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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PARANÁ

Foro Central Comarca da Região Metropolitana de Curitiba


5ª Vara da Fazenda Pública
SISTEMA PROJUDI
Estado do Paraná

SENTENÇA

Vistos e examinados estes autos de Ação


Ordinária de Aposentadoria Especial, em
trâmite perante a 5ª Vara da Fazenda Pública do
Foro Central da Comarca da Região
Metropolitana de Curitiba, sob o n. 0003333-
91.2017.8.16.0179, em que figuram como autor
Marcos Roberto Figueiredo e como réus o Estado
do Paraná e a Paranaprevidência, todos
qualificados.

Relata o autor que requereu administrativamente sua


aposentadoria especial em 30/11/2016, afirmando já ter completado os 25
anos de tempo de contribuição exercido em atividade especial.
Aduz que a Lei/PR nº 13666/2002 prevê no artigo 34 o
direito à aposentadoria especial.
Ainda, o STF assentou entendimento no sentido de que
na falta de norma regulamentadora da aposentadoria especial, deve ser
aplicada a Lei Federal n. 8213/1991.
Defende que apesar de apresentarem todos os requisitos
necessários à aposentadoria especial, o requerimento administrativo foi
indeferido.
Explica que os agentes penitenciários convivem
diariamente em local insalubre e perigoso, sujeitos a rebeliões, motins,
assassinatos e decapitações de pessoas, ainda com ameaças explícitas e
veladas aos servidores.

Dra. Patricia de Almeida Gomes Bergonse


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Ao final, requer, em síntese, a concessão de


aposentadoria especial desde a data do requerimento administrativo, sendo
que em relação aos proventos pugna pela integralidade e paridade a ativa;
Colaciona julgados e instrui a inicial com documentos.
A justiça gratuita foi indeferida (mov. 8.1).
O pedido liminar foi indeferido (mov. 18.1).
Citados, os réus apresentaram contestação (movs. 34.1 e
35.1), alegando, em síntese, que o pedido de aposentadoria especial teria
finalidade de afastamento do trabalho, que não é possível contar tempo
averbado como especial, que não implementou os 25 anos no serviço, que
estaria adstrito ao pedido inaugural e que o cálculo do benefício deveria ser
pela média das contribuições e pela impossibilidade da integralidade e
paridade.
Por fim, pugnam pela improcedência dos pedidos.
Juntam documentos.
O autor apresentou impugnação à contestação (mov.
39.1).
Instadas as partes à especificação de provas (mov. 41.1),
os réus pugnaram pelo julgamento antecipado (movs. 46.1 e 49.1), tendo o
autor deixado o prazo decorrer sem manifestar-se (mov. 50).
Aberta vista ao Ministério Público, o parecer apontou a
desnecessidade de intervenção (mov. 53.1).
Contados, os autos vieram conclusos para julgamento.

É o relatório. Decido.

O julgamento antecipado se aplica nas hipóteses em que


há revelia, naquelas em que a discussão versa apenas sobre matéria de direito,
ou de direito e de fato, porém não havendo a necessidade de dilação probatória,
Dra. Patricia de Almeida Gomes Bergonse
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bastando as provas documentais já juntadas aos autos para o julgamento


seguro da causa.
O presente cenário encontra respaldo nos termos do art.
355, inciso I, do Código de Processo Civil: “O juiz julgará antecipadamente o
pedido, proferindo sentença com resolução de mérito, quando: I - não houver
necessidade de produção de outras provas; [...] ”.
Desta forma, considerando que as partes informaram que
não havia mais provas a serem produzidas e que se traria de matéria
exclusivamente de direito, procedo com o julgamento da demanda.
Trata-se de pedido de aposentadoria especial, ajuizado
por Marcos Roberto Figueiredo, pelo qual pretende que se declare o tempo
laborado em condições especiais bem como, a concessão da aposentaria por
tempo de contribuição desde a data do requerimento administrativo.
Importante tecer um breve panorama sobre a matéria
aqui discutida antes de adentrar ao cerne da discussão.
O artigo 40, §4º da Constituição Federal estabelece a
possibilidade de adoção de requisitos diferenciados para concessão de
aposentadoria especial quando as atividades do servidor sejam exercidas
sob condições que prejudiquem sua saúde ou integridade física. Senão
vejamos:

Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos


Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas
autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de
caráter contributivo, observados critérios que preservem o equilíbrio
financeiro e atuarial e o disposto neste artigo.
(.... )
§ 4° É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a
concessão de aposentadoria aos abrangidos pelo regime de que trata
este artigo, ressalvados os casos de atividades exercidas
exclusivamente sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou a
integridade física, definidos em lei complementar. (grifei)

Dra. Patricia de Almeida Gomes Bergonse


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Em um cenário sem lei complementar estadual


específica sobre a aposentadoria especial aos agentes penitenciários, aplica-
se o que couber das regras do regime geral da previdência social.
Sobreleva destacar, ainda, ser desnecessária a
impetração de mandado de injunção pelo autor, conforme alegado pelos
réus. Isso porque, em outubro de 2014, o Supremo Tribunal Federal editou
a Súmula Vinculante nº 33, que assim estabeleceu:

Aplicam-se ao servidor público, no que couber, as regras do regime


geral da previdência social sobre aposentadoria especial de que trata
o artigo 40, § 4º, inciso III da Constituição Federal, até a edição de lei
complementar específica.

Assim, os pedidos de aposentadoria especial perante os


RPPS, sem regramento próprio, devem observar o art. 57, da Lei nº 8213/91,
que dispõe:

A aposentadoria especial será devida, uma vez cumprida a carência


exigida nesta Lei, ao segurado que tiver trabalhado sujeito a
condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física,
durante 15 (quinze), 20 (vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, conforme
dispuser a lei.

O STF afirmou também, no julgamento do RE nº


797.905-SE que “com a aprovação do referido enunciado vinculante,
sequer será necessária a impetração de mandado de injunção na hipótese”,
(STF, RE nº 797.905-SE, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJe de 29.05.2014,
unânime).
Logo, a Administração não pode indeferir pedidos de
aposentadoria especial alegando ausência de lei específica, mas sim deve
analisar as atividades do servidor para ver se prejudicam a saúde ou a
integridade física.

Dra. Patricia de Almeida Gomes Bergonse


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Faço constar ter sido esta a análise feita pela


Paranaprevidência, ao indeferir o benefício (mov. 1.10):

Menciono, conforme trazido pelo autor, que para fins de


regulamentar a regra constitucional no âmbito do Estado do Paraná, foi
editada a Lei nº 13666/2002, que instituiu o Quadro Próprio do Poder
Executivo do Estado do Paraná – QPPE, que prevê, o art. 34, com redação
que foi dada pela Lei nº 13757/2002:

Art. 34 . Os servidores penitenciários e educadores sociais têm direito


à aposentadoria especial, devido à natureza de trabalhos insalubres,
perigosos e penosos, após o exercício de 25 anos de suas respectivas
funções.

Referido normativo, originariamente vetado pelo


Governador do Estado, foi inserido mediante aditivo promulgado pela
Assembleia Legislativa através da Lei nº 13757/2002, que é objeto de Ação
Direta de Inconstitucionalidade em trâmite perante a Excelsa Corte (ADI
1945), que pende de julgamento. E mais, já foi objeto de análise pelo c.
Órgão Especial do TJPR, que já se pronunciou pela
inconstitucionalidade de diversos artigos, por vício de origem.
Em adição, a Lei/PR nº 6265/2002 instituiu o plano de
carreira do quadro próprio do Poder Executivo paranaense e as atribuições

Dra. Patricia de Almeida Gomes Bergonse


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foram definidas, conforme Lei 19131/2017, anexo. Vejamos a definição da


função básica do agente penitenciário:

Adentrando no caso em concreto, o autor é agente


penitenciário, ou seja, profissão não contida no rol do art. 144 da
Constituição Federal, acerca dos profissionais que integram a segurança
pública:

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e


responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem
pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos
seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.
[...]

Sabendo disso, imperioso analisar o preenchimento do


requisito temporal para concessão da aposentadoria pretendida, qual seja,
25 anos de exercício na função.
Verifica-se que na data do requerimento da
aposentadoria (30/11/2016) o autor possuía menos de 25 anos na

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carreira de agente penitenciário, visto que ingressou em 04/10/1994,


perfazendo apenas 22 anos, 1 mês e 26 dias.
Quando da propositura da presente demanda
(15/10/2017) o tempo passou para 23 anos e 11 dias, sendo que ainda não
completou 25 anos no cargo de agente penitenciário.
Neste cenário, busca o autor a contagem do tempo que
foi bombeiro como especial – 15/03/1990 a 16/09/1994, juntando a
certidão de tempo de contribuição emitida pela Polícia Militar do Paraná
(mov. 1.15) e demonstrando pelo histórico funcional que o tempo já se
encontra averbado (mov. 16.2).
Faço constar a possibilidade do cômputo de tempo
especial de atividade especial para fins de contagem recíproca, para aqueles
empregados públicos da Administração que tiveram seus empregos
transformados em cargos efetivos com o advento do regime jurídico único,
que no Paraná ocorreu em 1992. Sobre o tema cito o RE 255827, julgado em
25/10/2005.
Ocorre que vislumbrada a impossibilidade do
reconhecimento do período como bombeiro para o fim buscado, visto que é
regido por lei própria – Lei complementar nº 51/85.
No caso do Estado do Paraná os militares sempre
possuíram legislação própria (Lei Estadual 1943/54), a qual, até os dias de
hoje, contempla tratativa especial ao membros da Corporação, porquanto
os servidores civis, para a aposentadoria por tempo de contribuição
precisam cumprir quatro requisitos (35 e 30 anos de contribuição, 60 e 55
de idade, respectivamente homem e mulher, 10 de serviço público e 5 no
cargo), e enquanto o policial militar necessita apenas de um: de 25 a 30 anos
de contribuição, seja homem ou mulher, independente de idade.
Portanto, não seria possível deferir ao autor o benefício
de aposentadoria especial mediante o cômputo cumulativo dos tempos de
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serviço prestados à Polícia Militar e o QPPE, tendo em vista que são díspares
os regulamentos das referidas carreiras.
Ou seja, é necessário que o requisito temporal seja
integralmente exercido, não sendo admissível o cômputo de tempo relativo
a outro cargo outrora ocupado pelo autor, ainda que a carreira em questão
propicie a inatividade também em caráter especial, o que não foi feito pelo
autor.
Cito julgados do E. TJPR sobre o tema:

APELOS 01 e 02– ALEGAÇÃO DE IMPOSSIBILIDADE DE


CONTAGEM DE TEMPO NA FORMA DO ART. 40, § 10º, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL – CABIMENTO – AUTOR QUE
LABOROU NA CONDIÇÃO DE POLICIAL MILITAR QUE É REGIDA
POR LEI PRÓPRIA - LEI COMPLEMENTAR Nº 51/85 -
IMPOSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO DE
APOSENTADORIA ESPECIAL PELO PERÍODO EM QUE
LABOROU COMO POLICIAL MILITAR E AGENTE
PENITENCIÁRIO – AUTOR QUE NÃO CUMPRIU COM OS
REQUISITO TEMPORAL MÍNIMO DE 25 ANOS PARA
APOSENTADORIA ESPECIAL NA CONDIÇÃO DE AGENTE
PENITENCIÁRIO – ÔNUS SUCUMBENCIAIS INVERTIDOS -
SENTENÇA REFORMA – APELOS PROVIDOS.RECURSO
ADESIVO:PLEITO DE CONCESSÃO DE APOSENTADORIA
ESPECIAL OM INTEGRALIDADE E PARIDADE À ATIVA, NOS
TERMOS DO § 1º DO ART. 57, DA LEI Nº 8.213/91 – SENTENÇA
REFORMADA – RECURSO PREJUDICADO. APELO 01 E 02
PROVIDOS – SENTENÇA REFORMADA – RECURSO ADESIVO a.
PREJUDICADO. (TJPR - 6ª C.Cível - 0002448-19.2013.8.16.0179 -
Curitiba - Rel.: Prestes Mattar - J. 30.10.2018). [grifei]
**************
APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE CONCESSÃO DE APOSENTADORIA
ESPECIAL – PEDIDO JULGADO IMPROCEDENTE – SERVIDOR
PÚBLICO OCUPANTE DE CARGO DE AGENTE PENITENCIÁRIO –
PREVISÃO LEGAL DE APOSENTADORIA ESPECIAL – PRETENSÃO
DE OBTER CÔMPUTO DE TEMPO DE SERVIÇO PRESTADO À
POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO PARANÁ PARA FINS DE
INTEGRALIZAÇÃO DO TEMPO DE SERVIÇO – IMPOSSIBILIDADE
– INTELIGÊNCIA DO ART. 40, § 4º, III, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL – DECISÃO MANTIDA – .RECURSO CONHECIDO E NÃO
PROVIDO (TJPR - 7ª C.Cível - 0001899-38.2015.8.16.0179 - Curitiba
- Rel.: Joeci Machado Camargo - J. 11.12.2018)

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Por fim, faço constar que foram enfrentados todos os


argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada, com observância do art. 489, §1º, IV, CPC.
Ante o exposto, a improcedência é a medida que se
impõe.

Dispositivo.
À vista do exposto, com fundamento na disposição
contida no artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil de 2015, resolvo
o mérito e julgo IMPROCEDENTES os pedidos iniciais.
Diante do princípio da sucumbência, condeno o autor ao
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios dos
procuradores dos réus, que fixo em 10% (dez por cento) do valor atualizado
da causa, pro rata, em obediência ao artigo 85, §2º, do Código de Processo
Civil de 2015.
Os honorários advocatícios deverão ser corrigidos
monetariamente pelo índice IPCA-E a partir da data da publicação da
sentença e acrescidos dos juros de mora de 1% (um por cento) ao mês, a
partir da data do trânsito em julgado da sentença.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
Cumpra-se, no que for pertinente, o Código de Normas
da Corregedoria Geral da Justiça do Paraná.
Com o trânsito em julgado, arquivem-se os autos, com as
baixas e cautelas de praxe.
Curitiba, data da assinatura digital.

PATRICIA DE ALMEIDA GOMES BERGONSE


Juíza de Direito
M

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