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27 de abril de 2015. Segunda-feira, 8h30 da manhã.

Sala 302 do Anexo I da Reitoria da


UFRGS. Grupos de 3 estudantes leem com atenção (e um pouco de medo) uma folha. Era a
primeira prova de História da Música I, a primeira da graduação. No papel, apenas duas
perguntas. A primeira delas, bem sucinta: "o que é o objeto música?".
A nossa resposta, de acordo com o que havíamos visto em aula, foi: objeto música é o
que nós observamos sonoramente. Para o caracterizarmos, utilizamos alguns conceitos
estruturais, como a sucessão de alturas horizontalmente (melodia), quantas coisas e por
quanto tempo soam (textura), simultaneidade de melodias (polifonia), a sistematização dessa
simultaneidade (contraponto), os acordes e a harmonia. A parte estrutural é envolvida por
entornos sociais tanto do momento histórico em que a peça foi composta quanto dos diferentes
momentos em que ela for recebida por alguém.
Não foi a primeira e nem a última vez que fomos questionados sobre o que é música,
mas talvez tenha sido a mais marcante. Respondendo àquela pergunta, finalmente
entendemos a dimensão do que significa estudar música na UFRGS. Celso Loureiro Chaves, o
professor da disciplina, já havia nos alertado que, enquanto estudantes de música de uma
universidade pública federal, agora tínhamos uma responsabilidade. Aliás, em um país em que
apenas 15% da população tem ensino superior completo, poder estar na universidade já é, por
si só, uma responsabilidade. Respondendo àquela pergunta, percebemos que a nossa é muito
maior do que sermos bons musicistas, pesquisadores ou professores de música. É trabalhar,
agora enquanto egressos de uma universidade pública, para que o nosso conhecimento não
fique restrito apenas a nós.
A nossa responsabilidade é entender que a música está sempre inserida em um
contexto histórico e social, e que não pode ser encarada como um objeto estático no tempo. É
manter a mente aberta para práticas e vivências musicais diferentes das nossas. É entender
que teremos sempre muito a aprender, e não esquecer que, apesar da música ser a nossa
profissão, ela é também lazer, é resistência, é arte, é sentimento.
E dentro daquela sala com mais de 60 estudantes, não nos demos conta apenas das
nossas responsabilidades. Percebemos também uma realidade, que fomos ​convidados ​pelo
professor Celso a entender: a diversidade de vivências musicais possíveis. Todos nós tivemos
que encarar que, a partir de agora, a música era muito mais do que o nosso gosto pessoal, e
que cada colega carregava consigo a sua própria trajetória musical. Ao longo do curso, fomos
aprendendo uns com os outros e incorporando novos conhecimento em nossas práticas.
E quando que percebemos isso? Talvez quando, ao passar no corredor indo pra sala de
aula, víamos um músico "erudito" se arriscando na roda de choro dos colegas da música
popular. Talvez quando, nas aulas de prática musical coletiva, tivemos que sair da zona de
conforto e tocar gêneros musicais que não conhecíamos. Quem sabe quando estudávamos
juntos no bar do Antônio os ritmos e solfejos da temida aula de percepção ou quando fazíamos
canto gregoriano virar funk ou peça coral virar samba. Principalmente, percebemos isso
quando olhamos pro lado e ouvimos as músicas feitas dentro do Instituto de Artes, por
professoras, professores, alunas e alunos dos quatro cursos do IA, e ficamos maravilhados
com toda a diversidade cultural que observamos.
Aliás, alguém que nos ensinou muito sobre não deixar de se maravilhar com a música
foi nosso paraninfo, professor Fernando Lewis de Mattos. Durante suas aulas, de Análise,
Harmonia e Composição de Canção, achamos que estávamos aprendendo sobre música, mas
estávamos aprendendo sobre filosofia, artes visuais, história, dança, teatro, psicologia, a vida, o
universo e tudo mais. Não havia pergunta que não fosse respondida com um "isso é muito
interessante, pessoal! Querem que eu fale disso? Lá na Grécia Antiga...". Certa vez, inclusive,
durante uma dessas digressões, alguém perguntou, em tom de piada, qual era, então, o
sentido da vida. Foi uma das poucas vezes que o Fernando deu uma resposta curta, e um dos
maiores ensinamentos que ele nos passou. Aprender e ensinar, é esse o sentido da vida.
Por tudo que aprendemos com ele, gostaríamos de deixar mais uma mensagem do
Fernando, que certamente nos guiará em nossas lutas futuras.
Há braços que abrem portas.
Há braços que labutam.
Há braços que nos portam.
Abraços aos que lutam.