Você está na página 1de 17

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ – UFPA

CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE ABAETETUBA


FACULDADE DE CIÊNCIAS DA LINGUAGEM

PLANO DE AULA: LEITURA LITERÁRIA E PRODUÇÃO DE TEXTOS


NARRATIVOS: O CONTO

Abaetetuba-PA
2018
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ – UFPA
CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE ABAETETUBA
FACULDADE DE CIÊNCIAS DA LINGUAGEM

PLANO DE AULA: LEITURA LITERÁRIA E PRODUÇÃO DE TEXTOS


NARRATIVOS: O CONTO

Trabalho apresentado como


requisito parcial para avaliação da
disciplina: Literatura Infanto-juvenil,
ministrada pelo professor Garibalde
Parente.

Abaetetuba-PA
2018
PLANO DE AULA
Disciplina: Língua portuguesa
Professor responsável: Jheferson Raileno Oliveira da Silva
Carga horária: 10 horas aula
Curso: 9º ano do ensino fundamental
Título: Leitura literária e produção de textos narrativos: o conto

1. OBJETIVOS

1.1. Geral

Desenvolver a capacidade reconhecer bem como de produzir textos escritos


que se enquadrem no gênero conto, quanto suas especificidades e restrições
sociais de uso, com base nas experiências com textos literários do gênero conto
infanto-juvenil.

1.2. Específicos

 Reconhecer a importância do estudo das narrativas quanto ao gênero


literário em vista do gênero conto.
 Ler e compreender contos infanto-juvenis.
 Poder reconhecer e saber utilizar a estrutura convencional de um conto,
em vista da estrutura das narrativas.

 Ser habilitado a reconhecer e reproduzir mecanismos de linguagem


característicos do gênero conto.

2. METODOLOGIA
A metodologia adotada no presente plano de aula se centrará em aulas
expositivas e dialogadas que discorrerá sobre conceitos básicos do gênero textual
conto, quanto suas especificações, tomando como base os contos Infanto-
juvenis, visto que para além das vantagens que o conto em si oferece no ensino,
pois ele encerra uma narrativa com começo, meio e fim de forma breve, os contos
infanto-juvenis asseguram uma leitura não tão complexa a ponto dos alunos, as
quais este plano de aula é destinado, corram o risco de não entenderem o
conteúdo ou tema narrados. Além do quê, muitos alunos ainda não estão
habituados à leitura e os contos infanto-juvenis podem servir como bom começo
ao universo da leitura, já que requerem menor envolvimento do leitor.

Tal metodologia também contempla o exercício de produção de contos com


base nas concepções sobre o gênero, e de sequência didática desenvolvidas por
Dolz et all (2004). O plano se desdobrará em 7 etapas/ módulos.

3. ETAPAS DO PLANO – UMA SEQUÊNCIA DIDÁTICA.

Etapa 1: Apresentação da situação

Esta etapa tem como objetivos: a) Despertar a curiosidade dos alunos pelo
tema a ser trabalhado – o gênero conto (infanto-juvenil); b) Que os alunos
elaborem questionamentos com relação ao tema. Tal etapa se desenvolverá em
45 min.

Parar iniciar o professor/orientador deverá apresentar aos alunos a


proposta da sequência didática, assim como, seus objetivos (geral e específicos)
e apontar a importância do gênero, para a formação escolar dos alunos. Em
seguida o professor deverá apresentar um exemplo de conto infanto-juvenil para
os alunos, ele poderá ler ou pedir para que algum aluno leia a narrativa. O Conto
a ser utilizado denomina-se: A Bailarina de Dega, da autora Tereza Lopes
(ANEXO 1).

Após apresentado do TEXTO à classe, o professor deverá iniciar uma


discursão dirigida acerca do conto e sua constituição. Com perguntas do tipo:
vocês gostam desse tipo de texto? Quais os personagens presentes nele? O
conto basicamente fala sobre o que? Vocês seriam capazes de contar uma
história como essa?

Então, o professor/orientador, deverá expor para os alunos a finalidade


desse plano de aula (sequência didática), que é a produção de um conto
individual que será efetuado e lido para a classe no módulo “PRODUÇÃO FINAL”,
com base nas leituras de contos infanto-juvenis. E esta produção deverá conter
todos os aspectos do gênero que será exposto e trabalhado nos módulos
seguintes.

Etapa 2: Produção inicial – Um contos em grupo

Os objetivos desta etapa são: a) que os alunos produzam um primeiro


conto; b) Observar as capacidade dos alunos e suas defasagens a fim de definir
os aspectos do gênero que serão mais aprofundados dos módulos seguintes; c)
Possibilitar uma reflexão geral sobre o gênero conto e seus aspectos por meio de
uma avaliação coletiva. Tal etapa se desdobrará em 90 min (2h/a)

A princípio o professor deverá pedir a classe que se dividam em grupos


(máximo 6) e ele irá pedir para que cada grupo escolha um tema dentre os
seguintes: Amizade , Dificuldades na Escola, Família, Responsabilidades. Em
seguida será orientado para que os grupos em conjunto desenvolvam uma
história dentro da temática escolhida.

Após a produção, os grupos deverão determinar um representante para


efetuar a leitura do texto frente a classe. O professor, então, determinará a ordem
dos grupos e em seguida dará início as apresentações.

Efetuada as apresentações, o professor convidará a classe para tecer


comentários quanto aos textos produzidos: O que vocês acharam das histórias
contadas? Será se tem como contar as mesmas histórias de melhor maneira? O
que ajudaria pra que a história de cada um ficasse ainda melhor? Vocês
conseguiram perceber a temática dos contos em cada texto que foi lido?

O professor deverá então elaborar comentários voltados para cada texto


produzido, apontando os aspectos mais interessantes e acertados frente ao
gênero tratado: o conto. Em seguida, o professor deverá dispor para a classe um
documento (de forma impressa ou escrita no quadro) que contenha um as
definições de conto, em específico, contos infanto-juvenis, bem como sua
estrutura básica convencional. Ver modelo no APÊNDICE 1.

Etapa 3: Construção de um Enredo


Esta etapa tem como objetivo principal que os alunos: a) Efetuem uma
leitura de contos com atenção a sua estrutura; b) reconheçam as categorias
Enredo - conflito, clímax, desfecho com parte estrutural do gênero estudado.
Tempo estimado para o desenvolvimento desta etapa: 90min. (2h/a)

O professor deverá pedir para a classe rever o conceito de “Enredo” que


consta no material disponibilizado (APÊNDICE 1). Em seguida deverá tirar
qualquer dúvida que possa existir sobre a ideia de Enredo. Na sequência deverá
ser entregue a turma dois contos 2 (dois) contos (infanto-juvenis) para que seja
efetuado a leitura, com os olhos voltados para o enredo da história. Os contos a
serem usados são: O sol e a Lua, de Terezinha Lopes e Inundação, de Mia
Couto (ANEXO 1).

Neste momento o professor deverá passar um exercício individual para a


classe. Esta atividade será dividida em duas partes (Parte 1 – questões voltadas
para a apreensão do enredo, Parte 2 – Questões que focam os momentos do
enredo: conflito, clímax e desfecho) e servirá para reconhecer se a turma
conseguiu ou não reconhecer o enredo da história. Material disponível no
APÊNDICE 2. Será disponibilizada apenas a Parte 1 do exercício nesse
momento.

Em seguida o professor explanará sobre o enredo do conto um,


analisando, juntamente com a turma, suas etapas: Conflito, clímax e desfecho.
Com base no disposto no APÊNDECE 1. Em seguida pedirá para que os alunos
executem a Parte 2 do Exercício. O professor irá fazer a correção dos exercícios
e tirar alguma dúvida que restarem.

Efetuado o Exercício o professor irá pedir para que os alunos elaborem


sinteticamente um Enredo de conto que determinando qual será o Conflito, o
momento clímax e o desfecho. Tal enredo deverá ser usado para compor o conto
no Módulo “PRODUÇÃO FINAL”.

Etapa 4: As personagens no tempo e espaço

Os objetivos desta etapa são basicamente fazer com que os alunos: a)


reconheçam quais são os personagens de um conto; b) percebam como se
constrói o tempo e o espaço dos fatos apresentados na narrativa. Tempo
estimado: 90min (2h/a).

Para iniciar esta etapa o professor deverá apresentar os conceitos de


Personagens, tempo e espaço para a classe (APÊNDICE 1) em seguida
apresentar 2 (dois) novos contos (infanto-juvenil) para a classe. Os contos a
serem usados nesse momento serão: O adiado avô, de Mia Couto e O
soldadinho do saco às costas, de Terezinha Lopes (ANEXO1). A classe deverá
ler os contos com os olhos voltados para as personagens, bem como onde e
quando se passa a narrativa.

O professor deverá juntamente com a classe descrever quais os


personagens que aparecem no conto 1 – O adiado avô, em seguida determinar
como se faz para reconhecer onde e quando se passa as histórias
contadas/narradas, para assim demonstrar como o autor efetuou em seu conto.

Na sequência o professor irá apresentar a turma uma lista de exercício que


promova a análise dos personagens, do tempo e do espaço presente na narrativa
do 2 conto (APÊNDICE 2). Depois de efetuado o exercício, pela turma, o
professor deverá corrigi-los e tirar aproveitar para sanar dúvidas que ainda podem
existir. Em seguida será aberto um debate sobre o sentido do conto: sobre o que
o conto trata? O que foi mais interessante nesse conto? Foi difícil a leitura? Qual
momento não foi compreendido?

Corrigido o exercício o professor deverá propor que os alunos criem uma


determinada cena para compor o conto para qual foi criado o enredo na aula
passada, nesta cena deverá constar a presença da(s) personagem(s), bem como
a determinação do local e do tempo em que se passa a história narrada. Será
interessante se os alunos criem o parágrafo inicial de seus contos.

Após a criação das cenas o professor irá fazer a leitura e sugerir prováveis
correções aos alunos, depois fazer considerações quanto as categorias
personagens, tempo e espaço ao fim da aula, para sanar dúvidas que ainda
persistirem.

Etapa 5: Da narração ao diálogo


Esta etapa tem como objetivos provocar os alunos para que eles: a)
compreensão a função do narrador; b) reconheçam os tipos de narradores; c)
saibam como construir diálogos entre as narrativas. Tempo estimado: 90min
(2h/a).

O professor deverá usar 2 dos contos anteriores para analisar a presença


do narrador juntamente com a classe, com base aso conceitos do APÊNDICE 1.
Em seguida pedirá para que os alunos reconheçam os tipos de narradores dos
outros contos. Na sequência o professor deverá fazer as devidas correções dos
exercícios.

Em seguida o professor irá apresentar como os autores fazem para


iniciarem diálogos entre as narrativas. Na sequência o professor deverá pedir
para que os alunos identifiquem nos contos lidos trechos que contenham diálogos
para em seguida compartilharem em sala.

O professor, então, pedirá para que os alunos criem cenas com diálogos
que façam parte ou não dos contos a qual foi criado o enredo. Será, em segunda,
efetuado a avaliação pelo professor dos trechos criados em sala pela classe.
Depois disso o professor pode aproveitar para tirar dúvidas sobre a criação de
diálogos em narrativas.

Etapa 6: Produção final – Criando um conto

Tal etapa representa o encerramento das atividades desenvolvidas nos


módulos e etapas anteriores. E tem como objetivos: a) produzir e apresentar
conto conforme as orientações trabalhadas; b) discutir e avaliar os contos criados
e c) Avaliar o que foi apreendido pelos alunos ao longo da sequência. Tal etapa
se desenvolverá em 2h 15 min (4h/a)

O professor/orientador deverá apresentar os objetivos desta etapa, bem


como pedir para que os alunos tomem mão dos materiais anteriormente
produzindo em sala para usarem como suporte para a produção de sues contos,
individualmente. Os contos poderão tratar qualquer assunto.

Após a produção o professor organizará a apresentação das narrativas na


ordem alfabética dos nomes do alunos. As apresentações serão para toda a
classe, que poderão tentar reconhecer as categorias estudadas nos textos dos
colegas.

Depois de efetuados todas as apresentações dos textos, o professor irá


iniciar uma discursão/avaliação sobre as apresentações. Tal avaliação, será
efetuada com base nos aspectos estudados em cada módulo.

Ao fim das discursões, o professor dará suas considerações finais sobre o


desenvolvimento da turma, quanto ao gênero e em seguida, perguntará para a
turma se tal sequência didática sobre a produção de contos foi ou não benéfica ao
aprendizado da turma, com perguntas do tipo: vocês se sentem agora capazes
para uma leitura mais clara de contos? Que parte dessa sequência didática foi
mais interessante para vocês? Vocês se sentem mais capazes de produzirem
narrativas?

Etapa 7: Desdobramento

Os objetivos de tal etapa são: a) Retomar em outros momentos os


aspectos trabalhados ao longo da sequência; b) Aprofundar o tema tratado ou
explorado de outras formas; c) avaliar novas produções.

O professor/ orientador irá propor a apresentação dos contos produzidos


em sala, devidamente corrigidos pelo professor, para outros públicos que não
sejam a classe. Para tanto, o professor deverá organizar um momento para
divulgar as produções para novos públicos, como por exemplo, em eventos
científicos, momentos culturais, entre outros. Uma ótima opção é a produção de
um livro de contos para compor o acervo de livros da escola.

4. RECURSOS DIDÁTICOS
- Quadro Branco
- Pincel
- Textos impressos

5. AVALIAÇÃO
O professor deverá avaliar os alunos com base na participação – total máximo
10 ponto; efetuação satisfatória dos exercícios proposto – total máximo 10 ponto -
e a produção final de um conto individual, contendo todos os aspectos
previamente estudados – total máximo10 pontos. Será somado os pontos totais
de cada aluno e dividido por 3, resultando assim na média final.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABDON, Iaci de Nazaré Silva; PESSOA, Fátima Cristina da Costa .
Compreensão e produção de textos. Belém, EDUFPA, 2008 v.4

ARROYO,Leonardo.Literatura infantil brasileira. São Paulo: Melhoramentos,1988.


Brasil. Secretaria de Educação Fundamental.Parâmetros curriculares nacionais :
terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa/ Secretaria de
Educação Fundamental. – Brasília :MEC/SEF, 1998
DOLZ, Joaquim e SCHNEUWLY, Berard. O oral como texto: como construir um
objeto de ensino. In: DOLZ, Joaquim e SCHNEUWLY, Bernard (orgs.). Gêneros
orais e escritos na escola. Campinas. Mercado de Letras, 2004. Brasil.
Secretaria de Educação Fundamental.
EAD / Elaboração de conteúdo: Sandra Maria Pereira do Sacramento, Inara de
Oliveira Rodrigues. Literatura infanto-juvenil: pedagogia – módulo 5, vo-lume 1,.
[Ilhéus, BA]: EDITUS, 2011.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In:
DIONISIO, Angela Paiva (Org.) Gêneros textuais e ensino. 2 ed. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2002.
Matheus, Claudia Cristina Zaros Lessa; Silva, Carlos da. LEITURA LITERÁRIA
DE CONTOS INFANTO- JUVENIS. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ -
UNESPAR.TERRA RICA, 2012.
O conto. Disponível em:
<https://portuguesemdestaque.blogspot.com/p/contos.html>
Siginificado de conto.Disponível em: <https://www.significados.com.br/conto/>
SILVA,Ezequiel T. Da.O ato de ler: fundamentos psicológicos para uma nova
pedagogia da leitura.São Paulo: Cortez,1981.
Texto narrativo. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/texto-narrativo/>
ANEXOS
ANEXO 1 – CONTOS INFANTO-JUVENIL

A Bailarina de Dega – TEREZINHA LOPES


A casa era grande e tinha um jardim. Para lá do jardim ficava o bosque de árvores imensas que se estendiam até não
poderem ser mais vistas, por entre caminhos traçados sob as folhas do Outono.
Telma adorava passear-se pelo bosque. Corria pelos caminhos, inventava outros atalhos e tentava passos de dança,
braços ondulando ao sabor de melodias imaginadas.
Ser bailarina era um sonho só seu. Desde que descobrira, na biblioteca, um livro com reproduções de quadros célebres,
e, nas suas páginas, umas pinturas de bailarinas, a ideia que até então lhe passara vagamente em seus pensamentos
tornou-se numa vontade constante, doentia. Por isso se dividia Telma entre os passeios pelo bosque e as visitas à
biblioteca.
As grandes prateleiras repletas de livros tinham-na assustado, no início. Alguns deles eram antigos e cheiravam a pó.
Outros eram mais novos e as suas capas despertavam a curiosidade da menina, que, por não saber ainda ler bem, se
entretinha a olhar as figuras e a tentar descobrir o que estava lá dentro.
Foi numa tarde chuvosa de Novembro que Telma descobriu o livro das bailarinas. Na grande capa colorida, um nome que
ela soletrou: D-e-g-a-s.
Telma soube, anos mais tarde, que tinha sido um grande pintor francês, do séc. XIX e que o seu nome se pronunciava
como se a letra e tivesse um acento circunflexo. Na altura, não queria a menina saber daquele nome, que nada lhe dizia.
Só queria ver as figuras e mais figuras e a todas despia com os olhos ávidos de cor, de movimento e de sinfonias cada
vez mais triunfais.
Esperava a hora da sesta. Fingia que dormia. E em passos de algodão escondia-se na biblioteca, entre a porta
envidraçada que dava para o bosque e o grande reposteiro de veludo carmesim.
De todos os quadros, o que mais a fascinava era um que tinha otítulo de Bailarina com ramo de flores. Telma entrava
então naquele cenário e juntava-se ao corpo de baile. Vestia o fato em tons de amarelo esbatido, saia de tule querendo
voar, sapatinhos de ponta cor de rosa e um ramo de flores na mão, o aroma do campo no ar quieto daquela sala.
E Telma bailava, bailava, esvoaçava pelo meio das outras bailarinas, tentando imitar os passos que elas davam,
erguendo-se na ponta dos pés até mais não poder, até a dor ser mais forte que a vontade.
No fim do espectáculo, agradecia ao público que só ela via e que só a ela aplaudia. Depois, quando se apanhava de novo
no bosque, erguia-se quanto podia nas pontas dos seus sapatos de cetim e largava o sonho que escondia no peito. E
imaginava-se pintura em movimento num quadro de Degas. Ainda hoje ninguém entende, naquela casa, por que razão
fugia Telma tanto para o bosque. Também ninguém nunca entendeu o que fazia, no quarto de Telma, um grande ramo de
flores campestres, eternamente frescas, pousado sobre a sua mesa de cabeceira. Nem um par de sapatos de bailarina
que pendia, em laços de cetim esbatidos pelo tempo, da cabeceira de sua cama.

O SOL E A LUA – TEREZINHA LOPOES


Nunca ninguém diria, quando o Sol e a Lua se conheceram, que seria um caso de amor à primeira vista. Mas a verdade é
que assim foi.
Ainda o mundo não era mundo e já os dois trocavam olhares de enlevo, já os dois se iluminavam como candeias acesas
na escuridão do universo.
Quando, de uma enorme explosão cósmica, a Terra surgiu, logo o Sol e a Lua decidiram velar por aquele pedaço de
matéria, que não era mais do que uma massa disforme e sem vida.
O Sol encarregou-se de tratar dos solos. E não tardou que altas montanhas se erguessem, que árvores frondosas
enfeitassem os vales e que planícies infindáveis se fizessem perder no olhar.
Depois nasceram as pedras e sempre soube o Sol colocá-las no local preciso: ora no cimo dos montes escarpados, ora
dispersas, salpicando o solo fértil das terras planas, até se tornarem areia fina, escondida sob os leitos silenciosos dos
rios.
À Lua coube a tarefa de criar as águas. Águas profundas que dividiram grandes pedaços da Terra e águas mais serenas
que desciam das montanhas e se alongavam pelas planícies.
Tudo perfeito. Mas acharam, o Sol e a Lua, que alguma coisa faltava naquele mundo à medida. E como sempre se
haviam entendido, a novas tarefas se propuseram.
Assim surgiram animais de toda a espécie: grandes, pequenos, uns mais dóceis, outros mais atrevidos, uns que
caminhavam pelo chão, outros que se aventuravam pelos ares e ainda outros que só habitavam o reino das águas.
Agora, sim. Todos viviam em harmonia: o mundo do Sol e o mundo da Lua. E eles continuavam cada vez mais
enamorados.
O Sol aquecia a Terra e dava-lhe a vida. A Lua embalava-a e dava-lhe sonhos repousantes e noites lindas, tão claras que
até pareciam dia.
Mas ― todas as histórias têm um se não ― certa altura em que Sol e Lua andavam entretidos nas suas tarefas,
vislumbraram, bem lá no meio de uma planície, uma espécie de animal que não se lembravam de ter colocado onde quer
que fosse.
Não voava, não nadava, nem andava de quatro patas. Pelo contrário, erguia-se como o pescoço de uma girafa e parecia
querer ser o rei dos animais.
Decidiram vigiá-lo, não fosse ele perturbar o encanto daquele mundo. Vigiaram dia e noite, noite e dia, sem interferir. E,
ao longo dos séculos, no correr dos milénios, não gostaram do que viram.
―Então que faz ele às árvores que eu ergui? ― interrogava-se o Sol.
―E que faz ele das águas que eu pus a correr? ― indignava-se a Lua.
De comum acordo combinaram assustá-lo. Mandaram fortes raios de luz sobre a Terra, mas o animal protegeu-se em
quantas sombras havia. Mandaram trombas de água infindáveis, mas ele fechou-se no seu covil e de lá não saiu
enquanto os rios não voltaram ao normal.
E tudo o que Sol e Lua puderam fazer não foi suficiente para parar aquela espécie, que ainda hoje habita um planeta
chamado Terra e de quem diz ser seu legítimo dono. Vocês já ouviram falar dele?
Pois nunca esse bichinho reparou no trabalho do Sol, nem no labor da Lua. Nem em quanto eles são apaixonados um
pelo outro. Nem em quanto eles querem bem a esse planeta perdido na imensidão do Universo.
E é por tudo isto que vos contei, acreditem, que a Lua tem aquele ar sempre tão triste, quando, nas noites em que está
cheia, ela nos olha sempre como num queixume.
E é também por causa disso que o Sol por vezes se esconde atrás de nuvens sombrias: vai buscar conforto à Lua e
lembrar-lhe, sim, que nunca é de mais lembrar, o quanto ele é apaixonado por ela.

INUNDAÇÃO – MIA COUTO


Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente.
Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de
nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.
A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e
verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se
escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos
meninos para sempre.
Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego.
Mão em mão, ficamos à porta do quarto dela.
Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:
- Vosso pai já não é meu.
Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos
nvelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara.
Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem
pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo.
- E agora - disse a mãe -, olhem para estas cartas.
Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha màe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda
a tinta se desbotara.
- Ele foi. Tudo foi.
Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava, numa dessas
invisíveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume.
- Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas.
- Durma na cama, mãe.
- Não quero. Que a cama é engolidora de saudade.
E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único troféu de sua vida. Não tinham passado
nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava
pressentimental, incapaz de me guardar no leito. Fui ao quarto dos meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até
à cabeça.
Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente.
- Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai.
- Meu pai?
- Seu pai esta aqui, muito comigo.
Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se
de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar.
- Como eu o chamei, quer saber?
Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. Mas ela cantara, sem parar, desde que ele
saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia:
- Talvez uma minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo.
No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra.
Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada
deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfunavam os vestidos,
cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de
meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo.
Porque eu, secretamente, sabia a resposta.
Saí no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali
me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca
ficaria longe
daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um
rio que tudo inundava.

O ADIADO AVÔ – MIA COUTO


Nossa irmã Glória pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, exceto o nosso velho, Zedmundo
Constantino Constante, que recusou ir ao hospital ver a criança. No isolamento de seu quarto hospitalar, Glória chorou
babas e aranhas. Todo o dia seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença de nosso pai seria a bênção, tão
esperada quanto o seu próprio recém-nascido.
- Ele há-de vir, há-de vir.
Não veio. Foi preciso trazerem o miúdo a nossa casa para que o avô lhe passasse os olhos. Mas foi como um olhar para
nada. Ali no berço não estava ninguém. Glória reincidiu no choro. Para ela, era como sofrer as dores de um aborto
póstumo. Suplicou a sua mãe Dona Amadalena. Ela que falasse com o pai para que este não mais a castigasse. Falasse
era fraqueza de expressão: a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer.
O menino disse as primeiras palavras e, logo, o nosso pai Zedmundo desvalorizou:
- Bahh!
Contrariava a alegria geral. À mana Glória já não restava sombra de glória. Suspirou, na santa impaciência. Suspiro tão
audível, que o velho se obrigou a destrocar:
- Aprender a falar é fácil. Com o devido respeito de vossa mãe. Que não é muda. Só que a voz lhe está adormecida.
Nossa mãe - agora, a tão assumida avó Amadalena - sacudiu a cabeça. O homem sempre acinzentava a nuvem. Mas
Zedmundo, no capítulo das falas, tinha a sua razão: nós, pobres, devíamos alargar a garganta não para falar, mas para
melhor engolir sapos.
- E é o que repito: falar é fácil. Custa é aprender a calar.
E repetia a infinita e inacabada lembrança, esse episódio que já conhecíamos de salteado. Mas escutamos, em nosso
respeitoso dever. Que uma certa vez, o patrão português, perante os restantes operários, lhe intimou:
- Você, fulano, o que é que pensa?
Ainda lhe veio à cabeça responder: preto não pensa, patrão. Mas preferiu ficar calado.
- Não fala? Tem que falar, meu cabrão.
Curioso: um regime inteiro para não deixar nunca o povo falar e a ele o ameaçavam para que não ficasse calado. E aquilo
lhe dava um tal sabor de poder que ele se amarrou no silêncio. E foram insultos. Foram pancadas. E foi prisão. Ele entre
os muitos cativos por falarem de mais: o único que pagava por não abrir a boca.
- Eu tão calado que parecia a vossa mãe, Dona Amadalena, com o devido respeito...
Meu velho acabou a história e só minha mãe arfou a mostrar saturação. Dona Amadalena sempre falara suspiros. Porém,
em tons tão precisos que aquilo se convertera em língua. Amadalena suspirava direito por silêncios tortos. Os dias
passaram mais lestos que as lembranças. Mais breves que as lágrimas de nossa irmã Glória. O neto cumpriu o primeiro
aniversário. Nesse mesmo dia, deu os primeiros passos. Houve palmas, risos, copos erguidos. Todos poliram júbilo
menos Zedmundo, encostado em seu próprio corpo.
- Não quero aqui essa gatinhagem, ainda me parte qualquer coisa. Levem-no, levemno... Meu pai não terminou a
intimação. Amadalena suspendeu-lhe a palavra com esbracejos, somados ao seu cantar de cegonha. O marido, surpreso:
- Que é isto, mulher? Já a formiga tem guitarra?
A mulher puxou-o para o quarto. Ali, no côncavo de suas intimidades, o velho Zedmundo se explicou. Afinal, ele sempre
dissera: não queria netos. Os filhos não despejassem ali os frutos do seu sangue.
- Não quero cá disso. Eu não sou avô, eu sou eu, Zedmundo Constante.
Agora, ele queria gozar o merecido direito: ser velho. A gente morre ainda com tanta vida!
- Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos
roubarem a regalia de sermos nós.
E ainda mais se explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiamos o ser porque fomos pais.
Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós.
A avó ameaçou, estava farta, cansada. Desta vez, dada a quentura do assunto, Amadalena preferiu escrevinhar num
papel. Em letra gorda, ela decretou: ou o marido se abrandava ou tudo terminava entre eles. Ele que saísse, procurasse
outro lugar. Ou
era ela mesma que se retirava. O velho Zedmundo Constante respondeu, sereno:
- Amadalena, teu nome cabe na palma do meu coração. Mas eu não vou mudar. Se o meu tempo é pouco, então vou
gastá-lo com proveito.
Não saiu ele, nem ela. Quem se mudou foi Glória. Ela e o marido emigrados na cidade. E com eles o menino que era o
consolo de nossa mãe. Ela mais emudeceu, em seu já silencioso canto.
Não passaram semanas, nos chegou a notícia - o genro falecera na capital. Nossa irmã, nossa Glorinha perdera o juízo
com a viuvez. Internaram-na, desvalida como mulher, desqualificada como mãe. E o menino, mais neto agora, chegava
no primeiro
machimbombo. O menino entrou e meu pai saiu. Enquanto se retirava, já meio oculto no escuro
ainda disse:
- Tudo o que você não falou, está certo, Amadalena, mas eu não aguento.
O nosso pai saiu para onde? Ainda nos oferecemos para o procurar. Mas a mãe negou que fôssemos. O velho Zedmundo
nunca tivera nem rumo certo nem destino duradouro.
O homem era mais falso que um teto. Voltou dias depois, dizendo-se agredido por bicho feio, quem sabe hiena, quem
sabe um bicho subnatural? Surgiu na porta, ficou especado. Ali naquela moldura feita só de luz se confirmava: porta fez-
se é para homem
sair e mulher estreitar o tempo da espera. Meu velho emagrecera abaixo do tutano, e em seus olhos rebrilhavam as mais
gordas lágrimas. Amadalena se assustou: Zedmundo estreava-se em choro. Seu marido perdera realmente o fio de
aprumo, sua alma se havia assim tanto desossado?
Depois, toda ela se adoçou, maternalmente. E se aproximou do marido, acatando-o no peito. E sentiu que já não era
apenas o espreitar da lágrima. O seu homem se desatava num pranto. Vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe
entendia que o
velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção.
Conduzindo-o pela mão, minha mãe o fez entrar e lhe mostrou o neto já dormindo. Pela primeira vez, meu pai contemplou
o menino como se ele acabasse de nascer. Ou como se ambos fossem recém-nascidos. Com desajeitadas mãos, o velho
Zedmundo levantou o bebé e o beijou longamente. Assim demorou como se saboreasse o seu cheiro.
Minha mãe corrigiu aquele excesso e fez com que o miúdo voltasse ao quente do colchão. Depois o meu pai se enroscou
no desbotado sofá e minha mãe colocou-se por detrás dele a jeito de o embalar em seus braços até que ele
adormecesse.
Na manhã seguinte, ainda cedo, encontrei os dois ainda dormidos: meu velho no sofá e, a seu lado, o adiado neto. Minha
mãe já tinha saído. Dela restara um bilhete rabiscado por sua mão. Não resisti e espreitei o papel. Era um recado para
meu pai.
Assim: “Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.”
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido.
Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já se tinha esquecido: afinal, meu pai
nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho.
“Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos sós,
mais avós.”
Dobrei o bilhete e o deixei no tampo da mesa. Esperei na varanda que minha mãe chegasse. Eu sabia que ela tinha ido
buscar minha irmã Glória. Antes, eu jurara contar esta história a minha irmã. Mas agora, lembro as palavras de meu pai
sobre o aprender a calar. E decido que nunca, mas nunca, contarei isto a ninguém. Minha mãe, que é muda, que conte.

O SOLDADINHO DO SACO ÀS COSTAS - TEREZINHA LOPES


Tolentino Esteves da Silva nasceu, por assim dizer, soldado. Na noite em que veio ao mundo, seu pai logo profetizou: um
rapagão assim só pode servir nosso mestre e nossa pátria. Não podiam ser para ele os rebanhos que a família guardava
havia séculos, nem o amanho da terra que a alimentava. Destino maior teria Tolentino e assim estava decidido.
Quando completou dezoito anos, o pai mandou-o inscrever-se no exército, conforme prometera à sua nascença. E poucos
meses volvidos chegou a carta que mandava Tolentino apresentar-se no quartel mais próximo.
A mãe juntou-lhe alguma roupa, um pedaço de presunto, meia dúzia de chouriças, um naco de pão e enfiou tudo num
saco. Lágrima de mãe no canto do olho, disse-lhe que fosse em paz e pediu-lhe que nunca se esquecesse dela.
O pai, esse estava orgulhoso. Tinha, finalmente, chegado o dia de mostrar àquela aldeia, que ficava nos confins da serra,
que dali também partiam homens guerreiros, como sempre ouvira dizer que tinham sido seus antepassados. Por isso
ninguém lhe viu uma lágrima que fosse, embora elas estivessem todas a correr para dentro do peito e a magoarem-lhe a
alma.
Dois dias e duas noites foi quanto Tolentino levou a chegar ao quartel. Apresentou-se, deram-lhe uma farda, uma arma,
um número para pôr ao pescoço e disseram-lhe:
―Tens que obedecer aos teus superiores. Fazer tudo que te mandam, ouviste bem?
Sim, senhor, que bem ouvira e que bem entendera. Que tudo faria a gosto de suas senhorias. Pois não era para isso que
ali estava?Depressa passou o tempo da recruta. Tolentino, bem mandado e forte como era, foi considerado um dos
melhores. E que orgulhoso que ele estava. Não podia esperar mais pela hora de ir para a guerra, lutar contra o inimigo.
―Onde está ele, meu capitão? Onde fica a guerra, meu sargento? Quero ver a cara desse malandro já, meu cabo!
Os três entreolharam-se, admirados. Tanto empenho e tanta dedicação daquele soldado durante a recruta deviam ter-lhe
afectado o pensar. E depois de uns segundos de silêncio, disse o capitão a Tolentino:
―A guerra acabou, bom homem. Tu, bravo soldado, mataste o inimigo.
―Mas como, se nunca eu vi a cara do safado?!
―Pois tu não sabes como o inimigo era esperto? Como ele se escondia atrás de cada colina por onde andaste? Entre os
barcos que alvejavas escondido no pinhal? No meio das nuvens para onde descarregavas a tua arma?
Ainda incrédulo, Tolentino teve de se render às evidências. E, sempre bem mandado, lá arrumou o seu saco, pô-lo às
costas e
regressou a casa, bem no alto de uma serra, não sem antes ter feito um pequeno desvio.
Foi dia de festa quando o avistaram. A mãe deu-lhe um grande abraço, o pai, esse fez-se de forte e para que todos da
aldeia ouvissem, perguntou-lhe:
―Então, meu filho, que tal a guerra? Que é do inimigo?
―Saiba meu pai e toda esta gente, para vosso descanso, que a guerra acabou e que o inimigo jaz no campo de batalha.
E fui eu, Tolentino Esteves da Silva, que pus fim a tudo. Assim disseram o meu capitão, o meu sargento e o meu cabo.
Todos pasmaram com tamanha bravura e logo quiseram saber pormenores.
Tolentino tirou o saco das costas, meteu a mão com muito cuidado por um pequeno orifício da abertura e mostrou para
que vissem bem e nunca mais esquecessem:
―Aqui está um pedaço de erva de uma colina onde o inimigo se escondia. Esta madeira são restos de um barco que
afundei.
E abrindo completamente o saco, soltou-se no ar um nevoeiro espesso e húmido que a todos assustou.
―Não temais, sossegou Tolentino, neste pedaço de nuvem jazem em pó os restos mortais do último inimigo deste país.
O nevoeiro dispersou-se no ar e quanto mais subia mais os habitantes da aldeia erguiam as suas cabeças.
O silêncio pesava quando Tolentino Esteves da Silva juntou a erva e o pedaço de madeira e os meteu de novo no saco.
Pegando na enxada de seu pai começou a subir o monte e, voltando-se para todos,
esclareceu:
―Vou ao pico mais alto da serra enterrar estes despojos da guerra. Nunca vi a cara do inimigo, mas também ele merece
paz e descanso. Amanhã, meu pai,... amanhã tratamos da sementeira. Amanhã.
E continuou a subida, curvado, como se no saco que sentia tão pesado, estivessem os restos mortais do feroz inimigo que
ele nunca vira e que tanto atormentara o sono merecido da gente daquelas paragens.

APÊNDICES 1- Texto de apoio

A narrativa

Texto narrativo é um tipo de texto que esboça as ações de personagens num determinado tempo e espaço.
Geralmente, ele é escrito em prosa e nele são narrados (contados) alguns fatos e acontecimentos. Alguns
exemplos de textos narrativos são: romance, novela, conto, crônica e fábula.

O Gênero Conto
Todo texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas, como parte
das condições de produção dos discursos, as quais geram usos sociais que os determinam. Os gêneros
são, portanto, determinados historicamente, constituindo formas relativamente estáveis de enunciados,
disponíveis na cultura. São caracterizados por três elementos:
• Conteúdo temático: o que é ou pode tornar-se dizível por meio do gênero;
• Construção composicional: estrutura particular dos textos pertencentes ao gênero;
• Estilo: configurações específicas das unidades de linguagem derivadas, sobretudo, da posição
enunciativa do locutor; conjuntos particulares de seqüências que compõem o texto etc. (BRASIL, p.21)

Conto é um gênero textual marcado pela de narrativa curta, escrita em prosa e de menor complexidade em
relação aos romances.
A origem dos contos está relacionada à tradição de contar histórias de forma verbal. Quando transcritas,
essas mesmas histórias (que geralmente seguem uma trama única) resultam em uma narrativa concisa que
pode ser lida em pouquíssimo tempo.
O termo conto pode ser traduzido para a língua inglesa como "tale", um tipo de texto curto que aborda,
necessariamente, temas épicos, folclóricos ou fantasiosos. Por esse motivo, o conceito de conto
permaneceu, por muito tempo, relacionado a estes temas.
Com o surgimento de novas técnicas e estilos de escrita, o termo adquiriu um sentido mais amplo que pode
ser expresso na língua inglesa como "short story", um texto cujos únicos traços obrigatórios são a curta
extensão e a escrita em prosa.

O conto infanto-juvenil

"[...] a literatura infanto-juvenil surgiu no séc. XVIII, a parti da apropriaçao, por meio da escrita, de
manifestações populares expressadas oralmente, que anharam tratamnto literário e adequações ao público
mirim por meio da inserção de questões de fundo moral e pedagógico. E o rastro da oralidade ainda hoje
marca o rol de gêneros voltados ao leitor inganto-juvenil, a exemplo das cantigas, parlendas, quadras,
adivinhas, lendas, contos folclóricos." (FERREIRA 2018, p.11)

Estrutura do conto

• Apresentação: também chamada de introdução, nessa parte inicial o autor do texto apresenta os
personagens, o local e o tempo em que se desenvolverá a trama.
• Desenvolvimento: aqui grande parte da história é desenvolvida com foco nas ações dos
personagens.
• Clímax: parte do desenvolvimento da história, o clímax designa o momento mais emocionante da
narrativa.
• Desfecho: também chamada de conclusão, ele é determinado pela parte final da narrativa, onde a
partir dos acontecimentos, os conflitos vão sendo desenvolvidos.
Elementos da Narrativa
• Narrador - é aquele que narra a história. Dividem-se em: narrador observador, narrador
personagem e narrador onisciente.
• Enredo - trata-se da estrutura da narrativa, ou seja, a trama em que se desenrolam as ações. São
classificados em: enredo linear, enredo não linear, enredo psicológico e enredo cronológico.
• Personagens - são aqueles que compõem a narrativa sendo classificados em: personagens
principais (protagonista e antagonista) e personagens secundários (adjuvante ou coadjuvante).
• Tempo - está relacionado com a marcação do tempo dentro da narrativa, por exemplo, uma data ou
um momento específico. O tempo pode ser cronológico ou psicológico.
• Espaço - local (s) onde a narrativa se desenvolve. Podem ocorrer num ambiente físico, ambiente
psicológico ou ambiente social.

Tipos de Narrador

Os tipos de narrador, também chamado de foco narrativo, representam a "voz textual" da narração, sendo
classifcados em:
• Narrador Personagem - a história é narrada em 1ª pessoa onde o narrador é um personagem e
participa das ações.
• Narrador Observador - narrado em 3ª pessoa, esse tipo de narrador conhece os fatos porém, não
participa da ação.
• Narrador Onisciente - esse narrador conhece todos os personagens e a trama. Nesse caso, a
história é narrada em 3ª pessoa. No entanto, quando apresenta fluxo de pensamentos dos personagens, ela
é narrada em 1ª pessoa.
Tipos de Discurso Narrativo
• Discurso Direto - no discurso direto, a própria personagem fala.
• Discurso Indireto - no discurso indireto o narrador interfere na fala da personagem. Em outras
palavras, é narrado em 3ª pessoa uma vez que não aparece a fala da personagem.
• Discurso Indireto Livre - no discurso indireto livre há intervenções do narrador e das falas dos
personagens. Nesse caso, funde-se o discurso direto com o indireto

Características do conto

A atual variedade literária permite que um conto se apresente de diversas formas. Como dito acima, as
únicas características absolutas do estilo é a escrita em prosa e a narrativa curta, portanto, um conto pode
seguir qualquer gênero ou estrutura sem que isso implique na sua classificação.

No entanto, como consequência natural da narrativa curta, os contos apresentam alguns elementos que,
independente do gênero e estrutura escolhidos pelo autor, acabam sendo recorrentes:
• Enredo único: ao contrário de romances, os contos tendem a focar em um enredo que não se
desdobra em tramas menores. Muitas vezes a história gira em torno de uma única situação.
• Simplicidade: devido ao enredo único, os contos não costumam exigir grandes interpretações por
parte do leitor.
• Curto espaço de tempo: os contos costumam apresentar tramas que não se estendem por longos
períodos. É comum, por exemplo, que a história se passe em um só dia.
• Início próximo ao fim: geralmente os contos não dedicam tempo na introdução do ambiente e dos
personagens, por isso, a história se inicia próxima ao clímax e ao desfecho.
• Poucos personagens: por serem mais objetivos, contos costumam apresentar um número bem
reduzido de personagens.
• Final súbito: em contos, é normal que o fim aconteça imediatamente depois do clímax. Não há,
portanto, uma fase da história em que podemos acompanhar as consequências da resolução do conflito.
• Objetivo único: por não possuir desdobramentos, o conto busca causar um sentimento único no
leitor (alegria, indignação, melancolia, etc) ou, simplesmente, contar uma história.
Essas características fazem com que o conto seja o gênero textual perfeito para conteúdos voltados ao
público infantil, especialmente contos de fada. Vale esclarecer que estes elementos não são obrigatórios e a
ausência de um ou mais deles não desqualifica o texto como conto.

Dicas para escrever um conto

• Evite ser prolixo. Economize na quantidade de personagens, nas descrições, na complicação da


trama. Evite os rebuscamentos, adjetivações e clichês. Cuidado com a repetição de palavras.
• Use a ironia e o humor fino, quando possível.
• Se o conto é dramático, tome cuidado com o exagero e a pieguice (sentimentalidade excessiva).
• Seja verossímil. Evite contradições no comportamento de seus personagens e no
desenvolvimento da história. Lembre-se, no entanto, que a verossimilhança não significa prender-se à
realidade.

Como iniciar um diálogo em uma narrativa

Para se iniciar um diálogo em um texto narrativo é necessário se obedecer regras gramaticas. Quando se
indica em uma cena que o personagem irá falar necessita-se do uso de dois ponto ( : ) em seguida iniciar a
fala da personagem no parágrafo seguinte posterior a um travessão ( - ). Pode-se tecer comentários no
intercurso da fala dos personagens, para tal o autor deverá faze-lo entre travessões (Ex: - Fala do
personagem – comentário – fala do personagem)

APÊNDICE 2 – EXERCÍCIO ENREDO

Exercício - Inundação
PARTE 1
1- Qual a relação que há entre a reflexão do narrador no início do conto
e a narração dos fatos que se sucedem?
(R: A reflexão do narrador tem revela a existência do rio que inunda a
casa do personagem-narrador)
2- De fato o que aconteceu na história narrada? ( o narrador-personagem
acompanhava as lamurias de sua mãe que sentia saudade de seu pai
numa noite ele então se espanta com o bilhete que ele havia queimado
estar novamente no lugar dele, o criança sai da casa e ver sua casa se
inundada pelo rio)
3- Quem narra a história? (uma criança)
PARTE 2
4- Em que momento pode-se perceber um fato que dá início ao conflito
do conto? Destaque o trecho. (R: no momento em que a mãe da criança
declara que seu pai não era mais dela, lamentando a sua possível morte,
ou partida, como podemos ver nesse trecho, “-Vosso pai já não é meu.”
5- Em que parte do texto chega a seu clímax? (R: O clímax do conto se dá
no momento em que a criança percebe que por mágica uma carta que
havia sido destruída volta ao seu lugar)
6- Há desfecho no conto? Justifique. (R: Há sim, desfecho para o conto,
após o menino ver a carta de namoro de sua mãe, ele sai de sua casa e
ela é inundada pelo rio/ tempo)

APÊNDICE 3 – PERSONAGEM NO TEMPO E ESPAÇO

Exercício - soldadinho do saco às costas


1- Quais e quantos personagens são possíveis identificar no conto
“Soldadinho do saco às costas? (R: Tolentino Esteves da Silva; o Pai
de Tolentino, A mãe de Tolentino, O Capitão; o cabo.)

2- Indique qual é o personagem principal do conto? Justifique sua


resposta. (R: O Toletino Esteves da Silva, pois toda a história gira em
torno de sua vida como soldado que matara um inimigo que nunca viu)
3- Identifique no texto trecho que indique o local onde se passa a
história. (R: A história se passa em uma serra e se desdobra em um
quartel; como podemos notar nos seguintes trechos: "Tinha, finalmente,
chegado o dia de mostrar àquela aldeia, que ficava nos confins da serra [...]";
"Dois dias e duas noites foi quanto Tolentino levou a chegar ao quartel."; "―Vou
ao pico mais alto da serra enterrar estes despojos da guerra."

4- Existe expressões que apontem a ideia de tempo no conto?


Justifique sua resposta com trechos do conto. (R: Existe uma
linearidade no tempo da história narrada: O nascimento de Toletino - Na
noite em que veio ao mundo, seu pai logo profetizou [...]; em seguida a
sua ida ao quartel: “Quando completou dezoito anos, o pai mandou-o
inscrever-se no exército [...]” ; depois Toletino voltou para casa e vai
enterrar seu inimigo.