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“Negação” é uma produção audiovisual adaptada com base no livro homônimo, de

autoria da historiadora de ofício Deborah Lipstedt, processada por David Irving - que se
denomina historiador autodidata e é um dos principais defensores do Holocausto como
fraude - após ser acusada de difamação, por questionar a falta de embasamento em sua
tentativa de fazer revisionismo. A narrativa do filme protagoniza Deborah durante a
execução do processo, e os dilemas enfrentados com a equipe auxiliadora para
desenvolver sua defesa da forma mais eficaz possível, frente à ameaça que a vitória de
Irving pode representar simbolicamente à memória das vítimas do Holocausto, e
corroborar para o fortalecimento ideológico “factual” de um grupo no presente.

A perspectiva que introduz o longa ao espectador; na qual David Irving expressa seus
ideais depreciando um conceito legitimado pela academia, suscita alguns
questionamentos a respeito do que sustenta a aclamação pública de seu discurso
puramente ideológico e distorcido, visto que o mesmo é desprovido de bases
historiográficas consistentes – mas não de estratégias persuasivas. Tal cena esculpe o
personagem utilizando um mecanismo dissimulador expresso nas entrelinhas: a
aplicação da Retórica e uma de suas falácias lógicas, – reductio ad absurdum, que
“consiste em se deduzir de uma proposição ou um complexo de proposições
consequências que são inconsistentes umas com as outras ou com a proposição original”
(RYLE, 1945, p. 6), utilizada para ridicularizar publicamente o conceito de Holocausto,
e a própria Teoria da História, quando Irving rejeita se submeter à crítica metateórica
externa à sua verdade; reduzindo-as ao absurdo, e logo, qualquer debate decorrente
delas, falso.

Para Jorn Rusen, a existência de uma Metateoria tem como uma das funções auxiliar o
historiador a não abandonar, mas ordenar sua subjetividade e inseri-la de forma
compatível com a cientificidade do conhecimento histórico. Entretanto, a falácia do
mito do Holocausto supracitada, apesar de ter apelo sofístico diante de leigos ao ofício
por apresentar conclusões aparentemente concisas, não se encaixa no método científico
da História por não possuir estrutura verdadeiramente lógica, além de ser integralmente
moldada no subjetivo tendencioso de Irving, que exclui provas incompatíveis com sua
premissa – esta imutável, independente das fontes. Quando se analisa a forma de
relacioná-las que a proposta negacionista se debruça, é evidente sua coexistência
discordante ao rigor acadêmico invalidado pelo próprio Irving, defensor da efetividade
de metodologias autodidatas por motivos ideológicos, intencionados a atenuar a culpa
atribuída a Hitler. Visto isso, Hallet elucida que “O dever do historiador de respeitar
seus fatos não termina ao verificar a exatidão deles.” (CARR,