal a terá com os alheios, e mostra isto com uma ave, a
qual foi o ninho para os seus filhos no colo de Medeia, a qual Medeia tinha mortos os seus filhos
próprios. Pois a que matou os seus havia de perdoar aos alheios?

EMBLEMA 99

Doctos doctis obloqui nefas esse


[Não é justo que os doutos injuriem os doutos]
(Uma andorinha leva pelos ares uma cigarra ou cegarrega)

Queixa-se de uma andorinha, a qual tomou uma cegarrega e a levou aos filhos. Queixa-se e diz: “Porque
leva uma avezinha, que também canta como ela, e que também vem e aparece no Verão como a mesma
andorinha, e que também é hospede como ela e que também é ave e tem asas como ela? E que por isto
que a não queira levar e maltratar. Dá a entender como é coisa indigna tratar mal aquele que é assim
como o que trata mal, e que parece muito mal, particularmente, letrados dizer mal de outros letrados,
porque assim a andorinha como a cegarrega aqui significam os letrados.

EMBLEMA 100

Mulieris famam non formam vulgatam esse oportere


[Convém divulgar a boa fama de uma mulher, não a sua beleza]

[Em lugar do comentário, tem o seguinte de outra letra (5.ª mão): “Se a formosura humana tanto
podertem para roubar os corações […]”]
EMBLEMA 101

Bonis a divitibus nihil timendum


[Os bons nada devem temer dos ricos]
(Dois meninos alados e de espadas nas mãos perseguem três Harpias)

Queixa-se aqui um homem de dois vizinhos, os quais edificaram umas casas defronte das suas e lhe
tomaram toda a vista que parece que lhe queriam tirar os olhos, como lá as Hárpias faziam ao outro.
Mas diz ele que isto não tem outro remédio senão saber sofrer isto com prudência, e saber levar os novos
vizinhos, como fizeram os dois Zetes e Calais.

EMBLEMA 102

Consílio et virtude Chimaeram superari, hoc est fortiores et deceptores


[Com bom conselho e valor se vence a quimera, i. e., aos mais fortes e embusteiros]
(Belerofonte, a cavalo no Pégaso, arremete com a Quimera)

Assim como Belerofonte, indo num cavalo que tinha asas, destruiu a Quimera, assim um homem, se tem
asas se tem conselho, que voe e considere coisas altas, vence Quimeras, por mais fortes que sejam.
Assim que o Conselho e boa prudência vale mais que quanta força há.

EMBLEMA 103

Tumulus Ioannis Galeacii Vicecomitis primi Ducis Mediol[anensis]


[Túmulo de Gian Galeazzo Visconti, primeiro duque de Milão]
(Mapa de Itália)

São louvores de João, o Primeiro Viceconde de Milão, e diz que na sua sepultura que ponha toda Itália,
porque pois ele toda a defendeu, bem é que ela toda seja sua insígnia. E assim está ela toda aqui pintada
com suas cidades e seus dois mares.

EMBLEMA 104

Optimus civis
[O cidadão óptimo]
(Os concidadãos de Trasíbulo apresentam-lhe uma coroa).

Louva a Trasibulo o qual trabalhou infinito por pôr em paz os cidadãos da sua cidade, e depois que a fez,
eles, posto que alguns lhe queriam, todavia todos se vieram a ele trazendo-lhe uma coroa de folhas de
oliveira, dando-lha por insígnia, porque a oliveira é sinal de paz.
EMBLEMA 105

In subitum terrorem
[Sobre o terror súbito]
(Fauno que toca uma trombeta)

É contra os que fogem da guerra, ainda sem virem a pelejar, senão com o medo e tom dos tambores e
trombetas.

EMBLEMA 106

In adulari nescientem
[Sobre aquele que não sabe adular]

[Emblema sem comentário. Mão mais moderna escreveu uma quadra, de muito má letra, e outras notas:
“Lenha verde mal se acende / Quem muito dorme pouco aprende”]

EMBLEMA 107

Insignia poetarum
[As divisas dos poetas]
(Um escudo e nele um cisne)

Estas são as insígnias dos poetas. Porque é um cisne branco posto em um escudo, porque o cisne é ave
de Febo, e Febo é o Deus dos poetas.

EMBLEMA 108

Musicam diis curae esse


[A música está ao cuidado dos deuses]
(Uma cegarrega ou cigarra pousada numa cítara)

Mostra como os gentios cuidavam que os seus Deuses folgavam com a música, porque estando-lhe um
uma vez dando um descante em uma cítara, e destemperando-se uma corda, uma cegarrega se meteu
dentro na cítara para suprir com sua voz o defeito da corda.
EMBLEMA 109

In oblivionem patriae
[Sobre o olvido da pátria]
(Vários indivíduos, que comem frutas escolhidas numa árvore, ao pé da qual estão)

Queixa-se de um que indo-se para Roma se esqueceu totalmente da sua pátria, e quase que lhe não
põem culpa, porque tal é Roma que à vista dela todas as mais cidades desaparecem.

EMBLEMA 110

Unum nihil, duos plurimum posse


[Um nada pode e dois muito]
(Ulisses e Diomedes)

Mostra como conselho sem fortaleza ou fortaleza sem conselho não fazem nada, e estas coisas ambas
juntas fazem tudo. Porque Ulisses junto com Diomedes faziam na guerra quanto queriam, porque
Ulisses era de grande conselho e Diomedes de grande força. Eassim como juntos faziam o que queriam,
assim um sem o outro não faziam nada.

EMBLEMA 111

In aulicos
[Sobre os cortesãos]
(Um cortesão preso com grilhões à entrada de um palácio)

Morde nos que estão no paço, porque os coitados estão ali todo o dia sem poderem sair dali. E diz que
estes que estão presos com cadeias de ouro e que só nisto se diferençam dos presos que estão na cadeia,
mais que na verdade uns e outros estão presos, senão que uns têm cadeias de ferro, outros de ouro, mas
finalmente é estar preso!

EMBLEMA 112

In mortem praeproperam
[Sobre a morte prematura]
(Um sepulcro)

É uma lamentação de um mancebo, por lhe morrer outro mancebo seu amigo, antes do tempo e quando
menos se esperava. Tal é a morte, que então vem quando menos se espera, para tirar gostos e apartar
aqueles que não com Deus, senão com o mando, se apegam!
EMBLEMA 113

in dona hostium
[São funestos os presentes aos inimigos]
(Heitor oferece uma espada a Ajax e este um cinto àquele)

Mostra como dois dos inimigos não são bons, porque Heitor, Troiano, deu uma espada a Ajax, e Ajax
deu-lhe um cinto. Depois, por casos que aconteceram no cerco de Tróia, o Heitor matou a Ajax com a
espada que lhe dera o mesmo Ajax, e o mesmo Heitor depois foi arrastado dos Gregos a junto aos muros
de Tróia, trazido pelas correias do cinto.