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Introdução

Começo esse livro com a frase de Edmund Burke “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. O caráter, a personali- dade, a moral e os bons costumes de cada cidadão se faz pela sua história, seja de seus antepassados ou das pessoas que o rodeiam. Um homem que não conhece suas raízes, que não sabe da onde veio, nunca será um ho- mem completo.

Eu, André Felipe Fuck de Oliveira, nascido em 13 de março de 1989, filho de Eunice Fuck de Oliveira e Antônio Otílio de Oliveira Filho venho por meio dessas linhas tentar contar um pouco da perseverança de um povo batalhador, que com a mão calejada e firme no arado, fez a história desse estado, desse país, e também a minha história. Mesmo depois de tanta dificuldade, conseguiu perseverar.

Esse livro é um apanhado de estudos históricos com base em histórias contadas por familiares, livros e outros registros. A história a seguir conta a jornada de Johann Jakob Fuck, nascido em 1832 em Schneppenbach na Alemanha, até São Pedro de Alcântara – SC.

Convido você leitor a me acompanhar nessa jornada, acompanhado de uma boa taça de vinho, um copo de cerveja ou uma xícara de café ou chá, pela história da família Fuck, da Alemanha até a cidade catarinense de São Pedro de Alcântara. Vamos juntos?

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De onde vieram os primeiros Fuck?

Da Alemanha, mais precisamente Schneppenbach, uma pequena vila na região de Hunsrück, no estado de Rheinland-Pfalz. Localizada no sudo- este do estado, a 126 quilômetros de Frankfurt e muito próximo da divisa com Luxemburgo e França. Por ser uma cidade tão pequena, de apenas 246 habitantes, é muito comum chamar de vila, ou “Dorf ” em alemão.

É de Hunsrück que vieram a maioria dos imigrantes para São Pedro de Alcântara. Uma região muito assolada pelas guerras, teve um período muito difícil entre os principais anos da colonização dos alemães para o Brasil. Para explicar isso tudo com mais clareza, vamos falar um pouco de história.

Por volta de 1815, depois das Guerras Napoleônicas, a região de Huns- rück ficou perdida no meio do fogo cruzado. Por estar tão próxima da França, foi uma das regiões germânicas que mais sofreu com o conflito. Na época, a Alemanha era dividida por vários reinos, o mais forte dos estados alemães, a Prússia, com capital em Berlim, tomou posse dos ter- ritórios da Renânia e Vestfália, que passaram a categoria de províncias prussianas. O Hessen, entre os rios Meno e Reno, continuou dividido en- tre quatro pequenos estados, ao norte de Hannover, o Grão Ducado de Oldenburg foi restabelecido e continuou com a posse de Birkenfeld Land, entre a Baviera Renana e a Província Renana da Prússia, ao sul de Huns- rück Da Província Renana da Prússia, vieram a maioria dos imigrantes de São Pedro de Alcântara.

Por ser uma região ocupada por Napoleão, no fim da guerra, ficou de- solada devido ao caos econômico. Grande parte da força de trabalho da região, baseada no artesanato e agricultura, foram convocados para os exércitos de ocupação e conquista.

Em 1815, a Prússia toma o território como seu. Deu um chega para lá nas tradições francesas que ali queriam tomar força (se continuasse, talvez estaríamos comendo queijo ao invés de cuca), e por isso, proibiu as tradi- cionais relações comerciais com a França, provocando uma grande crise

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econômica. A vida dos cidadãos na época começou a se tornar cada vez mais difícil, dependendo de recursos muito limitados. O alimento básico na época, a batata inglesa, começou a ser prejudicada por diversas pragas.

Já em 1817, veio com força o chamado “inverno da fome”, obrigando

uma boa parte da população a migrar dentro dos estados alemães. Foi nessa época difícil que nasceu o ícone Karl Marx em Trier, em 1818. De-

vido ao que viveu em sua infância e juventude, sua obra foi criada e é famosa até hoje.

O governo da Prússia tolerava a migração do povo pelos estados ale-

mães, porém, apesar da lei de 1818 “Allgemaines Landrecht”, dificultava a

emigração para outras localidades, para não perder mão de obra e solda- dos para o exército. Estados como Hessen e Baden, facilitaram um pouco a emigração, devido a filosofia de que o povo é dotado de liberdade e autonomia e está no seu direito buscar um círculo social que lhe garanta suas exigências de vida. A situação foi ficando cada vez mais difícil na região.

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situação foi ficando cada vez mais difícil na região. 4 Localização de Hunsrück indicado pela seta

Localização de Hunsrück indicado pela seta

na região. 4 Localização de Hunsrück indicado pela seta Mapa 1: Google Imagens | Mapa 2:

Mapa 1: Google Imagens | Mapa 2: Google Maps

Localização de Schneppenbach no mapa de Hunsrück

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O “apoio” brasileiro

O Agente de Encargos Políticos do Imperador Dom Pedro I, Major Ge-

org Anton Schäfer, tinha como missão recrutar soldados para o Exército Imperial, mas não foi bem recebido nos estados alemães. Porém, com o sucesso da Colônia São Leopoldo, no Rio Grande do Sul em 1825, o inte- resse da emigração alemã para o Brasil aumentou. A região de Hunsrück criou uma febre emigratória. Dessa forma, o Major Schäfer comandou uma propaganda de aliciamento. Passado o interesse em recrutar sol- dados para o Exército Imperial Brasileiro (afinal, ninguém queria mais guerra), começou a procura de famílias que quisessem estabelecer aqui sua moradia como colonos. Mesmo a Prússia facilitando a emigração, ha- via apenas uma regra: não deviam ser levadas as pessoas que estivessem em idade de serviço militar.

O Governo Imperial do Brasil “oferecia ótimas vantagens”, como:

- O Brasil se encarregaria das passagens e alimentação durante a viagem.

Na chegada ao Brasil, os colonos receberiam utensílios agrícolas e provi- sões para se alimentarem até prosperar;

- Os colonos com mais dinheiro, que pagassem sua própria viagem, ao

chegar no Brasil receberiam uma área maior de terra, proporcional aos

custos da viagem;

- Ninguém seria obrigado ao serviço militar no Brasil, o alistamento seria voluntário;

- Os imigrantes teriam seus agrupamentos próprios para não perderem

seu patrimônio cultural, nem seus valores de origem, inclusive seu idio- ma materno;

- Cada região receberia escolas e igrejas, mesmo não sendo elas de origem católicas;

- Para fixarem residência em terras cedidas pelo Governo, todos os colo- nos receberiam o Certificado de Recepção (Aufnahmezusicherung);

- Os colonos seriam todos estabelecidos na Província do Rio Grande do Sul.

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Devido as promessas e das notícias vindas da Colônia São Leopoldo, o interesse foi crescendo entre o povo alemão, nos arredores de Trier, Sarre, Eifel, Hunsrück, e até em Luxemburgo. Não haviam apenas agricultores, mas também pessoas de várias profissões distintas com mais especializa- ção. Então, os primeiros emigrantes vieram para o Brasil. No total de 60 famílias enviadas para Amsterdam, onde embarcaram em 1828. Os de- mais embarcaram em Bremen, nos navios Johanna Jakobs e Charlotte & Louise, em junho e julho do mesmo ano. Antes do embarque, junto com o representante consular brasileiro, eram anotados o número de integrantes de cada família e o peso máximo das bagagens. Um casal com 5 filhos ti- nha direito a uma bagagem de até 117 quilos, dentre elas: panelas, louças, sementes, ferramentas, roupas, etc.

A viagem durava em média 90 dias. As mulheres e crianças viajavam no porão e os homens no tombadilho. Dentre os passageiros, eram descober- tos alguns clandestinos, como órfãos, que logo eram amparados pelas fa- mílias. Infelizmente, na época, ocorriam algumas mortes na viagem, seja por doença ou cansaço, e os cadáveres recebiam o mar como sua sepul- tura. Uma canção composta por Peter Minor era cantada pelos viajantes durante a travessia, dessa forma era possível descrever melhor a situação e os sonhos dos imigrantes que para cá vieram, conforme relato de Carlos H. Hunsche na sua obra “O ano de 1826 da imigração e colonização ale- mã no Rio Grande do Sul”:

“Wir Treten jetzt die Reise nach Brasilian an Sei bei uns, Herr, und weise, ja, mache selbst die Bahn Sei bei uns auf dem Meere mit Deiner Vaterhand! So kommen wir ganz sicher ins das Brasilien-Land.

(Iniciamos, agora, a viagem ao Brasil Estejas conosco, Senhor, indica e abre o rumo Estejas conosco no mar com tua mão paternal! Assim chegaremos, com certeza, às terras do Brasil).

Durch Gott sind berufen, sonst käm’s uns nie in Sinn, So glauben wir und wander auf Dein Geheiss dahin.

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Gott führt uns auf dem Meere mit Seiner Vaterhand, So kommen wir ganz sicher in das Brasilien-Land.

(Por Deus fomos chamados, sem Ele não ousaríamos viajar Cremos que viajamos por sua ordem. É Deus que nos guia no mar com sua mão paternal, Assim chegaremos, com certeza, às terras do Brasil).

Gott sprach zu Abrahame: Geh aus von deinem Land, Ins Land, das ich Dir zie durch Meine starke Hand! Auch wir vertrauen feste auf Gott, sein heilig Wort, So gehen wir von dannen jetzt nach Brasilien fort.

(Deus falou a Abraão: parte de tua terra Para o lugar que, com minha mão forte, indicarei! Nós também confiamos firmemente em Deus e sua palavra sagrada, Assim partiremos, agora, daqui para as terras do Brasil).

Wie oft haben wir gerufen zu Dir, mein Gott und Herr, So hat sich jetzt eröffnet ein Land, worinnen wir Auf Deinen Wink hingehen. Durch Leitung Deiner Hand Wirst Du uns wohl versorgen in dem Brasilien-Land.”

(Quantas vezes chamamos a ti, Deus e Senhor! Se nos apresentou, agora, uma terra para onde Nos dirigimos seguindo o Teu sinal, orientados por Tua mão, Nos abrigarás bem nas terras do Brasil).

por Tua mão, Nos abrigarás bem nas terras do Brasil). Navio de imigrantes em 1830 8

Navio de imigrantes em 1830

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Chegando no Rio de Janeiro

Desembarcando no Rio de Janeiro, os imigrantes eram encaminhados para a Armação de São Domingos, em Niterói. Em terras fluminenses, o Inspetor da Colonização Estrangeira, Monsenhor Pedro Machado de Mi- randa Medeiros, tinha em mãos um plano, dos anos de 1790, para a cria-

ção de duas colônias militares e agrícolas entre Desterro e Vila de Lajes, no planalto catarinense, concedendo aos imigrantes condições melhores do que a província de São Leopoldo. Em outubro de 1828, ficou acertada

a ida de 146 famílias, num total de 635 pessoas, para Santa Catarina, no Brigue Marques de Vianna.

Em Santa Catarina

A Ilha de Santa Catarina, que viria a ser no futuro a capital Florianó- polis, é visitada por europeus desde 1515, e considerada um ponto es- tratégico nas terras brasileiras. Já em 1828, o estado contava com 50.000 habitantes, com 18.000 na ilha, dentre eles açorianos, homens brancos e negros livres. Para surpresa dos alemães que tinham lugar destinado em terras entre a Ilha e Lajes, seria cobrado um valor diário de 160 réis pelo prazo de um ano.

Alojados na Armação, os colonos ficaram em completa ociosidade, sem

o que fazer, além de conviver com os soldados brasileiros no mesmo es-

paço. Sem perspectivas quanto ao destino que iam ter, ociosos e já sem esperança, os imigrantes confinados na Armação da Lagoinha foram aos poucos perdendo a paciência. Alojados em barrações sem espaço sufi- ciente, eram castigados pelo frio e a fome, sem nenhuma condição digna de sobrevivência. Os que chegaram doentes, mais doentes ficaram, sendo que alguns colonos não resistiram e acabaram falecendo. Com as semen- tes trazidas da Alemanha já se tornando inutilizáveis, alguma coisa deve- ria ser feita.

Após tanto esperar, os colonos receberam liberação da abertura de terras na região de São Pedro de Alcântara. Em uma terra acidentada coberta de

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Mata Atlântica, os colonos abriram e conquistaram seu espaço. Em 10 de maio de 1829, o serviço da estrada até o morro do Galão, com destino à Lajes, estava pronto. Já se achavam concluídas 36 palhoças para servirem de habitação provisória, e ali se formou a colônia.

Em homenagem à Família Imperial Reinante, foi dada o nome de Co- lônia São Pedro de Alcântara. Dessa forma, foram divididas as terras em lotes, com a profundidade de 800 braças aos que haviam conseguido che- gar à Colônia antes dos demais. Foram eles:

- Karl Payeken e Wilhelm;

- Nikolaus Deschamps;

- Heinrich Bohnen;

- Johann Hansen;

- Johann Klocker;

- Heinrich Conrad;

- Franz Caspar Ostermann;

- Johann Alflen;

- Matthias Palm;

- Georg Wagner;

- Christoph Schmitz;

- Johann Gesser;

- Konrad Dör;

- Johann Jakob Gödert;

- Jakob Neckel;

- Matthias Meurer;

- Matthias Rinkus;

- Peter Conradi;

- Cristoph Sabel;

- Franz Conradi.

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Santa Catarina é o estado do Brasil com maior número de descenden- tes de alemães. Cerca de 50% dos catarinenses possuem descendência germânica. Depois da língua portuguesa, a língua alemã é a segunda com maior número de falantes como língua materna.

Colônias alemãs em SC - 1905 (Fonte: Wikipedia)
Colônias alemãs em SC - 1905 (Fonte: Wikipedia)

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Os anos seguintes em São Pedro de Alcântara

Em 1830 os colonos foram abandonas a própria sorte pelo governo. Dessa forma, a população de São Pedro de Alcântara teve que se orga- nizar por si mesma, e através da solidariedade, do trabalho duro e co- laborativo, a cidade prosperou. Sem um governo próprio, São Pedro de Alcântara teve que contar com a harmonia entre seus membros.

A prioridade principal em tempos difíceis era a sobrevivência. Os que dispunham de sobras ajudavam os mais necessitados. Nos primeiros anos

a safra de batata teve sucesso, portanto, durante essa época, a alimentação básica estava garantida. Mesmo sem um policiamento, as brigas, quando existiam, eram resolvi- das entre si. Por mais de 20 anos a colônia não teve sequer uma queixa de roubo, assassinato ou lesão corporal.

Os homens cuidavam da terra, plantavam e construíam casas. Já as mu- lheres e crianças eram reservadas para os trabalhos domésticos, ou auxi- liando os homens em suas atividades. O período entre namoro, noivado e casamento era bastante rápido. Os casais, quando não unidos pelos pró- prios pais, tinha que contar a aprovação dos mesmos, dando preferência pela união daquelas que eram da mesma vila ou vizinhos ainda quando moravam na Alemanha.

Entre os colonos, haviam aqueles que tinham participado da guerra por Napoleão. Guardavam seus uniformes, espadas e quadros do imperador francês. Eram eles Hans Unger, Nikolaus Bins (avô da minha trisavó Kla- ra Bins), Joseph Schmitz e Nikolaus Hoffmann.

As crianças eram educadas pelos pais ou por um dos colonos que era

escolhido para ser professor dos pequenos. Já a saúde preocupava demais

a população. Além das doenças comuns, tiveram que enfrentar a falta de

assistência médica para problemas mais graves, como complicações de parto, convulsões, espasmos, varíola, entre outros, problemas esses que

ocasionavam em morte com certa frequência. Uma das maiores recorrên- cias que levavam a morte dos colonos também eram as picadas de cobra.

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Para abrir espaço entre a mata para plantação, os homens com machados

e

facões se embrenhavam na floresta, onde era comum serem picados.

As dificuldades eram tantas que em 1837 algumas famílias desistiram

e

começaram a se mudar para cidades do Vale do Itajaí. Inicialmente fo-

ram as famílias Bornhofer, Deschamps, Gödert, Händchen, Junk, Kerba- ch, Klocker, Michels, Müller, Palm, Rausch, Schneider, Simonis, Theiss e

Werner, encontrando lar em cidades como Itajaí, Belchior (atualmente Gaspar), Blumenau, etc.

Durante os anos, os colonos com braço forte perseveraram e venceram os desafios da terra crua. Da cidade saíram grandes nomes como Lauro Müller, governador de Santa Catarina em 1889. Além dele, Filipe Schmi- dt, que também foi governador do Estado em 1898.

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Relatos da época sobre a colônia São Pedro de Alcântara

Visita do Conde Frederick Christian Raben (natural da Dinamar- ca) em 1834 (resumo)

21 de outubro: De barco naveguei para Santa Catarina, com destino

à colônia alemã de São Pedro de Alcântara, 37 quilômetros continente

a dentro. Por falta de cavalos, caminhamos 7 quilômetros até nos hos-

pedarmos na casa de um alemão vindo de Koblenz, que morava numa pequena casa junto ao caminho. Aqui já encontramos diversos alemães.

22 de outubro: Cavalgamos na manhã seguinte por 30 quilômetros até

a São Pedro de Alcântara, colônia alemã com já 7 anos de fundação. Ao

chegar na cidade, hospedei-me na casa de um jovem francês. Ao cair a noite, ouvia barulhos de insetos e sapos. Cobras venenosas também são comuns aqui, tanto que 5 à 6 pessoas são mortas por ano.

23 de outubro: Uma doença denominada mal-da-terra é comum aqui.

As pessoas ficam pálidas, perdem energia e demoram a se recuperar. Diz- -se provir de má dieta. Muitos são pobres, o povo em geral só se alimenta de carne-seca com farinha de mandioca e milho torrado em lugar de café.

A saudade parece tortura para a maioria dos colonos que desejam voltar à

sua pátria, mas a maior parte não pode por falta de recursos.

24 de outubro: Hoje fez tanto frio que tive que vestir bastante roupa para resistir à friagem nos ambientes da casa, que são construídos de tal forma que há correnteza de ar por toda a parte. Contaram-me que há certas ocasiões que o frio é mais intenso do que hoje, formando uma fina crosta de gelo sobre a água, com geada na relva.

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Diário do imigrante Mathias Schmitz (Extraído do Calendário para os alemães no Brasil – um relato que muito serve para sabermos com mais detalhes o sentimento de um imigrante nessa época)

Já como escolar e mais ainda como adolescente, eu tinha uma aversão enorme pela emigração e principalmente para o Brasil. Somente ao ouvir

o nome já sentia arrepios, porque imaginava a terra bem diferente do que mais tarde conheci. Eu imaginava uma terra totalmente selvagem, onde seus moradores eram seres humanos só na denominação e que mais se

pareciam com animais. Uma terra na qual, atrás de cada arbusto corria-se

o risco de ser mordido por uma cobra ou outro animal selvagem.

Uma terra onde não se podia dar um passo em segurança, sem o perigo de ser preso, morto e assado pelos selvagens, que acompanhavam os mo- radores. Mas mesmo com todos estes perigos em mente: seja como Deus quiser! Aqui na Alemanha não há futuro para mim. Eu resolvi acompa- nhar, aos 20 anos, meus pais e mais outros emigrantes para o Brasil.

Onze famílias, entre as quais estavam filhos e filhas já adultos. Partiram certo dia, cantando alegremente, do pequeno lugarejo de Loeffeischeidt no Hunsrück, para um novo lar. Muitos dos emigrantes derramaram lá- grimas amargas ao se despedir de parentes e amigos, pois era um adeus para sempre.

Por volta de 1845, cerca de 40-50 famílias, entre as quais eu também me encontrava, estávamos prontos a viajar de Oeste para a cidade portuária Dunquerque. Aconteceu um grande contratempo. Recebemos a notícia de que não nos era permitido atravessar a fronteira sem apresentarmos o exigido certificado. Se não tivéssemos dinheiro suficiente para cobrir as despesas seria melhor voltar para casa. O último nada nos agradou. Já não tínhamos mais casa nem propriedade.

Nós permanecemos alguns dias em Ostende e neste meio tempo, o agente foi procurara o armador para tratar de nossa viagem. Certo dia veio o armador pessoalmente e começou o debate e os acordos. Primeiro

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o mesmo não estava interessado em negociar, mas, por fim concordou em aceitar 40 Taler para pessoas acima de doze anos e 20 Taler para pessoas abaixo de 12 anos. Muitos não tinham nem esta soma e novos debates se iniciaram. Por último o armador deu-se por satisfeito com 2/3 do preço. Começou então nova negociata entre os passageiros emigrantes, quem tinha dinheiro emprestava ao que nada tinha, para pagar quando chegas- se ao Brasil. Eu mesmo pedi emprestado 50 Taler para cobrir as despesas de meus pais e irmãos. Sobraram assim mesmo 11 famílias; 3 da minha região, que não conseguiram dinheiro suficiente para a passagem. Estas famílias mais tarde foram acompanhadas pela polícia até a fronteira e en- viados de volta à cidade de onde vieram. Que estes tiveram um destino lamentável é compreensível, pois tinham vendido tudo o que possuíam.

No dia seguinte (era, se não me engano, 19 de outubro), o veleiro levan- tou âncora e partimos. Éramos 220 pessoas a bordo; todos emigrantes e fomos logo atacados pelo enjoo. Todos procuravam um canto para dei- tar-se. Não sentíamos nem fome nem sede. Logo que esta fase terminou e nós melhoramos, um mal bem pior nos surpreendeu. Era disenteria que uma família trouxera a bordo. Esta terrível doença atacou a quase todos, inclusive a tripulação! Que miséria reinava entre os doentes! Aqui alguém gritava por água, acolá outro pedia para morrer. Desta doença morreram durante nossa viagem (6 semanas), 27 pessoas, na maioria adultos, cujos corpos eram atirados ao mar. Numa noite, eu me lembro, 3 corpos de uma só vez foram atirados ao mar. De várias famílias morreram o pai e a mãe deixando de 4 a 5 crianças pequenas mas que logo foram acolhidas por outras famílias caridosas. Comida tinha o suficiente, mas o capitão não entregava. Mesmo para um doente não se obtinha nem um pouco de água para fazer uma sopa, imaginem outro alimento. Quando tentávamos explicar a necessidade de um doente e que o mesmo implorava por co- mida, ele apenas respondia: Nada! Morre! Bom para os peixes! E viravam as costas.

Uma única vez, depois de implorar muito, ele me vendeu uma garrafa de vinho por 5 francos para meus pais. Mas em compensação, numa outra ocasião quando pedi água, para um doente, a xícara me foi derrubada com um tapa na mão e jogada no mar. A comida que recebíamos era de-

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mais para morrer e muito pouco para viver. Consistia em “água com café”, batatas semiapodrecidas, um pouco de carne salgada e pão velho. Se nós pelo menos tivéssemos recebido somente pão e água, já teríamos ficado satisfeitos. Mas era água duvidosa que diziam ser café, às 10 horas da ma-

nhã, e às 4 horas um pratinho de água morna com pedaços minúsculos de carne salgada ou cabeças de peixes salgadas. Esta foi a alimentação dia após dia, durante todas as semanas de viagem. Como ficávamos contentes quando chovia e podíamos recolher a água e guardávamos até a última gota. Se nós tivéssemos levado tanto tempo para a viagem como outros navios que chegaram ao Brasil, isto é, 5 a 8 meses, nenhum de nós teria sobrevivido. Os que não morreram de disenteria teriam morrido de fome

e de sede.

Quando a viagem já estava chegando ao fim e a miséria da comida au- mentava, todos os pais de famílias e jovens, postaram-se armados diante da cabine do capitão e exigiram comida e água ou se vingariam. Isto resul- tou em efeitos positivos. O comandante mandou buscar pão e distribuiu boa quantia a todos. Também um barril com água potável apareceu e to- dos puderam saciar sua sede. Igualmente a cozinha apresentou uma co- mida melhor, mas isto foi só um dia; depois tudo continuou como antes.

Dez dias tivemos que permanecer a bordo, antes que pudéssemos ir

a terra. Diziam que era por causa da doença, pois os brasileiros tinham

medo que a mesma se espalhasse pela cidade também. Mas eu acreditava que o motivo era bem outro e pela seguinte razão: desde que tínhamos chegado, vinha um senhor, que parecia ser um funcionário no Rio. Este homem vinha em companhia de outros e um intérprete alemão. Trazia uma grande folha de papel que estava escrito em português e alemão. O que queriam? Este senhor tinha grandes áreas de terra numa região onde fazia bem mais calor, mas do nome não me lembro. Estas terras ele queria colonizar com alemães. Eis o motivo porque trazia aquela folha de papel e que os alemães teriam que assinar. De acordo com o escrito, cada alemão receberia margem de terra para um certo preço. Os primeiros três anos nada precisávamos pagar; só a partir dos três anos, tendo 6 anos para o pagamento. Quem não tivesse feito até então o pagamento teria que pagar juros.

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O proprietário também prometeu uma longa ajuda em alimentos e ferramentas, que poderíamos pagar mais tarde. Teríamos que assinar o contrato e o mesmo navio nos levaria ao destino. Foi justamente a mim

que escolheram para ler o papel; provavelmente acreditando que eu era

o mais entendido em escrita. Depois de ter analisado tudo muito bem

eu disse: “todos podem fazer o que acharem melhor, mas eu, meus pais, meus irmãos, queremos primeiro desembarcar, estar em terra firme. Ali quero informar-me e se achar conveniente, então assinarei. Numa ter- ra estranha não se pode assinar qualquer compromisso à primeira vista”. Depois que eu falei isto os senhores voltaram a terra. Mas no dia seguinte voltaram e assim faziam diariamente. Por fim viram que tudo dependia de mim e prometeram-me uma gratificação, mesmo terra sem pagamen- to, se eu convencesse os outros a assinar o contrato. Mas eu estava firme em meu propósito de primeiro desembarcar. Mais tarde soube por um alemão fugitivo daquela região, que devido ao péssimo clima quase todos morriam. Agora manifestava-se a fome. Compramos um pedaço de pão, um pedaço de carne e tomamos um copo de aguardente.

Dia após dia passava e nada acontecia. A necessidade de alimentos

tornou-se tão grande, que fomos obrigados outra vez a esmolar. Havia muitos moradores que ajudavam de bom coração; outros batiam a porta quando nos viam e analisando as constantes visitas que nos fazia aquele homem, querendo que assinássemos o compromisso para ir às suas ter-

ras, me fez pensar que talvez eles estivessem impedindo a ajuda prometi- da. Mais uma vez resolvi procurar o imperador. Novamente fiz uma carta

e mandei traduzi-la e junto com o tradutor fui procurar o imperador, que

desta vez encontrava-se no palácio. Pedimos que os guardas anunciassem

e recebemos permissão para entrar. Já não sentia mais receios e confiante subia as escadas. O imperador nos recebeu num grande salão, mas não estava sozinho. Vários senhores estavam presentes. Entreguei outra vez

a minha cartinha, quando o mesmo veio ao nosso encontro, e uma ir-

ritação profunda espelhou-se em seu rosto, quando a leu. Chamou um dos presentes e comentaram sobre o que eu havia escrito. Em seguida se dirigiu a nós e gentilmente falou-me, pediu desculpas de que tínhamos esperado tanto tempo em vão, mas agora tudo seria resolvido; que eu fos- se tranquilo para junto dos meus. Um pedido no entanto não podia con-

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ceder; ao Rio Grande do Sul não nos poderia enviar. No entanto havia três províncias que poderíamos escolher, Santa Catarina, São Paulo e Espírito Santo. Podíamos pensar a respeito e mais tarde quando interrogados, di- zer por qual nos decidiríamos. Contentes deixamos a sala de audiência e voltamos para casa, transmitindo a mensagem do imperador. A alegria não foi tão estrondosa como a primeira, mas grande foi a satisfação que sentimos quando à tarde veio uma canoa carregada com alimento; carne, pão, café, açúcar, arroz, feijão, trigo, sal, etc.

Agora terminara nossa miséria. Todo dia vinha uma canoa nos trazer o necessário durante um mês, tempo que estávamos recolhidos à Praia Grande. Durante este tempo pesquisamos qual das três Províncias seria a melhor. Todos aconselharam a de Santa Catarina. Diziam que o clima era saudável e os alemães ainda seriam estabelecidos próximo da cidade. Por tanto nos decidimos por Santa Catarina.

Certo dia chegaram vários barcos e nossa bagagem assim como nós, fo- mos transportados a um veleiro brasileiro. Levantando âncoras, partimos em direção a Província de Santa Catarina. Fomos muito bem tratados; comida e água suficientes. O único problema era o espaço. O navio era pequeno para tanta gente, e a maioria permanecia no convés. Algumas vezes fomos surpreendidos por fortes chuvas e ficamos molhados até os ossos. Depois de uma viagem de seis dias, chegamos são e salvos ao porto de Santa Catarina. Ainda no mesmo dia fomos levados em barcos, com todos os pertences, até a cidade e lá instalados num grande galpão. Na cidade fomos bem recebidos, porque os alemães tinham fama de bons trabalhadores e nós éramos os primeiros a chegar depois de 20 anos.

Nos primeiros dias recebíamos diariamente mantimentos, assim como no Rio. Apesar de que nada tínhamos a reclamar da comida, para nós se- ria de maior valor um auxílio financeiro. Alguns dos companheiros foram procurar o presidente da Província e explicar o caso. Este ficou satisfeito porque economizaria nas contas. Agora a diária por pessoa era de 160 Rs., que pagavam pontualmente cada mês. Era em verdade muito pouco, mas dava para viver, porque os alimentos eram baratos. Muitos conseguiram trabalho na cidade durante o dia e podiam economizar um pouco para o

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futuro. Este auxílio recebemos por 18 meses.

Algumas horas de viagem da cidade, na estrada imperial para Lages, cidadezinha no planalto, receberíamos terra. Junto a uma estrada! Isto é de grande vantagem para a colônia, pensei quando soube da notícia. Estávamos na cidade cerca de 2 meses, quando fomos noticiados de que seríamos transferidos para nossas terras. E realmente, no mesmo dia ain- da fomos transferidos com tudo o que possuíamos no barco, para a outra margem e mais horas e horas rio acima. Ali fomos instalados primeiro em casas particulares brasileiras, até que uma família após outra fosse levada de carro de boi.

Não chegamos logo à nossa terra porque as medições não tinham ter- minado. Três horas de caminhada a partir do último morador e floresta adentro, fora construído um grande barco onde todas as famílias foram alojadas. Eu me recordo da minha surpresa quando vi a estrada imperial. Na Europa eu nunca vira uma estrada tão ruim. Coberta por mato onde rasgava-se a roupa, com cada passo atolado na lama até os joelhos.

Logo depois de minha chegada ao barraco, eu fui em companhia de meu melhor amigo, fazer uma visita a São Pedro de Alcântara, colonizada há 20 anos passados (1826) por alemães e que distava um dia de viagem da nossa. Enrolado em um pano algumas peças de roupas, nos pusemos a ca- minho, para chegar no dia da festa do Espírito Santo. Depois de caminhar um trecho, fomos obrigados a tirar as pesadas botas, pois atolávamos na lama a cada metro. Depois da chuva nos dias passados, os riachos esta- vam altos e pontes não existiam. Algumas vezes tivemos que atravessar riachos com água até o peito.

A noite nos surpreendeu antes de chegarmos à colônia e não tivemos outra escolha a não ser procurar um abrigo. Ao longe vimos o brilho de uma fogueira e nos dirigimos para lá; encontramos dois negros junto a um fogo e por sinais lhe explicamos que queríamos abrigo, se o permitis- sem. Os dois concordaram e nos indicaram um lugar perto da fogueira. Cansado da viagem nos deitamos para descansar. Dormir foi impossível devido ao frio. Na Europa também senti frio, mas nada podia ser com-

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parado com o que sentia agora. Nos sentamos junto ao fogo, aquecendo uma vez o lado direito outra o lado esquerdo, mas de nada adiantava. Os dentes batiam e quase não conseguiam pronunciar palavras. Com meu amigo acontecia o mesmo. Ficamos aliviados quando ouvimos um galo cantar. Logo que o dia clareou deixamos o rancho, pois pensar em café ou outra comida não adiantava. Quando saímos da porta, a terra sob nos- sos pés se partia e olhando em volta vimos tudo branco; a região estava coberta por uma grossa camada de gelo. Foi a primeira geada que vi no Brasil. Felizmente o caminho melhorava para nós e não tivemos mais que tirar as botas. Se tivéssemos que fazê-lo, ou ainda cruzar um rio a nado, teríamos morrido de frio. Ficamos felizes quando após meia hora de ca- minhada chegamos a uma casa cujo dono era alemão. Tiritando de frio entramos e ele nos acolheu com uma xícara de café. Também nos servi- ram um bom almoço e muito tivemos que falar sobre a Europa, da qual já há 20 anos não haviam mais ouvido falar.

Com a instalação e a vida dos alemães neste lugar fiquei muito satisfei- to; parecia que tinha voltado para a Alemanha. No dia seguinte na festa, reuniram-se muitos alemães, homens, mulheres e crianças, todos vinham

a cavalo dos lugares mais distantes para assistir os cultos nas igrejas. Tan- to aqui como na Alemanha, notei que os moradores não desligavam-se dos divertimentos, pois logo que a missa terminou, o povo seguiu para

o lugar de dança. Apesar da música só ser executada por uma clarineta e

um violino, foi uma satisfação enorme observar o colorido e a alegria do povo. Ao anoitecer, muitos retiraram-se para suas casas e outros ficaram até amanhecer. Nós que estávamos cansados, deitamos cedo, agora numa boa cama e dormimos até que o sol nos despertou. Permanecemos alguns dias na colônia visitando um e outro colono; sempre bem recebidos. Fica- mos surpresos com a boa instalação de todos, grandes e verdes pastagens com gado bonito e saudável. Com o firme propósito de trabalhar com afinco, a fim de chegar também a possuir uma propriedade tão próspera, regressamos ao nosso rancho.

Alguns dias depois desta viagem manifestei o desejo de visitar as me- dições das terras destinadas para nós. Parti em companhia de um jovem que já nascera aqui; queríamos chegar até onde trabalhavam os homens.

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Espingarda sobre o ombro, um grande facão na cintura, um saco com mantimentos, estávamos prontos para partir. Como ainda não existia uma estrada, mas sim somente uma picada, em alguns lugares tivemos que arrastar-nos no chão.

Quando a terra terminou de ser medida, recebemos nossa parte; quanto maior a família maior a terra. Rapazes sem família recebiam 100 braças de largura e 1.000 braças de comprimento (200 margem); pais de famílias re- cebiam 125-200 braças de largura e 1.000 de comprimento. Agora chegou a hora de trabalho. Enquanto os pais e filhos munidos de machado, facas, foices e facão começavam a preparar a terra para construir um rancho, as mulheres e crianças pequenas permaneciam no galpão comum. Semana após semana o trabalho continuava e aos poucos o terreno ganhava for- ma. As casas improvisadas foram ocupadas e iniciou-se a construção do mobiliário e o trazer dos pertences até a colônia. Não era um trabalho fácil, porque o caminho era apenas uma picada. Tudo que era trazido levaria pelo menos algumas horas de viagem. Por fim tudo estava no seu devido lugar e a família pode começar a semear. Os primeiros anos foram cheios de dificuldades, mas depois também isto normalizou-se e as co- lheitas foram mais gordas. Dia após dia clareava a floresta e sempre mais crescia a colheita. Muitos anos passaram-se e a colônia prosperou. Todos os colonos que vieram comigo ao Brasil prosperaram e chegaram a uma razoável estabilidade. A viagem a Desterro para a qual naquele tempo gastava-se dois dias, hoje se faz em um dia. O ditado: “após o sofrimento segue a alegria”, concretizou-se nesta colônia.

Tão pouco como eu, todos os outros sentem mais saudades da Europa. Aqui em Theresópolis, no Brasil, Santa Catarina, encontraram sua felici- dade.

Theresópolis, 1867

Robert Avé Lallemant, médico naturalista alemão visita São Pedro de Alcântara em 1858 (resumo)

A Colônia de São Pedro de Alcântara foi fundada em 1829. Quando che- garam aqui as primeiras famílias, abandonaram-nas vergonhosamente.

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Naqueles tempos inicias, muitas chegaram até a mendigar.

Há na Colônia cerca de duzentos com 140 famílias alemãs. Ao lado da velha geração, surgia uma nova, genuinamente alemã. Em conversa com a família Schmitt, me contaram que sofreram indizíveis privações e desilusões. O filho mais velho, João Adão Schmitt, um homem amável e sensato, cordial e franco no modo de falar em sua casa aberta, conta que

tem 8 filhos vivos e 4 mortos, mesmo assim, ele recebeu três órfãos, tendo

a mesma regalia dos demais filhos. “Se soubessem na Alemanha quantos

tivemos afadigar-nos e nos vissem agora, não acreditariam!” E de fato, quando examinava as pessoas, ouvindo-as, perguntando e recebendo res- postas, era de se admirar. Todos tinham chegado pobres e agora pairavam bençãos e prosperidade sobre suas casas, campos e prados.

Perto dali, um quadro mais sério. Numa colônia inteiramente nova, na casa ainda não acabada, morava um jovem casal. A jovem bonita mulher, há poucas horas dera a luz à uma criança, mas, já Deus a retomara e, entre

amargas lágrimas, o próprio pai fazia o esquife, para nele enterrar o filho,

e a jovem senhora, de sua cama, tristemente o contemplava. Essa é tam- bém uma história de aldeia certamente melancólica.

Visitamos, pois, toda uma série de colônias. As casas, na maior parte vazias, enquanto todos trabalhavam nas encostas da serra. Se aqui hou- vessem ladrões, poderiam saquear metade da colônia. Mas o ofício do furto não é praticado por aqui, os habitantes garantem mutuamente a sua propriedade.

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Um pouco sobre Schneppenbach

Berço da família Fuck, que emigrou para São Pedro de Alcântara, Schneppenbach é uma pequena vila de 246 habitantes, localizada na região de Hunsrück, no estado de Rheinland-Pfalz (Renânia-Palatina- do), na Alemanha. Existente desde a idade média, a pequena cidade de Schneppenbach faz parte de um conjunto de pequenas vilas que pertencia ao monastério Reichsabtei Sankt Maximin em Trier. No topo do morro da cidade ainda há as ruínas do castelo Schmidtburg, um dos mais anti- gos de Hunsrück, pertencentes a família Emichonen, construído em me- ados do ano de 926 e destruído em 1688 pelas tropas francesas na Guerra da Grande Aliança.

Em 1798, Schneppenbach foi invadida pelas tropas francesas que imple- mentaram seu estilo de governo, até o fim da hegemonia francesa. Só em 1817 a cidade voltou a pertencer a Alemanha, que implementou o modelo de governo Bürgermeisterei (prefeitura) anexo à Prússia. Depois do curso administrativo após a Segunda Guerra, Schneppenbach foi anexada ao Kirn-Land, um conjunto de pequenas cidades.

Escala de população/ano:

Ano

Habitantes

1815

225

1835

278

1871

293

1905

278

1939

280

1950

285

1961

272

1970

294

1987

284

2005

261

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As imagens a seguir, retiradas do filme Die Andere Heimat (A Outra Pá- tria) de Edgar Reitz, mostram com fidelidade como eram as vilas na re- gião de Hunsrück em 1840. O filme se passa na vila de Woppenroth (no filme com o nome de Schabbach), vizinha à Schneppenbach.

Hunsrück em 1840. O filme se passa na vila de Woppenroth (no filme com o nome
Hunsrück em 1840. O filme se passa na vila de Woppenroth (no filme com o nome

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Schneppenbach nos dias atuais Fonte: Wikipedia 26 Fonte: Wikipedia As ruínas do castelo de Schmidtburg

Schneppenbach nos dias atuais

Schneppenbach nos dias atuais Fonte: Wikipedia 26 Fonte: Wikipedia As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte:

Fonte: Wikipedia

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Schneppenbach nos dias atuais Fonte: Wikipedia 26 Fonte: Wikipedia As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte:

Fonte: Wikipedia

nos dias atuais Fonte: Wikipedia 26 Fonte: Wikipedia As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte: Wikipedia)

As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte: Wikipedia)

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As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte: Google Maps) Fonte: Google Maps 28 Saindo da

As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte: Google Maps)

As ruínas do castelo de Schmidtburg (Fonte: Google Maps) Fonte: Google Maps 28 Saindo da Prússia

Fonte: Google Maps

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Saindo da Prússia e chegando ao Brasil

Após conhecer os motivos da saída da maioria dos imigrantes vindos da Alemanha, um pouco sobre o lugar que deixaram para trás (Schneppenba- ch) e o novo lugar que iriam chamar de lar (São Pedro de Alcântara), uma nova jornada começa a se formar. Até o dia de hoje, agosto de 2016, não foi possível encontrar relatos da data exata que saíram da Alemanha nem o porto de saída (em ordem de probabilidade: Bélgica, Holanda e Ham- burgo). Continuo a busca por essa informação, se a descobrir, adicionarei em novas edições do livro.

O ano é uma certeza: 1862. Mas não foi esse o ano em que o primeiro Fuck de Schneppenbach imigrou para o Brasil. Em 1861, Leonhard Fuck acompanhado de sua esposa Marie Luise Petry e sua filha Luise Fuck, com apenas meses de vida, subiram em um navio com destino à Santa Catarina. Ao pagar a taxa de imigração ao império prussiano, exatamen- te 300 thaler, Leonhard e sua família tiveram permissão para deixar o país. Quem era Leonhard? Nascido em 6 de fevereiro de 1834, era filho de Johann Jakob pai e Maria Elisabeth Dämgen e irmão de meu tataravô, Johann Jakob, o filho. Volto a falar mais sobre a história do primeiro imi- grante Fuck.

Cerca de um ano depois, em 4 de junho de 1862, Johann pai e filho pedem dispensa militar para imigrar, tendo resposta negativa por parte do Königlichen Infanterie-Regiment (Regimento de Infantaria do Impe- rador). Mas isso não foi o suficiente para largar tudo e embarcar com destino ao Brasil para uma vida melhor.

Naquele mesmo ano, Johann Jakob Fuck (16/10/1811), sua esposa Ma- ria Elisabeth Dämgen (10/08/1812) e seus filhos Johann Jakob – meu ta- taravô (19/05/1837), Luise (14/03/1840), Johanna (18/06/1845) e Niko- laus (29/04/1852). Assim como o irmão de Johann pai, Leonhard Fuck (15/08/1812). Imaginem a dificuldade para o casal Fuck, Johann e Maria aguentarem uma viagem que levava em média 2 meses, com seus respec- tivos 51 e 50 anos de idade. Todos os nomes são iguais, não é mesmo? É

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realmente confuso, ainda mais pelo fato que não usam “Junior”, “Filho” ou “Neto” no final dos seus nomes. Mas não se preocupe, você vai enten- der melhor na árvore genealógica nesse livro.

Ao chegarem no Brasil, aportaram no Rio de Janeiro. Lá, como aconte- cia com quase todos os colonos, eram dadas opções de destino final aos imigrantes alemães, geralmente colônias alemãs que já vinham prospe- rando, como é o caso de São Leopoldo no Rio Grande do Sul, uma colônia no Espírito Santo, ou em solo catarinense, como era o caso de São Pedro de Alcântara e outras.

Sobre a data exata de chegada da família na colônia, infelizmente não foram encontradas informações. Mas podemos supor: já que pediram, em junho de 1862 a dispensa militar, e a viagem costumava levar 2 meses, então chegaram ao Rio de Janeiro em agosto de 1862. Como geralmente se levava 1 mês para finalmente fixar sua chegada na colônia alemã, pro- vavelmente a chegada de fato deve ter se dado em setembro ou outubro de 62.

Nessa imagem, retirada do filme Die Andere Heimat (A Outra Pátria) de Edgar Reitz, retrata os campos de Hunsrück e as famílias transportando seus pertences para a longa viagem até o Brasil.

seus pertences para a longa viagem até o Brasil. 30 Um pedaço de chão É aqui

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Um pedaço de chão

É aqui que começa a grande dificuldade em encontrar informações. Toda a história da família está fundada na colônia São Pedro de Alcân- tara, mas em registros encontrados em 1868, mostram que a família re- quereu terras na Colônia Santa Isabel, mas precisamente na Quarta Linha (hoje Angelina). Como é possível ver no mapa a seguir, todos os membros homens da família compraram terras nessa localidade. Quando eu digo “compraram”, é porque compraram mesmo. Segundo as leis da imigração na época, após o ano de 1850, os colonos não ganhavam mais terras do governo, e sim compravam.

Ao chegar em 1862, São Pedro de Alcântara já não haviam muitas terras boas sobrando. A colônia já prosperava há mais de 30 anos, sobrando aos colonos recém-chegados formar novas colônias pela região. Surgindo assim Santa Isabel, Theresópolis e muitas outras. Em 1868 houve a oficia- lização do repasse da terra pros colonos, o famoso “registro do vigário”. Portanto, a família Fuck lá fixava residência, desde sua chegada em 1862 até 1868. Como a história da família está ligada a colônia de São Pedro, acredito que há duas possibilidades: ou o registro daquela terra pertencia a São Pedro, ou a família saiu da Quarta Linha com destino à SPA após 1868. A primeira possibilidade é mais realista, pois ao comprar suas ter- ras, dificilmente eles sairiam de lá.

Leonhard Fuck é, historicamente, um nome importante para Santa Isabel. Citado em livros históricos, é a certeza da fixação da família na colônia. Porém, registros dos outros membros não há. Todos os regis- tros, de nascimento, casamento e óbito dos Fuck além do Leonhard e seus descendentes, foram feitos em São Pedro de Alcântara. Um dos motivos possíveis é o fato de Santa Isabel ser de fundação luterana. Como a família Fuck era católica, talvez tivessem que se deslocar até São Pedro de Alcân- tara para batizar seus filhos.

Confira na página seguinte o mapa da Quarta Linha que mostra a loca- lidade das terras. Embaixo Johann pai e filho, Peter Fuck e acima a terra de Leonhard Fuck.

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Mapa de divisão de linhas coloniais (Fonte: Centro Cultural Águas Mornas - SC)
Mapa de divisão de linhas coloniais (Fonte: Centro Cultural Águas Mornas - SC)

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Após chegar ao Brasil, Johann Jakob (filho), meu tataravô, casou-se em 1863. O registro desse casamento se dá em São Pedro de Alcântara. Sua esposa, Anna Martha Bornhausen, já nascida na colônia, é filha de Jakob Bornhausen. Fruto do casamento, nasceram em São Pedro de Alcântara Elena (1864) e Bárbara (1865). Ambas não se tem registro de óbito, mas como se dá na maioria dos casos que não há registro de óbito, é porque faleceu ainda bebê. Já em 8 de maio de 1867 nasce meu trisavô, Johann Jakob Fuck, muitas vezes encontrado como Johann Jacob Junior ou ape- nas Jacob Fuck Junior (o terceiro da linha de Johanns Jakobs).

Já no início do século XX, em uma pesquisa feita em São Pedro de Al- cântara, mostram 3 famílias Fuck morando na colônia. Seriam elas as fa- mílias de Johann pai (tataravô), Johann filho (meu trisavô), e Peter Fuck, irmão do Johann pai. Ambos com a profissão de agricultor. Em conversa com Lindamir Souza, residente de Curitiba e filha de Basílio Fuck, ela me relatou o pouco que conheceu de seu avô, Jacob Fuck Junior, meu trisavô. Se tratava de um homem magro e quieto, pouco falava com as crianças

e acredito, quase não falava nada de português. Segue o relato dela: “Pa-

pai e mamãe saiam à noite e eu ficava cuidando dos meus irmãos e do meu avô. De repente, ele começava a falar e falar. Eu ia ver e ele dizia, no seu português bem pobre ‘é di pulgui, é di pulgui’. Repetia e repetia, até que descobri que ele estava falando de pulgas. Coitadinho, nunca esqueço do jeitinho dele, era muito alto e magro Quando ele faleceu, eu tinha 12 anos, faz muito tempo. Ele e vovó Catharina, do que me lembro, viviam em Hansa, hoje Corupá, num sítio que meu pai comprou para eles. Já fomos lá olhar tudo, mas está bem diferente”.

Sobre seu pai Basílio Fuck: “Papai saiu muito cedo de casa (com 12

anos) a pedido da mãe, para que estudasse, pois ela sabia o quanto ele era inteligente e daí, depois, como a família foi crescendo, papai quase não ia até lá. Circunstâncias da vida. Ele era muito amoroso e ia, algumas vezes visitar todos, mas sozinho. Acho que porque tinha pouco dinheiro e logo em 4 anos de casados, já tinha 3 meninas. Tudo era muito diferente do que é hoje em dia. Estradas ruins, muito pó, dificuldade com transportes,

e por aí vai”.

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Sobre meu bisavô, Lino Fuck, escrevo o relato do senhor Longino Cla- sen, 90 anos, ao encontrá-lo na rua central de São Pedro de Alcântara, um dia que estava fazendo buscas sobre a história da família. Ele conta que era amigo de Lino, e lembra até hoje o dia de seu falecimento. Um homem de estatura baixa, cabelos negros e olhos azuis, sempre muito bem arru- mado e limpo, não mostrando a dificuldade da profissão que alimentou 15 filhos, a de agricultor, como seu pai e seu avô. Era muito preocupado com a aparência, não deixava nem a terra embaixo das unhas, tão comuns da profissão. Segundo Longino, sempre encontrava Lino na missa de do- mingo, e um certo dia, ele não apareceu. Foi aí que descobriu, dois dias depois, no dia 3 de novembro de 1959, uma terça-feira, que seu amigo havia falecido. “Nunca demonstrava doença, o Lino. E um dia se foi. Foi

o primeiro homem a ser enterrado no cemitério central de São Pedro”, relata Longino.

Muito se fala sobre o fato das mães de Lino Fuck e sua esposa Benta Her- mes terem o mesmo sobrenome, Martendahl. Sim, elas eram parentes. Mas não se preocupe, leitor, o parentesco é bem distante. A família Mar- tendahl foi uma das fundadoras de São Pedro de Alcântara. Chegaram em Desterro no brigue Marquez de Vianna em 12-11-1828 com 9 filhos. Entraram na colônia São Pedro de Alcântara em 29/03/1829. Dentre os 9 filhos, estão os irmãos Johann e Johann Firminus Martendahl, o primeiro

é avô de Benta Hermes, e o segundo é avô de Lino Fuck.

Muito se fala sobre a origem ser luxemburguesa, mas não encontrei registros que comprovem isso em nenhuma comuna de Luxemburgo. Há sim registros que eles são da cidade de Pillig, em Hunsrück na Alemanha, então manteremos essa informação.

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Se espalhando pelo Brasil

Todos sabemos que o berço da família Fuck no Brasil é São Pedro de Alcântara. Mas devido a grandes problemas na época, como a vida hu- milde, a grande quantidade de filhos e a falta de terras na região, muitos integrantes da família tiveram que ir para outras colônias. É possível en- contrar muitas pessoas com sobrenome Fuck por Santa Catarina, e acre- dito, que sejam quase todos da mesma origem. Por ser um sobrenome incomum, diferente de outras versões como vemos (Fuchs, Fuch, Fucks, entre outros), a família Fuck é muito raramente encontrada.

Os lugares pelo Brasil onde mais se pode encontrar pessoas com o nosso sobrenome são Canoinhas, Blumenau, Itajaí, Indaial, Joinville, oeste e sul catarinense, Curitiba e até no norte do país. Alguns eu consegui descobrir a origem. Vou apresentar o que descobri:

Canoinhas: a família Fuck de Canoinhas, a segunda cidade onde é pos- sível encontrar mais pessoas com o sobrenome, possui origem em São Pe- dro de Alcântara, onde Johann Fuck (nascido em 1843 em Schneppenba- ch), é filho de Johann Jakob Fuck (pai) e Anna Maria Elisabeth Dämgen. Emigrou junto com a família para São Pedro de Alcântara, e lá ficou até falecer. Com sua esposa Ana Maria Spengler, gerou o filho Jacob Bernard Fuck (1872) que emigrou para Blumenau e casou com Mina Maria Stre- low, logo em seguida emigrando para Canoinhas.

Indaial, Joinville e Itajaí: uma das razões de ter pessoas com sobrenome Fuck nessas três cidades é também pela emigração. Em ambas as cidades, os filhos de meu bisavô Lino Fuck, filho de Jacob Fuck Junior, saíram de São Pedro de Alcântara respectivamente para essas três localidades. Seriam eles: Reinaldo Fuck para Indaial, Hugo Fuck para Joinville, e meu avô, Mauro Fuck para Itajaí.

Curitiba: Um dos filhos de Jacob Fuck Junior, Basílio Fuck, irmão de meu bisavô, alçaram voos mais longos. Foi parar em Curitiba, onde após largar a função de padre, casou-se e deixou descendentes na capital pa- ranaense. Inclusive criou a “Vila Fuck”, onde em um terreno construiu

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casas para pessoas carentes. Até hoje possui uma rua em homenagem ao seu nome em Curitiba.

Em todas as outras cidades que podemos encontrar parentes, se valem quase sempre pela mesma regra. Apesar de ser uma família muito peque- na em relação a tantas outras, sempre acabamos nos encontrando com alguém com o nosso sobrenome peculiar.

Confira no final do livro todas as fotos que consegui reunir da família.

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Típica casa alemã – relato de Telmo Lauro Müller no livro Pouso dos Imigrantes de Toni Vidal Jochem

Podemos dizer que nas colônias alemãs do Alto Biguaçu, São Pedro de Alcântara e Águas Mornas formam um padrão de arquitetura próprio. Houve uma significativa penetração, nessa região, de elementos arquite- tônicos luso-brasileiros. O telhado com ponto menos inclinado do que na Alemanha, a aplicação de telha-de-canal (portuguesa) e a ausência com- pleta da varanda. As mais sofisticadas exibem lambrequins de madeira no beirado, cachorros e outros detalhes decorativos. A porta geralmente bem trabalhada, colocada no centro da casa, valoriza a frente que tem acesso através de 3 ou 4 degraus para vencer o piso de altura de quase um metro. As vidraças de guilhotina trazem vidros de tamanho regular, conjugadas com folha de madeira de abrir para dentro, podendo-se escurecer total- mente os compartimentos. Grande sótão por toda a extensão da casa é usado para armazenagem dos mantimentos, como também para servir de dormitório para os rapazes da família.

“O dormitório do casal tinha a cama, o armário, uma mesa ou “komod”,

a cômoda, e infalivelmente, um “koffe” baú. Não eram móveis finos, nem eram “quartos” e “dormitórios”, como hoje se denominam os conjuntos.

A cama ostentava um macio “Strohsack”, colchão de palha de milho. Essa

palha, de anos em anos, precisava ser renovada, pois ficava reduzida a

pedacinhos e produzia poeira que podia ser facilmente vista no assoalho. Essa palha era cortada com tesoura ou faca nas duas pontas e depois ras- gada três ou quatro vezes no sentido longitudinal. Era um serviço para o inverno, em dia de chuva “weil traus kann me doch nixs mache”, porque

lá fora não se pode fazer nada. O aviso “Strohroppe”, rasgar palha de mi-

lho, para o colchão de cada um, era recebido com geral desagrado, pois era um trabalho chato que produzia intensa coceira pelo pó que as palhas têm. Quantas vezes ouvi minha mãe dizer “dud die Palje dinne roppe”, rasguem as palhas mais vezes, para que ficasse mais macia no colchão. Mas era preferível dormir em cima de pilha um pouco mais grossa do que o suplício de uma tarde inteira preso a esse maldito trabalho. Junto

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a isso que nunca se soube que um guri tivesse dormido mal por causa da palha… O colchão era de uma fazenda grossa, listrada, em geral nas cores vermelho e azul. Era um “saco” do tamanho da cama, tendo uma abertura longitudinal ao centro. Quando a mãe ia “das Pet mache”, fazer a cama, ela enfiava os braços pela abertura e revolvia a palha para que ficasse fofa. Por cima do colchão ia o “Pedduch”, o lençol. Depois a “Deck”, a coberta. Nem sempre havia uma colcha. O travesseiro era de penas. Minha avó materna tinha travesseiros de marcela. Era bom contra a dor de cabeça, dizia ela.

O baú era a peça infalível. O da minha mãe foi presente de casamento de meu avô que era marceneiro. Isso prova, além da simplicidade das pesso- as, a situação econômica em nossa colônia. No baú, além de roupas, eram guardados os objetos de uso pessoal, fotografias e os chapéus. Recordo que minha mãe punha neles invólucros dos sabonetes “das’n gude Geru- ch gebt”, para dar cheiro bom. Debaixo da cama, infalível, o “Pissdopp”, urinol. Uma ou duas cadeiras completavam o mobiliário. Atrás da porta estava preso o “Zappepret”, uma tábua com tarugos de madeira onde se penduravam roupas.

A cômoda continha a “Petwesch”, a roupa de cama, e a “Kinnwesch”, a

roupa do nenê. Em alguns casos, em cima da cômoda havia um conjunto de louça, o lavatório: bacia, jarra de água, porta-pente saboneteira e uri- nol. Esse conjunto foi, em muitos casos, um fino presente de casamento, mas de pouco uso. Verdade seja dita, a peça mais usada era o urinol e, por isso, era também a primeira peça que quebrava. Tanto isso é verdade que nos conjuntos que ainda restam, o urinol já não está presente.

Na parede havia um quadro estampado em uma cartolina muito grossa, tendo um ou dois furos na parte de cima, por onde era preso com uma fitinha ao prego. Tais quadros, que podiam também ser emoldurados, tra- ziam um “Spruch”, provérbio, lema ou versículo bíblico.

A afirmação de que “o enfeite da casa é a limpeza”, recorda-me minha

avó materna, a “Gustevovo”, a vovó Augusta, que costumava dizer “arm awe rein”, pobre, mas limpo. Como era sua vida e sua casa: pobre, mas limpa. O soalho de tábua natural, branca, era um “brinco”. E isso prova

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que usar água e sabão não requer muita coisa e não é privilégio de nin- guém.

O quarto dos filhos era bem mais simples ainda. Cama e baú era, em

muitos casos, o que havia. E precisava mais? O supérfluo, o desnecessário não existia. Claro: ainda não se estava na era de consumo de massa. O baú podia ceder lugar ao armário. Os rapazes, muitas vezes, dormiam na

“Felbett”, cama de vento. Essa cama tem os pés cruzados, presos por gran- des parafusos. Os pés eram unidos por dois fortes sarrafões, nos quais prendia-se o pedaço de lona ou couro que fazia o “fundo” da cama. Ela

é muito prática, pois pode ser dobrada e guardada sem ocupar espaço.

Muitas famílias tinham o “Felbett” de reserva para atender visitas.

Toda casa possuía uma “Stup”, sala de estar, hoje chamada de living. Seu

mobiliário: mesa de centro, cadeiras, um sofá de madeira, muitas vezes em “L” para ocupar o canto da sala, e o “Wiechestuhl”, a cadeira de balan- ço. Em casa de meus avós paternos, o “Wiechestuhl” tinha dono absoluto quando, à noite, depois do jantar, todos se reuniam na “Stup”: minha avó,

a Binevovo, vovó Filipina. Cabe também referir aqui que em minha casa

não havia luz elétrica. Meus avós tinham e por isso, a reunião noturna

tinha que ser todos na sala “fa Licht se spaare”, para poupar luz.

As paredes da sala ostentavam molduras com fotografias de confirma-

ção ou comunhão, de casamento, de casais ou de famílias amigas. Todas posadas com roupas domingueiras. Era comum que as famílias tirassem uma foto e mandassem fazer uma ou duas dúzias para distribuir a paren- tes e amigos. Graças a isso, hoje sobram tantas fotos de família de 50 ou mais anos atrás, que são notáveis documentos de uma época. Essas fotos mostravam, invariavelmente, o casal ao centro, sentado. Se houvesse um filho pequeno ou netos, esses sentavam entre os dois ou ficavam de pé perto deles. Os filhos atrás, em geral por ordem cronológica. Os casados estão de braços ou o marido tem a mão no ombro da esposa. Entre ou- tras fotografias na sala, não faltava a foto de algum soldado, membro da família ao tempo de serviço militar (Nota do autor: com essa descrição, verifique a foto onde meus bisavós, meu avô e seus irmãos estão posando na frente de sua casa em SPA e a de meu bisavô com uniforme militar).

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Muito comuns eram os quadros com paisagens onde abundava a neve.

É incrível como a neve tem um “poder” sobre os colonos teutos. Velhos

cartões postais vindos da Alemanha impressionavam mais pela neve do que pelas casas ou pontes. Essa influência da neve deve ser uma ligação sentimental, subconsciente, com a terra dos antepassados. Essa mesma neve ficou gravada de tal forma que, até hoje, tantos anos após a imi- gração, o algodão na árvore de Natal a simboliza com toda a sua força. Apesar do calor!

No “Esszimmer”, sala de refeições, havia uma grande mesa, onde ca- biam facilmente oito pessoas, número mais ou menos médio das famí-

lias até a década de trinta. Um armário com louças, copos, vasos, bibelôs

e bugigangas. Invariavelmente, numa parede da “Esszimmer” havia um

“Abreiskalenne”, um calendário do qual se arrancava, todos os dias, uma folhinha que trazia o mês, o dia da semana e, no verso, havia informações históricas, conselhos médicos e informações úteis.

Na cozinha, o fogão era comprado na venda ou daqueles de pedra, com uma chapa de três furos em tamanhos diferentes. O fogão de pedra era

entre ele e a parede. Era comum empilhar-se ali a lenha cortada em peda- ços pequenos e que servia de assento.

A casa apresentava também o “Wandschone”, o pano protetor da parede,

pano bordado pela moça durante o noivado como peça de enxoval. Atrás do fogão e na sala de estar havia um lugar certo para eles. Muitas vezes também atrás da mesa das refeições. Sobre esse “Wandschone” convém dizer mais alguma coisa. Seu tamanho era variável, dependendo do lu- gar previsto, como do motivo que ele traria. A cor também variava, com

predomínio do branco. Os da cozinha traziam inscrições e figuras quase sempre relativas à alimentação. Assim entre frutas lia-se “Guten appetit”, bom apetite. Ditados populares eram comuns: “Morgenstunde hat Gold im Munde”, as horas matinais têm ouro na boca, isto é, valem muito. Eram comuns também as frases românticas, lembrando o tempo de namoro e noivado, cheios de esperanças e sonhos: “Rosen, Tulpen, Nelken blühen und verwelken, aber unsere Liebe Nie”, rosas, tulipas e cravos florescem

e murcham, mas o nosso amor NUNCA. Os panos com estas palavras,

amarelo, traz, ao centro um balaio de flores de várias cores e foi obra de minha mãe.

muito comum, por ser mais barato e muito prático, pois aproveitava bem

Cabe dizer que os panos de parede traziam o “Hochdeutsch”, alemão

a

lenha e não era preciso serrá-la em pequenos pedaços. No canto estava

gramatical, e não o Hunsrückisch, o gostoso dialeto de nossa colônia.

“Brotschrank”, o armário do pão, também chamado de “Kicheschrank”,

armário de cozinha ou guarda-louça. Além do pão e da louça nele esta- vam a “Schmieduz”, a chimieira, a “Buteduz”, a mantegueira e as sobras da comida do dia. Junto à janela havia uma mesinha com a bacia de lavar

o

Deve ser porque o alemão gramatical se aprendia na escola ou porque muitos dialetos eram copiados de livros e revistas ou eram versículos de bíblicos copiados da bíblia.”

louça porque, na maioria dos casos, a água servida era jogada pela janela

O

importante é deixar claro que na primeira metade do século passado,

do pátio. Aliás, esse costume, comum e péssimo, formava um local sujo,

a privada era separada da casa, construída por cima de um riacho, após

encharcado, de mau cheiro e de moscas, no verão. Mas era assim que se

a tomada da água para fins domésticos. Era comum ver enfiados sobre o

fazia. De tempos em tempos, jogava-se terra nesse local.

telhado um completo suprimento de sabugos de milho, usados em lugar do papel higiênico, artigo então inexistente no mercado.

A cozinha era local de encontro de toda a família depois da higiene vespertina, enquanto a mãe a filha mais velha preparavam o jantar. Os pequenos procuravam um colo… mormente no inverno, e muitas vezes adormeciam antes da comida ir para a mesa. Havia um lugar muito dis- putado na cozinha, no inverno: era o lado do fogão, no espaço que ficava

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Do livro História da Imigração Alemã por Telmo Lauro Müller

Wätelist (Wortschatz) – Vocabulário do dialeto Hunsrückisch no Brasil e do Hochdeutsch para o português

Nota: Algumas palavras foram escritas de duas maneiras. Com isso se quis indicar as diversidades não só na grafia, mas também, na pronún- cia.

- Wäte – Worte: palavras

- Eb’me – eher wir: antes que nós

- muss’me – muss man: é preciso

- foakomme – vorkommen: aparecer

- wemme – wen man: quando a gente

- me – man: a gente

- heat – hört: escutar

- scheen – schön: bonito

- länt’me – lernt man: a gente aprende

- emol – einmal: de repente, uma vez

- wärre – werden: usar

- saan – sagen: dizer

- Schile – Schüler: aluno

- ‘n – ein: um (artigo)

- woa – war: foi

- Hunetjoa – Jahr hundert: século

- weniche – weniger: menos

- saad’me – sagt man: a gente diz

- East – Erde: terra

- Halbkuchel – Halbkugel: hemisfério

- Unneschied – Unterschied: diferença

- kai – keine: não ou sem

- Zaich – Zeuch: roupa

- Motoa – Motor: motor

- iss’me – ist man: a gente só

- Mea – Meer: mar

- sesame – zusammen: juntar

- awwe – aber: mas

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- aarich – sehr: muito

- aichen – eigene: própria

- Sprooch – Sprache: língua (idioma)

- hat’me – man hat: a gente diz ou faz

- codele – Kordel: cordão, barbante

- Scrawe – Sklave: escravos

- canoh – Kanu: canoa

- Pargue – Barke: barca

- Fäad – Pferd: cavalo

- ‘s – es ist: é

- hii – hier: aqui

- Bie – bier: cerveja

- geche – gegen: contra

- me saad – man sagt: a gente diz, se diz

- harre – hatten: tinham

- zichte – züchten: criar

- eldere – alt: pessoas mais velhas

- Scharge – Dörrfleisch – charque

- Bowere – Kürbis : abóbora

- Siessbatata – Batate: batata doce

- Nokomme – Nachkomme: descendente

- geboa – geboren: nascer

- melge – melken: ordenhar

- Griine – Grüne: verde

- Buge – Indianer: bugre

- tratiet – aufnehmen: tratar bem alguém

- Plette – Blätter: folhas

- lee – liegen: deitar em

- fiilste – fühlen – sentir-se

- gaputt – kaputt: quebrado

- easte – ersten: primeiros

- iwerall – überall: em toda parte

- homme – haben wir: nós temos

- aneste – anders: diferente

- gewo – geworden: ficar

- Hafe – Hafer: aveia

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- Kon – Korn: centeio

- Wesch – Wäsche: roupas

- kee – keine: negação

- Stichelche – Stückelchen: pequenas partes

- Kerch – Kirche: igreja

- Veein – Verein: sociedade

- nidde geloss – niederlassen: ficar num lugar

- saad’me – sagt man: a gente diz

- Seel – Seele: alma

- Kriich – Krieg: guerra

- vebood – verboten: proibir

- baaich – bei euch: junto a vocês

- Tande – Tante: tia

- mene – meinen: pensar

- Ostere – Ostern: páscoa

- fätiche – fertige: pronto

- Saaldie – Saaltür: porta da sala

- ode – oder: ou

- woleme – wollen wir: vamos ou queremos

- Gunomd – Guten Abend: Boa noite

- Ruut – Rute: vara

- Peck – Pack: pacote

- Toss – Keks: bolacha

- Himbea – Himbeer: framboesa

- no hea – nachher: depois

- alsmol – allemal: às vezes

- moinds – morgens: de manhã

- ufgestii – aufsteigen: levantar-se

- Gadde – Garten: jardim

- wemme, wen’me – wenn man: quando a gente

- do hii – da hier: aqui

- fegesse – vergessen: esquecer

- treft’me – trifft man: a gente encontra

- schenne – schmpfen: xingar

- Sten – Stern: estrela

- Beem – Bäum: árvore

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- Meed – Mädels – meninas

- wärich – wäre ich: eu gostaria

- Zimmet – Zimt: canela

- Peffe – Pfeffer: pimenta

- Epelkuche – Äpfelkuchen: cuca de maçã

- daile – teilen: dividir

- Menne – Männer: homens

- Krostische – Krustig: calejadas

- Henn – Hand: mãos

- geputzt – putzen: capinar, limpar

- geleed – gelegen: colocado

- heeche – höcher: mais alto

- Hiit – Hüte: chapeús

- Bäche – Berg: colinas

- gepluut – bluten: sangrar

- omds – abends: de noite

- geneht – hähen – costurar

- Aandenge – Andenken: lembranças

- geblib – bleiben: ficaram

- vedange – verdanken: agradecer

- kimmere – kümmern: preocupar-se

- Grumbeere – Kartoffel: batata

- geheischnis – vertrauen: acreditar, confiar

- loo – hier oder da: aqui e lá

- Schenneere – sich genieren: envergonhar-se

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Árvore genealógica

Mas afinal, o que significa a palavra “Fuck” em alemão? Não tem uma tradução, na verdade. E nem venha me falar do significa da palavra em inglês, porque não há um membro da família que já não tenha ouvido essa piadinha com o nosso sobrenome. Desde criança sempre achei que

o sobrenome originalmente era Fuchs (raposa, em alemão), e que ao che-

gar no Brasil ou no cartório houvessem errado o registro, como é muito comum em vários sobrenomes “diferentes”. Mas acontece que não, essa escrita é datada de muito, muito tempo atrás.

Encontrei em muitos registros de nossos antepassados, datados até o início de 1700 o sobrenome já nessa forma FUCK. A origem, claro, deve vir realmente do sobrenome Fuchs, afinal, além de ser um sobrenome de verdade, tem realmente um significado. Mas o “erro” vem de muitos anos atrás, transformando “erro” em algo certo. Mas vamos ao que interessa, peço a paciência de todos vocês, porque da repetição, os antepassados ti- nham outro costume: fazer muitos filhos. Citarei desde o mais antigo que encontrei, passando pela família que veio ao Brasil, incluindo o sobreno- me de solteiro das esposas.

Antes de começar, devo alertar para a legenda de símbolos:

* nascimento

@ casamento

# óbito

f – filho

- Peter Fuck (*1702 em Schneppenbach – DE)

- Johannes Peter Fuck (*1725 #19/02/1783 em Schneppenbach – DE) - casou-se com Mariae Catharinae Krampen

- Johannes Nikolaus Fuck (*11/06/1772 #13/09/1837 em Schneppenbach

- DE) – casou-se com Maria Magdalena Bong (*1791 #29/01/1816 em Schneppenbach – DE)

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- Johann Jakob Fuck – o pai que emigrou para o Brasil com os filhos

em 1862 (*16/10/1811 em Schneppenbach @20/09/1832 #1865 em São Pedro de Alcântara) De profissão Johann, era seleiro, chegando ao Bra- sil se tornou agricultor. Casou-se com Anna Maria Elisabeth Dämgen (*10/08/1832 Denzen - DE #04/04/1879 em São Pedro de Alcântara). Filhos do casal que faleceram na Alemanha:

- Catharina Elizabeth Fuck

1833–1834

- Johanna Fuck

1842–1844

- Nikolaus Fuck

1848–1851

Filhos do casal que emigraram ao Brasil:

em 1861 - Leonhard Fuck (*06/02/1834 em Schneppenbach #08/06/1906 em Angelina). Casou-se com Marie Louise Petry (*1836 em Bundenbach #1919 em Angelina) Saíram do Porto da Atuérpia, na Bélgica em 1861 no Navio Hollandez Vereemgeng, comandado pelo Capitão Jongh, contendo 172 imigrantes europeus. Desembarcaram no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1861 e foram enviados para Santa Catarina em 28 de junho de 1861. (1)Veio com a esposa e a filha para Santa Catarina a bordo do Vapor Imperador, aportado em Desterro em 09 de julho de 1861. Em 3 novembro 1862, declarou estar satisfeito com o Diretor da Colônia de Santa Isabel. Propriedade 1: 6 julho 1868, Requereu terras em Ribeirão Scharf através do “Registro do Vigário”. Em 8 julho 1868, recebeu Título Provisório de Terras do lote número 04 na margem direita da Quarta Linha da Colônia Santa Isabel, SC.

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Em 1862:

- Johann Jakob Fuck (*19/05/1837 Schneppenbach @27/06/1863 #02/07/1928 São Pedro de Alcântara). Casou-se com Anna Martha Bor- nhausen – filha de Jakob Bornhausen que emigrou ao Brasil (*1839 São Pedro de Alcântara #29/03/1905 São Pedro de Alcântara)

- Peter Jakob Fuck (sem data de nascimento e óbito)

- Louise Fuck (*14/05/1840 Schneppenbach, casou-se com Joannes Ren- gel, #19/06/1917 Antônio Carlos)

Partindo para a árvore genealógica de Johann Jakob e Anna Bornhausen:

f1: Elena (*1864 São Pedro de Alcântara) f2: Barbara (*1865 São Pedro de Alcântara) f3: Jacob Fuck Junior (*1867 São Pedro de Alcântara @1893 com Cathari- na Martendahl #1944 Curitiba-PR) f4: João (*1869 São Pedro de Alcântara) f5: Nicolao (*1872 São Pedro de Alcântara) f6: Pedro (*1875 SPA #1933 São Pedro de Alcântara) f7: Henrique (*1880 São Pedro de Alcântara) f8: Mathias (*1882 São Pedro de Alcântara)

Partindo para a árvore genealógica de Jacob Fuck Junior e Catharina Martendahl:

f1: Benjamin (*1892 São Pedro de Alcântara #1899 São Pedro de Alcân- tara) f2: José (*1894 São Pedro de Alcântara @1916 com Mathilde Margarida Schweitzer #1948) f3: Lino Fuck (*24/02/1897 São Pedro de Alcântara @1922 com Benta Hermes #04/11/1959 em São Pedro de Alcântara) f4: Marcos (*1899 – casou-se com Catharina Elizabeth Voges e faleceu em @1941 em Santo Amaro da Imperatriz) f5: Stefan (*1901 @1925 casou-se com Apolônia Kuhnen e @1929 com Tomásia Schweitzer, #1976 São Pedro de Alcântara) f6: Alberto (*1903 São Pedro de Alcântara #1909 São Pedro de Alcântara)

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f7: Maria (*1905 São Pedro de Alcântara #1989 em Florianópolis) f8: Clara (*1907 São Pedro de Alcântara @1931 Leonardo Vidal da Cunha #1981 São Pedro de Alcântara) f9: Basílio (*1910 São Pedro de Alcântara @1933 Jovita de França #1975 em Curitiba-PR)

Partindo para a árvore genealógica de Lino Fuck e Benta Hermes:

f1: Maria Bernadete (*1923 São Pedro de Alcântara #2004 Santo Amaro da Imperatriz) f2: Odilo (*1924 São Pedro de Alcântara @1949 com Maria Verônica Junkes #1992 em Jaraguá do Sul) f3: Erica Filomena (*1925 São Pedro de Alcântara #1941 São Pedro de Alcântara) f4: Irene Judith (*1926 São Pedro de Alcântara) f5: Braz (*1928 São Pedro de Alcântara #1928 São Pedro de Alcântara) f6: Mauro (*26/05/1929 São Pedro de Alcântara @1955 com Juraci Linha- res #27/07/1944 em Itajaí) f7: Zélia (*1930 São Pedro de Alcântara) f8: Leogildo (*1932 #1933 São Pedro de Alcântara) f9: Reinaldo (*1933 São Pedro de Alcântara #2013 Indaial) f10: Hugo (*1936 São Pedro de Alcântara #2011 Joinville) f11: Paulo (*1937 São Pedro de Alcântara #1998 São Pedro de Alcântara) f12: Maria Tereza (*1940 São Pedro de Alcântara #1988) f13: Romilda (*1942 São Pedro de Alcântara) f14: Luiz (*1945 São Pedro de Alcântara)

Outras famílias que compõe a árvore genealógica da família Fuck atra- vés de matrimônio:

*Na Alemanha: Krampen, Bong, Dämgen, entre outras *No Brasil: Bornhausen, Martendahl (e suas variações Martendal, Mar- thendal, Martenthal), Hermes, May, Pütz, Bins, Schmidt, entre outras. *Em Luxemburgo: Mannes

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Certidão de nascimento de Johann Jakob Fuck - 18/05/1837 50 C e r t i

Certidão de nascimento de Johann Jakob Fuck - 18/05/1837

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Certidão de nascimento de Johann Jakob Fuck - 18/05/1837 50 C e r t i d

Certidão de casamento de Johann (pai) e Annna Dämgen

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Texto da certidão de nascimento de inteiro teor de Johann Jakob Fuck

Im Jahre tausend achthundert dreißig und sieben den zwanzigsten des Monats Mai nachmittags vier Uhr, erschien vor mir, August Reinhold Kaiser, Bürgermeister von Gemünden Beamten des Personenstandes, der Johann Jacob Fuck, sechs und zwanzig Jahre alt, Standes Sattler woh- nhaft in Schneppenbach, Regierungs-Bezirk Coblenz, welcher mir ein Kind männlichen Geschlechts vorzeigte, und mir erklärte, daß dies Kind den neunzehnten des Monats Mai Jahres tausend acht hundert dreißig und sieben vormittags elf Uhr geboren ist, von ihm Deklaranten und von Anna Maria Elisabetha Dämgen seiner Ehefrau Standes ohne, wohnhaft in Schneppenbach in der Dorfstraße im Hause Nr. 26 und erklärte ferner, diesem Kinde die Vornamen Johann Jacob zu geben.

Diese Vorzeitung und Erklärung haben Statt gehabt in Beisein des Jo- seph Schnepp, acht und dreißig Jahre alt Standes Schuster wohnhaft in Schneppenbach und des Leopold Damm sieben und zwanzig Jahre alt Standes Bäcker und Wirth wohnhaft zu Gemünden und haben der vorbe- nannte erklärende Theil sowohl, als die Zeugen, nach ihnen geschehener Vorlesung, gegenwärtige Urkunde mit mir unterschrieben.

Tradução (desculpe-me pelo meu alemão precário):

No ano de 1837, no vigésimo dia de maio às quatro horas da tarde, apa- receu diante de mim August Reinhold Kaiser, prefeito da câmara de es- tado civil, apareceu para ofício de estado, Johann Jacob Fuck, 26 anos, profissão seleiro e morador de Schneppenbach do distrito de Koblenz, que me mostrou um bebê de sexo masculino, e me disse que essa criança nasceu no dia 18 de maio de 1837 às onze horas da manhã, e sua esposa Anna Maria Elisabetha Dämgen, que vivem em Schneppenbach, na rua da vila na casa número 26, e declarou que o nome da criança era Johann Jacob. Na presença de Joseph Schnepp, 38 anos, sapateiro, morador de Schneppenbach, e Leopold Damm, 27 anos, padeiro, acima serviram de testemunhas, assinando a presença diante de mim.

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de testemunhas, assinando a presença diante de mim. 52 Lino Fuck e Benta Hermes - casamento

Lino Fuck e Benta Hermes - casamento

assinando a presença diante de mim. 52 Lino Fuck e Benta Hermes - casamento Mauro Fuck

Mauro Fuck e Juraci Linhares - casamento

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Lino Fuck, Benta Hermes e filhos Catharina Martendahl e Jacob Fuck Junior (filho do imigrante)

Lino Fuck, Benta Hermes e filhos

Lino Fuck, Benta Hermes e filhos Catharina Martendahl e Jacob Fuck Junior (filho do imigrante) 54

Catharina Martendahl e Jacob Fuck Junior (filho do imigrante)

54

Hermes e filhos Catharina Martendahl e Jacob Fuck Junior (filho do imigrante) 54 Lino Fuck -

Lino Fuck - filho de Jacob Fuck Junior

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Marcos Fuck - filho de Jacob Fuck Junior 56 Clara Fuck (filha de Jacob) com

Marcos Fuck - filho de Jacob Fuck Junior

56

Marcos Fuck - filho de Jacob Fuck Junior 56 Clara Fuck (filha de Jacob) com marido

Clara Fuck (filha de Jacob) com marido e filha

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Basílio Fuck com esposa e filhos Irene Judith Fuck (Irmã Cléa) filha de Lino 58

Basílio Fuck com esposa e filhos

Basílio Fuck com esposa e filhos Irene Judith Fuck (Irmã Cléa) filha de Lino 58 Nosso

Irene Judith Fuck (Irmã Cléa) filha de Lino

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Nosso lado luxemburguês

Nem só de Alemanha e Brasil é fundido o laço da família Fuck. Se você é descendente do casal Lino e Benta Hermes você possui também ori- gem luxemburguesa (país de 500 mil habitantes no centro da Europa). Muito confundidos com alemães, seja pelo idioma, aparência ou origem germânica, os luxemburgueses vieram à São Pedro de Alcântara por mo- tivos parecidos aos alemães: promessas de uma vida melhor. Foi por esse motivo que em 1828 emigrou Nicolas (ou Nicolaus) Mannes à São Pedro de Alcântara. Nascido em 1809 em Echternach (divisa com a Alemanha) filho do barqueiro e pescador Wilhelm Mannes e Anna Maria Wehr, par- tiu de Bremen na Alemanha em 7 de junho de 1828 no vapor Charlotte & Louise para integrar por 6 anos o Exército Imperial Brasileiro.

Segundo consta no histórico de casos similares aos dele, por falta de comida e condições precárias de sobrevivência, ganhou dispensa do exér- cito e terras em São Pedro, onde lá casou-se com Anna Maria Werner. Juntos, tiveram 10 filhos, entre eles Catharina Mannes que nasceu em 1839. Catharina se casou com Firmino Martendahl em 1863. Fruto desse casamento, nasceu em 1866 Maria Martendhal, mãe de Benta Hermes e esposa de Pedro André Hermes. Não esqueça de pesquisar mais sobre Luxemburgo! Um país lindo, importante e com uma cultura riquíssima!

mais sobre Luxemburgo! Um país lindo, importante e com uma cultura riquíssima! Pedro André Hermes e

Pedro André Hermes e Maria Martendahl

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Agradecimentos

Agradeço a todo mundo que fez esse livro se tornar realidade. Meus pais

e minha namorada Stefânia Enderle pelo apoio, os historiadores Aderbal João Philippi e Toni Jochem pelas fontes de pesquisa, Lindamir Souza, tia Cléa Fuck e todos os outros parentes próximos ou distantes que se interessaram pela jornada de nossos antepassados. Também não posso esquecer as cidades de São Pedro de Alcântara e a colônia Santa Isabel pela recepção e hospitalidade.

Fonte de pesquisa

- Capítulos: O “apoio” brasileiro, Chegando no Rio de Janeiro, Em Santa

, cântara - A Primeira Colônia Alemã de Santa Catarina por Aderbal João Philippi

Relatos da época: livro São Pedro de Al-

Catarina, Os anos seguintes

- Capítulos: Típica casa alemã e vocabulário do dialeto: livro História da Imigração Alemã por Telmo Lauro Müller.

Qualquer dúvida, sugestão ou crítica, mande um email para mim. Estou a disposição: andrefo89@gmail.com

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Representação da vila vizinha a Schneppenbach em 1840 - do filme Die Andere Heimat de
Representação da vila vizinha a Schneppenbach em 1840 - do filme Die
Andere Heimat de Edgar Reitz

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