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Resposta ao Sr.

James Becker

Por Marcel Pereira Bernardo

Introdução
A página Economia Mainstream, da qual o Sr. James Becker é integrante, iniciou uma
empreitada contra a Escola Austríaca. Uma dessas empreitadas é artigo de James
Becker sobre a TACE. Bem, o Sr. Becker já inicia com um grave erro procedimental:
supor que os leitores possuem conhecimento prévio sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos
Econômicos e, a partir disso, o mesmo se furta a apresentar a teoria e já parte para a
crítica. É um erro imperdoável ignorar a apresentação, ainda que resumida, de uma
Teoria e focar apenas em apresentar uma resposta a ela. Nem ao menos disponibilizou
algum link ou recomendou a leitura de algum artigo para primeiro se certificar de que os
leitores estivessem bem guarnecidos quanto ao tema. É de uma má vontade lastimável a
conduta do Sr. Becker.
Afinal, como se espera que alguém possa apresentar resposta a algo que sequer foi
demonstrado?! Resposta a quem? Qual artigo ou livro? Publicado quando e onde? Bem,
certamente a “resposta” a TACE do Sr. Becker não se baseia em nada que ele tenha
realmente lido concretamente por parte dos austríacos, mas sim ao que ele imagina
saber sobre a TACE. Em sua avidez em “responder” a TACE, o Sr. Becker negligenciou
o básico sobre procedimento acadêmico que ele tanto arroga. Aliás, notei que uma das
referências dele é o Wikipedia, algo que deprime quando se trata de conferir fontes
pesquisadas. Sobre uma pesquisa bem feita, é preciso, primeiro, expor os pontos gerais
da Teoria conforme seus mais eminentes elaboradores, apresentar os contrapontos e,
finalmente, realizar a conclusão do tema. Se um pesquisador tiver dificuldades em
encontrar material dos próprios elaboradores de uma dada teoria, que pelo menos
investigue algum artigo devidamente avaliado pelos pares contendo um apanhado geral
sobre a teoria. Isso é o básico de um material minimamente respeitável.
Para corrigir essa falha, convido os leitores e, em especial, o Sr. Becker, a ler meu artigo
escrito em conjunto com os economistas Rodrigo Nori e Leandro Meyer “A Escola
Autríaca de Economia na História do Pensamento Econômico”, onde é apresentado
resumidamente algumas das principais teorias da Escola Austríaca, dentre elas,
obviamente, a Teoria Austríaca do Capital e a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.
Ou, caso prefiram uma leitura menos “carregada”, tem a explicação de Dan Mahoney
(deixarei o link em nota de rodapé)1 .Não irei exigir do Sr. Becker leituras mais densas
como Positive Theory of Capital, Prices and Production ou The Pure Theory of Capital.
Só estou pedindo o mínimo mesmo, leia ao menos um resumo.
Também vale a pequena observação que não é de todo correto afirmar que a TACE não
passou pelo “crivo dos especialistas”, como diz o Sr. Becker. Ora, foi justamente tal

                                                            
1
 https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=141 
teoria que rendeu a F.A Hayek o Prêmio do Banco da Suécia para as Ciências
Econômicas em Memória de Alfred Nobel em 19742, cujo processo de escolha e
critérios de avaliação se assemelham ao Prêmio Nobel. Como uma teoria não “passa
pelo crivo dos especialistas” e, ao mesmo tempo, é laureada com premiação e amplo
reconhecimento acadêmico? Isso é no mínimo contraditório.
Bem, após ter disponibilizado o link de meu artigo para que os leitores estejam mais
familiarizados, podemos prosseguir. A objeção do Sr. Becker inicia-se na Controvérsia
de Cambridge e, especialmente, no reswitching. A técnica reswitching refere-se a uma
situação em que um modo de produção é lucrativo a uma taxa de juros elevada, depois
não rentável a uma taxa intermediária, mas depois rentável novamente a uma taxa de
juros muito baixa (MURPHY 2003). Não é trivial dizer que a técnica apresentada por
Samuelson parte de um mundo irreal no qual existem apenas duas maneiras de produzir
um bem em particular e, com base nisso, ele supôs ter refutado a Escola Austríaca.

A Teoria Austríaca do Capital frente a Controvérsia de Cambridge


Afim de compreender melhor a TAC, é preciso antes entender o conceito de Böhm-
Bawerk sobre Capital como “o conjunto dos produtos intermediários que surgem nas
diversas etapas indiretas que perfazem a via de surgimento indireta" (1986, p.38). Essa
definição é de suma importância para extrairmos conceitos-chave como: 1) estrutura
heterogênea do capital, 2) vias de produção indireta para formação do capital e 3) o
processo de coordenação das distintas etapas indiretas determinada pela preferência
intertemporal dos agentes. Absolutamente nenhum desses 3 pontos (que formam o
núcleo duro da Teoria Austríaca do Capital) foram desmentidos pela Controvérsia de
Cambridge.

O Sr. Becker foca no reswitching desenrolado a partir da Controvérsia de Cambridge


afim de demonstrar que a TAC estaria equivocada e, por consequência, a TACE.
Entretanto, ele se equivocada assombrosamente sobre a questão de que os dois lados da
Controvérsia consideraram sobre o reswitching. Joan Robinson, participante ativa dessa
controvérsia, chega a escrever um artigo intitulado “The Unimportance of Reswitching”
(1975) – A Não Importância do Reswitching – , ou seja, o reswitching seria apenas um
ponto periférico dentro da discussão sobre a Teoria do Capital, não sua pedra angular
como deseja transparecer o Sr. Becker. Sobre o posicionamento de Robinson acerca
desse ponto específico, diz Garrison: “Her more fundamental point is that reswitching is
not something that might actually be “going on” at all; rather, the “switches” refer to
critical points of comparison in a comparative-statics exercise”.

O que o reswitching demonstra é que nem sempre produções mais indiretas serão mais
beneficiadas a taxas de juros menores, assim como nem sempre produções menos
indiretas terão maior benefício a taxas de juros mais altas. Böhm-Bawerk cometeu, sim,
um parcial equívoco (mas não um equívoco total) ao supor que a taxa de juros seria
deduzida pelo tempo médio de produção do capital. Em alguns casos, pode até ser
assim; porém, noutros, não. Em outras palavras, temos uma situação que não passa de
um “pode ser que sim, pode ser que não”, sem nada muito conclusivo.

                                                            
2
 https://www.nobelprize.org/prizes/economic‐sciences/1974/hayek/facts/ 
Isso em nada altera os 3 pontos do núcleo duro da Teoria do Capital que apresentei
acima. Aliás, o próprio Böhm-Bawerk demonstra que a natureza dos juros reside na
diferença entre bens presentes e bens futuros e não há objeções apresentadas na
Controvérsia de Cambridge quanto a tais pontos. A prova de que a Teoria Austríaca do
Capital permanece relevante está em John Hicks. O próprio, durante o período da
Controvérsia de Cambridge, sentencia:

What we must not abandon are Bohm-Bawerk's (and Menger's) true insights - the
things that are the strength of the Austrian approach. Production is a process, a
process in time. Though there are degenerate forms ( .. .) the characteristic form of
production is a sequence, in which inputs are followed by outputs. Capital is an
expression of sequential production. Production has a time-structure, so capital has a
time-structure. All these things stand; they are not affected. (Hicks, 1973a:100).

Portanto, poderíamos no máximo dizer, com muita boa vontade, que a Controvérsia de
Cambrigde corrigiu certos aspectos periféricos da Teoria Austríaca do Capital proposta
por Böhm-Bawerk, mas não a suplantou totalmente pois não a desmentiu em seu
âmago. Muito longe disso. Como demonstrado, o próprio Hicks (um economista não-
austríaco3) admite a importância de não se abandonar os importantes insights de Böhm-
Bawerk. Mais que isso, Hicks demonstra que falar em capital é falar em estrutura de
produção, uma produção sequencial dada no tempo, ou seja, tudo aquilo que Böhm-
Bawerk já assinalava. Portanto, os 3 pontos centrais da Teoria Böhm-Bawerkiana, que
apresentei acima (1- estrutura heterogênea, 2 - vias de produção indireta e 3 - o processo
de coordenação das distintas etapas indiretas determinada pela preferência intertemporal
dos agentes), conforme avaliação do próprio Hicks, estão corretos e devem ser
mantidos. O próprio Sr. Becker, nas entrelinhas, parece saber disso, tanto é que ele
mesmo abre espaço para a possibilidade de que a teoria não esteja realmente errada,
apenas incompleta. Como iremos demonstrar mais a frente, segundo a abordagem do
Prof. Roger Garrison, existe a possibilidade de taxas múltiplas de retorno e não somente
aquelas apresentadas pelo reswitching. Além disso, há um outro item ainda mais
relevante nessa discussão que é a questão da dimensionalidade do Capital, algo não
observado pelo Sr. Becker.
Mas antes de adentrar esses pontos, não posso deixar de lamentar as afirmações do Sr.
Becker sobre o posicionamento dos austríacos frente ao reswitching. O Sr. Becker fez
graves, anticientíficas e falsas acusações aos economistas austríacos e tais acusações
devem ser imediatamente retiradas a bem do debate sadio.
A grave e equivocada acusação a qual me refiro dada pelo Sr. Becker é: “caro austríaco
que está lendo esse texto, nunca ficou sabendo do reswitching. Isso porque os autores
austríacos tentam esconder esse fenômeno a todo custo, dado que ele representa um
estrago total na TACE.” O Sr. Becker afirma isso com base em quê (além da flagrante e
quase irrecuperável ignorância sobre o específico tema)?

                                                            
3
 Aqui fiz questão de mencionar que John Hicks não é um economista austríaco para evitar que alguém
suspeite da índole de um economista austríaco por supostamente estar “comprometido” ideologicamente. 
O Professor Roger Garrison (Auburn University), um dos maiores representantes da
Escola Austríaca na atualidade, trata abertamente o tema que o Sr. Becker nos acusa de
esconder. O mesmo publicou um artigo intitulado “Reflections on Reswitching and
Roundaboutness”. Além do Prof. Garrison, há trabalhos do Prof. Robert Murphy, do
Prof. Mario Rizzo e do Prof. Gerald O’ Driscoll, só para citar alguns4. Logo, a acusação
do Sr. Becker é falsa e só pode ser reparada com um pedido público e formal de perdão
aos leitores pois estes foram enganados por ele. Com a mesma transparência que afirmo
que Böhm-Bawerk cometeu certos equívocos parciais, espero que o sr. Becker a tenha
igualmente em admitir que acusou a Escola Austríaca de ocultar algo que nunca
ocultou.
Dito isso, cabe-me agora apresentar, de maneira geral, a réplica dos austríacos ao
reswitching conforme demonstrada pelo Prof. Roger Garrison. Selecionei o texto do
Prof. Roger Garrison por considera-lo mais profundo. Como já adiantei, a exposição de
Garrison apresenta dois pontos: possibilidade de taxas múltiplas de retorno (não
somente aquelas abarcadas pelo reswitching) e a questão de dimensionalidade do
capital. O Prof. Roger Garrison afirma: “(...)easily see that if a present value equation
took the form of a polynomial of second-degree (or of some higher degree), there was
the distinct possibility of multiple internal rates of return”
Ainda sobre essas questões, o Prof. Garrison compara sua exposição à de Samuelson e
afirma ter 3 distinções: 1) Ele trabalha com taxas múltiplas de retorno que estão muito
além daquelas supostas pelo reswitching; 2) também trabalha com números mais
realísticos e plausíveis, variando entre taxas de juros de 2% e 8%, enquanto Samuelson
parte para algo muito mais próximo da ficção ou cenários absolutamente anormais, com
taxas de 50% e 100% e 3) ele inicia com taxas múltiplas e, a partir disso, regride para
identificar as características temporais dos projetos exemplificados, apresentando suas
receitas e despesas. Dessa forma, é possível decompor a sequência dos projetos que
exibirão comutação e reswitching, sendo os pontos de comutação ocorrendo nessas
mesmas duas taxas de juros, ou seja, r = 2% e r = 8%. Vou esboçar apenas
conceitualmente a proposta do prof. Garrison, mas sugero veementemente a leitura na
íntegra de seu trabalho pois há muito mais detalhamento. Importantíssimo ressaltar que
o Sr. Becker consegue ser ainda mais irreal que Samuelson. Enquanto Samuelson
trabalha com taxas de juros de 50% e 100%, o Sr. Becker vai ainda mais longe na
imaginação e joga taxas de 75% e 150%. Aqui, como já disse, é apenas uma
apresentação resumida, geral. Vamos a ela:

Objeção 1) Taxas Múltiplas de Retorno

                                                            
4
 http://webhome.auburn.edu/~garriro/garrison.pdf 
 
https://books.google.com.br/books?id=D2K2BQAAQBAJ&pg=PA202&lpg=PA202&dq=reswitching%20Mi
ses&source=bl&ots=DVlLucgm4E&sig=ACfU3U1pgaB74djQg_W9n‐1ApXmgu7_CXQ&hl=pt‐
BR&sa=X&ved=2ahUKEwjP17WarfnhAhVmK7kGHR7fAKsQ6AEwB3oECAUQAQ&fbclid=IwAR0hJy9LnApA
VqCJrsBOOk1E27KpB41ClaYDn0ZQ7K57nRocVWPHgrBK6Xo#v=onepage&q=reswitching%20Mises&f=fal
se 
 
https://mises.org/library/reswitching‐
question?fbclid=IwAR10KsKiO8ScfRI7eBJTaaqz6sU0RNvtLyMdsmvkthujUpetm_fL09k80bs 
Se um cálculo de valor presente produzir duas soluções para a taxa interna de retorno,
digamos r = 2% er = 8%, então esse cálculo deve, em última instância, se resolver na
equação.

(1) (r! 0.02) (r! 0.08) = 0 ou

(2) r! 0.10r + 0.0016 = 0

Reescrevendo para expressar essa equação em termos do fator de desconto (1 + r),


obtemos:

(3) [(1 + r)! 2r! 1]! 0.10r + 0.0016 = 0 2

(4) (1 + r)! 2.10r! 0.9984 = 0 2

(5) (1 + r)! [2.10(1 + r)! 2.10]! 0.9984 = 0 2

(6) (1 + r)! 2.10(1 + r) + 1.1016 = 0 2

Dividindo pela maior potência do fator de desconto (1 + r) coloca a equação do valor


presente 2 na forma padrão:

(7) 1! 2.10/(1 + r) + 1.1016/(1 + r) = 0 2

Finalmente, podemos escalar a equação (7) por 100 para evitar frações de moedas:

(8) 100! 210/(1 + r) + 110.16/(1 + r) = 0 2

Em sua interpretação mais simples (e tomando termos positivos e negativos para indicar
receitas e despesas, respectivamente), a equação (8) representa um projeto de três
períodos que envolve alguma receita inicial.

Uma interpretação espelhada da nossa equação de taxa múltipla é produzida invertendo


todos os sinais:

(9) !100 + 210/(1 + r) ! 110.16/(1 + r) = 0

Os três termos da equação (9) são tomados como recibos (+) ou desembolsos (-) que
caracterizam um único projeto. Suponha, no entanto, que transponhamos o termo
positivo para o outro lado da equação e interpretemos os termos, agora todos do mesmo
signo, representando os desembolsos - mas de dois projetos alternativos, qualquer um
dos quais é um meio de produzir uma dada saída em, digamos, período t3.

(10) !100! 110.16/(1 + r) = ! 210/(1 + r)

A Equação (10) sugere que existe alguma taxa (ou taxas) de juros para a qual os valores
atuais dos gastos são os mesmos para ambas as técnicas. A solução para a Equação (10)
é, por construção, idêntica à solução para as equações (8) e (9). Ou seja, as duas técnicas
têm os mesmos custos, calculados como o valor presente dos gastos, quando o custo do
empréstimo é de 2% e quando é de 8%. Em todas as outras taxas, uma técnica terá uma
vantagem de custo sobre a outra. Como custos relativos das duas técnicas Cb/Ca, é dada
pela equação 11.

(11) Cb/Ca = 100 + 110.16/(1 + r)2 100 (1 + r)2 + 100 . 16


______________________________ = ______________________________

210 / (1 + r ) 210 / (1 + r )

Novamente insisto que aqui cabe apenas o resumo da objeção de Garrison, contendo
apenas conceitualmente sua exposição. Ele realiza os cálculos com as taxas de 2% e 8%,
assim como constrói gráficos para permitir ao leitor melhor visualização. Depois de sua
explicação sobre como é possível termos retornos múltiplos, o Prof. Garrison lança uma
questão: “qual dos dois projetos definidos possui mais capital intensivo ou o mais
roundaboutness?” No exemplo de Garrison, a técnica B tem um input anterior a A, mas
o esforço associado a esse input é apenas $100. O gasto associado ao input inicial da
técnica A é $ 210, mas esse input pode ocorrer um período depois. A relação entre
tempo e dinheiro é densa o suficiente para que não seja possível dar uma resposta
simples para o pergunta sobre intensidade de capital e rotatividade.

No entanto, prossegue ele, se uma das técnicas devem ser declaradas mais intensivas em
capital (mais rooundaboutness) do que outra, então uma das duas trocas de técnica
estará em desacordo com sabedoria neoclássica e austríaca convencional. Garrison
exemplifica dando a suposição que a Técnica B seja mais roundaboutness. Uma taxa de
juros a 9% que descresce até 5% provocará uma mudança (da Técnica A para a Técnica
B) que é consistente com a sabedoria de Böhm Bawerk, isto é, uma taxa de juros mais
baixa favorece processos mais a roundaboutness de métodos de produção. Ao passo que
uma queda contínua da taxa de juros de 5% para 1% vai provocar um reswitching que é
contrário ao que Böhm-Bawerk afirmava. Esse é o ponto que faz muitos economistas,
de maneira apressada, concluírem que a Teoria Austríaca do Capital deva ser
inteiramente descartada.
Em outras palavras, é possível observar, através da exposição de taxas múltiplas, que
sob determiandas condições, a exposição de Böhm-Bawerk continua acertada; desse
modo, não inviabiliza por completo a sua Teoria do Capital. É louvável os esforços dos
acadêmicos de Cambridge, mas, o máximo que eles conseguiram fazer foi
complementar alguns pontos não comtemplados por Böhm-Bawerk. Com isso, Prof.
Garrison conclui sua primeira parte da objeção dizendo:

The greater point in offering my own hypothetical example, which in many


respects parallels Samuelson’s hypothetical example, is that the framework of
analysis here is not Cambridge capital theory at all but rather engineering
economics. And, as we will see, my framework is heavy on engineering (or rather
on present-value calculations) and light on economics. The key difference between
Cambridge, U.K. and Rolla, MO (where I studied engineering) stems, once again,
from the issue of the appropriate units for measuring capital. (Garrison, 2006, p.10)


Objeção 2) Aspectos Dimensionais do Capital
Já dissemos aqui que a Teoria do Capital apresentada pela Escola Austríaca leva em
consideração etapas produtivas no tempo. Considerando isso, é possível compreender
que dependendo das taxas de juros, a estrutura do capital pode se alargar ou encolher
devido o nível de S ou I. Além disso, as decisões dos agentes é pautada no sistema de
preços e nisso se avalia se há S demais e I de menos ou vice-versa. Vejamos um esboço
da dimensionalidade do capital segundo F.A Hayek descreve em The Pure Theory of
Capital:

Percebam que há grande preocupação em demonstrar a estrutura do capital no tempo e


como ela se modifica conforme o avanço das distintas etapas produtivas no processo de
formação do capital. Agora vejamos o que é dimensionalidade do capital para o
mainstream:

Isso mesmo, é um grande K. Isso significa capital dentro dos modelos tão celebrados na
economia maisntream representado por Q = f (K, L). Não se considera heterogeneidade,
não se considera vias indiretas produtivas, coordenação via preferência intertemporal,
modificações na estrutura produtiva, nada disso. É apenas um K. E assim os
economistas mainstream se enganam e enganam o público achando que têm alguma
coisa realmente consistente a dizer sobre Teoria do Capital. Essa negligência por parte
de muitos economistas convencionais é uma das maiores queixas dos austríacos em
relação a abordagem mainstream sobre o capital, incluindo a do Prof. Roger Garrison.
Apresentado os pontos gerais do prof. Roger Garrison, é preciso superar uma
dificuldade: “Mas se a TAC precisava de ajustes, como a TACE conseguiu prosseguir
intacta?”. Acontece que a TACE é mais vasta que o Sr. Becker supôs. Ele não abordou
outros pontos também cruciais da Teoria dos Ciclos.
O Verdadeiro Framework da TACE e Os Pontos Ignorados pelo Sr. Becker
Como demonstrado na seção anterior, embora algumas inconsistências cometidas por
Böhm-Bawerk, o tripé que sustentava sua Teoria do Capital não foi totalmente
desmontado. Além disso, novamente chamo atenção ao que o próprio Sr. Becker
afirmou sobre a Controvérsia de Cambridge: “Poucas foram as conclusões chegadas
nessa controvérsia”. Portanto, os equívocos parciais de Böhm-Bawerk não foram o
suficiente para desabilitar por completo nem a Teoria Austríaca do Capital (como
destacado por Hicks e posteriormente desenvolvida por Garrison e outros) como
também tais equívocos não chegaram a impossibilitar de nenhuma forma o avanço
teórico de Hayek sobre a TACE. E isso tem uma razão: a Teoria Austríaca do Capital
não é a única a sustentar a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, ela é apenas um de
seus aspectos. A ligação entre ambas, conforme Bernardo, Meyer e Nori (2019) é:
(...) os diferentes estágios indiretos não irão se desenvolver sob a mesma
constante. Portanto, para sincronizar esses estágios – também podendo ser entendidos
como classes de maturação – é necessário o estabelecimento das preferências
intertemporais dos agentes econômicos através das forças interativas do mercado. Um
fator externo, como, por exemplo, intervenção nas taxas de juros via política
monetária, irá alterar a preferência temporal dos agentes, fator este que coordena os
diferentes estágios produtivos, criando distorções na estrutura do capital. Eis o elo
para a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, elaborada primeiramente por Mises e
desenvolvida por Hayek, que será exposta posteriormente. (BERNARDO, MEYER,
NORI, 2019)

Nota-se aqui algo pouco observado pelos economistas mainstream: preços relativos
funcionando como mecanismos de transmissão de informações que, por sua vez, balizam
as decisões dos agentes. Conforme eu demonstro no livro “Diálogos Entre a
Comunicação, Filosofia e Tecnologia: Reflexões sobre tecnologia, religião e sociedade
nas práticas comunicacionais contemporâneas5”, imagine a economia de mercado como
um sistema de comunicação dinâmico onde há emissores e receptores preço nada mais é
que a informação. Logicamente, devido ao dinamismo que mencionei, um emissor torna-
se, noutro momento, receptor e vice-versa. Todos trocam informações ao interagirem no
mercado. Essas informações são simbolizadas pelos preços. Mas que informações os
preços expressam? Os preços revelam o nível de escassez dos bens. Dito isso, conclui-se
que manipulação no sistema de preços (e juros nada mais é que o preço do capital no

                                                            
5
 https://www.fapcom.edu.br/wp‐content/uploads/2019/04/E‐book‐Di%C3%A1logos‐entre‐a‐
comunica%C3%A7%C3%A3o‐filosofia‐e‐tecnologia.pdf 
decorrer do tempo) ocasionará distorções na leitura dos agentes sobre o nível de escassez
dos bens, conduzindo-os a alocações equivocadas dos recursos.
Ou seja, fatores exógenos ao mercado podem causar distúrbios na economia, sobretudo
na estrutura do capital. É de extrema importância enfatizar que as distorções na estrutura
do capital ocorrem de maneira disforme, ou seja, cada etapa do processo produtivo (desde
bens de ordens superiores aos bens de primeira ordem) é distorcido de maneira distinta
pois cada estágio possui sua própria dinâmica, por isso os austríacos afirmam que o capital
possui estrutura heterogênea. Essas distorções na leitura dos agentes é a chave para
rebater a crítica do Sr. Becker sobre a falsa ideia de que “a TACE ignora as expectativas”.
Acontece que juros baixos emitem sinal de que é viável aos empresários aumentarem os
investimentos, assim como também é dado o estímulo para que os consumidores
comprem mais. Essa é a fase do boom. Creio não haver grandes divergências nessa fase
entre mim e o Sr. Becker, pois o próprio modelo IS-LM (elaborado por John Hicks)
demonstra que políticas monetárias expansionistas – em cenários considerados “normais”
– tendem a aquecer a economia. Portanto, há o momento do boom. Todavia, a expansão
monetária tem seu efeito colateral: a inflação. Também nesse quesito creio não haver
grandes divergências com o Sr. Becker, afinal o próprio Friedman afirma que inflação é
um fenômeno monetário. Mas aqui está o ponto crucial do não entendimento do Sr.
Becker sobre a influência dos preços relativos na ação dos agentes econômicos: a inflação
distorce os preços e, consequentemente, distorce a avaliação dos agentes sobre quais os
setores são mais rentáveis ou sustentáveis. Como a inflação é um fenômeno que se espalha
tal qual o derramar de mel em um pires, isto é, atingindo primeiro um ponto específico
para depois espalhar-se lentamente, o efeito em cadeia sobre os diferentes setores
produtivos se dará de maneira disforme.
O Sr Becker diz “Os austríacos curiosamente exercer um tipo de doublethink quando, em
um momento, eles descrevem os empresários como seres dotados de visão
empreendedora sobre todas as condições geradas pelo mercado, mas em outro momento
acham que os empresários são incapazes de prever coisas simples como a política
monetária do governo.” Tal afirmação chega a ser constrangedora, pois em nenhum
momento os economistas austríacos afirmam que os empresários conhecem todas as
condições geradas pelo mercado, justamente pelo contrário! Se o Sr. Becker tivesse de
fato empenhado seriamente em apresentar uma resposta minimamente satisfatória, teria
lido The Use of Knowledge in Society, de F.A Hayek. O pensador austríaco afirma que
os agentes possuem apenas fragmentos de informações condizentes a cenários específicos
de tempo e lugar e estes mesmos agentes, imersos em um ambiente de incerteza, atuam
no mercado. Mises também enfatiza como nenhum agente pode deter todas as condições
geradas pelo mercado, basta ler Ação Humana sobre a questão de incerteza. Não há
nenhum austríaco que afirme algo que o Sr. Becker diz. Em outras palavras, o Sr. Becker
é falho na exposição.
Sobre o segundo aspecto dos empresários preverem cenários de inflação e se
programarem ajustando o nível de produção, acontece que, de fato, expansão monetária
aquece a economia e há aumento de preços sustentado pelo crescimento efetivo. Como
disse, os agentes se baseiam nos preços como informações sobre escassez dos bens. Há
contínua elevação nos preços ao longo do tempo, porém, esse contínuo crescimento
ocorre em momentos distintos por motivos distintos. Em um primeiro momento, os preços
aumentos puxados pela demanda; em um segundo momento, os preços aumentam devido
uma bolha inflacionária. Conseguir distinguir o momento exato, de maneira cirúrgica,
perfeitamente absoluta, onde os preços continuam subindo por razões diferentes requer
supor que os agentes possuem conhecimento perfeito, algo totalmente contrário à
realidade. Em outras palavras, somente um ser onisciente conseguiria cravar com
perfeição quando o aumento de preços deixa de ser dado pelo aumento de demanda e
passa a ser dado por efeitos puramente inflacionários, afinal os agentes estão imersos em
um ambiente de incerteza. E mesmo que fosse possível se preparar para cenários onde a
demanda cai, mas os preços continuam subindo, caímos novamente no problema do
processo de formação do capital: investimentos iniciados no momento do boom se
mostrarão insustentáveis no longo prazo, portanto não há meios de voltar atrás. O
processo de reajuste dos empresários, nessa etapa, passa a ser cortes ou até mesmo
falência (causando o efeito concertina, como iremos esboçar mais a frente). Sendo assim,
não há nenhum “doublethink”; os agentes econômicos se baseiam, via de regra, pelos
preços para tomarem suas decisões. Os austríacos não apenas relatam um cenário onde o
boom simplesmente antecede o bust; na verdade, o boom conduzido por políticas
monetárias expansionistas é a causa do bust. Novamente, Sr. Becker se mostra falho na
compreensão dos postulados austríacos. Talvez os adeptos da economia mainstream se
perguntem: “Mas como é possível uma pequena alteração nas taxas de juros por parte dos
Bancos Centrais causarem tamanha distorção?” Eis o segundo aspecto da Teoria Austríaca
dos Ciclos que o Sr. Becker simplesmente ignorou: a ligação entre a Teoria de Juros de
Knut Wicksell e a TACE. O Prof. Soromenho afirma:

A influência de Wicksell na teoria dos ciclos de Hayek é amplamente reconhecida na


literatura. Em Prices and Production (1935), obra na qual Hayek expôs a sua teoria ao
público inglês, os conceitos wicksellianos de taxas natural e monetária de juros
constituem a base analítica da explicação das flutuações econômicas. (...) A sua teoria,
na verdade, abriu um conjunto de questões teóricas e de possibilidades lógicas que
seriam trilhadas posteriormente por Hayek. (SOROMENHO, 1995)

Ou seja, existe clara ligação entre a TAC e a TACE, no entanto, a TACE, além da TAC,
se sustenta na Teoria Wickseliana de Juros e na Teoria Monetária de von Mises. O Sr.
Becker deveria ter se atentado a isso, pois ele não cobriu toda a extensão da TACE e achou
de forma ingênua que conseguiu responde-la. Conforme Hayek, a discrepância entre taxas
naturais e taxas de mercado podem levar à sérias flutuações. Percebam como a Teoria
Austríaca dos Ciclos prossegue de maneira lógica e coerente em todos os momentos,
mesmo em backgrounds distintos: novamente aqui falamos de deformações no sistema
de preços ocasionadas por manipulação governamental nas taxas de juros. Também aqui
falamos sobre alteração das preferências intertemporais, uma vez que estamos falando de
juros, cuja natureza é a diferença valorativa entre bens presentes e bens futuros.
Novamente aqui temos a questão dos preços carregarem o nível de escassez: no caso dos
juros, o nível de escassez é sobre a poupança. Baixas taxas de juros levam os agentes a
crerem que o nível de poupança está elevado e o nível de investimentos não. Há, no
entanto, uma enorme diferença entre taxas de juros baixas pois o nível real de poupança
está elevado e taxas de juros baixas por conta da expansão de crédito. A primeira não
ocasiona malinvestments; enquanto a segunda, sim. Prossegue o Prof. Soromenho (1995):

Adotando o modelo de crédito puro wickselliano, Hayek iria supor que o aumento
do poder de compra ocasionado pela redução da taxa monetária não se distribuía
uniformemente por todos os agentes. Ele era direcionado para os empresários, cuja
propensão a poupar era mais elevada, o que alterava a taxa de investimento da
economia como um todo. O enfoque passaria a ser, então, os efeitos reais
ocasionados pelo crédito; uma possibilidade aberta por Wicksell, mas por ele não
explorada.

O efeito que Soromenho menciona nada mais é que o Efeito Ricardo, já exposto
anteriormente na nossa página, mas iremos reforçar. Conforme o Prof. Ubiratan Jorge
Iorio, a estrutura do capital pode se alargar ou encolher conforme o comportamento das
taxas de juros. No entanto, esse “alargar ou encolher” não pode ser pensado de maneira
simplória como um grande agregado homogêneo. Os efeitos do movimento do capital é
diferente em cada estágio indireto de produção. Haverá uma espécie de cabo-de-guerra
entre bens de primeira ordem e bens de ordens superiores, onde algum desses estágios
estará defasado. Como o Sr. Becker está viciado em pensar em termos agregados, ele
simplesmente supôs que os desempregados em um setor simplesmente migrariam para
outro, algo impensável dentro do escopo austríaco pois cada estágio está interligado e
possui necessidade do outro para poder existir. Foi o exemplo que o Matheus Golfe deu
recentemente em nossa página sobre como é necessário ter todos os estágios de via
indireta presentes. Há uma fina sintonia entre eles e se um estágio se torna desafado, os
demais irão sentir um efeito em cadeia. Explica Ubiratan Jorge Iorio:
Tomemos o caso de uma expansão na oferta de moeda. Ela reduz a taxa de
juros, o que aumenta o grau de roundaboutness, isto é, acontece um
alargamento da estrutura de produção. Com isso, os preços dos bens finais irão
subir comparativamente aos preços dos bens mais distantes do consumo final,
o que elevará os rendimentos nos setores produtores dos primeiros e provocará,
assim, a redução no grau de roundaboutness. Hayek denominou isto(...) de
efeito Ricardo que, em sua formulação original, referia-se à substituição de
mão-de-obra (fator de produção de curto prazo) por capital (fator de produção
de longo prazo), em decorrência de uma redução nas taxas de juros. Mas, para
Hayek e os austríacos, a substituição relevante não é entre “homem” e
“máquina”, mas entre bens de capital de ordens menos elevadas e de ordens
mais elevadas ao longo da estrutura de capital (IORIO, 2011, p.180).

De um jeito ainda mais simples, podemos dizer que numa economia capitalista,
certamente o capital e a maneira como se dá sua produção se torna o item indispensável
para compreensão da dinâmica do sistema. Não é trivial supor que desestruturar o
processo de formação do capital trará enormes consequências para um tipo de economia
cuja sustentação e fundamentação está no próprio capital! O Sr. Becker desconsidera
completamente os efeitos de uma política monetária expansionista na distorção do
processo de formação dos conjuntos intermediários que perfazem as vias indiretas
produtivas cujo seu fator coordenador é a preferência intertemporal dos agentes
econômicos simbolizada pelas taxas de juros. Vale dizer que a distorção ocorre por
fatores exógenos, ou seja, taxas de juros reduzidas por aumento real de poupança não
causa tal desestruturação. A partir disso, o Sr. Becker decide falar sobre o PIB e taxas
de desemprego e novamente se mostra ignorante nos postulados austríacos e tenta de
maneira desastrosa compreendê-la por pressupostos keynesianos que são justamente
opostos ao arcabouço teórico austríaco. Ou seja, o Sr. Becker pretende para a esquerda
afim de tentar explicar a direita e mostra-se sem senso de direção algum. Há um livro de
F.A Hayek chamado Política Monetária e Desemprego, por isso ele, de forma
esquizofrênica, tenta jogar palavras na boca dos austríacos dizendo que nos referimos a
desemprego friccional, ainda mais durante 1929. Ao contrário do que é
convencionalmente ensinado como um trade-off entre desemprego e inflação, Hayek
sempre apontou que é uma relação falsa pois a inflação mais alta sustenta empregos e
setor que não poderiam se sustentar em situações normais de competição de mercado.
Emprego em determinados setores impulsionados por expansão monetária são frágeis e
tendem, assim que surge o bust, a serem expurgados. É essa a explicação que os
austríacos dão para o aumento do desemprego que, após o crash da bolsa de 1929,
atingiu 9%. No entanto, e isso já foi dito, o economista Thomas Sowell alega que na
metade de 1930 o desemprego já havia caído a 6%. Porém, com o início de sucessivas e
equivocadas intervenções estatais na economia, a taxa de desemprego subiu e não se
manteve abaixo dos dois dígitos durante praticamente toda a década 19306. Aliás, me
impressiona que o Sr. Becker não tenha feito tal distinção. Igualmente impressionante é
que o mesmo tentou, como um truque desesperado, atribuir falsamente aos austríacos
argumentos que nunca apresentamos. Conforme exaustivamente havíamos falado, para
os austríacos, a crise de 1929 foi ocasionada pela expansão do crédito. Sim, sabemos
que os monetaristas têm outra versão, no entanto é preciso dizer que tanto para
austríacos quanto para monetaristas, a situação econômica se agravou somente após os
anos 1930 quando houve crescente intervenção estatal na economia. A ânsia em
discordar de tudo faz o Sr. Becker não perceber até pontos convergentes entre as
diferentes abordagens.
Algumas Evidências Empíricas sobre a TACE

Sobre a última objeção do Sr. Becker de que a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos
não se sustenta em evidências empíricas, basta lamentar pois há inúmeras pesquisas
demonstrando o oposto. Para não cansar o leitor, apenas citarei algumas pesquisas que
levantei de maneira bem rápida, ou seja, sem grande esforço, apenas com seriedade em
buscar fontes acadêmicas e que derrubam a afirmação do Sr. Becker. Colocarei os links
em nota de rodapé, na mesma ordem de citação, para facilitar o acesso a quem deseja
depois conferir7. Temos 1) “An empirical examination of Austrian business cycle

                                                            
6
 Isso já foi dito em nossa página no Facebook. Para pesquisar, basta ir no Youtube e procurar “Thomas 
Sowell crise 1929”. 
7
 https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs12113-006-1009-x?LI=true

https://link.springer.com/article/10.1007/s11138-009-0084-6
theory”, de Robert Mulligan; 2)“Austrian business cycle theory: Empirical evidence”,
de Francis Bismans e Christelle Mougeot; 3) “The recession and Austrian business
cycle theory: An empirical perspective”, de William Buttos; 4) “Detrending, stylized
facts and the business cycle”, de Harvey e Jaeger; 5) “Empirical Evidence on the
Austrian Business Cycle Theory”, de James Keeler; 6) “Is the Austrian business cycle
theory still relevant?”, de Anthony M. Carilli e Gregory M. Dempster; 7) “An empirical
application of the EVA framework to business cycles”, Nicolás Cachanosky e Peter
Lewin; 8) “The Austrian business cycle: A vector error-correction model with
commercial and industrial loans”, novamente de Mulligan; 9) “Puzzling over the
anatomy of Crises: Liquidity and the Veil of Finance”, de Guillermo Calvo, além de
meu artigo já mencionado sobre a Escola Austríaco na História do Pensamento
Econômico apontando prováveis correlações entre políticas monetárias expansionistas e
períodos de boom and bust decorrentes e tal política econômica, como é o caso da
pesquisa de Monica Mora sobre a expansão de crédito no Brasil durante os anos 2003 a
2010, expansão essa que continuou acelerada por mais 3 anos e, em 2015, tivemos uma
das mais fortes recessões da história do país. Uma breve procurada no Google
Acadêmico teria evitado que o Sr. Becker tivesse apontado tão falsa acusação. Inclusive
Jerry Tempelman, um economista mainstream, chega a confessar que a Escola
Austríaca teve maior aprofundamento sobre a compreensão da crise de 20088.
Ou seja, até mesmo um economista mainstream, como Tempelman se identifica,
reconhece que a TACE possui um detalhamento mais refinado. Poderia dizer até que a
TACE, formulada nos anos 1930, antecipou postulações que só viriam a ser
reconhecidas após 1970 com os modelos microfundamentados construídos para passar
na Crítica de Lucas. Dito de outro modo, a Escola Austríaca possui análise
macroeconômica com fundamentação micro desde sua origem em 1870, algo que só
viria a ser assimilado pelos economistas convencionais após 1970, ou seja, com 100
anos de atraso. Sobre a questão do detalhamento, colocamos cerca de 10 artigos apenas
para mostrar que não é tão bem assim que a TACE não está ancorada em dados
empíricos. Mas em vez de demonstrar os resultados de um por um, selecionei apenas
um deles abarcando o final da década 1950 até o início dos anos 2000 e demonstrando

                                                            
https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08913819308443300
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/jae.3950080302

https://pdfs.semanticscholar.org/6914/56d9ecbb3d5882fb3107d8b848246878b798.pdf

https://link.springer.com/article/10.1007/s11138-008-0044-6

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S105833001530080X

https://www.researchgate.net/publication/228320992_The_Austrian_Business_Cycle_A_Vector_Error-
Correction_Model_with_Commercial_and_Industrial_Loans
8
 “To be sure, a financial crisis of sorts had also been forecast by many non‐Austrian economists, such as 
Nouriel roubini and Stephen roach. But their predictions tended to focus more on macroeconomic 
imbalances such as the current account deficit or the federal government debt. White and other 
Austrians, on the other hand, were more precise in predicting that a crisis would be triggered by a 
collapse of an asset bubble, specifically the real estate bubble.“ 
como expansão de crédito causa flutuações econômicas. E sim, quanto mais agressivas
são essas expansões maior a tendência do boom and bust ter oscilação maior. Claro que
certas medidas de política econômica podem suavizar ou agravar o que vem depois, isso
ninguém discordaria. No caso de 1929, a política econômica pós Crash da Bolsa
agravou e prolongou a crise. Em 2008, a medida econômica, na visão dos austríacos,
conseguiu driblar a crise no primeiro momento, mas apenas para empurrá-la para frente.
Ou seja, para os austríacos, o governo Obama não resolveu o problema, apenas o adiou.
Voltando ao trabalho de Mulligan, o mesmo diz que a TACE (Em inglês ABC) possui
grande robustez para explicar questões cíclicas, principalmente no que concerce
questões qualitativas9. Outro motivo para eu selecionar a pesquisa dele é por pegar
períodos que estão além da crise 1929 e 2008. Embora valha a ressalva que essas duas
crises terá uma observação no decorrer desta apresentação. A intenção aqui é
demonstrar como a TACE pode ter amplitude pois muitos pesquisadores se concentram
apenas nas grandes crises e esquecem as crises menores. A TACE pode explicar tanto as
maiores crises (29 e 08) como também pode servir para compreensão de crises menores
(como as pequenas recessões nos anos 1960) Os dados que Mulligan se baseia são todos
do FED e o período observado vai de 1959 a 2003 e as variáveis examinadas são: a
relação entre produto real, consumo, investimento e empréstimos comerciais e
industriais reais. Quando um crédito adicional é injetado no sistema bancário de
reservas fracionárias, a taxa de juros é reduzida e os bancos comerciais aumentam os
empréstimos comerciais e industriais acima e além da poupança agregada. A produção
torna-se mais rotatória e mais demorada - e intensiva em capital - à medida que os
gerentes empreendedores realocam os recursos dos bens de consumo para os bens de
produção. Este artigo testa explicitamente as principais afirmações da teoria ABC, de
que aumentar o crédito disponível para além da poupança real baixa, em vez de
aumentar, a produção real e a despesa de investimento real. A Tabela 2 apresenta os
testes unitários raiz-raiz de Dickey-Fuller (1979) e Phillips-Perron (1988) para cada
variável. Os resultados aumentados de Dickey-Fuller com 48 lags indicam produção,
investimento e empréstimos comerciais e industriais são todos I (1), mas esse consumo
pode ser 1 (2) ou integrado de ordem superior. Testes Phillips-Perron indicam todas as
variáveis são I

                                                            
9
 “In marked contrast to orthodox neoclassical and Keynesian accounts of the business cycle, ABC theory 
presents a consistent and coherent explanation of the causes and propagation mechanisms of the 
business cycle. Though more typically qualitative than quantitative, the explanatory successes of ABC 
theory have proved robust over an impressive time period and range of specific applications.” 
A Tabela 3 apresenta os testes de Johansen-Juselius para cointegração. Os resultados do
teste de rastreio, uma razão de verossimilhança, indicam uma relação estável e
cointegrada entre o sistema de quatro variáveis macroeconômicas com três vetores de
cointegração.
 
 
 

A metodologia de correção de erros distingue entre efeitos permanentes ou de longo


prazo medidos pelas estimativas dos coeficientes dos vetores de cointegração, e efeitos
transitórios ou de curto prazo medidos pelos coeficientes do processo de ajuste de
desequilíbrio. Primeiro, considere os relacionamentos de longo prazo. A estimativa do
modelo de correção de erro de vetor (VECM) é relatada na Tabela 4. Para facilitar a
interpretação, os três vetores são resolvidos para produção, consumo e investimento,
cada um deles explicado por empréstimos comerciais e industriais. Essas três equações
estruturais podem ser consideradas como relações de longo prazo que identificam um
equilíbrio para o qual o processo de correção de erros se ajusta após qualquer
perturbação exógena.
 
 

As perturbações exógenas citadas por Mulligan são as mesmas citadas por F.A Hayek
em Prices and Production and Other Works (2008), ou seja, expansão de crédito que
conduz, em um primeiro momento, ao boom, mas, no segundo momento causa o bust.
Como já demonstrado, há cerca de 10 artigos que citei, isso por ter feito um breve
apanhado de artigos que mostram dados empíricos sustentando a TACE. Apresentei
apenas algumas tabelas de Mulligan. Há também questões sobre sucessivas diminuições
das taxas de juros durante 1921 a 1927 (com a crise em 1929) e 2001 a 2007 (com crise
em 2008).

De acordo com Hayek, os ciclos se iniciam com a expansão de crédito. Conforme dados
da Federal Reserve10, de 1921 até 1927, houve redução das taxas de juros de 6% a 3,5%,
ou seja, uma redução superior a 41% em apenas 6 anos e, em 1929, veio a crise.

Em 2001, a mesma política de redução de juros para estimular a economia foi tomada
pela Federal Reserve11. Em relatório do próprio Federal Reserve apresentado ao
Congresso Norte Americano é dito:

The devastating events of September 11 further set back an already fragile


economy. Heightened uncertainty and badly shaken confidence caused a
widespread pullback from economic activity and from risk-taking in financial
markets, where equity prices fell sharply for several weeks and credit risk

                                                            
10
 FED. Disponível em: https://fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=cdSb. 
11
 FED. Disponível em: https://www.federalreserve.gov/boarddocs/hh/2002/February/FullReport.pdf. 
spreads widened appreciably. The most pressing concern of the Federal Reserve
in the first few days following the attacks was to help shore up the infrastructure
of financial markets and to provide massive quantities of liquidity to limit
potential disruptions to the functioning of those markets. The economic fallout
of the events of September 11 led the Federal Open Market Committee (FOMC)
to cut the target federal funds rate after a conference call early the following
week and again at each meeting through the end of the year 12.

Foi a maior queda das taxas de juros em décadas13, caindo de mais de 5,5% em 2001 a
1% em 2003, e se mantendo neste patamar até 2005. A economia experimentou sua fase
de boom, mas em 2007, a economia já dava sinais de crise e em 2008, veio a recessão.
Há muito mais apontamentos empíricos, tabelas, gráficos etc. Mas creio ser o suficiente,
inclusive para não cansar o leitor. Não pode deixar de citar um levantamento feito por
Walter Block, onde ele demonstra que praticamente 30, isso mesmo 30 estudiosos da
Escola Austríaca conseguiram prever a crise de 2008, algo que muitos economistas
consagrados no mainstream jamais imaginaram. Destacaria a previsão de Ron Paul, pois
foi uma das primeiras, senão a primeira. Em 2003, Ron Paul já havia avisado sobre a
bolha no setor imobiliário, a distorção no mercado causada pelo aumento de crédito e
como as pessoas perderiam suas casas. Disse Ron Paul:

Ironically, by transferring the risk of a widespread mortgage default, the government


increases the likelihood of a painful crash in the housing market. This is because the
special privileges granted to Fannie and Freddie have distorted the housing market
by allowing them to attract capital they could not attract under pure market
conditions. As a result, capital is diverted from its most productive use into housing.
This reduces the efficacy of the entire market and thus reduces the standard of living
of all Americans. Despite the long-term damage to the economy inflicted by the
government’s interference in the housing market, the government’s policy of
diverting capital to other uses creates a short-term boom in housing. Like all
artificially-created bubbles, the boom in housing prices cannot last forever. When
housing prices fall, homeowners will experience difficulty as their equity is wiped
out. Furthermore, the holders of the mortgage debt will also have a loss. These
losses will be greater than they would have otherwise been had government policy
not actively encouraged over-investment in housing.

Em entrevista realizada depois da crise de 2008, quando o repórter perguntou como Ron
Paul havia previsto a crise, sua explicação foi que ele estuda Escola Austríaca enquanto
a maioria dos outros congressistas ficam presos em análises mainstream. Isso o permitiu
entender a economia e o rumo que ela estava tomando.

                                                            
12
 Os eventos devastadores de 11 de setembro atrasaram ainda mais uma economia já frágil. A incerteza 
aumentada  e  a  confiança  abalada  causaram  um  retrocesso  generalizado  da  atividade  econômica  e  da 
tomada de riscos nos mercados financeiros, onde os preços das ações caíram acentuadamente por várias 
semanas e os spreads de risco de crédito aumentaram sensivelmente. A preocupação mais premente do 
Federal Reserve nos primeiros dias após os ataques foi ajudar a fortalecer a infraestrutura dos mercados 
financeiros  e  fornecer  enormes  quantidades  de  liquidez  para  limitar  possíveis  interrupções  no 
funcionamento desses mercados. As consequências econômicas dos eventos de 11 de setembro levaram 
o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) a cortar a taxa básica de juros após uma teleconferência no 
início da semana seguinte e novamente em cada reunião até o final do ano.  
13
 FED. Disponível em: https://fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=jcUs 
Conclusão
Ao que tudo indica, o Sr. Becker se precipitou ao tentar criticar algo que ele sequer
esboçou em seu artigo. Essa precipitação o conduziu, de maneira natural e fatal, a erros
sobre a compreensão da Teoria Austríaca. Além disso, conforme demonstrado sobre a
Controvérsia de Cambridge, o reswitching é facilmente respondido pela Taxa Múltipla
esboçada por Garrison, onde não só as suposições são imensamente mais reais (2% e
8% de juros contra 50% e 100% ou 75% e 100%), como também demonstra que Böhm-
Bawerk, a depender da maneira de como se procede a Técnica, tem certa razão. Em todo
caso, como dito pelo próprio Sr. Becker, as próprias discussões da Controvérsia de
Cambridge não foram muito conclusivas e mesmo um economista mainstream da
envergadura de John Hicks salientou que não se deve abandonar os insights de Böhm-
Bawerk acerca da Teoria do Capital. Se a Controvérsia de Cambridge não serviu para
abalar a TAC, muito menos invalidaria a TACE já que esta se baseia não só na TAC,
mas em outros aspectos como os choques causados a partir da discrepância entre taxas
de juros naturais e taxas de juros de mercado, conforme os postulados wickellianos.
O Sr. Becker também apresentou grande confusão ao supor que a TACE tentaria
explicar o desemprego de 25% nos EUA como se fosse friccional, algo que nenhum
austríaco disse. O que a EA afirma é que políticas monetárias expansionistas causaram a
crise. Ponto. Mas, à partir da crise, sucessivos erros na condução de política econômica
agravaram a situação durante a década 1930, algo que os próprios monetaristas
argumentam. O Sr. Becker quis causar polêmica justamente em um dos pontos onde
nunca houve por não compreender devidamente aquilo que os austríacos dizem. Ou
seja, o Sr. Becker se baseia muito mais naquilo que ele acha ser os argumentos da EA
do que se baseia naquilo que realmente a EA afirma. Por fim, conforme demonstrado,
há pesquisas ancorando a TACE em dados empíricos o suficiente para aniquilar a
suposição do Sr. Becker de que a Teoria Austríaca dos Ciclos não se relaciona com
dados empíricos. Cerca de 10 pesquisas foram citadas dizendo o contrário.

REFERÊNCIAS
**Não colocarei as referências em norma ABNT pois não é um trabalho acadêmico,
mas as colocarei de modo a facilitar aos leitores a pesquisa caso queiram conferir. A
ordem das referências está de acordo com o texto. Também não colocarei todas as
referências pois algumas já estão em nota de rodapé. Deixo aqui apenas as principais.
BERNARDO, NORI, MEYER. A Escola Austríaca de Economia na História do
Pensamento Econômico. Seminário Universidade Estadual Norte do Paraná, 2018.
MURPHY. The Reswitching Question, Mises Institute, 2003. Disponível em:
https://mises.org/library/reswitching-
question?fbclid=IwAR10KsKiO8ScfRI7eBJTaaqz6sU0RNvtLyMdsmvkthujUpetm_fL
09k80bs
BAWERK. Teoria Positiva do Capital. Nova Cultural, 1986.
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1975.
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GARRISON. Reflections on Reswitching and Roundaboutness. Auburn University,
2006. Disponível em: http://webhome.auburn.edu/~garriro/garrison.pdf
HAYEK. The Pure Theory of Capital. Mises Institute, 2009. Disponível em:
https://mises.org/sites/default/files/Pure%20Theory%20of%20Capital_4.pdf
BERNARDO, ANDRADE, FERREIRA. blockchain e iot: uma análise de aplicação e
aperfeiçoamento do ambiente digital. FAPCOM, 2019.
SOROMENHO. Wickell e a Teoria Austríaca dos Ciclos. Estudos Econômicos, 1995.
IORIO. Ação, Tempo e Conhecimento. Instituto Mises Brasil ,2011

FEDERAL RESERVE. Full Report, 2002. (Aqui é para mostrar como Políticas
Monetárias Expansionistas foram adotadas no início dos anos 2000. Em 2008, veio a
crise). Disponível em:
https://www.federalreserve.gov/boarddocs/hh/2002/February/FullReport.pdf.

MORA. A Evolução do Crédito no Brasil entre 2003 a 2010. IPEA, 2014. Disponível
em:
http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=24295

MULLIGAN. An Empirical Examination of Austrian Business Cycle Theory. Quartely


Journal of Austrian Economics, 2006.
BLOCK, Walter. Who Predicted the Housing Bubble? Site Lewrockwell.com em 22 de
Dezembro de 2010.
Disponível em:
http://www.ronpaulcurriculum.com/members/BlockHousingBubble.pdf
PAUL. Fannie and Freddie. House Financial Services Committee, 2003. Disponível em:
https://www.lewrockwell.com/1970/01/ron‐paul/fannie‐and‐freddie/