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Se aceitarmos o princípio de causa e efeito na natureza, e de ação 

e reação em Física, como não acreditarmos que tal lei natural se 
estenda também aos seres humanos? Uma vez que a consciência 
é entendida como fundamento de tudo, eis a pergunta a ser feita: 
não pertencem também os seres humanos, então, à ordem natural?
Essa é a lei do karma:. À medida em que semeamos, então
devemos colher. Dizem as escrituras: “Não vos enganeis: pois de
Deus não se zomba: pois tudo o que o homem semear, isso
também ceifará.” (Gálatas 6:7). Se você semeia o mal, você vai
colher o mal na forma de sofrimento. E se você semear bondade,
você vai colher a bondade em forma de alegria interior. 
Para entender o karma, você deve perceber que os pensamentos 
são coisas. O universo, em última análise, é composto não de 
matéria, mas de consciência. A matéria responde, muito mais do 
que a maioria das pessoas pode perceber, ao poder do 
pensamento. Pois a força de vontade direciona a energia; e 
energia, por sua vez, age sobre a matéria. A matéria é, de fato, 
energia. Cada ação, cada pensamento colhe suas próprias 
retribuições correspondentes. 
O sofrimento humano não é um sinal de raiva de Deus, ou da 
Natureza, contra a humanidade. É um sinal, isso sim, da ignorância 
da lei divina pelo homem. E a lei é sempre infalível em sua 
aplicação. 
A alma é livre! Almas são “feitas” à imagem de Deus. Mesmo o 
maior dos pecadores não pode ser condenado pela eternidade. A 
causa finita não pode ter um efeito infinito. Devido ao mau uso do 
seu livre arbítrio, uma pessoa pode imaginar-se como sendo má, 
mas dentro ela é um filho ou filha de Deus. O filho de um rei pode, 
sob a influência de bebidas alcoólicas ou de um sonho ruim, 
pensar-se miserável, mas tão logo ele se recupere de sua 
embriaguez, ao acordar, ele se esquece dessa ilusão. A alma 
perfeita, sempre imaculada, eventualmente desperta em Deus; e 
então ela se lembra de sua verdadeira natureza, sempre boa. 
Sendo feita à imagem de Deus, pode iludir-se apenas 
temporariamente. Esta ilusão temporária leva-a a pensar em si 
mesma como mortal. Enquanto a pessoa identificar-se com a 
mortalidade, ele deverá sofrer. 
A ilusão de uma alma com a mortalidade pode estender-se por 
muitas encarnações. Através do auto-esforço, no entanto, sempre 
sob influência da lei de Deus, o Filho Pródigo desenvolve 
discriminação, lembra-se de sua casa em Deus, e alcança a 
sabedoria. Com a iluminação da alma, o filho pródigo lembra-se de 
sua imagem eterna de Deus, e reencontra-se com a consciência 
cósmica. Seu Pai, então, serve-lhe “o bezerro cevado” da felicidade 
eterna e da sabedoria, libertando-o para sempre. 
A ilusão é provisória no homem; ele pode abusar de seu livre 
arbítrio por um tempo, considerando-se mortal, mas tal ilusão, 
sendo apenas temporária, jamais apagará de dentro dele a marca 
da imortalidade e da imagem da perfeição de Deus. A morte 
prematura de um bebê pode não ter lhe permitido o uso do 
livre-arbítrio, seja em função da virtude ou do vício. Nesse caso, a 
Natureza deve trazer essa alma de volta à Terra, para dar-lhe uma 
chance de usar seu livre arbítrio para trabalhar justamente o karma 
passado que o levou a morrer tão cedo, assim como para realizar 
boas ações que o levem à libertação. 
Se uma alma imortal não tem trabalhado, na escola da vida, essas 
ilusões que se ligam a ela, ela precisará de mais vidas na escola 
para trazer-lhe a compreensão de sua imortalidade inata. Só então 
ela poderá voltar ao estado de consciência cósmica. Almas 
comuns, portanto, voltam a reencarnar, obrigadas por seus desejos 
mundanos. Grandes almas, contudo, vêm à Terra para trabalhar 
apenas parcialmente o seu karma, pois vêm principalmente para 
atuar como nobres filhos de Deus, mostrando às crianças perdidas 
o caminho da casa de seu Pai Celestial. 
Em geral, entidades do mal têm afinidade com famílias más, 
enquanto que a afinidade de almas boas é com boas famílias, 
determinando seu nascimento entre uma delas. Entretanto, 
pessoas com mais oportunidades na vida, devido ao seu bom 
karma, devem ajudar aqueles com menor oportunidade; caso 
contrário, eles desenvolverão mau karma. O egoísmo é 
espiritualmente degradante e, finalmente, faz a própria pessoa 
infeliz. 
Deus não é um autocrata divino a julgar as pessoas por suas 
ações. Os juízos de lei cósmica são baseados em causa e efeito da 
Lei Kármica, sendo, portanto, justos. A lei da divina harmonia cria 
um equilíbrio natural. Quando qualquer alma age contra esse 
equilíbrio, ela se machuca; por exemplo, se você mergulhar a mão 
em água fria, você vai desfrutar de uma sensação calmante; mas se 
você se aproximar do fogo, o calor intenso dele avisa que sua mão 
poderá se queimar. O fogo não tem a vontade de causar-lhe a dor, 
nem a água fria de produzir uma sensação agradável. A 
responsabilidade da queimadura é sua, que põe a mão no fogo. E a 
responsabilidade por sentir prazer na água fria é, novamente, toda 
sua. Fogo e água, calor e frio são partes do estado geral do 
universo, com o qual nosso dever é viver em harmonia. 
Nós punimos a nós mesmos. Uma vida errada pode criar um 
inferno físico e mental ainda pior que o próprio fogo do inferno, que 
as pessoas vingativas gostam de imaginar para os outros depois 
da morte. Já uma boa vida pode criar dentro de si um lugar ainda 
mais doce do que o céu, que as pessoas imaginam para si mesmas 
no estado pós-morte. O homem, influenciado pela ilusão, atribui ao 
Deus todo-amoroso um espírito vingativo, que cria infernos e 
purgatórios.Deus, no seu infinito amor, está chamando a alma 
continuamente a voltar para o Seu reino eterno de 
bem-aventurança. Mas as almas, quando fazem mau uso de sua 
independência dada por Deus, afastam-se de Deus e chafurdam na 
lama do sofrimento, punindo-se pelos efeitos de seus próprios 
erros. A idéia de um céu eterno é verdadeira, embora a maioria das 
pessoas tenha ideias muito limitadas a respeito do céu. 
Somos feitos à imagem de Deus, mas, acionados por desejos 
materiais, seguimos pela longa trilha vagando em encarnações, até 
que, no final, encontramos nosso Pai Celestial nos esperando, feliz 
por receber Seus filhos pródigos, pronto para nos entreter com 
eterna e sempre renovada alegria. Portanto, a ideia da condenação 
eterna das almas feitas à imagem de Deus é simplesmente 
insustentável, e deve ser detonada e banida da mente dos homens 
como uma superstição. 
Esta vida é como um filme, e como em qualquer filme emocionante, 
tem que haver um vilão para que então aprendamos a amar o herói. 
Mas se você imitar o comportamento do vilão, receberá sua 
punição. Sim, é tudo um sonho, mas cabe perguntar: por que viver 
um sonho ruim, criando um karma ruim? Com o bom karma, você 
começa a desfrutar do sonho. Bom karma também faz você querer, 
no tempo certo, acordar do sonho. Karma ruim, por outro lado, 
obscurece a mente e o mantém cada vez mais vinculado ao 
processo de sonhar. A partir do alto de uma montanha, vê-se 
claramente o campo todo, e também o céu aberto. Do alto, é 
natural querer sondar ainda mais alto, muito acima da terra. Já 
submerso no nevoeiro vale abaixo, no entanto, o máximo que se 
pode aspirar será apenas subir um pouquinho mais alto. 
Paramahansa Yogananda 
(tradução do inglês: Giancarlo Salvagni)