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MODELAGEM MATEMÁTICA E O VAZAMENTO DE ÁGUA EM UM

CHUVEIRO

Rosivaldo da Silva Ferreira (Escola Estadual Jorge Amado) - rosivaldosf.01@gmail.com

Geslane Figueiredo da Silva Santana (REAMEC/UFMT) – geslanef@hotmail.com

Resumo:
Este projeto foi elaborado durante a disciplina Tendências da Educação Matemática IV do curso de Licenciatura
de Ciências Naturais e Matemática com Habilitação em Matemática UFMT-Sinop. O objetivo geral foi trabalhar
na perspectiva da Modelagem Matemática por meio da quantidade de água desperdiçada em um vazamento de
chuveiro. A metodologia utilizada foi a Modelagem Matemática com múltiplos olhares. A problemática principal
se configurou sobre o desejo de descobrir qual a quantidade em metros cúbicos de água um vazamento de
chuveiro consome mensalmente. Contudo, durante o percurso outros problemas se configuraram, como,
descobrir qual o valor cobrado a mais pelo desperdiço de água e disto surgiu à necessidade de apresentar uma
função matemática para a tabela de tarifas fornecida pela empresa responsável ao abastecimento de água,
considerando que a mesma não possuía uma equação matemática para tal finalidade. Posteriormente a coleta de
dados, cronometragem, esboçar gráficos, descrever algebricamente funções e desenvolver vários cálculos
matemáticos, constatou-se que o vazamento de água de um determinado chuveiro consome 934,560 m³/mês e
como a consumidora pagava taxa mínima não quitava o valor referente ao desperdício de água, após esta
pesquisa, a mesma comprou um chuveiro novo. Concluiu-se que um pequeno vazamento pode causar um grande
desperdício e ainda atestamos a importância da Modelagem Matemática para a resolução de problemas no dia a
dia, como metodologia que abrange múltiplos olhares na formação inicial.
Palavras-chave: Modelagem Matemática. Vazamento de água. Formação Inicial.

1 Introdução

A situação ambiental tem originado preocupações de ordem científica e, ao mesmo


tempo, políticas. A mídia tem contribuído para despertar o interesse dos alunos pela temática
ambiental, revelando várias questões dessa ordem ao fornecer dados e estimativas (LEITE;
FERREIRA; SCRICH, 2009). Os dados não são nada animadores em relação à quantidade de
água potável pronta para ser consumida por uma população mundial que cresce
consideravelmente sem preocupar-se com o futuro além dos desastres e mau uso causado pelo
próprio homem.
A água é um bem natural inestimável e indispensável para a sobrevivência de toda a
fauna e a flora do planeta, bem como é o único recurso natural presente em todos os aspectos
da civilização humana, desde o desenvolvimento da agricultura e da indústria, aos valores
atrelados à cultura popular e à religiosidade. Unificar forças para que se possa trazer
benefícios à sociedade deve ser um interesse comum a todos. A sala de aula pode contribuir
muito nesse sentido e a Modelagem Matemática é algo positivo e que pode ser incrementado
aos poucos aos discentes.
Este trabalho foi elaborado a partir de uma discussão na disciplina Tendências da
Educação Matemática IV, a mesma está presente no currículo do curso de Licenciatura de
Ciências Naturais e Matemática com Habilitação em Matemática na Universidade Federal de
Mato Grosso-Sinop.
Muitas são as discussões para um melhoramento da utilização da água e formas de
economia, pensando nisso e após descobrirmos um vazamento em um determinado chuveiro,
chegamos à convicção de que poderíamos trabalhar com o tema referente à água, contudo, a
problemática principal foi: qual a quantidade em metros cúbicos de água um vazamento de
chuveiro pode consumir mensalmente? Além de analisarmos o prejuízo que um vazamento
pode causar financeiramente, também realizamos um breve estudo sobre o prejuízo causado
socialmente, tendo em vista a quantidade de água tratada que foi jogada pelo ralo. Podemos,
nesse sentindo, contar com a Modelagem Matemática que é livre e espontânea e surge da
necessidade do homem em compreender os fenômenos que o cercam para interferir ou não em
seu processo de construção (SILVEIRA, 2014).
Conscientizar as pessoas sobre as consequências causadas pelo mal-uso da água tratada
é uma luta constante e discursiva, precisamos ter uma população que seja mais consciente e
preocupada com o meio ambiente e com problemas a ele relacionados, e que tenha
conhecimentos, habilidades, atitudes, motivações e compromissos para trabalhar individual e
coletivamente, na busca de soluções para os problemas existentes e para a preservação do que
ainda resiste e que merece mais atenção (LEITE; FERREIRA; SCRICH, 2009). Sempre com
novas ideias e novos equipamentos no mercado de consumo para tentar ajudar na redução do
desperdício de água é um dos novos desafios de muitas empresas.
Muitos são os produtos ofertados para ajudar-nos a reduzir o consumo de maneira
errônea da água, como; torneiras de fechamento automático, reaproveitamento de água da
chuva, dentre outros, estas são alternativas utilizadas para redução de contas de água, e
preservação do meio ambiente.
Milhões de litros de água tratada pingam das torneiras todos os dias e não são utilizados
no consumo. No Brasil o desperdício de água é muito grande em razão do mau uso deste
recurso. E nosso objetivo geral foi trabalhar com a Modelagem Matemática e a quantidade de
água desperdiçada em um vazamento de chuveiro.
Pensando nisso, buscamos expressar matematicamente dados do vazamento de um
chuveiro encontrado e representá-lo, em forma de função, tanto geometricamente como
algebricamente, para calcular a quantidade de água desperdiçada em um mês. Também
identificamos e rescrevemos algebricamente a tabela disponibilizada pelo SAAES, que traz o
esquema do cálculo da conta água em uma tabela, objetivando calcular o valor em reais pago
pelo vazamento.
Os resultados obtidos embora simples, em certa perspectiva, trazem em sua
significância a necessidade de mudança em nosso sistema educacional e apontam para a
importante contribuição advinda da Modelagem Matemática à Educação Matemática, que se
configura como possiblidade ampla cuja abordagem transpõe o engessamento educacional.
Contudo, salientamos que a adesão à Modelagem no ensino de Matemática, de acordo com
Barbosa (2001, p. 8) deve-se considerar que:

Existe uma relativa distância entre a maneira que o ensino tradicional enfoca
problemas de outras áreas e a Modelagem, pois são atividades de natureza diferente,
o que nos leva a pensar que a transição em relação à Modelagem não é algo tão
simples. Envolve o abandono de posturas e conhecimentos oferecidos pela
socialização docente e discente e a adoção de outros. Do ponto de vista curricular,
não é de se esperar que esta mudança ocorra instantaneamente a partir da percepção
da plausibilidade da Modelagem no ensino, sob pena de ser abortada no processo.

Ainda sinalizamos a importância da inserção da Modelagem Matemática relacionada


aos múltiplos olhares que podem ser lançados e trabalhados neste prisma com várias faces,
pois neste projeto abordamos conceitos matemáticos principalmente relacionados a funções,
trabalhamos com tecnologias por meio do software GeoGebra, ainda esteve bem presente em
nosso percurso a Resolução de Problemas, a Educação Ambiental, Educação Financeira e a
Matemática Crítica todas em constante diálogo com a Modelagem Matemática e inclusive
destacamos a mudança de atitude não apenas frente ao trabalho com a Modelagem
Matemática quanto a conscientização em relação ao desperdício de água e o meio ambiente.
Quanto ao vazamento em um mês aproximadamente 1000m3 de água tratada foi
desperdiçada.
Um pingo de água por menor que seja, pode ser representado quando objetiva-se em
determinado contexto da Matemática, é o que iremos ver a seguir.
2 A Modelagem Matemática e seus múltiplos olhares

O trabalho com Modelagem Matemática para fins educacionais permite trabalhar sobre
uma perspectiva de múltiplos olhares. Neste projeto vislumbramos a própria Modelagem, a
Resolução de Problemas, o uso de Software e a Educação Crítica ainda foi possível estudar
funções, Educação Ambiental, Educação Financeira entre outros.
Encontramos várias interpretações sobre a Modelagem Matemática, neste vasto campo
de definições consideramos relevantes as contribuições de Bassanezi (2002) que ratifica: “a
modelagem matemática consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas
matemáticos e resolvê-los, interpretando suas soluções na linguagem do mundo real” (p. 16).
E D’Ambrósio, considera que “a modelagem é um processo muito rico de encarar situações
reais, e culmina com a solução efetiva do problema real e não com uma simples resolução
formal de um problema artificial” (1986, p.11).
Para Barbosa (2002, p. 6) a modelagem é um ambiente de aprendizagem no qual os
alunos são convidados a indagar e/ou investigar, por meio da Matemática, situações oriundas
de outras áreas do conhecimento. Se tomarmos modelagem de um ponto de vista sócio crítico,
a indagação ultrapassa a formulação ou compreensão de um problema, integrando os
conhecimentos de matemática, de modelagem e reflexivo.
O desafio em enxergar a Matemática no cotidiano existente e matematizar um problema
por mais simples que pareça ser é algo satisfatório, conseguir a realização de um feito é o que
motiva a pensar como educador matemático. Neste sentido, temos uma educação que produza
significados não apenas para o professor, mas também aos educandos. De acordo com
Fiorentini (1995, p.32) nesta perspectiva:

O aluno aprende significativamente Matemática, quando consegue atribuir sentido e


significado às ideias matemáticas – mesmo aquelas mais puras (isto é, abstraídas de
uma realidade mais concreta) – e, sobre elas, é capaz de pensar, estabelecer relações,
justificar, analisar, discutir e criar.

Assim destacamos a importância do ensino associado também ao contexto


socioambiental à luz de uma educação crítica-reflexiva tanto na perspectiva de contribuir para
formação de indivíduos cada vez mais capazes para atuar na sociedade, como considerar que
o educando é um sujeito que possui conhecimento advindos de uma cultura não escolar e
neste contexto contribuir para a socialização de uma educação mais democrática
(SKOVSMOSE, 2001). De tal forma que o compromisso não é apenas aplicar o método e
seguir a receita, mas conforme descreve Caldeira:

O conhecimento matemático adotado pela cultura escolar incorporado pelos


pressupostos da Modelagem Matemática, não mais simplesmente como um método
de ensino aprendizagem, mas como uma concepção de educação matemática que
incorpore proposições matemáticas advindas das interações sociais, levando em
consideração, também, aspectos da cultura matemática não escolar, deverá fazer
com que o estudante perceba a necessidade do enfrentamento da sua realidade, lutar
contra ela se necessário for; romper com determinadas amarras e com as adaptações
a que comumente estão acostumados a lidar. Esse enfrentamento vai se dar não
somente pela nova racionalidade, mas também e, principalmente, pela sua
participação ativa em sala de aula. Problematizar, elaborar suas próprias perguntas,
desenvolver por meio da pesquisa, refletir e tirar suas próprias conclusões –
pressupostos básicos dessa perspectiva de Modelagem Matemática (2009, p. 38).

Neste sentido a proposta foi para além do desejo em construir um modelo matemático
para resolução de um problema social. Tanto que envolvemos o uso de tecnologias por meio
do software GeoGebra, conforme a descrição do Instituto GeoGebra no Rio de Janeiro, que
faz parte do IGI (International GeoGebra Institutes), o GeoGebra foi:

Criado por Markus Hohenwarter, o GeoGebra é um software gratuito de matemática


dinâmica desenvolvido para o ensino e aprendizagem da matemática nos vários
níveis de ensino (do básico ao universitário). O GeoGebra reúne recursos de
geometria, álgebra, tabelas, gráficos, probabilidade, estatística e cálculos simbólicos
em um único ambiente. Assim, o GeoGebra tem a vantagem didática de apresentar,
ao mesmo tempo, representações diferentes de um mesmo objeto que interagem
entre si. Além dos aspectos didáticos, o GeoGebra é uma excelente ferramenta para
se criar ilustrações profissionais para serem usadas no Microsoft Word, no Open
Office ou no LaTeX. Escrito em JAVA e disponível em português, o GeoGebra é
multiplataforma e, portanto, ele pode ser instalado em computadores com Windows,
Linux ou Mac OS. (2012)1.

Por meio do GeoGebra, foi possível elaborar a representação gráfica conforme os dados
coletados, explorando aspectos como conceitos referentes a função linear, função por partes,
função contínua, função crescente bem com domínio e imagem de funções. É importante
destacar que outros conceitos podem ser explorados, contudo nosso contexto nos permitiu
focar prioritariamente estes citados acima.

1 Disponível em: http://www.geogebra.im-uff.mat.br/ . Acesso em: 09 Set. 2017.


Conforme D’Ambrósio (1989, p. 15-19) as atividades com lápis e papel ou mesmo
quadro e giz, para construir gráficos de funções matemáticas, se forem feitas com o uso dos
computadores, permitem ao estudante ampliar suas possibilidades de observação e
investigação, pois algumas etapas formais do processo construtivo são sintetizadas.
Rêgo observa que:

As principais vantagens dos recursos tecnológicos, em particular o uso de


computadores, para o desenvolvimento do conceito de funções seriam, além do
impacto positivo na motivação dos alunos, sua eficiência como ferramenta de
manipulação simbólica, no traçado de gráficos e como instrumento facilitador nas
tarefas de resolução de problemas. A utilização de computadores no ensino
provocaria, a médio e longo prazo, mudanças curriculares e de atitude profundas uma
vez que, com o uso da tecnologia, os professores tenderiam a se concentrar mais nas
idéias e conceitos e menos nos algoritmos (2000, p.76).

A formação de um pensamento conceitual na Matemática é mais importante que a


formação algorítmica ou aritmética que serve mais para a fundamentação e para a resolução
de problemas bem específicos. Como afirma Devlin:

Aritmética é uma parte da matemática, mas a maior parte da matemática não trata de
aritmética (...) na realidade as partes mais avançadas da matemática pouco têm a ver
com aritmética ou com o cálculo numérico, ou até mesmo com os números, em
absoluto, quando estes são usados no seu sentido usual (2005, p. 22-23).

O caminho investigativo e o florescer de novas ideias advindas do educando, mesmo


que essas ideias já tenham sido exploradas ou trabalhadas por outros, mas a descoberta, ou
seja, o novo para o educando é que o motiva e o impressiona em sua jornada para a
socialização e democratização do conhecimento. Neste âmbito enxergamos a modelagem
como uma proposta que lança o olhar também para a resolução de problemas e ao princípio da
aprendizagem ativa:

[...] a Matemática não é um esporte para espectadores: não pode ser apreciada e
aprendida sem participação ativa, de modo que o princípio da aprendizagem ativa é
particularmente importante para nós, matemáticos professores, tanto mais se tivermos
como objetivo principal, ou como um dos objetivos mais importantes, ensinar
crianças a pensar (POLYA, 1985, p. 13).

O primeiro problema que desafiou os acadêmicos, ou seja, o ponto de partida para


iniciarem este projeto, consistiu na tarefa, onde eles deveriam encontrar seu próprio problema
para desenvolverem o um projeto em Modelagem Matemática. A professora não forneceu um
problema para ser resolvido ou um a proposta pronta, a única pista fornecida era lançar
múltiplos olhares sobre a cidade, bairro, casa, comunidade, ou seja, o local onde o aluno está
inserido e encontrar um problema que poderia ser desenvolvido por meio da Modelagem
Matemática. Esta dinâmica foi estruturada assim, pois entendemos e:

Diremos ainda que um problema deve despertar a curiosidade do indivíduo,


provocar-lhe uma certa tensão durante a procura de um plano de resolução, e
finalmente, fazê-lo sentir a alegria inerente à descoberta da solução. Um problema é
matemático quando envolve o conhecimento de conceitos, técnicas e algoritmos
matemáticos para a sua resolução. (LOPES et al, 2005, p. 9).

Por fim, acreditamos que a Modelagem Matemática abrange múltiplos olhares no


processo de ensino e aprendizagem contribuindo para uma formação crítica, reflexiva e social
que contempla vários temas, tendências, disciplinas e conceitos.

3 O percurso metodológico

Iniciamos a proposta onde a problemática inicial era encontrar um problema que


contemplasse a perspectiva da Modelagem Matemática. Deveríamos encontrar nosso próprio
problema, relacionado à nossa realidade social, isso a primeira vista nos pareceu um grande
desafio. Contudo, sobre o olhar de Barbosa na Educação Matemática, a Modelagem
Matemática “[...] é um ambiente de aprendizagem no qual os alunos são convidados a
problematizar e investigar, por meio da matemática, situações com referência na realidade”
(2003, p. 69, grifos do autor).
Assim primeira ideia para trabalharmos Modelagem Matemática estava relacionada à
redução da evasão da água, através de redutores de pressão que seriam instalados na torneira.
Dessa forma poderíamos acompanhar se de fato surte efeito referente ao consumo e qual seria
sua economia caso fosse comprovado sua eficiência. Porém, após fazermos um investimento
inicial de R$ 55,00 para obter os redutores que seriam instalados na torneira, descobrimos que
não seria possível, pois dentre os mais de 50 modelos disponível no mercado, nenhum era
compatível com as torneiras das casas escolhidas, pois não se enquadravam nos modelos
atuais do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - INMETRO o que nos
fez mudar o rumo do trabalho.
Logo após descobrirmos um vazamento no chuveiro do banheiro da residência de uma
acadêmica da UFMT, no município de Sinop – MT resolvemos calcular a quantidade de água
que era desperdiçada em uma hora, depois semana e quantos litros de água era desperdiçado
por mês.
Para realizar a coleta de dados desse trabalho, utilizamos materiais que já tínhamos em
casa, um balde para coletar a água do vazamento, um copo com medidas em ml para descobrir
a quantidade de água que caia em uma hora, celular para cronometrar o tempo na coleta de
água, calculadora, papel e caneta para fazer as anotações.
Após coletarmos os dados, procuramos uma função que modelasse esta situação
problema. Para que pudéssemos iniciar o trabalho, a primeira decisão a ser feita foi à coleta
dos dados referente ao desperdiço de água no total de uma hora. Com base nessa informação,
calculamos quanto seria desperdiçado em 24 horas, logo depois 68 horas (sete dias) e
finalizamos com o cálculo de 720 horas (30 dias), e o resultado foi surpreendente como
mostra a tabela 1.

Tabela 1: Função Desperdíco de Água


Tempo (h) Quantidade de Litro (ml) de Água Desperdiçado
1 Hora 1,298 Litros
24 Horas 31,152 Litros
168 Horas (Uma Semana) 218,064 Litros
720 Horas (30 Dias) 934,560 Litros
Fonte: elaborado pelos autores.

Com os dados do vazamento de água em tempo (h) descrito por x e litros (ml)
representando pela função afim f(x)=1298x, temos possibilidade de obter a quantidade de
água desperdiçada em função do tempo, plotamos no Geogrebra (Gráfico 1) a representação
gráfica desta função. Observamos que este vazamento em um mês consome quase 1000 m3
litros de águas, ou seja, 1000 m3 litros de água tratada indo direto para o ralo.

Gráfico 1: Programa Geogebra, representação algébrica da função despedício de água


Fonte: elaborado pelos autores.

Durante a aula ocorreu uma intensa discussão sobre os conceitos que podem ser
trabalhados a partir deste gráfico, como função crescente e decrescente, continuidade, função
afim e linear.
Depois da discussão e apresentação dos dados, alguns colegas nos indagaram quanto ao
valor que a acadêmica pagava por este desperdício, assim saímos daquela aula com outra
problemática.
Nosso próximo passo foi procurar a empresa responsável pelo abastecimento de água da
cidade. Segundo a Concorrência nº 002/2014, concessão do sistema de abastecimento de água
e esgotamento sanitário a tabela de tarifas e tabela dos serviços públicos ocorre da seguinte
forma (Tabela 2). A tabela traz uma variação de dados em relação aos modos de cobrança
com distinção entre residencial social (voltado aos programas de governo de baixa renda),
residencial (casa comum), comercial e pública.
Assim além de identificarmos o valor para a quantidade de água que foi desperdiçado,
nos deparamos com outra problemática, procurar elaborar uma fórmula matemática para
calcular a conta de água através de um modelo algébrico, já que como pode ser visto na
Tabela 2, a empresa SAAES, não possuía uma fórmula matemática específica para cobrança
de água.

Tabela 2: Tarifas Água


Fonte: Disponibilizada pela SAAES

No intervalo de zero a dez temos o mínimo que todo consumidor ou residência que
possui instalações de água pagará, ou seja, esta é a tarifa mínima de água é 1,968 x 10 = 19,68
reais por mês. Podemos definir um simples modelo de cobrança para um morador de alguma
casa residencial que gaste até 30 m³ por mês f(x)= 1,968*10+2,795*10+4,684*10 , isto é,
f(30)= 19,68+27,95+46,84 = 94,47, isso se o consumidor usar até 30 m³ por mês, então o
valor cobrado seria de R$ 94,47. Lembrando que os valores citados são referentes à categoria
social-residencial.
Para que pudéssemos chegar a uma fórmula algébrica do modelo de cobrança para a
conta de água, foi necessário o envolvimento não só dos acadêmicos que realizavam o
trabalho, mas de todos os alunos que cursam a disciplina Tendências da Educação Matemática
IV, além da professora que também participou das discussões para que juntos conseguíssemos
chegar ao resultado almejado.
Primeiro foi necessário a interpretação da Tabela 2 para que pudéssemos seguir no
problema. Após saber o que ela nos dizia, trouxemos para sala um valor real gasto na conta de
água e como se chegou aquele valor.
Depois de vários debates e alguns de nós pegarmos o pincel para ir ao quadro tentar
escrever alguma fórmula matemática para a tabela de cobrança, na sequencia de erros e
tentativas chegamos nos seguintes resultados, que devem seguir as regras, para que possa ser
realizado a cobrança de maneira igual ao SAAES, com um modelo matematizado, como pode
ser visto a seguir:
19,86 𝑠𝑒 𝑥 ≤ 10
2,795(𝑥 − 10) + 19,68 𝑠𝑒 10˂ 𝑥 ≤ 20
𝑓(𝑥) = {
4,68(𝑥 − 20) + 47,60 𝑠𝑒 20˂ 𝑥 ≤ 30
5,685(𝑥 − 30) + 94,44 𝑠𝑒 𝑥˃30
Assim temos a seguinte descrição:
1,968 – Valor cobrado por m³ até os primeiros 10 m³, ou seja, taxa mínima;
2,7965 – Valor cobrado por m³ a partir do 11 m³ de água ao 20 m³;
4,684 – Valor cobrado por m³ a partir do 21 m³ de água ao 30 m³;
5,865 – Valor cobrado por m³ acima de 30 m³.
Em relação ao valor pago por este vazamento, como a acadêmica, consome menos de
10000 m3, ela se enquadra na taxa mínima, de modo que não paga os 1000 m3 referente ao
vazamento.
Esse modelo que a turma conseguiu encontrar foi satisfatório ao que buscávamos e a
dinâmica onde todos participaram e colaboraram impulsionou os demais projetos que estavam
sendo desenvolvidos por outros colegas na mesma disciplina, embora em ramificações
diferentes, pois cada discente escolhia seu próprio tema e objeto de estudo, contudo todos os
trabalhos embasados na Modelagem Matemática.

4 Considerações

Contemplar-se com a beleza matemática advinda de problemas relacionados ao dia a dia


e ter a oportunidade de transformá-los em um projeto de Modelagem Matemática com uso de
informações representando-o em gráfico através de cálculos e restrições para se chegar numa
função foi um desafio satisfatório desempenhado na disciplina de Tendências da Educação
Matemática IV. Que traz ao acadêmico uma oportunidade de criar em matemática
possibilidades para concretizar problemas cotidianos.
É sempre complicado começar algo, porém é necessário trabalhar a Modelagem
Matemática num contexto de um assunto do nosso convício, foi fundamental para se ter um
conhecimento de uma nova estrutura curricular matemática que se faz presente na vida de um
futuro professor. É necessário começarmos a quebrar os paradigmas que tudo é difícil e muito
trabalhoso e começarmos a pensar numa visão futurística sobre o que se pode ser alcançando
ao preterir modelagem para se trabalhar com nossas futuras turmas.
Ao iniciarmos o estudo e optar por um tema, não foi tão simples. Discutir modelagem
após ter lidos produções gradativamente trazia um campo diferente para se trabalhar e um
outro rumo sobre a realidade da Matemática. Definitivamente nosso tema foi escolhido ao
acaso e nesse acaso apesar de mudar o tema do assunto inicial foi proveitoso. Ter uma visão
ainda que simplista sobre determinado assunto, escrever matematicamente são pequenos
passos dados para um amanhã de progressão. Conseguimos concluir o que a nós, nos
cobramos. Talvez não tanto argumentativo como se esperam, mas com a certeza de que
passaremos a usar esse modelo experimental em seus pequenos passos trilhados para mais
uma possibilidade de trabalho referente ao mundo e suas intermináveis discussões.
O gráfico, confessamos não ter sido difícil, um pouco de conhecimento de pares
ordenados e rapidamente pudemos chegar a um dos objetivos. O desafio maior ficou por conta
da escrita de maneira algébrica e como representar uma função. Neste momento o
conhecimento de todos e a ajuda da turma, pôde-se chegar a um resultado final. Após
especificarmos e impormos algumas regras para cada valor, quando maior ou menor e até
mesmo uma constate. Através dessas regras pudemos chegar ao resultado almejado.
Foi proveitoso ver o resultado e as indagações se transformar e ser representado
matematicamente. E finalizamos dizendo que em seguida ao cálculo do vazamento de água
ter sido feito, a dona da casa onde encontramos o vazamento, rapidamente comprou um
chuveiro e resolveu o problema, se tornando assim, uma consumidora consciente em relação
ao o mal-uso em todo esse tempo que convivia com o vazamento.

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