Você está na página 1de 11

TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2019.0000332294

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº


1090531-24.2014.8.26.0100, da Comarca de São Paulo, em que é apelante OAS
EMPREENDIMENTOS S/A, são apelados JOSE LUIZ DO NASCIMENTO e VERA LUCIA
MARIA DA SILVA NASCIMENTO.

ACORDAM, em 9ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São


Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento em parte ao recurso. V. U.", de
conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores EDSON LUIZ


DE QUEIROZ (Presidente sem voto), PIVA RODRIGUES E GALDINO TOLEDO JÚNIOR.

São Paulo, 30 de abril de 2019.

MARIELLA FERRAZ DE ARRUDA POLLICE NOGUEIRA


RELATORA
Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

APELAÇÃO Nº 1090531-24.2014.8.26.0100
Relatora: Mariella Ferraz de Arruda Pollice Nogueira
Órgão Julgador: 9ª Câmara de Direito Privado
APELANTE: OAS EMPREENDIMENTOS S/A.
APELADOS: SERGIO GONÇALVES E ELDA FERREIRA GOMES GONÇALVES
COMARCA: SÃO PAULO CENTRAL
JUÍZA PROLATORA: PRISCILLA BUSO FACCINETTO

VOTO N.º 1.941


APELAÇÃO. DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DE
DÉBITO, COM PEDIDO DE LUCROS CESSANTES E OUTORGA
DE ESCRITURA. Autores que firmaram compromisso de compra e
venda de imóvel junto à BANCOOP que, posteriormente, transferiu a
conclusão da obra à OAS. Sentença de parcial procedência.
Insurgência pela corré OAS. PRELIMINAR. Cerceamento de defesa
inocorrente. Prova oral e pericial que não eram necessárias ao
deslinde do feito, sendo a discussão travada nos autos pertinente a
matéria de direito. MÉRITO. INCIDÊNCIA DO CDC. Cooperativas
que atuam como verdadeiras incorporadoras, atuando com finalidade
exclusiva de venda de imóvel a construir, atraindo a aplicação dos
artigos 2º e 3º do CDC. Precedentes. QUITAÇÃO DO CONTRATO.
Impossibilidade de se pretender impor aos adquirentes de contrato
quitado o ônus pelo pagamento de saldo residual ou complementar
em relação ao preço. Acordo celebrado para transmissão do
empreendimento que não permite conclusão diversa, devendo ser
respeitados os termos do contrato original. Ausência de
consentimento dos autores quanto à modificação do preço ou mesmo
qualquer demonstração concreta de saldo devedor em aberto que
impede o reconhecimento de sua condição de devedores.
Inexigibilidade do débito reconhecida e inexistência de óbice à
outorga da escritura. LUCROS CESSANTES. Atraso configurado.
Obra que deveria ter sido entregue em 2.005. Posterior pactuação pela
ré que não justifica a aceitação de ausência de mora. Disposição que
posterga o prazo para o registro da incorporação, sem qualquer
definição do momento de sua ocorrência, da qual não se teve notícia
de efetivação, em prática abusiva pela violação aos deveres de
informação e transparência. Desnecessidade de prova do prejuízo.
Aplicação da tese 05 firmada no Incidente de Resolução de Demandas
Repetitivas e Súmula (162) deste E. Tribunal, bem como precedentes
do STJ. Admitida a indenização, ante a indisponibilidade do bem
imóvel, com readequação do percentual devido, com redução de 0,8%
para 0,5% do valor atualizado do bem. Critério assentado na
jurisprudência como adequado a refletir a preda decorrente do
impedimento de fruição do bem. RECURSO PARCIALMENTE
PROVIDO.

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 2


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Vistos.

Trata-se de apelação interposta por OAS


EMPREENDIMENTOS S/A. contra a r. sentença de fls. 539/542, cujo relatório se adota, que
julgou parcialmente procedente ação Declaratória de Inexigibilidade de Reforço de Caixa,
cumulada com Lucros Cessantes e Outorga de Escritura Definitiva proposta por JOSÉ LUIZ
DO NASCIMENTO e VERA LÚCIA MARIA DA SILVA NASCIMENTO em face da
apelante e de COOPERATIVA HABITACIONAL DOS BANCÁRIOS DE SÃO PAULO
BANCOOP, para: (i) declarar inexigíveis as cobranças referentes ao contrato pactuado
originalmente entre os autores e a BANCOOP; (ii) condenar as rés à outorgar a escritura
definitiva do apartamento/unidade nº 138, bloco A, do Condomínio Residencial Casa Verde,
situado à Rua Reims, 120, aos autores, valendo a sentença como título hábil à transmissão do
domínio; (iii) condenar as rés, solidariamente, a indenizarem os autores pelos lucros cessantes
decorrentes do atraso na entrega da obra, em 0,8% do valor atual do imóvel, que deverá ser
avaliado em perícia em liquidação de sentença, até a data de efetiva entrega do bem, no
período referente aos últimos cinco (05) anos a contar da propositura da ação.

Em razão da sucumbência, atribuiu-se às rés o ônus pelo


pagamento das custas e despesas processuais, bem como honorários advocatícios fixados em
15% sobre o valor da condenação.

A apelante aduz, preliminarmente, cerceamento de defesa. No


mérito, sustenta ter adquirido o empreendimento imobiliário inaugurado pela corré
BANCOOP, assumindo todos os ônus relativos à conclusão das obras. Afirma que os
cooperados aprovaram em assembleia a transferência do empreendimento, cabendo a opção
pela complementação do valor a ser pago à construtora ou desistência com devolução do
montante já pago à BANCOOP. Salienta que o estatuto social da BANCOOP prevê que
deliberações tomadas em assembleia seccional vinculam a todos os associados da respectiva
seção. Ressalta a legalidade da operação (aquisição do empreendimento) e que os autores se
mantiveram inertes, não promovendo a quitação integral das parcelas, inexistindo, assim,
obrigação de outorga de escritura.

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 3


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Afirma, também, que nos termos do acordo homologado


judicialmente em 21.06.2013, foi repactuada a data de entrega das obras, não havendo que se
falar em atraso. Alega ser exigível a cobrança de valor residual para conclusão das obras e
inexistente o direito postulado à indenização por lucros cessantes, bem como a
impossibilidade de aplicação do CDC diante da relação cooperativista. Busca a reforma
integral da r. sentença combatida (fls. 570/620).

Recurso regularmente processado e contrariado (fls. 637/704).

É O RELATÓRIO.

Trata-se de ação declaratória de inexigibilidade de débitos


(reforço de caixa), cumulada com pleito indenizatório por lucros cessantes e pedido de
outorga de escritura definitiva em que os autores, sustentando ter adimplido integralmente
com os valores pactuados para aquisição de imóvel e, diante da cobrança de valores
suplementares pela construtora sucessora da promitente vendedora, assim como recusa das rés
em outorgar-lhes a escritura definitiva do bem, buscam se eximir da obrigação financeira, ser
indenizados pelo atraso na entrega da unidade habitacional e compelir as rés a cumprirem sua
parte da obrigação, com a outorga de escritura.

De início, cabe afastar a alegação de cerceamento de defesa.

Com efeito, conforme autorização expressa dos artigos 130, 131


e 330 do CPC/1973, então vigente, correspondentes aos artigos 355, 370 e 371 do NCPC,
cabe ao magistrado indeferir diligências reputadas inúteis ou protelatórias ou mesmo avaliar a
necessidade de produção de outras provas além das que tenham sido encartadas aos autos.

Nesse sentido: “Como destinatário final da prova, cabe ao


magistrado, respeitando os limites adotados pelo Código de Processo Civil, a interpretação
da produção probatória necessária à formação do seu convencimento” (AgInt nos EDcl no
AREsp 1195937/SC, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA,
julgado em 26/03/2019, DJe 29/03/2019)

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 4


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Na hipótese, ambas as provas requeridas pela apelante


mostram-se absolutamente desnecessárias. Tanto a oitiva da autora, quanto a realização de
prova pericial não se justificam dado ser incontroverso que o empreendimento não foi
concluído, além do que a discussão quanto à necessidade da complementação financeira
discutida (reforço de caixa) envolve análise do direito, em relação à validade dessa cobrança,
mostrando-se inócua a pretenda apuração por perícia.

No mérito, respeitado o entendimento adotado pela D.


Magistrada singular, o recurso merece ser parcialmente acolhido, apenas para reduzir o
percentual a ser utilizado para cálculo dos lucros cessantes.

Antes de passar à análise do contrato celebrado entre as partes,


cabe destacar a aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor à questão debatida.

Com efeito, as partes se enquadram perfeitamente às disposições


legais contidas nos arts. 2º e 3º do CDC, tratando-se os autores de destinatários finais dos bens
imóveis adquiridos e as rés fornecedoras de tais bens, assim como tendo em vista a relação
jurídica estabelecida, que extrapola a simples adesão cooperativa, mas diz respeito a
verdadeira comercialização de imóvel.

Esse o entendimento que se consolidou na jurisprudência o


entendimento, na medida em que as cooperativas habitacionais, atuam, em realidade, como
verdadeiras incorporadoras e construtoras de empreendimentos imobiliários, com a finalidade
exclusiva de venda de imóvel a construir, e que nessa condição, assumem em sua atividade
real, o papel de fornecedoras, enquanto os cooperados nada mais são do que os destinatários
finais desses serviços, e nessa condição sujeitos à legislação consumerista.

Inúmeros os precedentes nesse sentido: Apel. Cível nº


0037640-59.2007.8.26.0562, Des. Rel. Percival Nogueira, 6ª Câmara de Direito Privado, j.
14/03/2019; Apel. Cível nº 1053327-43.2014.8.26.0100, Des. Rel. Enéas Costa Garcia, 1ª
Câmara de Direito Privado, j. 01/03/2019; Apel. Cível nº 1075509-86.2015.8.26.0100, Des.
Rel. José Joaquim dos Santos, 2ª Câmara de Direito Privado, j. 14/11/2018; Apel. Cível nº

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 5


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

1031914-08.2013.8.26.0100, Des. Rel. Penna Machado, 10ª Câmara de Direito Privado, j.


13/08/2018; Apel. Cível nº 1002330-47.2015.8.26.0609, Des. Rel. Mônica de Carvalho, 8ª
Câmara de Direito Privado, j. 08/08/2018; Apel. Cível nº 1111759-55.2014.8.26.0100, Des.
Rel. Alexandre Lazzarini, 9ª Câmara de Direito Privado, j. 26/09/2017.

Assentada a legislação aplicável, extrai-se dos autos que em


agosto de 2001, os autores firmaram com a BANCOOP “Termo de Adesão e Compromisso de
Participação” com vistas à aquisição de uma das unidades habitacionais que comporiam
empreendimento imobiliário a ser construído pelo sistema cooperativista pela BANCOOP. O
empreendimento seria composto por 336 unidades divididas em três torres com conclusão
prevista para os meses de novembro de 2003, 2004 e 2005, respectivamente cada uma das três
torres (fls. 58/66).
No entanto, em janeiro de 2013, mesmo já tendo construído duas
torres de apartamentos, diante de dificuldades financeiras e com as obras paralisadas, a
BANCOOP procurou a OAS para a transferência e conclusão do empreendimento.

Assim, firmou-se o “Termo de Condições para Aquisição de


Terreno Objeto da Matrícula nº 114.644 do 8º Ofício de Registro de Imóveis de São Paulo
(SP) e suas Acessões” (fls. 132/148 e repetido a fls. 234/250 e 363/379), transferindo à
construtora apelante as responsabilidades pela conclusão do empreendimento e, também
permitindo que exigisse dos cooperados a complementação dos valores inicialmente
pactuados.
De fato, há de se reconhecer a inocorrência de abusividade das
cláusulas do referido “Termo de Condições”, inclusive homologado judicialmente (fls.
252/254, repetido a fls. 383/385) e ratificado em assembleia dos cooperados (fls. 251 e
repetido a fls. 381).
Contudo, não pode ser aceita a pretensão de reconhecimento de
saldo devedor por parte dos autores, como pretende a OAS. Conforme documentos de fls.
74/75 e 77/79, o preço previamente pactuado pelos autores junto à corré BANCOOP estava
integralmente quitado, e nessa situação, salvo expressa anuência de sua parte, não se poderia
conceber que houvesse valores a complementar, quando não se cuidou de deliberar em
assembleia quais seriam esses valores e os critérios de sua incidência em relação ao tempo dos
contratos e extensão dos pagamentos realizados.

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 6


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

E o acordo de fls. 363/379, celebrado após a quitação do


contrato pelos autores, como bem lembrado pelo juízo “a quo”, não é capaz de alterar essa
conclusão, pois mesmo a leitura de suas cláusulas não permite se reconhecer a existência de
débito residual ou complementar em relação a unidades quitadas, de forma a impor novo
pagamento para quem já o realizou e cumpriu sua obrigação contratual. A concordância a que
a OAS assumisse o empreendimento está longe de significar que houve concordância à
imposição de novos valores em relação aos contratos quitados, especialmente quando não há
qualquer notícia de efetiva discussão e aprovação de valores devidos a este título, com a
devida apresentação e apuração de custos.

Na verdade, a própria cláusula contratual destaca a necessidade


de análise da situação de cada contrato. A respeito o item 4.2, b.1): “O cooperador pagará o
preço para aquisição de unidade imobiliária no Empreendimento, diretamente para a OAS,
além das demais condições comerciais da proposta, conforme a situação de cada um”. (fls.
368)
E a análise da prova documental evidencia que nenhuma das
corrés juntou aos autos documento que ateste: i) eventual opção dos autores, seja pela
complementação dos valores para aquisição da unidade habitacional, seja sua desistência, com
o ressarcimento do montante pago; e ii) acertamento em relação ao saldo devedor em aberto,
seja por meio de deliberação em assembleia, seja por mero demonstrativo que evidenciasse
como alcançou o valor cobrado.

A discussão não é nova e em inúmeros julgados desta E. Corte


Paulista já se estabeleceu a impossibilidade de cobrança de saldo complementar, como aqui
pretendido, com consequente dever de outorga de escritura:

“Apelação Cível. Ação declaratória de nulidade e


inexigibilidade de débito c.c. adjudicação compulsória. Transferência da
conclusão da obra da Bancoop para a OAS. Cobrança adicional.
Inadmissibilidade. Quitação do preço inicialmente pactuado. Outorga da escritura.
Necessidade. Adjudicação, na hipótese de recusa, valendo o acórdão como título
hábil ao registro. R. sentença reformada. Recurso provido.” (TJSP, Apelação nº
1004004-35.2015.8.26.0100, Des. Rel. José Joaquim dos Santos, 2ª Câmara de
Direito Privado, j. 21/05/2018).

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 7


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

“PRELIMINAR Suspensão do processo Recuperação


judicial Não enquadramento nas hipóteses legais Recurso improvido.
APELAÇÃO Ação declaratória de nulidade e inexigibilidade de débito c.c.
adjudicação compulsória e indenização Transferência da conclusão da obra da
Bancoop para a OAS Cobrança adicional Inadmissibilidade Quitação do
preço inicialmente pactuado Outorga da escritura Necessidade Indenização -
Cabimento Sentença mantida Ratificação dos fundamentos do "decisum"
Aplicação do art. 252 do RITJSP/2009 Recurso improvido.” (TJSP, Apelação nº
1006392-08.2015.8.26.0100, Des. Rel. Alvaro Passos, 31ª Câmara Extraordinária
de Direito Privado, j. 18/09/2017).

“Imóvel Termo de adesão a empreendimento imobiliário


Resíduo - Valores que não podem ser cobrados das cooperadas - Empreendimento
transferido após a quitação dos preços - Aplicação do CDC e da Lei nº 4.591/64 -
Escritura que deve ser outorgada - Ação procedente - Apelo provido” (Ap. nº.
1097803-06.2013.8.26.0100, Rel. Des. FORTES BARBOSA, j. em 09/04/2015).

“Apelação Cível. Ação declaratória de inexigibilidade c/c


anulatória de contrato e obrigação de fazer. Procedência do pedido. Recurso de
apelação interposto pela ré OAS. Não acolhimento. Cerceamento de defesa não
configurado. Ré, mediante Termo de Acordo celebrado com a BANCOOP,
assumiu a posição desta última para finalização das obras do empreendimento,
assumindo os direitos e as obrigações até então existentes. Autoras que quitaram
integralmente as parcelas do preço cobrança de diferença de custo de obra
apurado unilateralmente que se reputa abusiva. Sentença mantida. Recurso de
apelação não provido.” (TJSP, Apelação nº 1009924-24.2014.8.26.0100, Des. Rel.
Piva Rodrigues, 9ª Câmara de Direito Privado, j. 30/05/2017).

“COISA JULGADA. Inocorrência por acordo judicial que não


envolveu a autora. ILEGITIMIDADE PASSIVA. Desacolhimento. Contrato
firmado entre Bancoop e os autores anterior à cessão de direitos e obrigação à
OAS. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor (Lei. nº 8.078/90).
Preliminares afastadas. OBRIGAÇÃO DE FAZER. Compromisso de compra e
venda. Incorporação imobiliária. Saldo residual (resíduo final ou reforço de caixa).
Não comprovação contábil do custo da obra e prestação de contas. Valor apurado
unilateralmente pela cooperativa habitacional. Quitação reconhecida.
Incontroverso inadimplemento da promitente-vendedora no que tange à obrigação
de outorgar escritura definitiva do bem imóvel compromissado. Procedência
mantida. MULTA DIÁRIA COMINATÓRIA. Tutela que visa impor à ré a prática
de ato atrelado exclusivamente a seu mister. Astreintes que têm por escopo
garantir a efetividade da decisão judicial. Precedentes. Valor da multa diária
razoável. Medida suficiente e compatível com a tutela concedida. Recurso
desprovido.” (TJSP, Apelação nº 1031905-12.2014.8.26.0100, Des. Rel. Rômolo
Russo, 7ª Câmara de Direito Privado, j. 10/05/2016).

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 8


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Assim, bem andou a r. sentença ao afastar a existência de débito


e impor, diante da quitação do contrato, a obrigação de outorga da escritura.

No mais, diante do quadro narrado e, evidenciado o atraso pela


entrega da obra que, como já afirmado, originalmente estava prevista para o ano de 2.005, não
há como se afastar o entendimento de que a demora na entrega da unidade decorreu de culpa
exclusiva da construtora que, agindo com descuido, não programou com cautela a execução
do projeto e, portanto, deve indenizar os autores pelos prejuízos materiais decorrentes do
atraso para conclusão da obra.

Não vinga o raciocínio de ausência de atraso frente ao novo


prazo estimado no acordo, pois o simples fato de se vincular o cumprimento da obrigação a
evento incerto e sem qualquer previsibilidade para o adquirente, bastando ver que não há
notícia de efetivação do registro da incorporação, é suficiente para que se reconheça a
abusividade da disposição frente aos autores, pela violação aos deveres de informação e
transparência, com consequente mora na entrega da obra.

E configurada a mora, desnecessária a prova de prejuízo por


parte do adquirente, sendo devida indenização por lucros cessantes. Sobre o assunto, há
profusão de orientações coincidentes emanadas por esta Corte, tal como se extrai do tema nº
05 julgado no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas nº
0023203-35.2016.8.26.0000 e do enunciado da Súmula 162, também deste E. Tribunal de
Justiça:
Tema nº. 05 "O atraso da prestação de entrega de imóvel
objeto de compromisso de compra e venda gera obrigação da alienante
indenizar o adquirente pela privação injusta do uso do bem. O uso será
obtido economicamente pela medida de um aluguel, que pode ser calculado
em percentual sobre o valor atualizado do contrato, correspondente ao que
deixou de receber, ou teve de pagar para fazer uso de imóvel semelhante, com
termo final na data da disponibilização da posse direta ao adquirente da
unidade autônoma já regularizada" (…)” (TJSP, Incidente de Resolução de
Demandas Repetitivas nº 0023203-35.2016.8.26.0000, Des. Rel. Francisco
Loureiro, Turma Especial - Privado 1, j. 31/08/2017 - grifei).

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 9


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

“Súmula 162 - Descumprido o prazo para a entrega do imóvel


objeto do compromisso de venda e compra, é cabível a condenação da vendedora
por lucros cessantes, havendo a presunção de prejuízo do adquirente,
independentemente da finalidade do negócio.”

Outro não tem sido o posicionamento do Superior Tribunal de


Justiça quanto a se presumirem os prejuízos em tal situação:

“PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO


EM RECURSO ESPECIAL. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA DE
BEM IMÓVEL. ATRASO INJUSTIFICADO. NÃO FRUIÇÃO DO IMÓVEL
IMPORTA LUCROS CESSANTES. PRECEDENTES. SÚMULAS 5 e 7 DO
STJ. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A jurisprudência deste
Sodalício, que possui entendimento firmado no sentido de que a inexecução do
contrato de promessa de compra e venda, consubstanciada na ausência de
entrega do imóvel na data acordada, acarreta, além de dano emergente, lucros
cessantes. Precedentes. (...) 3. Agravo interno não provido” (AgInt no AREsp
986.711/DF, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, 4ª Turma, julgado em
15/12/2016, DJe 02/02/2017)

“(...) 2. A teor da jurisprudência firmada nesta corte, o


descumprimento do prazo para entrega do imóvel objeto de compromisso de
compra e venda viabiliza a condenação por lucros cessantes, havendo
presunção de prejuízo do promitente comprador. Precedentes. 3. Dissídio não
comprovado. Incidência da Súmula nº 83 do STJ. 4. Agravo interno não
provido” (AgInt no REsp 1562795/SP, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, 3ª
Turma, julgado em 16/02/2017, DJe 07/03/2017)

Nesse sentido ainda:

“Apelação Cível. Cooperativa. Compromisso de Compra e


Venda. Ação declaratória de inexigibilidade de débito c/c obrigação de fazer,
pedido de lucros cessantes e danos morais. Bancoop. Cobrança custo adicional.
Aquisição de unidade pelo autor integralmente paga, nos termos do contrato
inicial. Posterior transferência da conclusão da obra para a OAS. Aplicação do
Código de Defesa do Consumidor. Cooperativa que exerce atividade de
incorporadora. Resíduo apurado unilateralmente pelas rés. Precedentes deste
Tribunal pela nulidade da cláusula contratual que previa a cobrança de resíduo
final sem lastro em documentos ou demonstração contábil. Quitação declarada.
Outorga de escritura determinada. Ônus da sucumbência a cargo das rés. Admitida
a indenização a título de lucros cessantes, ante a indisponibilidade do bem imóvel,
que deve incidir até a entrega efetiva das chaves. Danos morais configurados. R.
sentença reformada. Recurso provido.” (TJSP, Apelação Cível nº
1075509-86.2015.8.26.0100, Des. Rel. José Joaquim dos Santos, 2ª Câmara de
Direito Privado, j. 14/11/2018).

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 10


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Assim, correta a fixação de indenização, delimitada na sentença


a partir dos cinco anos antecedentes ao ajuizamento da ação ate efetiva entrega do imóvel,
sendo o caso de readequação apenas do percentual de 0,8%, pois se consolidou o
entendimento de que o percentual adequado para indenização por impedimento de fruição de
imóvel, considerando a realidade do mercado imobiliário e a representatividade deste índice
para definição de valor locativo de um imóvel que não está sendo utilizado, é de 0,5% sobre o
valor atualizado do bem.
De rigor, portanto, a manutenção da r. sentença combatida,
apenas com readequação do percentual a ser utilizado para cálculo dos lucros cessantes.

Ante o exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO AO


RECURSO.

MARIELLA FERRAZ DE ARRUDA POLLICE NOGUEIRA


Relatora

Apelação Cível nº 1090531-24.2014.8.26.0100 -Voto nº 1.941 11