Você está na página 1de 2

Doc.

O drama africano

Em meados do século XVIII, um velho chefe africano da Costa da Mina


(atual Gana) falava assim para um mercador de escravos dinamarquês:

Sois vós, vós os brancos, quem trouxe o mal para o meio de nós. Será que, se
vocês não tivessem vindo ter connosco como compradores, nós nos teríamos
vendido uns aos outros? A avidez com que procuramos as vossas mercadorias
sedutoras, o gosto que temos pela vossa aguardente, faz com que um irmão não
possa ter confiança no seu irmão, um amigo no seu amigo e às vezes nem mesmo
um pai possa ter confiança no seu filho. […]. Quando era jovem, vários milhares
de pessoas habitavam por aqui, à beira do mar, e agora dificilmente chegarão a
cem indivíduos. O pior é que vocês, os brancos, se tornaram um mal necessário
entre nós. Se um dia partirem, os Negros do interior não nos deixarão viver mais
de seis meses, virão matar-nos e às nossas mulheres e aos nossos filhos, tal é o
ódio que nos têm, por vossa causa.
L. F. Römer, O Golfo de Guiné. C.1750

Ao contrário do que por vezes se pensa, os países nórdicos também participaram


ativamente no tráfico de escravos africanos. A Dinamarca fundou mesmo uma Companhia
de Comércio, como a holandesa ou a inglesa, em que essa era uma das principais
atividades. Além disso, os Dinamarqueses estabeleceram feitorias fortificadas no golfo da
Guiné, de que a principal era a de Christiansborg.
L. F. Römer (1714-1776) foi um comerciante dinamarquês de origem alemã que viveu
muitos anos na costa de África. De regresso à Dinamarca escreveu vários livros sobre o
comércio nessa região e é de um deles que é retirado o excerto apresentado.

Segundo Römer, trata-se do testemunho de um chefe africano da região da Mina (atual


Gana). O documento é muito curioso pois, embora acusando os Europeus pelo papel que
tiveram no enorme volume de escravos comprados, não deixa de responsabilizar também
os chefes africanos pela sua participação no tráfico, fascinados pelas mercadorias trazidas
pelos comerciantes estrangeiros. Como se sabe, não só já existia escravatura e tráfico de
escravos em África antes da chegada dos Europeus como, nos séculos XVI a XIX, as elites
africanas se tornaram os grandes intermediários no tráfico atlântico.

www.raizeditora.pt
História oito | 8.º ano
Questões:

1. A que tipo de comércio está associado o «mal» a que se refere a primeira frase do
documento?
– Ao tráfico de escravos na costa africana.

2. Esse comércio tinha que destino principal? Porquê?


– O continente americano. Na América do Sul, Central e do Norte, as plantações de
açúcar, de tabaco e de algodão exigiam grandes quantidades de mão de obra,
constituída, sobretudo, por escravos africanos.

3. Quais foram, segundo o documento, os «males» que esse tipo de comércio causou em
África?
– A desconfiança entre as pessoas, que receavam ser vendidas como escravas; o
despovoamento do litoral; as difíceis relações entre o interior e o litoral.

4. Segundo o chefe africano, quem foram os responsáveis por esses «males»?


– Os comerciantes europeus que queriam comprar sempre mais e mais escravos mas
também os próprios africanos que lhos vendiam, seduzidos como estavam pelas
mercadorias que aqueles levavam.

www.raizeditora.pt
História oito | 8.º ano