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1 SÉRIE
ENSINO MÉDIO
Caderno do Professor
Volume 1

GEOGRAFIA
Ciências Humanas
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
SECRETARIA DA EDUCAÇÃO

MATERIAL DE APOIO AO
CURRÍCULO DO ESTADO DE SÃO PAULO
CADERNO DO PROFESSOR

GEOGRAFIA
ENSINO MÉDIO
1a SÉRIE
VOLUME 1

Nova edição

2014 - 2017

São Paulo
Governo do Estado de São Paulo
Governador
Geraldo Alckmin
Vice-Governador
Guilherme Afif Domingos
Secretário da Educação
Herman Voorwald
Secretário-Adjunto
João Cardoso Palma Filho
Chefe de Gabinete
Fernando Padula Novaes
Subsecretária de Articulação Regional
Rosania Morales Morroni
Coordenadora da Escola de Formação e
Aperfeiçoamento dos Professores – EFAP
Silvia Andrade da Cunha Galletta
Coordenadora de Gestão da
Educação Básica
Maria Elizabete da Costa
Coordenadora de Gestão de
Recursos Humanos
Cleide Bauab Eid Bochixio
Coordenadora de Informação,
Monitoramento e Avaliação
Educacional
Ione Cristina Ribeiro de Assunção
Coordenadora de Infraestrutura e
Serviços Escolares
Ana Leonor Sala Alonso
Coordenadora de Orçamento e
Finanças
Claudia Chiaroni Afuso
Presidente da Fundação para o
Desenvolvimento da Educação – FDE
Barjas Negri
Senhoras e senhores docentes,

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo sente-se honrada em tê-los como colabo-
radores nesta nova edição do Caderno do Professor, realizada a partir dos estudos e análises que
permitiram consolidar a articulação do currículo proposto com aquele em ação nas salas de aula
de todo o Estado de São Paulo. Para isso, o trabalho realizado em parceria com os PCNP e com
os professores da rede de ensino tem sido basal para o aprofundamento analítico e crítico da abor-
dagem dos materiais de apoio ao currículo. Essa ação, efetivada por meio do programa Educação
— Compromisso de São Paulo, é de fundamental importância para a Pasta, que despende, neste
programa, seus maiores esforços ao intensificar ações de avaliação e monitoramento da utilização
dos diferentes materiais de apoio à implementação do currículo e ao empregar o Caderno nas ações
de formação de professores e gestores da rede de ensino. Além disso, firma seu dever com a busca
por uma educação paulista de qualidade ao promover estudos sobre os impactos gerados pelo uso
do material do São Paulo Faz Escola nos resultados da rede, por meio do Saresp e do Ideb.

Enfim, o Caderno do Professor, criado pelo programa São Paulo Faz Escola, apresenta orien-
tações didático-pedagógicas e traz como base o conteúdo do Currículo Oficial do Estado de São
Paulo, que pode ser utilizado como complemento à Matriz Curricular. Observem que as atividades
ora propostas podem ser complementadas por outras que julgarem pertinentes ou necessárias,
dependendo do seu planejamento e da adequação da proposta de ensino deste material à realidade
da sua escola e de seus alunos. O Caderno tem a proposição de apoiá-los no planejamento de suas
aulas para que explorem em seus alunos as competências e habilidades necessárias que comportam
a construção do saber e a apropriação dos conteúdos das disciplinas, além de permitir uma avalia-
ção constante, por parte dos docentes, das práticas metodológicas em sala de aula, objetivando a
diversificação do ensino e a melhoria da qualidade do fazer pedagógico.

Revigoram-se assim os esforços desta Secretaria no sentido de apoiá-los e mobilizá-los em seu


trabalho e esperamos que o Caderno, ora apresentado, contribua para valorizar o ofício de ensinar
e elevar nossos discentes à categoria de protagonistas de sua história.

Contamos com nosso Magistério para a efetiva, contínua e renovada implementação do currículo.

Bom trabalho!

Herman Voorwald
Secretário da Educação do Estado de São Paulo
SUMÁRIO
Orientação sobre os conteúdos do volume 5

Situações de Aprendizagem 12

Situação de Aprendizagem 1 – Os elementos que constituem os mapas: os recursos,


as escolhas e os interesses 12

Situação de Aprendizagem 2 – O sensoriamento remoto: a democratização das


informações 36

Situação de Aprendizagem 3 – Geopolítica: o papel dos Estados Unidos e a nova


“desordem” mundial 45

Situação de Aprendizagem 4 – Os deserdados na nova ordem mundial: as


perspectivas de ordem mundial solidária 66

Situação de Aprendizagem 5 – A mudança das distâncias geográficas e os processos


migratórios 74

Situação de Aprendizagem 6 – A globalização e as redes geográficas 86

Situação de Aprendizagem 7 – Os grandes fluxos do comércio mundial e a


construção de uma malha global 104

Situação de Aprendizagem 8 – Regulamentar os fluxos econômicos na escala


mundial: é possível encontrar um bem comum? 112

Propostas de Situações de Recuperação 122

Recursos para ampliar a perspectiva do professor e do aluno para a compreensão


do tema 126

Considerações finais 130

Quadro de conteúdos do Ensino Médio 132

Gabarito 133
Geografia – 1ª série – Volume 1

ORIENTAÇÃO SOBRE OS CONTEÚDOS DO VOLUME


(Edgar Morin) do holograma, no qual cada pon-
O mundo torna-se cada vez mais um todo. to contém a informação do todo do qual faz parte
Cada parte do mundo faz, mais e mais, par- e o todo só existe em função das partes.
te do mundo e o mundo, como um todo, está
cada vez mais presente em cada uma das par- Para nós, professores de Geografia, a Carto-
tes. Isto se verifica não apenas para as nações grafia deve ser tida como uma linguagem indis-
e povos, mas para os indivíduos. Assim como pensável, que propicia um acesso importante às
cada ponto de um holograma contém a in- realidades espaciais. Antes de tudo, porque ela
formação do todo do qual faz parte, também mesma é uma linguagem espacial, que comunica
doravante, cada indivíduo recebe e consome no espaço de uma folha, como imagem que se
informações e substâncias oriundas de todo o vê. E justamente o que se representa por meio
universo. dela é o espaço geográfico. É por meio desse ins-
trumento de observação do mundo que pode-
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educa-
ção do futuro. São Paulo: Cortez, 2006. p. 67. mos sintetizar informações, notar a distribuição
dos objetos geográficos (naturais e humanos) e
de fenômenos sociais espacializados, bem como
Prezado(a) professor(a), apreender quais são as lógicas espaciais presen-
tes nas relações que eles estabelecem.
Escolhemos, para iniciar a apresentação
deste Caderno, a mesma epígrafe que Este Caderno também tratará das relações
acompanha o texto de abertura da Proposta que, no mundo contemporâneo, os países
Curricular de Ciências Humanas, documento mantêm entre si. Essas relações são criadoras
que orienta este trabalho. de um campo internacional, de um espaço in-
ternacional, cujo funcionamento é expresso
Nossa intenção foi a de exprimir com clareza por uma ordem, uma ordem mundial, coman-
a importância da Geografia e, conjuntamente, dada por países que têm o poder de influenciar
da Cartografia, um dos conteúdos deste Cader- e controlá-la de acordo com seus interesses.
no, em um mundo que se torna “cada vez mais Aliás, é esse o resultado prático de uma ação
um todo”. A Cartografia é um instrumento fun- que visa a realizar interesses próprios, o que é
damental para o conhecimento geográfico, tan- a própria natureza da geopolítica. Por isso, é
to ao considerar a totalidade como as partes que possível referir-se à ordem mundial como uma
a compõem. Portanto, o seu estudo representa ordem geopolítica mundial, cuja hegemonia é
com propriedade a metáfora usada pelo autor de algumas poucas potências.

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Desde a 8a série/9o ano, os conteúdos curri- econômicos (que são sociais), agora não res-
culares previstos abordam uma nova realidade ta mais dúvida de que esse “palco” congrega
que envolve nossas vidas, cada vez mais presen- atores responsáveis pelo protagonismo da pri-
te em nosso cotidiano, estruturando-o, e que se meira linha dos acontecimentos, em especial
desenha bem à frente dos nossos olhos. Trata-se porque estão construindo um mundo de fato,
da construção do mundo contemporâneo. Um produto de uma conexão geográfica que colo-
mundo que somente existia como expressão re- ca em contato diversas realidades que estão se
tórica de discurso, mas não tinha concretude de transformando em uma só.
fato. O que se chamava de mundo era uma co-
leção de realidades geográficas fragmentadas, E qual será o futuro dessa realidade, da
com um número restrito de relações desco- realidade de quase todos no futuro? No mo-
nexas em sua maioria, que pouco se influen- mento, ela é ainda plena de desigualdades
ciavam em seu desenvolvimento. Mas essa inaceitáveis e de injustiças. É importante que
realidade mudou, e as diversas realidades isso seja entendido de maneira detalhada e
estão se conectando. Uma dimensão global profunda. A Geografia pode contribuir para
vem se constituindo e, para ela ser compre- isso, não somente como ciência acadêmica,
endida em seu funcionamento e em suas mas também como saber escolar que ajuda na
consequências, é preciso mobilizar novos construção de um repertório crítico necessá-
recursos intelectuais. Essa é uma oportuni- rio para a formação dos estudantes e para sua
dade rara para se revalorizar a Geografia no emancipação como cidadãos verdadeiros.
ambiente escolar.
Se a conclusão da 8a série /9o ano do Ensino
Seguramente, essa disciplina tem potencial Fundamental foi um momento muito impor-
para descrever, explicar, compreender e interpre- tante na vida do aluno, porque representou a
tar de forma crítica essa construção de mundo. finalização de uma etapa de vida, o ingresso
É necessário, porém, atualizar seus saberes e na 1a série do Ensino Médio deve ser consi-
suas práticas. Não se trata de negar o passado derado tão importante quanto, já que repre-
da disciplina, mas de entender que o presente e senta uma iniciação para uma nova etapa na
o futuro que se anunciam exigem mudanças. Os vida desses jovens. É provável que esses alunos
fenômenos da globalização são também fenô- carreguem consigo as típicas inquietações re-
menos geográficos, e não apenas econômicos. sultantes do contato com o novo e, com elas,
as esperanças diante do que há de vir.
Os conteúdos que serão tratados neste
Caderno mostram sua presença e sua impor- Da mesma forma, para o professor, o início
tância decisiva na construção do mundo. Se dos trabalhos com a nova turma representa um
já se aceitava que o espaço geográfico não era dos momentos mais importantes do ano, pois
um mero palco dos acontecimentos sociais e caberá a ele estabelecer a ponte que fará que

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Geografia – 1ª série – Volume 1

esses jovens canalizem suas ansiedades e in- de mapas causa efeitos colaterais. Apesar de
quietações em busca de novos conhecimentos atualmente termos mais mapas disponíveis,
e desafios. Ao compreender os sentimentos e as uma parte considerável traz problemas sérios
sensações da nova turma e ao acolhê-los afeti- em sua linguagem, dificultando a sua assimi-
vamente para uma jornada inédita, o professor lação e gerando “falsas” informações. O ris-
desencadeará a formação dos vínculos impres- co de usá-los sem crítica é grave e, no ensino
cindíveis e necessários para conduzir com êxito de Geografia, deve-se zelar pela correção da
o processo de ensino-aprendizagem. informação cartográfica.

Como habilidades complementares, se-


Conhecimentos priorizados rão trabalhadas as formas de entendimento e
representação do espaço que têm origem no
Na primeira parte deste Caderno, propo- sensoriamento remoto. Vale salientar que sen-
mos o trabalho com os principais conceitos sor remoto é qualquer tecnologia que consegue
e habilidades relacionados à Cartografia. apreender o espaço a distância. A rigor, nosso
Antes de tudo, o enfoque levará em conside- olho é um sensor remoto, pois apreende carac-
ração os elementos fundamentais de cons- terísticas dos objetos sem ter contato com eles.
trução do mapa: projeção, escala, métrica O sensoriamento remoto é uma ampliação do
e linguagem. O objetivo de mostrar os ele- nosso olho. Fotografias aéreas, radares e saté-
mentos que compõem um mapa é justamen- lites são sensores remotos que nos fornecem
te deixar claro seu caráter de representação. imagens diversas sobre o espaço geográfico. Os
O mapa é uma criação que representa a rea- avanços tecnológicos nessa área são grandes e
lidade, mas não é a reprodução da realidade cada vez mais se usam as informações obtidas
nem pode ser. Ele é um meio para se ter aces- por esses sensores para produzir mapas.
so a dimensões da realidade.
Interpretar mapas e conhecer as imagens re-
Na produção de um mapa, várias opções motas, assim como ter noção de como se reali-
e recursos estão disponíveis. Hoje, com os zam as produções cartográficas, estão entre as
recursos da Cartografia automática, a pro- mais importantes competências construídas
dução de mapas ficou mais rápida. A pos- por intermédio da Geografia.
sibilidade de processamento de uma grande
quantidade de dados e sua tradução, pelos As atividades que serão desenvolvidas
computadores, em uma forma de apreen- relativas à Cartografia e ao sensoriamento
são visual, é uma realidade. A produção de remoto serão baseadas em representações uti-
mapas ficou mais popularizada e acessível a lizadas e bem conhecidas: um mapa sobre as
diversos profissionais e diversas disciplinas grandes aglomerações urbanas do mundo e uma
científicas. Mas essa velocidade de produção imagem de satélite do planeta à noite.

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No caso da atividade de Cartografia, ao As Situações de Aprendizagem procuram
explorar o que o mapa comunica, como or- revelar as estruturas geográficas da chamada
ganiza e expressa suas informações, todos os globalização. Para que ela se dê, há uma base
elementos constituintes do mapa serão expli- geográfica, feita de redes geográficas que aceleram
citados e ampliados, com especial destaque à as relações sociais de todos os tipos, tanto os flu-
questão das projeções cartográficas. Posterior- xos materiais (pessoas, objetos diversos e merca-
mente, será a vez do sensoriamento remoto. dorias), quanto os fluxos imateriais (informações
Vamos propor a comparação de uma imagem culturais, administrativas, financeiras, políticas).
de satélite com o mapa. Ao notar suas pecu-
liaridades, o caminho estará aberto para que Essa base geográfica não está disponível para
se explorem a diversidade e a complexidade todos. Ela está sob controle de um grupo seleto,
dos meios de sensoriamento remoto. Quais e, para explicitar essa situação, as primeiras Si-
são suas possibilidades? O que eles nos dão tuações de Aprendizagem vão discutir o papel
de informações diferentes? Que serviços pres- das corporações transnacionais como artífices
tam? A que poderes e interesses podem aten- da globalização, muito em razão do poder de
der? São acessíveis ao cidadão comum? criar e controlar redes geográficas. O entendi-
mento dessa lógica é essencial para que o discur-
Após o tema da Cartografia e do senso- so sobre a globalização não seja apenas retórico.
riamento remoto, as atividades seguintes têm
como objetivo discutir a ordem mundial cons- Como ferramentas de trabalho, enfatizam-se
truída especialmente pela ação geopolítica dos as habilidades de interpretar e de reconhecer ma-
países que são potências, cuja força geográfica pas. Esse instrumento contribui para o desenvol-
faz do mundo sua extensão territorial, em al- vimento de uma competência-chave trabalhada
guma medida. Atenção especial será dada à pelo conjunto das Situações de Aprendizagem:
única superpotência, os Estados Unidos, gra- relacionar processos e realidades espaciais dife-
ças ao seu papel nesse sistema mundial. rentes, mas que, sem dúvida, estão conectados
sob uma lógica que é possível de ser, ao menos
Outros desdobramentos dessa ordem mun- em alguma medida, apreendida.
dial, como conflitos regionais que assolam
várias regiões e povos do mundo, serão igual- Nas Situações de Aprendizagem 3 e 4, a ên-
mente objeto de discussão. Até quando as fase recai sobre a economia na globalização.
relações internacionais serão orientadas pela
geopolítica? Que futuro há para as possibili- Os conhecimentos priorizados dizem res-
dades de uma governança mundial, visando a peito especialmente ao peso extraordinário
algo que vá em direção a um bem comum, que que as atividades econômicas desenvolvidas
se contraponha à geopolítica? Essas são tam- na escala mundial vêm adquirindo. Eles tam-
bém questões que as atividades explorarão. bém refletem o fato de que o avanço de uma

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Geografia – 1ª série – Volume 1

economia globalizada não ocorre de forma 1. O fundo do mapa: projeção, escala e


harmoniosa, mas, muito pelo contrário, se métricas;
dá potencializando conflitos em relação aos
interesses nacionais, oprimindo, por vezes, 2. A linguagem.
os atores mais frágeis nessa ordem mundial.
Destaca-se também a complexidade de uma f Dominar a “gramática” da linguagem vi-
situação que, de certo modo, é inédita para a sual, utilizando recursos gráficos de quali-
humanidade. ficação, de quantificação e de ordenação,
que são fundamentais na construção da
O objetivo é buscar uma compreensão que imagem cartográfica.
se torna possível com o exercício sempre neces- f Dominar a leitura para além da superfície
sário de saber se colocar no lugar dos outros, do texto, exercitando a identificação das
uma competência fundamental para o desenvol- chaves de interpretação, identificando li-
vimento intelectual. Do mesmo modo que nas nhas de raciocínio.
primeiras Situações de Aprendizagem, as habi- f Saber ver e interpretar um mapa temá-
lidades de interpretação de mapas serão priori- tico, procedendo a classificações, esta-
zadas, assim como as de interpretação de textos. belecendo relações e comparações em
diferentes projeções cartográficas e es-
Competências e habilidades calas geográficas.
f Construir e aplicar conceitos com base na
Espera-se que, diante dos desafios cog- abordagem geográfica, tais como fluxos e
nitivos desencadeados durante a realização redes geográficas, para compreender fe-
das atividades, os alunos sejam capazes de nômenos contemporâneos próprios e as-
construir e desenvolver as seguintes compe- sociados ao processo de globalização das
tências e habilidades: relações humanas.
f Observar fatos, situações, fenômenos e
f Construir e aplicar conceitos relativos à lugares representativos do mundo glo-
Cartografia e à geopolítica, fazendo uso da balizado, identificando suas possibilida-
linguagem visual e de outros meios de aces- des de tratamento cartográfico, ou seja,
so e interpretação da realidade. perceber uma lógica espacial visualmente
f Compreender o caráter de representação apreensível, mesmo que o fenômeno não
da Cartografia e das imagens do senso- tenha expressão visual em si (por exem-
riamento remoto; formas de acesso e de plo, taxas de analfabetismo).
interpretação da realidade que não são f Selecionar, organizar, relacionar e inter-
cópias da realidade. pretar dados e informações, representa-
f Ter uma visão “desconstruída” de um mapa, dos de diferentes formas (visualmente
segundo os elementos que o compõem: ou em texto), para construir visões de

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mundo e refletir sobre soluções de pro- Metodologias e estratégias
blemas fundamentais do mundo con-
temporâneo. Os conteúdos deste Caderno referem-se
f Identificar, compreender e explicar rela- aos processos de construção de um mundo, de
ções de causa e efeito e de outros tipos, que um mundo conectado, de uma realidade com-
permitam descrever as inúmeras formas plexa a ser ainda apreendida. Referem-se à
que configuram o exercício do poder por globalização e aos processos e suportes que a
parte das nações hegemônicas. engendram. As visões dominantes sobre a rea-
f Construir argumentações consistentes a lidade, até então, eram visões fragmentadas de
respeito de situações, fatos e problemas realidades próprias e separadas.
apresentados, assim como distinguir os
pontos de vista defendidos nos textos. Se esses fragmentos (geográficos) agora se
f Compreender a ordem mundial reinante e o fundem em direção a uma totalidade coerente,
papel da geopolítica e das potências como é preciso exercitar discursos de conjunto, vi-
mantenedoras desse sistema mundial. sões de conjunto que busquem assimilar essa
f Discutir as perspectivas de superação construção. Em razão disso, a metodologia e
da ordem geopolítica e a construção de as estratégias adotadas apresentam, em pri-
um bem comum mundial, em direção a meiro lugar, essas visões de conjunto de um
uma governança mundial, que sirva para mundo que se globaliza.
debelar com mais eficiência conflitos re-
gionais e outras tragédias que assolam E a Cartografia mostra-se, nesse sentido,
vários povos do mundo. um recurso estratégico. Mas não uma Carto-
f Construir visões sobre realidades distintas, grafia de localizações, ajustada mais ao passa-
identificando conexões, coerências e diver- do, e sim uma Cartografia de relações – afinal,
gências. são as relações que constroem esse mundo.
f Aplicar o método da compreensão como Outros recursos, como textos e aulas dialó-
meio de se colocar no lugar do outro, para gicas, serão adotados como suportes meto-
interpretar realidades que colocam interes- dológicos. Por meio deles serão mobilizados
ses distintos em confronto. instrumentos conceituais próprios para a in-
f Aplicar e exercitar o método da abstração terpretação de relações, conexões, realidades e
como meio de imaginar situações hipoté- interesses diferentes em contato.
ticas para o aperfeiçoamento dos raciocí-
nios, visando uma posterior aplicação em Redes e conexões como base geográfica da
realidades concretas. globalização são o pano de fundo da aceleração

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Geografia – 1ª série – Volume 1

de fluxos, da intensificação do comércio mun- estudantes durante o desenvolvimento das ativi-


dial e da criação necessária de instituições e dades individuais ou coletivas, como adequação,
organismos globais. Esses são os conteúdos organização, envolvimento, senso de responsa-
fundamentais que orientam as Situações de bilidade e espírito de cooperação.
Aprendizagem deste Caderno.
Os relatórios sobre as atividades individuais e
A elaboração de atividades coletivas de coletivas, as interpretações de textos, de mapas,
pesquisa é igualmente importante para a de gráficos e de filmes são também itens impor-
aprendizagem de todos os tipos de conteúdos. tantes na avaliação do professor. Com eles, po-
No trabalho coletivo pratica-se uma interação dem ser avaliadas as capacidades interpretativa,
que possibilita o aprofundamento da coo- argumentativa, leitora e escritora dos alunos.
peração (que inclui a divisão de tarefas), do
respeito aos ritmos diferentes dos outros pro- A realização de provas e exercícios, com
cedimentos que impulsionam formas avan- questões abertas e de múltipla escolha, deve ser
çadas de sociabilidade. Devemos considerar considerada peça importante do processo ensi-
também que a atividade coletiva favorece o no-aprendizagem. Nesse momento o professor
aprendizado das metodologias necessárias à conseguirá perceber em que medida, para cada
execução de trabalhos científicos, vivência im- um dos alunos, os conteúdos desenvolvidos fize-
portante para a construção do conhecimento. ram diferença, e o que deverá ser retomado ou re-
direcionado para atingir os objetivos propostos.
Avaliação
Além disso, sugerimos que os alunos se-
A participação dos alunos deve se constituir jam convidados a elaborar sua autoavaliação,
em item-chave de avaliação. Ela integra a apren- momento de grande densidade educativa,
dizagem de diversas habilidades, tais como a pois permite a cada estudante aprimorar sua
participação oral, que permite ao professor ava- capacidade de autoconhecimento e de rede-
liar a capacidade de verbalização e argumenta- finição de caminhos, em decorrência de suas
ção de cada aluno, assim como as atitudes dos potencialidades e limites.

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SITUAÇÕES DE APRENDIZAGEM
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1
OS ELEMENTOS QUE CONSTITUEM OS MAPAS:
OS RECURSOS, AS ESCOLHAS E OS INTERESSES
Dominar os meios pelos quais os mapas cias relacionadas à leitura e interpretação de
são construídos, ter consciência sobre o que mapas temáticos.
se quer comunicar, sobre os recursos que eles É importante destacar que, neste momen-
nos oferecem para interpretarmos as realida- to, a Cartografia acentua seu significado geo-
des espaciais e sociais, sobre o que se preten- político, pois se ela sempre representou uma
das formas utilizadas para construir, reconhe-
de com eles e a que interesses podem atender
cer, conquistar e estabelecer o poder sobre o
são objetivos almejados nesta Situação de
território, atualmente, com os novos recursos
Aprendizagem. Espera-se contribuir na cons- existentes, isso continua a ser feito, como a
trução e no desenvolvimento de competên- realidade não cansa de demonstrar.

Conteúdos: o fundo do mapa (projeção, escala e métrica); a linguagem cartográfica (meios gráficos para
qualificar, quantificar e ordenar).

Competências e habilidades: saber ver e interpretar um mapa temático procedendo a classificações, estabelecen-
do relações e comparações em diferentes projeções cartográficas e escalas geográficas; relacionar a construção
dos mapas às suas intencionalidades e discutir a influência da Cartografia como um instrumento de poder.

Sugestão de estratégias: aulas expositivas; apresentação dos objetivos da atividade e problematização dos
conteúdos; atividades coletivas para reforçar o contato com o mundo dos mapas; atividades coletivas (em
grupo) para o exercício de aplicação dos conhecimentos extraídos da “desconstrução” do mapa.

Sugestão de recursos: uso de mapas; aproveitamento do material didático adotado.

Sugestão de avaliação: participação nos trabalhos coletivos; realização de exercícios com base em
questões abertas.

Etapa prévia – Sondagem inicial e


sensibilização
máticos e inéditos, com rapidez. A incrível dispo-
Os mapas congestionam nossas retinas. Os nibilidade de dados estatísticos é outro fator que
meios para fazê-los atualmente estão acessíveis a favorece a produção constante de mapas. Assim,
muitas pessoas, e não somente aos profissionais não há meio de comunicação que não apresente
cartógrafos. Todas as redações de jornal, revista aos olhos de seus leitores e telespectadores, dia-
e televisão têm meios para produzir mapas auto- riamente, mapas e mais mapas.
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Geografia – 1ª série – Volume 1

Leitura e análise de mapa Com suas próprias palavras, eles devem relatar o que está repre-
sentado nos mapas, ou seja, o fenômeno geográfico exposto.
Que tal, então, basear-se nessa realidade para
iniciar essa atividade? O professor poderia recolher b) Qual é a situação geográfica do(s) fenô-
vários mapas publicados na imprensa, sem preo- meno(s) representado(s) no mapa?
cupação quanto à qualidade e aos temas. O que Exprimir a situação geográfica significa mencionar a distribui-
importa é uma amostra do que realmente existe ção geográfica do fenômeno: onde ele se concentra, onde se
e não uma seleção. Em seguida, a classe poderia dispersa e perde densidade. Por exemplo: onde há maior con-
ser dividida em grupos, sendo que cada um deles centração de pessoas (cidades) ou de formações vegetais, áreas
receberia um mapa. O objetivo é saber, sem orien- com pouca população, altitudes mais ou menos elevadas etc.
tação precedente, o que esses mapas comunicam
aos alunos. Eles vão discutir, entrar em acordo e c) Você sabia que vários mapas publicados
relatar, por escrito, o que conseguiram apreender. em jornais e revistas (e também em livros
didáticos e atlas geográficos escolares) po-
Esse material será precioso. Servirá como um dem conter erros cartográficos (erros de
instrumento de diagnóstico e como motivo para linguagem)? Você acha que o mapa exa-
algumas problematizações que o professor poderá minado por você tem erros? Justifique.
discutir com os estudantes. Isso pode ser estimula- Nesta questão, os alunos devem se manifestar livremente. Di-
do, por exemplo, por meio de uma afirmação pro- ficilmente eles dirão que há erros nos mapas, mas vale a pena
vocativa: Vocês sabiam que boa parte desses mapas conversar sobre essa questão. É importante dessacralizar o ma-
que vocês viram, e que lhes comunicou algo, está terial impresso: textos e mapas de jornais, revistas e livros podem
errada? Que geram visões problemáticas, ou não ser bons ou ruins, assim como podem conter erros; além disso,
transmitem nada? E isso é comprovado, visto que os mapas disponíveis na imprensa, muitas vezes, vão comunicar
os autores dessa avalanche de mapas são pessoas a informação com base nos interesses de alguém. Por isso, eles
que, em sua maioria, entendem do programa de podem distorcer ou até mesmo subtrair informações. Vale dizer
computador que faz o mapa, mas não conhecem aos alunos que, se o mapa não tem comunicação clara e ime-
a linguagem gráfica e a Cartografia. diata, pode ter problemas para ser lido e compreendido.

1. Os alunos precisam examinar o mapa pre- Antes de avançar para o próximo exercício,
viamente selecionado sem orientação al- sugerimos que alguns conceitos de cartografia
guma e sem ler a legenda e o título. Em se- temática sejam expostos.
guida, eles deverão responder às seguintes
questões, no Caderno do Aluno. Se quisermos mostrar a distribuição geo-
gráfica de um fenômeno, digamos, o índice de
a) O que o mapa está representando (por alfabetização por município no Estado de São
exemplo: distribuição da população, de Paulo, por meio de tonalidades do preto para
cidades, de escolas em um país, da vege- o branco (passando por vários tons de cinza),
tação, altitudes do relevo etc.)? escolheríamos, para mostrar os maiores índices
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de alfabetização, o tom mais escuro ou o mais que salte aos olhos os lugares nos quais essa si-
claro? Ou ainda: escolheríamos qualquer tom e tuação é mais frágil, por isso, nesse caso pode-
indicaríamos na legenda? -se utilizar o tom mais escuro para demonstrar
onde o acesso à esse bem é mais precário.
Quando vemos um mapa que usa tonalida-
des da mesma cor, sem parar para pensar, nossa Para dar continuidade ao exercício de leitura
percepção indica que a tonalidade mais escura e análise de mapa, você pode apresentar o exer-
representa a maior intensidade do fenômeno. cício a seguir, presente no Caderno do Aluno.
Mas é preciso atentar para o que está sendo
mapeado. Por exemplo, em um mapa sobre o 2. Peça aos alunos que analisem o mapa da Fi-
acesso à água potável no mundo, é interessante gura 1 e respondam às seguintes questões:

Expectativa de vida, 2009

Atelier de cartographie de Sciences Po, 2012

47 58 69 75 83 ausência
de dados
método estatístico: médias ajustadas
Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS), www.who.org

Figura 1 – Expectativa de vida, 2009. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível em: <http://cartographie.sciences-po.
fr/fr/expectativa-de-vida-2009>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições
do território não estão representadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico).

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Geografia – 1ª série – Volume 1

a) O que o mapa está representando? Segundo o mapa, na Europa Ocidental há uma elevada ex-
Por meio do uso de tonalidades de verde, o mapa mostra onde as pectativa de vida, enquanto que na maior parte do continente
populações vivem mais. Quanto mais escuro, maior a expectativa africano ela é baixa – ou seja, as pessoas morrem mais cedo.
de vida; quanto mais claro, menor a expectativa de vida. Há situações intermediárias, como na América do Sul. Trata-se
da representação de um indicador de desenvolvimento social.
b) Em quais países/regiões se encontram
as maiores e as menores concentrações c) Esse mapa não tem erros cartográficos.
do fenômeno representado? E as situa- Justifique essa afirmação.
ções intermediárias? Em síntese: o que é Esse mapa não tem erros, não engana nosso olhar, nem é preciso
possível dizer a respeito da expectativa consultar a legenda para perceber uma distribuição geográfica do
de vida no mundo? fenômeno representado, que tem comunicação imediata e clara.

Etapa 1 – Procurando sentir a comunicação imediata de um mapa das grandes


aglomerações urbanas do mundo
Leitura e análise de mapa
Observe o mapa da Figura 2, presente no Caderno do Aluno.

Figura 2 – Evolução das 150 metrópoles mais populosas, 2010. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Mapa original (base cartográfica
com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico).

15
O grande desafio da Cartografia não está mais onde, em seu conjunto, os círculos estão com
em localizar com precisão os fenômenos geo- as tonalidades mais escuras.
gráficos. A localização precisa é algo mais bem
resolvido atualmente com diversos instrumentos É importante que não se dê ao aluno, nem
tecnológicos. O verdadeiro desafio da Cartogra- se cobre dele, informações sobre as grandes
fia é conseguir representar as relações comple- aglomerações do mundo. A ideia é obter tudo
xas travadas entre as sociedades e os objetos no o que for possível da própria imagem.
espaço geográfico. Um dos maiores estudiosos
e elaboradores desse campo de conhecimento, Para trabalhar os conceitos apresentados,
o cartógrafo francês Jacques Bertin (1918-2010), propomos que os alunos respondam às questões
afirmava: o grande desafio a ser enfrentado pela a seguir, presentes no Caderno do Aluno.
Cartografia é o desenvolvimento da linguagem.
1. Os alunos devem, primeiro, visualizar o mapa
A linguagem do mapa da Figura 2 é bem da Figura 2, sem olhar para o título e a legenda.
simples. Ela trabalha com dois elementos grá-
ficos: círculos de diversos tamanhos, cores e a) O que esse mapa está representando?
tonalidades de preenchimento desses mesmos Os alunos podem se expressar do seguinte modo: trata-se de um
círculos. Quanto maior a população da cidade, fenômeno distribuído e representado por círculos de tamanhos
maior o tamanho do círculo; quanto mais escura diferentes que expressam dimensões diferentes de tal fenômeno
a tonalidade do laranja (maior pigmentação) de (os círculos maiores, as maiores quantidades; e os menores, as
preenchimento, mais rapidamente a população menores quantidades). Os círculos possuem tonalidades de laran-
da cidade cresceu nos últimos 20 anos (intervalo ja (ou cores diferentes) que apresentam uma gradação visual da
entre 1990-2010), e se a população diminuiu sua mais escura para a mais clara (indicando maior e menor intensi-
velocidade de crescimento, usou-se o azul. Algo dade do fenômeno), e, também, há círculos azuis marcadamente
de fundamental importância deverá ser propos- distintos, certamente para representar algo bastante diferente. Os
to nesse momento. Por mais que pareça óbvio, alunos podem também inferir sobre o tema da representação, di-
o professor deve lançar uma questão: são os zendo que o mapa destaca os locais onde existe grande concen-
círculos maiores ou os menores que representam tração de pessoas ou, ainda, a localização das grandes cidades etc.
as maiores populações? Por que se fez a opção de
assim representar essa realidade? b) O que representam os círculos? O que sig-
nificam os círculos maiores? E os meno-
Há uma legenda no mapa, mas sua mensa- res? Onde se concentram mais círculos?
gem principal – onde estão as grandes popu- Os círculos representam a população total das grandes aglo-
lações do mundo e onde elas cresceram mais merações urbanas no mundo, em 2010.
rapidamente – não requer sua leitura para ser Círculos maiores, as maiores populações; e círculos menores,
compreendia. Pode-se, antes de tudo, perceber as menores populações. No sul e sudeste asiáticos aglomera-
visualmente onde estão os maiores círculos e -se a maioria dos círculos maiores e, na Europa, concentra-se

16
Geografia – 1ª série – Volume 1

grande quantidade de círculos médios e menores, do mes- observem o ábaco, presente na base do mapa. A metrópole
mo modo que na América do Norte e de certa maneira na de Tóquio possui a maior aglomeração e sua população che-
América do Sul. Na África encontram-se círculos menores ga a 36 milhões, conforme indicado no ábaco.
preenchidos com tonalidades mais escuras. Isso dá um retra- Depois vem as regiões metropolitanas de Mumbai, com apro-
to de um aspecto do fenômeno urbano no mundo. ximadamente 18 milhões de habitantes, e de Délhi, com um
pouco menos de 18 milhões de habitantes, ambas na Índia.
c) O que representam as tonalidades de cor la-
ranja no interior dos círculos? O que signifi- c) Em quais regiões do mundo o fenômeno
ca a tonalidade mais escura? E a mais clara? das grandes aglomerações urbanas é mais
As diferentes tonalidades representam a evolução (e a velocida- representativo? E onde ele é menos repre-
de) do crescimento dessas aglomerações entre 1990-2010. To- sentativo? Com base na análise do mapa,
nalidades mais escuras indicam crescimento maior e mais veloz, o que mais você considera importante co-
e as mais claras, um crescimento menor. O azul representa di- mentar a respeito desse fenômeno?
minuição da aglomeração urbana no período, o que ocorre so- Esse fenômeno é mais representativo na Ásia (notadamente no
mente em alguns casos raros, daí a escolha de uma cor diferente subcontinente indiano, nos países insulares, como Indonésia e
para marcar o contraste com a informação principal do mapa. Filipinas, na China e no Japão). Logo, esse é o segmento conti-
nental que possui as maiores aglomerações do mundo. Por outro
d) Onde há a predominância de círculos com lado, o fenômeno é menos representativo na África e também,
tonalidades de cor laranja mais escuras? de certa forma, na Oceania. Eis dois exemplos característicos:
Em especial, na Ásia (principalmente na Índia, em Bangladesh tno interior das grandes massas continentais, o fenômeno é
e no leste da China) e na África (Nigéria, Costa do Marfim e bem menos representativo do que nas zonas litorâneas, em-
em algumas cidades da África Subsaariana). bora existam exceções;
tnos países comumente indicados como pobres (localiza-
2. Agora, considere também os dados que o dos sobretudo na América Latina e na Ásia – a exceção é Tó-
mapa da Figura 2 apresenta: quio) encontram-se as maiores aglomerações.
É importante que você registre os comentários dos alunos,
a) Quais são as três maiores aglomerações ur- para verificar a pertinência de cada um deles.
banas da América do Sul? Qual delas é a
mais populosa? d) Cite exemplos de grandes aglomerações
As três maiores são: São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. que tiveram crescimento mais rápido
A mais populosa é São Paulo. entre 1990 e 2010.
Esse tipo de crescimento rápido ocorreu em Hong Kong, que
b) Quais são as três maiores aglomerações cresceu mais de 100% neste período, bem como em Délhi
urbanas da Ásia? Qual é a população (Índia) e em Daca (Bangladesh), cujas populações se expan-
absoluta total em 2010 em cada uma diram em mais de 300% entre 1990 e 2010. Lagos, capital da
dessas aglomerações? Nigéria, região centro-oeste africana, é mais um centro ur-
Para responder a essa pergunta, é importante que os alunos bano em que se deu o mesmo fenômeno.

17
3. Esse mapa tem erros cartográficos? Quais? nas interpretações que a Figura 2 possibili-
Você o considera um bom mapa? Justifique. ta, seria pertinente “desconstruir” o mapa,
Esse mapa não tem erros, pois trata-se de um mapa quantita- examinar seus elementos isoladamente, seus
tivo que se utiliza de círculos proporcionais para representar significados e razão de ser, para novamen-
volumes populacionais com precisão, e que também é orde- te construí-lo e prosseguir na ampliação da
nado, pois usa cores ou tonalidades diferentes para represen- percepção.
tar uma ordem. Ele é um bom mapa, pois seu entendimento
é fácil, mas é importante observar que não se deve acrescen- Podemos começar analisando, por exem-
tar, em um exemplo como este, nenhuma outra informação plo, a representação dos países desenvolvi-
visual, uma vez que há um limite, que deve ser respeitado, dos. As aglomerações urbanas de crescimento
das informações que nossa percepção visual pode distinguir. mais lento no período retratado (cujo maior
crescimento pode ter sido anterior) ficam na
4. Qual é o recurso cartográfico utilizado e Europa, no Japão e nos EUA.
como é aplicado para comunicar o tama-
nho das aglomerações urbanas? E qual é Os processos de urbanização europeu
o recurso (e como é usado) para mostrar e estadunidense, assim como o japonês,
velocidades diferentes no crescimento não foram tão velozes nos últimos 25 anos
dessas aglomerações? Você concorda que quanto o de outras partes do planeta. Se-
esses recursos compõem a linguagem do guramente, as cidades dessas localidades já
mapa? Justifique. haviam se expandido com mais intensidade
São usados como recurso cartográfico os círculos proporcio- antes do período representado no mapa. O
nais, que representam volumes populacionais; e tonalidades professor deve chamar a atenção para o se-
diferentes, que mostram diversas velocidades de crescimen- guinte fato: tudo isso pode ser percebido,
to. São recursos de composição de linguagem, porque for- em boa medida, sem consultar a legenda,
mam imagens com relações diretas: maiores círculos, maio- que, aliás, poderia ser consultada depois.
res populações; tonalidades mais escuras, maior velocidade Essa é a força da imagem bem trabalhada
de crescimento (mais pigmentação, mais intensidade do em um mapa.
fenômeno representado), o que gera compreensão única,
impedindo que se faça outro tipo de relação. Espera-se que A Figura 2 oferece também a possibi-
os alunos concordem com a afirmação de que os recursos lidade de perceber imediatamente a dis-
apresentados compõem a linguagem do mapa e comuni- tribuição geográfica pela imagem que se
cam a informação pretendida. forma. Dito de outra maneira: dá-nos de
imediato uma visão espacializada da urba-
Sugerimos que se recorra sempre ao mapa nização no mundo.
para explicitar as conclusões expressas pe-
los alunos. A seguir, antes de continuar se Muitas outras observações podem ainda
aprofundando nas informações fornecidas e ser feitas a respeito da urbanização mundial

18
Geografia – 1ª série – Volume 1

tendo como ponto de partida esse mapa, sentar movimentos. Pode fazer isso trabalhando
mas o objetivo aqui é outro: pretendemos a lógica com coerência e a força da imagem para
chamar a atenção para o fato de que esse evitar erros cartográficos.
mapa mostra quantidades (tamanho das
aglomerações) e ordena as velocidades de Etapa 2 – A escala, a projeção e a
crescimento dessas aglomerações. métrica

Assim, conclui-se que os mapas podem re- Os mapas podem ser feitos de diversas ma-
presentar o caráter quantitativo dos fenômenos neiras. Há problemas e há escolhas geométri-
e o caráter ordenado dos fenômenos geográfi- cas. Melhor que escrever sobre isso é mostrar,
cos, no caso exemplificado das aglomerações ur- é ver. Observe as Figuras 3, 4, 5 e 6, presentes
banas. Mas a Cartografia se limita a isso? Não, do Caderno do Aluno, na seção Leitura e aná-
ela também pode distinguir fenômenos e repre- lise de mapa.

Projeção de Mercator

Projeção Mercator

0 2 000 km
Escala no Equador:

Figura 3 – Projeção de Mercator. Planisphère, projection “Mercator”, 2011. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível em:
<http://cartographie.sciences-po.fr/fr/planisph-re-projection-mercator-2011>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica
com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem indicação de norte geográfico).

19
Projeção de Peters

Figura 4 – Projeção de Peters. Carlos A. Furuti. Disponível em: <http://www.progonos.com/furuti/MapProj/Normal/ProjCyl/


ProjCEA/>. Acesso em: 23 jul. 2013. Mapa original (sem escala; sem indicação de norte geográfico).

Projeção de Bertin, 1950

Figura 5 – Projeção de Bertin. Planisphère, projection “Bertin1950”, 2011. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível
em: <http://cartographie.sciences-po.fr/fr/planisph-re-projection-bertin1950-2011>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original
(base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem escala; sem indi-
cação de norte geográfico).

20
Geografia – 1ª série – Volume 1

Projeção de Buckminster Fuller

Figura 6 – Projeção de Buckminster Fuller. Planisphère, projection “Buckminster Fuller”, 2011. Atelier de Cartographie de Sciences
Po. Disponível em: <http://cartographie.sciences-po.fr/fr/planisph-re-projection-buckminster-fuller-2011>. Acesso em: 5 nov. 2013.
Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe).

Eis um bom momento para mostrar o que é representam a extensão do planeta que foram
uma representação e como um mapa é uma criação. reduzidos 23 milhões de vezes com relação à
extensão verdadeira do planeta.
Um primeiro destaque, por intermédio de
uma interrogação, pode ser feito aos alunos: Os f Em um mapa-múndi, produto de uma redução
mapas, a folha de papel, são também espaços? É tão grande (alguns mapas, por exemplo, são 23
evidente que são, pois há neles relações de dis- milhões de vezes menores que a Terra), é possí-
tância. Embora sejam pequeníssimos, nas figuras vel representar o espaço interno de uma cida-
não estão representados os blocos continentais e os de? Mostrar suas ruas e avenidas, por exemplo?
oceanos do planeta? Quais as conclusões que po- f Nesse momento, o professor pode estar com
dem ser tiradas desses dois fatos assinalados? Elas um mapa-múndi exposto na sala, ou indicar
são óbvias, mas extremamente necessárias para a outro, em que apareçam representações de ci-
garantia da organização do pensamento. dades. E os alunos verão que, em mapas assim
tão reduzidos, as cidades somente podem apa-
Os mapas são espaços muitíssimo meno- recer como pontos e nada mais.
res que o espaço das realidades representadas. f E o que seria preciso fazer para poder
Eles são reduzidos várias vezes e esse fator de representar internamente uma cidade?
redução, como os estudantes devem saber, é Reduzir bem menos, digamos, apenas 10
a escala cartográfica. Exemplo: há mapas que mil vezes.
21
Se for preciso representar um grande espa- tar dois dados numéricos que irão se chocar
ço, será necessário reduzi-lo muitas vezes para com a imagem do mapa-múndi de Mercator
que ele caiba em um mapa. Nesse caso, será (Figura 3):
difícil representar detalhes. O inverso é ver-
dadeiro também: pequenos espaços exigem f América do Sul:
menor redução para constituir um mapa, per- extensão territorial ĺ 17 819 000 km2
mitindo a representação de detalhes. f Groenlândia:
extensão territorial ĺ 2 175 597 km2
Logo, um elemento essencial de qualquer
mapa é a escala cartográfica (o fator de redu- É essa a informação visual que o mapa de
ção de um mapa). Uma diversidade delas é Mercator nos dá? A imagem da Groenlândia
necessária para as muitas dimensões dos fe- é aproximadamente oito vezes menor que a
nômenos geográficos. Definir a escala de um da América do Sul? Não, ela é maior. E, en-
mapa é sempre uma escolha. tão, essa representação está certa? Não está. E
qual das outras estará? Infelizmente a respos-
Voltemos a olhar as Figuras 3, 4, 5 e 6. Em ta será: nenhuma. Pelo menos, nenhuma está
vista da diferença existente entre os mapas- inteiramente certa. E mais: não é possível a
-múndi, pode-se perguntar: Qual está certo? correção total. O planeta Terra é esférico, sua
Quais estão errados? Será muito curioso regis- superfície é curva e não é possível desenhá-lo
trar as respostas. Caso indiquem a correção no papel plano do mapa sem algum tipo de
de alguns e o equívoco de outros, o professor deformação, que é na verdade a adaptação
poderá inquirir sobre os fundamentos das res- necessária para a transferência do que é curvo
postas. Afinal, que elementos teriam os alunos para a folha de papel, que é plana. Mas é pos-
para fazer afirmações desse tipo? Ocorre-nos sível transcrevê-lo com vários acertos. E esco-
de imediato apenas a familiaridade com uma lher alguns acertos é também escolher alguns
representação, que chega a ser tão grande a erros. Encontramos aí um dos elementos-cha-
ponto de considerar as outras imagens equi- ve do mapa: a projeção cartográfica.
vocadas.
A projeção cartográfica é a técnica que
E essa identificação só pode ocorrer permite a transcrição de uma superfície cur-
com a projeção de Mercator, a representa- va para uma plana. Ela não pode respeitar ao
ção mais antiga e utilizada de todas. mesmo tempo as distâncias entre os objetos,
os ângulos (a forma dos objetos) e as super-
A familiaridade é garantia de correção? fícies (a extensão territorial dos objetos). As
Por que os cartógrafos criariam outras formas diferentes projeções (e são mais de 200) defor-
de representar a Terra, como no caso das ou- mam e favorecem de maneira seletiva um ou
tras três figuras? O professor poderia apresen- outro de seus elementos.

22
Geografia – 1ª série – Volume 1

Leitura e análise de mapa 3. Esses quatro mapas apresentam semelhan-


ças e diferenças.
Seria o caso agora de o professor propor
uma comparação visual entre as quatro proje- a) Liste e explique algumas semelhanças.
ções cartográficas apresentadas anteriormen- b) Liste e explique algumas diferenças.
te (Figuras 3, 4, 5 e 6). Em ambas as questões, a resposta é aberta. No entanto,
apesar das diferenças apontadas na questão anterior, é
Explore com os alunos os mapas e peça possível perceber, em todas as projeções, que os conti-
que eles respondam às seguintes questões pro- nentes estão representados, embora sua aparência varie.
postas no Caderno do Aluno: Talvez a impressão da mais correta seja atribuída à proje-
ção de Mercator, por ser a mais familiar, a mais utilizada.
1. O que esses mapas estão representando? A Buckminster Fuller, pela razão inversa (pouco conhecida
Embora distintos entre si, esses mapas representam a su- na Geografia brasileira), pode passar a impressão de estar
perfície terrestre. Em todos são visíveis a Eurásia (Europa mais errada que as outras.
+ Ásia), as Américas, a África e a Oceania, mesmo que, É provável que os alunos digam que, na Mercator, o tama-
em cada um deles, a posição dos continentes não seja nho dos continentes e dos oceanos estejam apresentados
a mesma. É possível também, nas projeções de Bertin e de maneira mais fiel.
Peters, observar linhas imaginárias que estão representa-
das de maneira diferente. Essas linhas são as coordenadas Considerando o que foi apresentado até
geográficas. agora e as atividades realizadas, os alunos po-
derão responder às atividades a seguir propos-
2. Quais são as diferenças entre os mapas tas na seção Desafio do Caderno do Aluno.
apresentados e os mapas-múndi que você
está habituado a ver? Explique. 1. Imagine uma fotografia de 6 x 8 cm re-
As diferenças são várias. Eis algumas: o tamanho da tratando uma pessoa de 1,8 metro de
Groenlândia, da América do Sul e da África é diferente, corpo inteiro.
ao se comparar a Projeção de Mercator com as outras
três (Bertin, Buckminster Fuller e Peters). Na Mercator, a a) No que diz respeito às medidas, o que
Groenlândia é maior, enquanto a América do Sul e a África há em comum entre essa fotografia e
são menores. um mapa?
Mas isso não acontece nas outras três. A projeção de Buck- Nos dois casos, tratam-se de representações que reduzem
minster Fuller tem uma distribuição bem diferenciada dos a “realidade”, o que permite que uma pessoa caiba num
continentes, quando comparada com as outras três. E tam- pequeno pedaço de papel, e a superfície terrestre, com
bém há diferenças significativas na representação da América seus oceanos e terras emersas, seja inserida numa peque-
do Norte na projeção de Bertin, em relação às outras. Muitas na folha de papel. Uma fotografia também apresenta esca-
outras diferenças podem ser notadas em complemento. la de redução em relação à realidade.

23
b) Que nome se dá, em Cartografia, a esse sua área na mesma proporção em que é
fator de redução? necessário reduzir o planeta para repre-
O nome dessa redução, feita de forma matematicamente sentá-lo em um mapa? Por quê?
controlada, é “escala cartográfica”. Uma cidade tem um território muitíssimo menor que a ex-
tensão total da superfície terrestre. Isso quer dizer que, para
2. Um mapa-múndi foi reduzido 23 milhões de representar uma cidade num mapa, ela não precisa ser tão
vezes. Isso quer dizer que a Terra é 23 mi- reduzida quanto o mundo. Se houver a redução em ambas
lhões de vezes maior que o mapa? Justifique. as situações da mesma maneira, as cidades vão aparecer nos
Se um mapa-múndi tiver uma escala cartográfica assim re- mapas apenas como pontinhos quase invisíveis.
presentada: 1:23 000 000, isso significa que ele foi reduzido
23 000 000 centímetros da realidade, ou então que uma reta de Dando sequência aos estudos das projeções
23 000 000 centímetros foi reduzida para 1 centímetro no mapa. cartográficas, o professor pode apresentar a des-
crição das características dessas quatro proje-
3. Se uma pequena cidade tiver de ser repre- ções, presente no Quadro 1 e na seção Leitura e
sentada em um mapa, será preciso reduzir análise de quadro e texto, do Caderno do Aluno.

Quadro descritivo das projeções

A deformação do tamanho das superfícies torna-se máxima próxima aos polos.


Essa projeção exagera visualmente a importância dos países do Hemisfério Norte,
Mercator pois a maior porção das massas continentais dessa região está localizada nas maio-
res latitudes, diferentemente das massas continentais do Hemisfério Sul, que estão
concentradas nas proximidades do Equador.
Em comparação com a de Mercator: restabelece o tamanho correto das superfícies
Peters
continentais e, com isso, revaloriza visualmente os países do Hemisfério Sul.
Fiel na relação entre os tamanhos das superfícies dos continentes, é uma das boas
Bertin
soluções para os mapas temáticos, apesar de não ser tão comum.

Buckminster Centrada no Polo Norte, apresenta uma organização dos continentes incomum
Fuller quando comparada às outras projeções.
Quadro 1 – Quadro descritivo das projeções. Fonte: Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.

f Qual dessas projeções é a melhor? ção de Mercator consegue manter as superfícies somente
A resposta vai depender de que informações se desejam ob- nas regiões próximas ao Equador. Ela também é frequente-
ter com base em uma representação cartográfica. A de Mer- mente apontada como uma projeção que expressa um po-
cator é muito útil na navegação, pois respeita as distâncias e derio do Norte sobre o Sul, visto que superdimensiona as ter-
os ângulos, embora não faça o mesmo com o tamanho das ras emersas do Norte. Por sua vez, a projeção de Buckminster
superfícies. É importante também ressaltar que as projeções Fuller (assim como a de Bertin) é indicada para representar os
têm características modificadas ao longo do mapa. A proje- fluxos comerciais no mundo contemporâneo.
24
Geografia – 1ª série – Volume 1

Na verdade, as projeções são escolhas que para que verifiquem as atividades propos-
devem ser ajustadas ao que se quer represen- tas no Caderno do Aluno que se referem
tar. Não há verdades, nem certo e errado, ao Quadro 1 e ao texto sobre a projeção de
apenas escolhas interessantes quanto ao seu Buckminster Fuller.
potencial de comunicação.
1. Após a leitura do quadro, os alunos deve-
Não há mapas sem escolhas da projeção. rão fazer os exercícios a seguir:
A projeção é, portanto, um dos elementos-
-chave do mapa. a) A projeção de Buckminster Fuller mos-
tra o mundo a partir do Polo Norte.
Até esse momento, no processo de descons- Com base no quadro e no mapa (Figura
trução do mapa, dois elementos essenciais de 6), comente as implicações disso para a
sua constituição estão isolados e identificados: representação do mundo.
f a escala; Observando a projeção de Buckminster Fuller, nota-se no
f as projeções. centro (polo) uma distribuição dos continentes como se
estes se espalhassem sobre um globo, de cima para bai-
Os dois elementos são obtidos e construídos xo. Trata-se de um mapa centrado no Polo Norte, e não
tendo por referência as medidas do terreno a ser no Equador, como nas outras três projeções apresentadas
representado: quando dizemos que um mapa foi anteriormente. Os oceanos desaparecem (ou têm me-
reduzido 5 milhões de vezes, isso significa que nos espaço que em outras projeções), e os continentes
um traço de 1 cm no mapa será 5 milhões de parecem bem mais próximos que costumeiramente em
vezes (50 km) maior na superfície terrestre. Isso, outros mapas.
de modo geral, na maior parte do mapa. Mas
podem existir pontos (conforme a projeção) em b) As outras três projeções (Mercator, Pe-
que essa relação não vai se estabelecer, tal como ters e Bertin) mostram o mundo a partir
fica claro no mapa da Figura 7. de onde?
As outras projeções centram-se no Equador e na Europa.
Quando dizemos que a projeção de Merca- Ficam, assim, visíveis o Hemisfério Norte e o Hemisfério Sul
tor representa desproporcionalmente a Groen- e, também, o lado oeste (Ocidente – onde está o Brasil, por
lândia em relação à América do Sul, são as exemplo) e o lado leste (Oriente – onde está o Japão, por
medidas da extensão desses dois territórios que exemplo). Na projeção de Buckminster Fuller, nada disso
estão sendo consideradas. é evidente, porque ela pode ser “virada” como um globo
e destacar a América do Sul, por exemplo. Desse modo, a
Leitura e análise de quadro e texto projeção Buckminster Fuller subverte os pontos cardeais no
mapa-múndi que são frutos da centragem no Equador e na
Para explorar com os alunos esse tema, peça Europa das outras projeções.

25
2. O próximo exercício deve ser feito com Na passagem do texto em que se diz que
base no texto: essa projeção reduz as distorções habi-
tuais, pode-se entender, então, que ela não
Projeção de Buckminster Fuller
possui distorções? Justifique.
A projeção “Dymaxion”, de Buckmins- Não, a projeção de Buckminster Fuller também apre-
ter Fuller, foi concebida para permitir uma senta algumas distorções. De modo geral, todas as
melhor compreensão das questões huma- projeções têm alguma distorção. A mais evidente das
nas e pôr em evidência as relações entre os
deformações nessa projeção encontra-se nas áreas dos
diferentes povos. É uma tentativa para en-
oceanos, que são apresentados bem menores do que
contrar a forma cartográfica mais adequa-
em outras projeções. No entanto, essa projeção é a que
da para a época das telecomunicações em
escala mundial, dos transportes interconti- mais se aproxima na proporção das áreas e das formas
nentais, das interdependências econômicas. reais dos continentes.
Essa projeção reduz as distorções habituais,
fornece uma visão mais precisa das dimen- Leitura e análise de mapa
sões relativas dos territórios, dos oceanos e
dos mares, e uma imagem menos “hierarqui-
Na sequência sugerimos que o professor
zada” do planeta.
trabalhe com o mapa da Figura 7, por meio
Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente
para o São Paulo faz escola. das questões a seguir. Os alunos poderão redi-
gir as respostas no Caderno do Aluno.

Projeção equidistante cilíndrica ou equirretangular

Figura 7 – Projeção equidistante cilíndrica ou equirretangular. Carlos A. Furuti. Disponível em: <http://www.progonos.com/furuti/
MapProj/Normal/CartProp/DistPres>. Acesso em: 23 jul. 2013. Mapa original (sem indicação de norte geográfico).

26
Geografia – 1ª série – Volume 1

1. Este mapa representa o mundo inteiro, com terreno, no ponto onde o traço escolhi-
suas terras emersas e oceanos, em um espaço do foi traçado?
de apenas 16 x 8 cm. Como isso é possível? Neste exemplo, vamos escolher os traços de 5 030 e de 7 230.
Apesar de ser um espaço de apenas 16 cm (longitudinal) por Sabemos que cada uma das retas verdes tem 3 cm no mapa.
8 cm (latitudinal), nele cabe o mundo. É um mapa-múndi que Então fica assim:
representa o mundo inteiro com suas terras emersas e seus tQSJNFJSPDBTPDNLN MPHPDNYFYLN
oceanos. Trata-se de uma realidade infinitamente maior, que (5 030 dividido por 3);
foi reduzida para caber nesse espaço cartográfico. tTFHVOEPDBTPDNLN MPHPDNYFYLN
(7 230 dividido por 3).
2. Agora, observe os traços verdes.
3. Compare as seguintes informações sobre
a) Você vai notar que, apesar de eles serem dois mapas: o primeiro foi reduzido 23 mi-
do mesmo comprimento, varia a indica- lhões de vezes em relação ao terreno que re-
ção de quilômetros para cada um. Em presenta (a Terra inteira, por exemplo); o se-
qual região se localizam os traços com gundo foi reduzido 10 mil vezes em relação
valores mais baixos? E os mais altos? a uma pequena cidade. Qual dos dois pode
Os números estão sobre traços (verdes) de 3 cm. Os valo- apresentar mais detalhes do terreno que re-
res mais baixos são os próximos aos polos e, depois, eles vão presenta? E se você quiser inserir a pequena
crescendo à medida que se aproximam do Equador (isso é cidade no mapa que foi reduzido 23 milhões
visual): 1 780; 4 490; 5 030; 5 450; 5 530; 6 320; 6 480; 6 790; de vezes, como ela aparecerá?
6 900; 7 230. Há também variações relacionadas à direção do No mapa em que houve uma redução de 10 mil vezes (1:10 000),
traço (horizontal, vertical e diagonal), e isso também é visual. haverá a possibilidade de apresentar mais detalhes do terreno. No
mapa da cidade, poderão aparecer detalhes como ruas, praças, lo-
b) Há uma correspondência entre o nú- calização de construções, fábricas, edifícios etc. Em um mapa de
mero de centímetros do traço verde, o 1:23 000 000, uma cidade será apenas um ponto. Sugerimos que
número de quilômetros que está indica- sejam apresentados aos alunos mapas de diferentes escalas para
do nele e o tamanho do terreno que ele ilustrar essa resposta. O ideal é mostrar uma área representada em
demarca? Explique. diferentes escalas. É possível também utilizar mapas da internet, em
Existe uma correspondência entre os traços (cada um de sites de busca de ruas, como o Google Maps, por exemplo. Além
3 cm) e os números sobre eles. O traço de 1 780 significa que, disso, embora nenhuma das atividades apresentadas no Caderno
onde a reta de 3 cm foi traçada, existe, na realidade do terre- do Aluno dependa da explicação a seguir, sobre a diversidade de
no, uma distância de 1 780 km. No traço com a inscrição de escalas na extensão dos mapas-múndi, sugerimos que ela seja dis-
6 900, o que se indica é que na posição em que foi marcada a cutida com os alunos em sala de aula, a título de esclarecimento.
reta de 3 cm a distância é de 6 900 km.
4. Por que as medidas variam na projeção
c) Escolha dois traços verdes diferentes no equidistante?
mapa. Quanto vale cada centímetro no Porque as projeções não garantem uniformidade na extensão.

27
Diversidade de escalas na extensão dos mapas-múndi

Na projeção cilíndrica equidistante-equatorial, todas as linhas verdes têm o mesmo compri-


mento, porém, no terreno, as distâncias em quilômetros são diversas. Isso se deve às deformações
presentes na projeção. A escala cartográfica é uma questão da matemática geométrica, e não tem
relação direta e exata com todo o terreno representado em um mapa-múndi. Isso significa que a
escala cartográfica não pode ser usada para estabelecer as medidas do terreno, como normalmen-
te se pensa e se procede. As deformações impostas pelas projeções significam um afastamento das
medidas do terreno. A projeção de Mercator produz, por exemplo, uma Groenlândia muito maior
do que a América do Sul, o que não é real. Se for expresso em escala gráfica, como no exemplo da
projeção cilíndrica equidistante-equatorial apresentada no Caderno do Aluno, ficará evidente é
que a escala não corresponde à mesma relação por toda a extensão do mapa. Quatro escalas grá-
ficas são oferecidas para essa projeção. Cada escala horizontal só é útil ao longo de seu paralelo
específico, ou no paralelo oposto simétrico em relação ao Equador; a escala vertical é válida em
qualquer posição, o que é uma característica das projeções cilíndricas.

Leitura e análise de mapa será que outras maneiras de medir – métri-


cas – podem ser introduzidas? Observe as
Mas será que os mapas sempre usam as Figuras 8 e 9, presentes também no Cader-
medidas do terreno para serem feitos? Ou no do Aluno.

População absoluta, 2000

Figura 8 – População absoluta, 2000. SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan). Disponível
em: <http://www.worldmapper.org/display.php?selected=2>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original.

28
Geografia – 1ª série – Volume 1

Mapa territorial de referência

Figura 9 – Mapa territorial de referência. SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan).
Disponível em: <http://www.worldmapper.org/display.php?selected=1>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original.

É possível reconhecer os blocos continentais 1. Qual dos dois mapas está mais próximo
nos dois mapas apresentados? E as formas de dos mapas-múndi até agora apresenta-
países no interior desses blocos? Provavelmente, dos? Quais são as principais diferenças
esse reconhecimento será mais frequente com entre o mapa mais incomum e os demais
relação aos continentes, enquanto as formas planisférios já apresentados?
dos países gerarão mais estranhamento. Em- O mapa territorial de referência é muito mais próximo
bora as diversas projeções nos mapas-múndi (embora possua diferenças) dos mapas-múndi apresen-
apresentados anteriormente tenham diferen- tados até aqui. O mapa População absoluta, 2000, por
ças entre si nas formas dos blocos continentais sua vez, é bastante diferente, pois teve suas extensões
(e isso já gere estranhamento), nenhuma das e formas territoriais transformadas. A referência para a
projeções altera tanto as formas de um blo- construção desse mapa foi o tamanho das populações de
co continental (e dos países) como no mapa cada país. Em relação aos mapas territoriais convencio-
da Figura 8. Isso ocorre por quê? Nesse mapa, nais, procurou-se manter o posicionamento e as relações
forma-se a imagem dos países mais populo- de vizinhança.
sos, e não dos territorialmente mais extensos.
2. Com base no mapa População absoluta,
Agora os alunos deverão responder às 2000, responda às questões a seguir.
questões sobre os mapas das Figuras 8 e 9 no
Caderno do Aluno. a) Quais são os países mais populosos?

29
É possível saber de modo imediato quais são os países mais a de Peters, o professor pode finalizar esta
populosos, pois eles se destacam visualmente, já que expres- etapa, perguntando se nesses “mapas mu-
sam como medida o tamanho da sua população. China, Ín- dos” (modelos de projeção) estão presentes
dia, Japão são ressaltados na representação. a escala, a projeção e a métrica. Sim, neles
há escala, projeção e métrica (uma maneira
b) Quais blocos continentais (ou terri- de medir).
tórios de países) estão bem alterados,
no tamanho e na forma, ao se compa- O que esses mapas comunicam? Além da
rar esse mapa com outros, mais con- distribuição dos blocos continentais e a rela-
vencionais? ção de tamanho entre eles, quase mais nada.
É possível citar o Japão, de pequena extensão territorial, mas
com muitos habitantes, que ganha destaque nessa represen- Vamos voltar a examinar o mapa Evo-
tação. Ou a Austrália, que tem uma grande extensão territo- lução das 150 metrópoles mais populosas,
rial e população muito inferior à do Japão, e aparece menor 2010 (Figura 2). Ele tem projeção, tem mé-
nesse mapa. Ou ainda o Canadá, que é enorme, mas com trica, mas tem também símbolos gráficos.
pequena população. Quais são? Círculos de diferentes tamanhos
e tonalidades de cor no interior dos círcu-
c) Esse tipo de representação chama-se ana- los. Esse conjunto de símbolos gráficos so-
morfose. Procure o significado dessa pala- bre esse fundo de mapa (escala, projeção e
vra e relacione-o com as formas do mapa. métrica) comunica algo: é a linguagem, o
A anamorfose é a representação cartográfica que emprega outro elemento do mapa.
outras medidas para representar as realidades geográficas.
Em vez de medidas de terreno, essa representação pode usar Etapa 3 – Linguagem cartográfica:
volumes populacionais, valores econômicos, volumes de re- variáveis visuais
cursos naturais etc. Com os números escolhidos é que serão
dimensionados os objetos representados. Logo, as extensões Leitura e análise de gráfico e mapa
dos países num mapa serão diferentes, uma vez que as medi-
das são outras. No entanto, procura-se manter as relações de Observe, com atenção, o esquema da Fi-
vizinhança. A anamorfose, por tudo isso, pode ser chamada gura 10, da seção Leitura e análise de gráfico
de transformação cartográfica. e mapa do Caderno do Aluno. É um pouco
da “gramática” da linguagem cartográfica.
Após o exame pormenorizado dos mapas, São elementos gráficos que exemplificam e
três dos seus elementos foram identificados: a mostram as possibilidades de cartografar os
escala, a projeção e a métrica. fenômenos geográficos (aqueles que têm es-
pacialidade). Neles estão os elementos visuais
Voltando aos mapas das Figuras 3, 4, 5 que permitem distinguir, quantificar, ordenar
e 6, por exemplo, a projeção de Bertin, ou e mostrar ligações (fluxos).

30
Geografia – 1ª série – Volume 1

As variáveis visuais
As variáveis da imagem
qual variável visual deve ser usada? Justifique.
A variável visual valor, representada por tonalidades de cinza
y
2 dimensões ou de cor (no caso do gráfico, há o exemplo do azul mais
do plano
x
4 1 2 4 claro para o azul mais escuro; no caso do mapa da Figura 2,
1 foram aplicadas as tonalidades de laranja).
tamanho e também

valor e também 3. E se quisermos expor em um mapa onde


se localizam fenômenos diferentes – por
As variáveis de separação
exemplo, recursos naturais distintos ou ti-
granulação e também
pos diferentes de uso econômico do territó-
Benoît MARTIN, dezembro de 2005
rio (agricultura, indústria, mineração etc.)
cor
ou, então, simplesmente destacar países ou
orientação e também Estados diferentes em um mapa –, qual va-
forma riável visual seria a correta? Por quê?
Segundo Jacques Bertin São as diversas variáveis visuais de separação: granulação, co-
Figura 10 – Gráfico das variáveis visuais. Fonte: DU- res diferentes, hachuras de orientação, formas geométricas.
RAND, M.-F. et al. Atlas de la mondialisation. Édition
2008. Paris: Presses de Sciences Po, 2008. p. 13.
4. O que o mapa a seguir (Figura 11) está re-
O professor poderá trabalhar com o grá- presentando? Por que se utilizou a seta como
fico da Figura 10 no Caderno do Aluno por variável visual para representar o fenômeno?
meio das seguintes questões: Esse é um mapa quantitativo que faz uso de círculos pro-
porcionais e de setas proporcionais. As setas proporcionais
1. Se quisermos mostrar quantidades em um representam quantidades de fluxos no ano de 2010 entre re-
mapa – por exemplo, tamanho de popula- giões do mundo (continentes e agrupamentos regionais). A
ção ou dos volumes econômicos de comér- extremidade da seta representa onde o fluxo está chegando.
cio –, devemos usar quais variáveis visuais, A espessura da seta representa a quantidade do que está sen-
entre as que estão no gráfico? Por quê? do transportado (legenda de mapas quantitativos). O mapa
A variável visual tamanho, que, no caso do gráfico, são qua- em geral representa o comércio mundial e regional de pro-
drados (mas podem ser círculos, como no mapa de aglome- dutos agrícolas e alimentícios. Fica evidente a condição da
rações apresentado anteriormente) ou, então, está represen- América do Sul e Central como fornecedor desses produ-
tada pela largura das setas. tos especialmente para a Europa e para a Ásia (o Brasil tem
um papel exponencial nesse caso). Mostra que a América
2. Quando o objetivo de um mapa for mostrar do Norte é ainda um grande produtor e exportador, espe-
uma ordem, uma gradação – por exemplo, do cialmente, para a Ásia. Inversamente, o mapa mostra como
mais alto para o mais baixo (relevo), do mais grandes centros importadores a Ásia e a Europa. Os círculos
quente para o mais frio (clima) ou do mais proporcionais expressam o comércio que se dá internamen-
rico para o mais pobre (questões sociais) –, te à cada região e nesse quesito se destaca também a Europa.

31
Figura 11 – Exportação de produtos agrícolas e alimentícios no mundo, 2010. Atelier de Cartographie de Sciences Po.
Disponível em: <http://cartographie.sciences-po.fr/fr/exporta-o-de-produtos-agr-colas-e-aliment-cios-no-mundo-2010>.
Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão
representadas em detalhe; sem escala).

Oriente os alunos para que, em grupos, se- atividade proposta na seção Desafio, do Ca-
lecionem pelo menos cinco mapas de fontes derno do Aluno:
diversas (livros didáticos, atlas geográficos 1. Classifiquem de que tipo eles são, conforme
escolares, revistas, jornais, Cadernos do Alu- tabela a seguir (Quadro 2), justificando a es-
no etc.). Eles poderão analisá-los conforme a colha de vocês.

Tipos de mapas
Função Nome
Mostrar quantidades Mapa quantitativo
Colocar ordem em um mesmo fenômeno Mapa ordenado
Mostrar relações entre localidades diferentes e as qualidades dessas relações Mapa qualitativo
O fenômeno é a própria medida básica do mapa (não usa as medidas do terreno) Anamorfose
Quadro 2 – Tipos de mapa. Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.

32
Geografia – 1ª série – Volume 1

Para um mapa ser considerado quantitativo, ele deve usar na re- cores, quando o certo seria usar tonalidades de uma única cor.
presentação a variável visual tamanho (por exemplo, quadrados ou Nesse caso, só será possível entender o mapa por meio da le-
círculos) para expressar uma relação direta com as quantidades do genda. Ou seja, a imagem não se explica por si só.
fenômeno. Um mapa ordenado, por sua vez, apresenta tonalida-
des de cor para mostrar as intensidades dos fenômenos (mais frio, 3. Ao final da análise, respondam: é possível
mais calor, mais rico, mais pobre etc.). Se os vários fenômenos esti- um único mapa trabalhar com duas variá-
verem representados por variáveis de separação, é porque se trata veis visuais (por exemplo, um mapa ser
de um mapa qualitativo. Há também o caso dos mapas de fluxo,
quantitativo e ordenado ao mesmo tem-
que fazem uso das setas (que também são quantitativos, quando se
po)? Há algum exemplo nos mapas sele-
expressam pela largura das setas); já nos mapas do tipo anamorfose,
cionados que vocês podem indicar? E no
trocam-se as medidas de terrenos (métricas) por outras, como as
de volume de população, tal como no mapa da Figura 8.
Caderno do Aluno? Justifiquem.
Sim, é possível. No próprio Caderno, há o mapa Evolução das 150
metrópoles mais populosas, 2010 (Figura 2), o qual possui uma lin-
2. Indiquem se os mapas possuem erros car-
guagem com duas variáveis visuais: de tamanho (círculos propor-
tográficos, de que tipo são esses erros e
cionais) e de valor (cores ou tonalidades de uma única cor). Isso faz
como vocês acham que deveria ser a repre-
que esse mapa seja, ao mesmo tempo, quantitativo e ordenado.
sentação correta.
Entre os erros cartográficos mais comuns, temos os que usam as
variáveis de separação para representar vários fenômenos dife- 4. Observem atentamente os mapas a seguir e
rentes, quando se trata de pôr em ordem um único fenômeno. classifiquem-nos de acordo com o Quadro
Por exemplo: diferentes índices de analfabetismo com diversas 2 (Tipos de mapas):

a) Mapa qualitativo.

Bacias hidrográficas dos grandes rios e fronteiras estatais, 2010

Atelier de cartographie de Sciences Po, 2010

bacias dos
principais rios

fronteiras
Fonte: World Resources Institute, fronteiras contestadas
Earth Trends, Environmental Information,
http://earthtrends.wri.org (nomenclatura da ONU)
Segundo Marie-Françoise DURAND, Philippe COPINSCHI, Benoît MARTIN, Patrice MITRANO,
Delphine PLACIDI-FROT, Atlas de la mondialisation, dossier spécial Russie, Paris, Presses de Sciences Po, 2010

Figura 12 – Bacias hidrográficas dos grandes rios e fronteiras estatais, 2010. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível em: <http://
cartographie.sciences-po.fr/fr/bacias-hidrogr-fica-dos-grandes-rios-e-fronteiras-estatais-2010>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base
cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico).

33
b) Mapa quantitativo (com círculos proporcionais e com linhas de fluxos proporcionais).

Figura 13 – Comércio
de petróleo, 2005 e 2011.
Atelier de Cartographie
de Sciences Po. Disponível
em: <http://cartographie.
sciences-po.fr/fr/com-rcio-
de-petr-leo-2005-e-2011>.
Acesso em: 5 nov.
2013. Mapa original
(base cartográfica com
generalização; algumas
feições do território
não estão representadas
em detalhe; sem escala;
sem indicação de norte
geográfico).

c) Mapa ordenado.

Assinaturas de celular, 2010

Figura 14 – Assinaturas
de celular, 2010. Atelier de
Cartographie de Sciences
Po. Disponível em: <http://
Atelier de cartographie de Sciences Po, 2012

cartographie.sciences-po.fr/fr/
assinaturas-de-celular-2010>.
Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa
original (base cartográfica
Por 100 pessoas
com generalização; algumas
ausência feições do território não estão
de dados representadas em detalhe; sem
1,2 53 92 126 206
escala; sem indicação de norte
método estatístico: médias ajustadas
geográfico).
Fonte: UNESCO, www.uis.unesco.org

34
Geografia – 1ª série – Volume 1

d) Mapa anamórfico.

População em 2050

Figura 15 – População em 2050. SASI Group (University of Sheffield) and Mark Newman (University of Michigan). Disponível em:
<http://www.worldmapper.org/display.php?selected=11>. Acesso em: 21 nov. 2013.

Várias outras questões podem ainda ser Esse tema de confecção de texto é uma oportunidade para refle-
acrescentadas sobre o estudo da Cartografia. O tir sobre o papel dos mapas, das representações. A ideia é que os
importante é esse exercício mais direcionado so- alunos entendam os mapas não como verdades absolutas, mas
bre a linguagem cartográfica, que, com o tempo, como instrumentos que nos ajudam a refletir sobre as realidades
passará a ser mais bem dominada pelos alunos. geográficas. Vale destacar que os mapas, na condição de espa-
Para tanto, é necessário cuidar da qualidade dos ços (cartográficos), podem ser espaço de simulação das realida-
mapas apresentados à turma e sempre fazer co- des geográficas, que também se estruturam e se desenvolvem
mentários sobre a linguagem empregada e tam- em espaços geográficos. Nessa correspondência, encontra-se a
bém sobre o fundo do mapa. força de um mapa, que deve ser entendido também como um
espaço cartográfico que não se presta apenas a localizar o fenô-
A seção Lição de casa, do Cader- meno, mas serve principalmente para que se notem as relações
no do Aluno, propõe a seguinte existentes entre os fenômenos e as realidades geográficas. Por
atividade: exemplo, um mapa, como o proposto anteriormente para exer-
citar a linguagem cartográfica (das grandes aglomerações), per-
Em seu caderno, elabore um texto para res- mite relacionar aglomerações e localizações litorâneas, maiores
ponder à seguinte questão: Mapas representam a aglomerações e desenvolvimento econômico etc. É importante
verdade das superfícies terrestres, ou são criações que os alunos sejam estimulados a redigir, a expor o que pensam,
humanas, úteis, porém imperfeitas e subjetivas? claro, usando o que discutiram e exercitaram anteriormente.

35
E para finalizar esta Situação Os elementos cartográficos identificados são escala, pro-
de Aprendizagem, na seção jeções e formas diferentes de métricas e a linguagem com
Você aprendeu?, os alunos base nas variáveis visuais.
deverão, por meio de todos os mapas vistos
e analisados, responder às questões a seguir. 2. Que referências de medidas são utilizadas
para chegar à escala e às projeções?
1. Quais são os elementos cartográficos até Para chegar à escala e às projeções, são utilizadas as medi-
aqui identificados nesta Situação de Apren- das dos terrenos (distâncias, extensões, ângulos, reduções
dizagem? proporcionais).

SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 2
O SENSORIAMENTO REMOTO:
A DEMOCRATIZAÇÃO DAS INFORMAÇÕES

Nunca a superfície do nosso planeta este- A tecnologia que mais revolucionou re-
ve tanto à disposição do olho humano como centemente essa apreensão do espaço a dis-
atualmente. Nunca tantos puderam conhecer tância foi a imagem de satélite. São elas que
essa área em detalhes, como agora. Na inter- abastecem o Google Earth e também permi-
net, um programa específico (Google Earth) tem, por exemplo:
dá acesso ao cidadão comum a praticamente
toda a superfície terrestre, com um nível de de- f acompanhar os fenômenos atmosféricos;
talhe que permite até identificar nossas ruas e f monitorar desmatamentos e queimadas;
casas. Isso é extraordinário e novo. f identificar inimigos em situação de guerra
e alvejá-los com mísseis.
Se tal informação está disponível ao ci-
dadão comum, obviamente outras, mais Seus usos podem multiplicar-se, sua apli-
sofisticadas, estão sob o controle de agen- cação científica é imensa, em especial para
tes sociais poderosos, como os Estados estudar fenômenos geográficos. As imagens
(órgãos especializados), institutos de pes- de satélite podem nos dar a localização deles
quisas e grandes empresas. Que meios per- e ser base importante para produzir mapas.
mitem essa ampliação do olho humano
sobre o seu planeta? O sensoriamento remo- Elas são instrumentos de controle territo-
to é a tecnologia que consegue apreender o rial, logo, se associam às formas de poder e a
espaço a distância. diversos interesses. Alguns países e algumas

36
Geografia – 1ª série – Volume 1

empresas dominam essas tecnologias, enquanto Mas, como foi ressaltado anteriormen-
outros não, e isso é um problema. Um exemplo te, esse conhecimento está deixando de ser
já bastante conhecido é o constante monitora- monopólio apenas dos poderosos. Discutir,
mento remoto sofrido pelo Brasil com relação no universo escolar, como funciona o sen-
à diversidade biológica da Floresta Amazôni- soriamento remoto é um passo na democra-
ca, assim como as informações privilegiadas tização de suas informações, um elemento
que os EUA conseguem com relação ao terri- de desenvolvimento de competências e um
tório iraquiano, o que favorece o controle da- ingrediente de constituição de cidadania.
quele país sobre as áreas de petróleo.

Conteúdos: as técnicas de sensoriamento remoto; o sensoriamento remoto como representação; a coleta


de dados e os seus diferentes usos; análise e interpretação a respeito do seu uso; a democratização das
imagens de satélite.
Competências e habilidades: compreender a multiplicação dos meios de sensoriamento remoto; entender
o funcionamento e a lógica de criação humana do sensoriamento remoto, em especial a imagem de sa-
télite; comparação de diferentes meios de representação da Terra.
Sugestão de estratégias: aulas expositivas – apresentação dos objetivos da atividade; exercício de compa-
ração de imagem de satélite com mapa; leitura e interpretação de texto e figuras em grupo; exercício no
tutorial de sites que trabalham com imagens de satélite (INPE, Embrapa e Google Earth).
Sugestão de recursos: textos; uso de imagens de satélite; mapas; atlas; material didático.
Sugestão de avaliação: trabalhos em grupo; questões dissertativas.

Etapa prévia – Sondagem inicial e


sensibilização

Nesta etapa, o professor vai expor aos e a imagem de satélite, qual das duas formas de
alunos a imagem extraordinária de um saté- apresentação da Terra é a mais verdadeira? Tal-
lite (Figura 16): o mundo à noite, da seção vez até seja o caso de começar comparando
Leitura e análise de imagem, do Caderno do uma figura desenhada de uma paisagem, de
Aluno. Deixá-los observar por um tempo é um ser humano, com fotografias dos mesmos
importante. Em seguida, deverá instigá-los lugares e pessoas. E fazer a mesma pergunta
com a seguinte pergunta: considerando o mapa sobre o que é mais fiel.

37
© Nasa

Figura 16 – O mundo à noite: imagem de satélite. Fonte: <http://visibleearth.nasa.gov/view.php?id=55167>. Acesso em: 12 nov. 2013.

Leitura e análise de imagem


2. É possível que uma única imagem de satélite
Depois da discussão, os alunos poderão represente toda a Terra à noite? Justifique.
responder às seguintes questões no Caderno Não é possível que seja noite no globo inteiro ao mesmo
do Aluno: tempo, pois, enquanto na “extremidade” do Hemisfério Leste
é dia, na “extremidade inversa”, do Oeste, é noite. Os alunos
1. A imagem de satélite representa de forma podem observar também a ausência de nuvens; é impossível
plana a superfície da Terra, que é curva. Isso ter uma imagem do globo sem nenhuma nuvem, principal-
pode ser feito sem criar uma projeção, sem a mente nas regiões tropicais úmidas. Logo, uma imagem que
aplicação de uma escala de redução? Pode-se mostre o mundo inteiro à noite, sem nuvens, é uma monta-
dizer que a imagem de satélite tem as mesmas gem, portanto, uma abstração.
distorções de um mapa? Explique.
Sim, a imagem de satélite, como a de um mapa, está repre- 3. Essa imagem é uma montagem. Isso abre
sentando a superfície da Terra, que é curva, numa folha de possibilidades para equívocos e/ou distorções
papel plana. E, para isso, é preciso aplicar-lhe uma projeção e intencionais? Justifique.
uma escala de redução (escala cartográfica). Em todas essas O fato de ser uma montagem cria possibilidades de equívocos.
operações, as técnicas utilizadas são as mesmas que aquelas Por exemplo: é possível que se tenham juntado duas imagens
empregadas na confecção de mapas. Logo, a imagem de sa- dos dois hemisférios (Ocidental e Oriental) de datas bem di-
télite possui as mesmas distorções de um mapa e também ferentes. Com isso, criou-se uma imagem em que os pontos
não é cópia fiel da realidade. iluminados representariam épocas diferentes – e, em uma

38
Geografia – 1ª série – Volume 1

imagem (ou mapa), espera-se que as informações sejam da f Identifique as zonas mais intensas e as
mesma data. O que garante que a montagem seja da mesma mais dispersas de iluminação no território
noite é a fonte, quem a fez. No caso dessa montagem, a fonte dos Estados Unidos da América e com-
é a Nasa, uma agência estadunidense de grande credibilidade. pare se há outras situações como essa na
imagem. Por exemplo: é assim na Índia ou
4. Qual das representações, mapa ou imagem, é a na China?
que melhor expressa a realidade? Justifique. f Identifique as zonas mais iluminadas da
Espera-se que os alunos entendam que as duas formas de imagem e, observando o mapa, descreva a
representação são igualmente válidas, cada qual com sua urbanização ali existente.
função. A ideia é que percebam que o mapa e a imagem não f Comente no seu texto se o uso conjunto
são expressões exatas das realidades geográficas, mas são in- da imagem de satélite e do mapa das me-
tencionais. Elas são representações, formas de reapresentar trópoles mais populosas acrescentou mais
as realidades por outros meios. Embora a imagem de satélite informações e enriqueceu a visão espacial
seja um produto de alta tecnologia, não deixa de ter a mesma do fenômeno urbano no mundo.
condição de representação de um mapa. Espera-se que, nos textos dos alunos, seja observado que:
tHá, sim, algumas coincidências entre as zonas de maior
Se a imagem é uma representação do concentração de iluminação e as de maiores aglomera-
mundo à noite, o que está realçado ções, porque próximo a determinadas aglomerações as
aos nossos olhos são as áreas mais áreas são mais urbanizadas. É o que acontece em São
iluminadas, ou seja, áreas de maior concentração Paulo, por exemplo.
da energia elétrica. Essa informação simples é tNos EUA, há uma ampla extensão de vários segmentos mais
muito preciosa. Que tal uma comparação dessa iluminados e isso não se repete, de modo algum, na China e
imagem com o mapa Evolução das 150 metrópo- na Índia, onde a iluminação é mais concentrada.
les mais populosas, 2010 (Figura 2)? As orienta- tAs zonas mais iluminadas encontram-se nos EUA e na Euro-
ções para esta atividade estão na seção Lição de pa, áreas de grande e intensa urbanização, mesmo que não
casa do Caderno do Aluno, e a atividade poderá sejam as maiores aglomerações urbanas.
ser utilizada como avaliação em processo. tObservando as duas representações, é possível concluir
que, apesar de as maiores aglomerações se encontrarem
A ideia é que os alunos escrevam um texto na Ásia, isso não quer dizer que ali estejam as maiores zonas
comparativo, baseando-se nos itens apresen- iluminadas. A relação entre urbanização e zonas iluminadas
tados no roteiro a seguir. existe, mas a coincidência não é total, pois zonas mais desen-
volvidas industrialmente são mais eletrificadas. E, mesmo que
f Compare as zonas com maior concen- as aglomerações urbanas situadas nos países desenvolvidos
tração de iluminação com as de maior não tenham o mesmo porte das aglomerações asiáticas (a
aglomeração urbana e veja se há alguma exceção aqui é Tóquio), é nelas que se notam as zonas mais
coincidência. iluminadas captadas pela imagem.

39
Etapa 1 – O sensoriamento remoto: Leitura e análise de texto e quadro
como se produz uma imagem de
satélite Agora que os estudantes já fizeram a
comparação entre a imagem de satélite e o
Como foi obtida essa imagem de satélite do mapa de aglomerações urbanas, bem como
mundo à noite? As imagens de satélite, como extraíram e interpretaram informações de
o próprio nome diz, são obtidas por meio de uma imagem, é preciso ter sob controle al-
satélites dotados de sensores óticos colocados gumas informações sobre o sensoriamento
na órbita terrestre pelo ser humano. Países e remoto. O trabalho com o texto a seguir,
empresas podem ser seus proprietários. As que descreve, com a objetividade neces-
imagens de satélite são conhecidas como pro- sária, esse recurso humano, será um bom
dutos do sensoriamento remoto orbital. ponto de partida.

Sensoriamento remoto

Remoto quer dizer distante, logo, o sensoriamento remoto é um meio para a obtenção de informa-
ções a distância. O sensor capta a interação dos objetos com a radiação eletromagnética, e essa intera-
ção é transformada em informação. Esse é um dos tipos de sensor que existem.

As fotografias aéreas são outro produto do sensoriamento remoto, podendo ser utilizadas, por
exemplo, para produção de mapas. Elas são obtidas no chamado nível suborbital. No nível orbital
(sensores óticos orbitais localizados em satélites) são coletadas informações meteorológicas, úteis
para previsões do tempo, por exemplo. Mas um uso fundamental das imagens de satélite está liga-
do ao estudo e à localização de recursos naturais, como no caso do satélite Landsat.

As condições orbitais em que se encontram os satélites permitem que suas imagens cubram
grandes extensões da superfície terrestre de forma repetitiva. Permitem também a coleta de in-
formações em diferentes épocas do ano e em anos distintos, o que facilita os estudos dinâmicos
em diferentes escalas, desde as continentais e as regionais até as locais, como, por exemplo, dis-
ponibilizar a imagem de uma casa.

Além de desenvolver mapas, o sensoriamento remoto permite, ainda, obter informações sobre
áreas minerais, bacias de drenagem, agricultura, florestas; fazer previsões com relação ao plane-
jamento urbano e regional; monitorar desastres ambientais, como enchentes, poluição de rios e
reservatórios, erosão, deslizamentos de terras, secas; monitorar desmatamentos; realizar estudos
sobre correntes oceânicas e movimentação de cardumes, aumentando, assim, a produtividade da

40
Geografia – 1ª série – Volume 1

atividade pesqueira; realizar estudos para a construção de rodovias e linhas de fibra ótica; fazer
estimativas de áreas plantadas em propriedades rurais para fins de fiscalização do crédito agrícola;
identificar áreas de preservação permanente e avaliar o uso do solo; implantar polos turísticos ou
industriais; avaliar o impacto da instalação de rodovias, ferrovias ou de reservatórios etc.

Os dados obtidos por sensoriamento remoto contribuem para o desenvolvimento do planejamento


regional, ao disponibilizar informações privilegiadas, que, depois de cruzadas com dados socioeconô-
micos, permitem estabelecer panoramas de alta confiabilidade com relação às reais necessidades dos
municípios, apontando áreas de vulnerabilidade ambiental.

Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente para o São Paulo faz escola.

1. No Caderno do Aluno, algumas palavras que vai captar radiações em interação com o meio físico da
e expressões deste texto estão destacadas superfície (com todos os seus componentes).
(sensor, radiação eletromagnética, suborbi-
tal, satélite, bacias de drenagem, fibra ótica b) Quais são os principais usos do senso-
e vulnerabilidade ambiental. As definições riamento remoto?
estão no final do Caderno do Professor (p. Em termos gerais, eles servem para monitorar a superfí-
133). Sugerimos que os alunos sejam esti- cie terrestre sob os mais diferentes aspectos. Quanto mais
mulados a pesquisar o significado dessas a tecnologia se desenvolve, cresce também a riqueza de
palavras no dicionário e a registrá-las em detalhes das imagens, ampliando as possibilidades de mo-
seus cadernos. Oriente-os a reler o texto e nitoramento. Já se pode utilizar imagens de satélite para:
refletir em duplas sobre o que é sensoria- acompanhar e fazer previsões sobre os fenômenos climá-
mento remoto, sensoriamento suborbital, ticos; monitorar queimadas e diversos desastres naturais (e
sensoriamento orbital, sensoriamento re- provocados pelos seres humanos); analisar e cartografar a
moto orbital, entre outras definições apre- dinâmica geográfica da área visada; desenvolver estratégias
sentadas no texto. militares etc. A tecnologia amplia as potencialidades de ob-
servação da superfície terrestre, e tal recurso pode ser utili-
a) Como funciona o sensor remoto para a zado com fins benéficos ou não.
obtenção de imagens de satélite?
Para se obter imagens de satélite, é preciso, antes, que se lan- Algumas informações complementares
cem na órbita terrestre satélites devidamente programados e podem contribuir para aprofundar o estudo
equipados com meios para captar as informações da superfí- sobre o sensoriamento remoto, especialmente
cie da Terra a distância, remotamente. Esse meio é um sensor no que se refere à imagem de satélite.

41
Afinal, de que maneira se pode utilizar, na com relação à Terra. Um pequeno quadro
prática, as imagens de satélite para finalidades comparativo (Quadro 3), presente no Cader-
diversas? Um exemplo pode ser útil para en- no do Aluno no exercício 2 da seção Leitura e
tender essa questão: existem satélites geoes- análise de texto e quadro, pode dar pistas das
tacionários e existem satélites em movimento possibilidades diversas das imagens de satélite.

Satélite geoestacionário Satélite orbital

Tem uma órbita equatorial e movimenta-se com velo- Percorre uma órbita em torno da Ter-
cidade coincidente com a de rotação da Terra. ra, circulando-a várias vezes por dia.

Pode captar muitas imagens de uma mesma por- Pode captar imagens de diversas por-
ção da superfície terrestre em um curto intervalo ções da superfície terrestre, registran-
de tempo. do-as com detalhes.

Por fornecer dados contínuos, é apropriado para


Apropriado para produzir informa-
acompanhar dinâmicas locais e a evolução de
ções mais detalhadas e precisas, algu-
eventos, como a incidência de queimadas na
mas das quais não seriam possíveis de
Amazônia, sendo também usado na área de
ser obtidas de outra forma.
telecomunicações.
Quadro 3 – Quadro comparativo de satélite geoestacionário e satélite orbital. Elaborado especialmente para o São Paulo faz
escola.

2. Para refletir sobre o Quadro 3, o profes- b) Qual dos dois tipos de satélite – geoes-
sor poderá pedir que os alunos respon- tacionário ou orbital – é mais adequado
dam às seguintes questões no Caderno para acompanhar a evolução de fenô-
do Aluno. menos (captados em imagens) durante
um curto espaço de tempo? Por quê?
a) Considerando o quadro e a análise rea- O satélite geoestacionário é o mais adequado para acompa-
lizada, defina o que é um sensor remoto nhar em curto espaço de tempo a evolução dos fenômenos em
orbital e responda se existem satélites determinado terreno. Os satélites que circulam na órbita terres-
com essa tecnologia. tre dão uma volta na Terra e, somente após completá-la, tornam
Um sensor remoto é o meio de obtenção de informação a a obter imagens dos mesmos pontos. Por isso, seu intervalo de
distância, como uma câmera fotográfica, por exemplo. Um tempo é maior do que o de um satélite geoestacionário.
satélite que capta as informações da Terra também é um
sensor remoto, e aqueles que ficam na órbita da Terra são c) Qual dos dois tipos de satélite – geoes-
os sensores remotos orbitais. Existem ainda sensores remotos tacionário ou orbital – pode obter ima-
que não são orbitais, e não estão na órbita da Terra, como um gens mais amplas da superfície terres-
avião que faz fotos aéreas. tre? Por quê?

42
Geografia – 1ª série – Volume 1

Os satélites orbitais são os que podem obter imagens mais amplas uso está voltado para o estudo de questões im-
da Terra, pois têm vários ângulos de visagem, com várias qualida- portantes da atualidade, envolvendo proble-
des de imagem, em razão das diversas posições que eles conse- mas socioeconômicos e ambientais de grande
guem assumir. Já os geoestacionários mantêm-se, em geral, em relevância em suas diferentes escalas. Além
uma órbita equatorial com um ângulo de visada que cobre até disso, parte importante dos conhecimentos da
certa latitude e é mais restrito em termos de amplitude espacial. Geografia é obtida por meio das diversas for-
mas de sensoriamento remoto.
Avançar na compreensão do sensoriamen-
to remoto, como recurso didático-pedagógi- Leitura e análise de imagem
co, permite desmistificar a ideia de que essa
tecnologia de ponta encontra-se distante da Nesta etapa os alunos irão analisar a ima-
escola e da cidadania. Essa questão é parti- gem da Figura 17 e responder às questões a
cularmente relevante no momento em que seu seguir no Caderno do Aluno.

© Depto de Satélites Ambientais do INPE

Figura 17 – Imagem meteorológica. Fonte: Departamento de Satélites Ambientais do INPE (12 mar. 2008).
Disponível em: <http://www.cpa.unicamp.br/atualizacoes-regulares/imagens-de-satelite-goes.html>.
Acesso em: 12 nov. 2013.
43
1. Qual parte do globo terrestre a imagem seção climática. É justamente essa multiplicação
mostra? do uso das imagens de satélite que será o objeto
A imagem mostra a América do Sul, abarcando parte do desta etapa da Situação de Aprendizagem.
Oceano Atlântico e do Oceano Pacífico.
Na sequência, apresentamos uma
2. Que fenômeno da natureza ficou registrado sugestão de Pesquisa em grupo,
na imagem? Por que se retrata regularmen- para ser realizada pelos alunos.
te o fenômeno em destaque na imagem? As orientações constam do Caderno do Aluno.
Foi registrada a parte visível dos fenômenos meteorológicos,
ou seja, os sistemas de nuvens por meio dos quais se interpre- 1. Sugerimos que os alunos, individualmente,
tam tais fenômenos. O registro regular da evolução desses coletem o máximo possível de materiais que
fenômenos viabiliza a previsão do tempo. revelem a presença de imagens de satélite na
imprensa escrita ou mesmo em atlas e livros
3. Essa imagem foi registrada por um satélite didáticos. Após identificar e recortar imagens
geoestacionário. Em que posição em rela- de satélite publicadas, os alunos devem poste-
ção à Terra se encontrava esse satélite para riormente criar uma classificação. A proposta
poder tirar essa foto? é que se considerem os seguintes critérios:
Essa imagem foi captada por um satélite geoestacionário em
uma posição orbital terrestre mais ou menos fixa, com uma velo- f tema da imagem (clima, desmatamento,
cidade de órbita idêntica à da Terra, daí a condição de “estacioná- urbano etc.);
rio”. Fica a uma altura superior a 35 km na direção do Equador. O f extensão coberta pela imagem (por exemplo:
satélite GOES é pertencente aos EUA e fornece imagens ao Brasil. América do Sul, Brasil ou uma cidade);
f veículo no qual a imagem foi publicada
Etapa 2 – Descobrindo imagens de (jornal ou revista);
satélite no cotidiano f data da publicação e da imagem (se houver);
f periodicidade da seção na qual a imagem foi
Existe uma razão importante para defender publicada (se a imagem aparece em uma se-
a presença de atividades que informem e ensi- ção periódica ou em uma publicação even-
nem a usar o sensoriamento remoto no am- tual, associada a um assunto específico).
biente escolar: seus produtos estão cada vez mais
presentes no cotidiano. Diretamente, as imagens 2. Em grupo, os alunos devem analisar o re-
de satélite são visíveis na televisão, no cinema e sultado do levantamento, da coleta e da
na imprensa escrita. Por exemplo: não há mais classificação que cada um fez. Com esse
jornal diário de grande porte, com um segmen- material organizado, é possível criar pe-
to fixo de previsão do tempo, que não publique quenos relatórios sobre cada um dos tipos
uma imagem de satélite mostrando a disposição de imagens de satélite que estão presentes
das massas de ar. Mas a presença das imagens em nosso cotidiano. Propomos que conte-
de satélite nos meios de informação vai além da nham os relatórios itens como:
44
Geografia – 1ª série – Volume 1

f para que servem as imagens e qual o uso f Qual é a utilidade das imagens de satélite para
que as pessoas podem fazer delas; a previsão dos fenômenos climáticos (se for
f o que as imagens relativas a um mesmo necessário, faça uma pequena pesquisa no seu
fenômeno permitem conhecer deste fenô- livro didático, ou em outro material ou fonte)?
meno (um exemplo: há muitas informa- f Qual é o tipo de satélite ideal para o mo-
ções recentes sobre o desmatamento na nitoramento climático: geoestacionário ou
Amazônia, e é bem provável que vocês orbital? Justifique no texto a sua opção.
terminem encontrando imagens que os Espera-se que os alunos produzam um texto que contenha
ajudem a ter uma visão de conjunto des- informações sobre os satélites meteorológicos e sua impor-
se fenômeno). tância na previsão do tempo. O conhecimento das mudan-
ças no tempo atmosférico auxilia na agricultura, pode evitar
Para finalizar esta Situação de acidentes e permite o monitoramento de áreas de risco (en-
Aprendizagem, na seção Lição chentes e escorregamentos de terra).
de casa, o aluno deve ser orienta- Neste caso, os satélites geoestacionários são ideais para
do a produzir um texto discutindo a impor- o monitoramento climático, pois, por captarem informa-
tância das imagens de satélite com base nas ções sempre da mesma área, possibilitam o estudo das
seguintes questões: permanências e mudanças.

SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 3
GEOPOLÍTICA: O PAPEL DOS ESTADOS UNIDOS
E A NOVA “DESORDEM” MUNDIAL

Em um mundo cada vez mais globalizado f Tanto se constroem acordos econômicos


o termo geopolítica vem ganhando nova di- e de cooperação, como se realizam ações
mensão. Mas o que há por trás desse vocábulo estratégicas em busca de vantagens econô-
que funde o prefixo geo com a palavra política? micas e territoriais;
Será uma mistura de geografia e política? Duas f Celebra-se a paz em tratados internacio-
ideias a respeito do que é geopolítica podem ser nais, como se faz a guerra.
afirmadas de início, para orientar a discussão e
as atividades que serão propostas. Tantos são os países (Estados nacionais
territoriais) no mundo quanto são os inte-
A geopolítica não se refere à política tradi- resses que não se harmonizam. A lógica de
cional, pois esta somente é praticável nos limi- construção de interesses de um país A não
tes territoriais de um país e de uma sociedade. corresponde necessariamente aos interesses
Ela diz respeito, principalmente, à ação que do seu vizinho B. O funcionamento interno
põe em contato Estados nacionais territoriais de um país, de uma sociedade nacional, não
(países) entre si. Por intermédio da geopolítica: tem como objetivo criar interesses comuns com

45
outros países. Em geral, mal se conseguem criar Seria correto dizer então que estamos au-
interesses comuns internamente a um país. mentando para a humanidade (representada
em várias sociedades nacionais diferentes) o
Apesar de serem guiados por perspectivas risco da ampliação de conflitos? Duas respos-
isoladas, desde há muito tempo os países vêm tas podem ser dadas a essa questão.
se abrindo para relações internacionais. Aliás,
muitos devem sua própria fundação e existên- f Não é bem assim, porque, apesar dos di-
cia às interações com outros países. Não será versos e diferentes interesses nacionais,
esse o caso do próprio Brasil? Assim, criou-se há vantagens econômicas e culturais de
historicamente uma teia, uma malha de rela- estabelecer relacionamento internacional,
ções internacionais, dotada de alguma ordem, guiando interesses nessa direção. São raros
que, por vezes, pode ser vista como um siste- os Estados nacionais e as sociedades que
ma. Eis algumas características elementares optam pelo isolamento.
dessas relações: f Há também países poderosos que têm força
para influenciar a criação de uma certa or-
f Caracterizaram-se pela desigualdade, com dem nessas relações. Essa força é traduzida
alguns países levando maiores vantagens em uma expressão muita utilizada quando
econômicas, estabelecendo os parâmetros se fala na geopolítica internacional: po-
das relações, subordinando os mais frágeis. tência, ou mesmo superpotência. Por isso,
f Resultaram de negociações difíceis, pois pode-se falar em ordem mundial ou, então,
poucas vezes as relações internacionais en- velha ordem mundial, a atual Nova Ordem
contram apoio das sociedades. Exemplo: se Mundial, “desordem” mundial etc. Alguns
importar bens industriais de outros países chegam a falar em sistema mundial.
sem maiores restrições prejudica os produ-
tores do país, não seria melhor impor restri- A natureza das ações que constroem, que
ções, impostos, proibições parciais? sustentam, que desagregam essa(s) ordem(ns)
f Os conflitos de interesses econômicos entre mundial(ais), ou o sistema mundial, é dada
países nessa “arena internacional” estiveram pela geopolítica.
entre os motivos principais de várias guerras,
inclusive as chamadas guerras mundiais. Existe uma ordem mundial contemporâ-
f Com o desenvolvimento dos meios de nea possível de ser descrita? Existe, e nela os
transportes e de comunicação, as distân- EUA são um país que tem um papel-chave. Sem
cias geográficas estão cada vez menores, o entendimento do que é geopolítica, Estado
aumentando o potencial de relações eco- nacional, potência e superpotência, e sem co-
nômicas, sociais e culturais entre os países. nhecer um pouco da história da construção
Quer dizer: mais interesses nacionais dife- desse poder dos EUA, essa ordem mundial
rentes entram em contato. não será compreensível.

46
Geografia – 1ª série – Volume 1

Conteúdos: geopolítica; Estados nacionais; potência e superpotência; espaço e poder; relações interna-
cionais; ordem mundial (sistema mundial); sociedade mundial; o papel dos EUA; a vocação geopolítica
dos EUA vista historicamente; a superpotência na escala mundial.
Competências e habilidades: expor e discutir ideias por meio de exposição oral; leitura e interpretação
de textos e das ideias resultantes da participação nas discussões coletivas em sala; relacionar conceitos;
expressar o pensamento pela redação de textos; estabelecer relações a partir de diferentes escalas geo-
gráficas; interpretar mapas; elaborar mapas; desenvolver habilidades relativas à participação coletiva.
Sugestão de estratégias: aulas expositivas; apresentação do objetivo da unidade e síntese dos conteúdos
a ser estudados; situação dialógica; análise textual sobre a expansão territorial dos EUA; apresentação,
em grupo, dos resultados da pesquisa; leitura e interpretação de texto em grupo; elaboração de disserta-
ção individual sobre a posição geopolítica dos EUA.
Sugestão de recursos: aulas expositivas e dialógicas; uso de textos e mapas.
Sugestão de avaliação: compreensão e análise de textos; relatórios; elaboração de textos e mapas; com-
preensão e análise de mapas; envolvimento e participação nas atividades de pesquisa e na apresentação
individual e coletiva; questões abertas.

Etapa prévia – Sondagem inicial e aqui vale ver, junto aos alunos, o que eles já
sensibilização sabem somente sobre esse aspecto. Para isso,
eles deverão responder às seguintes questões
O professor pode começar baseando- da seção Para começo de conversa do Cader-
-se em um conflito contemporâneo ao qual no do Aluno.
todos estão fartamente expostos e que, na
época, esteve presente nos meios de comu- 1. Existe um termo muito utilizado para se
nicação. Trata-se da invasão do Iraque pe- falar da situação mundial, das relações e
los EUA, com o apoio da Inglaterra, para dos conflitos internacionais: “geopolítica”.
derrubar o presidente Saddam Hussein. Isso O que há por trás dessa palavra que mistu-
aconteceu em 2003, e todas as suas conse- ra os termos “geo” e “política”? Será uma
quências ainda estão em andamento. mistura de geografia e política? Justifique
sua resposta.
Não houve nos últimos tempos nada que te- A palavra “geopolítica” não representa uma simples fusão dos ter-
nha tido mais espaço nos meios de comunicação mos “geografia” e “política”. Mais do que isso, ela significa uma
que os eventos associados ao atentado terroris- política entre Estados-nação (países) que se utilizam de meios
ta que os EUA sofreram em 11 de setembro de não políticos sempre que necessário, como as sanções econômi-
2001, e a invasão do Iraque é um deles. cas e a violência, a guerra, para fazer valer seus interesses.

Algo interessa muito para a discussão 2. A invasão do Iraque pelos Estados Uni-
sobre o que é geopolítica nesse caso: Como dos da América, em 2003, derrubou o
se deu a decisão dos EUA invadir o Iraque? E presidente Saddam Hussein.

47
a) A Organização das Nações Unidas da geopolítica. De fato, trata-se de um país com uma consti-
(ONU), fundada em outubro de 1945, tuição social precária (etnias e grupos tribais em confronto),
após o fim da Segunda Guerra Mundial, fortemente islamizado por grupos organizados atuantes na
tem como uma de suas funções tentar re- vida política (talebans), e que tem sido palco de inúmeros
solver conflitos internacionais. A invasão conflitos geopolíticos recentes.
do Iraque pelos EUA foi discutida na
ONU? Por qual órgão da entidade? Que d) Por que, em um prazo tão curto, os EUA
países participaram dessa discussão? invadiram militarmente o Afeganistão e
Os EUA alegavam que o Iraque protegia grupos terroristas inimi- o Iraque? Qual é a relação dessa invasão
gos dos estadunidenses e que seu governo desenvolvia um pro- com o atentado terrorista aos EUA, em
grama de produção de armas de destruição em massa. A ques- 11 de setembro de 2001? Justifique.
tão da invasão do Iraque foi discutida na ONU, pelo Conselho Essas invasões têm relação direta com o atentado terrorista em
de Segurança (CS), cujos membros permanentes são os EUA, a Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, quando dois aviões
Rússia, o Reino Unido, a França e a China. Apenas os membros foram levados a colidir contra dois imensos prédios dessa ci-
permanentes têm poder de vetar as deliberações do CS. dade (World Trade Center), matando milhares de pessoas. O
atentado foi reivindicado por um grupo terrorista do Oriente
b) A ONU aprovou a invasão? Todos os Médio, a Al-Qaeda. O Iraque e o Afeganistão são países que,
países estavam de acordo com os EUA? na época do ataque, tinham governantes contrários aos inte-
Em caso negativo, quais se manifesta- resses dos EUA. O grupo terrorista de Osama bin Laden assu-
ram contra? miu a autoria do atentado terrorista e, supostamente, manteria
A ONU não aprovou a invasão, pois nem todos os países com ligações fortes com esses governos, o que só se confirmou no
poder de veto que participaram da deliberação estavam de caso dos talebans afegãos. A proposição pede também que o
acordo com as avaliações e os argumentos dos EUA. Rússia, aluno acrescente o que ele sabe sobre essa região do mundo.
China e França se opuseram à operação. Os alunos podem Isso é livre, embora o professor possa orientar alguma pesquisa
ainda citar outros países que não são membros permanentes se achar necessário.
do Conselho e se manifestaram contra, como o Brasil. O importante, no caso, é ele chegar a uma noção das razões
da instabilidade da área, que implicam as relações com o Oci-
c) Um ano antes de ocupar o Iraque, os dente (o que inclui as reservas de petróleo do Iraque) etc.
EUA invadiram o Afeganistão. Onde se
localizam esses dois países? O que você Não é possível prever que conhecimento
sabe a respeito dessa região do mundo? os alunos vão revelar a respeito do assunto e
O Afeganistão também foi invadido pelos EUA, em 2001. Esse do aspecto que está sendo valorizado (Como
país faz fronteira com o Paquistão e era acusado de ser usa- se deu a decisão de invadir o Iraque?), mas é
do como área de ação e de proteção de um grupo terrorista muito importante que o professor comple-
que atacou a cidade de Nova Iorque. Logo, segundo a visão mente o que for necessário.
dos governantes estadunidenses, o território afegão era um
reduto de inimigos, expressão típica do repertório linguístico Não são necessários muitos detalhes; basta

48
Geografia – 1ª série – Volume 1

assinalar que, no Conselho de Segurança da O conceito de potência (e de superpotên-


ONU, os EUA se empenharam em demons- cia) mostra-se decisivo no entendimento do
trar que o Iraque havia apoiado o atentado sistema mundial. Não há referência possível
terrorista e que, em seu território, Saddam à ordem mundial sem que se mencionem as
Hussein estava produzindo armas de destrui- principais forças, os principais agentes. Vale
ção em massa. Os EUA não obtiveram suces- lembrar: as ordens mundiais sempre foram
so em convencer boa parte dos países. Suas desiguais, nem todos os países envolvidos ti-
propostas saíram derrotadas. nham a mesma força. E a palavra força asso-
cia-se à potência.
A invasão ao Iraque não foi aprovada pelo
Conselho de Segurança da ONU e, mesmo as- Não há tanto mistério nisso e, seguramen-
sim, os EUA invadiram o Iraque. Por que os te, os alunos já devem ter alguma ideia do que
EUA desrespeitaram aquela decisão? Aqui é caracteriza um país como potência. Como
o momento de, com ênfase, destacar para os sempre, provocar um envolvimento do aluno
estudantes que nessa resposta se esconde a es- com base no que ele já sabe pode instigá-lo.
sência da geopolítica. E que é preciso traba- Levante a seguinte questão: De onde vem a
lhar com paciência algumas atividades, para força de um país, para lhe permitir ser uma po-
revelar essa essência. tência que influencie a ordem mundial? Segu-
ramente quatro respostas vão predominar, e
Etapa 1 – Potências, superpotências talvez seja interessante registrá-las:
e ordem mundial
f força econômica;
A sugestão inicial é que uma breve exposi- f força militar;
ção situe um pouco da história da geopolítica. f força cultural;
f rede de relações (força para expandir geo-
O mapa Mundo: a bipolaridade e a or- graficamente suas relações).
dem westfaliana, 1950-1980 (Figura 18)
apresenta o estabelecimento de uma or- Sem dúvida, essas quatro características
dem mundial influenciada diretamente se complementam, mas podem ser pensadas
pelos EUA e pela URSS, evidenciando os separadamente. Por exemplo, a URSS tinha
conflitos ligados à definição das identida- força militar e alguma força econômica, uma
des territoriais ou separatistas, fronteiras limitada rede de relações e influência cultural
fechadas pela Guerra Fria, os blocos de restrita à questão política (propaganda do so-
países associados aos Estados Unidos e à cialismo). O aspecto militar predominava. Já
URSS, bem como os conflitos armados im- no caso dos EUA, as quatro características
pulsionados naquele período. são bem ressaltadas, de modo que são consi-
derados uma superpotência.

49
A quarta característica deverá ser a que re- O mapa representa algumas situações de fronteiras fe-
ceberá menos destaque pelos alunos, merecen- chadas no período representado (1950-1980). A mais im-
do nossa particular atenção em razão de seu portante das áreas onde há esse fechamento encontra-se
caráter geográfico, porque expressa o controle na Europa, mais exatamente dividindo-a em duas, a do
do espaço na escala mundial por parte da po- Oeste e a do Leste.
tência ou superpotência. Quanto mais investir Essa fronteira fechada era chamada de Cortina de Ferro e
em meios de superar a distância geográfica, separava o mundo capitalista do mundo socialista. Outras
mais um país fará seus produtos, sua cultura fronteiras fechadas ficam na Coreia e em Cuba.
e sua força chegar a vários pontos do planeta.
Sem essa capacidade, um país não pode ser 2. O que esse fechamento de fronteiras simboli-
chamado de potência, pois não será um ator zava? Teria ele relação com a ampliação das
importante na formação da ordem mundial. relações das superpotências da época? Quais
eram essas superpotências?
Depois do resultado dessa breve enquete Esse fechamento era a expressão do período da Guerra Fria,
feita com os alunos, o professor poderá res- cuja ordem mundial era influenciada diretamente pelos EUA
saltar que, provavelmente, a característica e pela URSS. Daí ser designado como ordem bipolar.
menos notada merece ser colocada no pri-
meiro plano ao lado das outras. Pode-se até 3. Você sabia que a área sob influência da
aceitar sugestões para a criação de um termo União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
que expresse essa capacidade: força geográfi- (URSS) foi chamada de Cortina de Ferro e
ca, força espacial. Isso vai ajudar a sala a en- procurava se fechar à influência da super-
tender a ordem mundial e a perceber o papel potência estadunidense? Esse fato não in-
da geopolítica. dica a grande importância existente na ca-
pacidade geográfica dos países de atuar na
Leitura e análise de mapa arena internacional? Justifique.
A forma simbólica de designar as fronteiras fechadas (Cortina
Para ampliar a discussão sobre a ordem de Ferro) mostra como o denominado mundo socialista pro-
bipolar, sugerimos que o mapa (Figura 18) curava impedir a influência do lado ocidental sobre seu des-
seja trabalhado com os alunos por meio das tino, pois a capacidade geográfica de alguns países de levar
seguintes questões no Caderno do Aluno. aos outros os seus interesses e valores é muito grande. Vale
dizer que, à sua maneira, no mundo ocidental havia também
1. Procure localizar e identificar as áreas onde quem temesse a influência do modo de vida socialista e, de
havia fronteiras fechadas durante a Guerra certo modo, censuravam-se informações sobre essa realidade,
Fria (observe a legenda, se for necessário). criando também uma barreira.

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A BIPOLARIDADE E A ORDEM WESTFALIANA - 1950-1980

Irlanda Coreia, 1950-53

País Basco
Ex-Iugoslávia
Cuba 1962
Curdistão
Nicarágua Saara Ocid. Indochina, Vietnã
1945-75
1979-90
Sri Lanka

Nigéria 1970-75 A bipolaridade


Etiópia Países ligados
Somália aos EUA por um acordo
militar, como a Otan
Grandes Lagos Outros países ligados
anos 1960 e 1990 ao bloco do Oeste (1980)
Os territórios Países ligados à URSS
por um acordo militar,
Fronteiras “fechadas” como o Pacto de Varsóvia
pela Guerra Fria
Outros países ligados
“Implante” do Estado ao bloco do Leste (em torno de 1980)
Conflitos ligados à definição Conflitos ou crises ligados

Oficina de cartografia da Sciences Po,


R. GIMENO, C. GOIRAND, outubro de 1998
Projeção de J. Bertin, 1950

das identidades territoriais ou separatistas ao enfrentamento Leste-Oeste


Figura 18 – Mundo: a bipolaridade e a ordem westfaliana, 1950-1980. La bipolarité et l’ordre westphalien (1950-1980). Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível em:
<http://cartographie.sciences-po.fr/fr/guerre-froide-1950-1980>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não
estão representadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico). Tradução: Renée Zicman.
Geografia – 1ª série – Volume 1

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Espaço é poder

O conceito de geopolítica começou a ser utilizado no final do século XIX, em uma referência à ação
do Estado territorial. Defendia-se, à época, que, assim como as espécies animais e vegetais, os seres hu-
manos dependem de território para sua existência. E que há, naturalmente, uma competição por esse
espaço vital para nossas vidas. Uma luta, na verdade, que vence aquele grupo que tiver mais poder.
Esse pensamento disseminou-se na Alemanha e também nos EUA, ainda no final do século XIX. Quem tem
mais poder, quem for uma potência maior, incorpora mais território ao seu controle. E ter muito espaço é poder.

A derrota na Primeira Guerra Mundial fortaleceu o entendimento de que a Alemanha só teria po-
der se arregimentasse mais territórios (pan-germanismo). Esse raciocínio alimentou as ações de Hitler
na Segunda Guerra Mundial. Depois da perda de milhões de vidas humanas e recursos materiais, a
Alemanha foi derrotada, e os Estados Unidos se firmaram como grande potência, uma superpotência
capaz de criar e influenciar uma Nova Ordem Mundial. Mas logo após a guerra eles não eram a única
superpotência. Surgia também um vitorioso concorrente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
um poderoso Estado territorial que atualmente já não existe mais.

A visão de que espaço é poder, uma das faces da geopolítica, esteve sempre presente nesses
imensos conflitos que definiram a forma do sistema mundial depois da Segunda Guerra Mundial.
De alguma maneira, esse ponto de vista permanece presente.

Elaborado por Regina Célia Bega dos Santos especialmente para o São Paulo faz escola.

Roteiro para análise do texto

1. O que se entendeu com a ideia de que es- como a capacidade de influenciarem culturalmente ou-
paço é poder? Uma sociedade será tanto tros territórios e países.
mais forte quanto mais território possuir?
Olhando o mundo atual, isso fica eviden- 2. Em que momento o texto se refere à ordem
te? Os países que têm maior extensão ter- mundial? Ao fazer essa referência, ele está
ritorial são os mais poderosos em termos indicando agentes (atores) importantes na
militares e econômicos? Brasil e Índia se construção dessa ordem? Após a Segunda
enquadram nisso? Guerra Mundial, quem são os agentes de-
Com essa provocação, espera-se que o aluno esboce um cisivos na construção dessa Nova Ordem
início de uma relativização da ideia de que espaço é po- Mundial que viria a se impor?
der (pelo menos não é preciso ter vasto território para ter O texto faz referência à grande transformação ocorrida na
poder), ressaltando outros aspectos das superpotências, geopolítica mundial no início do século XX. Se no começo

52
Geografia – 1ª série – Volume 1

a Alemanha procurava um papel de destaque, o que a levou financeiro/econômico e militar e de suas re-
à Segunda Guerra Mundial, o desfecho desse conflito gerou des de relações. Considerando que a URSS
duas superpotências: os EUA e a URSS, países que saíram ven- não existe mais, cite os dez Estados em
cedores do conflito. condições de influenciar a organização e a
sustentação do sistema mundial. Quais ca-
Leitura e análise de quadro racterísticas cada um reúne para exercer sua
condição de potência? O Quadro 4, também
Dois, cinco, dez ou quinze Estados na- presente no Caderno do Aluno, pode ajudar
cionais e territoriais têm o mundo como a localizar esses agentes mais poderosos da
parte de sua extensão por causa de seu peso ordem mundial.

Força Força geográfica


Força militar Força cultural
econômica (força espacial)
EUA ++++ ++++ ++++ ++++
França + +++ +++ +++
Alemanha – +++ ++ +++
Japão – +++ +++ +++
Reino Unido
++ +++ +++ +++
(Inglaterra)
China +++ +++ ++ ++
Índia ++ ++ +++ ++
Espanha + ++ ++ ++
Rússia +++ ++ ++ ++
Brasil – ++ + +
Quadro 4 – Atuais potências mundiais e suas características. Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.

O Brasil foi colocado no quadro para que tros participantes. O que importa aqui é a
se tenha uma ideia do peso do nosso país. Tal- ideia de agentes mais poderosos e outros mais
vez não se possa considerá-lo uma potência. frágeis na organização do sistema mundial.
Embora o país seja um ator na formação da E, nesse caso, o peso dos EUA é significativo
ordem mundial, é considerado um ator inter- como uma e única superpotência.
mediário, coadjuvante.
O Quadro 4 poderá ser trabalhado com os
Obviamente esse quadro pode receber ou- alunos da seguinte forma no Caderno do Aluno:

53
1. Primeiramente, eles devem definir os ele- Considerando a ordem mundial, estrutura-
mentos presentes no quadro (as forças mi- da, antes de tudo, pelas potências que têm a
litar, econômica, cultural e geográfica). capacidade de fazer existir um mundo, e não
um conjunto de sociedades territoriais isola-
Força O poderio bélico organizado com gran- das, ainda se pode acrescentar alguns comen-
militar des exércitos e armamento moderno. tários para reflexão, em uma problematização
com os estudantes.
O poder no comércio mundial, na ca-
Força pacidade produtiva de suas empresas f As potências disputam terreno e espaço,
econômica e da imposição de seus interesses a como era claro na ordem mundial cujas
outros parceiros comerciais etc. colunas básicas eram EUA e URSS (do
fim da Segunda Guerra Mundial ao final
A capacidade de propagação de valo- dos anos 1980).
res culturais além da escala nacional, f Seus acordos e enfrentamentos mantiveram
Força
com a utilização, para tal, de produtos
cultural um certo equilíbrio no planeta, no sistema
estéticos (cinema, televisão, música,
mundial, mas não impediram múltiplas
literatura etc.).
guerras locais e conflitos regionais, que san-
graram várias sociedades do planeta.
Trata-se da força espacial, que é a ca-
Força f Na presente ordem mundial, acrescenta-
pacidade de fazer chegar influências
geográfica -se à força dos Estados nacionais terri-
de diversos tipos (em especial cultu-
(força toriais aquela das grandes corporações
rais), mercadorias, exércitos etc. a áre-
espacial)
as para além do seu território. econômicas (sistema produtivo, finan-
ceiro, serviços) que faz, também, uma
Quadro 5.
espécie de “geopolítica”. Soma-se tam-
2. Quais países podem ser designados como su- bém a força das instituições religiosas,
perpotências e quais seriam apenas potências? de larga difusão, e da ideologia (esta úl-
Somente os EUA podem ser designados como superpotência, e tima enfraquecida com a decadência do
países como França, Inglaterra, China e Rússia incluem-se entre mundo socialista).
aqueles chamados de potências de capacidades diferentes.
A ação da única superpotência, das ou-
3. Qual seria a força geográfica exercida pelo tras potências e dos países com margem de
Brasil? Justifique. manobra mais restrita, nessa ordem mun-
O Brasil tem uma baixa força geográfica e seu poder de fazer dial, não é orientada pela política conven-
chegar suas influências culturais e econômicas para além da cional, e sim pela geopolítica. Na próxima
escala nacional não é grande, em comparação às potências, etapa vamos nos aproximar mais da defini-
embora ele exista em alguma medida. ção de geopolítica.

54
Geografia – 1ª série – Volume 1

Etapa 2 – Definindo a geopolítica: a seus interesses, e não um bem comum. Quer dizer:
vocação geopolítica do EUA parece-se com a geopolítica, porque entendemos
que há um bem comum a zelar no Brasil.
Sugerimos ao professor que inicie esta etapa
retomando um fato discutido anteriormente: a Pois bem, na arena internacional, um país
questão da invasão dos EUA ao Iraque. atua defendendo o bem comum? Qual bem
comum? Se não é assim, ao menos os países
Antes de invadir o Iraque, os EUA tentaram atuam em prol de seus interesses, e é isso que
uma aprovação, um apoio da ONU. Não con- suas populações acham. E, na defesa de seus
seguiram. Mesmo assim atacaram aquele país interesses soberanos, se for preciso faz-se a
do Oriente Médio. Como pode ser julgada essa guerra: isso é a geopolítica. Uma política de
atitude dos estadunidenses que, mesmo perden- defesa de interesses únicos, que não tem como
do uma votação, não a respeitaram? Por que agir referência um bem comum, que, afinal, não
contra a vontade da maioria? O que faz que o existe em um mundo dividido.
governo estadunidense, o Congresso, sua popu-
lação, enfim, decida pela guerra, se outros países, Assim, entende-se porque a superpotên-
inclusive aliados, são contra a ação militar? cia, os EUA, opera sem considerar outros
interesses, outras opiniões, mesmo que não
A resposta seria: a lógica geopolítica. O Esta- desconsidere a necessidade de ter apoios. In-
do nacional e territorial dos EUA (a sociedade es- vadir o Iraque foi considerada uma ação de
tadunidense) tem interesses específicos, e somente segurança nacional de um país soberano, e
eles são levados em consideração. Suas necessida- seria obrigação do governo fazer isso, e não
des são a única referência, e não as da humani- se submeter a uma decisão da ONU. Esse é
dade, ou as do bem comum, diferentemente da o discurso da geopolítica, e é esse modo de
política interna de sua própria sociedade. pensar que comanda as relações internacio-
nais de todos os países.
Você pode perguntar aos estudantes qual
é a diferença entre a geopolítica dos países e A condição dos EUA, de superpotência
a política brasileira. Será que diriam que é a contemporânea, pode ser argumentada ten-
mesma coisa? Vale a pena fazer o teste, para do em vista seu desenvolvimento econômico
depois procurar uma distinção. e sua participação vitoriosa nos grandes con-
flitos do século XX. Mas não seria equívoco
Política é fácil de definir. Vamos ver o caso do enxergar na história desse país, desde sua in-
Brasil: em nosso país, reclamamos muito da qua- dependência da Grã-Bretanha até sua consoli-
lidade da vida política, dos partidos políticos e de dação como Estado nacional territorial, uma
nossos representantes. De que, em resumo, nos vocação geopolítica para grandes e ousadas
queixamos? De que os políticos defendem apenas ações internacionais.

55
Leitura e análise de texto

A leitura do texto a seguir e uma breve dis- Sugerimos que ele seja trabalhado com os
cussão sobre ele pode ilustrar historicamente alunos, no Caderno do Aluno, por meio das
os posicionamentos internacionais dos EUA. questões que o acompanham.

A “vocação” geopolítica dos EUA

No curso da história, a potência de um Estado nacional territorial se manifestou por ações de do-
minação tanto econômicas como culturais; pela conquista de territórios, quando populações foram
destruídas, submetidas, assimiladas ou incorporadas ao Estado mais poderoso. Mas a potência também
se manifestou como proteção com relação aos Estados mais frágeis. Aumentar o número de aliados, em
especial, se são vizinhos, ajudou a resistir a invasões e agressões de outras potências.

Os EUA, a grande superpotência do mundo contemporâneo, inscreve-se nessa história desde a sua inde-
pendência. Um marco notório da sua postura geopolítica ativa ficou conhecido como a Doutrina Monroe. Em
2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe enviou ao Congresso estadunidense a seguinte mensagem:

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses
dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que
adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização
por nenhuma potência europeia”.

A prevenção contra as potências colonizadoras europeias da época, para proteção de seu território
em constituição, passava pela aliança com os países vizinhos das Américas do Norte, Central e do Sul
e pelo apoio a esses países contra essas mesmas potências. Aliás, Monroe foi o primeiro presidente a
reconhecer as colônias espanholas como independentes. Pode-se afirmar que nesse momento apenas se
configurava o que já havia sido fecundado anteriormente e enunciado pelos seus primeiros presidentes,
como George Washington e Thomas Jefferson.

Posteriormente, respaldados nessa visão geopolítica de proteção contra outras potências, os EUA
partiram para a ampliação do seu próprio território. Além de acordos amigáveis e da compra de territó-
rios, os EUA também fizeram guerras e submeteram outros povos, como testemunham as brutais ações
militares contra indígenas e mexicanos durante o processo de ampliação do território estadunidense
para o Oeste (chegando até o Oceano Pacífico) e para o Sul.

56
Geografia – 1ª série – Volume 1

Alguns anos depois, um novo presidente, James Knox Polk, exacerbou o conteúdo da Doutrina
Monroe, que pregava “a América para americanos”. Com Polk, ampliou-se a influência direta no con-
texto americano, o que já mostrava o país como potência que criava uma ordem regional, no caso. Esse
presidente defendia a ideia de que os EUA estariam abertos a qualquer país que estivesse disposto a
anexar-se a eles. Na verdade, isso pode ser interpretado como uma justificativa para a anexação de
antigas áreas coloniais espanholas: Texas, Novo México, Califórnia, Colorado, Utah e Arizona, que
estavam associadas ao México. Com isso, este último foi despojado de do seu território da época.

Em meados do século XIX, a ampliação do território dos EUA continuava alternando compras,
acordos e anexações. Os Estados Unidos adquiriram dimensões continentais. Mas àquela altura o país
dividia-se internamente entre os interesses do Norte, que almejava modernização econômica e o fim da
escravidão, e os interesses do Sul, dominado por uma aristocracia agrária sustentada pela escravidão.
Esses interesses inconciliáveis redundaram em uma guerra civil que terminaria com a derrota do Sul.
A partir desse momento, o país entrou em um período de grande desenvolvimento.

A expansão da rede ferroviária e de comunicação teve um papel fundamental na consolidação geo-


gráfica desse território continental e na coesão de uma sociedade ainda desarticulada. Some-se a isso o
enorme desenvolvimento agrícola no Sul e no Oeste, que de nada adiantaria se o escoamento dessa pro-
dução não fosse protegido por uma legislação que garantisse reserva de mercado e restringisse produtos
estrangeiros, o que é um exemplo de ação geopolítica. Tudo isso contribuiu para que os EUA alcan-
çassem a liderança política nas Américas, acentuada por ações cada vez mais agressivas nas Américas
Central e do Sul. Na época já se falava no imperialismo estadunidense, expressão até hoje brandida por
muitas lideranças e forças políticas do continente.

No século XX, por exemplo, a América Central foi alvo de uma formidável ação geopolíti-
ca dos EUA, ação essa caracterizada pelo expansionismo econômico e pelo militarismo protetor.
Os investimentos na área foram significativos, passando inclusive pela construção de uma infraestrutura
de grande porte: o Canal do Panamá.

Quando esse investimento correu o risco de ser “apropriado” pelas forças locais dos países da Amé-
rica Central, ações intervencionistas foram realizadas em nome da liberdade, da democracia, figuras
de um bem comum que não existem realmente. Isso deixa esse intervencionismo nu, revelando sua ver-
dadeira motivação: os interesses próprios dos EUA e a autoproteção, a qualquer custo e em qualquer
território, de seus negócios.

Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente para o São Paulo faz escola.

57
© Danny Lehman/Corbis/Latinstock

Figura 19 – O traçado do Canal do Panamá (figura de referência), construído no século XX, quando o território desse país foi contro-
lado pelos estadunidenses.

QUADRO SINTÉTICO SOBRE O INTERVENCIONISMO


ESTADUNIDENSE (a partir de 1898)
Ocupação pelos soldados estadunidenses, 1898-1902;
Ligada aos EUA pela Emenda Platt, 1901;
CUBA Intervenção estadunidense, 1906-1909;
Intervenção transitória, 1917;
Revogação da Emenda Platt, 1934.
Ocupação estadunidense, 1909-1912;
Tratado Bryan-Chamorro, 1916;
NICARÁGUA Retirada dos fuzileiros, 1925;
Reocupação estadunidense, 1927;
Retirada estadunidense, domínio dos Somoza, 1933.
Ocupação estadunidense, 1915;
HAITI Conclusão do tratado de intervenção e sindicatura, 1915;
Retirada dos fuzileiros e fim da sindicatura, 1934.
Ocupado pelos estadunidenses, 1898;
PORTO RICO Cedido pelos espanhóis aos EUA, 1898;
Tornou-se comunidade com governo próprio, 1949.
Apoio à secessão da Colômbia, 1903;
PANAMÁ Tratado Hay-Bunau Varilla: domínio perpétuo, 1903;
Renúncia ao direito de intervenção, 1936.
Quadro 6 – Fonte: Arthur S. Link. História Moderna dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1965. v.I.

58
Geografia – 1ª série – Volume 1

Primeiramente, peça para que os alunos b) proteger seu território;


leiam o texto e assinalem todas a passagens que c) aumentar sua influência regional.
abordem as ações do governo dos EUA volta-
das para exterior com vistas a: 1. Na sequência, os alunos deverão preencher
o quadro a seguir sintetizando os aspectos
a) ampliar seu território; abordados no texto.

Ações do governo estadunidense voltadas para o exterior com vistas a:


O século XIX foi um período importante de formação territorial dos EUA. Nessa época, o território esta-
dunidense cresceu muito. O presidente James Knox Polk chegou a defender a ideia de que os EUA esta-
Ampliar seu riam abertos a qualquer país que estivesse disposto a anexar-se a ele. Isso serviu de pretexto para a anexa-
território ção de antigas áreas coloniais espanholas: Texas, Novo México, Califórnia, Colorado, Utah e Arizona, que
estavam associadas ao México. Em meados do século XIX, a ampliação do território dos EUA continuava
alternando compras, acordos e anexações.

Nos Estados Unidos, logo após sua independência, houve gestões e ações para que seu território não
fosse objeto de colonização por parte dos europeus. Isso passava pela aliança com os países vizinhos
Proteger seu
das Américas do Norte, Central e do Sul contra essas mesmas potências, como também pelo apoio a
território
esses países. Aliás, Monroe foi o primeiro presidente a reconhecer as colônias espanholas como inde-
pendentes, como meio para proteger os EUA.

No século XIX, já se falava no imperialismo estadunidense. No século XX, por exemplo, a América Central
Aumentar
foi alvo de uma grande ação geopolítica dos EUA, caracterizada pelo expansionismo econômico. Os inves-
sua influên-
timentos na área foram significativos, passando pela construção de uma infraestrutura de grande porte: o
cia regional Canal do Panamá.

Quadro 7.

2. Comparando-se essa trajetória dos EUA interesses e às estratégias de expansão do


com a do Brasil, haveria aspectos seme- poder de uma nação? Justifique, usando o
lhantes no que diz respeito às ações toma- exemplo dos EUA.
das em relação aos seus vizinhos e ao mun- Essa é uma definição possível e bem real da geopolíti-
do? Justifique. ca. E é tida como legítima, pois todos os países, antes
Existe uma vaga semelhança no que diz respeito à ação do de tudo, têm de defender os seus interesses. Os EUA são
Brasil em relação aos seus vizinhos. Mas, em geral, numa um exemplo claro disso em todo seu passado e agora,
comparação com a ação dos EUA, a ação do Brasil pode ser no presente, quando fica evidente a resistência de seus
considerada muito mais frágil e tímida. governantes em abandonar as posturas geopolíticas.

3. Considerando o que foi lido, você acha que 4. O Estado nacional e territorial dos EUA
se pode definir geopolítica como aquela (a sociedade estadunidense) declararam
ação voltada para o exterior (para os vi- seus motivos para invadir o Iraque. Que
zinhos e o mundo), visando à defesa dos outros motivos pode ter tido o governo

59
estadunidense para essa invasão? Justifi- Vamos sugerir primeiro algumas pesquisas para
que com base no texto. ampliação das informações:
A invasão ao Iraque teve uma motivação que, em muitos sen-
tidos, soou como pretexto para a defesa de interesses geo- f Sobre a história dos EUA, em especial, sobre a
políticos mais amplos do que um simples combate a grupos constituição de seu território: qual era seu ter-
terroristas. Afinal, no Iraque, há enormes reservas de petró- ritório no momento da independência e quais
leo, fonte energética estratégica para o futuro dos EUA, que foram as ações que levaram à sua configura-
dependem de sua importação para suprir suas necessidades. ção atual? Há farta bibliografia e informações
Além disso, a instabilidade naquele país e a presença de um na internet. Por exemplo, na Enciclopedia Wi-
governo hostil dificultariam as ações geopolíticas estaduni- kipedia <http://pt.wikipedia.org> (acesso em:
denses na região. Essa atitude é muito semelhante a outras 5 nov. 2013), professores e alunos poderão en-
que o texto menciona sobre essa vocação geopolítica dos contrar um mapa dos EUA com uma anima-
EUA, como a disposição de atuar a favor da independência ção referente à expansão para o Oeste. Além
das outras Américas, cujo objetivo real seria a garantia e a disso, há também uma enorme bibliografia a
expansão de mercados. respeito (os estadunidenses usaram o cinema
para fazer dos seus feitos uma mitologia he-
5. O que faz que o governo e o Congresso roica). Eis algumas sugestões de filmes:
estadunidense, sua população, enfim, de- – O nascimento de uma nação (The birth
cidam pela guerra, se outros países, até of a nation). Direção: David W. Griffith.
mesmo aliados, são contra? Essa ousadia EUA, 1914. 190 min. Filme mudo que
geopolítica dos EUA pode ser atribuída à glorificava a escravidão de forma bastante
sua condição de única superpotência con- controversa. Estreou em 8 de fevereiro de
temporânea? Argumente. 1915 em Los Angeles, Califórnia. O título
Mesmo que a comunidade internacional, de certa forma repre- O nascimento de uma nação reflete a teoria
sentada na ONU, tenha repudiado, em sua maioria, a invasão ao de que antes da Guerra Civil Americana,
Iraque, nos EUA o entendimento foi o de que o parâmetro a ser os EUA eram uma grande coalizão de
seguido em questões como essa é o construído internamente Estados antagonistas entre si. Mais da-
no país. Isso é a geopolítica. Não se reconhecem instâncias polí- dos podem ser encontrados em <http://
ticas de outros Estados nacionais, e isso pode ser atribuído à sua pt.wikipedia.org> e o filme pode ser vis-
condição de única superpotência, o que lhe dá maior desem- to em <http://www.video.google.com>.
baraço nas “ações geopolíticas”. A bem da verdade, esse fator Acesso em: 23 jul. 2013.
contribui, mas a primeira argumentação é a principal. – No tempo das diligências (Stagecoach).
Direção: John Ford. EUA, 1939. 96 min.
A história da formação dos EUA como uma Clássico do western (que quer dizer “do
superpotência na ordem mundial pode ser obje- Oeste”) estadunidense. Atravessando o
to de várias atividades de aprofundamento e de Arizona em uma diligência, um grupo
reflexão. A importância desse estudo é inegável se envolve em diversas lutas e aventuras,
na compreensão do mundo contemporâneo. inclusive enfrentando índios guerreiros.
60
Geografia – 1ª série – Volume 1

f Sobre as ações geopolíticas nas Américas, registrar o modo como os alunos percebem
inclusive no Brasil, também há farta bi- tudo isso.
bliografia. O roteiro da pesquisa pode ser
orientado pelo quadro apresentado sobre Etapa 3 – A geopolítica dos EUA
as intervenções na América Central, mas chega à escala mundial
é bom saber que essas intervenções foram
comuns também na América do Sul. Aliás, A ordem mundial resultante da Segunda
algo muito registrado na literatura latino- Guerra Mundial foi marcada pela lideran-
-americana. Uma sugestão seriam os livros ça de duas superpotências: EUA e URSS. A
do escritor peruano Manuel Scorza, Bom rivalidade entre elas se expressava como um
dia para os defuntos (1970) e História de confronto entre o capitalismo e o socialismo.
Garabombo, o invisível (1972). O mundo era marcado pela grande desigual-
dade entre as potências e os outros países,
Além das pesquisas, algumas reflexões po- algo que ainda permanece. Nesse período, os
dem ajudar a flagrar a naturalidade com a qual avanços da URSS na Europa do Leste (veja
o desembaraço geopolítico dos EUA se realiza. o mapa da Figura 18) fizeram que o governo
dos EUA traçasse novas linhas de sua geopo-
Uma reflexão possível e relevadora é a que lítica externa, o que ficou conhecido como a
se faz sobre o uso, pelos nativos dos Estados Doutrina Truman.
Unidos, do adjetivo pátrio “americanos”. Eles
reivindicam para si essa designação, embora Segundo essa linha geopolítica, os EUA
o país se chame Estados Unidos da América. deviam assumir a liderança na defesa intran-
Pela lógica, o natural seria utilizar “estaduni- sigente do Ocidente, da democracia e do ca-
dense” para quem lá nasceu. “Americanos” pitalismo, contra o comunismo, mesmo que
seriam todos os originários do continente isso significasse intervenções em outros países
americano. Nós, brasileiros, somos eventual- ou apoios a regimes ditatoriais. Agora a escala
mente chamados de sul-americanos, mas ape- mundial era a extensão territorial para a ação
nas para ressaltar nossa origem continental estadunidense em defesa de seu poder e de seus
– nossa identidade nacional é brasileira. Com interesses. A força militar de ambas as superpo-
os estadunidenses, isso não ocorre. E eles pró- tências equilibrava-se com base em armamen-
prios estão habituados a dizer que vivem na tos nucleares capazes de uma destruição total
“América”, em referência ao próprio país. do planeta. E era sobre essa estrutura, esse
equilíbrio da destruição, que a ordem mundial
Essa forma própria de designar a nacio- se mantinha naquele período.
nalidade deles não seria um indicativo de
sua ação de potência, que estende seus inte- Esse equilíbrio perdurou até a queda do
resses para além de seus limites territoriais? Muro de Berlim e a desintegração da URSS,
Uma pequena redação individual poderia marcos do fim de uma era, em que a burocra-
61
cia e o autoritarismo do Estado puseram fim Afeganistão e do Iraque à revelia das deci-
ao socialismo. A partir da década de 1990, uma sões da ONU, em uma clara demonstração
ordem mundial capitalista passou a reinar isola- do poderio de sua força militar e de sua força
damente, ancorada na superpotência estaduni- geográfica, que se expressa pela capacidade
dense e nas outras, também muito importantes. de atuar em qualquer parte do mundo.

Em 11 de setembro de 2001, porém, A seguir, sugerimos um trabalho


um atentado terrorista aos EUA atingiu de reflexão com base em um texto,
a superpotência e veio perturbar a ordem presente na seção Lição de casa do
mundial. Foi nesse contexto que os EUA Caderno do Aluno, que procura interpretar o
invadiram e derrubaram os governos do atual estágio da ação geopolítica dos EUA.

A Doutrina Bush e “A síndrome do 11 de setembro”

Após o ano de 2001, uma data ganhou a condição de síndrome mundial – o 11 de setembro.
A história é recheada de eventos que adquirem significados extremamente reveladores, pois repre-
sentam continuidades e descontinuidades, atingindo o imaginário de uma forma tal que, a partir
de um dado momento, o que ainda não é percebido, ganha novos contornos. Assim ocorreu com
o 11 de setembro de 2001. Após esses seis anos, com a dissipação da poeira da História, é possí-
vel compreender melhor as razões e os propósitos que justificam a escalada do terror e as novas
cartadas em jogo no sistema internacional. [...]

A Doutrina Bush é a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, encaminhada pelo presidente
George W. Bush ao Congresso em setembro de 2002, sob o impacto dos atentados de 11 de setembro de
2001, e revista no segundo mandato, em março de 2006. Trata-se, de fato, de uma articulação de direita
que, desde 1970, tenta impor suas ideias para mudar os rumos da política externa estadunidense, com o
intuito de criar as condições para um novo Oriente Médio, no qual os EUA teriam influências diretas.

Logo após os ataques de 11 de setembro, análises conservadoras apontavam que os futuros conflitos
adviriam de um choque entre o Ocidente, judaico-cristão, e o Oriente, islâmico e multifacetado, o que con-
figurava a adoção de uma postura maniqueísta do Bem contra o Mal.

O alvo da Doutrina Bush não se resume, apenas, a combater o terrorismo islâmico. Ela nada mais é do
que o início da aplicação da teoria dos falcões, ou seja, do novo imperialismo alinhado com Israel. Após o
bárbaro ataque às torres gêmeas e ao Pentágono, a sociedade estadunidense, antes relutante em apoiar proje-
tos de intervenção direta, passou a endossar as medidas de exceção.

62
Geografia – 1ª série – Volume 1

A Doutrina Bush, ao criar o “eixo do mal”, criou também as condições para perpetuar o que o es-
critor Demétrio Magnoli denomina “época de barbárie”, ou seja, não é uma declaração de guerra a um
Estado, mas ao terror, e este é difuso e não tem residência fixa.

Cabe, sem dúvida, uma reflexão acerca do conceito de terrorismo. Teoricamente considera-se terrorismo
“o uso da violência sistemática, com objetivos políticos, contra civis ou alvos militares que não estejam em
operação de guerra”. Como explicar, porém, ações de Estado como os ataques a Hiroshima e Nagasaki, ao
final de II Guerra Mundial, e as ações israelenses nos territórios palestinos e agora no Sul do Líbano? Há que
se estabelecer uma nova classificação de terrorismo – o de Estado. E é por meio dele que as potências militares
sustentam a tese de que a melhor defesa é o ataque. [...]

SILVA, Angela Corrêa da. A síndrome do 11. Revista Discutindo Geografia. São Paulo: Escala Educacional, 2006. Adaptado.

O texto anterior poderá ser trabalhado Essa dimensão já aparecia nas ações históricas de constituição
com os alunos por meio das atividades dispo- dos EUA, cuja vocação geopolítica de influência sobre os vizi-
níveis no Caderno do Aluno. Primeiramente, nhos e o mundo sempre se fez presente. Essa dimensão pode
eles devem ser orientados a ler o texto, gri- ser observada na denominada Doutrina Bush, cujo objetivo ale-
far os termos não compreendidos e procurar gado foi o de proteger os EUA do terrorismo islâmico.
seus significados no dicionário. Na sequên-
cia, poderão responder às seguintes questões: 3. Outra dimensão da geopolítica é a ação fora
do seu território, procurando aumentar a in-
1. Como aparece a palavra “geopolítica” nes- fluência do país sobre os seus vizinhos, por
se texto? De que forma ela é empregada exemplo. Nesse sentido, compare as ações
para se referir às estratégias dos EUA no mencionadas no texto “A ‘vocação’ geopo-
Oriente Médio? lítica dos EUA ” com as que aparecem no
A palavra “geopolítica” incorpora o significado de jogo das texto “A Doutrina Bush e ‘A Síndrome do
relações estratégicas internacionais. Também é associada à 11 de setembro’”. O que mudou?
palavra “imperialismo”, que quer dizer ação de conquista, Praticamente nada mudou até agora. Os EUA agem de
de domínio por parte de um país sobre outros. Neste caso, a modo a manter e ampliar sua influência no Oriente Mé-
menção é feita aos EUA. dio, área de grandes reservas petrolíferas, assim como
em outras partes do mundo. Isso apenas atualiza o que
2. Considerando-se a dimensão da geopolítica os EUA sempre fizeram historicamente. Os alunos podem
que corresponde à defesa do seu território, argumentar que, com a eleição de Barak Obama para a
em que passagem do texto esse aspecto pode presidência dos EUA, essa situação pode mudar, mas é
ser identificado? Essa dimensão já aparecia importante salientar que, embora com nuances distintas
nas ações históricas dos EUA? Vale consul- em cada governo, a política externa mantém os mesmos
tar o texto anterior para essa resposta. posicionamentos.

63
4. A Doutrina Bush é coerente com a deno- – PNUD (Programa das Nações Unidas
minada Doutrina Truman. Pode-se dizer para o Desenvolvimento), disponível
que a partir deste momento as ações geo- em <http://www.pnud.org.br>, acesso
políticas estadunidenses já haviam adqui- em: 5 nov. 2013;
rido escala mundial, quer dizer, tinham ex- – Portal da ONU, disponível em: <http://
trapolado a escala regional? Justifique. www.onu-brasil.org.br>, acesso em: 5
A denominada Doutrina Bush mantém uma linha de conti- nov. 2013, que permite o acesso a di-
nuidade em relação à Doutrina Truman, pois esta ação obje- versas instituições associadas à ONU,
tiva chegar muito além da escala nacional e mesmo da escala como a Organização Mundial do Co-
regional. Trata-se de uma expressão da força geográfica es- mércio (OMC), assim como disponibi-
tadunidense capaz de desalojar os governos do Afeganistão liza informações sobre força militar.
e do Iraque (no continente asiático) e ainda manter durante
anos tropas de ocupação nessas áreas. Depois de enriquecerem a lista com novos
países, os alunos deverão responder à seguinte
Outra proposta de trabalho com o Quadro 4 questão, presente no Caderno do Aluno:
(Atuais potências mundiais e suas característi-
cas) seria utilizar suas informações para produ- Os países que você acrescentou ao quadro, e
zir um mapa. As orientações para essa atividade qualificou com sinais, podem ser chamados
estão no Caderno do Aluno na seção Desafio. de potências? Eles se encontram em situa-
As etapas para realização da atividade são: ção próxima ou abaixo do Brasil? Justifique.
Pode-se prever que, com exceção de algumas nações – Itália e
f Aumentar o quadro: o primeiro passo é países nórdicos, por exemplo –, todas as que serão inseridas na lis-
adicionar novos países à nossa lista, atri- ta ficarão em patamares semelhantes ao do Brasil ou abaixo dele.
buindo valores (sinais de mais ou traços)
para cada uma das categorias avaliadas. Após refletir sobre essa questão, os alunos
Os países que realmente podem ser chama- prosseguirão com a construção do mapa, se-
dos de potência não vão além de 10 ou 15. guindo as seguintes tarefas:
É importante que, nessa tarefa de pesqui-
sa, o professor oriente como encontrar f O que cartografar: para a realização de um
informações e analisar os países segundo mapa que tenha qualidade visual e capaci-
as quatro categorias indicadas (força mili- dade comunicativa é preciso reduzir a infor-
tar, força econômica, força cultural e força mação visual que o olho humano apreende. O
geográfica). Na realidade, não faltam fon- olho humano não apreende uma quantidade
tes acessíveis na internet para subsidiar a muito grande de informações visuais em um
pesquisa, mas caso os alunos apresentem mapa, nem consegue lhes dar sentido. Nosso
dificuldades para tanto, o professor poderá intuito com o mapa é expressar a força das
auxiliá-los fornecendo as informações. Eis potências pela intensidade do recurso gráfi-
exemplos de algumas fontes: co, sem ao mesmo tempo poluir essa repre-
64
Geografia – 1ª série – Volume 1

sentação com informações em excesso. No ordem mundial comandada pelas potências.


caso, utilizaremos níveis de cinza, tonalida- f A linguagem: a ideia dessa cartografia não é
des entre o preto e o branco ou, então, tona- mostrar onde ficam os países da tabela, e sim
lidades de uma cor qualquer, da mais escura mostrar as forças diferentes, as diversas con-
à mais clara. Uma solução visual satisfatória dições de potência, da mais forte para a mais
para representar esse fenômeno comporta, fraca. Assim, é preciso ordenar o fenômeno,
no máximo, quatro categorias. Portanto, te- o que pode ser feito usando tonalidades de
remos de criar quatro categorias de países. uma única cor. Os alunos devem escolher
– Quais seriam, então, as quatro categorias essa cor e aplicar os tons mais fortes para as
de potências? Tal é o destaque dos EUA maiores potências e os mais fracos para os
que não há sentido em considerá-los em países mais frágeis.
conjunto com outras potências. Trata-se
da única superpotência; logo, esse país re- Para finalizar esta Situação de
presentará a primeira categoria. A segun- Aprendizagem, no Caderno do
da será composta dos países que podem Aluno, propomos uma atividade
ser chamados de potência (os que estão de Pesquisa em grupo na qual os alunos devem
no quadro e mais algum que os alunos te- buscar informações sobre os seguintes fatos his-
nham acrescentado). A terceira categoria tóricos mencionados no texto “Doutrina Bush e
será composta do Brasil e de outros con- ‘Síndrome do 11 de setembro’” e elaborar, em
siderados similares segundo a pesquisa. A uma folha avulsa, um texto que explique a posi-
quarta categoria será dos países restantes. ção geopolítica dos EUA em cada um desses fa-
f Como cartografar: o primeiro passo será en- tos históricos:
contrar uma projeção que transmita o que o
autor do mapa quer expressar. A realidade é f Ataques a Hiroshima e Nagasaki.
de poucos países comandando a ordem mun- f Ataques de 11 de setembro de 2001 à Nova
dial. Eles estão, em sua maioria, no Hemisfé- Iorque (EUA).
rio Norte; logo, pode-se querer reforçar isso tHiroshima e Nagasaki são cidades japonesas atacadas, em agos-
com uma projeção centrada no Hemisfério to de 1945, com bombas atômicas lançadas pelos EUA durante
Norte, embora essa escolha não seja a única a Segunda Guerra Mundial,, em uma situação em que os EUA
possível. Por exemplo: Mercator valoriza o agiram para impor seus interesses no encerramento do conflito.
Hemisfério Norte, Peters o Hemisfério Sul, Estima-se que morreram aproximadamente 200 mil japoneses.
enquanto a projeção equirretangular é mais tNo dia 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, nos EUA, al-
distribuída. A sugestão é que se exercite esse guns aviões civis foram sequestrados e depois direcionados a al-
mapa em diversas projeções (os alunos pode- vos civis, matando os passageiros e também muitas pessoas nos
rão utilizar os mapas das diferentes projeções choques. Dois desses aviões foram arremessados contra as torres
da Situação de Aprendizagem 1, no Caderno gêmeas em Nova Iorque. Milhares de pessoas morreram e os dois
do Aluno) e, posteriormente, discuta-se so- prédios desmoronaram. Esse episódio desencadeou uma violen-
bre a que melhor expressou visualmente a ta reação geopolítica, consubstanciada na Doutrina Bush.
65
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 4
OS DESERDADOS NA NOVA ORDEM MUNDIAL: AS
PERSPECTIVAS DE ORDEM MUNDIAL SOLIDÁRIA

O sistema mundial moldado pela força das terríveis, que regionalizavam o confronto entre
potências e por seus interesses permite equilíbrio as superpotências na ordem mundial anterior.
e funcionamento nas relações internacionais, mas Esse é o caso do Vietnã, país vitimado por
gera uma profusão de terríveis efeitos colaterais. uma guerra horrível com os Estados Unidos
da América. Guerra, aliás, que serviu para di-
Muitos Estados nacionais territoriais recentes, minuir, na época, o desembaraço da ação geo-
surgidos da descolonização (libertados de uma or- política estadunidense em vista da derrota dos
dem colonial que os oprimia), inserem-se apenas que sofreram. Esse é o caso também do Afe-
marginalmente nessa nova ordem e, condenados ganistão, invadido pela União Soviética nos
ao isolamento, tendem a se desagregar, a se de- anos 1980. Outro caso a ser notado: a terrí-
compor. Frequentemente são vitimados por ter- vel guerra entre Irã e Iraque, estimulada pelas
ríveis conflitos regionais e internos, cujos índices potências do mundo ocidental (com os EUA
de mortandade encontram-se entre os mais terrí- à frente), que armaram e tornaram poderoso
veis da humanidade, como nos exemplos recentes Saddam Hussein, o mesmo que recentemente
de Ruanda e Serra Leoa, no continente africano. ameaçava a paz mundial, segundo a alegação
Desde a Segunda Guerra Mundial, 20 milhões de dos próprios EUA. Outros exemplos podem
pessoas morreram nesses conflitos regionais. ser lembrados, e muitos ainda estão sangran-
do a despeito do equilíbrio “civilizado” que
Outros países ainda procuram se erguer e se mantém a ordem mundial. Uma ordem mun-
reorganizar após terem sido vítimas de guerras dial que tem vários deserdados.

Conteúdos: os conflitos regionais; os deserdados da ordem mundial; as perspectivas de uma ordem soli-
dária em escala mundial.

Competências e habilidades: apresentar e discutir ideias por meio de exposição oral; leitura e interpreta-
ção de textos e de ideias resultantes da participação nas discussões coletivas em sala; interpretação de
mapas de escala mundial; expressar o pensamento por meio da redação de textos; estabelecer relações
com base em diferentes escalas geográficas; desenvolver habilidades relativas à participação coletiva.

Sugestão de estratégias: interpretação de um mapa de escala mundial; trabalho em grupo para aprofun-
dar-se com base nos dados sintéticos do mapa; leitura e interpretação de texto em grupo; elaboração de
relatório com a síntese da discussão em grupo; síntese e soluções de questões por parte do professor ou
encomendadas como pesquisa.

Sugestão de recursos: mapa de escala mundial; textos.

Sugestão de avaliação: compreensão e análise de textos; interpretação do mapa; organização de informa-


ções pesquisadas na forma de relatórios; questões abertas.

66
Geografia – 1ª série – Volume 1

Etapa prévia – Sondagem inicial e e também ter seu Estado – têm uma presença muito forte
sensibilização na mídia internacional e influenciam a política mundial. Isto
ocorre porque, de certo modo (entre outros motivos), costu-
Para iniciar esta Situação de Aprendizagem, ma-se retratá-los como uma oposição entre o mundo ociden-
pode-se fazer a pergunta proposta na seção Para tal e seus valores e outra civilização (aliás, algo bastante discu-
começo de conversa do Caderno do Aluno: No tível). Os conflitos étnicos no continente africano mostram a
mundo atual, há paz? Afinal, as guerras mun- instabilidade daqueles Estados, e a constância das guerras civis
diais terminaram. Certamente, eles vão recusar tornou-se trágica, em razão das suas terríveis consequências.
essa afirmação, e esse é o momento propício para
instigá-los a listar no Caderno todos os conflitos, A intenção é que o aluno note a presença cons-
as guerras de que eles já ouviram falar. Isso pode tante, no interior da ordem mundial, de pontos de
ser listado também na lousa. Oriente os alunos a crise graves, que se expressam por conflitos regio-
organizá-los em uma ordem cronológica, o que nais, por decomposição violenta de alguns países.
vai terminar informando se o conflito já termi- Não é difícil chegar a esse quadro de disputas
nou ou se permanece. Outro critério de organi- bélicas em vista da profusão de informações que
zação da lista é distribuí-la por continentes. Se a nos é disponível, embora alguns conflitos, confor-
lista for insuficiente, pode ser interessante indicar me sua localização, são condenados à indiferença
uma breve pesquisa com o professor de História, do mundo, como o caso da recente guerra, encer-
com a utilização da internet, se possível rada em 2002, em Serra Leoa, na África.

Depois da troca de ideias, os alunos poderão Essa questão que aqui apareceu é impor-
sintetizar a discussão respondendo à seguinte tante: alguns conflitos regionais são tratados
questão no Caderno do Aluno: como assuntos de menor importância em uma
ordem mundial dominada por interesses que
Considerando o mundo em que vivemos, não são de todos. Vale lançar esse comentário,
você pode afirmar que há paz? Liste os con- que é crítico e pode estimular os alunos a se
flitos que conhece, os que venham à sua me- interessarem mais pelos efeitos colaterais da
mória. Procure organizá-los do mais antigo ordem mundial.
ao mais recente e também situe onde eles
ocorreram ou ocorrem. Etapa 1 – Os deserdados da ordem
Não é possível afirmar que vivemos em paz, num mundo mundial: o drama dos refugiados
sem guerras, embora seja possível dizer que, de maneira ge-
ral, os conflitos internacionais diminuíram. Alguns deles ainda Leitura e análise de mapa
se mantêm de forma muito grave e envolvem duas regiões,
principalmente: o Oriente Médio e o continente africano. Os Observe com atenção o mapa da Figura 20,
frequentes confrontos do Estado de Israel com a população presente na seção Leitura e análise de mapa do
palestina – que tenta recuperar a soberania sobre suas terras Caderno do Aluno.

67
Deslocados internos e refugiados segundo ACNUR, situação no final de 2010
Deslocados internos (dentro de um Estado) Rússia
Geórgia
Armênia
Azerbaijão Quirguistão
Bósnia e Herzegovina Sérvia Uzbequistão
Kosovo Turcomenistão
Macedônia Turquia
México Síria Nepal
Chipre Afeganistão
Líbano Iraque Filipinas
Birmânia
Guatemala Argélia Líbia Bangladesh Laos
Israel
Palestina Paquistão
Índia
Tailândia
Mali Níger Chade Iêmen
Senegal Eritreia
Sudão
Colômbia Nigéria Sri Lanka
Rep. Etiópia Somália
Libéria Timor-Leste
Togo C.-Africana Indonésia
Peru Costa do Marfim Uganda
Congo
RDC Quênia
Ruanda
Efetivos Burundi

Efetivos internos 3 672 100 Abreviações:


assistidos pelo ACNUR Angola C. : Croácia, B. : Bósnia e Herzegovina,
1 000 000 P. : Palestina,
Deslocados internos 200 000 Zimbábue J. : Jordânia, U. : Uganda,
mencionados pelo ACNUR 62 000 R. : Ruanda, B. : Burundi.

Refugiados (movimentos

Atelier de cartographie de Sciences Po, 2012


transfronteiriços)
Suécia

Reino Unido Rússia


EUA Ale.
Fr.
C. China
B. Sérvia
Turquia Afeganistão
Síria Irã Butão
Nepal
Iraque
P. J. Birmânia
Argélia Bangladesh
Saara Egito Paquistão
Ocidental Índia Vietnã
Tailândia
Mauritânia Sudão
Chade Eri. Iêmen
Venezuela
Sri Lanka Malásia
Colômbia Costa do Marfim Rep.
Equador Eti. Somália
Libéria C.-Africana
Camarões
RDC U.
Congo Quênia
Quantidade 500 000 R.
B.
1 900 000 100 000 Tanzânia
40 000 Angola
1 030 000 20 000 Zâmbia

Os refugiados palestinos não figuram no mapa. Eles não são da competência do ACNUR, mas da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados
da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), criada em 1949 e responsável pelos programas de cooperação (educação, saúde, assistência social,
luta contra pobreza, projetos de desenvolvimento). Eles são definidos como aqueles que residiam na Palestina entre junho de 1947 e maio de 1948
e perderam moradia e meios de sobrevivência devido ao conflito árabe-israelense de 1948. Os atuais 5 milhões de refugiados palestinos vivem
na proximidade ou dentro dos 58 campos oficiais (Jordânia, Líbano, Síria, Gaza e Cisjordânia).
Fontes: ACNUR, Statistical Yearbook 2010, Trends in Displacement, Protection and Solutions, Genebra, 2011, www.unhcr.org ;
IMDC, www.internal-displacement.org

Figura 20 – População interna deslocada e refugiados segundo ACNUR, 2010. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Dis-
ponível em: <http://cartographie.sciences-po.fr/fr/deslocados-internos-e-refugiados-segundo-acnur-situa-o-no-final-de-2010>.
Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão represen-
tadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico).

O mapa será utilizado nas atividades lis- aproveitar para aperfeiçoar a competência da
tadas a seguir. Inicialmente o professor pode observação da linguagem cartográfica.

68
Geografia – 1ª série – Volume 1

1. Observe a segunda parte da Figura 20, 4. Qual é a tendência mais comum dos refu-
cujo título é Refugiados (movimentos giados no seu movimento de fuga?
transfronteiriços). Que mapa é esse? Qual Segundo o mapa, a tendência mais imediata em uma guer-
é seu tipo, segundo as classificações feitas ra civil é refugiar-se nos países vizinhos, em geral em fugas
na primeira parte deste Caderno? Qual é a empreendidas a pé por grandes contingentes populacionais
principal variável utilizada? sem recursos para qualquer outra opção.
É um mapa de fluxos, cujo recurso gráfico são setas, com
distintas espessuras, que indicam direções. Evidentemente, Todas essas áreas apresentadas
aos nossos olhos, as setas mais largas e mais escuras indi- no mapa podem ser transforma-
cam os maiores fluxos e sua localização. Esse é um mapa das em objeto de pesquisa. Os
de fluxos, que mostra direções (ponto de partida e ponto alunos podem ser divididos em grupos, confor-
de chegada), mas exibe também quantidades e, por isso, é me cada zona que emite refugiados, e cada um
também uma representação quantitativa de fluxos. É mui- ampliará o conhecimento a respeito da região.
to importante esse tipo de representação, pois estamos Podem preparar relatórios a respeito e sociali-
em um mundo em que a mobilidade dos bens materiais, zar o que foi obtido. Vale comparar com o que
das informações e das pessoas aumenta exponencialmen- foi listado no momento da sondagem inicial.
te, e mapas assim serão cada vez mais necessários. Esta atividade está descrita no Caderno do
Aluno, na seção Pesquisa em grupo.
2. Além de direções, essa variável visual apli-
cada ao mapa está informando mais algu- Outra atividade especial pode ser desenvolvi-
ma coisa? Justifique. da sobre Serra Leoa, ela está presente também
Como foi dito, a variável visual de movimento (a seta) está na seção Desafio, do Caderno do Aluno. O exer-
indicando quantidades proporcionalmente à sua espessura cício começa pela localização do país, no oeste
variável, isto é, as setas mais largas indicam mais refugiados do continente africano. Há agora uma excelente
que as mais estreitas. oportunidade de conhecer esse conflito de per-
to. A lógica da desagregação territorial de um
3. Onde se situam os maiores fluxos de refu- país recém-saído do jugo colonial e abandonado
giados? Quais são suas principais direções? pelo sistema mundial está revelada em um livro
Parte dos principais fluxos de refugiados ocorre no continen- extraordinário e impactante, que está à disposi-
te africano e no Oriente Médio, palco de várias guerras. Os ção do leitor brasileiro. Vale introduzi-lo no am-
fluxos se dirigem mais imediatamente para os vizinhos, em- biente escolar. Trata-se de Muito longe de casa:
bora sigam para a Europa e para os EUA. Deve-se também memórias de um menino soldado, de Ishmael
considerar o Afeganistão e o Iraque como países que contri- Beah (2007). A seguir, utilize os excertos do arti-
buem para aumentar os fluxos de refugiados, em direção ao go “Ex-menino-soldado revive horror da guerra
Paquistão, Irã e Síria, respectivamente. em livro”, para estimular a leitura e a discussão.

69
Quando Ishmael Beah tinha 12 anos – e Serra Leoa já sofria com os ataques realizados pela Frente Unida
Revolucionária –, ele teve contato com os primeiros refugiados produzidos pelo início da guerra civil, que
passavam por seu vilarejo e contavam histórias terríveis. [...] Beah ainda não sabia que dentro de alguns me-
ses, em 1993, seria a vez dele de fugir dos rebeldes e, aos 13, seria obrigado a se juntar ao Exército, tornando-
-se uma das milhares de crianças-soldado que lutariam na guerra civil que deixou milhares de mortos no
país de 5 milhões de habitantes. [...] Para Beah, um ano foi tempo suficiente para ter sua vida completamente
modificada. Dos banhos de rio e partidas de futebol, nada restou. A única preocupação era sobreviver. Na
fuga, perdeu-se de toda a sua família. Passou fome, escapou da morte, presenciou assassinatos [...]. Quando
acreditava que havia alcançado a segurança, recebeu um ultimato do Exército: todos os “homens” teriam que
pegar em armas ou então deixar a cidade. Era matar ou morrer. [...] Antes da batalha, as crianças recebiam
anfetaminas [...]. Para completar, havia a lavagem cerebral. “Eles manipulam a raiva que você tem por dentro
por ter perdido a família. Eles diziam: “Você perdeu sua família e esses caras são responsáveis por isso. Precisa
vingá-los”. Você não tem outra escolha a não ser acreditar neles”, diz Beah. [...]

SUMMA, Renata. Ex-menino-soldado revive horror da guerra em livro. Folha de S.Paulo, 6 jul. 2007. Disponível em: <http://www1.
folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0607200710.htm>. Acesso em: 23 jul. 2013.

Na história de Ishmael Beah são encontra- f ocorre a fuga da população para países
das várias características das guerras regio- vizinhos, ocasionando geralmente o surgi-
nais que infelicitam alguns povos do mundo: mento de campos de refugiados;
f passam a ser assistidos por instituições
f fundamentalmente ocorrem em (ou entre) de caráter global, ONU, Cruz Vermelha,
países frágeis em termos econômicos; ONGs diversas, e por esse caminho ingres-
f países com dificuldades de se adaptar às sam como párias na ordem mundial.
novas condições da ordem mundial;
f países que se tornam espaços frágeis, sem Depois de ler o texto, na seção Desafio, os
controle do Estado, sem que esse exerça alunos poderão debater com seus colegas as
suas funções; questões a seguir e registrar suas conclusões
f países em que a miséria se desenvolve, e que no Caderno do Aluno.
ficam muito mais vulneráveis a catástrofes
naturais, como secas e inundações; 1. O que justificaria o uso de crianças como
f são conflitos marcados pela intensificação soldados em conflitos?
dos ódios étnicos, que acabam gerando Não há o que justifique as crianças-soldado. Essa ocorrência
massacres pavorosos, ações de extermínio, é a expressão da barbárie.
como ocorreu em Ruanda; Supõe-se que, em tese, têm o direito de decidir e são responsá-
f são guerras acompanhadas por fuga ma- veis por seus atos. Mas as crianças não. São alheias aos aconte-
ciça de populações, em geral camponesas, cimentos, não têm responsabilidade alguma e sua participação
aldeãs, como no caso de Beah; em guerras é algo, obviamente, hediondo e cruel.

70
Geografia – 1ª série – Volume 1

2. Qual é a responsabilidade das potências Nas duas décadas que seguiram à Segunda
mundiais no surgimento e na manutenção Guerra Mundial, o domínio dos EUA era bem
desses conflitos? grande, embora esse poder fosse relativamen-
Espera-se que os alunos reflitam aqui sobre a origem de boa parte te dividido com a URSS. O dólar reinava no
dos conflitos da África, que remetem ao período da colonização. mundo, sua superioridade tecnológica era in-
Nessa época, as principais potências planetárias fracionaram o contestável, sua influência cultural, bem-aceita.
continente, estimulando as guerras tribais conforme seus inte-
resses. Se os países hoje possuem problemas de constituição e A intervenção e a derrota no Vietnã abalaram
são atravessados por conflitos terríveis, por genocídios, por uso essa condição. Concorrentes na corrida tecnológi-
de crianças nas guerras etc., certamente a empresa colonial tem ca e econômica começam a alcançar esse poderio,
participação nisso. Esse é um dado histórico. Além disso, o modo Japão e Europa Ocidental à frente. Até mesmo
como atualmente (pós-colonização) as potências conduzem o mercado interno estadunidense foi alcançado
suas políticas internacionais em relação à África é marcado pela por uma avalanche de carros e capitais japoneses
negligência, pela baixa atenção, daí a ideia de deserdados da or- e europeus, que chegaram mesmo a investir no se-
dem mundial. Além disso, na maior parte dos casos, os armamen- tor imobiliário das grandes cidades dos EUA. O
tos utilizados nos conflitos são fabricados pelas potências. próprio dólar se enfraqueceu no cenário interna-
cional. Em termos econômicos, sua força já não é
Por meio do detalhamento da situação dos a de uma superpotência incontestável.
conflitos regionais, o professor poderia enco-
mendar uma redação a cada aluno sobre as No plano político e cultural a força das
zonas de refugiados. Nessa redação pode-se potências também está abalada no mundo
sugerir aos alunos que reflitam sobre as res- ocidental pela degradação das condições
ponsabilidades das principais forças da ordem ambientais do planeta. Em outras áreas do
mundial nesses conflitos. mundo cresce a rejeição aos EUA e às outras
potências de modo bastante grave, o que pode
Etapa 2 – O enfraquecimento da ser exemplificado pelos protestos da socieda-
geopolítica: as chances de uma Nova de civil contra a guerra e os encontros do G-8
Ordem Mundial solidária (cúpula dos países mais influentes do planeta).

Os EUA já contaram com um apoio maior Leitura e análise de mapa


às suas ações geopolíticas. A própria recusa
da ONU em apoiar a invasão do Iraque repre- Paralelamente a isso, pode estar surgindo uma
senta que já não é tão fácil as potências se or- nova ordem solidária, menos influenciada pelos
ganizarem apenas em torno de seus interesses. interesses particulares, em nome de um bem co-
Há quem veja nesse caso um dos sinais do en- mum. Será? Para encerrar a atividade sugerimos
fraquecimento do poder dos EUA como força a discussão sobre a circulação da ajuda financeira
principal na ordem mundial. entre os países. Observe o mapa da Figura 21.

71
APD em dólares por habitante
Ajuda pública ao desenvolvimento (média de 5 anos, 2000-2004)
(países beneficiários) 2,12
1,50
0,80
Média
0,22 mundial
0,05
0
método estatístico:
médias ajustadas com isolamento
dos valores extremos

Estados doadores *

Ausência
de informação

Palau,
Micronésia,
llhas Marshall,
Roberto Gimeno e Oficina de cartografia da Sciences Po,

Nauru, Kiribati,
Ilhas Salomão,
Tuvalu, Samoa,
Vanuatu, Fiji,
Tonga, Ilhas
Cook

MÁXIMA
Taiwan 2,12
Macau 2,03
Índia 1,95
Arábia Saudita 1,93
setembro de 2006

Hong Kong 1,50


Bermudas 1,48
México 1,46
Dominica 1,11
Kuwait 1,06
EAU 1,05 * A Coreia do Sul não é um país
Projeção J. Bertin doador, mas não recebe mais APD

Figura 21 – Ajuda pública ao desenvolvimento, 2000-2004. Aide publique au développement (pays bénéficiaires). Atelier de Cartographie
de Sciences Po. Disponível em: <http://cartographie.sciences-po.fr/cartotheque/10-11_aide_dev_hab_2000-04.jpg>. Acesso em: 23 jul.
2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem
escala; sem indicação de norte geográfico). Tradução: Renée Zicman.

Considerando esse mapa, os alunos pode- 2. Quais são os países que mais ajudam no
rão responder às seguintes questões presentes desenvolvimento de outros países? Será a
Caderno do Aluno. superpotência? Ou serão outros os princi-
pais beneficiadores dos países mais pobres?
1. Em termos de Cartografia compare esse mapa Embora o mapa não aborde essa questão, as maiores potên-
(Figura 21) com o mapa Deslocados internos cias globais colaboram com as ajudas internacionais. Esse
e refugiados segundo ACNUR, situação no apoio, no entanto, nem sempre é proporcional ao peso de
final de 2010 (Figura 20). As representações sua influência: o Japão apoia mais programas (com recursos)
são diferentes ou semelhantes? Justifique. que a superpotência, os Estados Unidos.
São diferentes, pois este é um mapa ordenado, que repre-
senta um único fenômeno e quer relacionar, pelo tamanho 3. Na sua opinião, qual é o interesse desses
da ajuda recebida, os países que usufruem da solidariedade países ao auxiliar os países pobres?
internacional. O mapa de refugiados e deslocados, por sua Hoje é possível dizer que está em curso a criação de certa
vez, é uma representação quantitativa de fluxos. solidariedade autêntica no mundo, embora parte dessa ajuda

72
Geografia – 1ª série – Volume 1

ainda vise também à obtenção de vantagens que resultam Sem dúvida, por mais que se queira negar, há um enfra-
dessas boas relações ou da dependência dos países pobres quecimento da geopolítica. Por exemplo, a expectativa
em relação aos ricos nas trocas comerciais. do mundo todo é que o presidente estadunidense elei-
to em 2008 (Barack Obama) viesse a estabelecer relações
4. Os principais países beneficiados são os mais multilaterais (e não apenas unilateral, como é a lógica da
pobres? O Brasil se enquadra nessa condição? geopolítica) com os países do mundo e com outras ins-
O mapa mostra que um país como o Brasil recebe ajuda su- tituições, reconhecendo a necessidade de fazer política,
perior à do Paraguai, cuja economia é bem inferior. O mes- acordos e considerar o interesse dos demais. Se isso está
mo se dá em relação a vários países africanos. acontecendo ou não, há ainda que se avaliar, mas que há
pressão para isso, sem dúvida há.
5. Na América Latina, quais são os países
menos beneficiados? Faça uma lista com Para finalizar esta Situação de
ao menos cinco deles e diga se eles estão Aprendizagem no Caderno do
entre os mais pobres ou entre os mais ricos. Aluno, na seção Lição de casa,
Bolívia, Nicarágua, El Salvador, República Dominicana e Hon- há orientações para a seguinte atividade:
duras são alguns dos países que não estão entre os que rece-
bem mais ajuda, mas estão entre os mais pobres. Depois do atentado terrorista a Nova Ior-
que, os Estados Unidos invadiram o terri-
6. Essas ajudas podem ser incluídas no conjun- tório do Afeganistão, suposto esconderijo
to das ações geopolíticas ou, na verdade, re- do líder terrorista Osama bin Laden. De-
presentam uma ação que foge aos interesses vido à operação militar, mais de 1 milhão
isolados e correspondem à construção de uma de pessoas fugiram para o Paquistão, seu
nova solidariedade mundial? Justifique. vizinho. Comente essa situação e compare
Pelo menos parte dessa ajuda, como já foi dito, indica a cons- com outras situações visualizáveis no mapa
trução de nova solidariedade no mundo, algo que escapa à de refugiados.
lógica geopolítica de se pensar apenas nos interesses pró- Discutir a invasão do Afeganistão é útil para:
prios de cada país. to aprendizado sobre a geopolítica e o papel dos EUA na
ordem mundial;
7. O fato de parte significativa da opinião pú- to exercício cartográfico, pois tal circunstância pode ser ob-
blica mundial, assim como líderes de insti- servada no mapa de refugiados e serve para compará-la com
tuições e países importantes, ter se colocado várias outras situações do mundo.
contra a invasão do Iraque pelos Estados Outros três exemplos de presença de refugiados que podem
Unidos da América, somado ao avanço das ser citados localizam-se no sul da China, Europa do Leste
políticas de ajuda internacional (um exem- (ex-Iugoslávia) e centro da África (Burundi e Ruanda). É in-
plo encontra-se no mapa em análise), pode teressante orientar os alunos a observar a lógica geopolítica
significar um enfraquecimento da geopolí- operando e a reestruturação da ordem mundial, assim como
tica estadunidense? Justifique. o papel das potências.

73
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 5
A MUDANÇA DAS DISTÂNCIAS GEOGRÁFICAS
E OS PROCESSOS MIGRATÓRIOS

Em Geografia, pode-se afirmar que a glo- Essa agilidade da circulação se dá porque


balização diz respeito à construção de novos os espaços globais são suportes ativos dos pro-
espaços e novas relações sociais desenvolvidas cessos socioeconômicos que ocorrem na escala
no mundo. Trata-se de uma nova configura- mundial. Esses negócios são alimentados pelo
ção geográfica que se superpõe aos territórios que há de mais avançado em tecnologias de pro-
nacionais, por vezes conflituosamente, outras dução e de circulação. Assim, esses espaços da
em harmonia. Isso pode significar mudanças globalização se realizam como expressões geo-
importantes nos próprios Estados nacionais, gráficas da Nova Ordem Mundial. Desvendar a
com a presença, em seus territórios, de pon- lógica desses espaços, que fundamentalmente se
tos de rede de corporações transnacionais e estruturam em forma de redes; conhecer os rit-
de redes técnicas, propiciando um aumento mos de suas relações, cada vez mais aceleradas;
extraordinário da circulação de capital, de in- e identificar os principais agentes que os alimen-
formações, de bens industriais e de serviços, tam, como as corporações transnacionais, serão
em escala mundial. objeto desta Situação de Aprendizagem.

Conteúdos: espaço geográfico como espaço humano (base teórica: noção de espaço relativo); processo
migratório e seus novos conteúdos e significados.
Competências e habilidades: construir e aplicar habilidades relativas ao domínio da linguagem cartográ-
fica como meio de visualização sintética da relação entre realidades geográficas distintas e como meio de
uso da imagem como discurso espacial; construir e aplicar conceitos com base na abordagem geográfica,
tais como fluxos e redes geográficas, para contribuir na compreensão de fenômenos contemporâneos
próprios e associados ao processo de globalização das relações humanas.
Sugestão de estratégias: observação e exploração cognitiva das representações visuais (mapas e gráficos) refe-
rentes ao processo de migração na escala global; problematização de um fenômeno geográfico complexo como
forma de procurar explicá-lo e compreendê-lo; proposta de organização de resultados.
Sugestão de recursos: mapas contemporâneos; gráficos; aulas dialógicas.

Sugestão de avaliação: observação de mapa; gráfico; pesquisas; discussão; texto final; questões abertas
e de múltipla escolha.

74
Geografia – 1ª série – Volume 1

Etapa prévia – Sondagem inicial e 3. Um grupo importante de imigrantes que se


sensibilização estabeleceu no Brasil nas primeiras décadas
do século XX foi o de japoneses. O Brasil é o
A sugestão é que o professor trabalhe um país que tem a maior comunidade de origem
conteúdo clássico da Geografia: a formação po- japonesa fora do Japão. Para fazer o percurso
pulacional brasileira e, especificamente, a contri- Japão A Brasil, que distância geográfica teve
buição dos processos migratórios estrangeiros. de ser percorrida por esses imigrantes?
Para isso, vamos trabalhar as questões presentes A distância de 18 500 km. Essa informação, porém, não deve
no Caderno do Aluno, nas seções Para início de ser pesquisada e transformada em um número que os alunos
conversa e Leitura e análise de imagem, que es- repassem. Somente haverá valor na produção dessa resposta
tão reproduzidas a seguir. se ela for obtida com os alunos por meio de medições direta-
mente num mapa-múndi que possua escala. Para isso, os alunos
1. A população brasileira foi formada, em boa deverão calcular os centímetros que separam Brasília e Tóquio
medida, por povos vindos de outras partes (as capitais) e transformar os centímetros em quilômetros pela
do mundo, por processos migratórios estran- aplicação de um cálculo que faz uso da escala cartográfica. A
geiros. Quais foram os principais grupos que diferença entre a medida obtida e a medida no terreno real é
vieram para cá? Quando vieram e para que uma boa oportunidade para discutir a questão da escala.
parte do nosso território eles se dirigiram?
Vários grupos estrangeiros vieram para o Brasil ao longo de Leitura e análise de imagem
sua história e em diferentes condições. Um desses povos são
Observe a imagem a seguir:
os italianos. O período de maior imigração italiana ocorreu

© Cortesia José Giraud/Laire José Giraud


entre 1880 e 1930. Outro grupo marcante de imigrantes foi o
de japoneses. A imigração do distante país asiático começou
no início do século XX. Não há como esquecer os portugue-
ses que vieram pra cá ao longo da história como colonizado-
res. Depois da descolonização, somente na primeira metade
do século XX a migração portuguesa foi retomada, época em
que chegavam 25 mil imigrantes portugueses por ano.

2. Considerando os grupos citados e a época Figura 22 – Kasato Maru foi o primeiro navio que trouxe imi-
em que vieram, estime quanto tempo dura- grantes japoneses ao Brasil, em 1908. Foram 52 dias de viagem.

vam, em média, as viagens marítimas.


No final do século XIX, os navios que traziam imigrantes da 1. O navio Kasato Maru trouxe os primeiros imi-
Europa faziam o percurso em aproximadamente 30 dias. Já grantes japoneses ao Brasil, em 1908. Consi-
a duração da viagem para os migrantes japoneses era quase derando essa data, a distância Japão A Brasil
duas vezes mais longa. Por exemplo, o Kasato Maru partiu do e as características visuais do navio, tente esti-
porto de Kobe e demorou 52 dias para chegar a Santos. mar quanto tempo durou essa viagem.

75
A viagem durou 52 dias. Nessa época, os navios eram movi- 5. Pode-se afirmar que hoje o Japão ficou mais
dos por motores a vapor. O Kasato Maru era um navio russo perto do Brasil? Faz sentido dizer que a dis-
de motores bem lentos se comparados aos navios modernos. tância geográfica que separa esses dois países
Outros aspectos também relacionados ao seu design indi- tem outro significado em comparação com o
cam a condição de meio de transporte mais lento. Pode-se tempo de viagem do Kasato Maru? Justifique.
aproveitar a oportunidade para fazer uma comparação com A distância geográfica é a mesma em termos de quilômetros,
uma foto de um navio moderno. porém possui outro valor para o ser humano. Assim, pode-
mos dizer que, em função da mudança nos meios de trans-
2. Se o imigrante japonês aqui chegando se porte, o Japão ficou “mais perto” do Brasil, da mesma maneira
arrependesse, seria fácil voltar imediata- que pode ser dito que o mundo “encolheu”.
mente ao Japão? Justifique.
Não, pois a viagem era muito demorada e cara. A quase totalida- 6. Nos dias atuais, o que permite percorrer essa
de dos imigrantes não tinha dinheiro para o retorno, pois todas distância com maior facilidade e rapidez?
as suas economias haviam sido consumidas na viagem para o Sem dúvida, o fator fundamental foi o desenvolvimento das
Brasil. Apesar da ajuda dos governos, tanto brasileiro como ja- tecnologias de transporte, que aumentaram significativamen-
ponês, a maioria dos imigrantes viajava com poucos recursos. te a mobilidade humana. As viagens a grandes distâncias foram
beneficiadas com a invenção da aviação. Embora o transporte
3. Atualmente, existem muitos brasileiros tra- de avião ainda possa ser considerado caro, as viagens de navio
balhando no Japão. Para chegar a esse dis- eram bem mais caras no começo do século XX.
tante país da Ásia, quanto tempo leva em
média a viagem de avião? Etapa 1 – Observação e exploração
Atualmente, há mais de 225 mil brasileiros no Japão. A via- cognitiva do mapa de migrações
gem é muito mais curta e bem mais barata do que foi para no final do século XX e do gráfico
o imigrante japonês que veio ao Brasil no começo do sécu- quantitativo das migrações
lo passado. Hoje em dia, levam-se, em média, 23 horas para internacionais, 1910-2000, como
percorrer o mesmo trajeto. exemplo de aceleração de fluxos

4. Os brasileiros que estão no Japão são imi- Leitura e análise de mapa


grantes definitivos ou trabalhadores tem-
porários? Existe a possibilidade de eles Esta etapa começa com o professor apre-
retornarem facilmente ao Brasil? sentando o mapa da Figura 23. Ele vai com-
Alguns tendem a ficar, mas a maioria esmagadora não vai com por a fase da descrição do fenômeno a ser
essa pretensão. São, na verdade, trabalhadores temporários em trabalhado. Antes de tudo, deve-se aproveitar
empregos precários, que somente compensam aos brasileiros o mapa para exercitar a linguagem cartográ-
por causa da diferença cambial (do dólar em relação ao real). Ou fica, chamando a atenção para algumas ca-
seja, esses imigrantes vão voltar depois de certo tempo. O retor- racterísticas desse mapa. Sugerimos algumas
no é relativamente fácil, tanto que alguns conseguem vir passar atividades presentes no Caderno do Aluno,
férias no Brasil e depois voltam para mais um período de trabalho. para explorar cada uma dessas características.
76
Geografia – 1ª série – Volume 1

Figura 23 – As migrações, final do século XX. Les migrations, fin du XX e siècle. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Mapa
original (base cartográfica com generalização; algumas feições do território não estão representadas em detalhe; sem escala;
sem indicação de norte geográfico).

1. A projeção desse mapa foi apresentada na resposta, explique por que esse é um mapa
Situação de Aprendizagem 1. Qual é ela? para ver, e não para ler.
Quais são suas característica quando com- Os principais fluxos são aqueles representados pelas setas mais lar-
parada a um mapa-múndi que você está gas. Por exemplo: do México para os Estados Unidos; da América
acostumado a observar? Central para os EUA; da Europa para os EUA; do subcontinente
Trata-se da projeção Bertin (Jacques Bertin foi o grande cartó- indiano para o Golfo Pérsico. Isso foi possível visualizar sem a con-
grafo do século XX), produzida de modo a eliminar uma boa sulta da legenda. Os países em tons de vermelho mais escuros
parte das áreas oceânicas. É uma representação muito boa para são aqueles que visualmente mostram a maior manifestação do
representar as novas proximidades e a intensidade dos fluxos en- fenômeno representado, que no caso é a maior participação de
tre os continentes. Ela é capaz de descrever melhor o que é o imigrantes no conjunto da população. É um mapa para ser visua-
mundo marcado pelo aumento da mobilidade do ser humano. lizado, pois o que gera significado é a imagem, e não o texto.

2. Nesse mapa estão representados dois as- A comunicação desse mapa é feita por sua
pectos de um mesmo fenômeno, as migra- imagem em conjunto: é um mapa para ver. As
ções internacionais. Você consegue identi- setas indicam direções e esse símbolo é univer-
ficar onde esses aspectos são mais intensos sal. A largura das setas comunica visualmen-
sem consultar a legenda? Com base em sua te a maior ou a menor quantidade do fluxo.
77
Mas, além das setas, o mapa traz outra infor- t os EUA são a economia mais poderosa do mundo e há um

mação visual. Os países estão coloridos de século é o maior reduto de imigrantes, responsáveis pelo po-
cinza ou de tons de rosa (mais fracos e mais for- voamento e pelo vigor do país. Atualmente, há um intenso
tes). Essas tonalidades de cor significam menor fluxo de imigrantes ilegais, o que é um grande problema para
ou maior presença de imigrantes na formação o país e para os próprios trabalhadores;
da população dos países. Elas criam uma or- t a Europa Ocidental recebe imigrantes, em especial, de suas

dem entre os países nesse aspecto. ex-colônias (alguns possuem dupla cidadania e muitos são
ilegais). Eles preenchem lacunas no mercado de trabalho em
3. Nesse mapa estão representados fluxos que virtude das quedas de natalidade dos europeus. Há também
correspondem a diferentes quantidades. razões ligadas às condições de seus países;
t no Golfo Pérsico, o grande afluxo de imigrantes do subcon-
a) Qual foi o recurso gráfico usado para tinente indiano é diretamente empregado como mão de obra
dar a ideia de movimento de um conti- nos grandes empreendimentos imobiliários da região (em es-
nente ou de um país a outro? Você acha pecial, na cidade de Dubai e arredores). É uma imigração mais
que todos vão entendê-lo da mesma ou menos temporária, o que gera dúvidas sobre o futuro desses
maneira? Por quê? imigrantes quando a febre pelos empreendimentos terminar.
O recurso visual utilizado para mostrar o fluxo de imigrantes
entre os continentes é a seta. Trata-se de um símbolo de en- d) De quais locais partem esses fluxos mi-
tendimento universalizado, para indicar direção. Esse é um gratórios? Se usarmos os pontos carde-
recurso bastante adequado para a Cartografia, que sempre ais, podemos dizer que se trata de um
deve fazer uso de recursos visuais de entendimento claro e movimento migratório sul A norte? O
generalizado. Os símbolos devem ser monossêmicos, quer que mais se pode deduzir?
dizer, ter um único significado. Os principais fluxos migratórios se originam de países da Amé-
rica Latina, da Europa e do subcontinente indiano, e há fluxos
b) Que variável visual foi utilizada para consideráveis partindo da Europa Oriental, da Ásia Central, do
mostrar que um fluxo tem mais imigran- Sudeste Asiático e de alguns países africanos. Ao se utilizar os
tes que o outro? pontos cardeais, percebe-se um fluxo sul-norte, mas também
A variável utilizada para mostrar que um fluxo representa mais é possível observar um importante fluxo no sentido leste-oeste.
imigrantes que outro (maior quantidade) é a variável visual Muitos desses fluxos de imigrantes partem de países pobres.
tamanho. No caso, ela está presente na largura das setas. Além disso, pode-se afirmar que, ao contrário do que ocorreu
Quanto mais larga a seta, maior o volume de imigrantes. no início do século XX, quando a Europa Ocidental era a origem
dos fluxos migratórios, agora ela é também o destino. Consti-
c) Cite três países (e/ou regiões) no planeta tuída de países prósperos, recebe grandes fluxos migratórios da
que estão recebendo os maiores fluxos Europa do Leste (ex-países socialistas), mas também da África
migratórios. Na sua opinião, por que eles (dos vários países que foram colônias), da América do Sul etc.
atraem tantos imigrantes? É importante discutir com os alunos essa questão do aumento
EUA, Golfo Pérsico e Europa Ocidental, que atraem imigran- das áreas de saída dos imigrantes na atualidade, ou seja, uma re-
tes por diferentes motivos: gião não é responsável por concentrar expressivamente o fluxo
78
Geografia – 1ª série – Volume 1

migratório mundial, como ocorria antes. Isso fica claro com a populações. Em especial, imigração recente. São duas regiões
leitura do mapa, pois, além de os fluxos seguirem dos países po- do mundo de grande dinamismo econômico e que precisam
bres para os países ricos, percebe-se um forte fluxo migratório de imigrantes para suprir carências internas de mão de obra.
da Europa Ocidental (região que também atrai imigrantes) para
os Estados Unidos, em um movimento entre economias desen- Para aprofundar ainda mais o tema, peça
volvidas. A região do Oriente Médio também merece destaque, para que os alunos respondam à atividade a
por receber grande fluxo de imigrantes devido à demanda por seguir, presente no Caderno do Aluno na se-
mão de obra relacionada à atividade petrolífera. ção Lição de casa.

4. Esse mapa também representa a maior ou a Leia com atenção o quadro a se-
menor presença dos imigrantes na composi- guir. Comparando-o com o mapa
ção da população dos países. As migrações, final do século XX
a) Que variável visual é usada nesse caso? (Figura 23), indique as quantidades relati-
O recurso visual empregado para mostrar a participação de imi- vas aos fluxos migratórios. Se for preciso,
grantes no conjunto da população são as tonalidades de ver- some alguns valores representados pelas se-
melho. O mais escuro mostra mais intensidade do fenômeno. tas. Caso julgue necessário, utilize outro
Logo, há uma relação direta que serve para ordenar o fenôme- mapa-múndi para auxiliar na identificação
no visualmente (um único fenômeno, diferentes intensidades). dos diferentes países.

Quantidades
b) Você considera correto escolher a tonali- relativas
Os grandes sistemas
dade mais escura de uma cor para repre- aos fluxos
migratórios contemporâneos migratórios (em
sentar maior intensidade de um fenôme-
milhões)
no? Justifique.
Espera-se que os alunos concluam que a escolha é correta. Em 1. Magreb A França 3 a 5,5

Cartografia, deve ser direta a relação entre os recursos utiliza-


2. Subcontinente indiano
1a3
dos como linguagem e os fenômenos representados. No caso AInglaterra
de qualquer mapa com um fenômeno ordenado, essa relação
3. Oriente Próximo e
estabelece-se de duas formas necessariamente: 1. Usa-se uma 3 a 5,5
Cáucaso A Alemanha
única cor para representar um único fenômeno; 2. As tonalida-
des do mais escuro ao mais claro servem para representar a va-
4. África Meridional A
1a3
Europa
riação da intensidade do fenômeno (da maior para a menor).
Caso isso seja subvertido, perde-se essa relação direta. 5. Índia e Paquistão A
países petroleiros do 5,5 a 7,5

c) Considerando a participação dos imigran- Oriente Médio


tes no conjunto das populações dos países, 6. América do Sul e Amé-
o mapa nos dá que tipo de informação? rica Central e Caribe A 1 a 7,5
Ele nos mostra que os EUA e alguns países do Golfo Pérsico Estados Unidos
possuem uma participação importante de imigrantes em suas Quadro 8.

79
Evolução dos efetivos de migrantes, 1910-2000
O mapa da Figura 23 (uma representação
em milhares 1910 1930 1960 2000
dinâmica quantitativa e ordenada) nos dá
uma visão atual do volume e da direção das 4 705

correntes migratórias internacionais, assim


1 701
como da participação dos imigrantes na com- Austrália 787 356
posição geral das populações dos países. Mas 18 836

não é possível, por meio dele, concluir sobre Europa


7 002
Ocidental* 4 233
a aceleração dos fluxos em relação aos movi- 3 348 5 826

2 766
mentos migratórios ao longo do século XX. Canadá
2 308
1 587
Para isso, é necessária uma verificação numa
34 988
escala de tempo maior. Desse modo, a questão Estados
Unidos
13 516 14 204
migratória poderá ser percebida mais integral- 9 735

mente, assim como os diversos significados da

Benoît MARTIN, novembro de 2005


Argentina 2 828
2 358 2 615

distância geográfica para o ser humano. Por


1 419
isso, sugerimos bastante atenção em relação à 1910 1930 1960 2000

Figura 24, da seção Leitura e análise de gráfi- * Alemanha, França, Itália, Suíça, Bélgica e Luxemburgo

Fonte: United Nations, DESA/PD, World Economic and Social Survey 2004, http://www.un.org/
co do Caderno do Aluno.
Figura 24 – Evolução dos efetivos de migrantes, 1910-2000.
Fonte: DURAND, M.-F. et al. Atlas de la mondialisation.
Édition 2008. Paris: Presses de Sciences Po, 2008. p. 24.
Esse gráfico é bem interessante, mas não
nos dá os fluxos, a dinâmica espacial direta
e integralmente. Ele nos mostra apenas uma prestar atenção especial no caso dos EUA?
evolução, no tempo, de alguns países receben- Também vale destacar a Argentina, país da
do imigrantes. Essa informação auxilia-nos América do Sul que mais recebeu imigrantes
bastante e permite uma série de comparações no começo do século XX. Isso se mantém?
reveladoras com o mapa da Figura 23.
Em resumo, o objetivo desta etapa da Si-
É sempre bom começar com o que é mais tuação de Aprendizagem é que, por meio de
evidente. E o que seria mais evidente nes- representações visuais de qualidade, sejam
se gráfico? Ele mostra que houve expressivo representados os fluxos migratórios em esca-
aumento do fluxo migratório dos anos 1960 la planetária entre os Estados modernos: as
até nossos dias em certas regiões do mun- direções geográficas desses fluxos; a mudança
do: EUA, Europa Ocidental etc. Será que o dessas direções; o volume quantitativo desses
mapa de fluxos não vai nos ajudar a enten- movimentos; e a alteração contemporânea
der de onde estão saindo esses imigrantes? desses volumes, o que implica uma aceleração
Sem dúvida, irá. Essa simples compara- dos fluxos e formas mais acessíveis de admi-
ção não parece indicar uma aceleração de nistração das distâncias geográficas. Deseja-
fluxos comparada com o passado. Que tal -se, assim, que se imprima em nossos olhos

80
Geografia – 1ª série – Volume 1

uma visão da distribuição geográfica da con- 3. Compare a evolução dos fluxos de imigran-
tribuição da imigração na composição geral tes na Europa Ocidental e na Argentina.
das populações dos países. Certamente, com o Tendo em conta esses dois casos, é possível notar uma inver-
aumento da mobilidade humana e a intensifi- são. A Argentina como destino era uma realidade até o come-
cação desses fluxos, no futuro o peso dos imi- ço do século XX, mas o efetivo de imigrantes passou a ser me-
grantes em certas partes do mundo será maior nor a partir da década de 1930, tendo se reduzido praticamen-
ainda. Essa é a fase descritiva do processo. te à metade até o ano 2000. Ampliando a análise do gráfico,
vale considerar que, hoje em dia, os argentinos compõem, em
Para trabalhar o gráfico da Figura 24, su- quantidades relativamente importantes, os fluxos de imigran-
gerimos as seguintes atividades presentes no tes que saem da América do Sul para a América do Norte e
Caderno do Aluno. para a Europa Ocidental. No caso da Europa Ocidental, de área
emissora no começo do século XX, agora é um dos principais
Leitura e análise de gráfico destinos de imigrantes de todas as partes do mundo.

1. Com base no gráfico (Figura 24), o que se 4. Considerando a participação dos imigran-
pode afirmar a respeito dos fluxos migrató- tes no conjunto da população dos EUA e
rios internacionais? os fluxos (tamanho e direção) representados
As linhas históricas de fluxos de imigrantes em relação aos no mapa As migrações, final do século XX
EUA e à Europa Ocidental revelam uma aceleração dos fluxos (Figura 23), você acha que a participação
migratórios no mundo, embora ainda haja uma grande difi- dos imigrantes na população dos EUA vai
culdade para o imigrante no mundo contemporâneo – dife- diminuir ou aumentar? Por quê?
rentemente da facilidade com que as mercadorias circulam Certamente vai aumentar, haja vista o tamanho dos fluxos
nesse mesmo mundo. de imigrantes que o país recebe, em especial de hispano-
-americanos. Esses já formam uma comunidade de grande
2. O gráfico nos mostra a variação no fluxo peso nos EUA, a ponto de o espanhol poder ser considerada
de imigrantes direcionado a alguns países. uma segunda língua dos EUA.
O que ele revela de mais evidente ao longo
do tempo? Para aprofundar a discussão, suge-
O gráfico indica que, na época da II Guerra Mundial, os fluxos rimos a seguinte atividade da seção
diminuíram nos EUA, principal reduto receptor de imigrantes Pesquisa em grupo, no Caderno
no século XX, mas que, na segunda metade do século XX, hou- do Aluno. Em pequenos grupos, os alunos devem
ve um grande revigoramento desses fluxos. Mostra também considerar três materiais, relacionados a seguir,
que esse aumento significativo dos processos migratórios na para produzir um relatório sobre um dos sistemas
segunda metade do século XX é geral, à exceção da Argentina, migratórios contemporâneos.
único representante no gráfico que não é um país desenvolvi-
do. Isso torna evidente a nova realidade de fluidez (capacidade f O mapa As migrações, final do século XX
de circulação) existente no mundo contemporâneo. (Figura 23);

81
f O quadro Os grandes sistemas migratórios mento da mobilidade geográfica de bens, de
contemporâneos (Quadro 8); mercadorias e pessoas para além dos limites
f O gráfico Evolução dos efetivos de migran- territoriais dos países e das regiões vizinhas).
tes, 1910-2000 (Figura 24).
Uma frase pode inspirar a finalização des-
Os alunos devem realizar uma pesquisa so- se relatório debatido em grupo: “o documento
bre o fluxo escolhido. O relatório deverá ter mais importante nesse mundo globalizado não
três partes: é a carteira de identidade, e sim o passaporte”.
Cerca de três milhões de pessoas emigraram do Magreb para a
Parte 1 – Caracterização do fluxo escolhido Europa Ocidental no final do século XX. O Magreb é uma região
do norte da África que acumula muitos problemas econômicos
f Volumes estatísticos que podem ser extraí- e políticos; é constituído por Marrocos, Saara Ocidental (região
dos do mapa e do gráfico; reivindicada pelo Marrocos que vive uma disputa por sua auto-
f Direções geográficas – origem e destino; nomia, tendo sua independência reconhecida por alguns países,
f Temporalidades – quando se iniciou, perío- principalmente os africanos), Tunísia e Argélia, países com fortes
do em que se acelerou, situação atual; ligações com a França, em razão de terem sido colônias france-
f Condição anterior do país (ou da área) que sas. Os imigrantes se dirigiram à França, onde marcam presen-
recebe o fluxo – que grau de participação ça, em especial no sul do país. A organização dos imigrantes do
os imigrantes já têm na composição da po- Magreb na França acaba favorecendo a atração de vários outros,
pulação daquele país. mesmo porque o país europeu não pode dispensar o papel eco-
nômico que esses imigrantes desempenham. A imigração para a
Parte 2 – Compreensão do sistema migratório França (e também um pouco em direção à Itália) de habitantes
do Magreb remonta a meados do século XX e, apesar das severas
f Características econômicas e sociais dos restrições impostas pelos europeus nos anos 1990, essa corrente
países (e/ou regiões) de onde saíram ou es- migratória manteve sua intensidade mesmo na clandestinidade.
tão saindo migrantes; Um fenômeno semelhante ocorre no fluxo migratório Mé-
f Características econômicas e sociais dos xico A EUA. São aproximadamente 10,3 milhões de imi-
países (e/ou regiões) que receberam ou es- grantes, muitos dos quais não são legalizados, pois atraves-
tão recebendo migrantes. sam a fronteira clandestinamente. Eles não possuem visto
de residência, o que lhes propicia uma condição de vida
Parte 3 – Avaliação sobre os fluxos migratórios bastante problemática no território estadunidense.
Os dois exemplos citados tratam de um processo migratório fa-
A sugestão aqui é realçar a importância vorecido pela proximidade geográfica; é um fenômeno de vizi-
da “diminuição das distâncias geográficas” nhança. No entanto, há outras correntes migratórias que implicam
e a aceleração das interações entre pessoas. grande deslocamento do migrante, como no caso de asiáticos
Esses dois fatores estariam construindo uma em direção à América do Norte, cujo fluxo é de cerca de 5 mi-
globalização das relações humanas (o au- lhões de migrantes. Isso somente é possível graças à “diminuição

82
Geografia – 1ª série – Volume 1

das distâncias geográficas” produzida pelo desenvolvimento à aceleração da história. O aumento da circula-
dos meios de transportes. A mesma situação pode ser aplicada ção geográfica de bens, mercadorias e pessoas é
à imigração de brasileiros à Europa e ao Japão (exemplo tratado a globalização das relações humanas, cujo po-
anteriormente). Esse é um breve modelo do tipo de arrazoado tencial transformador já demonstrou seu po-
que se pode fazer a respeito dos fluxos migratórios. Aqui foram der, embora muito ainda esteja por acontecer.
contemplados os itens 1, 2 e 3 da Pesquisa em grupo.
Nesse novo cenário, um famoso historiador
Etapa 2 – Problematização dos costuma afirmar: o documento mais importan-
fluxos migratórios internacionais: te nesse mundo globalizado não é a carteira
aceleração e fechamento de fronteiras de identidade, e sim o passaporte. E isso nos
dirige para a reflexão sobre os fluxos migrató-
É muito comum atualmente falar de ace- rios internacionais contemporâneos.
leração da história. Os eventos humanos se
precipitam mais velozmente e as transforma- Algumas informações podem ser enfatizadas
ções históricas são mais rápidas. Desde que o para uma discussão com os estudantes (o mapa
ser humano se sedentarizou, no Neolítico, ele e o gráfico apresentados anteriormente mostra-
nunca se deslocou tanto como agora. E esse au- vam algumas delas). Observe o quadro a seguir,
mento de mobilidade geográfica está associado da seção Lição de casa do Caderno do Aluno.

Características das migrações internacionais contemporâneas


1. Nos últimos 40 anos, houve o dobro de migração internacional, o que traz muitas dificulda-
des nas relações sociais em várias partes do mundo.
2. São aproximadamente 200 milhões de migrantes internacionais em 2005. Apenas 3% da
população mundial. Eles são: migrantes regulares, clandestinos, refugiados etc.
3. São tanto homens quanto mulheres. E 50% são economicamente ativos.
4. Onze países desenvolvidos concentram 40% dos imigrantes.
5. Não são os mais pobres que migram mais, pois não é fácil migrar (é preciso ser acolhido e
ter recursos, algo que os pobres imigrantes não conseguem facilmente).
6. Aos migrantes propriamente ditos se acrescentam as migrações temporárias: por exemplo,
o turismo, que mobiliza 700 milhões de pessoas ao ano.
7. Para as informações, bens e serviços, não há tanta restrição na circulação, enquanto para a migra-
ção há vários freios. Depois dos anos 1970, as fronteiras estão se fechando aos imigrantes, o que
fez aumentar o número de imigrantes clandestinos. Por exemplo: seriam uns 7 milhões nos EUA.
8. Para os países de origem, por vezes as consequências são negativas, como, por exemplo, no caso da
fuga de cérebros; por outras, são positivas para grupos que permanecem, em razão da remessa de
recursos: em 2005 foram 225 bilhões de dólares, o que representa mais que a ajuda oficial direta para
o desenvolvimento. Por vezes, um imigrante sustenta, em média, dez pessoas no seu país de origem.
Quadro 9 – Fonte: DURAND, M.-F. et al. Atlas de la mondialisation: Édition 2006. Paris: Presses de Sciences Po, 2006. p. 22-23.

83
Essas informações, somadas ao que os alu- No Caderno do Aluno, na seção
nos já sabem, podem estimular um debate fru- Lição de casa sugerimos algumas
tífero. Seria bom estabelecê-lo nesse momento. atividades sobre os temas tratados.
A questão a seguir pode iniciar a discussão.
1. Os alunos devem fazer uma redação
Potencialmente, as condições para que as mi- utilizando as informações presentes no
grações se acelerem estão dadas: 1. é mais fácil quadro Características das migrações
viajar, os meios são mais eficientes e os custos mais internacionais contemporâneas, assim
baratos; 2. é possível fazer experiências temporá- como outras que apareceram na Situa-
rias. Porém, há restrições político-sociais ao pro- ção de Aprendizagem. Eles devem esco-
cesso migratório. Por isso, o que menos circula no lher um dos temas: “A mudança das dis-
“mundo globalizado” são as pessoas. Mesmo as- tâncias geográficas” ou “Os processos
sim, as migrações cresceram bastante em compara- migratórios”.
ção com o passado. Como explicar essa situação? Espera-se que essa redação individual seja a oportunida-
de para a realização de uma síntese que utilize os vários
Sugerimos que o professor guarde três infor- elementos que foram trabalhados na Situação de Apren-
mações estratégicas para lançar durante o debate. dizagem. A ideia é que o estudante não repita simples-
mente números e informações, mas faça análises, dê
Características complementares opiniões, tire conclusões. Para o tema “A mudança das

1. No início do século XXI, o fechamento distâncias geográficas”, o aluno vai precisar tratar do au-
das fronteiras fez aumentar o número de mento da mobilidade dos seres humanos, das informa-
clandestinos, o que é difícil de estimar. Por ções e das mercadorias. Deverá mostrar consciência so-
exemplo: seriam uns 7 milhões nos EUA.
bre os novos meios que estruturam o espaço encurtando
2. Para os países de origem, as consequên- as distâncias, ou seja, alterando o valor das distâncias para
cias são por vezes negativas, como, por os grupos humanos do presente. O que já foi muito lon-
exemplo, no caso da fuga de cérebros. ge pode estar bem mais perto. No processo de argumen-

3. As consequências são positivas para tação, os alunos devem ser orientados para o uso ade-
grupos que permanecem, em razão da quado de informações que poderão obter nos materiais
remessa de recursos: em 2005 foram fornecidos na própria Situação de Aprendizagem (mapas,
225 bilhões de dólares, o que representa
gráficos, quadros) ou em outros materiais (como em seus
mais que a ajuda oficial direta para o
desenvolvimento. Por vezes, um imi- livros didáticos). Para o tema “Os processos migratórios”,

grante sustenta, em média, dez pessoas. os procedimentos serão os mesmos, mas o foco deve ser

Quadro 10 – Fonte: DURAND, M.-F. et al. Atlas de la dirigido às motivações dos processos migratórios, em es-
mondialisation: Édition 2006.Paris: Presses de Sciences Po, pecial aqueles associados às novas facilidades para imi-
2006. p. 22-23.
grar e as condições econômicas dos países de origem,
Sem dúvida, essas novas informações vão assim como as necessidades dos países de destino.
adicionar qualidade à discussão.

84
Geografia – 1ª série – Volume 1

2. Quais são as facilidades que os migrantes 4. Leia com atenção:


atuais têm em relação aos do passado?
Descreva-as e discuta. A ideia de que o tempo suprime o espa-
Os imigrantes do presente têm mais facilidades, pois os ço provém de uma interpretação delirante do
meios de transporte são mais eficientes e mais baratos. encurtamento das distâncias, com os atuais
Eles podem migrar para países mais longínquos e re- progressos no uso da velocidade pelas pes-
tornar para passar férias em seu país de origem. Assim, soas, coisas e informações. A verdade é que
pode-se considerar que houve uma expansão do merca- as informações não atingem todos os lugares.
do de trabalho, que agora ultrapassa fronteiras nacionais. [...] É mínima a parcela de pessoas que mesmo
Isso é bastante comum na Europa Ocidental. O imigrante nos países mais ricos se beneficiam plenamen-
contemporâneo, por essa razão, não perde definitiva- te dos novos meios de circulação.
mente o contato com o país de origem, algo bastante
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tem-
comum com os imigrantes do começo do século XX, que po, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 1996. p. 161.
muitas vezes não tiveram a oportunidade de regressar às
localidades em que nasceram.
Que aspecto da realidade está sendo desta-
3. Quais são as dificuldades que se impõem cado pelo autor nesse trecho do texto?
ao processo migratório da atualidade?
Descreva-se e discuta. O geógrafo Milton Santos mostra-se cético em relação
Os imigrantes podem ser considerados, em certas situações, às facilidades geradas pelo aumento das velocidades. Ele
elementos perturbadores do mercado de trabalho local, pois entende que o aumento das velocidades que diminui as
estariam “roubando” postos de trabalho das populações locais. distâncias genericamente não significa que o tempo (a
Esse tipo de sentimento é mais comum nos momentos de crise, velocidade) eliminou a questão das desigualdades espa-
tal como o que o mundo tem enfrentado desde o fim da pri- ciais. Afinal, o acesso a esses benefícios é desigual, pois
meira década do século XXI. Com o aumento do desemprego o acesso ao que circula no espaço (informações, bens e
na Europa, no Japão e nos EUA, os imigrantes são as primeiras as próprias pessoas) não atinge a todos. Isso quer dizer
vítimas. De outro modo, por terem, em muitos casos, caracte- que a questão espacial (o espaço propriamente) perma-
rísticas culturais distintas daquelas das comunidades de destino, nece com suas distâncias maiores para alguns e menores
eles acabam também tendo dificuldades de inserção social nos para outros. Podem surgir respostas, que mesmo reco-
países para onde imigraram. Podem ser alvos de preconceito e nhecendo as desigualdades admitem, por exemplo, que
racismo, isto é, de um processo de rejeição. Muitas vezes, mi- o aumento das velocidades e a diminuição das distâncias
gram na ilegalidade, e as dificuldades que deverão ser enfrenta- podem estar sendo aproveitados de forma vantajosa por
das se ampliam. No mundo contemporâneo, as facilidades para imigrantes, que circulam com mais facilidade no mun-
a imigração são maiores, mas admitir a imigração como algo do (aumentando a escala de suas possibilidades). Outros
natural ainda é um horizonte muito distante. O mesmo não se exemplos da mesma natureza são possíveis e devem ser
dá com os bens que circulam no mundo. valorizados.

85
5. Como pode ser explicado o crescimento da da mobilidade humana, com predomínio
migração clandestina em âmbito mundial? de movimentos para os países ricos.
Embora os países de destino não tenham disposição social para
a legalização dos imigrantes (não querem lhes dar cidadania e c) as migrações estão intensas com o fim
todos os direitos decorrentes, o que implica a aplicação de re- da intolerância étnica, o que significa
cursos públicos), a migração clandestina aumenta porque, do que independentemente da origem do
ponto de vista econômico, acaba sendo vantajosa a exploração imigrante ele será absorvido no novo
do trabalho desses imigrantes. Em razão de sua condição de ile- país com os direitos de cidadania.
gais, terminam aceitando baixos salários e jornadas desumanas.
Apesar disso muitos admitem passar temporadas nessas condi- d) graças às políticas de cooperação entre os
ções, porque muitas vezes conseguem amenizá-las, formando países, criou-se um mercado de trabalho
redes de solidariedades dado as habilidades e as práticas que na escala mundial, o que permite uma imi-
eles desenvolvem no processo. Tudo isso porque a atual mobili- gração internacional sem obstáculos.
dade dá mais condições para ações dessa natureza.
e) com a facilidade atual para os imigran-
6. Tomando como referência a aceleração tes, eles tendem a se enraizar mais nos
dos processos migratórios nos últimos 40 seus novos países, sendo cada vez mais
anos, pode-se afirmar que: difícil o retorno a seus países de origem.
A imigração se acelerou devido ao aumento da mobilidade
a) os processos migratórios internacionais se humana e às novas condições para essa mobilidade, do que
aceleraram bastante, embora o continente propriamente pela maior tolerância ao imigrante como as
europeu não tenha sofrido nenhum tipo de outras alternativas sugerem. Embora seja possível prever que
movimentação importante nesse período. essa tolerância vá acabar se impondo, visto que o processo
de imigração permanecerá e as sociedades nacionais terão
b) houve um aumento dos processos migra- de conviver com essa realidade, é preciso notar que talvez
tórios – multidirecionais – com o aumento ainda continuem ocorrendo conflitos.

SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 6
A GLOBALIZAÇÃO E AS REDES GEOGRÁFICAS

O fenômeno da globalização assumiu de impensada, é importante que no ambiente es-


vez uma posição central na análise dos proble- colar se trabalhe cuidadosamente o processo
mas contemporâneos. Entende-se comumente de globalização, algo que nem sempre ocor-
que todas as realidades sociais em qualquer re. Nessa direção, vale assinalar que, embora
parte do planeta estão influenciadas, em al- a globalização seja compreendida sobretudo
guma medida, pela denominada globalização. como uma ocorrência econômica, uma obser-
Antes que isso se transforme numa retórica vação atenta vai descobrir a evidente, porém

86
Geografia – 1ª série – Volume 1

não realçada o suficiente, face geográfica do ções transnacionais. O processo de globaliza-


processo. A própria palavra globalização sig- ção, para ser compreendido, exige um olhar
nifica abrangência geográfica de relações na interno para além da constatação genérica.
escala do globo, do planeta. Afinal, se é um processo geográfico, como o
espaço geográfico foi estruturado para abrigar
A realidade contemporânea é, sem dúvida, e propiciar a globalização? Em resposta a esta
marcada por uma ampliação expressiva das questão, a Situação de Aprendizagem vai in-
relações entre as várias realidades nacionais, vestir numa conceituação-chave e propor uma
a ponto de essas próprias realidades sofrerem série de observações e atividades: trata-se do
certo enfraquecimento diante de novas forças conceito de rede geográfica, sem o qual a glo-
que agem no plano global, como as corpora- balização não pode ser explicada.

Conteúdos: a natureza dos espaços da globalização; redes técnicas e a aceleração dos fluxos de informa-
ção (o caso da internet); a desigualdade no acesso aos fluxos de informação.

Competências e habilidades: construir e aplicar habilidades relativas ao domínio da linguagem carto-


gráfica, como meio de visualização sintética da relação entre realidades geográficas distintas e como
meio de uso da imagem como discurso espacial; construir e aplicar conceitos com base na abordagem
geográfica, tais como fluxos e redes geográficas, para contribuir na compreensão de fenômenos contem-
porâneos próprios e associados ao processo de globalização das relações humanas.

Sugestão de estratégias: observação de representações cartográficas diversificadas; exploração cognitiva


das diversas possibilidades da linguagem cartográfica; proposição de debate reflexivo, com base em
informações.

Sugestão de recursos: mapas ordenados e anamorfose; quadros; fotos.

Sugestão de avaliação: exercício com os mapas; leitura de textos solicitados; participação geral no pro-
cesso; questões abertas e de múltipla escolha.

Etapa 1 – Observação e análise de de diversas partes do mundo e também pelo nú-


mapas da rede técnica mundial da mero elevado de informações sobre o mundo.
internet Parte expressiva do que ocorre, do que se faz,
do que se pensa em outras localidades pertence
Quando se fala em globalização, é possível agora à nossa realidade. Como isso é possível?
pensar em várias coisas, mas há um aspecto so-
bre o qual todos refletem: existe uma presença Ao professor de Geografia recomendamos
muito maior do mundo em cada localidade. Isso uma afirmação ao mesmo tempo provocado-
é expressado pela enorme presença de produtos ra e esclarecedora: Há uma nova organização

87
do espaço geográfico que permite que o mundo e econômicas diversas, mas o contato entre
esteja aqui, que estejamos no mundo e que a ele suas populações é cada vez mais intenso e isso
pertençamos. Essa nova organização permite se dá por meio de um “concorrente” do terri-
que os fluxos se acelerem. E essa nova ordem tório: a rede geográfica. A rede geográfica tem
geográfica é uma ordem de redes geográficas. o poder de ultrapassar as fronteiras nacionais.

Palavras-chave na Geografia, como espaço Existiria exemplo mais acabado dessa nova
e território, hoje, devem ser acompanhadas realidade do que a rede técnica mundial da
por mais uma da mesma importância, a rede internet? Sugerimos que os professores façam
geográfica, que é a forma principal dos espa- essa pergunta às suas turmas, para posterior-
ços da globalização. mente mostrar-lhes um mapa (Figura 25) bem
interessante que dará ideia dessa rede técnica,
Os territórios nacionais possuem frontei- certamente a mais importante para a sedimen-
ras, distâncias geográficas, culturais, políticas tação da globalização.

Internautas, 2010

Atelier de cartographie de Sciences Po, 2012

Parcela de internautas
(em %)
ausência
de dados
0,2 14 36 61 95
método estatístico: médias ajustadas

Fonte: União Internacional de Telecomunicações, www.itu.int

Figura 25 – Internautas 2010. Atelier de Cartographie de Sciences Po. Disponível em: <http://cartographie.sciences-po.fr/
fr/internautas-2010-0>. Acesso em: 5 nov. 2013. Mapa original (base cartográfica com generalização; algumas feições do
território não estão representadas em detalhe; sem escala; sem indicação de norte geográfico).
88
Geografia – 1ª série – Volume 1

Antes, mais uma vez, deve-se chamar a No continente africano de maneira geral; no subcontinente
atenção para a linguagem cartográfica. É des- indiano (Índia, Bangladesh etc.); no continente sul-america-
sa forma que o controle dessa linguagem irá se no (Equador, Paraguai e Bolívia).
sedimentar. Um mapa benfeito comunica logo
e bem, mas destaques e comentários reforçam d) Por que pode ser dito que esse é um mapa
e aceleram o entendimento. para ver? Justifique.
Porque ele forma uma imagem única da geografia do fenôme-
Leitura e análise de mapa no representado. Nota-se claramente onde estão os países do
mundo que têm maior participação de internautas no conjunto
No Caderno do Aluno, propomos algumas da população e onde essa participação é pequena. Percebe-se
atividades relacionadas ao mapa da Figura 25. a grande desigualdade e a lógica da distribuição do fenômeno,
que também tem um padrão que diferencia o Sul do Norte.
1. Depois de observar o mapa os alunos de-
vem responder às seguintes questões: e) Descreva o mapa. É possível afirmar que o
mundo inteiro está cada vez mais presente
a) Que tipo de mapa é esse? Que variável em cada lugar? Isso significa que as mes-
visual está sendo utilizada nessa repre- mas coisas estão em todos os lugares?
sentação? Sim, é possível afirmar que o mundo está mais presente em
Trata-se de um mapa que pode ser designado como uma cada lugar. Os usuários da internet (indivíduos e instituições)
representação ordenada. Ele faz uso da variável visual superam, mediante esse meio de comunicação, as frontei-
valor (diferentes tonalidades do marrom). Existe (e deve ras e as barreiras das escalas geográficas mais restritas. Desse
existir) uma correspondência direta entre a variável visual modo, integram-se grupos humanos e negócios em uma
valor e o fenômeno representado. Quanto mais escura a escala mais ampla, a chamada escala global. Mas, em termos
tonalidade, maior a presença (a participação) do fenô- geográficos, esse fato ocorre de maneira desigual, como o
meno representado. mapa dos usuários demonstra.

b) Identifique onde ocorrem as manifesta- Há muito a ser explorado num mapa como
ções mais intensas do fenômeno repre- o da Figura 25, a começar pela compreensão
sentado. Cite algumas áreas (países e/ou do que é uma rede técnica e de como ela se in-
regiões) onde isso ocorre. corpora à geografia do mundo, indo até o en-
É fácil perceber que países como EUA, Canadá, Japão, Aus- tendimento do papel de uma rede técnica como
trália e alguns da Europa Ocidental têm uma participação espaço fundamental dos agentes globais. Todavia,
grande do fenômeno representado. ainda é possível tornar mais evidente a conexão
das pessoas à rede, tendo em conta os países, tra-
c) Identifique as áreas onde o fenômeno é balhando com uma representação cartográfica,
menos representativo. Cite pelo menos muito expressiva, que vai realçar bastante as fa-
três países em diferentes continentes. ces principais do fenômeno da internet.

89
Observe o mapa da Figura 26. É possível linguagem e sobre sua razão de ser vão ser neces-
que, para muitos estudantes esse tipo de mapa sários. Mas vale a pena, pois ele tem uma força
(anamorfose) seja uma novidade, seja surpre- comunicativa poderosa e, ao mesmo tempo, reve-
endente. Por isso, alguns comentários sobre sua la de forma aguda certos fenômenos geográficos.

Mundo: posse de computadores pessoais, 2002

Figura 26 – Mundo: posse de computadores pessoais, 2002. SASI Group (University of Sheffield) e Mark Newman (University of
Michigan). Disponível em: <http://www.worldmapper.org/display.php?selected=337>. Acesso em: 24 jul. 2013.

f A subversão da forma: uma sugestão ao seja, quanto mais volume de posse, maior a extensão do país no
professor é que o aluno, no momento de mapa, o que vai interferir na extensão dos blocos continentais.
examinar essa representação, tenha ao
lado um mapa-múndi territorial. Algumas b) Tendo ao lado um mapa-múndi conven-
questões, também propostas no Caderno cional (com medidas baseadas no terreno),
do Aluno, poderiam ser feitas. responda: considerando os blocos conti-
nentais e os países, quais estão com suas
2. Observe o mapa da Figura 26: extensões diminuídas na anamorfose?
O continente africano e a América do Sul estão com suas
a) Por que, nesse mapa, as extensões dos extensões diminuídas de forma bem evidente.
blocos continentais e dos países foram al-
teradas em relação às projeções habituais? c) Agora, ao contrário, quais blocos conti-
Porque não são as medidas territoriais que estão sendo utili- nentais e países estão com suas extensões
zadas, e sim a medida de posse de computadores pessoais, ou aumentadas?

90
Geografia – 1ª série – Volume 1

Os EUA (na América do Norte) estão com sua extensão amplia- volvidos? Por quê? Qual desses mapas
da em relação às medidas originais do seu terreno, do mesmo melhor informa sobre esse fenômeno?
modo que o Japão e vários países da Europa Ocidental. Pelo mapa “Internautas, 2010” é possível perceber que a
maioria dos países desenvolvidos – como aqueles da Eu-
d) Como a América do Sul aparece nesse ropa Ocidental, os EUA, o Japão e a Austrália – apresenta as
mapa? maiores incidências de internautas no mundo. Esses países
Com sua extensão diminuída (de modo geral) em compa- apresentam melhor estrutura de comunicação e uma po-
ração com um mapa territorial. Isso em razão da medida pulação com maior poder aquisitivo; consequentemente,
escolhida para a realização do mapa, que é a posse de com- mais acesso a equipamentos e serviços. A anamorfose mos-
putadores pessoais. Como, de modo geral, essa posse não tra isso com um impacto visual maior.
é muito expressiva, a representação visual também não o é.
No entanto, quando houver dados para atualizar esse mapa, 4. Computadores domésticos, nas empresas, nas
a América do Sul, por exemplo, terá sua extensão ampliada, instituições públicas, conectados ao sistema
graças ao aumento do acesso aos computadores pessoais. telefônico e que permitem acesso a uma área
comum constituem uma rede? Justifique.
3. Agora, com base nos dois mapas anterio- Sem dúvida. Embora as ligações e as linhas sejam múltiplas
res (Figuras 25 e 26), os alunos devem res- quanto às suas tecnologias (rede telefônica, rádio e redes de
ponder às questões a seguir. cabo de televisão), podemos imaginar linhas e pontos que
são áreas comuns, cujo acesso é geral. É, claramente, uma
a) Compare as situações dos Estados rede.
Unidos da América e da África.
No mapa ordenado (Internautas, 2010, acompanhado do gráfico 5. É possível identificar, no espaço das áreas
Evolução do número de internautas, 1991-2006), a situação dos urbanas, outras infraestruturas que se or-
EUA encontra-se na faixa de 95 internautas em cada 100 habitan- ganizam em redes? Dê exemplos.
tes, enquanto a África continental tem a maioria dos países com Sim, isso é nítido. As redes de transportes urbanos oferecem
0,19 internauta em um grupo de 100 habitantes. Por isso, na ana- bons exemplos. No caso dos ônibus, temos as linhas com vários
morfose, os EUA ficam imensos enquanto o continente africano pontos de paradas e pontos finais. A esses pontos finais podem
quase desaparece. estar articuladas outras linhas de ônibus que têm diversos outros
pontos. No final, a ideia é que essas redes cubram boa parte do
b) O que pode ser dito em relação ao Brasil? território de uma cidade. O mesmo pode ser dito das redes fer-
O Brasil aparece em uma situação intermediária em ambos roviárias (metrô, trens de superfície etc.).
os mapas, tanto que, na anamorfose, ele não é tão diminuí-
do. Ainda assim, no país, a posse de computadores e o acesso A observação e o trabalho inicial com a lin-
a internet não são largamente disseminados. guagem das duas representações cartográficas
serviram para preparar a exploração cognitiva
c) É possível afirmar que a rede mundial das duas imagens em conjunto. Afinal, elas,
conecta principalmente os países desen- cada qual à sua maneira, dão uma ideia dessa

91
inovação revolucionária na vida humana e na 3. O poderio e o desenvolvimento econômi-
estruturação dos espaços geográficos graças à co, assim como o desenvolvimento social,
rede técnica mundial da internet. passam atualmente também pelo acesso e
pela capacidade de expansão e de controle
A seguir sugerimos algumas ativi- dessa rede? Justifique.
dades, disponíveis no Caderno do Não resta dúvida. Muito do poderio e do desenvolvimento eco-
Aluno na seção Lição de casa. nômico passa pelo acesso e pela capacidade de expandir esse
acesso à rede a públicos mais amplos. Mas, também, muito do
1. Um dos maiores exemplos da aceleração poderio que pode fazer frente às forças econômicas tradicionais
contemporânea é a do fluxo de informações. se organiza e se fortalece na rede mundial de computadores.
Como é o acesso a esse fluxo na atualidade?
A internet é um meio de informação e de comunicação (áreas 4. A maior ou menor participação em um
de interação, de troca de mensagens etc.). A circulação mundo mais amplo, um mundo em que a
das mensagens se dá instantaneamente. Desse modo, uma distância geográfica tornou-se um obstácu-
mensagem emitida agora no Brasil será acessada quase ao lo menor (ou diferente), depende do acesso
mesmo tempo no Japão. Isso muda de forma revolucionária aos fluxos de informações, de mercadorias,
a velocidade das relações humanas, algo inimaginável no co- de capitais etc.? Justifique.
meço do século XX, por exemplo, embora, naquela época, já Está claro que os benefícios às relações humanas trazidos
existisse uma rede telegráfica mundial eficiente. pela diminuição das distâncias se concretizam com o acesso
aos meios de comunicação e transportes contemporâneos.
2. O que circula pela internet? Isso pode gerar Esse recurso ainda está longe de estar democratizado e, cer-
proveito econômico? Explique. tamente, um “mundo melhor” passa por essa democratização.
Na internet circulam informações. Mas dizer isso é muito pou- Não há dúvida de que a internet é um dos ingredientes desse
co. Na verdade seria melhor referir-se a materiais digitais. Um li- processo de encurtamento das distâncias e do horizonte inte-
vro pode ser digitalizado (transformado em informação eletrô- rativo mais digno para o ser humano.
nica) e circular na rede. As imagens e os sons também podem
ser digitalizados. Uma gama enorme de informações é matéria- 5. Comente a seguinte afirmação: Quando se
-prima essencial da internet. Essas informações são, sem dúvida, fala em globalização, é possível entender
importantes e estão mudando a face da humanidade. Não ape- que existe uma presença muito maior do
nas porque têm valor econômico (não há hipótese de empresas mundo em cada localidade. Há uma nova
de qualquer porte ficarem distantes da rede para divulgar suas organização do espaço geográfico que per-
atividades e até comercializar seus produtos e serviços), mas mite que o mundo esteja aqui e que tam-
porque têm alterado características da própria economia. Mui- bém estejamos no mundo.
tos bens que antes só eram acessíveis por transação econômica, Nessa exposição necessariamente pessoal do aluno, espera-se
atualmente são acessíveis por “compartilhamento” de materiais (e, para isso, ele deve ser orientado) que ele consiga integrar
digitais, uma transação não econômica. Muitas mudanças em o conjunto de informações e raciocínios desenvolvidos na
andamento ainda estão por ser entendidas. Situação de Aprendizagem. Espera-se que ele demonstre ter

92
Geografia – 1ª série – Volume 1

ampliado a sua percepção de um mundo cujas relações são das como empresas multinacionais. Por que
cada vez mais interescalares. Isso quer dizer que nossas rea- você acha que os termos mudaram? Empre-
lidades locais estão influenciadas e articuladas a relações de sa é diferente de corporação? Em que medi-
outras escalas, até mesmo a mundial. O mundo nunca esteve da o prefixo multi difere de trans? Explique.
tão presente em nossa vida. O importante é estimular o aluno Os alunos devem ser estimulados e provocados a buscar na
a usar recursos próprios que se manifestem em seu cotidiano memória e na vida cotidiana os diversos termos utilizados
na argumentação, sem repetir mecanicamente os raciocínios para se referir às grandes instituições econômicas privadas.
e as informações contidas na Situação de Aprendizagem. O objetivo é que eles cheguem ao termo multinacional,
largamente utilizado, e deparem com outro termo bastante
Etapa 2 – Redes geográficas: o utilizado atualmente: transnacional. Agora as multinacionais
espaço de ação das corporações estão sendo chamadas corporações transnacionais. Empresa
transnacionais não é muito diferente de corporação. Esse último termo está
na moda. Agora se fala em mundo corporativo. Talvez, possa
É sempre recomendável, e por isso estamos se admitir que corporação revele mais o que é uma empresa
sugerindo, que o professor trabalhe questões moderna e poderosa. Não mais pertencente a um empre-
que envolvam conceitos com explanações ou sário, mas a uma corporação de acionistas. Por sua vez, os
questionamentos iniciais sobre significados prefixos multi- e trans- realmente têm significados diferen-
básicos dos termos que serão utilizados nas tes: multinacional A aquilo que está em vários países; trans-
Situações de Aprendizagem. Nesta etapa es- nacional Aaquilo cuja natureza está acima dos países. Tanto
pecificamente, além de insistir na ideia de re- empresa multinacional como corporação transnacional são
des geográficas, será preciso trabalhar a ideia termos que expressam algo que é mais poderoso que uma
de corporações transnacionais. empresa nacional. Essa última possui uma área de atuação
menor e mais restrita (um mercado único).
Isso pode ser feito estimulando os alunos a
expor ou pesquisar o significado dos seguintes Criado um cenário de dúvidas e reflexões,
termos: empresa, corporação, nacional, multina- importa principalmente assinalar a diferença
cional e transnacional. Algumas questões podem desses termos em seus aspectos mais sutis, es-
ser lançadas uma seguida à outra (sem esperar clarecendo um dos enigmas da globalização e
respostas individuais para cada uma), para criar do mundo contemporâneo.
um cenário de dúvidas e reflexão. As questões 1,
2 e 3 reproduzidas nas páginas a seguir estão no Entre empresa e corporação, a diferença é
Caderno do Aluno. banal: uma corporação é um grupo que reúne
várias empresas de diversos ramos e que con-
Leitura e análise de quadro e texto centra muito capital e interesses sob um único
controle. Há corporações que têm empresas
1. Há pouco tempo, o que hoje chamamos que atuam no ramo do petróleo, no indus-
corporações transnacionais eram conheci- trial, no agronegócio, no sistema financeiro e

93
na produção de filmes para cinema e televisão, Mas o que significa essa diferença entre
por exemplo. Isso só explica que, quando os uma multinacional e uma transnacional?
lucros crescem, os grupos econômicos vão di- Para qualificar a discussão, sugerimos que
versificando seus negócios e suas localizações, se peça aos alunos para examinar o esquema
a fim de garantir maiores lucros. simples (Quadro 11) que segue:

A economia globalizada

f Globalização Produção industrial, agrícola e de serviços mundializada;


Interconexação potencial do mundo como um todo;
Espaço composto por inovações técnicas e científicas;
Intensos fluxos acelerados de bens materiais e de informações;
Espaço estruturado como uma malha de redes espaciais.

f Agentes da Corporações transnacionais;


globalização Estados nacionais (potências e superpotências).

f Consequências Reordenamentos espaciais;


da globalização Nova escala das relações humanas: dos territórios nacionais para contextos
geográficos mais amplos, podendo chegar à escala do planeta.

f A realidade A malha de redes geográficas da globalização não envolve inteiramente o


global território nacional de um país;
O poder e as regras nos espaços globais estão em grande medida nas mãos
das corporações transnacionais.

Quadro 11 – A economia globalizada. Fonte: Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente para o São Paulo faz escola.

Seria interessante chamar a atenção dos estu- a) Qual é o papel das novas tecnologias nessa
dantes para que observem especialmente a pre- nova configuração mundial? Quais são as
sença e o papel das corporações transnacionais consequências dessa nova ordem geográfi-
no esquema. Um questionamento pode orientar ca para as relações humanas? Justifique.
a análise, segundo o Caderno do Aluno. As novas tecnologias aparecem como fatores de grande
importância na estruturação desse processo de criação e
2. Considere o Quadro 11 e examine-o com ampliação da escala global, que se convencionou deno-
atenção. Ele expõe uma nova realidade minar globalização. Aparecem, até mesmo, como cria-
geográfica presente em nosso mundo. doras de configurações espaciais em rede geográfica,

94
Geografia – 1ª série – Volume 1

que são malhas globais, ou seja, os espaços da globali- 3. Leia agora um pequeno trecho de uma
zação. A nova ordem geográfica aprofundou a troca de obra do geógrafo brasileiro Milton Santos.
informações entre realidades antes distantes, bem como
intensificou a circulação de mercadorias e pessoas ao re- O interesse das grandes empresas é economi-
dor do mundo, interconectando parcelas expressivas da zar tempo, aumentando a velocidade da circu-
população global. Fica pendente, porém, o acesso de- lação. [...] Corporatização do território é a des-
mocrático a essa nova realidade, uma vez que contingen- tinação prioritária de recursos para atender as
tes significativos estão excluídos dessa nova ordem. necessidades geográficas das grandes empresas.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tem-


b) Observe no quadro a presença e o papel po, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 1996. p. 270.

das corporações transnacionais. Indique


em que situação elas aparecem e procure Qual é a ideia central do texto? Em que me-
explicar o significado das referências a dida essa ideia ajuda a compreender a lógica
essas corporações. da globalização econômica e o papel das cor-
Elas aparecem no quadro como agentes importantes da glo- porações transnacionais?
balização, além de funcionar como estruturadoras e contro- O geógrafo Milton Santos está mencionando a importância que
ladoras de configurações espaciais que podemos chamar de tem para uma corporação transnacional a velocidade da circula-
espaços globais e/ou mundiais (nem todos os espaços têm ção de informação e de bens. Afinal, elas atuam na escala mundial,
essa condição). Com sua capacidade de criar redes geográ- e para elas o mundo é (e precisa ser) pequeno, com as distâncias
ficas, de influenciar diversas realidades nacionais, sua atuação encurtadas. Para atingir tal objetivo, essas empresas atuam no sen-
se amplia pelo mundo. O mundo é sua referência, e, quando tido de preparar os pontos de rede com o máximo de tecnologia
o mundo passa a ser a referência de atuação para agentes para acelerar as relações. Atuam nos Estados nacionais e estes,
desse peso, estamos diante de algo que está estruturando a com o objetivo de atrair tais empresas, terminam investindo nessa
denominada globalização. instrumentalização dos pontos de rede nos territórios nacionais.

c) Em que tipo de espaço, de fato, as Leitura e análise de mapa


grandes corporações baseiam suas
atividades? Para finalizar esta etapa da Situação de
Não são os espaços nacionais em si. São pontos de redes Aprendizagem, seria desejável mostrar con-
geográficas que se organizam em escala mundial e se en- cretamente como operam e se organizam geo-
contram nos territórios nacionais, mas que se relacionam graficamente as transnacionais. A percepção
mais intensamente com outros pontos da rede do que com das redes geográficas que organizam vai qua-
os territórios nos quais estão inseridos. lificar melhor a discussão anterior.

Um autor importante pode ser citado nes- Sugerimos ao professor que trabalhe com
se momento. Deve ser recomendada muita os alunos o mapa da Figura 27, da seção Lei-
atenção na leitura. tura e análise de mapa do Caderno do Aluno.

95
Esse mapa pode ser caracterizado como suem cores diferentes, a conclusão visual, sem
um mapa qualitativo de fluxos. A seta é um que haja necessidade de consulta da legenda,
símbolo universal de direção e de movimento. é que se tratam de fluxos de objetos diferen-
Por outro lado, o uso de várias cores indica tes numa dada região do planeta. Isso é muito
aos nossos olhos objetos diferentes. Logo, se evidente, o que facilita bastante a apreensão
as setas indicam fluxos, mas no mapa elas pos- da organização geográfica que se quis expor.
Especialização e troca entre filiais de uma corporação automobilística no Sudeste Asiático

Sistemas de transmissão
Peças de motor
TAILÂNDIA
Equipamentos elétricos
Peças de forjaria

F I L I P I N A S

OCEANO
PACÍFICO
M A L Á S I A

I N D O N É S I A

OCEANO
ÍNDICO N

0 600 km

Figura 27 – Especialização e troca entre filiais de uma corporação automobilística no Sudeste Asiático. Elaborado por Jaime
Tadeu Oliva especialmente para o São Paulo faz escola.

E o que esse mapa mostra? Uma rede geo- nos que explicitem o que entendem por isso,
gráfica de operações de uma transnacional instigando-os a observar o mapa. A seguir,
automobilística no Sudeste Asiático. São vá- sugerimos algumas atividades relaciona-
rias filiais industriais, distribuídas em alguns das ao mapa no Caderno do Aluno. Essa é
países da região. E por que rede? Porque os uma oportunidade para introduzir um termo
fluxos representados mostram complementa- muito empregado em nosso país quando a
ridade no processo produtivo. Sugerimos ao referência são as multinacionais automobi-
professor que nesse momento peça aos alu- lísticas. Esse termo é: montadora.

96
Geografia – 1ª série – Volume 1

1. Descreva o papel da seta como símbolo dos pontos da rede especializa-se na montagem reunindo
principal nessa representação cartográfica. os componentes vindos de vários pontos da rede geográfica.
A seta indica os fluxos e suas direções.
6. Se as filiais especializam-se fazendo apenas
2. Qual é o papel das cores nessa representa- algumas peças, logo o automóvel não fica
ção cartográfica? completo em nenhuma delas. Consideran-
Como as setas têm cores diferentes, elas indicam fluxos de tipos do esse aspecto, o que pode ser entendido
diferentes. A relação é direta: cores diferentes A fluxos diferentes. como empresa (ou filial) montadora? No
Brasil, as indústrias automobilísticas po-
3. Esse é um mapa quantitativo ou qualitativo? dem ser consideradas montadoras?
Justifique. A filial montadora, o ponto de rede responsável pela mon-
Esse mapa pode ser caracterizado como um mapa qualitativo tagem, complementa o processo produtivo. Nem sempre a
de fluxos, porque representa fluxos diferenciados (de objetos produção das peças se dá apenas por unidades da empresa
diferentes). Mapas que diferenciam os fenômenos represen- automobilística. Muitos dos elementos são terceirizados. No
tados são mapas qualitativos. Brasil, existem de fato muitas empresas automobilísticas que
aqui instalaram unidades responsáveis pela montagem de
4. O que está representado nesse mapa? Po- componentes que se originam de várias partes de sua rede e
demos dizer que se trata da visualização da também de produtores terceirizados.
rede geográfica de uma transnacional no
Sudeste Asiático? Justifique. 7. Voltando à observação do mapa, fica claro
Estamos diante de uma rede geográfica de uma empresa por que a empresa pode ser designada como
transnacional que atua no ramo automobilístico. Distribuído uma corporação transnacional? Justifique.
em sua rede, encontra-se o seu sistema produtivo, que se Fica bem claro. Ela é uma transnacional, pois usa um conjunto
organiza em vários países do Sudeste Asiático. Cada ponto de Estados nacionais para instalar unidades de sua rede geo-
de rede é especializado, e nenhum constrói os automóveis gráfica. Esse é o seu verdadeiro espaço. De fato, muitas dessas
integralmente. Na verdade, os pontos se complementam, empresas já têm interesses e ações que ultrapassam qualquer
embora se encontrem em diversos países. identidade de caráter nacional.

5. Considerando o significado da palavra “mon- Alguns comentários complementares valem


tadora”, responda: observando o mapa, é a pena, a respeito do que o mapa mostra.
possível concluir que as filiais da corporação
automobilística atuam de forma integrada e f As redes geográficas das corporações trans-
complementar? Por quê? nacionais estão entre as estruturas geográ-
A palavra “montadora” designa as estratégias produtivas de ficas que produzem um espaço global, base
várias corporações industriais transnacionais. Organizadas para o processo de globalização. No entanto,
em rede, cujos pontos são especializados, em algum mo- o termo global refere-se a um processo em
mento o produto final deve aparecer, deve ser montado. Um andamento, pois na verdade há muitas áreas

97
ainda fora do mapa da globalização, assim por diante. Muitas inclusive divulgam mapas de
como as próprias empresas que se estrutu- suas operações, o que permite visualizar suas
ram em redes globais não possuem redes por redes geográficas. O acesso a esses dados (que
todo o mundo, efetivamente. Por exemplo: a é bem fácil) pode ser base para trabalhos de pes-
empresa representada no mapa tem origem quisa produtivos.
asiática e a maior parte de suas operações
(em especial, as produtivas) encontra-se ain- Tendo em mente a estruturação em rede
da na Ásia, aspecto que o mapa expressou. geográfica das corporações transnacionais, su-
f Se o exemplo fosse uma corporação trans- gerimos agora uma busca dessa forma de orga-
nacional estadunidense, o mesmo se daria nizar o espaço geográfico em outras situações.
em parte (embora as estadunidenses, por
terem desenvolvido mais cedo seu caráter A seção Pesquisa em grupo pro-
transnacional, possuam redes mais espa- põe uma atividade na qual os
lhadas). Em geral, suas unidades produtivas alunos deverão se reunir em pe-
(que produzem peças) espalham-se pelas quenos grupos, para realizar coletivamente
Américas e pela Europa, principalmente. uma pesquisa sobre uma rede geográfica de
f A despeito de uma distribuição desigual dos uma corporação transnacional automobilísti-
pontos de rede das diversas transnacionais, ca. Você pode sugerir que eles busquem essas
todas caminham para se organizar o mais glo- informações na internet. Posteriormente, com
balmente possível. No caso da transnacional base no mapa mudo Projeção Bertin, 1950
asiática exemplificada no mapa, ela procurou (disponível no Caderno do Aluno), os alunos
nos últimos anos criar pontos importantes deverão identificar a localização das unidades
de produção nos EUA e na Europa, assim da corporação pesquisada nos diversos países,
como criar estruturas comerciais e de pesqui- criando um símbolo para as respectivas fun-
sa científica no mundo ocidental. Mesmo no ções. Por exemplo: se for uma área em que se
continente africano (na África do Sul, pro- produzem motores, é preciso indicar um qua-
priamente) já há alguma presença de pontos drado vermelho; se for uma área em que se fa-
produtivos da rede geográfica da empresa. bricam peças de câmbio, pode-se assinalar um
quadrado verde, e assim por diante. Esse será
Por fim, vale assinalar que as corporações um mapa qualitativo, pois distingue objetos di-
transnacionais apresentam na internet suas es- ferentes; os alunos devem atribuir à representa-
truturas mundiais, suas redes geográficas. É ção um título e uma legenda.
comum, por exemplo, que as automobilísticas
listem suas unidades produtivas dos diversos A seguir, para aprofundar o estudo sobre
componentes e suas localizações; relacionem os essa nova forma de organização dos espaços
volumes montados (de veículos completos) nas que é a rede geográfica, vamos tratar de um
respectivas unidades e suas localizações, e assim exemplo mais próximo.

98
Geografia – 1ª série – Volume 1

O cenário, agora, é a cidade de São Pau- f Linhas: vias expressas, avenidas cuja circula-
lo. Essa metrópole sofre desde os anos 1980 ção é predominantemente automobilística.
uma profunda reestruturação no seu espaço
geográfico. Seu território está “invadido” Os usuários dessas redes geográficas pro-
por redes geográficas que se estruturam do curam concentrar o fundamental de suas
seguinte modo: vidas em seu interior: residência, abaste-
cimento, trabalho, estudos, lazer etc. E, se
f Pontos: habitações em condomínio fechado possível, raramente saem da rede, evitando
ļ centros administrativos isolados tam- assim o território pleno da cidade. Uma pe-
bém em formato de condomínio fechado ļ quena demonstração disso são as pesquisas
centros comerciais (shopping centers, hiper- que mostram o número impressionantemen-
mercados) fechados e protegidos ļ outras te alto de habitantes da cidade que nunca
instalações do tipo (hotéis, resorts urbanos) foram ao seu centro histórico, usaram trans-
(Figuras 28 e 29). porte coletivo ou andaram a pé.

© Delfim Martins/Pulsar Imagens

Figura 28 – Vista aérea de condomínio fechado. Barueri (SP), jun. 2006.

99
© Juca Martins/Olhar Imagem

Figura 29 – Fachada de shopping center, na Avenida Faria Lima. São Paulo (SP), 2006.

Há um custo financeiro para viver nessa Redes geográficas em São Paulo


rede protegida e ele não é baixo, o que re- Habitações em condomínio fe-
sulta numa “seleção social”. Isso diminui as chado C centros administrativos
trocas e as relações entre a população da ci- isolados também em formato de
condomínio fechado Ccentros
dade, em vista dessa separação (segregação?) Pontos
comerciais (shopping centers, hiper-
sofisticada na sua geografia. Afinal, as trocas, mercados) fechados e protegidos C
as relações sociais desses segmentos usuários outras instalações do tipo (hotéis,
e construtores de redes se dão quase que so- resorts urbanos)
mente entre eles. E o que isso tem a ver com as Vias expressas, avenidas cuja
redes geográficas de escala mundial, construí- Linhas circulação é predominantemente
automobilística
das e alimentadas pelas corporações transna-
Quadro 12.
cionais, como a rede geográfica da corporação
automobilística asiática? 1. Com base na observação da Figura 28 e nas
informações que você possui, caracterize o
Leitura e análise de imagem e quadro que é um condomínio fechado residencial.
Um condomínio fechado residencial, como o próprio nome
Na sequência, sugerimos uma atividade diz, é uma forma coletiva de residência (várias casas ou apar-
sobre as imagens (Figuras 28 e 29) e o Quadro tamentos) que se instala em um terreno protegido, cercado
12 apresentado a seguir. e vigiado. Desse modo, fica isolado geograficamente do seu

100
Geografia – 1ª série – Volume 1

entorno. Os moradores desse tipo de residência em geral Agora o professor poderia propor uma
utilizam automóveis para se locomover, o que os isola ainda comparação entre as redes geográficas da ci-
mais do bairro onde está instalado o condomínio. Para seu dade de São Paulo e a rede geográfica da cor-
abastecimento, frequentam áreas igualmente fechadas. É poração automobilística transnacional, ou
importante que o professor ressalte essa imagem de isola- de qualquer outro ramo. Para isso, vale apre-
mento, de afastamento dos bairros onde estão localizados. sentar algumas informações complementa-
res que estão no texto a seguir e trabalhar as
2. Observe a Figura 29 e, com as informações atividades que o acompanham, propostas no
que você possui, caracterize o que é um Caderno do Aluno.
shopping center.
Um shopping center pode ser designado como um condomí- Leitura e análise de texto
nio fechado comercial. É uma área coletiva, com vários esta-
belecimentos comerciais e de serviços que se instala em um Leia o texto a seguir:
terreno protegido, cercado e vigiado. Também isola-se espa-
cialmente do seu entorno. Não há shopping que não possua
Segundo relatório da UNCTAD1 (vide
imensos estacionamentos, pois seus principais frequentadores
quadro a seguir, na página 102), mais de
são proprietários de carro e, portanto, quase não usam trans- 50% dos capitais, de bens de produção, de
portes coletivos. Do mesmo modo, há aqui a imagem de isola- serviços e de tecnologia que as corporações
mento, de afastamento dos bairros onde estão localizados (uma transnacionais põem em movimento, circu-
lam internamente em suas estruturas, quer
parte dos shopping procura situar-se próxima de vias expressas,
dizer, em suas próprias redes. Outro ângu-
ainda que nem sempre isso seja possível). lo dessa lógica: o mesmo relatório permite
concluir que aproximadamente 30% das ex-
3. Analisando as informações das questões portações mundiais são trocas no interior
das redes das corporações (a participação
anteriores e utilizando seus conhecimen-
das transnacionais no total das exportações
tos, dê exemplos de redes geográficas na é de 66%). É uma movimentação econômi-
cidade de São Paulo. ca que não se irradia para os territórios dos
Na escala de uma cidade (no interior dela), podem ser en- países onde elas estão instaladas.
contradas redes geográficas de fato. Os núcleos formados
Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.
por condomínios fechados e por shopping centers (tam-
bém centros empresariais diversos), que se encontram tanto
na área densa como nas zonas periféricas, são os pontos de Compare as redes geográficas da cidade de
rede. As linhas são as vias cada vez mais preparadas para o uso São Paulo com a rede geográfica da corpora-
automobilístico intenso. Uma cidade como São Paulo tem, ção automobilística transnacional e, com base
de fato, redes geográficas cortando seu espaço. no texto, responda às questões a seguir.

1
CNUCED – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Informe sobre las inversiones en el mundo.
Nova Iorque/Genebra: Nações Unidas, 2001. Disponível em: <http://www.unctad.org/sp/docs/wir2001overview_sp.pdf>.
Acesso em: 24 jul. 2013.

101
1. Pode-se considerar esses dois exemplos como Depois de trabalhar com detalhes a noção de
duas redes geográficas fechadas? Justifique. rede geográfica, vamos voltar à discussão sobre
Certamente, essas redes geográficas – tanto na escala mun- as corporações transnacionais organizadas em
dial, como a de uma corporação transnacional, quanto no redes geográficas com mais algumas informações.
interior de uma cidade – se distinguem por possuírem carac-
terísticas de “negação” dos territórios do entorno. São fecha- Essa radiografia geográfica da estruturação
das, relacionando-se o mínimo necessário com esse entorno. transnacional das corporações revela a impor-
tância das redes geográficas na globalização que
2. Que semelhanças podem ser apontadas entre se constrói, bem como um pouco das estratégias
a circulação de bens na rede da corporação e do poder dessas grandes empresas.
automobilística e na rede geográfica urbana
de São Paulo? Muitos dados econômicos podem
Os dados mostram um volume expressivo de circulação ser alinhavados para dimensionar
econômica no interior das redes das corporações. Qualquer mais amplamente a ação das cor-
pesquisa mostraria algo semelhante na circulação econômi- porações, mas eles poderão ganhar mais signi-
ca no interior de uma rede geográfica dentro de uma cidade ficado se sua lógica espacial for considerada.
como São Paulo, por exemplo.
A seguir, alguns dados sobre as corpora-
3. Ambas as redes recebem grandes investimen- ções transnacionais. Na seção Lição de casa,
tos. Isso significa automaticamente desenvolvi- do Caderno do Aluno, propomos algumas ati-
mento social e econômico para os territórios vidades com base nessas informações.
onde essas redes estão implantadas? Justifique.
Algumas vezes, isso significa o contrário. As redes no interior das Segundo a Conferência das Nações Uni-
cidades costumam desagregar e enfraquecer o comércio de das sobre Comércio e Desenvolvimento
rua e também é comum a desvalorização dos imóveis em razão (CNUCED, ou UNCTAD na sigla em inglês),
do aumento do trânsito, do volume grande de áreas de estacio- em 2000 havia 65 mil empresas transnacionais,
namento etc. Do mesmo modo, uma rede de corporação não o que significava um montante de 850 mil filiais
apresenta automaticamente efeitos multiplicadores nas locali- (CNUCED, 2001, p. 1). Algumas outras infor-
dades onde se situam. Indicadores econômicos assinalam que, mações extraídas da própria argumentação da
muitas vezes, ela realiza grandes investimentos em outras regiões. Situação de Aprendizagem e do relatório citado
da UNCTAD podem ajudar a construir um bre-
4. Faz sentido afirmar que a rede geográfica ve perfil das corporações transnacionais:
concorre com o território pleno? Explique. 1. Sua estratégia e sua organização são con-
Essa afirmação faz sentido, pois, por vezes, essa rede nega os cebidas na escala mundial.
territórios (dos bairros, dos países onde estão situadas) e se
transformam, de fato, em concorrentes, como no caso cita- 2. Todos os ramos de atividades econômicas
do do shopping. estão presentes em suas atividades.

102
Geografia – 1ª série – Volume 1

3. As transnacionais tendem a se organizar 1. Por meio da leitura do texto, os alunos de-


em redes geográficas globais. vem responder às seguintes questões:

4. Em 1999, empregavam 54 milhões de pes- a) Identifique os elementos no texto


soas e totalizaram 19 trilhões de dólares que mostram que as corporações
em vendas. transnacionais se organizam na es-
cala mundial.
5. Analisando o relatório da UNCTAD, o Organizam-se em redes mundiais, o que fica claro logo
economista Antônio Corrêa de Lacerda no primeiro item do texto. Os dados econômicos, pre-
destacou que o patrimônio das transnacio- sentes em vários itens, definem o perfil das transnacio-
nais é de 25 trilhões de dólares e que, no nais e comprovam essa maneira pela qual se organizam.
montante das exportações mundiais, suas São montantes impossíveis de se obter na escala nacio-
operações representam 66% do total. nal, mas somente possíveis devido à atuação transnacio-
nal dessas organizações. A sua força é tão grande que
6. As cem maiores corporações detêm um chega a influenciar governos, que facilitam a ação dessas
número de negócios acumulados de 2,1 tri- corporações em seus territórios.
lhões de dólares, o que equivale a um PIB
e meio de um país como a França. b) Produza um texto com base em duas das
informações listadas tentando explicar e
7. Pelo peso econômico e por sua capacidade ampliar os seus significados.
de influenciar as políticas econômicas dos As transnacionais são atores muito importantes na cena
Estados nacionais onde se instalam, elas internacional e na cena nacional de vários países. Por
tornaram-se atores muito importantes na exemplo: muitos governos nacionais implementam
cena internacional contemporânea. políticas econômicas visando atrair os capitais dessas
corporações para seus territórios. Fazem isso promo-
8. Atualmente, a ação geopolítica dos Esta- vendo isenções fiscais (não cobram impostos), ofere-
dos deve considerar a presença dessa nova cendo terrenos, ajudas de infraestrutura, como energia
força (corporações) e também de uma ter- mais barata. Desse modo, uma corporação transnacio-
ceira força que se ergue, que são as orga- nal, ao se instalar em um país, passa a ter muito poder
nizações não governamentais. de influência sobre os governos. O volume de pessoas
empregadas nas empresas transnacionais é bem grande
CNUCED – Conferência das Nações Unidas sobre Co-
mércio e Desenvolvimento. Informe sobre las inversiones (54 milhões) e corresponde à população de países im-
en el mundo. Nova Iorque/Genebra: Nações Unidas, portantes. Considerando que as transnacionais utilizam
2001. Disponível em: <http://www.unctad.org/sp/docs/
wir2001overview_sp.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2013. muita tecnologia em seus processos produtivos, e que
essas tecnologias dispensam mão de obra, dá para se
Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.
ter ideia do que são os volumes de produção e serviços
gerados diretamente pelas corporações.

103
2. Sobre as redes geográficas das corpora- d) as transnacionais têm muitas dificulda-
ções transnacionais no Brasil, é correto des de fazer circular equipamentos entre
afirmar que: outros pontos de sua rede em outros paí-
ses, em razão da rigidez das leis brasileiras.
a) os pontos dessas redes, em especial das
transnacionais automobilísticas, encon- e) as deficiências infraestruturais brasileiras
tram-se somente no Sudeste desenvolvido. no campo das telecomunicações dificul-
tam o funcionamento das redes e deses-
b) as transnacionais estão desmontando timulam os investimentos das transnacio-
suas instalações no país, como aconte- nais em nosso território.
ceu no Rio Grande do Sul, em razão O Brasil tem promovido, mais propriamente os Estados, uma
das restrições ao comércio internacio- série de políticas de incentivos fiscais para atrair corporações
nal no Brasil. transnacionais de vários ramos industriais. Um caso marcante
é o das automobilísticas que se espalharam por Estados sem
c) atualmente, as transnacionais se insta- tradição industrial, como Goiás, por exemplo. Assim, ao con-
lam no país com o apoio financeiro (isen- trário das alternativas que indicam dificuldades para ações
ções fiscais) de governos estaduais, inte- das corporações transnacionais no Brasil, o país é um espaço
ressados em industrializar seus Estados. propício para a ação dessas instituições.

SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 7
OS GRANDES FLUXOS DO COMÉRCIO MUNDIAL E A
CONSTRUÇÃO DE UMA MALHA GLOBAL

O comércio é por definição uma forma de re- No mundo contemporâneo, tudo isso se
lação humana que implica colocar em contato intensificou extraordinariamente. Com os
grupos sociais diferentes. Na origem da história novos meios disponíveis, as atividades comer-
humana, para um grupo A interessava obter de ciais aumentaram o poder de uma das forças
outros grupos aquilo que não conseguia produzir, propulsoras da “fabricação” de novos espaços
aquilo que somente outros possuíam. Esse gênero e do aperfeiçoamento dos meios de superação
de relação exigia estender relações sobre espaços da distância entre as realidades geográficas.
mais amplos, obrigava a abertura de caminhos,
rotas e a construção de portos, estimulava a cria- Esta Situação de Aprendizagem vai ofere-
ção de novos meios de transporte e de estruturas cer sugestões para que se compreendam o per-
para os comerciantes. Como se vê, o comércio é fil das relações comerciais atuais e a estrutura
uma atividade humana produtora de novos espa- geográfica que as mantém e se desenvolve em
ços humanos e uma atividade que ensinou os ho- sua função, que, como já se imagina, é uma
mens a lidar com a distância geográfica. das estruturas forjadoras da globalização.

104
Geografia – 1ª série – Volume 1

Conteúdos: a dinâmica do comércio mundial; o perfil geográfico dos fluxos comerciais; o perfil quanti-
tativo econômico dos fluxos; breve caracterização das áreas exportadoras e das áreas importadoras; o
peso das corporações transnacionais no comércio mundial.

Competências e habilidades: construir e aplicar habilidades relativas ao domínio da linguagem cartográ-


fica como meio de visualização sintética da relação entre realidades geográficas distintas e como meio de
uso da imagem como discurso espacial; construir e aplicar conceitos com base na abordagem geográfica,
tais como fluxos e redes geográficas, para contribuir na compreensão de fenômenos contemporâneos
próprios e associados ao processo de globalização das relações humanas.

Sugestão de estratégias: incorporação organizada de repertório desenvolvido anteriormente para aplica-


ção num novo fenômeno; orientação para a construção de uma representação visual dos fluxos comer-
ciais no mundo; análise em grupo dos resultados obtidos com o mapa; proposição de debate reflexivo,
com base em informações.

Sugestão de recursos: tabelas de dados; mapas quantitativos de fluxos; textos; aulas dialógicas.

Sugestão de avaliação: exercício com os mapas; leitura de textos solicitados; participação geral no pro-
cesso; questões abertas e de múltipla escolha.

Etapa prévia – Sondagem inicial e O objetivo de fazer essa dupla verificação


sensibilização é dar indícios da complexidade das relações
atuais num mundo globalizado, embora uma
O mais óbvio, pela sua evidência, para iniciar relação comercial, ao pé da letra, resuma-se à
esta etapa é algo que certamente os professores já saída do local de produção (ou ponto de ven-
têm em mente quando se discute a caracterização da) até o ponto do consumo. Assim, interessa,
do comércio internacional. A sugestão é óbvia, principalmente no exercício de sensibilização,
mas eficiente, e pode se dar em dois planos: ressaltar o local da fabricação e o local do
consumo. Entre esses dois pontos encontra-se
f Num primeiro momento, elege-se um con- o fluxo que será a chave nessa atividade. Mas
junto de marcas de produtos comerciais (o é oportuno que o aluno perceba que um pro-
que inclui produção cultural) que frequen- duto comercial consumido por nós e produzi-
tam nosso dia a dia para identificar a ori- do na Índia pode ter sido produzido por uma
gem nacional da marca. corporação de origem alemã.
f No momento seguinte, verifica-se, numa
série de produtos (roupas, calçados e ele- Esta etapa se encerra com a identifica-
trônicos, por exemplo), a localidade da fa- ção, por meio de exemplos, dos fluxos que
bricação. São duas coisas diferentes: um chegam até nós: vêm dos nossos vizinhos
produto pode ter uma marca de origem es- apenas, restringem-se a fluxos limitados ao
tadunidense e ser produzido na China. Uma mundo ocidental, ou vêm, inclusive, do Ex-
marca pode ser francesa e seu produto pode tremo Oriente? Talvez a melhor forma de
ser, ao menos em parte, produzido no Brasil. enunciar o que certamente será encontrado

105
é dizer que os produtos vêm do mundo, de d) corporações transnacionais:
um sistema produtivo e comercial que se or- São grandes conglomerados econômicos que atuam em
ganiza na escala mundial. escala mundial. No mundo contemporâneo adquiriram uma
força descomunal. Sua atuação estrutura-se em modalidades
Sugerimos também que os alunos realizem de espaços que são verdadeiras redes geográficas. É razoável
as atividades propostas na seção Para começo admitir que essas empresas não possuem mais nacionalidade
de conversa do Caderno do Aluno. alguma, pois transcenderam os espaços nacionais.

1. Vamos começar relembrando algumas Etapa 1 – O comércio como


ideias trabalhadas nas outras Situações de acelerador dos fluxos; aceleração
Aprendizagem. Defina: dos fluxos intensificando o comércio

a) aceleração dos fluxos: O mundo contemporâneo é complexo. Isso


Os fluxos de bens materiais e imateriais (mercadorias, pessoas e não quer dizer complicado, como se pensa nor-
informações) no mundo contemporâneo circulam em maior malmente. Complexo significa que cada reali-
intensidade, com muito mais velocidade, e por isso alcançam dade isolada é sempre produto do conjunto da
distâncias bem maiores – que, na verdade, são “encurtadas”. realidade total, ou das diversas realidades em
Essa situação pode ser designada aceleração dos fluxos. relação. Complicado? Não, complexo! Vamos
ver como isso se coloca com um caso concreto.
b) redes técnicas:
Alguns dos serviços modernos nas diversas escalas geográfi- Eis uma informação bem significativa:
cas da vida (local, regional e mundial) organizam-se em re-
des técnicas. Uma rede telefônica é um conjunto de linhas e Durante os últimos 50 anos, as exporta-
estações de comutação (os pontos) que se distribui no mun- ções mundiais aumentaram em volume nove
do inteiro. Do mesmo modo, uma rede de abastecimento vezes mais rápido que a produção mundial (cf.
de água em uma cidade, com as áreas de mananciais (esto- DURAND, M.-F. et al., 2006. p. 82).
que de água), as zonas de tratamento, os depósitos regionais
(grandes caixas-d’água), que são os pontos, e toda a rede de Produz-se mais, mas comercializa-se entre paí-
encanamentos (as linhas) por onde a água é bombeada. ses ainda mais intensamente. Isso significa que,
antes, boa parte da produção circulava sobretudo
c) redes geográficas: no interior dos próprios países onde era produzi-
Apresentam a mesma lógica de uma rede técnica, porém são da e que, atualmente, muito da produção circula
espaços que se prestam à vida humana em outra escala. São numa escala geográfica mais ampla: o mundo.
grupos humanos de moradores, grandes atividades comer-
ciais, grandes corporações transnacionais que constroem E por que isso aconteceu? Aí, volta-se à re-
seus espaços em rede, percorrendo territórios com os quais ferência da complexidade. O comércio não cres-
estabelecem relações selecionadas, por vezes, negando-os. ceu por si só, porque tem mais gente comprando

106
Geografia – 1ª série – Volume 1

bens. O comércio cresceu porque uma série de Em termos de conteúdo, será muito bom
eventos e transformações cruzadas neste nosso estabelecer relações entre a aceleração dos flu-
mundo propiciou essa condição. E é possível sa- xos; o desenvolvimento tecnológico; a multi-
ber o que foi isso. plicação dos meios de compra e informação
sobre os produtos; as redes técnicas; a força
A ideia aqui é que o professor promova uma das transnacionais e suas redes geográficas; o
dinâmica que recorra ao que já foi discutido afrouxamento das fronteiras dos Estados na-
neste Caderno: a aceleração dos fluxos; as re- cionais territoriais etc. Qualquer articulação
des técnicas; as redes geográficas; as corpora- que for feita é importante; a argumentação a
ções transnacionais. respeito, também. Ao que faz sentido, o pro-
fessor deve “cutucar” para ir além; ao que ain-
Também no inicio deste Caderno, as Situa- da não faz muito sentido, deve-se estimular a
ções de Aprendizagem relacionadas à Geopolíti- argumentação coerente.
ca, à ordem mundial e à ação das potências, pode
ser uma fonte interessante para a dinâmica. Etapa 2 – A construção do perfil
visual/cartográfico dos fluxos do
Dinâmicas que sugerem aos estudantes comércio mundial
refletir, utilizar materiais anteriores, articular
diversos conteúdos, relacionar e relatar são A imagem dos fluxos comerciais no mundo
sempre mais ricas nessa fase de formação se contemporâneo é forte. Nunca o planeta pare-
forem realizadas em grupo. No caso proposto, ceu tão pequeno, tal a dimensão dos fluxos e
o trabalho coletivo é indispensável. A ideia é as distâncias que eles percorrem. Longos tra-
que os grupos incorporem organizadamente jetos, outrora feitos apenas por aventureiros,
num discurso (num relato) todos os eventos, atualmente são as principais rotas comerciais
as dinâmicas e as lógicas que permitiram, do mundo. Rotas oceânicas percorridas por
nesses últimos 50 anos, que os mercados na- navios que ancoram em portos, abarrotados
cionais nada mais fossem que “seções” de um e congestionados de mercadorias, e rotas
único e imenso mercado mundial. aéreas que chegam a pontos antes inalcançá-
veis resultam da busca desenfreada por novos
O que se espera como bom resultado des- mercados, por novos consumidores.
sa atividade? Que de fato a reflexão seja feita,
que as relações existam, que eles exercitem um Leitura e análise de tabela e mapa
pensamento de conjunto. Esse ato, tão neces-
sário quanto incomum em nossa cultura, é Melhor que a descrição do perfil e da natu-
mais importante que seus resultados. Portan- reza desses fluxos pelo professor é a proposta
to, o ato de realizar essa atividade, por si só, para que os estudantes, em grupo, construam e
deve ser muito valorizado. cheguem à visualização da imagem dos fluxos

107
comerciais contemporâneos. Para isso, é neces- satélite, por exemplo. O desafio está em con-
sário contar com os conhecimentos adquiridos seguir expressar visualmente as relações espa-
por eles sobre a Cartografia. Se precisar, esse é ciais que se desenvolvem num mundo cada vez
o momento de recapitular o que foi trabalhado mais complexo. O grande desafio é a lingua-
no início deste Caderno. Talvez seja realmente gem cartográfica.
necessário fazê-lo, já que agora haverá um pas-
so a mais: vai se propor a elaboração de um mapa 1. Elaborar um mapa quantitativo de fluxos com
quantitativo de fluxos. base nos dados do Quadro 13. Os passos que
devem ser percorridos são os que seguem.
Antes, é bom relembrar: o grande desafio
da Cartografia contemporânea não é localizar a) Leia cuidadosamente os dados da tabela
com precisão fenômenos geográficos, pois isso para se familiarizar com essas informa-
já está pronto e atualizado pelas imagens de ções, que serão a base do mapa:

Principais fluxos comerciais na escala mundial, 2004


Direções Valores em dólares (*)
Ásia (**) ĺ América do Norte 533 bilhões
Ásia (**) ĺ Europa (***) 400 bilhões
Europa (***) ĺ América do Norte 400 bilhões
Europa (***) ĺ Ásia (**) 300 bilhões
América do Norte ĺ Ásia (**) 300 bilhões
Oriente Médio ĺ Ásia (**) 200 bilhões
América do Norte ĺ Europa (***) 200 bilhões
Europa (***) ĺ CEI 100 bilhões
CEI ĺEuropa (***) 100 bilhões
Ásia (**) ĺOriente Médio 100 bilhões
Américas do Sul e Central ĺ América do Norte 100 bilhões
Europa (***) ĺOriente Médio 100 bilhões
Oriente Médio ĺ Europa (***) 50 bilhões
América do Norte ĺ Américas do Sul e Central 50 bilhões
Europa (***) ĺ Américas do Sul e Central 50 bilhões
Américas do Sul e Central ĺ Europa (***) 50 bilhões
(*) Valores arredondados para facilitar o exercício cartográfico.
(**) Ásia sem o Oriente Médio e a CEI asiática.
(***) Europa sem a parte europeia da CEI.
Quadro 13 – Principais fluxos comerciais na escala mundial, 2004. Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente para o São
Paulo faz escola. Fonte: Atelier de Cartographie de Sciences Po. Commerce mondial de marchandises, 2004. In: DURAND, M.-F.
et al. Atlas de la mondialisation. Édition 2008. Paris: Presses de Sciences Po, 2008. p. 105.

108
Geografia – 1ª série – Volume 1

b) Escolha o símbolo gráfico ideal. Para os tro recurso) traçam-se as setas, que se-
fluxos, a seta indica movimento e direção. guramente vão ter de ser curvas para
Além disso, permite expressar a quantida- atender à direção e para não se sobre-
de com a manipulação da sua largura. porem umas às outras. No mesmo Ca-
derno, há um exemplo de mapa de flu-
c) Defina classes de representação. Na base xos de migrantes que pode ser usado
de dados apresentada, temos seis catego- pelos alunos como referência.
rias que estão assinaladas com cores (não Sobre o mapa: são seis categorias de fluxos: 533 bilhões;
se deve usá-las no mapa). Cada categoria 400 bilhões; 300 bilhões; de 200 bilhões; 100 bilhões; e
terá no mapa uma largura de seta. A mais 50 milhões. A proposta é que se chegue inicialmente à
grossa será a que representa um fluxo de largura de seta de cada uma dessas categorias. É impor-
mercadorias no valor de 533 bilhões de tante ressaltar que todas as setas devem ter a mesma cor.
dólares. É razoável que essa seta tenha Isso porque elas estão indicando fluxos comerciais e não
1 centímetro de largura; assim, as outras fluxos diferentes entre si. Medida de cada seta (os valores
vão se estreitar proporcionalmente, rea- foram arredondados para cima):
lizando-se uma operação simples (uma 533 bilhões A 1 cm
regra de três). Veja o exemplo: 400 bilhões A 0,8 cm
300 bilhõesA 0,6 cm
533 bilhões C 1 cm largura 200 bilhões A 0,4 cm
300 bilhões C x cm largura 100 bilhões A 0,2 cm
Em que x = 0,6 cm. 50 bilhões A 0,1 cm
Posteriormente, nas regiões citadas, deve-se buscar um cen-
Chega-se a esse 0,6 cm pelo arredonda- tro. Por exemplo: no caso da América do Sul e Central as se-
mento da divisão de 300 por 533. tas devem ser direcionadas (e sair) para a altura da Venezuela.
O ideal é fazer com lápis um círculo com traço leve no cen-
d) Essa questão solicita ao aluno que trace tro da região mencionada (da Europa Ocidental, do Oriente
e defina as direções no mapa mudo que Médio) e fazer que todos os fluxos indicados na tabela se di-
consta do Caderno do Aluno. Pede-se recionem a esses círculos.
que seja incluído título e legenda. Mais uma vez, vale ressaltar que o resultado final não precisa ser,
O mapa está confeccionado com base do ponto de vista estético, um primor. Atualmente, um mapa
na projeção de Buckminster Fuller. é feito com softwares sofisticados, e os alunos o farão à mão.
Os blocos continentais no fundo do Contudo, essa experiência é de grande relevância. Enquadra-
mapa devem ter uma única cor. Uma -se no conjunto das capacitações fundamentais, no qual se
cor leve e neutra para não ofuscar as apresenta o domínio das linguagens visuais. Na sequência, os
setas. Define-se uma única cor para as estudantes vão fazer análises a respeito do que podem ver na
setas e com o auxílio de gabaritos de construção visual a ser realizada. Esse processo integral é bas-
desenho geométrico (ou qualquer ou- tante produtivo no que tange à construção do conhecimento.

109
2. Depois de elaborado o mapa, o Caderno também ocorrem dentro de uma mesma re-
do Aluno propõe as questões a seguir para gião, numa escala inferior: produção no país/
a apreensão do conteúdo. continente e consumo no país/continente.

a) Descreva suas principais informações. Para finalizar, no Caderno do Alu-


Espera-se que os estudantes sintam a intensidade dos fluxos no, propomos as seguintes ativida-
comerciais que percorrem a escala mundial e que notem as des na seção Lição de casa.
desigualdades, não apenas no número de fluxos (que são
mais numerosos entre Europa, América do Norte e Ásia), mas 1. Escolha dois dos fluxos contidos no Qua-
também no volume comercializado, algo notado na largura dro 13 e que foram representados no mapa.
das setas. É preciso que os alunos compreendam e visualizem A seguir, escreva sobre eles procurando
a geografia mundial desses fluxos. apresentar elementos que os justifiquem:
os volumes e os produtos envolvidos; as
b) Há predominância dos fluxos com um empresas etc. Seu livro didático de Geo-
perfil do tipo países desenvolvidos A grafia e outros materiais podem ajudar e
países subdesenvolvidos? Justifique. enriquecer sua pesquisa.
Não são esses os fluxos dominantes (países desenvolvidos A Das Américas do Sul e Central para a América do Norte veri-
países subdesenvolvidos), mas sim aqueles entre países de- fica-se um fluxo de 100 bilhões de dólares. Não está entre os
senvolvidos A países desenvolvidos. Por exemplo: Europa maiores fluxos comerciais, e isso fica claro visualmente. Aliás,
Ocidental e América do Norte. essa região (as Américas do Sul e Central) participa pouco
dos fluxos mundiais. Mas especificamente esse em direção
c) O que estaria acontecendo com a Ásia? à América do Norte termina sendo maior que o inverso (da
Como se construiu sua importância América do Norte para as Américas do Sul e Central). A Amé-
como polo exportador? Explique. rica do Norte compra muito petróleo da Venezuela e bens
Na Ásia, destacam-se o Japão (grande potência industrial com agrícolas do Brasil e da Argentina, ao passo que nas Américas
produtos de boa qualidade com aportes significativos de tec- do Sul e Central não se importa tantos produtos da América
nologia) e a China (graças à maciça produção derivada de no Norte. Porém, é preciso notar que os fluxos comerciais
transformações econômicas no regime socioeconômico da- não dizem tudo sobre a dinâmica entre diferentes regiões,
quele país, com uso impressionante de mão de obra barata, o uma vez que há, por exemplo, uma significativa produção
que torna seus produtos muito competitivos no mundo). Além de bens industriais de corporações transnacionais que têm
disso, outras economias poderosas estão se desenvolvendo, origem nas Américas do Sul, Central e do Norte. Do Orien-
como é o caso da Coreia do Sul. O Extremo Oriente está se te Médio para a Ásia registra-se um fluxo de 200 bilhões de
transformando no maior centro industrial do planeta. dólares. Esse valor é constituído fundamentalmente pelo
grande bem de exportação do Oriente Médio: o petróleo. O
O comércio, obviamente, não ocorre so- extremo oriente asiático não é uma região em que esse meio
mente na escala mundial, isto é, na relação energético natural esteja disponível em grande quantidade,
entre continentes e países diferentes. Os fluxos daí sua condição de importadora de petróleo. Qualquer um

110
Geografia – 1ª série – Volume 1

dos fluxos pode ser objeto de breves pesquisas. Esse tipo de b) a América do Sul, em especial o Brasil
ação vai familiarizando o estudante com a escala mundial, e a Venezuela, é atualmente uma grande
uma dimensão essencial de nossas vidas. exportadora de petróleo para o maior
mercado consumidor de energia, que
2. Olhando as direções dos fluxos comerciais são os EUA.
internacionais e seus volumes, pode-se afir-
mar que os Estados Unidos da América c) os EUA transferiram grande parte de
perderam importância no comércio inter- suas transnacionais automobilísticas
nacional? Justifique. para as Américas do Sul e Central, e
Para auxiliar na análise da tabela, é importante explicar aos alu- essa importação é composta de auto-
nos que a maior parte dos fluxos da América do Norte refere- móveis de suas próprias fábricas.
-se aos EUA (você pode, por exemplo, apresentar a eles dados
sobre a balança comercial dos três países da América da Norte). d) a região das Américas do Sul e Central,
Baseando-se nessa observação introdutória, eles poderão, ana- em razão do seu empobrecimento, per-
lisando a tabela, depreender que os EUA ainda são protagonistas deu a capacidade de importar dos EUA,
no mercado internacional, sobretudo no papel de compradores que, por sua vez, mantêm suas compras
(um pouco mais de um trilhão de dólares), ainda que se possam para não agravar a situação.
destacar os volumes de importação da Ásia (sem Oriente Médio
e CEI asiática) e da Europa Ocidental. Além disso, é fundamental e) cresceu o valor das exportações das
que eles percebam que os EUA estão perdendo seu lugar como Américas do Sul e Central, pois essas são
exportadores para outras economias que vêm se destacando no cada vez mais compostas por bens indus-
cenário econômico mundial, como a China, por exemplo. Em triais, que valem muito mais no comércio
síntese, espera-se que os alunos concluam que, embora se pos- mundial.
sa compreender por que os EUA têm grande peso na economia É importante o estudante perceber que os EUA têm uma
mundial, é preciso que se reconheçam os demais atores que enorme participação no comércio mundial, em especial
influenciam esse cenário. como comprador, e por isso todos querem vender àquela so-
ciedade capaz de um consumo tão grande. Para esse país, é
3. O volume de exportação de bens das Améri- mais compensador comprar do que produzir em seu próprio
cas do Sul e Central para os EUA é superior território certos bens agrícolas, e é isso que faz das Américas
à importação dos EUA para essa mesma re- do Sul e Central grandes fornecedoras desses bens para os
gião. Essa situação pode ser explicada porque: EUA. Por outro lado, as Américas do Sul e Central não têm
condições de comprar bens dos EUA na mesma proporção.
a) essa área (Américas do Sul e Central)
é uma grande exportadora de commo- 4. A presença da Ásia no contexto dos flu-
dities (bens agrícolas, bens primários) e xos comerciais internacionais é de cha-
os EUA, por outro lado, são um grande mar a atenção. Esse papel pode ser expli-
consumidor desses bens. cado considerando:

111
a) O fato de a China ter se transforma- d) O fato de o Extremo Oriente ter se
do num país capitalista e ter aumen- transformado num imenso e eficiente
tado exponencialmente o seu poder centro produtor (formado pela Chi-
de consumo. na, Japão e Coreia do Sul) de produ-
b) O fato de o Japão ter se aberto recen- tos industrializados.
temente para o mercado internacional, e) O fato de essa região ser um imenso cen-
com seus produtos de baixo custo, gra- tro receptor de imigrantes, em especial
ças ao também baixo custo da mão de na China, em vista da baixa especializa-
obra nesse país. ção da mão de obra nativa no trabalho
c) O fato de os EUA terem instalado no Ja- industrial.
pão um grande número de corporações O Extremo Oriente atualmente é o grande centro produtor
automobilísticas, que agora abastecem o industrial do mundo. Seus bens são encontrados por todas as
mundo todo. partes do planeta.

SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 8
REGULAMENTAR OS FLUXOS ECONÔMICOS NA ESCALA
MUNDIAL: É POSSÍVEL ENCONTRAR UM BEM COMUM?

A mobilidade humana ampliou-se, não há porações privadas bem mais poderosas do que
dúvidas. Na escala mundial, as relações da glo- muitos países; 3. de modo geral, os países fortes
balização articulam uma malha de redes geo- e os países fracos nessa ordem só têm uma re-
gráficas, alimentadas por redes técnicas, que se ferência ao relacionar-se, que são seus próprios
constituem numa nova configuração geográfi- interesses. E sem dúvida isso vai significar proble-
ca, acelerando impressionantemente os fluxos mas para a livre circulação dos bens econômicos;
de bens econômicos e de pessoas. É certo que aliás, essa livre circulação dos bens econômicos
os bens econômicos (mercadorias, capitais, ser- vai significar problemas para cada país.
viços, informações) circulam com muito mais
desenvoltura nessa dimensão global do que os A regulamentação dos fluxos econômicos
seres humanos, mas também há constrangimen- mundiais é objeto de muitos debates, pois há
tos na circulação dos fluxos econômicos. Aliás, muitas críticas sobre a globalização, que libe-
mais do que constrangimentos: há conflitos. raria forças que, em tese, causariam prejuízos
às economias nacionais. Os Estados nacionais
Vale relembrar uma razão: a ordem mun- territoriais – inclusive os países mais ricos –,
dial existente estrutura-se no interior da relação quando percebem seus interesses nacionais
entre os países. No entanto, essas relações são contrariados, clamam por regras. É no inte-
desiguais: 1. alguns países são potências que rior desse quadro que se vêm estruturando
atuam agressivamente; 2. agora há também cor- organizações internacionais que procuram

112
Geografia – 1ª série – Volume 1

regulamentar os fluxos econômicos. Esta caminhos e abordagens para se construir uma


Situação de Aprendizagem sugere alguns visão a respeito desse movimento.

Conteúdos: fluxos econômicos na escala mundial; o conflito de interesses; a pressão dos mais poderosos;
as armas dos países mais fracos; os organismos internacionais de regulamentação dos fluxos econômi-
cos; a eficácia desses organismos.
Competências e habilidades: dominar a leitura para além da superfície do texto, exercitando a identifi-
cação das chaves de interpretação, identificando linhas de raciocínio; construir visões sobre realidades
distintas, identificando conexões, coerências e divergências; aplicar o método da compreensão como
meio de se pôr no lugar do outro para interpretar realidades que colocam interesses distintos em con-
fronto; aplicar e exercitar o método da abstração como meio de imaginar situações hipotéticas para o
aperfeiçoamento dos raciocínios, visando a uma posterior aplicação em realidades concretas.
Sugestão de estratégias: problematizações; reflexões; provocações.
Sugestão de recursos: textos; aulas dialógicas.
Sugestão de avaliação: questões abertas e de múltipla escolha.

Para iniciar as discussões com os alunos, su- 2. Qual é a referência fundamental no relaciona-
gerimos as questões a seguir, disponíveis na seção mento dos países? Há um bem comum como
Para começo de conversa do Caderno do Aluno. horizonte ou, na verdade, o que conta são os
interesses de cada país? Justifique sua resposta.
1. Tendo em vista a ordem mundial constituí- Apesar dos esforços de uma cidadania global (como os encon-
da pelos países e suas relações, o que pode tros de cúpula sobre meio ambiente), no relacionamento entre
ser dito sobre as diferentes forças (econô- os países, a referência fundamental que cada governo leva em
mica e política) desses países? conta é o seu público interno, seus próprios interesses. O outro
Uma das forças fundamentais da denominada ordem governante estará fazendo o mesmo em relação ao seu país. Em
mundial são os Estados-nação, os países. As grandes cor- outras palavras, cada nação defende seus próprios interesses.
porações transnacionais também são forças significativas.
Sabemos que os países possuem forças diferentes para 3. Os fluxos comerciais entre os países ocor-
atuar no cenário mundial. Os EUA são uma superpotên- rem livremente? Por quê?
cia, alguns países europeus são potências, assim como al- Não, os fluxos comerciais entre os países sofrem várias restri-
guns outros da Ásia. Essas potências diferentes acarretam ções, conforme a situação. Se os governos querem proteger
desigualdades (alguns impõem seus interesses) nas tro- as indústrias de seu país, por exemplo, “impõem taxas” aos
cas comerciais internacionais e em suas regras. Por isso, bens originados de outros países, o que vai torná-los mais
não se pode analisar o cenário econômico internacional caros. Essas medidas são conhecidas como protecionismo
como uma rede de relações harmoniosas e equilibradas e já geraram enormes conflitos, que chegaram a provocar
por definição. Os conflitos são vários. confrontos bélicos.

113
4. O que é alfândega? Qual é sua principal Etapa 1 – Do GATT à OMC: um
função? percurso espinhoso que se dirige ao
Alfândega é a figura institucional da fronteira legal de desconhecido
um país, responsável pela fiscalização das mercadorias
estrangeiras que chegam ao país: se elas estão em situa- Em 1948, período de esgotamento da Segun-
ção legal, se estão sendo pagos os devidos impostos e da Guerra Mundial, o cenário mundial (não era
taxas etc. Todos os países têm alfândegas instaladas nos bem a escala mundial, mas sim Europa Ocidental
aeroportos, nos portos e em pontos estratégicos da fron- e EUA) favorecia a busca da eliminação de qual-
teira. O ingresso ilegal de mercadorias num país é o que quer tipo de conflito. Afinal, a tragédia estava
se chama contrabando. vertendo sangue naquele momento e os custos
para remover as ruínas e erguer um novo sistema
5. Você acha que ocorrem conflitos gerados econômico se anunciavam astronômicos.
pelos fluxos comerciais entre os países? Em
que medida fluxos comerciais de outros Para se dinamizar, as economias depen-
países podem ajudar ou prejudicar a eco- diam de relações econômicas para além da
nomia do Brasil? Justifique sua resposta. escala nacional. Dependiam da remoção
Os fluxos comerciais já geraram grandes contendas entre dos protecionismos. É necessário assinalar
países. Discordâncias relacionadas a preços, concorrên- que o protecionismo é uma chave impor-
cia desleal, uso de mão de obra barata são alguns exem- tante para a interpretação dos conflitos e
plos. Em reação, muitos países adotam medidas protecio- das proposições para resolver a questão
nistas que, por sua vez, geram novos conflitos. No Brasil, dos fluxos econômicos internacionais.
os fluxos comerciais estrangeiros já foram (e são) alvos
constantes de discussão. Períodos importantes do século Leitura e análise de texto
XX foram marcados por uma restrição muito grande aos
bens industriais estrangeiros; mais recentemente, as bar- 1. Leitura do texto
reiras foram reduzidas. Há muitos que pensam que esse A atividade que vamos sugerir começa com
fato prejudica o Brasil. Outros entendem que foi um be- a leitura atenta de um texto informativo sobre
nefício. É uma discussão complexa. os organismos econômicos internacionais.

Em busca de uma regulação mundial: as organizações econômicas internacionais

Ao lado da ONU funcionam as instituições e os organismos encarregados de, na escala mundial: 1. regular
os problemas de financiamento das operações de desenvolvimento; 2. controlar a estabilidade das moedas; e 3.
amenizar e administrar as barreiras alfandegárias. As instituições que atuam em cada uma dessas missões são:
o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC).

114
Geografia – 1ª série – Volume 1

Com recursos que provêm de contribuições dos países-membros (quase todos os países do mundo)
e de títulos lançados no mercado financeiro, o Banco Mundial empresta recursos financeiros a longo
prazo para os países necessitados, com taxas de juros reduzidas.

Por sua vez, o FMI é produto de um dos acordos de Bretton Woods, em 1944, atuando em favor
da estabilidade financeira dos países-membros. Assim como o Banco Mundial, seus recursos são uma
somatória de cotas de capitais dos países-membros. Os empréstimos concedidos são como socorros
financeiros e somente são autorizados após exame da política econômica do país beneficiário, que deve
estar de acordo com a linha de atuação do FMI. Em fevereiro de 2011, o FMI contava com 187 países-
-membros (fonte: <http://www.imf.org>, acesso em: 24 jul. 2013).

Não há dúvidas de que, no campo das relações econômicas internacionais, as trocas comerciais e as
de serviços são de difícil negociação. A primeira tentativa de se criar uma regulação se deu em 1947, com
um acordo amplo sobre as tarifas alfandegárias e sobre o comércio (GATT). Esse acontecimento está
na origem da OMC. O objetivo era favorecer a diminuição das barreiras alfandegárias e lutar contra os
protecionismos, facilitando, assim, o comércio. Sua missão era de fixar normas, regras, regulamentos e
arbitrar as diferenças. Essas ações foram interpretadas como meios de promoção da paz. Isso porque se
entendia que o protecionismo era um fator de conflitos, que poderia inclusive levar a guerras.

As novas rodadas de negociação do GATT foram incluindo mais países e mais produtos nos acordos. A
última rodada foi em 1994, quando se resolveu criar a OMC, um fórum permanente para as negociações, vi-
sando a uma instituição que chegasse a ter poder de sanção sobre os países que não respeitassem os acordos.

Em julho de 2008, a OMC já contava com 153 países-membros. A Conferência Ministerial com re-
presentantes destes países é seu principal órgão de decisão. As reuniões acontecem de dois em dois anos
e nelas se definem as orientações e as reformas na regulamentação do comércio mundial.

A análise dos conflitos comerciais levados para a OMC mostra duas tendências: 1. um aumento dos
litígios comerciais e 2. uma concentração do comércio em poucas regiões – os Estados Unidos da Amé-
rica e a União Europeia (UE) controlam 40% do comércio mundial. Os principais litígios comerciais
dão-se justamente entre esses dois grandes atores do comércio mundial (EUA e UE).

Em 1999, em Seattle (EUA), a conferência da OMC sofreu um grande abalo. Os conflitos entre os
EUA e a UE, a presença mais ativa dos países em desenvolvimento, a irrupção dos movimentos antiglo-
balização e outros que propunham outro modelo de globalização paralisaram as decisões. Aumentou aí
a desconfiança sobre a eficácia das instituições multilaterais para atuar num mundo marcado por forças
desiguais e interesses contraditórios. As queixas fundamentais sobre a regulamentação do comércio

115
mundial referem-se ao papel marginal dos países mais pobres, cujos interesses são atropelados pelas
potências econômicas. A OMC não estaria enfrentando essa postura e nem os conflitos que existiam
anteriormente às regulamentações.

A situação evoluiu um pouco em 2001. A negociação foi mais transparente e dela extraiu-se um programa
de desenvolvimento. Mas esse processo foi bloqueado na rodada seguinte, em razão das posições inconciliáveis
em torno da questão agrícola: EUA, UE, G20 (grupo dos países emergentes) e países da África protagonizaram
os desentendimentos. O G20 e os países africanos mostraram seu descontentamento com os EUA e a UE, que
insistiam em manter subsídios às suas agriculturas, uma clara forma de protecionismo.

Na rodada de 2005 (Hong Kong), chegou-se a um acordo parcial a respeito dos subsídios agrícolas:
os EUA prometeram atenuar as subvenções à agricultura até 2013. Há que se aguardar, mas no mo-
mento o que se vê é a força da lógica anterior à OMC valendo no interior dos organismos econômicos
internacionais: um mundo sem regulamentações ou um mundo onde as regulamentações ajustam-se
mais aos interesses das grandes potências.

Elaborado por Jaime Tadeu Oliva especialmente para o São Paulo faz escola.

No texto encontra-se um panorama sin- uma vez, é adequado que esse esforço de lo-
tético dos caminhos percorridos nos últimos calização dessas chaves seja um trabalho co-
50 anos para se estabelecer meios e regras na letivo, feito em grupos pequenos. No Caderno
ordem dos fluxos econômicos mundiais. A su- do Aluno, existem atividades concernentes ao
gestão agora é que se analise esse quadro, pro- texto, conforme reproduzido a seguir.
curando identificar as chaves que vão permitir
um entendimento seguro da situação e, por 1. No quadro a seguir, descreva cada uma
consequência, condições melhores para in- das organizações econômicas interna-
terpretar e construir reflexões próprias. Mais cionais citadas no texto.

Congrega recursos de várias partes do mundo utilizados para financiar programas de importância social em
Banco Mundial
países com carência de recursos em setores básicos (educação, saúde, promoção social e profissional etc.).

Fundo Monetário Procura socorrer crises econômicas, situações de descontrole inflacionário (de desvalorização das
Internacional moedas) etc. Recomenda, para tais crises, ações governamentais conforme suas orientações.

Atua para que o fluxo comercial entre os países seja regulado por acordos e regras gerais. Um de seus
Organização Mundial objetivos é eliminar barreiras alfandegárias impostas isoladamente pelos países, que, sem coordena-
do Comércio ção nem negociação mais amplas, são geradoras de conflitos. Isso ocorre por meio de rodadas de
negociação entre os países-membros.
Quadro 14.

116
Geografia – 1ª série – Volume 1

2.“[...] Não há dúvidas de que, no campo das Sem dúvida, é necessária a construção de fóruns democráticos
relações econômicas internacionais, as tro- para que se busquem soluções (acordos, tratados, regras etc.)
cas comerciais e as de serviços são de difícil no comércio internacional. É preciso lembrar que as guerras
negociação. [...]”. mundiais também foram motivadas por conflitos comerciais
entre os países. Os avanços já obtidos demonstram a eficácia
a) Por que você acha que isso acontece? Há (ainda bem longe do desejável) dessas ações coletivas.
alguma relação entre essa afirmação e o
fato de haver grande desigualdade econô- 3. Segundo o texto, o objetivo do GATT “[...]
mica entre os países do mundo? Justifique. era favorecer a diminuição das barreiras al-
As negociações são difíceis em razão de interesses comerciais fandegárias e lutar contra os protecionismos,
conflitantes entre os países, intensificados pelas medidas prote- facilitando, assim, o comércio. Sua missão
cionistas. Esse conflito de base agrava-se quando se considera a era de fixar normas, regras, regulamentos
desigualdade existente na força econômica dos países. Os mais e arbitrar as diferenças. Essas ações foram
poderosos tendem a impor mais facilmente seus interesses. interpretadas como meios de promoção da
paz. Isso porque se entendia que o protecio-
b) Discuta com seus colegas e seu professor nismo era um fator de conflitos, que poderia
a seguinte afirmação, procurando conside- inclusive levar a guerras. [...]”.
rá-la no âmbito das relações econômicas
internacionais: Os países do mundo ainda a) Defina os termos em destaque, explican-
movem-se pela lógica da geopolítica, ou do por que eles são os maiores entraves
seja, os interesses internos de cada país são ao comércio internacional.
soberanos aos dos demais países. Barreiras alfandegárias são as restrições e taxas que um país
Espera-se que os alunos assinalem que parte importante da impõe para permitir a entrada de mercadorias importadas.
ação dos países na cena internacional ainda é movida pela lógi- Elas podem ser tarifárias, impondo-se taxas para mercado-
ca geopolítica. Isso significa dizer que, na defesa dos interesses rias que podem afetar a indústria nacional; ou não tarifárias,
de cada país, vale, se for preciso, chegar à guerra. Os interesses fixando-se restrições (ou proibições) contra a entrada de
de um país são soberanos e tendem a ser sempre superiores aos mercadorias que usaram mão de obra infantil etc. Prote-
dos outros países. Com algo assim prevalecendo, chegar aos cionismo é um termo mais amplo (barreiras alfandegárias
conflitos, até mesmo à guerra, é uma decorrência lógica. No fazem parte de políticas de protecionismo), que indica po-
entanto, pode-se identificar no horizonte a construção de no- líticas de proteção ao mercado interno, em especial à pro-
vas possibilidades de relações internacionais, mais baseadas na dução nacional. A ideia é que essa produção fique o menos
política, nas decisões democráticas, nos tratados etc. De certo exposta possível à concorrência internacional.
modo, está se construindo uma alternativa à geopolítica.
b) Por que, em última instância, a regulação
c) No contexto do comércio internacional, das relações econômicas internacionais é
você acha necessária a criação de ins- considerada, no GATT, como meio de
trumentos de regulamentação, como o promoção da paz?
GATT? Por quê? Porque os conflitos comerciais estão entre as causas mais eviden-
117
tes das guerras e das ameaças à paz em geral. Acordos nessa área refere-se ao processo de globalização, que estaria ampliando
tendem a aumentar as boas relações entre os países. ainda mais a desigualdade nesse cenário.

c) Por que os países procuram relações co- 2. Identificação das chaves de interpretação
merciais para além da escala nacional,
mesmo com as medidas protecionistas? Como orientar os estudantes em sua ten-
Quais são as vantagens? tativa de localizar as chaves de interpretação
No mundo contemporâneo, as economias nacionais são do texto? Se a princípio os estudantes encon-
cada vez mais interdependentes. Mesmo com medidas pro- trarem dificuldades, algumas linhas de racio-
tecionistas de vários países, conseguir acessar o mercado cínio podem ser sugeridas. Na verdade, duas
internacional significa aumento da capacidade econômica linhas complementares. Elas são simples e
de cada país, visto que a dependência apenas do mercado vão levar facilmente às questões centrais que
interno é impossível para satisfazer as necessidades de uma abrem os caminhos para a compreensão:
sociedade moderna.
f Linha de raciocínio número 1: num mun-
4. Considerando o texto e, também, o mapa de do com menos desigualdade econômica
fluxos comerciais elaborado anteriormente – mundo que não existe –, cujos países ne-
por você, por que você acha que os EUA gociassem em busca de um bem comum,
e a UE são os principais protagonistas de seriam necessárias tantas iniciativas para
litígios comerciais levados à OMC? se obter acordos, tratados, sanções, puni-
Os EUA e a UE são os principais centros produtores e consu- ções, protecionismos? O mundo é assim?
midores da economia contemporânea. Isso faz que, por um Os países movem-se pela lógica geopolíti-
lado, disputem mais acirradamente os mercados externos (o ca. As referências e os objetivos a ser al-
que inclui os fluxos entre ambos). Seus interesses na arena cançados em cada país são os interesses de
internacional estão sempre se confrontando. Por outro, são cada um. Agindo assim, não é mais fácil
forças que, de certo modo, equivalem-se, exercendo poder chegar à guerra do que à harmonia?
e pressão em suas relações comerciais. f Linha de raciocínio número 2: é importante
notar uma contradição existente no discur-
5. Quais são as principais queixas a respeito so de parte das iniciativas internacionais,
da eficácia da OMC na regulamentação do que é reveladora de como sua atuação é
comércio mundial? Cite um exemplo do repleta de antagonismos. O acordo comer-
texto e comente-o. cial (GATT) foi concebido para promover a
As queixas fundamentais referem-se à condição de desigual- paz e combater o protecionismo, “promotor
dade existente no interior da OMC. Os países mais pobres da guerra”. Seria interessante se os alunos
terminam por ser marginalizados nas discussões e nas deci- pesquisassem o que é “protecionismo co-
sões. Assim, algo que deveria ser multilateral permanece sen- mercial” e por que razão isso pode condu-
do controlado por apenas algumas potências. Outra queixa zir à guerra. De todo modo, nesse discurso,

118
Geografia – 1ª série – Volume 1

proteção ganha o sentido de agressão. Ao 3. Apresentação de caso hipotético


mesmo tempo, verifica-se que, enquanto pe-
dem a livre circulação dos produtos indus- Agora, a ideia é aplicar em situações ima-
triais, os países desenvolvidos (sobretudo ginadas as linhas de raciocínio desenvolvidas,
EUA e União Europeia) praticam o prote- que se referem ao protecionismo comercial.
cionismo em relação às mercadorias agrí-
colas. E temem concorrência dos produtos 1. Situação I: produtores agrícolas num país
originados no campo dos países emergentes qualquer (país A), envolvidos com suas ati-
e pobres. Isso não contraria a filosofia que vidades, lutando para conseguir boas sa-
estaria na base da fundação da OMC? fras, veem-se em dificuldades para vender
sua produção. Por isso, esses agricultores
Para a boa compreensão do texto e para vão recorrer aos seus governos, que eles
chegar-se a essa reflexão orientada pelas duas elegeram e apoiam, para pedir ajuda. Mas,
linhas de raciocínio, é preciso apoio, orienta- por que não vendem sua produção? Porque
ção e controle. O professor deve acompanhar os compradores tiveram acesso a produtos
o trabalho dos grupos e, sempre que necessá- agrícolas mais baratos e de melhor quali-
rio, reorientar as discussões. dade vindos de outros países.

Antes de propor e orientar o relato final, a) Os agricultores do país A devem aceitar


uma pequena demonstração explicativa do essa lógica do mercado? Por quê?
que está envolvido nas negociações econômi- Não costumam aceitar. Eles veem a lógica de mercado apenas
cas pode ser dada. O caso se refere às bases na escala nacional. Quando ela extrapola essa escala e se impõe
materiais do protecionismo. contra os seus interesses, há reação, até em potências econô-
micas – como as reunidas na UE e também nos EUA –, que dão
Um comentário metodológico: trabalhar subsídios aos seus produtores agrícolas para que eles consigam
com hipóteses é algo muito importante. Sair “barrar” os produtos agrícolas mais baratos de outros países.
momentaneamente do mundo concreto, realizar
um exercício de imaginação visando aperfeiçoar b) É provável que os agricultores reivindi-
o raciocínio, para depois voltar a interpretar a quem ao seu governo proteção contra
vida real, é a construção de um recurso inte- os “invasores” estrangeiros? Você faria
lectual decisivo na constituição do pensamen- o mesmo? Não é lógico que o governo
to autônomo. Essa é a capacidade de abstrair, deva protegê-los e não favorecer agricul-
decisiva na estruturação do mundo humano. tores de outros países? Por quê?
Por isso sugerimos, nesta parte da Situação de A resposta é pessoal, mas espera-se que o estudante veja a
Aprendizagem, que o professor apresente um complexidade da situação. Não basta apenas rechaçar o con-
caso hipotético aos seus alunos. A atividade está corrente externo, porque ele também, na primeira oportuni-
no Caderno do Aluno, na seção Desafio. dade, vai criar problemas para nossas exportações.

119
2. Situação II: no mesmo país A, as indústrias abrangente de todos os interesses (dos ricos e dos pobres) e com
estão se desenvolvendo muito, crescendo e o fortalecimento dos fóruns que podem levar a um acordo.
vendendo seus produtos pelo mundo. Dian-
te disso, alguns países começam a reagir au- 4. Com base na discussão das duas situações,
mentando as barreiras alfandegárias como elabore em seu caderno um texto sobre prá-
medida protecionista contra seus produtos. ticas comerciais protecionistas, enfatizando
as perspectivas, as soluções e o que você
a) Os países que aumentaram as barreiras al- acha justo que aconteça em relação a elas.
fandegárias estão legitimamente protegen- É importante chamar a atenção dos alunos para que esse
do sua indústria nacional? Você acha essa momento opinativo seja exercido com a certeza do máximo
atitude correta? Justifique sua resposta. de controle sobre o cenário internacional das relações eco-
A resposta é pessoal, mas é preciso estimular o estudante a nômicas, de suas complexidades e contradições. Não se deve
refletir sobre os pontos de vista envolvidos na questão. O que opinar sem segurança, quer dizer, sem ter um controle razoá-
é óbvio para um ponto de vista não será para o outro. vel sobre o que se opina. É muito comum as pessoas opina-
rem sobre diversas questões com uma carga de informações
b) O que vão fazer esses industriais do país e de reflexões muito baixa. Na escola, os alunos devem ser
A que veem seus mercados diminuírem? É orientados para a impertinência dessa postura.
certo pressionar seus governos para com-
bater o protecionismo dos outros? Eles Para finalizar esta Situação de Apren-
estão corretos? Justifique sua resposta. dizagem, como forma de apreensão
Combater o protecionismo dos outros parece certo, afinal do conteúdo, você pode propor aos
isso aumenta o acesso aos mercados externos e pode sig- alunos as questões reproduzidas a seguir e que es-
nificar a sobrevivência de vários negócios. Mas é preciso tão no Caderno do Aluno na seção Lição de casa:
saber que os outros países querem o mesmo, e produz-se
um conflito de interesses. Por isso, o melhor é negociar em 1. Faça uma redação refletindo sobre a afir-
fóruns coletivos, fortalecê-los, criar outra ordem comercial mação a seguir:
no mundo.

Os conflitos internacionais gerados pelas re-


3. No primeiro caso (Situação I), o governo do lações comerciais têm uma natureza estranha.
país A vai adotar políticas protecionistas; já Como todos os envolvidos agem segundo inte-
no segundo caso (Situação II), deverá com- resses legítimos e próprios, ninguém está errado
em princípio. Todos estão certos. É o conflito do
bater políticas protecionistas. Isso não é in-
certo contra o certo. E, se em um conflito temos
coerente? Justifique sua resposta, procurando
a convicção de que estamos certos, como vamos
pensar numa solução razoável para o dilema. abrir mão de nossas posições? Não seria impor-
A resposta é pessoal, mas espera-se que os alunos percebam que tante reconhecer que o outro também está certo?
essa incoerência tem sido resolvida à força (quem pode mais se
Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.
impõe). É possível superar esse aspecto com a consideração mais

120
Geografia – 1ª série – Volume 1

O tema de redação proposto inverte uma lógica que sempre econômicas e de outros tipos. Além das já discutidas, como a
admite que os conflitos são gerados por lados “certos” e por la- OMC, o Banco Mundial, o FMI, existem outras:
dos “errados”. Nada é tão óbvio assim, sobretudo no conjunto G8 – Grupo informal constituído pelos sete países mais ricos
das relações econômicas do mundo contemporâneo. Os alu- do mundo e a Rússia, que negociam regularmente – utili-
nos não são obrigados a concordar com essa afirmação, mas zando seu poder – os rumos da economia mundial. São eles:
fazer uma redação sobre esse tema implica dialogar com esse EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão, Canadá e
posicionamento, mesmo que seja para desmenti-lo. Seja qual Rússia. É positivo que esses países dividam responsabilidades,
for a posição assumida pelo aluno, é importante que ele seja procurem acordos, mesmo que ainda não consigam olhar
orientado a argumentar e a defender com dados e informa- para os interesses de todos.
ções seus pontos de vista. Esse exercício é fundamental (e deve G20 – O Brasil é um dos líderes desse grupo, que vem se estru-
ser realizado sempre) para que suas reflexões e seu discurso se turando nas assembleias internacionais como uma força que
ampliem, fazendo que ele se interesse em continuar se desen- pretende dar voz a interesses que nem sempre são contempla-
volvendo e buscando novas informações. dos pelo G8. Seus membros são os países emergentes, alguns
com bom nível de desenvolvimento, como a Austrália, e outros
2. Faça uma breve pesquisa, buscando defini- de economia poderosa, como a China e o próprio Brasil. A Ar-
ções sintéticas sobre outras organizações (e gentina, a Índia e vários outros países pertencem a esse grupo.
instituições) que vêm surgindo para pensar Fórum Social Mundial – Reunião de várias instituições gover-
e organizar as relações internacionais. Re- namentais e não governamentais que se apresenta como alter-
gistre-as em seu caderno. Seguem, a seguir, nativa ao Fórum Econômico Mundial, que, em tese, é menos
alguns exemplos dessas organizações. crítico aos rumos da globalização. As reuniões do Fórum Social
têm gerado manifestos críticos a favor de outras formas de glo-
f Grupo do G8 (países economicamente balização. O Brasil tem tido papel importante nessas reuniões.
mais poderosos). Muitos analistas dizem Várias delas foram realizadas em nosso território, nas cidades de
que o que se decide entre eles é o que real- Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e de Belém, no Pará.
mente conta no cenário das relações co-
merciais no mundo. 3. Os organismos econômicos procuram conci-
f Grupo do G20 (países emergentes). O Bra- liar interesses conflitantes na escala mundial.
sil é uma das lideranças desse grupo, que Eles têm sido bem-sucedidos? Por quê?
pressiona para que os países ricos admitam O principal sucesso dessas instituições está no fato de
regras de interesse comum, diminuam suas elas existirem e de apresentarem-se como espaços para
políticas protecionistas etc. a resolução mais civilizada de conflitos gerados nas rela-
f Fórum Social Mundial, promovido por or- ções econômicas internacionais e também de relações
ganismos que defendem uma outra globa- de outros tipos. Sem dúvida, há progressos nas negocia-
lização, uma outra ordem mundial. ções, mas há também obstáculos e impasses. Estes últi-
Vivemos em um mundo em que, com o avanço das relações mos têm sido enormes, mas mesmo assim são mais fáceis
na escala global, cada vez mais se torna necessário estruturar de ser enfrentados do que as guerras que marcaram a
instâncias, fóruns e outras instituições para procurar relações história da humanidade.

121
4. Quais são os organismos responsáveis por condição de portadores da produção com
estruturar ajudas e regulações entre os países tecnologia mais avançada.
envolvidos nos fluxos econômicos internacio-
nais? Descreva situações de conflito enfrenta- c) os países mais pobres, fundamentados
das em âmbito interno nesses organismos. nas atividades agrícolas, protegem seus
Esses organismos são: o Banco Mundial, o Fundo Monetário In- mercados por não resistirem à concorrên-
ternacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). cia das potências, que possuem agricultu-
Há conflitos no interior da OMC, por exemplo, entre os países ra mais desenvolvida.
ricos que compõem o G8 e os países que compõem o G20. Há
também conflitos entre os mais ricos (a UE e os EUA). d) organizar políticas protecionistas mais
rígidas está entre as principais funções
5. Considerando a composição diversificada da OMC, organização de combate ao
da OMC, é correto dizer que: comércio sem regras na escala mundial.

a) as potências econômicas relutam em e) a OMC defende maior fluidez do comércio,


participar das negociações, pois, embo- mas não tem conseguido evitar o choque
ra tenham o maior poderio econômico, entre grandes potências, nem cuidar melhor
perdem as votações, uma vez que repre- dos interesses dos países emergentes.
sentam uma clara minoria. Infelizmente, a OMC não tem conseguido evitar os choques en-
tre as grandes potências, nem dar vazão aos interesses dos outros
b) os países emergentes encontram resistên- países. Mas ela existe para isso e tem um importante papel na
cia dentro da OMC para fazer valer sua busca da negociação, que certamente no futuro será mais eficaz.

PROPOSTA DE SITUAÇÕES DE RECUPERAÇÃO

Pode-se começar esse processo definindo-se Não é indispensável um controle abstrato


quais são os conteúdos indispensáveis tratados dos conceitos (embora desejável), mas sim sua
nas quatro primeiras Situações de Aprendiza- aplicação. Pode-se não dominar abstratamen-
gem. São os seguintes: te os princípios da linguagem cartográfica,
mas é importante saber ver um mapa e saber
1. A lógica da linguagem cartográfica. identificar um mapa inadequado. O mesmo
2. Princípios básicos do sensoriamento remoto. exemplo pode se estender quanto ao seu sig-
3. Ideia de ordem mundial associada à ação nificado aos outros conteúdos das atividades.
geopolítica.
4. Povos e países “deserdados” da ordem mun- As estratégias para trabalhar a recupera-
dial. ção são as seguintes:

122
Geografia – 1ª série – Volume 1

1. A aplicação de aulas dialogadas, nas quais imagem de satélite de um mapa; depois, se ele
serão dadas algumas questões que priori- tem ideia do que está ali representado e como
zem a essência dos conteúdos indispensá- aquilo foi obtido; se tem consciência de que
veis, para diagnosticar as lacunas existen- uma imagem de satélite sofre intervenções
tes no aprendizado. humanas, é produto de escolhas também, e
que é uma forma de ler o espaço, mas nunca
2. Encaminhamento das soluções possíveis. uma cópia fiel. Na conversa, o professor pode
ajudar a evolução desse entendimento. É in-
Conteúdo 1 – A lógica da linguagem dispensável que se tenha construída a ideia
cartográfica de que, pelo sensoriamento remoto, obtemos
a informação acerca de um objeto no espaço
Por meio de uma espécie de chamada oral geográfico sem que precisemos ter contato fí-
o professor deve mostrar novamente qualquer sico com ele.
um dos mapas em que se apresente a quanti-
dade (de um fenômeno) distribuída no espaço
do mapa-múndi e fazer as perguntas básicas: Conteúdo 3 – Ideia de ordem
mundial associada à ação
f Esse círculo escolhido está localizado onde geopolítica
e que quantidade está representando?
f O fenômeno representado expressa-se em É indispensável que o estudante tenha
maior quantidade em que área do espaço ideia da existência de uma ordem mundial,
geográfico? mesmo que ela não seja feita de instituições,
Caso o estudante não responda satisfatoriamente, o profes- de governos e de uma sociedade mundial.
sor pode continuar perguntando sobre outros elementos Ele deve saber que essa ordem é produto
mais simples para identificar onde os problemas iniciam-se, das relações entre os países e que no inte-
o que permitirá encontrar soluções. Caso o estudante res- rior dessas relações vão surgindo regras (e
ponda bem, pode-se avançar no questionamento e ajudá-lo mesmo algumas instituições). Que quem
a avançar até o máximo possível. termina tendo peso maior na concepção
dessas regras são as grandes potências. Que
Conteúdo 2 –Princípios do os países atuam nessa ordem tendo como
sensoriamento remoto referência, antes de tudo, seus próprios in-
teresses, e que isso é a geopolítica, que pode
Em uma chamada oral, mostre uma ima- até mesmo conduzir à guerra. Isso é o míni-
gem de satélite (podem ser as presentes nas mo indispensável. O professor pode verificar
atividades), ou então uma outra qualquer, esse domínio mínimo com questionamentos
publicada em atlas ou em outras edições. Pri- orais, conduzidos de acordo com as respos-
meiro, verifique se o estudante distingue uma tas. Mas o norte não pode ser perdido.

123
Conteúdo 4 – Povos e países Para as quatro últimas Situações de Aprendi-
“deserdados” da ordem mundial zagem, os conteúdos que minimamente devem es-
tar sob o controle dos alunos são os que seguem:
Uma ordem mundial forjada no interior
de relações entre países, na qual cada um 1. As razões da aceleração das relações humanas
luta por seus interesses, obviamente será (dos fluxos materiais e imateriais) e a desigual-
uma ordem bastante imperfeita. Isso não dade no acesso a essas novas condições.
é nem minimamente razoável. Em especial
porque alguns são mais poderosos e irão su- 2. A emergência de uma nova forma de or-
focar outros. Daí se espera que várias partes ganizar o espaço: as redes geográficas, algo
do mundo sejam vítimas dessa ordem. Há possível justamente pelo desenvolvimento
várias peculiaridades históricas em cada de meios avançados de gestão da distância
caso, mas é importante que o estudante te- geográfica; o controle das redes geográficas
nha uma noção organizada sobre uma certa pelas corporações transnacionais.
lógica dos conflitos regionais, dos conflitos
que desagregam alguns países. Por meio de 3. A ampliação dos fluxos comerciais na dis-
aula dialogada, o que estiver insatisfatório tância (até a escala mundial) e no volume,
será notado, sendo resolvido no momento, com novos centros emergentes, como o Ex-
ou pelo menos encaminhado de volta para tremo Oriente (Ásia).
as atividades adequadas e para trabalhos
com outros materiais didáticos. 4. As dificuldades e as ações para se adminis-
trar um mundo onde as relações na escala
É importante ainda avaliar os procedi- mundial pressionam as relações na escala
mentos e as atitudes, fundamentais para regional e nacional.
definir as possibilidades de o aluno dar con-
tinuidade a seus estudos. Muitas vezes uma Um primeiro conjunto de procedimentos
certa defasagem em relação a conteúdos es- para trabalhar a recuperação consiste em:
pecíficos pode ser facilmente superada se o
aluno desenvolver atitudes adequadas com Tal como estão enunciados, os conteúdos
relação ao método e aos procedimentos: o mínimos devem ser apresentados aos estudan-
saber fazer; o compromisso com o trabalho, tes que precisam de um trabalho complemen-
com as pesquisas previstas, com a leitura tar. Aqui necessariamente o trabalho precisa
dos textos recomendados; o exercício da es- ser individual. Em primeiro lugar, deve-se per-
crita; a capacidade e o gosto para a elabora- guntar se eles entendem os enunciados. Eles
ção de um texto; a autonomia para a busca podem não conhecer bem os conteúdos, mas
de novos textos, o interesse pelos mapas e o podem compreender os enunciados. São coi-
exercício de sua interpretação etc. sas diferentes. Mas eles podem, desde o início,

124
Geografia – 1ª série – Volume 1

esbarrar nos enunciados e, por isso, é preciso, Outra estratégia para continuar a recu-
na medida do possível, cuidar para amenizar peração será reorganizar os conteúdos a ser
esse problema. Se for necessário, os enuncia- trabalhados agora, segundo as lacunas, difi-
dos podem ser reescritos até que sejam com- culdades e incompreensões apresentadas no
preendidos pelos alunos. primeiro conjunto de procedimentos de recu-
peração. Se a lista for grande, dispersa e aleató-
Num segundo momento, pode-se pedir ria, sugerimos ao professor que crie elos, uma
para que o aluno escreva um pequeno texto sequência, enxugue e promova algumas expli-
a respeito de cada um dos enunciados. É bom cações, devendo, conforme o caso, até mesmo
que ele possa consultar materiais, anotações de retomar parte das Situações de Aprendizagem
aula, livros didáticos, o que ele tiver. É possível realizadas.
que, nessa ocasião, parte do problema se revele,
pois o aluno pode ter tido problemas de par- Por fim, pode-se repetir, agora sem consul-
ticipação ou dificuldades de organização dos ta, o que foi proposto inicialmente: a reescrita
materiais. É preciso, então, estimulá-lo a orga- dos quatro textos com base nos enunciados
nizar suas coisas, a ter acesso a tudo que for ne- que se referem aos conteúdos mínimos. A
cessário para uma consulta que lhe acrescente comparação dos textos da segunda fase com
algo. O texto não deve conter trechos copiados os da primeira deverá ser feita para que os
e deve ser totalmente pessoal. Deve expressar estudantes sintam como se movimentaram,
a condição real do estudante quanto às habili- ou seja, para que eles próprios percebam que
dades e às competências que ele de fato possui aprenderam o conteúdo. Caso tenha havido
para descrever e interpretar esses enunciados. mudança, seria importante enfatizar que eles
podem incorporar tudo o que fizeram como
O resultado dos quatro pequenos textos será uma competência para estudar sozinhos, para
material precioso de diagnóstico do estágio de compensar defasagens. Isso pode acrescentar
compreensão do estudante. Ao mesmo tempo, novas atitudes de disciplina de trabalho, de
ele organizou seus materiais e seus pensamen- confiança no aprendizado. Tudo isso pode ser
tos, o que já terá sido um avanço. um passo na construção da autonomia.

125
RECURSOS PARA AMPLIAR A PERSPECTIVA DO PROFESSOR
E DO ALUNO PARA A COMPREENSÃO DO TEMA

Sugestão de livros CNUCED – Conferência das Nações Uni-


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e suas aplicações para recursos naturais. Dispo-
nível em: <http://www.inpe.br/unidades/cep/ Atlas historique. Disponível em: <http://
atividadescep/educasere/apostila.htm#tania>. www.atlas-historique.net/accueil.html>.
Acesso em: 23 jul. 2013. Bom site de cartografia histórica.

128
Geografia – 1ª série – Volume 1

Center for Spatially Integrated Social Science. Catálogo com imagens antigas do satélite
Disponível em: <http://www.csiss.org>. To- Landsat, que podem ser utilizadas para ob-
das as projeções com versão para impressão. servação das modificações e evolução das
paisagens do país.
Centre de documentation de l’ONU. Disponí-
vel em: <http://www.un.org>. Seção de car- Le Laboratoire de Cartographie. Disponível
tografia da ONU. em: <http://www.cartographie.ird.fr>. Da-
dos mundiais com fundo de carta em ana-
Embrapa Monitoramento por Satélite. Disponí- morfose.
vel em: <http://www.cnpm.embrapa.br>. Site
que disponibiliza imagens de satélite de todo o Le Monde diplomatique. Disponível em:
Brasil, além de diversos projetos que resultam <http://www.monde-diplomatique.fr>.
em mapeamentos com base em imagens de sa- Mapas do jornal francês Le Monde diplo-
télite, como, por exemplo, sobre as queimadas, matique.
o relevo e a vegetação do Brasil.
Sciences Po – Atelier de cartographie. Disponí-
Google Earth. Disponível em: <http://earth. vel em: <http://cartographie.sciences-po.fr>.
google.com>. O Google Earth coloca à Há bastante cuidado com a linguagem
disposição dos usuários os sofisticados com base na semiologia gráfica de Bertin.
recursos de pesquisa do Google com imagens
de satélite, mapas, terrenos e edificações de The Library of Congress. Disponível em:
todo o mundo em 3D. <http://memory.loc.gov>. Mapoteca da Bi-
blioteca do Congresso dos EUA.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
– IBGE. Disponível em: <http://www.ibge. University of Texas libraries. Disponível em:
gov.br/home/geociencias/cartografia/ <http://www.lib.utexas.edu>. Ótimo site de
manual_nocoes/indice.htm>. Noções básicas mapas.
de Cartografia.
Worldmapper. Disponível em: <http://www.
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – worldmapper.org/>. Mapas em anamorfo-
INPE. Disponível em: <http://www.inpe.br>. ses. Diversos dados mundiais organizados
Imagens de satélite do Brasil disponíveis. em planilhas Excel.

129
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As Situações de Aprendizagem que aqui fenômenos associados ao processo de glo-
foram apresentadas são possibilidades, entre balização. Assim, foram tratados os conteú-
outras, de exploração dos conteúdos previstos. dos, que tentamos resumir agora:

São sugestões cujo maior objetivo é o de f Que o papel contemporâneo da Cartogra-


abrir diálogo com os docentes que estão em fia é contribuir como linguagem para a
contato diretamente com os estudantes. Nin- compreensão das complexas relações espa-
guém tem mais condições de saber como for- ciais do mundo contemporâneo.
jar os caminhos para estabelecer relações de f Que novos meios tecnológicos, os sensores
aprendizado produtivas com os estudantes do remotos, estão acessíveis para termos um
que o próprio professor. olhar mais preciso e completo sobre a su-
perfície terrestre.
Seguramente os conteúdos podem ser f Que, ainda que a ordem mundial tenha
abordados de muitas outras formas. Não se mudado no mundo contemporâneo, a
pretende que temas tão amplos, complexos e ação dos países continua a ser regulada
em constante mudança sejam prisioneiros de pela geopolítica, em especial a das gran-
uma única forma de abordagem, o que os con- des potências.
gelaria no interior de uma única interpretação. f Que, no interior dessa ordem mundial, há
Aliás, as Situações de Aprendizagem sugeri- vítimas de todos os tipos, da “desordem”
das neste Caderno serão mais produtivas na que lhe é própria, mas que as principais
medida em que suscitarem novas aberturas de vítimas estão entre aqueles que vivem em
entendimento e desafiarem para a produção países atingidos por guerras civis e confli-
de interpretações alternativas. tos regionais.
f Que a aceleração das relações humanas
Logo, em hipótese alguma esse material em um contexto em que o espaço geográ-
deve ser visto como algo impositivo, e que fico se alargou, com novas configurações
tem as melhores respostas para os desafios que podem ir até a escala mundial, de-
da aprendizagem que os conteúdos previstos vido aos avanços tecnológicos no campo
suscitam. As atividades trabalhadas tenta- dos transportes e das telecomunicações.
ram concentrar-se no essencial dos conteú- E que isso não é só produto de uma nova
dos propostos. O retorno do professor nos realidade socioeconômica, e ao mesmo
será de grande utilidade, em acentuar com tempo, contribui como produtor de no-
precisão o que é a abordagem geográfica dos vas realidades.

130
Geografia – 1ª série – Volume 1

f Que a constituição de novas modalidades A ordenação civilizada das relações em


de se organizar os espaços geográficos, além escala mundial – de modo a não oprimir o
da forma territorial. Agora há um avanço que acontece no interior dos Estados na-
de uma configuração concorrente, que é a cionais, de não oprimir os pequenos atores
rede geográfica, organização sem contigui- sociais, de modo a permitir benefícios mais
dade, estruturada com base em pontos e democráticos da globalização – deverá ser
linhas. Se na escala mundial ela é domínio acompanhada também de um novo enfoque
das corporações transnacionais, na escala diante do chamado mundo natural. Não ha-
local organizam-se redes para proteger seg- verá futuro promissor para a humanidade e
mentos mais abastados. suas relações em contexto mais alargado se
f Que a base de redes geográficas e seus flu- não houver futuro para o planeta. A ques-
xos acelerados só poderiam, a despeito das tão da relação com a natureza não poderá,
dificuldades geopolíticas e dos conflitos portanto, ser problema de cada sociedade
deflagrados, aumentar exponencialmente nacional, o que seria absurdo num mundo
as relações comerciais no espaço mundial, dominado pela globalização. Deverá ser e
dinamizando economias regionais antes es- já é um problema colocado no interior da
tacionadas em razão do acesso a novos mer- ordem mundial contemporânea. No pró-
cados, como no caso exemplar da China. ximo Caderno, a questão da natureza no
f Que a humanidade está diante de um futu- período da globalização será o tema cen-
ro incerto, mas bem mais próximo, pois não tral, o que entendemos ser um desdobra-
parece plausível que a ampliação das rela- mento necessário do que foi trabalhado nos
ções permitidas pela aceleração dos fluxos Cadernos anteriores.
ou pela organização em redes para além
dos Estados nacionais vá recuar. Logo, a Esperamos que o diálogo com essas ativi-
emergência de solidificar as instituições de dades seja produtivo, que elas ajudem a desen-
negociação, de controle, de busca de justiça volver novas ideias e que elas próprias possam
nessas relações está colocada. ser aperfeiçoadas.

131
QUADRO DE CONTEÚDOS DO ENSINO MÉDIO
1a série 2a série 3a série
Cartografia e poder Território brasileiro Regionalização do espaço mundial
Os elementos dos mapas A gênese geoeconômica do território As regiões da Organização das Nações
As projeções cartográficas brasileiro Unidas (ONU)
As técnicas de sensoriamento remoto As fronteiras brasileiras O conflito Norte e Sul
Geopolítica do mundo contemporâneo Do “arquipélago” ao “continente” Globalização e regionalização econômica
O papel dos Estados Unidos da América e O Brasil no sistema internacional Choque de civilizações?
a nova “desordem” mundial Mercados internacionais e agenda Geografia das religiões
Conflitos regionais e os deserdados da externa brasileira A questão étnico–cultural
Volume 1

Nova Ordem Mundial Os circuitos da produção América Latina?


Os sentidos da globalização O espaço industrial brasileiro
As mudanças das distâncias geográficas e O espaço agropecuário brasileiro
os processos migratórios Redes e hierarquias urbanas
A globalização e as redes geográficas A formação e a evolução da rede
A economia global urbana brasileira
Organismos econômicos internacionais A revolução da informação e as
As corporações transnacionais cidades
Os fluxos do comércio mundial
Fluxos econômicos na escala mundial

Natureza e riscos ambientais Dinâmicas demográficas A África no mundo global


Estruturas e formas do planeta Terra Matrizes culturais do Brasil O continente africano
O relevo terrestre A transição demográfica África: sociedade em transformação
– Agentes internos: os movimentos da Dinâmicas sociais África e Europa
crosta O trabalho e o mercado de trabalho África e América
– Agentes externos: clima e intemperismo A segregação socioespacial e a exclu- Geografia das redes mundiais
Riscos de catástrofes em um mundo
Volume 2

são social Os fluxos materiais


desigual Os fluxos de ideias e informação
– A prevenção de riscos Recursos naturais e gestão do
território As cidades globais
Globalização e urgência ambiental A placa tectônica sul–americana e o Uma geografia do crime
Os biomas terrestres modelado do relevo brasileiro O terror e a guerra global
– Clima e cobertura vegetal Os domínios morfoclimáticos e as A globalização do crime
A nova escala dos impactos ambientais bacias hidrográficas
Os tratados internacionais sobre Gestão pública dos recursos naturais
meio ambiente

132
Geografia – 1ª série – Volume 1

GABARITO
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 2 órbita do planeta; as fotografias aéreas e as imagens de radar
O SENSORIAMENTO REMOTO: são exemplos de produtos obtidos de sensores suborbitais.
A DEMOCRATIZAÇÃO DAS INFORMAÇÕES Satélite: o significado de satélite é “corpo celeste que gravita
em torno de outro”; no caso do sensoriamento remoto, o satélite
Leitura e análise de texto e quadro (CA, p. 31) significa um objeto artificial que gravita ao redor da Terra captan-
do informações sobre a superfície.
Trabalho de entendimento das palavras destacadas e das des- Bacia de drenagem: é composta pelos rios e seus afluentes
conhecidas, com uso de dicionário. Algumas referências sobre as e tem seu fluxo direcionado pelo relevo a um único ponto
palavras destacadas: de saída.
Sensor: equipamento que capta a radiação eletromagnética Fibra ótica: é utilizada para a transmissão de dados por meio
transformando essa informação em dados digitais. de cabos muito finos feitos de vidro, que conduzem feixes de luz
Radiação eletromagnética: é uma forma de propagação de a uma grande distância, utilizando-se de um fenômeno óptico
energia que permite a percepção, pelo sensor do satélite, das fei- conhecido como refração total.
ções da superfície da Terra. Vulnerabilidade ambiental: é a suscetibilidade de um deter-
Suborbital: termo utilizado para caracterizar os equipamen- minado lugar a sofrer impactos negativos resultante de fatores
tos que captam as informações da superfície sem completar a físicos, sociais, econômicos e ambientais.

133
CONCEPÇÃO E COORDENAÇÃO GERAL Química: Ana Joaquina Simões S. de Matos Rosângela Teodoro Gonçalves, Roseli Soares
NOVA EDIÇÃO 2014-2017 Carvalho, Jeronimo da Silva Barbosa Filho, João Jacomini, Silvia Ignês Peruquetti Bortolatto e Zilda
Batista Santos Junior e Natalina de Fátima Mateus. Meira de Aguiar Gomes.
COORDENADORIA DE GESTÃO DA
EDUCAÇÃO BÁSICA – CGEB Área de Ciências Humanas Área de Ciências da Natureza
Filosofia: Emerson Costa, Tânia Gonçalves e Biologia: Aureli Martins Sartori de Toledo, Evandro
Coordenadora
Teônia de Abreu Ferreira.
Maria Elizabete da Costa Rodrigues Vargas Silvério, Fernanda Rezende
Geografia: Andréia Cristina Barroso Cardoso, Pedroza, Regiani Braguim Chioderoli e Rosimara
Diretor do Departamento de Desenvolvimento Santana da Silva Alves.
Débora Regina Aversan e Sérgio Luiz Damiati.
Curricular de Gestão da Educação Básica
João Freitas da Silva História: Cynthia Moreira Marcucci, Maria Ciências: Davi Andrade Pacheco, Franklin Julio
Margarete dos Santos e Walter Nicolas Otheguy de Melo, Liamara P. Rocha da Silva, Marceline
Diretora do Centro de Ensino Fundamental Fernandez. de Lima, Paulo Garcez Fernandes, Paulo Roberto
dos Anos Finais, Ensino Médio e Educação
Orlandi Valdastri, Rosimeire da Cunha e Wilson
Profissional – CEFAF Sociologia: Alan Vitor Corrêa, Carlos Fernando de
Luís Prati.
Valéria Tarantello de Georgel Almeida e Tony Shigueki Nakatani.

Coordenadora Geral do Programa São Paulo PROFESSORES COORDENADORES DO NÚCLEO Física: Ana Claudia Cossini Martins, Ana Paula
faz escola PEDAGÓGICO Vieira Costa, André Henrique GhelÅ RuÅno,
Valéria Tarantello de Georgel Cristiane Gislene Bezerra, Fabiana Hernandes
Área de Linguagens
M. Garcia, Leandro dos Reis Marques, Marcio
Coordenação Técnica Educação Física: Ana Lucia Steidle, Eliana Cristine
Bortoletto Fessel, Marta Ferreira Mafra, Rafael
Roberto Canossa Budisk de Lima, Fabiana Oliveira da Silva, Isabel
Plana Simões e Rui Buosi.
Roberto Liberato Cristina Albergoni, Karina Xavier, Katia Mendes
Smelq Cristina de 9lbmimerime :oeÅe e Silva, Liliane Renata Tank Gullo, Marcia Magali
Química: Armenak Bolean, Cátia Lunardi, Cirila
Rodrigues dos Santos, Mônica Antonia Cucatto da
EQUIPES CURRICULARES Tacconi, Daniel B. Nascimento, Elizandra C. S.
Silva, Patrícia Pinto Santiago, Regina Maria Lopes,
Lopes, Gerson N. Silva, Idma A. C. Ferreira, Laura
Área de Linguagens Sandra Pereira Mendes, Sebastiana Gonçalves
C. A. Xavier, Marcos Antônio Gimenes, Massuko
Arte: Ana Cristina dos Santos Siqueira, Carlos Ferreira Viscardi, Silvana Alves Muniz.
S. Warigoda, Roza K. Morikawa, Sílvia H. M.
Eduardo Povinha, Kátia Lucila Bueno e Roseli Língua Estrangeira Moderna (Inglês): Célia Fernandes, Valdir P. Berti e Willian G. Jesus.
Ventrela. Regina Teixeira da Costa, Cleide Antunes Silva,
Ednéa Boso, Edney Couto de Souza, Elana Área de Ciências Humanas
Educação Física: Marcelo Ortega Amorim, Maria
Simone Schiavo Caramano, Eliane Graciela Filosofia: Álex Roberto Genelhu Soares, Anderson
Elisa Kobs Zacarias, Mirna Leia Violin Brandt,
dos Santos Santana, Elisabeth Pacheco Lomba Gomes de Paiva, Anderson Luiz Pereira, Claudio
Rosângela Aparecida de Paiva e Sergio Roberto
Kozokoski, Fabiola Maciel Saldão, Isabel Cristina Nitsch Medeiros e José Aparecido Vidal.
Silveira.
dos Santos Dias, Juliana Munhoz dos Santos,
Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Kátia Vitorian Gellers, Lídia Maria Batista Geografia: Ana Helena Veneziani Vitor, Célio
Espanhol): Ana Paula de Oliveira Lopes, Jucimeire BomÅm, Lindomar Alves de Oliveira, Lúcia Batista da Silva, Edison Luiz Barbosa de Souza,
de Souza Bispo, Marina Tsunokawa Shimabukuro, Aparecida Arantes, Mauro Celso de Souza, Edivaldo Bezerra Viana, Elizete Buranello Perez,
Neide Ferreira Gaspar e Sílvia Cristina Gomes Neusa A. Abrunhosa Tápias, Patrícia Helena Márcio Luiz Verni, Milton Paulo dos Santos,
Nogueira. Passos, Renata Motta Chicoli Belchior, Renato Mônica Estevan, Regina Célia Batista, Rita de
José de Souza, Sandra Regina Teixeira Batista de Cássia Araujo, Rosinei Aparecida Ribeiro Libório,
Língua Portuguesa e Literatura: Angela Maria
Campos e Silmara Santade Masiero. Sandra Raquel Scassola Dias, Selma Marli Trivellato
Baltieri Souza, Claricia Akemi Eguti, Idê Moraes dos
e Sonia Maria M. Romano.
Santos, João Mário Santana, Kátia Regina Pessoa, Língua Portuguesa: Andrea Righeto, Edilene
Mara Lúcia David, Marcos Rodrigues Ferreira, Roseli Bachega R. Viveiros, Eliane Cristina Gonçalves
Ramos, Graciana B. Ignacio Cunha, Letícia M. História: Aparecida de Fátima dos Santos
Cordeiro Cardoso e Rozeli Frasca Bueno Alves.
de Barros L. Viviani, Luciana de Paula Diniz, Pereira, Carla Flaitt Valentini, Claudia Elisabete
Área de Matemática Márcia Regina Xavier Gardenal, Maria Cristina Silva, Cristiane Gonçalves de Campos, Cristina
Matemática: Carlos Tadeu da Graça Barros, Cunha Riondet Costa, Maria José de Miranda de Lima Cardoso Leme, Ellen Claudia Cardoso
Ivan Castilho, João dos Santos, Otavio Yoshio Nascimento, Maria Márcia Zamprônio Pedroso, Doretto, Ester Galesi Gryga, Karin Sant’Ana
Yamanaka, Rodrigo Soares de Sá, Rosana Jorge Patrícia Fernanda Morande Roveri, Ronaldo Cesar Kossling, Marcia Aparecida Ferrari Salgado de
Monteiro, Sandra Maira Zen Zacarias e Vanderley Alexandre Formici, Selma Rodrigues e Barros, Mercia Albertina de Lima Camargo,
Aparecido Cornatione. Sílvia Regina Peres. Priscila Lourenço, Rogerio Sicchieri, Sandra Maria
Fodra e Walter Garcia de Carvalho Vilas Boas.
Área de Ciências da Natureza Área de Matemática
Biologia: Aparecida Kida Sanches, Elizabeth Matemática: Carlos Alexandre Emídio, Clóvis Sociologia: Anselmo Luis Fernandes Gonçalves,
Reymi Rodrigues, Juliana Pavani de Paula Bueno e Antonio de Lima, Delizabeth Evanir Malavazzi, Celso Francisco do Ó, Lucila Conceição Pereira e
Rodrigo Ponce. Edinei Pereira de Sousa, Eduardo Granado Garcia, Tânia Fetchir.
Ciências: Eleuza Vania Maria Lagos Guazzelli, Evaristo Glória, Everaldo José Machado de Lima,
Gisele Nanini Mathias, Herbert Gomes da Silva e Fabio Augusto Trevisan, Inês Chiarelli Dias, Ivan Apoio:
Maria da Graça de Jesus Mendes. Castilho, José Maria Sales Júnior, Luciana Moraes Fundação para o Desenvolvimento da Educação
Funada, Luciana Vanessa de Almeida Buranello, - FDE
Física: Carolina dos Santos Batista, Fábio Mário José Pagotto, Paula Pereira Guanais, Regina
Bresighello Beig, Renata Cristina de Andrade Helena de Oliveira Rodrigues, Robson Rossi, CTP, Impressão e acabamento
Oliveira e Tatiana Souza da Luz Stroeymeyte. Rodrigo Soares de Sá, Rosana Jorge Monteiro, Esdeva Indústria GráÅca Ltda.
GESTÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO CONCEPÇÃO DO PROGRAMA E ELABORAÇÃO DOS Filosofia: Paulo Miceli, Luiza Christov, Adilton Luís
EDITORIAL 2014-2017 CONTEÚDOS ORIGINAIS Martins e Renê José Trentin Silveira.

COORDENAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO Geografia: Angela Corrêa da Silva, Jaime Tadeu


FUNDAÇÃO CARLOS ALBERTO VANZOLINI DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS Oliva, Raul Borges Guimarães, Regina Araujo e
CADERNOS DOS PROFESSORES E DOS Sérgio Adas.
Presidente da Diretoria Executiva CADERNOS DOS ALUNOS
Antonio Rafael Namur Muscat Ghisleine Trigo Silveira História: Paulo Miceli, Diego López Silva,
Glaydson José da Silva, Mônica Lungov Bugelli e
CONCEPÇÃO
Vice-presidente da Diretoria Executiva Raquel dos Santos Funari.
Guiomar Namo de Mello, Lino de Macedo,
Alberto Wunderler Ramos Luis Carlos de Menezes, Maria Inês Fini Sociologia: Heloisa Helena Teixeira de Souza
(coordenadora) e Ruy Berger (em memória).
Martins, Marcelo Santos Masset Lacombe,
GESTÃO DE TECNOLOGIAS APLICADAS
Melissa de Mattos Pimenta e Stella Christina
À EDUCAÇÃO AUTORES
Schrijnemaekers.

Direção da Área Linguagens


Coordenador de área: Alice Vieira. Ciências da Natureza
Guilherme Ary Plonski
Arte: Gisa Picosque, Mirian Celeste Martins, Coordenador de área: Luis Carlos de Menezes.
Geraldo de Oliveira Suzigan, Jéssica Mami Biologia: Ghisleine Trigo Silveira, Fabíola Bovo
Coordenação Executiva do Projeto
Makino e Sayonara Pereira. Mendonça, Felipe Bandoni de Oliveira, Lucilene
Angela Sprenger e Beatriz Scavazza
Aparecida Esperante Limp, Maria Augusta
Educação Física: Adalberto dos Santos Souza, Querubim Rodrigues Pereira, Olga Aguilar Santana,
Gestão Editorial
Carla de Meira Leite, Jocimar Daolio, Luciana Paulo Roberto da Cunha, Rodrigo Venturoso
Denise Blanes
Venâncio, Luiz Sanches Neto, Mauro Betti, Mendes da Silveira e Solange Soares de Camargo.
Renata Elsa Stark e Sérgio Roberto Silveira.
Equipe de Produção
Ciências: Ghisleine Trigo Silveira, Cristina Leite,
LEM – Inglês: Adriana Ranelli Weigel Borges, João Carlos Miguel Tomaz Micheletti Neto,
Editorial: Amarilis L. Maciel, Angélica dos Santos
Alzira da Silva Shimoura, Lívia de Araújo Donnini Julio Cézar Foschini Lisbôa, Lucilene Aparecida
Angelo, Bóris Fatigati da Silva, Bruno Reis, Carina
Rodrigues, Priscila Mayumi Hayama e Sueli Salles Esperante Limp, Maíra Batistoni e Silva, Maria
Carvalho, Carla Fernanda Nascimento, Carolina Fidalgo. Augusta Querubim Rodrigues Pereira, Paulo
H. Mestriner, Carolina Pedro Soares, Cíntia Leitão,
Rogério Miranda Correia, Renata Alves Ribeiro,
Eloiza Lopes, Érika Domingues do Nascimento, LEM – Espanhol: Ana Maria López Ramírez, Isabel
Ricardo Rechi Aguiar, Rosana dos Santos Jordão,
Flávia Medeiros, Gisele Manoel, Jean Xavier, Gretel María Eres Fernández, Ivan Rodrigues
Simone Jaconetti Ydi e Yassuko Hosoume.
Karinna Alessandra Carvalho Taddeo, Leandro Martin, Margareth dos Santos e Neide T. Maia
Calbente Câmara, Leslie Sandes, Mainã Greeb González.
Física: Luis Carlos de Menezes, Estevam Rouxinol,
Vicente, Marina Murphy, Michelangelo Russo, Guilherme Brockington, Ivã Gurgel, Luís Paulo
Língua Portuguesa: Alice Vieira, Débora Mallet
Natália S. Moreira, Olivia Frade Zambone, Paula de Carvalho Piassi, Marcelo de Carvalho Bonetti,
Pezarim de Angelo, Eliane Aparecida de Aguiar,
Felix Palma, Priscila Risso, Regiane Monteiro Maurício Pietrocola Pinto de Oliveira, Maxwell
José Luís Marques López Landeira e João
Pimentel Barboza, Rodolfo Marinho, Stella Roger da PuriÅcação Siqueira, Sonia Salem e
Henrique Nogueira Mateos.
Assumpção Mendes Mesquita, Tatiana F. Souza e Yassuko Hosoume.
Tiago Jonas de Almeida. Matemática
Coordenador de área: Nílson José Machado. Química: Maria Eunice Ribeiro Marcondes, Denilse
Direitos autorais e iconografia: Beatriz Fonseca Matemática: Nílson José Machado, Carlos Morais Zambom, Fabio Luiz de Souza, Hebe
Micsik, Érica Marques, José Carlos Augusto, Juliana Eduardo de Souza Campos Granja, José Luiz Ribeiro da Cruz Peixoto, Isis Valença de Sousa
Prado da Silva, Marcus Ecclissi, Maria Aparecida Pastore Mello, Roberto Perides Moisés, Rogério Santos, Luciane Hiromi Akahoshi, Maria Fernanda
Acunzo Forli, Maria Magalhães de Alencastro e Ferreira da Fonseca, Ruy César Pietropaolo e Penteado Lamas e Yvone Mussa Esperidião.
Vanessa Leite Rios. Walter Spinelli.
Caderno do Gestor
Edição e Produção editorial: R2 Editorial, Jairo Souza Ciências Humanas Lino de Macedo, Maria Eliza Fini e Zuleika de
Design GráÅco e Occy Design (projeto gráÅco). Coordenador de área: Paulo Miceli. Felice Murrie.

Catalogação na Fonte: Centro de Referência em Educação Mario Covas

* Nos Cadernos do Programa São Paulo faz escola são


indicados sites para o aprofundamento de conhecimen- S239m São Paulo (Estado) Secretaria da Educação.
tos, como fonte de consulta dos conteúdos apresentados
e como referências bibliográficas. Todos esses endereços Material de apoio ao currículo do Estado de São Paulo2 caderno do professor3 geograÅa, ensino
eletrônicos foram checados. No entanto, como a internet é médio, 1a série / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini; equipe, Angela Corrêa da
um meio dinâmico e sujeito a mudanças, a Secretaria da Silva, Jaime Tadeu Oliva, Raul Borges Guimarães, Regina Araújo, Sérgio Adas. - São Paulo : SE, 2014.
Educação do Estado de São Paulo não garante que os sites
v. 1, 136 p.
indicados permaneçam acessíveis ou inalterados.
Edição atualizada pela equipe curricular do Centro de Ensino Fundamental dos Anos Finais, Ensino
* Os mapas reproduzidos no material são de autoria de Médio e Educação ProÅssional ¹ CEFAF, da Coordenadoria de Gestão da Educação Básica - CGEB.
terceiros e mantêm as características dos originais, no que ISBN 978-85-7849-594-7
diz respeito à grafia adotada e à inclusão e composição dos
elementos cartográficos (escala, legenda e rosa dos ventos). 1. Ensino médio 2. GeograÅa 3. Atividade pedagógica I. Fini, Maria Inês. II. Silva, Angela Corrêa
da. III. Oliva, Jaime Tadeu. IV. Guimarães, Raul Borges. V. Araújo, Regina. VI. Adas, Sérgio. VII. Título.
* Os ícones do Caderno do Aluno são reproduzidos no CDU: 371.3:806.90
Caderno do Professor para apoiar na identificação das
atividades.
Validade: 2014 – 2017

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