Você está na página 1de 12

4 8

I M I l> f ~ A \ . A '" l

57 Mlc had Man n, 7 h" ,ou rc"~ o( , veial powe r. Cam hr.idg(' Camhridgc Uni ­
CAPITULO
w r sll y Pr,,-,.<, 1986 . ,'oI. 1, e 1993 , "vI. 2.
58 ('ro (111) , o p. c·il.
59 As a Brigg'., Chartis t ,Hudi cs . Lond r es : Macmil b n; Nova Iorqu e : St. Martin's
Prc.'s, 19 56 .
60 I{o ~' d c n Il arri so n (org.), Indepen d ent mllier: tIJ e coa i min a as arche typa / CULTURA : COST UM E, COMERCIALIZAÇÃO
pro /t'tilrian re('on~ idlT('d. Nova Iorque : Sl. Martin 's Pr css , 1978 . E Cl ASSE*
6\ Dau nton, op . cit.
62 Dav id (;ilbert, Class, com mu ni,y dnd wl/ectil'l! action : so cial chang c in
Neville Kirk
t l\'O British coa lfielels, 1850- I 926. O x ford: Cla.rcndon Press ; N o\'a lot<lu c :

O x fo r d Unl\'cr si tv Pr ess , \992.


63 P. Thompson cl .J , Lit'ing th e fishing Lond re .., Rou tl eclg e & Kcgan Paul,
1983. D('~de os ano~ 1960 , a históri a do trabalho br ilânica lem sofr ido
64 Joycc, op. dt . forte infl uê nci a da parte de dua~ abordagem tradicionais e atr i­
65 David Sm ilh, "Tonypancl y \910 : dcfinitions of co mmunit( , Past and Present, tantes - de um lado a marxista e , de outro, a revisionista. Se a
S7 , J 980.
bra de E, P Thompson , DorothyThompson, tric John Hobsbawm,
66 C. J. Calhourn , "The radicali sm of tradition" , American fouma! of Socj%g}' , JoOO Saville (' John Belchem pode ser tomada co mo representati va
88 , 19R3, pp. 886-9\4.
67 Na G rã-Bretanha , ess e ponto se tornou parlicularm ente " Íl"i do durante a
dd pr imeir a, A. L Musso n , !\lastair Reid, Gareth Stedman Jones ,
greve d o, mineiros de \ 984 e 198 5 , quando as refer ê nc ias à co munidad .. Jon Lawrence, Patrick Joyce. Anna Cla rk e Sonya Rose respondem
se torn ar~ m múltipl as (' inflncU ve is. pl.' la l'xlcnsão c variedade da segunda . Encluanto a ~n fase da anor­
6R Mik... I;)a,'agc , "Urb.m histor:< and social rias" t wo paradigU1s". Urban r-Jistory, dagem marxista recai sobre a mudança, o conflito e a classe, a
20, \993, pp. 61-77. segunda é an imada pe la atração à ('onlÍnuidadc, estab ilidade e con­
69 l) uncan Tann ~ r, Politica! Chdllg '- and r-he b/JOu r P.1 rt)" I 900- 1918. Cam ­ senso, e também por todo Lipo de divisões arr aigadas no meio ope ­
bridge : C" mbridgc Uni versit) Pr.;só, 1990.
70 Jo hn Foster, Cla55 strug,g/e in th e Industrial R evn /ution: carly industrial
a
rario, :lCJuclas referentes quaMlcação profissional , ocupação, !'cnda.
capi taJi.' m in tilrr.,. English t O\\ ns. L o ndres: Mcthuen, 1974.
gênero e ponto de vista (e ntre uma perspectiva "de classe" e outra
7 1 H . So uth all, "The t ramping artisan re\' isit s : labour mohilit\' an d eeonomic " popu lstai " • por exemp Io ) . r
r1 i s tn~ s s in carly \l ietorian England", Economic J-listolT RCI'icw, 44, \ 99 1, Diferenças de opinião a propósito de aspectos da cultura ope­
p p. 772 96. rária - f'speda lnlC'nk a nature1a e a confrontação de~sas fon,:as que
72 Ihio em . promovem a unidadl.' e o conJ1ito, as~im como os padrões de mudança
7~ P Cooke, ·e lass p racticcs as regional m ar kc rs: a con trib u lio n to la bo ur c continuidade entre os trabalhadorE's tt- m sido parte constituintE'
g l'og rJ.p h(, in D ere k Grego r )' c John Urn (orgs .) , So('Út/ rela tions anti
impOrtante do de bate mais amplo estabelccido ;,;n lrc marxistas e
s{'alia l sl'ruc r.urc'.' . Londres: MaemiJlJJJ , \9 8 5 ,
rcvis ion i ~ tas. Com uma a\'a1ia~'âo ('Titica, o propósito deste capítulo
71 Rogcr V. Go ul d , Insurg ,-n t id<~ l1t ilit' : el,I.,,'. çum ml/ nity, .1/1 '{ pro lest in r aris
{r(lIn 184-8 / 0 lh e cornmU IlC , Ch k agn: Uni ve rsity or Ch icago Prt'ss , 1995.
Andrcw i\bbott , "A ,onct' ptin n 01' tim e ,wd c l'cnl s in so (' ial ,cic m:e m"thod s :
aSIl .,l and narral ive J.pproaches", His tnric;]1 M ct IJnds, 23 , \ 99 0 , pp . 14-0-50;
* Lig,·ír,l m,·nt'· nln dilkado , este art Igo foi e xtraí do do capItu lo ':I de m eu
Barbara Acl am , 7 i n/C .1Jl d .'u<iJI Ul cun·. Fllad e lfi.: Temple U ni\' e rsil)" rn:S5 ,
li\'l"<. Chdl1g" ("nrirlllil)' dnel da,,, lahour in 8rirish 50,-;,-1.1', J 850 J920.
1990 ,
MalldW'ICt : Mal.c h"stc !" Un iv('rsi ty P r'CSS , 1998 . S')lI gralCl à edi tora por
76 David Han>('v, ! ustic(' , n J lurc. and til " geogrilph\ of diffi're nn' . Ox ford : conco rd ar (;O In sua tc i m p r\:~sãt> . TradU~'ão .h: Allto nio Lui g i Neg r o. R.e visãu
Bbckw(' ll s, \ 997 .
!"('nir.• d" h 'r nando T(· j),;cira dJ Silva .
,0 I :-:~\'J I . I F K IR K C ULTURA : CO S T U M E, CO M FRC I AlI ZI\ÇÃ O E C L A~SE 1,1

I apresentar tais dire ren ças d(· opinião ao leitor, mais par ticularmente (com T m aiú~culo ) - novamente Hobsbawm - andam de m ãos
n
no que diz r espeito ao "padrão de vida do s trabalhadores entre 1870 dadas? O u eram as rel ações e ntre cultura C desdobram ,'nt os polí­
e 1920. Ao nos proporm os a isso , deparam o -nos com um cert ticos muito m ais variadas e compl exas em caráter ?3 Por 11 m, quais
nume ro de temas t: questões bem difíceis. Por exem plo, os edwar­ foram as imp li caçõ es do am pliado desenvolvim en to naciona l da
dianüs e os yi torianos da fase fin al: Teria a vida dos trah alhador('~ economia , política, relações ind ustr iais e da cultura pa r a as sensa­
sido çaractcr izada mais por diferenças culturais e div isões ou por ções locais de lugar e ide ntidade (tão ce ntrais para a vi da ope rária
processos comW1S, sim ilares e unifi cad or es? A divisão e ntre a \'i da no século XIX)?
"respeitável" e a "rude» nos m eados do período vitoriano se m ant en' Temas rdativos ao processo cu ltural, habitos e ligamentos com
do minante? Ou progressos tal como a sign ifi cativa c ampla mel horia outros aspectos do pensam ento e das atitudes se fazem acompanhar
n05 padrões de vida do operar iado a partir de 1870, ainda mais de q uestôes difíce is e co mpl exas referidas aos significados e per ­
com binada ao r eduzido hiato e ntre qualificados c não qualificados, Cl'pções que os trabalhado res ex traem e manifestam a partir d e se u
à cn :scente autoconfiança desses trabalhadores não qualificados e à t::Dvo lvime nto com as condiçõ es culturais (e extraculturais) de exis­
expansão de um m odo de vida operário mais isolado, ind uziram a tência . Ao intentarmos a r econstrução das culturas, somos obrigados
sen saçõ <,s de unidad e? N um a linha similar, q uais eram as for ças a pr('Star detida atenção aos "modos <.k ver" e aos "modos dt> ser",
interligada s dos elem ento s de conflito e co op eração , de indi vi­ sendo (Iu e as enquetes socio16gicas (baseadas em questionários e na
dualis mo e mutualidade, entre os trabalhadores , no que se refere a compilação de estatísticas) são de limitada valia na reconstrução de
tempo e espaço e à mudança durante o passar do tempo ? Q uais eram estr ut uras de ver e sentir. Em As utilizações da cultura, se u livro
os lugares e os p apéis das mul heres nas comunidades op erarias e maravilhosamente evocativo e r evelado r, R ichard Hoggart, r c[e ­
quais foram as fo rm as qu e se desenh,tram com as demarca ções de r indo -.se a tais estrutura.... , ha uns 40 anos, argumen to u : "o certo '
re m inilidade e masculinidadd Indo mais alem , em que m edida o que d(·\.emos tentar ver, para alé m dos hábitos, aCl uilo qu e os há­
desen vo lvim ento de formas comerciais de la7.er, tais como o teatro bitos rt>presentam, \'er através das dt> claraçõ es e res postas o que
de var iedades e o futeh ol (como espo rte para esp ectadores em es tas realm ente signifi cam (signifi cad o qu e pod e ser op osto a essas
massa) , encobriu as ocupações de lazer "tradicional" ou costtIDleiro própr ias decl arações, de tectar o s fator es emo cionais subjacentes
dos trabalhadon's, geralmente enrai zadas em ativ idadc.: s sem m ed ia­ às frases id iom áticas e observâncias ri tualís t icas)".4
ção m on etár ia , no espaço da casa e do bairro ? Estam os , de [ato, ~o huscar m os o discernimen to histôr ico ex ato, ou pkno, de·
t ('~tc munhando "a integração nacional e a concentração cada vez pai-amo nos ('om obs táculos consi deráveis, nãú só nos termos da
m aior da li'conomia. nacional e de seus setores" , o "CTescente papd na t urt"za lirni lada e irregular da evidê ncia, mas tamhém nos term os
do l::stacto em am bos os ca~ o s", lado a lado com a ascen são ele um da desCOllccrlante complex idade dos significados presentes nas cul­
movime-nto operário ma ciço , o desenvolvimento de um sistem a na­ turas (e nas "i nt~Tpn: taçõ c s" que os hi stor iadores fazem dessas cu ltu­
cional instit ucion alizado d e n egocia\·ão cole tiva, assi m co mo da ras) . Por exemplo, somos continuamente fo r çados a id enti ficar, de­
polít ica de massas, e a escalada do Partido Trabalhista à proeminência co mpor e est im ar a concern ente imp or tància, no "e:;quema geral
nacional a expansão (para citar Hohsba\\ m) de "um padrão na­ das coisas", da mistura de valores, idéias e atitudes conservadores,
cional unk'o dar am ente estandardiLado ela vida da classe operaria"?] detensivos, introver tid os, nt'gati\·os, Lonso]atórios, fatalistas, pro ­
Em ,'asa positivo, (~ pos~í\'el estabelecer ligamentos e caUSJS positados, positivos, d esafiadores e , de fato , transformado res que
a propósito ({c'ssas r rog re~sões? Por exemplo , a em ergência da tra­ teIn sustl"ntado a "consciél1cia ope rária" - e que ass im tê m si do
di cional fi gura d o operár io And y Capp e o ascenso de) Trahalhi~m ll detectados pd os hi storiado res.
p I :-J~V If.L E KII\K cU L T U R 11: (' () 5 T li ME . C o M f I_ (' I. 1\ L 1 lo li ç À () E C L li ~ ~ f I ç{

Por meio ri\.: um engajamento cr ít ico com a literatura h istór ica (' às variações em termos el e ren ela, hahi lidadt · profiss ional e daí
re!{'vante, este capitulo almeja lratar das <j uestões e difjculdade~ por dian te, no nw io op e rário. Contudo, vale a pena nos rccor­
te"\ anladas ate aquj. Começaremos consid eran do as obras que endc­ (Iarmos de que, por si m esmas , tais fundaçõe~ estruLurais da di­
res:aram () fork de sua \'ll f'ase para os traços de dive r sidade, divisão ferença não ocasio nam desuniões \' con11itos . Claro, e~les últim os
, na ~ua maior parte, de dcspo litização e" c.:onservatlorismo da podem t e r se u lugar, mas são contingências do jogo das [orças
vida e das id éias operárias durante o Hm da era vitorima e no dl!curso hi~toricas antes de serem det e rmin ados a p ~'nas pelas l'~truturas.
da era ('dwardiana. AI nos voltaremos para uma a\aliação das tc>~cs Analogamente , também passa ao largo do alvo a noção s~> ­
de Hobsba\\ m acer ca do cresciml'nto da cultura operária "tradi ­ gunJo a qual a di\'(~rsidade automat icamente int erdita o mutu"­
cional", se u cada vez mais OI tido pernl de classe tonscj(:'nt~: e seus lislDo e a solida ri edade de d asse . Elt:men tos tanto de divl'rsidadc f
ligamentos com o "ascenso do Trabalhismo" . em bora não tota l­ semelhança quanto de divisão e unidade coexistem entre os traoa ­
Illt'ntc de acordo com J lobsbawm, nossas condusô<:s serão vi stas Ihadores . Precisamente, as habilidades da pesquisa histórica residem
mais com o vi7.inhas ao destaqu e que 1.:1(' dá à mudan~'a e à classe do (~m extrai r e investigar a contínua interação e a cor re l a~; ão de forç'a~
que próxi mas de seus m uüos criticas. cntre aqueles el em entos, lo nge da está tica e da fixi dez . Desde logo.
Nossa pesquisa toma cor po a partir de um cer to número de abrimos com essas proposiçõ es metodológicds básicas com vistas a
pressupostos e proposições cruciais, os <juais podem ~er com pu lados uma contraposição às palpi tantes t endências uc boa parte da Iite
como constituídos do seguinte; a presença, em meio ao caos apa­ ratura existen le, em especial a mais r ecente, por esta se revelar
rente, de elementos culturais dominantes, subordinados, novos e insuOcientl' tanto ao fundir os di versos, po lêmi co s e alr itantes
residuais; a necessidade de si tuar, dl' maneira llrme, as idéia.~, atitudes aspectos da cultura operária guanto ao atribuir a histor iadores mate­
t: \·alores nos sel1.~ contextos históri cos t o tais c cambiantes; a multi­ rialistas (Hobshawm, por exemplo) o re t rato de uma classe operária
facetada - e freqüentemente \Ontestada - nature7a cl(lS modos indiferenciada (' "p ronta".'
,k ~er c wr e a eme rgência de signillcados no curso de engajamentos Decerto, é verdadeiro q ue a diversi dade - e , CID cer tos casos,
ativos entre estruturas e p ráti ca~ culturais e sociais. A partir desta lamhém as divisõl's e os con tl itos - não só se fazia presente , mas
últ ima, Bcará evidente, opo~ta a uma abordagem isolada ou compar­ igualmente marcou o caráter da exp eriên('ja op l:rária ent re 1870 e
Liml'ntal, a adoção dl' um aporte integrado para o estudo da cullura. o inten-alo ~'ntre as duas guerras mundiais . Por exem plo, ao iden­
tificar a importància cio disc urso , da vestimenta e os "milhares de
()utros pormenores colhidos na experiência ('otidiana" q ue auxi Iiavam
Abordagens: diversidade, divisão e continuidade a "definir melhor a \'ida das classes operárias" , Hoggart esta\'a, ao
m{'smo t empo , completam ...nte a par do "grande número de dife­
Qual'lut'l' tentativa de;- apTl'sent ar a ('u1tura operária dos penodos renças , as sutis ton alida(k s, as dL<tinções de classe qu e se m ani­
supracitados ('0111U um todo unido e pronto es tá fa dada ao fracasso ft~stam no interior do próprio prol etariado". Para de , entre os mo ­
instantàncu. Nem a ddSSt' traba lhadora nem qualquer outra cl asse radort>s de Buns1ct, um conjun to \'ariado de; hierarq uias estamentais
social ~era jamais um cn te comple tamente unido e il1c.1iferenclado, perm...ava o dia -a dia. Por exemplo,
lixo l' co ngelado no kmpo. A bem da \ crdade, dt: um ponto de
vist a estr utural, a diversidade é um dado independente da vontad" U~ di\,('rsos m emhros do grupn gOí'alll de p r!'stígio di ferente , d e
humana, uevidq à simples existência da - creSCt'ntemc>nte s01ls acordo , po r exe m p lo, com J rua q ue habitam. Ocnt ro d e cactd lima
ticada - divisão do trabalho (inclusIve a divisão sexual clt> traba lho) dcs~a< rua s , as própr ias t'a.sa~ ac usam o m el hor ou pior nível de
CUITUI{A : CO S1' U \lf, CO M >R CIA LIZAc,:Ã O E t: I A' ~" 1 55
54 I '\iEV ILI..E K1RK

vid a do ~ 5eu' habi tant es; determinada casa é lige irament e m elhor pd as quais elas eram "qualiricadas" como "nós" - presumi"c! mente
pOrt]UC tem um a cozinha separ ad a, O ll po rque fic a no ex tre mo do a propr-i<l (e proeminente?) família de Roberts .
quarteirão, aLI t em um hocado de jardim, ou a renda custa mais As tecelãs eram "admitidas" no '''topo' da .~ua classe" . Vinham ,
nov(' pencc por semana. Há difere nças d e gra u entre os o cu pantes; na seqüência, as dobadciras e a$ apan hadoras, HnaJm cnte secundadas
es ta filmília vive bem porque o marido c um ho mem hábil e houve pela~ fiandeiras . Adequadamen te, essa hierarquia de status preesta­
uma grande: encom e nda na fábri cJ.; a es posa e boa ad m inistraoora belccidc1 es pelhava di slintas faixas sal ariais das mulheres cmpregaJa.'í
e gosta de tudo perfeito , enquanto que a que vive em frente e n05 vários níveis ocupacionais do algodão . Porem , estava em jogo
d e:.mazclada; estes há já gerações que são uma "famlli a de HW1slct~ , algo alt' m de simples ocu paS--ão c vencimentos. Religião c etnicidade,
pertence ndo portanto à aristocracia her editária do bairro. " vestuario , aparí'ncia e cond uta c a natureza e os requisitos do serviço:
tudo isso era consti tuinte de im portantes complicações. As fiandeiras
Filho de um comerciante de esquina, Ro bert Roberts tam bém "careciam de respeito em diversas contagens":
sublinhou a importância central da rua e da casa, da ocupação, das
funções segundo o gênero e os valores de "respeitabilidade" para a e m primeiro lugar, o oficio co mp ortava um forte elem ento irlandês
posição que se ocupava no "clÁssico cortiço" de Salford durante o e cató lico e os ordenados eram, em geral, mais baixos do que em
primeiro quarto do século XX . "Na nossa comunidade, assim como utras st:ções. De novo, por causa do calor e dos chãos escorre­
e m qualquer outra do seu tipo" , recordou-se Roberts em 1971, gadiços, as mulheres prod u;'iam des cal ças , v('stidas com pouco m,lÍs
do (lU l~ mudas de chita. Essa~ peças, criam os respeitáveis , induziam
cada rua possuía seu posto social costumeiro; uma ban da ou uma as fiand eiras a um certo dcscuramc nto moral. Elas t:hcgavam em
extremidad e d essa via podia ser classifi cada acima da outra. Os casa, outrossim, co bertas de poeira e felpa. Tudo combinava para
aluguéis semanais podiam discr epar de 2 shillings e 6 pen ce (se fosse depreciar seu prest ígio social.
uma mo rada de fundos para outros fund os) até 4 shillings e 6 pence ,
se fosse um "dois em cima c d ois embaixo". Casas situadas no final En tretanto , eram as "empregadas da tinturaria" quem "descia
das ruas em geral poss uíam um status próprio. Toda famíli a - igual­ ao ftmdo do poço" . De acordo com Robe r ts, "o serviço delas era
m ente - aprese ntava uma hi erarq uia tácita, o que se aplicava até sujo, rncJlhadn e pesad o, pagando caro por tudo isso". ~ Abaixo das
m D mo a seus integrantes; pois os vi.7jnhos diri am de uma filha em ncupações semiqualiAcadas, os não qualificados "se distribuíam em
outra casa qt\t~ ser ia "umaz inha sem futur o" , enq uant o sua irmã gr upos abt'r tarn ente definidos em ter mos de ocupação, posse e
poderi a se r vista corno "rcfinada" 7 relações ram ilia res" . Logo após dos "arredores de r ua e dos lim­
padores de sanitários su rgem operários de empreitada (ta l como os
Na avaliação de Robe rts, a reputação profissi onal e ra de doqueiros) , vendedo res amb ulan tes de "carvão , óleo de candeia,
primei ra grandeza para a determi nação do status social. A~ divisões VIsccras, tostadas, sonhos e pikclcts, frutas, verd uras e miudezas" e,
da sociedade à qual Rober ts era "pertencente" par ti am da "elite por Cim, "entre os gt'n uÍn os operários", lenhador es, en fardadores,
[ . .. ] composta p,'l as prin çjpa i~ fam ílias" de loj ista~, co l eto re ~ de vendedores e carroceiros de cacarecos . Ahrigos para po bres ao lado
impostos e vom(:rcia ll te.~ especializados, passavam pelos "e~ trato s de apo,tadorc:s <Ie corridas, prostitutas, vadios , mendigos ocasionai"
notó rios" de trabalhadores s~'miqu alifkado ~ de emprego regular até pin·tes, " exn~n t rícos homossexuais, amásios e don os de borde!"
chegarem a "uma bas(! social cujos membros se maldiz.iam como (orma\ am a base da pirâmide social local de Roberts.
'gentinha' ou simplesme nte 'sem da ~sc''' . Cntre os sl:micluali fi cados, l:m muitos do~ ~asos (se não em todos), valores e hábitos "res­
Rohert~ deu especial atenção às operado ras do algouão e à~ m aneiras pC'itáveis" cxpn'ssos no t'om~'Jim en to, no em p (~nho e com ­
,6 I N~, iLU . KIRK C U I. TIlI<A : C OS T H ~II' , ÇO'I~RC I A rl l.\ÇÃ O E C / A'~l: 1 ,7

promisso infatigáveis , no "acabame n to" de qualidade, na hones­ Grand e Gu erra , p~d o menos) "muitos l('nham vist o a desigualdade
tid ad e, no comprome tim en to positivo em r d ação a família c à pa­ l'conômí ca c social com o um a lei da n atureza." Bairrism o e "luga "
rentela, num lar as:;eado c t m ordem , um livro de alugud "l impo", se comp lementavam com noções d e territurialid ad e c fron teira
nas crianças he m -cr iad as e I.: S fregad as , um a "decência" m an ifesla Jncorauas e m elos de famil ia , vizinhança, camaradagem dl' trabalho
de pon ta a ponta - estavam , de acordo com Ro berts, intim am ente c grupos de rua, em es tado de competição - e freqüentc mc'nte
ligaJ os à posição ocupacio nal. 'Iêldavia, () a.~.sécli o da bebeJ eir a., as ()pos i ~-ão fí sica - com o "outro", tal como visto nas "bêbadas alga­
"algazarras e br igas d~ r ua" ~ n otór ias conexões ro m irlandeses zarras de sa >3 o a n OI.te,
'I d ' " en1 que " se acertavam as contas" . E'• I.SSO
católicos d(: "Gaixa categoria", o asilo o u a prisão pod iam acar retar () preva.l ecen te na descr ição qu ase hobbcsiana qu e Ro berts faz ela
instantâne o descrédito sobre a cabeça de fam ílias "de r espe ito", sua "comunid ade". 11
indep endentemen te til- quão bem de vida estivesse m ou de suas As conclusões qu e Roberts tir a prefiguraram, em vár ias m a­
qualificações . 9 neiras, os r esul tado s a que chegaram muitas publicações, n esse ~
Viven do no "co r ti ço d .issico", Ro ber ts concl uiu : as pessoas úl timos 20 ano s, sobre cultura operária d ur an te o fim da era
estavam, o m ais das vezes , m uito mais pr eo cupadas com se uS vitociana. (' no decurso da era cdwardiana. Por exemplo , em seu
"lugares" nas h ier arquias de statu~ locais aci ma de lin e a d a~ - e impressio nante e de talhado es tudo, em uivel nacion al , sobre os
em com petiçao com outros me m bros d a "comunidade " na busca padrões de p oupança e consumo da classe t rabalhado ra entre 1870
por tais lugares - do que interessadas na solidariedade oper ária e 1930 , Paul Johnson d estacou as m otivações p essoai.s e compeli ­
ou numa mudança social e política de fundo , ou m esmo na po lítica tivas que minar am tal com por tamento, m esmo quan do adm inis­
p er sc . A sed e do ramo local da Federação Social Dem o cr ata (de tradas por agência s cole ti vas do tipo das co op erativas e das socie­
orie ntação socialista), o H)'ndman Hall, "permaneceu , para a gente , d ad\~s gre rniais . D e acordo com Johnson , as preocupações em não
miste riosam ente dis tanci ad o e, com o p assar dos an os, t("ve , de ficar para t rás e em prover osten tação pre cede ram o disce r nim ento
fa to, o m esm o impacto po li tico sobr e o Gairro dos nosws vizi nho s dos inter esses de classe e co muni dade . II De ou tro ponto de "ista,
trahal hado res do gás". 10 Analogamente, o Consc n ati vc Club [Clu­ os arraigados e ensimesmados elem entos de fa ta lismo e conse r­
be Co nservador] - o devido represen tante da apatia politica e do vador ismo apresentam espanl'osa semelhan ça com o retrato d e in ­
'\cnso com um" cultural e social "costumeiro" e predominante vi­ tro\'c r são, defesa e consolo de que ~(' serve Stedrnan Jones para
gentes no bairro - não parecia, de jeito nenhum , "salvo por uns traçar as co munidades op erárias lon drinas n o fim da e ra vito ri ana
po u cos d ias de eleição, ter alguma coisa a ve r com a polí tica". e duran te a era edwardiana . Apar entem ente men os suscet íve is e
Antes, o d ub (· l'ra no to r iamente conhecido "pe la Union 1ack* ex­ menos respeitosos à influ ênci a da classe m édia do que se us pares
p os ta na janela e pelo car rinho de ccr vt'ja à porta". Apesar dos em Salford, os t rabalhad ores em Londres - e so bre t udo os de
m ui tos e:xemplos de' "laços de vizinhança" - especialm en te po r ~e r v i ço casual - m esm o ass im , à primeir a vista, habi tavam idên­
par te da~ mulh eres - , a competi ção e o interesse próp r io domi­ lico (e r~' s trito) univen o mental. 11
navam a área. O conservador ism o re~ ignado e o fatalismo apare­ Po r fi m . a. ênfase que Robe r ts dá à diversidade e às divisõe s
ciam por toda a parte. "As d ivisões de classe eram da mais aJta ~ a~ caracterlsLi('as predominantem enle des polarizadas, introva ­
relevância", escl'l'vcu Roberts, e m bora "suas j mp li caçõ e~ no fim tidas e C'onsc::rvado ras da vid a operár ia ugu r am des tacadamente
não tenham ~ íd o reco nh ecidas" e tambem (até o fi m da Pr im <:ira no fa scinan te livro de Ca rl Chinn , de 1988, acerca das mulheres
n<lS áreas urbanas pobres da Inglate rra, t? também na excelen te

* Bande.ira J o Re ino Unid o . ( N. (b T) peMlui sa de Anel) Davies, <l. rror6~ ito dt' as pectos ela vida oper ária
ç~ I N le V lI1 E K IRK Cuvr U RA : co s rUME , C ')"~ RC IALI ZA\ Ã O E C l ASSE 159

:ffi Man chester e Salford , vin da a p ublico q uatTo an os d epois, tan te da(lue!es estudados por Roberts e St edman Jon es . posto que
Signi fi cath'am ent c, n o conjunto , amb os os autores d b p õem d e im­ ja se hav iam ampl am ente acomodaclc) perante as gr andes estr uturas
pl'essõe~ mais positi vas a r espeit o da consdên ci a e das açõ es dos de rel ações sociais, poder c auto r idade ,
trabal hadores, sobrem aneira Jjan te de Robcr ls t:: Sledman Jom.: s, 'íiml() Chinn quanto Davies se valem - o utrossim - de in ­
U ma no ção d e agência pro positad a, que se manifesta na habil idade tensa uu lização de f()Dtcs orais , Signi ficativamen te, o raze m para
de g ozar e pautar a vida e d e ~~x t rair satisfação e orgulho da deter­ desenvolver os ruscer n iml:ntm apresentados por Roberts a propósito
minação e das conquistas (no lugar d l' um processo m aj o r ita ­ da influ ên cia da pobreza l~ do gênero sobre a cultura ope rária, Em­
riame nte resignado, passi\'o, esmo r ecid o , p r o ['u ndame nte d cpres­ bora não r est e m dúvidas d e qUI" o perío do e m guestão assistiu a
sivo e co nso!at ó rio ), é convincentemen te (' ncon trada no coração uma melhora substancial nos pad r ões de vida dos trabalhado res , a
da vida d o s trabalh ad ores em Man chester, Sallo rd, Hi r mingham e pobreza e a inseguTança , no entanto , per maneceram no coração da
ou t ras regi ões , C ontudo, as co ntínuas batalha s gue se travaram vida operária, fato anota d o por observad ores da própria é-poca, como
e m nome da sobr evive ncia e d f' "uma vicia m elho r" foram co ndu­ Charles Boolh e Seebohm Rown tree , Enquanto o primeiro estimou
zid as, no caso das perso nage ns de C hmn e Oavies, no interior de em 30% o montante da população londrina vi vendo em "estado r eal
um a estrutura determinadora em que "estar com as contas em dia" de pobreza" no final do séc ulo X[)( , o segundo, no seu estudo sobre
e o (' nvol vimento asfi.x iante da experiência imediata quase não dei­ York (de 1901 ), chego u ao comparável dado de 27% (com 15% das
xam tempo para o interesse na po lítica e nos movimentos ope­ un idades dom ésticas operárias apresentando um a renda familiar total
rários, Fraturas classistas internas - e se u enraizam ento no gênero insatisfató ria para preen cher os requisitos bi sicos de alimentação ,
e nas diferenças culturais e de pad r ão d e viel a - acrescen tam se­ vest uár io e moradia, recaindo então no estado de pob reza "ele­
\'e ras r estrições à potencialidade da solidarieda d e o pe rária e à mentar") . Ad emais, uma queda na entrada d e vencimentos do m em ­
ad oção de fi ns rad icais, Segundo Chinn, bro "ganha-pão" por causa da natalidade, en velhecimento, doença,
morte o u desemprego podia facilm ent e r eduzir as fa mílias habi­
as mulh er es m ais pobrcs n ão di sp unham de tempo para co nsi ckrar luadas a ganhos regulares e relati vo confor to (40% do total calcu ­
o ~ m ér itos da cooperação organi zada, para dete r um sistema polí­ lad o pM Booth ) a "irreg ular idade" e pobreza, ;;
tico e social distinto e para d tm and ar um sis tema médico mais ex­ Dav ies e Chinn atestam o caráter m arcante e duradouro da
tenso, ou para proc urar por uma melh or ed uGl\'ào para suas crian ças , pobreza , Ent re 1900 e 1939 . em Manchest er e Salford , [antes orais
Tampouco tinh am tempo para sc unir, pa ra ma r cha r, p ro tes tar, e enq uetes sociais r evelam que a pobreza es tava "espalhada po r toda
escrcve r o u p ara sç fazer o u vir. ~ ó .l. pobreza uni lka\'a as mulhc re~ parte", Para Chinn , a pobrt'za era "o mais difundido" uos aspectos
das areas urb an;'! s p"I )f'c", da vida dos pohres nas ci dades e pouco se alt erou en t.re 1880 e 19 39,
"Os efeitos da pob n·;.oa eram \isÍveis em todo lugar", repar o u,
Por sua vez. a.~ enlrevistas d e Oavies reve lam (jue manifesta ­
ções politicas possuíam Sl'U lugar na p rograma~o das ruas, m as g ue Eo I1 I<:SI1\ O ~c dava eom seus ;lmb olqs : a loja d e penh ores, a banca

ou tras ativi d ade~ ocupa\'am "um lugar mais central nos relat os de de e f11rré~ limo~ ~' 1lI Ji nh e iro, o "p cnd\lradn" n ,\ loja da eSCJuina , uma
Cdtl l\1~5() prcdria, MI.í.rios de fo m e e desemprego , Isso acanTt,)U
como era a vida nas duas cidades" t;> g ue "os ativ istas eram . (' nJ ce rta
qu~' a nova geração de m ulherc" ap ,'sar de r ru ciais dis tinções , ainda
ml'dlda, atípicos IH> l11eiú do s dist r itos opera,rios" , I! Em suma ­
Icva\'d um;'! vida {' m muito sim ilar à d t' suas m ãt's e av ó~ antes da
apesar da torça gue a iniciath'a tem na vi da diá ria - , J. amp la maioria
Pr inll' ira Grande G uerra , o <JUc haveria de p crdurJr até o inlcio do;;
dos trahalhadores en contr.ldos por Chilill e Dav ies avizinh am se bas an(\~ 1960 , 1(,
6o I N l. v I I, I F K 1 1\ K c U r 'r' li rt .\ : C o , 'f U M r, c t) ~l I H C I " I I 'I. " çà o E C I. 1\ ' ,' ~ I 6I

Para corrobo r ar, vt'jamos o a\'anço de nosso conhecim e nto pe lo operariado el os prazeres do lazer comercializado . Conseqüen­
pm tT(\~ importan lcs d ireções . Em pr imeiro l ugar, no de curso de temente, Oavies suslenla <J ue o la71' r operário cont inu ou a ser
seu adrn irhcl intento - ao lad u de Ellen Ro.ss, M\,lan ie 'Te bhull, "fortemente ancorado n a vida d o bairro" . Um sem -número (h~
Elizabeth Rob (' r L~ e Joanna Bour ke - , a flln de saLis fazcr os volu ­ atividad es domésticas e suburbanas - de pouco ou nenhum custo
mosos vcl2jos de nosso conhecimento acerca das "muJheres pobres ("arrastar a cadeira ate a calçada", br incadeiras d e ru a , comcrsar,
Ja.~ t idades", Clunn d esenvolve a t e~e de que, embora não perten­ \'isitar o mer cado , seja para comprar alim en to bara to , seja para
cessem a "uma casta fechada", os pobres da.~ cidad es (as m uJh eres diversão gratuita, jogaLina ao ar lívre, futebol , caminhar no parque ,
sohrt.>ma nL'ira) "eram distinguidos co mo uma seção separada da cl asse asWhi t Walks , <;:xcur sôes escolar es dominicais, r otunhas de eSCjui na
t rabalhadora tanto por suas esp ecificidades culturais como por sua e Jesflles de m a....acos) - sã(), assim, apresenladas em sua estabi­
paup<,rízação" . 17 Mantin ha-se a divisão entre habitas "r es peid.vcis" lidade e sedução entn [850 e [930.
e "não-respeitávl.:is" , enconlran do-se esta em todos os níve is ~ oci o e ­ Nesse sentido, não obslanle o crescimento dos CInem as, dos
co nô micos in tern os à cl asse lrab alhad o ra . No entan lo, argum C'n la bares, teatros d e variedades, salões Je baile I' esportes de massas,
Chinn , as m ulheres trabalhadoras pobres das cidades vieram a ser Davies pode certificar qUt " a comercialização do lazer era um pro­
(entre outras r azões por causa d t~ sua pobreza, da necessidade de cesso claramenle parcial e que, na vida comunitária das áreas prole­
procurar emprego e de seu papel-chave com o mães) "árbitros de sua tárias, as cont inuidades aconteciam com maior força". A vida e o
vida e da de ~ua família", configu rando -se, I'm acréscim o, co mo in­ Jazer operá.ri os mantiveram -sI'! caract.er is ti camente mais diV\'rsi­
fluên cias domi nantes nas suas comunidades , Portan to , essas "matriarcas ficados que wlÍformes . "Em vista disso, O termino <.lo período vito ­
irrevelada s" garaIltiam e prolongavam a sobrevivência da fam ília e riano parece ser menos representativo dl' uma guinada histór ica na
da casa, cuidavam da maio r ia das crianças e de m uitas das neces­ hislória do lazer popular do que S(' tem p rl'sumido ate aqui ."1 9
sidades dos homens, cxerC'Íam real poder sobre o~ negócios da co ­ Em lerceiro lugar, tal qua l o ut ros historiadores, aO il um i­
munidad e (er am tutoras, por exemplo, dos ass untos con ce rne ntes narem a imporlâ ll cia das mu lheres trahalhador as para a vida fa­
a "aulo · regulação e autoco ntrole" comuni d.ri o~), cram reco nh~~ (;i J as miliar e do bairro, Chinn c Dav ies levantam imp0rlantt:s indaga­
no papel informal de parteiras e m édicas, aprendiam como "cuidar \'õ('s sohre os modo:> pejos quais dever í amo~ inlerpret.ar a cons­
de 'li" em rixas famil iares l ' br igas de r ua e, devido ao assalariam en t o , ciência e o comportamen to das mu lh eres . I:.sq uematitan d o um
gozavam de um grau r elatinme nte alt o de auto estima e inde­ pouco a probkm<ÍLica , a q ucst;io é sah('r (! ua is eXpl'('tativas I'nde­
pe nuência, so bretud o ante os homens da comunidade loca l. Fm rcçat- às mulhnl's ; $C possuiam poder, autoridade e cscolha~ pal­
cont raste com as m ulheres nos l.'stratos su perio res da cl asse tra ha­ páveb (vide a noção de "matriarcadnirrevclaoo"), embora vivessem
lbadora e da classe media - em que noções dl~ fem inilidade do­ numa socil'dacle patriarcal, em que a "supremacia mascu lina vinha
m l!~tica, o "salár io da I'am il ia" e esferas separadas são extremam ente consagrada pela lei. religião t' tradições sociais" . Se o lar lhes aguar­
for t l'~ - , as mldherl~s en trr OS pob res das cidades são distinguidas dava com alra\'õ(,~ posilh'as ou, ao contrario, se, em muitos casos,
por Chinn como " mais seguras Jc si e m enos a mparada~ nos hom ens" roram t'kti\'amente subordinadas por seU!; 0rrl.'ssQres masculinos .
e, "em muitos aspectos, já na posse lk seu pró prio dç's tino" . I~ Em contraste nJln Chjnn, Robe rts e Bourke, Davies se inclina a
m segundo lugar, Davies dá a conhecer co nvincentes argu ­ ponderar <1:. t'vidências de acordo com a tese do "patriarcadu em
ml.' ntos de que a pobreza e a natureza dessa penúria, que ~ ão per­ primeiro lugar", {'()rnparti lhanJo-a com Rose, ~ylvia Walby, Pal
meadas pelas rdaçõeg de gê ne ro, com as mul heres se sacri!k .lndo Ayt>rl> e Jan Lambertz. l O bs<; dehate tambt'-m suscita g u\!stões mais
pdos intcre~ses dd fam ília, limitaram em ~a nde m ed ida o usufr uto amrla~, rcfcrellll:S à e xlensão da influência dos pressuposlOS pa­
(02 I N ~\' J I L ~ KJRK
C ULTURA : Cü ST lI M1 , CO "I- R L J I\ J I L.\ <.;Â O E ( J cI SS F. I 6~

triar cais de m ascu linidad e no mo\'im ento o perário em detl"Írnento do as mu lheres se batem por atividades (' interesses di verso, cios
das mu lhe r es, efe tua ndo sua marginalização , masculinos, entrando n~gu l arm('n te em con nito por cau sa ,Usso. Para
e
A posição adotada aqui r efratária a Chinn c Davies , Pois Chinn Dav i e~ e FieId ing, fra t uras assim reforçam " um cresce nle r eco ­
pinta um re trato um tanto (luallto idcal i7.ado das mulh er<'s trabalha­ nhecimento das limitaç'ões da abordagem que pri vileg ia as cIa s~c~
doras pobres e ai nda subestima os rígidos e reais ltmites materiais e ,oC'Íais"Y Seria inutil n egar q ue a famOia ope rár ia t ('In sidu espaço
lo patriarcaHsmo, as~ im como as p r l'ssões pelas q ua is elas são lite­ de \jnlenda - em t:speci al da agr essivi dad e masculina ç de hos ­
ralmente compelidas a "afillldar ou nadar" . Do mesmo m odo. Davi es tilidade contra as mulh eres - , ass im co mo de consenso e reci­
lende a ser insatisfatório na sua aval iação a respeito , t;ll como r<'ve/ado procidade . Todavia, um a vez m ais , há ev idên cia oral considerável
por suas "vozes" escritas e faladas, de a ~ a C o se rviço dom éstico para su gerir que, apesar d~ se us fracassos e d e suas desiguaJdades
oInportarem atrações positivas para um <''er to número de m ulheres de gên\.'ro , a família ' )perária e muito mais cenário de afeição, amor
(sobretudo se comparados c()m um tr abalho m al remunerado). Se as e mutualismo entre os sexos, consistindo em m eio de sobrevivcnci a e
J4
mulh eres podiam fazer seu serviço domestico sem o sentimen to da progrcsso coleti vos , do que arena de divisão c co nt1ito. Logo, r esta­
inferioridade ou de total dependf- ncia para com os homens. Diferen­ nos a conclusão geral de que diferenças de gênero podiam (e na
lem ente da explanação de T~bhutt , em Dayies também não está claro maio ria do ~ ca.~os p ro\'avelmente conseguiram) coexi.'olir em relativa
quanto as "fofocas" e a vida do bairro podiam proporc:onar as mlllheres paz com a cooperação entre homens e mulheres.
a oportunidade de culti var redes genuínas de amizade e '\izinhança". 21 Em acré scimo a gênero e padrões de vida., a politica e a religião

As mulher es. portanto . de fato povoaram estruturas patriarcais, mas tem conslituldo outras fontes de diferença nas com unidades pro­

não foram vítimas passi v~ : freqüentemente, exerceram sua "agênCia" ktárias, Lealdades políticas distintas caract erizaram a classe tra­

para modifi car e mesmo subver ter as mesmas estrutu ras. E esses balhado ra no fim da era vitoriana e no pCrlodo td",ardia no. Não hÁ

processos de modifi cação e tran sfo rmação conscientes operavam, tambem du vida alguma qu anto às queixas d os t rabalhad ores m i­

segundo Dcborah Thom , em correspondência com as relações das li tantes contra a "fal ta d e juízo" das "m as sas" - aparen tem ente

mulheres com o movimento operario , que era cada vez mais permeá­ apat icas e "comerciais" . Gur ne} obscl-va que , 110 disc urso do mo­

vel à par ticipação feminina, lanto quanto com sua vida dom éstica e vimento coo perat ivis ta, "a particip ação e a afilia(;ão eram contra­

de "i:ri nhança , O utrossim, Bourke claramente nos m ostra que nem posta,> l.,.1às · m assa.~' pa.~si vas e ho mogenei.zadas, tão aooradas pelo

todos os hom ens estavam confo rmados com um esterebti po d it.atorial ' mpn:sário capitalista" , Ainda mais :
e mesmo vio lento, expressivamente voltado p ara a companhia dos
muitas V('I.CS, uma Sl: nsa~'do de di stância e fr ieza, um <Ju t! de mal­
"mano~", no har c no esporte, .10 in vés do~ pra'l.~: res da vida tanto
IllI morada im:x istt'ncia de sim pat ia, pod em se r di sti ngu idos en tr e
(\<:'nlTo quanto ao redor da unidade doméstica. I:.n, sum a, seguindo a
os cooperados, im pacien tes co m as " rraCJu ~' za$" dos po ro re ' . A úh"i a
sugestão de Thom, "noções de patI'iarcalismo são inadt>quadas, igno ­
atraç'ào das "haixas" t's fe l·a.~ - .-. teatro de varicdadc~ e a pousdda
rando as atividades e as ideias das pr6prias m ulherC's".l! n() mar - permaneciam cnmo causa fi e pn:ot.upat,:ão nos anos dü
M\:smo ap r esentando j uízos ( '() n tra~ ta n te :, a respeito da po ­ l'ntreguerras, se nd o ailld a n~r<)rçadas p or n o\'a an1('a\ a - o c i­
si ção ocupad a pel as m ulheres, Chinn (' D avies est ão til' acordo ncrn,l , l Uj o ap elo I ...] se apoiava e m <Cr uel "" , ", " impn tin en cia" ,
9 uanlO ao fato de a pobrt"/ a e a di visão de gênero, no m<:'io o pe­ ou "vul)!,'lr id acle;:" . ' .
ário, ilustrarem os aspect os cruci ais d a diyisã o e div t'r sidad e
culturai!; internas à daSSl! d os trabalhadores, sej,' na forma do Analogamente - infindáveis na sua diligência, aplicação ç ra­
trabal hador pobn: contraposto à al ta classe traual hadora, seja tluan- donalidade, \' 111 m wtos caSOS COl11 algo de d e~agra<lável e eIitisla
h+ I "~,,, jL LE KIRK C ur ·l u Jt" · C ()"l ll "'~ > CO ME RCl."'IZA Ç· " O E c r A"!' I 6~

o tom e a postura de vários dos soci ali !)1:~ para com "o povo" ind u­ \'io lê ncia St·ctár ia~· o confl ito e-sta\·am , genericam en Le, muit o m e nos
bita....elmente lhes carrearam algum dano e, provavelm ente, impu lsio­ d('marcados no perí odo em questã.o. Todavia , isso não , ign illca a.flr­
naram alguns trabalhadores "comuns" em dire\:ao aos receptivos bra­ mar o sum i(o d a.~ di\"j sõ,'s étni cas e religiosas . Na verdade, e pl alguns
ço!> de Tor ies, muito mais de,~con traíJos e afavt~is . Ne~se conkxto, lugares ( a SalCord de Roher ts, U verpool e outras partes Jo Oi:'stL ele
Chris Waters deixou evidente que , apesar de serem refratários aos I ancash ire e e m certas áreas d.! Escócia), embora em diver sos 'ú vei:;,
provedores capi talistas de lazer l'omcrcia l, muitos socialistas igual­ persistiam di fer en ças e atri to$ entre pr otestantes e católi cos .19 Além
m ente culpavam a "passividade" , a "calmaria política" e a desocupação Jo mais, tais diferenças se estendiam p or seções d(' L(' ('d ~, Man ­
dos trabalhadores que consumiam tal lazet· e que ainda eram "mental , r h e~le r e Londres, I? por algumas das cidad es port uarias, devido às
men te incapazes de compreender suas necessidades e di reitos" . 16 ocorrências Je hostilidade dos locais contra juueus, outros grupos
Il ugh McLeod anota que, "entre 1880 e 193 0, ocorreu um de jmig ranh;~ "n~ centes" e trabalhadores das índi as Ocidentais. 10
enfraquecim ento gradual na posição de influência social gozada pelas Figur as ind ispensáve is, d C\"('lTIO S ~e r cuidadosos em não exa­
igrej as" . ~' A expansão de m atrizes allt' rnativas c seculares no provi­ gerar a inlJ u ência do s el em en tos de diferença e d es un ião no co ti­
mento do lazer c na vida social, o difuso d eclinio da impor tân cia da diano operário. De\·emos adot ar igual esmero em não cair na velha
identidade sectária no que se refere à política ~ a queda da fir ma armadilha OI.' conside rar a c ultura e o lazer como temas fi xos e
familiar (c seus elos com a igreja e a capela) estão entr e os fato res iso lados, impropriamente apar tados de outr os aspectos das vidas
que co ntam para a mini mi7ada importância social da religião or ­ os trabalhadores, ap resentando ao leitor, por decorrência , um
ganizada . Porem , ao mesmo tem po, em condados como Lancashire, retrato par cial (ainda que familiar nos dias de hoje) de uma classe
a pro('minência da religião organizada de modo algum foi cancelada. trabalhadora ar raigada na imutab ilidade, na dcspo li tiza ção e ensi­
Segundo a obse-rvação de GrilTiths sobre o condado Red Rose, mesmada, Com efeito , em oposição às já citadas leituras p redo­
minantem ente estreitas ou "compar timentais" da cultura op erária,
apesar elo descenso da audiência c do incremento das agências se­ Hobsbawm nos aprese n tou um quadro holístico quc mais inte­ c
uiares .! l l c r n,\ liva.~, .I igreja releve seu des taque como matriz lídcr grado (' satisfatório e que tanto situa as tendências culturais e do
da p rovisão ccorlô mica c cult ura l [ .. , J. A prom oção d.! parci mônia
lazer no mterior do contexto societário m ais amplo quanto imbrica
por in term édio das escolas dominicais c das ~ ocied~Jes de socorro
a diversiJade e a di visão co m ou tros aspectos da vida operária. Per ­
m utuo as_eguro u que as pri11l: ipab ~citas continuasse m a seI" idcnti ­
suasivo, Hobsbaw m , afora isso , argum en ta que, no perí odo em
fl eadOb com as aspiras'õcs o p~' rá rias por indep,·ndênda . O laze r orga­
ques tão, as vidas dos t rah alha dor es se caracterizaram mais pe la
nind() plTmaneceu re nlrado . em larga med ida, nos lugares de
adoraç:ãu. Ou cnquctc au rugbi c ao futebol, pratica\"am-se-')s na
mutualidade, coletivism o e pela consciência de cl asse do q ue por
cap{'la ou na igreja. " nã o na fábri ca ou na mina . De maior cxprcs­ di ferenciações . l i É para l1ma breve apreciação das teses de Ilo hs­
,i\· idad~, a igreja for neda a maio ria. d ()~ lugJn'~ para as t'scolas por bawm q ue nos voltarem os agora.
todo o centro -sul de Lancashirc . .AI. (jucstão cio cont role sobre a edu­ e
Nosso prop6sito não r eler Hobsba,,"vrn no todo , mas , de pas­
cação tonbnU(l U a animar a p olêmica poHl ica ate 1914: 1 sagem, identi fi car p recon c:iJjar aque.la., infl uências <jue algumas vezes
acontecem " 5('111 quê nem por <Juê" e, em outras, aparecem p lena­
Um comparLilhado compromisso com a provisão :>ocial ~: cul­ l11ente reveladas na cnDsciênçia . De fundamen tal imp ortâ ncia era
lural l ra, entrt'tanto, acompanhado, t"m muitos casos , pelo cu ltivo a Con tmua cen tralida de. da famíl ia e- da unid ade dom ésti ca p ar a a
permanente de identidades c disputas facciosas dislinlivas . Compa­ vida do lrabalhador. Apesar da ocorrê ncia de tensõe~ e desigual­
rando-se com os meados da fase vitoriana, não há dúvidas de que a dacl e~' intel' nas, a f·aJJl l'I·la lom
r entava unI senso d e um·d ad e e m e ta
66 I ~ l V 11 , 1 r K I R K CUI.TURA: C()S TUMf, C OMER C IA L I 7.~ Ç Ã(l I· C I.AS SE 1 67

coleLivas - de homl'l1 s e mulhere$ , genitorcs, crian ças e laços de a(l lazer com ercializado. Entretanto , ater -se, de modo un í\o co, ao
sangm' "se ajudando" para sobreviver, lutar e , "com um pouco de '(1Stume e às divisões às (~ x pensas de dimensões - estr uturais e

sorte" , "defend er uns cobres". ,j\' jdas - de m udança e de unidade significa inflacionar, de modo

Ainda mais, a formação demog ráfi ca (Savage e Miles) e a so­ falso, a im po rtânci a da continuidade. Não podem res tar d úvidas

cioeconomica mais am pla (I lobsha'A'm) da classe trabalh adora ­ quanto ao as pecto ún ic o e (progressivam ente) estruturant e dos

que se manifesta no "tamanho absoluto cada vez mai o r e na sua ,'spo r tes para audiê ncias de massas , dos salões de baik, do peixe

concentração", no seu perfil majoritariamente urhano e fabril, na e fritas , 32 das excursões anuais grat uitas e demais traços do lazer

sua moradia crescentemente padronizada e segregada, na am pliação comercializado no m eio ope rário .

das "oportunidades" para os não qualificados, nas p ressões cres­ Alem do mais, a cul tura "tradicional" que em ergiu e se des­
centes sobre os qualifi cados e no estreitamento do tradi cional hiato dobro u durante esses anos foi predominanteme nte classista e com­
entre a elite dos profi ssionais e o resto - favoreceram a expansão r>ro m i~s a da com alLerações radicais. Em ter mos tanto da sua es­
(ou "o refazer") do sentido da consciência de classe. Em terceiro trutura <l uanto da sua co nso("ncia, a classe trabalhadora do fim da
lugar, a presença da última era patente - e sua inHui"ncia, pro ­ ra vitoriall a e do p eríodo ed\\'<lrdiano era muito mais unida do
gressiva - no interior do m ovim ento operário sucedido entre 1870 que su a co ntrapar tida vigente nos meados da era vi toriana. A cul­
e 1920, Em quarto lugar, uma pe rcepção de classe e um movimento lW'a operária "tradicional" podia de fato agir como escudo defensivo
operário maciço operaram como contrapesos muito pod erosos ao contra o q ue se percebia como algo vindo do mundo exterior,
amplo desenvolvimento de divisões étnicas desgastantes e de outras amplame.nte desco nhecido e host il. A associação entre Uma cultura
divisões entre os trabalhadores. Em quinto lugar, a experiênci a a~sim e a ascensão do Trabalhismo com l' maiús culo t e m sido ex a­
"total" da Primeira Grand e Guerra e seu desfecho im ediato ali­ gerada por Ho bsbawll1 (conservadorismo sendo apoiado por um
m entaram e enriqueceram o sentim ento de "nos" e "eles". Por fim, grand e número d e trabalhadores "tradicion ai s"). Porém o Tra­
por volta de 1920 , a Grã -Bretanha se caracteri zava pela política de balhismo - sim - avançou no seu enraizamento fir m e e profundo
massas, por uma economia amadurecida em ní vel t anto nacional no meio das comunidad es operár ias "tradicionais" em qu e vicejavam
quanto internacional e pela consolidação de um sistema de nego­ a cooperati va, o ~ i n d i cato e as associa\'ões .33 Prossegwndo, muitos
ciação coletiva nacional. dos trabalhadore s impli cados no usufruto do lazer com er cialin do
Foi no in L~> ri o r desse contexto ele progressiva ascendência do e que tam bem apoiavam o Par tido Trabalhista, os sindicatos e as
"nacional" de ntro da economia política br itànica (lue Hobsbawm, 'oOpe ratiYa s estavam ativamente engaj ad os com a m e ta de urna
com acer to e relevân cia, situou o d esel1voh'imento de cultura ope­ sociedade' m ais j li st a, na Cj ual receber iam "o reconh ecimen to e a
rária trad icio nal , t anto padron izada quan to el e caráler nacional. recompensa" devid os. Des confiança, intro\'e rsão e uma resigna da
Hobsha'hTll não afirmou que.: a tradição e o costume for,lIn totalm ente con l'or micJadt: com o status quo mal po de m ser tratadas corno Gl ­
elim inados pelo m undo cOlTlt.:rciali zado de And)' Capp. Fortes afi­ ractníst icas dd lnidoras daqueles trabalhadores "tradicionai s" en­
nidad es com noções apar entem ent e inalteradas de "local" e costume ~olviclos t'OIIJ a «a.g itaç-ão operária" no período anter ior e poste r ior
ofereceram e contin uaram a oferecer - uma sensa~'ãü de se­ a Primeira Grande Guerra ou daqueles que lutaram para construir
guran ça em Illl' io a transformações que eram, de fato, rápidas (em­ ) Partido Trahalhador ou organizações polí t icas r e l'olu cioná rias
bora incertas) em nível tanto lo cal quanto naci onal. Mais ainda , comprom issadas com câm bios radi cais da so ciedade cap it alista, ou
Davics e Cunni ngham C' stão ce r tos em identi ficar difi culdades de Tnesmo com sua tram forma~~ão completa .'" Alto no supram e ncio­
ordem maLerial e com bas e nas d iferenças de gênero na via de acesso nado "da'ssl'c o cortiço - conseryad or quanto fata­
. " d c R o b erts, tao
l' (ó t t 11 fL\: t", ) S T U \1 ~ , co M ~ R C I \1 , I oi: .\ ~• •i." E ( L .'\. S ~ ~ I 69
hl! I NfVlI I ~ KII\K

l ista, lmporta ntes alte ra ~õei; seg uiam seu curso nos anos pos ­ 10 tdem , "p <"It. , 1'. 16.
11 Idem, "p . rit. , P 17; Jcrry Wh ilc , fhc ll'ur.5l .~tr{'d il1 North [ one/fln :
ll'riores à Primeira Grande Guerra: "os homens ,'stavam mud and
Camf'/;dl Runk. 's/ingtulI, 1.Jc( I\'I'..,n lhe \\"Jr> . Londres: ROlllledgc & Kcga n
sua cabeça [ ... J. Familias pohres, Tories empedernidos , que ti nham Paul, IQ86. I'p . S6 - 8/! .
\ otado nos conser vadores desde qu e consl'guiram o surrágio, não 12 Pau l Jolt n~() n. S.l\·ing anrl .'pcnJing : lh e: l1'urking.t'f;JÇ$ cconom,I' in l3ritJin
aponla\·am para O~ liberais, mas para o 'Traball1ismo ''' . 35 1870-19,9. o"r.. rd ; Clarc nd on I' rc ss. 19115, especia lmenle a "C()l\c1usão~.
Em suma, ao lado do loca l de trabalho e da arena pohlica , a 1~ ltarctlt Slt'dm"n J on,' ~, wWo rk in g-li,,~s cu lturc J.nd working e las. polilics
in 1.<>11<10It, Ifl70 1900 , no tes 011 (hc r e making 0 1' a work in g class", in [ an ­
cul tura operár ia con stituiu um lu gar importante para uma cons­
guagc' or"~,·., . Cambri dgc : Cam bridge Uni "crsi l) Prc ss, 1983.
ciência de classe "redcspe rta". Os ano s do l' nlreguerras iriam
1-I- Carl Ch iJIfl. Til,"." l' urk,'.-! all Ih"ir !i,....': li omcn oi Ule ur!Jdn p oor in .Eng lJ.!uj
contem plar não só o desenvo lviml'nto, m as tam bém rel evantes IS80 / 939. M;ulrh c~l(T : Man("h '''le r Un i"\'rsit" P re.~s, 1989 , p. 22 ; Andre\\
modifi cações na cultura operár ia " 1radicional". DJ\·ics, L CI,. urt' gcndrr J.IlJ pOlcrt.v : n·orking da<, culwrc: in Sallord and
M,}I",fll" ter 1900- 1939. Buckingh.lm : üpcn Uni \'crsity Press, 1992 , pp. 7,
I 36- ~8
15 David Englan d"J" c Ro~t rna r y 0'0.1) (orgs.) , Rdriev"d rirh e.s: sodal in·
NOTAS I ·C~ tig dti(} [J in Bri/ain 184·0-J9J4. Al de r,hol : Sl'ola r Pr e~s. 1995; Chinn ,
op. I' it., pp. 1 -3.
Para uma ,I\" aliação cntiCll e intro d.u lori a dessas duas abo rdage ll.s, ver Nc"ill e
Kirk , Change contin uity .lnd c1ass: lahO llr in Brilish .< ocie ty, J850 · J920.
16 Ch inn . 01'. dt . , p. 166 ; Daviô. op. cit ., p. 171 .
17 El len Ros" I ()('t' ., nd l"iJ: moth,'rhood in outCdS/ Lu ndon J870- J91 8. Oxford:
Manchester: Man chcstcr Uni \"~rs ity Pr ('ss, 1998.
Oxfo rd Uni vcr,tl)' r r(,%, 1993 ; Melank Teh butt, "Wo rn cn·, talk7 Go>sip an d
2 Fri c Ilob sbaw m , "Th e making of lhe wo rki ng c.lass 1870-1914" , in World., o f
·wome.n 's words' in working-cla% communiti cs, 1880 -1939", in Oa\" ic ' e
labour. Londrcs: W idcnf"" ld and Nico lson , 1984, pp. 198 e 204.
fi (' ldil lg (org'i. ), o p. cit. ; Elizabeth RObens, li H'oman 's plaec: .I n oral hi,, /or)'
;-.I\.!\'ill e Kirk . ''' Traditio nal' working c bss culture an d ' lh e ri se of labou;r':
u[workillg -das." I\·CJm ,·n J890·19J4. Oxfo rd: Rlack\\'c ll, 198 4·; Joan.1 Bourkc,
som e preliminar)' quc.slions Jn d obseryatio ns", Social Hisl"Ory, 16 . 2, 199 J ,
\.V,Jrkirrg ct,l';., cu /tun·., in Bri/din J 890- J 960. Londres, Rou tl edge , 1994 ;
pp 203- 16.
ChIIlIl, " I'. rlt ., p. 4 .
4 Richard floggarl , Th " US L?S of}iteracy. Harmondsworth : I'c:nguin , 1958, p. 17.
5 É isso o qU I! faz :t ~InlrQdução " dos organizado res An drew D"\"i,' , ~ <;te"c n
18 C hinn, 0r.. ·it., ~J.P'. 1 e 3 e p. 162.
19 Davics, op. ,·it. , Clp. 5 e p p. 169· 70; Andn'w Odvics , " Lcisu r e in the ' cl a5sir
Fidding ao lino \Vork cr<' \l"orld ..: c uh urc< and commun itics in Manr hest l' r
~ lum "' , in Dav i ,'~ " Fic lding (org'.), op. cit., pp. 126. 7 7. Para uma visào
3ml Salfo rd, J880 - J939. Man chcslc r: Manch est"r Uni, w,i l )" PT('SS, 19 92.
scmcl hantt" Vt't Ht\gh Cun ni ngham , "Leisw·c", in John Bcnsoll (org.) , Til("
Nrss " , c nti ,lo , c dueiel.IU "o citar um a passagl'm d e auturia d o pr ópr io
",urking I Ia.<ç ill EIJgJaw/ 1875- J 9/-1-. Londres : Rou tl cdgc & Kt'gan Paul, 1985.
Ilo bsbawm: "Se inli tu lei estc capitu lo de O f.17:e r-se da d a,s~ o pe r,i ria in­
20 Chinll . "I'. dl . , ('ap' . 1 c 2; Robrrt s, A IIOIII.1n" place, op. dt ,; Bo urk,' ,
glesa ', não ~ portlu e eu p rete nda sugerir q ue a for ma ção nesta o u d e qual.
qun outra cb sse se.ja. UIll pr oc·cs>o co m inici o, m eio ,~ fim, C\)1TI O a con.s­
IIp. ,' il.. pp. IH 67; Da\' i,', (' Fi" lding (or!!.,. ), o p . d t., pp . 10-1 2 : l13"k' ,
J. dsur" g"nth' r aml {1o vt"r 1y, "p. ,' il . • PI'. 17 1-72.; <; <>nya O. Rose. I imi lc cI
tru ~'ão ,li- li ma casa. As I: lasscs nunca estão pro nta, no ",nti tlo de acahada"
li vclill/lot/." gentia dnrl (Ia s> in ninl"I t'(~ I1[h · Ct·nlun [ nl!lanJ . Bcr kcl "v :
ou de 1\'1"<' m adqu i rido su a f"iC;ão ddini ti"a. Elas l'Ontin udm a mudar".
Hoh-hawm, 0['. dt ., p . 194. Analogamentt', para confe r ir d cnfa.';(> na rcs
Univcrsit~ .. f Ca llfllrnia !'r..só , 1992; id em . "Gl'nrl : r dn d \abOlir hi'lOr~:
rhc nine(c'<'lIlh · (' entLlI"\ l cg~"v~ IJ)/c ', 1/,Jt;onn.l 1 He I ícw orSocia J J-/i'·lOr·\",
tr iç:io (mas não e liminação to tal) a di visõl's inlcr nas à L' I J.~se Ir.lha lh adora,
ver id em , 0p. cit. , pp. 204 -8 .
n' 38, 1':193, 'iup l <:nl<.~ to I; SYI'ia Wa lb)', PiJlridnh)' .11 ,wrk. pJtriard;JI
dl1d Cilpitali.\! r d ,Hinfl .\ in c·mploJI11t'n t . Cam br id gc PQl ity Prc·ss , 1986;
6 Hoggan , op. ci t . , p. 7 1.

I>at Ayers " Jan La 111 !I"rL I , "Ma rrwgl: r e.l alÍons , mo n", and dOlll cs ti c vio­
7 Ro b,· rt Rol>(· rts , Th .., das.\JL . lUJ1J: Sal/ u rd /ire in r11C f'int qu.lrtt' r ur t.hc

I""t<" in \\orbng ,lass I is\.!rpoo l, 1919 - 39", in Jan e Lc\\iS (o rg.) , La b o llr
u ·fJIUIJ. Harrnon ds"orlh : Pcng uill , 1973 , p. 17 .
fh r.J l1J i I )" ( ' S'iO -J 9·W.).
.,ntl/m ·e : " <>merJ ·'\'x!,l' ricncc nom e an J O. xloJ"
. d:
8 Ide m , op. cit .. p. 20.

B. Blillk\vell , 1986 . \f" r L3nl b ~m Ro'~, 0[1. cito .


9 Idem , op. cit . , pp . 2 1-23 .

) 0 I NEVI I LF KIR K

2 1 Bourke. nr . ci t . , cap o 1; Tebbutt, op. cit , pp. 6 8 -69 .


22 Debo rah Thorn . "The bund k or sti. b: wom en , trade uni o ni sts an d co ll cctive
organisation h efor e 19 18". i r\ li ngela V. Jobn (o rg. ), UnequJ I opp or!"unitics:
wo m clI:' empln)"m elJ t in Eng lanrl 1800-1 9 18. O xford : B. Blac kwc ll . 198 6 ;
Elc,lno r Go rdo n, Wom en an d th,' labo ur m O"cm " n!" in Seo e/am/ / 850 19 14.
Oxf()rd: Clarendo n Pre.ss, 199 1; Bourke, op . cit. , pp . 8 1- 89.
23 Da\' ics e Fi elcling (orgs.) , op . ci t., p. 10 .

4 Bo urkc, op. cit . . cap 2; Ch inn, op. cit . , pp . 14 - / 8.

2 5 Pe ler Gurn cy, Co -op erati vr cu/ture Jnd th c p olitics of eon sum ption in r:.nglJIl el
II

1870-1 930 . Manchester: Manchcs ler Universily r n ,-,s, 1996, pp. 22 e 78 .

26 Chns Water s, Br itish socia lis ts an d th e p olities of p opular cull ll re 1884­


/91 4. Manch es tc r : Manches tcr Uni\'c rsity Pr e.ss , 1990, p. 35.
27 1Iugh McLeod , R elig ion an d th ,' working d as.' in nin etccnth -eentury Rritain .
Londres : MacM iIl an , 1984, pp. 65 -66. SOCIABILIDADES,

28 Trevo r Gr iffi ths, Work , class anel co mmunity: social identiti cs anel polí tical
chang c in th e Lancash irç Coalric ld , 19 10-19 39. Tese de dout or ado , Uni­
vers it)' of O x ford O x ford , 1994 , pp. 4 08 -9.
IDENTIDADES ELAZER

29 Ver Stcve n Fielding. "A se parate c ult urc l Iri sh cath() li cs in working-c1ass
Ma nches ter and Sal fo rd , 1890-1 939", in Oavies e Fielding (orgs .) , op. ci t .;
Roge r S", ift c Sher ida n Gill ey (o rgs . ), Th c Irish in Britain 18 / 5- 1939.
Lo ndres : Pinter, 19 89; Phili p J. Walkr, D em ocrac." m el sectarian ism . U ve r ­
poo!: Liverp ool Uni \'cr sity Press , 19 8 1.
30 Kenne th Lu nn (o rg. ) , H osts im m lt ranr, and minorif i cs: hist orical r esp onses
to n e w co m er .< in Bri tish so cie !)' 1870 - / 9 14. Fol h " to ne: Harv (' st Press,
19 80; Kenneth LUJl n (org.) , Ra ce anel labour in twentieth-ce ntu ry Britain .
Londres : F. Cass , 1985; Colin Ho lrne s, j ohn BlIWs ishl1l d: immigra tion and
British soci e ty 187 1- / 9 71. Lon dre,: Ma(' Mill an , 198 8; Pani ko s Panay i ,
1nun igration e thnjeity an J racism in Britain 18 15- 1945. Man ches tcr : "'an­
chcste r Uni vcr si ty Press, 199 4 .
3 1 Hobsbaw m, op . cit. , caps . 10 e 11.
32 John Wallon , fish anel chips anel lh e Bri tish ' I'O r king elas.' 1870- 1940 .
Lc icc' ler : Lcicester Uni vc r sit~' Press , 1992 .
33 Kirk , "'Traditio nal' working-c1ass culture and ' tht' ri S\' o f lab ollr "', op. ci t .•
p. 7 16.
34 Ross McK ibbin. Th L' i rlc() l og i(' ~ o i c/ass o O xford : Ox ford Univers ity Press ,
I C)9 i. esp l'ci;dm t' n tc a "Cnn cllllião" ; J. M. Winter, "Track uni o ns an d lhe
Lab our Part )' in Br ilaiJ, ", in Wolfg.Ul g J . Mo mm se n e Han s-Ge rh ard H usullg
(org',), Th e dt.! ,d opmcnt o I' lrJclc union ism in Gn:at Brjtain a/lel Gcrmall)
1880-} 9 1+. Lo ndr es: George All en & Unw in , 198 5 .
3) Roherrs, Thc d assi<. .</um , op. cit ., p. 2 19.