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Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Comunicação Social – Jornalismo
Trabalho de Conclusão de Curso

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS MORADORES DE RUA NO


JORNAL CORREIO BRAZILIENSE

Autora: Maíra Pinheiro Alves


Orientadora: Professora MSc. Fernanda Vasques Ferreira

SumarioMAÍRA PINHEIRO ALVES

Brasília – DF

2014
MAÍRA PINHEIRO ALVES

REPRESENTAÇÃO SOCIAL DOS MORADORES DE RUA NO JORNAL CORREIO


BRAZILIENSE

Monografia apresentada ao curso de graduação


em Comunicação Social com habilitação em
jornalismo da Universidade Católica de
Brasília, como requisito parcial para obtenção
do título de Bacharel em Jornalismo.

Orientadora: MSc. Fernanda Vasques Ferreira

Brasília
2014
Monografia de autoria de Maíra Pinheiro Alves, intitulada: Representação dos
moradores de rua no jornal Correio Braziliense, apresentada como requisito parcial para
obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, da
Universidade Católica de Brasília, em 24 de junho de 2014, defendida e aprovada pela banca
examinadora abaixo assinada:

__________________________________________
Profª. MSc. Fernanda Vasques Ferreira
Orientadora e Presidente da Banca Examinadora

________________________________________
Profª. MSc. Cynthia da Silva Rosa
Banca Examinadora

________________________________________
Profª. MSc. Isabel Cristina Clavelin da Rosa
Banca Examinadora

Brasília
2014
Dedico a meu pai, pelo incentivo constante e
por ser meu referencial de dignidade,
honestidade luta e força. Meu grande exemplo
de vida
À minha mãe, por toda dedicação, por todo
carinho e companheirismo. Por ter me ensinado
os princípios de amor, solidariedade e
educação. Minha grande cúmplice na vida.
AGRADECIMENTOS

A Deus, que é minha força e minha fonte de amor. Seu amor me fortalece e me renova
em todos dos dias.
Aos meus pais, que são minha base, minha fortaleza. Por me incentivarem, me
acolherem e me ajudarem sempre que solicitados. Eles sempre estiveram ao meu lado, dando
muito amor, carinho e “puxões de orelha”. À minha mãe, que foi muito paciente, virtude
fundamental nesse período, e por todas as ajudas. A meu pai que me incentivou dia após dia, e
se alegrou com cada passo dado.
À minha adorável orientadora Fernanda, sempre acessível e disposta, pela paciência e
atenção е pelo incentivo e estímulo essenciais para а conclusão desta monografia.
Ao Vinicius, meu grande parceiro da vida, que me incentivou e me ajudou dе forma
especial, dando força е coragem e me apoiando em momentos difíceis. Agradeço, sobretudo,
por ser minha fonte de aconchego e amor.
Às minhas grandes incentivadoras Máira Coelho e Morena Pinheiro pelo incentivo,
carinho, presteza e pelas experiências que compartilhamos juntas. Por toda dedicação e por
todas as palavras dóceis em momentos de desconfortos e aflições.
A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu,
mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre
aquilo que todo mundo vê.
(Arthur Schopenhauer)
RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivo identificar as representações sociais sobre a população de rua
no jornal Correio Braziliense, veiculo de comunicação tradicional de Brasília. Para que fosse
possível uma compreensão ampla das representações construídas, foram analisadas matérias
publicas de novembro 2013 a janeiro de 2014, bem como as representações sociais elaboradas,
os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia do veículo escolhido. Como referencial
teórico, adotaram-se as teorias de representação social propostas por Serge Moscovici e as
teorias do Newsmaking e dos valores-notícia baseadas em Mauro Wolf e Nelson Traquina.

Palavras-chaves: moradores de rua, representação social, valores-notícia, Correio Braziliense.


ABSTRACT

This research aims to identify the social representations about the homeless population in the
newspaper Correio Braziliense vehicle communication traditional Brasilia. To make possible a
broad understanding of the constructed representations, public material January 2013 to
November 2014 were analyzed as well as the elaborate social representations, the criteria for
newsworthiness and reported about the values, the chosen vehicle. The theoretical approach
was adopted theories of social representation proposed by Serge Moscovici, and theories of
Newsmaking and values-based news Mauro Wolf and Nelson Traquina.

Keywords: homeless, social representation, values-news, Correio Braziliense.


SUMÁRIO

1 DISPOSIÇÕES GERAIS................................................................................................................. 10
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA ...................................................................................................... 10
1.2 JUSTIFICATIVA .......................................................................................................................... 10
1.3 OBJETIVOS .................................................................................................................................. 12
1.3.1 Objetivo Geral ............................................................................................................................ 12
1. 3.2 Objetivos Específicos................................................................................................................. 12
1.4 HIPÓTESES .................................................................................................................................. 12
1.5 DELIMITAÇÃO DO TEMA ....................................................................................................... 13
2 METODOLOGIA ............................................................................................................................ 14
3 REFERENCIAL TEÓRICO ........................................................................................................... 17
3.1 REPRESENTAÇÃO SOCIAL ..................................................................................................... 17
3.2 TEORIA DO NEWSMAKING...................................................................................................... 22
4 POPULAÇÃO DE RUA .................................................................................................................. 28
5 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS MORADORES DE RUA .......................................... 32
5.1 OS PROCESSOS DE ANCORAGEM E OBJETIVAÇÃO ...................................................... 35
5.2 REPRESENTAÇÃO SOCIAL E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO ..................................... 39
6 NOTICIABILIDADE E VALOR-NOTÍCIA NAS MATÉRIAS SOBRE POPULAÇÃO DE
RUA NO JORNAL CORREIO BRAZILIENSE ............................................................................. 41
6.1 NOTICIABILIDADE.................................................................................................................... 42
6.2 INFRAÇÃO E MORTE................................................................................................................ 42
6.3 PROXIMIDADE GEOGRÁFICA ............................................................................................... 43
6.4 PERSONALIZAÇÃO ................................................................................................................... 44
6.5 INESPERADO............................................................................................................................... 44
7 CONCLUSÃO .................................................................................................................................. 46
8 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................... 48
APÊNDICE .......................................................................................................................................... 49
10

1 DISPOSIÇÕES GERAIS
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA
Quais representações são produzidas pela mídia impressa, em especial, pelo jornal
Correio Braziliense, a partir do conteúdo veiculado a população de rua?
1.2 JUSTIFICATIVA
Este estudo foi motivado pela observação empírica de abordagem noticiosa divulgada
pela mídia impressa do Distrito Federal, mais especificamente o jornal Correio Braziliense, no
que diz respeito aos moradores de rua. A forma como é feita a divulgação do conteúdo relativo
àqueles que moram nas ruas desperta bastante interesse, já que se trata de um assunto social.
Esta pesquisa busca analisar o conteúdo jornalístico brasiliense que envolve o tema
morador de rua, em específico no que tange ao jornal Correio Braziliense. Observam-se, com
certo incômodo pessoal, várias matérias referentes ao tema, porém, nenhuma delas se aprofunda
ou dá a devida importância à questão.
Quando se trata de pessoas cuja moradia, por algum motivo, são as ruas, a imprensa
costuma trazer matérias superficiais, que, em sua grande maioria, abarcam alguma forma de
violência. É comum se deparar, no Jornal Correio Braziliense, com manchetes como: Mulher é
presa suspeita de matar morador de Rua em Taguatinga Norte1; ou ainda Morador de rua
morre apedrejado em Taguatinga por ex-companheiro de cela2 e Seis moradores de rua foram
vítimas de crimes no Distrito Federal este ano3.
Em alguns casos, podemos observar que, na construção da notícia, alguns jornalistas
sequer divulgam o nome ou qualquer dado e informação sobre a vida desse indivíduo, que é o
personagem principal da notícia. É como se a sua existência fosse indiferente ao mundo. Para
melhor ilustrar o exposto acima, será utilizada uma matéria cuja manchete foi: “Morador de rua
da Ceilândia ateia fogo em barraco com mulher dentro”4, veiculada no dia 13 de agosto de 2013,
no Correio Braziliense:
Um morador de rua de Ceilândia ateou fogo no próprio barraco, que tinha uma mulher
dentro. O crime ocorreu na noite desta segunda-feira (12/8). Os vizinhos socorreram
a moradora de rua ao vê-la aos gritos sentada na calçada. A mulher teve as costas, os
braços e os cabelos queimados. Pessoas que trabalham na região dizem que casal
discutia com frequência.

1
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2012/10/30/interna_cidadesdf,331071/mulher-e-presa-suspeita-de-
matar-morador-de-rua-em-taguatinga-norte.shtml
2
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/10/07/interna_cidadesdf,392007/morador-de-rua-morre-
apedrejado-em-taguatinga-por-ex-companheiro-de-cela.shtml
3
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/08/01/interna_cidadesdf,380290/seis-moradores-de-rua-foram-
vitimas-de-crimes-no-distrito-federal-este-ano.shtml
4
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/08/13/interna_cidadesdf,382244/morador-de-rua-da-ceilandia-
ateia-fogo-em-barraco-com-mulher-dentro.shtml
11

Nesta matéria, em princípio, observa-se a falta de aprofundamento no assunto e a falta


de dados relevantes que poderiam enriquecer a notícia, por exemplo, o nome dos indivíduos, o
que motivou a agressão? O agressor foi preso? Com qual frequência esse tipo de violência
ocorre? Essas e outras questões passam despercebidas quando se trata de pessoas que não têm
um lar e podem denotar certa invisibilidade social. A falta do nome, por exemplo, pode indicar
um importante elemento, a não existência social do indivíduo em questão.
A ausência dessas informações se repete, por vezes, em diferentes meios de
comunicação. Dessa forma, percebe-se que há tratamentos diferenciados nas reportagens
jornalísticas, baseados segundo a orientação social, política e econômica que a empresa que
produz a matéria se propõe a seguir. Por isso, a importância de se analisar e desvendar quais as
representações dos moradores de rua no jornal, sobre o registro de fatos documentais e fatos
sociais, levando em conta que essas pessoas vivem à margem da sociedade no jornal.
Considerando que elas não costumam ser o interesse de nenhuma grande empresa ou até mesmo
dos leitores, que são o público-alvo do setor e, que, além disso, não pertencem a uma classe que
“mereça” ter visibilidade no jornal. Esta análise se justifica como importante porque, ao
descurar essas questões, o trabalho poderá contribuir para a mudança de paradigma nas
produções noticiosas relativas ao assunto.
O objeto do estudo, que é a cobertura do jornal Correio Braziliense em relação às
pessoas que vivem em situação de rua, tem grande relevância social, por ser uma questão – a
da moradia nas ruas – historicamente presente nas principais cidades do país. Segundo matéria
veiculada ao Portal R75, no dia 2 de janeiro de 2012, no Brasil, existe hoje mais 1,8 milhão de
brasileiros vivendo nas ruas, sendo 24 mil menores de idade sem lar e do sexo masculino.
Em uma pesquisa de amostragem6, que também expõe os números de pessoas que vivem
nas ruas realizadas pelo Ministério do Desenvolvimento Social em 2008, feita com base em 71
municípios, foram identificadas 31.922 pessoas em situação de rua, porém, esse total, no Brasil,
é mais elevado. O contingente descrito equivale a 0,061% da população dessas cidades. Ainda
sobre a pesquisa, os principais motivos pelos quais as pessoas passaram a viver e morar nas
ruas são problemas com alcoolismo e/ou drogas, desemprego ou desavença familiar.

5
http://noticias.r7.com/cidades/noticias/moradores-de-rua-contam-sonhos-e-planos-para-2012-20120102.html
6
http://www.mds.gov.br/backup/arquivos/sumario_executivo_pop_rua.pdf
12

No Distrito Federal, foi realizada pela UnB, em 2011, a Pesquisa Renovando


Cidadania 7 , financiada pelo Fundo de Amparo à Pesquisa (FAP/DF), em que foram
identificadas 2.512 pessoas em situação de rua no Distrito Federal, incluindo crianças,
adolescentes e adultos.
Por se tratar de um fato que atinge todo o país, a presente pesquisa busca analisar
indicadores pré-estabelecidos que demonstrem forma, conteúdo, produção e distribuição de
notícias para o público, como as relevâncias e os destaques dados ao tema, principalmente no
jornal Correio Braziliense, no período de novembro a janeiro de 2014.

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo Geral


 Compreender como se dá o processo de representação social dos moradores de rua.

1. 3.2 Objetivos Específicos


 Analisar o processo de produção de notícias do Correio Braziliense no que tange os
moradores de rua à luz da teoria do newsmaking.
 Analisar matérias relacionadas a moradores de rua.

1.4 HIPÓTESES
 Os moradores de rua são invisíveis perante a sociedade e perante o discurso
midiático. Quase nunca são representados, mas quando o são isso se dá de maneira
negativa.
 Nos textos, a voz do morador não tem relevância. Quase sempre eles não têm voz
ou direito de opinar.
 O discurso midiático reserva os maiores espaços das páginas policiais aos
moradores de rua, sempre os caracterizando como suspeitos de crimes ou como
vítimas de violência ou, ainda, nas páginas de vida urbana, como agentes de invasão
de áreas residenciais ou públicas.

7
http://www.neppos.unb.br/publicacoes/CP191211_13h12-renovando-a-cidadania.pdf
13

1.5 DELIMITAÇÃO DO TEMA


Neste trabalho, será feita uma análise das matérias publicadas do jornal Correio
Braziliense, um veículo de comunicação tradicional de Brasília, que traz recortes de pessoas
que moram nas ruas, de novembro de 2013 a janeiro de 2014. A escolha do período se deve à
temporada de festas de fim de ano, quando há certo aumento dos moradores de rua, que migram
em buscas de esmolas, conforme matéria do jornal Correio Braziliense, cuja manchete era:
População de rua pode aumentar até 80% neste fim de ano, estima Sedest8, publicada no dia
1º de dezembro de 2010. A matéria demonstra que muitas pessoas vêm para a Capital “atraídos
pela solidariedade das festas de fim de ano”. Nesta época, a estimativa era de que o número de
moradores de rua do Distrito Federal aumentasse em até 80%, de acordo com a Secretaria de
Desenvolvimento Social do DF (Sedest).
Outro exemplo desse aumento de moradores de rua no fim do ano é a reportagem do dia
18 de outubro de 2011, cuja manchete era: Volta pelo Plano Piloto revela a crescente
quantidade de moradores de rua 9 . A matéria chega à conclusão de que “a quantidade de
homens, mulheres e crianças em condições subumanas aumenta com a chegada das festas de
fim de ano”.
Dessa forma, crescem também as reclamações daqueles que habitam as residências
próximas às quadras mais procuradas pelos moradores de rua. Em depoimentos às matérias
jornalísticas publicadas no Correio Braziliense, as pessoas que residem nas quadras 706 e 906
norte reclamam da arruaça desses indivíduos: “Nos fins de semana, eles colocam o som em
volume alto até tarde da noite, às vezes, brigam entre si e a polícia não faz nada”, conta a
moradora de um prédio próximo. Por todo o exposto, esse período foi o escolhido para buscar
responder o problema de pesquisa desse trabalho.

8
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2010/12/01/interna_cidadesdf,225616/populacao-de-rua-pode-
aumentar-ate-80-neste-fim-de-ano-estima-sedest.shtml
9
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2011/10/18/interna_cidadesdf,274314/volta-pelo-plano-piloto-revela-a-
crescente-quantidade-de-moradores-de-rua.shtml
14

2 METODOLOGIA

Utiliza-se, neste trabalho, o corpus de três meses de matérias locais relacionadas à


temática “morador de rua”. O Jornal Correio Braziliense foi o meio de comunicação em que as
notícias foram coletadas. Tendo como objetivo geral compreender como se dá o processor de
representação social dos morados de rua, fundamentou-se na leitura de todas as notícias
publicadas sobre o tema no período selecionado para a pesquisa. Nesta fase, observaram-se,
ainda, vários elementos, tais como, o tipo de matérias, se matérias ou notas, se havia fotos,
fontes, nomes completos dos indivíduos, quais valores-notícia, quais representações sociais, se
havia ou não violência e de qual tipo.
O corpus da pesquisa é composto por onze matérias, entre elas reportagem e notas, que
foram publicadas no período de novembro, dezembro de 2013 e janeiro de 2014. No mês de
novembro, apenas duas matérias foram veiculadas no jornal sobre este tema; em dezembro,
quatro; e, no mês de janeiro, cinco matérias.
A base deste estudo são as metodologias de análise de conteúdo, analisando o corpus
empírico. A Teoria do Newsmaking e da representação social servirão como instrumental
teórico-metodológico.
Para delimitar os resultados, foi feita uma tabela de codificação para cada matéria
publicada, que irá se valer de categorias criadas a partir do referencial teórico-metodológico.
Na tabela, constam dados da notícia como, nome, quantidade de fotos, se há violência,
nomenclatura usada, valores-notícia, representações sociais. Esse formulário tem importância
para o processo de transformação do dado bruto (matéria publicada) para a sistematização,
visando esclarecer as características do material selecionado. Segundo Duarte, J. (2005) “sua
principal função é servir de elo entre o material escolhido para análise e a teoria do
pesquisador”.
A análise de conteúdo é uma técnica de pesquisa que reúne um conjunto de instrumentos
metodológicos que se aperfeiçoam constantemente e que se aplicam a discursos diversificados,
mediante decodificação da mensagem. Para Bardin (1979), a análise de conteúdo envolve as
ações de explicitação, sistematização e expressão do conteúdo de mensagens, com a intenção
de se efetuarem deduções lógicas e justificadas a respeito da origem dessas mensagens, como
quem as emitiu, em que contexto e/ou quais efeitos se pretende causar por meio do uso destas.
Mais especificamente, a análise de conteúdo constitui:
Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando obter, por procedimentos
sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores
15

(quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às


condições de produção/recepção destas mensagens. (Bardin, 1979. p.42).

A análise consiste em verificar “a presença ou ausência de uma dada característica de


conteúdo ou de um conjunto de características de um determinado fragmento de mensagem que
é tomado em consideração. ” (BARDIN, 1979 p. 21).
A metodologia deste estudo também utilizará como instrumental teórico-metodológico
a Teoria da Representação Social fundada pelo psicólogo social Serge Moscovici. Esta obra
será norteadora nesta monografia, em que se percebem as representações sociais como
estruturas da realidade vivida pela população de rua. O principal objetivo da Teoria das
Representações Sociais é explicar os fenômenos do homem a partir de uma perspectiva coletiva,
sem perder de vista a individualidade.
(...) uma representação social é uma “preparação para a ação”, não somente porque
guia o comportamento, mas, sobretudo, porque remodela e reconstitui os elementos
do meio no qual o comportamento se manifesta. Atribuindo um sentido ao
comportamento, consegui integrá-lo numa rede de relações (...). Fornecendo, as ao
mesmo tempo, as noções, as teorias e as observações que tornam essa relação.
(MOSCOVICI 2003)

Pretende-se analisar as representações sobre os moradores de rua presentes nas matérias


publicadas, buscando compreender como elas são construídas pelo jornal Correio Braziliense,
por meio de várias funções desta teoria, tais como: ancoragem, objetivação, prescrição, senso
comum entre outros.
A teoria do Newsmaking auxiliará a contextualizar e a compreender o porquê de as
notícias serem como são, de que forma são refletidas, a começar pela seleção até o recorte final
e quais os aspectos que influenciam o acontecimento a se transformar em notícia publicada.
A metodologia será baseada na revisão bibliográfica do autor Mauro Wolf e de Nelson
Traquina. Traquina amplia os estudos sobre a produção noticiosa e as práticas que estão conexas
a essa produção. Segundo Wolf (2003 p.186), “as pesquisas de newsmaking têm, em comum, a
técnica da observação participante10, pois permitem reunir e obter sistematicamente os dados
fundamentais sobre as rotinas produtivas que operam na indústria jornalística e no processo de
produção da notícia.”
Esta etapa consiste na observação das matérias, analisando os instrumentos utilizados
para a construção das notícias. A partir desta análise, os dados adquiridos serão associados ao
conceito de newsmaking, que envolve os critérios de noticiabilidade, presentes no referencial

10
Entretanto, para esta pesquisa, a observação participante não foi a técnica utilizada, uma vez que dentre
o corpus selecionado, não haveria possibilidade de ter acesso à redação considerando que as publicações
sobre o assunto foram esparsas.
16

teórico desta pesquisa. Diante dos elementos apresentados, os dados colhidos serão
relacionados aos processos produtivos, e com isso, compreende-se como é feita a seleção das
notícias. Mauro Wolf abordou alguns critérios que auxiliam os jornalistas a definirem quais
acontecimentos serão notícias. Ele argumenta que o jornalista funciona como um “editor”, na
seleção dos fatos, orientado por valores-notícia. Os valores-notícia serão aplicados para
selecionar o que é notícia e o que não é. Essa seleção é guiada por critérios e procedimentos
envolvidos na escolha dos acontecimentos e na produção das notícias que serão publicadas ou
que serão dispensadas.
17

3 REFERENCIAL TEÓRICO

3.1 REPRESENTAÇÃO SOCIAL


A Teoria das Representações Sociais foi desenvolvida pelo psicólogo social Serge
Moscovici. O objetivo dessa teoria é ilustrar os fenômenos do homem a partir de uma
perspectiva coletiva, considerando a individualidade. Tendo em vista que as representações
sociais são um fenômeno e uma forma de ilustração, Moscovici (2007) interessou-se pela
mudança de ideias na sociedade. Ele empregou o conceito de representação social a um estudo
sobre a compreensão psicológica no pensamento público, na França, publicado em 1961. Este
estudo iniciou a Teoria das Representações Sociais.
O campo dessa pesquisa nasce de uma crítica que tenta acabar com a forma de
pensamento clássico e hegemônico muito presente na América do Norte e na Grã-Bretanha, que
criava o indivíduo separado do seu âmbito social. Essa atitude crítica adotada por Moscovici
compõe o ponto de partida para a construção da nova teoria, que assegura não haver separação
entre o universo interno do indivíduo e o universo externo. A teoria sugere uma articulação
entre o psicológico e o social, analisa os inseparáveis: sujeito, objeto e sociedade. No aspecto
psicossociológico proposto por Moscovici, os indivíduos não são somente processadores de
informações, mas pensadores ativos que “produzem e comunicam incessantemente suas
próprias representações e soluções específicas para as questões que colocam a si mesmos”
(MOSCOVICI, 1984a, p.16 apud SÁ, 1995, p.28).
As representações sociais referem-se, segundo Moscovici (1996, p. 22), a “formas de
conhecimento socialmente elaborado e partilhado, representantes de uma visão prática e
concorrente na construção de uma realidade comum a um grupo social”. Ainda que distanciado
do conhecimento científico, as representações sociais tratam de um saber de senso comum, não
só por sua importância nas influências mútuas diárias e na vida social, mas, por suas vinculações
com as afinidades por meio de práticas discursivas. Ao discutir as raízes de uma representação
social, Moscovici (2003, p. 344) afirma que “nós absorvemos representações sociais,
começando na infância, juntamente com outros elementos de nossa cultura e com nossa língua
materna”, o que é demonstrado em sua concepção na linguagem, bem como em outras formas
de cultura.
Partindo dos estudos sociais sobre as pessoas em situação de rua, pretendem-se
demonstrar as representações sociais atribuídas a este. Por representação social, entende-se:
[...] uma “preparação para a ação”, não somente porque guia o comportamento, mas,
sobretudo porque remodela e reconstitui os elementos do meio no qual o
18

comportamento se manifesta. Atribuindo um sentido ao comportamento, consegue


integrá-lo numa rede de reações (...). Fornecendo, ao mesmo tempo, as noções, as
teorias e as observações que tornam essas relações estáveis e eficazes. (MOSCOVIC,
1984 apud GIORGETTI, 2006, p. 59).

A Teoria das Representações Sociais conceitua que a classificação das práticas sem
categorias gera o conhecimento do senso comum e admite entender o mundo. As representações
não são produzidas primeiramente na sociedade, mas, sim, desenvolvidas pela linguagem e pela
interação coletiva, refletindo no comportamento dos indivíduos. Assim, há o potencial de
manutenção ou de transformação de algumas estruturas sociais.
Para Moscovici, as representações sociais são sistemas de valores, ideias e práticas que
definem uma ordem para que os indivíduos se orientem. Elas também tornam possível a
comunicação entre os sujeitos de uma sociedade, fornecendo um código para que consigam
nomear e classificar os objetos e aspectos da realidade.
A Teoria das Representações Sociais considera o estudo do senso comum como
expressivo para o conhecimento da sociedade. O senso comum é frequentemente recriado em
nossas sociedades, e seu objeto situa a linguagem e o comportamento habitual entre os sujeitos.
No processo de modificação e realimentação do senso comum, as representações sociais
contidas são alteradas, eliminadas ou ainda são formadas novas representações. Conforme
Moscovici (2007), as representações adquirem autoridade, porque, por meio de sua mediação,
os indivíduos alcançam mais elementos que permitem entender diferentes fenômenos do
cotidiano. As representações sociais que surgem a partir de teorias científicas acabam
modificando o senso comum, de maneira que o assunto não rodeie as classes populares e vá até
os representantes da ciência, mas, sim, realize o caminho oposto. O âmbito do senso comum
admite alcançar as representações sociais no período em que elas estão circulando e entende
como elas são causadas, comunicadas e colocadas em ação:
O senso comum, o conhecimento popular [...] oferece-nos acesso direto a
representações sociais. São, até certo ponto, as representações sociais que combinam
nossa capacidade de perceber, inferir, compreender, que vêm à nossa mente para dar
um sentido às coisas, ou para explicar a situação de alguém. Elas são tão naturais e
exigem tão pouco esforço que é quase impossível suprimi-las (MOSCOVICI, 2007,
p. 201).

Um primeiro esboço formal do conceito de representação social nos é colocado por


Moscovici, que atesta que as representações coletivas não dariam conta da complexidade das
sociedades modernas, cuja realidade social é desafiada frequentemente pela presença do novo,
do estranho, do não familiar. Esses fenômenos de origem e domínio diversos determinam um
novo entendimento.
19

Logo, conclui-se que “o propósito de todas as representações é o de transformar algo


não familiar, ou a própria não familiaridade, em familiar” (MOSCOVICI, 1984, p.23 apud SÁ,
1995, p. 35). Diante dessa afirmação, as representações sociais têm duas funções: a primeira,
padronizar os objetos ou as pessoas, dando-lhes certa forma e localizando-as em classes
peculiares, que são comuns por grupos sociais. Desse modo, ao descobrir novos objetos, os
indivíduos os posicionam em conjuntos conhecidos que possuam alguma afinidade com o novo
elemento, ainda que não sejam corretamente acertados a esta categoria. Existe um empenho dos
sujeitos para que as novidades se enquadrem e se assemelhem ao que já é conhecido, para que
possam ser compreendidas. Moscovici (2007) também destaca que é possível que os indivíduos
compreendam a influência das convenções na realidade, esquivando-se de algumas exigências
sobre os pensamentos. Contudo, não é possível desprender-se de todas as combinações e de
todos os preconceitos que fazem parte do dia a dia das pessoas.
A outra função das representações é a prescrição sobre os sujeitos. Ainda que sejam
divididas por muitos e influenciem cada um, elas não são pensadas individualmente, mas
“impostas sobre nós, transmitidas e são produto de uma sequência completa de elaborações e
mudanças que ocorrem no decurso do tempo e são o resultado de sucessivas gerações”
(MOSCOVICI, 2007, p. 37). As representações sociais, afirma o autor, são entidades sociais
que têm vida própria, conversam e opõem-se, sendo modificadas com o habitual e, por vezes,
deixando de ter para reaparecerem com outras formas. Quando acontece uma alteração que
ameace uma imagem-ideia, os diálogos entre os indivíduos e suas atitudes também precisam
ser transformadas. Tal ponto é exemplificado a partir da seguinte afirmação:
Uma palavra e a definição de dicionário dessa palavra contêm um meio de classificar
indivíduos e ao mesmo tempo teorias implícitas com respeito à sua constituição, ou
com respeito às razões de se comportarem de uma maneira ou de outra [...]. Uma vez
difundido e aceito este conteúdo, ele se constitui em uma parte integrante de nós
mesmos, de nossas inter-relações com outros, de nossa maneira de julgá-los e de nos
relacionarmos com eles; isso até mesmo define nossa posição na hierarquia social e
nossos valores. Se a palavra “neurose” desaparecesse e fosse substituída pela palavra
“desordem”, tal acontecimento teria consequências muito além de seu significado em
uma sentença, ou na psiquiatria. (MOSCOVICI, 2007, p.39).

Por meio das funções de autonomia e prescrição, portanto, as representações sociais


tornam-se concretas, surgindo como realidades inquestionáveis, quase objetos matérias
mencionados pelas ações e comunicações dos indivíduos.
A finalidade maior das representações sociais é construir ligações entre o estranho e o
conhecido. A incógnita desperta e intriga o indivíduo, ao mesmo tempo em que o intimida.
Quando ele encontra algo diferente do esperado, demostra uma percepção de incompletude e
20

não consegue responder como faria em uma situação planejada. Assim, aponta Moscovici
(2007), a proximidade com o outro cria um sentimento de rejeição, pois implica a intenção
como pessoa que se assemelham com componentes do nosso grupo social. O contato não
familiar logo forma uma ameaça de perder os padrões referencias que permitem aos sujeitos
entenderem mutualmente a sociedade em que vivem. A elaboração de uma representação é,
portanto, uma tentativa de transferir o que perturba para um universo mais próximo, colocando
o incomum em um contexto que o torna comum e o abrangendo em uma categoria conhecida.
Por meio das representações, o problema não familiar é superado e o que foi abstrato torna-se
concreto, restaurando o sentido da continuidade do grupo que foi repreendido pelo
desconhecido. Entende-se, então, que esta procura familiar tende ao conservadorismo, de modo
que Moscovici (2007) deduz que todas as representações são sociocêntricas.
Para compreender melhor o fenômeno de algumas representações sociais, é preciso
debater dois mecanismos do processo de pensamentos que são definidos por Moscovici (2007)
como responsáveis pelos organismos das representações: a ancoragem e a objetivação. Pela
ancoragem, os objetivos e as ideias não familiares são comparados a padrões de categorias
existentes e conhecidas pelo sujeito, sendo também acertadas para que consigam se encaixar
em tal categoria. A ancoragem é um processo de classificação e nomeação daquilo que não se
conhece, para que deixe de ser algo estranho. Este enquadramento é essencial porque a
incapacidade de avaliar ou descrever algo cria uma resistência entre os sujeitos, de modo que a
primeira etapa para vencer este distanciamento é o ato de nomear. De acordo com Moscovici
(2007, p.62):
No momento em que nós podemos falar algo, avaliá-lo, e então comunicá-lo (...),
então nos podemos representar o não usual em nosso mundo familiar, reproduzi-lo
como uma réplica de um modelo familiar. Pela classificação do que é inclassificável,
pelo fato de se dar um nome ao que não tinha nome, nos somos capazes de imaginá-
lo, de representá-lo. De fato, a representação é, fundamentalmente, um sistema de
classificação e de denotação, de alocação e de categorias de nomes.

A partir da ancoragem, as pessoas e coisas podem ser descritas, adquirindo


características típicas, como as que se diferenciam de outras coisas e objetos podem ser
enquadradas em uma convenção partilhada por um grupo. De acordo com Moscovici (2007),
por meio de nomeação se concede uma identidade social ao que não estava identificado e sana-
se a necessidade dos sujeitos de relacionar objetos e pessoas com uma representação social
dominante. O processo de ancoragem, então, baseia-se na classificação e na nomeação. Estes
sistemas, contudo, não se limitam em classificar objetos ou pessoas: têm como finalidade
21

auxiliar na interpretação de características e na compreensão de intenções das ações dos


sujeitos.
Outro mecanismo das representações sociais, de acordo com pesquisador romeno, é a
objetivação. Objetivar é reproduzir um conceito em uma imagem, encontrar representações não
verbais para as ideias. Com o tempo, as diferenças entre a imagem e o conceito são esquecidas,
de modo que o conceito perde o caráter abstrato e torna-se como físico, possuindo a autoridade
de um fenômeno natural para os sujeitos. A imagem é completamente assimilada e substitui a
concepção pela percepção. As imagens se tornam elementos da realidade e não elementos do
pensamento. Da mesma maneira, os nomes criados para dar forma abstrata a substância ou
fenômenos. Para Moscovici, a tendência em objetivar está expressa nos atos de transformar
palavras em coisas, ideias em poderes naturais.
Para transformar o não familiar em algo familiar, as representações usam a memória.
Por meio da memória e do conhecimento, o sujeito ativa a imagem e linguagem fundamental
para compreender o desconhecido. A ancoragem e a objetivação são formas de lidar com a
memória. Pela ancoragem, os objetos são classificados e nomeados, sendo interiorizados. Na
objetivação, a memória busca, no interior, conceito e imagem para identificar as coisas externas
por meio do conhecimento prévio do sujeito (MOSCOVICI, 2007).
Moscovici analisa que os universos que têm um consenso são universos familiares nos
quais as pessoas querem ficar, por não haver divergência. Nesse universo, tudo o que é dito ou
feito admite as certezas e as interpretações adquiridas. Geralmente, a dinâmica das ligações é
uma dinâmica de familiarização em que os objetos, as pessoas e os acontecimentos são
entendidos antecipadamente. O não familiar são os conceitos ou as ações que nos causam
perturbação e nos trazem tensão. Essa tensão entre o familiar e o não familiar é sempre posta
em nossos universos consensuais, em favor do primeiro.
A construção das representações sociais é generalizada e estigmatizada sobre
determinado grupo, assim sendo, é responsabilizada por ações discriminatórias em relação a
um determinado grupo. A existência de uma representação heterogênea sobre as pessoas em
situação de rua diminui esses indivíduos ou mesmo desvaloriza sua humanidade e, assim,
ocasiona várias dificuldades para que esses sujeitos tenham acesso aos direitos mais
fundamentais assegurados à população.
A Teoria das Representações Sociais, ao cruzar com a oposição entre objetividade e
subjetividade, ao admitir a compreensão dos fatos psicológicos em sua extensão social, tem se
configurado em um padrão de grande importância nessa frequente investigação. Ela abre espaço
22

e, ao mesmo tempo, determina o exercício da interdisciplinaridade. Destacando o método


comunicacional, em que as representações são construídas via comunicação, obrigando a
conversa e a troca.
Trata-se, contudo, de um assunto muito complicado que exige investigação
epistemológica e metodológica, mas que já tem admitido ampla produção, beneficiando o
entendimento da realidade social.
(...) uma representação social é uma “preparação para a ação”, não somente porque
guia o comportamento, mas, sobretudo, porque remodela e reconstitui os elementos
do meio no qual o comportamento se manifesta. Atribuindo um sentindo ao
comportamento, consegue integra-lo numa rede de relações (...). Fornecendo, ao
mesmo tempo, as noções, as teorias as observações que tornam essas relações estáveis
e eficazes. (Moscovici 1984)

3.2 TEORIA DO NEWSMAKING

A teoria do Newsmaking surgiu, em 1947, nos estudos de Kurt Lewin e trata da produção
de notícias, com intuito de apresentar os processos que envolvem os acontecimentos até que
eles se tornem notícia, chegando ao conhecimento do indivíduo da sociedade de massa11. Este
estudo busca compreender todo o processo de rotina de produção da notícia e, ainda, os critérios
que levam a notícia a ser veiculada nos meios de comunicação.
De acordo com Mauro Wolf, o conceito de newsmaking está ligado à essência do
jornalista como profissional. Para ele, este o estudo passa, necessariamente, pelas questões de
noticiabilidade, ou seja, critérios de seleção sobre o que vai ser notícia, critérios de relevância
ou newsworth, como ele define. Wolf também explica o newsmaking como um processo de
articulação entre a cultura profissional dos jornalistas, as organizações do trabalho nos meios
de comunicação e o processo de produção da notícia.
“O entrelaçamento entre características da organização dos trabalhos no aparato da
mídia e os elementos da cultura profissional é absolutamente restrito e vinculador e
isso define justamente o conjunto de características que os eventos devem possuir (ou
apresentar aos olhos do jornalista) para poder ser transformado em notícia.” (WOLF,
p. 95, 2003).
O newsmaking é a teoria que abrange os emissores e os processos produtivos das
comunicações de massa, definindo cinco critérios fundamentais para se compreender o
processo jornalístico: noticiabilidade, valores-notícia, rotinas produtivas, seleção e
apresentação da notícia.

11
A sociedade de massa diz respeito a uma sociedade de comunicação de massa, ou seja, comunicação por suportes
materiais que chegam a diferentes indivíduos ao mesmo tempo.
23

A noticiabilidade é formada pelo conjunto de requisitos que se exigem dos


acontecimentos – tanto do ponto de vista da estrutura do trabalho nos jornais, quanto do
profissionalismo dos jornalistas – para que eles possam adquirir a existência pública de notícia.
Todo fato que não condiz com essas condições é excluído, por não ser apropriado às rotinas
produtivas e às normas da cultura profissional. Porém, a noticiabilidade condiz com o conjunto
de critérios, operações e instrumentos que os jornais empregam para selecionar, diariamente,
em meio a um número indefinido de acontecimentos, a quantidade finita com tendência
estabilidade das notícias.
A noticiabilidade está estreitamente associada aos métodos de rotinização e de
padronização das práticas produtivas. Este processo – a produção de notícias planejada como
uma rotina industrial – equipara-se a introduzir práticas produtivas constantes em uma “matéria-
prima” extremamente variável e impossível de ser controlada com total precisão: os fatos que
acontecem diariamente. Isso significa que a definição de noticiabilidade está ligada à noção de
perspectiva da notícia, ou seja, a resposta que o jornal dá a questão que controla a atividade dos
jornalistas: quais fatos cotidianos são importantes para serem construídos como notícia. Notícia,
deste modo, é o produto de um processo organizado que implica em um aspecto prático dos
acontecimentos, com a intenção de reuni-los e prover avaliações diretas sobre suas relações,
visando entreter os leitores.
O sentido e a escolha do acontecimento que serão noticiados são orientados de forma
prática e objetiva, desta forma, o produto informativo deve ser possível em função de tempos,
espaços e recursos limitados. Essa possibilidade, contudo, colabora para retirar um
acontecimento do seu contexto de origem de maneira que possa ser recontextualizado dentro
das dimensões do noticiário.
Na visão de Mauro Wolf (2003)
“O objectivo declarado de qualquer órgão de informação é fornecer relatos dos
acontecimentos significativos e interessantes. Apesar de ser, evidentemente, um
propósito claro, este objectivo é, como muitos outros fenómenos aparentemente
simples, inextricavelmente complexo. O mundo da vida quotidiana - a fonte das
notícias - é constituído por uma superabundância de acontecimentos [...]. São esses
acontecimentos que o órgão de informação deve seleccionar A selecção implica, pelo
menos, o reconhecimento de que um acontecimento é um acontecimento e não uma
casual sucessão de coisas cuja forma e cujo tipo se subtraem ao registo.” (WOLF,
p.188,2003).

A noticiabilidade, por sua vez, é composta por um conjunto homogêneo e bem definido
de valor-notícia. As seleções de notícias que serão veiculadas são consideradas relevantes ou
não relevantes por meio de valores-notícia ou de critérios de escolha, tais como a posição
24

hierárquica de indivíduos, instituições em causa, quantidade de envolvidos, valor social do fato


e possibilidade de evolução futura da notícia. Deste modo, este valor é demarcado pela sua
relevância diante da sociedade, pela cultura profissional, pela relação entre as fontes e os
jornalistas e pelos interesses da empresa de comunicação. Tudo isso influencia o exercício
habitual da produção de notícias relativas ao tema.
A noticiabilidade é um dos métodos presentes na teoria do newsmaking. Para Mauro
Wolf, “a noticiabilidade é constituída por um conjunto de elementos por meio dos quais o órgão
informativo controla e gera a quantidade e o tipo de acontecimentos, dentre os quais há que
selecionar a notícia” (WOLF, 1995, p. 175).
Tal método é fundamental para a formação da notícia que tem como fundamental formar
critérios para selecionar os fatos relevantes e capazes de se tornarem notícia. Essa característica
dá início ao conceito de valores-notícia, estes refletem na escolha e na hierarquização dos
acontecimentos capazes de se tornarem relatos publicados.
Os valores-notícia são definidos como critérios utilizados para caracterizar os
acontecimentos que são significativos e interessantes. De outro modo, essa seleção é composta
pelas restrições ligadas à organização do trabalho, que acabam por ajudar na definição do que
é ou não notícia.
Os valores-notícia não indicam somente o que deve virar matéria para a edição do dia
seguinte, mas, ainda, qual será o aspecto a ser realçado ou ocultado na construção jornalística
para o público leitor. O grau de noticiabilidade está vinculado a um grande número de
transações orientadas, para situar o que deve ser publicado e a forma como essa informação
chegará ao público.
De acordo com Wolf:
O rigor dos valores-notícia não é, pois, o de uma classificação abstracta,
teoreticamente coerente e organizada; é, antes, a lógica de uma tipificação que tem
por objectivo atingir fins práticos de uma forma programada e que se destina, acima
de tudo, a tornar possível a repetitividade de certos procedimentos. Por isso, os
valores-notícia devem permitir que a selecção do material seja executada com rapidez,
de um modo quase ‘automático’, e que essa selecção se caracterize por um certo grau
de flexibilidade e de comparação, seja defensável post mortem e, sobretudo, que não
seja susceptível de demasiados impedimentos (WOLF, 2001: 197-198).

Os valores-notícia, de acordo com Golding e Elliott (in Wolf, 1995: 175-176), “são
critérios de seleção dos elementos dignos de serem incluídos no produto final (...)” e funcionam
como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser realizado, o que de
ser omitido, o que deve ser prioritário na preparação das notícias que serão apresentadas ao
público. Suas principais categorias constitutivas são: a) características substantivas da notícia
25

relacionadas ao conteúdo; b) disponibilidade do material e os critérios relativos ao produto


informativo; c) público; d) concorrência.
A primeira categoria de considerações diz respeito ao acontecimento a transformar
em notícia; a segunda, diz respeito ao conjunto dos processos de produção e
realização; a terceira, diz respeito; imagem que os jornalistas têm acerca dos
destinatários e a última diz respeito às relações entre os mass media existentes no
mercado informativo. (Wolf, 1995: 179-180).

Nelson Traquina (2008) também se atentou por esta matéria e citou alguns valores-
notícia. Com base em Wolf, é importante a distinção entre os valores-notícia de seleção e os
valores-notícia de construção. O primeiro grupo de valores-notícia de seleção são constituídos
pelos critérios subjetivos e contextuais.
De acordo com Taquina (2008), os critérios subjetivos são dez, tais como: morte,
notoriedade, proximidade geográfica e cultural, relevância, novidade, tempo, notabilidade,
inesperados, conflito/controvérsias e a infração. Esses atuam na avaliação direta do
acontecimento, verificado a partir de sua importância e interesse.
Já os valores-notícia de construção têm como foco a edição das notícias, que, segundo
Traquina, define algumas orientações, o que deve ser destacado, omitido e se antepor nas
construções das notícias. Traquina elenca os valores-notícia de construção como: a
simplificação, a amplificação, a relevância, a personalização e a dramatização.
A temática dos valores-notícia é um ponto controverso no meio jornalístico, existe uma
extensa discussão em torno da teoria do newsmaking. Sobre o conteúdo que será veiculado na
mídia, existem inúmeras variáveis a respeito dos acontecimentos. Além desses aspectos de cada
fato, existe a abastamento dos acontecimentos. E já se sabe que não há como transformar tudo
isso em relato noticioso. Assim, é preciso selecionar o que deve ser veiculado ou não. Nesse
caminho, é necessário buscar saber como critérios de noticiabilidade são apropriados para
intervir no processo noticioso, sabendo que o resultado abrange, ao mesmo tempo, uma série
de teorias e bases, desde características dos fatos, política organizacional, interesses políticos e
econômicos, julgamento pessoal e até mesmo condições favoráveis e limitadoras.
Mauro Wolf defende a ideia de que os valores-notícia resultam de considerações
relativas “às características substantivas das notícias; ao seu conteúdo; à disponibilidade do
material aos critérios relativos ao produto informativo; ao público; à concorrência”. (WOLF,
1995, p. 179). Com base nessas três definições, percebe-se que o objeto “notícia” passa por um
planejamento em várias etapas. A primeira delas, Wolf destaca como o próprio conteúdo, a
transformação do acontecimento em notícia e o fato de esse caso ser adequado para se tornar
um relato noticioso.
26

A segunda etapa cita posição da notícia e está ligada aos métodos de produção, como a
rotina de trabalho. De outra forma, o jornalista precisa pensar e escrever a notícia, narrando os
fatos pensando no seu público, isto é, no leitor. Com isso, ele precisa elaborar a notícia de
acordo com seu destinatário. Na última definição, vem a concorrência, que tem grande
relevância na teoria, visto que a notícia é um produto, por isso, possui mercado concorrente.
Além disso, a concorrência gera uma homogeneização dos produtos, visto que comumente os
órgãos de comunicação de referência são seguidos pelos demais veículos.
Para que um fato se torne notícia, ele passa por várias avaliações. Nas teorias do
jornalismo, a primeira que se estabeleceu foi o conceito de gatekeeper12. Essa teoria surgiu nos
anos 50, nos Estados Unidos, e tem como ponto de partida analisar os critérios e outros
elementos envolvidos na produção noticiosa, perante três aspectos: 1) a partir dos discursos
utilizados pelos jornalistas, 2) a partir da sociologia das profissões, que tem como base a
subordinação a uma cultura de trabalho, 3) a partir dos valores-notícia. Acredita-se, ainda, que
o processo de produção da informação é um processo de escolhas, em que o fluxo de notícias
tem que passar por diversos gates (portões) até a sua publicação.
A abordagem do estudo apresenta os termos originários do inglês: gate, que significa
portão, e keeper, que significa porteiro, assim, Wolf traduz como selecionador das notícias
apresentadas ao público. A utilização dos gates nas redações se transforma em instrumento de
controle social da informação:
O gatekeeping no mass media inclui todas as formas de controle da informação, que
podem estabelecer-se nas decisões acerca da codificação das mensagens, da seleção,
da formação da mensagem ou das componentes (DONOHUE – TICHENOR –
OLIEN, 1972, apud WOLF, 1995, p.163, grifo do autor).

Os estudos sobre os gatekeepers analisam a conduta dos jornalistas no processo de


seleção dos fatos que terão características para se tornarem relevantes a ponto de serem
noticiáveis. Essa teoria é usada a partir de um filtro que origina a decisão de publicar ou não a
notícia na mídia. A teoria do gatekeeper explora a produção sob o ângulo de quem a produz,
ou seja, do jornalista.
Considerando os processos e as rotinas produtivas, por mais que o jornalista incline-se
a participar da construção da realidade, é necessário lembrar que o profissional não possui o

12
Os estudos sobre os gatekeepers, que tem como tradução “guardiões do portão”, analisam o comportamento dos
profissionais da comunicação, de forma a investigar que critérios são utilizados para se divulgar ou não uma notícia. Isso
porque estes profissionais atuariam como guardiões que permitem ou não que a informação "passe pelo portão", ou melhor,
seja veiculada na mídia. A decisão de publicar algo ou não publicar depende principalmente dos acertos e pareceres entre os
profissionais, que estão subordinados a uma cultura de trabalho ou a uma política empresarial, além dos critérios
de noticiabilidade, que não raro excluem o contato com o público.
27

controle sobre isso, já que sempre dependente a um planejamento produtivo. A teoria do


newsmaking, em resumo, trata-se das práticas associadas seguidas pelos órgãos de informações,
tais como: a organização na seleção das notícias, a utilização dos valores-notícia no momento
da seleção, a divisão de tarefas, a carga horária e o espaço.
28

4 POPULAÇÃO DE RUA

Há várias nomeações ou nomenclaturas sobre as representações sociais direcionadas às


pessoas que vivem nas ruas que envolvem termos como: “vagabundos, mendigos, sujos”, entre
outros. Em 2008, no Brasil, em uma pesquisa realizada pelo Ministério do Desenvolvimento
Social sobre a população em situação de rua, foi constatado que 71% dos moradores de rua
trabalham e apenas 16% dependem da mendicância para sobreviver. O alcoolismo e as drogas
são as razões que levam a maioria dessas pessoas a morar na rua: 35,5%. A seguir, vem o
desemprego com 30% e conflitos familiares com 29%.
De acordo, ainda, com o Ministério de Desenvolvimento Social, a população em
situação de rua é definida como grupo populacional heterogêneo que possui em comum a
pobreza extrema, os vínculos familiares fragilizados ou rompidos e a inexistência de moradia
convencional regular. Por essas dificuldades, eles são forçados a utilizarem a rua como espaço
de moradia e sustento de forma temporária ou permanente.
A população em situação de rua, ainda segundo as definições do Ministério do
Desenvolvimento Social, é subdividida em três grupos, em que ocorre a distinção conforme a
permanência na rua.
 As pessoas que ficam na rua: grupo caracterizado por indivíduos que, por alguma
circunstância, como busca por emprego e fatores econômicos não suficientes para o
abrigo em locais adequados, utilizam determinados espaços que possam proporcionar
maior segurança como, por exemplo, albergues e rodoviárias para passarem a noite.
 Pessoas que estão na rua: esse grupo não interpreta a rua como um lugar para se temer,
se relacionando com outros moradores de rua. Também realizam algumas atividades
para obtenção de renda como vigiar carros, recolher materiais recicláveis, entre outras.
 Pessoas que são da rua: já utilizam esses lugares como moradia há um bom tempo e, de
certo modo, se acomodaram com tal situação que, em consequência do uso de drogas e
da má alimentação, degrada sua saúde. O álcool e as drogas são substâncias presentes
nesses grupos, pois servem como alternativa para minimizar a fome e o frio.
Existem poucas pesquisas que retratam as características desse público com abrangência
nacional. Trata-se de uma população sem visibilidade para os órgãos oficiais de contagem
populacional. O próprio Censo (última versão em 2000), realizado pelo IBGE, bem como as
pesquisas por amostragem domiciliar do mesmo Instituto não computam essa população, em
função da sua falta de referência de moradia. Os dados existentes são obtidos em pesquisas
29

realizadas por municípios, ou por universidades, cujos propósitos são refletir, sob um aspecto
ou outro, as realidades locais, como já citado.
Para contabilizar os moradores de rua do Distrito Federal, foi realizada pela
Universidade de Brasília (UnB) a Pesquisa sobre a população em situação de rua no Distrito
Federal13, iniciada em abril de 2010, os dados preliminares que mostram que há cerca 2,5 mil
moradores de rua no Distrito Federal. A maior dificuldade de realizar a pesquisa é que
moradores de rua são nômades. O censo brasileiro adota o conceito de população residente ou
“de direito”. Ou seja, ela é enumerada no seu local de residência habitual.
Escorel (2000, p.153) inicia a conceituação do que seja a população de rua – se são
“população de rua”, se são pessoas “sem teto”, se inclui ou não os trabalhadores de rua
(catadores de material reciclável) que dormem na rua durante a semana e em casa nos finais de
semana, se inclui os modos precários de habitação (o que incluiria os moradores de favelas)
entre outros.
Os viventes de rua são muitas vezes chamados de moradores de rua, porém, de acordo
com Tiburi, (2011, p.27) “ninguém mora na rua”, antes, quem está na rua não mora”, percebe-
se que o conceito de moradores é o oposto do que caracterizam as pessoas que vivem nas ruas,
estas que não possuem residência e, por isso, não moram, apenas vivem nas ruas, dessa forma
optou-se por chamá-los por viventes de rua. Ainda segundo Tiburi,

Moradores de rua são a figura mais perfeita do abandono que está no imo da devoração
capitalista. Convive-se com eles nos bairros elegantes das cidades grandes como se
fossem um estorvo ou, para quem pensa de um modo mais humanitário, como um
problema social a ser resolvido filantropicamente. Alguns moram em lugares
específicos, têm sua “própria” esquina, carregam objetos de uso aonde quer que vão,
outros perambulam a esmo desaparecendo da vista de quem tem onde morar. São
meras fantasmagorias aos olhos de quem não é capaz de supor sua alteridade.
Esmagados pela contradição de morar onde não mora ninguém, não têm o direito de
ser alguém. Partilham o deslugar. (Marcia Tiburi, Revista Cult, Ed. 55)

Essas pessoas que vivem nas ruas estão fora dos direitos básicos constitucionais e,
portanto, estão excluídos da sociedade. Os indivíduos desprovidos de família, emprego,
residência e bens materiais passam a ser vistos como “não cidadãos”. Aqueles que não estão
familiarizados com essa expressão utilizam-se destas: mendigos, indigentes, desocupados,
vagabundos e uma série de outros estereótipos, em que a cidadania assume papel coadjuvante.
Quando se questiona o que leva um indivíduo a morar na rua, notam-se contradições,
uma cultura de negação de padrões, vitimizações sociais, processos de revolta. De forma oposta,

13
http://www.unbciencia.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=271:pesquisa-mostra-que-df-possui-25-mil-moradores-derua&catid=23:sociologia
30

surge o termo “inclusão”, que se resume em ativar a pessoa a uma reinclusão ideológica para o
reingresso em uma sociedade de consumo.
A imagem do morador de rua está ligada a alguém simplesmente impossibilitado de
manter ao convívio social, que sempre se apresentou baseado em valores morais. A fala sobre
esta parte social demonstrou ser eficaz e persuasiva para defender julgamentos e práticas
discriminatórias.
Na atualidade, o termo mendigo tecnicamente evoluiu para “moradores de rua ou
pessoas em situação de rua”. Moralmente, os valores sociais concebidos a essa população
continuam com antigos conceitos associados à vadiagem, vagabundagem, marginalidade,
periculosidade.
A sociedade marginaliza a população de rua porque, entre outras características, ela não
corresponde ao sucesso ou ao êxito individual, atributo pelo qual a sociedade atual se norteia.
Vale ressaltar que a expectativa de oportunidades ao alcance de todos desencadeia em uma
rejeição do desamparo também como condição humana. Neste cenário, são produzidas
representações que se reconhecem e reconhecem o outro a partir prioritariamente da localização
social e econômica.
Sarah Escorel (ESCOREL, 2000) aponta também as distinções entre os que consideram
como população de rua todos os que estão usando a rua como moradia em um determinado
momento e os que consideram apenas os que tomam a rua permanentemente como moradia,
considerando os primeiros como “pessoas em situação de rua”. A distinção entre “moradores
de rua” e “pessoas em situação de rua” remete a uma distinção entre o que seria uma espécie de
“núcleo duro” da população de rua e uma população de rua flutuante, como se para alguns essa
condição fosse necessariamente permanente e para outros não necessariamente. No Jornal
Correio Braziliense, objeto de estudo deste trabalho, usam-se os termos “moradores de rua” e
“sem teto”, nas matérias sobre essa temática, usando termos contrários à teoria de Escorel,
relacionada e esses indivíduos.
Escorel, do mesmo modo, chama a atenção para os que consideram população de rua
“o conjunto daqueles que vivem permanentemente nas ruas ou que dependem de atividade
constante que implique ao menos um pernoite semanal na rua” (RODRIGUES; SILVA FILHO
apud ESCOREL, 2000, p. 153), o que, segundo a autora, implicaria incluir os “trabalhadores
do sexo” na população de rua, mesmo que estes não tenham a rua como moradia, nem realizem
nela todo o seu trabalho.
As implicações práticas dessas definições da população de rua refletem nas diferentes
31

reivindicações que fazem os movimentos sociais ligados a essa população. Os moradores de


rua ou a população de rua são, por fim, aquelas pessoas que não apenas tiram da rua o seu
sustento, como também fazem da rua o seu local de moradia, ainda que optem por dormir em
instituições de acolhimento para moradores de rua e migrantes. Assim, pessoas que buscam na
rua seu sustento, mas não fazem dela seu local de moradia – como vendedores ambulantes,
catadores de material reciclável, guardadores de carro, flanelinhas entre outros – não podem ser
consideradas população de rua, mas, sim, trabalhadores de rua. Nesse sentido, o termo
tecnicamente mais adequado seria “população em situação de rua” – visto que mesmo a
condição de moradores de rua é temporária para grande parte desta população. No entanto,
como os termos “moradores de rua” e “população de rua” são os mais frequentemente usados
e são mais sintéticos, e como também há aqueles que fazem da rua moradia permanente (ou
seja, que não estão somente em “situação” de rua), essa foi a nomenclatura escolhida neste
estudo.
32

5 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS MORADORES DE RUA

O estudo sobre pessoas em situação de rua permite uma série de reflexões sobre o
posicionamento dos elementos desse grupo na sociedade atual, e logo, sobre o relacionamento
de tais sujeitos com a população. É claro, portanto, que este trabalho busca também
problematizar a condição de pobreza em que vivem essas pessoas e a discriminação que
recebem por parte do poder público e da maioria dos habitantes da cidade.
Baseando-se nos conceitos de Moscovici, tomam-se as representações sociais existentes
sobre um determinado grupo como base para os posicionamentos no dia a dia. Esta pesquisa
busca assimilar as representações sociais sobre o grupo de pessoas em situação e rua e
apresentar-se como uma maneira de melhor entender a condição marginal que lhes é atribuída.
Considerando que o foco será a visão de um veículo de comunicação, buscou-se
compreender de que forma esses sujeitos são vistos por esses meios. Foram encontrados poucas
pesquisas e estudos que discutam e tragam dados sobre a temática da população de rua no
Distrito Federal. A Pesquisa sobre população em situação de rua do Distrito Federal realizada
pela Universidade de Brasília (UnB), em 2011, tem o caráter qualitativo, permite que se
conheçam algumas características dos sujeitos que vivem nas ruas da cidade. De acordo com a
pesquisa, foram encontrados no Distrito Federal 2.512 pessoas em situação de rua, sendo 319
crianças, 221 adolescentes e 1.972 adultos. Mais da metade dessa população é do sexo
masculino, 74,6%, e apenas 25,4% são do sexo feminino. Destaca-se, ainda, o índice de
escolaridade: 69% da população tem o ensino fundamental incompleto e 9,8% nunca foi à
escola.
Entre os motivos mais comuns para o indivíduo viver na rua, destacam-se o uso de
drogas ou a embriaguez e os transtornos ou as doenças mentais. É possível perceber esses
fatores nas matérias publicadas no Correio Braziliense, das onze pesquisadas, seis citam as
drogas e uma delas cita a doença mental.
As representações são produzidas também com intenção de reduzir as dificuldades de
comunicação, as ideias ambíguas, a incompreensão das imagens, o que dificulta a vida em
comum. Por serem desenvolvidas por meio de certa concordância em determinado grupo social,
as representações possibilitam uma melhor comunicação entre os elementos. Para um consenso,
Moscovici (2007) assegura que elas não podem ser elaboradas por uma deliberação, elas se
constroem por influência mútuas, por meio da negociação nas conversas, modelos simbólicos
33

e valores passam a ser compartilhados, gerando uma série comum de interpretações e


explicações para as experiências da vida social.
As interpretações criadas pelos indivíduos, segundo a teoria das representações sociais,
não são conscientes, de acordo com Moscovici (2007): “não conseguimos ver o que está diante
dos nossos olhos. É como se nosso olhar, nossas percepções estivessem eclipsadas”, e com isso
são criadas determinadas categorias para as pessoas, seja devido a sua idade, raça ou classe
social. Para o autor, quando se criam essas categorias, o novo se torna invisível, quando, na
verdade sua visão está explícita, a olhos nus. Essa invisibilidade não se produz por alta de
informação, mas por a uma fragmentação preestabelecida da realidade, uma classificação das
pessoas e coisas que a compreendem, que faz algumas delas visíveis e outras invisíveis, de
acordo com representação já estabelecida por cada indivíduo.
A invisibilidade dos moradores de rua não está presente só na sociedade, mas também
nos meios de comunicação. É possível perceber esse fato, ao se observar que, das onze matérias
veiculadas no Correio Braziliense, cinco delas são notas, de tamanho pequeno, que estão no
canto da página, sem muita visibilidade. Nas publicações, quase não se veem depoimentos dos
moradores de rua, em apenas duas matérias, que são positivas, há a voz desses indivíduos. Em
três delas, não aparece nem mesmo o nome das pessoas envolvidas, há apenas o uso das
expressões: “o morador de rua”, “sem teto” e “o homem”, sem descrição, nome ou
características. Outro favor que denota essa invisibilidade é que, em três meses de pesquisa, o
tema morador de rua não apareceu nas capas no jornal ou teve chamadas de capa para matérias
do interior da publicação.
As representações sociais possuem duas funções, como já citadas no referencial
teórico deste estudo. Convencionalizar objetos, pessoas ou acontecimentos é a primeira delas.
As representações dão forma definitiva a esses objetos da convencionados, que são postos em
uma categoria e gradualmente viram um modelo de determinado tipo, caracterizado e partilhado
por um grupo de pessoas. Esse significado em relação a outros depende ainda de um número
de convenções preliminares, por meio das quais podemos ver qual significado está sendo usado
em determina situação. Todos os novos elementos se juntam a esse modelo e sintetizam nele.
Assim, passamos a convencionalizar todo e qualquer grupo de moradores de rua, as
representações já são pré-estabelecidas por pertencerem àquele grupo. Moscovici (2007)
ressalta que mesmo quando uma coisa ou objeto não se adéquam exatamente ao modelo, são
forçados a “assumir determinada forma, entrar em determinada categoria, na realidade, a se
tornar idêntico aos outros sob pena de não ser compreendido, nem decodificado”.
34

Tiroteio escancara o medo na Asa Norte, título da matéria publicada no Correio


Braziliense, traz o trecho “população refém de moradores de rua, usuários de crack e criminoso,
a combinação perigosa é queixa comum na Asa Norte”. É possível verificar, no trecho trazido,
a categorização, em que se nivelam as pessoas que moram nas ruas, e todas são colocadas na
mesma categoria de criminosos e usuário de drogas, ou seja, todos se tornam idênticos na
representação mostrada pelo jornal.
Na segunda função, as representações são prescritas, elas se impõem sobre os
indivíduos como uma força irresistível. De acordo com Moscovici (2007), “essa força é uma
combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo que nos comecemos a pensar e de
tradição que decreta o que deve ser pensado”. Enquanto as representações, que são partilhadas
por tantos, penetram e influenciam a mente de cada um, “elas são re-pensadas, re-criadas e re-
apresentadas” (Moscovici 2007).
A prescrição da população de rua está relacionada a uso de drogas, esses hábitos já
estão ligados a essas pessoas porque é uma cultura que já está impressa na sociedade e porque
é assim que é noticiado, sempre há a relação entre os moradores de rua e o uso de drogas. Nas
publicações analisadas, cinco delas citam a passagem comum como “segundo testemunhas, o
morador era usuário de drogas”, tais como: Morador de rua é queimado na Hélio Prates, Jovem
tem 18% do corpo queimado, Feriado registra cinco homicídios, Sem teto baleado, Tiroteio
escancara o medo na Asa Norte. Na notícia De morador a mestre talentoso, o jornal cita que o
ex-morador de rua Adeílson de Carvalho está em tratamento de drogas e, ainda, em uma nota
do dia 17 de janeiro de 2014, conta o caso do morador de rua também usuário de drogas morto
a facadas. Com tantos indícios e casos relatados nos jornais, essa representação já está prescrita
na sociedade e decretada, como cita Moscovici, para esses indivíduos:
As experiências e ideias passadas não são experiências ou ideias mortas, mas
continuam a ser ativas a mudar e infiltrar nossas experiências ideias atuais. Sob muitos
aspectos, o passado é mais real que o presente. O poder e a claridade peculiares das
representações, ou seja, as representações derivam do sucesso com que elas controlam
a realidade de hoje através da de ontem e da continuidade que isso pressupõe.
(MOSCOVICI 2017 P.38)

Segundo Moscovici (2007), o que é percebido pela sociedade é advindo das


percepções, ideias, atribuições e respostas que são estimuladas no ambiente físico em que vive
a sociedade. O que distingue as pessoas é a necessidade de se avaliar corretamente e
compreender a realidade a que são expostas. O que era tido como vieses cognitivos, distorções
35

subjetivas e convergências afetivas são, no entanto, concretas tendências em relação a modelos


e regras tidas como normas na sociedade.
As reações aos acontecimentos, as respostas aos estímulos estão diretamente
relacionadas a definições comuns a todos os membros de uma comunidade. Quando se leem
notícias como: Sem teto baleado, publicada no jornal Correio Braziliense no dia 14 de janeiro
de 2014, é comum que se produza a eles a representação de pessoas que não têm casa, ou local
para habitação, devido ao termo usado, sem teto. Porém se forem observados sob outros
aspectos, o que foi publicado pode não estar de acordo com a realidade, essa pessoa pode estar
vivendo na rua por diversos outros motivos que não a falta de um lar.
Moscovici (2007) cita que a sociedade que não tem benefício dos instrumentos
científicos, tende a considerar e analisar o mundo de uma maneira semelhante; especialmente
em uma sociedade que é totalmente social. Isso significa não há informações que não tenham
sido distorcidas por representações “superimporstas”. Quando contemplados, esses indivíduos
e objetos “têm predisposição genética herdada, as imagens e hábitos que nós já aprendemos, as
suas recordações que nós preservamos e nossas categorias culturais, tudo isso se juntou para
fazer tais como vemos” (Moscovici 2007). Assim, em uma última análise, as representações
são apenas elementos de uma cadeia de reações de percepções, opiniões noções e mesmo vidas
organizadas em uma determinada sequência.

5.1 OS PROCESSOS DE ANCORAGEM E OBJETIVAÇÃO

As concepções das representações sociais estão voltadas para tornar familiar o não
familiar. Para compreender o não familiar, existem dois métodos que geram a representação
social: o processo de ancoragem e a objetivação. Ancoragem é o processo pelo qual buscamos
classificar, adaptar o não familiar, colocamos uma pessoa, uma ideia ou um objeto dentro de
alguma categoria que, de acordo com a história, comporta esse aspecto valorativo. Já a
objetivação é o método pelo qual buscamos tornar visível ou palpável uma realidade. Alia-se
um conceito a uma imagem. A imagem deixa de ser um signo e passa a ser uma cópia da
realidade.
O primeiro processo da ancoragem se dá quando algo novo e pouco familiar se torna
proporcional a uma resistência para ser adequado, em que a assimilação torna-se problemática.
36

Para associar esse conhecimento, empregam-se esferas já existentes no repertório do indivíduo,


consentindo, assim, que o novo se “ancore” a essa referência e, com isso, seja classificado,
denominado e manejável, até mesmo assumindo os aspectos dessa categoria previamente
conhecida. Ao definir um nome ou uma classe para algo, há constantemente um processo de
reconhecimento e hierarquização, em que as importâncias de certo grupo são relevados.
Ancorar é, então, classificar coisas que não foram classificadas, “coisas que não têm
nomes são estranhas, não existem e ao mesmo tempo são ameaçadoras” (MOSCOVICI, 2007).
É comum a sociedade manter uma resistência e um distanciamento, quando não é capaz de
avaliar ou de descrever algo ou alguém.
Os moradores de rua, quando divulgados na mídia ou até mesmo ao serem vistos nas
calçadas da cidade, são julgados por padrão convencionais associados à vagabundagem,
marginalidade, periculosidade. Para Moscovici:
No momento em que determinado objeto ou ideia é comparado ao paradigma de uma
categoria, adquire essas características dessa categoria e é re-ajustada para que se
enquadre nela. Se a classificação, assim obtida, é geralmente aceita, então qualquer
opinião que se relacione com a categoria ira se relacionar também como o objeto ou
com a ideia. (MOSOCVICI 2007 pag.61)
Como exemplo, as pessoas que vivem na rua são associadas à marginalidade, essa
representação lhes foi transferida, e essas pessoas são sinônimos de transtornos e incômodos
para a população. Ainda que parte da população esteja consciente de algumas discrepâncias da
relatividade das avaliações em relação às pessoas que vivem nas ruas, esses conceitos estão
fixados nessa transferência, mesmo que seja apenas para poder garantir um mínimo de
coerência entre o desconhecido e conhecido.
A segunda etapa da ancoragem é a classificação, em que os objetos, sujeitos ou as ideias
são subsentidos a normas e aprovação. Comumente, as categorizações são realizadas por meio
de generalização ou da particularização, empregando uma característica qualquer como código
de todo o grupo – em relação aos moradores de rua, pode-se pensar na representação de todos
como sujos, criminosos ou drogados. Em relação à generalização, observa-se, nas matérias do
Correio Braziliense, que, em cinco edições, fala-se que o indivíduo que vive na rua era usuário
de drogas. Como já citado anteriormente.
A ancoragem e objetivação são formas especificas de mediação social das
representações sociais, por meio dela, transformamos o conteúdo simbólico produzido por um
grupo em algo concreto, tais processos mentem, desafiam, reproduzem e também auxiliam da
formação da vida social de uma comunidade.
37

É possível perceber o processo de ancoragem e a objetivação nas matérias dos


moradores de rua no jornal Correio Braziliense, as representações sobre essa população
concentram-se em indicá-los como sendo responsabilidade de um grupo estranho. A culpa é
atribuída ao outro com uma forma de defesa e de distanciamento dos indivíduos e de seu grupo,
que os veem como perigosos. As representações sociais são formadas ao ancorar as pessoas em
situação de rua à ideologia que já circula na sociedade, de que se trata de marginais, vagabundos
ou meliantes. Baseando-se nessas ideias, essas pessoas são ligadas a determinadas práticas
violentas e a grupos sociais à margem da sociedade.
Compreende-se, assim, que as novas representações sociais são construídas quando
surge algo ou algum grupo estranho que, por causa da ansiedade e do conflito, necessita ser
compreendido. Quando os sujeitos veem alguém que não se enquadra nas representações que
já existem, são estimulados a encontrar uma explicação para este fato. Na nota Espelho Meu,
do dia oito de dezembro de 2013, é citado que moradores de rua “se aproveitam” de um espaço
que está abandonado, isso mostra que a representação, que é passada pelos jornais, foi criada
devido a um conflito desconhecido, nesse caso: um morador fora do seu lugar habitual. A
desigualdade das sociedades modernas, em que há também uma desigualdade de poder, gera a
construção de várias representações. Em razão de tal diferença, surgem constantemente zonas
de conflito em que se manifesta o não familiar e, assim, novas representações são construídas
para retomar a estabilidade.
Na ancoragem, que é o processo formativo da representação social, há a “construção de
uma rede de significados” (MOSCOVICI, 2007, p. 289) quando os membros de um grupo
relacionam o que já conhecem ao que lhes é estranho. Significados convencionais são acionados
na busca de compreender e caracterizar o novo, nesse processo vai se transformar em algo mais
palatável e familiar, para ser inserido, com uma nova “aparência” que lhes dê sentido. Na
matéria De morador de rua a jovem talentoso, é possível analisar o conceito de ancoragem e
objetivação. O jovem morador de rua, antes inserido na representação do não familiar, podia
ser caracterizado como marginal, por estar vulneral ao crime e às drogas, já que vive nas ruas.
Após ser conhecido, por aparecer em uma matéria jornalística, pelo seu ato heroico de encontrar
um jovem com problemas mentais desaparecido, foi inserido com uma nova “roupagem” de um
novo significado. Cinco messes após estar em uma clínica de reabilitação, ele foi inserido na
sociedade e é visto como jovem talentoso. A objetivação é perceptível a se ver que o morador
passou da concepção de usuários de crack para a percepção de um talentoso professor de
carpintaria. Na matéria na frase “com sensibilidade incomum para um viciado em crack”, é
38

possível perceber este processo, em que o morador viveu anos na rua sendo concebido como
incapaz de produzir, de contribuir para sociedade e, após ter uma oportunidade conseguiu
demonstrar seu potencial, saindo do conceito de delinquente e adquirindo a imagem de
professor.
A ancoragem é o método que “permite compreender a forma como os elementos
contribuem para exprimir e constituir as relações sociais” (MOSCOVICI, 2007, p. 318), ou
seja, a ancoragem traz significado a acontecimentos, pessoas, grupos e fatos sociais a partir da
rede de significação oferecida pelas representações sociais. Desse modo, transforma o que é
estranho em algo familiar.
Na particularização, o objeto fica distante, para que, assim, fique notório que não se
adequa a um protótipo, buscando definir o que lhe torna diferente dos demais. Morador de rua
é queimado na Hélio Prates, essa matéria traz trechos que explicitam tal afirmação. Na fala dos
comerciantes em relação ao morador de rua que teve seu corpo queimado, é citado que “ele
brincava com as pessoas e dava sempre bom-dia”, o que mostra um afastamento desse indivíduo
dos demais, já que o fato de brincar e cumprimentar são atitudes corriqueiras no cotidiano das
pessoas que não moram nas ruas, mas, quando se trata de uma pessoa não familiar, pode se
tornar algo incomum ou novo. Nestas formas de classificação, realiza-se um juízo que define
as características como negativas ou positivas, o caso citado traz uma característica positiva.
Desse modo, tanto a generalização quanto a particularização são opções inteiramente
intelectuais, refletindo o desejo de caracterizar objetos, sujeitos e ações como naturais ou não.
A classificação do não familiar é assim: processo de definição como algo que condiz ou não
com os princípios formados pela sociedade e está relacionado a um protótipo, a um exemplo
ideal usado para comparação.
A objetivação é o processo pelo qual são "materializadas" as ideias e os conceitos, por
meio de seleção e de descontextualizar o objeto, que tem como finalidade estabelecer um
esquema ou um “núcleo figurativo” em que se organiza um padrão de afinidades, que são
elementos fundamentais para o objeto da representação. O fim desse processo é a naturalização
dos parâmetros relacionais que passam a ser compreendidos claramente. Desse modo, o
elemento inicialmente abstrato transforma-se em concreto, ou seja, passa a fazer parte da
realidade.
Na matéria Aplausos para a cidadania, é possível identificar a objetivação e ancoragem.
A publicação traz a história de um ex-morador de rua que, com ajuda dos funcionários da
Promotoria de Justiça da Defesa a Infância e Juventude (rodapé), conseguiram tirar os
39

documentos e se aposentar pelo INSS, devido a uma deficiência auditiva. Na mesma matéria,
há um boxe como título Alma Pura, em que são citadas as qualidades do jovem morador,
mostrando a percepção das pessoas que o ajudaram, ou seja, essas pessoas que o ajudaram
descontextualizaram a pessoa “morador de rua” trazendo-o para o lugar de cidadão na
sociedade.
Ancoragem e objetivação são, pois, maneiras de lidar com a memória. A primeira
mantém a memória em movimento e a memória é dirigida por dentro, está sempre
colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo
com o tipo e os rotula com um nome. A segunda, sendo mais o menos direcionadas
por fora (para fora), tira daí conceitos e imagens para junta-las e produzi-los no mundo
exterior, para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido. (Moscovici
2007 p.78)

5.2 REPRESENTAÇÃO SOCIAL E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A partir das considerações sobre ancoragem e objetivação, parte-se para ponderação


sobre o papel dos meios de comunicação na classificação de representações sociais sobre as
pessoas que vivem na rua. A exclusão é estabelecida e mantida porque se constrói a relação
feita a partir das representações sociais. Os meios de comunicação sustentam a psicologia
social, difundem vastamente tais representações de desvalidação que afastam moralmente um
coletivo campo de valores aceitáveis. Assim, são explicados o desprezo e o medo que os demais
podem sentir desses indivíduos, logo, autorizadas a violência e as seções que lhes são infligidas.
A questão social, pondera Patrick Champagne (1997), só é visível ao ser tratada pela
mídia, embora os incômodos da sociedade não possam ser reduzidos ao que são construídos
pelos meios de comunicação nem à imagem dos problemas que são veiculados na mídia. O
autor ressalta que, quando a população que vive à margem da sociedade torna-se notícia, a
fabricação do acontecimento frequentemente foge do poder desses veículos, pois os jornalistas
possuem uma capacidade maior de constituição das narrativas. Os excluídos são menos capazes
de controlar sua própria representação, pois são considerados indivíduos sem cultura e
incapazes de se expressar na linguagem exigida pela grande mídia. Ainda, sua vida habitual não
é interessante para os jornalistas dos meios de comunicação de massa. As coberturas
jornalísticas que tematizam os grupos já taxados costumam se concentrar nos aspectos
excepcionais, especialmente nos fatos relacionados à violência. A mídia representa os
problemas sociais enfatizando o extraordinário: ações violentas confrontos com a polícia,
vandalismo.
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A mídia é constituída da realidade e contribui para a criação do que ela descreve. Desse
modo, Champagne (1977) certifica que os dificuldades sociais, principalmente referente a
desgraças e reivindicação. É possível perceber tal afirmação, ao ponderar as matérias do veículo
escolhido para esta análise, o jornal Correio Braziliense. Das matérias analisadas, nove têm a
violência como destaque. Os principais assuntos são: assassinato, estupro, confronto com a
polícia, tentativa de homicídio, invasão e mortes.
Os moradores de rua raramente são ouvidos e, quando o são, tendem a tomar
emprestada a representação dominante, repetindo o discurso já existente que, provavelmente,
apreenderam dos meios de comunicação. A cobertura jornalística pode reforçar o estereótipo
sobre os grupos locais, contribuindo para a classificação dos sujeitos (CHAMPAGNE, 1997).
A classificação marca os indivíduos para muito além dos acontecimentos que estão sendo
noticiados, acompanhando-os em várias situações de suas vidas.
Moscovici (2007) também aponta a característica desse conhecimento conformado: a
constante repetição das representações sociais pelos membros do grupo. Para ele, esse recurso
“não só tem uma função de economia, pois cada ideia já não precisa ser demonstrada de novo,
mas também uma função de organização do julgamento” (MOSCOVICI, 2007, p. 259). Os
indivíduos fazem da repetição uma forma de se lembrarem da posição em que se encontram nas
relações sociais em que estão inseridos. Quando falam, repetidamente, estão “repassando” seu
discurso, reafirmando suas ideias e, ao mesmo tempo, desenvolvendo-as.
41

6 NOTICIABILIDADE E VALOR-NOTÍCIA NAS MATÉRIAS SOBRE POPULAÇÃO DE


RUA NO JORNAL CORREIO BRAZILIENSE
Os valores-notícia são essenciais na produção do conteúdo jornalístico. Como exposto
na teoria sobre esse assunto, eles são estabelecidos por várias causas e vários elementos: os
donos dos veículos, que decidem a política editorial conforme sua visão ideológica e política;
os jornalistas, que trabalham para promover as notícias ao público. Essa análise será baseada
nos conceitos dos valores-notícia definidos por Nelson Traquina (2008) e Mauro Wolf (2003).
Os valores-notícia demonstram somente um dos grupos dos critérios de noticiabilidade
e compõem parte da cultura jornalística. Esses valores são alterados conforme a cultura e o
contexto social.
No caso da população de rua do Distrito Federal, os valores-notícia que apareceram com
frequência nesse período estabelecido foram: conflito e controvérsias, infração, morte e
proximidade geográfica. Com exceção de duas matérias em que aparece o valor de
personalização. Após contínuos agrupamentos dos valores-notícia já citados no referencial
teórico, a pesquisa chegou à formulação da tabela abaixo (TABELA 1). Esta tabela mostra a
quantidade de valores-notícia presentes em todas as matérias analisadas.
No total, são onze amostras publicadas no Correio Braziliense com notícias de
moradores de rua no período escolhido, seja por meio de notícias, reportagens ou notas. Nas
matérias, foram verificados 25 valores-notícia divididos entre alguns valores de seleção.

TABELA 1 – BASEADA EM ONZE MATÉRIAS


Número de vezes em que
apareceram os
Categorias valores-notícia
Relevância 0
Personalização 2
Novidade 0
Tempo 0
Inesperado 0
Infração 9
Morte 3
Dramatização 0
Proximidade Geográfica 7
42

6.1 NOTICIABILIDADE
A teoria do newsmaking se define das práticas, as empresas de mídia precisam se
estabelecer no tempo e no espaço. A noticiabilidade é um dos métodos presentes na teoria do
newsmaking. Nem tudo é notícia, diante disso, selecionar é uma das funções do jornalista. Os
critérios que diferenciam o que é notícia do que não é, mudam de acordo com o jornal, segundo
a sua linha editorial e o tipo de público-alvo. Desse modo, não se pode formar com precisão
indicadores com critérios de noticiabilidade para todos os jornais. De modo geral, podemos
indicar alguns válidos para qualquer publicação.
Para Wolf (2003), a noticiabilidade corresponde ao conjunto de critérios, operações e
instrumentos com os quais os aparatos de informação enfrentam a tarefa de escolher, no dia a
dia, o número sem previsão e definição de acontecimentos de uma qualidade finita e tendências
estáveis de notícia. Para se chegar à concepção da notícia, levam-se em consideração critérios
para a escolha de acontecimentos com relevância e potencial capazes de se tornarem notícia no
jornal. Esse aspecto dá início ao conceito dos valores-notícia, que serão discutidos a seguir.
A seleção das notícias, além dos critérios de noticiabilidade, também é composta pelas
restrições ligadas à organização do trabalho, que criam manuais para ajudar nesta definição do
que é ou não notícias. Assim, formam um conjunto de critérios de noticiabilidade que
determinam o que será ou não publicado. Nesse ponto de vista, Traquina define os critérios de
noticiabilidade
Os critérios de noticiabilidade são o conjunto de valores-notícia que determinam se
um acontecimento, ou assunto, é susceptível de ser notícia, isto é, de ser julgado como
merecedor de ser transformado em matéria noticiável e, por isso, possuindo “valor-
notícia” (newsworthiness; TRAQUINA, 2005, p. 63).

6.2 INFRAÇÃO E MORTE

Dentro dos valores-notícia, existem dois valores que estão ligado o de morte, e o de
infração. O valor de infração, se dá quando há infrações das leis, o mau comportamento
anormalidade, violência ou falha. Para Traquina o jornalismo tem uma função de policiamento
da sociedade, que levaria a uma atenção concentrada sobre assuntos como procedimentos
legais, direitos humanos entre outros.O valor-notícia infração foi o que mais pareceu, com nove
vezes nas matérias analisadas. Apenas duas matérias não tiveram esse valor-notícia.
Entre as notícias analisadas, houve dois casos reincidentes, de moradores de rua
queimados. Na publicação do dia 7 de novembro, Jovem tem 18% do corpo queimado, dois
moradores usavam drogas no Guará e se desentenderam e um ateou fogo no outro. Na matéria,
43

é mencionado que, no ano de 2013, pelo menos oito pessoas foram incendiadas. Pouco mais de
dois meses após esse delito ter acontecido, no dia 21 de janeiro de 2014, outro morador de rua
teve seu corpo queimado em Taguatinga, a causa dessa vez foi dívida de drogas com traficantes.
Além desses casos de tentativa de homicídio, o Correio publicou três notas (sem
assinatura), registrando um caso de homicídio, que ocorreu na cidade de Ceilândia, nessa
matéria havia valor de infração e morte. Outro caso foi de estupro no Paranoá, além de briga de
rua na Asa Norte, que resultou em um morador baleado. Ambos denotam o valor infração.
Na matéria Feriado registra cinco homicídios, também foi possível identificar o valor-
notícia de infração e morte. O caso relata a morte de cinco pessoas, entre elas um morador de
rua morto a facadas na Asa Sul.
A reincidência do valor-notícia infração nas matérias relacionadas aos moradores de rua
denotam que, quando se trata desse assunto, o tema está quase sempre relacionado à violência.
É muito frequente ver nos jornais matérias sobre a população de rua envolvida em roubos,
tentativas de homicídio e homicídios.

6.3 PROXIMIDADE GEOGRÁFICA

A proximidade das notícias é outro ponto exposto por Traquina, quanto mais próximo
for o acontecimento do veículo de comunicação, mais relevância ele terá na mídia. Nesta
análise, a proximidade geográfica foi constatada em sete matérias das onze que foram
observadas. Tais como: Sem teto baleado, Espelho meu, Corpo encontrado no parque, De
morador de rua a mestre talentoso, Aplausos para cidadania, Tiroteio escancara medo na Asa
Norte e feriado registra cinco homicídios.
Na pesquisa, foram considerados todos os acontecimentos que aconteceram na região
central de Brasília, Asas Sul e Norte. Nesta área, constataram-se sete casos, sendo o local com
o maior número de incidências noticiadas. O bairro foi cena de sete matérias. Isso denota
também o valor de proximidade, mais da metade das matérias veiculadas aconteceram próximas
ao veículo escolhido para análise. As outras seis matérias aconteceram nas regiões admirativas,
como Guará, Paranoá, Ceilândia, Taguatinga e Núcleo Bandeirante.
A maior parte das matérias analisadas fazia parte da editoria de cidades, exceto uma
nota que estava na editoria de opinião, que tinha como tema um bicicletário abandonado, que
estava sendo usado como abrigo pelos moradores de rua.
44

6.4 PERSONALIZAÇÃO

Os episódios, quando personalizados, tornam-se mais valorizados, pois há uma


identificação. O leitor se reconhece na notícia, isto é, “valorizar as pessoas envolvidas no
acontecimento: acentuar o fator pessoa”. (TRAQUINA, 2005, p.92). Ainda segundo Traquina,
esse valor é um valor-notícia de construção.
Notamos nessa análise o valor de personalização em duas matérias, a primeira delas;
Aplausos para cidadania, veiculada no dia 29 de novembro de 2013, que traz a história do ex-
morador de rua Cássio dos Santos, 33 anos, que depois de viver 19 anos na Rodoviária do Plano
Piloto, conseguiu, com ajuda de uma servidora da Procuradoria da Defesa da Infância e
Juventude, tirar seus documentos, e se aposentar pelo Instituto Nacional de Seguro Social
(INSS) devido a uma deficiência auditiva. A matéria traz pontos relevantes da vida do ex-
morador de rua, o que, de alguma forma, faz o leitor se identificar com história.
Por meio da história de vida de um personagem, personaliza-se o acontecimento positiva
ou negativamente. Por personalização, é possível compreender a valorização dos envolvidos no
acontecimento, destaca-se o fator pessoas. Com essa ação, atinge-se um grande número de
pessoas que se identificam com a mesma situação enunciada no discurso jornalístico.
A segunda matéria analisada foi publicada no dia 2 de janeiro 2014, De morador de rua
a mestre talentoso. Esta conta a história de um ex-morador de rua, Adeílson Carvalho, que, por
ter feito uma boa ação, ajudando uma família a encontrar o seu filho desaparecido, foi
recompensado com um tratamento para largar o vício do crack. Após cinco messes na clínica
de reabilitação, o jovem se profissionalizou como marceneiro, e tem sonhos com o futuro. Nota-
se que há nesta matéria o valor de personalização, em que se valoriza a superação de uma
pessoa.
É possível observar que esse valor-notícia, em relação aos moradores de rua, é pouco
explorado, exemplo disso são as poucas matérias com esse teor no Correio Braziliense. No total
de onze matérias analisadas, apenas duas trazem valor positivo.
6.5 INESPERADO

O inesperado é considerado por Traquina um valor-notícia fundamental. Um


acontecimento inesperado é um fato que surpreende os jornalistas e vira notícia. Nada melhor
45

para preencher a agenda midiática do que um fato inesperado. Esse valor apareceu uma vez
nesta análise, em uma nota que se refere a um morador de rua que foi encontrado morto no
Parque da Cidade. Nesse caso, atribuiu-se o valor-notícia de proximidade geográfica, infração
e morte e inesperado. A nota do Parque da Cidade foi descrita da seguinte maneira:

Um homem foi encontrado no início da tarde de ontem dentro de um buraco no Parque


da Cidade próximo ao estacionamento 6. A polícia acredita que a vítima era um
morador de rua, conhecido Márcio, que vivia na região. O corpo tinha um grande
ferimento na cabeça e estava em estágio avançado de decomposição. Policiais da 1ª
DP investigam o caso. (CORREIO BRAZILIENSE, 2013)

Nesse acontecimento, houve crime contra a vida, resultando a infração, anormalidade e


a violência. A constatação do inesperado é perceptível a partir do momento em que algo
acontece fora do padrão, que se diferencia, desvia-se da normalidade. A forma como aconteceu
o crime desviou-se da normalidade, o morador de rua foi encontrado morto dentro de um buraco
em estágio de decomposição. Não é comum encontrar uma pessoa morta nesse estado.
46

7 CONCLUSÃO

Após a análise efetuada, cabe citar o objetivo desta monografia para que possam ser
traçadas as considerações finais. A meta era compreender o processo de representação social
dos moradores de rua, em especial, no Jornal Correio Braziliense. O número de matérias
submetidas à análise e a qualidade delas resultou no discernimento de distintos pontos que
constroem as representações sociais sobre a população de rua dentro do Jornal Correio
Braziliense. Há que se ressaltar, porém, que esta análise é constituída de onze matérias no
período de três meses, ou seja, trata-se de um número relativamente baixo para o período. As
representações demarcadas podem ser reforçadas ou desconstruídas no corpo do jornal. É
necessário considerar, ainda, que possivelmente alguns aspectos tenham sido tocados apenas
superficialmente, pois a intenção foi aprofundar somente os tópicos mais aparentes ou de maior
relevância no cotidiano do jornal.
Nessas reflexões finais, destacam-se algumas considerações sobre as representações
identificadas. As matérias veiculadas não abordam assuntos variados, a maioria expõe a
violência vivenciada pelas pessoas em situação de rua. A análise de conteúdo permite
compreender que a vida nas ruas é, na maioria das vezes, enxergada como uma condição social
que produz sofrimento. Alguns problemas apontados dizem respeito à sobrevivência física:
mostrando pontos importantes que relatam sobre assassinatos, estupros, uso de drogas e
tentativas de homicídios.
As abordagens vistas, nos exemplos das publicações do Correio Braziliense, mostram
que, muitas vezes, não há aprofundamento da identidade das pessoas que estão no foco da
notícia. As matérias divulgadas trazem a descrição dos problemas que essas pessoas causam e
a situação em que se encontram, sobretudo, ressaltam que esses moradores estão submetidos ao
uso de drogas, mais um fator da devastação moral, física e social.
Como evidenciado no capítulo cinco, existem representações que ficam mais evidentes:
uma delas constrói a imagem dos moradores de rua como sujeitos violentos, perigosos e
marginalizados. Outra representação elabora a ideia de que a vidas nas ruas, na maioria das
vezes, pressupõe um contato profundo com as drogas. A drogadição é elaborada no discurso do
jornal, como uma constante e como um fator relevante para as violências nas ruas da cidade.
Nas matérias jornalísticas analisadas, as declarações entre aspas contêm informações e
opiniões que podem ampliar o preconceito e o estigma. Por sua vez, os critérios são
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identificados nos textos que portam o discurso sobre moradores de rua, quase sempre de forma
avaliativa negativa.
Nesse sentido, as representações construídas confirmam a identificação da população
como sendo um grupo excluído, dessemelhante e desnecessário. Em alguns momentos, é
notório que não são considerados nem mesmo seres humanos, que dirá cidadãos e portadores
de diretos.
Evidencia-se, porém, que foram encontradas opiniões distintas em duas publicações. A
diversidade leva a uma reflexão sobre a tentativa de não generalizar o grupo dos moradores de
rua como sendo constituídos por sujeitos idênticos. Embora o estereótipo e a generalização
estejam presentes em certos pontos revelados, como em representações que se dividem.
Acentua-se, ainda, que, durante toda a análise, as ideias sobre a população de rua
apresentadas pelo jornal relacionam-se às representações predominantes que estigmatizam os
moradores de rua. Neste estudo, não foi encontrada nenhuma pesquisa aprofundada que pudesse
tornar claras tais imagens existentes sobre esse grupo social – algumas colocações presentes no
texto baseiam em uma análise breve das representações sobre a população de rua.
Por fim, considera-se que os moradores de rua são pouco contemplados pelos meios de
comunicação e dificilmente considerados fontes. As pessoas em situação de rua também têm
poucos casos de estudos na área de Comunicação. Espera-se, com este trabalho, contribuir para
reflexão sobre esse grupo excluído e dessemelhante e sua relação com os meios de comunicação
e com o restante da sociedade. Assim, será possível construir um olhar mais humanizado sobre
esses sujeitos.
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8 REFERÊNCIAS

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edição 70, 1977.

CHAMPAGNE, Patrick. A visão mediática. In: BOURDIEU, Pierr (Org.). A miséria do mundo.
Petrópolis: Vozes, 1997.

DUARTE, Jorge & BARROS, Antônio. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação.2ª ed.
São Paulo: Atlas, 2010

ESCOREL, Sarah. “Vivendo de teimosos: moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro”. In:
BURSZTYN, Marcel (org.). No meio da rua: nômades, excluídos, Florianópolis: Insular,
2ª Ed., 2005. Interpretativa transnacional. Vol. II. Florianópolis: Insular, 2005.

MINISTÉRIO DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME – MDS;


Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO. Pesquisa
Nacional sobre População em Situação de Rua, 2008.

MOSCOVICI, S. (2003). Representações sociais: investigações em psicologia social,


trad. Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis: Vozes.

PROJETO RENOVANDO A CIDADANIA – Pesquisa sobre população em situação de rua no


Distrito Federal- Fundação de Apoio à Pesquisa - Distrito Federal (FAP/DF)( disponível no site
http://www.neppos.unb.br/publicacoes/CP191211_13h12-renovando-a-cidadania.pdf)

TIBURI, Márcia. Ninguém mora onde não mora ninguém. Cult – Revista Brasileira de Cultura,
São Paulo, nº 155, ano 14, p. 27, março de 2011.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo. A tribo jornalística – uma comunidade.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo. Porque as notícias são como são. Viradores. Rio
de Janeiro: Garamond, 2000.

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 2003.


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APÊNDICE

TABELA 2

Data Nome da Termo Violência/ Valor-notícia Editoria Drogas


Matéria usado qual
30/jan. Corpo Morador Sim/ Infração/morte Cidades Não
encontrado de rua assassinato
no Parque
21/jan. Morador de Morador Sim/ Infração/inesper Cidades Sim
rua é de rua tentativa de ado
queimado na homicídio
Hélio Prates
17/jan. Nota de Morador Sim/ Morte/infração Cidades Não
morte de de rua assassinato
morador sem
título
14/jan. Sem teto Sem teto/ Sim/tentativa Infração Cidades Sim
baleado morador de homicídio
de rua
2/jan. De morador Ex Não Personalização Cidades Sim
de rua a morador
mestre de rua
talentoso
26/dez. Feriado Morador Sim/ Infração/morte Cidades Sim
registra cinco de rua assassinato
homicídios
8/dez. Espelho meu Morador não Infração Opinião Não
de rua
7/dez. Preso por Morador Sim Infração Cidades Não
estupro de rua /estupro
5/dez. Tiroteio Morador Sim Infração Cidades Sim
escancara de rua /tentativa de
medo na Asa assassinato
Norte
29/nov. Aplausos Morador não Personalização Cidades Não
para de rua
cidadania
7/nov. Jovem tem Morador Sim Infração Cidades Sim
18% do de rua /tentativa de
corpo assassinato
queimado