Você está na página 1de 41

ronaldo de oliveira batista

curso de língua portuguesa:


a palavra e a sentença
Sumário
Apresentação............................................................................................................................

Introdução: o que é uma língua? como ela pode ser analisada?..............................................

O estudo da palavra.................................................................................................................

Seção 1: léxico e a noção de palavra.........................................................................................

Seção 2: a estrutura da palavra..................................................................................................

Seção 3: classes de palavras no português................................................................................

O estudo da sentença..............................................................................................................

Seção 1: o conhecimento da língua e a sintaxe.........................................................................

Seção 2: predicados, argumentos, papéis temáticos..................................................................

Seção 3: representações sintáticas.............................................................................................

Seção 4: sentença e uso da língua: os propósitos comunicativos..............................................

Seção 5: aspectos funcionais da sentença..................................................................................

Bibliografia e indicações de leituras..........................................................................................

O autor.......................................................................................................................................
Apresentação

Ao chegar ao nível superior para iniciar um curso de Letras, os alunos, em geral, deparam-se
com uma situação que os leva à surpresa, senão a espanto, já que o objetivo dos cursos de
língua na universidade é predominantemente o de oferecer subsídios, de caráter científico,
para a prática de descrição e análise linguísticas. De fato, muitos dos estudantes esperam
encontrar na graduação em Letras uma oportunidade para rever, ou mesmo aprender, aspectos
de norma culta escrita e de uso oral formal da língua. Mas não é isso o que os estudantes
encontram. É importante frisar, sempre, que o desenvolvimento dos alunos no uso da norma
culta da língua é responsabilidade do ensino de língua portuguesa nos níveis básicos e
resultado de leitura e prática de escrita ao longo do desenvolvimento de nossas diferentes
perspectivas profissionais. Não quero, com essas considerações, negar a importância e o valor
da norma culta em nossa sociedade. Tal forma de uso da língua encontra seu espaço social já
bastante sedimentado, e a escola deve fornecer ao aluno o instrumental adequado para que ele
seja proficiente nessa forma de uso de sua língua materna, assim como também é importante
que a escola transmita a ele noções de variação linguística, para que esse mesmo aluno não
reproduza opiniões imprecisas a respeito do que é a língua e suas formas e modalidades de
uso no espaço social.

Sendo assim, o objetivo principal deste livro é oferecer aos alunos de Letras um material
didático que permita o ingresso no universo fascinante de descrição e análise de uma língua
tendo por bases concepções da ciência da linguagem. Encontramos aqui outra barreira, uma
vez que os descaminhos do ensino de gramática nos níveis básicos faz com que nossos alunos
adquiram verdadeira aversão em relação ao estudo gramatical da língua. Também não
iniciarei aqui uma reflexão a respeito dos objetivos e funções do ensino de gramática na
educação básica, porém é importante salientar que tal perspectiva deveria ser feita por meio
do estímulo da curiosidade científica do aluno, que passaria a ver uma língua e sua gramática
como algo a desvendar, como se estivéssemos diante de uma curiosa engenharia que pode ser
desvendada para que melhor se conheçam seus mecanismos de organização e uso. Bom, a
tarefa é árdua e necessita, sem dúvida, de uma revisão do ensino de gramática para os alunos
de níveis básicos. Mesmo assim, o que se propõe neste livro é que os alunos de Letras
comecem a ver a organização gramatical da língua portuguesa como um objeto científico, e
deixo nas mãos dos professores a tarefa de fazer com que esses alunos vejam a língua e sua
gramática como um objeto de estudo instigante.

Tendo esse caminho em vista, este manual procura introduzir o aluno nas atividades de
descrição e análise da estrutura da língua portuguesa. Não assumi de forma incisiva nenhuma
teoria para aproximar o aluno do tratamento científico de uma língua. Naturalmente que
muitos dos pontos vistos no livro apresentam subjacentes aspectos particulares a alguma
teoria linguística, porém optei pela iniciação a uma atividade antes de tudo descritiva e não
teórica, seguindo passos pioneiros de Perini (2006).

Assim, convido vocês, alunos dos cursos de Letras, a iniciar o que vou chamar de aventura no
universo de observação científica da língua portuguesa. Para sua iniciação, trabalharemos
essencialmente com a estrutura, usos e funções da língua portuguesa, considerando
privilegiadamente três componentes gramaticais: o componente lexical, com os estudos sobre
a palavra; o componente morfológico, com os estudos sobre a estrutura da palavra; o
componente sintático, tomado de duas perspectivas diferentes – a formal e a funcional. O
leitor perceberá que os aspectos formais da sentença são estudados tendo como teoria
subjacente propostas da gramática gerativa chomskiana, assim como os aspectos funcionais
são estudados por meio de uma perspectiva que retoma pontos teóricos da gramática
funcional. Nessa aventura, espero que fique aberto o caminho da curiosidade para que vocês
possam se interessar pelo aprofundamento de estudos sobre a sentença em uma dessas
perspectivas ou também pelo complexo estudo da palavra.

Assim, iniciaremos nas próximas páginas o estudo da palavra e da sentença em língua


portuguesa. Os tópicos serão divididos em seções específicas, cada uma acompanhada de
sugestões de leitura para aprofundamento e também de listas de exercícios, já que só se
aprende a descrever e analisar uma língua por meio da prática.

Agora, sim, acredito que o caminho está no seu início. Desejo a vocês, alunos de Letras, uma
boa jornada na aventura de descrever e analisar a língua portuguesa.

______________________________________________________________________

Dedico aos alunos das turmas de Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie dos anos
2007 e 2008 este trabalho, já que tiveram contato com muitos tópicos deste livro, em uma
versão preliminar. Eles foram, talvez sem saber, constantemente fonte de inspiração para que
este material pudesse tomar a forma que agora ele tem.
Introdução
O que é uma língua?
Como ela pode ser analisada?
O estudo da palavra
Seção 1
Léxico e a noção de palavra

Lexicologia e léxico: primeiras definições

As chamadas ciências do léxico definem-se pelo seu objeto de estudo e dimensões de análise
– com seus objetivos e métodos específicos. A Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia
são essas ciências do léxico.

Os termos específicos de determinado campo de conhecimento, com vistas ao estudo de


vocabulários especializados, são objetos de estudo da Terminologia. Já a composição,
organização e definição de elementos do dicionário fazem parte do horizonte de trabalho da
Lexicografia, que pode ser definida como a técnica, a prática da escrita de dicionários.

E a Lexicologia tem como objeto de estudo o léxico de uma língua, que é então definido
como o conjunto de unidades, de diferentes naturezas, que compõe o universo lexical de uma
língua.

Nossa mente tem armazenado, por assim dizer, um estoque de palavras, denominado de
léxico. Mas o que é esse léxico? Do que ele é constituído? Teorias linguísticas têm apontado
que o léxico contém raízes e afixos, além de elementos de natureza gramatical. Tal afirmação
baseia-se nas seguintes hipóteses:

1ª. hipótese: Fisicamente, não é adequado pensar em duas possibilidades de armazenamento


para palavras como mesa e mesas. A memória humana tem uma capacidade limitada. Se todas
as palavras derivadas e flexionadas estivessem no léxico, o número de palavras armazenadas
seria imenso, contrariando a idéia de que os componentes específicos para a linguagem
humana trabalham com a idéia de economia e limitação de categorias e informações;

2ª. hipótese: Há, evidentemente, em todas as línguas uma grande possibilidade de criação de
novas palavras. Essas criações não estão armazenadas no léxico. Daí a se supor que, na
verdade, o que o léxico contém são raízes, afixos, material gramatical e informações a
respeito dos processos de formação de novas palavras.

Tradicionalmente, não é essa visão de léxico que se tem. A linguística descritiva,


principalmente aquela que se fazia na América do Norte, nas décadas de 1940 e 1950, previa
que o léxico era uma lista dos morfemas (elementos constituintes de uma palavra) de uma
língua, contendo claramente a idéia de exaustividade. Não era feita, nessa proposta, qualquer
menção a um mentalismo na abordagem de estruturas linguísticas.

E o que diz o dicionário?

“É muito comum que o léxico não seja entendido apenas como uma longa lista de palavras. Ao
contrário, concebemos o léxico como um conjunto de recursos lexicais, que incluem os morfemas da
língua e mais os processos disponíveis na língua para construir palavras com esses recursos. Por
exemplo, dada a existência em português de verbos como compensar e oxidar, e dos afixos
formadores de palavras — ável — (a)nte e anti-, qualquer falante podia chegar às palavras compensável
(como em cheque compensável) e anti-oxidante [...], bem antes que elas fossem dicionarizadas,
usando-as com a expectativa de ser imediatamente compreendido por seu interlocutor, mesmo que os
dois não as tivessem nunca encontrado antes.”
(R.L. Trask, Dicionário de linguagem e lingüística, p. 155)

Para estudar o léxico da língua portuguesa, é preciso iniciar com uma definição precisa, ou
pelo menos tentar uma definição precisa, do que consideraremos como o léxico da língua
portuguesa e seus componentes. Tendo essa definição em vista, começamos com uma
distinção entre o que vamos considerar como os dois tipos de léxico: o léxico interno e o
léxico externo.

Chamamos de léxico interno o conjunto de conhecimentos que o falante nativo tem a respeito
da estrutura, significado, composição e formação das unidades lexicais que compõem sua
língua. Ou seja, o léxico interno é correspondente a nossa competência lexical, saber abstrato,
internalizado, parte do desenvolvimento de nossa competência linguística (que todo falante
possui, independentemente do grau de escolarização que o define).

Nesse léxico interno, há, por hipótese, uma vez que é um conhecimento de natureza abstrata,
uma categoria estabelecida pela observação científica, os seguintes elementos:

a) unidades dotadas de significação, estabelecendo a relação entre a linguagem, o mundo e a


cultura – essas unidades podem ser reconhecidas como os radicais das palavras;
b) unidades que serão combinadas com os radicais para formar de fato as palavras a serem
utilizadas pelos falantes nos processos de expressão e comunicação – são unidades de
natureza variada, como prefixos, sufixos, desinências (elementos adicionados na parte final
das palavras e que informam dados de natureza gramatical);
c) unidades que vão atuar como elementos gramaticais, possibilitando as combinações entre
palavras no componente sintático;
d) unidades que estabelecem relação entre a linguagem, o falante e a situação de uso da língua
– aqui se faz referência aos elementos chamados de dêiticos, de natureza gramatical e
pragmática.

Mas, necessariamente, precisamos pensar num outro componente do léxico interno,


considerando a seguinte indagação:

Como os falantes são capazes de produzir unidades lexicais novas e de compreender


unidades lexicais nunca antes ouvidas por eles?

A resposta para essa pergunta está relacionada a um quinto componente do léxico interno: o
conhecimento da organização estrutural das palavras e dos processos de formação de itens
lexicais. Só de posse desse conhecimento é que podemos compreender como a produtividade
lexical se dá de forma tão satisfatória nas línguas.

Mas, de fato, não é essa a definição de léxico mais corrente que temos. Na compreensão mais
usual do que seja uma língua, léxico é o conjunto de palavras disponível para uso e
dicionarização. Essa imagem de léxico, como conjunto de palavras utilizadas pelos falantes de
uma língua, é relacionada ao conceito de léxico externo.

Ainda a respeito da conceituação de léxico, é necessário que estabeleçamos as seguintes


visões:

a) o léxico da língua é aberto e suscetível a expansões;


b) o léxico representa a relação entre um conjunto limitado de unidades e possibilidades de
combinação de difícil precisão numérica.

Isso nos leva a considerar que o léxico de uma língua é um conjunto sempre pronto a receber
unidades novas (a produtividade lexical) e a descartar unidades que deixam de ser usadas
pelos falantes (incluem-se aqui as unidades consideradas como arcaicas). E por que isso
acontece?

Exatamente porque é o léxico que por hipótese recorta a nossa percepção do mundo, em seus
aspectos naturais, biológicos, sociais e culturais. Sendo assim, nossa representação linguística
do mundo é feita por meio das unidades lexicais, aquelas que possuem uma significação por
elas mesmas, já que recortam o mundo ao nosso redor.

Como o mundo em que os falantes se situam não é fixo (já conseguiu conceber um mundo
sem alterações de qualquer natureza?), o léxico também não pode ser fechado, pois as novas
experiências e fatos que surgem na convivência e na vida precisam ser nomeados pelos
falantes. Daí a necessidade de um sistema lexical (e de um conhecimento produtivo desse
sistema) ser aberto e passível de expansão, já que o léxico categoriza o mundo.

Essa capacidade de expansão do léxico e de categorização (por meio das unidades


significativas) se dá porque o léxico é, nos termos de Basílio (2004), “ecologicamente
correto”, isso quer dizer que o falante trabalha produtivamente com um número de certa
forma limitado de unidades, componentes do léxico interno, e a partir desse conjunto faz as
combinações pertinentes ao sistema da língua (devemos nos lembrar de que faz parte do
léxico interno o conhecimento a respeito da estrutura interna da palavra, suas unidades e
formas de combinação). Ou seja, a formação de unidades lexicais não se dá por meio de
agrupamentos lexicais com unidades sempre inéditas, muito pelo contrário. O falante parte do
que já conhece e reconhece como unidade integrante de sua língua, e assim faz as
combinações autorizadas pelo sistema linguístico e pelo uso no processo comunicativo.

As entradas lexicais

Vamos refletir agora um pouco mais a respeito da natureza das unidades que compõem o
nosso léxico. São as seguintes:

a) unidades lexicais, denominadas como morfemas lexicais, correspondentes ao núcleo de


significação da palavra (os radicais), constituintes das classes de palavras como substantivo,
adjetivo, verbo;
b) unidades de caráter gramatical, os morfemas gramaticais, que nos informam a respeito de
categorias como número, gênero, modo-tempo, número-pessoa e também as unidades das
combinações morfossintáticas, como preposição e conjunção;
c) unidades que estabelecem a relação entre linguagem, falante e situação de uso da língua, os
dêiticos, elementos como advérbios e pronomes que contextualizam os falantes a partir do
processo de enunciação (eu, para indicar quem fala, você, para o receptor, aqui e agora,
situando tempo e espaço, por exemplo).

Lexema, vocábulo, gramemas e afixos

Ainda buscando conceituar unidades do universo lexical e das atividades de análise desse
conjunto de elementos, vamos estabelecer uma distinção entre lexema, vocábulo, gramema e
afixos.

O lexema é uma unidade do léxico, um elemento de caráter abstrato, passível virtualmente de


diferentes formas de concretização na produção discursiva. Essa unidade abstrata ao ser
efetivada num processo comunicativo poderá sofrer alterações (em sua forma considerada
como básica) em consequência do contexto morfossintático em que se atualiza, recebendo,
dessa forma, flexões necessárias. Temos assim o vocábulo.

Já os gramemas são os elementos de natureza gramatical, sejam estes presos (quando


obrigatoriamente anexados a uma base) ou não (caso de artigos, preposições, conjunções e
alguns pronomes).

Os afixos são os elementos atuantes na derivação, por sufixação ou prefixação, sempre


anexados a uma base de significação.

Observe a análise seguinte para visualizar a aplicação dos conceitos. Numa frase como As
meninas brincaram com o tio nos parquinhos, depreendem-se:
- os lexemas: MENINO, BRINCAR, TIO, PARQUE;
- os vocábulos: meninas, brincaram, tio, parquinhos;
- os gramemas: as, com, o, nos (não presos) e -s (preso, desinência de plural) e –o
(preso, vogal temático no sufixo inho);
- o sufixo: -inh.
Partindo da ideia do léxico como um componente com dados sobre as palavras da língua e
informação sobre o processo de produtividade lexical, podemos iniciar uma reflexão a
respeito do tipo de regras que está armazenado no nosso léxico mental.

Essas regras seriam específicas para as línguas, indicando, por exemplo, que o português pode
formar palavras a partir de um radical e do acréscimo de prefixos e sufixos, desde que sejam
respeitadas algumas estratégias combinatórias, como as que determinam que
preferencialmente prefixos são anexados a determinadas classes de palavras e o mesmo
ocorrendo com os sufixos.

De maneira muito geral, podemos apontar que uma possível regra de produtividade lexical
contida em nosso léxico mental (interno) seria:

Em português, os itens lexicais são formados de um radical, ao qual podem ser acrescidos
elementos como prefixos e sufixos.

Naturalmente, essa regra ainda deve passar por outro estágio de maior especificação, aquele
que determinará quais afixos podem se prender a quais radicais.

Podemos observar alguns fenômenos em português que nos apontam regras de formação de
palavras em nossa língua, por exemplo:

a. Temos palavras como infeliz, insatisfeito, impreciso; mas não temos seqüências como
*inconhecimento, *ininteligência; por outro lado, no entanto, temos palavras como
imprecisão, infelicidade. Ou seja, há algo que regula a presença do prefixo {in-} em
português, e é muito provável que uma regra esteja relacionada ao tipo de palavra (à classe de
palavra) e a que tipo de informação semântica (de significado) ela veicula.

b. Se observarmos enunciados como:


(i) João tem conhecimento de história
(ii) * João é um homem conhecimento

(iii) Ele é um homem feliz


(iv) * Um feliz é João (pelo menos não em situações neutras de utilização da língua)

(v) A menina caiu numa calçada


(vi) A menina precisão numa calçada

Considerando os dados acima, também teremos de admitir que palavras devem aparecer em
determinadas combinações sintáticas para possibilitar a formação de sequências gramaticais
no português.

Observações como essas levam-nos a considerar que o léxico contém informações também a
respeito das classes de palavras de uma língua. Ponto que retomaremos em próxima seção.
E o que diz o dicionário?
“lexema
De um modo geral, o emprego do termo ‘lexema’ permite evitar uma ambigüidade do termo ‘palavra’.
É embaraçoso ter que dizer que cantando é uma forma da palavra cantar, como o exige a gramática
tradicional. Servindo o termo ‘palavra, num sentido muito mais concreto, numa oposição palavra/
vocábulo [...], é freqüente que a lingüística moderna recorra ao termo lexema para indicar uma
unidade abstrata.” (Jean Dubois et al., Dicionário de lingüística, p. 361)
“vocábulo
O termo vocábulo designa a ocorrência de um lexema no discurso, na terminologia da estatística
lexical. Como o termo lexema está reservado às unidades (virtuais) que compõem o léxico, o termo
palavra a qualquer ocorrência realizada em fala, o vocábulo será a atualização de um lexema
particular no discurso. Assim, pequeno, entrada de dicionário, é um lexema. Mas, por outro lado, a
frase realizada O pequeno príncipe mora no pequeno planeta comporta sete palavras e duas vezes o
vocábulo pequeno.” (Jean Dubois et al., Dicionário de lingüística, p. 614)

Palavra: critérios de definição do conceito

As ciências da linguagem (em suas diferentes vertentes teóricas) e mesmo a Gramática


Tradicional (incluindo nesse conceito as gramáticas pedagógicas) ainda não oferecem uma
possibilidade satisfatória de definição do que seria uma unidade de análise e descrição
linguísticas como a palavra. Critérios foram estabelecidos ao longo dos estudos linguísticos
em busca dessa definição.

É a palavra que parece se manter na intuição dos falantes como unidade central de reflexão
linguística, estabelecida em termos técnicos ou não. É inclusive a palavra que emerge como a
unidade de comunicação e expressão fundamental da criança durante o processo de aquisição
de sua língua materna. Ao desenvolver os estágios linguísticos de aquisição, a criança passa
pelo período inicial da “fala holofrástica”, no qual unidades utilizadas para a criança se
expressar e se comunicar são formadas por palavras isoladas, que em diferentes contextos
representam diferentes significações. Na entrada da criança no mundo da linguagem, a
palavra é o meio de acesso e realidade psicolinguística, colocando em funcionamento o
discurso.

Para saber mais:


“É certo, porém, que a noção de palavra varia conforme o nível de consciência do falante. Nas nossas
culturas ocidentais, herdeiras do patrimônio greco-latino, ao lado da intuição espontânea, se sobrepõe
a longa tradição gramatical [greco-latina], em que o indivíduo aprendeu a isolar palavras, a identificá-
las e a apor-lhes rótulos. Provavelmente esse falante comum ficará muito surpreso ao saber que os
lingüistas não sabem definir a palavra, nem tampouco delimitá-la. Estamos falando naturalmente de
uma definição de validade universal. A noção acaciana que o vulgo tem de palavra se opõe ao quebra-
cabeças que ela se revela para um analista de línguas. Garcia de Diego, muito a propósito,
cognominava a palavra de ‘fantasma da linguagem’.”
(Maria Tereza C. Biderman, Teoria linguística, p. 100)

De qualquer maneira, complexa ou não, a definição do que seja a palavra encontrou diferentes
formulações ao longo da história dos estudos sobre a linguagem verbal. Retomando pontos
apresentados por Basílio (2004) e Rosa (2000), podemos ver a seguir diferentes tentativas em
busca de resposta para a permanente indagação: o que é uma palavra?

1. A palavra é um elemento gráfico


Também se formos buscar a intuição dos falantes a respeito do que eles pensam ser uma
palavra, é possível obter como resposta que palavra é aquilo escrito de forma separada em
textos. Ou seja, uma definição de palavra gráfica, sequência de caracteres separada por
espaços em branco ou por sinais de pontuação.

Sendo assim, há em (1) cinco palavras, valendo-nos do critério da palavra gráfica:

(1) Minha mãe é uma corajosa.

O critério parece de fato funcionar, tendo em vista a representação escrita da língua. Mas
devemos nos perguntar: se o objetivo de um estudo descritivo sobre uma língua é buscar
generalizações que também possam ser aplicadas a outras línguas, como pensar no conceito
de palavra gráfica se há línguas ágrafas? Isso quer dizer que para o português a idéia de
palavra gráfica parece ser pertinente. Mas é possível definir uma unidade linguística
pensando apenas em uma realidade linguística? Não, isso não é o mais adequado na
concepção das ciências da linguagem. No entanto, não podemos também eliminar a idéia de
que no âmbito da escrita a noção de palavra gráfica parece ser pertinente.

Ainda em relação ao critério aqui em jogo, é preciso um refinamento da definição de palavra


gráfica, já que do contrário teríamos de aceitar como possível no português unidades da
sequência (2)

(2) * aminh ãem é mua cojarosa

Qualquer falante de língua portuguesa não aceitará (2) como unidade de comunicação e
expressão possível na língua. Dizemos que (2) é agramatical (fato representado pelo asterisco
antes da sequência). E por que (2) e sua agramaticalidade exigem a reformulação do conceito
de palavra gráfica?

Porque a palavra gráfica não é somente a unidade separada por espaços e pontuação, mas a
unidade separada por espaços, pontuação e que apresenta uma sequência de sons aceitável na
língua portuguesa.

2. A palavra é a unidade dicionarizada


Outra possibilidade é definir palavra como a unidade que consta de dicionários da língua.
Vários problemas surgem em relação a essa forma de conceituar palavra. Entre eles: a)
diferentes dicionários elegem unidades para serem dicionarizadas de formas divergentes, isto
é, o que consta em um dicionário nem sempre consta de outro; b) o dicionário é um
instrumento linguístico elaborado por um autor, que tem um ponto de vista a respeito do
funcionamento da língua. Isso quer dizer que a eleição de uma palavra para figurar em um
determinado dicionário é também um recorte de uma realidade linguística maior; c) o
dicionário não acompanha a língua de perto, mas é um recorte das unidades lexicais da língua,
basta pensarmos nos arcaísmos e nos neologismos para visualizar a idéia de que o dicionário
não é o instrumento mais adequado para pensar num recorte objetivo e infalível sobre o
funcionamento da palavra em uma língua (se é que tais recortes de fato existam).

3. A palavra é uma estrutura


Essa definição parece ser produtiva para uma série de abordagens linguísticas. Seria palavra a
unidade formada por elementos menores (formativos, constituintes que logo mais
classificaremos como morfemas), organizados em ordem fixa e conectados rigidamente.
Assim, as unidades em (3) são palavras, mas não as que podemos encontrar em (4).

(3) pé-de-moleque, esperança, alvorecer


(4) * pé-velho-de-moleque, ançaesper, alvoremencer

A noção de palavra estrutural e sua necessária coesão interna nos remetem ao conceito de
lexia. A lexia é uma unidade memorizada pelo falante e pode ser simples ou composta. Uma
lexia simples é uma unidade como flor. Beija-flor seria uma lexia composta, palavra
integrada. Chá de cadeira em Ele tomou um chá de cadeira, uma vez que a constituição
interna de chá de cadeira não pode ser alterada, seria uma lexia complexa.

Pensar na palavra estrutural e em sua obrigatória coesão interna nos leva também a uma
revisão do conceito de palavra simples e palavra composta. Seriam compostas ou complexas
unidades que apresentassem estrutura rígida, que não pode ser alterada, mesmo que essas
unidades não apresentem os tradicionais elementos gráficos como o hífen ou a justaposição
(beija-flor e aguardente, por exemplo). As locuções, então, apresentariam também problemas
para a definição de palavra. Em a pé, de manhã, temos em cada grupo palavras diferentes ou
estamos diante de uma mesma palavra (com rígida coesão interna)?

E o que diz o dicionário?


“lexia
Na terminologia de B. POTTIER é a unidade de comportamento léxico. Opõe-se a morfema, menor
signo lingüístico, e a palavra, unidade mínima construída. É, portanto, a unidade funcional significativa
do discurso. A lexia simples pode ser uma palavra: cão, mesa [...] A lexia composta pode conter várias
palavras em via de integração ou integradas: quebra-gelo. A lexia complexa é uma seqüência
estereotipada: a cavalo [como em bife a cavalo]. B. POTTIER propõe que a distinção tradicional das
partes do discurso tome por unidade a lexia e não mais a palavra. Com efeito, o comportamento
sintático de máquina de costura, desde que encoraja a classificar essas lexias nas categorias
gramaticais [classes de palavras] respectivas: substantivo, conjunção.”
(Jean Dubois et al., Dicionário de lingüística, p. 361)

4. A palavra é uma unidade de sentido


É possível que nossa intuição também nos diga que a palavra é a unidade que encerra um
sentido, assim, por esse critério, a palavra é uma unidade de significação. E como ficam as
palavras que apresentam semelhanças sonoras/gráficas, mas têm diferentes significados? São
palavras diferentes?

Nessa definição de palavra, entram em jogo os fenômenos semânticos da polissemia e da


homonímia. Uma palavra como cabeça pode ser usada das seguintes maneiras:

(5) Minha cabeça dói.


Ele é o cabeça do time.
Passe uma cabeça de alho.
É fato que em nenhum dos usos acima de cabeça a palavra significa a mesma coisa, mesmo
que seja possível apontar a presença de uma espécie de núcleo comum de significado.
Estaríamos diante de palavras diferentes?

Uma palavra como manga em

(6) Essa manga está gostosa.


A manga da blusa está suja.

Em (6), já não é possível apontar relações de significado entre as ocorrências de manga. Aí,
então, estaríamos diante de unidades distintas?

Fenômenos como a polissemia e a homonímia parecem colocar em xeque a definição de


palavra como uma unidade de significação.

Na perspectiva semântica, casos como o de (5) são exemplos de polissemia, expansão de


sentidos de uma mesma palavra. Casos como os apresentados em (6) são exemplos de
homonímia, diferentes palavras que apresentam semelhança no som e/ou na escrita.

Além disso, para aceitar a definição semântica de palavra de forma isolada, teríamos de
reconhecer que as seqüências seguintes são palavras, já que ambas possuem apenas um
significado.
(i) remador
(ii) aquele que rema
No entanto, nossa intuição é bem clara em não aceitar a seqüência (ii) como palavra.

5. A palavra fonológica
Nessa concepção, a palavra é um grupo de força que apresenta um único acento principal em
sua ocorrência sonora. O critério leva em conta, então, a materialidade sonora da palavra.
Teríamos por conta desse critério a possibilidade de uma distância entre o que se percebe
como palavra pelo critério gráfico, por exemplo, e o que o critério fonológico determinaria
como palavra. Isso porque um grupo de força pode ser constituído de mais de uma palavra
gráfica. Por exemplo:

(7) de repente

possui duas unidades gráficas, mas uma dessas unidades não possui acento próprio. De é um
elemento átono, e no processo de produção sonora essa partícula átona é pronunciada em
conjunto com a unidade tônica que lhe segue. Sendo assim, teríamos apenas uma palavra
fonológica.

Pelo critério da palavra fonológica, duas unidades gráficas (que seriam indubitavelmente
reconhecidas como palavras distintas) podem se juntar formando apenas uma palavra
fonológica. Nesse caso, os clíticos (partículas átonas como artigos e pronomes) apresentam
problema para a definição de palavra, já que são independentes na estrutura, mas não
apresentam autonomia no plano sonoro, uma vez que são átonos e colocam-se em conjunto,
na produção sonora, com outras unidades tônicas. Observe-se o caso de Ela pegou o livro. O
artigo e o substantivo são palavras gráficas independentes, mas constituem a mesma palavra
fonológica, pois o clítico átono (o artigo) é constituinte do mesmo grupo de força dominado
pelo substantivo.

Vale lembrar que a observação da palavra fonológica, como vimos nas seções dedicadas às
unidades sonoras da língua portuguesa, permite uma compreensão mais adequada para
ocorrências na escrita de unidades como porisso e derrepente, já que a grafia conjunta dos
elementos é resultado de uma análise fonológica que destaca apenas um elemento com um
acento principal.

6. O critério sintático
Ao lado da noção de palavra estrutural, a idéia de um critério que coloque a definição de
palavra no âmbito das relações contraídas com outras unidades e com o processo de
comunicação parece ser também um dos mais adequados.

Por essa perspectiva, a palavra é (i) uma unidade que sintaticamente no processo de
comunicação pode ser usada como resposta mínima a uma pergunta e (ii) que pode ocupar
diferentes posições numa estrutura sintática.

(8) O que a moça comprou? Laranjas.


(9) Laranjas foi o que a moça comprou.
A moça comprou laranjas.

Procurando uma síntese do que dissemos, podemos estabelecer, de forma não definitiva e
também não universal (vários linguistas assumem a posição de que uma definição de palavra
só se pode dar para uma língua em seu universo específico), uma definição bastante provisória
de palavra para a língua portuguesa:

palavra: forma mínima que pode ocorrer isoladamente numa sequência linguística, desde que
possa ocupar diferentes posições e diferentes funções sintáticas, e que apresente uma coesão
interna e significação aceitável na língua (lexical ou gramatical).

A proposta de Mattoso Camara

Joaquim Mattoso Camara Jr. (1904-1970) foi um dos principais linguistas que trataram da
descrição da língua portuguesa, em livros que já se tornaram clássicos na área (Estrutura da
língua portuguesa é um desses livros). Ele propõe uma definição de palavra (partindo de
classificação do linguista norte-americano Leonard Bloomfield) em torno de formas e seu
funcionamento morfossintático.

São palavras o que o linguista, apoiado em teorias das ciências da linguagem, determina como
formas livres e formas dependentes.

a) Formas livres: ocorrência livre mínima que pode constituir sozinha um enunciado. Essas
formas são representadas por classes de palavras como substantivo, adjetivo, verbo e
advérbio.
b) Formas dependentes: são formas que apresentam uma estrutura independente, mas não
podem ocorrer sozinhas em um enunciado, pois encerram relações gramaticais e por isso
precisam estar relacionadas a outras unidades. Artigos, preposições, conjunções, verbos
auxiliares são exemplos de formas dependentes em português.

Ao lado das duas formas anteriores, há as formas presas, sem independência estrutural e que
se apresentam como partes mínimas constituintes de outras formas (estabelecendo noções
gramaticais ou processos de derivação lexical), como o s em casas, indicando o plural.

Leituras sugeridas:
• Basílio, M. (2004) Formação e classes de palavras no português do Brasil. São Paulo:
Contexto. p. 13-19.
• Biderman, M.T.C. (2001) Teoria lingüística. São Paulo: Martins Fontes. p. 99-178.
• Mattoso Camara Jr., J. (1995) Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes. p.
77-80.
• Rosa, M.C. (2000) Introdução à morfologia. São Paulo: Contexto. p. 73-84.

Exercícios

Questão 1
“Uma das características da palavra é que ela tende a ser internamente estável (em termos
da ordem dos morfemas componentes), mas posicionalmente móvel (permutável com outras
palavras na mesma sentença.”
(Lyons, J. (1979) Introdução à lingüística teórica. São Paulo: Nacional: Edusp. p. 211)
Explique a afirmação acima, utilizando dados do português.

Questão 2
“[...] só a dimensão semântica nos fornece a chave decisiva para identificar a unidade léxica
expressa no discurso.”
(Biderman, M.T.C. (2001) Teoria lingüística. São Paulo: Martins Fontes. p. 155)
Explique a afirmação acima, utilizando dados do português.

Questão 3
“Por falta de uma definição adequada para vocábulo e da confusão, a seu respeito, entre
plano mórfico e plano fonológico, há na nossa tradição gramatical uma teoria dos vocábulos
compostos, que é inteiramente falsa.”
(Mattoso Camara Jr., J. (1997) Problemas de lingüística descritiva. Petrópolis: Vozes. p. 38)
Explique o posicionamento acima, articulando sua manifestação ao conceito de lexia.

Questão 4
“Em português, num verso como ‘As armas e os barões assinalados’, há três segmentos
fônicos e seis palavras.”
(Biderman, M.T.C. (2001) Teoria lingüística. São Paulo: Martins Fontes. p. 138)
Explicite a afirmação.

Questão 5
Analise os componentes da sentença em termos das formas propostas por Mattoso.
As pessoas do prédio deram-lhe os parabéns pelo novo cargo.

Questão 6
Observe a seqüência Comprei um guarda-chuva novo depois que saí da casa de detenção.
A partir da seqüência, trate do conceito de lexia.

Questão 7
Associe os dados aos conceitos de:
(a) palavra como unidade semântica;
(b) palavra fonológica;
(c) palavra sintática.
Após a associação, explique suas escolhas.

(A) O que Maria comprou na feira hoje? Nabos.


Maria comprou nabos na feira hoje.

(B) O que é detergente?


É o ato de prender pessoas.
(C) construtor
aquele que constrói
Observe:
Maria quer lhe dar um livro de presente.
Maria quer dar-lhe um livro de presente.
Por que o lhe poderia não ser classificado como palavra diante dos critérios sintáticos?

(Dados: Sândalo, M.F.S. (2004) Morfologia. In: Bentes, F.; Mussalim, A.C. Introdução à lingüística: domínios e
fronteiras. São Paulo: Cortez. p. 181-184.)

Questão 8
Observe a sentença do português:
Os alunos fizeram bagunça com outros alunos nas salas da escola.
Aponte a presença de:
• gramemas;
• vocábulos mórficos (ou formas vocabulares);
• lexemas.

Questão 9
Observe o texto abaixo publicado na revista Época, em fevereiro de 2008.

DICIONÁRIO
“rastreabilidade”
Origem Palavra não-registrada nos principais dicionários. Substantivo feminino. Indica a
possibilidade de uma movimentação monetária ser documentada.
Definição O termo foi usado pela ministra Dilma Rousseff para se declarar a favor do uso de
cartões de crédito corporativos por funcionários do governo. Afinal, fora o uso de dinheiro
vivo, quase toda atividade financeira é hoje rastreável. Dagomir Marquezi

a) Como se explica o fato de o dicionário poder não apresentar palavras que efetivamente são
utilizadas pelos falantes de uma língua?
b) Considerando sua resposta anterior, discuta a validade da conceituação da palavra como
“unidade dicionarizada”.
c) De que forma o texto confirma o fato de que o léxico recorta o mundo biossocial e
categoriza linguisticamente nossas experiências?

Questão 10
O léxico da língua portuguesa contém unidades com diferentes funções, como indicar:
• o universo externo, funcionando como unidade de denominação (o recorte do mundo
biossocial);
• um universo indefinido, ou seja, aquele que depende de referências estabelecidas
contextualmente;
• um universo interno, atuando no funcionamento da estrutura gramatical da língua.

a) Dê exemplos de unidades do léxico português que se encaixem nesses universos.


b) Observe esses diferentes universos e procure uma categorização em termos de
inventário limitado (categorias fechadas) e inventário ilimitado (ou categorias abertas)
c) Por que se pode afirmar que o léxico interno da língua não apresenta apenas palavras?

O estudo da palavra
Seção 2
A estrutura da palavra
Morfologia: estudando a estrutura das palavras

A morfologia ocupa-se das palavras, estudando sua estrutura e formação, bem como suas
flexões e classificação.

O objetivo da Morfologia, ramo dos estudos das ciências da linguagem, é investigar do que é
constituída uma palavra, quais são seus elementos básicos e suas regras de combinação.
Conseguimos entender esse objetivo quando analisamos palavras como música-músicas e a
forma verbal amavam.

Podemos observar que entre música e músicas há diferença quanto à informação de


significado: uma representa o singular; enquanto a outra, o plural. E qual é a diferença na
forma das palavras que possibilita a apreensão dessa diferença de significado? A existência da
forma s. Ou seja, é essa forma mínima, indicadora da idéia de plural, e ausente daquela forma
do singular, que possibilita a compreensão do número plural.

Algo semelhante ocorre quando analisamos a forma verbal amavam. Temos consciência de
que podemos dividi-la em am-, -a-, -va-, -m. Fato comprovado quando se observa essa forma
em comparação com outra do mesmo verbo: amaram. Esse método comparativo buscando a
detecção das unidades significativas que compõem a estrutura das palavras é chamado de teste
de comutação.

Por outro lado, podemos perceber que nem todas as palavras podem ser analisadas por meio
dessa divisão. É possível dividir a palavra sol em unidades menores? Não, porque se a
dividíssemos não conseguiríamos obter nenhuma unidade menor que colaborasse com um
significado.

Dessa compreensão da possibilidade ou não da divisão de palavras em unidades menores


significativas (processo denominado de segmentação mórfica), podemos depreender um
conceito importante para o estudo da palavra.

As palavras podem ser divididas em unidades menores, desde que essas unidades mantenham
um significado que colabora para a formação do significado de uma unidade inteira.

Essas pequenas unidades, menores que a palavra (ou ainda equivalentes à noção de palavra,
como no caso de sol), dotadas de significado (lembrem-se do s de músicas), são elementos
formadores da palavra, chamados de morfemas.

Podemos dizer que os morfemas são as menores partes significativas (os formantes) que
compõem as palavras. Numa primeira definição, podemos partir da idéia de que se não
tiverem significado não podem ser reconhecidos como morfemas, ainda que essa posição
tenha de ser reformulada, como veremos adiante.

Observemos uma decomposição de palavra em morfemas:


deslealdade

des-: parte mínima que indica negação de algo ou ação reversa àquela explicitada pelo núcleo
central de significado da palavra
leal: qualidade do ser humano, núcleo central de significado da palavra
-dade: parte mínima que altera a informação da classe gramatical a que pertence o núcleo
central de significado da palavra.

Pudemos ver que essas partes mínimas são morfemas porque todas elas atuam como
elementos formadores de uma unidade mais complexa, a palavra, e todas têm um significado
intrínseco que colabora para compor o significado final.

morfema: a menor parte significativa que compõe as palavras.

O conceito de morfema está associado ao de composicionalidade, uma vez que o significado


de uma palavra (como vimos com o exemplo deslealdade) pode ser obtido pela combinação
dos significados dos morfemas. A esse fenômeno é que se dá o nome de composicionalidade,
no qual cada morfema contribui para o sentido final de uma palavra.

As palavras são constituídas de morfemas, e a morfologia os estuda a partir de diferentes


perspectivas: a) ou numa visão que coloca em foco a produtividade lexical, isto é, os
processos de derivação e composição; b) ou noutra visão que observa os fenômenos de flexão
das palavras, nesse caso a visão é gramatical e morfossintática.

1. Morfemas Livres e Morfemas Presos


Alguns morfemas podem constituir uma palavra por eles mesmos, sem ter a necessidade de se
afixar em outras unidades. Já outros morfemas não podem aparecer de forma isolada. Uma
palavra como sol não pode ser dividida em unidades menores, sendo ela mesma uma palavra e
um morfema (chamado de morfema lexical). Mas, na palavra música, o morfema indicador
do número plural, s, não pode aparecer isolado na produção dos enunciados da língua
portuguesa (funcionando como um morfema gramatical).

Assim, depreende-se a distinção entre morfemas livres, aqueles que podem ocorrer
isoladamente, e morfemas presos, os que precisam necessariamente estar anexados a uma
base para poder funcionar na língua.

2. Morfemas Lexicais e Morfemas Gramaticais


Há morfemas que indicam a significação básica da palavra, sua “substância” (seguindo a
nomenclatura dos princípios da Gramática Tradicional). Enquanto outros morfemas não
apresentam uma significação lexical, no sentido de que representam um recorte do mundo
biossocial. Esses morfemas, chamados de gramaticais, são responsáveis pela indicação dos
“acidentes” das palavras.
E o que diz o dicionário?
“Os morfemas são de tipos diferentes. Dizemos que feliz é um morfema lexical, querendo com isso
dizer que tem um sentido dicionarizável: podemos dar uma definição de feliz. Mas o -mente é um
morfema gramatical, que desempenha a função estritamente gramatical de transformar um adjetivo
em advérbio. Independentemente disso, podemos dizer que feliz é também um morfema livre: pode
aparecer sozinho formando palavra, como acontece em feliz. Mas o prefixo in- e os sufixos -idade e -
mente são morfemas presos: eles nunca podem aparecer sozinhos, precisam sempre ligar-se a pelo
menos um outro morfema no interior de uma palavra.”
(R.L. Trask, Dicionário de linguagem e linguística, p. 199)

3. Radical e Afixos
Radical é o morfema básico que constitui uma palavra de categoria lexical, como substantivo,
adjetivo, verbo e advérbio. Ele indica o significado básico que compõe a unidade complexa.
Muitos radicais podem, por eles mesmos, funcionar como morfemas lexicais, sendo
identificados com a noção de palavra, como vimos com sol e leal, nos exemplos apresentados
anteriormente.

Para saber mais:


“A raiz ou radical primário é o elemento mínimo de significado lexical. Se for ampliado por derivação
ou por composição, forma o radical ou radical secundário. Em transformar, por exemplo, temos um
radical ou radical secundário transform-. Retirado o prefixo (trans-), ficamos com a raiz ou radical
primário form. Em terceiro-mundista, temos um radical (terceiro-mundo), que é a base do derivado em
-ista; temos, porém, duas raízes.”
(Maria Carlota Rosa, Introdução à morfologia, p. 51).

* Como é comum em vários trabalhos de iniciação aos estudos morfológicos do português,


partiremos do princípio de que o conceito de raiz envolve considerações de caráter diacrônico. Assim,
como o estudo que aqui se pretende é intrinsecamente de natureza analítica sincrônica, utilizaremos
apenas o conceito de radical.

Afixos são os morfemas que se anexam a um radical, acrescentando outros significados ou


informações gramaticais que comporão o significado final da unidade complexa. Os afixos
são morfemas presos. Em português, por exemplo, os afixos podem ser de dois tipos: prefixos
(anexados antes do radical) e sufixos (anexados após o radical).

4. Os alomorfes
Os morfemas podem apresentar diferentes formas (os significantes, chamados de morfes),
condicionadas por razões fonológicas (relativas a combinações dos elementos sonoros) ou
morfológicas, gerando diferentes expressões que estabelecem o mesmo significado (morfema
em caráter abstrato). Passamos a ter, então, não morfemas diferentes, mas diferentes formas
de um mesmo morfema, os alomorfes.

Em português, podemos apontar a presença de alomorfes na manifestação do número plural.


Algumas ocorrências apresentam o morfe {-s}, como em carro-carros; outras apresentam o
morfe {-es}, como em cor-cores; enquanto outras ainda podem apresentar o morfe {-is},
como em azul-azuis.

Ainda que se possa fazer a distinção entre forma concreta, realizada de fato, o morfe, e a ideia
que o morfema expressa, unidade abstrata, neste livro utilizaremos o conceito de morfema
tanto indicando a ideia abstrata, quanto a forma que veicula o significado.
E o que diz o dicionário?
“Idealmente, um mesmo morfema deveria ter sempre uma única forma constante e um único
significado ou função constantes, mas, na prática, os morfemas variam em sua forma, dependendo
de sua localização. Por exemplo, o morfema saúde tem uma forma quando aparece nas palavras
sáude e saudável, e tem outra forma quando aparece nas palavras salutar e insalubre. Analogamente,
o prefixo negativo in- apresenta formas diferentes nas palavras insincero, impossível e ilegal.
Chamamos essas formas variantes alomorfes do morfema.”
(R.L. Trask, Dicionário de linguagem e linguística, p. 199)

5. O conceito de morfema zero ()


Algumas noções gramaticais em português (como modo e tempo verbal, número e pessoa do
verbo, singular de substantivos e adjetivos) não são acompanhadas de sua realização concreta,
por meio de um significante. Nesse caso, estamos diante de uma ausência significativa. Ao
comparar formas de singular e plural no português, como em
livro
livros,
vemos que a distinção entre singular e plural se dá pelo acréscimo de um morfema à forma
plural. A representação do singular se dá pela ausência de um segmento. Essa ausência é
significativa, porque indica a forma do singular. Afirma-se, então, que em português o
morfema de singular é um morfema zero (apontado apenas quando se pode indicar comutação
com forma que apresenta morfema aditivo).

6. Desinências e afixos
As desinências que compõem a estrutura de uma palavra em português são responsáveis por
exprimir os “acidentes” das palavras, isto é, categorias gramaticais nominais e verbais.

São categorias gramaticais nominais:


(a) número e
(b) gênero.

São categorias gramaticais verbais:


(a) tempo-modo e
(b) número-pessoa.

As desinências são elementos anexados à parte final da palavra, assim como os afixos do tipo
sufixo. A diferença entre esses elementos é a que postula serem os sufixos elementos
opcionais, uma vez que ligados à formação de novas palavras. Já as desinências, elementos
flexionais, têm caráter obrigatório (como em ocorrências da norma padrão da língua e nos
registros da escrita). Alguns autores, Mattoso Camara entre eles, tomam a posição de
diferenciar os elementos como sufixos flexionais e sufixos derivacionais.

7. Morfema vazio?
Os conceitos de morfema zero e de morfema vazio colocam um problema para a descrição
morfológica. Se na definição de morfema dissemos que ele era um signo mínimo, como
aceitar como morfemas unidades que não apresentam os constituintes básicos de um signo na
visão saussuriana, o significante e o significado?

Um morfema zero tem significado, mas não significante. Um morfema vazio (como as vogais
e consoantes de ligação) apresenta significante, mas não significado.
Pontos como esses colocam a morfologia como uma área, assim como outras das ciências da
linguagem, que ainda precisa refinar muitos de seus critérios de descrição, análise e atribuição
metalinguística.

8. Morfema latente, morfema alternativo e redundâncias na estrutura morfológica


Ao observar casos como o ônibus e os ônibus, percebemos que a distinção morfológica de
número não se dá por alterações na forma do substantivo, mas por uma relação contextual de
natureza morfossintática, sendo que o número (singular ou plural) é de fato indicado pela
concordância com o determinante (o artigo masculino nas formas de plural ou singular). Tal
caso caracteriza a presença do morfema latente.

Outro caso da morfologia do português é o que se refere aos morfemas alternativos,


perceptíveis na relação entre ovo e ovos. Ao comparar as duas estruturas, notamos que uma
das distinções entre as formas de singular e plural é uma alternância sonora, verificada pela
abertura ou fechamento da vogal inicial da palavra. Temos, assim, uma alteração de sons que
indica a presença do morfema alternativo. (Tal relação é chamada pelas gramáticas
pedagógicas de plural metafônico.)

Ainda considerando o caso de ovo e ovos, vemos que, além da alternância sonora, há outra
marca da distinção de número: a presença do morfema aditivo de plural e a do morfema zero
de singular. Nesses casos, dizemos que há presença de redundância na estrutura, já que a
distinção do número gramatical é dada tanto pelo morfema alternativo quanto pelos morfemas
aditivo e zero.

9. A estrutura mórfica da língua portuguesa


Podemos apontar os seguintes elementos que constituem a estrutura da palavra em língua
portuguesa, ou seja, sua estrutura mórfica:
a) radical;
b) vogal temática (morfema classificatório, pode ser nominal ou verbal);
c) tema (radical + vogal temática);
d) afixos (prefixos e sufixos);
e) desinências nominais e verbais.

As vogais temáticas nominais, como elementos classificatórios, dividem os substantivos em


grupos terminados em -a, -e, -o. Essa distinção não é muito clara para a percepção sincrônica
do falante de língua portuguesa.

Já as vogais temáticas verbais e sua classificação são mais compreensíveis para o falante, pois
temos o conhecimento de que os verbos dividem-se em classes, determinadas pela presença
das vogais temáticas -a (1ª. conjugação), -e/o (2ª. conjugação) e –i (3ª. conjugação).

Palavras terminadas em vogais tônicas e em consoantes são consideradas como atemáticas.


Para alguns autores, Mattoso Camara entre eles, os nomes terminados em consoante
apresentam uma forma teórica em e, que reaparece nas formas de plural, como em cor/cores.
10. Classificações dos morfemas
Valter Kehdi (1993) propõe dois tipos de classificação para os morfemas da língua
portuguesa: a) uma primeira classificação, de caráter formal, coloca em destaque o
significante; b) uma outra classificação, de base funcional, destaca a função dos morfemas.

a) Classificação formal
• aditivo: morfema anexado a uma base, como em fazer e refazer, sendo re- o aditivo
• subtrativo: eliminação de algum segmento do radical, como em órfão e órfã, com a
subtração de parte do radical para indicação do gênero feminino
• alternativo: alternância de traços sonoros do radical, como em ovo e ovos
• reduplicativo: repetição de parte do radical, produtivo em português em formas
afetivas como papai
• de posição: mudança de posição das palavras (consideradas como morfemas livres),
ocasionando alterações de sentido, como grande homem e homem grande
• zero: quando a ausência de determinado segmento indica alguma propriedade
gramatical, como nas formas de singular do português
• cumulativo: quando uma única forma nos indica mais de uma significação, como nos
casos de modo-tempo e número-pessoa dos verbos em português
• vazio: representados pelas vogais e consoantes de ligação, como em cafeZal e
gasOduto

b) Classificação funcional
• radical
• afixos
• desinências
• vogais temáticas
• vogais e consoantes de ligação

Morfologia Flexional e Morfologia Lexical

A morfologia flexional trata das relações entre uma palavra e suas diferentes formas
ocasionadas pelos fenômenos de flexão gramatical, estabelecendo paradigmas flexionais,
como aqueles que reconhecemos quando conjugamos um verbo ou organizamos quadros com
palavras no singular e suas respectivas formas no plural.

Já a morfologia lexical trata da estrutura das palavras e de regras em relação a processos de


formação de novos itens lexicais, como a derivação e a composição.

A flexão e seu caráter obrigatório

Na língua portuguesa é possível fazer distinção entre processos de flexão e de derivação,


como aliás gramáticos latinos já faziam no período clássico de descrição do latim, em que a
flexão era chamada de derivatio naturalis, e a derivação, de derivatio voluntaria, dado seu
caráter opcional.

A flexão possui caráter de obrigatoriedade, uma vez que indica a sistematização coerente da
língua, estabelecendo os reconhecidos paradigmas flexionais de nomes e verbos, já de longa
tradição na Gramática Tradicional, presente em todas as gramáticas pedagógicas, na
exposição, por exemplo, das tabelas verbais de conjugação.

O mecanismo da flexão indica a relação estreita entre morfologia e sintaxe, por conta dos
arranjos morfossintáticos estabelecidos entre palavras quando elas são submetidas a relações
contraídas nas sentenças. Sendo assim, a flexão evidencia a gramática, a estrutura de arranjos
internos da língua, num processo de operação conjunta entre os componentes morfológico e
sintático. Daí seu caráter obrigatório, uma vez que gramatical.

Essa observação coloca em situação pouco sustentável a insistência de várias gramáticas (por
conta da manutenção de uma forma de fazer gramatical estabelecida a partir das descrições
clássicas para o latim) em situar o grau como flexão. Aumentativo, diminutivo, superlativo
não são processos obrigatórios na língua. É possível dizer, por exemplo, casinha (com o
sufixo de diminutivo) ou casa pequena (sem a presença do sufixo) — tal fato demonstra que o
mecanismo que transmite a noção de grau não é um processo obrigatório como o que
determina a presença do morfema de plural para indicar o número correspondente.

Flexão nominal

Os nomes na língua portuguesa (substantivos e adjetivos) apresentam flexões de número e de


gênero.

A flexão de número em português estabelece-se opondo a idéia de “um indivíduo” e “mais de


um indivíduo”, ou seja, a indicação de singular e plural.

Para indicar número plural, os nomes flexionam-se utilizando morfemas de plural. A


indicação do singular é dada por morfema zero, como se constatou na seção anterior. Há
divergências em relação à postulação do morfema s para o plural e a presença de diferentes
alomorfes, como es e is. Autores, como Mattoso Camara, admitem uma forma para o
morfema de plural (s) e a presença não de alomorfes para casos como mares, mas sim de uma
vogal temática presente na forma de plural e ausente na de singular, mantendo-se assim a
presença do morfema básico de plural, às vezes com auxílio de uma chamada, por alguns
autores, vogal de ligação, como no par papel papéis.

A indicação dos gêneros em português, masculino e feminino, é feita com morfemas


desinenciais. Alguns autores postulam que haveria um morfema zero indicativo de masculino,
outros apontam a presença do morfema básico o e a presença de diferentes alomorfes.
Seguimos neste livro a última diretriz, considerando o fato de que a competência linguística
do falante parece associar à forma de masculino o morfema o.

Temos em português as seguintes regras para a flexão de gênero, segundo Mattoso Camara
em Estrutura da língua portuguesa:
a) nomes substantivos de gênero único, masculino ou feminino, como em a criança;
b) nomes substantivos de dois gêneros, sem flexão, com a presença de artigo indicando o
gênero, como em o estudante a estudante;
c) nomes substantivos de dois gêneros, com indicação feita pelo artigo e pela flexão, num
processo redundante, como em o menino a menina.

Naturalmente que, ao seguir as propostas de Mattoso, coloca-se em discussão a forma com


que as gramáticas pedagógicas tratam a questão do gênero, com suas divisões e subdivisões
baseadas em critérios considerados equivocados pelos linguistas, já que muitas vezes
confunde-se gênero gramatical com gênero no sentido de especificação sexual em seres
femininos e masculinos.

Para saber mais:


“Desse modo, não procedem as designações de epiceno, sobrecomum, comum de dois, usadas pela
gramática tradicional. Ao lado de palavras como a cobra, existem outras como a vítima, a criança, o
indivíduo, o algoz, que pertencem respectivamente aos gêneros masculino e feminino. A importância
do artigo na distinção do gênero é tão importante que só através dele, ou de outro determinante ou
modificador, palavras como artista, colega, estudante, cliente, sem flexão, têm o gênero determinado:
(o, a) artista, (o, a) colega, (o, a) estudante e (o, a) cliente.”
(Ingedore Koch e Maria Cecilia Souza e Silva, Lingüística aplicada ao português: morfologia, p. 43.)

Flexão verbal

A flexão verbal caracteriza-se na língua portuguesa pelas desinências indicadoras das


seguintes categorias gramaticais: a) modo; b) tempo; c) número; d) pessoa. Vale lembrar que a
flexão que determina categorias gramaticais verbais apresenta-se na forma do morfema
cumulativo. Sendo assim, as noções de modo e tempo são sempre expressas conjuntamente
por uma única forma; o mesmo ocorrendo com as noções de número e pessoa.

A flexão de tempo e modo indica temporalmente a ocorrência da noção expressa pelo verbo
ou o recorte temporal em que se encontra o processo verbal. Essa informação temporal pode
se dar em três tempos verbais: presente, pretérito (perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito),
futuro (do presente, do pretérito). Além da noção de tempo, a flexão de tempo e modo
também expressa a atitude do falante em relação ao enunciado. Há flexões indicadoras dos
modos indicativo, subjuntivo e imperativo. No português, ainda há os chamados tempos
compostos, formados pelos particípios verbais acompanhados dos auxiliares ter e haver, com
predominância para o uso do primeiro nas formas do português brasileiro contemporâneo.

Os verbos também apresentam desinências que indicam suas formas nominais, como r para o
infinitivo, ndo para o gerúndio e ado para o particípio. São chamadas de formas nominais
porque assumem comportamento nominal ou verbal morfossintaticamente.

Em relação ao uso das desinências de modo e tempo, o português brasileiro apresenta algumas
mudanças, cada vez mais evidentes no uso da língua, principalmente na modalidade oral:

a) substituição das flexões do pretérito-mais-que-perfeito pelo uso de formas compostas;


b) substituição do futuro do pretérito pelo imperfeito do indicativo;
c) queda no uso do futuro do presente, substituído pelo presente do indicativo e por
construções perifrásticas como vou fazer em vez de farei.
Já a flexão de número e pessoa indica a referência pessoal do discurso e também se essa
referência se estabelece em torno de um ou mais seres envolvidos no processo discursivo (1ª.
pessoa: falante; 2ª. pessoa: ouvinte; 3ª. pessoa: assunto). Essa flexão possibilita, por exemplo,
que a língua portuguesa possa apresentar características de línguas de sujeito nulo, uma vez
que a recuperação da categoria do sujeito pode ser feita por meio das desinências verbais. Há,
no entanto, estudos sociolinguísticos que vêm apontando aumento no uso da categoria do
sujeito pleno, dado o enfraquecimento, em diferentes usos da língua, da presença de
desinências número-pessoais em alguns enunciados, considerados pela norma padrão como
estigmatizados e sem prestígio social.

Também é importante notar que o paradigma dos pronomes pessoais e o uso das desinências
número-pessoais passam por processo de mudança no português brasileiro. A 2ª. pessoa
marcada pelo pronome tu sobrevive em algumas regiões do Brasil com emprego irregular das
desinências apropriadas, segundo o padrão estabelecido pela tradição e facilmente encontrável
em gramáticas pedagógicas. Em seu lugar, há emprego cada vez mais constante do pronome
você para a 2ª. pessoa do discurso, empregado com formas gramaticais de 3ª. pessoa.

Nessa mudança do paradigma flexional e pronominal, outras alterações são:


a) desaparecimento das flexões de 2ª. pessoa do plural, representada pelo pronome vós;
b) emprego cada vez mais constante da forma a gente (em vários usos da língua, mesmo de
características mais formais da oralidade) em lugar da forma nós.

Pode-se apontar o seguinte paradigma dos pronomes pessoais, considerando transformações


por que passa o português brasileiro:
eu
você/tu
ele/ela
a gente
nós
vocês
eles/elas

Tendo essas observações em vista, pode-se apontar que a estrutura da flexão verbal em
português é a seguinte:

V = Tema (Rad. + VT) + Flexões (Des. de Modo-Tempo + Des. de Número-Pessoa)

Esse padrão deve ser observado levando-se em conta alterações cada vez mais presentes no
português brasileiro em relação ao uso das desinências verbais. Não se pode esquecer também
da existência de irregularidades na classe verbal e também de alomorfias presentes nos
radicais verbais quando conjugados e em outros elementos da estrutura. Essas alomorfias
apontam a presença de morfemas alternativos, como se pode observar em casos como fazer,
faço. Também devem ser consideradas formas com morfema zero, bastante comuns no
paradigma verbal da língua portuguesa.
Para saber mais:
“Os elementos respeitam sempre esta ordem. Do mesmo jeito que na estrutura nominal a desinência
de número se pospõe à de gênero, no verbo a desinência número-pessoal aparece invariavelmente
depois da desinência modo-temporal.
A técnica de depreensão é bem fácil. Se tivermos uma forma verbal a ser analisada, procedemos a
comutação ao mesmo tempo com o infinitivo impessoal e com a primeira pessoa do plural do tempo
em que se encontra o verbo. O infinitivo sem o /r/ apresenta o radical e a vogal temática. A primeira
pessoa do plural exibe a desinência [mos] (DNP). O que sobrar será a desinência modo-temporal.”
(José Lemos Monteiro, Morfologia portuguesa, p. 102)
Processos de formação de palavras no português

Linguistas que assumem o caráter interno do léxico observam privilegiadamente processos de


formação de palavras, uma vez que eles indicam a natureza da produtividade lexical da
língua. Assim, em vez de observar a formação de palavras de forma estática, eles destacam o
dinamismo por trás dos fenômenos, uma vez que estes podem ser reveladores da capacidade
criativa da língua. Nesta parte, apontamos brevemente os processos e, na seção de sugestão de
leituras, citamos, para maior aprofundamento, trabalhos que colocam em perspectivas
diferentes a formação de palavras no português brasileiro.

Os processos de formação de palavras no português podem ser vistos como resultado de duas
operações linguísticas centrais: uma de natureza aditiva e outra de natureza subtrativa.

Há processos de composição, em que se articulam dois ou mais elementos de natureza lexical,


com ou sem alterações de caráter morfofonológico, daí as composições serem classificadas
como justaposições (guarda-chuva) ou aglutinações (planalto).

Também há processos de derivação, que contemplam operações como:


a) derivação prefixal (infeliz): acréscimo de prefixo ao radical;
b) derivação sufixal (civilizar): acréscimo de sufixo ao radical;
c) derivação parassintética (empobrecer): acréscimo de sufixo e prefixo simultaneamente ao
radical (processo também chamado de circunfixação);
d) derivação regressiva, que contempla o processo de nominalização, bastante produtivo em
fenômenos de coesão textual (ataque de atacar): elementos de uma estrutura são subtraídos
dando origem a outra unidade lexical;
e) derivação imprópria, na qual há conversão de classes de palavras (o viver);

Outros processos envolvem a abreviação (auto de automóvel), as onomatopéias (zunzum), o


hibridismo (televisão, palavra formada de elementos do grego + português) e as siglas (USP).

Neologismos

Os neologismos classificam-se como processos produtivos de formação de palavras,


reveladores, muitas vezes, de transformações de caráter sociocultural, caracterizadoras da
relação íntima que existe entre o léxico e os fatores externos à língua. As criações de
neologismos da língua portuguesa podem enquadrar-se nos seguintes tipos (exemplos em
Alves, 1994):
• neologismos fonológicos: tchurma para turma;
• neologismos sintáticos: uso do não como prefixo; substantivação de prefixos como
super; formações com sufixos nominais, como em lulismo;
• processos de conversão: adjetivos empregados como substantivos, como em o
consorciado;
• neologismos semânticos: mudança no conjunto de semas de determinado item, como
turma dos baixinhos, referindo-se a crianças pequenas;
• neologismos por empréstimos: presença de estrangeirismos.

Leituras sugeridas:
• Alves, I. (1994) Neologismo. Criação lexical. São Paulo: Ática.
• Basílio, M. (2004) Formação e classes de palavras no português do Brasil. São Paulo:
Contexto.
• Kehdi, V. (1993) Morfemas do português. São Paulo: Ática.
• Kehdi, V. (2002). Formação de palavras em português. São Paulo: Ática.
• Koch, I.; Souza e Silva, M.C. (1987) Lingüística aplicada ao português: morfologia. São
Paulo: Cortez.
• Mattoso Camara Jr., J. (1995) Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes.
• Monteiro, J.L. (2002) Morfologia portuguesa. Campinas: Pontes.
• Rosa, M.C. (2000) Introdução à morfologia. São Paulo: Contexto.

Exercícios

Questão 1
“A depreensão das formas mínimas resume-se, em última análise, em atribuir a dado
segmento fônico uma parcela do conjunto de significações que dada forma linguística carreia
em si.”
(Mattoso Camara Jr., J. Princípios de linguística geral, p. 95)
Explique com exemplos a afirmação acima.

Questão 2
Dê um exemplo que possa ilustrar as considerações abaixo.
“O exame da complexidade do vocábulo conduziu-nos à análise de seus elementos
constitutivos. Partindo de pares mínimos, cujos membros devem apresentar uma relação de
semelhança e uma relação de diferença, depreendemos, através das técnicas explicitadas, os
morfemas, unidades mínimas portadoras de sentido.”
(Kehdi, V. Os morfemas do português, p. 48.)

Questão 3
Uma língua como o português pode apresentar palavras monomorfêmicas e também palavras
constituídas de mais de um elemento. Explique com exemplos.

Questão 4
Identifique se há um morfema comum às palavras abaixo. Justifique sua análise.
previsão - pressuposição - preposição - pressão
Questão 5
Identifique morfemas livres e morfemas presos. Justifique sua análise.
(a) flor (b) imoral
(c) infelizes (d) descontroladas
(e) bem-bom (f) pé-de-moleque

Questão 6
Identifique radicais e afixos (determinando o tipo dos afixos). Justifique sua análise.
(a) civilização (b) infelicitar
(c) desenterrados (d) desenganchar
(e) nacionalização (f) empobrecer

Questão 7
Por que as seqüências abaixo são agramaticais?
(a) * des (c) * lealdes
(b) * relápis (d) * smoça

Questão 8
Observe triste e entristecer e procure definir os conceitos de radical primário e radical
secundário.

Questão 9
Por que se pode dizer que há ocorrência de morfema vazio nos vocábulos pobrezinho e
paulada?

Questão 10
Observe o conjunto de palavras:
esposas falávamos
gato cantasse
garota esperam
a) Identifique a razão de se afirmar que há no conjunto estruturas típicas da morfologia
flexional.
b) Quais são as categorias gramaticais que aparecem no conjunto?

Questão 11
No livro Introdução à linguagem, Fromkin e Rodman, linguistas norte-americanos, citam a
seguinte frase de Samuel Goldwyn, figura importante na história do cinema:
“Em duas palavras: im possible”.
Do ponto de vista da pesquisa morfológica, Goldwyn não foi preciso em sua formulação. Por
quê?

Questão 12
Com dados do português, mostre que:
(i) Um morfema pode ser formado por um simples fonema.
(ii) Um morfema pode ser composto de apenas uma sílaba.
(iii) Um morfema pode ser composto de duas ou mais sílabas.
(iv) Dois morfemas diferentes podem ter a mesma representação fonológica.
(v) Um morfema pode apresentar alomorfes.
Questão 13
Responda às seguintes questões, apoiando-se em justificativas.
a) Há no vocábulo mesa desinência de gênero?
b) Qual o tema do vocábulo acabar?
c) Qual é a natureza do elemento i em rapaziada?
d) O que os vocábulos motor, rapé e sofá tem em comum?
e) Em lugares, existe a vogal temática e ou não? Pesquise sobre os diferentes pontos de
vista para tal posicionamento.
f) Qual é a natureza da desinência verbal em compram?
g) Em desrespeitar, há elementos que indicam a morfologia flexional e a derivacional.
Por quê?
h) Qual a constituição derivacional de mortalmente?

Questão 14
a) Demonstre que a desinência modo-temporal em formas do presente do indicativo é zero.
b) Evidencie que há alomorfia na desinência modo-temporal do futuro do presente do
indicativo em verbos da 1ª. conjugação.
c) Indique alomorfia do radical em formas do verbo ser no modo indicativo.
d) São possíveis formas verbais que, quando conjugadas, apresentam forma zero para o
radical? Dê exemplos.
e) Dê um exemplo que confirme a presença de homonímia na flexão verbal do português.

Questão 15
Separe os elementos mórficos das formas abaixo.
a) levávamos
b) lemos
c) dançaríamos
d) saímos
e) defenderemos
f) amasso
g) fizerem
h) pusemos
i) tocam
j) saiamos

Questão 16
Para fixar os processos de formação de palavras, indique quais fenômenos ocorreram abaixo.
a) vilarejo
b) agridoce
c) casa-de-pensão
d) enriquecer
e) abalo
f) alegremente
g) desalmado
h) corte
i) cricri
j) (o) talvez
Questão 17
Agora trataremos de regras de formação de palavras. Lembremos antes que essas regras
podem fazer parte de nossa competência lingüística. Para a análise, seguem dados do
português.

a) Observe a utilização de afixos.

(1) re: repensar *rebeleza *reazul


(2) eza: tristeza *choveza *vermelheza
(3) izar: realizar *mesizar *tristizar

b) Perguntas

(i) Quais são as classes das seguintes palavras: pensar, beleza, azul, tristeza, chover, vermelho,
realizar, mesa, triste?
(ii) A que classes de palavras os afixos {re-}, {-eza} e {-izar} são anexados?
(iii) Após o processo de afixação, qual é o resultado, levando em consideração classes de
palavras?

Questão 18
Classificar os neologismos:
a) O posicionamento do empresário é hiperestranho, já que o seu projeto considera
propostas over de uma estrutura considerada como pós tudo.
b) A nova prefeita demonstra atitude incomum, meio oficialesca.
c) Minha irmã falou que a peça tinha sido super.
d) “O novo xampu que é um xuxexo vai xuperar as ixpectativas.”
e) A chefe não escondeu seu passado de ex-professora-escritora da área de comunicação.
f) Foi a turma do empurra-empurra que provocou o tumulto na palestra.

Questão 19
Margarida Basílio (Formação e classes de palavras no português do Brasil, p. 27) afirma que
“sabemos pelas gramáticas, e por nossa experiência com o uso da língua, que é possível
formar palavras de uma classe a partir de palavras de outra classe”.

a) Dê três exemplos que evidenciem mudança de classes promovida pela afixação de sufixos a
uma base.

b) Há restrições de operação na formação de palavras pelo acréscimo de sufixo; sendo assim,


responda ao que se pede:
• verbos com estrutura V-izar pedem qual sufixo na nominalização?
• verbos com estrutura V-ecer pedem qual sufixo na nominalização?

Questão 20
Dê exemplos para as regras abaixo.
a) (X)N → [(X) N + ear] V
b) (X)V → [(X) V + mento] N
c) (X)ADJ → [(X) ADJ + mente] ADV
d) (X)V → [(X) V + vel] ADJ

O estudo da palavra
Seção 3
Classes de palavras

Classes de palavras abertas e fechadas no português

Todos nós, falantes do português, possuímos intuições a respeito das classes de palavras de
nossa língua e acerca das combinações que podemos realizar. É possível generalizar alguns
desses conhecimentos em forma de regras:

a.
(i) As palavras que ocorrem após determinantes (artigos, pronomes possessivos,
demonstrativos) em português são substantivos, também chamados de nomes na teoria
linguística. Ou seja, temos conhecimento de que, se um determinante (em função adjetiva)
aparece numa seqüência, é necessário que ele seja acompanhado de um substantivo.

A ____substantivo a menina, mas * a vermelho (asterisco indica formas e


combinações impossíveis na língua)

Além dessa característica distribucional, o substantivo apresenta, em termos sintáticos,


funções de núcleo do sujeito e de complementos, por exemplo.

(ii) Substantivos em português, em relação à semântica, designam seres, eventos ou entidades.

(iii) Em sua estrutura morfológica, substantivos apresentam flexão de gênero e número.

b.
(i) As palavras que ocorrem após substantivos, sendo flexionadas por conta de informações
gramaticais contidas nesses substantivos, são adjetivos. Também é possível a ocorrência de
adjetivos antes dos substantivos na língua portuguesa. Essa alteração na posição pode
ocasionar alterações semânticas.

___S__ adjetivo a menina feliz, os livros amarelos, feliz menina


mas * após amarelo, * correram amarelo

(ii) Considerando a semântica, adjetivos têm a propriedade de caracterizar elementos


substantivos da língua.

(iii) A estrutura morfológica do adjetivo aponta para o fato de que essa categoria deve
concordar em gênero e número com substantivos que acompanha, como vimos em (i), numa
articulação entre fatores morfológicos e distribucionais dos elementos numa sequência
linguística.

c.
(i) Verbos são palavras que apresentam relações de estado, de ações, de eventos, de processos
numa língua, considerando sua semântica.

(ii) Em relação à estrutura morfológica, verbos apresentam flexões de tempo, modo, número e
pessoa, possuindo em português rico paradigma flexional.

(iii) Quanto à sintaxe, verbos ocupam papel central dos predicados, sendo palavras que
selecionam ou não a presença de complementos. Essa característica sintática não se aplica aos
verbos de ligação nem a verbos auxiliares, que têm como função a transmissão de
informações gramaticais.

d.
(i) Advérbios são palavras invariáveis que modificam verbos, adjetivos, advérbios, sentenças.
Também podem indicar modalizações em relação a informações veiculadas nas sentenças,
como indicações de fatos tomados como certos ou duvidosos (Exemplos: Certamente, ele
sairá de lá; Provavelmente, ele não sairá de lá.)

(ii) Semanticamente, advérbios representam indicação de circunstâncias, como tempo, lugar,


modo, intensidade e outras.

Linguistas e gramáticos ainda discutem a respeito do estatuto de advérbios como elementos


equivalentes a substantivos, adjetivos e verbos. De fato, é possível apontar que alguns
advérbios parecem se comportar de forma mais lexical, enquanto outros, como advérbios
pronominais (lá, aqui, aí), parecem enquadrar-se melhor na classificação de palavras
gramaticais.

As divisões acima determinam uma classificação em categorias lexicais, que constituem as


Classes Abertas do português. Ao lado delas, a língua ainda apresenta uma série de Classes
Fechadas de palavras.

As classes fechadas são constituídas de itens gramaticais, que têm como função principal
relacionar elementos numa sequência, ou seja, possuem função gramatical. A classe é fechada
porque os inventários são em número mais limitado, e mesmo uma expansão (ou alterações
nessas classes) pressupõe processos complexos de mudança linguística. São exemplos de
palavras funcionais:

a) pronomes pessoais e clíticos;


b) elementos -qu (pronomes interrogativos);
c) conjunções;
d) preposições;
e) determinantes (artigos, demonstrativos, possessivos);
f) pronomes relativos;
g) quantificadores (numerais, pronomes indefinidos).

Observações sobre as classes fechadas

1ª.) Numerais apresentam subdivisão em cardinal, ordinal, multiplicativo e fracionário.


Discute-se o estatuto do numeral como classe, para isso coloca-se a possibilidade de
enquadrar os elementos que pertencem à classe no grupo dos substantivos e adjetivos, por
conta de propriedades morfossintáticas comuns.

2ª.) Pronomes apresentam subdivisão em pessoais, possessivos, demonstrativos, indefinidos,


interrogativos e relativos. Apontam-se, a seguir, algumas particularidades da classe no
português brasileiro.
¬ Podem ser substantivos (quando exercem funções sintáticas típicas de substantivo) e
adjetivos (quando atuam como determinantes, posicionados antes de substantivos, em
relação aos quais atuam como adjuntos adnominais).
¬ Os relativos apresentam a peculiaridade de estabelecer relações sintáticas, podendo,
assim, exercer diferentes funções.
¬ Pronomes pessoais dividem-se em retos e oblíquos, sendo que cada grupo atua
sintaticamente de diferentes maneiras. No português brasileiro atual, há uma tendência
de uso dos pronomes pessoais retos em posições e funções sintáticas que, pelas regras
da gramática normativa, apenas deveriam ser realizadas por pronomes oblíquos.
¬ O português brasileiro apresenta uma modificação do seu paradigma pronominal. Em
relação ao que estabeleceu a tradição gramatical portuguesa, o uso dos pronomes no
português falado e escrito (em algumas situações) indica modificações como: a)
supressão das formas de 2ª. pessoa do plural; b) alterações morfossintáticas no uso da
2ª. pessoa do singular; c) substituição crescente (em algumas situações de uso da
língua) da 1ª. pessoa do plural pela forma a gente; d) uso generalizado da antiga forma
de tratamento você como a forma de 2ª. pessoa do singular (e sua forma pluralizada).
¬ Uso irregular da forma você e dos elementos gramaticais que a acompanham, como
pronomes oblíquos de 2ª. pessoa do singular.
¬ Os pronomes pessoais indicam as pessoas do discurso, estabelecendo o que, em outra
dimensão teórica, Émile Benveniste, linguista francês, denominou como parte do
aparelho formal da enunciação. As considerações de Benveniste, destacando o
pronome como elemento característico da enunciação, levam a uma reformulação em
que pessoas do discurso são, de fato, apenas as 1ª. e 2ª. pessoas; já a 3ª. pessoa passa a
ser classificada como uma não-pessoa.
¬ Há, também, no português brasileiro, o uso de pronomes pessoais indicando
indeterminação do sujeito, como em Nos dias de hoje, você trabalha tanto e depois é
assaltado por um qualquer.

3ª.) Conjunções atuam como conectores entre orações que se equivalem sintaticamente
(orações coordenadas) e que pertencem a níveis diferentes (orações subordinadas). Há uso de
conjunções relacionando também palavras com mesma função sintática, como em carro e
moto foram compradas.

4ª.) Preposição são elementos gramaticais que funcionam sintaticamente dependentes de


verbos, nomes (substantivos e adjetivos) ou advérbios, introduzindo (com valor semântico)
constituintes essenciais ou acessórios de sentenças. Na categoria das preposições, que
assumem diferentes valores na organização sintática da língua, há também as locuções
prepositivas. No processo de mudança linguística, é possível perceber, na classe das
preposições, alterações relacionadas a prefixos e mesmo a elementos lexicais que perdem essa
caracterização e passam a funcionar, num processo de gramaticalização, como elementos
funcionais.

5ª.) É comum que se atribua a classes fechadas a denominação de palavras gramaticais que,
em oposição a palavras lexicais, não apresentariam significado. Tal visão deve ser nuançada,
uma vez que elementos gramaticais, como artigos, preposição, conjunção, possuem uma
espécie de significação, não lexical como a das classes abertas, mas de natureza gramatical.

E o que diz o dicionário?

“Algumas classes de palavras são amplas e aceitam facilmente novos membros: elas são chamadas
de classes abertas. Outras são pequenas e só aceitam novos membros com muita dificuldade: são
classes fechadas. Em português, o substantivo, o verbo e o adjetivo são classes abertas, ao passo que
o pronome e a preposição são classes fechadas. As línguas podem diferir a esse respeito: há línguas
em que a classe dos adjetivos é pequena e fechada.”
(R.L. Trask, Dicionário de linguagem e linguística, p. 226)

Critérios de definição de classes abertas


Em geral, são utilizados três critérios (vistos de forma complementar) para classificar as
palavras de uma língua em torno de classes abertas:
a) critério semântico = significados são estabelecidos para a atribuição de palavras a
determinadas classes;
b) critério morfológico = palavras são classificadas pela observação das categorias
gramaticais que contêm. Essas categorias são informações como tempo, modo,
gênero, número e outras; ou seja, categorias podem ser captadas como variações, na
forma, com função gramatical;
c) critérios sintáticos = definidos por propriedades distribucionais (posições das palavras
numa estrutura) e/ou funcionais (funções sintáticas exercidas pelas palavras quando
articuladas em sentenças).

Vistos de forma isolada, os critérios apresentam insuficiências para definir satisfatoriamente


classes abertas do português.

Para saber mais:

“Ora, na medida em que há uma relação óbvia (embora não totalmente uniforme) entre propriedades
semânticas, sintáticas e morfológicas, uma questão geral de descrição se coloca: seriam certas
propriedades derivadas de outras propriedades? Se esse fosse o caso, a definição mais adequada
seria aquela em que teríamos refletida essa hierarquia.”
(Margarida Basílio, Teoria lexical, p. 55)

Um quadro de definições: possibilidades para o português

classe de palavra critério semântico critério morfológico critério sintático


substantivo designa seres, apresenta flexão de ocupa núcleo de
entidades, eventos gênero e número sujeito e de
complementos; é
acompanhado de
determinantes
adjetivo caracteriza ou concorda em gênero pode atuar como
qualifica e número com o modificador de um
substantivos substantivo ao qual substantivo;
se encontra acompanha o
relacionado substantivo
verbo indica relações de apresenta rico apresenta funções de
estados, eventos, paradigma flexional, predicação; não
processos, ações no com desinências de pode ser antecedido
tempo tempo, modo, por determinantes
número e pessoa
advérbio indica circunstâncias palavra invariável modifica verbos,
de local, tempo, adjetivos, advérbios
modo e outras e sentenças

As gramáticas pedagógicas utilizam, de forma ampla, critérios semânticos, muitas vezes


apontados como menos confiáveis. Assim, a linguística tem apontado que a definição de
classes de palavras de uma língua deveria se processar seguindo:
a) critérios distribucionais;
b) observação das propriedades de flexão;
c) possibilidade de processos de derivação.

Esse último aspecto torna-se relevante quando lembramos que processos que formam palavras
determinam quais afixos podem ou não aparecer anexados a determinadas classes de palavras.
Sabemos, por exemplo, que um prefixo como -re deve ser anexado a uma classe de palavra
que apresente propriedades típicas de verbos, ou seja, esse prefixo é um prefixo verbal.

No entanto, mesmo essas observações devem indicar que critérios de definição de classes não
são sempre produtivos e exceções são possíveis.

E o que diz o dicionário?

“É uma característica do português e de algumas outras línguas que uma palavra possa pertencer a
duas ou mais classes diferentes sem mudar de forma. Por exemplo, cinza é um substantivo em uma
bonita tonalidade de cinza, um adjetivo em uma saia cinza; amarela é um verbo em Vê se, na hora do
vamos ver, você não amarela, mas é um adjetivo em A Lucinha está amarela porque adoeceu ...”
(R.L. Trask, Dicionário de linguagem e linguística, p. 225-226)

E as interjeições?

As interjeições figuram, em gramáticas portuguesas que recuperam a tradição gramatical


greco-latina, como elementos pertencentes a mais uma das classes de palavras. Tal divisão
precisa ser observada com cuidado, uma vez que os elementos que se classificam como
interjeição em português são de natureza expressiva, ligados à 1ª. pessoa do discurso e que
atuam como unidades de comunicação em contextos específicos. Dessa forma, considerações
gramaticais, como as que fizemos nesta seção, são de difícil aplicação às interjeições. Muitos
gramáticos e linguistas, atentos às formas de descrição científica das línguas, não consideram
a interjeição como mais uma classe de palavra.

Em busca de padronizações para a classificação

Como vimos, definir classes de palavras em uma língua coloca em jogo um complexo de
fatores distintos entre si. Vamos, então, observar de uma forma mais esquemática
possibilidades de divisão para as palavras da língua portuguesa.
1. A divisão herdada da Gramática Tradicional
Seguindo a tradição gramatical, as classes de palavras, chamadas de partes do discurso na
origem da tradição, podem ser classificadas de acordo com suas propriedades semânticas,
sintáticas e morfológicas.

Nas nossas gramáticas tradicionais e pedagógicas (normativas por excelência), há a divisão


em dez classes:
I. substantivo
II. adjetivo
III. verbo
IV. pronome
V. numeral
VI. artigo
VII. conjunção (coordenativas e subordinativas)
VIII.preposição (e locuções preposicionais, em torno de)
IX. advérbio (e locuções adverbiais, de vez em quando)
X. interjeição

Lembrem-se do fato de que essa divisão leva em conta grupos de classes variáveis e
invariáveis (como o advérbio, a preposição, a conjunção e a interjeição).

Para saber mais:

A historiografia linguística reconhece a expressão “Gramática Tradicional” como equivalente ao


conjunto de proposições descritivas e metalinguísticas de origem greco-latina, em seu período
conhecido como a Antiguidade clássica ocidental. Assim, quando empregarmos a idéia da utilização
de um modelo gramatical tradicional, estaremos nos referindo a formas de descrição da língua,
herdadas do período clássico, utilizadas, por exemplo, em gramáticas pedagógicas.

2. A divisão por função comunicativa


Em sua gramática do português, fundamentada não só na tradição gramatical mas também em
teorias linguísticas, Azeredo propõe uma divisão das palavras da língua levando em conta “a
capacidade que têm as palavras de organizar nossa experiência conceitual do mundo em um
conjunto finito de ‘modos de significar’” (AZEREDO, 2000: 74).
Assim, tomando por base Azeredo (e incluindo algumas modificações), as palavras do
português dividem-se em torno de funções comunicativas de:
I. designação: substantivo;
II. modificação: adjetivo, advérbio;
III. predicação: verbo (função mais típica da palavra)
IV. indicação: pronomes, advérbios;
V. quantificação: advérbios intensificadores (muito), locuções adverbiais (em
excesso), pronomes, numerais;
VI. conectivos e transpositores: conjunções, preposições;
VII. determinação: artigos, pronomes.
Leituras sugeridas:
• Azeredo, J.C. (2000) Fundamentos de gramática do português. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar.
• Basílio, M. (2004) Formação e classes de palavras no português do Brasil. São Paulo:
Contexto.
• Biderman, M.T.C. (2001) Teoria linguística. São Paulo: Martins Fontes.

Exercícios

Questão 1
Considere o texto abaixo.

Era uma vez a filha muito prodding de um rei. Num dia sombrio, um drogs raptou-a, levando-a para sua
mestos. O rei drencom a um príncipe que liberte sua filha. No dorso de skorry cavalo, sai o príncipe com
pressa de resgatar a velloct.
No caminho, uma velha, perdida, implora ao belo príncipe que a leve de volta para casa. O príncipe peet-se
do caminho e conduz a mozg velha ao lar. A velha revela-se como uma bela fada de elses transluzentes.
Assim, o príncipe ganha da fada poderes para moloko a princesa. Todos ficam no final boglin felizes.

a) Identifique a que classes de palavras abertas os itens sublinhados podem pertencer.


b) Dê evidências para justificar suas classificações anteriores.

Questão 2
Considere o fragmento de texto abaixo e as palavras sublinhadas.

Observar como efeitos expressivos e estéticos (estilísticos, portanto) podem ser observados nos mecanismos de produção
dos sentidos dos textos. Essa proposta caminha em direção a uma estilística próxima à investigação semântica, caracterizando
um primeiro contato com o estudo da expressividade na língua portuguesa, com o objetivo de preparar os alunos para a
análise estilística a partir do exame dos diferentes níveis de descrição lingüística, objeto de estudo no próximo semestre.
Assim, delineiam-se os seguintes objetivos específicos: a) tornar o aluno apto para rever no texto mensagens e construções
explícitas e implícitas fundamentais para o processo de formação e transformação dos sentidos; b) desenvolver a análise
estilística de textos, observando efeitos expressivos e estéticos em sua forma final e também nos mecanismos de formação; c)
com base nas propostas da semiótica greimasiana, capacitar o aluno para descrever e analisar aspectos estilísticos de textos
verbais e sincréticos em língua portuguesa.

a) A palavra sublinhada pertence a uma classe aberta ou a uma classe fechada de


palavras?
b) A palavra é constituída de quantos morfemas?
c) Se houver morfemas além do lexical, identifique a unidade e determine se ela indica
flexão ou derivação.
d) A qual classe de palavra o item em exame pertence?
e) Quais evidências morfológicas você pode dar para sustentar suas respostas para a
questão (d)?

Questão 3
Não é difícil apontar falhas nas definições tradicionais para as classes de palavras. Observe as
definições seguintes e aponte explicativamente um exemplo em português que contrarie cada
definição.

“Substantivo é o que se usa para dar nomes a pessoas, lugares e coisas.”


“Verbo é o que denota ação.”
“Adjetivo é o que modifica o substantivo.”
“O pronome é o que faz papel de um substantivo.”

Questão 4
Pesquise sobre pronomes e responda às questões:
a) Por que é possível afirmar que possessivos e demonstrativos são, na realidade,
pronomes pessoais?
b) Linguistas apontam como errônea a denominação de pronomes indefinidos. O que
poderia sustentar tal posicionamento?
c) Por que se pode afirmar que pronomes relativos reúnem funções de conjunção, de
demonstrativo e de possessivo?

Questão 5
Considerando a classe dos substantivos, dê:
a) exemplos que confirmem uma divisão dos substantivos em contáveis e não-contáveis;
b) exemplos que confirmem o fato de o substantivo, assim como verbo, poder indicar
fatos, processos, acontecimentos.