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ENSINO DE LITERATURA NA EJA E SUA RELEVÂNCIA PARA O

DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E REFLEXIVO DOS EDUCANDOS

Gicélia Gonçalves1
Jaisse M. Souza Cunha
Guilhermina Souza2
DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E REFLEXIVO DOS EDUCANDOS. REVISTA DISCENTIS. 3ª EDIÇÃO. DEZEMBRO DE
GONÇALVES, Gicélia; CUNHA, Jaisse M. Souza. ENSINO DE LITERATURA NA EJA E SUA RELEVÂNCIA PARA O

Resumo: Este artigo analisa algumas das trajetórias do Ensino de Literatura na Educação de Jovens
e Adultos no Brasil, e sua importância para o desenvolvimento crítico e reflexivo dos educandos.
Graças a trabalhos anteriores sobre a EJA, perceberam-se alguns aspectos sobre o trabalho docente
com relação à Literatura, os quais serão discutidos no decorrer deste trabalho, tais como:
desvalorização dos saberes prévios do aluno, despreparo dos professores para atuarem em salas de
EJA, escassez de material literário destinado a este público. Este estudo objetiva levar o público alvo
a entender que a leitura é um elemento cultural, histórico e social, capaz de desvendar as
contradições e conflitos de suas realidades, pois é nessa relação entre escrita literária e a dimensão
social que o educando desenvolve e compreende o sentido de suas leituras e produções,
desenvolvendo, assim, sua formação crítica e reflexiva.

Palavras-Chave: EJA; Formação; Leitura; Literatura

INTRODUÇÃO

A ideia de educação de adultos no Brasil tem gerado grandes discussões. Desde o


começo dos tempos, quando se iniciou uma preocupação com o ensino neste país, se percebe
que grande parte dos que não tiveram acesso ao ensino foram excluídos ou deixados de lado
do processo educativo, gerando assim um número cada vez maior de analfabetos.
Em A História da Educação de Jovens e Adultos no Brasil, Rosa Cristina Porcaro
(2007) afirma que, quando se iniciou a Educação de Adultos no Brasil, ela era desenvolvida
de forma tecnicista, pois o progresso econômico e tecnológico do país exigia a formação de
mão-de-obra mais qualificada e alfabetizada. Por isso, surgiram alguns programas de
alfabetização e de educação de jovens e adultos que foram destinados exclusivamente para a
exploração da mão-de-obra, sem existir uma preocupação com a aprendizagem real dos
estudantes.
A ideia de educação tecnicista também é discutida por Conceição Maria Cunha, em
sua obra Introdução - discutindo conceitos básicos. Para a autora, foi com o desenvolvimento

² Graduandas do 8º semestre do curso em Letras 2010.2 na Universidade do Estado da Bahia (UNEB)


Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias – Campus XVI.
2014.

¹ Orientadora. Mestranda.
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industrial, no início do século XX, que se iniciou um processo lento, mas crescente, de
valorização da educação de adultos. (CUNHA apud PORCARO 2007, p. 1).
A partir dos conceitos trazidos pelas as autoras, podemos perceber que essa
preocupação era apenas econômica, pois estes sujeitos tinham que ter o mínimo de formação
para operar as máquinas e, assim, poder colaborar com a economia do país. Prova disso foi
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GONÇALVES, Gicélia; CUNHA, Jaisse M. Souza. ENSINO DE LITERATURA NA EJA E SUA RELEVÂNCIA PARA O

quando, em 1947, de acordo com Porcaro, o governo lançou a 1ª Campanha de Educação de


Adultos, propondo a alfabetização dos adultos em três meses, através de um curso primário
em duas etapas de sete meses, a capacitação profissional e o desenvolvimento comunitário.
(cf. PORCARO 2007, p.1).
Segundo Porcaro, foi então no final da década de 50 e começo da década de 60 que
teve início uma intensa mobilização da sociedade civil, a qual colaborou para uma mudança
nas ações públicas de educação de adultos. Porém, em 1963, o Governo encerrou a 1ª
Campanha de Educação e nomeou Paulo Freire responsável pelo Programa Nacional de
Alfabetização de Adultos. No entanto, em 1964, o programa teve que ser cancelado devido ao
Golpe Militar, levando Paulo Freire ao exílio. E foi em 1967 que o Governo assumiu o
controle da alfabetização de adultos e criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização
(MOBRAL), voltado para a população de 15 a 30 anos, objetivando a alfabetização funcional
e tecnicista (cf. PORCARO 2007, p. 2).
Como está exposto no texto de Porcaro (2007), na década de 70, com base na Lei de
Diretrizes e Bases da Educação (LDB) 5692/71, implantou-se o Ensino Supletivo. Ainda na
década de 70, especificamente em 1974, o Ministério da Educação (MEC) sugere a fundação
de Centros de Estudos Supletivos (CES). Já nos anos 80, surgiram os projetos de pós-
alfabetização, que sugeriam um aperfeiçoamento na linguagem escrita e nas operações
matemáticas básicas. Em 1985, inicia-se a Fundação EDUCAR. Esta apoiou financeira e
tecnicamente as iniciativas existentes.
Ainda de acordo com Porcaro, na obra anteriormente citada, foi nos anos 90 que se
criou a Educação de Jovens e Adultos (EJA), mais uma forma de educar que resgata jovens e
adultos para as salas de aula de todo o país. (cf. PORCARO 2007, p. 2). O que se depreende a
partir da leitura da obra Porcaro é que este novo formato de educação é desenvolvido
compactamente. As séries são convertidas em eixos, cujo ensino deve partir dos
conhecimentos prévios dos estudantes. Um eixo temático da EJA corresponde a duas séries
normais, ou seja, a educação básica consolidada em onze ou doze anos normais. Nela, a
mesma é obtida em somente seis anos para quem era analfabeto. O desempenho e a
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aprendizagem dos estudantes são avaliados através da assiduidade, participação,
responsabilidade e pontualidade na entrega e apresentação dos trabalhos.
Esse modelo de ensino já citado pode ser visto, principalmente, no trabalho com
Língua Portuguesa, pois o professor busca, na realidade do estudante, meios para trabalhar o
ensino do Português, através de textos diversos, retirados de jornais, revistas, livros, entre
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outros, pois, de acordo com a Proposta Curricular para o Segundo Seguimento da Educação
de Jovens e Adultos (2002):

[...] Os jornais e os livros podem informar sobre fatos da realidade e


alimentar desejos e sonhos do que ainda parece impossível; pôr o leitor em
contato com experiências humanas que jamais viverá; traduzir sentimentos
que o afligem mas não sabe expressar com clareza; abrir as portas para o
encontro com todos que vieram antes e estabelecer contato com aqueles que
partilham do mesmo tempo; oferecer prazer estético e ajudar a encarar a
vida, ou se proteger dela. (BRASIL, 2002, p. 14).

Por meio de tais objetos, o professor consegue trabalhar diversos elementos no


processo de aprendizagem dos estudantes com a escrita, linguagem, gramática e também, por
meio da leitura literária, possibilitar aos estudantes um instrumento que lhes ajudará a resolver
conflitos pessoais e lhes permitirá a participação crítica dos processos culturais e sociais do
país através da interação com o outro, assim como prevê a Proposta Curricular ao afirmar
que “um texto, como a decifração de qualquer ato de comunicação, é, antes de tudo, uma
prática social que se dá na interação com o outro” (BRASIL, 2002, p. 12).
O Brasil passou por muitas reformas no campo da educação de jovens e adultos.
Foram criados vários projetos e programas que visavam dar ao educando uma condição
diferenciada na sociedade, mas é preciso reconhecer que, mesmo existindo essa preocupação,
o sujeito era pensado como um repositor de conhecimento, e não um produtor/transformador
dos vários saberes que já tinham em seu poder.
A prática pedagógica utilizada no ensino de Literatura não é muito diferente da
utilizada no ensino de Língua Portuguesa. Esta prática de ensino de Literatura, a qual é
ministrada pelos professores de Língua Portuguesa, será discutida no decorrer deste trabalho,
pois, a partir de contatos anteriores com turmas da EJA e de conversa informal com alguns
professores, pode-se perceber que não existe formação específica para o professor que será o
responsável pelo ensino de Literatura neste seguimento de educação, tarefa esta atribuída ao
professor de L. P., assim como discorre a Proposta Curricular para a Educação de Jovens e
Adultos:
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Eventualmente se recorre a letras de canções, poemas, trechos de romances
ou contos, com uma função instrumental, para ilustrar algum tópico, iniciar
ou finalizar alguma discussão. Mas a análise desse tipo de texto fica por
conta do professor de Língua Portuguesa, que pode evidenciar, em uma
abordagem bem-feita, toda a sutileza e a peculiaridade do texto pensado
artisticamente. (...). Cabe ao professor de Língua Portuguesa evidenciar a
riqueza de um texto literário. (BRASIL, 2002, p. 15).
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Pode-se perceber, a partir da Proposta Curricular e de trabalhos anteriores sobre a


Educação de Jovens e Adultos, que este ensino não é desenvolvido de forma adequada ao
contexto dos estudantes. Não há a preocupação com a formação cultural. Utiliza-se a
Literatura em sala de aula apenas como um meio para inserir elementos gramaticais nestas
turmas. Nem mesmo as Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) demonstram
preocupação com o ensino de Literatura na EJA, pois disponibiliza apenas dois artigos para
ela e em nenhum deles especifica o trabalho com Literatura (LDB, Nº 9.394, 1996).
O que se depreende de tudo que foi exposto ate aqui é que a Educação de Jovens e
Adultos tem passado pelo estabelecimento de políticas e metodologias diversas que
possibilitam o reconhecimento de sua importância para o exercício da cidadania e a formação
cultural do educando.

1. PAULO FREIRE E SEU LEGADO PARA EDUCAÇÃO DE ADULTOS

O Mestre Paulo Freire é de fundamental importância para a Educação de Adultos,


uma vez que aborda questões de como mediar o ensino de adultos de forma que se respeite a
existência do estudante, que considere e respeite seus conhecimentos prévios enquanto ser
humano. Freire utiliza um método simples, objetivo e bem realista.
O Educador Paulo Freire, considerado o maior educador brasileiro, nasceu em 1921
em Recife, Pernambuco, em uma família de classe média. Com o agravamento da crise
econômica mundial iniciada em 1929 e a morte de seu pai, quando tinha 13 anos, Freire
passou a enfrentar dificuldades econômicas. Formou-se em direito, mas preferiu o magistério
como carreira profissional. Em 1963, realizou, em Angicos (RN), um programa que
alfabetizou 300 pessoas em um mês. No ano seguinte coordenou o Plano Nacional de
Alfabetização do presidente João Goulart. Em 1961 realizou, junto com sua equipe, as
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primeiras experiências de alfabetização popular que levariam à constituição do Método Paulo
Freire.
E foi pensando no quadro da educação no país, em especial a educação de jovens e
adultos, e na educação como um ato político e libertador, que Freire formulou uma teoria do
conhecimento que ficou conhecida como Método Paulo Freire. Dentro desse Método,
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destacam-se dois princípios básicos: O primeiro diz respeito à politicidade do ato educativo
que parte de uma construção e reconstrução da realidade do educando. E o segundo diz
respeito à dialogicidade do ato educacional, pois, para ele, a educação amplia a visão de
mundo do educando, e para isso é necessário a mediação do diálogo.
Paulo Freire buscou não apenas uma transformação no sistema educacional, mas sim,
uma luta pela superação da opressão e das desigualdades sociais. Para que essa transformação
ocorra, é preciso estudar a realidade do educando, organizando os dados coletados em suas
falas para serem usados no processo de alfabetização de adultos. Estes pensamentos
pedagógicos de Freire se formaram a partir da observação da cultura, em particular o uso da
linguagem dos educandos e do papel elitista da escola. Segundo ele, o aprendizado da leitura e
da escrita envolve o aprendizado da leitura da realidade através da análise correta da prática
social.
Para Paulo Freire, é com o conhecimento dos princípios sócio-construtivistas e dos
níveis de concepção do sistema escrito que o educador, numa dialética prática-teoria, poderá
acompanhar a aprendizagem do estudante enquanto este realiza suas escritas e leituras
espontâneas. A partir daí o educador faz suas intervenções pedagógicas nos momentos
necessários, fundamentado no apoio científico.
O Método Freiriano propõe, para o ato de ensino da leitura e consequentemente da
Literatura, que a palavra ensinada venha do universo vocabular do alfabetizando e que
expresse sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações e os
seus sonhos; que eles sejam carregados de significação de sua experiência existencial.

2. PRÁTICA DE ENSINO DE LITERATURA NA EJA

Percebe-se que alguns estudiosos buscam identificar como ocorre o processo de


ensino-aprendizagem, especialmente da leitura, mas não especificamente de textos literários
que são utilizados na educação de jovens e adultos. Através da observação em turmas da
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Educação de Jovens e Adultos nos Tempos Formativos I, II e III dos Eixos IV, V, VI e VII
nas escolas Antônio Carlos Magalhães e Escola Municipal Valter Barreto, na Cidade de
Presidente Dutra, se pode ter acesso a algumas das práticas pedagógicas e educacionais
utilizadas pelos professores de Língua Portuguesa e Literatura, sua aplicabilidade ao contexto
dos estudantes e seu relacionamento com as experiências de vida que eles adquiriram através
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da convivência com o outro. Com isso, percebe-se que o ensino de Literatura acontece, mas
há uma grande resistência por parte dos educandos, pois são poucos os que se interessam pela
leitura, e os que leem precisam da ajuda do professor para compreenderem o texto literário.
Sozinhos os estudantes não conseguem entender o que leem.
A Educação para Jovens e Adultos é um campo complexo, pois não envolve somente
questões pedagógicas, mas também fatores que vão além dos aspectos educacionais. Segundo
Moacir Godotti e José E. Romão, do Instituto Paulo Freire:

[...] os educadores precisam respeitar as condições culturais do jovem e


adulto. Eles precisam fazer o diagnóstico histórico-econômico do grupo ou
comunidade onde irão trabalhar e estabelecer um canal de comunicação
entre o saber técnico e o saber popular. (GADOTTI e ROMÃO, 2001, p .43).

Paulo Freire, na sua obra Educação e Mudança, diz que “para uma transformação em
geral da educação e da EJA em particular, é necessário um comprometimento de todas as
pessoas, principalmente, os que estão ligados ao mundo escolar” (FREIRE, 1979, p. 72).
Apesar de a Constituição definir a educação como um direito de todos os cidadãos, o que se
observa com suas tentativas de alfabetizar ou educar adultos são programas fragmentados,
programas com problemas de concepção pedagógica e metodológica, nos quais os objetivos
não ficam definidos. Isso acaba provocando diversas discussões acerca de sua aplicabilidade
ao contexto educacional do país.
Neste âmbito, muitos programas aparecem como alternativas assistencialistas de
combate à exclusão social, com propostas pedagógicas que sugerem uma forma
universalizada de trabalho sem levar em conta as peculiaridades locais de cada comunidade,
contextos e conteúdos que abrangem a diversidade étnica e cultural de nosso país,
desconsiderando as características locais das comunidades escolares.
Segundo José Carlos Libâneo:

O conceito de docência passa a não se constituir apenas de um ato restrito de


ministrar aulas, nesse novo contexto, passa a ser entendido na amplitude do
trabalho pedagógico, ou seja, toda atividade educativa desenvolvida em
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espaços escolares e não-escolares pode-se ter o entendimento de docência.
(LIBÂNEO, 2007, p. 23).

Levando-se em conta o conceito de Libâneo, percebe-se que o professor, atualmente,


não está mais centrado na racionalidade técnica. Neste contexto, torna-se de grande
importância que o professor seja também um pesquisador e que busque uma formação
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contínua em sua área.


Alguns conceitos metodológicos que auxiliam nas práticas pedagógicas dos
professores de L.P., os quais são incumbidos de ensinar Literatura para estudantes que já
trazem um conhecimento prévio de mundo e de culturas populares bem diferentes dos
cânones que são discutidos e estudados pelos teóricos literários, estão relacionados com o
desenvolvimento humano e as aprendizagens ao longo da vida tanto do professor como do
estudante.
Segundo Paulo Freire, o educando da EJA, ao tentar compreender o que a escrita
representa e como ela é representada, como ocorre o processo de escrita, formula hipóteses
explicativas para suas dúvidas ao tentar representar na escrita os objetos. O educando
compreende que a escrita representa a fala e que há um sistema, uma organização própria para
escrever. À medida que ele encontra respostas para suas perguntas, constrói o conhecimento
da escrita e da leitura.
Partindo da perspectiva de Freire, é necessário que o educando compreenda a leitura
como fenômeno cultural e social, capaz de revelar as contradições e conflitos da realidade,
pois é nessa integração entre o texto literário e a dimensão social que o educador possibilitará
a significação das leituras poéticas e também das produções literárias. Para que se alcance este
objetivo, uma boa alternativa está na abordagem da Literatura, já que esta proporciona ao
leitor uma visão crítica do mundo e de suas realidades.

A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de


construção de significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu
conhecimento sobre assunto, sobre o autor, de tudo que sabe sobre a língua.
Não se trata simplesmente de extrair informação da escrita, decodificando-a
letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica
compreensão no qual os sentidos começam a ser constituídos antes da leitura
propriamente dita. (BRASIL, 1997, p. 41).

A observação das práticas de ensino proporcionou a percepção de um grande


diferencial entre os professores entrevistados. O primeiro professor acredita que o ensino de
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Literatura é importante porque contribui para a aprendizagem e no desenvolvimento


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gramatical. Ele atribui a importância da Literatura à gramática. Já o segundo professor
acredita que o ensino de Literatura é muito importante por possibilitar ao estudante uma
aproximação com a sua realidade, e que, a partir da leitura e de seu conhecimento de mundo,
o educando perceberá com mais facilidade o que está acontecendo ao seu redor.
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3. LITERATURA E O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO DO ALUNADO DA EJA

Quando o estudante da Educação de Jovens e Adultos chega ou regressa à vida


educacional, é preciso que se leve em conta o vasto repertório de conhecimento de mundo que
ele adquiriu, através do contato com as diversas linguagens no decorrer de sua vida. Contudo,
ainda não adquiriu ou está em processo de construção dos conhecimentos sintáticos e
morfológicos. Desta forma, a escola é a responsável por possibilitar a aquisição destes novos
e importantíssimos conhecimentos, os quais servirão para o desenvolvimento intelectual dos
estudantes.
Para que o educando obtenha o conhecimento que lhe possibilite desenvolver seu
senso crítico e reflexivo, é necessário um ensino que possibilite a significação dos conteúdos,
que possibilite ao educando a construção de um sentido para os conteúdos ministrados na sala
de aula para que possam ser utilizados em seu dia-a-dia. Para Jonh Firth (In: GERALDI,
1997, p. 23), “o ensino de literatura passaria a ser o vivenciamento da obra literária enquanto
experiência transformadora e não simplesmente como a assimilação de mecanismos
codificados de escuta e apreciação”. Neste contexto, entende-se que ler é um processo de
ressignificação dos conhecimentos prévios do estudante e do texto destinado à interpretação
na sala de aula. Como dizia Paulo Freire em sua obra A Importância do Ato de Ler:

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura


desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e
realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser
alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o
texto e o contexto. (FREIRE, 1981, p. 11).

Para além de construção de um conhecimento mecânico ou uma expressão forçada


está a Literatura, a qual é também uma forma especial de conhecimento, já que proporciona
aos leitores uma experiência muito próxima de suas realidades. Ela nasce da representação, da
estilização da realidade, ajudando o leitor a entender e vivenciar os problemas dos
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personagens, trazendo, assim, uma experiência transformadora de suas vidas. Ela parte do
conhecimento humano, e este conhecimento pode transformar as pessoas, humanizá-las, pois
a Literatura não está afastada da realidade, ela trabalha o imaginário através da linguagem e é
através dela que o leitor assimila verdades do real.
Segundo Lajolo (1994, p. 106), “o cidadão, para exercer plenamente sua cidadania,
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precisa apossar-se da linguagem literária, alfabetizar-se nela, tornar-se seu usuário


competente, mesmo que nunca vá escrever um livro: mas porque precisam ler muitos”. Neste
sentido a Literatura proporciona ao leitor as condições necessárias para interpretar, refletir,
compreender e construir significados sobre sua realidade, a partir da inclusão com as práticas
sociais de sua vida cotidiana.
No dilema entre ensinar Literatura e a escassez de material didático está o professor e
a escola com a difícil tarefa de fazer com que jovens e adultos se voltem agora para a leitura
de textos literários que, para eles, parecem sem utilidade. ”Formar leitores é a primeira tarefa
do professor. Não é desejável que a leitura se limite exclusivamente à escola, pois ela é uma
prática social. Mesmo assim a escola é o lugar social da leitura, de onde se espera que as
pessoas saiam lendo” (JARDIM 2010, p. 1).
A Literatura está além de algo fantasioso que desempenha apenas uma função
ilusória, a qual está ligada às necessidades imaginativas dos seres humanos. Ela também
transforma comportamentos, cumpre sua função formativa, uma vez que mostra o mundo com
seus altos e baixos, suas luzes e sombras (cf. CANDIDO, 1972, p. 805). Partindo desse ponto
de vista, Ezequiel Teodoro da Silva acredita nisto: “Ler é, em última instância, não só uma
ponte para a tomada de consciência, mas também um modo de existir no qual o indivíduo
compreende e interpreta a expressão registrada pela escrita e passa a compreender-se no
mundo”. (SILVA, 1984, p. 45).
A educação é um direito que deve ser acessível a todos, especialmente àqueles que
foram privados do processo educacional e que, só agora, podem retomar sua busca por novos
conhecimentos, aos quais não tiveram acesso na infância. Os estudantes da EJA podem e
devem ter acesso à Literatura, pois esta possibilita aos jovens e adultos um ensino lúdico e
prazeroso, o qual é possível através da experiência de vida proporcionada pela obra literária.

4. NOVAS PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE LITERATURA NA EJA


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O ensino de Literatura não deve ser um ato condicionado e forçado pelo educador,
mas sim, uma Literatura que perfaz uma dimensão humana necessária e que aproxima os
leitores adultos, estudantes da EJA, das questões sociais e culturais, assim como prevê a
Proposta Pedagógica Curricular:
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O compromisso com a formação humana e com o acesso à cultura geral, de


modo que os educandos venham a participar política e produtivamente das
relações sociais, com comportamento ético e compromisso político, através
do desenvolvimento da autonomia intelectual e moral. (BRASIL, 2006, p. 1)

Entende-se que cabe ao docente, mais do que transmitir o saber, articular


experiências a partir das quais o estudante refletirá sobre suas relações com o mundo e o
conhecimento, assumindo o papel ativo no processo ensino-aprendizagem. Sendo assim, para
que se desenvolva essa prática de pensar no estudante, os textos devem ser propostos à
curiosidade de uma maneira dinâmica e viva. Esses textos devem ser entendidos como objetos
a serem desvelados. Desse modo, os estudantes não teriam que memorizar mecanicamente a
descrição do objeto, mas aprender sua real significação.
O desafio do ensino de Literatura e, consequentemente, do educador, é ajudar os
estudantes a elaborarem ou reverem suas interpretações iniciais, sem descartar totalmente suas
primeiras leituras de um texto literário. Desta maneira os auxiliará na construção-reconstrução
de interpretações, sem simplesmente apresentar para eles leituras já prontas, ou com a
interpretação do professor. O processo ensino-aprendizagem de literatura se desenvolve na
interação entre educador, educando e texto literário.
O educador da EJA precisa refletir sobre sua prática pedagógica, para que esta, de
forma mais efetiva, ajude na formação de cidadãos cônscios de seu papel na sociedade. Sendo
assim, a leitura literária não pode ser confundida com reprodução de texto. Ao produzir o
texto, o estudante é autônomo e singular, e ao lê-lo, ele se torna um crítico, um co-autor, já
que as leituras são reescritas do texto lido. Ela assume um sentido amplo. Está relacionada à
construção da interpretação e da criticidade, apontando possibilidades variadas de
interpretação e reescrita do texto, a partir dos novos sentidos produzidos pelo leitor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho busca despertar um desejo de mudança, tanto no ensino como na


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aprendizagem de Literatura. Para isso, torna-se preciso estudar a realidade do educando.


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Sendo assim, há necessidade de uma formação continua do professor, de sua
capacidade de reflexão e de sua função pedagógica como sujeito formador da sociedade, pois
o professor e a escola devem desenvolver, juntos, a criatividade e exercitar as reflexões.Para
os estudantes de Letras, futuros professores, tal trabalho servirá para uma reflexão sobre os
novos desafios a trilhar por esse caminho íngreme que é a carreira docente e, em especial, a
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carreira de professor de Língua e Literatura.


Compreende-se, assim, que a leitura, possibilita um desenvolvimento crítico dos
educandos, consolidando-se como um importante recurso para inserção dos indivíduos no
meio social, e não é diferente com a leitura literária, pois se faz necessária para o
desenvolvimento crítico e reflexivo dos seus leitores. A Literatura possibilita aos leitores
conhecimentos que podem ser usados em seus conflitos pessoais, ajudando-os a resolvê-los.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental.


Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução. Brasília/ DF: MEC, SEF, 1997.

CANDIDO, Antonio. A Literatura e a Formação do Homem. In Ciência e cultura. São


Paulo, 1972.

C E R E J A , W i l l i a m R o b e r t o . Ensino de Literatura: uma proposta dialógica par


ao trabalho com literatura. São Paulo: Atual, 2005.

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Tradução de Moacir Gadotti e Lillian Lopes Martin.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

_____________A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam. 49. ed.
São Paulo, Ed. Cortez, 1981.

_____________Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 14.ed.São


Paulo: Paz e Terra, 2000.

GERALDI, João Wanderley (Org.). O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997.

GADOTTI, Moacir, ROMÃO. José E (orgs.). Educação de Jovens e Adultos: teoria pratica
e proposta. 4. Ed – São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2001. -(Guia da escola cidadã; v.
5).

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1999.

LIBÂNEO, José Carlos. et. al. Didática. Educação escolar: políticas, estrutura e organização
São Paulo: Editora Cortez, 5.ed. São Paulo : Cortez, 2007.
2014.

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JARDIM, P. Rafael- Texto "Lá nem tem livro...A prática da leitura nas vozes de
adultos".Disponívelem http://xa.yimg.com/kq/groups/22190631/718528939/name/anexo+2+
+lu+nem+tem+livro...+a+pratica+da+leitura+nas+vozes+de+ adultas.pdf. Acesso em 12 de
março de 2003.

SILVA, Ezequiel Teodoro da. O Ato de Ler: Fundamentos Psicológicos para uma Nova
Pedagogia da Leitura. 3. ed. São Paulo 1984.
DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E REFLEXIVO DOS EDUCANDOS. REVISTA DISCENTIS. 3ª EDIÇÃO. DEZEMBRO DE
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