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Horta comunitária e novo uso para espaços ociosos: o


futuro das cidades está nas mãos de seus moradores
Iniciativas de transformação do espaço público encabeçadas pela comunidade e setor produtivo
são a chave para a qualidade de vida nas cidades

Foto: Reurb/Reprodução

por Sharon Abdalla


O que você fez pela sua cidade hoje? A pergunta, que pode soar
estranha para boa parte das pessoas, é carregada de simbolismo e
16/01/2018 tida como uma das chaves para a melhoria da qualidade de vida
nos centros urbanos.
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Em Curitiba, no Brasil e no mundo uma infinidade de iniciativas


vem sendo realizadas em resposta a este questionamento. Tocadas
por indivíduos, comunidades e empresários comprometidos em
fazer de suas ruas, bairros e cidades um lugar melhor para se viver,
elas representam, em maior ou menor escala, uma tendência do
nosso tempo, na qual o engajamento e a vontade de mudar fazem
com que os cidadãos abandonem sua posição passiva para atuar
ativamente na transformação dos espaços urbanos.

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“Hoje se acredita que, para a sustentabilidade de um projeto social


[e urbano], é necessária a participação da população e do setor
privado, o envolvimento das partes que irão vivenciar aquele
espaço”, afirma o arquiteto e urbanista Victor Andrade, professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do
Laboratório de Mobilidade Sustentável (Labmob) da UFRJ. “Isso é
algo inexorável. Pois, à medida em que as cidades crescem e as
exigências sociais aumentam, é muito difícil o poder público fazer
tudo sozinho”, completa o arquiteto do Instituto de Pesquisa e
Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) Reginaldo Reinert.

Esta participação não tira a responsabilidade do poder público


frente aos desafios e problemas enfrentados por suas cidades. Mas
contribuiu para que ele possa ser mais assertivo em suas propostas
e investimentos, para que vislumbre oportunidades para suas
cidades e atue no sentido de conclamar a população a assumir o
compromisso com a qualidade de vida do lugar onde as pessoas
moram. Confira algumas iniciativas que estão em andamento e
outras, nacionais e internacionais, que poderiam ajudar Curitiba a
novamente ocupar seu espaço como exemplo de planejamento
urbano.

Agentes urbanos
É este conceito que norteia o movimento Reação Urbana, por
exemplo. Realizado por meio da parceria entre HAUS, da Gazeta do
Povo e Reurb (Organização Social Civil de Interesse Público –
Oscip), com o apoio da Agência Curitiba (órgão de fomento ligado à
Prefeitura de Curitiba) desde o último mês de setembro, o
movimento busca desenhar estratégias e definir um plano de ação
para a reabilitação urbana da região do Vale do Pinhão, que
compreende os bairros Prado Velho e Rebouças, em Curitiba.

Mais do que isso, a intenção é fazer da região uma espécie de


laboratório no qual projetos voltados a diferentes áreas – social,
econômica e cultural – e desenvolvidos pela tríade formada pela
iniciativa popular, setor produtivo e prefeitura possam ser testados
e aprimorados.

Laboratório de Reação Urbana realizado em 2017: início da transformação do


Prado Velho e Rebouças. Foto: Fernando Zequinão / Gazeta do Povo

“O planejamento urbano que praticamos está em desuso na maior


parte dos países desenvolvidos. O que se utiliza hoje são
direcionamentos, um projeto com um caráter mais aberto,
laboratorial, no qual se experimentam e avaliam [as ações]. Se
deram certo, elas podem ser replicadas. Do contrário, não”, elucida o
arquiteto Orlando Ribeiro, presidente da Reurb.

Entre as ações já realizadas pelo movimento estão o Primeiro


Laboratório de Reação Urbana do Vale do Pinhão, que colocou
moradores, comerciantes, acadêmicos, representantes da
prefeitura e especialistas em urbanismo para trocar ideias e pensar
a região. A partir dele, foi montado um calendário de ações para
2018, que incluem iniciativas de urbanismo tático, propondo a
pintura, fechamento e novos usos pontuais de ruas e quadras dos
bairros, um mutirão de limpeza do Rio Belém, entre outras ações de
integração com a sociedade.

Por meio delas, o que se pretende é mobilizar a comunidade para


fazer da região um exemplo de transformação urbana bem
sucedida, da mesma forma como ocorre em outras cidades do
Brasil e de diversas partes do mundo, nas quais iniciativas
inovadoras, baseadas no engajamento social e nos novos usos de
espaços antes desocupados e degradados, se tornaram referências
práticas de que é possível mudar.

Um novo uso para um espaço vazio

O volume de imóveis vazios e terrenos baldios ou subutilizados é


um dos principais problemas enfrentados pelas cidades. Só em
Curitiba, são 73,3 milhões de m² nesta condição, quatro vezes mais
do que os 17,5 milhões de m² de área verde da capital.
O que para os gestores públicos e vizinhança pode soar como um
desafio se apresentou como oportunidade aos olhos das arquitetas
Bárbara Becker e Vivian Brune. Moradoras da cidade, elas
idealizaram o projeto “Vazio urbano”, que prevê a realização de
atividades temporárias nestes terrenos.

“Eu estava na sacada da minha antiga casa, no Campo Comprido,


quando olhei para o terreno vizinho, vazio, e pensei: faz dez anos
que moro aqui e este terreno está assim. Ali foi o start”, conta
Bárbara. “Então, começamos a pensar que poderíamos usar estes
espaços para alguma atividade e, mais do que sugerir, queríamos
provar que era possível”, completa.

Ação do projeto “Vazio Urbano”, que promove atividades temporárias em terrenos


desocupados. Foto: Ingrid Schmaedecke/Divulgação

Para isso, elas realizaram quatro intervenções: Cinema ao Ar Livre,


Jardim Urbano, Galeria Aberta e Música ao Vivo, em quatro
diferentes terrenos da cidade, entre dezembro de 2016 e abril de
2017. “As pessoas gostaram e o feedback foi muito positivo. Foi um
processo sair da passividade de cidadão e descobrir que
poderíamos fazer isso”, lembra Bárbara.

A intenção agora, segundo ela, é a de que o projeto ganhe escala.


Para isso, as arquitetas têm buscado apoio junto à prefeitura e à
Câmara dos Vereadores para formatar alguma contrapartida legal
que incentive os proprietários dos terrenos e os transmitam
segurança para participar da iniciativa.

Jardim suspenso

O desejo de ressignificar uma área por meio de novos usos, que


norteia o projeto “Vazios Urbanos”, foi alcançado com êxito, e em
maior escala, no desenho do High Line, em Nova Iork, nos Estados
Unidos. Destacado por arquitetos e urbanistas mundo afora, o
projeto nasceu da mobilização dos moradores, no final dos anos
1990, contra a demolição de uma linha de trem elevada construída
cerca de 60 anos antes e desativada havia muitos anos.
O High Line, em Nova York, nasceu da mobilização de moradores em torno da
criação de um parque linear na região. Foto: Bigstock

Por meio do trabalho da ONG Friends of the High Line, o grupo


convenceu o município de que o parque linear suspenso traria
benefícios urbanísticos e econômicos para a região. Após a
realização de concursos, que reuniram e selecionaram ideias para a
área, o High Line teve suas obras iniciadas, sendo aberto ao público
em 2009. Desde então, o parque de cerca de 2,5 Km de extensão e
dez metros de altura, que corta três bairros, é um dos principais
pontos turísticos e de convívio da cidade.

União por um bairro melhor

Há pouco mais de cinco anos, quem chegasse à comunidade Santa


Inês, na zona leste de São Paulo, tinha a sujeira como anfitriã. O lixo
e o entulho se espalhavam de tal forma que, à primeira vista, a
impressão era a de que a empresa responsável por sua coleta não
executava o serviço. “A empresa coletava, mas os moradores
continuavam jogando lixo e entulho de forma desordenada e a
qualquer hora do dia”, esclarece o líder comunitário Ionilton Gomes
de Aragão, que há 35 anos morava no local.

Disposto a mudar este cenário, ele começou a conscientizar os


moradores para que colocassem o lixo “para fora” nos dias e
horários em que a coleta era realizada, e a cobrar da empresa e da
prefeitura que este calendário fosse respeitado. Nascia ali o projeto
Varre Vila.

Na comunidade Santa Inês, em São Paulo, o projeto popular Varre Vila mudou o
panorama da região. Foto: Divulgação

O trabalho deu tão certo que fez com que Aragão e sua rede
pleiteassem junto à Soma, empresa responsável pela limpeza da
comunidade e parceira do projeto, a contratação de moradores
locais. Além de realizar o trabalho de gari, eles disseminariam a
conscientização sobre o lixo entre os vizinhos.

“Se você fizer sozinho, sem envolver a comunidade, corre o risco de


em dois, três meses, estar tudo deteriorado. Agora, quando há
pertencimento, envolvimento, as pessoas cuidam do lugar”, pontua
Aragão. “O lixo esconde outros problemas da comunidade. Quando
você cuida dele, ela passa a querer outras coisas”, completa.

E foi o que aconteceu na Vila Santa Inês. A partir do envolvimento


dos moradores, a empresa reduziu seu custo de operação, devido à
otimização da coleta, e reverteu a economia em melhorias para a
comunidade, como a construção de praças e parques.

O projeto, então, ganhou escala, o que exigiu sua formalização.


Hoje, é replicado com outros nomes em 11 comunidades, sendo
oito em São Paulo e três em Maceió, sempre em parceria com as
prefeituras e empresas responsáveis pela limpeza dessas
localidades.

Horta comunitária

A união dos moradores também foi a chave para a transformação


do bairro North End, em Detroit, nos Estados Unidos. Dispostos a
deixar para trás a crise que abateu a região, eles transformaram
uma área central ocupada por casas abandonadas e terrenos vazios
em uma horta urbana de cerca de 30 mil m².

Em Detroit, hortas urbanas foram criadas sobre áreas centrais ocupadas por casas
abandonadas e terrenos vazios. Foto: Reprodução / Facebook Miufi

O projeto teve início com a eleição do prefeito Mike Duggan, em


2014, que tinha a revitalização da cidade, urgente após anos de
crise financeira e más gestões, como um de seus objetivos de
governo. Em conjunto com os moradores, ele desenvolveu a
proposta da revitalização verde, que ganhou força com o apoio da
The Michigan Urban Farming Initiative (Miufi), organização não-
governamental da Universidade de Michigan.

Além da área de horta, onde são cultivadas mais de 300 variedades


de vegetais, o projeto também contemplou a reforma de dois
prédios, onde são realizadas atividades socioculturais. Exemplo de
agricultura urbana mundo afora, a produção da horta abastece,
gratuitamente, cerca de duas mil famílias do bairro, além de igrejas
da região.

Gentileza urbana

Em uma escala muito menor, mas nem por isso menos


representativa, a horta também foi a saída adotada pelo casal de
arquitetos Clara Reynaldo e Lourenço Gimenes, de São Paulo, para
transformar o seu entorno.

Ao constatarem o desperdício no potencial de uso do espaço da


garagem da residência (de 13,5 m² e na qual era guardada apenas a
moto de Lourenço, uma vez que o carro ficava estacionado na rua),
eles decidiram cultivar nela ervas e verduras tanto para consumo
próprio como também dos vizinhos e de quem mais passe pela rua.

Clara e Lourenço trocaram a garagem de casa por uma horta orgânica aberta aos
vizinhos. Foto: Fran Parente / Divulgação

“Tínhamos uma horta no segundo andar que morreu porque ficava


longe da cozinha, que está na entrada da casa. Queríamos manter
uma horta e eu me lembrei de um parque que visitei em Barcelona.
Da alegria que sentia do cheiro de alecrim que vinha dele, e que
ficou na minha memória. Daí veio a ideia de fazermos a horta
aberta na garagem”, conta Clara.

Como o piso é feito de concreto vazado, bastou plantar as mudas


nestes espaços. O acesso das pessoas às plantas é possível pelo
fato de a casa não ter muros ou portões, pois o casal acredita que
uma arquitetura segura é aquela permeável, sem barreiras.

Um ano após o início do cultivo, a horta já ganhou adeptos na


vizinhança. Clara conta que as pessoas ficam surpresas e que
algumas ainda param para perguntar se realmente podem pegar o
que quiserem. “É um projeto de formiguinha que vai criando algo
maior. Estamos dando um pouco mais de civilidade, de urbanidade
[à rua]”, avalia a arquiteta.

Saem os carros, entra o pedestre

Pensamento parecido têm os sócios do Café Municipal, no Centro


de Curitiba. Desde o último mês de março, eles “trocaram” duas
vagas de estacionamento em frente ao café por uma “vaga viva”,
como são chamadas as minipraças instaladas nos espaços antes
destinados aos carros.

Pouco depois de a prefeitura regulamentar a instalação destes


equipamentos públicos, os sócios investiram cerca de R$ 15 mil na
estrutura, e outros cerca de R$ 800 mensais na manutenção da
vaga viva do café que, além de servir de atrativo para os clientes,
funciona como uma espécie de respiro para a cidade.
Em frente ao Café Municipal, uma vaga de carro tornou-se uma vaga viva, que
recebe pessoas e torna a cidade mais humana perto do Mercado Municipal de
Curitiba. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

“Curitiba está carente deste tipo de estrutura. Hoje as pessoas


atravessam a cidade em busca de um espaço ao ar livre para tomar
um suco, um refrigerante. Isso fez com que ela fosse bem aceita,
com que as pessoas se apropriassem dela”, destaca Vinícius Ribeiro
Quintino, um dos sócios do estabelecimento.

Outra vaga viva, instalada pela prefeitura de Curitiba na Rua


Riachuelo em parceria com a Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR), não alcançou o mesmo êxito. Sem vigilância e
manutenção periódica, degradou-se, tanto que foi retirada da rua,
no último mês de novembro. “Como ela não teve a parceria com
empresários, não havia quem cuidasse do bem e o mantivesse
limpo”, lembra Quintino, ao comparar os dois modelos e destacar o
papel da iniciativa privada em sua conservação.

Após a publicação desta reportagem, a vaga foi parcialmente


destruída por um carro no último dia 13. Agora os proprietários
avaliam se irão reconstruir o espaço.

Por uma cidade melhor

Todas essas e muitas outras iniciativas realizadas por indivíduos,


empresas ou grupos de pessoas são muito positivas para melhorar
a qualidade de vida nas cidades. Mais do que isso, os especialistas
são praticamente unânimes ao afirmar que elas são cruciais para o
desenho de cidade que se pretende para o futuro.

“São ações que não vêm em forma de protesto, mas sim de uma
nova maneira de se ocupar e usar a cidade”, destaca o arquiteto
Reginaldo Reinert, do Ippuc. E este uso não diz respeito somente à
sua estrutura física, mas especialmente a interação entre as
pessoas e delas com o espaço público. “Essa interação resulta em
vitalidade. Quando você elenca os melhores lugares de uma cidade,
eles têm a vitalidade, e não sua estrutura física, como característica
comum”, acrescenta Orlando Ribeiro, presidente da Reurb.
O caminho para que isto ganhe escala e tenha seu poder de
# urbanismo transformação e revitalização urbana potencializado, então, passa BUSCA
pela promoção do engajamento e pela valorização da interlocução
entre os diferentes setores da sociedade.

“O grande desafio dos governos locais está em criar arenas de


participação para que seja possível se identificar as demandas e se
elaborar os projetos não definindo um uso final, mas criando
espaço para a população decidir o que fazer com a sua cidade”,
finaliza o arquiteto e professor da UFRJ Victor Andrade.

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tags ##vale vila ##vazio urbano #cidade #horta comunitaria

#Reação Urbana #urbanismo

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