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TRATADO BREVE D A

ORAÇAÒ MENTAL,

No quai por perguntas , e resposta» á semelhança de conferencia espiritual se instruem os principiantes no modo práctico de a exeicitar , CO MPOSTO PELO PADRE MANOEL BERNARDES Da Congregaçaó do Orato rio de Lisboa. Com humas Meditâmes do nlesmo Authif soíi c cs tjuatro NoviJJìmos do Homenu

Sexta impressaó.

L I S B O A NA REGÍA OFFTCINA ÏYVOGRAFICA.

M.DCC.LXXV. Com LUeiìfU ia Rrai Meia Censtrio,

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Sexta impressaó. L I S B O A NA REGÍA OFFTCINA ÏYVOGRAFICA. M.DCC.LXXV. Com LUeiìfU ia

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V

INTRODUCÇAÔ,

Que o Author saz delie breve Tratado nosfeus livros das

* Meditaçoh da Fia Purgativa.

COstumaõ os que com- pocm livros de Medi- taçoés inculcar no prin- cípio delies as exceUencias , e proveitos da Oraçaõ Mental, eensinar o modo práctico de a ter, quem nella quizer exerci- tar-se. Seguindo este raciona-

velestilo, procurarei fazer aqui o mesmo com a brevidade , e clareza , que me for pofllvel ,

cm utilidade das pefibas mais

neceílìtadas de que alguem as encaminhe : advertindo-lhes ,

que supposto que os documen-

tos , que aqui se apontaõ, po-

diaõ

authorizar-se com a Escri-

A ii

tu-

: advertindo-lhes , que supposto que os documen- tos , que aqui se apontaõ, po- diaõ

tura , Padres , e exemplos : com tudo naó me pareceo convenien te fazello aflim ; por quanto o intento deste Tratado nao he persuadir , ou convencer a quem estiver opposto ; senaó ensinar- a quem está persuadido : e este tal deseja achar doutrina bre ve , e lhana , que onaó cance, e confunda. Além de que , se a obra se dispuzesse nessa fórma , pedia outro volume. Saó po rém os ditos documentos tira dos ou da liçao dos Authores mais assinalados nesta materia , ou da doutrina , que tenho ou vido nesta Congregaçao , cujo filho sou, ainda que indigno»

nesta materia , ou da doutrina , que tenho ou vido nesta Congregaçao , cujo filho

TRA-

ORAÇAÕ MENTAL. ih il E cousa he Oracaó Men tal ? He huma ele da

ORAÇAÕ MENTAL.

ih

il E cousa he Oracaó Men tal ? He huma ele

da alnva a

Decs , em que falia , e trata com este Senhor familiarmen te. Chama-se Mental para dif- ferença da outra Oraçaó Vo cal , que se faz naó só com o coração , senai) tambem com aboca, pronunciando palavras

vaçaô , ou subida

A iii

' ex

, que se faz naó só com o coração , senai) tambem com aboca, pronunciando palavras

2

Tratado breve

exteriores , e senííveis : e esta ^ de que tratamos , se faz somente com o còraçaõ , espirito , ou mente, segundo aquillo de. Da- 'vid : Meditatio cordis mei in conspeEïu tuo semper ; ( Ps. 1 8. 15'.) e aquillo de S. Paulo:

Orabt> /piritu , orabo & mente.

( i. Cor. 14. 15'.)

P. Que proveitos se tira6

de exercitar eíte modo de O-

raçaõ ?

R. Saõ tantos , e raá im

portantes , que para os decla

rar seriaõ neceísarios muitos li vros. Nós neste lugar , para tocarmos alguma parte de seus louvores, íomente comparare mos a Oraçao á Arvore da vi da , que S.Joaõ vio noParaifo celestial ; e da qual diz , que produzia doze generos de fru tos. Porque verdadeiramente a

que S.Joaõ vio noParaifo celestial ; e da qual diz , que produzia doze generos de

Ora-

da Oraça5 Mental, g Oraçaó Mental he huma arvo- re plantada pela mao de Deos no Paraiso da Igreja para sus- tento da vida elbiritual : sua

Iericia de fer hum eolloquio da aima com. o tnesmo' Deos y c daqui procedem feus copiosis-

fimos , e dulciflìmos frusos , que podemos reduzir aos doze íè-

guintes.

:;

;.

:

.

I

I. A Oraçao Mental refor

ma efficazmente a vida , e ar- ranca de raiz os vicios , que com nenhum outro remedio se podiaõ arrancar : e cada dia dos esta mostrando a experien- cia, que peccadores , mût en- yelhecidos cm feus máos cos

tumes , com pouco tempo , que ufáraõ este exercicio , ie torná- raõ taõ outres , que o mesino Confeffor «s. deiixmheceii E

A iv

, que ufáraõ este exercicio , ie torná- raõ taõ outres , que o mesino Confeffor

tam-

4

. rTHATÁDO BREVE á:I

-tambenv purgi os peccados áà vida paíìada ; porque o pecca* dor os chora novamente cada jdià équando chega ao Sacra- iriento daiConmTaõ , leva del ies exame mais cuidadolbiV' :Gontriça6 mais viva.n. j -i:si II. Alcança grande luz das verdades , e Mysterios denoffa Santa Fé , consorme aquillo do Psalmo : Chegai-vos a Deos , e sereis allutniàdos. Donde vem ,

ou' huma "mu-

<\ue hum rustico,

Iher simples com oraçaõ , en tende ás vezes estes pontos com maior sirmeza » e clareza , que -hum Theologo sem oraçaõ î . verificando-sc ar.senteirça- de

-Christo, fallando com feu Eíetf- no Pai : Escondestes estas cou sas aos íabios , e as revelastes

aos pequenos. - ea-

f.- » <} 1

111. - Fax que< faibamos dis-

a.ì

sas aos íabios , e as revelastes aos pequenos. - ea- f.- » <} 1 111.

-. i A

cer-

da ORAqAÒ Mental. 5

cernir as inspiraçoes da graça Divina, e moçoes do Espirito Santo : cousa , que sendo tao importante para o governo da vida Christã , os mundanos a naó entendem , nem obíervaó ,

e assim andaõ ás eícuras.

IV. Purifica, e endireita a

iptençaó , com que fazemos as obras boas , ( como o leme en direita toda a náo) e por con seguinte assaz mais agradaveis

a Deos , mais rendosas para nós ,

e mais exemplares para o pro ximo. Porque quem obra de pois que ora, naõ segue tanto

os impulsos da natureza , como

dictames da razao , e luz da

os

graça ; e o concerto de suas ac çoes , e honesto fim , que com ellas pertende , lança de si cer to relplandor, que bem fedei-

la conhecer de tora. 1 A v

, e honesto fim , que com ellas pertende , lança de si cer to relplandor,

V.

6

Tratado breto

V. Despéga o coraçao das

cousas transitorias, e o levanta

is eternas ; porque o amor a

qualquer creatura segue o co nhecimento, que delia temos; e como com a luz da Oraçao se descobre a vileza dos bens ca

ducos , e a excellencia dos eter nos , a estes vai buscar o cora- çaó, desprezando aquelles.

VI. Consola , e fortalece

nas tribulaçoes ; e por isso os Santos em todos seus trabalhos

se acolhem a esta cidade de re

fugio, e delia sahem taó animo

sos , que naô só rebatem , mas ainda desafiaó o Mundo , e o Inferno. Santo Ignacio de Lo yola dizia , que se alguma cou

sa

lhe poderia dar pena , seria

o

desfazer-se a Companhia }

mas que com meia hora de Oração1 sicaria socegado.

poderia dar pena , seria o desfazer-se a Companhia } mas que com meia hora de

VII,

\

da OraçaS Mental. 7 VIL Amedrenta grandemen-

te os demonios , e defcobre as ciladas , que nos armaõ ; porque

a

oraçaõ dá azas ao espirito , e

o

poem em lugar alto , donde as

possa descubrir ; e como diz o Espirito Santo : (Prev.i .i7.) De balde se lançaõ as redes á vis- ta dos que tem azas. Dá tam- bem esforço para vencermos suas tentaçoës: Orate ne intretis

in tentationem. Por onde disse S. Joaõ Climaco: Qui baculura

orationis jugiter tenet non of- fendet ;sed fi ojsenâere eum cons tîgerit, nonpenitus cadet. (Sca- l gradu 18.) Quem tem na mao o baculo da Oraçaõ continua- mente , naõ tropeçará ; e se suc ceder que tropece , na& cahi*

rá de todo.

.

:\

VIII. Desterra as tristezas

do coracaõ. Sente-se triste al-

)

A vi

que tropece , na& cahi* rá de todo. . :\ VIII. Desterra as tristezas do coracaõ.

gu»

8

TssATAÔO BREVE

gum de vós outros ? (diz o Apos tolo San t-Iago cap.j. v.13.) Poife ore. E esta alegria , que aqui fe communica , naõ he exterior , e falsa , como a que causaõ as creaturas ; senaõ interior , e ver dadeira : porque em fim he cau- sada do Espirito Santo , consola dor optimo , doce hospede , e doce refrigerio das almas.

IX. Adoça , e facilita o ex

ercício da mortificaçao: o qual por huma parte he necessario pa ra despirmos o amor proprio , cauíà de todas nossas miserias j e por outra he muito amargoso , e contrario á natureza: e querer

dobrar, e amoldar esta sem pri* meird meter o espirito na for ja da Oraçaó , seria b-ater em ferro frio. X. Géra grande paz de consciencia : porque cessando

meter o espirito na for ja da Oraçaó , seria b-ater em ferro frio. X. Géra

da ORAqAS Mental. 9

os peccados , cessao os remor> ibs , e o Elpirito Santo lá den tro da alma dá testemunho , que mora nella. Daqui nasce , que

a morte das peíToas habituadas

a este santo exercício he mais desassombrada ; por quanto a

má consciencia heaque nos faz mais horrorosa a passagem pa*

ra a eternidade.

- 0:3»

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XI. Alcança de Deos Nos

so Senhor grandes favores , e mercês: porque da Oraçao nas ce o conhecimento de que ne cessitamos delias , o desejo de as procurarmos , a confiança, resignaçaõ , e perseverança pa ra as pedirmos , e a humildade para as conservarmos : e alli se grangea a devoçao com Maria Santíssima , a familiaridade com os Anjos ; tudo disposições

para falarmos com bom despa-> cho:

devoçao com Maria Santíssima , a familiaridade com os Anjos ; tudo disposições para falarmos com

ÍO

TRATADO BREVE

cho : e aífim SJcaó Chrysostomo chamou á Oraçaó , omnipotente. : XII. Une os proximos en> tre fi , porque une cada hum

com Deos : e daqui

vem , que

rias Communidades , e familias , que tem excrcicio quotidiano

de Oraçaó Mental , reina mais a paz do Senhor , e custaó menos desvélo a quem as governa.

§- II.

P.

/^V Ue sentem os Santos KJ Padres deste Exer- cick) ?

R.

Experimentao em si os

íòbreditos frutos , e por iflb se desfazem em feus louvores. San- to Agostinho diz : Quid eíl era- tione pr ciarius ; quid vit wostr utilius ; quid anima dul- cius\ quid in tota nostra religio-

nesublimiusì (Traii.de mijeric»

-

quid vit wostr utilius ; quid anima dul- cius\ quid in tota nostra religio- nesublimiusì (Traii.de

tom.

da OraçaÓ Mental, i i

tom. 10.) Que couíà ha mais eC- clarecida , que a Oraçaõ ? Que cousa mais proveitoia para a nossa vida , nem mais doce para

a nossa alma , nem mais sublime

em toda a Religiaõ Christá ? E em outra parte diz : Cum vide- ris non à te remotam depreca- tionem , securus efto , quia non eít à te remota mijericordia ejus. Hinc PsaímiUa ait : Bene- dittus Deus, qui non amovit erationemmeam, & misertcor- diam suant à me. {In Ps. 6$. v.

1 9.) Èm quanto vires , que de ti

se naõ aparta a tua Oraçaõ , está

seguro , que de ti se naõ apartou

a misericordia de Deos. Por isso

o Psalmista diz : Bemdito seja Deos, que naõ apartou demim

a minha Oraçaõ , e a sua miseri*

cordia. O mesmo Santo Doutor affirma , que aquelles sabem bem

naõ apartou demim a minha Oraçaõ , e a sua miseri* cordia. O mesmo Santo Doutor

vi-

Í2

Tratado brevê

viver , que sabem bem orar : Re-

íìè novit vivere , qui reSìè novit

orare. (Hom. 40.) Tambem se lhe attribue outra breve , e mui notavel sentença : Que , a quem Deos quer fa!var , concède orar :

Quem Deus vult Jalvare , dat orare. S. Berna rdo diz aflìm : ht oratione remcdium vulnerumy ibijubfidia necejfitatum; ibi re- fanitus defesluum , ibi profe- Sïuuni copia , ibi denique quìd- quid accìpere hominibus expe- liìt , quïdquid decet , quidquid oportet, (Serm. 86. in Cant.) Na Oraçaó se acha a medicina de todas as feridas, osoccorro de todas as neceflìdades , eore- paro de todas as faltas , e cópia de todos os proveito? ; e final- mente quanto para os liomens he conveniente, honesto , e. neces- làrio. Em outro lugar diz abso

os proveito? ; e final- mente quanto para os liomens he conveniente, honesto , e. neces-

da ORAqAÒ Mental. 1$

íutamente :' Nihil anìmum mu

nit pot en tius ; nihil bominem

ad

qu vis bona operafacienda, & quafvis tribulationes perferen- îias reddit alacriorem studio contemplationis , ve/orationis.

( Apud Ludov. Granat. lib. 3. deOrat. c.S.) Nenhuma coula fortalece o espirito mais pode- rosamente , nem o torna niais

animoso para emprender gran- des obras do serviço de Deos , e soffrer por feu amor quaesquer tribulaçoés , como o exercicio da Oraçaõ , e contemplaçaõ. S. Lourenço Justiníano , fal- lando etn especial da ntedi'ta- çaõ , diz. assim : Nihil aptiùr Deum pojfidere facit , & men tent refrenat , quant attenta

meditatio , qua in oratione pro-

ponitur . h cJtquidem cor amor .vet ab exterioribus , & ad se

, quant attenta meditatio , qua in oratione pro- ponitur . h cJtquidem cor amor .vet

14

TRATADO BREVE

redire compeìlit : hac eîi di sciplina mentis yspiritualisp ~ dagogus , orationis funiculus , incipientium eruditio , & in tention}s mentis provida guber- natìo. Ex ipfius ajfiduitate Ha- bilitur mens , purgantur cogi- tationes-, folitudoJapity deìeÙat Deus , ingenium acuitur , cajli- ficatursensus, ìllustratur ratio,

ad alta suspenditur. Quandtu mentis oratio veraciter pojjìdc- tur , tanquam oculipupilla cu- Jìodienda eft, & velut quoddam spirituale depofitum fervanda. ( De caïìo connub.cj.%^) Nenhu- -ma cousa he mais accommodada para fazermos noíïb a Deos , e noflb o espirito proprio , do que a meditaçáo attenta , que se exercita na Oraçaõ : porque es ta furta ocoraçaõ áscousas ex-

- , »

, do que a meditaçáo attenta , que se exercita na Oraçaõ : porque es ta

te»

da ORAqAõ Mental,

(eriores , e o obriga a entrar em

, o

si : esta he a escola da alma

aio , ou director espiritual , o fio que puxa pela oraçao, ain-

strucçaó dos que começaó , e o governo discreto da intençao do espirito : com a sua conti

nuaçao- se estabelece a alma, se purificaó os pensamentos , se gosta de Deos , e da solidao , o engenho se aguça , os sentidos se fazem castos , o entendimen

to se illustra , a lingua se refrea ,

eo animo se suspende nas cou

sas altas : ( notem-se as seguintes palavras ) em quanto alguem está de posse de huma verda deira oraçaó , veja bem que

a guarde , e resguarde como as

meninas dos olhos , ou como hum deposito precioso. S. Pedro Damiao diz , que nas balanças da sua estimaçao' mais

as meninas dos olhos , ou como hum deposito precioso. S. Pedro Damiao diz , que

í6

TrATADO BREVE

niais pézaõ dous reis de ora- çaõ, do que hum taiento de ou- ro , e grande quantidade de diamantes: In siimationis me<& lancibus graviùs pensat SanR oratìonìs obolus, quàm auri ta- kntjim , vil copiosa micanttum

wultitudo gemmarum. ( Lib. 6. Ep. 2.) S. Gregorio Nysseno affirma , que de todas as cousas , que se estimaõ, e prézaõ nestá "vida , a nenhuma se deve me- Ihor lugar que á Oraçao: Ni- .hil ex his , qua per banc vham coluntur , in pretiosunt, ora- tioni pr ítat. ( De Orat. Do- tninica.') Santo Ifidoro a compa

ra a huma cadea de ouro lança-

da do Ceò á terra , pela qual se alguem quizeíTe íiibir , parece- ria que trazia a cadêa para fi ,

e na verdade a cadêa o levava

para o Ceo : EH oratio ( quem-

íiibir , parece- ria que trazia a cadêa para fi , e na verdade a cadêa

ad-

da OnAqAò Mental. i7

aimodum pr stantijjìmi ante nos dixerunt ) velut aurea cate- na , è c lo in terrant demijfa , per quam qui. ascendere velit , videtur quidem catenam ad se trabere , re autem verà trabi- tur ipse ab il/a in c lum. ( De JruSlu orandi.)S. Nilolhe cha îna encantamento , conique in-^ visivelmente ficao como atadas , e adormecidas as serpentes in- íèrnaes , para naÔ poderem fa- zer mal : Verefiquidem , & ma xima , & efficax , & terribilis incantatio adversus damones eH vigil y attentaque oratio. Outros Santos lhe chamaõ chave do Ceo , mural ha da Igreja , mai das virtudes, the- louro perenne , conservaçaõ do Mundo. Hum só S. Joaõ Çli- maco lhe dá todos os titulos le- guiutes : Oratio in qualitate.

, conservaçaõ do Mundo. Hum só S. Joaõ Çli- maco lhe dá todos os titulos le-

qui-

ÏS

TRATADO BREVE

quidem sua conjunEìio , atque unitio est , hom/ nis vi'delit et, & Dei : secundhm aEìionem verò conHantia mundì , ornatus col- leSlio , reconciliatio Dei , lacry- marum mater , earumque item filia , peccatorum propitiatio , tentationum pons , tribulatio- num interpofìtus paries , bello- rum confra£ìio,Angelorum opus, incorporearum omnium virtu- tum cibus ,sutura latitia, infi- jiìta operat io , virtutumfons , gratiarum minis'ira , profeSìus invistbilis , nutrimentum ani ma , mentis illuminatio , dejpe- rationis amputatiospeì & fidei demonfiratio , trìfìitiasolutio, monachorum divitia ,Jolitario- rum thesaurus , ira minutio , speculum proseSìus , mensura- rum indicium , status insinua- tio , futurorum revelat io , cle-

, ira minutio , speculum proseSìus , mensura- rum indicium , status insinua- tio , futurorum

men-

da OraçaS Mental. 19

menthe signifieatio. (Scal gr,

Mas sobre tudo as senten- ças de S. Joaó Chryfostomo fa 6 nesta materia ( como em todas ) taó frequentes , e taó pondero- sas , e abíòlutas , que podeen abalar a qualquer peito , por pouco inclinado que feja a este íanto exercicio. Aqui ío apon- taremos algumas por exemplo. Primeira : Cum vidi non amantem orandì ïtudium , vechujus r et servi da , vehemen- tique cura teneri , continuò mi- hipalam eH , eum nihil egregia doits in animopojjidere. Rur/ùs ubi quem conspexero insatiabi- liter adh rentem cultuì Divi- rto , idque in fummis damnis nu- mer antem, fi non cont inenter oraverit: conjeSìo talem omnis uirtutis firmunt ejje mediat 0- rem

in fummis damnis nu- mer antem, fi non cont inenter oraverit: conjeSìo talem omnis uirtutis firmunt

20-

Tratado brevï

rem , tic Dei tempìum. (Ex lih. de Orando Deum.) Quando eu vejo aìguem , ( diz o Santo Dou tor) que naó he amigo do exer- -cicio daOiaçaó, nemtemdiíTo hum fervoroso, e vehemente cui dado , logo para mim he cousa clara, que nao mora ali i virtude alguma de consideraçao. Pelo contrario , se eu vir alguem , que se nao póde despegar do culto Divino , e que reputa por grande perda qualquer interrupçao da Oraçao ; logo assento , que este tal poiTue todas as virtudes , e que he templo vivo de Deos. Se gunda : Hoc omnes homines non minus opus habemus , q-uàm ar bores aquarum humore ; neque enim valent ill fruíius produ- cere , nljl bibant humorem radi- eibus ; neque nos pretjofis pieta- tisfruíUbus poterimus ejjêgra

ill fruíius produ- cere , nljl bibant humorem radi- eibus ; neque nos pretjofis pieta- tisfruíUbus

da Or AqAÕ Mental. îi

iiidi , nìfì precibus irri^emur. Deste cxercicio necesfitao 05 ho mens , naó menos que as arvores necessitaó de agua 5 porque nem estas podem produzir frutos , senaó beberem pelas raizes a humidade \ nem nós poderemos acudir com os preciosos fru tos da piedade , se nos faltar

o rego da Oríçaô, sserceira-:

Ar bitror itaque cunElis ejjè manifestum , quod simpliciter impojsibile sit abjque precatio-

nis pr fidio cum virtute dege-

re , cumque bac bujus vit/e cur-

sum peragere. Falia da Oração

em commuai ; e diz : Julgo por cousa a todos manifesta , que he impolíivel simplesmente sem

a ajuda da Oraçao viver com

virtude .v e acabar bem a car

reira desta . vida. E mais abai xo diz , que lie taó úecessaria :

B

viver com virtude .v e acabar bem a car reira desta . vida. E mais abai

Jdeò

22

- Tratado brevê

-Adeò ut absque hoc nihil no- bis boni pojjìt contingere , ne- qne quod adsalntemconducat\ que sem Oraçaó nadapódesuc- ceiier-nos bem , nem cousa que conduza para a falvaçaó. De tudo o sobredito se co- Ihem tres cousas. Primeira , se tihha razaó meu Padre Saó Filippe Neri em affirmar, que hum nomem sem Oraçaó se naô distinguìa de hum bruto. Se-

ìnuraõ , desprezaõ , ou impu- gnaõ este santo exercicio. Ter- cèira , se devem render a Deos inuitas graças , os que elle por

Tua especial misericordia foi !servido charrrar para a Ora- çaó , exercicio tao nobre , taõ ìiril , e raõ necessario. Porque 'supposto que algumas das au-

para a Ora- çaó , exercicio tao nobre , taõ ìiril , e raõ necessario. Porque

tho-

da OraçaÒ Mental. 23 tboridades sobreditas só fallaó da Oraçaõ em commum , e por santo se podem tambem enten der da Vocal , he certo , qiíe tudo o que se diz da excel- Jencia , e utilidade da Oraçaó Vocal , muito melhor quadra á Mental : e esta he a que os mes mos Santos exercitavaõ mais frequentemente.

§. III.

P. Onforme esta dou-

trina , deixemos to dos a Oraçaó Vocal , e só a

Mental se pratique na Igreja de Deos.

Na Igreja de Deos he

conveniente , que haja de hu ma , e outra , para o louvar mos naó só com o coraçao , senao tambem com a lingua ;

R.

B ii

pa-

, que haja de hu ma , e outra , para o louvar mos naó só

24

TrATAÒO BREVE

para profeísarmos o culto da piedade Christâ com modo ex- terior , e seníìvel ; e para en- tendermos , e enthesourarmos na memoria as Sagradas Escritu- ras. Além de que , a Oraçaa Mental he dom especial de Deos , o qual concederá este Senhor a quem for servido, e Iho pedir , e se diipuzer para

recebello. P. Sendo este exercicio tao proveitoíb , porque razaõ íe

daõ taõ poucos a elle ?'

R. Muitas ; podem fer as

.

\

causas, i. Porque tal vez naâ ha quem lho persuada , e en- lìne : e aqui lè póde applicar aquillo de S. Paulo : Quomodo credent et , quem non audie- runt ? .Quomodo autem audi- ent fine pr dicante ? ( Rom. 10. 14.) 2. Porque a Nature

credent et , quem non audie- runt ? .Quomodo autem audi- ent fine pr dicante ?

da OraçaS Mental,

za sempre tem mais sequito ,

que a Graça :

e os caminhos

costa arriba (qual he o da. virtude) nunca iaõ muito tri lhados. 3. Porque o inimigo comtnum sabendo os damnos ,

que deste exercicio resultaõ ao íeu reino do peccado , trabalha quanto pôde , porque as almas

o naõ comecem ,

nuem. 4. Porque com os pec- cados nos fazemos indignos de que Deos nos chame para

tratarmos com elJe familiar*

mente

ou

conti

.

P. Porque razaõ estes gran

des frutos da Oraçaõ se paõ vem logrados em muitos que

a frequentaõ?

R. Sempre nelles resplan

dece mais alguma piedade , e temor de Deos , e estimaçao das coulas eternas ; porque a

B iii

Sempre nelles resplan dece mais alguma piedade , e temor de Deos , e estimaçao das

Ora-

i6

Tratado breve

Oraçao he como o ambar , que hum só graozinho deixa fragrância na buceta , por pou co tempo que nella estivesíe.

Mas o naõ aproveitar-nos tanto como puderamos , nasce pri meiramente de que naõ acom panhamos a Oraçaõ com mor- tificaçaõ ; e porque o monte da myrrha , em que se figura

a mortificaçaõ , he mais diíE-

cultoso.de subir , do que o ou teiro do incenso , em que se figura a Oraçaõ ; naõ nos de

terminamos , como a alma San ta , a subir hum , e outro :

Fadam ad montem myrrha.,

& collem tburis. (Gant. 4. 16.)

Outros naõ fazem senaõ co meçar , e largar ; tecer , e des

tecer. Muitos contentaõ-sc com apanhar flores , que saõ os as

se ctos de ternura sensível , e

e largar ; tecer , e des tecer. Muitos contentaõ-sc com apanhar flores , que saõ

da ORAqAÒ Mental. 27 na6 trataõ dos frutos , que he lidar sempre comilgo sobre a vitoria de suas paixões , e re

forma de seus defeitos. E ou tros naõ resistem ás distracçoes )

e vagueaçoés do pensamento; e

claro está , que a Oraçao , quarw to tem dedistrahida, tanto naõ

tem de

.

-

t

§. IV. '' i, i;

P. Uantos modos ha;

17 de Oraçaõ Men- ^tau R. Naõ se podem. nume rar ; porque Deos N. Senhor po de communicar-le por infinitos modos, e costuma levar as al mas por differentes veredas , conforme sabe que mais con duz aos intentos de sua alta

Providencia , e ao bem de car

B iv

por differentes veredas , conforme sabe que mais con duz aos intentos de sua alta Providencia

da

Tratado breve

da alma.

modos se podem reduzir a dous : hum de Oraçaõ ordi naria , e adquirida ; outro de

Or-açaõ extraordinaria , e infu

sa. : A primeira

íim , porque he de muitos , e

se adquire com o nosso traba

lho , e diligencia , ajudando- nos a graça de Deos. A se gunda se chama aïïìm , porque he de poucos , a quem o Se nhor . a infunde sobrenatural mente para os fins que elle conhece. Á cerca desta pou cas regras podem os homens

a8

Porém todos esses

se chama

as

dar ; porque o Espirito San

o que naquelle estado

guia , e ensina por si mesmo. Da primeira especie (que he

to he

a Oraçao ordinaria ) tambem

ha varios modos , e conforme

a isso varios documentos , que

primeira especie (que he to he a Oraçao ordinaria ) tambem ha varios modos , e

a

da Oração Mental. 29

a alma deve seguir. Porque ha Oraçaó por exercício das tres potencias da alma (e hç a de que aqui só tratamos):

ha Oraçaó só por exercício de actos interiores de varias vir tudes : ha Oraçaó só por col- loquios amoroíos com Deos :

ha Oraçaó de exame de con sciencia , e conhecimento pro prio : ha Oraçaó arrimada is palavras do Evangelho , ou de outra Escritura Sagrada , me ditando cada huma por si : ha Oraçaó só por fé , parando em huma simples vista da pre sença de Deos : e outros va rios modos , dos quaes nenhum he reprehensivel , ainda que huns saõ mais geraes , e segu ros que outros. Se a alma for humilde de verdade , e tratar sempre de fazer guerra ao seu

B v

mais geraes , e segu ros que outros. Se a alma for humilde de verdade ,

amor

30

TrATADO BREVE

ámor proprio , o Senhor a guia- rá pelo caminho , que mais lhe convem.

P. Póde huma aima defe-

jar , e aspirar , ou pertender a Oraçaõ infusa , e extraordi- naria ?

R. Responde-se com duas

distinçoens. Primeira : se o tal desejo , ou pertençaõ consis te em querer introduzir-se em estado mais alto de Oraçaõ fem o chamarem , e cuidar que ha de alcançallo á força das suas diligencias , e peti- çoés : esta tal pefloa naõ edi- fica obra firme , porque os fun- damentos saõ avareza espiri- tual , amor da propria excel-

lencia , e ficçaõ interior : a rui na , que sobrevier , a desenga- nará ; porque o Espirito Santo (como elle mesmo diz) naõ

»

.:

interior : a rui na , que sobrevier , a desenga- nará ; porque o Espirito

quer

da OiuqAÔ Mental. 3 1

1

9

cto , nem se mistura com pen samentos desasizados : Spiritus enim SatiElus disciplina essu- giet JiSlum , & aìiferet se à cogitationibus , qua sunt fine intelleftu , & corripk tur à superveniente iniquitate. Po rém se este desejo consiste em ir tirando da sua parte os im pedimentos , que o fazem in digno de receber efla mercê de Deos , com intento de que o Senhor lha faça , se for ser vido , e quando , e como for servido , entaõ parece nao só licito , mas louvavel o tal de

sejo.

Segunda distinçaõ ; Duas

cousas fazem bom > ou máo

he a

cousa

«u, der

qualquer

se he boa »

ou má , ou absoluta

;jíí.-à

desejo : huma

desejada ,

B vi

ter-

ou máo he a cousa «u, der qualquer se he boa » ou má , ou

gi

Tratado breve

terminadamente nestas , ou na- quellas circumstancias. Outra he o fim, ou intento da vontade

em desejar a tal cousa. Istosup- posto : A Oraçao alta , e infun dida por Deos , em fi he boa ,

; mas para tal , ou

tal pessoa , neste, ou naquelle tempo , póde naó ser boa ; e no intento com que eu a desejo

póde haver muito engano do amor proprio , e dar-se oçca-

fiaõ a muitas embuscadas do ini

Por onde , o seguro he

entregar-me nas maós de Deos , para que obre em mim confor me seu beneplacito , e levar sempre por norte o dar-lhe gos to , cumprindo sua santiflima vontade, segundo o conheci mento , que delia tenho , e des cuidar do mais , que corre por sua conta , e naó pela minha. ,

e muito boa

migo

o conheci mento , que delia tenho , e des cuidar do mais , que corre

da OraçaÔ Mental. 33

P. Quaes saõ os impedi-

mentos , que fazem a huma ai

ma indisposta para receber esta Oraçaõ ?

R. Saõ todos os affectos ás

cousas temporaes , que naõ es- taõ mortificados ; toda a falta de recta intençaõ, buscando-se hum a fi mesmo no bem ,. que obra , e no mal , que deixa de obrar ; toda a amargura de co- raçaõ, înquietaçaõ, ou pertur- baçaõ nas adversidades , ou prosperidades : toda a satisfa- çaõ de si mesmo , e compla- cencia nas honras , gostos , e riquezas do Mundo : toda a fal ta de mortificaçaõ nos sentidos > e potencias : e em huma pala- vra , todo o peccado grave , ou leve , e todo o amor proprio , grande , ou pequeno. A razaõ aisto he ; porque na tal OraçaO.

, todo o peccado grave , ou leve , e todo o amor proprio , grande

34

Tratado breve

se une a alma com Deos ; e pa ra se unir, he necessario ser se melhante a elle quanto for pos- sivel. He verdade , que a mes ma Oraçao vai purgando a al ma , e dando-lhe esta seme lhança , e diípondo-a para uniaõ de cada vez mais intima , e aper tada.

§. V.

P. T"\ Os modos da Ora-

\_J çaõ ordinaria, qual he o mais proprio para princi

piantes , e mais geral , e segu ro para todos ?

R. Parece ser aquelle , em

que se exercitaõ as tres poten cias da alma : a memoria re cordando os Mysterios da Vida , Paixaõ , e Morte lacratissima de Nosso Senhor Jesus Chri- fto , ou quaésquer outras yerda

os Mysterios da Vida , Paixaõ , e Morte lacratissima de Nosso Senhor Jesus Chri- fto

da OraçaÔ Mental. $ç

des de nossa Santa Fé : o enten- dimento diícorrendo sobre el- las , fazendo pondera çaó da sua importancia , sormosura , e excellencia , e tirando daqui luz para saber-se a alma reger no caminho da falvaçaó : a von- tade accendendo-se em afFectos das virtudes , especialmente de amor de Deos , repetindo mui- tos propositos de abraçar o bera , e fugir o mal. A razaó disto (por quantQ intentamos brevidade , e naó lie bem to- calla de passagem) se póde ver nos Reverendos Padres Alva- rado , Molina , Granada , Puen- te ; especialmente na vida , que compoz do Padre Balthazar Alvares. Se os outros sentem outra cou fa : Unusquisque in sensu suo abundet. (Rorn. 14*

, que compoz do Padre Balthazar Alvares. Se os outros sentem outra cou fa : Unusquisque

36

Tratado breve

P. -De que partes consta esta Oraçao?

jR. Consta de Preparaçao,

MeditaçaÒ , Acçaõ de graças , Oferecimento , e Petiçaõ ; e se ha mais alguma , a estas se

póde reduzir. P. ' Que cousa he Prepara çao ?

R. He preparar-se a alma

para entrar neste santo exercí cio. Porque, se para sal lar com

hum Rei da terra , primeiro

nos prevenimos , e estudamos

o modo, com que nos havemos

de portar em sua presença , e

o que lhe determinamos pedir ;

muito mais necessaria será esta diligencia para fallar com o Rei do Ceo , e de todas as cfeaturas : Ante orationem ( nos admoesta este mesmo Senhor) fr apara animam tuam, & noli

o Rei do Ceo , e de todas as cfeaturas : Ante orationem ( nos admoesta

da Oração Mental. 37

tffe quasi homo , qui tentat Deum : (Eccl. 1 8. 23.) Antes da Oraçaó prepara a tua aima , e naó sejas como homem , que tenta a Deos. Porque muitos » se descuidaó desta primeira par te da OraçaÒ, no mais discur so delia lcachaõ tibios , edis- trahidos , e abertos á passagem de quantas creaturas o demonio lhes traz á memoria.

P. Como se deve preparar

a alma para entrar na Oraçao ?

R. Duas saó as prepara

çoes : huma remota , ou mais de ante mao : outra proxima ,

ou immediata ao tempo r em que quero orar. A remota con siste em despegar , quanto me for possível , o coraçao das cou sas da terra, e empregallo nas do Ceo ; andar no discurso do dia em presença de Deos ; ter

, o coraçao das cou sas da terra, e empregallo nas do Ceo ; andar no

guar-

38

Tratado breve

guarda sobre a língua, e senti dos ; e descartar-me de más companhias , e negocios , que me naõ tocaõ , quanto o meu estado me permitte. A preparaçao proxima con siste em ler por algum livro es piritual o ponto, sobre que hei de meditar : tomar hora , lu gar , e postura conveniente ao tal exercicio : e dispôr-me com alguns actos interiores , e ex teriores para entrar na medi tação.

P. Que cousas se requerera

para esta liçao ser frutuosa ?

R. Deve ser breve , para

que naô carregue a memoria , em vez de ajudalla. Deve ser attenta , para que se entendaó

as verdades , que se lem : e naó se ha de buscar nelia cu riosidade , nem erudiçao. P.

attenta , para que se entendaó as verdades , que se lem : e naó se

da Ora qa3 Mental. 39

P. Bastará ler por qualquer

livro espiritual ?

- .R. Bastará , se o exercitante he déstro , e sabe de qualquer liçaõ tirar pomos. Mas com- mummente será mais util a li çao de livro determinado para

este intento , em que os pontos , e os frutos delies estaõ já tira dos.

P. As peffoas , que nenhum

livro tem , ou naõ sabem ler , eomo suppriráõ esta falta? R. Basta que renovem a memoria das verdades de noflà Santa Fé, que estão no Credo, ou dos quatro Novissimos do Homem, Morte ,Juizo, Infer no , Paraiso ; ou dos paflos da Vida , e Paixaõ de Christo nos so Salvador : e fiem deste Se nhor, que elle os ensinará , por que á sua conta fica remediar o que

de Christo nos so Salvador : e fiem deste Se nhor, que elle os ensinará ,

40

Tratado breve

o que nós naõ podemos. Tam bem se podem pedir ao Con fessor os pontos para cada se mana.

§. VI.

P.

Ual he o tempo \ / mais conveniente

para orar ?

.

-

R.

O melhor be de noite,

quando tudo está em silencio :

Meditatus sam noëie cum corde meo , ^ exercitabar feepe- bam spiritum meum. ( Ps. y 6. 7.) Tambem he bom o da ma nhã : Mane ora tio mea pr ve- niet te, (Ps. 87. i4.) levan tando- se cedo , como fazia o Povo de Deos no deserto para colher o Manna. Neste particular advirtamos tres cousas. I. Que todas as vezes, que o espirito se sentir

deserto para colher o Manna. Neste particular advirtamos tres cousas. I. Que todas as vezes, que

cha-

da OraçaS Mental. 41 chamado de Deos com algum recolhimento , seja a hora que for , deve acceitar a visita , e lograr a maré. II. Que se á ho ra costumada naó podemos ter Oraçao por algum incidente >

queoccorreo, devemos dar-lhe outra hora , que nos ficar livre.

III. Que o tempo de orar sem

pre se ha de pôr longe da hora cie comer ; supposto que , quem tem espirito de devoçaó , e naõ se carrega muito de manjares, estes lhenaó fazem grande im

pedimento.

P. Qual he o lugar mais a

propofito para a Oraçaó ?

R. O mais proprio he a

Igreja, que por isso se chama casa de Oraçao : especialmente onde ha Sacrario he certo, que se aviva mais a Fé , e se lo grai) muitos favores da preferi

de Oraçao : especialmente onde ha Sacrario he certo, que se aviva mais a Fé ,

42

Tratado breve

ça do Rei Christo Jesus : e por esta razao he tambem lugar menos exposto aos acometi mentos do inimigo. Com tudo, porque a modestia , silencio, e singeleza Christã dos mais , que assistem nos Templos, naõ está no ponto que devêra : e por outra parte o nosso cpraçaõ he facil de esvaecer- se , e difi cultoso de se recolher : o mais accommodado lugar para a Ora çao Mental he o nosso aposento, conforme o conselho do Se nhor : Cum oraveris , intra in cubiculum tuum , clausooíiio ora Patrem tuum in abscondito. ( Matth. 6. 6.) Sobre este ponto advirtamos outras tres cousas. I. Que do solitario do lugar naõ tomemos licença para estar com menos respeito , e compostura. II. Qye naõ

tres cousas. I. Que do solitario do lugar naõ tomemos licença para estar com menos respeito

da OraçaÔ Mental. 43

naõ demos por excluído , e to talmente incapaz para a Ora çao qualquer ourro lugar ; por que na meza , nos caminhos, no campo , &c. se pôde ter mui ta , e boa Oraçaõ. III. Que, se por algum titulo temos obri gação , ou costume de assistir nos Oratorios , ou Igrejas , naó convem faltar em razaõ do bom exemplo , que damos , e os outros nos daõ ; e porque naõ pastemos daqui a naõ ter Oraçaõ nem na Igreja > nem em casa.

Que postura de corpo

he mais conveniente para a Ora

çaõ ?

R. Fallando geralmente ,

a melhor he com ambos os joe

lhos em terra , o corpo direito , a cabeça descuberta , e sem tor cer, os olhos baixos, as maõs

P.

jun-

com ambos os joe lhos em terra , o corpo direito , a cabeça descuberta ,

44

Tratado breve

juntas ante o peito. Deste mo do , até de fora se está vendo ,

que a pessoa faz o officio

çreatura , que he buscar , e adorar a seu Creador. Se ha

infermidade , ou fraqueza ,

lhor he pôr-se em pé , do que assentar- se ; e melhor he assen- tar-se em algum lugar humilde (pedindo primeiro licença ao Senhor ) , do que encostar-se , ou debruçar-se. Sobre este ponto , outros tres avisos. I. Que em público se deve evitar toda a singularida de , todo o fazer gestos com a cara , ou acçoés com as maós , ou dar suspiros , porque íe ha de estar com huma serenidade

de

me

igual , assim nos affectos de go zo , como nos de compunçao. II. Que o estar bem quieto (ainda que por isso se padeça

me igual , assim nos affectos de go zo , como nos de compunçao. II. Que

PA OraçacJ Mental. 45s alguma molestia no principio) ajuda muito assim o espirito , co mo o mesmo corpo , a persistir na Oraçao. III. Que as vezes a força do affecto , que a alma exercita , pedirá outro differen te sitio do corpo ; como, se está atribulada com algum traba lho , o postrar-se ; se suspira com jaculatorias, o levantar o ros to ao Ceo , &c. Havendo po rém respeito ao que diziamos no primeiro aviso.

§. vii.

P. T) Arece que o estar hu-

JL ma pessoa desse mo do posta de joelhos , com os olhos baixos , e sem fallar .pa- v

lavra, poderá ter-se por inven- çaó, ou ceremonia , ouJiypOT criiia ; e dará que notar aos_

, e sem fallar .pa- v lavra, poderá ter-se por inven- çaó, ou ceremonia , ouJiypOT

46

TRATADO BREVE

circunstantes , por fer cousa des-

usada.-'

- R: Toda esta objecçaó , e

faõ funda- '

das em medo vaó , soberba, impiedade , malicia , e igno- -

rarìcia r e por tanto bem pode- mos entender , que saó sugge-

ridas pelo eommum inimigo , o quai antes consentirá quejejue- iîios huma Quaresma a paõ , e agua , do que empregarmos meia hora em vifar o roíto da

alma

e parece que íhe arde muito es te exercicio , porque faz que as aimas naó ardaó com elle * - . Píimeiramente a Oraçaó Mer)t3t tem por Mestre o Elpi- rito Santo í Òtfïd oremus , fìc-

para si , e para feu Deos ;

outras semelhanres

.

!*' ' '-

ut oportet , -mscimus ; (diz Saô Fauio) sed ipse Spiritus pojìu-

-UJ

; outras semelhanres . !*' ' '- ut oportet , -mscimus ; (diz Saô Fauio) sed

^

lat

DA ORAqÁÔMENTAt. 47

latpro nobis gemitibus inenar- rtbilibus.Qui autem scrutai ur corda , frit quid defideretsptri- tus: quiasecundum Deum postu lat fro Sarifîis. Naó sabemos fazer Oraçaó como convem:

porém o Espirito Santo cádéní tro pede por nós com huns ge- midos mudos , e inexplicaveis :

e Deos , que penetra os cora-

çoés , bem sabe o que deseja } e falla 0 Espirito Santo , que es

ta en/ìnando a orar os Sahtos ,

e a pedir couíàs conformes á

vontade do mesmo Deos. Este mesmo exercicio nos propoz Christo Salvador nosso com feu ;xemplo , e conselho. Com feu :xempïo; porque deste Senhor \h o Evangelho , que : Erat ìernoElans in oratione Dei.

Luc. 6. 12.) Gastava a noite ia Oraçaõ de Deos i isto he ,

C ii

Evangelho , que : Erat ìernoElans in oratione Dei. Luc. 6. 12.) Gastava a noite ia

Ora-

48

Tratado brevè

Oraçao alta , recolhida , e mui cspiritual , como expoem os In terpretes iagrados : e claro es ta , que nao gastava toda a noî- te ío coìii Oraçoés vocaes: ma- iormente lendo doutrina sua ,

que nao fallemos muito na Ora çao : Oraiites autem nolite mul- tum loqui. ( Matth. 6. 7.) Corn feu conselho ; porque omesmo Senhor disse , que importa va orar continuamente sem desfa- lecer : Oportet sempre orare ,

& nunqttam deficere. ( Luc.

18. 1.) Ó que se nao póde en tendes senaó da Oraçao in tenor,

trazendo o coraçaó recolhido ,

e posto em presença de Deos. O niefmo exemplo vemos resplan- decer etn Maria Santissima Se-

nhora nossa , da qual

.vangelista S. Lucas , que con-

servava no espirito todos os

diz o E-

etn Maria Santissima Se- nhora nossa , da qual .vangelista S. Lucas , que con- servava

Mys-

da Oração Mentai.-. 49

Mysterios Divinos , conferindo, e meditando sobre elles dentro em seu coraçao : Maria autem conservabat omnia verba k c conferens in corde suo. ( Luc. 2. 19.) Os Varoens illustres em santidade , que a Igreja Catho- lica venera , seguirao este mes mo caminho. E por tanto se hc invençao , ou ceremonia , bons Authores , e padrinhos tem pa ra se poder seguir. O parecer hypocrifia será culpa do Fariseo , que julga ; e naô do Publícano , que ora : hu ma vez que a sua intençaõ for ( qual nós devemos entender que he ) agradar a Deos , e tra tar do bem da sua alma. E ca so que a sua intençao fosse tor cida , e perversa , esse mal naó vinha do exercício , senaó do exercitante; o qual póde tam-

C iii

fosse tor cida , e perversa , esse mal naó vinha do exercício , senaó do

bem

Tratado BREVÍ bem commungar , e ouvir Mis- sa , e dar esmolas por hypocri- íìa ; e nem por iflb estas obras saõ más , ou dignas de nota , an tes muito excellentes , e louva-

veis. Nem ha que temer escanda- lo do que nao vemos resultar , senaõ edificaçao : e ás vezes tan- ta , que muitos tem Oraçaõ so

bre a Oraçaõ dos

outros , e o

vellos de fora , os faz recolher

dentro em si. Ao Patriarca San- to Ignacio , e hum companhei- ro leu acompanhava hum moço de mulas , o qual advertindo como aquelles bemditos Pa- dres , em chegando ás estala- gens , se recolhiaõ , e punhaõ de joelhos, e com as maõs le- vantadas , quiz tambem fazer o mesino no feu canto , sem en- tender o que fazia. Achava-se r IUUÌ

e com as maõs le- vantadas , quiz tambem fazer o mesino no feu canto ,

da Oracao Mental. 5*1 ami consolado-, e derramava muitas lagrimas : das quaes perguntando os Padres a causa , respondeo , quenaó sabia mais ,

senaó que se punha alli , e di zia comsigo : Senhor , eu que ro fazer o que estes Padres. fj»* zem. Eis-aqui hum dos escan dalos , que nascen> de ver estar os outros orando com modestia ,

e reverencia*. Nem he taó pouco usado este Divino exercicio (especialmen te depois que nosso Sanro Patri arca , e esta minima Congrega çao o puzeraó em público)- que

o naó tenhaó quotidianamente

em casa , e nos Templos muitos de toda a íoçte > e estado de pes soas: verificando-se da nova Je rusalem da Igreja , o que pre disse Zacarias : que derramaria Deos lobre ella o espirito de lua

da nova Je rusalem da Igreja , o que pre disse Zacarias : que derramaria Deos

gra-

f2

TRATADO BREVE

graça , e oraçao : Ejsundam Juper habitatores Jerusalem

spiritum gratta , S1 precum.

Louvores á

Divina Bondade , que aíïîm abre -feus thesouros a todos os que .querem aproveitar-se delies,

-n

§. VIII.

(Zach. 12. 10. )

) *

i

P. Ue actos saó , os

' ( que diziamos di£-

jjunhaó a alma pa-

ía entrar na meditaçaó ? .R. Podem fer os seguintes , ou outros íemel hantes. I» De Fé , crendo vivamente , que a Mageítade Divina está naquel- le lugar , como em toda a par

r/i

te

, por sua eiïencia , presença ,

e

potencia. II. De adoraçaó,

o

que sepódefazer, dizendo o

Gloria Patri , & Filio, & Spi

, e potencia. II. De adoraçaó, o que sepódefazer, dizendo o Gloria Patri , & Filio,

da ORA.q\Ò Mental. 5*3

ritui Sanfto , &c. com a maior sumiíTao , e rendimento que pu der. 111. Benzer- se , armando- se com o final da Cruz contra seus inimigos , e intentando afu-* gentar com elle todas as tenta ções , e fazer aquella obra em nome das tres Divinas Pefíbas. IV. De reflexaõ sobre si mes mo , considerando sua vileza , e aniquilando-se diante do infini to ser de Deos. V. De agrade cimento , por se dignar este Se nhor de o admittir em sua pre sença , e de o chamar para exer cido taõ alto , e que he proprio dos Anjos. VI. De recta inten çao, naõ levando nesta obra fins avessos , e torcidos , que perten cem á propria commodidade espiritual , ou temporal. VII. - De invocaçao do auxilio de Deos , para que o ensine , e lhe

C y

propria commodidade espiritual , ou temporal. VII. - De invocaçao do auxilio de Deos , para

il-

5*4

Tratado breve

illustre o entendimento, e mo va a vontade. VIII. De conrri- çaõ , dizendo : Senhor , peza- me de vos ter offendido por ser des vós hum Deos infinitamen te bom : e proponho firmemen te com voila graça de nunca mais vos oftender. Este ultimo acto ferve de pôr a alma em graça de Deos , se acaso o naõ estava , por causa de alguns pec- cados occultos. P. Parece que estes oito actos para se fazerem , como he bem , levaráõ a maior parte do tempo dá Oraçaõ. R, A alma, que anda já dés ira , em muito breve tempo os faz. Mas se a vontade se sentir movida com qualquer delies , detvnha-se quanto quizer , que isso mesmo he Oraçaõ. Como agora > se quando adora a San-»

v

qualquer delies , detvnha-se quanto quizer , que isso mesmo he Oraçaõ. Como agora > se

tis.

da OraçaS Mental. 55 tiííìma Trindade , se sentir mui entrada do respeito a Deos* e

desfeita no conhecimento de sua propria vileza , pare nefle senti- mento em quanto Ihe durar.

P. Acerca do sexto acto ,

que acima referimos , pergunto , que intençao hei de lcvar áOrar

çad , ou quai ha de fer o alvo aonde atire ,. e o fim que perten- da?

R. O ultimo fim devé' fer

dar a Deos gloria ,

santificar feu Nome, esgradar a feus olhos , que tudo he o mes- inòv A este fim uhimo sedevem encaminhar outros fins secunda-

ries , os quaes podem fer estes c Vou á Oraçaó por imitai-' à Christo, por conheceroieu bte*> neplacito com maior luz , por segurar mais minha salvaçaô, por fbmlecer-me contra as teu-

e honra ,

bte*> neplacito com maior luz , por segurar mais minha salvaçaô, por fbmlecer-me contra as teu-

ta-

f6

Tratado breve

taçoés , e cobrar odio ao pec- cado : Vou á Oraçao por desar- reigar tal , ou tal vicio , que em mim predomina ; para pedir a Deos nosso Senhor tal, ou tal mercê, de que necessito ; para ser perfeito, e ir pelo caminho por onde vaõ os que o procuraõ ler.

§. IX.

visto o que

JL toca á primeira par te da Oraçaõ , que he prepara çaõ : passo á seguinte , e per

gunto , que couía he meditaçao?

R. Meditaçao ( no sentido

P.

1 1 1 Enho

em que neste lugar a tomamos) he aquella principal parte da OraçaÕ , que vai entre o princi pio , e fim delia ; em que se exercitaõ os actos das tres po

tencias» como acima dizíamos.

, que vai entre o princi pio , e fim delia ; em que se exercitaõ

da ORAqAo Mental. 57

Primeiro entra a memoria re cordando o ponto , que li , ou as verdades , que creio : segue-

i'e o entendimento fazendo so bre a tal verdade suas pondera- çoés, e cavando razoens, com que convencer ojuizo: ultima mente achando-fe a vontade movida com estas razoens , rom pe em varios actos das virtudes , astectos de louvor , e amor de Deos , propositos de fazer esta , ou aquella boa obra , ou de re formar este , ou aquelle máo

costume.

;

P. Tomára hum exemplo

disto , breve , e prático. -

R. Supponhamos que o pon

to ou materia da meditaçao era

a incerteza da morte. Posto em

iilencio , e socegado o espirito :

Diz a Memoria. fie çerp, que hei de morrer;

era a incerteza da morte. Posto em iilencio , e socegado o espirito : Diz a

Tratado breve

isto he herança de meu pai Adaó : todos por aqui passaõ :

até o Filho de Deos quiz mor rer. Mas quando hei de mor rer , naó o sei : poderá ser hoje :

poderá ser agora : quantos lhe veio a hora , quando menos a esperavaó ! Diz o Entendimento. Este perigo sem dúvida he gran de : qualquer outro , que me ameaçára taõ de perto , havia

y g

de prevenir-me para elle.

Para

que quero eu ser nescio ?

Para

qualquer cousa me aparelho, e só para morrer naó ? Agora al canço que era tramoia do dia bo , represenrar-me , que este ponto estava mui longe. Quem me disse a mim, que estava lon ge ? Dcos naõ mo disse : logo foi o meu amor proprio excita-

ponto estava mui longe. Quem me disse a mim, que estava lon ge ? Dcos naõ

da OnAÇAb Mental. 5*9 Diz a Fontade. Temo a justiça Divina , que me hadepedir conta de meus pec- cados. Eu escolho por rcmedio pedir a Deos me conceda espa- ço de verdadeira penitencia.

Devo tal , e tal restituiçaõ : naõ a guardemos para os herdeiros:

e que lei eu o que elles farao?

Lembra-me tal , e tal peccado, que naõ confeflei: na primeira occafiaõ os confeflo. Ah Se-» nhor, bemdita scja vofla paci- encia com este miferavel pecca- dor : quantos louvores se devem

á vossa Bondade ! Eis-aqui a memoria propon- do asverdades: o entendimen- to cavando razoens: eavonta- de exercitando propofitos, eas> fectos.

P. Como podem as peflbas

rudes saber exercitar «stas ope»

l

eavonta- de exercitando propofitos, eas> fectos. P. Como podem as peflbas rudes saber exercitar «stas ope»

ra-

6o

Tratado breve

raçoens interiores , nem entrar- lhes na cabeça tanto preceito , e documento ? R. Nos livros eícrevem-fe as cousas doutrinalmente com ordem , e distjnçaõ , para que melhor se entendaõ , e do mo do, que he bem que sejaõ: na praxe fará cada hum , o que pu der, e Deos o ajudar; que sem dúvida ajuda muito aos que tem boa vontade. Além de que , o uío facilita muito as cousas, como nesta mesma materia nos tem mostrado a experiencia. He tambem de considerar , que mui? tas pefloas rudes , e incapazes para outros ministerios, meti dos neste o naõ saõ. E sobre tudo , a palavra de Deos naõ está atada : e ainda que naõ pro cedamos com tanta ordem , obra, os seus effeitos. P.

tudo , a palavra de Deos naõ está atada : e ainda que naõ pro cedamos

da Oração1 Mental. 6 1

P. Em qual exercício ha

vemos de empregar mais tem po: nos discursos, eraznensdo entendimento, ou nos affectos,

e propositos da vontade ?

R. Tanto que a vontade se

moveo com as razoens , que lhe propoz o entendimento , devo parar com os discursos , eoccu- par-me com os affectos : assim como tanto que o fuzil tirou fa ísca da pederneira , naó torna mos a ferir esta , fenaó trata» mos de fomentar aquella para

que se accenda lume , salvo este

se apagou : e tanto que a agulha

meteo a linha , naó usamos mai9 da agulha, salvo para tornar a

meter a linha, e dar outro ponto.

P.

Em cada tempo deter

minado para a Oraçao havemos de correr muitos pontos , ou

hum só?

a linha, e dar outro ponto. P. Em cada tempo deter minado para a Oraçao havemos

R.

62

Tratado breve

R. A boa Oraçao naõ está

em correr muita terra , senaõ em cavar para o fundo ; nao es tá em salpicar muitas coníide raçoes, passando por ellas leve^ mente : le nao em aflentar bem hum desengano, e confirmar a vontade com repetidos proposi tos : porque mais segura hum prégo com muitas martelladas , do que muitos com poucas. Do irmaõ Alonso Rodrigues da Companhia de Jesus ( varao in signe em todo o genero de vir tudes ) íè escreve , que gastava ás vezes muitas horas 16 com hum proposito , até sentir a von tade bem rendida , e fixa nelle. Mas se ainda astim naõ enche mos o tempo com hum só pon to , ou com dous , peguemos de

outros sacceíS vamente.

.:-r

Mas se ainda astim naõ enche mos o tempo com hum só pon to , ou

da ORAqAÔ Mental. 63

§. X.

P. Ue hei de fazer no caso , em que me Q elqueceo o. ponto ,

que levava preparado para me

ditar ? /

R. Pedir a nosso Senhor,

que se sirva de mo trazer á me moria : e se com tudo naó lem

bra , pegar de algum outro , em que já meditei com mais affei- çaó :. 011 rumiar segunda vez o ponto da Oraçao antecedente.

P. E de que remedios usa

rei para recolher a imaginaçao ,

que anda vagueando por varias cousas alheas daquelle exerci do ?

R. Contra as distracçoens ,

aproveitaó os seguintes reme dios. I. Trazer no discurso do

alheas daquelle exerci do ? R. Contra as distracçoens , aproveitaó os seguintes reme dios. I.

dia

6$ Tratado breve

dia os sentidos recolhidos , e mortificados. II. Naõ dar lu gar aos negocios do seculo , e trato com ascreaturasS primei ro que a este negocio da alma , e trato com Deos : por isso he bom arrecadar logo a Oraçao pela manha. III. Naõ levar o estômago carregado de manja res : Bona est ora tio cumjeju- nio. IV. Naõ desprezar a pre paraçao1 proxima, ainda que a vontade se ache dura em fazer os actos , de que consta. V. Ap- plicar bem o espirito no princi pio da Oraçaõ , para que as po tencias comecem a tomar cami nho direito. VI. Renovar com viveza a Fé da presença de Deos , e invocar seu auxilio , para que me ajude a recolher. VII. Entregar nas maõs do meu Anjo todos os meus cuida

de Deos , e invocar seu auxilio , para que me ajude a recolher. VII. Entregar

da OraçaS MentAi» 6?

dos , pedindo-lhe , que se me sa<5 necessarios , mos guarde para seu tempo. VIII. Irçíistir na re sistencia das distracçoens , en tendendo que , ainda que niflb gaste todo o tempo , tive Ora çao muito proveitosa : e que se me deixar levar delias , ficarei com a imaginaçao de cada vez mais indomavel.

P. E se nada disto basta,

que resta para fazer ?

R. Ter paciencia comsigo ,

conhecer sua milèria , entender que tambem este trabalho pasta pelos outros , e esperar a graça de Deos. Mas he de advertir , que este resistir ás distracçoens huma , e mil vezes , naô ha de ser cora modo impaciente exasperando- se ; senaõ com coraçao largo , e socegado , como quem está cer

vezes , naô ha de ser cora modo impaciente exasperando- se ; senaõ com coraçao largo

66

Tratado breve

tificado do nada para que pres

ta , se Deos o naõ ajuda.

. P. De que remcdlos usarei contra a perleguiçaõ do sono? jR. Se nasce de falta delle,; conceda- se á natureza em outra hora o que justamente pede : se' de negligencia, e froxidao , ap- plique-se a alma com vérás, e naõ accommode o corpo em postura , que esteja chamando

pelo sono : se he tentaçaõ dp ini migo (como de alguns exem plos consta , que o costuma fa zer ) recorrer a Deos , e ao nos

so Anjo: se he enfermidade pro

cedida de algum humor , que occupa o cerebro , consulte- se

a medicina. - E geralmente fallando saõ muito efficazes os tres remedios seguintes. I. Tomar huma dis ciplina antes de entrar á Ora-

fallando saõ muito efficazes os tres remedios seguintes. I. Tomar huma dis ciplina antes de entrar

çaõ,

da OraçaÔ Mental. 67 çaõ , co:no fazia o Santo Bispo D.Joaó Palafox, e outros ser vos de Deos. II. Sahir fora a

outro lugar , divertindo ainda que íeja por brevifljmo tempo ,

e tomar logo a atar o fio. III.

Levar este negocio de mais lon ge , procurando ler cuidadoso , e diligente em todas as obras dò serviço de De'os , e grande esti mador do trato familiar com sua Divina Magestade. P. Se vierem pensamentos

de blasfemia , de que modo se rebatem ?

R. Nao fazendo caso delies

por feios que fejaó. E quanto mais pena me causaõ , tanto he mais certo sinal de que os naó consinto. Ruffiao conta que a hum achacado deste mal ensi nou oSantoAbbade Pimenio o seguinte remédio : Ne contris

naó consinto. Ruffiao conta que a hum achacado deste mal ensi nou oSantoAbbade Pimenio o seguinte

68

TrATADO BREVE

teris ,filì. Quando bac cogita- tio ad te venit , die : Ego cau- sam nonhabeo: blasphemia tua super tefit , Satanas. (Lib. 3. Fit. PP. ». 5-7.) Naó te entrií- teças , filho. Quando te vier esse pensamento , dize : Eu naó te- nho culpa : a tua blasfemia fi- que íòbre ti , Satanás. Quando a tentaçaó insista muito , impoi> ta nao exasperar-me , nem ima ginas de mim , que Dëos me deiampara : senaó levar a Cruz com resignaçaó por todo o tem po, que o Senhor for lervido. Santo Hugo Bispo Gracìanopo- litano , varaó de eminente santi- dade , padeceo este trabalho muitos annos , e se nao vio li vre delie, senaó pouco antes da sua morte.

P. Como devo haver-me ,

quando na Oracaó nem poflo

-

-.

-

e se nao vio li vre delie, senaó pouco antes da sua morte. P. Como devo

ex-

da OfuqAÔ Mental. 69

exercitar os diícursos do enten dimento , nem os affectos da vontade ; e estaó estas duas po tencias como atadas , huma com trévas , outra com securas ?

R. He necessario averiguas

a causa dcnde este trabalho pro

cede, e conforme a isso appli-

car-lhe o remedio. Pôde nascer de peccados : e entaõ o reme dio he chorar a culpa , e aceitar

a pena. De peccados , digo,

naõ só commettidos de proxi mo, senaõ ainda da vida passa

da ; porque he justo castigo , que

a alma , a cujas portas esteve o

Senhor esperando annos, ean- nos, que lhe abrisse, e nao lhe abria, agora esteja batendo ás portas de Deos, e elle a deixe estar de fora ; para que deste modo purgue seus peccados , e se faça mais digna de

ás portas de Deos, e elle a deixe estar de fora ; para que deste modo

70

- Tratado breve

Pode nascer de fastio, queo espirito tem cobrado a discor rer muitas vezes sobre a mesma verdade , da qual está já bem certificado. E entaó será con veniente pegar de outra mate ria , ou entrar em outro modo de Oraçao , precedendo neste caso conselho de pessoa experi mentada, e havendo respeito à se este trabalho dura já ha mui to tempo. Se feitas as diligencias da nossa parte , naó aproveitas) , póde-se entender , que Deos poem a alma neste estado, para purgalla com estas trévas , e se curas , dos muitos actos de satis faças) , que tem feito de si mes ma , pelo que conhecia , e goza va de Deos : e para lhe quebrar os brios , e demaziada activida de das potencias^ Nisto se mos tra

que conhecia , e goza va de Deos : e para lhe quebrar os brios ,

N

da OraçaÔ Mental. 71

tra este piedoso Senhor como huma mãi , que enfaxa os braci- nhos do menino, para quenaõ bula muito com elles quando tem pouca força , e se naõ cos tume a acçoens muito rijas , e desgovernadas. Por onde > affirri como q menino faria mal em forcejar contra as ataduras : as íim a alma neste estado naõ faz bem em querer trabalhar com as potencias , e só lhe convem aquietar-ie , e receber da maõ de Deos os bocadinhos , com que a sor alimentando. He também de advertir , que muitas vezes neste estado a al ma entende , mas naõ íabe que intende ; ama , porém naõ sabe }ue au\a : porque ainda que Deó&a naõ privou dos actos , }ue chamamos direitos , de co nhecer, e amar; privou-a dos

D ii

porque ainda que Deó&a naõ privou dos actos , }ue chamamos direitos , de co nhecer,

actos,

Y% Tratado BREVÊ

f

actos , que chamamos reflexos;

pelos quaes havia de conhecer , e gozar-se de que conhecia , e amava : e alîìm fica a tal aima com o merecimento davirtude, porque este consiste nos aétos <lireitos ; e sem ogozo, e pra- zer da meíma virtude ^porque

este- consiste nos actos reflexos.

Eisto hegrande bem da alma,

para si ,

para comprazer-se de si mesma ; fenaõ para Deos , a quem só de- -ve agradar : Revertere , rever- tere , ut intueamur te^

Por onde conhecerei ,

tjue as securas saõ prova t que Deos me fez , e naô effeito d«

porque entaõ naõ se vira

'P.

peccados ?--''; f-

R, Qyando saõ: prova'-- d« Deos , costuma bavera os» fe- -guintes sinaes. I. Ainda' que s

aima tenha hum temor habituai,

,' -.

ii CI

de

d« Deos , costuma bavera os» fe- -guintes sinaes. I. Ainda' que s aima tenha hum

da OfiAqAÔ Mental. 7$» de que aquella secura seja pena de feus peccados , nao Jhe re- morde a consciencia , nem Ihe vem á memória defeito algum em particular. II. Da secura ti ra humildade , e nao desmaio > nem impaciencia. III. Fora da Oraçaõ sente em si bom animq-, e promptidaõ para acudir ao exercicio d as virtudes , e obras de sua obrigaçaõ. Tudo passa ao contrario, quando a secura he effeito.de peccados.

§.;XL

P. A , Síìm como a aima. xa. padece na Oraçaõ

feus trabalhos , logra tambero

suas consolaçoens ? . i

R. Deos nao só he recto >;

senao tambem suave : Dulcis ,

& reflus Dominus. Recto pa-

-i.'

D iii

ra

? . i R. Deos nao só he recto >; senao tambem suave : Dulcis ,

74

Tratàdo brevè

ra provar a alma com tribula- çoens, e suave para a confolar com suas visitas. Parece que com huma maó fere , e com ou tra la ra : Perculiam , & egosa- vabo. (Deut. 32. 39.) E que se na esquerda tem cspinhos , na d^reita tem confolaçoens : De- letìationes in dextera tua. (PJl Xj.'zx.) Por iflojob depois das trévas esperava a luz : Poïi te- nebras spero lucem. {Job 17. 12.) E nas aimas perfeitas he taó grande o jubilo, econten- tamento, que causaó estas visi

tas , que naó ha cou fa no mundo, com que se

P. Que coula he a consola-

çaõ do Espirito Santo ?

R. He huma suavidade ,

alegria , é deleite interior, que conforme o diverío modo , com que affeicoa a aima, eosdiíFe-

He huma suavidade , alegria , é deleite interior, que conforme o diverío modo , com

ren-

da OraçaÕ Mental. 7^

rentes effeitos , que nella obra affim tem diíferentes nomes; Chama- se unçaõ mystica ; por que á semelhança de oleo man samente , e sem ruido penetra ,

e íe iníinua por toda a alma, e

a molliíica , e lhe faz expeditas ,

e correntes as potencias para o

amor , e louvor de Deos. Cha- ma-se gosto da sabedoria ; por que as verdades , que a alma entao conhece , he com sabor , e satisfaçao , e naõ secamente co mo de antes entendia. Chama-

se fervor de devoçaõ ; porque a alma se accende em amor de Deos , e está rendida , e prompta para tudo o que Deos ordenar delia. Chama-se gozo do Espi rito Santo ; porque he hum dom, que o Espirito Santo communi- ca , como prendas dos gostos do Ceo. Chama-se paz interior ;

D iv

; porque he hum dom, que o Espirito Santo communi- ca , como prendas dos gostos

por-

j6

Tratado breve

porque a alma fica socegada , e pacifica, sem sentir por entao a rebelliaõ de seus appetites , e a inquietaçaõ das imagens , que sempre se andaõ revolvendo na sua fantasia &c.

- P. Quantos generos ha des tas consolaçoens ?

R. Humas se recebem só

no sentido , outras só no espiri

to , outras no espirito , e no sen

tido juntamente. A coníolaçaõ

sensível he propria dos principi antes, e imperfeitos, para fe rem attrahidos a servir a Deos :

as outras saõ proprias dos apro veitados , e perfeitos. Aconfo- laçaõ espiritual só Deos a póde causar: a sensível póde causalla tambem o espirito maligno , e

o espirito proprio.

P. Por onde havemos dis

cernir se a consolaçao sensi

póde causalla tambem o espirito maligno , e o espirito proprio. P. Por onde havemos dis

vel

da Oraçao Mental. 77

vel lie , ou naõ he

de Deos ?

R. Naõ he facil isto , por

que para o saber fazer se reque- re o dom especial de Deos, que S. Paulo chama discriçao de espiri tos ; e muita pureza de

consciencia , para reparar nos movimentos , que pela alma pal- saõ. Mas pelos esteiros , que nella deixa6 , podemos investi gar , quem Toi o author dessas eonsolaçoens. Porque asconso- laçoens Divinas mandao diante como aposentador a humilda de: vaõ , evem quando menos o esperamos : ensinaõ , e mo vem juntamente com hum. modo pacifico , delicado , e secreto :

deixaõ a pessoa amiga de tratar pouco com as creaturas , mas de condiçao bem sazonada com todos : até a dor dos peccados , que excitai) , he doce ; e as la-

D Y

, mas de condiçao bem sazonada com todos : até a dor dos peccados , que

g"-

jS

TRATADO BREVE

grimas brótaõ sem turbulencia ,

e tempestade , como aurora que

orvalha : o amor de Deos , que

cauíàõ, he junto com mais res-

peito : inclinaô o coraçaõ ao cesprezo do mundo , e de si mes- mo ; e fazem-lhe sentir huma igualdade, e indifferença quie- ta entre injurias , e louvoresj tribulaçoens , e prosperidades. Pelo contrario as consola- çoens fingidas do espirito ma- Jigno , geraõ trévas, e escuri- dade ; fazem o homem soberbo ,

e impaciente , e indocil; e o

vaõ encaminhando para os de- leites da carne ; porque nos- soinimigo naõ nos offcrece mel í'enaõ para disfarçar oveneno:

deroandaõ á aima com grande pressa , e impeto , que faça , ovi deixe de fazer isto , ou aquillo , sem ihedarem vagar, para que

aima com grande pressa , e impeto , que faça , ovi deixe de fazer isto

o con-

da OraçaÕ Mental. 79

o consulte com a prudencia ;

porque quem quer passar moe

da falsa , nao folga que lha ro

cem : deleitao por hum modo duro , e grosseiro , e como an gustiado. Tambem he necessa rio espreitar, se a tal consolaçao vai caminhando, ainda que de longe , e pouco a pouco , a per suadir alguma cousa , que en contre as Eícrituras Sagradas , ou que desfavoreça a obedien cia aos maiores , e a caridade igual com todos : porque tudo

isto he fumo , que naõ nasce se nao de fogo infernal. Quando ás conlolaçoens , que sinto , precedeo alguma cousa prospera , de que a natureza se

pague ; como agora , le me de~ rao algum louvor , ou se dei fim a algum negocio , que me occu- pava os sentidos , e attenqaõ

D vi

&c.

, le me de~ rao algum louvor , ou se dei fim a algum negocio ,

8o

Tratado breve

&c. he final , que nascem do es

pirito , e amor proprio. Tam bem podem naícer semelhantes consolaçoens de ter os humores bem complexionados , e o cor po em postura descançada , ou de se deleitar o entendimento com alguns pontos novos, altos, e curiosos : e suppostó que es tas taes consolaçoens saõ muito pequenas , e de pouca' substan cia i aos que nao tem experien cia de outras maiores , a sua pequenhtz lhes parece delica deza, e espiritualidade.

P. Conforme o sobredito,

naõ será seguro pedir a Deos

consolaçoens ?

R. A vida de hum Christaõ

Jie imitar a Christo , e consiste esta imitaçaõ em obrar bem , e soffrer o mal , tudo por gloria de

Deos : nisto caõ pôde haver en-

' ,'j

i

'

em obrar bem , e soffrer o mal , tudo por gloria de Deos : nisto

d

gano ,

da OraçaÒ Mental. 8i

gano , e no buscar consola- çoens póde haver muitos , lalva for em algum caso raro com efi pirito muito humilde i e intenr çaó muito pura , de cobrar for-i ças para servir a Deos, ou de

conhecello para amallo.

,

P. E como se haó de rece

ber as consolaçoens , que o Se

nhor enviar na Oraçao , ou fo

ra delia ?

.

.

R. Observarei os seguintes

avisos. I. Aceitar a visita com humildade profunda, e agrade cimento. II. Nao açorar-se co-. mo pessoa appetitoíà, que lan ça a maó com pressa ao bocado t que lhe õfferecem : fénaó repor- tar-se com hum modo comedi

do, e vergonhoso, nem regei-? tando, nem affectando a dadi va. 111. Naó attribuir o favor. a merecimentos próprios , nem

-.-j

nem regei-? tando, nem affectando a dadi va. 111. Naó attribuir o favor. a merecimentos próprios

an

82

TrATADO BREVE

andar buscando com a memoria

obra boa , que eu fizeffe , sobre que aíTente , como premio , aquella consolaçaõ. IV. Naõ defcançar , ou assentar o cora- çaó naquelle favor , de sorle que me eiqueça de buscar a Deos , contentando-me com os

dons. V. Naó estender

com a imaginaçaó aqudla con solaçaó , mais do que ella dá de lì. VI. Naó imaginar por isso ,

que sou mais sarìtç , e agrada- vel a Deos : antes posso , e devo attribuillo a fraqueza das mi- nhas forças espirituaes' , que necessitaó de manter-se com este leite doce, eliquido. VIL NaÔ fazer arrojadamente gran des propositos , nem abalançar- £s a emprezas notaveis : porque a graça ausenta-fe , e fica ío a natureza. VIII. Naó entriste-

feus

cer-

abalançar- £s a emprezas notaveis : porque a graça ausenta-fe , e fica ío a natureza.

da Ora^aÔ Mental. 83

cer-sc , nem perturbar-se , quan do o Senhor se ausenta. IX. Naó descobrir o que passou pe- la minha alma , ialvo ao Con- feflur por justa caula. X. Usar destas confolaçoens para a prá tica das virtudes , especialmen te da paciencia , humildade , e pobreza , que necessitaó deste conduto para as gostarmos.

§. XII.

i

P. (~\ Uaes saõ os affe-» V/ dos , que a vonta- de ha ue exercitar

na Oraçao?

R. Distribuem-fe em tres

ciastes : huns , que pertencem mais propriamente á via purga-» tiva , que he a dos principian tes : outros , que pertencem á y ia illumina tiva , que be a dos

á via purga-» tiva , que he a dos principian tes : outros , que pertencem

apto-

84

TRATADO BREVE

aproveitados : c outros , que pertencem á via unitiva , que he a dos perfeitos. Chama-se via purgativa o estado , em que a aima anda purgando-ie de feus peccados, e desterrando feus vicios anti- gos. E por tanto deste estado Í3õ mais proprios os afFcctos de temor de Deos , contriçaó de peccados , defprezo de si , e do niundo , deíconfiariça propria , accusaçaó , e confissao de ieus delictos , in vocaçaõ dò auxilio dos Santos, lamentaçaõ de noí- íàsmiscrias , ebutros senielhan- tes. Chama-se via illuminativa o estado , em que a alma , :por esi tar já purificada das maiores trévas de feus peccados, vai re- cebendo illuminaçoens do Ceo , epkutando as vinudes áimita-

-i i

.;

das maiores trévas de feus peccados, vai re- cebendo illuminaçoens do Ceo , epkutando as vinudes

caâ

da OraçaS Mental. 85s

çaõ de Christo. E por tanto deste estado saõ mais proprios. os aftectos de esperança , exhor- taçaõ ao estudo das virtudes , desejos de imitar os Santos , amor de Christo Senhor nosso , amor do proximo , propositos de perseverança , sortaleza nas adveríidades , e outros seme lhantes. Chama-se via unitiva o esta-1 do, em que a alma já; rica de^ virtudes , e illustrada com as< verdades, procura unir-se conv Deos pela perfeita semelhança,

e resignaçaõ , querendo , ou naõ

querendo só o que conhece que Deos quer , ou naõ quer. E desr te estado saõ mais proprios os aftectos de amor de Deos , ad miração , e gozo de suas per- feiçoens infinitas , desejo de lhe dar muita honra , e gloria, sus-

'

de Deos , ad miração , e gozo de suas per- feiçoens infinitas , desejo de

86

Tratado breve

pi ros por se unir com elle, hu ma santa impaciencia da tar dança de sua vista , anniquilaçaõ da vontade propria , e outros se melhantes. Neste lugar se advirta , que ainda que a sobredita reparti çao he doutrinal , e serve para conhecer os progressos do espi rito no caminho da virtude: com tudo na praxe nunca estes tres estados andaõ taõ separados , que hum naõ participe muito dos outros ; e assim iiiccede fa zer hum principiante muitos actos , que pertencem á via uni tiva , e hum perfeito muitos af- fectos , que pertencem á purga tiva : e a mesma pessoa dentro da mesma hora póde achar-íe em estados mui differentes.

P. A materia desta Medi-

taçaõ por ventura ha-ie de va

da mesma hora póde achar-íe em estados mui differentes. P. A materia desta Medi- taçaõ por

riar

da OraçaS Mental. g7

ríar conforme se mudaó estes

;-

estados?

'

.

'

.

.:

R. Será mui conveniente, que os do primeiro estado medi rem no fim, para que o homem foi creado j na graveza do pec- cado , nos noviíumos do homem, especialmente . nos primeiros tres , e tambem nas vaidades do mundo, e miserias da vida humana. Os do segundo medi tem nos Mysterios da Vida, Pai xao , e Morte de Christo Senhor nosso. Os do terceiro nos be nefícios, e nas perfeiçoens, ou attributos Divinos.

Naó he porém prohibido, que ás vezes huns subaó , e ou tros defçaó a meditar em qual

quer destas materias. Tambem íé ha de attender á disposiçao, em que se acha o espirito , con forme os diversos tempos , e

materias. Tambem íé ha de attender á disposiçao, em que se acha o espirito , con

sue-

88

TrATADO BREVÊ;'t'ï

succeflos : porque huma medi- taçaõ serve para a occasiaõ do

delamparo , outra para o tempo da tentaçaõ , outra para quando acometo alguma eropreza do íerviço de Deos, &c. E he re-

gra geral , que se naõ ha de vio-

lentar o espirito , senaõ fazer como os mareantes , que víraõ

o pano ao vento. -,:j:;r; .'ri ; t <.-:

)

.

;:.jvî

T7 M que fórma se po-

exercitar os

sobreditos affectos ? Tomára alguns exemplos praticos , .por onde me governasse. - . - R. Os pios , e eruditos va- roens Joaõ Bona Cardeal , Lu- dovico Blosio , e Nicoláo Avan- cino fizeraõ já esta diligencia.

A sua imitaçaõ proporemos aqui

- P. i- ,. t

JHídem

dovico Blosio , e Nicoláo Avan- cino fizeraõ já esta diligencia. A sua imitaçaõ proporemos aqui

da ORAqAb Mental. 8? aqui alguns exemplos : adver tindo primeiro ao exercitantç tres cousas. I. Que se naó áte a palavras , nem as estude. IT. Que o principio mais erficaz^, e geral , donde a vontade toma es tes movimentos : ou~ se accende

nestes affectos , he a Fé sobrena tural, aíïim em commum de tu do o que Deos diste , e a Igreja ensina , como em particular des te , ou daquelle mystcrio. III.

Que, ainda que as obras, que

cada hum faz em serviço de Deos , fad as que provaó o amor,

que lhe tem , e naô os affectos ternos , e devotos ; com tudo naó despreze estes : que o ensaiar- se na espada preta, o fará de- .pois brigar com a branca : e ain da que lhe pareça , que na6 faz estes actos com toda a verdade , e de coraçaõ , naõ 4efanime ,

;

a branca : e ain da que lhe pareça , que na6 faz estes actos com

que

oo

Tratado breve

que de cada vez os fará me lhor.

F O R MU LAS, o u EXEMPLOS DOS AFFECTOS.

I. Reio, Senhor, com fi-r-

V-^ me consentimento de meu juizo , que tudo o que por vossa iãgrada boca dissestes , tu do o que nas Escrituras iàntas nos revelastes , tudo o que pe la Igreja Catholica nos ensi nastes , he verdade , he certo , he indubitavel: faltará o Ceo,

e a terra ; e a minima destas

verdades naõ será fallida. - II. Se estas: verdades faõ erro,

i j

faltará o Ceo, e a terra ; e a minima destas verdades naõ será fallida. -

da Oraça.9 Mental. 91

erro; ou vós, Senhor, vos en ganastes , ou nos enganastes, porque he certo , que vós as dis sestes. Mas affiin como impoífi- vel he , que vós , que fuis infinita Sabedoria , vos enganasseis ; e vós, que sois infinita Bondade , nos enganasseis : affim he impos- sivel naõ serem estes mysterios verdade.

III. Que ha Deos hum na

substancia , trino em Pessoas ; que a segunda , que he o Verbo Divino , se fez homem , e pade-

ceo por nós ; e tudo o mais , que professamos no Credo ; he mais certo, que o que vem os olhos, apalpao as maõs , e a razaõ na tural convence.

IV. Senhor , se levais gosto

de que eu dê a vida em testemu nho destas verdades ; peza-me de naõ ter mil vidas para dar toa

, se levais gosto de que eu dê a vida em testemu nho destas verdades ;

das :

Tratado breve

das : mas eu aceito o favor , ain da que me conheço indigno de me quererdes para officio tad honrado, como he testemunhar

a vossa Fé : e já sei , que quem me der o officio , me dará os cabedaes da graça necessarios

para elle. .V* Senhor meu Jesus Chrisr to , para eu saber , que estais real , e verdadeiramente no San- lissimo Sacramento , nao me sa<5 necessarios os olhos da cara , caso que vos descobrísseis ; nem os milagres, que por este Mys- terio tendes obrado ; nem os esteitos , que experimentaõ as almas perfeitas , que vos rece bem : eu tenho por onde o sei com maior certeza ; porque a Igreja , a quem vós o ensinas

tes, mo ensina.

:

Aãos

vos rece bem : eu tenho por onde o sei com maior certeza ; porque a

da ORAqAÒ Mental, pj

ï

Aãos de Esperança. '-

I. "^T A bondade , e mi*

J_\| sericordia infinita de meu Deos , e nos merecimen tos de seu Filho , e meu Senhor Jesus Christo confio , que hei de alcançar o fim , para que elle

me creou, que he velio, ego- zallo eternamente , e que me

ha de dar graça para eu fazer da minha parte boas obras.

Ií. Meu Senhor Jesus Chri

sto, fonte de todo o meu bem:

nenhum bem quero , nem es pero nem nesta , nem na outra

maó , e

pela vossa mao : em vós unica

mente ponho toda minha confi ança : bem fundada vai : des- cança , coraçao, em teu Deos, que as suas misericordias naô

vida , senao da vossa

E

ança : bem fundada vai : des- cança , coraçao, em teu Deos, que as suas

tem

94

Tratado BREVfe

tem numero , nem as suas pro messas saliencia.

III. Deos açoutado , Deos

cuspido , Deos crucificado , Deos morto , Deos alanceado ! Quem naô ha de confiar neste Deos , que me ha de dar tudo o que me for necessario para mi nha salvaçaó ? Mas que me cas tigue , mas que me leve ao Infer no antes de acabar-se-me a vida

presente, neste Senhor confio, como se já tivera nas raaós o que pretendo com as esperanças.

IV. . Folgo , e alegro-me de

que só em vós , meu Deos , possa assentar segura minha esperan

ça ; era vós , que unicamente sois

o meu refugio , o meu valedor ,

o meu amparo.

V. :

Senhor Jesus , vós vi

estes á terra evangelizar o Rei no dos Ceos : e havendo en-

i

valedor , o meu amparo. V. : Senhor Jesus , vós vi estes á terra evangelizar

- com-

í>a OraçaS Mental. 9^ :ommcndado a voíïbs A posto ns , que prégaflem o mei'mo a :oda creatura , vos recolhestes loEmpyreo, promettendo tor- ìar no ultimo dia : agora , Se- ìhor , eu protesto , que aqui es- :ou esperando , que torneis, e :umprais tudo : vinde , botn [esus , vinde já , naõ tardeis tanto : e em quanto tardais , líaô* permittais, que aalampada da "é , e caridade se me apague; mtes resplandeça mais com o îxercicio das boas obras.

Aóîos de Amor de

I. porque vós

O ibis que.tn sois , hum

Deos deinfinita bondade, pen- reiça6 , e formosura , he m'mha

nomade firme * e determinada mtepôr vossa honra , egloria ,

E ii

e

bondade, pen- reiça6 , e formosura , he m'mha nomade firme * e determinada mtepôr vossa

q6

Tratado breve

e beneplacito a todo o bem

creado. Amo-vos , Senhor , mais que a minha vida , mais qut

a minha honra , mais que a mi

nha alma , mais que a minha salvaçaó , mais que todas as cou' sas creadas , e poíîiveis : e me alegro mui de véras , mui den tro dò coraçao , de que vós se

jais taô santo , taó poderoso taô glorioso , taõ bemaventu-

rado.

- II. Meu Deos , meu amor, minha gloria , minha felicida de , e todo meu bem : quem vo amára quanto vós mereceis se amado! Oh, se de mim, e dj todas as creaturas forcis tac amado , quanto em vós mesmo,

« para todas as creaturas sol

amavel !

 

111.

Oh, se como oincen

io

se derrete nas brazas , a sub-

.

stan-

todas as creaturas sol amavel !   111. Oh, se como oincen io se derrete nas

r>A OraçaS Mental. 97-

tancia toda de minha alma se ierretêra em puriflimos ast'e- Slos de vosso amor , para incen sar o pé de vosso throno ! Quem tie dera , que todas as arèas do nar , todos os atomos do ar , to- 3as as estrellas do Ceo , todas js folhas, estores do campo fo- rao mundos cheios de cora- çoens , e coraçoens cheios de amor ; amor vosso mais sino , e abrazado , que o de todos os Se rafins !

IV. Viva oEmperador po-

tentissimo de todo o Universo ; viva, e reine no meu coraçaõ ,

e nos de toda a creatura capaz de conhecello, eamaiio: viva por seculos de seculos , e além da eternidade: abaixo coroas, abaixo potestades , e principa dos; adorai-o todos, porque só elle he Santo, só elle Senhor,

E iii

abaixo coroas, abaixo potestades , e principa dos; adorai-o todos, porque só elle he Santo, só

98

TRATADO BREVE

só elle he o Altissimo , e digno de infinita gloria , magnificen- cia , e acatamento. V. Amabiliíïìmo Jesus, Filho de Deos , e verdadeiro Deos , Filho de Maria San- tiífima , e verdadeiro homem :

prezo me tendes com vossa ines- timavel formosura : e eu folgo com estas doces prizoens , e as estimo mais , que se lográra to- dos os Senhorios do mundo :

folgo de fer vosto escravo , com- prado com vosso Sangue , mar- cado com a vossa Cruz. Vós para mim sois cariífimo , e mui- tamuito agradavel , porque to- do sois bellissimo , emuito mui- to para descjar. Entre tantas aimas , que de véras vos amaõ , dignai-vos de contar a minha :

tende mais esta em vosso l'ervi- ço, e servi- vos delia para vos

de véras vos amaõ , dignai-vos de contar a minha : tende mais esta em vosso

da Oraçao Mental. 917 louvar, eamar, e para tudo a que delia quizerdes.

Amor a Maria

-

Santijfima* .

.

I. /^V Uem haverá , que

\Jr ame a Deos , e nao ame a Mai de Deos, aEfpofa deDeos, aFilha pri-

mogenita de Deos ? Senhora , para vós naó serdes muito a-

todas as creatúras ,

nao havieis de fer hum mar de graças , hum thesouro im- menso de virtudes , hum Ceo animado, onde as períeiçoens saõ mais , que no fïrmamento as estrellas ; nao havieis de fer sempre piedosa com os pecca- dores , sempre liberal com os

mada de

neeeflîtados ; naá havieis de fer Maria. Mas pois tudo ista

.I.«

E iv

dores , sempre liberal com os mada de neeeflîtados ; naá havieis de fer Maria. Mas

fois,

loo .Tratado breve Ibis , e eu me consolo , de que o sejais , e tudo em vós está bem

empregado , e essa coroa de Emperatriz de todas as creatu- ras parece , que vos vem nasci da : eu , ainda que indigno, terei atrevimento deamar-vos, a. vós subirá o meu affecto , em meu coraçao vos farei hum lugar o melhor , que eu puder ; eu vi- yirei perpetuamente lembrado de que vós sois Senhora da mi- Jiha alma , e causa de minha ale gria.

II.

Que pura , que inno

cente , que humilde , que fiel , que prudente , e magnanima , e piedosa , e constante , e compas siva ! Quanto lirio , quanta açu cena ! como recendem ! Aqui pasta o Cordeiro de Deos : vin de , affectos de minha alma , e seguio-o para onde quer que for*

! como recendem ! Aqui pasta o Cordeiro de Deos : vin de , affectos de

da ORAqAÔ" Mental, ioi

III. Basta , Creatura mila-

grosa , que tivestes poder para attrahir o Verbo Divino do seio do Eterno Pai ! Basta, quelòu-t bestes encantar a ira justadoTíH do poderoso com hum Faça-se. da vossa bòca ! Attrahi-me , Se-. nhora , para que vos ame ; en- cantai-me o coraçaõ, para que; de tudo o mais se eíqueça , e íó de vós se lembre. IV. Ó Maria gloriofissi- ma , ó Maria Senhora de ex cellente formosura : digne-se vossa Magestade de pôr feus cle- mentiflìmos oìhos neste humil- de servosinho feu , coroo fazen- da que heeomprada com osant gûe de feu Filho ; e alcance-

lhe deste Senhor agraçadesua devoçaõ ,' ç arror : porque stlria couíàjndignifllma ; naõ amar o íérvo a iua Senhora , o vafíalld

f

E Y

,' ç arror : porque stlria couíàjndignifllma ; naõ amar o íérvo a iua Senhora ,

a iua

102

Tratado breve

a sua Rainha , o peccador a sua

Advogada , e a creatura a Mãi

de seu Creador.

V. Oh graõ milagre da

Omnipotencia de Deos ! oh

oh

creatura , que mais agradaste a Deos , que todas as creaturas !

todo o genero humano te ame,

c louve , e honre , e sirva , e ado

re , e magnifiquei pois todo o genero humano te he devedor naõ menos , que de hum Deos humanado. Bemdito seja quem te encheo de graça : bemdito quem tecreou para tanta gloria sua : bemdito quem se determi nou a ser fruto do teu ventre.

Amor da próximo.

obra digna da sua maõ !

I. À Mo a todos meus

ii proximos , e a cada

hum délies como a mim mes

Amor da próximo. obra digna da sua maõ ! I. À Mo a todos meus ii

mo:

da OraçaS Mental. 103

mo : todo o bem , que para mim quero, para elles quero: toma ra ser sufficiente para remediai? todas suas miserias , e trabalhos de alma , e corpo : abomino , e retracto tudo aquillo , em que por obra , palavra , ou pensa mento offendi a qualquer de meus irmaós. Dai-me vós, Se.» nhor , luz para o conhecer /e graça para o emendar, e satis fazer.

II. Senhor, que nos amas

tes fendo nós vossos inimigos, e nos mandastes amar a todos

por amor de vós : dai a

meus proximos vossa graça , e

todos

lhes convem , para que mais Tos sirvaõ, e amem. Trazei á luz de vossa Fé os Gentios ; & uniaõ de vossa Igreja os Scis- maticos j ao eítado de vossa gra- E yi

Trazei á luz de vossa Fé os Gentios ; & uniaõ de vossa Igreja os Scis-

104

Tratado breve

ça os peccadores ; ao fervor de vossa caridade os tíbios ; ao lu me de vossa gloria a todos, es pecialmente as almas , que pe- nao no Purgatorio. Conlolai os attribulados , alliviai os en fermos , amparai os persegui

dos ; soccorrei os tentados ; man tende os pobres , e famintos; acudi pela causa das viuvas , e orfaós : vós sois o .remedio de

todos , e a todos

sejais fazer bem : se eu sirvo sara instrumento vosso nesta obra , eu me offereço com todo

o coraçao.

podeis , e de

III.

Deste affecto de cari

dade a ninguem excluo , nem os que me foraÓ ingratos , nem os cue faõ meus inimigos , nè'm Os Hereges , Turcos , eJudeos : a todos geralmente abraço , e me ta nos idos de meu coraçao ;

.7

, nè'm Os Hereges , Turcos , eJudeos : a todos geralmente abraço , e me

x

por-.

da ORAqA.5 Mental, iojr - porque vós , dulcíssimo Jesus, meu Mestre , e Senhor , a/fim o mandastes, e eneommendastes : e Te mandasteis , que amaste aos mefnos demonios , até os de monios amara , porque vós o mandaveis : mas só estes abor reço , e abomino , porque ló es

tes laõ volíos inimigos obstina dos , e nunca o poderáõ deixar de ser.

IV. Declaro , Senhor e

protesto , que esta he minha von

tade , ajuda ndo-me vossa gra ça > que a nenhum proximo meu

quero ter aversao , nem inveja , nem a minima sombra deodio:

de nenhum quero tomar vingan

, nem que outrem a tome :

perdoo todos os aggravos , por

maiores que fossem : e para to dos meus irmaõs desejo a mes ma felicidade , que para mim :

ça

os aggravos , por maiores que fossem : e para to dos meus irmaõs desejo a

isto

IOÓ TRATADO BREVE

jsto por servir-vos a vós , que aí- íìm vos agrada.

V. Concedei-me , Senhor ,

amar a meus proximos , naó

a lingua , e palavras , lenao com a verdade, e obras ; para que tudo , o que eu quero que uí'em

comigo , use eu com elles.

com

Contriçao.

I. Ç Enhor Deos , Trino ,

- O e Uno , por serdes vós

quem sois , e porque vos amo ,

e estimo sobre todas as cousas ,

me peza de rodo o coraçaó de

vos naver ofFendido : proponho com vossa graça de nunca mais vos offender : dos peccados , que contra vós tenho commettido, vos peço perdaó , e espero al- cançallo pesos nierecimentos 4e rneu Senhor Jbsvb Ghristo*

vós tenho commettido, vos peço perdaó , e espero al- cançallo pesos nierecimentos 4e rneu Senhor

II.

da OitAqAÔ Mental. 107

II. Clementiíïìmo Dcos ,

quanto me peza de haver-vos ag-

gravado ! Fiz mal : liavei de mim misericordia. Deíde a pre sente hora naõ quero quebran- lar mais vossa Jei : naõ quero consentir mais peccado algumr

antes qualquer tormento, qual- quer infamia , a mesma morte , o mesmo Inferno , do que tor- nar a oíFender voila bondade.

III. Meu Deos , justissima-

mente estais indignado contra mim , pois vos offendi taõ gra- vemente. Já reconheço que fiz

mal , e disso me arrependo , e proponho firmemente emendar-- me : abomino , e detesto todos meus peccados, porque saS of fensas de vossa Magestade , a quem quero daqui por diante amar sobre todas as cousas.

IV. Quantos peccad«s l Quaô

saS of fensas de vossa Magestade , a quem quero daqui por diante amar sobre todas

io8 Tratado breve

Quao feios , quao repetidos , quaõ inexcufaveis ! Por pala vra , obra , e pensamento , con tra hum, e outro, e outro manda mento ! Diante de vossos olhos, depois de tantos beneíícios , e valendo-me destes mesmos para offender-vos ! Quem dará lagri mas a meus olhos , e dor a meu coraçao ? Grande miseria foi a minha ! Porém maior miseri cordia he a vossa. Eu sumo to dos meus peccados no mar de vosso langue , e os queimo no incendio de vosso amor. Peza- me por íerem offensas vossas. Nunca mais desprezar vossa bondade : nunca mais assanhar

vossa justiça: nunca mais ser in grato a vosso amor.

V. Veja vossa Magestade

se ha algum remedio, para que 0 naõ tenha offendido , que se o ha,

ser in grato a vosso amor. V. Veja vossa Magestade se ha algum remedio, para que

da ORAqAÔ Mental. i09

ha, e eu posso dar-lho , aqui es tou para tudo o que de mim quizerdes fazer : se estas offen- làs se apagao com se esgotarão sangue de minhas veas , esgote- se até a ultima pinga : se póde desfazer-se o mal , que tenho sei to , corn eu perder o ser ; em bora , aniquile-se. Mas bemdi- ta seja voila misericordia ; que o sangue , que por mim derra

mastes , e as affrontas , com que envilecestes , e quasi aniquilas tes vosso fer, tem virtude ('eel-> las só tem esta virtude) para de tal modo apagar todos os pec- cados , como se nunca foraõ

 

0:

'Vú , k. :!.'.-. -;'î

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  0: 'Vú , k. :!.'.-. -;'î - :. ' . - .- A .< '.

Je*

no Tratado breve

AccusaçaS de fi mesmo.

I. H quanta foi até

Vyagora a minha ne gligencia ! Como esperdicei o rempo concedido para me con verter , e emendar ! Como re sisti aos auxílios da vossa graça , e me fiz surdo ás vozes , com que me chamaveis I Errei co mo a ovelha, que se desgarra. Que tenho que dizer , senaõ,

e em que

tenho que esperar , senaõ em que sois misericordioso ?' IL Pequei diante de vossa presença , diante de vossos olhos commetti a maldade , para ler des justificado em vossos juizos ,

que sou miseravel ?

e faliirdes vencedor.

III. Eis-aqui está o que tor

nou a crucificar vosso Filho:

juizos , que sou miseravel ? e faliirdes vencedor. III. Eis-aqui está o que tor nou

.

Eis-

da OraçaS Mental, nr Eis-aqui a mais abominavel, e ingrata creatura de quantas a terra sustenta , e o Sol cobre :

nem o poíïb, nem oquero ne- gar. Confesso minha maldade :

nenhuma desculpa renho que allegar diante de voíïa justiça :

minha culpa , minha culpa , mi nha maxima culpa.

Confusao propria»

I. "^T A6 sei , Senhor , co^

JL t| mo tenho cara para apparecer diante de vofla Divi- na Magestade ! Se meus pecca- dos foraó leves , se foraõ pou- cos , se nascêraó fomente de ignorancia , se o offendido naó fora meu Redemptor , que mor- rco por mim , já o pejo.fora mais coleravel : mas^ay de mim , que íàó graves, e îauitaífno^.

Redemptor , que mor- rco por mim , já o pejo.fora mais coleravel : mas^ay de

ii2 Tratado breve

mes , e repetidos muitas vezes ,

e diante de meu Deos , que me

comprou com a sua vida em hu

ma Cruz ! Oh que vergonha esta ! que confusao ! Montes, ca- hi sobre mim , e escondei-me , se he possível , da face de meu Deos.

Que diria de mim o

meu Anjo da Guarda , quando me estava v^ndo offender a Deos ! Em que conta estaria eu no conceito de meu Senhor Je

sus Christo, que he a mesma honra , decoro , e santidade ! Ah peccador cego , ingrato,

e infame ! A quem servias ? Ao

diabo , em iugar de servir a Deos ? Por certo era bem acer tada troca : tal foi a dos que es

colheraõ a Barrabaz.

II.

Des-

, em iugar de servir a Deos ? Por certo era bem acer tada troca :

da OracaÔ Mental. 113

Desconfiança de fi.

I. T) Eceadnr , ainda que- JT res mais experiencias de tua fraqueza , e inconstan cia ? Acaba de crer , que de tì naó podes nada , nem levantar do chaó huma palha , se Deos

te naó ajudar. Es estatua com pés de barro : se a pedra de qualquer occafiaó te toca , estás desfeito em pó : es cana fragil , que qualquer vento a dobra: se te fundas em ti , edificas sobre arêa , e em vindo a tempestade padecerás ruina.

II. OIi quanta miseria ,

quanta fragilidade , quanta ig norancia ! Naó tem chaó este poço : parece que sou omni potente para o mal : dos tres ini migos da alma , eu proprio sou

! Naó tem chaó este poço : parece que sou omni potente para o mal :

o

H4 Tratado breve

omais prejudicial, emais con

e mais astuto ; e assim sou

peior , que o demonio. Quem

M fia

demonio: efe do demonio nin

guem póde fiar- se , muito me nos se póde fiar de si.

III. Quantas vezes promet-

ti a Deos emenda , e quantas lhe

faltei ? Quantas tenho começa do , e tornado atrás em meus propositos ? De huma hora para outra sinto o coraçao mudado

mais facilmente, que as folhas

de si, bem se pode fiar do

tinuo,

se

mudao com o vento. Eu sou

o

que loucamente imaginava de

mim , que era hum grande ho mem , e estranhava os defeitos dos outros. Oh que cegueira !

IV. S. Filippe Neri dizia

de si neste sentido : Estou deses

perado. E outra vez : Senhor, guardai-vos de mim > que a cha

Filippe Neri dizia de si neste sentido : Estou deses perado. E outra vez : Senhor,

ga

DA ÛRAqAO MkNTAL. I ga do lado vo-la farei maior. Se o Santo sentia de si taó baixa mente, que devo sentir eu?

Confiança em Deos. -

de

jLx. que te turbas ? por que te desanimas ? De ti naó podes nada ; mas com a graça de Deos , que te conforta , tu

do podes.

I.

A

Lma minha ,

II. Alma minha , tens gran

de Deos , e para cujo poder tu do he facil , e que elcolhe as cou sas fracas para com ellas con fundir as fortes : em nome de Deos , huma funda te basta con tra hum gigante : mete-te nas maós de Deos , e ficarás conver tido de cana fragil em aço fir me. Quem confiou neste Se nhor , e sahio confundido ? Se que

de Deos , e ficarás conver tido de cana fragil em aço fir me. Quem confiou

Il6 TRATADO BREVE

queres que Deos te ajude mui- to , confia nelle muito.

III. Quem fez de perscgui-

dores Apoítolos ? A graça de Decs. Quem fez de publicanos Evangeliítas ? A graça de Deos. Quem fez até meninos defpre- zarem os Reis , e Tyrannos com todos feus tormentos ? A graça de Deos. Quem faz em tantos Santos , que o coraçact humano feja amigo da Cruz , da affronta , e do defprezo ? A gra ça de Deos. Oh graça de Deos , como és poderoía ! Tu ferás a penha viva , sobre a quai edisi- carei minhas pretençoens , eat- lentarei minhas efperanças.

Temor de Deos.

I. A

Ntes quero fugir

il para o ínferno , do que Yer o rosto de Deos irado.

minhas efperanças. Temor de Deos. I. A Ntes quero fugir il para o ínferno , do

As

da ORAqAÔ Mental. 117

As palavras , que sahem da sua boca, saó espada cortadora de dous fios , que penetra atéoes- pirito ; e hum rio de fogo abra- zador , que tudo Ihe desappa- rece diante. Em presença da Magestade deste graó Senhor as columnas do Ceo se estreme- cem. Quem vos nao temerá , oh Rei soberano , e omnipo tente ? Quem escapará da vos- sa ira, ou quem se poderá de fendes de vossa justa indigna- caó ?

II. Horrenda cotisa he ca-

hir nas maós de Deos vivo. Naõ entreis, Senhor, emjuizo com vosso íérvo : que de mil

perguntas , e cargos , que me fì- zerdes , nao sabcrei responder a huma ; nem diante de vos se justificará nenhum vivente. Vos- sosjuizos saÒ hum abysmo gran-

F

nao sabcrei responder a huma ; nem diante de vos se justificará nenhum vivente. Vos- sosjuizos

de

li 8

Tratado breve voffòs , para

de» e basta serem

ferem justificados. ; -

III. Naõ temas , alma mi

nha , os potentados da terra, que o mais que podem fazer, com permiísao de Deos, he tirar- te a vida : teme aquelle Senhor , que póde lançar tua alma , e corpo no fogo eterno. Oh Se nhor, por amor de vós mesmo vos rogo me nao lanceis devoi la presença , nem tireis de mim o vosso Espirito Santo. Atraves

sai com vosso santo temor meu coraçaõ , para que me nao as saste hum ponto de vossa Lei.

Desprezo de si.

I. s\ Uem sou eu , quem

V-/ fui , quem serei , e que posso ser ? Fui nada, sou lodo, serei bichos,

Lei. Desprezo de si. I. s\ Uem sou eu , quem V-/ fui , quem serei

e

da OraçaÔ Mental, it<>

c poíîb fer peior , que o Infer

no. Oh de quantas miserias es tou cercado em corpo , e alma !

me naõ

sustentara por momentos , que monstro de abominaçoens fora!

Oh se a maó de Deos

II. Que tens de bem , al

ma minha , que naó recebesses de Deos ? E se o recebeste , de que te ensoberbeces , como fe fora proprio ? Para que te enga nas contigo mesma ? De que te empinas , e tomãs orgulho , tu

que naó sabes se agradas a

Deos , e sabes muito bem , que

o desagradaste , e offendeste

gravissimamente ? Nada es , na

da podes , nadá' vales. '-' - í

III. Ouzias à levantar olhos

para o Ceo , tu que por miseri cordia de Deos naó ardes já ho

Infl-rno ? Ouzas a tomar vanglo ria diante de Deos dos dons , e

v

-

F ii

por miseri cordia de Deos naó ardes já ho Infl-rno ? Ouzas a tomar vanglo ria

mer-

çiQ

Tratado breve

mercas do mesiiia Deos ? Na sua casa furtas a honra ao mes mo Deos ? Quem es tu diante

de Deos ? Que sentirá este Se nhor de ti , que conceito fará de tua .pouquidade , e miseria ? Pois acaso podes tu ser mais na realidade , do que es nos olhos de Deos ? Olha para ti , naó fujas de te ver no espelho do

desengano

senta por huraa vez , que es

nada.

: conhece- te , e as

. u->

-

IV. Bem considerada a ver

dade , nao ha em mim cousa sá ,

ainda depois que Deos me al- luruiou, No amor Deos , e do proximo sou hum regelo , e pa ra o meu amor proprio sou hu- ma braza viva : sou diligente para as cousas do mundo , des cuidado para as do Ceo ; a mi nha Oração naõ tem de Oraçao

braza viva : sou diligente para as cousas do mundo , des cuidado para as do

\

i5A ÛRAq.\Ô Mental. 121

mais , que o nome , a minha pe nitencia he de amigos ; nas ac- çoens naó ha modéstia , nemnas palavras discriçao , nem sobre o coraçao vigia, nem nos senti dos freio. Como me lembraó os aggravos ; e como , em me to cando algum desprezo , os mon tes de minha soberba fumegãó i Onde está aqui o fundamento para presumir ? Naó he isto ser til , e desprezivel ? Para mim este ponto deve ser taó certo , e indubitavel , como se fora de Fé.

V. De verdade o meu lu

gar he aos pés de todas as mais creaturas. Muita mercê me faz

quem me injuria;, quem : me despreza: he obra de justiçai, e de misericordia ; de justiça , porque despreza o desprezivel ; de misericordia , porque me

F iii

de justiçai, e de misericordia ; de justiça , porque despreza o desprezivel ; de misericordia

aju-

122 Tratado breve ajuda; a conhecer-me por esse modo. No ponto, em que eu ima ginar outra cousa , vou perdido.

Desprezo do mundo.

h f \ H como saõ vis , e

\_S desprezíveis todas as cousas terrenas , quando po

nho os olhos nas celestiaes ! Bem considerado o mundo , sua gran deza he pequenhez , sua abun dancia pobreza , sua sciencia ignorancia , suas alegrias tris tezas , sua luz trévas, sua feli cidade miseria : aqui a honra he hum pouco de fumo , a fazenda

he

huma pouca déterra, e a vi- 1

da

he servir á corrupçao

:-r;.-.

II. Pafla o mundo como fi

gura , e todas as couías , que

nelle ha , por momentos iè mu- daõ. Vaidade de vaidades , e

;

ï

'.'

como fi gura , e todas as couías , que nelle ha , por momentos iè

tu-

da OracaÒ Mental. 123 tudo vaidade : só o amor de

Deos permanece, e o premio, que noCeo nos está preparado.

III. A Deos mundo : nada

teu me enche os olhos: todo es huma mentira armada de infini tas mentiras. Quem bebe do teu calix dourado , no fim lhe amargaó as fezes : quem se co roa de tuas flores , por baixo o lastimaó os espinhos. Basta já de enganar-me contigo : naó queremos mais paz , nem de ti

espero cousa , que me satisfaça.

IV. Acima coraçaó: lá no

Ceo tens os bens verdadeiros, para que foste creado. A terra naó he senaó lugar de trabalhos, de mudanças , de enfermidades * dementiras, de desgraças , igA

norancia , malícia, e peccado; e tudo vem a parar na morte , e em hum incendio universal , em

F iv

desgraças , igA norancia , malícia, e peccado; e tudo vem a parar na morte ,

que

124 Tratado breve que se ha deabrazar o mundo. Só quem o naõ conhece o es tima.

Imitaçao de ChriHo.

meu Deos foi j : J taõ misericordioso pa ra com os homens 3 que os quiz ensinar pela propria peíloa de

seu dileftiffimo Filho , e para àsso o mandou á terra , e o pro- poz por exemplar de todas as virtudes : eu quero , mediante a sua graça , aprender por es te exemplar. Elie disse , que era caminho, verdade, evida:

pois se eu o creio como verda de , e espero alcançallo como .vida , quero tambem seguillo como caminho.

II. Este he o caminho , al

ma minha , naõ tens que buscar

como .vida , quero tambem seguillo como caminho. II. Este he o caminho , al ma

ou-

da ORAqAb Mental. 12?

outro. Oh como he direito , e seguro , e cheio de luz ! -faze conforme o exemplar , que te he mostrado no monte Calvario, e vás certa de que agradas a Deos. O Eterno Pai deo teste munho no monte Thabor de que este era sem Filho , que muito lhe agradava , e que ou- vissemos a sua voz. Ouvir a sua voz he seguir a sua doutrina :

segue a sua doutrina , e agrada

rás a Deos. : i

'.v

.

'.

«

UL Repara -, 1 que nenhum Santo ha , nem houve , nem ha de haver, que naó caminhasse pelos passos da imitaçao deste Senhor : e quanto melhor o imi tarao, mais santos > e perfeitos foraó. Por certo naô está este original escondido a teus olhos, estando manifesto aos de to dos : olha tambem para elle,

Por certo naô está este original escondido a teus olhos, estando manifesto aos de to dos

ii6 Tratado breve

e vai lançando as tuas linhas

como

dará. Vês como he pobre de es

pirito ? pois naó sejas afferrado aos bens da terra , nem ainda aos dons de sua graça. Vês co mo perdoou as injúrias ? pois naó desejes tu vingança. Vês como fugio das honras ? pois pa ra que as buscas ? Vês como toda sua vida foi trabalhos , e Cruz ? pois naó tenhas horror á Cruz, e abraça-te com os tra balhos. Isto he ser Christaõ na substancia , e naó somente no nome. IV. Deos posto em huma Cruz ! e por aquelles mesmos a quem honrara , e fizera tanto bem ! espirando com morte taô afrontosa , tao pública , taõ cruel ! escarnecido , infamado , desamparado ! e tudo pelo ar

.

puderes, que elle te aju

4

den-

, tao pública , taõ cruel ! escarnecido , infamado , desamparado ! e tudo pelo

da ORAqAÒ Mental, itf àentiflimo amor , que teve aos homens! Alma minha, que te demandaó estes exemplos ? em que obrigaçaõ te poem ? Deves ler mais humilde , que o pó da

terra ; deves crucificar o teu. amor proprio , deves amar , e soffrer a todos , deves ser san to: até agora naô cuidaste dis

to , como se Christo viera ensi

nar as pedras a quebrarem-se ,

e naó a ti que quebres de tua

condiçaó , de tua dureza. Ain-*

da he tempo de começar : ap- plica-te , e começa.

Ojserecimento dos mereci mentos de ChriHo aseu Eterno F ai.

I. s\ Mniporente Eter- V^/ no Deos , eu vos o£- fereço , conlãgro , e dedico to-

F vi

de ChriHo aseu Eterno F ai. I. s\ Mniporente Eter- V^/ no Deos , eu vos

das

123 Tratado breve

das as obras , e trabalhos , que yosso dilectissimo Filho , e meu Senhor Jesus Omito , obrou , e padeceo por vossa gloria , e nos- sa salvaçao : aplaque-se vossa justiça com o sacrifício desta

tiostia purissuna , santissima , e preciosissima. II. Senhor , vossa Mages- tade foi servido de dar-me a seu Unigenito Filho para me ensi nar , remir, e salvar : agora eu o torno a dar a vossa Magestade , para que por elle , nelle , e com elle receba toda a honra , e to da a gloria.

III. Eterno Deos , Princw

pio sem principio , e Pai de meu Senhor Jesus Christo : por que sei , que as obras de voflo Filho vos làõ infinitamente mais aceitas , e agradaveis , que as de todos os Santos juntos, eu vos

que as obras de voflo Filho vos làõ infinitamente mais aceitas , e agradaveis , que

da OraçaÔ Mental. 129

offereço todos os merecimentos desteSenhor, desde o instante, em que incarnou , até o instan te , em que espirou na Cruz:

lembrai-vos da sua pobreza , mansidaó , paciencia , <j carida- de : lembrai-vos de feus traba- lhos em todo odiscuríò de sua paixao; daquellas angustias no Horto, daquelle iilenciodiante dos Pontifices j daquella dor, e pejo quando foi amarrado á columna ; daquella afronta , e cançasso quando levou a Cruz pelas ruas de Jerusalem entre dous ladroens ; daquelle desam- paro quando se queixou na Cruz :

tudo vos offereço como sacrifi- cio , que encheo plenissimamen- te todas as medidas de voflb agrado. Agora , Senhor, pon de os olhos no Filho innocente , e perdoai ao servo peccador.

te todas as medidas de voflb agrado. Agora , Senhor, pon de os olhos no Filho

Je-

I30 TRATADO BREVE

Acçaô de graças.

I. Ue corresponden-

f

cia terei com meu

f

Deos , por tantos ,

e taõ grandes bencficios , que me tem feito? Nenhuma outra póde dar-lhe a pcbre creatura , lènaõ o reconhecimento desses meímos beneficios comcoraçaõ rendido , e affectuoso. Insinuas

favel caridade , e dignaçaÔ ,

com que tratais este servo inutil , que naõ merece senao estar ar- dendo nos infernos.

.II.

Senhor , se eu quizera

contar as mercês , que me ten des feito , quando acabára de as contar? Vós me creastes á vos- sa imagem , esemelhança; vós me déstes hum Anjo , que oie

»', -

de as contar? Vós me creastes á vos- sa imagem , esemelhança; vós me déstes hum

acom-

da ÛRAqA.5 Mental. 13 r

acompanhasse , e defendesse ; vós me allumiastes comaluzde volTa Fé ; vós me chamades com mìsericordia , e esperastes com paciencia ; vós me sarais a aima com vossa graça ; vós me susten tais com vossa Providencia ; . vós me dais vosso Corpo , e Sangue , eAlma, e Divindade no Santiíi íïmo Sacramento do Altar ; vói me convidais para viver com- vosco eternamente no Ceo : naõ

-, era

que me naó estejais fazendo bem. Oh que bom Deos ! Oh que bondade taó fina , raó dek intereíTada ! Bemdito seja , e louvado , e magniíìcado para sempre vosso nome : gloria , e honra , e louvor vos seja dadû por todas as creaturas , por te* da a eternidade : tomára que o meu coracaó fora, infinitos cora^ çoens

ha hora , nem mome n ta

as creaturas , por te* da a eternidade : tomára que o meu coracaó fora, infinitos

13 z

Tratado breve

çcens para vos sacrificar todos em agradecimento de tantos be nefícios.

Aniquilaçao própria.

. I. 3VT Ada sou, nada pos- JL\I lo, nada valho. De nada fui creado , e em nada me tornarei , tanto que me loltar a maó de Deos. Sem o auxilio da graça do Eípirito Santo, nem o nome de Jesus posso tomar na boca, de iorte que me aprovei te ; nem hum ló peníamento bom poflo fazer , se Deos mo naó inspirar , e me ajudar a fa- zello.

II. Que sou eu a respeito

da redondeza da terra ? naô ap-

parece o meu fer. Que he a terra comparada com o Firma mento? hum pontosinho. Que

da redondeza da terra ? naô ap- parece o meu fer. Que he a terra comparada

da OraçaÒ Mental. 133 lie o Firmamento comparado com o Empyreo ? outro ponto. Que he o Empyreo comparado com a Immensidade Divina ? he

como senaó fora. Logo que se rei eu na presença de Deos , e que vulto fará o meu ser diante de sua grandeza infinita ? sou na da , e se pudesse ser , menos que nada. Como se atreve o nada a presumir de si diante do infinito ser 2

III. Se as minhas obras (no

caso que alguma delias , ou to das foraó boas ) se puzessem apar das que fizeraõ os Santos, que cor teriaô , ou quem pode

ria olhar para ellas ? Eseappa- recessem diante das virtudes de Maria Santissima Senhora nossa , como ficaria corrida mi nha pobreza ? De verdade sou nada: quem me faz sospeitar o

Maria Santissima Senhora nossa , como ficaria corrida mi nha pobreza ? De verdade sou nada:

con-

134

Tratado breve

contrario , me faz huma gran de traiçaó. Assentemos nisto:

naó nos levantemos do nosso centro.

Adoração.

I. A O Rei dos seculos immortal , e invisí

vel , hum só Deos

gloria por seculos de seculos ;

gloria ao Padre , e ao Filho,

e ao Espirito Santo , aílim co

mo era no principio, agora, e sempre , e por seculos de iecu* los. Amen. - II. Prostrado ante o acata

mento de; vossa soberana , e in* comprdiensivel Magestade, vos adoro , reconheço , e confesso como a supremo Senhor meu ,

e de tudo o que tem ser. III. Se tivera em minha maõ

, honra , e

, reconheço , e confesso como a supremo Senhor meu , e de tudo o que

da Oraç\Ò Mental. 135* maó todo opoder, egloria, e fenhorio dos Ceos , e terra , o rendêraao péde vosso real thro-

no : porque fo vós fois Senhor , só vós sois digno , fó vós fois o Altissimo , que vive , e reina fera principio, fem fim , e fera

mudança.

.

-

.

Refignaçao.

1

 

«r

 

L

/ Aça-se em mim , de

>

JD

mim , e ácerca de

mim -, e de todas minhas cousas ,

agora , e fempre , no proípero , e no adverso vossa santissima vontade: Fiat, Fiat.

II. Disponde de mim, Set.

nlmr , como Senhor que sois ,

e muito ao vosso bencplacito :

naó soumeu, fcnaõ vosso: vos sa he a minha saude, e vida;

vossa a minha f'azenda , e honra ;

r. :

bencplacito : naó soumeu, fcnaõ vosso: vos sa he a minha saude, e vida; vossa a

voi-

igó Tratado breve

voflos

corpo , e os sentidos , e poten cias de minha alma ; vosso he tudo o que sou , e valho , e pos so ser , e valer : obrai como for mais agrado vosso : e fazei cora vossa graça , que esta minha en trega seja de coraçao , e de ver

os membros de meu

dade. III. Naõ quero outro que rer , ou naó querer , Tenaó o voflo : nada me succeda como eu intentar, se eu intentar cou sa , que vos naó agrade : naó se una a vossa vontade com a mi nha , a minha se una com a vos sa : e de tal sorte se una , que se ja huma só vontade.

IV. Quem reina , quem

minha ? Reina

Dcos , e vive Deos : e tu es a que has de servir , e obedecer, morrendo a ti, para que Deos

vive ,

alma

viva

minha ? Reina Dcos , e vive Deos : e tu es a que has de

da OraçaÒ Mental. 137

viva em ti. Pode haver major dira para ti , que fazeres a von tade de Deos ? Bom he , Se nhor , o vosso Ceo : mas.melhor he a vofla vontade. -: »«

- Y. Para que íbu eu crea ru

ra > senaó para fazer a vontade de meu Creador ? Para que sou barro , senaó para tomar a figu ra, que me quizer dar o meu Ar tifice , sem contradizello ? Para ?|Ue sou membro de Christo., enaô para me unir com esta Ca beça ? E para que sou ovelha sua , senaó para seguir a voz do meu Pastor ? Faça-se em mim a vontade de Çhristo : Fiat , Fiat*

.

I.

Louvor de Deos.

. l: 'ss.

T

Ouva, alma minha,

.1 V a teu Deos ; louva , exalta , ç magnifica seu admir^

'j

"

de Deos. . l: 'ss. T Ouva, alma minha, .1 V a teu Deos ; louva

. vel

I38

TRATADO BREVE

vel nome por seculos de secu- Oh quaó boni he Deos em si hiesmb, equaó boni he para ti ! Suas perfeiçoens sao infini- tas , feus beneficios para conti- go saóinnumeraveis. Vinde so das as crcaturas , que habitais na terra , e debaixo do abysino ,

no Ceo , e sobre as alturas ; vin- d'e, e servi de linguas para en- grandecer o vosso Author , e de coraçoens para o amarJ'

Bemdize , alma minha,

a teuDeos; etodas minhas en- tranhas louvem feu santo Nome. Oh qua6 poderoio he , quaõ sa- bio , quaõ justo , e misericordio- so ! que immeniò, eterno , e im-

mutaveH Gomo he secreto em feus conselhos , fiel em suas pro- messas , verdadeiro em suas pa-

lavras

fuaye em suas communicacoens ,

"LÏI.

, terri vel em feus juizos,

e

suas pro- messas , verdadeiro em suas pa- lavras fuaye em suas communicacoens , "LÏI. ,

da OraçaS Mental. 139

e santo em todas suas obras ! Ze

e haõ

perde o domínio ; castiga, e na6 perde o amor. Todo he olhos para conhecer , todo maós para obrar : nenhum lugar o èinge -, e com todos os lugares se penetra :

nenhuma duraçao o mede, e to das as duraçoens possue em hum fó indivisivel sem principio ,

sem fsm , sem successaó , ou mu dança. Cheios estaó os Ceos ,

e rerra da Magestade de sua

gloria : seja o nome do Senhor bemdito por séculos de seculos.

Amen.

Oh grande Deos , e

louvavel infinitamente ! Quem podéra render á voísa formosu

ra , e bondade a minima parte

dos louvores i que merece ! Se todas vossas perfeiçoens saó ineffayeis , e incomprehensiveis ,

la , e naó perde a pàz ; dá ,

III.

i que merece ! Se todas vossas perfeiçoens saó ineffayeis , e incomprehensiveis , la ,

140 Tratado breve louvai-vos a vós mesmo ; que só vós comprehendeis vossa bon dade , íó vós conheceis o que em vós mesmo tendes.

- Admiraçao da grandeza .;. de Deos.

OHquaõgrande he este Se nhor em tudo ! Se pre mia , dá- se a si mesmo : se casti

ga > dá hum inferno para sem

pre : se ama , offerece seu peito

a huma lança, e dá a beber seu

Sangue, e a comer seu Corpo. Toda a vida de hum homem , que he seu inimigo , lhe está es perando que se converta ; e por hum Peza-me se esquece de todas suas injurias. Abrio a

maõ , e semeou o Ceo de estrel- las : acenou ao mar, eretirou-

ie encolhendo as suas ondas : as-

- . -i

Abrio a maõ , e semeou o Ceo de estrel- las : acenou ao mar, eretirou-

so-

da Ora qAÒ Mental. 141 soprou na face do homem , e fi cou á sua imagem. Com huma palavra sua foi Universo o que era nada , e o poder todo do Universo naõ pôde fazer humá só aresta : com o madeiro de huma Cruz escalou o Inferno, matou a morte , e resgatou o ge nero humano. Tanta grande za ! tanta magestadê ! tanto mys-

terio ! cousas tao inopinadas ! e sempre- mais , e mais ! Naõ ha dar fundo aos seus abysmos. Os entendimentos maiores , se por mercê sua conhecem alguma partesinha de suas grandezas, areaõ ; e se querem levantar o voo, cahem opprimidos, e ce gos do escuro resplandor de sua gloria. Milhoens de Espiritos Angelicos estaõ suspensos em sua vista , e lhes fica infinito por comprehender. Alma , para

G

Milhoens de Espiritos Angelicos estaõ suspensos em sua vista , e lhes fica infinito por comprehender.

gian-

142 Tratàdo brevê grandes cousas foste creadal í^uem he como Deos ? Enco- liie-te quanto podéres em íeu . acatamento : venera-o com pro-? fundo íllencio , e fogeiçao ren- didiflima.

Defejos de ver a Deos.

i ls /^\H summo bem , e VL/ ultimo fi m , para cujo logro fui creado , Deos meu , e Senhor meu , objecto de minhas efperanças , e alvo de meus defejos! Por vós chamo, por vós anhelo , a vós fuspiro defde este profundo valle de miferias , onde vivo desterrado de vosta prefença ; fe he que hum desterrado de vossa prefen ça póde dizer-se , que vive ; pois a sua vida consiste' fó na vossa vista. Oh quando chega

de vossa prefen ça póde dizer-se , que vive ; pois a sua vida consiste' fó

da ORAqAb Mental, 143

ei a lograr esta vista , e esta vi- a; vidaeterna, vidabemaven- urada > vida viva !

II. Oh quem me concedera

zas de pomba , para voar , e eicançar em vós ! Que formo- os , e amaveis sao vossos taber- aculos , Senhor Deos das vir- udes ! A minha aima anhela,

: desfalece por entrar nas vostas noradas. Oh quando chegarei apparecer diante de voflo ros-

o ] Que tenho eu na terra , e

in da no Ceo , fóra de vós,

)eos de meu coraçaó , e todo peu bem eterno ! Abreviai , íenhor , este prazo ; queaelpe-. ança , que se dilata , afflige a lnia : mostrai-me vostb rosto , e yei salvo : mostrai-me vofla rande misericordia , e dai-me

fím de minha lalvaçao.

III. Oh se hoje neste dia,

G ii

oh

, e yei salvo : mostrai-me vofla rande misericordia , e dai-me fím de minha lalvaçao.

144

Tratado breve

oh se agora neste instante me e chamáreis para vós ! Oh se íbá- ( ra a vossa doce voz em meus ou-;< vidos , e me dissereis : Levanta-^ te , alma , e dá- te pressa , queja \ passou o inverno , e tempestade dos trabalhos , e he chegada a primavera do descanço : vem do deserto ; vem , eserás coroada 1 Como me alegrara , ainda que sou indigno de tanto bem! Co mo nada do mundo me íizera falta , nem detença ! Como voa ra mais veloz a vossos pés , do que a aguia á sua preza !

IV. Meu Deos , inquiete

está o meu coraçao, emquante naõ descança cm vós : vazia eíVá a minha alma , em quanto vós ï

nao encheis : a minha alma h< estampa de vosso rosto , e o vos so rosto he sellò da minha alma que cousa póde ajustar-se com ; estam

minha alma h< estampa de vosso rosto , e o vos so rosto he sellò da

da ChtAqAÔ Mental, itf

;stampa, senaõomesmo sello, :jue a figurou ? Equecousa pó- íeencher a minha alma, senaõ

i luz de vóíso rosto , que a for-

tiou ? Oh selío de ouro , oh sel lo preciosiUïmo da Santiflìma Trindade: vinde, e reformai; vinde , e.enchei; vinde, eajuf- tai-vos á voíTa estampa.

V. Meu Deos , naõ tardeis

tanto : accelerai- vos , e

desta terra de miserias : morra eu para vos ver , e veja-vos para viver eternamente. Oh vida mor-

ta , acaba de morrer , para que eu comece a viver a vida viva.

Desejo ver vossa formosura , desejo aìcançar a minha orï- gern , desejo buscar o meu cen- tro : vós fois mar , e eu fou rio ; vós fois centro , e eu fou pedra :. oh entre já este rio no feu mar , ache esta pedra p feu centro.

tirai-me

G iii

De-

; vós fois centro , e eu fou pedra :. oh entre já este rio no

I46 TRATADO BREVE

Desejes-de padecer por amor de Christo.

I. f \ Uem differa , Se-

nhor, que na vossa Cruz se encerrava tanta fuavidade , e doçura ; rias vossas afrontas tanta honra , e na voffa pobreza tao inestimaveis thesouros? Oh quanto val hum instante de estarcrucificado com

Jesus ! Indigno fou de vossa

gloria ( he cousa ciara ) : mas

grande gloria a vossa

Cruz , que por mais indigno me julgo da vossa Cruz , que da vossa gloria. II. Oh quem podéra aper- tar bem dentro do coraçao os

vossos espinhos ! poderá fer que (ainda que he má terra) pegaf- lem , e dessem flores para vos

he taõ

ador-

coraçao os vossos espinhos ! poderá fer que (ainda que he má terra) pegaf- lem ,

da OracaÔ Mental. 147 adornar o leito. Oh quem co meçara a ser voflb discipulo, naõ desejando nada do que se

vê com os olhos , íenao o pade cer comvosco por vosso amor 1

III. Oh alma minha , que

estranho espectaculo he este, que estás vendo naquelle mon te ! O Filho deDeos em huma Cruz , pregado de maõs , e pés , manando rios -de sangue , nú , escarnecido , e vituperado ï Que fazes , em que te occupas , por onde caminhas até agora ? Naõ ha outro caminho senaõ a

Cruz: esta deve ser a? tua com panheira inseparavel por toda a vida , este o teu thesouro , o teu estudo , o teu amor , e a tua gloria.

IV. Senhor , se o repartir

des comigo das voilas penas ,

vo-Jas pode aliviar, dai-medas

o teu amor , e a tua gloria. IV. Senhor , se o repartir des comigo

vos-

I48 TRÁTADO BREVE voíTas penas , do voflo calix , dos voíïos desamparos. Vós íà- beis o que eu posso , que he na- da: mas vós podeis fazer, que eu possa tudo : vamos , e morra- mos comvoíco ; que morrer comvosco, verdadeiramente he viver : venhaõ sobre mim todos os tormentos do mundo , e do Infer.no , com tanto que aílïm vos

Compaìxao das penas de Çhristo.

I. TVT Inguem houvç,. oh ; JlN bom Jesus, que

î:

acodisse por vós diante de vos- sos accuiadores ? Ninguem se lembrou de vossos benefiçios , e maraviihas ? Ninguem reparou no vosso rosto, em que estavaõ resplandecendo a caridade , a man

de vossos benefiçios , e maraviihas ? Ninguem reparou no vosso rosto, em que estavaõ resplandecendo

da OraqaÔ Mental. 149

nansidao , e a innocencia ? To los pregáraõ a boca para defen- ler-vos , todos soltáraõ as lin- juas para calumniar-vos ? Oli :omo estais desamparado ! Hum liscipulo vos vende , nutro vos lega , e todos vos fogem : o vos-

b povo , que havia tantos secu-

os espcrava por vós , esse vos xmdemna , sentencea , e crucifi-r :a: corre por certo , que sois R-ei fingido , hypocrita , mal- feitor, e amotinador do povo :

2 vosso Eterno Pai dissimula. Oh dulcissìmo Jesus , oh man-

fo Corde iro de Deos , oh Ai

ma da minha alma ! Deixai-me tornar para o meu naõ fer , don- de me tirastes , e naõ veja eu tal eí'pectaculo. Melhor estou com- tigo , oh Sol , que te escureces-

te ; melhor estou comvosco , oli

pedras, que. vos quebrastes , do

G y

1ue

estou com- tigo , oh Sol , que te escureces- te ; melhor estou comvosco ,

i^o Tratado breve que com os coraçoens humanos, que á vista de hum Deos cho

rando , e clamando , naó se que-

braó , naó se derretem

grimas , naõ se exhalao em sus

piros.

em la

Zelo da honra de Deos.

A Onde estais, creaturas, que

se vos naó dá da honra de vosso Creador ? Só a causa de Deos ha de fer a mais des amparada ? Todos buscaó o que he feu , e ninguem o que he de Jesus Christo ? Oh quem podéra meter fogo em todos os

coraçoens dos filhos de Adaó;

fogo que os fizera voar á sua es-

féra , que hedar gloria a Deos ! Quem vira o nome de Deos co nhecido , e respeitado por toda

a redondeza da terra !

Oh se na ter-

»

gloria a Deos ! Quem vira o nome de Deos co nhecido , e respeitado por

da ORAqAb Mental, rji

terra se fizera a vontade de Deos como no Ceo ! Quem po- déra impedîr huma íb offensa sua com todo o sangue de suas veas ! Quem clamára por essas praças : fíomens , a quem te-

temeis a Deos- ? e a Deos , a quem

meis, se naó se naó amais

amais ? Senhor , vós que podeis , ponde o remedio : consolai as almas , que vos querem bem , santificando vosib nome , dai a voíso nome muira muita gloria»

'

I.

T) Orque desmaias , al-

-. -

A

ma minha ? Por

ver

te chea de peccados , cercada de miserias , perseguida de ini-» migos ? Impollìvel he scres taó peccadora , taó miseravel , etaC* fraca , quanto Deos he San.to 3e

G yì

de ini-» migos ? Impollìvel he scres taó peccadora , taó miseravel , etaC* fraca ,

jMi-

içi Tratado breve

Misericordioso , e Omnipoten

te : desvia os olhos de ti , e em-

prega-os em teu Deos , e recebe

rás conforto.

II. Confiai , Filhos , disse

Christo Jesus a seus Discípu los , confiai , que eu venci o mun- co. Oh como he certo , que as vi torias de Christo saõ a confiança dos peccadores ! Venceo Chris

to o mundo , venceo o Inferno ,

venceo a morte , venceo o pecca-

do ; e naõ poderá vencer-te a ti ,

c fazer , que venças tudo ?

Dilata o coraçaõ , e dilatares , vaza-o do

amor proprio , enche-o do amor

de Deos ; que o amor de Deos

he o que dilata os coraçoens , e

o amor proprio o que os aperta.

Deos he immenso , mete a Deos

em teu coraçao , e terás hum coraçao immenso

III.

para o

o amor proprio o que os aperta. Deos he immenso , mete a Deos em teu

da OraçãÔ Mental. i^3 IV. Cahiste outra vez em tuas miserias antigas ? Mais an tigas saõ em Deos as suas mise ricordias : e para vires a cahir

nas suas misericordias , permit- tio Deos , que cahisses nas tuas miserias. Esse es tu : que menos esperavas de ti ? E este he Deos:

que menos deves elperar delle ? Tu deímaias por veres , que es quem eras , e naõ te animas por saber , que Deos he o que sem

pre

der , nem graça , nem clemen cia ? Elle te fez de barro , es peravas , que fostes de diamante ? Torna-te para Deos; que o amor de qualquer pai naõ cança tad depressa , quanto mais o de

foi ? Já Deos naõ tem po

Deos.

;

/

V.

De que desanimas ? Por

que as difficuldades saõ muitas , e cada vez descobres maiores ?

po Deos. ; / V. De que desanimas ? Por que as difficuldades saõ muitas ,

Deos

154 Tratado brevê

Deos te ajuda , que he maior , que todas : Obra tu sempre , mas

pouco , e pouco : se te

encolhes , e cruzas as niaós , fa

zes o gosto a teus inimigos : o aperto de coraçao para nada ferve: o teu auxilio vem de ci ma , vem do Senhor, que fez o Ceo , e a terra : naó estendas o temor ás difficuldades , quehaô de sobrevir: obra hoje, e ama

nha Deos sabe o que será : bas- ta-lhe a cada dia a sua malicia :

alegra-te em Deos , e elle te da

rá o que

çao : os Santos , que fizeraó cousas admiraveis , eraó de car ne , e sangue como tu ; mas aju- dáraô-se de Deos : tambem ti- veraó peccados , e imperfei- eoens ; mas procuráraó sempre jazer-lhes guerra. Estes saÕ os principaes afe

que seja

lhe pedir o teu cora

ctos ,

eoens ; mas procuráraó sempre jazer-lhes guerra. Estes saÕ os principaes afe que seja lhe pedir

da ÛRAqAÒ Mental. if$ ctos, que a alma póde exercitar a feu modo , conforme o pedir a occasiaó, e o ajudar o impulso do Espirito Santo , que he o Da vid, quesabe tocar estas cordas da cithara interior com grande fuavidade , e destreza. Agora passemos dos affectos aos pro- pofitos ; que era a outra obra , que diziamos pertencer ao exer- cicio da vontade.

§. XIV.

P. Ue coufas faó as \J que devo propôr , ou aflentar comigo

na Oraçaó, para depois execu* tallas ?

R. As partìculares , a occa*

siaó, enecessidade decadahum lhas ensinará. As geraes , e ein que naõ póde haver perigo ,

podera fer as feguintes. Fre»

enecessidade decadahum lhas ensinará. As geraes , e ein que naõ póde haver perigo , podera

1^6 TrATADO BREVE

Frequencia de Sacrameiitos com difyosiçaõ. Mortificaçaó dos scntidos , jui- zo, e vontade propria. Exercicio das obras de miseri- cordia com o proximo. SofFnmento das injurias , mo- lestias , e calumnias. Penitencia scm indiscriçoens , nem exterioridades. Perfeicaõ das obras ordinarias de cada dia. Devoçaó com o Santifîimo Sa- cramento, e Maria Senho- ra noíTa , e com o meu An- jo da Guarda. Mansidaó , e affabilidade no trato com os proximos. Confiança em Deos , e descon- fiança de mim proprio. Liçaó attenta de livros espiri- tuaes. Moderaçaõ da lingua , e pre-

-

.1

Deos , e descon- fiança de mim proprio. Liçaó attenta de livros espiri- tuaes. Moderaçaõ da

ce-

da Or Aq a 5 Mental. 15-7

cedendo a consideraçaõ ás

palavras.

Temperança na meza , cama , vestido , &c. E outros semelhantes. Mas im porta naõ propor muitas cousas juntas, porque costuma ser cau sa de nenhuma se cumprir. Por onde seria acertado reduzir es tes frutos a alguns ainda mais

geraes , com que se lidasse sem pre , e que alcançados elles en riquecem por huma vez a al ma.

P.

Quaes podem ser estes ?

R.

Os tres seguintes. I. An

dar em presença de Deos. II. Fazer guerra ao amor proprio.

111. Trazer o coraçao humil de , e quieto. Toda via se o exercitante acha , que por serem estes frutos tao geraes , se naõ applica a elles como deve , e

Toda via se o exercitante acha , que por serem estes frutos tao geraes , se

dei-

I58 TrATADO BREVE

deixa passar as occasioens de exercitallos : mais util lhe fera propôr cousas particulares , e apanhar ao dedo espiga , e es- piga , visto que naó póde abra- çar , e segar muitas juntas.

P. Quando a alma padece

éscuridade , e desamparo inte- rior , he tempo de assentar com- lìgo alguns propofitos ?

R. Naõ proponha , nem al

tere cousa alguma , ainda que lhe pareçaõ resoluçoens muito uteis , e bem fundadas. Faça como o caminhante, que onde anoitece , alli para , até tornar a luz do dia , e entaó vê por on de poem os pés.

P. Estes propofítos hao* de

fer das virtudes confideradas em gerai , ou havemos de deí- ceracaiòs particulares? Como agora , basta dizer : Proponho

fer das virtudes confideradas em gerai , ou havemos de deí- ceracaiòs particulares? Como agora ,

da Oraçaò Mental. iç<j de ser manso , e casto : ou he ne cessario dizer : Proponho de sof- srer , e dissimular a Fulano tal, e tal aggravo : proponho de evi

tar tal , e tal encontro perigoso ?

R. He necessario descer a

casos particulares , conforme a condiçaõ , estado , e necessida de de cada hum : como faz o hortelao , que encaminha o re go para o leiraõ , ou canteiro > que está mais seco. Porém as materias da ira , e contra a cas tidade , tiraó-se desta regra , e he necessario fazer os propositos

muito em geral , e abstracto :

vigiando entre tanto , naó falte alguma fa isca no coraçao ; por que este he polvora , e ambos aquelles vicios saó fogo.

P. Donde procede a ineffi-

cacia , e pouca firmeza de nos

sos bons propositos ? R.

, e ambos aquelles vicios saó fogo. P. Donde procede a ineffi- cacia , e pouca

i6o Tratado breve

R. Muitas costumaó ser as

causas. Primeira : iaó os máos habitos contrarios á virtude , que propomos , os quaes fazem pendor na alma como em huma balança , e haó de vencer em quanto da outra parte lhe nao puzermos maior pezo de obras boas , ou daquelle mesmo gene ro , ou de caridade de Deos. Segunda : he a confiança de nós mesmos, com que secreta mente imaginavamos , que nos sas proprias forças nos haviaó de tirar a paz , e salvo : e quem finca o pé no barro , que muito que escorregue ? E suppoílo que huma pessoa diga com a boca ( e lhe pareça que tambem o diz com o coraçao ) , que de si naó pode nada , e só confia na ajuda

de Deos : as mais vezes se enga na , por falta de conhecimento

) , que de si naó pode nada , e só confia na ajuda de Deos

pio-

da Oraça5 Mental. i6í Proprio : e a prova disso he , que quando cahe , e falta a seus pro positos , se desalenta , e entriste ce : o que naó fora , se só em Deos confiára. Terceira : procede tambem de propormos cousas , que no presente estado nos naõ convem ; ou por demaziadas para as pou cas forças de nosso eípirito; ou por oc'casionadas á vangloria , nao tendo nós iufficientes ali- cerses de humildade ; oú por an- ticipadas a outras mais necessa rias , que a boa ordem pedia cumpríssemos primeiro. E dis poem a piedade Divina por meio desta inefficacia de nossos propositos , que o edifício vá mais solido , e seguro ; e leve nos fundamentos as pedras, que convem ; e que estas caldeem primeiro j que íe affentem ou tras.

, e seguro ; e leve nos fundamentos as pedras, que convem ; e que estas

IÓ2 Tratado breve

tras. Por onde , hum grande se gredo da vida espiritual , e dig no de se notar , he qtie a alma nem vá mais de vagar , nem- mais de pressa , dp que a conduz a graça de Deos : e nem deixe estar na arvore a fruta já madu ra , nem cuide que ha de ma- durecer á força de aapolegar,

senaõ com o Sol.

/

A quarta causa he , que quan

do se nos ofterece occafiaõ de pôr por obra os bons propositos, naõ recolhemos a virtude do es pirito , que anda já dissipada com as exterioridades. Se pa rarmos hum pouco , puxando pelo coraçao para dentro , e re querendo a Deos seu auxilio , melhor successo lograremos. A quinta, he a inconstancia. natural do coraçao humano , que : Nunquam in eodem statu

, melhor successo lograremos. A quinta, he a inconstancia. natural do coraçao humano , que :

per-

da Oração Mental. 163

jpermanet : e estabelecei Io he proprio da graça , a quem de vêramos ter recurso mais con

tinuo.

1

-

;

t

A sexta , he a impugnaçaõ do inimigo commum , o qual sabe , que se nos deixar ir pondo pe dra sobre pedra , brevemente nos achará murados. -

§. XV.

P. T) Estao por' explicar

XA. as ultimas tres par- tesda Oraçao, convem a saber , Acçaó de graças , Oferecimen to , e Petiçao : e primeiramente pergunto , que.cOuia he acçao de graças? R. He agradecer a Deos Nosso Senhor os benefícios ge- raes , e particulares , que de fua Hberaliffima maó contmuamen te

R. He agradecer a Deos Nosso Senhor os benefícios ge- raes , e particulares , que

164

Tratado breve

te estou recebendo : e louvallo por isso , e por suas perfeiçoens infinitas ; convocando todas as creaturas , para que me ajudem ; e reconhecendo sempre , que he maior , que todos os louvores , que lhe podem dar infinitos mundos , se os houvera.

P. Como se faz o Ofereci

mento ?

R. Comprehende duas cou

sas. Primeira : Offerecer ao Eterno Padre os merecimentos de seu Unigenito Filho, e tudo o que por sua gloria , e nofla

salvaçaõ obrou , e pádeceo : of- ferta que devemos fazer com grande confiança , e espirito, porque he de infinito agrado

Disto íe poz acima

um exemplo, em quanto oof- ferecimento era affecto particu lar , que tambem occorre no

ara Deos.

dis-

Disto íe poz acima um exemplo, em quanto oof- ferecimento era affecto particu lar , que

da Oraçaõ Mental. i65'

discurso da Meditaçao. Ás o- bras de Christo posso ajuntar as de sua Mãi Santilììma , e de todos os Santos. Segunda : Offerecer a Deos todas minhas palavras , obras ,

e pensamentos ( especialmente

aquella oraçao , que ao presen

te tive) para honra , e gloria do

mesmo Senhor ; dedicando a este fim todas as forças de mi nha alma , e corpo , todas as' operaçoens de meus sentidos , e potencias , e tudo o que sou , posso, e valho: que para lhe ser de algum agrado , devo ajun-

tallo , e como incorporallo com

as obras de Christo.

-

P. Que cousas hei de pedir

na ultima parte da Oraçao ? .R. Esta pergunta fizeraõ os Discipulos a Christo nosso bem :

e.o Senhor lhes satisfez ensinan-

H

parte da Oraçao ? .R. Esta pergunta fizeraõ os Discipulos a Christo nosso bem : e.o

do-

i66 Tratado breve

do-lhes a Oraçao do Padre nos so : na qual se encerrao sete pe- tiçoens , as melhores , e mais aceitas a Deos , que póde ser. Com tudo , porque nestas sete se incluem virtualmente outras muitas , parece sení util descer cada hum a especificar o que

deseja , e necessita que

Deos lhe conceda para si , e seus

proximos em geral, e particu lar. Póde pedir pela exaltaçaò da Igreja , propagaçaõ da Fé, acertos do Summo Pontífice, paz dos Principes Christa6s. Pode pedir pelos que estao em peccado mortal , que N. Senhor os tire de taó miserável estado (e se juntamente saó moribun dos , he a maior necessidade , que se póde considerar): pelas Almas do Purgatorio , pelos Christaós cativos em terra de

mais

Ia-

a maior necessidade , que se póde considerar): pelas Almas do Purgatorio , pelos Christaós cativos

da Or açaS Mental. 167

ìfieis , pelos innocentes calum- iados, eafflictos; pelos pais, filhos, e bemfeitores, &c. e or todos aquelles , a quem por ualquer titulo está obrigado :

aqui entraõ tambem os inimi- os, porque nos ajudaõ ao exer- icio das virtudes , ao desconto

e

o

erseverança na virtude , graça nal , e boa morte ; aquellas irtudes, que mais lhe íaõ ne- essarias para agradar a sua Di- _ ina Magestade; luz para naÕ :r enganado no caminho da )raçaõ; e tudo o que o Senhor ê , que lhe convem , e he ne- essario para se unir com elle

or conhecimento, e amorper-

:ito.

peccados , e aborrecimento

mundo. Para si póde pedir

P. E dos bens temporaes,

u bom successo de negocios ,

H ii

:ito. peccados , e aborrecimento mundo. Para si póde pedir P. E dos bens temporaes, u