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bioéticas
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genocídio: Anseios
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colonialidade
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da alteração
tica
ção
JOÃO VINICIUS MARQUES
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFPA
(PPGSA/UFPA)
Marques, J. V.

IMPLICAÇÕES BIOÉTICAS DO GENOCÍDIO: ANSEIOS


CRÍTICOS DA COLONIALIDADE POR UMA BIOÉTICA DA
ALTERAÇÃO
Resumo
Este trabalho tem como caso a relação entre a bioética e o crime
de genocídio no horizonte dos marcos de proteção a atentados
aos direitos humanos. Seu propósito é colocar em perspectiva
suas delimitações conceituais e históricas. Em seu argumento, si-
naliza a necessidade de alteração dos pactos de proteção e defesa
da vida, aqui esboçado como bioética de alteração, tomando por
referência contribuições intelectuais dos estudos de raça e dos
estudos cultuais e feminismos descoloniais.
Palavras-chave: Bioética, genocídio, descolonização.

BIOETHICAL IMPLICATIONS OF GENOCIDE: CRITICAL AN-


XIETIES OF COLONIALITY FOR A BIOETHICS OF CHANGE
Abstract
This paper deals with the relationship between bioethics and the
crime of genocide within the framework of the protection of
human rights violation. The purpose of this paper is to put into
perspective its conceptual and historical delimitations. In the ar-
gument, it points out the need to change the covenants of pro-
tection and defense of life, outlined here as bioethics of change,
taking as reference intellectual contributions from studies of race
and from studies of cults and decolonial feminisms.
Keywords: Bioethics, genocide, decolonization.

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Implicações bioéticas do genocídio

IMPLICACIONES BIOÉTICAS DEL GENOCIDIO: ANSIAS


CRÍTICAS DE LA COLONIALIDAD POR UNA BIOÉTICA DE
LA ALTERACIÓN
Resumen
Este trabajo aborda la relación entre la bioética y el crimen de ge-
nocidio en el horizonte de los marcos de protección contra ofen-
sas a los derechos humanos. Su propósito es poner en perspectiva
sus delimitaciones conceptuales e históricas. En su argumento,
señala la necesidad de alteración de los pactos de protección y
defensa de la vida, delimitados aquí como bioética de alteración,
tomando como referencia las contribuciones intelectuales de los
estudios sobre raza, de los estudios culturales y los feminismos
decoloniales.
Palabras clave: Bioética, genocidio, descolonización.

João Vinicius Marques


marques.jvinicius@gmail.com

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Marques, J. V.

INTRODUÇÃO Este trabalho situa os referentes da


bioética e do genocídio sob dois as-
O texto que segue é um estudo de caso
pectos de surgimento particulares, ar-
do que proponho como uma bioética
ticulados entre si. Para a bioética, sua
de alteração. Entendo que a bioética
relação original com a produção de
de alteração que aqui sugiro se refere
experimentos que repetiam as práti-
à necessidade de reconhecermos a in-
cas dos cientistas alemães do regime
compatibilidade de um projeto ético
nazista no berço intelectual e político
de respeito e defesa da vida com o que
do ocidente, que é os Estados Unidos
hoje se encontra estruturalmente pro-
da América (EUA). Para o genocídio, a
jetado para subjugar a sua diferença de
sua conversão conceitual e política na
si, chamado e reduzido nessa perspec-
tiva de o Outro, nos usos e discursos tradução jurídica que resultou na Con-
da modernidade científica e ocidental. venção para a Prevenção e Repressão
do Crime de Genocídio, em 1948. Em
O caso da inter-relação sistemática da minha argumentação, o enredamento
bioética e da prevenção aos crimes desses dois acontecimentos, compar-
de genocídio representa bem essa in- tilhando de fundo os marcos de pro-
compatibilidade: a forma como os in- teção dos direitos humanos, mantem
teresses e delimitações das fronteiras consigo uma espécie de limitação de efei-
da bioética e do genocídio reduzem tos sob o uso e a delimitação conceitual
os horizontes desses conceitos às fi- desses referentes, que impede, por sua
guras modernas da individualização e vez, a consciência de um amplo grau
da fragmentação epistêmica, que nos de devastação, no qual a presença real
impede, por conseguinte, de enxergar- do genocídio e a ausência da bioética
mos mais concretamente os seus laços
figuram em um mesmo plano político
e conexões internas para a consciência
e concorrente para a persistência dessa
ética necessária de alteração da realida-
realidade.
de dada. Sim, alteração, porque a reali-
dade operante não nos permite pensar O trabalho se vale de referências críticas
a mitigação das mortes e das dinâmicas intelectuais dos estudos descoloniais,
de sufocamento e deterioração das vi- mas se vale em particular dos referen-
das hoje relegadas à diversidade e à al- ciais teóricos do pensamento intelectu-
teridade. A mitigação como propósito al negros e dos estudos críticos da raça.
para o projeto de uma alteração tam- Essas referências não se reduzem e
bém decorre da constatação de que, reproduzem integralmente como uma
sob os parâmetros atuais, o contexto categoria intelectual homogênea e, me-
atual de racismo ambiental e sistêmico nos ainda, unitária. Mas compartilham
vem se dando de modo tal que não po- um direcionamento crítico importante
demos ter a certeza de que um estado para a realidade, recomposto de uma
de alteração possa acabá-lo, mas que perspectiva de alteração proveitoso, si-
podemos assumir a sua estruturalidade tuado sob as fronteiras das categorias
para com ela reconhecer a necessidade analíticas tais como elas são praticadas
de uma bioética alterativa da justiça. (MOHANTY, 2003), entre dicotomi-

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zações e reduções sob o império da lei racionalidade dominadora da ciência


das instituições epistêmicas da moder- e dos imperialismos na Europa e nos
nidade do ocidente. EUA, com pressões de atores sociais
As inspirações teóricas desse trabalho organizados por direitos civis, intelec-
também compartilham uma perspecti- tuais e da comunidade científica.
va crítica da racialidade e de sua articu- Os experimentos, pontuados em es-
lação imperial entre a modernidade e cândalos sucessivos, remontam a práti-
o colonialismo, como sugerem as for- cas sistemáticas e toleradas no circuito
mulações teóricas de Aníbal Quijano de pesquisadores e profissionais bio-
(2005), acerca da colonialidade do po- médicos há muitos anos, e envolviam
der. De modo particular também, essas a realização de pesquisas sem o con-
referências intelectuais reconhecem o sentimento informado para o emprego
racismo como conformação reflexa de de técnicas sem benefícios previstos e
um projeto epistêmico mais amplo de muitas vezes prejudiciais às participan-
modernidade, cuja violência operante tes, além de uma preferência por gru-
carrega consigo uma lógica de repres- pos em contextos de grande vulnera-
são e hierarquização das diferenças. As bilidade: idosos, crianças, pessoas com
implicações bioéticas interrogadas pela deficiência intelectual ou transtorno
realidade histórica e persistente de um mental, pessoas pobres e negras, até
genocídio racializado são assim dispos- mesmo recém-nascidos.
tas em perspectiva como produto de À época em que esses escândalos nas
uma dinâmica dos modelos de conhe- pesquisas clínicas envolvendo pessoas
cimento e de poder dominantes, nas surgiram, um profundo mal-estar foi
quais o genocídio da população negra
gerado, diante da lembrança de que os
é paradigmático na compreensão da
incidentes suscitaram das práticas dos
ameaça da colonialidade e do racismo
cientistas alemães nazistas na condução
a vários contextos e experiências de su-
de experimentos no contexto do Holo-
balternização cultural de pessoas, cujas
causto. Com efeito, era profundamente
existências e corpos não se conformam
desestabilizante a possibilidade de que
às esquematizações universais de sujei-
os marcos normativos instituídos no
to propostas sob o olhar do ocidente.
pós-guerra e o repúdio à negação do
direito à vida de grupos humanos não
garantissem a repressão às práticas de
1. BIOÉTICA E GENOCÍDIO:
desumanização e depreciação da digni-
CONTEXTOS
dade de pessoas, e ainda mais que atos
A bioética em seu surgimento nos de tal gravidade se sugerissem no inte-
EUA remete aos escândalos envolven- rior de uma nação autoproclamada de-
do pesquisas com seres humanos. Os fensora dos valores liberais e democrá-
experimentos começaram a ser denun- ticos como os EUA. Apropriados do
ciados ao longo dos anos 1960 como espírito do iluminismo e da civilização,
parte de uma tendência que surgia no os cientistas e a comunidade implicada
pós-segunda guerra mundial, crítica da no progresso científico da sociedade

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norte-americana não se viam sob os se e das necessidades de outros foi o


mesmos parâmetros de controle ético elemento disparador da bioética e do
das atrocidades dos cientistas alemães. campo possível de mediações que pu-
Assim, a bioética também se constituiu dessem democratizar o autoritarismo
em torno da produção de parâmetros médico e corporativo na relação com
éticos que dessem alcance à regulação sujeitos ditos vulneráveis, afastando a
dessa “boa ciência”, que parecia para- condescendência com condutas anti-
doxalmente incapaz de coibir condu- éticas e nazistas e, ao mesmo tempo,
tas inapropriadas exatamente por sua regulamentando as atividades e interes-
radical abjeção aos atos perpetrados ses clínicos, científicos e político-eco-
no nazismo. Levando em conta as ci- nômicos na pesquisa biomédica.
fras crescentes investidas em pesquisas A consolidação da preocupação com
biomédicas nos EUA no pós-guerra e a vulnerabilidade dos sujeitos no cam-
no contexto da guerra fria, as diretrizes po da bioética pode ser observada de
institucionais da bioética e seus deba- forma reflexa na proteção jurídica que
tes se deram também na necessidade passou a ser conferida aos grupos vul-
de uma delicada ponderação entre a neráveis no contexto dos direitos hu-
proteção dos interesses econômicos e manos, tendo também como referên-
científicos e a proteção da autonomia cia o marco do desastre dos crimes do
dos sujeitos participantes das pesquisas nazismo. Sem prejuízo dos inúmeros
biomédicas financiadas. institutos de proteção aos direitos hu-
Se, por um lado, as pesquisas biomé- manos de grupos específicos, o passa-
dicas envolvendo pessoas geravam do das violações desse funesto evento
importantes benefícios à sociedade histórico é particularmente evocado
moderna e, em muitos casos, às pesso- no plano internacional sob o repúdio
as participantes das pesquisas, muitas ao crime de genocídio, que sinaliza a
descobertas, por outro lado, se deram proteção às garantias de sobrevivência
sob a produção de riscos e sob a ques- material de coletividades vulneráveis à
tionável exploração de sujeitos cujas ação de grupos e poderes institucio-
condições limitadas de autonomia e nalizados dominantes. Dispostos lado
de acesso a recursos materiais e sim- a lado, nesse sentido, os referenciais
bólicos diversos para sobrevivência dos direitos humanos na bioética e na
permitiram benefícios ao círculos de criminalização das práticas de genocí-
empreendedores políticos e científicos dio conferem o horizonte de possibili-
das pesquisas envolvendo seres huma- dades de proteção de grupos contra a
nos, em prejuízo dos que participaram produção de práticas antiéticas que in-
delas. Sob o paradigma do avanço cien- corram na repetição do assujeitamento
tífico e da concorrência econômica vi- e do extermínio.
gentes no campo político das pesquisas Esses marcos não interromperam, no
de então, o controle sobre a exploração entanto, a violência institucional contra
da vulnerabilidade de determinados a vida. No campo da bioética, muitas
grupos para a satisfação do interes- contribuições críticas vêm observando

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negligências éticas persistentes no de- se constituíram em definir e operar as


senvolvimento de pesquisas contem- categorias conceituais da bioética e do
porâneas conduzidas por países desen- genocídio e sob que fronteiras essas
volvidos e corporações transnacionais categorias lidam com as realidades de-
com populações vulneráveis em países siguais e de extermínio existentes? A
subdesenvolvidos, sobretudo na Amé- seguir, retomo, em caráter explorató-
rica Latina, na África e na Ásia. No rio, os episódios de surgimento e insti-
Brasil, por sua vez, segue-se um his- tucionalização desses campos em face
tórico crescente de mortes violentas a das pressões e agenciamentos políticos
cada ano. Segundo os dados do IPEA, e econômicos da colonialidade e do ra-
foram registrados 62.517 homicídios cismo.
em 2016, dos quais 71,5% tiveram por
vítima pessoas negras (pretas e par-
das), número que cresceu em 23,1% 2. APROXIMANDO OS ANTE-
no período de uma década, enquanto CEDENTES DA BIOÉTICA E O
o restante da população teria tido uma GENOCÍDIO
redução dentre as vítimas de mor- O surgimento da bioética nos EUA
tes violentas no percentual de 6,8% como campo remete ao mal-estar da
(IPEA, 2018). Tal número, seguido de comunidade científica e das institui-
condições variadas de acesso limitado ções governamentais dos anos 60 e 70
a dispositivos de garantia de dignidade em estabelecer novos parâmetros de
e reconhecimento para esse segmento controle sobre a pesquisa e a prática
(cf. BRASIL, 2013; Werneck; Batista e clínica biomédica diante de procedi-
Lopes, 2012), vem caracterizando um mentos e experimentos humanos que
amplo e perpetuado genocídio contra passaram a ser colocados sob suspeita
a população negra (Nascimento, 1978; de suas condutas éticas. No âmbito da
Carneiro, 2005; Reis, 2013). comunidade acadêmica, faz parte dos
Apesar da materialidade da persistência marcos desse mal-estar a publicação de
de uma dinâmica estrutural desigual e Henry Beecher que, em seu Ethics and
de processos de extermínio correntes Clinical Research, em 1966, denunciou
contra grandes segmentos minoriza- pesquisas cujos protocolos colocavam
dos como a população negra no Brasil, em questão o respeito à dignidade e à
a bioética e o genocídio seguem sendo autonomia das pessoas participantes.
operados como categorias delimitadas, Beecher encontrou condutas antiéticas
adstritas à aplicação casuística e indivi- que se repetiam entre vários trabalhos
dual, através das quais essa realidade, publicados e, conforme sustentava em
suplementar e dolorosa, é afastada e seu artigo, circulavam entre as mais va-
mesmo negada pelas comunidades po- riadas instituições de pesquisas clínicas
líticas de atores sociais nos quais a bio- envolvendo seres humanos: pessoas
ética e os direitos humanos da proteção doentes cujo tratamento efetivo era ne-
de grupos vulneráveis se constituem gado sem seu conhecimento; recurso a
como campo. Mas como esses campos terapias químicas e técnicas de indução

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em pessoas saudáveis ou incapacitadas de, no Alabama, sem administração de


para teste de possíveis efeitos adver- diagnóstico ou tratamento algum e,
sos – seguidos do acompanhamento consequentemente, sem qualquer con-
de sérios danos às participantes, até a sentimento informado das participan-
aplicação injustificada de técnicas para tes. Sob o propósito de acompanhar
a verificação de disfunções, como uso o desenvolvimento da sífilis entre ho-
tóxico de substâncias e superexpo- mens negros doentes e os comparan-
sição a raios-x. Além dos recursos e do com outros saudáveis, as pessoas
meios empregados sistematicamen- foram examinadas e sistematicamente
te em prejuízo das participantes, as iludidas de que estariam sendo tratadas
pesquisas relatadas guardavam ainda de uma doença qualquer – a que cha-
uma preferência constrangedora por mavam de sangue ruim. O caso mar-
doentes mentais, pacientes crônicos cou de modo particular os preceden-
em estágios críticos de avanço cujas tes da bioética pela continuidade do
condições substanciais de escolha pela estudo, mantendo-se a observação do
participação ou não nos experimentos avanço da doença sobre os pacientes
eram bastante duvidosas, muitas delas doentes até a morte de muitos deles,
inexistentes. mesmo após a descoberta de um tra-
tamento eficaz para a sífilis, por meio
Das denúncias de Beecher à mobili-
da administração de uma única dose de
zação institucional e discursiva da bio-
penicilina.
ética como campo, no entanto, preci-
pitou o conhecimento de uma série de Em 1974, a emergência dos três es-
incidentes éticos semelhantes, envol- cândalos citados, associados com o
vendo a comunidade científica e agên- financiamento e o conhecimento da
cias governamentais norte-americanas: agência de pesquisa norte-americana (o
a participação não consentida de 22 National Institute of Health - NIH), deu
portadores de doenças crônicas em impulso à consolidação institucional
estado de senilidade em experimentos de diretrizes de controle e construção
de injeção de células cancerígenas no de parâmetros éticos para a revisão das
Hospital Judaico de Nova Iorque, en- pesquisas científicas financiadas pelo
tre os anos de 1963 e 1966; a utilização governo, que se deram com a padro-
de 800 crianças institucionalizadas com nização do sistema de revisão ética de
deficiência mental em um experimento pesquisa e com os princípios éticos
de inoculação do agente causador he- eleitos no Relatório Belmont (Passini e
patite viral para observação do desen- Barchifontaine 2007).
volvimento da doença, entre os anos Esse momento é considerado um im-
de 1956 e 1970 (Hogemann 2015); e, portante marco na constituição da
ainda, o que ficou marcado nos prece- bioética no campo acadêmico, pres-
dentes da bioética como o caso Tuske- sionando pela democratização dos
gee (1932-1972), a história de 40 anos critérios de justificação das pesquisas
de 600 homens negros acompanhados e intervenções clínicas com pessoas e
pelo serviço médico local de sua cida- mobilizando a entrada de interlocuto-

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res acadêmicos de outras disciplinas, atrocidades cometidas pelos cientis-


a exemplo da Filosofia e da Teologia, tas alemães no Holocausto.
e de outros atores sociais organizados Tal como o Código de Nuremberg, a
no debate sobre o controle ético das experiência ocidental terrificante do
ações médicas, então marcadas por um Holocausto motivou a tipificação do
paternalismo médico evocado sob o crime internacional de genocídio, por
ficou sendo o jargão bioético da ética meio da Convenção para a Prevenção
à beira do leito (ethics at the bedside) (Roth- e Repressão do Crime de Genocídio,
man apud Diniz e Guilhem 2002).
em 1948, cujo tipo penal repreendia
Ora, esse paternalismo biomédico era a prática de extermínio de grupos por
respaldado por uma benevolência se- motivações nacionais, étnico-raciais ou
guida da autoridade (paterna, afinal) religiosas:
que permitiu afastar até então a sus- Considerando que a Assembleia
peita sobre suas ações. Subjacente aos Geral da Organização das Nações
acontecimentos que deram enlevo à Unidas, na sua Resolução n.º 96 (I),
constituição da bioética como campo, de 11 de Dezembro de 1946, de-
havia o mal-estar da comunidade cien- clarou que o genocídio é um crime
tífica e do Estado norte-americano de de direito dos povos, que está em
que as violações ao Código de Nurem- contradição com o espírito e os fins
berg (1947) – criado a partir da conde- das Nações Unidas e é condenado
nação de cientistas alemães pela prática por todo o mundo civilizado; Reco-
de experimentos letais com prisionei- nhecendo que em todos os períodos da
ros – os colocassem sob o mesmo re- história o genocídio causou grandes perdas
à humanidade; Convencidas de que,
púdio legado aos agentes do nazismo.
para libertar a humanidade de um
As regras do código preconizavam o flagelo tão odioso, é necessária a co-
respeito à vontade expressa pela par- operação internacional; Acordam
ticipante como condição para realiza- no seguinte: Artigo 1.º As Partes
ção e continuidade dos experimentos Contratantes confirmam que o
e estabeleciam a vedação sobre mé- genocídio, seja cometido em tem-
todos e técnicas que pudessem resul- po de paz ou em tempo de guerra,
tar em danos, invalidez e morte das é um crime do direito dos povos,
participantes. As inovações do códi- que desde já se comprometem a
go foram importantes precedentes prevenir e a punir. Artigo 2.º Na
presente Convenção, entende-se
à bioética, complementando o jura-
por genocídio os atos abaixo indi-
mento hipocrático da defesa da vida
cados, cometidos com a intenção
na ética médica com a necessidade de destruir, no todo ou em parte,
de observância e respeito à vontade um grupo nacional, étnico, racial
expressa das participantes (Alves e ou religioso, tais como: a) Assas-
Tubino 2006). Os pesquisadores es- sinato de membros do grupo; b)
tadunidenses da época, no entanto, Atentado grave à integridade física
desconsideravam a aplicação de tais e mental de membros do grupo; c)
regras, guardada sua relação com as Submissão deliberada do grupo a

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condições de existência que acar- plano coordenado de diferentes


retarão a sua destruição física, total ações que visam à destruição dos
ou parcial; d) Medidas destinadas fundamentos essenciais da vida de
a impedir os nascimentos no seio grupos nacionais, com o objetivo
do grupo; e) Transferência forçada de aniquilar os grupos. Os objeti-
das crianças do grupo para outro vos de tal plano seriam a desinte-
grupo. Artigo 3.º Serão punidos os gração das instituições políticas e
seguintes atos: a) O genocídio; b) O sociais, da cultura, da língua, dos
acordo com vista a cometer genocí- sentimentos nacionais, da religião
dio; c) O incitamento, direto e pú- e da existência econômica de gru-
blico, ao genocídio; d) A tentativa pos nacionais, e a destruição da
de genocídio; e) A cumplicidade no segurança pessoal, liberdade, saú-
genocídio. (ONU, Convenção para de, dignidade, e até mesmo da vida
a Prevenção e Repressão do Crime dos indivíduos pertencentes a es-
de Genocídio)1 ses grupos. (Lemkin apud Flauzina
2016, p.123)
Embora sua tipificação tenha se dado
como uma resposta consensualmen- Especialmente para os EUA, o grande
te assentida em repúdio às atrocida- receio era de que fossem também incri-
des cometidas pelo nazismo alemão, a minados pelo tratamento reservado aos
confecção do texto normativo foi ob- segmentos minorizados sob seu terri-
jeto de tensões entre os interesses dos tório, a exemplo do flagrante descaso
Estados-nação de práticas imperiais e à sobrevivência de suas populações
colonizatórias. indígenas ao massacre de constituição
de seu território e da vigência das leis
Em seu As fronteiras raciais do genocídio
segregacionistas contra a população
(2014), Ana Flauzina demonstra como
afro-americana, que seguiriam oficial-
o conceito teria passado à época por
mente até 1965. Pensando das disputas
importantes agenciamentos de interes-
em torno do significado jurídico e po-
se dos EUA e da União Soviética na
lítico do genocídio, os incidentes que
Assembleia Geral da Organização das
precipitam a mobilização do campo da
Nações Unidas (ONU), no sentido de
bioética nos EUA se sobrepõem à de-
reduzir o genocídio ao extermínio físi-
licada disputa entre o reconhecimento
co intencional e objetivo, e de afastar
e a negação do assujeitamento e do ex-
a abrangência do crime a práticas de
termínio de populações vulneráveis no
genocídio cultural e ao atentado con-
interior das narrativas da modernidade
tra grupos políticos e sociais, presentes
e do ocidente.
na sua formulação original, de Raphael
Lemkin: Na representação simbólica do Holo-
o genocídio não significa necessa- causto, que marca também a institui-
riamente a destruição imediata de ção do crime de genocídio, Flauzina
uma nação, exceto quando mate- destaca as implicações políticas que a
rializado por assassinatos em massa sustentação de sua singularidade no
de todos os membros de uma na- evento do nazismo impõe ao reco-
ção. Significa a configuração de um nhecimento de outras violações his-

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tóricas e sistemáticas a outros grupos, trole da violência que se tornam inca-


em particular, o das populações negras pazes de se contraporem às dinâmicas
no mundo. Além do percurso de des- violentas perpetradas pela própria ló-
locamento semântico do genocídio, gica de hierarquização, racialização, ex-
simbolicamente identificado com o ploração e assujeitamento produzidas
massacre físico, estaria também, subja- pela modernidade ocidental vigente.
cente a essa imagética do Holocausto, Face ao colonialismo, nesse sentido,
a dificuldade em reconhecer a repli- a bioética se desdobra normatizando
cação de experiências semelhantes do valores aprendidos com o trágico nas
nazismo com os processos anteriores experiências em pesquisa e nas viola-
e subsequentes de colonização e de ções à sobrevivência e à integridade de
escravização de outros povos e mino- populações vulneráveis que são repli-
rias inferiorizadas, praticadas nos ter- cações da desumanização e do desvalor
ritórios e além-fronteiras dos impérios pela existência de populações diversas,
das civilizações modernas e desenvol- destacadas da sobreposição de proces-
vidas da Europa e, posteriormente, sos contínuos e dissimulados de geno-
também dos EUA. Além do arquétipo cídio. Tal constatação é sensível diante
da monstruosidade do genocídio das da persistência de violações e de ten-
práticas nazistas, concorre para a invi- sionamentos éticos na relação entre os
sibilidade dessa imbricação a casuística interesses políticos do conhecimento
jurídico-penal, cujo efeito é fragmentar científico e as condições estruturais de
complexos problemas de justiça com sobrevivência de populações sistemati-
um esgotamento formal e político de camente ameaçadas – no genocídio ora
caracterizações e sanções entre culpa- em foco, o da população negra, mas
dos e vítimas delimitadas2. A implica- que se articula também às condições
ção disso é a invisibilidade da conexão difíceis de sobrevivência de indígenas,
histórica e estrutural da tragédia da mulheres e homens com deficiência e
modernidade ocidental do Holocausto crianças e idosos dentre outros, atra-
com as experiências de racialização do vessados pela hierarquia e pela estrati-
colonialismo precedentes, concorren- ficação produzidas na lógica política de
tes e subsequentes ao evento históri- conhecimento da modernidade colonial.
co do nazismo. Dispondo a episteme O controle ético sobre as pesquisas
moderna e ocidental da proteção dos com sujeitos vulneráveis, nesse sentido,
direitos humanos em perspectiva, tal disfarça uma relação constrangedora
lógica deriva de uma concepção for- com o genocídio proveniente da pro-
malista e fragmentarizante de proces- dução estrutural e sistemática da vulne-
sos seriados e estruturais mais amplos rabilidade de populações assujeitadas à
que informam a delimitação restritiva existência em uma realidade discrimi-
de caracterização do(s) genocídio(s) e natória e injusta, na qual a gravitação
das condutas violentas sob escrutínio da bioética em torno das pesquisas en-
da bioética. O resultado é a produção volvendo seres humanos é um limita-
de campos éticos e de justiça no con- dor conceitual e semântico importante,

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e, à primeira vista, até mesmo compro- nos e a presunção da responsabilidade


metedor dos esforços para uma epis- ética dos pesquisadores e profissionais
teme ampliada da bioética em direção de saúde na avaliação de seus próprios
a proteção integral da vida de sujeitos procedimentos. Cruciais no advento da
vulneráveis. Apesar disso, o campo de bioética, essa consciência rendeu, com
debates sobre a ética nas pesquisas em a Convenção de Helsinque, em 1964,
direitos humanos deu continuidade à e o Relatório de Belmont, em 1979, a
construção de diretrizes institucionais delimitação de diretrizes institucionais
e de reflexões críticas importantes atra- especificamente voltadas à orientação
vés das quais a bioética vem ampliando e controle dos procedimentos biomé-
o seu campo de significação e, com ele, dicos, dentre os quais a pesquisa assu-
suas possibilidades de transformação. miu grande importância, destacando a
Na parte desse trabalho que se segue, necessidade do respeito à autonomia,
dou continuidade ao desdobramento à integridade e à proteção das partici-
de alguns dos marcos institucionais e pantes das pesquisas frente aos interes-
paradigmas consolidados no campo da ses de conhecimento biomédico.
ética em pesquisa e das contribuições Do Relatório Belmont, nos EUA,
críticas teóricas da bioética voltadas a produto da atividade da Comissão
abordagens mais sensíveis às realidades Nacional para a Proteção de Sujeitos
persistentes de grupos minorizados e Humanos na Pesquisa Biomédica e
de nações e continentes inscritos sob o Comportamental, surgiu a tradição éti-
subdesenvolvimento. ca principialista no campo, que é ainda
hoje influente nas discussões da ética
biomédica (Diniz e Guilhem 2002). Os
3. DELIMITAÇÕES INSTITUCIONAIS
três princípios formulados no relató-
E NORMATIZAÇÕES DA BIOÉTICA
rio, o da autonomia, da beneficência e
EM UM MUNDO DESIGUAL
da justiça, sofreram modulações e fo-
De volta aos marcos de surgimento da ram objeto de muitas críticas ao longo
bioética, os incidentes ocorridos nos dos debates acumulados na história da
EUA renderam um esforço de regula- bioética, mas tiveram o mérito de con-
mentação suplementar das atividades solidar a observância pelos pesquisa-
em intervenção e pesquisa médicas. dores: da necessidade de um consen-
Com os escândalos envolvendo a ex- timento informado para a participação
ploração da vulnerabilidade de pessoas nas pesquisas; do compromisso com o
negras, crianças, pessoas com defici- bem-estar das pessoas participantes; e
ência e prisioneiros na economia das de que empreendimentos de pesquisa
pesquisas de doenças e testes de tera- favorecidos por condições desiguais
pias, medicamentos e procedimentos ou particularmente vulneráveis de seus
de manipulação dos processos vitais sujeitos eram eticamente injustas sem
e de adoecimento, ficaram patentes a benefícios da pesquisa para esses su-
insuficiência dos marcos regulatórios jeitos que prezassem pelo alcance de
éticos profissionais, dos direitos huma- certa equidade.

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Implicações bioéticas do genocídio

Criada pela Associação Médica Mun- América Latina, e que remetem à per-
dial, a Convenção de Helsinque, por sistência de iniquidades e de problemas
sua vez, foi um importante marco de éticos no tratamento de sujeitos vulne-
referência para as pesquisas em âmbito ráveis dentro e para além do campo das
internacional na proteção contra ris- pesquisas biomédicas dentro das quais
cos de danos sérios ou irreversíveis às o campo da bioética se consolidou.
participantes e na garantia de retornos Nesse campo de debates, se encon-
em benefícios nos tratamentos e resul- tram importantes críticas. Dentre mui-
tados obtidos, limitando a justificação tas destas, no Brasil, se encontra a crí-
de pesquisas cujo controle de risco e tica da comunidade de pesquisadores
a perspectiva de resultados positivos sociais em saúde acerca dos critérios
para as populações participantes não biomédicos e da concepção genérica e
pudessem ser observados. Em particu- universalizante dos valores ocidentais
lar também, a Convenção de Helsinque e eurocentrados contidos nas aborda-
logrou consolidar o sistema de revisão gens principialistas (Diniz e Guilhem
ética das pesquisas envolvendo pessoas 2002; Shuch e Víctora 2015; Fonseca
e a padronização dos parâmetros éti- 2015). No campo de contribuições
cos locais das pesquisas ao nível inter- teóricas latino-americanas inspiradas
nacional. na crítica das teorias da dependência
Esses marcos de diretrizes internacio- e do subdesenvolvimento, a chamada
nais, vale notar, não foram os únicos, bioética de intervenção denunciou a
mas ofereceram as bases do que seria a persistência de desigualdades, os duplos
influência paradigmática do principia- padrões éticos, no compartilhamento dos
lismo ético na orientação dos proce- retornos e no controle sobre os riscos a
dimentos em pesquisa e na instituição que populações vulneráveis nos países
dos sistemas de revisão ética dos pro- subdesenvolvidos são submetidas em
cedimentos de pesquisa envolvendo pesquisas multicêntricas capitaneadas
seres humanos em âmbito internacio- por empresas transnacionais e fundos
nal. Essas características demarcadoras de pesquisa de países desenvolvidos; e
do campo da bioética e de suas diretri- aos problemas decorrentes da redução
zes regulatórias influenciaram de modo da bioética – e da ética a ela subjacente
determinante os parâmetros de regula- – aos parâmetros e preceitos de con-
ção da ética em pesquisa no Brasil3 e trole de projetos e empreendimentos
que conferiram estabilidade à identida- biomédicos, para efeito da regulamen-
de particular do termo bioética com a tação das atividades relacionadas à pes-
ética em pesquisa e, em particular, com quisa social em saúde e da incidência
os parâmetros biomédicos de avaliação da bioética sobre fenômenos éticos
ética dos procedimentos científicos mais amplos relacionados à construção
com seres humanos. da vulnerabilidade e à garantia da pro-
Essas características demarcam o cam- teção aos direitos humanos. (Garrafa
po de conflitos e disputas na bioética 2009; Garrafa e Lorenzo 2009; Kottow
contemporânea debatida no Brasil e na 2008; Costa 2008).

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Marques, J. V.

O mérito dessas contribuições críti- cas da biopolítica (cf. Arán e Peixoto


cas, tomadas na sua heterogeneidade Júnior 2007).
e na multiplicidade de suas vozes no É por isso demais limitada uma bio-
campo da bioética, foi principalmen- ética que se restrinja à ética na pes-
te o de abrir espaço à interpelação quisa e que se confunda com a ética
dissidente sobre os consensos ins- biomédica para os propósitos de uma
titucionais firmados [no hemisfério consciência responsável das vulnerabi-
norte, no eixo superior do ocidente] lidades daquelas pessoas que se preten-
diante da persistência estrutural das de proteger4. Para países como os do
injustiças e dos desafios à consolida- continente latino-americano e africano,
ção de práticas éticas com pessoas para as populações negras e indígenas,
em um mundo culturalmente diversi- para pessoas deficientes e inscritas sob
ficado e também desigual. De modo a pobreza ou sob variadas formas de
subjacente também, essas confron- privação de recursos materiais e sim-
tações críticas transbordam e deses- bólicos de acesso a direitos, a vulnera-
tabilizam as matrizes compreensivas bilidade à exploração antiética de uma
restritivas e dominantes da bioética, pesquisa pode ser apenas um dentre
em direção à compreensões críticas variados fluxos, muitas vezes sobre-
mais amplas e acuradas das correla- postos de violências, e para as quais o
ções transversais entre os problemas risco à vida pode ser muitas vezes uma
da bioética (da vida) e as complexida- confrontação cotidiana, para o qual as
des suscitadas pelas distintas formas políticas públicas locais ou os marcos
de encarnar a vulnerabilidade e as internacionais dos direitos humanos
demandas específicas por proteção, muitas vezes não fizeram ou não fa-
levando em conta aspectos econômi- zem diferença. É sob esses vieses que
cos, geopolíticos e culturais vivencia- os preceitos normativos universais dos
dos em corporeidades de dentro das países desenvolvidos se afastam das lu-
quais a diferença se expressa. tas cotidianas das populações inscritas
No interior de uma bioética constituída sob a categoria da vulnerabilidade e da
para afastar a replicação de atrocidades subalternidade, e que igualmente suas
cometidas contra a vida, esses tensio- estratégias de compreensão não con-
namentos críticos são importantes para ferem inteligibilidade aos contextos de
expandir as possibilidades de reflexão violação e de extermínio, bem como
da bioética para a consciência do com- não oferecem recursos de autocrítica a
plexo enredamento que o conhecimen- sua própria participação na perpetua-
to, e a sua relação com a vida, com a ção desses contextos de subalterniza-
vulnerabilidade, guarda com o político ção e de violência.
e com a história da constituição das Da bioética de volta à problemática da
diferenças entre as pessoas através das singularidade e do reconhecimento do
quais as hierarquias se transformam e genocídio,
se atualizam, nos horizontes em que se Não é uma questão de contabilidade
entrecruzam a bioética com as dinâmi- ou de vencedores e vencidos na ba-

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Implicações bioéticas do genocídio

talha da minoria mais martirizada. ao burguês muito distinto, muito


Não é uma questão de vitimologia humanista, muito cristão do século
comparativa, mas de sobrevivência XX que traz em si um Hitler que se
coletiva. A insistência na incompa- ignora, que Hitler vive nele, que Hi-
rabilidade e na “singularidade” do tler é o seu demónio, que se o vitupe-
Holocausto nazista é precisamente ra é por falta de lógica, que, no fun-
o que proíbe a compreensão coleti- do, o que não perdoa a Hitler não é
va de genocídio como um fenôme- o crime em si, o crime contra o homem,
no de “civilização” ocidental, não não é a humilhação do homem em si, é
como uma série de eventos histó- o crime contra o homem branco,
ricos reiterativos, cada um em seu a humilhação do homem branco e
próprio caminho “único”. É o que o ter aplicado à Europa processos
inibe a nossa capacidade de nome- colonialistas a que até aqui só os
ar causas, antecipar os resultados e, árabes da Argélia, os <<coolies>>
acima de tudo, envolver-se em ação da Índia e os negros de África es-
política e intelectual de enfrenta- tavam subordinados (CESAIRE,
mento diante de experiências con- 1978, p.18)
temporâneas (Lilian Friedberg apud
FLAUZINA, cit, 133-4) Se, pelo Discurso sobre o Colonialismo de
Aimé Cesaire, a argumentação é de
Flauzina destaca o quanto o genocídio
que o Holocausto simbolizado por
vem sendo reivindicado por movimen-
Hitler é o produto da indiferença do
tos sociais diversos para qualificar as
ocidente ao massacre sistemático ins-
suas experiências de violação. A auto-
ra propõe analisar essas reivindicações crito sobre o colonialismo, o repúdio
não do ponto de vista de sua adequa- do genocídio sob a memória mons-
ção às formalidades e requisitos incor- truosa do nazismo, na qual se assenta
porados à tipificação do crime previs- a gênese da tradição humanista oci-
tos na convenção, mas do que essas dental contemporânea, mantém invi-
reivindicações podem expressar do sível a sua relação com a perpetuação
ponto de vista da experiência daque- do racismo e com a desumanização
las que a reivindicam. Nesse sentido, gestada na experiência de extermínio
o que está subjacente a essa demanda e de assujeitamento das humanidades
é o reconhecimento da existência dos renegadas pelo imperialismo cultu-
grupos reivindicantes, que pretendem ral do ocidente. Se, na ética ociden-
o reconhecimento da humanidade de tal dos Direitos Humanos, a ruptura
sua coletividade através da proteção ju- com a violação à dignidade de qual-
rídica e simbólica conferida pela cons- quer pessoa constitui uma relativiza-
tatação das ameaças às suas vidas por ção ameaçadora à existência de toda
meio da condenação penal aos agentes a humanidade, a negação do reconhe-
imputados – comumente o estado – cimento histórico do evento colonial
pelo crime de genocídio. é também a perpetuação dessa amea-
Sim, valeria a pena estudar clinica- ça, no qual o genocídio renegado do
mente, no pormenor, os itinerários passado colonial às populações indí-
de Hitler e do hitlerismo e revelar genas nas Américas e nas Áfricas se

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Marques, J. V.

repetem na persistência do racismo e 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS:


da indiferença moral à desumaniza- DE VOLTA A UMA BIOÉTICA DE
ção de algumas pessoas em detrimen- ALTERAÇÃO
to de outras na contemporaneidade,
Uma bioética substancialmente prote-
nas quais também a racialidade da tora da vulnerabilidade da humanidade
lógica colonial, antes aplicada às po- e de seus espaços de sobrevivência e
pulações indígenas, tradicionais e reprodução social, na sua diversidade,
afrodescendentes, também se repro- não pode se abster da consciência de
duz no tratamento desumanizante e que seus marcos, diretrizes normativas
assujeitador de homens e mulheres e institutos de controle sobre a ativi-
portadores de transtornos mentais e dade de conhecimento estão inscritos
de doenças crônicas; de idosos e tan- sob um mundo profundamente desi-
tos outros para os quais a racialização gual, de sujeitos destituídos de sua hu-
pode ser o processo paradigmático manidade por uma moldura ocidental
de tratamento de sua própria invisi- racializada em vários níveis, dos quais a
bilidade ou silenciamento. colonização e o capitalismo hierarquiza
Os reflexos dessa desumanização se e subclassifica as diferenças em oposi-
dão sobrepostos ao avanço das tecno- ção e em favor da sobreposição de um
humanismo particularizado, eurocen-
logias e possibilidades de administração
trado, branco, masculino, logocêntrico,
da vida e da morte no contemporâneo
burguês, corporalmente sadio e sexu-
e se investem da biopolítica e da instru-
almente moralizado, que limita e põe
mentação da racionalidade tradicional sempre em questão a existência dos su-
do ocidente de modo contínuo com a jeitos inscritos fora desse marco zero de
soberania e com a autoridade dos Esta- humanidade. Para além dele, a diversi-
dos-nação, entrecruzando capitalismo, dade particular de cada ser humano ou
democracia e mobilizando referenciais coletividade não pode ser concebida
de proteção da vulnerabilidade huma- fora de uma redução instrumental de
na, como o da defesa da vida, em favor sua compreensão, o que implica em ser
do poder de decidir sobre quem vive e definido sempre como um Outro, de
quem morre; sobre como vive e sobre identidade e autodeterminação sem-
como morre; sobre o quanto vive e so- pre condicionada por esse parâmetro
bre quando morre; sobre em função de cultural ocidental de humanidade, um
quem se vive e sobre em função de quem ser humano ou coletividade relativos,
se morre5. Tal dinâmica informa tanto subalternidades ou, como argumenta
a indiferença do estado quanto às ci- Spivak (2010), subalternidades às quais
fras de mortes praticadas entre sujeitos não é consentido falarem por si mesmas.
racializados por meio do extermínio O anseio por uma bioética de alteração
direto, como a intervenção difusa de com que conclui o título desse trabalho
interesses políticos e econômicos so- reflete de que é preciso ser assumida a
bre a vida de populações tradicionais e consciência de que os rumos da ação
nativas e sobre a biodiversidade. humana no mundo não pode perma-

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Implicações bioéticas do genocídio

necer como está, com o respeito ético informados pelo epistemicídio de que
de que as vidas enegrecidas pela racia- fala Sueli Carneiro.
lidade importam, e mediante os quais os No presente trabalho, me empenho
modos de conceber a vida e a bioética em incorporar o diálogo com leituras
precisam se descolonizar para romper de intelectuais críticas fronteiriças es-
o racismo paradigmático de seu modo pecíficas, latino-americanas, com espe-
de reger a vida. Descolonizar também cial destaque de referências da litera-
implica em reconhecer a vida no seu tura acadêmica nacional, mas também
sentido mais ampliado, o da proteção em particular com homens e mulheres
da biodiversidade em que vivem os hu- negros. Com a necessária cautela nos
manos e os não-humanos. A proteção recursos a categorias de pertencimento
da biodiversidade do mundo vivo que e essencialização do lugar de reflexão
o regime político e moral de moderni- intelectual, dialogar e refletir sobre po-
dade vigente demonstra não valorizar, sições diversas das posições de conhe-
mas se auto corroer através da destrui- cimento dominantes é uma dentre as
ção dos diversos mundos no qual nos várias possibilidades e estratégias para
interdependemos. o empreendimento necessário da des-
Parte dos efeitos dessa dinâmica de colonização de nosso pensamento.
destruição em que se desdobra o geno- Mais do que um uso afirmativo das
cídio é o que a filósofa Sueli Carneiro modelagens intelectuais diferidas (para
(2005) intitulou de epistemicídio, que usar uma terminologia derridiana), o
se refere à forma pela qual as matrizes diálogo com referências intelectuais al-
e referencias intelectuais de um grupo teradas são os possíveis caminhos de
e, de modo mais amplo, suas perspecti- alteração do quadro através dos quais
vas de conhecimentos e saberes são ar- os subalternos não podem falar e não
rancadas e reduzidas. Se, no epistemi- podem viver. Pensar sob outros refe-
cídio, as formas de conhecimento são renciais, isto é, descolonizar o pensa-
essencialmente hierarquizadas e des- mento, é também alterar as condições
figuradas pela racionalidade moderna mediante as quais os sujeitos e sujeitas
vigente, descolonizar as perspectivas hoje subalternizadas possam também
de conhecimento e suas matrizes de alterar os termos éticos ora vigentes
produção é um dos dispositivos funda- de proteção da nossa bioética, da nos-
mentais de reversão das ferramentas de sa ecologia política e alterar arranjos e
assujeitamento e de mortificação cons- pactos seculares antiéticos da moderni-
tituídas sob a realidade atual. Começar, dade que regem nossa interdependência.
por isso, pela bioética é um bom cami-
nho, e acho que ela se faz sugerindo
iniciar escutando as alterações e deses- NOTAS
tabilizações produzidas pelo eco das 1
http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-
referências intelectuais e epistemológi- -conteudos-de-apoio/legislacao/seguran-
cas fronteiriças, excêntricas e suprimi- capublica/convenca....crime_genocidio.
das pelos enquadramentos intelectuais pdf, acessado em 15/07/2018.

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Marques, J. V.

2
Lógica, aliás, derivada de uma narrativa da humanidade, projeto mais amplo de
penalógica ocidental típica dos maniqueís- compreensão do campo de Van Renssele-
mos morais e expiatórios que envolvem a ar Potter (1971), que teria sido o primeiro
produção da verdade nas formas jurídicas médico a editar uma produção acadêmica
penalógicas ocidentais. Nesse sentido, ver nos EUA com o termo.
Foucault (2001). 5
Esta passagem é a redução de um longo
3
A discussão aqui traçada se restringe à desdobramento teórico das reapropriações
análise dos marcos de surgimento e de críticas dos conceitos de estado de exceção
consolidação da bioética como campo e de biopoder pelo pensamento negro con-
científico e institucional de relação com a temporâneo, e que deságuam nas formu-
proteção de pessoas vulneráveis face ao lações da necropolítica, de Achille Mbem-
conflito sobre o reconhecimento de reali- be (2011), mas também na contundente
dades e contextos persistentes de genocí- narrativa de Entre o paraíso e o purgatório, de
dio. Sob esse recorte, há o receio de que Eduardo Taddeo (2014).
se tenha perdido um importante aprofun-
damento sobre os marcos institucionais
consolidados em âmbito internacional e, REFERÊNCIAS
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Nacional de Saúde, em consonância com
mo. Lisboa: Sá da Costa.
as disposições internacionais, cujos marcos
vigentes mais importantes são a Resolução Costa, S. 2008. O desafio da ética em pesqui-
CNS 466/2012 e a Resolução 510/2016. sa e da bioética, ”in” Ética em pesquisa: temas
globais. Debora Diniz, Andréa Sugai, Dirce
4
A referência aqui é ao desdobramento re- Guilhem, Flávia Squinca (Organizadoras).
dutor da bioética à ética biomédica em pes- Brasília : LetrasLivres : Editora UnB.
quisas envolvendo seres humanos, a partir
da contribuição de André Hellegers (1926- Das, V. 2011. O ato de testemunhar: vio-
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bioética implicada no debate sobre as in- Pagu, 37: 09-41.
tervenções técnicas contemporâneas sobre Diniz, D.; Guilhem, D. 2002. O que é bioéti-
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586 Amazôn., Rev. Antropol. (Online) 10 (2): 568 - 587, 2018


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