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Maíra Machado Bichir

APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE

DOSSIÊ
O ESTADO NOS PAÍSES DEPENDENTES

Maíra Machado Bichir*

No presente artigo, lançamos nosso olhar para uma temática de especial relevância para o contexto político
atual latino-americano – o Estado. Ao revisitar os escritos de Ruy Mauro Marini, uma das principais refe-
rências da Teoria Marxista da Dependência, chamamos atenção para suas formulações em torno dos Estados
latino-americanos, sobretudo no que se refere a seu caráter dependente, tema ainda pouco trabalhado nos
estudos recentes de recuperação de sua obra. Nesse sentido, iniciamos nosso percurso tecendo algumas
considerações sobre a concepção de Estado de Marini, salientando sua filiação à tradição teórica marxista,
avançando, em seguida, para suas elaborações sobre as particularidades do Estado capitalista dependente
latino-americano propriamente, centrando-nos, sobretudo, em dois temas que representam, em nossa pers-
pectiva, dois importantes aportes de Marini à análise dos Estados latino-americanos: suas formulações em
torno do subimperialismo e do Estado de contrainsurgência.
Palavras-chave: Estado. Dependência. América Latina. Política. Teoria marxista da dependência.

INTRODUÇÃO adquiram centralidade nas principais obras


de Marini, Dialética da Dependência e Sub-
A obra de Ruy Mauro Marini ocupa um desenvolvimento e Revolução, o conjunto de
lugar de destaque no movimento de recupera- sua produção teórica é bastante amplo, abran-
ção da produção intelectual da Teoria Marxis- gendo estudos dedicados à interpretação de
ta da Dependência no Brasil. Desde a década realidades particulares, como a brasileira e a
de 2000, os conceitos de superexploração do chilena, passando por temáticas como demo-
trabalho e subimperialismo, formulados por cracia, integração regional, universidade e mo-
Marini no final da década de 1960, vêm ga- vimento estudantil, processos revolucionários
nhando atualizações, críticas e revisões de di- e contrarrevolucionários, bem como reflexões

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versos estudiosos e estudiosas, no campo do em torno das vanguardas políticas e do pensa-
marxismo brasileiro.1 Embora tais conceitos mento político e social – adotando a América
1
Latina como ponto de partida e chegada para
* Universidade Federal da Integração Latino-americana suas reflexões.
(UNILA). Instituto Latino-americano de Economia e So-
ciedade (ILAESP). O tema que nos ocupa neste artigo,2 o
Av. Tancredo Neves, 6731, Bloco 6, Espaço 4, Sala 05. Foz
do Iguaçu – Paraná – Brasil. mairabichir@gmail.com Estado, também foi objeto de análise por Mari-
1
Aos escritos de Jaime Osorio (2004, 2009, 2013) e Adrián ni, não tendo sido realizado, entretanto, até o
Sotelo (2003, 2012), discípulos e estudiosos do pensamen-
to de Ruy Mauro Marini de longa data, podemos elencar momento, um estudo sistemático da produção
um movimento mais recente de debate sobre o conceito
de superexploração do trabalho, que teve lugar no Brasil, de Marini em torno de tal questão. Conside-
consubstanciando-se em uma série de artigos, dentre os rando o momento político latino-americano,
quais podemos citar: Amaral e Carcanholo (2008, 2009);
Carcanholo (2013); Carcanholo e Côrrea (2016); Luce (2012, marcado por recentes crises e golpes políticos,
2013a); Martins (2017). Alguns dos temas que têm sido dis-
cutidos dizem respeito à atualidade e validade do conceito entendemos que a questão do Estado, na Amé-
de superexploração do trabalho, à revisão da formulação
original de Marini, à extensão ou não do uso do conceito na rica Latina, adquire fundamental relevância,
análise dos países imperialistas. De maneira semelhante, o
conceito de subimperialismo tem sido resgatado, nos últi-
mos dez anos, para analisar a posição brasileira em relação 2
O presente artigo foi produzido a partir de minha tese de
aos países latino-americanos. São exemplos desses estudos: doutorado, intitulada A questão do Estado na Teoria marx-
Luce (2013b); Fontes (2010); Bueno e Seabra (2012). ista da dependência (Cf. Bichir, 2017).

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792018000300007 535
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exigindo um olhar atento para suas particulari- Nacional Autónoma de México (UNAM), em
dades. É nesse sentido que revisitamos aqui as 1980,3 por outro lado, permitem afirmar que
contribuições presentes na obra de Ruy Mau- Marini estava familiarizado não apenas com
ro Marini, cujas reflexões lançam luz sobre as a discussão do Estado nos autores marxistas
articulações entre Estado e dependência em clássicos – Karl Marx, Friedrich Engels, Vla-
nossa região. dimir I. Lênin, Antonio Gramsci, Karl Kautsky
Apresentaremos, inicialmente, um estu- e Rosa Luxemburgo –, como também com os
do sobre a concepção de Estado de Marini, avan- debates que lhe eram contemporâneos, nas
çando, em seguida, para suas elaborações em figuras de Louis Althusser, Nicos Poulantzas
torno das especificidades do Estado capitalista e Ralph Miliband, que, a partir de suas origi-
dependente latino-americano, centrando-nos, nais contribuições, trouxeram novo fôlego ao
sobretudo, em dois temas que representam, em estudo do Estado sob a ótica do marxismo. Sua
nossa perspectiva, dois importantes aportes do filiação teórica a essa corrente do pensamento,
autor à análise dos Estados latino-americanos: nesse sentido, além de se mostrar evidente em
suas formulações em torno do subimperialismo sua análise sobre o processo de acumulação
e do Estado de contrainsurgência. e reprodução capitalista, também se explicita
em seu entendimento acerca do aparelho esta-
tal, na medida em que destaca como elemento
A CONCEPÇÃO DE ESTADO DE central sua indissociabilidade com a domina-
MARINI ção de classe. Tal nexo é sublinhado em sua
resenha sobre o livro Dialéctica del Desarrollo,
Não há, na obra de Marini, algum escrito de Celso Furtado, quando Marini chama a
que reúna ou sistematize sua concepção sobre o atenção para o equívoco cometido pelo autor,
Estado, fato que, embora dificulte, não impede em sua interpretação da conhecida passagem
que se reconstitua, a partir do agrupamento de de Engels, em A origem da família, da proprie-
elementos dispersos em diferentes momentos dade privada e do Estado, segundo a qual “[...]
de sua produção, a visão do autor sobre tal ob- há períodos em que as lutas de classes se equi-
jeto. Além de se encontrarem definições sobre libram de tal modo, que o Poder do Estado,
o Estado nos artigos dedicados especificamente como mediador aparente, adquire certa inde-
ao tema, constituem fontes para tal procedimen- pendência momentânea em face das classes”
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to artigos que discutem temas como a transição (Engels, [1884] 1977, p. 194). Ao atribuir ao
ao socialismo, a universidade na América Lati- Estado a capacidade de desempenhar um pa-
na, análises concretas do autor sobre processos pel autônomo nos conflitos de classe, Furtado
políticos na América Latina, como nos casos teria desconsiderado que “[...] el ejercicio di-
chileno, cubano e nicaraguense, nos quais estão recto e indirecto [grifo do autor] del poder por
presentes referências às formulações marxistas la clase dominante son grados de su dominaci-
clássicas, críticas a concepções de Estado de ou- ón efectiva sobre el aparato del Estado, el cual,
tros autores, como é o caso de Louis Althusser, en ninguna hipótesis, se desvincula, en el pen-
Celso Furtado, Lelio Bassio, bem como elabo- samiento marxista, de la dominación de clase”
rações e interpretações próprias de Marini em (Marini, 1965, p. 214, grifo nosso).
torno do aparelho estatal. Identificamos três passagens na obra de
Embora a problemática do Estado não Marini, orientadas propriamente para a defini-
tenha ocupado lugar central em suas obras, a ção do que é o Estado, as quais, por sua vez,
confrontação entre seus escritos e os progra- 3
Os programas das disciplinas referidas estão disponíveis
mas de dois de seus cursos, História Mundial no sítio eletrônico “Ruy Mauro Marini – Escritos”, na
seguinte página: <http://www.marini-escritos.unam.
Econômica I e II, oferecidos na Universidad mx/007_cursos_marini.html>.

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abrigam duas visões distintas. Na primeira de- tado das forças que constituem a sociedade.5
las, presente no artigo La pequena burguesía y Avançando em relação ao entendimento
el problema del poder4 (1973), Marini salienta do autor acerca do Estado, cumpre destacar sua
a relação existente entre Estado e poder polí- interlocução com a formulação desenvolvida
tico, remetendo-se à estrutura e à função do por Louis Althusser, em Ideologia e aparelhos
aparelho estatal e pontuando os mecanismos ideológicos do Estado ([1970] 1980), tendo em
por meio dos quais tal instituição exerce a do- vista que é a partir da confrontação com tal
minação de classe: perspectiva que Marini constrói sua definição
de sistema de dominação, conceito que adquire
Entendido como capacidad coercitiva, el poder polí-
tico en la sociedad capitalista lo ejerce la burguesía a
grande importância em suas formulações sobre
través del Estado, con el fin de someter a su explota- o exercício do poder político. O autor questio-
ción de clase a los demás grupos sociales. Es por esta na a noção ampliada de Estado, proposta ori-
razón que la teoría marxista identifica al Estado con ginalmente por Antonio Gramsci, reformulada
el aparato burocrático-represivo representado por el por Althusser, em sua concepção em torno dos
gobierno, la burocracia, los tribunales, las prisiones,
aparelhos ideológicos do Estado e, recuperada,
la policía, las fuerzas armadas. Esa expresión mate-
rial del poder burgués se completa con el derecho, el
por sua vez, por Nicos Poulantzas. Fiel à con-
cuerpo de normas cuya infracción activa automática- cepção leninista de Estado, a qual se centra no
mente al aparato estatal para forzar su cumplimiento aspecto coercitivo do aparelho estatal, o autor
e imponer sanciones (Marini, 1976b, p. 92). argumenta que a formulação de Althusser aca-
ba diluindo aquilo que confere especificidade
As outras duas definições estão localiza-
ao aparelho estatal, e propõe, em seu lugar, o
das em artigos escritos no ano de 1978, fundan-
conceito de sistema de dominação:
do-se sobre uma mesma concepção de Estado.
No artigo jornalístico Reedición de “El Principi- Esta concepción del Estado -el Estado como esfera
to”: Las dictaduras hacen girar el sol, o Estado de la coerción, para decirlo con Lenin - se diluye
cuando se le borran los límites, hasta hacerlo coin-
é entendido como “[...] el resultado de las fuer-
cidir con el sistema de dominación sobre el cual re-
zas que constituyen la sociedad real” (Marini,
posa. Es lo que han hecho recientemente Althusser
1978), e, em Estado de contrainsurgencia, uma y, en cierta medida, Poulantzas, cuando, recurrien-
intervenção de Marini no debate La cuestión do a algunas proposiciones de Gramsci, desarrollan
del fascismo en América Latina, tal definição é el tema de los aparatos ideológicos del Estado: es-
reforçada: “[…] siendo el Estado como lo es, la cuela, sindicato, partidos, iglesias, medios masivos

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de comunicación, familia. Por esto nos parece útil
fuerza concentrada de la sociedad, la síntesis
distinguir entre el sistema de dominación, que in-
de las estructuras y relaciones de dominación
cluye el conjunto de elementos en los que una clase
que allí existen […]” (Marini et al., 1978). Em- basa su poder, y la expresión institucional de ese
bora constituam definições sucintas, que não poder, el Estado, tomado como cúspide del sistema
encontram maior desenvolvimento nas obras de dominación (Marini, 1976b, p. 92-93).
de Marini, nelas se distinguem duas visões de
Nesse caso, não é o Estado que assume
Estado. Enquanto a primeira delas está centra-
um sentido ampliado, mas sim o sistema de
da no entendimento do Estado como um apa-
dominação, o qual é composto pelo conjunto
relho, expressão do poder burguês e de caráter
de elementos por meio dos quais a classe do-
burocrático-repressivo, a segunda se aproxima
mais de uma concepção relacional do Estado, 5 Aventamos, inicialmente, a hipótese de que essa mu-
dança na definição de Estado de Marini estaria relaciona-
na medida em que ele é definido como resul- da às suas leituras das obras de Nicos Poulantzas, já que
esse mesmo movimento tem lugar no pensamento do autor
grego. Entretanto, Marini apenas faz referência às obras
Poder político e classes sociais ([1968] 1977), e Fascismo e
Ditadura ([1970] 1972), obras nas quais tal transformação
4
O referido artigo foi incorporado ao livro El reformismo y ainda não havia se concretizado. É de Fascismo e Ditadura
la contrarrevolución: estudios sobre Chile (1976). a concepção de Estado como um aparelho.

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minante exerce seu poder. O Estado, na con- le das classes dominantes, ainda as denomina
cepção de Marini, não apenas integra tal siste- como partes do sistema de dominação. Como
ma, senão ocupa seu cume. uma instituição pertencente a tal sistema pode-
As diferenças entre as concepções de Es- ria se eximir do exercício da dominação? Seu
tado de Marini e de Althusser se fazem notar, argumento seria mais coerente se considerasse
ademais, no que tange à relação entre o sistema tais instituições como externas ao sistema de
de dominação (no caso de Marini) e os aparelhos dominação, solução que tampouco resolveria
ideológicos do Estado (no caso de Althusser) e o um problema ainda maior, qual seja, o da pos-
exercício da dominação de classe. Diferentemen- sibilidade de que tais instituições subsistam
te de Althusser (1980, p. 43), para quem os apa- no capitalismo, isto é, de que elas, como ins-
relhos ideológicos do Estado constituem “[...] um tituições capitalistas, sejam capazes de efeti-
certo número de realidades que se apresentam vamente operar em um sentido anticapitalista.
ao observador imediato sob a forma de institui- Outro elemento discutido por Marini
ções distintas e especializadas” e exercem, ne- diz respeito aos mecanismos empregados pelo
cessariamente, a função de dominação de classe, Estado no exercício da dominação. Se, naquela
Marini considera, em seu artigo La universidad primeira definição do autor, bem como em sua
brasileña (1977d), que as instituições que com- contestação às teses de Althusser, Poulantzas
põem o sistema de dominação podem escapar ao e Gramsci em torno da noção ampliada de Es-
controle da classe dominante: tado, ficava evidente a relevância atribuída ao
aspecto coercitivo do Estado, na seguinte pas-
Siendo indiscutible que la mayoría de las institucio-
nes que componen lo que podríamos llamar sistema
sagem, o autor enfatiza a imprescindibilidade
de dominación (Marini, 1976[b]) normalmente se da ideologia, a qual complementa e torna efeti-
encuentran bajo el control de la clase dominante, es va a dominação burguesa.
decir, la clase que detenta el poder del Estado, el térmi-
En efecto, ningún Estado puede asentarse exclusiva-
no aparato ideológico de Estado se presta a confusión,
mente en la coerción. Aún el Estado esclavista, basa-
puesto que no permite distinguir qué instituciones del
do en una relación de opresión-explotación casi in-
sistema de dominación escapan al control de la clase
disfrazable y que, por eso mismo, se sostiene siempre
dominante ni cuándo ocurre esto (Marini, 1977d).
con las armas en la mano, aún ese Estado es forzado
Marini se remete a casos como o do par- a emplear medios no coercitivos - la costumbre, la
idea de la inferioridad del esclavo, etc. - para ejercer
tido revolucionário, que se propõe a derrotar a
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su poder. Con el advenimiento de la sociedad bur-


classe dominante, e a imprensa que combate
guesa, esto se acentuará, al verse la clase dominante
a ideologia dominante. Para o autor, tais insti- forzada a conciliar la opresión y la explotación de las
tuições não poderiam ser consideradas apare- otras clases con el proyecto histórico que les propuso,
lhos ideológicos do Estado. É na análise sobre centrado en las nociones de igualdad y de libertad,
a relação entre universidade e Estado que se así como de progreso. Esa será la tarea de la ideología
burguesa (Marini, 1987, grifo nosso).
torna mais evidente seu entendimento acerca
da relação entre as instituições do sistema de Na concepção de Marini, a ideologia ad-
dominação e o Estado. De acordo com o autor, quire profunda importância para a burguesia,
“Son las condiciones históricas, determinadas como instrumento para o exercício do poder
por la lucha de clases, las que determinan la político. Como o autor salienta: “Ninguna clase
vinculación o la desvinculación, así como el en la historia, antes de ella [burguesía], conce-
grado de una y otra, de la universidad en re- dió a la ideología papel tan decisivo en su modo
lación al Estado” (Marini, 1977d). Notamos, de dominación” (Marini, 1987). Marini se refere
nesse argumento, certa incongruência, já que o precisamente aos efeitos ideológicos produzi-
autor, mesmo identificando a possibilidade de dos por meio do direito burguês, o qual teve,
que algumas instituições escapem ao contro- no conceito de cidadania, sua maior expressão:

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[…] la burguesía debió realizar una labor titánica, Ainda no que tange ao exercício do po-
hasta convertir a la igualdad en subordinación igual der político, porém, nesse momento, do ponto
de todos a la ley; a la libertad, en la libre disposición
de vista da relação entre Estado e classes do-
de la propia fuerza de trabajo; y al progreso, en pers-
pectiva individual de promoción social. La piedra
minantes, convém ressaltar as considerações
de toque de esa construcción ideológica, en el plano do autor a respeito da questão da autonomia
de la dominación, fue el concepto de ciudadanía - o relativa do Estado. Em seus artigos, El Estado
la titularidad individual de los derechos políticos - en América Latina (1975) e Estado y crisis en
mediante el cual la burguesía escamoteó las clases Brasil (1977) estão suas principais reflexões
sociales e hizo a cada uno partícipe aislado de la
em torno do tema. Situando tal discussão no
vida del Estado. El individuo ha sido confrontado
así, sin ninguna defensa, al Estado, fuente y guardi-
campo da teoria marxista do Estado, Marini
án del orden establecido y que cumple su función afirma que o termo relativo se refere ao fato de
mediante el monopolio de la fuerza (Marini, 1987, que, mesmo nos casos em que o Estado aparen-
grifo nosso). te atuar com independência frente às classes
sociais, ele se mantém diretamente vinculado
Identificamos, nessa passagem, uma in-
às classes dominantes que representa, ainda
terlocução implícita de Marini com Poulant-
quando as políticas de Estado firam interesses
zas, sobretudo, no que tange à elaboração do
daquelas classes. Segundo o autor, isso se ex-
autor grego em torno da noção de efeito de
plica porque
isolamento (Cf. Poulantzas, 1977), a qual se
manifesta de maneira ainda mais clara em ou- [...] la clase dominante deposita en el Estado, en tanto
tro trecho de Marini, quando ele atenta para que organización por excelencia de sus intereses, la
responsabilidad de conducción de sí misma. Cuan-
o papel da ideologia burguesa no bloqueio da
do hay suficiente armonía entre las fracciones que la
percepção da classe trabalhadora de sua uni-
componen, la presencia de los intereses generales de
dade como classe: la clase dominante se hace más visible y el margen
de autonomía del Estado en lo que se refiere a su in-
[…] más allá de la conciencia que puedan tener de
terpretación e implementación se restringe. Cuanto
su pertenencia de clase, los obreros productivos o
más se agudizan los conflictos al interior de la clase
improductivos, cualquier que sea la modalidad bajo
dominante, o aun si ésta encuentra ante sí una clase
la cual realizan su trabajo y el ámbito donde lo ha-
dominada con suficiente fuerza como para contestar
cen, del mismo modo que otras clases o fracciones
su dominación, mayor es ese grado de autonomía. Es
de clase sometidas al capital, tienen intereses comu-
por lo que un Estado fuerte, en el sentido autoritario,
nes, cuya percepción establece la base posible de un

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es siempre una expresión de debilidad de la clase que
proyecto de vida solidario. Esta es la razón por la
él representa (Marini et al., 1975, p. 34).
cual todas las instituciones y mecanismos del juego
político que caracterizan a la sociedad burguesa, así
Tal ideia é reafirmada por Marini em
como sus variadas expresiones ideológicas, visan a
bloquear esa percepción, a disolver la unidad laten-
Estado y crisis en Brasil, quando o autor a de-
te entre los trabajadores antes que esta tome forma, fine como uma lei geral da sociedade capita-
a cerrarle el paso a la comprensión de los hechos re- lista, estando a autonomia relativa do Estado
ales que constituyen la esencia del orden capitalista em razão inversa à capacidade de a burguesia
y de su desarrollo (Marini, 1993). manter sua dominação de classe, deduzindo-
Essas passagens nos permitem afirmar -se, daí, que “[...] un Estado capitalista fuerte
que, na concepção de Marini, o Estado, ao mes- es siempre la contrapartida de uma burguesía
mo tempo em que se vale da coerção, da qual débil” (Marini, 1977b).
detém o monopólio legítimo (Marini, 1987), Além dos elementos já elencados, que
sustenta-se, também, por meio do direito, na conformam a concepção do autor sobre o Es-
ideologia, como mecanismo para o exercício tado, cumpre destacar a relevância que este
do poder político. assume em suas análises sobre os processos

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revolucionários e sobre a transição socialista. La especificidad de la ‘vía chilena’ (término que


Tanto em sua polêmica com Lelio Bassio, in- engloba una amplia gama de posiciones) estaría en
que la toma del poder no precede, sino que sigue a
telectual e militante socialista italiano, em Re-
la transformación de la sociedad; en otras palabras,
forma y revolución: una crítica a Lelio Basso es la modificación de la infraestructura social lo
(1972), quanto em seu prólogo à obra La revo- que, alterando la correlación de fuerzas, impone y
lución cubana: una reinterpretación, de Vânia hace posible la modificación de la superestructura.
Bambirra, Marini (1976) explicita a centralida- La toma del poder se realizaría así gradualmente y,
de que a tomada do poder do Estado adquire en cierto sentido, pacíficamente, hasta el punto de
conformar un nuevo Estado, correspondiente a la
para a transição socialista, quando afirma que
estructura socialista que se habría ido creando (Ma-
o problema central de toda política revolucio- rini, 1976b, p. 86-87, grifo do autor).
nária consiste na conquista do poder político
(1972) e que Marini, apoiando-se nas experiências
revolucionárias do século XX, e nas contradi-
La lucha por el socialismo es, fundamentalmente,
ções e limitações ensejadas pelo modelo po-
una lucha política, en el sentido de que el proleta-
riado tiene que contar con el poder del Estado para lítico chileno, contrapõe-se àquela estratégia,
quebrar la resistencia de la burguesía a sus desig- enfatizando que a transformação da economia
nios de clase e imponer a los sectores más débiles capitalista monopolista em uma economia so-
de ésta, a las capas medias burguesas, que subsisten cialista somente poderá ter lugar com a apro-
todavía durante un cierto tiempo, una política que
priação, pelos trabalhadores, do aparelho de
destruya sus bases materiales de existencia (Marini,
Estado, como afirma na seguinte passagem:
1976c, p. 11, grifo do autor).
La verdadera solución a los problemas planteados
É, porém, em seus escritos sobre o Chile, a las masas por la acumulación del capital es por
reunidos em El reformismo y la contrarrevolu- tanto el surgimiento de un nuevo sistema de domi-
ción – Estudios sobre Chile (1976), que identi- nación, capaz de reorientar el desarrollo de las fuer-
ficamos o estudo mais aprofundado de Marini zas productivas. En otros términos, los problemas
acerca da problemática do poder político. Ana- que plantea a las masas la acumulación capitalista
sólo se resuelven con la revolución política (Marini,
lisando desde as condições para a chegada da
1976b, p. 84, grifo do autor).
Unidade Popular ao governo, passando pelas
contradições do que se denominou “via chile- Reivindicando uma vez mais Lênin, Ma-
na ao socialismo”, e chegando, por fim, à análi- rini salienta que a tomada do poder se apresen-
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se do golpe militar de 11 de setembro de 1973, ta como condição para o processo de transfor-


Marini aporta importantes elementos para se mação social, constituindo-se como um traço
pensar a complexa relação entre poder políti- peculiar da revolução socialista:
co, Estado e classes sociais, à luz da situação
Teoría y práctica van, pues, de la mano cuando se
concreta chilena. Partindo da particularidade
trata de establecer una determinada jerarquía entre
do desenvolvimento capitalista dependente los dos polos de la relación considerada: toma del
no país, e da configuração que a luta de clas- poder – transformación social. El desplazamiento
ses assume a partir daí, Marini problematiza radical y - como subraya Lenin - violento de la
a estratégia subjacente ao governo de Allende, burguesía por el proletariado en el poder político,
como condición para llevar a cabo la transformaci-
segundo a qual seria possível construir uma
ón social, aparece así como un rasgo peculiar de la
aliança entre a pequena e a média burguesia
revolución socialista, que la diferencia netamente
e as classes trabalhadoras, no sentido de “[...] de la revolución burguesa (Marini, 1976b, p. 92).
transformar la sociedad chilena sin romper de
manera brusca el marco institucional en que Elencamos aqui alguns dos principais
se desenvuelve” (Marini, 1976b, p. 82). Segun- elementos que compõem a concepção de Mari-
do o autor, ni sobre Estado, destacando reflexões presen-

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tes tanto em suas análises mais gerais, quanto Sin embargo, por mucho que esto nos permita en-
em seus estudos sobre as realidades concretas tender ciertas particularidades del Estado depen-
diente latinoamericano, no nos debe inducir a con-
latino-americanas. Passamos agora a uma in-
fusiones, como el que suscita el concepto de ‘bur-
vestigação acerca do que consideramos como guesía de Estado’, que vienen aplicando para Lati-
os principais aportes do autor à reflexão em noamérica algunos estudiosos (Marini et al., 1975,
torno das particularidades do Estado depen- p. 35, grifo do autor).
dente.
E, no segundo, ao discutir os nexos entre
o Estado dependente e a burguesia imperialista:
APONTAMENTOS SOBRE O CA- Finalmente, en la medida en que la situación que
RÁTER DEPENDENTE DOS ESTA- acabamos de indicar implica que el Estado depen-
DOS LATINO-AMERICANOS diente se encuentra referido también a la burguesía
imperialista, las contradicciones que se establecen
en el seno de ésta operan en el sentido de ampliar
A reflexão mais sistemática do autor
su autonomía relativa, ahora en relación a la misma
acerca do caráter dependente dos Estados la- burguesía imperialista (Marini, 1977b, grifo nosso).
tino-americanos encontra-se em dois de seus
artigos, sendo eles El Estado en América Lati- Ao buscar precisar as particularidades
na (1975), fruto de uma mesa redonda da qual do Estado dependente latino-americano, Mari-
participaram, além de Marini, Agustín Cueva, ni faz questão de ressaltar que tal Estado está
Arnaldo Córdova, Clodomiro Almeyda e Ser- sujeito às determinações gerais do Estado capi-
gio Bagú, e Estado y crisis en Brasil (1977). talista, por se constituir como órgão de domi-
Enquanto, no primeiro, Marini constrói uma nação da burguesia, subordinando “[...] toda la
periodização do processo de formação e con- sociedad al império del capital” (Marini et al.,
solidação dos Estados latino-americanos, re- 1975, p. 9). Nesse sentido, sua função geral é
lacionando-o ao desenvolvimento capitalista a mesma de todos os Estados no capitalismo,
dependente e à articulação das classes domi- qual seja, a de garantir a reprodução do capital
nantes no bloco no poder,6 no segundo, a dis- e a dominação da classe burguesa. Suas carac-
cussão se concentra nas relações entre Estado, terísticas, entretanto, distinguem-se, em diver-
burguesias dependentes e burguesias imperia- sos aspectos, dos Estados que se formaram nos
listas, ganhando destaque a argumentação do países europeus e nos Estados Unidos.

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autor em torno da questão da autonomia rela- No que tange à formação dos Estados
tiva do Estado frente a tais classes. latino-americanos, depreende-se da análise
O primeiro ponto a ser salientado diz realizada por Marini que, para o autor, tais
respeito ao emprego do conceito de Estado de- Estados conformaram-se, desde sua gênese,7
pendente. Embora o autor não se ocupe pro- como Estados capitalistas, argumento que fica
priamente em formular uma definição, ele faz evidente em três momentos de seu artigo El
uso, nesses dois artigos, do adjetivo dependen- Estado en América Latina: 1) quando o autor
te para qualificar os Estados latino-america- ressalta que o desajuste entre as relações de
nos. Isso ocorre em dois momentos: no primei- produção e as formas políticas, nos países lati-
ro, quando, depois de discutir a relação entre a no-americanos, representava uma contradição
debilidade das burguesias dependentes e a for- apenas aparente, já que, na base do Estado, se
ça dos Estados nos países dependentes, con- encontravam interesses burgueses perfeita-
trapõe-se ao conceito de burguesia de Estado:
7
Marini entende que a gênese dos Estados latino-america-
6
Ainda que Marini não empregue o conceito de bloco no nos somente se dá a partir dos processos de independência
poder nesses dois artigos, consideramos que tal conceito na região, tendo em vista que os Estados coloniais consti-
expressa com maior precisão os argumentos por ele desen- tuíam mais bem apêndices do Estado metropolitano (Ma-
volvidos. rini et al., 1975).

541
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

mente definidos, e o motor da economia esta- Chamamos a atenção para um elemen-


va constituído por áreas nas quais imperavam to que explica, em grande medida, esse argu-
relações de tipo capitalista; 2) quando afirma mento de Marini, qual seja, seu entendimento
que o Estado capitalista, na América Latina, acerca da interação entre as determinações in-
começou a se constituir em 1840; 3) quando ternas e externas. Para o autor, o capitalismo
caracteriza o Estado oligárquico-burguês como latino-americano existiria com mais força em
um Estado capitalista, forma política correspon- seu exterior do que em seu interior, querendo
dente à economia exportadora. Nesse sentido, com isso dizer que ele modifica e aperfeiçoa,
entendemos que, ainda que ele problematize o primeiramente, suas relações com a economia
desajuste entre as formas econômicas e as for- internacional, para, em seguida, adequar suas
mas políticas que caracterizam os períodos de relações internas àquelas (Marini et al., 1975).
transição, na prática, ele reconhece que há uma Nesse argumento, encontramos a raiz de sua
correspondência entre ambas no caso latino-a- interpretação acerca do caráter capitalista do
mericano, já que salienta que as relações de tipo Estado latino-americano. Na medida em que
capitalista eram o motor daquelas economias, e a integração das economias latino-americanas
atribui ao Estado formado após as independên- no mercado mundial se faz nos marcos do pro-
cias latino-americanas um caráter capitalista. cesso de acumulação capitalista, é essa relação
Tais desajustes são interpretados pelo que condicionará a estrutura interna daquelas
autor à luz da explicação sobre os períodos de economias, ainda que as relações de produção
transição, formulada originalmente por Étien- se assentem em outras formas que não a capi-
ne Balibar8 ([1965] 1969), segundo a qual tais talista. É nesse sentido que é possível localizar,
períodos são marcados por um aparente desa- na perspectiva de Marini, a formação do Esta-
juste entre as formas econômicas e políticas, o do capitalista latino-americano em 1840, mes-
que explicaria, de acordo com Marini, “[...] la mo quando não se podia falar ainda de uma
llamada ‘supervivencia’ de relaciones de pro- classe burguesa propriamente.
ducción aparentemente atrasadas respecto al Em outra passagem, associada à gesta-
desarrollo global de la sociedad, así como el ção do Estado burguês, a dominância do nível
sostenimiento de formas políticas sin corres- externo sobre o interno também se faz notar,
pondencia visible con el modo de producción tendo em vista que Marini acentua que: “Son
dominante” (Marini et al., 1975, p. 10). Em- las condicionantes nacionales, más que las in-
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018

bora tal desajuste se dê concretamente, como, ternacionales, las que determinan la duración
por exemplo, na persistência de relações de de esse processo en cada país, aunque sean las
produção escravistas no Brasil na segunda me- condiciones internacionales las que lo impul-
tade do século XIX e de relações “semifeudais” san en todo el continente” (Marini et al., 1975,
nos demais países latino-americanos, frente a p. 10, grifo nosso). Ainda que, nesse último
formas políticas burguesas, este apenas impli- excerto, o autor esteja ressaltando a relevân-
ca uma contradição aparente, segundo Marini, cia das condicionantes nacionais, à medida
uma vez que “En la base del Estado encontra- que delas depende a duração do processo de
mos intereses burgueses perfectamente defini- formação do Estado burguês, a origem de tal
dos y el motor de la economía [...] está consti- movimento é fruto de impulsos externos às
tuido por áreas en que imperan ya relaciones formações sociais latino-americanas.
de tipo capitalista” (Marini et al., 1975, p. 10). No que tange à formação da burguesia
8
Embora não se encontre, nesse artigo, qualquer referên- como classe, Marini considera que, nesse pro-
cia a Balibar, sabemos, a partir da leitura de Reforma y cesso, reside uma das especificidades do Es-
revolución: una crítica a Lelio Basso, que sua fonte reside
na formulação daquele autor, já que Marini cita, em uma tado latino-americano, uma vez que suas ca-
nota de rodapé, a definição de Balibar sobre os períodos de
transição (Cf. Marini, 1974). racterísticas capitalistas se manifestam mais

542
Maíra Machado Bichir

rapidamente do que nos casos europeu e es- […] un Estado capitalista que impone al conjunto
tadunidense, tendo em vista que sua gênese de la sociedad el interés de las fracciones de la clase
dominante en mejores condiciones para promover
se dá em um momento no qual o capitalismo
la vinculación a la economía mundial, concedien-
se consolidava como modo de produção domi- do participación minoritaria a las demás fracciones
nante na Europa, e muitos Estados europeus já dominantes locales y aplastando políticamente a la
se haviam conformado. De acordo com o autor, inmensa masa de campesinos y artesanos10 (Marini
et al., 1975, p. 11).
[…] la clase capitalista en América Latina – además
de estar permeada por el capital internacional – tie- Já na década de 1880, tal Estado passa
ne ante sus ojos, antes aún de haber perfilado plena-
por transformações – reformas eleitorais, refor-
mente su carácter de clase, el modelo de dominaci-
mas na educação, etc. – cujo significado está
ón burguesa en aquellas sociedades a las cuales está
ligada por lazos económicos y culturales (Marini et associado, segundo o autor, a uma ampliação
al., 1975, p. 9). progressiva da aliança de classes, maior no
caso da burguesia, e menor no caso dos seto-
Segundo Marini, a formação do Estado res médios urbanos, burgueses e pequeno-bur-
burguês latino-americano deve ser entendida gueses. A conversão daquele Estado em Estado
como um processo de luta entre as distintas burguês se dará, entretanto, apenas a partir da
frações das classes dominantes, na tentativa de década de 1930, com a concretização da alian-
impor sua hegemonia sobre as demais. É preci- ça ou compromisso entre a ascendente bur-
samente tal elemento que orienta sua periodi- guesia média, industrial e comercial, e a antiga
zação dos Estados na América Latina. O autor, burguesia proprietária de terra e mercantil. No
além de distinguir entre duas formas distintas bojo desse processo de transformação, estaria,
de Estado – o Estado oligárquico-burguês e o segundo o autor, o populismo,11 como a forma
Estado burguês –, faz referência ao populismo, de transição do Estado oligárquico-burguês,
como uma forma de transição entre aqueles para o Estado burguês, que se refletiu na cria-
dois Estados e o Estado militar, produto da cri- ção de novos mecanismos de dominação sobre
se do Estado burguês. Conforme evidenciamos as classes proletárias camponesas e peque-
anteriormente, todas essas formas de Estado, no-burguesas, mecanismos esses que, se, por
na perspectiva de Marini, correspondem ao um lado, ampliavam sua participação na vida
mesmo tipo de Estado, o Estado capitalista,9 política, significavam, por outro, o aprofunda-
embora a diferenciação elaborada por Marini mento do controle político e ideológico da bur-

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018


entre o que ele chama de formas políticas as- guesia12 (Marini et al., 1975).
sumidas pelo Estado não seja objeto de eluci- 10
Nessa passagem, ao lado dos camponeses e artesãos,
dação. Se, no caso do Estado oligárquico-bur- poderiam ser incluídos os escravos, já que, em muitos
países latino-americanos, a escravidão ainda não havia
guês e do Estado burguês, vislumbramos uma sido abolida naquele momento.
classificação segundo a configuração do bloco 11
A discussão sobre populismo por Marini ganha maior
desenvolvimento em Subdesarrollo y revolución, associada
no poder, ou, mais precisamente, a(s) classe(s) à sua análise sobre o estabelecimento de regimes de tipo
que exerce(m) a hegemonia no bloco no poder, bonapartista. Marini classifica como exemplos de regimes
bonapartistas, o governo de Perón, na Argentina, os gov-
nos outros dois casos, do populismo e do Esta- ernos de Vargas, Jânio Quadros (“bonapartismo carismáti-
co”) e João Goulart (“bonapartismo de massas”), no Brasil.
do militar, tal critério não é seguido. Para uma caracterização mais detida desses governos e de
sua definição como bonapartista pelo autor, consultar Ma-
O Estado oligárquico-burguês, compre- rini (1977a).
endido por Marini como a forma política cor- 12
Nessa periodização realizada por Marini, o autor não faz
respondente à economia exportadora, forma-se qualquer menção ou associação do processo de formação
do Estado burguês à revolução burguesa nos países lati-
a partir de 1840, como no-americanos. Em Subdesarrollo y revolución, entretanto,
Marini afirma que a revolução burguesa, na América Lati-
na, não ocorreu segundo os cânones europeus, o que es-
taria relacionado às condições objetivas dentro das quais
9
Apoiamo-nos na elaboração de Poulantzas acerca dos ti- se desenvolveu a industrialização latino-americana (Cf.
pos de Estado (Cf. Poulantzas, 1977). Marini, 1977a).

543
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

O autor encerra sua periodização refe- mucho más poderosa” (Marini et al., 1975, p.
rindo-se ao Estado militar, fruto da crise polí- 34). A força do Estado, por seu turno, justifica-
tica que se instaurou no Estado burguês, e que -se, segundo Marini, em razão do processo per-
implicou a mudança de regime político em di- manente de superexploração dos trabalhadores
versos países latino-americanos. Enfatizando que tem lugar no âmbito daquelas economias,
os casos brasileiro e chileno, o autor salienta o que exige um Estado forte, sobretudo no que
que tal Estado se sustenta por meio de uma re- se refere à sua capacidade repressiva (Marini et
pressão generalizada e do recurso a mecanis- al., 1975).
mos de dominação oriundos do antigo arsenal É no marco da vinculação entre as bur-
fascista, como forma de legitimação. Outra ca- guesias latino-americanas e as burguesias impe-
racterística distintiva desse Estado, e, ao mes- rialistas e das contradições daí advindas que po-
mo tempo, central, diz respeito à diferenciação demos vislumbrar as particularidades da auto-
que tem lugar na classe burguesa, com a as- nomia relativa do Estado dependente, tendo em
censão do grande capital, em estreita associa- vista que é precisamente o Estado que interme-
ção com o capital estrangeiro, à hegemonia do deia o processo de integração entre elas. Marini
bloco no poder. Marini afirma, ademais, que faz referência ao papel cumprido pelo Estado
é precisamente o grau de desenvolvimento da em tal processo em La acumulación capitalista
burguesia nacional e seu grau de integração mundial y el subimperialismo, ao relacionar o
com o capital estrangeiro que distinguirão os desenvolvimento da integração dos sistemas de
Estados latino-americanos nessa nova fase do produção ao fortalecimento do Estado nacional
Estado burguês na região. nos países dependentes, afirmando que
Conforme anunciamos, o tema da auto-
[...] el capital exportado por los países imperialistas
nomia relativa do Estado também será analisa- a las zonas dependientes exige allí del Estado nacio-
do por Marini à luz das especificidades latino- nal una capacidad creciente en materia de obras de
-americanas e será entendido pelo autor como infraestructura, defensa del mercado interno, nego-
“[...] resultado de contradicciones de clases ciaciones financieras y comerciales con el exterior,
inherentes a la situación de dependencia” (Ma- financiamiento interno y creación de condiciones
políticas (en particular en el terreno laboral) favora-
rini, 1977b). Embora constitua um traço carac-
bles a la inversión extranjera (Marini, 1977c).
terístico de todos os Estados, na ótica da teoria
marxista do Estado, na perspectiva de Marini, Na medida em que essa integração não
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018

nas sociedades dependentes latino-americanas, se faz sem contradições, erigindo-se sob a égi-
tal elemento se manifesta de maneira ainda mais de de uma cooperação antagônica,13 a burgue-
aguda, o que se deve, na concepção do autor, à sia nativa, como prefere denominar Marini -
debilidade da burguesia desses países. Sua de- em vez de burguesia nacional -, vê-se frente à
bilidade é explicada tanto em função das parti- necessidade de se apoiar no Estado, no sentido
cularidades do processo de acumulação nos pa- de garantir sua preservação, o qual, ao atuar
íses dependentes, que impactam o exercício de como intermediador, tem sua autonomia rela-
sua dominação, quanto por sua articulação e in- tiva aumentada em relação à burguesia nativa,
tegração com a burguesia internacional. De um ampliando sua capacidade de ação na econo-
lado, as frações burguesas dominantes são parte
de um conjunto de classes e frações de classes 13
Marini emprega o conceito de cooperação antagônica,
formulado pelo marxista alemão August Thalheimer, para
“[...] que se basan o en modos de producción definir, em Subdesarrollo y revolución, o caráter assumi-
do pela relação entre a burguesia dos países dependentes
distintos, aunque subordinados, o en fases más latino-americanos e o imperialismo na fase de integração
retrasadas del desarrollo capitalista” (Marini, imperialista, evidenciando a existência de diferenciações
e mesmo oposições de interesses entre aquelas burguesias
1977b), e, de outro, “[...] ha tenido siempre a su e as burguesias imperialistas. Tal conceito assumirá, ade-
mais, grande importância em sua formulação acerca do
lado la presencia de una burguesía extranjera subimperialismo.

544
Maíra Machado Bichir

mia dependente. A autonomia relativa do Es- cavam o ciclo do capital daquelas economias,
tado também se manifesta em relação às bur- sobretudo no que diz respeito à relação entre
guesias imperialistas, associada, nesse caso, a produção e o consumo, implicando um di-
às contradições interimperialistas que têm vórcio ainda mais profundo das necessidades
lugar no seio daquelas burguesias. À medida da maioria da população daqueles países. A
que tais contradições se agudizam, o Estado incorporação de novas tecnologias aos meios
dependente vê sua autonomia relativa frente de produção, ainda que tenha possibilitado
às burguesias imperialistas aumentar. Essas um aumento de produtividade nas economias
contradições, entretanto, não se circunscre- dependentes, não produziu, como efeito, uma
vem, como enfatiza Marini, apenas ao plano redução do recurso à superexploração do tra-
do mercado mundial, convertendo-se, median- balho, razão pela qual a capacidade de consu-
te a integração imperialista, em contradições mo dos trabalhadores se manteve restringida.
internas das próprias economias dependentes Nesse sentido, a produção industrial latino-a-
(Marini, 1977b). mericana se vê diante de graves problemas de
Realizados alguns apontamentos a res- realização, para os quais ela deverá buscar so-
peito das formulações de Marini sobre o Esta- lução. É no bojo dessa limitação que se desen-
do dependente, avançamos agora em direção a volverão mecanismos para contra-arrestar tal
duas contribuições significativas do autor ao tendência, como a exportação de manufaturas,
estudo do Estado nos países dependentes lati- o aumento da capacidade de compra do Estado
no-americanos: sua análise sobre o subimpe- e o incremento do consumo suntuário, através
rialismo e sobre o Estado de contrainsurgência. da distribuição regressiva dos salários (Mari-
ni, 1977a). Tais mecanismos, empregados por
diferentes países latino-americanos, assumem
O subimperialismo como uma particulari- um diferente caráter quando conjugados com
dade dos estados dependentes uma política expansionista, podendo, somente
a partir daí, serem reconhecidos como partes
de uma política subimperialista, segundo a
No presente subitem, dedicamos aten- concepção de Marini.
ção a um conceito que ocupou importante lu- Produto, portanto, tanto da reestrutura-
gar nos escritos de Marini – o de subimperia- ção do sistema capitalista mundial e das leis

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018


lismo,14 como expressão própria de uma fase próprias da economia dependente,15 o subim-
do desenvolvimento capitalista dependente. perialismo é concebido por Marini a partir da
O subimperialismo, entendido por Ma- articulação entre sua dimensão econômica e
rini (1977c) não apenas como uma categoria, política,16 na medida em que
mas também como um fenômeno histórico,
tem sua emergência localizada na fase impe- […] implica dos componentes básicos: por un lado,
una composición orgánica media en la escala mun-
rialista de integração dos sistemas produtivos,
dial de los aparatos productivos nacionales y, por
cujos impactos, na América Latina, se farão
sentir, sobretudo, por meio da intensa pene- 15
Sendo elas, a superexploração do trabalho, o divórcio
entre as fases do ciclo do capital, a integração do capital
tração de capitais estrangeiros em seus setores nacional ao capital estrangeiro e a monopolizaçãoacentua-
industriais. Tal como descrevemos no primeiro da em favor da indústria suntuária (Marini, 1977a).

item, esse momento, que representa uma nova


16
Como o próprio autor ressaltaemmais de umapassagem,
não é possível prescindir da dimensão política do subim-
etapa da dependência latino-americana, signi- perialismo: “[...] la caracterización del subimperialismo
va más allá de la simple economía, no pudiendo llevar-
ficou a agudização das contradições que mar- se a cabo, si no se recurre también a la sociología y a la
política” (Marini, [1972] 2007, p. 136); “Hemos dicho ya,
en otras oportunidades, que la concreción histórica del su-
14
Para um estudo aprofundado sobre o conceito de subim- bimperialismo no es una cuestión meramente económica”
perialismo na obra de Ruy Mauro Marini (Cf. Luce, 2011). (Marini, 1977a, p. 19-20, grifo nosso).

545
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

otro lado, el ejercicio de una política expansionista monopólios industriais e ao capital financeiro
relativamente autónoma, que no sólo se acompaña nacional e internacional (Marini, 1977a), sua
de una mayor integración al sistema productivo
emergência se dá no governo de Castelo Bran-
imperialista sino que se mantiene en el marco de
la hegemonía ejercida por el imperialismo a escala
co, e enfrentará resistências tanto de ordem in-
internacional (Marini, 1977c). terna, quanto externa. Se, no plano externo, as
contradições estavam relacionadas ao fato de
Embora Marini elabore uma definição tal política estar engendrada pela dominação
geral sobre o subimperialismo, ela se baseia, imperialista, estabelecendo-se sobre as bases
fundamentalmente, na experiência histórico- de uma cooperação antagônica, bem como às
-concreta brasileira, já que apenas o Brasil foi disputas interburguesas no âmbito regional,
capaz de reunir aquelas condições, na pers- especificamente entre a burguesia brasileira e
pectiva do autor. Isso não significa, entretanto, a argentina, no plano interno, produziu atritos
que tal possibilidade estivesse vedada a outros e fissuras entre as frações da burguesia brasi-
países,17 como salienta o autor em Dialéctica leira, entre a burguesia e o regime militar, e
de la dependencia: “[…] el subimperialismo entre as classes dominantes e as classes domi-
[…] no es un fenómeno específicamente brasi- nadas.
leño ni corresponde a una anomalía en la evo- Em sua análise sobre o subimperialis-
lución del capitalismo dependiente. […] es tan mo brasileiro, Marini chama a atenção para
sólo una forma particular que asume la econo- o destacado papel do Estado na viabilização
mía industrial que se desarrolla en el marco dessa política. Ao mesmo tempo em que evi-
del capitalismo dependiente” (Marini, [1972] dencia sua capacidade para criar e subsidiar a
2007, p. 136). demanda para a produção, assegurar campos
Nessa mesma passagem, Marini explici- de investimento no exterior, por meio das em-
ta os elementos que permitiram que o Brasil presas estatais, de créditos governamentais ou
se conformasse como um país subimperialista: de garantias a operações privadas na América
Es cierto que son las condiciones propias a la econo- Latina e África (Marini, 1977b), chamando
mía brasileña, que le han permitido llevar lejos su atenção, inclusive, para o estímulo proporcio-
industrialización y crear incluso una industria pe- nado por tal Estado à indústria nuclear e à in-
sada, así como las condiciones que caracterizan a su dústria bélica, explicita sua participação nos
sociedad política, cuyas contradicciones han dado
processos políticos internos de alguns países
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018

origen a un Estado militarista de tipo prusiano, las


latino-americanos, como foram os casos de Bo-
que dieron lugar en Brasil al subimperialismo (Ma-
rini, [1972] 2007, p. 136). lívia, Chile e Uruguai, apoiando movimentos
contrarrevolucionários (Marini, [1978] 2005).
O subimperialismo brasileiro tem sua Situando essa posição do Estado brasileiro
gênese identificada por Marini em um mo- no marco da cooperação antagônica, Marini
mento de grandes mudanças no país, e deve afirma que se trata, antes, de uma política de
ser entendido no marco das crises econômica subpotência18 do que de uma potência propria-
e política que tiveram lugar na década de 1960. mente dita, tendo em vista os limites dentro
Refletindo as necessidades de acumulação de dos quais está circunscrito o subimperialismo
capital e a reconfiguração do bloco no poder, brasileiro, ou seja, o de se constituir como “[...]
cuja hegemonia passara, segundo Marini, aos extensión indirecta del imperialismo nortea-
17
Em seu prefácio à quinta edição de Subdesarrollo y rev- mericano [...]19” (Marini, 1977a, p. 76).
olución, o autor reconhece que do ponto de vista mera-
mente econômico, de oitenta países dependentes por ele 18
Marini ressalta, entretanto, que o conceito de subpotên-
considerados, apenas seis detinham uma composição cia não substitui o de subimperialismo (Cf. Marini, 1977c).
orgânica mais alta, cuja produção industrial incidia em
aproximadamente um terço do produto bruto. Dentre eles 19
Tal elemento representa, antes, um traço conjuntural de
estavam três países latino-americanos, Brasil, Argentina e manifestação do subimperialismo brasileiro, do que uma
México (Marini, 1977a). característica constitutiva da categoria de subimperial-

546
Maíra Machado Bichir

No que tange à problemática aqui discu- Concebido à luz dos golpes militares
tida, entendemos que o conceito de subimpe- que tiveram lugar na América Latina nas déca-
rialismo de Marini lança luz sobre a existência das de 1960 e 1970 – Brasil, Bolívia, Argentina,
de graus distintos de poder entre os Estados Chile, Peru, Uruguai, Nicarágua –, tal conceito
dependentes latino-americanos, evidencian- significou uma mudança interpretativa de Ma-
do, ao mesmo tempo, a articulação entre uma rini a respeito dos regimes políticos estabeleci-
determinada fase do desenvolvimento capita- dos naqueles países, uma vez que, até aquele
lista e a construção de uma política de expan- momento, seus escritos acerca dessa problemá-
são regional por parte do Estado brasileiro. tica estavam construídos sob a chave analítica
do fascismo.21 Com isso, não queremos dizer
que o autor tenha incorrido em uma tradução
Estado de contrainsurgência mecânica do conceito, mas sim que sua formu-
lação sobre o Estado de contrainsurgência im-
Passamos ao último ponto deste artigo, plica um passo adiante em sua análise, já que
aquele que concentra, em nossa perspectiva, a enfatiza as particularidades do processo vivido
principal contribuição de Marini a respeito do pelos países dependentes, em um espaço-tem-
Estado dependente latino-americano. Trata-se po distinto, e enfrentando condições bastante
de sua formulação em torno do conceito de Es- diversas daquelas experimentadas pelos países
tado de contrainsurgência. Forjado na segunda europeus na primeira metade do século XX.
metade da década de 1970, tal conceito apare- O primeiro ponto que merece ser assina-
ce primeiramente em alguns artigos jornalís- lado é que tal conceito não se refere apenas às
ticos de Marini, alcançando, porém, o ponto ditaduras militares. Ele tem um escopo mais
mais alto de sua sistematização na intervenção amplo, pois corresponde ao processo contrar-
do autor no seminário Las fuentes externas del revolucionário latino-americano, abrangendo
fascismo: el fascismo latinoamericano y los in- também regimes civis, como afirma Marini, ao
tereses del imperialismo, ocorrido em 1978, no se referir ao caso venezuelano. Na concepção
México, o qual deu origem ao dossiê La cuesti- do autor, o Estado de contrainsurgência “[…]
ón del fascismo em América Latina, contando, es el Estado corporativo de la burguesía mono-
ademais, com as contribuições de Pío García, pólica y las Fuerzas Armadas, independiente-
Agustín Cueva e Theotônio dos Santos. Embo- mente de la forma que asuma ese Estado, es

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018


ra essa elaboração de Marini não tenha recebi- decir, independientemente del régimen políti-
do a mesma atenção que os conceitos de supe- co vigente” (Marini et al., 1978, grifo do autor).
rexploração do trabalho e de subimperialismo Produto da contrarrevolução latino-a-
por parte de seus estudiosos,20 ela representa mericana, a conformação desse Estado é en-
um percurso necessário no entendimento de tendida pelo autor a partir de três dimensões
sua análise sobre a nova fase da dependência fundamentais: a mudança na estratégia global
latino-americana, cuja expressão política foi estadunidense, dentro da qual se insere a dou-
precisamente o Estado de contrainsurgência. trina de contrainsurgência; as transformações
ismo. Agradecemos a indicação de Mathias Luce acerca
no seio do bloco no poder nos países latino-a-
desse ponto. mericanos; e a resistência protagonizada pelas
20
Cumpre destacar que Jaime Osorio (2016) recupera as classes populares. Analisemos mais detalha-
formulações de Marini sobre o Estado de contrainsurgência
em seus escritos, quando analisa os Estados latino-ameri- damente os argumentos de Marini.
canos durante as décadas de 1960 e 1970. Recentemente,
no dossiê publicado pela revista Cadernos Cemarx, há um Quanto à primeira delas, o autor a situa
artigo de Iván López Ovalle e Mateo Crossa Niell dedicado no âmbito das modificações na balança de po-
à discussão do Estado no pensamento de Marini, no qual
os autores dão ênfase às concepções de Marini de Esta-
do de contrainsurgência e de Estado de quarto poder (Cf. Consultar, sobretudo, os escritos de Marini sobre o golpe
21

Ovalle; Niell, 2016). militar chileno (Cf. Marini, 1976b).

547
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

der entre Estados Unidos e União Soviética, na deben subordinarse a la burguesía monopólica, que-
direção de um maior equilíbrio entre os dois dando su desarrollo en estricta dependencia del di-
namismo que logre el capital monopólico, mientras
países. Diante dessa nova situação, Marini
que la pequeña burguesía, aunque sin dejar de ser
acentua a formulação de uma nova estratégia privilegiada en la alianza de clases en que reposa el
estadunidense para enfrentar os movimentos nuevo poder burgués, es forzada a aceptar una rede-
revolucionários, conduzida a partir do gover- finición de su posición, pierde importancia política
no de John F. Kennedy, cujo centro residia na y queda, ella también totalmente subordinada, con
doutrina de contrainsurgência. Ancorada em sus condiciones de vida vinculadas a las iniciativas
y al dinamismo de la burguesía monopólica (Marini
três consignas, o aniquilamento do inimigo, a
et al., 1978, grifo do autor).
conquista de bases sociais e a institucionaliza-
ção, tal política teve, na América Latina, um Tendo essa passagem como referência,
de seus principais laboratórios, contando com vemos como o Estado de contrainsurgência
a colaboração ativa das classes dominantes lo- se inscreve na periodização de Marini. Pode-
cais e constituindo-se como ponto de sustenta- mos afirmar que tal Estado representaria, na
ção dessa política. percepção do autor, a consolidação do Estado
Voltando-se precisamente para as clas- burguês na América Latina. Se, em sua expo-
ses dominantes latino-americanas, Marini sição em El Estado en América Latina, Marini
atenta para os impactos da integração imperia- evidenciava que o Estado populista foi um Es-
lista dos sistemas de produção no bloco no po- tado de transição entre o Estado oligárquico-
der, e, consequentemente, no próprio Estado -burguês e o Estado burguês, e, nesse momen-
latino-americano. Os investimentos diretos de to, afirma que o Estado de contrainsurgência
capital estrangeiro, a subordinação tecnológi- sucedeu o Estado populista, entendemos que o
ca e a penetração financeira que caracteriza- Estado de contrainsurgência qualifica a forma
ram esse processo, na América Latina, impul- assumida pelo Estado burguês naquela fase da
sionaram o desenvolvimento de uma burgue- dependência latino-americana, de integração
sia monopolista naqueles países, estreitamente imperialista dos sistemas de produção, e frente
vinculada à burguesia imperialista, sobretudo, à política contrarrevolucionária que impactou
à estadunidense. Às contradições particulares profundamente aqueles países.
do capitalismo dependente, da qual a supe- É, portanto, sobre a base concreta de
rexploração do trabalho é uma das principais rupturas e cisões no interior do bloco no poder
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expressões, impõem-se novas fissuras entre as e de hegemonia das frações monopolistas na-
classes e frações de classes latino-americanas, cionais e estrangeiras22 que se conforma o Es-
como resultado da maior centralização de ca- tado de contrainsurgência, o qual se defronta,
pital e da proletarização da pequena burguesia ademais, com a ascensão e a radicalização de
que a integração imperialista enseja. Como re- movimentos populares camponeses e operá-
conhece Marini, rios, frente aos quais, sobretudo após a expe-
riência revolucionária cubana de 1959, oporá
El resultado de ese proceso es la ruptura, el abando-
no de lo que había sido, hasta entonces, la norma en uma forte e violenta reação.
América Latina: el Estado populista, es decir, el ‘Es- Estabelecidas as bases sobre as quais se
tado de toda la burguesía’, que favorecía la acumu- estrutura o Estado de contrainsurgência, avan-
lación de todas sus fracciones (aunque éstas aprove-
22
Ao explicitar os conflitos que têm lugar no interior do
charan desigualmente los beneficios puestos a su al- bloco no poder, Marini adverte que mesmo sendo um “Es-
cance). En su lugar, se crea un nuevo Estado, que se tado do capital monopolista”, no sentido de que é essa
fração que exerce a hegemonia, tal fato não exclui a partic-
preocupa fundamentalmente de los intereses de las ipação das demais frações burguesas.Sua preocupação, ao
fracciones monopólicas, nacionales y extranjeras, y ressaltar esse ponto, estava em esclarecer que tal Estado,
ainda que hegemonizado pela fração monopolista, garan-
establece, pues, mecanismos selectivos para favore- tia a exploração e a dominação da classe burguesa em seu
cer su acumulación; las demás fracciones burguesas conjunto (Cf. Marini et al., 1978).

548
Maíra Machado Bichir

cemos rumo à sua caracterização. De acordo recorrer às Forças Armadas como mecanismo
com Marini, seu traço distintivo residiria na último de defesa do poder burguês, tal burgue-
existência de dois ramos centrais de decisão sia confere a esse aparelho especial do Estado,
no poder executivo. Marcado por um poder segundo Marini “[...] la misión de solucionar el
executivo hipertrofiado,23 seus ramos centrais problema; está, pues, pasando del terreno de la
de decisão estão articulados pela combina- política al de la guerra” (Marini et al., 1978).
ção entre um ramo militar e outro econômico, Como já advertimos, Marini se ocupa
como descreve o autor: de distinguir o Estado de contrainsurgência
latino-americano do Estado fascista europeu,
De un lado, la rama militar, constituida por el Esta-
do Mayor de las Fuerzas Armadas, que expresa a la
afirmando que, embora ambos correspondam
institución militar al nivel de la toma de decisiones a formas particulares de contrarrevolução
y que reposa sobre la estructura vertical propia a las burguesa, recorrendo ao terrorismo de Esta-
Fuerzas Armadas; el Consejo de Seguridad Nacio- do como mecanismo de enfrentamento a seus
nal, órgano deliberativo supremo, en el que se en- opositores, há elementos que os diferenciam
trelazan los representantes de la rama militar con
significativamente. Os próprios processos de
los delegados directos del capital; y los órganos del
servicio de inteligencia, que informan, orientan y
contrarrevolução, dos quais tais Estados são
preparan el proceso de toma de decisiones. De otro produtos, lhes imputam traços característicos,
lado, la rama económica, representada por los mi- como é o caso da relação entre tal Estado e as
nisterios económicos, así como las empresas estata- classes trabalhadoras. No caso do fascismo eu-
les de crédito, producción y servicios, cuyos pues- ropeu, o Estado que se conformou a partir da
tos clave se encuentran ocupados por tecnócratas
crise do sistema de dominação não foi capaz
civiles y militares. Así, el Consejo de Seguridad Na-
cional es el ámbito donde confluyen ambas ramas,
de excluir a classe trabalhadora da vida polí-
entrelazándose, y se constituye en la cúspide, el ór- tica por meio da força, tendo sido necessário
gano clave del Estado de contrainsurgencia (Marini isolá-la ideológica e politicamente, em razão
et al., 1978, grifo do autor). de seu desenvolvimento político, segundo Ma-
rini (1976a). Como afirma o autor, tal processo
Ainda de acordo com o autor, a tomada
implicou que “La vieja democracia liberal y
de decisões tem seu epicentro justamente no
todo lo que legitimaba la dominación burgue-
poder executivo, afastando-se da influência
sa debieron ser cuestionados, en nombre de
das demais instâncias de poder, a legislativa e
nuevos mitos que aseguraran que esa domina-
a judiciária. Ao destacar o papel cumprido pe-

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018


ción no se cuestionara en los hechos mismos”
las Forças Armadas no Estado de contrainsur-
(Marini, 1976a, p. 2). Já no caso do processo
gência, Marini faz questão de pontuar que não
de contrarrevolução na América Latina,24 o Es-
se trata de uma “burguesia de Estado”, nem
tado não pôde contar com um apoio real das
de uma classe social propriamente dita. Para
classes trabalhadoras, o que explica, de acor-
o autor, os tecnocratas que ocupam a gestão do
do com o autor, o fato de que “La violación de
Estado, tanto civis, quanto militares, consti-
los principios más elementales de la ideología
tuem-se como a representação política do ca-
burguesa tiene que hacerse en nombre de esa
pital, “[...] un cuerpo de funcionarios cuya vo-
ideología” (Marini, 1976a, p. 2). Essa diferen-
luntad económica y política es rigurosamente
la de la clase a que sirve” (Marini et al., 1978). 24
Na perspectiva de Marini, o processo de contrarrev-
Nesse sentido, o exercício do poder político é olução latino-americana, a despeito dos traços particulares
que assume em cada sociedade concreta, desenvolve-se
compartilhado, segundo o autor, entre as For- inicialmente sob um período de desestabilização, no qual
as forças reacionárias procuram, de um lado, reunir o
ças Armadas e a burguesia monopolista. Ao conjunto da burguesia, e, de outro, provocar a divisão no
seio do movimento popular; passando, em seguida, à con-
23
Marini ressalta que a hipertrofia do Executivo não con- cretização de golpes de Estado, conduzidos pelas Forças
stitui elemento distintivo desse Estado em relação ao Armadas, e à instauração de ditaduras militares (Marini
“moderno Estado capitalista” (Marini et al., 1978). et al., 1978).

549
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

ça é explicitada com maior clareza na seguinte um processo de institucionalização política, na


passagem: direção de uma democracia “viável”, ou “de-
mocracia restringida” (Marini et al., 1978). No
A diferencia del fascismo europeo, que fue capaz de
que tange às mudanças nas condições da luta
arrastrar a las amplias masas pequeñoburguesas y de
de classes na região, Marini se refere às trans-
morder incluso al proletariado, ganando allí cierto
grado de apoyo entre trabajadores desempleados y formações que têm lugar em alguns países, nos
hasta obreros en actividad, la burguesía monopólica quais o processo de diversificação da burgue-
en América Latina no puede pretender reunir verda- sia monopolista se encontrava mais avançado,
dera fuerza de masas, que le permita enfrentar políti- como era o caso do Brasil. Segundo o autor,
camente, en las urnas y en las calles, al movimiento
tal diversificação implica mudanças no bloco
popular. Por esto, se da como meta el restablecimien-
no poder, na medida em que o centro das con-
to de las condiciones de funcionamiento del aparato
estatal, aunque sea temporalmente, para poder accio- tradições interburguesas se desloca do conflito
narlo en su provecho (Marini et al., 1978). entre a burguesia industrial e a burguesia agrá-
ria e entre as camadas inferiores da burguesia
Outros dois elementos enunciados por e o setor monopolista, para as divisões no seio
Marini dizem respeito, por um lado, ao dis- do grande capital, ou seja, entre a própria bur-
curso ideológico de defesa da democracia bur- guesia monopolista. Em sua análise,
guesa e do Estado burguês, que tem lugar no
[…] no es posible ya, en estas circunstancias,
processo de contrarrevolução latino-america-
enmascarar las luchas interburguesas tras justifica-
no, diferentemente de sua negação por parte ciones de corte nacionalista ni tampoco pretender
do discurso fascista europeu, e, por outro, o encauzarlas hacia fórmulas del tipo frente antifas-
objetivo da política de desestabilização levada cista, ya que ellas dividen por igual a los sectores
a cabo pela burguesia latino-americana, que burgueses nacionales y extranjeros que operan en el
país y enfrentan a fracciones del gran capital (Mari-
buscava, antes, liquidar a luta de classes por
ni et al., 1978, grifo do autor).
meio da intervenção aberta das Forças Arma-
das, do que conquistar uma força política pró- Sob essas circunstancias, de agudiza-
pria superior àquela do movimento revolucio- ção das contradições interburguesas, Marini
nário, como foi o caso do fascismo (Marini et chama atenção para um movimento de trans-
al., 1978). formação no Estado de contrainsurgência, por
Um último ponto que cumpre ressaltar a meio do qual a centralização do poder político,
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018

respeito da análise de Marini sobre o Estado de concentrada na elite tecnocrático-militar, ten-


contrainsurgência está relacionado aos impac- deria a se flexibilizar, restabelecendo o lugar
tos que as transformações vinculadas tanto às do parlamento como esfera de discussão e a
novas condições da luta de classes na América ação dos partidos e da imprensa, de maneira
Latina, quanto à mudança que tem lugar na es- que as disputas entre as frações burguesas pu-
tratégia estadunidense, exercem sobre tal Es- dessem gozar de um espaço mais amplo para
tado a partir da metade da década de 1970. A sua luta política (Marini et al., 1978). Embora
revisão da política de contrainsurgência esta- tal mudança não representasse uma ruptura
dunidense, frente à crise econômica vivida por do traço essencial do Estado de contrainsur-
aquele país e aos avanços das forças revolucio- gência, qual seja, “[...] la institucionalización
nárias em diversas partes do mundo, ganhou de la participación directa del gran capital em
concretude, sobretudo, a partir do governo la gestión económica y la subordinación de
de Jimmy Carter, e significou, para a América los poderes del Estado a las Fuerzas Armadas,
Latina, a busca por uma nova política, atra- a través de los órganos estatales que se han
vés tanto da eliminação de pontos de fricção, creado, en particular el Consejo de Seguridad
como no caso do canal do Panamá, quanto de Nacional” (Marini et al., 1978), Marini indica

550
Maíra Machado Bichir

como possibilidade um reposicionamento das transformações à forma de Estado dependente,


Forças Armadas nesse Estado, assumindo, a transformações essas que devem ser entendi-
partir daquele momento, uma posição de quar- das no bojo das particularidades que engen-
to poder, controlando os demais poderes, o que dram o capitalismo dependente latino-ameri-
corresponderia, concretamente, à preservação cano. Nesse sentido, Ruy Mauro Marini, am-
de seu poder político. Para o autor, tratar-se-ia parado pelo debate marxista clássico sobre o
de um Estado de quarto poder, como descreve Estado, e em interlocução com as elaborações
no trecho a seguir: de Gramsci, Althusser e Poulantzas, avança
em relação à análise do Estado dependente
Cualquiera que sea la fórmula adoptada - y lo más
probable es que ella presente variantes en los diver-
na América Latina, contribuindo para pensar
sos países del continente-, se marcha, sin embargo, suas especificidades.
hacia un Estado de cuatro poderes, o más precisa- Consideramos que o autor aporta ele-
mente, al Estado del cuarto poder, en el cual las Fuer- mentos relevantes para a análise dessa proble-
zas Armadas ejercerán un papel de vigilancia, con- mática, tais como sua periodização dos Estados
trol y dirección sobre el conjunto del aparato estatal.
latino-americanos, suas considerações em tor-
Esta característica estructural y de funcionamiento
del Estado no será, desde luego, sino el resultado del
no da autonomia relativa do Estado nas econo-
avasallamiento del aparato estatal por las Fuerzas mias dependentes e da superexploração do tra-
Armadas (más allá de las estructuras propias de la balho como um elemento estruturante de tais
democracia parlamentaria que éste ostente) y del or- Estados, assim como os conceitos de Estado de
denamiento legal de origen militar impuesto a la vida contrainsurgência e de subimperialismo, os
política, en particular las leyes de seguridad nacional
quais podem, em nossa perspectiva, iluminar
(Marini et al., 1978, grifo do autor).
estudos a respeito das formas assumidas pelos
Tal conceito, ainda que tenha sido reto- Estados latino-americanos contemporâneos, e,
mado em escritos posteriores de Marini, foi ob- mais ainda, indicar caminhos e possibilidades
jeto de menor elaboração e sistematização pelo para a luta política concreta na região.
autor do que o de Estado de contrainsurgência.
Cumpre ressaltar que este representava antes
Recebido para publicação em 07 de março de 2018
uma projeção acerca da forma que os Estados Aceito em 13 de maio de 2018
latino-americanos poderiam assumir em um
contexto de transição para a redemocratização,

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018


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551
APORTES DE RUY MAURO MARINI AO DEBATE SOBRE O ESTADO...

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552
Maíra Machado Bichir

CONTRIBUTIONS OF RUY MAURO MARINI TO CONTRIBUTIONS DE RUY MAURO MARINI


THE DEBATE ON THE STATE IN DEPENDENT AU DEBAT SUR L’ÉTAT DANS LES PAYS
COUNTRIES DEPENDANTS

Maíra Machado Bichir Maíra Machado Bichir

In this article, we look at a theme of special relevance Dans cet article, nous examinons un thème
to the current Latin American political context, the particulièrement pertinent pour le contexte politique
State. Revisiting Ruy Mauro Marini’s writings, one latino-américain actuel, l’État. Pour revenir sur les
of the main references to the Marxist Theory of écrits de Ruy Mauro Marini, l’une des principales
Dependence, we pretend to highlight its formulations références de la Théorie Marxiste de la Dépendance,
on the Latin American States, especially on their nous appelons l’attention sur ses formulations
dependent nature, which, we argue, is a subject autour des États latino-américains, en particulier en
loosely studied by the recent recoveries of his work. ce qui concerne le caractère dépendant de ces États,
So, this article began with important considerations thème encore peu exploité dans les études récentes
about Marini’s conception of the State, emphasizing de récupération de son travail. En ce sens, nous
its affiliation to the Marxist theoretical tradition. avons commencé notre chemin à tisser quelques
Further, the study focus on the particularities of the considérations sur la conception de l’État de Marini,
Latin American dependent capitalist State, with surlignant son appartenance à la tradition théorique
special attention on two themes that represent, in marxiste, passant ensuite à ses élaborations sur
our view, two important contributions of Marini to les particularités de l’État capitaliste dépendant de
the analysis of the Latin American States, which l’Amérique latine spécifiquement, en se concentrant
are: his formulations on sub-imperialism and the principalement sur deux thèmes qui représentent,
State of counter-insurgency. sous notre perspective, deux contributions
importantes de Marini à l’analyse des États latino-
américains, ses formulations autour du sous-
impérialisme et de l’État de la contre-insurrection.

Keywords: State. Dependency. Latin America. Politics. Mots-clés: État. Dépendance. Amérique latine.
Marxist theory of dependency. Politique. Théorie marxiste de la dependance.

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 535-553, Set./Dez. 2018

Maíra Machado Bichir – Doutora em Ciência Política. Professora Adjunta do curso de Ciência Política
e Sociologia - Sociedade, Estado e Política na América Latina, da Universidade Federal da Integração
Latino-americana (UNILA). Integra o grupo de pesquisa Neoliberalismo e Relações de Classe no Brasil,
vinculado ao Centro de Estudos Marxistas (CEMARX), na UNICAMP, o Grupo de Estudos de Teoria
da Dependência (GETD), vinculado à UNILA e o Grupo de Estudos e Pesquisa para Alternativas em
Relações Internacionais (GARI), vinculado à UNESP - Franca. Seu campo de pesquisa abrange estudos
sobre pensamento político e social latino-americano, Estado, poder e dependência na América Latina.
Suas mais recentes publicações são: Dossiê A atualidade do pensamento de Ruy Mauro Marini. Cadernos
Cemarx, v. 9, p. 9-11, 2017; Resenha: O Estado no centro da mundialização - A sociedade civil e o tema
do poder. Critica Marxista (São Paulo), v. 42, p. 191-193, 2016.

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