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07/05/2016 As razões do atraso e do subdesenvolvimento

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As razões do atraso e do
subdesenvolvimento
Voltaire Schilling

6 MAI 2016 12h54 atualizado às 12h54

T
endo pela frente a imagem de uma América do Norte poderosa e
pujante, nação fundada mais de um século depois do Brasil,
intelectuais, escritores, políticos e gente do povo,  perguntam-se 
por que razão um país tão grande como o nosso  não seguiu um idêntico
destino de prosperidade. Qual teria sido a causa última, o  pecado
original que faz com que o gigante sul-americano seja sempre incluído
entre os “ subdesenvolvidos”, dos “ em desenvolvimento”, ou ainda como 
“ país emergente”, mas nunca no rol dos definitivamente bem sucedidos?

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Retirantes (C.Portinari)
Foto: Divulgação

Portugal, império  medíocre

Já vai para mais de século e meio que uma das grandes preocupações dos
políticos, escritores e pensadores brasileiros em geral,  concentrou-se em
encontrar explicações para o  subdesenvolvimento do país.
Especialmente se comparado com o sucesso dos Estados Unidos. Donde
vinha a persistência da síndrome do fracasso que, por vezes,   atormenta
os brasileiros?

Para responder a isso deve-se recuar alguns séculos, de volta à


Metrópole,  pois herdou-se tal obsessão dos portugueses. Já nos tempos
do Marquês do Pombal ( que foi embaixador em Londres antes de tornar-
se primeiro ministro de D.José I,  entre 1750-1777), essa fora uma das
preocupações dele. Estendida também aos  vanguardistas do círculo de
Eça de Queirós, se indagavam do porquê do Império Português ser tão
medíocre e acanhado se comparado à prosperidade e ao dinamismo dos
britânicos, a quem, afinal,  historicamente eram tão ligados.

Naqueles tempos, o todo-poderoso  Pombal, o “Herói Perfeito” de Basílio


da Gama,  apontou como causa de tudo o jesuitismo. A  Ordem dos
Inacianos, milícia da Contra-Reforma Católica, era para ele uma
corporação sacerdotal francamente hostil aos ideais do progresso que
então vigiam na época do Iluminismo. Além disso,  havia uma insanável
incúria da burocracia portuguesa, uma espécie de inércia paralisante que
a imobilizava, reflexo da falta de iniciativa da nobreza lusitana, que não
assumia a liderança de uma política econômica que trouxesse
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prosperidade ao reino.

Numa sociedade dominada por fidalgos parasitários e sacerdotes


obscurantistas, tendo seus ganhos providos pelo nefasto Tratado de
Methuen, de 1703 e pela exploração do império marítimo,  caberia  ao
estado ilustrado chamar a si a função de agente impulsionador das
coisas.

O esforço pombalino de industrialização, todavia,  fracassou, e já na


época da Viradeira ( após 1777), o período em que Pombal perdeu o
poder, grande parte da politica adotada por ele em favor das atividades
manufatureiras  tornou-se letra morta, retrocedendo o reino de volta ao
ramerrão estagnante do qual  somente fora sacudido pelas ocasionais
descobertas das minas de ouro e de diamantes no sertão do Brasil
colônia. Situação regressista essa registrada na estrofe:

Lisboa já não é/ a mesma que há dez anos se mostrava,/É tudo devoção,


tudo são terços,/ Romarias, novenas, via-sacras./Aqui é nossa terra, aqui
veremos/ A nossa cara irmã cobrar seu reino."

- O rei da Estupidez

Todavia,  a questão continuou no ar. Qual a razão de Portugal, que


começara o seu império marítimo bem antes dos inglês, no mínimo com 
um século de antecipação, vir-se reduzido à insignificância, a ter que
sobreviver, como mostrou Fernando A. Novais,  à sombra do Império
Britânico, seu aliado. Porquê  os portugueses continuavam reunidos ao
redor das suas vinhas, das quintas e dos  morgados, entregues à rotina
da lavoura,  enquanto os ingleses, pródigos nas artes mecânicas, 
metiam-se em fábricas e a toda hora inventavam máquinas e inovadores
meios de produção?

Eça de Queirós apontou seu dedo acusador diretamente para a


sociedade portuguesa do seu tempo, para o domínio completo que os
padres  exerciam sobre tudo. Denunciou  a beatice e a carolice bocó de
grande parte da população que a mantinha infensa aos apelos  da
prosperidade material,  conformada com o sem-fim de  missas e
rosários,  de procissões e imagens de santinhos,  esconjurando tudo a
toda hora com cruz-credos, como ele expôs no “O Crime do Padre
Amaro”(1875) e “ A relíquia”(1883).

Com o tempo, cansado do esforço inútil em denunciar aquela situação


infensa à mudança, ele também desistiu e voltou-se a celebrar, numa das
suas obras derradeiras “ A cidade e as serras”, publicação póstuma de
1901, as doçuras da vida rural e do retiro.  Morreu acreditando que
Portugal era irrecuperável.

Como exemplo marcante dessas atitudes antagônicas de ingleses e


portugueses frente aos desafios dos tempos,  basta lembrar que
enquanto os primeiros, ainda no século XVIII,  reuniam-se ao redor de
Erasmus Darwin ( avô do cientista), líder da Sociedade Lunar, associação

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criada para trocar informações científicas e fomentar descobertas (entre


os quais se encontrava James Watt, o inventor da máquina à vapor);   Eça
de Queirós e seus amigos ( Ramalho Ortigão, Antônio Cândido, Lobo de
Ávila e Guerra Junqueira), mais de um século e meio depois, na década de
1890,  organizaram uma estranha sociedade que, pela sugestão de
Oliveira Martins,   significativamente designou-se de Os Vencidos da Vida.

Eça de Queirós e os Vencidos da Vida


Foto: Divulgação

A culpa da monarquia e da escravidão

No Brasil, foi nos estertores do Segundo Reinado ( 1840-1889), que


cresceu a ideologia de que a explicação para o  atraso pátrio devia-se à
estrutura política monárquica e à existência da escravidão. Os Estados
Unidos haviam abolido a “peculiar instituição” no decorrer da Guerra Civil
( 1861-1865) sem que isso empanasse a ascensão ou bloqueasse a 
crescente prosperidade dos americanos, como muitos escravocratas
temiam.  Era o Império dos Braganças e o cativeiro dos negros, a Corte de
São Cristóvão e a existência da senzala, compondo uma associação
maligna,   quem negava ao Brasil ser uma potência da mesma dimensão
do seu vizinho do norte.

Qual então remédio a adotar? Além da imediata abolição da escravidão,


(alcançada pelo decreto imperial de 13 de maio de 1888), devia acelerar-
se  a substituição total do trabalho servil pela intensificação da
colonização européia, como por igual  adotar o positivismo de Auguste
Comte como ideologia do progresso. Politicamente,  a solução era
implantar o regime republicano, presidencialista e federativo,  como a
melhor expressão da modernidade, como de fato se deu em 15 de
novembro de 1889. Fazer do Brasil uma Nova Canaã, a contrapartida sul-
americana aos Estados Unidos.

A fobia ao lusitano e o trauma racial

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Caído o Império, precisou-se rebatizar o Brasil. No afã de aproximar-se


cada vez mais da América do Norte, além de favorecer a política de
colonização e a divisão federalista,  adotou-se, por ingerência do
liberalismo de Ruy Barbosa, a designação de República dos Estados
Unidos do Brasil. Paralelo  a tomada de consciência do atraso nacional,
cresceu ainda mais a fobia ao lusitano. As desgraças nacionais, dizia-se
abertamente,  advinham da colonização portuguesa. Ela  impedira o
Brasil alcançar a sua vocação de grandeza. Tivessem sido anglo-saxãos ou
holandeses os desbravadores, a história teria sido outra.

Ao enviarem para cá gente desqualificada, degradados, criminosos, gente


socialmente inferior, além de terem importado escravos,  os lusitanos
teriam inviabilizado as possibilidades do país atingir um patamar igual ao
dos americanos. (*) Dai , por excesso, passaram a enaltecer os índios e a
vida indígena de um modo geral, contrapondo-a ao antigo colonizador
promovido a ser uma espécie de bode expiatório coletivo das mazelas
nacionais.

Como ponderou então o dr. Nina Rodrigues, emérito médico e


antropólogo baiano, “ Há flagrante injustiça no zelo que pomos em
defender os foros da nossa linhagem. Desabrida a intolerância com os
portugueses. Não há quem não se julgue autorizado a depreciá-los e
deprimi-los. Como que pesa e envergonha o sangue português que nos
corre nas veias, e a cada passo...clamamos em altos brados que a nossa
decadência provém da incapacidade cultural dos  lusitanos, da baixa
estirpe dos degradados....   (Os africanos no Brasil, 1905).

(*) Chegaram ao Brasil, vindo da África  3.647.000  de escravos, ou 38% do


total importado pelas três Américas.

O exagero nativista e o racismo

Deu-se, então,  nos primórdios da República, além de uma esbaforida


imitação do sistema norte-americano,  um exagero nativista. Ao tempo
que rejeitou-se o português enalteceu-se a etnia indígena e as coisas
exclusivamente nacionais.  Jacobinismo que  teve fôlego curto. Lima
Barreto satirizou-a ao criar o seu famoso personagem, tipo acabado do
chauvinista caricato: o major  Policarpo Quaresma ( O triste fim de
Policarpo Quaresma, 1916).

Nativismo que  logo foi questionado pela afluência das doutrinas


racistas,  então em moda na Europa e que logo chegaram ao Brasil. Na
transição do século XIX para o XX elas tomaram corpo devido as teorias
de Hippolyte Taine, de Francis Galton, de H.S. Chamberlain, autores que,
enaltecendo os arianos, afirmavam que os povos de cor não tinham
condições de atingir à civilização.

Quem fosse negro, pardo, ou descendente da raça vermelha, estava


sentenciado ao atraso e à pobreza. Somente os brancos, habitantes do
hemisfério norte eram evoluídos. Sendo que o pior de tudo para os
eugenistas de plantão era a mistura racial, pois ela enfraquecia duas
“raças fortes”, a branca e a negra ( muito da desesperança de Euclides da
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Cunha vinha exatamente disso). Ora, como o Brasil poderia almejar


participar do mundo civilizado se precisamente o que predominava por
aqui era um intenso intercurso racial, um enorme caldeirão étnico onde
brancos, negros e índios se acasalavam sem cessar há mais de quatro
séculos?  Os brasileiros sentiram-se perpetuamente estigmatizados frente
às doutrinas racistas.

O Jeca Tatu

Jeca Tatu, metáfora do Brasil


Foto: Divulgação

Uma das mais forte imagens autocríticas criadas por um intelectual


brasileiro seguramente foi a Jeca Tatu, tipo inventado por Monteiro
Lobato ( Urupês, 1918).  Não pairava dúvida, no entender dele,  que a
célula última que explicava o nosso atraso estava representada pelo
caipira interiorano,  preguiçosos e amarelecido pelas doenças. Pobre
espectro  humano capaz de passar horas e horas sentado à beira de uma
estrada pitando um palheiro assistindo, inerte, a vida, a ciência, o
progresso, passar à frente dele sem que o pobre diabo esboçasse

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qualquer  reação ou desejo de sair daquele estado de indiferença e


inanição. O Jeca tornou-se uma cruel metáfora do Brasil.

A imagem do Jeca Tatu, com a cabeça coberta por um chapéu de palha


furado e atacado pelo bicho-de-pé,  pairou por decênios no imaginário
coletivo dos brasileiro como a mais forte assombração do país. Não era a
herança portuguesa, nem o passado escravista que de longe lançavam
suas sogas amarrando e travando as possibilidades maiores do Brasil, era
a nossa gente mesmo. Sentimento critico esse, em relação ao Brasil,  que
confirmou-se ainda mais  quando Monteiro Lobato passou uma boa
temporada nos Estados Unidos,  entre 1929 – 1932 ( experiência
registrada no seu ensaio “América”).

Orgulho da etnia

Enquanto Oliveira Viana, reproduzindo as teses racistas importadas da


Europa,  depositava suas esperanças no Brasil Meridional “arianisado”
pela imigração européia, a verdadeira resposta ao repto racista veio de
Gilberto Freyre, autor de uma prodigiosa obra de interpretação da
sociedade brasileira, apresentada na trindade composta por “Casa
Grande e Senzala” ( 1933), “ Sobrados e Mocambos”(1936), e “ Ordem e
Progresso” ( de 1959).  Recuperou ele, por primeiro, a importância da
colonização lusitana apontando-a como a mais hábil e flexível  para lidar
com as complexidades do trópico. Portugal, justo por ter um pé na
Europa e outro na África,  havia conseguido a façanha de erguer uma
sociedade peculiar nas terras do Brasil: a Civilização Luso-tropicalista.

Civilização caracterizada entre outras coisas pela sua incrível plasticidade


racial, o  que impediu a formação de regimes racistas  como aqueles que
vigiam no sul dos Estados Unidos e na África do Sul, conseguindo legar
aos brasileiros  um clima de afabilidade inter-racial.  Ao invés de
exasperar-se com a presença negra, como era costume e como
lamentava Nina Rodrigues, ele enalteceu a enorme contribuição africana
ao modo de ser dos brasileiros, que ia desde a presença da mãe-preta, a
aia das famílias brancas, até os alimentos e bebidas. O esforço de
Gilberto Freyre, em grande parte bem sucedido,  concentrou-se em fazer
com que os brasileiros se aceitassem como eram, para que não ficassem
eternamente se lamentando, enrolados num complexo de inferioridade
por  não terem sido colonizados pelos ingleses ou pelos batavos.

O marxismo e o nacionalismo

No após Segunda Guerra Mundial, a questão da dimensão do


subdesenvolvimento adquiriu outros foros. A busca por explicações
políticas ou culturalistas (  que atribuíam  o atraso nacional à vida longa
da monarquia escravagista, à herança lusitana, à excessiva miscigenação
ou ao caboclo),  cristalizou-se num outro patamar: o estrutural, de
horizontes bem mais amplos. A influência marxista  e a keynesiana, 
teorias contemporâneas do prestígio alcançado pela URSS na Segunda
Guerra Mundial e das políticas públicas inspiradas em John M. Keynes, se
fizeram cada vez mais  presentes no Brasil. Da enormidade dos trabalhos
produzidos deste então, ressalta-se o de Caio Prado Jr. e o de Celso

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Furtado como os mais representativos dessas duas correntes. Para eles,


guardadas as diferenças, a razão do atraso devia-se prioritariamente às
causas externas, a maioria delas alheias à vontade dos brasileiros.

Para os marxistas e para os histórico-estruturalistas ( como os


keynesianos de esquerda se diziam), num universo dominado pelo
capitalismo imperialista não havia espaço para o crescimento nacional,
autônomo. O sistema internacional, hegemonizado pelas potência do
Primeiro Mundo,  sugava todos os recursos, econômicos e materiais,
fazendo com que a concentração de capital e riqueza se desse bem longe
do Brasil.

Esses Teóricos da Descolonização ou da Revolução, como então foram


entendidos,  diziam que  impedido de acumular a poupança interna,  para
sobreviver, o país vivia à mingua, eternamente dependente da banca
internacional, obrigado a contratar empréstimos lesivos, sendo esganado
por  juros escorchantes. Uma espécie de titã preso à rocha pelos grilhões
do endividamento externo. De certo modo,  era uma explicação mais
sofisticada do que a apresentada muitos anos antes pelo escritor e
historiador integralista Gustavo Barroso ( Brasil Colônia de Banqueiros,
de 1934), que denunciava a existência de uma histórica cabala de
financistas judeus,  liderados pela Casa   Rothschild,  que trazia o Brasil
amarrado à divida,  como os principais responsáveis pelas mazelas
nacionais.

(*) A antinomia atrasado/evoluído  que dominava o cenário das


diferenças entre os países, inspirada no evolucionismo europeu, foi
trocada depois da IIGM pela antinomia subdesenvolvido/desenvolvido, 
mais ao gosto dos cientistas sociais norte-americanos ( vide Walt Rostow
– Etapas do Desenvolvimento Econômico,  1960

A culpa das elites

A explicação histórico-estrutural, alinhada com as teses do nacionalismo


político dos anos 50,  levava à conclusões políticas muito claras, visto que 
girava suas baterias não para baixo, para as idiossincrasias do povo
brasileiro ou para a herança luso-monárquico-escravista, mas para cima,
para a classe dominante ( ou para as  suas elites, como muitos preferem
dizer). Colonizada e irresponsável, insensível frente à miséria nacional e
ao abismo das desigualdades, a oligarquia nacional, rica e egocêntrica, 
era  a causadora do subdesenvolvimento.

A atrelar o destino nacional a uma Economia-Mundo que não favorecia os


interesses gerais do povo, mantendo-o assim na marginalidade e no
pauperismo, ela é quem  devia responder pelo descalabro nacional.
Concordavam ambas as correntes, tanto a marxista como a histórico-
estruturalista,   que o avanço do capitalismo condenava o país a
estagnação e as massas à miséria.

A solução que apresentavam então, superadora do subdesenvolvimento, 


dividia-se entre a esperança da eclosão de uma Revolução Socialista, no
caso dos marxistas,  ou a alternativa reformista por meio da
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implementação da Política da Substituição das Importações, doutrina  de


origem cepalina ( da CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina),
que somente podia ser levada a diante pelo Populismo devido a sua
inclinação dirigista e intervencionista. Para eles, o avanço do capitalismo
desenvolvia o subdesenvolvimento.

A burocracia e o patrimonialismo

Ainda no quadro das explicações estruturais das razões  do


subdesenvolvimento brasileiro vale recordar a obra de Raimundo Faoro (
Os Donos do Poder, 1958). Livro que tornou-se um clássico da sociologia
política brasileira. Faoro, fortemente inspirado pelas teorias de Max
Weber,   por igual, apontou sua acusação para cima, mas não para a
mesma direção dos marxistas ou dos nacional-populistas. A
responsabilidade pelo subdesenvolvimento, deduz-se da tese de Faoro,  é
do aparelhamento burocrático,   herdeiro da  administração colonial
portuguesa. Trata-se do domínio de uma casta de altos funcionários
aliada ao patronato político cujos interesses comuns  formam  uma
associação parasitária. Juntos compõem uma rede que espalhada pelo
país, extrai dele tudo o que pode.

Adonando-se dos principais postos e dos mais relevantes cargos da


engrenagem administrativa e política do país, exercem eles um poder
extraordinário que lhes permite acumular enormes fortunas, pois além
de exaurir os excedentes nacionais,  ela entende a coisa pública como
extensão do seu patrimônio pessoal. Colocados habilmente fora do
controle geral da sociedade ou imune a ele, multiplicam sem cessar as
benesses e os favores que acreditam ter direito.

Esta verdadeira máquina político-administrativa controlada pelo


estamento burocrático (que tem a nação sob tutela),  ocupa o lugar , no
entender de Faoro, que  outrora fora o da antiga nobreza parasitária que
cercava as cortes européias, vivendo ao abrigo  dos reis. Trata-se de um
tubaronato que, imune ao controle popular ou democrático,  “ floresce e
engorda”,... “acumulando fortunas devidas ao favor”. O escritor Lima
Barreto por igual já havia denunciado o fenômeno segundo o qual “Não
há homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes
ocupando cargos do Estado: não há lá ( em Os Bruzundangas, 1922)
políticos influentes que não se julguem com o direito a deixar para os
seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro
da República”.  Donde se deduz que  o caminho do rompimento final com
o subdesenvolvimento se daria com a ruptura da tutela excercida pelo
poder estamental-burocrático , no mais amplo sentido da palavra,  sobre
a totalidade da nação brasileira.

Especial para Terra

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caioau  •  2 horas atrás
Sem falar que por aqui prosperaram muitas ideias marxistas, principalmente nos
governos LULA, DILMA e FHC. O marxismo tropical previa que todos fossem iguais
na miséria, a exemplo de Cuba, e também previa a igualdade na mediocridade em
termos de desempenho. Isso tudo, aliado à preguiça e ao gosto pela corrupção e a
levar vantagens indevidas, nos levou ao ápice da vigarice nos governos LULA E
DILMA.
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