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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

sistema educacional e beneficiá-la com o que a escola


FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO possa oferecer-lhe. Nesse caso, não se assume que a
escola precisa mudar de qualquer forma para
acomodar uma criança em particular ou para responder
1. EDUCAÇÃO: DESAFIOS E COMPROMISSOS DE
a uma maior gama de diversidade na população
ACORDO COM AS TEORIAS DE PETER MITLER
estudantil.
O modelo social da deficiência baseia-se na
A inclusão e as reformas da escola
proposição de que a sociedade e as suas instituições é
que são opressivas, discriminadoras e incapacitantes e
O objetivo da inclusão está atualmente no
que a atenção, portanto, precisa estar direcionada para
coração da política educacional e da política social.
a remoção dos obstáculos existentes à participação
Embora seja difícil encontrar as definições oficiais,
das pessoas portadoras de deficiências na vida em
existem alguns pontos de partida úteis.
sociedade e para a mudança institucional, ou seja, para
No campo da educação, a inclusão envolve
a mudança de regulamentos e de atitudes que criam e
um processo de reforma e de reestruturação das
mantêm a exclusão (Campbell e Oliver, 1996). No
escolas como um todo, com o objetivo de assegurar
contexto da educação, a reestruturação das escolas
que todos os alunos possam ter acesso a todas as
baseada em diretrizes inclusivas é um reflexo de um
gamas de oportunidades educacionais e sociais
modelo de sociedade em ação.
oferecidas pela escola. Isto inclui o currículo corrente, a
Embora um modelo baseado no defeito per se
avaliação, os registros e os relatórios de aquisições
seja rejeitado como uma explicação única, ele
acadêmicas dos alunos, as decisões que estão sendo
permanece bastante influenciável e afeta
tomadas sobre o agrupamento dos alunos nas escolas
profundamente a política, a prática e as atitudes das
ou nas salas de aula, a pedagogia e as práticas de sala
pessoas. Tal modelo tem influenciado muitas gerações
de aula, bem como as oportunidades de esporte, lazer
de professores, pais e legisladores e ainda é parte da
e recreação.
consciência geral de quase todos que trabalham em
O objetivo de tal reforma é garantir o acesso e
educação. Portanto, ele não vai apenas ―desaparecer‖
a participação de todas as crianças em todas as
porque acadêmicos e ativistas argumentam que o
possibilidades de oportunidades oferecidas pela escola
referido modelo é obsoleto e discriminatório.
e impedir a segregação e o isolamento. Essa política foi
Alguns aspectos do modelo ―na criança‖ são
planejada para beneficiar todos os alunos, incluindo
claramente relevantes, sobretudo para crianças cujas
aqueles pertencentes a minorias linguísticas e étnicas,
dificuldades nascem em grande medida como
aqueles com deficiência ou dificuldades de
conseqüência de impedimentos significativos de órgãos
aprendizagem, aqueles que se ausentam
sensoriais ou do sistema nervoso central. Porém, os
constantemente das aulas e aqueles que estão sob o
impedimentos, mesmo que graves, de forma alguma
risco de exclusão.
explicam todas as suas dificuldades, e há muitas
possibilidades para intervenções nos contextos em
Mudando paradigmas: do defeito ao modelo social
vários níveis: ensino, criação familiar, apoio dos
colegas e amizade, atitudes positivas, relação com os
Esse conceito de inclusão envolve um
vizinhos e remoção de barreiras de todos os tipos.
repensar radical da política e da prática e reflete um
Somando-se às crianças com evidências
jeito de pensar fundamentalmente diferente sobre as
claras de comprometimento específico, a década
origens da aprendizagem e as dificuldades de
passada viu uma inundação de ―novas‖ categorias e de
comportamento. Em termos formais, estamos falando
novos diagnósticos, nos quais uma etiologia orgânica
sobre uma mudança da ideia de ―defeito‖ para um
não foi estabelecida com clareza, apesar de que as
―modelo social‖. Por muitos anos, os referidos modelos
pesquisas devem em um tempo devido identificar tal
têm sido amplamente discutidos por escritores e
vínculo. Exemplos óbvios incluem dislexia, transtorno
ativistas no campo da deficiência de adultos, mas raras
do déficit de atenção (com ou sem comportamento
vezes têm sido aplicados de modo direto à educação,
hiperativo), autismo e Síndrome de Asperger. Até
apesar da proximidade e das similaridades dos dois
agora, há poucas evidências convincentes de que
campos.
diagnósticos precisos dos impedimentos específicos ou
É importante impedir a polarização desses
de condições similares necessariamente requeiram um
modelos, uma vez que eles são mutuamente
tipo de intervenção educacional específica para as
incompatíveis, porque precisamos pensá-los em um
síndromes.
estado de interação complexa e constante. Não há
Da mesma forma, embora já tenhamos um
razão para que um modelo centrado na criança deva
número muito maior de informação sobre as
necessariamente ser incompatível com um modelo
características e sobre os estilos de aprendizagem das
social e ambiental. É claro que sua cooperação e sua
crianças com Síndrome de Down, Síndrome do X-Frágil
coexistência devem acontecer com vistas ao que é
ou esclerose tuberosa, outra vez elas não se referem
melhor para os interesses da criança. Um defeito ou
apenas a essas crianças. Com o que todos concordam
um modelo centrado na criança é baseado na ideia de
é que todas as crianças precisam de um bom ensino
que as origens das dificuldades de aprendizagem estão
que leve em conta os padrões individuais de
na sua maioria localizadas nela.
aprendizagem.
De acordo com esse ponto de vista, a fim de
ajudar a criança, precisamos conhecer tanto quanto for A escola inclusiva e o papel do gestor educacional
possível a natureza das suas dificuldades por meio de
avaliações globais dos seus pontos fracos e fortes para
De acordo com Mittler (2003), a escola
fazer um diagnóstico, quando possível, e para planejar
inclusiva deve atender ao pluralismo cultural do seu
um programa de intervenção e apoio baseado em tal
anulado e buscar respostas individuais para as
análise. O objetivo é auxiliar a criança a se encaixar no
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necessidades especiais individuais. Se antes cabia ao visões não foram seriamente consideradas. É
aluno com deficiência se adaptar a escola, agora, importante que a inclusão não seja vista apenas como
dentro da concepção da escola inclusiva, é ela quem uma outra inovação (MITTLER, 2003, p.184).
deve se adaptar ao aluno. Para que isso ocorra, Entendemos que existe uma resistência por parte dos
conjugam-se as responsabilidades do professor da professores quanto ao novo, pois a maioria dos
turma aonde o aluno se encontra, do diretor, dos professores tem uma visão funcional do ensino e tudo o
demais dos servidores da escola, para discutirem sobre que ameaça romper a tradição causa rejeição e
os mecanismos que devem ser utilizados para se questionamentos.
encontrar uma resposta exitosa à diversidade. A Mittler (2003) afirma que o ato de educar
medição dos demais colegas irá beneficiar a todos, depende do trabalho diário dos professores em sala de
com ou sem deficiência. aula, ou seja, professores conscientes de suas ações,
O currículo é, ou deve ser o mesmo, fazendo- escolas planejadas de acordo com linhas inclusivas e
se necessário investigar quais adequações curriculares que sejam apoiadas pelos governantes, pela
devem ser feitas para cada aluno, individualmente, de comunidade local, pelas autoridades educacionais
forma a se obter melhores resultados. A inclusão não locais e, acima de tudo, pelos pais.
prevê a utilização de métodos e técnicas de ensino A escola inclusiva direciona sua metodologia
específicas para estas ou aquelas deficiências. Os de ensino para a quebra de preconceitos, não
alunos precisam aprender até o limite em que diferenciando o saber pedagógico, mas reforçando os
conseguirem chegar, se o ensino nas unidades mecanismos de interação e integração.
escolares for de quantidade, isto é, se o professor De acordo com Mittler (2003), a inclusão vai
considerar o nível de possibilidade de desenvolvimento além de simplesmente colocar uma criança na escola.
cada um e explorar essas possibilidades, por meio de É preciso criar um ambiente onde todos possam
atividades e necessidades, seja para construir uma desfrutar o acesso e o sucesso no currículo e tornarem-
ideia, ou resolver um problema, realizar uma tarefa. se membros totais da comunidade escolar e local,
Eis um grande desafio a ser enfrentado pelas sendo, desse modo, valorizados.
escolas para se chegar à inclusão. Neste sentido é
primordial que sejam revistos os papéis 2. QUALIDADE NA EDUCAÇÃO DE ACORDO COM
desempenhados pelos diretores, coordenadores, no AS TEORIAS DE PEDRO DEMO.
sentido de que ultrapassem o teor controlador,
fiscalizador e burocrático de suas funções pelo trabalho Segundo o autor, educar é uma atividade
de apoio, orientação do professor e de toda a constante, onde o homem compartilha sua experiência,
comunidade escolar. A descentralização da gestão onde o mesmo se educa em qualquer ambiente, porém
administrativa, por sua vez deve promover uma maior quando se trata de um educar especifica próprio da
autonomia pedagógica, administrativa e financeira de escola, fica claro e que todos saibam que este tipo de
recursos materiais e humanos das escolas, por meio de educar é mais peculiar, porque requer um aparato de
conselhos, colegiados, Assembléias de pais e de pressupostos que vão desde uma boa pesquisa, até o
alunos. questionamento reconstrutivo da história do homem,
Mudam-se os rumos da administração escolar mesmo ressaltando com intensidade a educação
e com isso o aspecto pedagógico das funções do doméstica, familiar, embora esquecido por grande parte
diretor e dos coordenadores e supervisores poderá das famílias.
emergir. A escola para maioria das crianças brasileiras Desse modo, a educação de qualidade
é o único espaço de acesso aos conhecimentos construída através da pesquisa, precisa ser priorizada
universais e sistematizados, ou seja, é o lugar que vai por parte dos órgãos governamentais e acadêmicos,
lhes proporcionar condições de desenvolver e de tornar sem desvios de verbas e investimentos verdadeiros e
um cidadão, alguém com identidade social e cultural. não faz de conta, pois todo conhecimento é apenas um
meio e para que este torne-se educativo, precisa ser
A perspectiva da Escola/espaço constituído com ética e valores, incorporados a prática
democrático. e teoria com função política, formando o sujeito crítico,
não alienado, responsável por seus direitos e deveres,
A perspectiva é a de que a escola se constitui tendo vez e voz, capaz de estabelecer competência na
em um espaço democrático no qual a diversidade seja sociedade equitativa e solidaria.
o lastro de igualdade e de oportunidades. Compreender Quando não aparece na prática educativa a
o aluno com suas características singulares é respeitá- relevância do questionamento reconstrutivo, não
lo como pessoa que tem suas limitações, mas tem seus emerge dela, a propriedade educativa escolar, pois o
pontos fortes. Cabe à escola assegurar um processo aluno acostumou-se ao modismo que a escola oferece,
educativo coerente às necessidades educacionais de mantendo assim o sistema educacional que o
todos os seus alunos. capitalismo almeja, porém a característica
Fazer parte de um processo inclusivo exige emancipadora da educação exige que a pesquisa seja
quebra de paradigmas, respeito às diferenças, um olhar um método formador, que transforme o sujeito em
mais atento às especificidades e suas implicações e o seres capazes de criticar, opinar, sugerir e construir
professor nesta situação é um mediador por sua própria história, pois educação e pesquisa
excelência. valorizam o questionamento como ponto crucial no
Os professores precisam de oportunidades processo reconstrutivo de todo ser humano.
para refletir sobre as propostas de mudança que É importante incentivar a pesquisa na escola,
mexem com seus valores e com suas convicções, como docentes e discentes inseridos nesse contexto,
assim como aquelas que afetam sua prática num ambiente acolhedor e preparados para esse
profissional cotidiana. Os professores já estiveram momento, capaz de desenvolver um trabalho coletivo,
sujeitos a uma avalanche de mudanças, nas quais suas participativo, mútuo, equilibrado, onde equipes
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reconheçam seus papeis, sem explorados nem que educação não se reduz a conhecimento. Apenas
exploradores, exercitando sua cidadania coletiva, sem tem nele seu instrumento primordial, em termos de
esquecer o que torna o homem um verdadeiro cidadão qualidade formal. Por outro lado, conhecimento não
de direito. precisa ser apenas instrumento formal, como se mera
Em toda pesquisa, o aluno precisa ser coletor lógica fosse (DEMO, 2007).
e organizador de todo o seu material, mesmo que a A expressão ―qualidade em educação‖, no
escola não esteja totalmente preparada e nesse ensejo marco dos sistemas educacionais, admite uma
a família deve estar presente e atuar junto. Todo tipo variedade de interpretações dependendo da concepção
de informação é relevante, desde experiências, a livros, que se tenha sobre o que esses sistemas devem
revistas, internet. proporcionar à sociedade. Uma educação de qualidade
O texto tem uma linguagem compreensiva, pode significar: aquela que possibilita o domínio eficaz
clara, importante para professores regentes, que estão dos conteúdos previstos nos planos curriculares;
em constante desafio em sala, o estilo do texto é bem aquela que possibilita a aquisição de uma cultura
objetivo e direto para profissionais que estão abertos científica ou literária; aquela que desenvolve a máxima
para inovar. Há muita originalidade nas palavras do capacidade técnica para servir ao sistema produtivo; e
autor, pois ressalta o tempo toda a importância do aquela que promove o espírito crítico e fortalece o
trabalho de pesquisa na arte de educar, a fim de se compromisso para transformar a realidade social
construir uma educação de oportunidade para todos, (DAVOK, 2007).
onde todos possam receber uma educação que Para se apreender, de maneira mais precisa o
mereçam de excelência, exterminando escola para rico que seja qualidade em educação, são resgatadas as
e escola para pobre; por isso que essa obra é dirigida obras de Pedro Demo. Demo (1985) elabora três
aos especialistas, acadêmicos e órgãos conceitos para referir-se à qualidade da educação
governamentais responsáveis pelo sistema educacional superior e à qualidade da universidade que são:
caótico e perverso oferecido aos desfavorecidos. qualidade acadêmica, qualidade social e qualidade
Como dimensionar a importância da pesquisa educativa. A qualidade acadêmica é definida como ―(...)
na educação como um fundamento básico de tornar a a capacidade de produção original de conhecimento,
pesquisa com uma maneira escolar e acadêmica da qual depende intrinsecamente a docência‖ (DEMO,
própria de educar, essa é a questão central que 1985, p. 35). Para o autor, o ensino superior requer
permeia toda essa leitura. cultivar a criatividade científica que é baseada na
A concepção de Demo em Educar pela pesquisa.
Pesquisa parte de mudanças na compreensão da Portanto, a qualidade do ensino superior
Educação e no comportamento dos autores fazem depende da capacidade de o professor transmitir o
parte deste cenário, porém vale lembrar que estes conhecimento que ele próprio construiu por meio de
estão inseridos em um contexto, que às vezes interfere suas atividades de pesquisa e de orientar os alunos a
na maneira de relacioná-lo á totalidade. Educar pela dar tratamento teórico, pesquisar e apresentar soluções
pesquisa é também, estimular o aluno a curiosidade práticas a problemas específicos da sociedade. Já o
pelo desconhecido, incitá-lo a procurar respostas, a ter conceito de qualidade social pode ser entendido como
iniciativa, a compreender e iniciar a elaboração de suas ―(...) a capacidade de identificação comunitária, local e
próprias ideias. regional, bem como com relação ao problema do
desenvolvimento. (...) Trata-se de colocar à
O conceito de qualidade na educação superior universidade a necessidade de ter consciência teórica
e prática do desenvolvimento‖ (DEMO, 1985, p. 38).
Para Demo (2007), embora seja vastamente Essa qualidade, segundo o autor, se refere à
reconhecido que educação tem a ver com qualidade, o função das IES de realizarem atividades de extensão,
que significa qualidade, é um assunto polêmico ao descobrindo e intervindo na realidade social a elas
extremo. Contudo, o autor toma como ponto de partida, circundante, com vistas ao desenvolvimento da
que qualidade representa o desafio de fazer história sociedade. Portanto, a qualidade do ensino superior
humana com o objetivo de humanizar a realidade e a também está na oportunidade de os alunos terem
convivência social. Sendo assim, não se trata apenas contato com a prática, contextualizada pela teoria. Isso
de intervir na natureza e na sociedade, mas de intervir é factível pelo estágio curricular e por outras atividades
com sentido humano, ou seja, ―dentro de valores e fins acadêmicas extraclasse e de extensão universitária,
historicamente considerados desejáveis e necessários, pelas quais o conhecimento produzido pelo ensino e
e eticamente sustentáveis‖ (p. 12). pela pesquisa é tornado concretamente utilitário para o
Demo (2007) entende que o conceito de desenvolvimento da sociedade.
educação é mais rico que o de conhecimento porque O conceito de qualidade educativa, por sua
este tende a restringir-se ao aspecto formal, vez, se refere à ―(...) formação da elite, no sentido
instrumental e metodológico enquanto educação educativo. A universidade também educa‖ (DEMO,
abrange o desafio da qualidade formal e política ao 1985, p. 39). A qualidade educativa é revelada pela
mesmo tempo: ―educação é o suporte essencial, capacidade de as IES empenharem seus esforços na
porque, no lado formal, instrumenta a pessoa com a formação plena do cidadão. Isso implica, por exemplo,
habilidade crucial de manejar a arma mais potente de a educação dos educadores no sentido da formação
combate que é o conhecimento e, no lado político, dos professores para todos os níveis de ensino, dos
alimenta a cidadania‖ (p. 47). planejadores e administradores da coisa pública, dos
Ao termo educação é atribuído o horizonte de profissionais para o sistema econômico, dos dirigentes
qualidade política, o humanismo, a formação da políticos, dos que produzem ideologias e as
cidadania e a cultura comum, e ao termo conhecimento manipulam, dos líderes comunitários. Em suma, do
é atribuída a necessária competência formal para cidadão que cuida para que a sociedade seja
melhor realizar os fins. É preciso considerar, portanto, democraticamente organizada e se desenvolva em
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seus aspectos econômico, institucional, político e Paulo Freire seria ―ler a realidade‖ para a desconstruir
cultural. criticamente e para nela intervir alternativamente.
Demo (2007, p. 14) faz distinção entre Nesse sentido, saber pensar, afirma Demo
qualidade formal e qualidade política. A qualidade (2002a, p. 64) ―não é só pensar, mas saber intervir,
formal é a ―(...) habilidade de manejar meios, para se tornar viável a construção de outra rota
instrumentos, formas, técnicas, procedimentos diante histórica. O bom argumento pode ser apenas aquele
dos desafios do desenvolvimento‖, ressaltando o tecnicamente bem feito. O mais decisivo, porém, é
manejo e a produção do conhecimento como considerar o ‗bom argumento‘ aquele que, além de ser
expedientes primordiais para a inovação. A qualidade tecnicamente bem posto, revela a autonomia do
política, por sua vez, tem como condição básica a Sujeito, a capacidade emancipatória, a habilidade de
participação do indivíduo, relacionando-se a fins, propor e formular.‖
valores e conteúdos. Refere-se, portanto, ―(...) a
competência do sujeito em termos de se fazer e de 3. INTER-RELAÇÕES ENTRE O HUMANO, O
fazer história, diante dos fins históricos da sociedade AMBIENTE E O CONHECIMENTO
humana‖.
Por isso, Demo (2008, pp. 8- 9) destaca que a O homem e o meio ambiente são duas
dimensão política contém o horizonte da potencialidade palavras que vêm sendo utilizadas de forma separadas
humana sendo ―aquela que trata dos conteúdos da vida e até mesmo em alguns casos, opostas. Muitos autores
humana e sua perfeição é a arte de viver‖. O autor relatam a utilização dos recursos naturais pelo homem
alerta, contudo, que uma dimensão não é inferior a como meio para o crescimento econômico. No entanto,
outra; apenas cada uma tem perspectiva própria não atualmente, sabemos que crescimento econômico não
deixando, no entanto, de ser faces do mesmo todo: a é sinônimo de desenvolvimento.
qualidade. Nos primórdios da humanidade, o ser humano,
Para Dias Sobrinho (2012, p. 613), a ainda nômade, utilizava os recursos naturais de um
qualidade da educação é um fenômeno complexo que determinado local conforme suas necessidades diárias.
relaciona dimensões pedagógicas, científicas, técnicas, Quando os alimentos se esgotavam naquele lugar, ele
de infraestrutura, culturais, econômicas, éticas, morais se mudava. Não possuía território fixo, mudava
entre outras. Para este autor, educação de qualidade é diversas vezes de lugar, utilizando os recursos
aquela que cumpre satisfatoriamente sua função de disponíveis em um local e quando estes acabavam ele
contribuir com os projetos e processos de emancipação escolhia um novo local para permanecer por mais um
dos indivíduos e das sociedades. Sob esse período de tempo.
entendimento, o autor defende que a instituição de Aquele espaço, para o ser humano, era
ensino deve levar em conta a realidade e a cultura apenas um local no qual se consumiam os recursos
nacional, as demandas e as necessidades da naturais existentes até que os mesmo se esgotassem.
sociedade onde está inserida, em outras palavras, ela Este local não era ainda considerado como um ―lugar‖
deve ser pertinente. Dizer que a qualidade tem vivido e sentido, não havia, portanto, ainda, uma
pertinência social como um de seus elementos relação e sentimento com o local onde o ser humano
essenciais implica em entender que a qualidade é um habitava. Conforme disposto por ALBAGLI (1998, p.3),
conceito relativo, dinâmico e sempre referente a lugar ―não pode ser apenas um espaço onde se
realidades concretas e a projetos que os indivíduos e realizam as práticas diárias, mas também aquele no
as sociedades constroem em seus processos de vida. qual se situam as transformações, a reprodução das
No entanto, a qualidade da educação tem sido relações sociais de longo prazo‖.
predominantemente entendida por sua relação com o Autores como AGNEW E DUCAN (1989)
mercado. Nesse sentido, quando mais serve ao definem lugar em três dimensões: ótica econômica;
desenvolvimento das empresas, mas qualidade teria perspectiva micro sociológica e ponto de vista
(DIAS SOBRINHO, 2012). Esse aspecto inspira antropológico e cultural. A ótica econômica seria a
cuidados. Demo (2005) alerta que a escola não pode localização onde ocorrem as práticas econômicas e
apenas ater-se ao desafio da competitividade, para que sociais. A perspectiva micro sociológica define o lugar
a população caiba no mercado pela via da formação como sendo o espaço das interações cotidianas; por
básica dotada de qualidade formal, mas se dedicar, último, o ponto de vista antropológico cultural que
com empenho sem precedentes, à qualidade política define o lugar através da identificação do sujeito com o
do cidadão, precisamente para se confrontar com a espaço habitado seria o ―sentido do lugar‖.
exacerbação competitiva do mercado. A maneira de se Ao se analisar mais profundamente o sentido
fazer isso é fazer com que o aluno aprenda bem. da palavra ―lugar‖, pode-se classificá-la como sendo ―o
―Aprender bem não se reduz, jamais, a produto das relações humanas, entre homem e
questões técnicas, formais, muito menos a natureza, tecido por relações sociais produzindo a
‗treinamento‘ [instrução]‖ (DEMO, 2009, p. 2). ―Se este identidade, é o mundo do vivido, onde se formulam os
[aluno] não aprender bem, ou seja, com qualidade problemas‖. (CARLOS, 1996, p.26).
formal e política, nada feito!‖ (DEMO, 2005, p. 41). Nos Neste aspecto, observamos que no começo
termos de Demo (2002a, p. 64), ―quando o aluno da história humana o ―lugar‖ ainda não havia sido
aprende a argumentar com base, escutar com atenção construído, as relações sociais eram as mais básicas e
seus colegas, contra argumentar com firmeza e primitivas possíveis. Portanto, o homem não possuía
polidez, ler criticamente e refazer os argumentos, não sentimento pelo lugar, não havia construído o seu
está apenas fazendo ciência, está igualmente se espaço, não tinha um lugar próprio.
fazendo cidadão.‖ Mas, Demo (2009, p. 20) alerta que Com o surgimento da agricultura a mais de
―há um sentido mais abrangente em jogo, não menos 10.000 anos atrás, o ser humano foi aprendendo a
prático: exercitar a cidadania que sabe pensar, tendo entender os ciclos da natureza e a conviver em
em vista mudar a sociedade‖, o que, nas palavras de comunidade, começando a se prevenir dos períodos de
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frio, de seca e de escassez de alimentos. Não se protegidas constituíam a última trincheira para a
extraía apenas o que seria utilizado imediatamente, manutenção de um grande número de espécies.
aprendia-se a estocar e armazenar, de planejando e Junto a esta concepção da proteção de
prevenindo para o futuro. fragmentos ambientais, observa-se a valorização da
O ser humano, no decorrer da sua evolução, natureza através de uma visão socioambiental. A
adquiriu a capacidade de analisar situações atuais, valorização da natureza pode ser classificada em
imaginar aquilo que ainda não foi vivido para manipular vários tipos de valores, como o valor existencial, que
a realidade e, até mesmo, em alguns casos, simular o abrange os valores intangíveis e intrínsecos da
futuro. natureza, onde a sua existência é a razão do seu valor
As pessoas e famílias começaram a se e sua importância, devendo ser protegido para estas e
organizar em grupos tornando-se comunidades, gerações futuras e o valor de opção, que seria aquele
civilizações, povos e nações, formaram-se redes de que visa à conservação da biodiversidade e sua
relações humanas, construindo aos poucos sua própria importância para o futuro, onde o homem é aquele que
identidade. Finalmente, adquirindo o seu próprio lugar e define o seu valor para o amanhã. Estes dois valores
permanecendo nele. Este lugar tornou-se algo repleto expressam os objetivos principais da importância das
de sentimento e emoção. unidades de conservação, ou seja, a UC valorizada
No decorrer da evolução humana, quando o pela sua própria existência e sua importância para a
homem diz ter se tornado civilizado, ocorreu o seu conservação da biodiversidade.
desprendimento com o lugar e formularam-se ideias PUTNEY (2000:141) afirma estar na hora de
das quais os recursos naturais eram bens infinitos. A se adotar uma visão holística das unidades de
utilização indiscriminada dos recursos naturais tornou o conservação, que vá além do enfoque exclusivo da
ser humano causador de grandes impactos ambientais, biodiversidade. É necessário prestar atenção nos
gerando o desequilíbrio na cadeia da vida, objetivos materiais e não materiais que são importantes
consequentemente, causando o colapso e a quebra do para vários setores da sociedade, pois, somente assim,
sistema. as UC's irão sobreviver neste mundo de
O desequilíbrio ambiental causado pelo competitividade, onde o uso dos recursos naturais está
homem ocasionou a eliminação de espécies e até cada vez mais disputado.
mesmo a dizimação de populações. Outros autores analisam a questão ambiental
Segundo CÂMARA (2000 p.178), este desequilíbrio e humana, através do comportamento do homem rural
ambiental pode ser classificado através de seis e suas atitudes para com a natureza. MCDOWELL e
modalidades: SPARKS (1989) definem a variável ―comportamento de
- destruição de habitat; conservação‖ como ação positiva tomada em relação a
- caça, pesca ou matança deliberada em larga escala; ecossistemas naturais.
- introdução de predadores ou competidores; Para atribuir valores numéricos a essa
- introdução de elementos patogênicos; variável, eles consideram a extensão de habitat natural
- poluição; mantido com o intuito de conservação do ecossistema,
- extermínio decorrente de extinções anteriores ou o sacrifício de negócios alternativos rentáveis em
extinção em cascata. função da conservação dos recursos naturais e o grau
de manejo científico dos ecossistemas, para assegurar
Devido a estas degradações ambientais a a perpetuação dos elementos naturais.
biodiversidade planetária vem sendo colocada em Atualmente, o ser humano, segundo MARTIN
risco. Quatro macro ameaças à sobrevivência de várias (2002, p.177), ―está vivenciando a ―redescoberta do
espécies podem ser destacadas: lugar‖, que revela a totalidade sistêmica entre a
- destruição, fragmentação, e degradação de habitat; sociedade humana e a natureza, estando associado à
- exploração predatória; busca de estratégias e meios sustentáveis de atender
- introdução de espécies exóticas e às necessidades das pessoas ou do próprio capital‖.
- aumento de pragas e doenças (PRIMACK, 1995, Esta redescoberta se deu em grande parte pela perda
p.66). dos sentimentos com o lugar e sua relação entre
Dentre estas ameaças, destaca-se a homem e natureza.
fragmentação, que para DOBSON (1995) não é um A exploração dos recursos de forma acelerada
processo único, consiste em um número de diferentes causa a perda da biodiversidade e, consequentemente,
mecanismos no qual o mais importante é a perda de em longo prazo, perda na qualidade de vida. Através
área total do habitat e sua fragmentação dentro de de uma perspectiva humanística de valorização da
ecossistemas menores. As consequências da pessoa humana, onde o sujeito é responsável pelo seu
fragmentação são um grande problema, pois não se próprio destino, surge o conceito de Desenvolvimento
sabe até que ponto isto pode alterar o funcionamento Local.
dos ecossistemas (já que os efeitos só podem ser MARTINS (2002, p.4) afirma que o
observados depois de décadas). desenvolvimento local visa à promoção da vida e
A implantação de unidade de conservação satisfação plena das necessidades fundamentais da
surge na tentativa de preservar diversos tipos de comunidade. Para que haja efetiva qualidade de vida e
fragmentos ambientais que ainda restavam, manutenção da mesma, deve haver equilíbrio na
aumentando a conectividade entre as espécies, utilização dos recursos, principalmente os naturais,
possibilitando o aumento no fluxo genético e para que a cadeia não se rompa e seja mantido o seu
manutenção das espécies. fluxo contínuo e sustentável.
Embora as unidades de conservação, em sua A contínua e crescente pressão exercida pelo
maioria, fossem de pequeno porte, mostrando-se homem sobre os recursos naturais, segundo GODOI
insuficientes para abrigar algumas espécies e (1992), ―visa apenas os benefícios imediatos de suas
existissem problemas na fiscalização, estas áreas ações, privilegiando o crescimento econômico a
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qualquer custo e relegando, a um segundo plano, a organização lógica do pensamento, o que presume a
capacidade de recuperação dos ecossistemas‖. Com necessidade de regras do bem falar e do bem escrever.
isto, observa-se que o crescimento econômico Segundo essa concepção de linguagem, a Gramática
desacertado, além de causar danos ao meio ambiente, Tradicional ou Normativa se constitui no núcleo dessa
não promoverá o desenvolvimento, pois ao se analisar visão do ensino da língua, pois vê nessa gramática
o aspecto global, conclui-se que os recursos uma perspectiva de normatização linguística, tomando
necessários para a recuperação do ecossistema como modelo de norma culta as obras dos nossos
tornarão este crescimento econômico inviável. grandes escritores clássicos. Portanto, saber
Na tentativa de aliar crescimento econômico e gramática, teoria gramatical, é a garantia de se chegar
a proteção ambiental, surge na década de 1950/1960 a ao domínio da língua oral ou escrita.
economia ambiental, que estabeleceu uma ponte entre Assim, predomina, nessa tendência
a economia e a ecologia. Mais tarde surgiu a teoria tradicional, o ensino da gramática pela gramática, com
econômica do desenvolvimento e o meio ambiente, que ênfase nos exercícios repetitivos e de recapitulação da
receberia o nome de Desenvolvimento Sustentável. matéria, exigindo uma atitude receptiva e mecânica do
Em 1987, as Nações Unidas definiram o aluno. Os conteúdos são organizados pelo professor,
conceito de desenvolvimento sustentável, no numa sequência lógica, e a avaliação é realizada
documento ―Nosso Futuro Comum‖, elaborado pela através de provas escritas e exercícios de casa.
Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Segundo este documento, o TENDÊNCIA LIBERAL RENOVADA
desenvolvimento deve ser suportável, viável e durável, PROGRESSIVISTA
portanto, um desenvolvimento que atenda às
necessidades do presente, sem comprometer a Segundo essa perspectiva teórica de
capacidade das gerações futuras. Libâneo, a tendência liberal renovada (ou pragmatista)
Sustentabilidade e Desenvolvimento são dois acentua o sentido da cultura como desenvolvimento
conceitos atualmente considerados característicos da das aptidões individuais.
problemática contemporânea, sendo que não há como
considerá-los separadamente, pois não existe A escola continua, dessa forma, a preparar o aluno
desenvolvimento sem que haja sustentabilidade. para assumir seu papel na sociedade, adaptando as
necessidades do educando ao meio social, por isso ela
4. ENSINO: CONCEPÇÕES E TENDÊNCIAS deve imitar a vida. Se, na tendência liberal tradicional, a
PEDAGÓGICAS DE ACORDO COM AS TEORIAS DE atividade pedagógica estava centrada no professor, na
LIBÂNEO escola renovada progressivista, defende-se a ideia de
―aprender fazendo‖, portanto centrada no aluno,
Segundo LIBÂNEO (1990), a pedagogia liberal valorizando as tentativas experimentais, a pesquisa, a
sustenta a ideia de que a escola tem por função descoberta, o estudo do meio natural e social, etc,
preparar os indivíduos para o desempenho de papéis levando em conta os interesses do aluno.
sociais, de acordo com as aptidões individuais. Isso
pressupõe que o indivíduo precisa adaptar-se aos Como pressupostos de aprendizagem, aprender se
valores e normas vigentes na sociedade de classe, torna uma atividade de descoberta, é uma
através do desenvolvimento da cultura individual. autoaprendizagem, sendo o ambiente apenas um meio
Devido a essa ênfase no aspecto cultural, as diferenças estimulador. Só é retido aquilo que se incorpora à
entre as classes sociais não são consideradas, pois, atividade do aluno, através da descoberta pessoal; o
embora a escola passe a difundir a ideia de igualdade que é incorporado passa a compor a estrutura cognitiva
de oportunidades, não leva em conta a desigualdade para ser empregado em novas situações. É a tomada
de condições. de consciência, segundo Piaget.

TENDÊNCIA LIBERAL TRADICIONAL No ensino da língua, essas idéias escolanovistas não


trouxeram maiores consequências, pois esbarraram na
Segundo esse quadro teórico, a tendência liberal prática da tendência liberal tradicional.
tradicional se caracteriza por acentuar o ensino
humanístico, de cultura geral. De acordo com essa TENDÊNCIA LIBERAL RENOVADA NÃO-DIRETIVA
escola tradicional, o aluno é educado para atingir sua
plena realização através de seu próprio esforço. Sendo Acentua-se, nessa tendência, o papel da escola na
assim, as diferenças de classe social não são formação de atitudes, razão pela qual deve estar mais
consideradas e toda a prática escolar não tem preocupada com os problemas psicológicos do que
nenhuma relação com o cotidiano do aluno. com os pedagógicos ou sociais. Todo o esforço deve
Quanto aos pressupostos de aprendizagem, a visar a uma mudança dentro do indivíduo, ou seja, a
ideia de que o ensino consiste em repassar os uma adequação pessoal às solicitações do ambiente.
conhecimentos para o espírito da criança é
acompanhada de outra: a de que a capacidade de Aprender é modificar suas próprias percepções.
assimilação da criança é idêntica à do adulto, sem Apenas se aprende o que estiver significativamente
levar em conta as características próprias de cada relacionado com essas percepções. A retenção se dá
idade. A criança é vista, assim, como um adulto em pela relevância do aprendido em relação ao ―eu‖, o que
miniatura, apenas menos desenvolvida. torna a avaliação escolar sem sentido, privilegiando-se
No ensino da língua portuguesa, parte-se da a auto avaliação. Trata-se de um ensino centrado no
concepção que considera a linguagem como expressão aluno, sendo o professor apenas um facilitador. No
do pensamento. Os seguidores dessa corrente ensino da língua, tal como ocorreu com a corrente
linguística, em razão disso, preocupam-se com a pragmatista, as idéias da escola renovada não-diretiva,
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embora muito difundidas, encontraram, também, uma suficiente se, ao lado e junto deste, não se elabora
barreira na prática da tendência liberal tradicional. uma nova teoria do conhecimento e se os oprimidos
não podem adquirir uma nova estrutura do
TENDÊNCIA LIBERAL TECNICISTA conhecimento que lhes permita reelaborar e reordenar
seus próprios conhecimentos e apropriar-se de outros.
A escola liberal tecnicista atua no aperfeiçoamento da
ordem social vigente (o sistema capitalista), Assim, para Paulo Freire, no contexto da luta de
articulando-se diretamente com o sistema produtivo; classes, o saber mais importante para o oprimido é a
para tanto, emprega a ciência da mudança de descoberta da sua situação de oprimido, a condição
comportamento, ou seja, a tecnologia comportamental. para se libertar da exploração política e econômica,
Seu interesse principal é, portanto, produzir indivíduos através da elaboração da consciência crítica passo a
―competentes‖ para o mercado de trabalho, não se passo com sua organização de classe. Por isso, a
preocupando com as mudanças sociais. pedagogia libertadora ultrapassa os limites da
pedagogia, situando-se também no campo da
Conforme MATUI (1988), a escola tecnicista, baseada economia, da política e das ciências sociais, conforme
na teoria de aprendizagem S-R, vê o aluno como Gadotti.
depositário passivo dos conhecimentos, que devem ser
acumulados na mente através de associações. Skinner Como pressuposto de aprendizagem, a força
foi o expoente principal dessa corrente psicológica, motivadora deve decorrer da codificação de uma
também conhecida como behaviorista. Segundo situação-problema que será analisada criticamente,
RICHTER (2000), a visão behaviorista acredita que envolvendo o exercício da abstração, pelo qual se
adquirimos uma língua por meio procura alcançar, por meio de representações da
de imitação e formação de hábitos, por isso a ênfase realidade concreta, a razão de ser dos fatos. Assim,
na repetição, nos drills, na instrução programada, para como afirma Libâneo, aprender é um ato de
que o aluno forme ―hábitos‖ do uso correto da conhecimento da realidade concreta, isto é, da situação
linguagem. real vivida pelo educando, e só tem sentido se resulta
de uma aproximação crítica dessa realidade. Portanto o
A partir da Reforma do Ensino, com a Lei 5.692/71, que conhecimento que o educando transfere representa
implantou a escola tecnicista no Brasil, preponderaram uma resposta à situação de opressão a que se chega
as influências do estruturalismo linguístico e a pelo processo de compreensão, reflexão e crítica.
concepção de linguagem como instrumento de
comunicação. A língua – como diz TRAVAGLIA (1998) No ensino da Leitura, Paulo Freire, numa entrevista,
– é vista como um código, ou seja, um conjunto de sintetiza sua ideia de dialogismo: ―Eu vou ao texto
signos que se combinam segundo regras e que é carinhosamente. De modo geral, simbolicamente, eu
capaz de transmitir uma mensagem, informações de puxo uma cadeira e convido o autor, não importa qual,
um emissor a um receptor. Portanto, para os a travar um diálogo comigo‖.
estruturalistas, saber a língua é, sobretudo, dominar o
código.
TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTÁRIA
No ensino da Língua Portuguesa, segundo essa
concepção de linguagem, o trabalho com as estruturas A escola progressista libertária parte do
linguísticas, separadas do homem no seu contexto pressuposto de que somente o vivido pelo educando é
social, é visto como possibilidade de desenvolver a incorporado e utilizado em situações novas, por isso o
expressão oral e escrita. A tendência tecnicista é de saber sistematizado só terá relevância se for possível
certa forma, uma modernização da escola tradicional e, seu uso prático. A ênfase na aprendizagem informal via
apesar das contribuições teóricas do estruturalismo, grupo, e a negação de toda forma de repressão, visam
não conseguiu superar os equívocos apresentados a favorecer o desenvolvimento de pessoas mais
pelo ensino da língua centrado na gramática normativa. livres. No ensino da língua, procura valorizar o texto
Em parte, esses problemas ocorreram devido às produzido pelo aluno, além da negociação de sentidos
dificuldades de o professor assimilar as novas teorias na leitura.
sobre o ensino da língua materna.
TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS PROGRESSISTAS TENDÊNCIA PROGRESSISTA CRÍTICO-SOCIAL
DOS CONTEÚDOS
Segundo Libâneo, a pedagogia progressista designa as
tendências que, partindo de uma análise crítica das Conforme Libâneo, a tendência progressista
realidades sociais, sustentam implicitamente as crítico-social dos conteúdos, diferentemente da
finalidades sociopolíticas da educação. libertadora e libertária, acentua a primazia dos
conteúdos no seu confronto com as realidades sociais.
TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTADORA A atuação da escola consiste na preparação do aluno
para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-
As tendências progressistas libertadora e libertária têm, lhe um instrumental, por meio da aquisição de
em comum, a defesa da autogestão pedagógica e o conteúdos e da socialização, para uma participação
antiautoritarismo. A escola libertadora, também organizada e ativa na democratização da sociedade.
conhecida como a pedagogia de Paulo Freire, vincula a
educação à luta e organização de classe do oprimido. Na visão da pedagogia dos conteúdos,
Segundo GADOTTI (1988), Paulo Freire não considera admite-se o princípio da aprendizagem significativa,
o papel informativo, o ato de conhecimento na relação partindo do que o aluno já sabe. A transferência da
educativa, mas insiste que o conhecimento não é aprendizagem só se realiza no momento da síntese,
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isto é, quando o aluno supera sua visão parcial e que, muitas vezes, de maneira dispersiva, inconsciente,
confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. fragmentada ou mesmo contraditória.
O professor normalmente espera sugestões,
TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS PÓS-LDB 9.394/96 propostas, orientações para sua tão desafiadora
prática: muitos gostariam até de algumas ―receitas‖;
Após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação sabemos, no entanto, que estas não existem dada a
Nacional de n.º 9.394/96, revalorizam-se as ideias de complexidade e dinâmica da tarefa educativa.
Piaget, Vygotsky e Wallon. Um dos pontos em comum Entendemos que é necessário o professor desenvolver
entre esses psicólogos é o fato de serem um método de trabalho, justamente para não ficar
interacionistas, porque concebem o conhecimento escravo de simples técnicas e procedimentos, que
como resultado da ação que se passa entre o sujeito e podem variar muito de acordo com a ―onda‖ do
um objeto. De acordo com ARANHA (1998), o momento.
conhecimento não está, então, no sujeito, como Ao trabalharmos com a dimensão das
queriam os inatistas, nem no objeto, como diziam os mediações, visamos, de um lado, apresentar algumas
empiristas, mas resulta da interação entre ambos. possibilidades, tiradas da própria pratica das escolas e
dos educadores que estão buscando hoje uma forma
Para citar um exemplo no ensino da língua, de superação da avaliação seletiva, e, de outro, refletir
segundo essa perspectiva interacionista, a leitura como sobre possíveis equívocos que se pode incorrer na
processo permite a possibilidade de negociação de tentativa de mudar as praticas tradicionais.
sentidos em sala de aula. O processo de leitura, O autor destaca que na graduação dos
portanto, não é centrado no texto, ascendente, bottom- professores até que se tem dado uma concepção
up, como queriam os empiristas, nem no receptor, teórica adequada do que deve ser a avaliação:
descendente, top-down, segundo os inatistas, mas contínua, diagnóstica, abrangente, relacionada aos
ascendente/descendente, ou seja, a partir de uma objetivos, etc.
negociação de sentido entre enunciador e receptor. De qualquer forma, falta a critica à realidade
Assim, nessa abordagem interacionista, o receptor é concreta. Até como reflexo do anterior, faltam
retirado da sua condição de mero objeto do sentido do indicações de mediações (―teoria de meio-de-campo‖),
texto, de alguém que estava ali para decifrá-lo, de formas de concretizar uma nova prática de
decodificá-lo, como ocorria, tradicionalmente, no ensino avaliação; falta clareza do que fazer no lugar da antiga
da leitura. forma de avaliar.
Para transformar a realidade é preciso o
As idéias desses psicólogos interacionistas querer, o desejar, o compromisso efetivo, enfim a
vêm ao encontro da concepção que considera a vontade política. Muitos sujeitos querem a mudança
linguagem como forma de atuação sobre o homem e o desde que não precisem mudar.
mundo e das modernas teorias sobre os estudos do Para Vasconcelos, para enfrentar esta
texto, como a Linguística Textual, a Análise do questão, é preciso estarmos atentos a fim de não
Discurso, a Semântica Argumentativa e a Pragmática, cairmos em duas posturas equivocadas:
entre outros. - Voluntarismo: achar que tudo é uma questão de boa
vontade, que depende de cada um; se cada um fizer
5. PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO, sua parte, o problema se resolve.
CURRÍCULO, PROCESSO EDUCATIVO E - Determinismo: achar que não dá para fazer nada, pois
PLANEJAMENTO ESCOLAR DE ACORDO COM AS o problema é estrutural, é do sistema: enquanto não
TEORIAS DE CELSO VASCONCELLOS E ILMA mudar o sistema, não adianta.
PASSOS VEIGA. . Apesar dos enfoques diferentes as duas
acabam levando ao imobilismo; a segunda
A avaliação da aprendizagem vem se Obviamente; a primeira por passar a ideia que mudar é
constituindo um sério problema educacional desde há muito fácil: ao se tentar mudar, emergem as
muito tempo. A partir de década de 60, no entanto, dificuldades, levando em pouco, à acomodação.
ganhou ênfase em função do avanço da reflexão crítica Para o autor é preciso um enfoque dialético:
que aponta os enormes estragos da prática há necessidade de analise, para se saber as reais
classificatória e excludente: os elevadíssimos índices possibilidades de mudança, tendo-se em conta tanto as
de reprovação e evasão escolar, aliados a um determinações da realidade, quanto a força da ação
baixíssimo nível de qualidade da educação escolar consciente e voluntária da coletividade organizada.
tanto em termos de apropriação do conhecimento O trabalho do autor se coloca numa dupla
quanto de formação de uma cidadania ativa e critica. perspectiva: inicialmente, tentar despertar o querer
Mais recentemente, a avaliação esta também muito em mudar em todos, através de uma critica ao problema,
pauta em função das varias iniciativas tomadas por para possibilitar o desequilíbrio, o acordar, o
mantenedoras, publicas ou privadas, no sentido de aprofundamento da compreensão, a tomada de
reverter este quadro de fracasso escolar. Entendemos, consciência da contradição; em seguida, a partir de um
todavia, que a discussão sobre avaliação não pode ser redirecionamento de perspectiva, oferecer alguns
feita de forma isolada de um projeto político- subsídios para orientar concretamente os que querem
pedagógico, inserido num projeto social mais amplo. realmente mudar ( os que estão abertos, os que estão
Neste livro, o autor se aproxima intensa e dispostos a abrir mão do uso autoritário da avaliação).
especificamente, das praticas concretas de avaliação Avalia Vasconcellos que ―para os que não querem, os
da aprendizagem, através das representações e, subsídios de nada valem, pois falta-lhes vontade
sobretudo, pelas observações do cotidiano escolar. As política; estes, provavelmente, serão atingidos por
formas de mediação que trazemos representam uma outro desequilíbrio: a pressão grupal (colegas
sistematização de praticas que já vem ocorrendo, só professores, alunos, pais), que vão cobrar uma nova
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postura a partir de novas praticas que estiverem O autor afirma: ―existe o problema da avaliação! Disto
realizando‖. ninguém parece discordar; ao contrário, percebemos
São necessários passos pequenos, assumidos um amplo consenso quanto ao fato que a avaliação
coletivamente, mas concretos e na direção certa, escolar é hoje um grande desafio. Este consenso, no
desencadeando um processo de mudança com entanto, começa a se desfazer quando parte-se para
abrangência crescente: sala de aula, escola, grupo de sua analise, na medida em que existem diferentes
escola, comunidade, sistema de ensino, sociedade compreensões do mesmo.‖
civil, sistema político, etc., a partir da criação de uma Para explicar o problema da avaliação, o seu
base critica entre educadores, alunos, pais, etc. surgimento, desenvolvimento e duração, foram ouvidos
Em primeiro lugar, é necessário compreender professores respeito do assunto.
efetivamente o problema, captar o movimento do real Suas respostas normalmente apontam que o problema
em termos da avaliação na prática (o que de fato fundamental, decisivo da avaliação, está:
ocorre nas escolas). 1-nos alunos: porque são desinteressados, pobres,
Para colaborar com o processo de transformação da carentes, imaturos, etc
realidade da avaliação escolar, é preciso buscar um 2. Nas famílias: mães trabalham fora, pais são
procedimento metodológico que nos ajude. analfabetos e alcoólatras; outras vezes as questões
A construção de um Método de trabalho possibilita são de ordem técnica: como preparar um instrumento
evitar tanto o fechamento do grupo quanto a que possa medir adequadamente, estabelecer 5 ou 7
dependência, em direção à autonomia. para médias, etc.
Para Vasconcellos, uma metodologia de trabalho na 3. O número de alunos por sala é muito grande e isso
perspectiva dialética-libertadora deve compreender os dificulta a avaliação
seguintes elementos: Para o autor, estes problemas são aparentes, não são
- Partir da prática – ter a pratica em que estamos determinantes (não que não existam); questiona até
inseridos como desafio para a transformação. que ponto este argumentos não seriam utilizados como
- Refletir sobre a pratica – através da reflexão critica e politicamente corretos (cunho reprodutivista); o
coletiva, buscar subsídios, procurar conhecer como professor não percebe estes dados de realidade.
funciona a pratica, quais são suas contradições, sua O professor mais aberto coloco a questão da avaliação
estrutura, suas leis de movimento, captar sua essência, de forma sensível, de forma ética. O que ele observa a
para saber como atar no sentido de sua transformação. no aluno é o resultado de uma complexa cadeia de
-Transformar a Prática – atuar, coletiva relações de reprodução das estruturas dominantes (é
organizadamente, sobre a pratica, procurando apenas a ponta do iceberg).
transformá-la na direção desejada. A reprovação escolar é antiga. Desde a China, por
No que se refere à Reflexão sobre a prática, esta deve volta de 2205 a.C generais de exército já avaliavam
ser feita em três dimensões: soldados a cada três anos a fim de promover ou
- Onde estamos (o que está sendo) demitir. Com o caráter que tem hoje, sua história é
Saber onde/como estamos, como chegamos aqui; recente. Data da constituição da burguesia enquanto
passar da sensação de mal-estar para a compreensão classe.
concreta da realidade: entendemos que o que vai dar o Para o autor, o papel da escola, a função real e oculta
concreto de pensamento é o estabelecimento de que lhe é determinada, é precisamente a de partir dos
relações, a busca de captação do movimento do real: fracassos escolares dos desfavorecidos, mergulhá-los
- Para onde queremos ir (como deveria ser) Saber o na humilhação para que não renunciem a uma atitude
que queremos com a avaliação (avaliar para quê?); de submissão.
saber o que buscarmos com a educação escolar; A avaliação contribui para reproduzir e perpetuar este
dependendo de nossa concepção de educação, processo, separando os aptos dos inaptos. Para uma
teremos diferentes atitudes diante do problema (da melhor compreensão do problema é necessário
simples conivência – ajustes técnicos, mudanças de considerarmos um contexto mais amplo, marcado por
nomes, à transformação radical); contradições sociais:
- O que fazer (o que fazer para vir-a-ser) Estabelecer - mudança no quadro de valores da sociedade
um plano de ação. A busca de ―solução‖ tem que ser (excesso de liberdade, afrouxamento da autoridade de
coerente com nosso posicionamento educacional. Não pais e educadores.
há solução boa ―em si‖ (ex.: semana de prova – é uma - diminuição da motivação pelo estudo, escola deixa de
solução ótima para determinada concepção de ser vista como local de ascensão social - inadequação
educação: no entanto é uma aberração para outra...). curricular.
Através de um processo de construção de - não alteração de metodologias de trabalho em sala de
conhecimento a respeito d realidade em questão, isto aula
dá num movimento de: - situação do professor: má formação, baixa
-Síncrese: percepção inicial do problema, ainda de remuneração, carga excessiva de trabalho.
forma confusa, desarticulada: - superlotação das escolas, salas de aula, instalações e
-Analise: captação do movimento do real, suas equipamentos precários.
relações. O problema da avaliação não pode ser - distância entre teoria e prática no trabalho do
compreendido ―em si‖ (nenhum problema pode). Assim professor
como não dá para entender o problema da avaliação - distância entre concepção/realidade efetiva que pode
―em si‖ do problema, desvinculadas de outra frentes de ser superada por um exercício de análise crítica da
atuação; prática, tanto individual como coletivamente O
- Síntese: compreensão do real nas suas professor participa da distorção da avaliação:
determinações, contradições, tendências, espaços de - num primeiro nível quando dá destaque a ela,
autonomia relativa, espaços de possíveis ações usando-a como instrumento de dominação e controle
conscientes e voluntárias dos agentes históricos.
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- num nível mais profundo quando a utiliza como - observação da criança, fundamentada nas etapas de
instrumento de discriminação social. desenvolvimento
De acordo com Vasconcelos, o professor chega a esse - oportunização de novos desafios, com base na
ponto, por algumas razões: reflexão critica e fundamentação teórica
a) necessidade - Registro das manifestações infantis
– proposta de trabalho que não são apropriadas para - Diálogo frequente entre os adultos que lidam com a
os alunos criança (educadores, pais e responsáveis)
– gênese da necessidade de controle por parte do 3. Redimensionar o conteúdo da avaliação
professor A avaliação deve ser reflexiva, relacional e
– redescoberta da nota como instrumento de coerção compreensiva. A ―cola‖ não é aceita quando escrita no
b) ingenuidade papel, mas é aceita quando decorada e gravada na
c) convicção cabeça do aluno.
d) comodidade O autor faz algumas considerações sobre o conteúdo
e) pressão da avaliação:
Sentido da avaliação a) ortografia: saber grafar x adquirir sistema de escrita
O autor diferencia avaliação de nota. Para ele, – na produção de um texto nas séries iniciais deve se
avaliação é um processo abrangente da existência valorizar mais as idéias do que os aspectos gramaticais
humana, que implica em reflexão critica sobre a pratica (são coisas diferentes que devem ter pesos diferentes);
e nota é apenas uma exigência formal do sistema é importante que o aluno perceba o sentido das regras:
escolar. orientação para a produção de um texto mais inteligível
Ao questionarmos avaliar para que, encontramos e claro e não a regra pela regra.
muitas respostas: O autor questiona o uso de questionários, pois é
- atribuir notas herança da tradição e cultura divulgada entre os
- Cumprir exigências burocráticas professores e faz com que os alunos passem ano após
- Medir ano sem saber nada.
- Classificar Para rever e romper com este ciclo vicioso, o autor
- Achar os culpados propõe que:
- Incentivar a competição - seja revista a formação dos professores
A avaliação se relaciona com uma concepção de - se desenvolva, desde a pré-escola, um tipo de ensino
mundo, de homem e de sociedade e liga-se que não seja factual e decorativo
diretamente ao projeto político-pedagógico da - que se elabore um novo tipo de avaliação, mais
instituição. coerente coma forma de ensinar, onde se busque
Para se atingir um nível mais profundo de verificar a compreensão dos fatos e conceitos e não a
conscientização, o professor precisa praticar a ação memorização mecânica.
reflexão: - trabalho com os pais para mudar também a sua
- abrindo mão do uso autoritário da avaliação que o mentalidade
sistema lhe autoriza O autor critica o uso de nota para controle da disciplina,
- Revendo a metodologia de trabalho em sala de aula pois são aspectos diferentes um do outro.
- Redimensionando o uso da avaliação (forma e A auto avaliação também precisa ser utilizada de
conteúdo) maneira critica, pois não adianta utilizá-la em contextos
- Alterando postura diante dos resultados da avaliação autoritários; a nota de participação é outro ponto
- Criando nova mentalidade junto aos alunos, colegas questionado pelo autor, pois normalmente ela é dada
de trabalho e pais, pois a mudança de postura está ao pra ajudar alunos que forma mal e não para recuperar
seu alcance; é preciso desejar e se emprenhar na aprendizagens importantes para o crescimento do
transformação do que está aí através de uma nova aluno; dar nota porque o aluno é bonzinho, é uma
prática. forma paternalista e prepotente do professor, que se
O autor aponta os seguintes caminhos para a coloca como juiz supremo; a nota de participação, caso
superação da postura avaliativa seja utilizada, deve ser baseada em critérios objetivos:
1. alterar a metodologia de trabalho, pois uma entrega de tarefas, frequência às aulas, trazer sempre
avaliação reflexiva e crítica só é possível com material, etc.
mudanças; o professor deve dar espaços para as A avaliação do tipo ―interesse‖, ―envolvimento‖, etc,
dúvidas dos alunos, combatendo os preconceitos e as deverá ficar para a avaliação sócio afetiva
gozações, estabelecendo um clima de respeito (desvinculada da nota); dar ―trabalhinhos‖ para os
2. Diminuir a ênfase na avaliação classificatória, pois alunos ganharem ponto também não faz sentido; os
não adianta mudar forma e não mudar conteúdo e vice- trabalhos, caso sejam necessários, são para recuperar
versa; a avaliação deve ser encarada e praticada como aprendizagem e não para melhorar nota.
um processo que permite ao professor acompanhar a Para trabalhos em grupo, o professor precisa deixar
construção das representações do aluno, percebendo, claro para os alunos como é a metodologia deste tipo
onde se encontram. Em relação às provas como de trabalho e em termos de avaliação, o professor da o
instrumento, o autor afirma existir ruptura com o total de pontos para o grupo e este o distribui entre os
processo de ensino-aprendizagem, ênfase em notas, seus elementos.
forma de classificação dos alunos. Os elementos para 4. Alterar a postura diante dos resultados da avaliação
avaliação devem ser retirados do próprio processo do Segundo o autor, o professor deve se preocupar menos
trabalho cotidiano, da própria caminhada do aluno rumo com notas e médias e preocupar-se mais com
à construção do conhecimento. aprendizagens significativas e o p aluno deve participar
Para a educação das crianças, o autor afirma que a de seu processo de avaliação, a saber:
avaliação deve caminhar na seguinte direção: - analisar com os alunos os resultados da avaliação,
colher sugestões;
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- discutir o processo de avaliação em nível de - diminuição da rotatividade entre os professores,


representantes de classe; diretores e coordenadores.
- fazer conselho de classe com a participação dos -organização dos profissionais da educação:
alunos (classe toda com todos os professores). participação em associações e entidades de classe,
O autor destaca a importância de se trabalhar o erro; o superação do corporativismo.
professor tem dificuldade em trabalhar com os erros A escola também deve mudar o que tem de ser
dos alunos porque não sabe trabalhar nem com os mudado:
seus próprios erros; é preciso valorizar o raciocínio do - buscar gestão participativa e transparente;
aluno e não somente a resposta ―certa‖. - engajar-se na sociedade como organismo vivo;
Quanto aos conselhos de classe, o autor propõe que: - permitir a construção coletiva do projeto pedagógico;
- sejam feitos durante o ano e não apenas no final; - construir espaços de reflexão coletiva;
Contem com a participação de todos os membros da - lutar contra a fragmentação e as relações autoritárias;
comunidade (professores, alunos, pais, coordenação, - Favorecer a formação de grêmios, grupos de teatro,
etc) representantes de classe, clube de vides, cinemas, etc.
- enfoque principal dado às aprendizagens e não às O autor afirma que efetivação de uma avaliação
notas; democrática na escola depende da democratização da
Que apontem as necessidades de mudança em todos sociedade, de tal forma que não se precise mais usar a
os aspectos da escola e não aos relativos aos alunos. escola como uma das instâncias da seletividade social.
- decisões sobre quais providências devem ser Em relação a pratica da reprovação escolar, é preciso
tomadas, registradas e avaliadas no conselho seguinte, ser repensada pelos seguintes motivos:
de modo a fazer história e não ser simples catarse; - é fator de discriminação e seleção social;
Em relação a pratica corrente dos conselhos de final de - é fator de distorção do sentido de avaliação;
ano (que decidem o futuro de muitos alunos) que ao - pedagogicamente não é a melhor solução;
menos: - não é justo o aluno pagar por falhas de outros;
- sejam preparados com antecedência; - tem um elevado custo social;
- Sejam estabelecidos critérios para ajuda e não - toda criança é capaz de aprender;
atribuição de notas; O imaginário dos agentes sociais também está sendo
- Sejam feitos com tempo para uma análise mais contaminado com as concepções:
cuidadosa e justa; - a reprovação é normal;
- Desde que o educador tenha compromisso com os -ela é justa;
alunos, a recuperação, mais do que uma estrutura da - ela é condição para não se rebaixar o nível;
escola, deve significar uma postura do educador no - querer mudar é demagogia dos dirigentes;
sentido de garantir a aprendizagem; portanto deve ser - sem reprovação os alunos vão se desinteressar;
uma recuperação instantânea. Como proposta para enfrentar o problema o autor
Para o autor, nenhuma reprovação deveria ser sugere:
surpresa para ninguém, pois tudo deve ser feito por - compromisso com a aprendizagem;
todos para evitar que isso ocorra. - necessária participação dos professores;
Quanto à situação de reprovação, o autor pondera: - implantação gradativa;
- A avaliação em estilo de prova revela o passado, - Articulação com outras frentes de luta;
aquilo que se estruturou no aluno, não dando conta de Testes sobre a avaliação pervertida ou sobre a
avaliar o momento presente do seu desenvolvimento; perversão da avaliação
- neste caso, a influência dos fatores sócio afetivos Vasconcelos enumera uma série de afirmações que ele
deve ser considerada, de tal forma que o aluno não denomina ―lógica do absurdo‖, sobre avaliação escolar:
tenha problemas motivados pelo desempenho passado 1. Tem sua lógica a escola valorizar muito nota e dar-
que tenham afetado o seu rendimento; lhe grande ênfase, pois afinal é o que demais
5. Trabalhar na conscientização da comunidade importância ali acontece; se a escola aumenta a
educativa exigência, o aluno se esforça mais.
Para o autor, o professor deve lutar para criar uma 2. Tem lógica a escola montar clima de tensão, pois a
nova mentalidade junto aos alunos, aos educadores e sociedade também faz tensão sobre o perfil competitivo
pais, superando o senso comum deformado a respeito dos profissionais.
da avaliação; no caso de transferências, as famílias 3. Tem lógica a escola ceder à pressão dos pais, pois
devem ser orientadas para formas de superação das sempre foi assim.
eventuais diferenças da organização pedagógica entre 4. Tem lógica a escola usar o argumento da
uma escola e outra. transferência dos alunos como justificativa de não
O autor ressalta que a avaliação deve levar à mudança mudança de suas práticas, pois assim a escola não
do que tem que ser mudado também em nível do muda e se perpetua o sistema.
sistema educacional Há necessidade de definição de 5. Tem sua lógica o professor supervalorizar as notas,
uma política educacional séria, ampla e comprometida pois caso contrário, não consegue dominar a classe.
com os interesses das classes populares, que leve à 6. Tem sua lógica o aluno ir mal no 4º bimestre, tirando
alteração progressiva das condições objetivas de só anota que precisa, pois está interessado em passar
trabalho: de ano e não em aprender.
- mais verbas para a educação e melhor aplicação dos 7. Tem sua lógica o professor só valorizar a resposta
recursos certa, pois na sociedade é isto o que importa; professor
- Melhor formação para os professores respeitado pela comunidade é o professor ―durão‖ e
- Melhor remuneração dos profissionais não aquele que se preocupa com aprendizagens.
- Mais instalações físicas 8. O fato dos alunos terem ―branco‖, medo, nervosismo,
- Diminuição do controle burocrático e mais autonomia ansiedade, etc é tudo culpa deles e da família porque
pedagógica para as escolas não tem hábito de estudos.
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9. Os alunos ainda não perderam esta terrível mania de entendido como a própria organização do trabalho
acreditar mais no que fazemos do que falamos (faz pedagógico da escola como um todo.
sentido ao aluno valorizar a nota, pois afinal é que A escola é o lugar de concepção, realização e
cobramos). avaliação de seu projeto educativo, uma vez que
10. Tem sua lógica o aluno não estudar todo dia, na necessita organizar seu trabalho pedagógico com base
medida em que percebe essa necessidade, já que o em seus alunos. Nessa perspectiva, é fundamental que
professor da matéria direitinho, aos poucos, seguindo o ela assuma suas responsabilidades, sem esperar que
programa. as esferas administrativas superiores tomem essa
11. É comum a aplicação de provas estilo‖ papagaio‖; o iniciativa, mas que lhe deem as condições necessárias
professor quer respostas idênticas as que deu em aula. para levá-la adiante. Para tanto, é importante que se
12. faz sentido os alunos desejarem boa sorte na fortaleçam as relações entre escola e sistema de
prova, já que frequentemente as questões são ensino. Para isso, começaremos, na primeira parte,
arbitrarias, sem contar quando tem sentido velado de conceituando projeto político-pedagógico.
vingança. Em seguida, na segunda parte, trataremos de
13. tem sua lógica os alunos fazerem bagunça durante trazer nossas reflexões para a análise dos princípios
as aulas, para segurar o professor que quer despejar norteadores. Finalizaremos discutindo os elementos
novas matérias, pois assim há menos pontos para básicos, da organização do trabalho pedagógico,
estudar pra provas. necessários à construção do projeto político-
14. muitas vezes diante de provas que não exigem pedagógico.
reflexão mas apenas nomes, classificações datas, fatos
etc; a ―cola‖ representa uma forma de resistência do Conceituando o projeto político pedagógico
aluno.
15. tem sua lógica os professores fazerem avaliação O que é projeto político-pedagógico?
sem ouvir os alunos, afinal, é assim que eles também
são avaliados por seus superiores. No sentido etimológico, o termo projeto vem
16. tem sua lógica o aluno adular o professor na do latim projectu, particípio passado do verbo projicere,
medida em que de modo geral os professores não tem que significa lançar para diante. Plano, intento,
maturidade para ouvir uma critica. desígnio. Empresa, empreendimento. Redação
17. as classes populares queriam escola e o governo provisória de lei. Plano geral de edificação (Ferreira
deu. Agora são reprovadas e se evadem é porque não 1975, p. 1.144). Ao construirmos os projetos de nossas
têm condições de acompanhar o nível de ensino – escolas, planejamos o que temos intenção de fazer, de
profecia ―auto realizadora‖ lançada sobre o aluno (tem realizar. Lançamo-nos para diante, com base no que
sua lógica). temos, buscando o possível. É antever um futuro
18. tem sua lógica o aluno pouco falar e pouco diferente do presente.
escrever na medida em que segundo mitos professores Nas palavras de Gadotti: Todo projeto supõe
quanto mais escreve, mais pode errar. rupturas com o presente e promessas para o futuro.
19. tem sua lógica os pais preparem os filhos para as Projetar significa tentar quebrar um estado confortável
provas na base do questionário na medida em que é para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade
isso o que acaba valendo mesmo. e buscar uma nova estabilidade em função da
20. tem a sua lógica os pais engolirem os sapos da promessa que cada projeto contém de estado melhor
escola e dos professores, pois sabem que se do que o presente. Um projeto educativo pode ser
reclamarem muito os prejudicados serão os próprios tomado como promessa frente a determinadas
filhos e além do mais o que interessa mesmo é o rupturas. As promessas tornam visíveis os campos de
diploma. ação possível, comprometendo seus atores e autores.
21. Tem sua lógica os filhos se preocuparem em (1994, p. 579)
tirarem notas para os pais, pois se preocupam com os Nessa perspectiva, o projeto político-
presentes e os castigos que poderão vir. pedagógico vai além de um simples agrupamento de
22. Tem sua lógica o professor fazer a avaliação dos planos de ensino e de atividades diversas. O projeto
alunos apenas em determinados momentos de forma não é algo que é construído e em seguida arquivado ou
estanque, pois também é assim que esta acostumado a encaminhado às autoridades educacionais como prova
avaliar o seu trabalho e o da escola. do cumprimento de tarefas burocráticas. Ele é
23. Tem sua lógica o professor distribuir nota no final construído e vivenciado em todos os momentos, por
do ano, pois assim não fica com alunos em todos os envolvidos com o processo educativo da
recuperação naco tem chateação com pais, alunos e escola.
escolas por causa de eventuais reprovações. O projeto busca um rumo, uma direção. É uma
ação intencional, com um sentido explícito, com um
PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA: compromisso definido coletivamente. Por isso, todo
UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA Ilma Passos projeto pedagógico da escola é, também, um projeto
Alencastro Veiga* político por estar intimamente articulado ao
compromisso sociopolítico com os interesses reais e
Introdução coletivos da população majoritária. É político no sentido
de compromisso com a formação do cidadão para um
O projeto político-pedagógico tem sido objeto tipo de sociedade. "A dimensão política se cumpre na
de estudos para professores, pesquisadores e medida em que ela se realiza enquanto prática
instituições educacionais em nível nacional, estadual e especificamente pedagógica" (Saviani 1983, p. 93). Na
municipal, em busca da melhoria da qualidade do dimensão pedagógica reside a possibilidade da
ensino. O presente estudo tem a intenção de refletir efetivação da intencionalidade da escola, que é a
acerca da construção do projeto político-pedagógico, formação do cidadão participativo, responsável,
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compromissado, crítico e criativo. Pedagógico, no às vezes desfavoráveis. Terão que nascer no próprio
sentido de definir as ações educativas e as "chão da escola", com apoio dos professores e
características necessárias às escolas de cumprirem pesquisadores. Não poderão ser inventadas por
seus propósitos e sua intencionalidade. alguém, longe da escota e da luta da escota. (grifos do
Político e pedagógico têm assim uma autor) (Freitas 1991, p. 23) Isso significa uma enorme
significação indissociável. Neste sentido é que se deve mudança na concepção do projeto político-pedagógico
considerar o projeto político-pedagógico como um e na própria postura da administração central.
processo permanente de reflexão e discussão dos Se a escola nutre-se da vivência cotidiana de
problemas da escola, na busca de alternativas viáveis à cada um de seus membros, coparticipantes de sua
efetivação de sua intencionalidade, que "não é organização do trabalho pedagógico à administração
descritiva ou constatativa, mas é constitutiva" (Marques central seja o Ministério da Educação, a Secretaria de
1990, p. 23). Por outro lado, propicia a vivência Educação Estadual ou Municipal, não compete a eles
democrática necessária para a participação de todos os definir um modelo pronto e acabado, mas sim estimular
membros da comunidade escolar e o exercício da inovações e coordenar as ações pedagógicas
cidadania. Pode parecer complicado, mas trata-se de planejadas e organizadas pela própria escola. Em
uma relação recíproca entre a dimensão política e a outras palavras, as escolas necessitam receber
dimensão pedagógica da escola. assistência técnica e financeira decidida em conjunto
O projeto político-pedagógico, ao se constituir com as instâncias superiores do sistema de ensino.
em processo democrático de decisões, preocupa-se Isso pode exigir, também, mudanças na própria lógica
em instaurar uma forma de organização do trabalho de organização das instâncias superiores, implicando
pedagógico que supere os conflitos, buscando eliminar uma mudança substancial na sua prática. Para que a
as relações competitivas, corporativas e autoritárias, construção do projeto político-pedagógico seja possível
rompendo com a rotina do mando impessoal e não é necessário convencer os professores, a equipe
racionalizado da burocracia que permeia as relações escolar e os funcionários a trabalhar mais, ou mobilizá-
no interior da escola, diminuindo os efeitos los de forma espontânea, mas propiciar situações que
fragmentários da divisão do trabalho que reforça as lhes permitam aprender a pensar e a realizar o fazer
diferenças e hierarquiza os poderes de decisão. pedagógico de forma coerente.
Desse modo, o projeto político-pedagógico O ponto que nos interessa reforçar é que a
tem a ver com a organização do trabalho pedagógico escola não tem mais possibilidade de ser dirigida de
em dois níveis: como organização da escola como um cima para baixo e na ótica do poder centralizador que
todo e como organização da sala de aula, incluindo sua dita as normas e exerce o controle técnico burocrático.
relação com o contexto social imediato, procurando A luta da escola é para a descentralização em busca
preservar a visão de totalidade. Nesta caminhada será de sua autonomia e qualidade. Do exposto, o projeto
importante ressaltar que o projeto político-pedagógico político-pedagógico não visa simplesmente a um
busca a organização do trabalho pedagógico da escola rearranjo formal da escola, mas a uma qualidade em
na sua globalidade. todo o processo vivido. Vale acrescentar, ainda, que a
A principal possibilidade de construção do organização do trabalho pedagógico da escola tem a
projeto político-pedagógico passa pela relativa ver com a organização da sociedade.
autonomia da escola, de sua capacidade de delinear A escola nessa perspectiva é vista como uma
sua própria identidade. Isto significa resgatar a escola instituição social, inserida na sociedade capitalista, que
como espaço público, lugar de debate, do diálogo, reflete no seu interior as determinações e contradições
fundado na reflexão coletiva. Portanto, é preciso dessa sociedade.
entender que o projeto político-pedagógico da escola
dará indicações necessárias à organização do trabalho Princípios norteadores do projeto político
pedagógico, que inclui o trabalho do professor na pedagógico
dinâmica interna da sala de aula, ressaltado
anteriormente. Buscar uma nova organização para a A abordagem do projeto político-pedagógico,
escola constitui uma ousadia para os educadores, pais, como organização do trabalho da escola como um
alunos e funcionários. E para enfrentarmos essa todo, está fundada nos princípios que deverão nortear
ousadia, necessitamos de um referencial que a escola democrática, pública e gratuita:
fundamente a construção do projeto político- a) Igualdade de condições para acesso e permanência
pedagógico. na escola. Saviani alerta-nos para o fato de que há
A questão é, pois, saber a qual referencial uma desigualdade no ponto de partida, mas a
temos que recorrer para a compreensão de nossa igualdade no ponto de chegada deve ser garantida pela
prática pedagógica. Nesse sentido, temos que nos mediação da escola. O autor destaca: Portanto, só é
alicerçar nos pressupostos de uma teoria pedagógica possível considerar o processo educativo em seu
crítica viável, que parta da prática social e esteja conjunto sob a condição de se distinguir a democracia
compromissada em solucionar os problemas da como possibilidade no ponto de partida e democracia
educação e do ensino de nossa escola. Uma teoria que como realidade no ponto de chegada. (1982, p. 63)
subsidie o projeto político-pedagógico e, por sua vez, a Igualdade de oportunidades requer, portanto, mais que
prática pedagógica que ali se processa deve estar a expansão quantitativa de ofertas; requer ampliação
ligada aos interesses da maioria da população. do atendimento com simultânea manutenção de
Faz-se necessário, também, o domínio das qualidade.
bases teórico-metodológicas indispensáveis à b) Qualidade que não pode ser privilégio de minorias
concretização das concepções assumidas econômicas e sociais. O desafio que se coloca ao
coletivamente. Mais do que isso, afirma Freitas que: As projeto político-pedagógico da escola é o de propiciar
novas formas têm que ser pensadas em um contexto uma qualidade para todos. A qualidade que se busca
de luta, de correlações de força – às vezes favoráveis, implica duas dimensões indissociáveis: a formal ou
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técnica e a política. Uma não está subordinada à outra; desenvolvidas. Nas palavras de Marques: A
cada uma delas tem perspectivas próprias. A primeira participação ampla assegura a transparência das
enfatiza os instrumentos e os métodos, a técnica. A decisões, fortalece as pressões para que sejam elas
qualidade formal não está afeita, necessariamente, a legítimas, garante o controle sobre os acordos
conteúdos determinados. estabelecidos e, sobretudo, contribui para que sejam
Demo afirma que a qualidade formal: "(...) contempladas questões que de outra forma não
significa a habilidade de manejar meios, instrumentos, entrariam em cogitação. (1990, p. 21).
formas, técnicas, procedimentos diante dos desafios do d) Liberdade é outro princípio constitucional. O
desenvolvimento" (1994, p. 14). A qualidade política é princípio da liberdade está sempre associado à ideia de
condição imprescindível da participação. Está voltada autonomia. O que é necessário, portanto, como ponto
para os fins, valores e conteúdos. Quer dizer "a de partida, é o resgate do sentido dos conceitos de
competência humana do sujeito em termos de se fazer autonomia e liberdade. A autonomia e a liberdade
e de fazer história, diante dos fins históricos da fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. O
sociedade humana" (Demo 1994, p. 14). significado de autonomia remete-nos para regras e
Nesta perspectiva, o autor chama atenção orientações criadas pelos próprios sujeitos da ação
para o fato de que a qualidade centra-se no desafio de educativa, sem imposições externas.
manejar os instrumentos adequados para fazer a Para Rios (1982, p. 77), a escola tem uma
história humana. A qualidade formal está relacionada autonomia relativa e a liberdade é algo que se
com a qualidade política e esta depende da experimenta em situação e esta é uma articulação de
competência dos meios. limites e possibilidades. Para a autora, a liberdade é
A escola de qualidade tem obrigação de evitar uma experiência de educadores e constrói-se na
de todas as maneiras possíveis a repetência e a vivência coletiva, interpessoal. Portanto, "somos livres
evasão. Tem que garantir a meta qualitativa do com os outros, não, apesar dos outros" (grifos da
desempenho satisfatório de todos. Qualidade para autora) (1982, p. 77). Se pensamos na liberdade na
todos, portanto, vai além da meta quantitativa de escola, devemos pensá-la na relação entre
acesso global, no sentido de que as crianças, em idade administradores, professores, funcionários e alunos
escolar, entrem na escola. É preciso garantir a que aí assumem sua parte de responsabilidade na
permanência dos que nela ingressarem. Em síntese, construção do projeto político-pedagógico e na relação
qualidade "implica consciência crítica e capacidade de destes com o contexto social mais amplo. Heller afirma
ação, saber e mudar" (Demo 1994, p. 19). que: A liberdade é sempre liberdade para algo e não
O projeto político-pedagógico, ao mesmo apenas liberdade de algo.
tempo em que exige dos educadores, funcionários, Se interpretarmos a liberdade apenas como o
alunos e pais a definição clara do tipo de escola que fato de sermos livres de alguma coisa, encontramo-nos
intentam, requer a definição de fins. Assim, todos no estado de arbítrio, definimo-nos de modo negativo.
deverão definir o tipo de sociedade e o tipo de cidadão A liberdade é uma relação e, como tal, deve ser
que pretendem formar. As ações específicas para a continuamente ampliada. O próprio conceito de
obtenção desses fins são meios. Essa distinção clara liberdade contém o conceito de regra, de
entre fins e meios é essencial para a construção do reconhecimento, de intervenção recíproca. Com efeito,
projeto político pedagógico. ninguém pode ser livre se, em volta dele, há outros que
c) Gestão democrática é um princípio consagrado não o são! (1982, p. 155) Por isso, a liberdade deve ser
pela Constituição vigente e abrange as dimensões considerada, também, como liberdade para aprender,
pedagógica, administrativa e financeira. Ela exige uma ensinar, pesquisar e divulgar a arte e o saber
ruptura histórica na prática administrativa da escola, direcionados para uma intencionalidade definida
com o enfrentamento das questões de exclusão e coletivamente.
reprovação e da não-permanência do aluno na sala de e) Valorização do magistério é um princípio central na
aula, o que vem provocando a marginalização das discussão do projeto político-pedagógico. A qualidade
classes populares. Esse compromisso implica a do ensino ministrado na escola e seu sucesso na tarefa
construção coletiva de um projeto político-pedagógico de formar cidadãos capazes de participar da vida
ligado à educação das classes populares. socioeconômica, política e cultural do país relacionam-
A gestão democrática exige a compreensão se estreitamente a formação (inicial e continuada),
em profundidade dos problemas postos pela prática condições de trabalho (recursos didáticos, recursos
pedagógica. Ela visa romper com a separação entre físicos e materiais, dedicação integral à escola,
concepção e execução, entre o pensar e o fazer, entre redução do número de alunos na sala de aula etc.),
teoria e prática. Busca resgatar o controle do processo remuneração, elementos esses indispensáveis à
e do produto do trabalho pelos educadores. A gestão profissionalização do magistério.
democrática implica principalmente o repensar da A melhoria da qualidade da formação
estrutura de poder da escola, tendo em vista sua profissional e a valorização do trabalho pedagógico
socialização. A socialização do poder propicia a prática requerem a articulação entre instituições formadoras,
da participação coletiva, que atenua o individualismo; no caso as instituições de ensino superior e a Escola
da reciprocidade, que elimina a exploração; da Normal, e as agências empregadoras, ou seja, a
solidariedade, que supera a opressão; da autonomia, própria rede de ensino. A formação profissional implica,
que anula a dependência de órgãos intermediários que também, a indissociabilidade entre a formação inicial e
elaboram políticas educacionais das quais a escola é a formação continuada.
mera executora. O reforço à valorização dos profissionais da
A busca da gestão democrática inclui, educação, garantindo-lhes o direito ao aperfeiçoamento
necessariamente, a ampla participação dos profissional permanente, significa "valorizar a
representantes dos diferentes segmentos da escola experiência e o conhecimento que os professores têm
nas decisões/ações administrativo-pedagógicas ali a partir de sua prática pedagógica" (Veiga e Carvalho
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1994, p. 51). A formação continuada é um direito de


todos os profissionais que trabalham na escola, uma O projeto político-pedagógico é entendido,
vez que não só ela possibilita a progressão funcional neste estudo, como a própria organização do trabalho
baseada na titulação, na qualificação e na competência pedagógico da escola. A construção do projeto político-
dos profissionais, mas também propicia, pedagógico parte dos princípios de igualdade,
fundamentalmente, o desenvolvimento profissional dos qualidade, liberdade, gestão democrática e valorização
professores articulado com as escolas e seus projetos. do magistério. A escola é concebida como espaço
A formação continuada deve estar centrada na social marcado pela manifestação de práticas
escola e fazer parte do projeto político-pedagógico. contraditórias, que apontam para a luta e/ou
Assim, compete à escola: acomodação de todos os envolvidos na organização do
a) proceder ao levantamento de necessidades de trabalho pedagógico. O que pretendemos enfatizar é
formação continuada de seus profissionais; que devemos analisar e compreender a organização do
b) elaborar seu programa de formação, contando com a trabalho pedagógico, no sentido de se gestar uma nova
participação e o apoio dos órgãos centrais, no sentido organização que reduza os efeitos de sua divisão do
de fortalecer seu papel na concepção, na execução e trabalho, de sua fragmentação e do controle
na avaliação do referido programa. hierárquico.
Nessa perspectiva, a construção do projeto
Assim, a formação continuada dos político pedagógico é um instrumento de luta, é uma
profissionais, da escola compromissada com a forma de contrapor-se à fragmentação do trabalho
construção do projeto político-pedagógico, não deve pedagógico e sua rotinização, à dependência e aos
limitar-se aos conteúdos curriculares, mas se estender efeitos negativos do poder autoritário e centralizador
à discussão da escola como um todo e suas relações dos órgãos da administração central. A construção do
com a sociedade. Daí, passarem a fazer parte dos projeto político-pedagógico, para gestar uma nova
programas de formação continuada, questões como organização do trabalho pedagógico, passa pela
cidadania, gestão democrática, avaliação, metodologia reflexão anteriormente feita sobre os princípios.
de pesquisa e ensino, novas tecnologias de ensino, Acreditamos que a análise dos elementos
entre outras. Veiga e Carvalho afirmam que: O grande constitutivos da organização trará contribuições
desafio da escola, ao construir sua autonomia, relevantes para a construção do projeto político
deixando de lado seu papel de mera "repetidora" de pedagógico. Pelo menos sete elementos básicos
programas de "treinamento", é ousar assumir o papel podem ser apontados: as finalidades da escola, a
predominante na formação dos profissionais. (1994, p. estrutura organizacional, o currículo, o tempo escolar, o
50) processo de decisão, as relações de trabalho, a
Inicialmente, convém alertar para o fato de avaliação.
que essa tomada de consciência, dos princípios
norteadores do projeto político-pedagógico, não pode Finalidades
ter o sentido espontaneísta de se cruzar os braços
diante da atual organização da escola, que inibe a A escola persegue finalidades. É importante
participação de educadores, funcionários e alunos no ressaltar que os educadores precisam ter clareza das
processo de gestão. É preciso ter consciência de que a finalidades de sua escola. Para tanto, há necessidade
dominação no interior da escola efetiva-se por meio de se refletir sobre a ação educativa que a escola
das relações de poder que se expressam nas práticas desenvolve com base nas finalidades e nos objetivos
autoritárias e conservadoras dos diferentes que ela define. As finalidades da escola referem-se aos
profissionais, distribuídos hierarquicamente, bem como efeitos intencionalmente pretendidos e almejados
por meio das formas de controle existentes no interior (Alves 1992, p. 19).
da organização escolar. Como resultante dessa  Das finalidades estabelecidas na legislação em vigor,
organização, a escola pode ser descaracterizada como o que a escola persegue, com maior ou menor ênfase?
instituição histórica e socialmente determinada,  Corno é perseguida sua finalidade cultural, ou seja, a
instância privilegiada da produção e da apropriação do de preparar culturalmente os indivíduos para uma
saber. melhor compreensão da sociedade em que vivem?
As instituições escolares representam "armas  Como a escola procura atingir sua finalidade política
de contestação e luta entre grupos culturais e e social, ao formar o indivíduo para a participação
econômicos que têm diferentes graus de poder" política que implica direitos e deveres da cidadania?
(Giroux 1986, p. 17). Por outro lado, a escola é local de  Como a escola atinge sua finalidade de formação
desenvolvimento da consciência crítica da realidade. profissional, ou melhor, como ela possibilita a 7
Acreditamos que os princípios analisados e o compreensão do papel do trabalho na formação
aprofundamento dos estudos sobre a organização do profissional do aluno?
trabalho pedagógico trarão contribuições relevantes  Como a escola analisa sua finalidade humanística, ao
para a compreensão dos limites e das possibilidades procurar promover o desenvolvimento integral da
dos projetos político-pedagógicos voltados para os pessoa?
interesses das camadas menos favorecidas. Veiga
acrescenta, ainda, que: A importância desses princípios As questões levantadas geram respostas e
está em garantir sua operacionalização nas estruturas novas indagações por parte da direção, de professores,
escolares, pois uma coisa é estar no papel, na funcionários, alunos e pais. O esforço analítico de
legislação, na proposta, no currículo, e outra é estar todos possibilitará a identificação de quais finalidades
ocorrendo na dinâmica interna da escola, no real, no precisam ser reforçadas, quais as que estão relegadas
concreto. (1991, p. 82). e como elas poderão ser detalhadas em nível das
áreas, das diferentes disciplinas curriculares, do
Construindo o projeto político pedagógico conteúdo programático. É necessário decidir,
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coletivamente, o que se quer reforçar dentro da escola O currículo expressa uma cultura. O segundo ponto é o
e como detalhar as finalidades para se atingir a de que o currículo não pode ser separado do contexto
almejada cidadania. Alves (1992, p. 15) afirma que há social, uma vez que ele é historicamente situado e
necessidade de saber se a escola dispõe de culturalmente determinado.
alguma autonomia na determinação das finalidades e, O terceiro ponto diz respeito ao tipo de
consequentemente, seu desdobramento em objetivos organização curricular que a escola deve adotar. Em
específicos. O autor enfatiza que: Interessará reter se geral, nossas instituições têm sido orientadas para a
as finalidades são impostas por entidades exteriores ou organização hierárquica e fragmentada do
se são definidas no interior do ―território social‘ e se são conhecimento escolar. Com base em Bernstein (1989),
definidas por consenso ou por conflito ou até se é chamo a atenção para o fato de que a escola deve
matéria ambígua, imprecisa ou marginal‖. (1992, p. 19). buscar novas formas de organização curricular, em que
Essa colocação está sustentada na ideia de o conhecimento escolar (conteúdo) estabeleça uma
que a escola deve assumir, como uma de suas relação aberta e inter-relacione-se em torno de uma
principais tarefas, o trabalho de refletir sobre sua ideia integradora. A esse tipo de organização curricular,
intencionalidade educativa. Nesse sentido, ela procura o autor denomina de currículo integração.
alicerçar o conceito de autonomia, enfatizando a O currículo integração, portanto, visa reduzir o
responsabilidade de todos, sem deixar de lado os isolamento entre as diferentes disciplinas curriculares,
outros níveis da esfera administrativa educacional. procurando agrupá-las num todo mais amplo. Como
Nóvoa nos diz que a autonomia é importante para: "a alertou Domingos (1985, p. 153), "cada conteúdo deixa
criação de uma identidade da escola, de um ethos de ter significado por si só, para assumir uma
científico e diferenciador, que facilite a adesão dos importância relativa e passar a ter uma função bem
diversos atores e a elaboração de um projeto próprio" determinada e explícita dentro do todo de que faz
(1992, p. 26). parte". O quarto ponto refere-se à questão do controle
A ideia de autonomia está ligada à concepção social, já que o currículo formal (conteúdos curriculares,
emancipadora da educação. Para ser autônoma, a metodologia e recursos de ensino, avaliação e relação
escola não pode depender dos órgãos centrais e pedagógica) implica controle. Por outro lado, o controle
intermediários que definem a política da qual ela não social é instrumentalizado pelo currículo oculto,
passa de executora. Ela concebe seu projeto político- entendido este como as "mensagens transmitidas pela
pedagógico e tem autonomia para executá-lo e avaliá- sala de aula e pelo ambiente escolar" (Cornbleth 1992,
lo ao assumir uma nova atitude de liderança, no sentido p. 56).
de refletir sobre as finalidades sociopolíticas e culturais Assim, toda a gama de visões do mundo, as
da escola. normas e os valores dominantes são passados aos
alunos no ambiente escolar, no material didático e mais
Currículo especificamente por intermédio dos livros didáticos, na
relação pedagógica, nas rotinas escolares. Os
Currículo é um importante elemento resultados do currículo oculto "estimulam a
constitutivo da organização escolar. Currículo implica, conformidade a ideais nacionais e convenções sociais
necessariamente, a interação entre sujeitos que têm ao mesmo tempo que mantêm desigualdades
um mesmo objetivo e a opção por um referencial socioeconômicas e culturais" (ibid, p. 56). Moreira
teórico que o sustente. Currículo é uma construção (1992), ao examinar as teorias de controle social que
social do conhecimento, pressupondo a sistematização têm permeado as principais tendências do pensamento
dos meios para que esta construção se efetive; a curricular, procurou defender o ponto de vista de que
transmissão dos conhecimentos historicamente controle social não envolve, necessariamente,
produzidos e as formas de assimilá-los, portanto, orientações conservadoras, coercitivas e de
produção, transmissão e assimilação são processos conformidade comportamental. De acordo com o autor,
que compõem uma metodologia de construção coletiva subjacente ao discurso curricular crítico, encontra-se
do conhecimento escolar, ou seja, o currículo uma noção de controle social orientada para a
propriamente dito. Neste sentido, o currículo refere-se à emancipação. Faz sentido, então, falar em controle
organização do conhecimento escolar. O conhecimento social comprometido com fins de liberdade que deem
escolar é dinâmico e não uma mera simplificação do ao estudante uma voz ativa e crítica.
conhecimento científico, que se adequaria à faixa etária Com base em Aronowitz e Giroux (1985), o
e aos interesses dos alunos. autor chama a atenção para o fato de que a noção
Daí, a necessidade de se promover, na crítica de controle social não pode deixar de discutir: o
escola, uma reflexão aprofundada sobre o processo de contexto apropriado ao desenvolvimento de práticas
produção do conhecimento escolar, uma vez que ele é, curriculares que favoreçam o bom rendimento e a
ao mesmo tempo, processo e produto. A análise e a autonomia dos estudantes e, em particular, que
compreensão do processo de produção do reduzam os elevados índices de evasão e repetência
conhecimento escolar ampliam a compreensão sobre de nossa escola de primeiro grau. (1992, p. 22)
as questões curriculares. Na organização curricular é A noção de controle social na teoria curricular
preciso considerar alguns pontos básicos. O primeiro é crítica é mais um instrumento de contestação e
o de que o currículo não é um instrumento neutro. O resistência à ideologia veiculada por intermédio dos
currículo passa ideologia, e a escola precisa identificar currículos, tanto do formal quanto do oculto. Orientar a
e desvelar os componentes ideológicos do organização curricular para fins emancipatórios implica,
conhecimento escolar que a classe dominante utiliza inicialmente, desvelar as visões simplificadas de
para a manutenção de privilégios. sociedade, concebida como um todo homogêneo, e de
A determinação do conhecimento escolar, ser humano, como alguém que tende a aceitar papéis
portanto, implica uma análise interpretativa e crítica, necessários à sua adaptação ao contexto em que vive.
tanto da cultura dominante, quanto da cultura popular. Controle social, na visão crítica, é uma contribuição e
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uma ajuda para a contestação e a resistência à apressar as mudanças que se fazem necessárias
ideologia veiculada por intermédio dos currículos dentro e fora dos muros da escola.
escolares.
6. GESTÃO E PLANEJAMENTO ESCOLAR DE
A avaliação ACORDO COM AS TEORIAS DE JOSÉ CARLOS
LIBÂNEO
Acompanhar as atividades e avaliá-las levam-
nos à reflexão, com base em dados concretos sobre O planejamento escolar é uma tarefa docente
como a escola organiza-se para colocar em ação seu que inclui tanto a previsão das atividades em termos de
projeto político-pedagógico. A avaliação do projeto organização e coordenação em face dos objetivos
político-pedagógico, numa visão crítica, parte da propostos, quanto a sua revisão e adequação no
necessidade de se conhecer a realidade escolar, busca decorrer do processo de ensino. O planejamento é um
explicar e compreender criticamente as causas da meio para programar as ações docentes, mas é
existência de problemas, bem como suas relações, também um momento de pesquisa e reflexão
suas mudanças e se esforça para propor ações intimamente ligado à avaliação. Há três modalidades
alternativas (criação coletiva). de planejamento, articulados entre si o plano da escola,
Esse caráter criador é conferido pela o plano de ensino e o plano de aulas.
autocrítica. Avaliadores, que conjugam as idéias de
uma visão global, analisam o projeto político- A importância do planejamento escolar
pedagógico, não como algo estanque, desvinculado O planejamento é um processo de
dos aspectos políticos e sociais. Não rejeitam as racionalização, organização e coordenação da ação
contradições e os conflitos. A avaliação tem um docente, articulando a atividade escolar e a
compromisso mais amplo do que a mera eficiência e problemática do contexto social. A escola, os
eficácia das propostas conservadoras. Portanto, professores e alunos são integrantes da dinâmica das
acompanhar e avaliar o projeto político-pedagógico é relações sociais; tudo o que acontece no meio escolar
avaliar os resultados da própria organização do está atravessado por influências econômicas, políticas
trabalho pedagógico. e culturais que caracterizam a sociedade de classe.
Considerando a avaliação dessa forma, é Isso significa que os elementos do
possível salientar dois pontos importantes. Primeiro, a planejamento escolar - objetivos-conteúdos-métodos –
avaliação é um ato dinâmico que qualifica e oferece estão recheados de implicações sociais, têm um
subsídios ao projeto político-pedagógico. Segundo, ela significado genuinamente político. Por essa razão o
imprime uma direção às ações dos educadores e dos planejamento, é uma atividade de reflexão a cerca das
educandos. O processo de avaliação envolve três nossas opções e ações; se não pensarmos
momentos: a descrição e a problematização da didaticamente sobre o rumo que devemos dar ao nosso
realidade escolar, a compreensão crítica da realidade trabalho, ficaremos entregues aos rumos estabelecidos
descrita e problematizada é a proposição de pelos interesses dominantes da sociedade.
alternativas de ação, momento de criação coletiva.
A avaliação, do ponto de vista crítico, não O planejamento tem assim as seguintes funções:
pode ser instrumento de exclusão dos alunos
provenientes das classes trabalhadoras. Portanto, deve a) Explicar os princípios, diretrizes e procedimentos do
ser democrática, deve favorecer o desenvolvimento da trabalho docente que as segurem a articulação entre as
capacidade do aluno de apropriar-se de conhecimentos tarefas da escola e as exigências do contexto social e
científicos, sociais e tecnológicos produzidos do processo de participação democrática.
historicamente e deve ser resultante de um processo b) Expressar os vínculos entre o posicionamento
coletivo de avaliação diagnóstica. filosófico, político-pedagógico e profissional e as ações
efetivas que o professor irá realizar na sala de aula,
Finalizando através de objetivos, conteúdos, métodos e formas
organizativas de ensino.
A escola para se desvencilhar da divisão do c) Assegurar a racionalização, organização e
trabalho, de sua fragmentação e do controle coordenação do trabalho docente, de modo que a
hierárquico, precisa criar condições para gerar uma previsão das ações docentes possibilite ao professor a
outra forma de organização do trabalho pedagógico. A realização de um ensino de qualidade e evite a
reorganização da escola deverá ser buscada de dentro improvisação e a rotina.
para fora. O fulcro para a realização dessa tarefa será d) Prever objetivos, conteúdos e métodos a partir de
o empenho coletivo na construção de um projeto consideração das exigências postas pela realidade
político-pedagógico e isso implica fazer rupturas cone o social, do nível de preparo e das condições sócio-
existente para avançar. É preciso entender o projeto culturais e individuais dos alunos.
político-pedagógico da escola como uma reflexão de e) Assegurar a unidade e a coerência do trabalho
seu cotidiano. Para tanto, ela precisa de um tempo docente, uma vez que torna possível inter-relacionar,
razoável de reflexão e ação, para se ter um mínimo num plano, os elementos que compõem o processo de
necessário à consolidação de sua proposta. ensino: os objetivos (para que ensinar), os conteúdos
A construção do projeto político-pedagógico (o que ensinar), os alunos e suas possibilidades (a
requer continuidade das ações, descentralização, quem ensinar), os métodos e técnicas (como ensinar) e
democratização do processo de tomada de decisões e avaliação que intimamente relacionada aos demais.
instalação de um processo coletivo de avaliação de f) Atualizar os conteúdos do plano sempre que for
cunho emancipatório. Finalmente, há que se pensar preciso, aperfeiçoando-o em relação aos progressos
que o movimento de luta e resistência dos educadores feitos no campo dos conhecimentos, adequando-os às
é indispensável para ampliar as possibilidades e condições de aprendizagens dos alunos, aos métodos,
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técnicas e recursos de ensino que vão sendo ensino e aprendizagem se compõe de uma sequência
incorporados nas experiências do cotidiano. articulada de fases: preparação e apresentação de
g) Facilitar a preparação das aulas: selecionar o objetivos, conteúdos e tarefas; desenvolvimento da
material didático em tempo hábil, saber que tarefas mataria nova; consolidação (fixação, exercícios,
professor e alunos devem executar. Replanejar o recapitulação, sistematização); aplicação, avaliação.
trabalho frente a novas situações que aparecem no Isso significa que devemos planejar não uma aula, mas
decorrer das aulas. Para que os planos sejam um conjunto de aulas.
efetivamente instrumentos para a ação, devem ser Na preparação de aulas, o professor deve
como guia de orientação e devem apresentar ordem reler os objetivos gerais da matéria e a sequência de
sequencial, objetividade, coerência, flexibilidade. conteúdos do plano de ensino. Não pode esquecer que
cada tópico novo é uma continuidade do anterior; é
O plano é um guia para orientar o professor necessário assim, considerar o nível de preparação
em suas ações educativas O plano é um guia de inicial dos alunos para a matéria nova. Deve, também,
orientação, pois nele são estabelecidas as diretrizes e tomar o tópico da unidade a ser desenvolvido e
os meios de realização do trabalho docente. Sua desdobrá-lo numa sequência lógica, na forma de
função é orientar a prática partindo da exigência da conceitos, problemas, idéias.
própria prática. O plano deve ter uma ordem Trata-se de organizar um conjunto de noções
sequencial, progressiva. Para alcançar os objetivos, básicas em torno de uma ideia central, formando um
são necessários vários passos, de modo que a ação todo significativo que possibilite ao aluno percepção
docente obedeça a uma sequência lógica. Por clara e coordenada do assunto em questão. Ao mesmo
objetividade entendemos a correspondência do plano tempo em que são listadas as noções, conceitos, idéias
com a realidade que se vai aplicar. Não adianta fazer e problemas, é feita a previsão do tempo necessário. A
previsões fora das possibilidades humanas e materiais previsão do tempo, nesta fase, ainda não é definitiva,
da escola, fora das possibilidades dos alunos. Deve pois poderá ser alterada no momento de detalhar o
haver coerência entre os objetivos gerais, objetivos desenvolvimento metodológico da aula.
específicos, os conteúdos, métodos e avaliação. Em relação a cada tópico, o professor redigirá
Coerência é relação que deve existir entre as idéias e a um ou mais objetivos específicos, tendo em conta os
prática. O plano deve ter flexibilidade no decorrer do resultados esperados na assimilação de
ano letivo, o professor está sempre organizando e conhecimentos e habilidades (fatos, conceitos, idéias,
reorganizando o seu trabalho. Como já dissemos o relações, métodos e técnicas de estudo, princípios e
plano é um guia e não uma decisão inflexível. atitudes etc.) estabelecer os objetivos é uma tarefa tão
importante que deles vão depender os métodos e
Existem pelo menos três níveis de planos: o plano procedimentos de transmissão e assimilação dos
da escola, o plano de ensino, o plano de aula. conteúdos e as várias formas de avaliação (parciais e
finais).
O plano da escola é um documento mais O desenvolvimento metodológico será
global; expressa orientações gerais que sintetizam, de desdobrado nos seguintes itens, para cada assunto
um lado, as ligações da escola com o sistema escolar novo: preparação e introdução do assunto;
mais amplo e, de outro, as ligações do projeto desenvolvimento e estudo ativo do assunto;
pedagógico da escola com os planos de ensino sistematização e aplicação; tarefas de casa. Em cada
propriamente ditos. O plano de ensino (ou plano de um desses itens são indicados os métodos,
unidade) é a previsão dos objetivos e tarefas do procedimentos e materiais didáticos, isto é, o que o
trabalho docente para o ano ou semestre; é um professor e alunos farão para alcançar os objetivos Em
documento mais elaborado, dividido por unidades cada um dos itens mencionados, o professor deve
sequenciais, no qual aparecem objetivos específicos, prever formas de verificação do rendimento dos alunos.
conteúdos e desenvolvimento metodológicos. Precisa lembrar que a avaliação é feita no início (o que
O plano de aula é a previsão do o aluno sabe antes do desenvolvimento da matéria
desenvolvimento do conteúdo para uma aula ou nova), durante e no final de uma unidade didática.
conjunto de aulas e tem um caráter específico. O plano A avaliação deve conjugar várias formas de
de aula é um detalhamento do plano de ensino. As verificação, podendo ser informal, para fins de
unidades e subunidades (tópicos) que foram previstas diagnóstico e acompanhamento do progresso dos
em linhas gerais são agora especificadas e alunos, formal para fins de atribuição de notas ou
sistematizadas para uma situação didática real. A conceitos. Os momentos didáticos do desenvolvimento
preparação de aulas é uma tarefa indispensável e, metodológico não são rígidos. Cada momento terá
assim como o plano de ensino, deve resultar em um duração de tempo de acordo com o conteúdo, com o
documento escrito que servirá não só para orientar nível de assimilação dos alunos. Às vezes ocupar-se-á
ações do professor como também para possibilitar mais tempo com a exposição oral da matéria, em
constantes revisões e aprimoramentos de ano para outras, com o estudo da matéria.
ano. Em todas as profissões o aprimoramento Outras vezes, ainda, tempo maior pode ser
profissional depende da acumulação de experiências dedicado a exercício de fixação e consolidação. Por
conjugando a prática e reflexão criteriosa sobre ela, exemplo, pode acontecer que os alunos dominem
tendo em vista uma prática constantemente perfeitamente os conhecimentos e habilidades
transformada para melhor. necessárias para enfrentar a matéria nova; nesse caso,
Na elaboração de um plano de aula, deve-se a preparação e introdução do tema podem ser mais
levar em consideração, em primeiro lugar, que a aula é breves. Entretanto, se os alunos não dispõem de pré-
um período de tempo variável. Dificilmente requisitos bem consolidados, a decisão do professor
completamos em uma só aula o desenvolvimento de deve ser outra, gastando-se mais tempo para garantir
uma unidade ou tópico de unidade, pois o processo de
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uma base inicial de preparo através da recapitulação, De acordo com LUCKESI (2005), a avaliação
pré-testes de sondagem e exercícios. tem sido definida como um juízo de valor, sobre dados
O desenvolvimento metodológico pode se relevantes, para uma tomada de decisão. Portanto, a
destacar aulas com finalidades específicas: aula de avaliação só tem sentido para que se tomem decisões
exposição oral da matéria, aula de discussão ou após o julgamento de valor, deixando de lado a sua
trabalho em grupo, aula de estudo dirigido individual, dimensão burocrática.
aula de demonstração prática ou estudo do meio, aula Diversos autores que têm analisado a
de exercícios, aula de recapitulação, aula de avaliação dentro de uma visão crítica afirma que ela
verificação para avaliação. O professor consciencioso pode exercer duas funções: a diagnóstica e a
deverá fazer uma avaliação da própria aula. Sabemos classificatória. (LUCKESI, 2005)
que o êxito dos alunos não depende unicamente do Numa prática docente crítica e construtiva, a
professor e do seu método de trabalho, pois a situação avaliação só faz sentido na medida em que serve para
docente envolve muitos fatores de natureza social, o diagnóstico da execução dos resultados que estão
psicológica, o clima geral da dinâmica da escola etc. sendo buscados e obtidos.
Entretanto, o trabalho docente tem um peso Nessa perspectiva, a avaliação deve ser
significativo ao proporcionar condições efetivas para o entendida como um juízo de qualidade sobre os dados
êxito escolar dos alunos. Ao fazer a avaliação das relevantes, tendo em vista uma tomada de decisão,
aulas, convém ainda levantar questões como estas: Os que se refere ao caminho a ser seguido, caso a
objetivos e conteúdos foram adequados à turma? O aprendizagem do estudante seja insatisfatória ou não.
tempo de duração da aula foi adequado? Os métodos e A avaliação diagnóstica busca a compreensão do
técnicas de ensino foram variados e oportunos em estágio de aprendizagem do estudante e os caminhos
suscitar a atividade mental e prática dos alunos? Foram necessários e adequados para a efetiva aprendizagem.
feitas verificações de aprendizagem no decorrer das Fica evidente que a avaliação está ligada a uma
aulas (informais e formais)? concepção de educação e, nesse caso, passa a ser um
O relacionamento professor-aluno foi instrumento auxiliar da aprendizagem, ao fornecer
satisfatório? Houve uma organização segura das pistas e caminhos ao replanejamento das atividades.
atividades, de modo ter garantido um clima de trabalho Ela não tem um fim em si mesmo, ao contrário, ela
favorável? Os alunos realmente consolidaram a deve ser instrumento de diagnóstico para o próprio
aprendizagem da matéria, num grau suficiente para trabalho do professor na medida em que dá
introduzir matéria nova? Foram propiciadas tarefas de oportunidade de corrigir os possíveis desvios. Para que
estudo ativo e independente dos alunos? a avaliação cumpra a sua verdadeira função, é
necessário o recurso técnico adequado, o que implica
7. AVALIAÇÃO ESCOLAR DE ACORDO COM AS que os instrumentos de avaliação sejam elaborados e
TEORIAS DE CIPRIANO LUCKESI, JUSSARA aplicados levando-se em conta alguns princípios:
HOFFMANN, CELSO ANTUNES E CELSO 1- Objetivos claramente definidos;
VASCONCELLOS. 2- Preocupação com a melhoria da
aprendizagem do estudante e da
Uma questão básica, que tem sido metodologia de ensino aprendizagem;
preocupação constante desta instituição é a 3- Planejamento adequado aos instrumentos
explicitação de um Projeto Político Pedagógico que de avaliação;
parta de uma concepção teórica, crítica e reflexiva. 4- Clareza na comunicação;
Destaca-se como fundamental, nessa reflexão, o 5- Análise dos dados coletados pela
processo de avaliação que se dá no bojo deste projeto. avaliação, com rigor científico.
Os educadores que conjugam ideias de uma Nessa perspectiva, não se concebe a
visão global da educação compreendem a avaliação avaliação de forma isolada, pois ela reflete uma e é um
não como algo estanque e fragmentado. A avaliação reflexo de uma concepção que se tem da educação, do
tem um aspecto bastante amplo, enfatizando a ensino e da sociedade. Portanto, a avaliação tem
descrição e a interpretação, em vez da simples embutida uma variável ideológica que revele
medição. compromissos políticos, axiológicos e morais
A avaliação não é um processo meramente correspondentes a um modelo de sociedade que se
técnico, pois implica uma postura política e inclui elegeu.
valores e princípios, refletindo, inclusive, uma No entanto, ela tem sido, de forma geral,
concepção de sociedade. Por isso mesmo, pensar os desenvolvida unilateralmente, pois só o aluno é
fundamentos que norteiam as teorias avaliativas avaliado, ao passo que o professor, as condições de
significa desvendar as ideologias em que se apoiam. ensino e as possibilidades do espaço de aprendizagem
Portanto, há uma estreita relação dialógica raramente são considerados nem submetidos a
entre avaliação e concepção teórica da educação, que qualquer avaliação. Mais ainda, a avaliação é quase
se estende a todo o processo educativo e ao próprio sempre utilizada como um instrumento de controle e de
conceito de aprendizagem. A finalidade da verdadeira discriminação. A adoção de instrumentos meramente
aprendizagem consiste não em reproduzir um modelo, técnicos desconsidera os fundamentos pedagógicos e
mas, sobretudo, em resolver situações, ou seja, criar, políticos que fazem parte da avaliação
reinventar soluções. Portanto, um instrumento de avaliação que
Nessa perspectiva, a avaliação busca ir além envolve professor, aluno e currículo é extremamente
da simples aplicação de provas e testes e tenta importante porque subtrai da avaliação o caráter
verificar o investimento do aluno mediante a antidemocrático presente em quase todos os espaços
reprodução livre, com expressões próprias, de aprendizagem.
relacionamentos, simulações, explicações práticas e O paradigma de avaliação que se opõe ao
outros. paradigma sentencioso, classificatório é o que
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denomino de "avaliação mediadora". "O que pretendo • Em que medida prevalece uma visão de
introduzir neste texto é a perspectiva da ação avaliativa conhecimento positivista fortalecedora da concepção
como uma das mediações pela qual se encorajaria a classificatória da avaliação?
reorganização do saber. Ação, movimento, provocação,
na tentativa de reciprocidade intelectual entre os Considero reveladoras de tal postura de
elementos da ação educativa. Professor e aluno resistência dos professores algumas perguntas
buscando coordenar seus pontos de vista, trocando formuladas por eles em seminários e encontros para
idéias, reorganizando-as. "(HOFFMANN, 1991, p. 67). discussão do tema Avaliação. Algumas questões,
Tal paradigma pretende opor-se ao modelo do repetidamente formuladas, serão ponto de partida
"transmitir-verificar-registrar" e evoluir no sentido de dessa análise:
uma ação avaliativa reflexiva e desafiadora do • Não estaremos nós, professores, sendo
educador em termos de contribuir, elucidar, favorecer a responsabilizados pelo fracasso de alunos
troca de idéias entre e com seus alunos, num desinteressados e desatentos?
movimento de superação do saber transmitido a uma • Como é possível alterar nossa prática, considerando
produção de saber enriquecido, construído a partir da o número de alunos com que trabalhamos e o reduzido
compreensão dos fenômenos estudados. E, de fato, o tempo em que permanecemos com as turmas?
que se observa na investigação da prática avaliativa • Não é necessário, nessa proposta, uma enorme
dos três graus de ensino é, ao contrário de uma disponibilidade do professor para atendimento aos
evolução, um fortalecimento da prática de julgamento alunos?
de resultados alcançados pelo aluno e definidos como • Em que medida formaremos um profissional
ideais pelo professor. competente sem uma prática avaliativa exigente e
Alguns fatores parecem contribuir para a classificatória (competitiva)?
manutenção de tal concepção: a autonomia didática • Será possível alterar o paradigma da avaliação diante
dos professores, decorrente de suas especializações das exigências burocráticas do sistema? Não se
em determinadas disciplinas e/ou áreas de pesquisa, deveria começar por alterá-las? Pretendo, inicialmente,
que dificulta a articulação necessária entre os analisar o conteúdo das perguntas que vêm sendo
docentes, a ponto de suscitar uma reflexão conjunta formuladas pelos professores e refletir sobre suas
sobre essa questão; a estrutura curricular, por exemplo, concepções. É preciso dizer que serão apontadas
do 39 Grau, com o regimento de matrícula por algumas hipóteses sobre concepções implícitas às
disciplinas que, desobrigando à seriação conjunta dos perguntas formuladas como tentativa preliminar de
alunos, impede os professores de avaliarem a trajetória análise do seu significado. Outras hipóteses, sem
do estudante em seu curso superior, em termos do dúvida, poderão ser sugeridas, ampliando-se essa
acompanhamento efetivo de seus avanços e de suas discussão.
dificuldades; além desses, a natureza da formação
didática dos professores, que se revela, na maioria das
vezes, por um quadro de ausência absoluta de
aprofundamento teórico em avaliação educacional.
Tomando ainda mais grave a postura
conservadora dos professores, observamos que a
avaliação é um fenômeno com características
seriamente reprodutivistas, ou seja, a prática que se
instala nos cursos de Magistério e Licenciatura é o
modelo que vem a ser seguido no 1° e 2° Graus. Muito
mais forte do que qualquer influência teórica que o
aluno desses cursos possa sofrer, a prática vivida por
ele enquanto estudante passa a ser modelo seguido
quando professor.
O que tal fenômeno provoca é muitas vazes a
reprodução de práticas avaliativas ora permissivas (a
partir de cursos de formação que raramente reprovam
os estudantes), ora reprovativas (a partir de cursos,
como os de Matemática, que apresentam abusivos
índices de reprovação nas disciplinas). Muitos
professores nem mesmo são conscientes da
reprodução de um modelo, agindo sem
questionamento, sem reflexão, a respeito do significado
da avaliação na Escola. Avaliar só com provas e testes pode ser um erro
Aponto, então, algumas perguntas relacionadas à
complexidade dessa questão: Conforme Hoffmann (1998) e Antunes (2002),
• Como superar o descrédito de muitos professores avaliar a aprendizagem dos alunos não é uma tarefa
relativo a sua perspectiva de avaliação enquanto ação simples, exige muito do professor, que precisa estar
mediadora? preparado para realizar tal atividade com a
• Quais serão as questões emergências na discussão competência necessária. Elaborar uma avaliação da
dessa perspectiva, levando-se em conta a aprendizagem eficaz requer que vários métodos
superficialidade da formação dos professores nessa avaliativos sejam utilizados com o objetivo de que o
área? docente tenha plena convicção da aprendizagem ou
não do estudante, porém o que se observa com

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frequência é o uso de métodos avaliativos compostos inserido e sua individualidade, o que acaba por
apenas por provas e testes. culminar em fracasso escolar.
Segundo Luckesi (2003), grande parte dos Persegue-se incansavelmente ―o igual‖ na
professores utilizam as provas como um fator negativo escola e todas as diferenças são obstáculos
de motivação, já que por meio delas o professor impeditivos de aprendizagem: os alunos agitados ou
ameaça e pune os alunos, condicionando-os á muito quietos, os alunos pobres, doentes, de idades
estudarem por medo. diversas, com talentos inesperados, com deficiências
físicas e mentais, que falam outra língua... De tal forma
Fatores que norteiam a prática avaliativa do o olhar do professor vasculha por desvios ao padrão
docente determinado ―a priori‖ que poucos sobrevivem à fúria
avassaladora da comparação, resultado na
O magistério não é uma tarefa fácil e a perversidade de uma escola seletiva e excludente, e
avaliação é uma das funções mais difíceis exercida perigosamente monótona pela sua incapacidade de
pelo professor, para avaliar este deve estar preparado valorizar as ricas experiências de vida e diferentes
para tanto, pois, ―a tarefa do professor ao avaliar exige formas de pensar de muitas crianças e jovens
competência, discernimento, equilíbrio, além, é claro, diferentes. (HOFFMANN, 1998, p. 9).
de conhecimentos técnicos‖. (ANTUNES, 2002, p.10). As pedagogias contemporâneas valorizam
O papel do professor no ato de avaliar é de uma metodologia mais participativa onde a avaliação é
suma importância uma vez que a ele cabe a tomada concebida como experiência de vivência. Na relação
decisão, de como avaliar? E o que avaliar? dialética, presente na avaliação, o aluno confronta-se
Considerando que a postura avaliativa do com o objeto do conhecimento que o levará a
docente é fator determinante na vida do educando, participação ativa, valorizando o fazer e refletir, sem
contribuindo para o desenvolvimento deste ou não. medo de errar porque o erro, no processo ensino-
Portanto a visão de mundo do professor, sua aprendizagem, assume o caráter mediador. Assim,
consciência crítica e seu senso de justiça certamente tanto o aluno como o professor podem rever sua
norteiam sua forma de avaliar a aprendizagem do trajetória para compreender e agir sobre o
aluno, sendo fundamental sua bagagem teórica, bem conhecimento e a avaliação não se reduz a apenas
como sua experiência docente para a construção de atribuir notas.
uma avaliação de fato democrática. Vasconcellos (2005), o autor faz a distinção
Muitos professores avaliam a partir do que não entre avaliação e nota, mostrando que a primeira é um
é essencial à aprendizagem escolar, tolhendo muitas processo abrangente da existência humana, que
vezes a criatividade dos alunos, impedindo-os de implica uma reflexão crítica sobre a prática, para captar
construir seus próprios conhecimentos o que seus avanços, suas resistências, dificuldades e
desencadeia em uma prática autoritária da avaliação, possibilitar uma tomada de decisão sobre o que fazer
que é extremamente antidemocrática, pois impede o para superar os obstáculos. A nota, seja na forma de
crescimento do aluno, sua elevação cultural, afastando- número, conceito ou menção, é uma exigência formal
o desse processo, às vezes, por definitivo. Se do sistema educacional. Mesmo que, um dia, não haja
observarmos muito do que aprendemos de fato, na mais nota na escola, ou reprovação, certamente haverá
época de escola não foi cobrado em provas, no entanto necessidade de continuar existindo avaliação, como
ficaram em nossas mentes porque foi importante daí acompanhamento do desenvolvimento dos alunos
ocorreu o registro. Às vezes o professor não tem a ajudando-os em suas eventuais dificuldades.
sensibilidade de perceber o que é de fato essencial Para que isso um dia venha acontecer, em
para o aluno, o que é aplicável e por isso avalia mal. primeiro lugar, o professor não deve fazer uso
Pela avaliação, nós professores, muitas vezes, autoritário da nota, e sim, através de novas práticas
―matamos‖ nossos alunos, matamos a alma bonita e concretas, mostrar ao aluno que, se ele aprender, a
jovem que eles possuem; reduzimos sua criatividade, nota virá como conseqüência.
seu prazer, sua capacidade de decisão. E a seguir, (VASCONCELLOS, 2005). Vasconcelos
reclamamos que nossos alunos não são criativos. (2005) também esclarece que algumas questões
Como poderão ser criativos, se estivemos, relativas à recuperação de estudos, enfatizando que
permanentemente, a estiolá-los aos poucos com nosso essa prática pedagógica, mais do que uma estrutura da
autoritarismo arbitrário? (LUCKESI, 2003, P.76). escola, deve significar uma postura do professor no
Os professores sentem dificuldade ao avaliar, sentido de garantir a aprendizagem dos alunos. É
embora, muitos não admitirem, ocorre que essa é uma importante que a recuperação aconteça no próprio ato
tarefa difícil que requer do docente esforço, de ensinar, quando o professor, a partir da análise dos
capacidade, empenho, dedicação e principalmente erros, percebe a necessidade dos alunos. Caso não
compromisso com uma educação de fato democrática. ocorra esta recuperação, o professor está se omitindo
―A tarefa do professor ao avaliar exige competência, em sua tarefa primordial que é garantir a
discernimento, equilíbrio, além, é claro, de aprendizagem. A recuperação da aprendizagem deve
conhecimentos técnicos‖ (ANTUNES, 2002, P. 10). traduzir-se na recuperação da nota, uma vez que, até o
A tarefa de avaliar é uma missão complexa, momento, existe nota.
que exige que o docente seja um exímio observador, No início de cada ano letivo, o professor deve
capaz de ver o aluno, além das aparências, capaz de explicitar aos seus alunos, a metodologia a ser
ver o aluno em sua totalidade, percebendo os avanços utilizada, o conteúdo a ser desenvolvido, seus critérios
do educando, pois, sempre há avanço, ainda que de avaliação que devem ser claro para favorecer os
pequeno, embora muitas vezes o educador não processos avaliativos que permitirão que a avaliação
perceba. É notório que boa parte dos docentes tenha realmente uma função de feedback. Isto
apresenta dificuldades em avaliar o aluno em sua possibilita que as atividades didático-pedagógicas
totalidade, considerando o contexto em que está sejam desenvolvidas de maneira mais eficaz e positiva
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pelo professor. Neste sentido, a avaliação não será tornou-se uma bandeira dentro do programa de ensino
aplicada somente ao nível de aprendizagem do aluno, fundamental em todos os níveis.
mas também ao aperfeiçoamento do ensino. De acordo com Gadotti (1992, p. 70) é preciso
saber e entender que, ―Todo ser humano é capaz de
8. INCLUSÃO ESCOLAR E DIVERSIDADE aprender e de ensinar, e, no processo de construção
CULTURAL DE ACORDO COM AS TEORIAS DE do conhecimento, todos os envolvidos aprendem e
PETER MITLER, MOACIR GADOTTI, ANA LÚCIA ensinam. O processo de ensino-aprendizagem é mais
VALENTE E VERA MARIA CANDAU eficaz quando o educando participa, ele mesmo, da
construção do ‗seu‘ conhecimento e não apenas
Da integração ã inclusão ―aprendendo‖ o conhecimento.‖
O aluno atual é esperto, curioso, sente prazer
O conceito de educação inclusiva tem sido em investigar, em descobrir, não aceitando mais os
bastante discutido nos últimos anos e deve ser conhecimentos prontos repassados pelo professor. A
precisamente diferenciado de educação integradora tarefa do professor está cada vez mais difícil. É
(UNESCO 1994; Giangreco, 1997; Mittler, 2000). chegada a hora de superar a reprodução e
Integração, como entendida tradicionalmente, fragmentação dos conhecimentos. O professor precisa
envolve a preparação da criança para que ela possa se assumir seu papel de mediador, de facilitador do
adaptar acadêmica e socialmente a um ambiente com processo, instigando os alunos a pensar, a refletir, a
crianças normais, mas sem pressupor que deva haver pesquisar, conduzindo-os para a construção do
qualquer mudança na organização ou no currículo da conhecimento. A relação professor e aluno não
escola. Para ser integrado com sucesso, espera-se que poderiam ficar de fora, uma vez que é considerada de
o aluno se adapte à escola, em vez de a escola se suma importância para todo o processo de construção
adaptar a ele. A inclusão é um caminho a ser trilhado, do conhecimento, pois o clima de afetividade nesta
mais do que um destino, um processo mais do que um relação pode contribuir para que a aprendizagem
objetivo a ser atingido, compreendendo uma série de ocorra em uma interação contínua. É comum, muitas
características distintas: vezes, os alunos encontrarem no professor aquilo que
- todas as crianças sem exceção frequentando salas de gostariam de encontrar em seus familiares, mas
aula do ensino regular, em escolas de seus bairros; também pode trazer consequências desastrosas se o
- escolas que reestruturam o seu currículo, seus professor não souber conduzir esta situação de
métodos de ensino, seus métodos de avaliação e afetividade em sala de aula.
agrupamento de alunos que garantem acesso e Segundo Gadotti (1992, p. 21), ―A escola que
sucesso a todo tipo de crianças da comunidade; se insere nessa perspectiva procura abrir os horizontes
- escolas que oferecem suporte planejado, mas de seus alunos para a compreensão de outras culturas,
discreto, para alunos e professores; de outras linguagens e modos de pensar, num mundo
- professores que aceitam a responsabilidade de cada vez mais próximo, procurando construir uma
ensinar todas as crianças e que recebem total apoio do sociedade pluralista.‖ Na escola inclusiva todos os
diretor, dos colegas e da comunidade; alunos, independente de suas condições físicas,
- desenvolvimento contínuo do corpo docente. intelectuais, sociais, linguísticas, religiosas, sexuais ou
outras, têm direito de acesso, de permanência e de
Ensinando para a diversidade sucesso.
De acordo com Carvalho (2000, p. 120), uma
Nesta seção, analisamos alguns estudos de caso e escola inclusiva é aquela escola que ―inclui a todos,
modelos que exemplificam habilidades e competências que reconhece a diversidade e não tem preconceito
usadas por professores do ensino regular, geralmente contra as diferenças, que atende às necessidades de
sem preparação adicional. Estes são agrupados sob os cada um e que promove a aprendizagem‖.
seguintes títulos: É fundamental então, identificar os obstáculos
a) usando recursos da comunidade; que dificultam o sucesso dos alunos no processo de
b) encorajando suporte da turma; aprendizagem e buscar tornar o ensino e a
c) facilitando o acesso ao currículo. aprendizagem um processo prazeroso, numa interação
contínua entre o professor, o aluno e o conhecimento.
Os exemplos vêm de vários lugares, mas O professor necessita estar bem preparado para
particularmente de Bangladesh e Lesoto, dois dos desafiar os alunos, através do uso de estratégias mais
países mais pobres do mundo em termos de interessantes, que permitam uma participação reflexiva
classificação socioeconômica global e com taxas de dos alunos e, para tanto, é fundamental que o
mortalidade abaixo de cinco anos de idade (UNICEF, professor tenha convicção de que a aprendizagem é
2000). Em Bangladesh, uma organização não possível para todos os alunos.
governamental (ONG) específica deste país de ampla Quando falamos de diversidade cultural,
extensão está assumindo a liderança em desenvolver estamos nos referindo diretamente ao conceito de
escolas inclusivas e em fazer com que os professores diferentes contextos sociais e culturais inseridos na
sejam preparados e tenham todo apoio para ensinar a sociedade, sendo este um fenômeno que sempre
todos. Em Lesoto, o governo tem um compromisso acompanhou a humanidade. A discussão sobre esse
formal com a Educação para Todos das Nações Unidas tema ocupa lugar significativo na ordem política
(UNICEF, 1990). Este país reconheceu a importância internacional. A Declaração Universal sobre
de incluir todos os seus cidadãos neste novo Diversidade Cultural (Unesco, 2001), resultado da
movimento para educação básica universal e, com a Conferência de Estocolmo realizada em 1998, sinaliza
ajuda de orientadores internacionais e ONGs, a relevância do assunto, sendo colocada no mesmo
desenvolveu um projeto piloto sobre educação inclusiva patamar dos direitos econômicos e sociais. Portanto,
(Khatleli, Mariga, Phachaka e Stubbs, 1995). O projeto quando nos referimos a essa diversidade em sala de
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aula é importante que nosso aluno entenda as crível que as leis que protegem as pessoas com
inúmeras culturas e atividades culturais presentes em marcas diferenciais se efetivam na medida em que
seu grupo, assim como as de grupos diferentes. estas se tornam atrativos para o mercado e o poder da
Gadotti (1992) propõe uma atração reside nas vantagens econômicas. As
educação multicultural, usando como ponto principal a evidências empíricas de desigualdade, no mercado de
ideia de uma educação igualitária, para todos, visando trabalho e no campo educacional, parecem se encaixar
à redução de índices de evasão e repetência nas como uma luva no discurso de que, se mais
escolas, principalmente em sociedades menos qualificados, os negros poderiam pleitear melhores
favorecidas. Uma das tendências do mundo trabalhos e rendimentos.
contemporâneo é o trabalho com o multiculturalismo. Discurso falacioso na medida em que a
Propor a valorização e o respeito para com as simplificação do trabalho sob o capitalismo dispensa a
diferenças socioculturais seria o caminho. qualificação, promovendo a especialização e, com ela,
O trabalho multicultural é importante para o a perda da compreensão do processo de produção da
desenvolvimento da sociedade, levando sempre em existência. Mesmo admitindo-se que a produtividade
consideração tudo que está relacionado ao contexto dos que consigam trabalho possa ser aumentada com
sociocultural, não deixando que somente grupos mais educação, num processo desfavorável de negociação
desenvolvidos sejam exemplo de grupos civilizados. para a garantia de emprego, conhecido o sistema das
Quando falamos da diversidade cultural no relações raciais no Brasil, é difícil imaginar que o
Brasil, por exemplo, precisamos levar em consideração estigma racial será negligenciado. Ante a precarização,
toda a herança vinda dos imigrantes e que serviu para a desregulamentação, a temporalidade e a ilegalidade
que a evolução cultural aqui seguisse um caminho de atividades que garantam a sobrevivência numa
muito diversificado progressivamente. sociedade produtora de mercadorias, também não
podem ser menosprezadas eventuais estratégias que
Diversidade étnico cultural e educação: transformem medidas de discriminação positiva no
perspectivas e desafios Ana Lucia Valente campo educacional em sobrecarga de manifestações
racistas.
Considerando-se que a organização social Considerando que o Banco Mundial
dominante é capitalista, marcada por lutas entre transformou-se "no organismo com maior visibilidade
classes e concepções de mundo antagônicas, o Estado no panorama educativo, ocupando em grande parte o
- instância superestrutural dessa organização - espaço tradicionalmente conferido à UNESCO" (Torres,
expressa os interesses hegemônicos e relações de 1996, pp. 125-6), não se pode perder de vista que para
poder desiguais. Nessa perspectiva, importa também atenuar as críticas ao programa de transformação
recuperar a história e conquistas empreendidas pelos estrutural, adequado ao padrão de desenvolvimento
grupos negros organizados, especialmente na neoliberal, o organismo internacional abriu uma linha
conquista e ocupação de postos na estrutura de poder, de "financiamento de programas sociais
empreendendo com competência uma "guerra de compensatórios voltados para as camadas mais pobres
posição" que tem favorecido abertura de espaços da população, destinados a atenuar as tensões sociais
fundamentais à luta antirracista, dos quais não se pode geradas pelo ajuste" (Soares, 1996, p. 27).
abrir mão. Entretanto, a compreensão de que a
Recentemente, foi desencadeado um implementação de políticas de ação afirmativa para os
processo de reorganização do capital, buscando novas negros serve aos interesses de uma lógica societária
respostas para a retomada da acumulação. Esse excludente, limitando-se a aliviar tensões sociais e a
processo, denominado de globalização, agudizou as propor medidas compensatórias, não deve nos fazer
tendências percebidas no início do século XX, quando perder de vista o espaço da contradição, garantindo a
o capital financeiro assumiu a hegemonia, própria coerência metodológica dessa análise. Sabe-se
evidenciando condições materiais que o ideário que essas políticas vêm recebendo apoio
neoliberal tenta justificar, dissimulando o fato de serem governamental, em especial do Ministério da
formas contemporâneas de exploração e dominação. Educação, que, ao que tudo indica, conta com a
Organismos internacionais, ao adotarem esse ideário, possibilidade de financiamento dos organismos
pressionaram os países pobres a desarmar uma rede internacionais.
de proteção que, segundo análises de matiz ideológico Contudo, isso não pode nos conduzir à visão
diverso, ampliou a miséria, expulsando dos processos maniqueísta de tomar o capital como "demoníaco" ou a
produtivos um contingente humano de dimensões negar peremptoriamente medidas de governantes que
gigantescas, e promoveu maior exploração daqueles aderiram ao ideário neoliberal. Como a "exclusão" faz
que se mantém ocupados. parte da lógica interna do capitalismo, compreender o
Como decorrência do desemprego estrutural, seu movimento pode permitir o redirecionamento
o trabalho é desregulamentado, precarizado, dessas propostas na perspectiva da transformação e
ampliando-se a terceirização e as atividades garantir controle e influência sobre as políticas
temporárias e ilegais. Isso implica a perda de públicas.
conquistas históricas dos trabalhadores que, sob Na medida em que o movimento da história é
ameaça de não poder garantir a sobrevivência, aceitam produzido na luta entre concepções de mundo
as condições impostas. antagônicas e de que as críticas ao programa de ajuste
No caso dos negros brasileiros, assim como estrutural partem de movimentos sociais, organizações
de outros grupos marcados pela diferença, a não governamentais, como também dos próprios
justificativa do capital para a não absorção do governos, impondo rearranjos na trajetória original
trabalhador são inúmeras. Efetivamente, a única planejada, vale iluminar esse debate com a
resposta plausível é que são desnecessários. Pelas contribuição de Samira Lancillotti (2000),
regras do mercado, não há emprego para todos e é parafraseando-a: pode ser considerado um avanço a
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incorporação dos negros pela escola regular, em todos globalizado, high tech e racialmente mais diverso do
os níveis. que em qualquer outra época da escola (GIROUX,
Como expressão das contradições sociais apud CANDAU, 2002).
existentes, é também no âmbito da educação formal As questões multiculturais estão presentes em
que se deve buscar condições de acesso de todos ao todas as sociedades e adquirem uma dimensão
conhecimento. Mas pretende-se que esse movimento planetária. O cenário é marcado por antagonismos,
extrapole os limites e os muros institucionais, atingindo tensões e conflitos, tanto no âmbito internacional, como
o processo educativo da formação humana, que ocorre nacional e local, permeando os mais variados campos:
em todas as dimensões da vida. Espera-se que o política, economia, arte, religião, tecnologia e
domínio da realidade, em suas dimensões universal e educação. De um lado, tensões e conflitos se
singular, possa permitir a construção de novas multiplicam, interesses e mentalidades se articulam,
sociabilidades que anunciem uma nova hegemonia. confrontam ou justapõem. De outro, as desigualdades
Impõem-se, assim, aos militantes de sociais, as relações assimétricas de poder são
organizações negras, aos estudiosos e a todos aqueles realidades que não podem ser dissociadas das
comprometidos e envolvidos nesse debate sobre a preocupações multiculturais.
implementação de políticas afirmativas, redimensionar As visões homogêneas, estáveis e
tática e estrategicamente uma luta que não se pode permanentes são questionadas. As certezas vão
"perder" ou justificar o diletantismo. A história já nos cedendo lugar à desconstrução, pluralização,
deu lições de sobra para que possamos projetar um ressignificação, reinventando identidades,
futuro diferente, mesmo sem certezas (Valente, 2000a). subjetividades, saberes, valores, convicções,
Multiculturalismo e educação: um desafio histórico horizontes de sentido. Somos convidados a assumir o
para a escola múltiplo, o plural, o diferente, o híbrido. Convite este
que começa no particular, ou seja: em cada um de nós
Recorrendo a Moreira e Candau (2003), a e estende-se para o coletivo na sociedade como um
problemática das relações entre escola e cultura é todo.
inerente a todo processo educativo, pois não existe Conforme Candau (2005), não se trata nem de
educação que não esteja imersa na cultura da maximizar a dimensão cultural desvinculando-as, das
humanidade. A escola é uma instituição cultural, sendo questões de caráter estrutural e da problemática da
assim, as relações entre escola e cultura não podem desigualdade e da exclusão crescentes no mundo
ser concebidas como dois polos independentes, ao atual, nem tão pouco considerá-la um mero produto
contrário, constituem uma teia tecida no cotidiano, com desta realidade.
fios e nós profundamente articulados. O termo ―cultura‖, segundo Candau (2002),
Partindo dessas primeiras considerações, o costuma estar vinculado à cultura erudita. Elementos
nosso objetivo, dentre outros, é analisar alguns termos, como instrução formal, conhecimentos gerais, as
questões e aproximações que favoreçam a discussão grandes obras artísticas da humanidade, a cultura
e, ao mesmo tempo, alertar para o importante papel da literária. Atos que supostamente denotem civilidade são
escola ao trabalhar as relações entre educação e considerados essenciais para um indivíduo ser
cultura(s). A temática é complexa, em processo de considerado ―culto‖. Todavia, cultura pode ser
construção e em busca de novas contribuições, que entendida também como tudo aquilo que é produzido
gerem novas ações práticas e pedagógicas. Nosso pelo ser humano. Desta forma, toda pessoa humana é
trabalho só foi possível, tendo em vista as diversas produtora de cultura, não sendo apenas um privilégio
fontes teóricas primárias com as quais dialogamos, na de certos grupos sociais nem pode ser apenas
tentativa de articular tais discussões. atribuída à escolarização formal. A cultura é um
Moreira e Candau (2003) entre outros, que fenômeno plural, multiforme, heterogêneo, dinâmico,
através de suas pesquisas estão construindo caminhos envolvendo criação e recriação.
que nos fazem refletir sobre as formas de encaminhar A realidade da América Latina, em específico,
as questões multiculturais inseridas na atual sociedade apresenta características bem particulares, pois é
globalizada que é, por excelência, uma sociedade caracterizada por uma cultura pluridentitária, formada
permeada de antagonismos, tensões e conflitos, mas por diferentes grupos sociais, étnicos, das áreas
também de possibilidades. É neste contexto social que urbanas e rurais, constituindo assim, uma realidade
se encontram as pessoas e os grupos sociais multicultural. Candau interpretando o pensamento de
excluídos, seja pela sua raça, cor, credo e opção Canclini (1997), assim se expressa: Assim como não
sexual. Articular igualdade, diferença, cultura(s), se pode colocar em contraposição o tradicional e o
diversidade cultural e cotidiano escolar constitui um dos moderno, também não se pode contrapor o culto, o
maiores desafios para a construção de uma escola popular, a cultura de massa. É necessário afirmar a
verdadeiramente democrática. existência de um processo de hibridização cultural que
abarca distintas misturas culturais. Considera que este
Globalização e multiculturalidade termo é mais adequado para expressar os fenômenos
que estuda por ser mais amplo que ―mestiçagem‖ em
Os (as) educadores (as) não poderão ignorar, geral utilizado em referência ao cruzamento de
no próximo século, as difíceis questões do diferentes raças e ―sincretismo‖, fórmula quase sempre
multiculturalismo, da raça, da identidade, do poder, do referida a fenômenos de caráter religioso.(CANDAU,
conhecimento, da ética e do trabalho, que na verdade, 2002, p.33).
as escolas já estão tendo de enfrentar. Essas questões Com essa breve exposição teórica,
exercem um papel importante na definição da observamos que os fenômenos culturais são
escolarização, no que significa ensinar e na forma complexos, dinâmicos, heterogêneos, históricos, não
como as (os) estudantes devem ser ensinados (as) sendo passiveis de conceitualizações definitivas ou
para viver em um mundo que será amplamente mais fixas. O grande desafio dos estudos sobre a questão da
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cultura é lidar com a diversidade, pluralidade. E nos faz didático, que podem ou não estar materializados em
pensar que não há educação que não esteja imersa na forma de documentos. O ideal é que estejam. Quando
cultura da humanidade. falamos do planejamento anual das escolas, temos
como referência o projeto político pedagógico.
9. PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM DE
ACORDO COM CELSO VASCONCELLOS. É possível fazer um planejamento sem conhecer o
projeto político pedagógico da escola?
Por onde se deve começar um bom planejamento?
Um projeto, a escola sempre tem, mesmo que
Depende muito da dinâmica dos grupos. ele não esteja materializado em um documento. Agora,
Existem três dimensões básicas que precisam ser o ideal é que esse projeto seja público e explicitado. Na
consideradas no planejamento: a realidade, a finalidade hora do planejamento anual, ele deve ser usado como
e o plano de ação. O plano de ação pode ser fruto da algo vivo, como um termômetro para toda a
tensão entre a realidade e a finalidade ou o desejo da comunidade escolar saber se o trabalho que está
equipe. Não importa muito se você explicitou primeiro a sendo planejado está se aproximando daqueles ideais
realidade ou o desejo. Então, por exemplo, não há políticos e pedagógicos ou não.
problema algum em começar um planejamento
sonhando, desde que depois você tenha o momento da Como evitar que o tempo dedicado ao
realidade, colocando os pés no chão. Em alguns casos, planejamento anual não seja desperdiçado?
se você começa o ano fazendo uma avaliação do ano Nas escolas, o coordenador pedagógico é o
anterior, o grupo pode ficar desanimado - afinal, a responsável por esse processo. É preciso prever
realidade, infelizmente, de maneira geral, é muito momentos específicos para cada tipo de assunto e ser
complicada, cheia de contradições. Às vezes, começar firme na coordenação. Às vezes, há uma tentação
resgatando os sonhos, as utopias, dependendo do muito grande em ficar gastando tempo do planejamento
grupo, pode ser mais proveitoso. O importante é que com problemas menores, administrativos ou
não se percam essas três dimensões e, portanto, em burocráticos. Então, é muito importante planejar o
algum momento, a avaliação, que é o instrumento que planejamento, reservando momentos específicos para
aponta de fato qual é a realidade do trabalho, vai cada assunto, e ser rigoroso no cumprimento dessa
aparecer, começando o planejamento por ela ou não. organização. Ele precisa ser um coordenador
pedagógico forte, mas onde buscar apoio para se
É possível realizar um processo de ensino e fortalecer? Em alguns casos, há o apoio da direção,
aprendizagem sem planejar? mas é muito importante que ele faça parte de um grupo
com outros profissionais no mesmo cargo para trocar
É impossível porque o planejamento é uma experiências e sentir que não está sozinho nesse
coisa inerente ao ser humano. Então, sempre temos trabalho.
algum plano, mesmo que não esteja sistematizado por
escrito. Agora, quando falamos em processo de ensino Com que frequência as ações do planejamento
e aprendizagem, estamos falando de algo muito sério, anual devem ser revistas pela equipe?
que precisa ser planejado, com qualidade e
intencionalidade. Planejar é antecipar ações para Insisto muito na reunião pedagógica semanal.
atingir certos objetivos, que vêm de necessidades Na minha opinião, esse encontro não deve ser por
criadas por uma determinada realidade, e, sobretudo, área, e sim com todos os professores daquele ciclo,
agir de acordo com essas ideias antecipadas. daquele período. Se todos os professores, por
exemplo, do ciclo II do Ensino Fundamental do período
Em alguns contextos, o planejamento ainda é da manhã estão presentes no mesmo momento, em
encarado como um instrumento de controle? um dia fixo da semana, no período da tarde, durante
cerca de duas horas, o coordenador pedagógico pode
Sim, em algumas escolas e redes, ele ainda é montar reuniões por área, ou por nível ou gerais,
um instrumento burocrático e autoritário. Em um conforme as necessidades. Esse momento de encontro
sistema autoritário, o planejamento é uma arma que se é imprescindível para planejar um trabalho de
volta contra o professor porque o que ele disser - ou qualidade com coerência entre os professores. Além de
alguém disser por ele - que vai ser feito tem que ser ser um momento de socialização. Existem professores
cumprido. Caso contrário, ele foi incompetente. E, nem que descobrem coisas excelentes que vão morrer com
sempre, conseguimos fazer o que planejamos. Por ele porque não foram sistematizadas nem ele
diversas razões, inclusive por falha nossa, mas não compartilhou aquelas descobertas. E, na hora do
unicamente por isso. No entanto, o movimento da planejamento, há a possibilidade de reservar um
sociedade e o processo de redemocratização têm momento para isso.
favorecido o conceito de planejamento como real
instrumento de trabalho e não como uma ferramenta de Existe algum momento que deve ser planejado com
controle dos professores. mais cuidado?

Qual a relação entre o planejamento e o projeto Sim, as primeiras aulas. Principalmente das
político pedagógico? séries iniciais. Existem estudos que mostram que a boa
relação professor/aluno pode ser decidida nessas
Nesse processo de planejar as ações de aulas. Há pesquisas que vão além e apontam os
ensino e aprendizagem, existem diversos produtos, primeiros instantes da primeira aula como
como o projeto político pedagógico, o projeto curricular, determinantes do sucesso da atividade docente. Então,
o projeto de ensino e aprendizagem ou o projeto se o professor tem de preparar bem todas as aulas, as
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primeiras precisam de mais cuidado. E não é só responsabilização e, ao mesmo tempo, convocar os


determinar os conteúdos a ser abordados, os objetivos professores através de medidas autoritárias; não se
a atingir e a metodologia mais adequada. É, sobretudo, pode solicitar que sejam consideradas as diferenças
se preparar, tornar-se disponível para aqueles alunos, entre alunos e, ao mesmo tempo, ignorar as diferenças
acreditando na possibilidade do ensino e da entre os professores; as reciclagens-padrão são, enfim,
aprendizagem, estando inteiramente presente naquela por demais elementares para alguns e claramente
sala de aula, naquele momento. insuficientes para outros.
Quanto ao aperfeiçoamento, ele respeita a
10. FORMAÇÃO DOCENTE DE ACORDO COM AS liberdade de escolha de cada um, mas, em
TEORIAS DE PERRENOUD contrapartida, deixa o sistema educativo bastante
desprovido da articulação necessária entre política
A partir do ano letivo 1996-97, no ensino educacional e formação contínua. Além disso, a livre
primário de Genebra, grande parte da formação escolha produz em todo lugar um fenômeno, agora
profissional contínua passa a ser organizada em dez conhecido, que podemos caricaturar assim: 25% dos
áreas prioritárias, cada uma compreendendo professores, os mais ativos do corpo docente,
várias competências básicas. A área ―trabalho em consomem 75% da formação, enquanto que os 50%
equipe”, por exemplo, recobre cinco competências menos envolvidos praticamente não participam dela.
básicas, entre as quais " gerir crises ou conflitos entre Os sistemas educativos, portanto, estão à
pessoas”. Embora tal referencial de competências (que procura de um meio-termo entre o autoritarismo e a
será detalhado no quadro anexo apresentado ao final) livre opção, isto é, buscam uma política de formação
devesse ser inteligível e talvez útil em si mesmo, é contínua incentivadora e orientada por objetivos a
preferível situá-lo num contexto e relembrar sua longo prazo, sem ser coercitiva.
origem.
Esse referencial representa uma etapa de um Isso passa por vários avanços:
projeto conduzido pela Comissão de Formação,
comissão paritária instituída no ensino primário de 1. Integração da formação contínua à legislação e
Genebra, composta por seis representantes da à tarefa docente, sob dupla forma:
administração escolar (direção, inspeção e serviços) e  Entendimento da jornada de trabalho como
por seis representantes da Sociedade Pedagógica de mais ampla que as horas de presença em
Genebra (professores e formadores), a fim de debater, classe, incluindo para todos um tempo de
em conjunto, problemas de formação. Aos trabalhos da formação contínua, em modalidades diversas;
comissão estão associados dois professores da  Adoção de um mecanismo de liberação dos
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, já alunos ou de substituição dos professores
que, desde 1996, a formação inicial dos professores titulares das classes, que permita que parte do
primários de Genebra está inteiramente confiada à tempo de formação contínua seja tomado das
universidade. Esta vem assumindo, desde os anos 30, horas escolares.
um terço dessa atividade, contribuindo também, aliás, 2. Gestão paritária da formação contínua pela
há muito tempo, para a formação contínua dos administração escolar e pelas associações
professores. É nesse sentido que tentarei apresentar profissionais, ou pelo menos o estabelecimento de
uma abordagem por competências que se aplica tanto alguns acordos sobre as grandes linhas de orientação.
à formação inicial quanto à formação contínua. 3. Desenvolvimento da formação contínua na
própria escola, em articulação com um projeto (de
Das reciclagens à formação contínua pesquisa-ação, de inovação ou de formação).
4. Criação de um corpo de formadores e de
A formação contínua dos professores serviços que garantam a oferta regular de formação
encontra-se em vias de institucionalização, mas está contínua em temas que não estejam distantes demais
ainda à procura de seu lugar. Nos cantões romanches, das práticas profissionais, dos programas, dos modos
ela tem assumido muitas vezes uma dupla face: de funcionamentos específicos da escola.
 Reciclagens articuladas a mudanças 5. Articulação com a formação inicial, ou seja, a
importantes, tais como reformas de estruturas, formação contínua deve implicar numa forma de
ou introdução de novos programas, de novos continuidade e de acompanhamento da primeira, cada
meios de ensino e de novas tecnologias; uma delas se adaptando à evolução da outra e do
nesses casos, a autoridade escolar provoca sistema.
uma atualização, que consiste ao mesmo O cantão de Genebra, a grosso modo,
tempo em informação, explicação e formação, atravessou essas etapas à sua maneira, pelo menos no
e que se dirige a todos, sob a forma de que diz respeito ao ensino primário. Hoje, ele passa por
reciclagens obrigatórias ou fortemente um novo momento, que prioriza a articulação mais forte
recomendadas; da formação contínua a um referencial de
 Um aperfeiçoamento que propõe, à la carte, competências e a uma política educacional.
todo tipo de conteúdo, desde o artesanato ou Formação e competências
o processamento de texto até a didática de O desafio é, primeiramente, o de colocar
uma disciplina ou a avaliação formativa, explicitamente a formação contínua a serviço do
passando pelas relações com os pais ou a desenvolvimento das competências profissionais.
acolhida a alunos imigrantes. Parece óbvio? Não necessariamente. Algumas
As reciclagens obrigatórias estão sendo modalidades de reciclagem ou de aperfeiçoamento
progressivamente abandonadas. Não mais fazem parte ampliam a cultura, a informação ou os talentos
do esprit du temps. Não se pode apostar na artesanais ou técnicos dos professores. Pode-se
profissionalização, nos projetos da escola, na esperar que isso desenvolva também suas
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competências profissionais, mas caberá ao interessado ela constitui um coletivo de formação, mas também
inscrever esses aportes em uma perspectiva porque a formação acontece no local de trabalho do
pedagógica e didática. professor, ficando menos facilmente separada das
Uma competência é um saber-mobilizar. Não práticas. Isso, todavia, é apenas uma vantagem virtual:
se trata de uma técnica ou de mais um saber, mas de pode-se imaginar formações realizadas em escolas,
uma capacidade de mobilizar um conjunto de recursos mas que se passam numa sala fechada, em horários
- conhecimentos, know-how, esquemas de avaliação e fixos, com o formador tendo também pouco acesso às
de ação, ferramentas, atitudes - a fim de enfrentar com aulas, como se estivesse recebendo os professores
eficácia situações complexas e inéditas. Não basta, num centro afastado…
portanto, enriquecer a gama de recursos do professor
para que as competências se vejam automaticamente Formação e política educacional
aumentadas, pois seu desenvolvimento passa pela
integração e pela aplicação sinérgica desses recursos O segundo desafio é dizer quais as competências
nas situações, e isso deve ser aprendido. Conhecer um que a formação contínua deve desenvolver
processador de texto, alguns softwares didáticos e um prioritariamente. Em Genebra, três orientações
pouco de informática é uma condição necessária para constituem essas balizas:
integrar o computador a uma prática em sala de aula,  A definição negociada da tarefa docente, no
mas se a formação contínua não trabalhar visando a sentido da profissionalização e de uma prática
essa integração, que é o objetivo-obstáculo maior, o responsável e refletida;
recurso continuará virtual e, se não for mobilizado, vai  A ligação integral da formação inicial à
se tornar inútil. A mesma coisa acontecerá com a universidade e sua reconstrução no sentido de
avaliação formativa, a tipologia de textos ou o conselho uma forte articulação entre teoria e prática;
de classe!
 Uma renovação do ensino primário, a partir de
Não se pode dizer, portanto, que qualquer
três eixos: individualização dos percursos de
formação contínua participe direta e intensivamente da
formação trabalho em equipe e centralização
construção de competências. Muitos cursos de
da atenção no aluno e no sentido do trabalho
aperfeiçoamento se limitam a oferecer só ingredientes
escolar.
para essa construção, abordando apenas
O conjunto dessas orientações foi negociado entre
marginalmente as práticas, o que, aliás, se pode
a associação profissional de professores e a direção do
compreender: é relativamente fácil trazer alguma
ensino primário, e com a universidade no que diz
novidade - idéias, tecnologia, ferramentas -, mas é
respeito à formação inicial, no seio da Comissão de
muito mais difícil integrar esses aportes a uma gestão
Formação e em outras instâncias (grupo-tarefa sobre a
de classe e a um sistema didático.
formação inicial, grupo de coordenação da renovação e
A menos que se deixe essa integração aos
comissões diversas). Tudo isso ocorreu no âmbito de
cuidados de cada um, ela passa, na formação
uma política de conjunto para as escolas de Genebra.
contínua, pela análise das práticas e das situações de
É importante insistir nisso, pois o modo de elaboração
sala de aula, o que supõe que os professores joguem o
dessas dispositivos de formação ou de inovação é tão
jogo, que os formadores estejam à altura desse jogo e
importante quanto seu conteúdo. Na verdade, eles
que as condições de trabalho (local, tempo, confiança)
foram elaborados em comum, as inevitáveis
se prestem a isso. A formação inicial tem meios de ser
divergências foram postas na mesa e trabalhadas e,
―intrusiva‖: o estudante pode ser observado em aula, e
assim, chegou-se a dispositivos aos quais o conjunto
seu trabalho pode ser analisado com o uso do vídeo ou
dos parceiros implicados aderiu, estabilizados em
por um monitor de estágio (ou instrutor de campo).
contratos, na definição dos encargos dos professores e
Além disso, ele pode ser mobilizado longamente em
em outros textos de referência.
termos de tarefas de análise ou de escrita. Em
A abordagem por competências aqui apresentada
formação contínua, os formadores ―pisam em
é apenas uma parte dos trabalhos da Comissão de
ovos”, pois deverão formar seus iguais. Eles não
Formação, que prossegue atualmente sua reflexão, de
entram facilmente nas classes, por isso hesitam tanto
um lado sobre as estruturas e os serviços nos quais se
em se engajar em uma análise de práticas. Os
apoiam as ofertas de formação contínua e, de outro,
professores em formação contínua parecem dizer aos
sobre as relações entre competências e controle da
formadores: ―Deem-nos ferramentas e não se metam
qualidade do ensino.
com o que se passa em nossas aulas”, dando a
Apesar de esta reflexão não estar concluída,
entender que isso é problema só deles.
parece possível enumerar as orientações temáticas
Para dizer as coisas de forma esquemática: o
que se esboçam. Trata-se globalmente de uma luta
desenvolvimento de competências, se ele advém,
contra o fracasso escolar e as desigualdades, com
produz-se quase sempre para além da formação
ênfase na renovação didática e no sentido do trabalho
contínua, no foro íntimo dos professores, e,
escolar, luta esta que também, indissociavelmente,
eventualmente, no de uma equipe pedagógica. Orientar
objetiva o desenvolvimento da cooperação profissional
a formação contínua para as competências, portanto, é
no âmbito dos projetos de escola e dos contratos entre
ampliar o campo de trabalho e dar às práticas reais
escolas e direção. Tudo isso, assim, explica a tônica
mais espaço que aos modelos prescritivos e aos
colocada em dez grandes áreas de competências:
instrumentos. Uma parte da oferta de formação
1. Organizar e animar situações de
contínua, seguramente, já se configura nesse sentido,
aprendizagem
mas essa ainda não parece ser a concepção comum,
2. Gerir a progressão da aprendizagem
nem a regra do jogo ou, se preferirem, o contrato
3. Conceber e fazer evoluir dispositivos de
didático básico, em formação contínua.
diferenciação
A realização da formação na própria escola é
4. Envolver os alunos em sua aprendizagem e
um grande passo nesse sentido, não somente porque
seu trabalho
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5. Trabalhar em equipe  Permanecer como um código de superfície


6. Participar da gestão da escola que apenas os leitores externos à instituição
7. Informar e envolver os pais levarão realmente à sério;
8. Servir-se das novas tecnologias  Ou tornar-se o organizador maior das ofertas
9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da e das demandas de formação contínua.
profissão A bola está no campo dos formadores, dos
10. Gerir sua própria formação contínua. serviços, da coordenação, tanto quanto no dos
professores: essas áreas de competências pedem para
Fala-se de áreas de competências porque ser habitadas, elas são ainda apenas quadros vazios,
cada uma delas abrange várias competências nos quais o que importa é que os atores invistam
complementares. A cada entrada dessa lista foram, representações mais precisas, ao preço de um trabalho
portanto, associados alguns exemplos de e de debates.
competências-chave. Esse referencial de duas Evidentemente, cada palavra e cada ideia
entradas (ver o quadro anexo no final) tornou-se, no podem suscitar uma controvérsia obstinada sobre a
início do ano letivo de 1996-97, uma referência comum, pedagogia, as teorias de aprendizagem, as finalidades
que figura no documento intitulado ―Formação da escola ou da profissão subjacentes. Esse debate é
contínua. Programa de cursos 1996-97‖ (Genebra, mais importante que um consenso sobre detalhes, que
Ensino Primário, Serviço de Aperfeiçoamento, 1996). seria mais preocupante. Através da discussão sobre os
Além disso, os serviços e os formadores foram conteúdos, se perfila uma forma nova de se pensar a
convidados a inserir suas sugestões no sentido de formação, mais fecunda, em suma, que o sentido exato
incluir no referencial em questão uma ou várias que se dá a cada formulação. Uma ideia
competências. Todas as ofertas de formação que como ”conceber e fazer evoluir dispositivos de
puderam levá-lo em consideração estão situadas diferenciação ”só pode conduzir a uma interrogação
geograficamente em relação às dez grandes famílias aberta sobre as pedagogias diferenciadas‖. A
definidas. Por exemplo: o curso 101 ―Geografia: espaço abordagem por competências é um desafio mais
vivido e representação ”(de um dia) está situado como importante que o referencial, que é apenas uma
se segue: linguagem comum, destinada a por um pouco de ordem
na complexidade.

Do lado dos professores

Se o referencial é, num primeiro momento, um


modo de estruturar as ofertas, a médio prazo a
formação contínua será fortemente influenciada por
O disco colorido em negro indica a família de seus utilizadores. Se os professores não se
competências trabalhada com prioridade (4. Envolver apropriarem do referencial para pensar suas próprias
os alunos em sua aprendizagem e seu trabalho). O competências e suas necessidades de formação, ele
disco colorido em cinza escuro indica uma prioridade acabará tornando-se letra morta. Defrontamo-nos aqui
média (1. Organizar e animar situações de com um primeiro risco: a noção de competência deriva
aprendizagem), e os discos coloridos em cinza claro, do senso comum, mas essa familiaridade é, ao mesmo
uma prioridade menor (2. Gerir a progressão da tempo, uma vantagem e uma desvantagem. Uma
aprendizagem, 3. Conceber e fazer evoluir dispositivos vantagem porque ninguém pode negar que sejam
de diferenciação e 9. Enfrentar os deveres e os dilemas necessárias competências para ensinar de forma
éticos da profissão.). Os discos não coloridos eficaz, e uma desvantagem porque, quando se penetra
correspondem às famílias de competências não numa porta já aberta, parece supérfluo comentar
envolvidas. Cada curso define desta forma, seu perfil explicitamente " o que todo mundo sabe e sabe
de competências. fazer ". Como muitas inovações, essa concepção
Um quadro global de dupla entrada põe em refinada de formação contínua deve navegar entre
relação às temáticas dos cursos (em linhas) e as vários perigos:
famílias de competências (em colunas), podendo-se
 Alguns dirão " Nada de novo sob o sol! " ou
entrar pelas linhas ou pelas colunas na busca de uma
" Já fazemos isso! ", ridicularizando um
formação contínua.
referencial que tenta exprimir sabiamente
Uma parte das ofertas de formação foi
algumas banalidades simples;
codificada de certo modo sem ter podido ser concebida
ou desenvolvida a partir do referencial, já que ele só foi  Outros ficarão estupefatos, pensando que lhes
estabelecido definitivamente no final do ano letivo é proposto desenvolver competências que
1995-96. Seria precipitado, também, dizer que o consideram já adquiridas, porque elementares
referencial foi lido, compreendido e aceito da mesma no exercício da profissão;
forma por todos. Para uns, ele recorta categorias  Outros ainda considerarão que essas
familiares, enquanto que outros se sentem mais à competências correspondem a utopias e que
vontade dentro de uma lógica de conteúdos, as não se lhes pode pedir tanto.
competências caindo ―no vazio”. No campo da didática, Essas reações são perfeitamente
as ofertas são em geral mais dirigidas para disciplina e compreensíveis, considerando o nível de abstração de
tipos de atividades a serem propostas aos alunos que todo referencial. Admitamos que se proponha a alguns
para as competências dos professores. Pode-se, então, médicos, como formação contínua, uma área de
estimar que, como todo referencial, o instrumento pode: competências enunciada como " realizar e verificar um
diagnóstico ". Seria fácil para eles ironizar essa
formulação e dizer: " E eu que acreditava que isso

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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

fizesse parte da formação inicial básica! " ou " Grande de inovação no âmbito da renovação do ensino
novidade, os médicos terem de realizar um primário em Genebra (Grupo de Pesquisa e de
diagnóstico! " No entanto, lembrem-se: quando se está Inovação, GRI), pode evidentemente fazer o mesmo.
realmente doente e os sintomas não são Os inspetores podem, sem dúvida, incentivar
imediatamente reconhecíveis, somos tomados pela os professores a fazer seu próprio balanço de
angústia: e se o médico não conseguir compreender o competências e a escolher sua formação contínua
que eu tenho para me tratar a tempo? Realizar um nessa perspectiva.
diagnóstico é uma competência básica da profissão Pode-se ir ainda mais longe? Aqui, entra-se
médica, logo, todos os médicos devem possuí-la. No numa zona de alto risco, que é a do controle, portanto,
entanto, ela nunca termina e deve ser renovada a da função da inspeção hoje. Entre uma impossível
constantemente, em função dos avanços das obrigatoriedade de resultados - fazer todos os alunos
pesquisas, da tecnologia e também das patologias. terem sucesso, quaisquer que sejam as condições - e
Todos os professores são chamados a uma estéril obrigatoriedade de meios - utilizar todas as
" organizar e animar situações de aprendizagem ". Se fichas da pasta de matemática -, os sistemas
não tiverem nenhuma competência nessa área, pode- educativos estão à procura de um " controle
se perguntar por que escolheram essa profissão e inteligente " das práticas de ensino.
como obtiveram o direito de ensinar. No entanto, quem Controle inteligente quer dizer o quê? Trata-se
poderia se vangloriar de ter adquirido um total domínio de um terreno minado, porque nos leva logo ao debate
dessa área de competência? E, sobretudo, quem sobre a avaliação dos professores e sobre o salário por
poderia ignorar que a própria concepção do ensino, das mérito. Tentarei num próximo artigo construir uma
situações de aprendizagem e do papel do professor problemática mais ampla, abordando três questões
evoluiu profundamente nos últimos vinte anos, com o complementares:
impulso da pesquisa em didática das disciplinas e da 1. Em que se deve basear um controle
experiência das escolas ativas, da escola nova, do inteligente? Explorarei a esse respeito a hipótese de
movimento Freinet, das pedagogias de projeto, etc.? uma obrigatoriedade de competências.
Hoje, parece claro que ensinar não consiste mais em 2. Ele é incumbência de quem? De cada
dar boas lições, mas em fazer aprender, colocando os profissional comprometido numa auto avaliação? Da
alunos em situação que os mobilizem e os estimulem inspeção? Dos colegas? De supervisores
em sua zona de desenvolvimento proximal, permitindo- sem status hierárquico?
lhes dar um sentido ao trabalho e ao saber. Quem 3. De que meios de controle se dispõe numa
poderia pretender, hoje, dominar conceitualmente e, administração pública?
mais ainda, praticamente, a arte de organizar e animar Pode-se desconfiar que o problema é por
situações de aprendizagem? Competência elementar demais complexo para ser resolvido no papel. Mas,
em seu nível mais baixo e estrela inacessível em seu talvez, a abordagem por competências dê uma chance
nível mais aprimorado, essa competência é o canteiro de se conciliar a lógica da profissionalização, que
de uma obra longe ainda de estar concluída. insiste na responsabilidade e na autonomia, e a lógica
Para se dar conta disso, o importante seria do serviço público.
não julgar o referencial como tal, mas entrar nele e
confrontar as representações de uns e de outros, fazer 11. PLANEJAMENTO DIDÁTICO DE ACORDO COM
o balanço dos ganhos que ele representa, identificar os AS TEORIAS DE CELSO VASCONCELLOS
problemas que ele coloca e as próximas etapas que ele
anuncia. Isso representa um trabalho formador em si PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO Planejamento /
mesmo. É preciso, portanto, desejar que o debate se Celso dos S. Vasconcellos
inicie, que esse referencial seja
progressivamente " habitado " e, portanto, l- conceituação de projeto político-pedagógico
desenvolvido, nuançado, e até notavelmente
reformulado com o passar do tempo. O Projeto Político-Pedagógico (ou Projeto
Esse trabalho pode ocorrer em diversos âmbitos. É Educativo) é o plano global da instituição. Pode ser
importante que ele aconteça nos próprios cursos e entendido como a sistematização, nunca definitiva, de
atividades de formação, e que se considere a um processo de Planejamento Participativo, que se
identificação das competências visadas como parte aperfeiçoa e se concretiza na caminhada, que define
integrante da formação, sem limitar o uso do referencial claramente o tipo de ação educativa que se quer
à descrição dos cursos. Assim, no exemplo dado realizar. E um instrumento teórico-metodológico para a
acima, seria formador explicitar em quê o conteúdo e intervenção e mudança da realidade. É um elemento
os procedimentos propostos têm a ver com as de organização e integração da atividade prática da
competências mencionadas. instituição neste processo de transformação.
O Projeto Educativo é, claramente, um
Do lado dos inspetores documento de planificação escolar que poderíamos
caracterizar do seguinte modo: de longo prazo quanto à
O referencial em questão se impõe aos sua duração; integral quanto à sua amplitude, na
formadores e propõe aos professores uma chave de medida em que abarco todos os aspectos da realidade
leitura das ofertas de formação. Em que isso diz escolar; flexível e aberto; democrático porque
respeito aos inspetores? elaborado de forma participada e restiltado de
Eles podem ser e, evidentemente, estão consensos. (Diogo, 1998: 17) Tem, portanto, este valor
convidados a se servir do referencial como de uma de articulação da prática, de memória do significado da
linguagem que, progressivamente, vai se tornar comum ação, de elemento de referência para a caminhada. O
no diálogo com os professores e as equipes. O grupo Projeto Político-Pedagógico envolve também uma
que acompanha as escolas que desenvolvem projetos construção coletiva de conhecimento.
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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

Construído participativamente, é uma Finalidade; o Diagnóstico, à Realidade e a


tentativa, no âmbito da educação, de resgatar o sentido Programação, à Mediação. Acontece que em cada uma
humano, científico e libertador do planejamento. Em das partes do Projeto, temos uma nova articulação
relação a outras nomenclaturas correlatas, temos a interna entre as três dimensões. No caso do Marco
dizer que preferimos Projeto Político Pedagógico a Referencial, é clara a correspondência respectivamente
Proposta Pedagógica por entender que a primeira é entre Marco Situacional e Realidade, Marco Doutrinal e
mais abrangente, qual seja, contempla desde as Finalidade, e Marco Operativo e Mediação. No
dimensões mais específicas da escola (comunitárias e Diagnóstico, apesar de não tão imediata, esta relação
administrativas, além da pedagógica), até as mais está presente também: o ponto de partida é a
gerais (políticas, culturais, económicas, etc.) . Realidade, confrontada com a Finalidade, tendo em
vista a Mediação.
Panes do Projeto Político-Pedagógico Na Programação, a referência inicial é a
Realidade do Diagnóstico e a proposta de ação é
A seguir apresentamos, sinteticamente, a sempre acompanhada de um o que — Mediação — e
estrutura de Projeto Educativo da Equipe Latino- um para que — Finalidade. Sua estrutura básica releva
americana de Planejamento (ELAP) com sede no Chile, que a ação a ser desencadeada também é fruto da
na vertente brasileira do Prof. Danilo Gandin. tensão entre a realidade e a finalidade, num processo
dinâmico de interação: Os projetos educativos, sempre
O Projeto Político-Pedagógico é composto, que apostados na realização das utopias e na
basicamente, de três grandes partes, articuladas entre transformação do real, vão dialetizar as aspirações do
si: Marco Referencial, Diagnóstico e Programação. desejável e as fronteiras do possível num jogo em que
aquelas procuram explorar e, se necessário, destruir
estas, que, por seu turno, colocam entraves e obrigam
à reelaboração das primeiras. (Carvalho, 1992: 206).

-Relevância do projeto político-pedagógico

Muitas vezes, no dia-a-dia, a preocupação da


direção acaba sendo 'que a escola funcione', e a dos
professores acaba girando em torno do 'manter a
Como se depreende do exposto, o Projeto disciplina e cumprir o programa'. "O nosso risco, porém
Político-Pedagógico não é apenas o Marco Referencial. é este: somos devorados pelo urgente e não temos
Em muitas escolas, nas primeiras elaborações, houve tempo para posicionarmo-nos diante do importante"
uma certa confusão neste sentido ". Tratava-se de uma Frente a tantas dificuldades, por que a' escola deve se
deformação idealista que valorizava apenas as ideias, interessar pelo Projeto? Ora, a função do projeto é
os postulados filosóficos da escola, as boas intenções, justamente ajudar a resolver problemas, transformar a
mas não se comprometia com a efetiva alteração da prática e, no limite, tornar menor o sofrimento.
realidade. O Projeto Educativo não é algo que se coloca
Portanto, o Projeto não deve ficar só no nível como um 'a mais' para a escola, como um rol de
filosófico de uma espécie de ideário (ainda que preocupações que remete para fora dela, para
contemplando princípios pedagógicos), e nem no nível questões 'estratosféricas'. Pelo contrário, é uma
sociológico de constatações de um diagnóstico. Nesta metodologia de trabalho que possibilita re-signifícar a
medida, também é uma forma de enfrentar a descrença ação de todos os agentes da escola. C. Wrigbt Mills
e resgatar nos educadores o valor do planejamento, comparou a situação dos educadores à de remadores,
tendo em vista a carga pragmática decorrente da sua no porão de uma galera. Todos estão suados de tanto
própria constituição, qual seja, só se conclui enquanto remar e se congratulam uns com os outros pela
elaboração quando chega a propor ações concretas na velocidade que conseguem imprimir ao barco. Há
escola. apenas um problema: ninguém sabe para onde vai o
barco, e muitos evitam a pergunta alegando que este
O quadro a seguir situa o Projeto Político-Pedagógico problema está fora da alçada de sua competência.
no conjunto do processo de planejamento. (Alves, 1981: 86) Houve um tempo em que
parecia óbvia a necessidade e a finalidade da escola.
No entanto, especialmente a partir da década de
setenta, com toda a crítica da sociologia francesa, a
escola descobre-se como palco de conflitos e
contradições sociais. Desde então, a explicitação de
seu projeto, do dizer a que veio, vai se tornando cada
vez mais importante.

a) Rigor e Participação

A grande contribuição do Projeto Político-


Pedagógico na perspectiva do Planejamento
Participativo está no seguinte:
Observando a estrutura do Projeto, podemos
identificar as três dimensões fundamentais da ação d Rigor (qualidade formal)
humana consciente apontadas na 2a Parte. Grosso
modo, o Marco Referencial corresponde à dimensão da
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APOSTILA ELABORADA PELA EMPRESA DIGITAÇÕES & CONCURSOS

É uma maneira de se enfrentar o processo de responsáveis pelo sucesso ou fracasso de suas


alienação, exigindo que as ações sejam intencionais práticas...
(desligar o 'piloto automático'). Há atualmente um apelo E certo que este é um risco concreto. Todavia,
muito forte pela 'prática'; este apelo pode nos levar ao vai depender muito da maneira como a comunidade
imediatismo, ao ativismo. É preciso considerar que a escolar vai se posicionar. Quando vemos escolas
prática é fundamental, é a finalidade mesma da fazendo projeto 'porque o MEC está a exigir', é claro
instituição, mas, por outro lado, a realidade é complexa, que não podemos esperar muito diante deste risco de
e como tal deve ser enfrentada. O que queremos dizer manipulação. Por outro lado, quando a escola
é que atuar de qualquer forma, sendo condicionado despertou para a necessidade de se definir, de
pelas pressões do ambiente (rotinas, ideologias) é fácil; construir coletivamente sua identidade e de se
difícil é realizarmos uma ação consciente, que de fato organizar para concretizá-la, então o projeto pode ser
corresponda às reais necessidades (práxis). Para isto um importante instrumento de luta e, inclusive, de
precisamos de um referencial teórico-metodológico. O denúncia, no caso de omissão da mantenedora. Aquela
Projeto é justamente o Méthodos que visa ajudar a mesma linha de reflexão que fizemos em relação à
enfrentar os desafios do cotidiano da escola, só que de condição de sujeito por parte do educador, pode ser
uma forma refletida, sistematizada, orgânica, científica, aqui retomada quanto à instituição: a autonomia não
e, o que é essencial, participativa. pode ser outorgada; cabe ser conquistada!

^Participação (qualidade política) Que valor pode ter d) Projeto x Regimento É preciso que fique clara a
um pedaço de papel escrito? A teoria quando assumida distinção entre o Projeto Político-Pedagógico da escola,
por um grupo, transforma-se em "força material". Na com o sentido que apontamos acima, e o Regimento
elaboração participativa do Projeto, todos têm Escolar, que é uma exigência legal para o
oportunidade de se expressar, inclusive aqueles que funcionamento da escola (duração dos níveis de
geralmente não falam, mas que estão acreditando, ensino, critérios de organização — séries anuais,
estão querendo. Muitas vezes, não falam por períodos semestrais, ciclos, grupos não-seriados, etc.
insegurança, por pressão do grupo ou por acomodação —, classificação e reclassificação de alunos,
em função daqueles que 'sempre falam'. O processo de verificação do rendimento escolar, frequência,
planejamento participativo abre possibilidade de um currículos, etc.). De acordo com a legislação em vigor,
maior fluxo de desejos, de esperanças e, portanto, de a elaboração de ambos é de competência da escola. O
forças para a tão difícil tarefa de construção de uma que se espera é que o regimento possa ser feito a
nova prática. Almeja-se também a partilha de todos os partir do Projeto, qual seja, ter os parâmetros e
bens, sejam espirituais (decisão, planejamento), sejam princípios do Projeto como referência para o
materiais (recursos, lucros, perdas). detalhamento administrativo e jurídico (o que nem
sempre é possível, pelo menos no todo, em função de
b) A Ética do Projeto Dado o nível de senso comum diretrizes e normas exteriores à escola).
que existe hoje, em termos de novas concepções O que se recomenda é que o regimento seja o
pedagógicas, dificilmente um Projeto expressará uma mais abrangente possível, delegando a tarefa de definir
proposta reacionária, conservadora. Nestes casos, a detalhes para segmentos específicos da instituição
estratégia dos dirigentes que, com efeito, não querem a (ex.: ao invés de ficar especificando como deverá ser o
mudança parece ser a seguinte: 'deixa o povo falar o processo de avaliação de aprendizagem, poderá
que quiser; nós escrevemos em termos bem genéricos apresentar os critérios gerais e remeter a definição
('belas palavras'), de forma que não tenha força de para o Conselho de Escola ou para o Conselho
cobrança das transformações'. Ao invés, o Projeto Técnico-Administrativo). Isto dá mais flexibilidade em
Político-Pedagógico, quando feito baseado numa termos de reestruturação da prática, sem precisar
autêntica ética, é um Méthodos de transformação, reelaborar o regimento, pedir nova aprovação, etc."
tendo em vista expressar o compromisso do grupo com
uma caminhada. Dessa forma, tanto o dirigente pode
cobrar coerência do dirigido, como o dirigido cobrar do
dirigente, bem como dos companheiros entre si.
Havendo um Projeto, existe maior facilidade em não se
tomar as críticas como pessoais (as críticas devem
fazer parte do cotidiano, se queremos superar as
contradições).
c) A Autonomia em Questão Ternos afirmado, no
decorrer deste trabalho, que o Projeto Político-
Pedagógico é um caminho de consolidação da
autonomia da escola. Precisamos, no entanto, refletir
um pouco melhor sobre isto, sob pena de ficarmos
numa visão ingénua. O questionamento que muitos
educadores se fazem é bastante claro: até que ponto a
proposta das mantenedoras (sobretudo públicas) de
que as escolas agora devem fazer seu projeto político-
pedagógico não estaria, na verdade, representando
uma estratégia de descompromisso e de transferência
de responsabilidade? Seria autonomia ou descaso do
Estado? O discurso da autonomia poderia ter uma forte
carga ideológica, no sentido de deixar a entender que
as escolas, na medida em que têm seus projetos, são
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