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Do convívio à ruptura: os rios urbanos de Belo Horizonte e sua

inserção no espaço urbano segundo a cartografia oficial da urbs


mineira (1895-1970)

Alessandro Borsagli
PUC Minas

RESUMO
O artigo aborda a importância da cartografia urbana de Belo Horizonte na compreensão do processo de
inserção dos rios no espaço urbano da capital e no conhecimento dos caminhos percorridos atualmente
pelos cursos d’água que atravessam a zona urbana planejada da capital mineira: o ribeirão Arrudas e três
dos seus afluentes da sua margem direita, os córregos do Acaba Mundo, Serra e Leitão, atualmente
escondidos sobre a malha viária de Belo Horizonte, sendo praticamente impossível de se identificar o
traçado atual destes sem o auxilio dos mapas confeccionados entre os anos de 1895 e 1942, visto que o
leito original não existe mais devido à retificação e canalização do seu curso além do elevado grau de
adensamento urbano e da erradicação dos córregos da paisagem urbana belorizontina para a melhoria
viária, um processo iniciado ainda na década de 1930.

PALAVRAS CHAVE: Rios urbanos, Espaço Urbano, Paisagem, Cartografia Urbana

ABSTRACT
The article discusses the importance of urban cartography of Belo Horizonte in understanding the
insertion of rivers in urban areas of the capital process and knowledge of current paths traveled by water
courses crossing the planned urban area of the state capital: the Arrudas stream and three of its
tributaries on its right bank, streams the Acaba Mundo, Serra and Leitão currently hidden on the road
network of Belo Horizonte, being virtually impossible to identify the current trace without the help of
these maps made between the years 1895 and 1942 as the original bed no longer exists due to grinding
and channeling its course beyond the high degree of urban density and the eradication of streams
belorizontina urban landscape for road improvement, a process already started in the 1930’s.

KEYWORDS: City Rivers, Urban Space, Landscape, Urban Cartography

INTRODUÇÃO
Os rios urbanos das cidades brasileiras são sinônimos de degradação ambiental e desprezados pela
sociedade e pelo Poder Público. Em Belo Horizonte, cidade construída pelo governo estadual para
abrigar a capital de Minas Gerais o processo de degradação e ocultação dos cursos d’água que correm no
meio urbano se deu em um espaço de tempo relativamente curto, desde a inauguração da nova capital

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em 1897 até a consolidação da metrópole, no inicio da década de 1970. Escolhida, entre outros fatores
relevantes por causa da abundancia hídrica da bacia do ribeirão Arrudas, a região onde se assentou o
sitio urbano da nova capital abrigava anteriormente o arraial do Curral del Rey, que convivia em
harmonia com os cursos d’água que nascem nas encostas da Serra do Curral.
Nos últimos anos está acontecendo uma releitura do processo de ocultação dos cursos d’água de
Belo Horizonte, visto que a contínua impermeabilização do solo, o intenso adensamento populacional e
a ininterrupta verticalização, que irradiou da região central para as zonas mais afastadas da cidade
planejada sobrecarregaram os rios urbanos convertidos em emissários de esgotos e receptor de toda a
água pluvial das vertentes impermeabilizadas. Os problemas decorrentes deste crescimento urbano pode
ser sentido nos períodos chuvosos, quando as vias construídas sobre o leito dos cursos d’água se
transformam em verdadeiros rios, acarretando inúmeros transtornos para a população e trazendo a
lembrança que sob a rua ainda existe um rio.
O presente artigo aborda a importância da cartografia urbana de Belo Horizonte na compreensão
do processo de inserção no espaço urbano da capital dos cursos d’água que atravessam a zona urbana
planejada da capital mineira: o ribeirão Arrudas e três dos seus afluentes da sua margem direita: os
córregos do Acaba Mundo, Serra e Leitão, atualmente escondidos sobre a malha viária de Belo
Horizonte, sendo atualmente praticamente impossível de identificar o traçado atual destes, visto que o
leito original não existe mais devido à retificação e canalização do seu curso além do elevado grau de
adensamento urbano e da erradicação dos córregos da paisagem urbana belorizontina para a melhoria
viária. Daí a importância da cartografia produzida desde a ultima década do Século XIX até o ano de
1970, tornando possível através dela compreender a forma em que se deu o processo de urbanização das
micro bacias dos cursos d’água abordados, as alterações morfológicas das bacias hidrográficas e a
inserção dos rios urbanos na malha urbana da capital mineira.
Para se compreender todo o processo de inserção e posteriormente de erradicação dos cursos
d’água da paisagem se fez necessária a analise das Plantas confeccionadas pela Comissão Construtora da
Nova Capital (CCNC) quando da construção da nova capital entre os anos de 1894 e 1897. A análise
destas, juntamente com outras Plantas confeccionadas ao longo das décadas do Século XX além dos
registros fotográficos dos diversos períodos abordados permitiram compreender e analisar as mudanças
espaciais sofridas ao longo dos tempos, no que diz respeito ao processo de ocupação do vale dos cursos
d’água e a inserção deles na paisagem urbana. De acordo com CORRÊA (2000, p.26) “o espaço urbano
é um reflexo tanto de ações que se realizam no presente como também daquelas que se realizaram no
passado e que deixaram suas marcas impressas nas formas espaciais do presente”.

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Entre os quase 700 km de córregos que existe no município de Belo Horizonte1, a escolha por
trabalhar apenas com os três cursos d’água além do ribeirão Arrudas se deu por eles atravessarem a zona
urbana planejada pela CCNC, local onde se concentravam a maioria dos aparatos administrativos, do
comercio, de educação e de serviços desde 1897, ano da inauguração da capital, é sem duvida a região
que apresenta maior documentação disponível para pesquisas, além de inúmeras imagens e plantas que
nos permitem compreender as mudanças na paisagem ao longo das décadas. A região central
(primitivamente denominada bairro comercial) de Belo Horizonte se encontra inserida nas micro bacias
dos córregos do Leitão, Acaba Mundo e Serra, além da sub-bacia do ribeirão Arrudas, receptor das águas
dos três córregos aqui estudados.
Outro fator relevante para tal escolha é o fato da região atravessada por eles sempre foi de
prioridade do Poder Público para a instalação e manutenção dos equipamentos urbanos necessários para
o funcionamento da cidade e para os espaços públicos. Esses fatores ajudam a compreender o porquê da
verticalização ter se iniciado na região central, e posteriormente a congestão urbana, a decadência dos
espaços públicos e o descontrole da verticalização, que acarretou e ainda acarreta enormes problemas
para a população e para o próprio Poder Público.

OS CURSOS D’ÁGUA DA NOVA CAPITAL: INDISPENSÁVEIS E IGNORADOS


A relação entre a sociedade humana e os cursos d’água é bem antiga. As terras atravessadas pelos
rios, ribeirões e córregos sempre foram locais atrativos para a ocupação humana formando núcleos
populacionais, seja nômade ou permanente, por fornecer boas terras para o cultivo de alimentos, várzeas
que proporcionavam uma melhor ocupação humana entre outras condicionantes que facilitaram o
desenvolvimento das sociedades ao longo dos Séculos. Além disso, os cursos d’água são utilizados para
demarcação territorial, corredores de circulação comercial e populacional.
No Século XIX, as relações do ser humano com os cursos d’água em algumas sociedades do
ocidente começaram a se alterar com o crescimento urbano desencadeado pela Revolução Industrial e
pelo modo de produção capitalista, que promoveu uma profunda reorganização do espaço urbano em
diversos centros no ocidente, a partir da reforma de Paris, empregada por Georges Eugène Haussmann
entre os anos de 1852 e 1870. Tais reformas visavam à melhoria da comunicação viária e da salubridade

1
De acordo com o DRENURBS (2002), programa que visa promover a despoluição dos cursos d’água de Belo
Horizonte, além da integração dos recursos hídricos naturais ao cenário urbano.
http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=
programaseprojetos&lang=pt_BR&pg=6080&tax=12065

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através das grandes e largas avenidas e bulevares ventilados, com áreas destinadas a construção da
sociabilidade de uma nova sociedade moderna, higienista, cientificista e disciplinada. Nesse contexto, os
cursos d’água que passaram a integrar as paisagens dos centros urbanos foram perdendo a sua
importância para a sociedade, segundo as novas ideias vigentes, passando a ser vistos como um entrave
no desenvolvimento da urbs, como observou (GORSKI 2010, p.31) “a evolução da urbanização foi
conseguindo eclipsa-los e anular a sua importância, restringindo sua presença quase apenas aos sintomas
perturbadores, ou seja: mau cheiro, obstáculo à circulação e ameaça de inundações”.
É nesse novo cenário urbano ocidental que é concebida a construção de uma nova capital de
Minas Gerais após a Proclamação da República em 1889, visto que Ouro Preto não apresentava
condições técnicas e morfológicas para uma remodelação e expansão de sua malha urbana, que já havia
se tornado um baluarte do colonialismo português no Brasil. Com a escolha do arraial de Belo
Horizonte para a construção da nova capital em 1893, os estudos necessários para a confecção da planta
que ditaria o crescimento urbano da capital mineira se intensificaram, ao mesmo tempo em que se
produziam diversas plantas do arraial para fins de desapropriação e para estudos topográficos para
determinar o local da construção da cidade planejada. Entre as plantas produzidas pela CCNC antes da
divulgação da planta definitiva do traçado urbano da nova capital destaca-se a planta geodésica,
topográfica e cadastral da zona estudada, apresentada em Março de 1895. Nela se destacam a rede
hidrográfica detalhada da região que abrigaria a nova capital, a zona suburbana e os sítios, além do
arruamento e das casas que compunham o antigo arraial, em contraposição com a demarcação retilínea
da Avenida 17 de Dezembro, eixo delimitador da zona planejada e das Avenidas Radiais, e as fazendas
que se encontravam inseridas dentro dos limites da nova capital, desapropriadas nesse período. A planta
(Figura 1) foi à primeira deste gênero produzida no Brasil, segundo indicação existente na própria
planta.

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Fig.1 – Parte da Planta Geodésica, Topográfica e Cadastral da zona estudada, onde está sinalizado os cursos d’água
que atravessa a zona planejada de Belo Horizonte. Escala 1:10.000 1895. Fonte: PANORAMA, 1997.

Nesse mesmo ano foi apresentada a planta definitiva do que viria a ser a capital do Estado de
Minas Gerais. Projetada pela equipe do Engenheiro Aarão Reis a Planta da nova capital apresentava um
traçado racional e positivista, semelhante a um tabuleiro de xadrez, onde prevaleceriam às ideias
sanitaristas e o convívio social, através das Praças e Ruas arborizadas, onde se destaca na planta o Parque
Municipal (Figura 2).
Nesse contexto, apesar da valorização da arborização dentro da cidade planejada a Planta
Cadastral apresentada em 1895 não apresentava uma harmonia entre o projeto e os cursos d’água
existentes nas terras do antigo arraial, exceção feita ao ribeirão Arrudas, principal drenagem de grande
parte dos córregos oriundos do Complexo da Serra do Curral, apesar da abundancia de recursos
hídricos foi crucial para a escolha do arraial de Belo Horizonte como sede da nova capital. Na planta o
ribeirão aparece canalizado em todo o trecho atravessado por ele na zona urbana, apenas o trecho
correspondente ao Parque Municipal ele figurava em seu leito natural e integrado ao projeto do parque
urbano.

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Fig.2 – Planta Topográfica da Cidade de Minas, apresentada em 1895 pela CCNC. A planta é importantíssima
para a compreensão das profundas mudanças morfológicas sofridas nas micro bacias da zona planejada de Belo
Horizonte. Escala 1:4.000 1895. Fonte: PANORAMA, 1997.

O PROCESSO DE INSERÇÃO DOS CURSOS D’ÁGUA NA MALHA URBANA


Entre 1897 e 1920 o crescimento urbano de Belo Horizonte se deu de forma lenta, concentrado
em grande parte na zona suburbana, onde haviam sido criadas as cinco colônias agrícolas visando o
povoamento da zona suburbana, assim como o abastecimento de viveres da capital. As colônias foram
assentadas nas vertentes de cinco córregos afluentes do ribeirão Arrudas.
Nesse período o córrego da Serra continuava a abastecer uma parte da zona urbana e do bairro
Serra, nesse período formado por chácaras ao longo das ruas do Ouro e do Chumbo. Já o córrego do
Acaba Mundo, que atravessa uma porção considerável do bairro Funcionários a falta de recursos foi o
principal motivo do adiamento da canalização por quase trinta anos, iniciada ainda nos tempos da
CCNC2. O vale do córrego do Leitão permanecia com feições tipicamente rurais, devido à reserva das
terras do vale para a expansão urbana que ocorreu de fato nas décadas seguintes.

2
Relatório 1900 p.30.

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É bom ressaltar que durante esse período a Prefeitura se restringia apenas a realizar a manutenção
das pontes sobre o córrego, muitas delas feitas de madeira oriunda dos antigos casarões do arraial3 e
eventualmente a limpeza do córrego.
O lento crescimento da zona urbana compreendida dentro dos limites da Avenida do Contorno
adiou a confecção e finalização de uma nova planta geral e cadastral de Belo Horizonte em cerca de vinte
anos, acarretando inúmeros problemas para as administrações que passaram pela prefeitura até o inicio
da década de 20, período em que Belo Horizonte deixou de ser uma capital exclusivamente
administrativa para se tornar um polo de atração no Estado, permitindo a primeira remodelação espacial
patrocinada pelo Poder Público.
O projeto de Belo Horizonte, por apresentar um traçado geométrico e racional foi um dos
principais temas dos debates urbanísticos no Brasil nas primeiras décadas do Século XX. O engenheiro
sanitarista Saturnino de Brito, que havia trabalhado na CCNC nos anos de 1894 e 1895 era um grande
critico do modelo urbanístico empregado em Belo Horizonte, exatamente por ignorar os curdos d’água,
ao locar a malha quadriculada das vias sobre eles. Em 1916 o engenheiro propôs no livro Le trace
sanitaire de Villes: technique saniraire urbaine um traçado alternativo, denominado “traçado sanitário”, que
adequaria melhor à malha urbana da capital mineira com o traçado dos cursos d’água, melhorando o
escoamento das águas e a salubridade da zona urbana (Figura 3).

3
Relatório 1900 p.11.

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Fig.3 – Planta Sanitária de Belo Horizonte apresentada por Saturnino de Brito em 1916. A planta apresentada por
Saturnino de Brito em 1916 figurava como uma alternativa para a inserção dos cursos d’água na malha urbana de
Belo Horizonte que, à custa de profundas mudanças no projeto original, poderia ter sido adotada, pois a zona
urbana planejada ainda apresentava grandes vazios urbanos, principalmente nos vales dos córregos que corriam em
seu leito natural, geralmente atravessando os fundos dos lotes já construídos e servindo de escoadouro dos esgotos
residenciais. Escala 1:4.000 1916. Fonte: Obras Completas Vol. XX, 1943.

As plantas confeccionadas na década de 20 já acusavam as modificações feitas no traçado urbano


da planta de 1895, como a Avenida do Contorno entre as ruas Rio de Janeiro e Ouro Preto, suprimindo
doze quarteirões que antes pertenciam à zona urbana4. Os cursos d’água urbanos já apareciam retificados
e canalizados para as vias mais próximas do fundo de vale, exceção feita ao córrego da Serra que ainda
aparecia em seu leito natural cortando os diversos quarteirões da zona urbana, atravessando sempre os
fundos dos lotes5. Os rios na verdade ainda estavam em processo de canalização no período da
elaboração das plantas, atualizadas ao longo da inserção destes na malha urbana.
As principais plantas produzidas entre 1923 e 1931 (Figura 4) permitem compreender não só o
processo de inserção dos rios na malha urbana de Belo Horizonte, mas também as principais áreas de

4
Estes quarteirões passaram a integrar a zona suburbana (Cidade Jardim), inclusive o casarão sede da Fazenda do
Leitão, atual Museu Histórico Abílio Barreto que possivelmente seria demolido caso a abertura da Avenida nesse
trecho tivesse seguido fielmente a planta da CCNC.
5
É importante chamar a atenção para esse detalhe: desde os tempos coloniais as residências eram construídas com
a fachada de costas para os cursos d’água, pois eles eram responsáveis não só pelo fornecimento de água, mas
também para o escoamento dos detritos gerados pelos moradores, um hábito que infelizmente persiste até os dias
atuais.

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ocupação populacional da cidade, concentradas nos eixos norte e oeste a partir da região central, antigo
bairro comercial e os grandes vazios urbanos nos vales dos córregos do Leitão e dos Pintos, este último
na zona suburbana da capital.

Fig. 4 – Planta da cidade de Belo Horizonte apresentada no ano de 1931, onde se destacam os cursos d’água
inseridos na malha urbana da zona planejada. Escala 1:15.000 1931. Fonte: PANORAMA, 1997.

1930 – 1970: OS RIOS URBANOS ERRADICADOS DA PAISAGEM PELA PRESSÃO URBANA


A queda da República oligárquica no final de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder
trouxe profundas mudanças, tanto políticas quanto econômicas e sociais no Brasil. O contexto político
do período proporcionou o advento do populismo, sendo que essa mudança na relação entre o Poder
Público e a classe operária acelerou também o crescimento e o desenvolvimento dos centros urbanos
brasileiros, além de proporcionar a industrialização nos anos seguintes à revolução, abrindo caminho
para o processo de metropolização dos grandes centros urbanos brasileiros, segundo o modelo
desenvolvimentista norte americano.
Em Belo Horizonte a produção cartográfica nesse período foi constante, incrementada pelos
órgãos estaduais destinados aos serviços geográfico e estatístico6, responsáveis pela produção de diversos
mapas do município de Belo Horizonte, destacando não só o tecido urbano, mas também diversos

6
PANORAMA, p.51

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elementos naturais, toponímias de localidades dentro do município e os limites dos seus distritos, um
reflexo da tentativa do Poder Público de ordenar e controlar a expansão urbana da capital.
A ênfase dada aos cursos d’água do município é notável, onde figuram não só os córregos que
atravessam a zona planejada, mas toda a rede hidrográfica do município. O mapa “Município de Belo
Horizonte” publicado em 1937 como anexo do Anuário Estatístico de Belo Horizonte destaca não só a rede
hidrográfica do município, composta pelas bacias dos ribeirões do Onça e do Arrudas, mas também as
antigas estradas municipais, principais vias de ligação do município com os distritos e municípios
vizinhos, em grande parte integradas à malha urbana da capital. Apesar dos documentos oficiais – no
caso a cartografia, não registrarem a “cidade real”, grande parte dos vazios urbanos que figuram nos
mapas produzidos nesse período estavam ocupados por favelas cujos moradores, expulsos das áreas mais
próximas à região central se assentavam nos locais ainda não urbanizados, neste caso reservados para as
camadas mais abastadas da capital e para a cidade universitária7, que ocuparia parte dos bairros de
Lourdes e de Santo Agostinho.
Em 1942, na administração do prefeito Juscelino Kubitscheck de Oliveira foi finalizada a Planta
Cadastral de Belo Horizonte, possivelmente a planta mais completa e rigorosa já confeccionada na capital.
O elevado nível de detalhamento da planta explica-se na necessidade em se atualizar o cadastro dos
imóveis da capital, com o objetivo de se corrigir o valor dos tributos cobrados sobre eles, justificada no
relatório de 1942 apresentado ao interventor do Estado, Benedito Valadares:

A planta cadastral da cidade não correspondia à realidade e, a cada momento,


a Administração se via forçada a proceder a trabalhos topográficos de
emergência para atender às necessidades dos serviços de receita, patrimônio,
obras, águas e esgotos, transportes coletivos, urbanização de áreas, etc.
Relativamente à cobrança dos impostos territorial, urbano e predial, esse
atraso da planta trazia graves perturbações aos serviços de lançamento,
provocando desentendimentos, às vezes deploráveis, entre a Administração e
os contribuintes (1942, p.04).

Nos mapas produzidos entre os anos de 1930/1945 destacam-se os dois principais vetores de
expansão urbana da capital, os eixos oeste e norte, onde se destacam as grandes avenidas radiais
idealizadas na gestão Juscelino Kubitscheck (1940-1945), além da abertura das primeiras avenidas
sanitárias, construídas nos fundos de vale dos cursos d’água adjacentes à zona planejada. As vias, abertas

7
A cidade universitária viria a ser construída nas terras da Fazenda Dalva, desapropriada em 1943. Somente a
Faculdade de Farmácia da UFMG foi construída em um dos 35 quarteirões reservados para o campus dentro da
zona planejada.

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a custa da ocupação das várzeas dos cursos d’água e o aterramento do leito original estavam em
conformidade com o plano de avenidas proposto por Lincoln Continentino na segunda metade da
década de 30, baseado no Plano de Avenidas de São Paulo, elaborado por Prestes Maia em 19308 e
amplamente empregado pelas administrações futuras de Belo Horizonte. Os cursos d’água suburbanos
foram representados nas plantas do período apenas nos trechos onde ainda se encontravam no leito
natural, os trechos onde foram retificados e canalizados as vias já figuram sobre o seu leito, apesar de
muitos deles terem sido inicialmente canalizados a céu aberto. Era o presságio do destino que teriam os
rios urbanos de Belo Horizonte nas décadas seguintes devido ao acentuado crescimento populacional.
Grande parte dos mapas produzidos à partir de 1950 foram baseados nos levantamentos
aerofotogramétricos realizados no município ao longo da década de 50 (Figura 5) cujas imagens,
encomendadas pela prefeitura visando o ordenamento do crescimento urbano apresentam os cursos
d’água da zona planejada correndo nos canais artificiais, ao contrario dos mapas produzidos no período
1958-1970.

Fig.5 - Fotografia aérea do ano de 1956, onde é possível visualizar parte da zona planejada e em destaque os rios
urbanos que ainda corriam a céu aberto. Escala 1:25.000 1956. Fonte: PANORAMA, 1997.

8
O Plano de Avenidas foi um projeto estrutural para o sistema viário de São Paulo, implementado a partir da
segunda metade da década de 30 e responsável pela retificação do Rio Tietê e de outros cursos d’água da capital
paulista, que tiveram suas várzeas urbanizadas para a abertura das avenidas sanitárias e das marginais. As
consequências da urbanização das várzeas e dos fundos de vale são conhecidas de todos nos períodos chuvosos, e
isso também vale para Belo Horizonte.

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Entre os mapas produzidos nesse período apenas no Mapa do município de Belo Horizonte
produzido em 1962, os rios urbanos aparecem inseridos e em destaque na paisagem urbana da zona
planejada, assim como os rios não canalizados ainda correndo no leito natural.
Com a metropolização de Belo Horizonte consolidada na década de 60, responsável pela
profunda mudança espacial do meio urbano, no qual os elementos naturais, antes integrados à malha
urbana da capital eram suprimidos para a melhoria viária onde o automóvel individual passou a ser o
protagonista das politicas urbanas vigente até os dias atuais, os rios urbanos da zona planejada, poluídos
e indesejados passaram a ser vistos como um entrave no processo de desenvolvimento urbano e viário.
No novo contexto urbano de Belo Horizonte não havia mais lugar para os cursos d’água, apesar de
estarem encerrados em canais a céu aberto9 e inseridos na malha urbana da capital.
Um ano após o último registro do seu curso em um mapa oficial, o córrego do Acaba Mundo é
coberto para o alargamento da Rua Professor Morais, ao mesmo tempo em que se alargava o seu canal
na Avenida Afonso Pena, visando à continuação da cobertura do córrego, o que viria a acontecer
somente em 1980.
O córrego do Leitão, cuja última representação em um mapa oficial também data de 1962 seria
coberto somente em 1970, com a justificativa da melhoria viária e da salubridade do bairro de Lourdes e
da região central.
Desde então encaixotados sob o asfalto, os rios urbanos da zona planejada de Belo Horizonte
são identificáveis somente através da cartografia produzida entre os anos de 1895-1945 e nos períodos
chuvosos, quando a sua calha oculta extrapola a obscuridade e retoma o seu espaço e as suas várzeas,
perdidas para o asfalto e para o concreto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os rios urbanos da zona planejada, ignorados pela CCNC e inseridos na paisagem urbana na
década de 20 foram encerrados sob as ruas e avenidas para a melhoria do fluxo viário, cujo automóvel
foi e continua sendo o protagonista das politicas urbanas de Belo Horizonte e para o embelezamento
urbano. Passados mais de quarenta anos da cobertura do último curso d’água que atravessa a zona
urbana planejada existe atualmente um notável interesse por parte da população belorizontina dos
caminhos percorridos pelos rios urbanos, ocultos e poluídos. As formas da paisagem urbana são diversas

9
Exceção feita ao córrego da Serra, que corria em canal fechado na porção compreendida dentro da zona
planejada desde a década de 30.

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e, segundo Milton Santos (1998, p. 53) “é a materialização de um instante da sociedade”. Na paisagem
urbana de Belo Horizonte os cursos d’água abordados nesse artigo foram erradicados da paisagem, sendo
possível identifica-los atualmente apenas com o auxilio dos mapas produzidos desde a construção da
capital até 1962 (Figura 6), ano da produção do último mapa onde figuram os rios urbanos, sendo
importantíssimos para o conhecimento do traçado original e atual dos rios urbanos e mesmo da
geografia que a conforma, visto que as micro bacias apresentam atualmente um alto grau de
adensamento e impermeabilização do solo.

Fig. 6 – Parte do Mapa do município de Belo Horizonte de 1962, editado pelo Ministério das Minas e Energia sob
supervisão do DNPM e produzido a partir dos levantamentos aerofotogramétricos da década anterior, onde os rios
urbanos aparecem inseridos e em destaque na paisagem urbana da zona planejada pela última vez. Escala 1:25.000
1962. Fonte: PANORAMA, 1997.

De acordo com as plantas confeccionadas no período 1953-1970 é notável o desejo do Poder


Público de erradica-los da paisagem urbana. Tal hidrofobia dos planejadores urbanos persiste até hoje,
pois o ribeirão, inicialmente poupado da cobertura da sua calha, nos últimos anos vem sendo
sistematicamente coberto e erradicado da paisagem urbana, da mesma forma e com a mesma finalidade
que se empregaram a cobertura dos rios urbanos de menor porte.

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A sociedade interfere e modifica o meio urbano de acordo com suas necessidades. Inseridos na
paisagem urbana devido às necessidades socioeconômicas do período eles não resistiram às pressões
fundiárias no espaço urbano que veio a deixar profundas marcas na paisagem belorizontina. Apesar das
políticas urbanas atuais valorizarem a inserção dos cursos d’água não canalizados na paisagem urbana,
como um agente concreto que a compõe, os rios urbanos cobertos, ao que tudo indica, ainda passarão
décadas sob as vias e quarteirões até que se adote uma política de reinserção ou reabilitação dos cursos
d’água no espaço urbano, onde o estudo da cartografia histórica de Belo Horizonte será prioritário para
a elaboração de um plano que seja bem sucedido.

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