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INSTITUTO COTEMAR

GRAZIELI CRISTINA RODRIGUES ORTIZ SELHORST

A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS NA CLÍNICA PSICOPEDAGÓGICA

Trabalho de Conclusão de Curso – Artigo


Científico, apresentado ao Núcleo de Trabalhos
de Conclusão de Curso do Curso de Pós
Graduação Lato Sensu do curso de
Especialização em Psicopedagogia Clínica e
Institucional, como requisito obrigatório para a
obtenção do grau de especialista.

ITAÚNA – MG

2018
A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS NA CLÍNICA PSICOPEDAGÓGICA

GRAZIELI CRISTINA RODRIGUES ORTIZ SELHOSRT

RESUMO

O presente trabalho busca a compreensão da relação entre o jogo e a aprendizagem a fim de


justificar a sua utilização na clínica psicopedagógica como instrumento importante tanto para o
diagnóstico quanto para a intervenção do tratamento psicopedagógico. Há pouco tempo a
psicopedagogia vem trabalhando o jogo sob uma nova perspectiva. Jogar é uma atividade
tipicamente humana e é através desta ação que a criança demonstra seu desempenho físico-motor,
seu estágio de desenvolvimento cognitivo, os seus sentimentos e suas emoções mais subjetivas, ou
seja, é muito mais que simplesmente um ato de brincar. É necessário levar em consideração que a
ludicidade fornece importantes informações sobre o seu desenvolvimento infantil. No diagnóstico
psicopedagógico a hora lúdica serve para identificar dificuldades de aprendizagem, partindo então
para uma intervenção, onde o trabalho pode ser feito de forma preventiva ou curativa trabalhando as
dificuldades que se relacionem com atenção, memorização, ansiedade e as que especificamente se
relacionem com os conteúdos escolares como português e matemática.

Palavras-chave: Jogos; Intervenção psicopedagógica; Aprendizagem.


1. INTRODUÇÃO

A educação é algo dinâmico e presente na vida do ser humano, uma vez que as
pessoas estão em constante transformação e isso se estende à educação formal,
porém a escola por sua vez, é um local de grande diversidade onde nem todas as
crianças agregam conhecimentos, promovem uma formação humana e se
desenvolvem de forma integral. Em virtude dessa nova realidade surge a
necessidade de um profissional psicopedagogo que auxilie o aluno, a instituição e o
professor de maneira a diminuir o fracasso escolar e eventuais dificuldades de
aprendizagem que possam surgir ao longo do processo de escolarização. A escolha
do tema em pauta deve-se defender uma prática psicopedagógica com base na
ludicidade, baseada em jogos e brincadeiras transformando o espaço da clínica
psicopedagógica em espaço dinâmico, integrador, não apenas pela ótica da
intervenção pelas dificuldades de aprendizagem, mas da formação integral da
criança. Durante o jogo o sujeito é capaz de imaginar situações reais e exteriorizar
sentimentos e traços de personalidade que não seriam perceptíveis em outros
momentos. Durante o jogo, o sujeito “se solta” e nos permite observar suas
estruturas de pensamento e interações com outros semelhantes e objetos.
De acordo com Gonçalves,
Piaget concebe o comportamento inteligente da criança a partir da maneira
como ela brinca ou desenha, pois assim, ela reflete sua maneira de pensar
e sentir. Dessa forma, ela nos mostra como está se organizando
cognitivamente, construindo o conceito de número, espaço, tempo e
tornando-se autônoma frente às relações sociais [1999, p.1].

A problematização que responderá a motivação desta pesquisa que vem logo


a seguir através de tópicos indaga, qual a importância dos jogos e brincadeiras na
clínica psicopedagógica para a realização de diagnósticos e intervenções?
O objetivo geral é averiguar a utilização da ludicidade na clínica
psicopedagógica através de jogos e brincadeiras.
Os objetivos específicos são: abordar o lúdico, utilização de jogos no
diagnóstico e nas intervenções psicopedagógicas.
Para a realização desse trabalho, a metodologia foi desenvolvida através do
levantamento do conhecimento produzido na área, através da pesquisa bibliográfica
em livros e textos científicos com autores específicos do tema escolhido para a
pesquisa.
2. O USO DE JOGOS NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM

Dentro do processo de ensino aprendizagem cabe ao educador reconhecer o


valor dessa metodologia, sobretudo, as vantagens de melhoria na aprendizagem do
indivíduo que ela pode proporcionar. Nesse sentido, percebe-se que o jogo, é algo
muito mais importante do que a simples interação e diversão, pois revela uma lógica
diferente da racional, é subjetivo e traz em si uma carga psicológica, pois revela a
personalidade do jogador. É construtivo, pois pressupõe uma ação da criança sobre
a realidade. É uma ação carregada de simbolismo, que dá sentido à própria ação,
motiva e possibilita a criação de novas ações.
Segundo Sara Paín,
O jogo propriamente dito é uma atividade predominantemente assimilativa,
através da qual o sujeito alude a um objeto, propriedade ou ação ausente,
por meio de um objeto presente que constitui o símbolo do primeiro e
guarda com ele uma relação motivada. (1992, p.50).

Para Piaget, por meio do jogo a criança assimila o mundo para atender seus
desejos e fantasias. Segundo ele, o brincar possui uma tendência que segue o
trajeto evolutivo. Desta forma classifica essa evolução em três estágios:
 Jogo do exercício: começam na fase maternal e duram predominantemente até
os 2 anos, eles se mantém durante toda a infância e até na fase adulta. Por
exemplo, andar de bicicleta, moto ou carro;
 Jogo simbólico: aparece predominantemente entre os 2 e 6 anos, momento
onde a criança representa e dá vida a seres inanimados. O jogo faz-de-conta
possibilita à criança sonhar e fantasiar, revelando conflitos, medos e angústias,
aliviando tensões e frustrações;
 Jogo das regras: começa a se manifestar por volta dos cinco anos, desenvolve-
se principalmente na fase dos 7 aos 12 anos. Este tipo de jogo continua durante
toda a vida do indivíduo (esportes, trabalho, jogos de xadrez, baralho, RPG,
etc.).
Através do jogo a criança desenvolve alguns aspectos sociais e cognitivos
que serão úteis no futuro. Desse modo dos jogos de exercício, a criança herda o
prazer funcional, nesse sentido ela pode encarar o trabalho não como sacrifício mas
como algo que da satisfação. Do jogo simbólico a criança pode herdar que
possibilidade de experimentar e a criatividade o que futuramente poderá ser útil em
seu trabalho. No jogo de regra a criança é colocada em contato com regra isso
significa que ela tem que lidar com limites e restrições um fator necessário para que
haja solidariedade e compartilhamento.
Segundo Vasconcelos, “O jogo de regra herda dos jogos de exercícios a
regularidade, ou seja, o como fazer, [...] e herda do jogo simbólico as convenções, o
porque, dada que as regras são combinados arbitrários criados pelo inventor do jogo
(2004, p. 161).

Informam Carrijo e Matos (2008, p. 213), que “os jogos são recursos com os
quais a criança pode produzir e compreender textos, significados e situações
escolares e cotidianas, além de criar estratégias para resolver a situação-problema
enfrentada para atingir seu objetivo”.
De acordo com Lopes (2008), através dos jogos é possível ser trabalhado na
criança os seguintes objetivos pedagógicos:
a) Ampliar o raciocínio lógico;
b) Aprimorar a coordenação motora;
c) Aumentar a atenção e a concentração;
d) Desenvolver a criatividade;
e) Desenvolver a organização espacial;
f) Desenvolver antecipação e estratégia;
g) Diminuir a dependência (desenvolvimento da autonomia);
h) Melhorar o controle segmentar;
i) Reduzir a descrença na autocapacidade de realização;
j) Rever os limites;
l) Trabalhar a ansiedade.
Percebe-se então, que os jogos auxiliam na formação plena do educando.
Eles são indispensáveis à saúde intelectual, física e emocional de qualquer criança.
E, quando são utilizados de forma correta, são excelentes instrumentos de
aprendizagem.
Kishimoto (2008), explica que os jogos educativos (ou pedagógicos) são tidos
como recurso que auxilia no ensino, ajuda no desenvolvimento e na educação de
uma maneira prazerosa, sendo materializado no quebra-cabeça, que se destina
principalmente no ensino de formas, nos de tabuleiro que exigem do aluno a
compreensão do número e das operações matemáticas e em muitos outros que
ajudam no processo de ensino-aprendizagem.

2.1 - O JOGO E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Não podemos deixar de frisar a importância do jogo para o desenvolvimento


do caráter no indivíduo. Segundo Macedo (1997), os jogos são importantes na vida
da criança não só no presente, mas também no futuro. De acordo com o mesmo
autor no presente a criança necessita do jogo, ou seja, um espaço e um tempo para
pensar e se adaptar, por isso a atividade lúdica é importante para o desenvolvimento
dela.

Através dos jogos os sujeitos têm contato com regras e diferentes maneiras
de pensar, refletindo sobre os resultados de suas atitudes e suas consequências.
Para Nascimento e Lurk (2008, p. 2). “o jogo é um instrumento eficaz e, se
convenientemente planejados, contribui para o processo de desenvolvimento da
criança, pois jogos e brincadeiras fazem parte da vida da criança, desde muito cedo,
ela participa de várias situações lúdicas”.
Os jogos de regras tanto na perspectiva psicopedagógica clínica ou escolar
oferece inúmeras oportunidades de aprendizagem. Segundo Marangon, “as regras
exigem que os participantes cumpram normas e passem a considerar outros fatores
que influenciam no resultado, como atenção, concentração, raciocínio e sorte”
(2005, p.7).
Quando as regras são incluídas nas brincadeiras, a criança se esforça ao
máximo para respeitá-las, pois passa a ter consciência que qualquer infração poderá
excluí-la do jogo.
Mediante os sentimentos e as regras incluídas na brincadeira, a criança
consegue superar os conflitos e as frustrações (WINNICOTT, 1975). Brincando, aos
poucos ela vai internalizando o mundo e entendendo as regras. Segundo Moura
(2007, p. 24). "jogo é uma palavra, uma maneira de expressar o mundo e, portanto
de interpretá-lo".
No início a criança irá encontrar dificuldades para respeitar as regras, onde
poderão surgir conflitos entre os participantes. Mas só assim, ela aprenderá a
respeitar e conseqüentemente será aceita pelo grupo.
O brinquedo também envolve regras, as crianças criam com o grupo ou
respeitam as pré-definidas no brinquedo. Ocorre também de transformar qualquer
objeto em brinquedo e definir assim como será utilizado. Através dele, a criança
passa do conhecido para o desconhecido. Assim, as regras irão evoluindo conforme
a criança se desenvolve. E elas existirão por toda vida. Portanto, o jogo de regras
pressupõe a existência de participantes, e os mesmos terão normas a serem
cumpridas, proporcionando assim um caráter social.
Por isso Macedo (1997), defende o valor psicopedagógico do jogo, por dois
motivos, primeiro porque pode representar para criança uma experiência
fundamental de entrar em contato com o conhecimento, de construir respostas em
função de um trabalho que integre o lúdico, o operatório e o simbólico. Segundo,
porque pode representar para a criança que conhecer é um jogo de investigação,
por isso de construção do conhecimento, em que se pode ganhar, perder, tentar
novamente, sofrer com paixão, conhecer com amor, amor pelo conhecimento, no
qual a situações de aprendizagem é tratada de forma mais digna, filosófica,
espiritual, enfim superior.

O desenvolvimento infantil precisa acontecer de forma integral, atingindo o


individuo como um todo, para que isso aconteça é necessário que a criança seja
estimulada em todos os aspectos como afetivo, cognitivo e corporal. Muitas vezes
quando acontece o fracasso escolar pode estar havendo falha no desenvolvimento
em alguns desses aspectos. O objeto de investigação consiste em saber quais as
potencialidades que podem ser desenvolvidas na criança através do trabalho
psicopedagógico lúdico, visto que a criança aprende brincando.

2.2 - O JOGO NO DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO

O jogo é um importante aliado do psicopedagogo durante o período de


avaliação do paciente. A atividade lúdica na psicopedagogia clínica é utilizada no
diagnóstico para observar como a criança se relaciona com os objetos e sobre a sua
forma de pensar enquanto brinca, desenha ou joga. O profissional precisa se valer
de vários instrumentos para que sua avaliação seja eficaz e alcance as metas
previstas. Nesse processo de diagnóstico é preciso que o psicopedagogo identifique
os diversos indicadores que expressam o sintoma (WEISS, 1998).
Vale ressaltar, que,
através do brincar, o profissional pode identificar e compreender a
modalidade de aprendizagem do paciente – se é predominantemente
acomodativa ou predominantemente assimilativa –, se o paciente cumpre
de forma satisfatória o que lhe é solicitado, entretanto, fica paralisado diante
do conhecimento, podemos dizer que sua modalidade é
predominantemente acomodativa; ao passo que, se ele cria
desordenadamente, mas não consegue transformar para construir o
conhecimento denominamos sua aprendizagem como predominantemente
assimilativa, conforme postularam Sara Paín e Alicia Fernández. Sendo
assim, o brincar se destaca novamente para nos revelar que os esquemas
que a criança usa para organizar as brincadeiras são os mesmos que ela
usa para lidar com o conhecimento. Nessa perspectiva, é fundamental esse
entendimento a fim de que psicopedagogo possa identificar e intervir
positivamente nas dificuldades da criança. ( FONSECA, 2008, p.12).
Segundo PAIN,
[...] a atividade lúdica nos fornece informação sobre os esquemas que
organizam e integram o conhecimento num nível representativo. Por isto
consideramos de grande interesse para o diagnóstico do problema de
aprendizagem da infância, a observação do jogo do paciente, e fazemos
isto através de uma sessão que denominamos hora do jogo (1992, p.50).

Durante a avaliação da hora do jogo, é importante observar a aprendizagem e


investigar o que está relacionado com a queixa. “Ver o que faz, como faz, como
organiza esse fazer em suas diversas facetas cognitivas, afetivo-sociais e corporais
em suas ligações com o processo pedagógico. É fundamental relacionar o
observado com os dados obtidos nos testes e nas entrevistas de anamnese”
(WEISS,2000, p.64).
Importante mencionar, que a hora do jogo se trata de uma manipulação livre e
subjetiva, pode ser realizada até os nove anos, pois a partir dos dez anos as
crianças preferem jogos de regras e a falta de motivação pode torná-las confusas e
envergonhadas.
Enquanto a criança está brincando, ela incorpora valores, conceitos e
conteúdos Lopes (2001). Ela irá reproduzir esquemas próprios da vida e, dentro dos
esquemas prévios de relação, vão surgindo os esquemas de sua vida e os ensaios
de papéis futuros que ela irá assumir durante a vida. No âmbito escolar, as
dificuldades escolares trazem certa depreciação do aluno, porque muitas vezes se
enfatiza os problemas da criança prejudicando a sua auto-imagem, então o
psicopedagogo deve ajudá-los a redescobrir o seu potencial.

2.3 - O JOGO NA INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA

O jogo é um excelente recurso para a intervenção psicopedagógica. Através


dele, o psicopedagogo pode alcançar os objetivos esperados na terapia do sujeito.
O principal objetivo da intervenção psicopedagógica é fazer com que o
indivíduo seja protagonista do seu saber, não só no espaço educacional, como na
vida em geral. Utilizando o jogo como recurso, as sessões psicopedagógicas se
distanciam dos paradigmas escolares e a aprendizagem se torna prazerosa e
produtiva.
Para tentar resolver os problemas originados no desenvolvimento do jogo, o
sujeito cria estratégias e as avalia em função dos resultados obtidos e das metas a
alcançar na atividade. Os fracassos originam conflitos ou contradições por parte do
indivíduo e desencadeiam mecanismos de equilibração cognitiva. (LACANALLO et
al, 2003).

Muitas crianças apresentam a ansiedade, uma característica emocional que


pode variar de grau e intensidade. Segundo Lopes (2001) esta pode influenciar, na
concentração, nos relacionamentos interpessoais e na auto-estima tais aspectos
podem dificultar a aprendizagem e também o trabalho do professor. Para que a
criança aprenda a se controlar emocionalmente o psicopedagogo deve estimular a
criança com atividades que exigem maior esforço e concentração, essa estratégia
ajuda a diminuir o nível de ansiedade da criança.

Outra constante que os profissionais encontram diariamente é a falta de


regras e limites, muitas têm dificuldades de aceitar limites, no contexto escolar
aparece a dificuldade de se relacionar tanto entre colegas como também com o
professor, muitas vezes tais comportamentos acabam por prejudicar a
aprendizagem. Nesse sentido vale lançar mão de jogos competitivos e com regras.
As regras por sua vez, levam as crianças a respeitar e a serem respeitadas, dessa
forma aprendizagem lúdica serve para as situações de vida. Sendo assim Lopes
(2001) sugere a confecção de jogos para que as crianças possam ter a oportunidade
de construir, criar e desenvolver planos e revelar sua capacidade de realização.
Lopes (2001) destaca ainda que se pode trabalhar o controle segmentar com
atividades que envolvam a confecção de jogos, aumentar a concentração
trabalhando com espaços e peças pequenas e com atividades de pintar recortar e
colar. No desenvolvimento da antecipação e estratégia, utilizar jogos que
proporcionem prever, calcular e montar para a ampliação do raciocínio.
Segundo Petty e Passos (1996) de acordo com a perspectiva de Macedo
(1997) o erro pode ser classificado em três níveis: no primeiro nível a criança não
percebe o erro, portanto não é um problema a ser superado. No segundo, o erro ou
ação desfavorável, provoca desequilíbrio e pede mudança de ação, nesse sentido
há uma tentativa de superação (nem sempre bem sucedida). No terceiro nível, há
compreensão do problema, o jogador consegue estruturar melhor suas jogadas e
diminuir os erros e consegue justificar suas ações. Ao professor ou ao
psicopedagogo quando trabalhar com jogos de regras deve fazer uma mediação de
qualidade, orientar, fazer questionamentos que permitam a criança sistematizar o
seu conhecimento.
Os jogos de regras são caracterizados pela competição, situação em que
duas ou mais pessoas desejam a mesma coisa ao mesmo tempo. Segundo Macedo
(1997) a competição não é boa nem má, o que modifica o sentido da competição é a
maneira como se reage diante dela. Cabe, portanto, ao profissional estar preparado
para lidar com as situações em que a competição está presente para saber mediar
os conflitos que possam surgir.
Macedo (1997) discute as estruturas dos jogos e como elas são muito
importantes para a psicopedagogia, citando como exemplo o jogo de damas fala das
inúmeras relações que se pode estabelecer com essa atividade. As combinações
são praticamente infinitas, podem-se trabalhar relações espaciais. No caso do
tabuleiro, os espaços demarcados simulam as ruas, e as peças as posições e
deslocamentos. Esse jogo ainda requer relações lógicas, estratégias para articular o
jogo em função da jogada do outro. Para o autor acima além dessas relações
espaciais e lógicas, esse jogo proporciona relações psicológicas, implica em
aprender a perder, ganhar, ser solidário e cooperativo. Todas as características
desse jogo contribuem para uma relação entre aluno e psicopedagogo baseada no
respeito, admiração e aprendizagem.
A atividade denominada a hora do jogo, conta com uma caixa com vários
objetos como: tesoura, blocos de construção, cartolina, papéis coloridos, percevejos,
massinha, tintas, etc. Segundo Paín (1992) a hora do jogo pode ser utilizada até os
nove anos, o objetivo da hora lúdica é descobrir como a criança brinca, e em que
condições é capaz de brincar. Segundo a mesma autora a fim de descobrir quando
se deu o déficit na aprendizagem e o seu nível de gravidade, é necessário antes de
qualquer coisa descrever o percurso normal do jogo e a sua seqüência lógica. De
acordo com Paín (1992 p.52) para que a atividade lúdica seja um canal de
aprendizagem a mesma é estruturada de acordo com os seguintes momentos:
a) Primeiro, um inventário, quando a criança trata de classificar algum conteúdo
da caixa seja pela manipulação, experimento de seu funcionamento, ou pela
exploração através do olhar, avaliando as possibilidades de ação sobre os objetos.
b) Um segundo momento, é dedicado à postulação de um jogo, construído em
torno de um esboço de seqüência que é o desenvolvimento coerente da hipótese
escolhida. O material deixa de ser utilizado em si, a criança começa a formar em
parte uma organização simbólica por sucessivos ensaios, escolhe o destino e o
papel dos personagens, combina e adéqua aceitando ou descartando significantes e
episódios.
c) Num terceiro momento realiza a aprendizagem propriamente dita, acontece
que a integração da experiência entra no sujeito como conhecimento. Essa
integração é realizada por duas maneiras, por resumo ou esquematização do jogo,
naquilo que ele tem de mais coerente e equilibrado e outra pela vinculação desses
esquemas com os anteriores através da assimilação coordenadora.
De acordo com a autora acima citada, os dados mais importantes a serem
extraídos dessa atividade são quatro aspectos fundamentais da aprendizagem:
a) distância de objeto, capacidade de inventário,
b) função simbólica, adequação significante e significado,
c) organização, construção da sequência e integração,
d) integração, esquema de assimilação.
Cada uma dessas etapas da atividade lúdica da criança pode revelar déficit
na aprendizagem, por exemplo, as crianças que interrompem o inventário podem
apresentar incapacidade de coordenação. As crianças que apresentam antecipação
instável e costumam apresentar uma diminuição na capacidade de criação,
possibilidade de auto correção, inclusão de referencias verbais revelam em nível de
aprendizagem incapacidade de entender relações, formular hipótese e resolver
problemas. Outras ainda não são capazes de fazer integração, ou seja, não
conseguem assimilar, fazer uma síntese cognitiva do exercício lúdico.

Enfim, essas são algumas formas de aplicação do jogo na perspectiva


psicopedagógica tanto em clínica como escolar, o jogo é uma oportunidade para
profissionais e educando sendo necessárias reflexão e mudança de ação, por isso o
psicopedagogo deve ter critérios e objetivos bem definidos ao utilizar a atividade
lúdica como suporte em seu trabalho.

3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se concluir, portanto, que os jogos são recursos indispensáveis tanto na


avaliação quanto na intervenção psicopedagógica, pois favorece os processos de
aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Trata-se de uma
importante ferramenta no trabalho do psicopedagogo. Através dos jogos, o
profissional tem possibilidades indefinidas e intermináveis de diversificar seu
trabalho durante a avaliação e intervenção do paciente, essa intervenção pode ser
de caráter preventivo ou curativo. O caráter preventivo vai estimular o sujeito a agir,
elaborando previamente estratégias para a solução de problemas; enquanto que o
caráter curativo é direcionado para pessoas que apresentam algum tipo de
dificuldade na aprendizagem.
O psicopedagogo deve conhecer as condições e necessidades de cada etapa
evolutiva na construção de seus esquemas de conhecimento, deve ter em mente,
sempre, que seu trabalho precisa ser versátil e dinâmico para que o paciente não
veja nele os paradigmas da educação formal que recebe na escola. É muito
importante o profissional, ao utilizar um jogo saber quais os objetivos que pretende
alcançar e o jogo adequado ao momento educativo. Durante o tratamento
psicopedagógico esta ferramenta se torna importante, pois o indivíduo participa do
seu aprendizado, constrói junto com o psicopedagogo, brinca com seu
desenvolvimento e, sem perceber, alcança as metas previstas no diagnóstico.

As citações apresentadas no decorrer do artigo, são apenas uma pequena mostra


das diversas bibliografias que podem nos mostrar como a ludicidade é um forte
atrativo para que os indivíduos se motivem na busca de uma aprendizagem
prazerosa, tendo os jogos como aliados nesta tarefa.

4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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