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© Cactus, 2015

© Fernanda Morse, 2015

edição Barbara Wagner Mastrobuono


projeto gráfico Arthur Ribeiro Vergani
textos Fernanda Morse

fonte Panopticon, Tiempos

editoracactus@gmail.com
impossíveis
fernanda morse

elemento eleito: carvalho


negro
serragem de carvalho
negro
presa a uma placa
preta

através do vidro vemos as fotos


ela diz:
vamos enegrecer um pouco este céu?
incrível
então você escolhe a placa
preta
sobre nós
frente e verso
borrões
eu parto

a quem pertence este sonho?


onde nasce

o plano que se promete


estável
estável
a palavra conhecida
conheci essa palavra
quando brotou da sua boca
em retorno

como eu sonhei
como eu sonhei
como

uma pena
branca
sobre a cabeça
parada
te percebo numa volta incompleta
entre o meu existir e o ato.

com que corpo


por qual fenda
esse toque
(branco)
passaria?

Perceber não é experimentar um sem-número de impressões que


trariam consigo recordações capazes de completá-las, é ver jorrar
de uma constelação de dados um sentido imanente sem o qual
nenhum apelo às recordações seria possível.
(…)
Perceber não é recordar-se.
(…)
Como posso perceber objetos enquanto
manejáveis, embora não possa mais manejá-los?

percebe:
parece um parto
o dia — estamos perto
mas nem tanto — parece um parto
anômalo — a paisagem
difusa — ela entra
voltando — parece um parto
dentro de mim. percebe
o dia perde
uma substância
quando partimos
e a cabeça
(tanta ideia)
conjuga apenas
uma imagem — quando despedimos
as coisas brotam
atravessadas
dentro de mim:

criação
investida
por uma adaga

reconheço que gosto — de você — por isso: deixa em mim uma ferida que não quero substituir

quando te vejo eu quero passar


let’s take a walk, you
por todas as paisagens
and I in spite of the
criar uma imagem
weather if it rains hard
te mostrar
on our toes
o que vejo — tudo
gigantic scenic gutter
that will be
o que desconheço
and the landscape will do
se desenha
us some strange favor when
em tua presença
we look back at each other
anxiously

e tenho medo

mantive as mãos
presas
por um segundo
eram os dedos
prendendo as mãos
sobre a cabeça
congelei
para você tocar
essa imagem
uma coisa
em tua presença
congela e abre
— a permanência —
as mãos se uniam
olhando
o que há de branco
em seus olhos
deveriam capturar este movimento
percorrendo
a torção do meu corpo
— pouco —
a tensão do corpo

uma análise
então a síntese
do encontro —
eu quero
nós queremos
que você me olhe

você volta sentando recém agasalhado às 17h de domingo luz azul quase noite vazando pela
janela de vidro você me olha cruzando as pernas eu gosto do que vejo vai muito bem essa cor
esse casaco essa presença a essa hora¹

1 ouvir arto lindasay 4 skies


seria possível?

tristes
tentamos nos olhar
tentamos

tua cabeça / um novelo


transbordando
em nó

tua cabeça – um nó – um novelo


cabeça / novelo / nó

cabeça

uma porta sempre aberta


fechando a passagem

o teu corpo nada


apetece — árvore
morta

(…) ora, eis que parasitas podem se amar. nós (…)

não não valeria saber


do que você é feito
teu arco se desenha
pesando no papel — um risco
assombrado — a curva
de sua cabeça — não
não me acresce saber
a matéria de sua cabeça
que enverga
e dobra todo
o espaço — nada valeria

justos são aqueles que guardam os mortos


onde
deveriam

justamente:
você não entende
o que este lugar
seria

passeia
pelas coisas
sem habitá-las
— vazio

vesti a camisa.

maíra sonhou que eu era você:


enorme
e tua.

enquanto nos separávamos


e de teu só restava um azul
flutuante
em algum mundo era eu
enorme
e
tua

em uma cabeça que sonha


longe e limpa

esconde-se a caixa de pandora


por nossas mãos aberta:
a expectativa —
deflagra

mas eu vesti esta camisa enorme e tua

a pele é outra
e treme:
um abraço
hesitando

esperamos em toda a cidade


esperamos

a nossa hora, breve, morre agora


a nossa última hora

em uma cabeça que sonha


em meus braços virando outros

abrimos a permanência
longe
desfazemos a mala
não é por fruição que te crio

debruço-me sobre este animal


desconhecido
como temo
e amo:
breve

arrastado

pequenos
parasitas
escolhemos a cor preferida:
preta
ou
morta

philippe garrel eu você e


este homenzinho que nos concerne
todos os homenzinhos que morrem
vivem este coração
nos ombros

(preto como a bomba


que ameaça o desenho animado)

há um estouro —
logo depois
em frangalhos
um animal se regenera

queria te escrever tão simplesmente, tão simplesmente, tão simplesmente

entre
o
verde

você
está

coisa
com garras —
— não ouse
uma palavra

enquanto cresce
cresce
move, sonoro
cínico
homem
não:
coisa
quase
bicho
quase ------
não
ouso:
apenas
vasculho
no lac d’indiference
onde mme scudéry
se afogou
afundamos
diógenes
e eu:
plenos
desconhecidos
neste lago feito
de suas águas
cínicas
à parte

(…) mas você, diga-me (…)

apartada
de suas armas
mantenho-me
inteira
inteira
como nunca
houvesse um corpo
munido

depois do ar
que distrai
a forma
é outra

retornando:
plenos
desconhecidos