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Fórum

Social
Mundial
2015

Processo do Coletivo Brasileiro Rumo à Tunísia


Fórum Social Mundial 2015
Processo do Coletivo Brasileiro Rumo à Tunísia

Coletivo Brasileiro rumo ao FSM 2015 na Tunísia:


Abong – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais
Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada
CUT – Central Única dos Trabalhadores
Flacso – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais
Geledés – Instituto da Mulher Negra
IPF – Instituto Paulo Freire
UBM – União Brasileira de Mulheres

Maio 2015
Coletivo Brasileiro Rumo à Túnis 2015
Damien Hazard
Vida Brasil e Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais - Abong
Leonardo Vieira
Rogério Pantoja
Central Única dos Trabalhadores - CUT
Liège Rocha
União Brasileira de Mulheres - UBM
Nilza Iraci
Geledés - Instituto da Mulher Negra
Rita Freire
Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada
Salete Valesan Camba
Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais - Flacso
Sheila Ceccon
Instituto Paulo Freire - IPF

Organização e redação
Alessandra Ceregatti
Camila Caringe
Helda Oliveira Abumanssur
Maíra Vannuchi
Rafael Mignoni
Renata Passos
Colaboração
Deborah Moreira
Soraya Misleh
Bia Barbosa
Suelaine Carneiro
Revisão
Amanda Proetti
Diagramação
Tomas Irici
Imagens
Aline Baker
Elaine Rosa do Santos
Eliane Gonçalves
Gilmar Campos
Janaina Abreu
Juan Alberto Sansano Estradera
Leonardo Severo
Luiz Carvalho
Luiz Marine José do Nascimento
Mídia Ninja
Nelson Pombo
Sandro Ruggeri Dulcet
Stella Oliveira
Vida Brasil
Sumário

Carta de Princípios do Fórum Social Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4


Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Diálogos sobre a participação social. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Democracias: novas estratégias de participação popular para o empoderamento da
sociedade civil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
Sociedade civil global e a agenda de desenvolvimento pós-2015 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
IV Fórum Mundial de Mídia Livre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Combate ao racismo e à xenofobia e luta por reparações. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Atividades complementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Perspectivas
O legado do FSM 2015 na Tunísia para o processo do FSM 2016 no Canadá. . . . . . . . . . . . 43
Anexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Organizações contempladas pelo projeto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Carta Mundial da Mídia Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
Declaração de convergência global dos movimentos em luta por terra e água . . . . . . 56
Fórum Parlamentar Mundial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Cronologia e História da Tunísia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
Missão Gaza. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Carta de Princípios do
Fórum Social Mundial

O
Comitê de entidades brasileiras que idea- 4.  As alternativas propostas no Fórum Social
lizou e organizou o primeiro Fórum So- Mundial contrapõem-se a um processo de globa-
cial Mundial, realizado em Porto Alegre lização comandado pelas grandes corporações
de 25 a 30 de janeiro de 2001, considera neces- multinacionais e pelos governos e instituições
sário e legítimo, após avaliar os resultados desse internacionais a serviço de seus interesses, com
Fórum e as expectativas que criou, estabelecer a cumplicidade de governos nacionais. Elas vi-
uma Carta de Princípios que oriente a continui- sam fazer prevalecer, como uma nova etapa da
dade dessa iniciativa. Os Princípios contidos na história do mundo, uma globalização solidária
Carta, a ser respeitada por toda/os que queiram que respeite os direitos humanos universais,
participar desse processo e organizar novas edi- bem como os de todas/os cidadãos e cidadãs em
ções do Fórum Social Mundial, consolidam as de- todas as nações e o meio ambiente, apoiada em
cisões que presidiram a realização do Fórum de sistemas e instituições internacionais democrá-
Porto Alegre, asseguraram seu êxito e ampliam ticos a serviço da justiça social, da igualdade e
seu alcance, definindo orientações que decor- da soberania dos povos.
rem da lógica dessas decisões. 5.  O Fórum Social Mundial reúne e articula so-
mente entidades e movimentos da sociedade
1.  O Fórum Social Mundial é um espaço aberto civil de todos os países do mundo, mas não pre-
de encontro para o aprofundamento da reflexão, tende ser uma instância representativa da socie-
o debate democrático de idéias, a formulação dade civil mundial.
de propostas, a troca livre de experiências e a 6.  Os encontros do Fórum Social Mundial não
articulação para ações eficazes, de entidades têm caráter deliberativo enquanto Fórum Social
e movimentos da sociedade civil que se opõem Mundial. Ninguém estará, portanto autorizado
ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo a exprimir, em nome do Fórum, em qualquer de
capital e por qualquer forma de imperialismo, e suas edições, posições que pretenderiam ser de
estão empenhadas na construção de uma socie- todas/os suas/seus participantes. As/os partici-
dade planetária orientada a uma relação fecun- pantes não devem ser chamadas/os a tomar de-
da entre os seres humanos e destes com a Terra. cisões, por voto ou clamação, enquanto conjunto
2.  O Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi de participantes do Fórum, sobre declarações ou
um evento localizado no tempo e no espaço. A propostas de ação que as/os engajem a todas/
partir de agora, na certeza proclamada em Por- os ou à sua maioria e que se proponham a ser
to Alegre de que “um outro mundo é possível”, tomadas de posição do Fórum enquanto Fórum.
ele se torna um processo permanente de busca e Ele não se constitui portanto em instancia de po-
construção de alternativas, que não se reduz aos der, a ser disputado pelos participantes de seus
eventos em que se apóie. encontros, nem pretende se constituir em única
3.  O Fórum Social Mundial é um processo de ca- alternativa de articulação e ação das entidades
ráter mundial. Todos os encontros que se reali- e movimentos que dele participem.
zem como parte desse processo têm dimensão 7. Deve ser, no entanto, assegurada, a entidades
internacional. ou conjuntos de entidades que participem dos

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encontros do Fórum, a liberdade de deliberar, dominação, sobre as alternativas propostas para
durante os mesmos, sobre declarações e ações resolver os problemas de exclusão e desigual-
que decidam desenvolver, isoladamente ou de dade social que o processo de globalização ca-
forma articulada com outros participantes. O pitalista, com suas dimensões racistas, sexistas
Fórum Social Mundial se compromete a difundir e destruidoras do meio ambiente está criando,
amplamente essas decisões, pelos meios ao seu internacionalmente e no interior dos países.
alcance, sem direcionamentos, hierarquizações, 12.  O Fórum Social Mundial, como espaço de
censuras e restrições, mas como deliberações troca de experiências, estimula o conhecimento
das entidades ou conjuntos de entidades que as e o reconhecimento mútuo das entidades e mo-
tenham assumido. vimentos que dele participam, valorizando seu
8.  O Fórum Social Mundial é um espaço plural intercâmbio, especialmente o que a sociedade
e diversificado, não confessional, não governa- está construindo para centrar a atividade econô-
mental e não partidário, que articula de forma mica e a ação política no atendimento das neces-
descentralizada, em rede, entidades e movimen- sidades do ser humano e no respeito à natureza,
tos engajados em ações concretas, do nível local no presente e para as futuras gerações.
ao internacional, pela construção de um outro 13.  O Fórum Social Mundial, como espaço de
mundo. articulação, procura fortalecer e criar novas
9.  O Fórum Social Mundial será sempre um es- articulações nacionais e internacionais entre
paço aberto ao pluralismo e à diversidade de entidades e movimentos da sociedade, que au-
engajamentos e atuações das entidades e movi- mentem, tanto na esfera da vida pública como
mentos que dele decidam participar, bem como da vida privada, a capacidade de resistência so-
à diversidade de gênero, etnias, culturas, gera- cial não violenta ao processo de desumanização
ções e capacidades físicas, desde que respeitem que o mundo está vivendo e à violência usada
esta Carta de Princípios. Não deverão participar pelo Estado, e reforcem as iniciativas humaniza-
do Fórum representações partidárias nem or- doras em curso pela ação desses movimentos e
ganizações militares. Poderão ser convidados entidades.
a participar, em caráter pessoal, governantes e 14.  O Fórum Social Mundial é um processo que
parlamentares que assumam os compromissos estimula as entidades e movimentos que dele
desta Carta. participam a situar suas ações, do nível local
10.  O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão ao nacional e buscando uma participação ativa
totalitária e reducionista da economia, do desen- nas instâncias internacionais, como questões de
volvimento e da história e ao uso da violência cidadania planetária, introduzindo na agenda
como meio de controle social pelo Estado. Pro- global as práticas transformadoras que estejam
pugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela experimentando na construção de um mundo
prática de uma democracia verdadeira, participa- novo solidário.
tiva, por relações igualitárias, solidárias e pacífi-
Aprovada e adotada em São Paulo, em
cas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, con-
9 de abril de 2001, pelas entidades que constituem
denando todas as formas de dominação assim
o Comitê de Organização do Fórum Social Mundial,
como a sujeição de um ser humano pelo outro. aprovada com modificações pelo Conselho
11.  O Fórum Social Mundial, como espaço de de- Internacional do Fórum Social Mundial no dia
bates, é um movimento de idéias que estimula a 10 de junho de 2001.
reflexão, e a disseminação transparente dos re-
sultados dessa reflexão, sobre os mecanismos e
instrumentos da dominação do capital, sobre os
meios e ações de resistência e superação dessa

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 5


Introdução

O
Fórum Social Mundial (FSM), uma iniciati- encontro mundial a cada dois anos, sendo que,
va da sociedade civil global, tem sido um nos anos de intervalo, é estimulada a realização
encontro democrático que procura incen- de fóruns temáticos, descentralizados e autôno-
tivar os debates e o aprofundamento da reflexão mos, a fim de dar seguimento às articulações e
coletiva, a formulação de propostas alternativas, reflexões críticas nos diferentes países e regiões.
a troca de experiências e a constituição de coa- O Conselho Internacional (CI) é a instância
lizões e de redes entre os movimentos sociais, de facilitação coletiva do processo do Fórum
as Organizações Baseadas em Comunidades Social Mundial, cuja missão é promover ações
(OBCs), as Organizações Não Governamentais e reflexões necessárias para que o Fórum con-
(ONGs) e outras Organizações da Sociedade Civil tinue existindo. O CI foi criado em 2001 na oca-
(OSCs) que se opõem ao neoliberalismo e ao do- sião de um convite feito a diferentes instituições
mínio do mundo pelo capital. Caracteriza-se pela pelo Comitê Organizador Brasileiro do evento,
pluralidade e diversidade e por ser um espaço composto por um grupo de oito entidades que
laico, não governamental e não partidário. O Fó- organizaram a primeira edição do FSM. Poste-
rum Social Mundial não é uma entidade jurídica riormente, mais organizações se somaram ao
e nem uma organização. Conselho Internacional.
Após a edição de Porto Alegre, em 2001, a O CI congrega hoje 120 redes e movimentos
primeira a acontecer em nível mundial, o even- sociais do mundo inteiro, tendo desenvolvido uma
to tornou-se um processo de busca e constru- nova forma de propor e facilitar os diálogos e en-
ção de alternativas às políticas neoliberais. Esta contros de maneira a favorecer o fortalecimento
definição consta da Carta de Princípios do FSM, das lutas sociais e a criação de alternativas em
que tornou-se o evento de referência para o pro- nível global. É uma estrutura que não possui po-
cesso de articulação da sociedade civil mundial- der de direção, nem hierarquias, líderes ou coor-
mente. Sua dinâmica consolidou-se lentamente, denadores/as, e todas as decisões são tomadas
não apenas por meio de seus eventos anuais e por meio do que é chamado de “consenso qualifi-
regionais e de seus encontros locais e temáticos, cado”. O CI quer estar profundamente conectado
mas também através de um processo constante com a dinâmica dos movimentos sociais sem ser
de debates, de fortalecimento e de organização um corpo representativo de qualquer movimento
de ações e lutas que desafiam a ordem neolibe- social específico ou sociedade civil organizada,
ral e buscam a criação de alternativas. como consta em sua Carta de Princípios1.
Para ampliar esse processo, incluir atores O Fórum Social Mundial se transformou na
anteriormente ausentes e atrair maior varie- principal referência nos debates sobre a respon-
dade de movimentos sociais, organizações e sabilidade social e econômica para com o nosso
regiões do mundo, o Fórum Social Mundial foi planeta e nosso futuro. Uniu inumeráveis partici-
capaz de se reinventar de forma sistemática. Ex- pantes, ativistas e líderes de movimentos sociais
perimentou diferentes formatos e novas meto- e populares, redes e campanhas, estudantes,
dologias de organização, comunicação, dissemi-
1 Para histórico, informes e documentos do FSM,
nação e trabalho. Atualmente, o FSM propõe um
acesse http://www.memoriafsm.org/.

6 Fórum Social Mundial 2015


mulheres, intelectuais, cientistas, artistas, jorna- Em todo o mundo, incluindo Europa, Ásia,
listas e outros/as formadores/as de opinião. África, América Latina e do Norte, movimentos
De 26 a 30 de março de 2013, aconteceu a sociais enfrentam a piora das crises econômicas,
décima edição do Fórum Social Mundial, na ci- sociais e ambientais e uma ofensiva sistemática
dade de Túnis, na Tunísia. O penúltimo encon- contra os direitos sociais. O Fórum Social Mun-
tro mundial enfocou questões como transição dial continua, mais do que nunca, sendo um es-
democrática – extremamente relevante no con- paço vital para os movimentos que lutam para
texto da Primavera Árabe e da nova democracia que os povos salvaguardem sua dignidade, si-
tunisiana –, formação de redes e articulações en- gam donos de seus próprios destinos, conquis-
tre organizações de todo o mundo, luta contra o tem novos direitos econômicos, sociais, culturais
racismo, entre outras. A decisão de fazer o FSM e ambientais e construam alternativas ao neoli-
de 2015 novamente em Túnis foi tomada após a beralismo, mais necessárias do que nunca.
avaliação do impacto do FSM 2013 na conjuntura
e nas lutas dos movimentos sociais dos países FSM 2015
do norte da África e do mundo, considerando o Para a edição do Fórum Social Mundial 2015,
novo contexto geopolítico e a evolução da crise na Tunísia, um grupo de organizações tomou pa-
do modelo neoliberal. ra si a responsabilidade do processo de rearti-
Avaliou-se que, na edição de 2013 do FSM, foi culação do grupo brasileiro ligado ao FSM com
possível perceber que os países árabes, que con- o objetivo de mobilizar movimentos e organiza-
duziram processos políticos populares de con- ções nacionais ou regionais que estiveram ou
testação de Estados autoritários, enfrentavam estão envolvidos com o evento, bem como infor-
sérias dificuldades em seus processos nacionais mar sobre os processos em curso, trocar refle-
de democratização. Nesses países, os governos xões sobre o FSM e buscar convergências.
dos últimos anos não foram capazes de refor- Dessa forma foi constituído o Coletivo Brasi-
mular e implementar políticas que garantissem leiro, composto por sete organizações (Abong –
liberdade e emprego aos/às jovens, igualdade Associação Brasileira de Organizações não Gover-
de direitos às mulheres e justiça social aos movi- namentais, Ciranda Internacional da Comunicação
mentos. Pelo contrário, em toda a região, o fluxo Compartilhada, CUT – Central Única dos Trabalha-
de armas e a violência de extremistas religiosos dores, Flacso – Faculdade Latino-Americana de
se enraízam, as políticas neoliberais ditadas pelo Ciências Sociais, Geledés – Instituto da Mulher
Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Interna- Negra, IPF - Instituto Paulo Freire, UBM – União
cional são apresentadas como a única solução e Brasileira de Mulheres), que coordenou várias ati-
os movimentos sociais e democráticos vêm en- vidades preparatórias e foi responsável pelo pro-
frentando cada vez mais criminalização. jeto nacional que levou cerca de 150 brasileiros e
Intervenções políticas e militares externas brasileiras ao Fórum Social 2015, em Túnis.
se converteram em regra e apontam para a uti- A participação da maior parte da delegação
lização oportunista da instabilidade interna em brasileira foi viabilizada por um projeto coletivo
favor dos Estados Unidos, Europa, Turquia e paí- de âmbito nacional, patrocinado pela Petrobras,
ses do Golfo. Além do Maghreb e do Mashreq, fruto de um processo participativo e transparen-
o continente africano, transformado em fonte te que contemplou diversos eventos de mobiliza-
principal de matérias primas e nova fronteira ção, dentre os quais, encontros e seminários rea-
econômica, é duramente açoitado pela violência lizados em São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS), a
extremista, pela violência devastadora dos pro- fim de rearticular movimentos sociais de todo o
gramas de ajuste econômico e pela militarização País em torno da formação do Coletivo Facilita-
generalizada de seus territórios. dor Brasileiro Rumo a Túnis 2015.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 7


Um seminário internacional preparatório foi ventude e, por fim, a Missão Gaza, que conduziu
promovido em janeiro de 2015, em Salvador (BA), brasileiros/as na tentativa de ingressar à Pales-
e contou com a participação de integrantes do co- tina. A missão recebeu, no entanto, o embargo
mitê de organização tunisiano e do Conselho In- de Israel, com consequências e desdobramentos
ternacional do FSM. O seminário reuniu cerca de diplomáticos até o presente momento.
200 participantes na Biblioteca dos Barris, vindos A participação brasileira, a mais expressiva
de todas as regiões do País. Este evento também da América Latina, destacou-se pela diversida-
serviu para discutir as expectativas e traçar os de. Foi o coroamento de um processo público
quatro eixos principais em torno dos quais a Ca- de seleção de representantes de organizações
sa Brasil – espaço brasileiro no território do FSM para a composição da delegação, levando-se em
– propôs suas atividades. Foram eles: consideração critérios como representatividade
• Mecanismos e instrumentos de democracia e diversidade étnica, cultural, regional e de te-
participativa: construção de novos modelos de máticas de trabalho, entre outros. Cerca de 200
participação cidadã; pessoas de mais de 100 organizações e movi-
• Enfrentamento ao racismo, xenofobia e repara- mentos de todo Brasil representaram os mais di-
ções; versos segmentos: movimentos negros, albinos,
• A Sociedade Civil planetária e a agenda Pós 2015; de juventude, mulheres, pessoas com deficiência,
• Democratização dos meios de comunicação – reforma agrária, saúde, educação, centrais sindi-
Atividades propostas pelo Fórum Mundial de cais, movimentos culturais, direito à cidade, jus-
Mídia Livre durante o FSM. tiça ambiental, justiça de transição, LGBT, povos
A edição de 2015 do Fórum Social Mundial tradicionais, democratização da comunicação,
aconteceu entre os dias 24 e 28 de março, em economia solidária, catadores/as, artesãos/ãs,
Túnis, capital da Tunísia. Sob o tema “Dignidade, direitos humanos, governos e empresas estatais.
Direitos”, o FSM 2015 recebeu cerca de 45 mil No espaço do FSM, na Tunísia, foi construída a
pessoas e 4,4 mil organizações e movimentos de “Casa Brasil”, uma tenda de 300 metros quadra-
122 países, sendo a maior parte da África do Nor- dos de extensão onde foram realizadas mesas de
te e do Oriente Médio, mas também da Europa, diálogo e debates promovidos por organizações
de diversos países africanos e das outras regiões brasileiras, dando visibilidade à presença brasilei-
do mundo. O número foi inferior às expectativas ra no FSM e às suas bandeiras de luta. A estru-
iniciais – antes do atentado, esperava-se cerca tura montada, com capacidade para participação
de 60 mil pessoas –, mas significativo. Mais de de cerca de 150 pessoas e tradução simultânea
1 mil atividades autogestionadas aconteceram para os idiomas português, inglês e francês, fa-
no território do FSM e 150 atividades estendidas voreceu a maior interação dos/as brasileiros/as
ocorreram fora do território do evento, em fun- com participantes de diferentes países.
ção do momento e dos debates. A tenda da Casa Brasil foi ponto de refe-
Paralelamente ao FSM e em função de sua rência, de encontros e das grandes atividades
realização, ocorreram também o 4º Fórum Mun- organizadas como parte do projeto do Coletivo
dial de Mídia Livre (FMML), Assembleia Geral do Facilitador Brasileiro Rumo a Túnis 2015. As or-
Fórum Internacional das Plataformas Nacionais ganizações brasileiras propuseram um conjunto
de ONGs (FIP), Assembleia das Mulheres, Assem- de debates sobre assuntos de interesse comum,
bleia dos Movimentos Sociais, marchas, reuniões em parceria com outros atores internacionais da
da delegação brasileira (encontro de boas vin- sociedade civil e com representantes governa-
das, encontro com representantes do governo, mentais brasileiros/as. Honrando seu papel his-
reunião de avaliação do processo), Fórum de tórico, o Brasil permanece como ator estratégico
Saúde, Fórum Parlamentar, Assembleia de Ju- no processo do Fórum Social Mundial!

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Diálogos sobre a
participação social
Composição da mesa:
Boaventura de Sousa Santos, Universidade Popular dos Movimentos Sociais, Portugal
Ivana Bentes, Secretaria da Cidadania e Diversidade do Ministério da Cultura do Governo Federal do Brasil
Jeferson Miola, assessor internacional da Secretaria Geral da Presidência da República do Brasil
José Barbosa, gerente de relacionamento comunitário e responsabilidade social da Petrobras

Coordenação da mesa:
Rogério Pantoja, executiva nacional da CUT – Central Única dos Trabalhadores, Brasil
Salete Valesan Camba, Flacso – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Brasil

Brasil: participação social como motor nos distintos espaços institucionais de democracia
de avanços na última década participativa permitiu um processo de inversão de
prioridades e de conversão do orçamento público
A partir de 2003, o Brasil iniciou um ciclo im- em um instrumento de justiça social.
portante de mudanças que alteraram completa- Não há dúvidas de que esse processo tem limi-
mente a sua fisionomia, retiraram 36 milhões de tações, contradições e impasses, mas é certo que a
homens e mulheres da mais absoluta pobreza e estrutura de participação social desenvolvida nos
incluíram 20 milhões de trabalhadores/as no mer- últimos 12 anos no Brasil talvez não tenha equiva-
cado formal de trabalho, muitos filhos e filhas da lência em todo o mundo. Ela é composta por um
população negra, cujos/as vários/as descendentes, complexo sistema de mais de 40 conselhos temá-
gerações após gerações, conseguiram, pela primei- ticos, bem como conferências e mesas de diálogo
ra vez, o acesso à universidade. Tais mudanças só que debatem, periodicamente, as políticas públicas
foram possíveis com a inauguração de um governo e diretrizes de Estado e definem prioridades de in-
que ampliou e aprofundou a permeabilidade do vestimento e planos de médio e longo prazo que
Estado à participação social. A presença intensiva o Estado brasileiro deve executar. Um dado que
e qualificada da representação da sociedade civil demonstra a magnitude dessa participação: entre

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 9


1941 e o ano de 2002 foram realizadas, no Brasil, que integra junto com Rússia, Índia, China e Áfri-
41 conferências temáticas. Já no espaço entre 2003 ca do Sul, no qual se trabalha para a construção de
e 2012, foram feitas 103 conferências temáticas um banco alternativo ao Banco Mundial. Tal pro-
que deliberaram sobre o conjunto das políticas de posta é uma ameaça crucial à dominância do dó-
interesse da sociedade civil brasileira e que envol- lar como reserva internacional. Em consequência,
veram mais de oito milhões de pessoas, pratica- a reação é implacável. Ao mesmo tempo, o Brasil
mente a população da Tunísia. deve estar alerta a uma certa atitude imperialista
Tais avanços no plano democrático permiti- que afasta a solidariedade internacional e frag-
ram que o Brasil pudesse mudar sua conformação menta os movimentos sociais, visível, por exemplo,
social, política, econômica e também cultural, mas na atuação em Moçambique de empresas como a
não encerram o desafio do governo de ampliar a Odebrecht, a OAS, a Vale, bem como na exporta-
participação da sociedade e qualificar os processos ção de programas de agronegócio como o Pró-Sa-
de democracia participativa. Após as mobilizações vana, com financiamento e tecnologias brasileira
de junho de 2013, buscando dialogar com o anseio e japonesa.
popular expresso nas ruas, o governo instituiu o Por todo o continente latino-americano há
Plano Nacional de Participação Social, cujo objeti- organizações altamente financiadas para destruir
vo é conceber, do ponto de vista da administração governos progressistas. O ódio do imperialismo
pública federal brasileira, uma noção estratégica americano em relação a estes governos estende-se
permanente de presença da sociedade civil na de- também a Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Cor-
finição dos rumos do País, do planejamento e do rea, no Equador. Porém, estes governos não estão a
orçamento do Estado brasileiro. Entretanto, essa ponto ainda de ser desestabilizados porque houve
iniciativa não encontrou correspondência no âm- eleições recentes com vitórias muito significativas.
bito do poder legislativo. Uma primeira fase desse processo foi marcada pe-
los golpes em Honduras e Paraguai. O que se vive
agora na Argentina, Brasil e Venezuela é uma se-
Retomada do imperialismo nas Américas gunda fase do mesmo processo. Tal imperialismo
e desafios para a participação não atua apenas na América Latina e promoveu
um golpe em fevereiro de 2014, na Ucrânia. Trata-
Todas as mudanças em curso no Brasil e tam- se de uma provocação à Rússia e é parte do mesmo
bém na América Latina não ocorrem em um ce- plano, já que a aliança entre Brasil e Rússia deses-
nário mundial neutro. Neste período de quase 15 tabiliza o imperialismo norte-americano.
anos desde que nasceu o Fórum Social Mundial Indiretamente, esse processo de desestabiliza-
(FSM), saímos de um tempo de lutas ofensivas - ção é reforçado pela insuficiência no diálogo e na
com grande otimismo pela transformação social e participação social e pelo fracasso da narrativa so-
política - para um momento de lutas de defesa do bre o processo em curso no Brasil. As mobilizações
que conquistamos, sem ganhar novos terrenos. Isto de junho de 2013 mostram os êxitos, mas também
decorre de uma alteração no contexto internacio- as debilidades dos governos do Partido dos Tra-
nal em que o imperialismo norte americano volta balhadores (PT). A inclusão social, produtiva e
ao continente com força, com ações de desestabi- econômica de um amplo contingente que em 500
lizações previstas e documentadas na Venezuela, anos de história do Brasil fazia parte do exército
Argentina e Brasil, feitas por meio do financiamen- de reserva se dá pelo consumo, inclusive de bens
to e infiltração de organizações da sociedade civil e de cultura. Porém, é incorreto afirmar que não há
movimentos sociais, além do uso do poder judiciá- uma inclusão cidadã. Ambas as situações coexis-
rio conservador e da mídia hegemônica. tem. Mas é certo que grande parte desse ingresso
A reação agressiva do imperialismo contra o se dá a partir de apelos e sedução de valores con-
Brasil - que dos três países citados é o que tem uma servadores e, portanto, sua perspectiva de mundo
articulação mais moderada com os Estados Unidos está muito mobilizada pela necessidade de preser-
- resulta fundamentalmente de duas razões: o pré- var essa capacidade de consumo mais do que a de
sal e o papel que o País possui no BRICS - bloco ser um/a cidadão/ã de verdade.

10 Fórum Social Mundial 2015


Tudo isso aponta para uma falência coletiva Esta luta passa ainda por combater a criminaliza-
dos partidos políticos de esquerda e das organiza- ção das lideranças sociais e recolocar o tema da
ções e movimentos progressistas que não soube- formação política, iniciativas que demandam um
ram politizar e construir novos instrumentos de apoio mais efetivo desde o governo.
mediação para a participação e a organização de
uma forma de vida militante social, política, orga-
nizativa e associativa no Brasil. Ficou evidente que Defesa da Petrobras, defesa das
ganhar o poder nas condições do capitalismo atual conquistas populares
não é ganhar tudo porque há muitos poderes que
não chegaram a ser controlados nunca, nem o mi- A Petrobras é resultado direto da participa-
diático, nem o financeiro. ção da sociedade civil brasileira, que na década
Neste cenário, há uma burocratização e um de 1940 foi pra rua em torno da campanha “O
envelhecimento da representação política tradi- petróleo é nosso” defender sua criação. Essa cam-
cional. Há também uma defasagem de velocida- panha era orientada por uma visão estratégica de
de entre as possibilidades de participação social soberania e independência na qual se reafirmava o
instituídas pelos mecanismos tradicionais já co- compromisso de que o Brasil era capaz de garantir
nhecidos, que gera uma frustração pela lentidão. a energia para todo seu território.
Isso coloca para todos/as nós o desafio de pensar a Ao longo de sua existência, a empresa passou
governança política com formas desburocratizadas por vários governos que, de uma ou outra manei-
e renovadas, adequadas a um mundo em que as ra, interferiram na sua atuação, como é comum
pessoas têm experiência vital de participação social em qualquer sociedade anônima onde quem defi-
por meio de redes sociais ou por outras formas de ne a política são os acionistas majoritários. No caso
mobilização como o hip hop, a dança e o graffit- da Petrobras, esse acionista é o governo federal,
ti, sem desconsiderar o acúmulo histórico das for- que indica sua direção e define sua política. Com-
mas tradicionais. Não existem incompatibilidades preender isso é fundamental para desmistificar o
entres as ruas e as urnas, mas é necessário pensar momento e o ataque sistemático pelo qual a em-
novos mecanismos que passam pela participação presa vem passando.
real, plebiscitária, de modo a proporcionar uma Ao assumir o governo em 2003, o presidente
co-gestão do Estado. Lula valorizou a força de trabalho para tirar a em-
Nesse sentido, já há experiências sendo desen- presa de uma situação extremamente delicada. A
volvidas no âmbito do governo federal, como a dos Petrobras possuía então aproximadamente 38 mil
pontos de cultura, para as quais a sociedade civil é trabalhadores/as e hoje são em torno de 86 mil,
chamada a estar junto na proposição e na gestão. que ingressaram por meio de concurso público.
E é preciso olhar também para os processos que Seu valor de mercado na época era de aproxima-
ocorrem no sul da Europa, como na Grécia, com damente 12 bilhões de dólares e, hoje, mesmo com
o Syriza, ou na Espanha, com o partido Podemos, a imensa crise e desvalorização do mercado ela
que retomam a ligação umbilical entre movimen- vale aproximadamente 120 bilhões de dólares.
tos sociais e partidos e o forte vínculo com as suas Para além da valorização no mercado, a partir
bases orgânicas na formulação política. de 2003, o novo governo avançou na democratiza-
O combate ao imperialismo passa também por ção interna e externa da companhia. Interna com
retomar e priorizar o tema da integração regional, a criação de programas e processos que democrati-
que se expressa em iniciativas como a Unasul - zaram e ampliaram o acesso a recursos ao mesmo
União de Nações Sul-Americanas, o Mercosul – tempo em que garantiram direitos aos/às traba-
Mercado Comum do Sul, a Alba – Aliança Boliva- lhadores/as e formas de participação. Um exem-
riana para as Américas e a Celac - Comunidade de plo de luta e conquista interna dos últimos 12 anos
Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Nesses é que a Petrobras jamais havia tido em sua dire-
poucos mais de dez anos, não soubemos aproveitar ção uma representação dos/das trabalhadores/as.
o momento para avançar em uma perspectiva que Hoje ela existe, mesmo que seja apenas um repre-
coloque no centro as pessoas, e não o mercado. sentante eleito. O apoio à presença da delegação

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 11


brasileira no FSM também é resultado de políticas nos últimos 15 anos, como aqueles de convivência
alinhadas com a orientação do governo federal de com o semiárido, de alfabetização de mais de 40
fortalecimento da participação cidadã como forma mil pessoas ou de apoio ao FSM.
de fortalecer a democracia.
Um dado que expressa o peso da Petrobras na
manutenção da economia brasileira mesmo em Mídia e derrota da narrativa sobre o
um cenário de crise econômica internacional: em processo em curso
janeiro de 2009, em um momento em que todas
as empresas do mundo reduziam investimentos, a Êxitos e fracassos fazem parte de qualquer
companhia apresentou um plano que aumentava tipo de governo e a autocrítica de forma estraté-
seus investimentos de 111 para 174 bilhões de dó- gica aponta para a superação de deficiências. Em
lares. Esse plano é o que dá sustentação financeira um cenário de erros do governo, talvez o principal
a políticas públicas de saúde, educação, cultura, deles tenha sido a derrota na produção de uma
entre outras. Porém o momento atual é delicado. narrativa do processo que está em curso. Para isso,
Esse legado de programas e processos de garantia contribuíram as quatro ou cinco famílias que do-
da democratização interna e ampliação do acesso minam a mídia, setores empresariais e setores da
a recursos e de manutenção de investimentos que igreja reacionária que pasteurizam e visam a des-
representam 10% do PIB brasileiro está ameaça- construir o patrimônio que vem sendo edificado e,
do pelo capital internacional. Um dos riscos é o de maneira inexorável, destruir o principal motor
projeto de lei apresentado pelo senador José Serra dessas mudanças, que é o PT.
(PSBD), que acaba com a lei da partilha aprovada Há uma mudança importante do padrão da
em 2010 e a condição da Petrobras como operado- luta de classes hoje no Brasil, que se processa num
ra única. Esse debate é deliberadamente ofuscado grau de violência política extraordinária e de avan-
pela mídia com o debate sobre a corrupção, cuja ço das forças reacionárias, que se expressam, por
apuração e punição são defendidas com veemên- exemplo, na aprovação pelo Congresso brasileiro
cia pelo governo federal. da redução da maioridade penal ou na proposição
Defender a Petrobras torna-se imprescindível de leis homofóbicas patrocinadas pelo presidente
para avançar em um projeto democrático-popular da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Há
e derrotar o imperialismo. Essa disputa se dá na também a aprovação do orçamento impositivo, que
luta contra a quebra do marco regulatório, articu- retira o poder do executivo de estabelecer priorida-
lada pela mídia, com o apoio do poder judiciário des do orçamento discutidas juntamente com a po-
e de empresas avaliadoras de risco. Essa iniciativa pulação. É, portanto, um erro dizer que o governo
tenta quebrar a espinha dorsal da companhia que brasileiro abandonou o orçamento participativo,
tem capacidade técnica para continuar produzin- por exemplo, porque foi a maioria do Congresso
do petróleo e combustível, a despeito de todo ata- brasileiro quem aprovou isso, não o governo.
que que vem sofrendo pela grande mídia em uma O enfrentamento de classes caracteriza-se pelo
campanha deliberada de desinformação da popu- fato de que, pela primeira vez desde os últimos 50
lação brasileira. anos, desde a resistência à ditadura militar, as lutas
A bandeira de defesa da Petrobras é uma agen- pelas Diretas Já e o impeachment de Collor, seto-
da prioritária de várias organizações e movimen- res das classes dominantes nas suas vertentes mais
tos sociais sindicais, estudantis, de mulheres, negro, reacionárias vão para as ruas. As ruas que eram do
pela educação e saúde públicas, por direito à terra povo, dos setores democráticos, populares e pro-
e à cidade, mas ainda não é encampada com for- gressistas estão sendo tomadas também por seto-
ça pelo conjunto da sociedade civil brasileira. As res conservadores. Isto exige a atenção geral e a
tentativas de privatização em curso significam um apresentação de um novo padrão de organização,
tombo na economia do Brasil e, do ponto de vista de iniciativa política e de resposta que o conjunto
da participação popular, o fim dos avanços obtidos da sociedade brasileira, em particular dos setores
até o momento e das condições que permitem con- progressistas e de esquerda, tem que dar a partir de
tinuidade de projetos e programas implementados uma forte organização do setor trabalhador.

12 Fórum Social Mundial 2015


Para além de quebrar o bloqueio da mídia he- lamentar. Tem 68 deputados/as entre 513. Isso
gemônica, financiada, inclusive, com recursos do mostra que o PT não ganhou o poder, o PT ga-
governo, e democratizá-la, é necessário ocupar os nhou o governo e vem há quatro sucessivos man-
inúmeros mecanismos que, com todas as suas insu- datos preservando a Presidência da República. A
ficiências, já existem hoje e não são utilizados pela única solução para esse sistema político falido e
sociedade civil organizada e pelos movimentos corrupto é fazer a reforma política, que garanta
sociais. Fazer a disputa política para que a EBC - instrumentos para a participação social, como a
Empresa Brasileira de Comunicação e a TV Brasil experiência do orçamento participativo que é efe-
possam ser instrumentos efetivos de narrativa con- tivo em evitar a corrupção.
tra-hegemônica, alternativa à narrativa dos meios
comandados pela lógica do lucro do capital, é um
caminho. Isso implica também em ocupar TVs Combate à crise sem redução de direitos
públicas, comunitárias e a mídia alternativa. Hoje
se fala de nova grande mídia como resultado da Um conjunto de medidas de ajuste fiscal está
junção ou cruzamento das mídias índia, quilombo- em discussão neste momento a partir do governo
la, ninja e todas as mídias que estão fragmentadas federal. Elas abrem espaço para o avanço de po-
e não articuladas. Por que não investir nas mídias líticas que podem significar destruição dos servi-
dos movimentos sociais, alternativas ou livres e re- ços públicos, corte de salários, empobrecimento
distribuir verbas publicitárias da mídia aí também? da maioria e enriquecimento de uma pequena
Nessa busca por uma nova narrativa, o dis- minoria.
curso economicista e desenvolvimentista está em Desde o governo, reafirmou-se o compromis-
crise e não produziu mudança na cultura política. so da campanha e da posse da presidenta Dilma:
Mostrar como a Petrobras investe na educação e nenhum direito a menos, nenhum passo atrás. As
como tem um dos maiores editais de cultura no escolhas feitas pelo PT no governo com Lula e Dil-
Brasil tem um impacto popular em sua defesa ma desde 2008 buscam responder à crise que tem
talvez superior à abordagem apenas do ponto de gerado milhões de desempregos em países como
vista econômico. Da mesma forma, redes de tro- Portugal, Grécia e Espanha, deixando mais de
cas culturais como festivais de cinema ou redes de 50% da juventude desempregada. Nesse cenário,
hospedagem solidária materializam o tema da in- o governo fez a opção de adotar um conjunto de
tegração regional de maneira mais sensível que a instrumentos de política econômica que pudesse
perspectiva econômica. responder a essa conjuntura, na expectativa de que
a duração da crise fosse menor do que de fato ela
foi. Porém a crise persiste e não há nenhuma luz
Reforma política para avançar na no horizonte que diga que ela irá acabar amanhã.
democracia O momento atual não é de sequestro de direitos,
de regressão em relação às conquistas que já foram
O financiamento empresarial dos partidos realizadas, mas de reacomodação das condições
acabou criando uma corrupção endêmica, que fiscais e orçamentárias do País para preservar so-
atravessa todo o espectro político de maneira de- bretudo o emprego e a renda do/a trabalhador/a.
sigual. Por conta desse sistema político, o Brasil A atual crise está impulsionada por um confli-
tem uma bancada parlamentar na qual cerca de to distributivo brutal, que antes era equacionado
160 entre 513 deputados/as foram financiados/ por uma fórmula em que as políticas públicas para
as por uma única indústria alimentícia do País. a população mais pobre eram viabilizadas sem ti-
Há um conjunto de outras bancadas que são fi- rar dos mais ricos. Hoje, alguém vai ter que pagar
nanciadas por setores reacionários, vinculados ao a conta. E é por isso que se insurgem contra o go-
esporte, à indústria bélica, à mídia hegemônica. verno os setores da classe dominante e promovem
Apesar de ter conseguido mais de 50% dos vo- locautes, ataques e tentativas de destruir, inviabi-
tos para a Presidência da República, o PT tem lizar e impedir a continuidade do governo Dilma
apenas 13% dos votos na sua representação par- em apenas quatro meses de segundo mandato.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 13


Desafios do governo para o próximo período Finalmente, busca-se desde o governo apro-
fundar um diálogo com presença da sociedade
Em 2015, por uma orientação da presidenta civil não só em assuntos internos, mas também
Dilma, o governo está abrindo e expandindo o sobre a política internacional, de maneira a cons-
processo de participação da sociedade civil a par- truir também nos espaços internacionais uma
tir de três iniciativas fundamentais. A primeira é visão que represente o consenso democrático e
o esforço de concretização do Plano Nacional de ampliado no Brasil. Trata-se de reafirmar a par-
Participação Social, cujo decreto, promulgado em ticipação social e a democracia participativa ao
2014, está sendo objeto de debate com muita difi- mesmo tempo como um valor imanente à tradi-
culdade no âmbito do legislativo brasileiro. A se- ção pelo PT e um ideal de uma sociedade liber-
gunda é a realização de 15 conferências temáticas tária, aberta e humanista que só realiza o seu en-
com a expectativa realista de que possam reunir contro com o futuro em forte relação com o povo
milhões de pessoas no debate sobre as prioridades organizado. A participação social é também um
para as mais distintas áreas de políticas públicas método de gestão de governo e do Estado e um
do Estado. A terceira é a discussão, a partir de instrumento fundamental para construir o con-
abril, do Plano Plurianual de Investimentos. Este trole social, a transparência e o combate à cor-
define quais os grandes projetos, diretrizes fun- rupção e uma sociedade que tem na ética um ele-
damentais, grandes expectativas que a população mento fundamental e constitutivo do nosso povo,
brasileira tem como futuro e que vão organizar a cultura e tradição.
lei orçamentária brasileira e toda a estruturação A conjuntura não só regional mas sobretudo
das políticas públicas entre 2016 e 2019. brasileira requer que se aprofundem estes espaços
A expectativa do governo federal é de que esse de interlocução e diálogo e que se consiga cons-
processo, juntamente com as conferências temáti- truir uma compreensão comum sobre o contexto
cas, consiga integrar uma visão de conjunto sobre os atual para responder satisfatoriamente e de ma-
principais desafios do País para superar ainda o que neira estratégica às necessidades de preservar esse
são mazelas, impasses, dificuldades sociais que vive patrimônio conquistado nos últimos 12 anos, que
a população em vários terrenos nos quais já se tem não são do governo do PT, mas do conjunto do
avançado muito, mas ainda há muito a conquistar. povo brasileiro.

José Barbosa, representante da Boaventura de Sousa Santos,


Petrobras representante da Universidade
“A Petrobras está passando por um Popular dos Movimentos Sociais
momento delicado, mas estamos (UPMS)
democratizando o acesso aos ”Os movimentos sociais não estão
recursos e garantindo direitos e conquistando a juventude. Estão
formas de participação. Um exemplo envelhecendo porque os jovens
dessa conquista interna é que temos têm outras formas de mobilização,
agora um representante eleito pelos como o street, o pop. Por isso os
trabalhadores. A democratização pontos de cultura são uma política
sempre foi a forma de fortalecer a extraordinária. Não há alternativa
companhia e a economia brasileira.” senão a democracia participativa.
Há que desburocratizar as formas
de conselhos, mesas, não podem ser
sempre os mesmos e as mesmas.”
Ivana Bentes, responsável
pela Secretaria de Cidadania e Jefferson Miola, representante da
Diversidade Cultural Secretaria Geral da Presidência da
República
“Temos uma defasagem de
velocidade entre o Estado e a “Hoje o Estado tem mais
sociedade civil que gera uma crise permeabilidade à participação
de representatividade. É preciso social. Entre 1941 e 2002, o Brasil
pensar no estado como uma rede realizou 41 conferências temáticas.
porosa aos novos mecanismos de Entre 2003 e 2012 foram 103. Debates
governança em tempo real, como estratégicos, livres, independentes,
uma participação plebiscitária até. autônomos. Estamos, por orientação
Há uma frustração da participação da Dilma, expandindo o processo de
democrática em tempo real.” participação da sociedade civil.”

14 Fórum Social Mundial 2015


Democracias: novas estratégias
de participação popular para o
empoderamento da sociedade civil
Composição da mesa:
Olívio Dutra, Orçamento Participativo, Brasil
Manuel do Rosário, JOINT - Plataforma de ONGs de Moçambique
Leticia Cardoso, Movimento Passe Livre (MPL), Brasil
Lilia Rebaï, Euro-Mediterranean Human Rights, Tunísia

Coordenação da mesa:
Damien Hazard, Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), Brasil
Liège Rocha, União Brasileira de Mulheres (UBM), Brasil

A discussão sobre os modelos de democracia Mundial (FSM), visibiliza as experiências alter-


(representativa, participativa e direta) e as condições nativas de gestão da vida cotidiana que já estão
para sua efetivação foram o eixo condutor desta se dando em nível local e inspiram várias polí-
mesa. As experiências de luta contra a ditadura e de ticas públicas. O FSM permite também a busca
consolidação da democracia no Brasil e as similari- de uma nova estratégia que considere o cenário
dades com o processo que vive a Tunísia apontam global em que se dão as lutas hoje e promova a
para os limites da democracia representativa. Em convergência entre as mesmas. Para além dos es-
qualquer caso, a democracia só é possível com o paços formalmente instituídos, as ruas mostram-
envolvimento da sociedade civil, que tem um papel se como lugar imprescindível de disputa de uma
primordial na formação da consciência cidadã. democracia que verdadeiramente sirva aos inte-
A participação popular em espaços institucio- resses do povo e que consiga influir também no
nais ou próprios, como é o caso do Fórum Social campo da política econômica.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 15


Brasil: radicalizar ainda mais a importantes, mas outros ficaram para trás. É dife-
democracia rente, por exemplo, do processo que aconteceu na
Venezuela, onde a Constituinte promoveu refor-
A redemocratização do Brasil passou por um mas estruturantes. O PT chega ao poder em 2003
processo de lutas históricas de movimentos sociais, como resultado de uma coalizão com partidos de
populares e comunitários que se materializou na esquerda e de centro, que disputam outro projeto,
luta contra a ditadura militar. Instalado em 1964, contrário ao do Partido, e seguem no mesmo go-
o Regime de Exceção impedia, sistematicamente, verno pela conjuntura já desenhada.
reuniões e perseguia quem se dizia contra o esta- Ao longo da última década, muito se avançou.
blishment dominante. Para além de derrubar a di- Porém, para ir ainda mais além, em direção a uma
tadura, o conjunto de atores e atrizes que se orga- ruptura ou a uma mudança qualitativa, há que se
nizavam desde a base, por meio do movimento das fazer muito trabalho social, popular e comunitário
igrejas, associações de moradores/as, juventude que possa alterar a correlação de forças na socie-
nas escolas e fora dela, estudantil, de mulheres, ne- dade e, a partir daí, nos Legislativos, Câmaras de
gros/as, trabalhadores/as rurais com e sem terra, Vereadores e Assembleias Nacionais ou mesmo no
seguiu mobilizado com vistas a construir um país judiciário. Fazer esse debate não é um papel só do
nação com liberdade, direitos sociais, políticos, PT, mas de todos os partidos do campo popular de-
econômicos, individuais, com o protagonismo do mocrático em relação com os movimentos sociais e
povo como sujeito e não objeto da política. organizações da sociedade civil em torno da defesa
Esse tecido social, que esteve na origem do de um projeto estratégico de sociedade e de País e
Partido dos Trabalhadores (PT) e que anos antes da luta para que este projeto se efetive.
lutou contra a ditadura militar, pela anistia ampla,
geral e irrestrita e pela Constituinte livre e sobe-
rana, levou também à realização da primeira as- Orçamento participativo: experiência e
sembleia Constituinte, em 1987. Aí já houve uma método de trabalho popular
primeira derrota. Na época, o movimento nas ruas
pleiteava uma Constituição livre, direta e soberana. A democracia representativa é uma conquista
Porém, o mesmo Congresso reduziu esse anseio a que custou milhares de vidas, mortas pela ditadura
uma Constituinte biônica. Pelo voto, a sociedade mundo afora. Ter direito ao voto, a eleger repre-
brasileira de então ainda deu maioria ao centro- sentantes no Executivo e Legislativo, a defender
direita, o centrão. Isso bloqueou muito os avanços posições sem que sua vida seja ameaçada é uma
que os movimentos sociais queriam produzir com conquista civilizatória. Porém, ela está desgastada,
a Constituinte, como a reforma agrária, a reforma em parte porque a cidadania não está cobrando
urbana ou a reforma tributária, com a criação de daqueles/as que elegeu a execução de um projeto
um imposto progressivo no qual quem tem mais que é coletivo.
paga mais e quem tem menos paga menos, um im- O orçamento participativo (OP), ao casar a de-
posto que incidisse sobre as grandes propriedades, mocracia representativa com a participativa, esti-
o lucro e o capital especulativo. A reforma polí- mula que a cidadania não seja episódica, apenas no
tica, outra reforma estruturante, também não foi período das eleições, mas presente cotidianamente
aprovada nessa Constituinte de 1988. Assim, pela na vida de milhões de seres humanos, tornando-os
estrutura política partidária ainda vigente no Bra- seres políticos, portanto, completos. Desenvolvido
sil, o voto do/a eleitor/a é desrespeitado no dia em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele resul-
seguinte ao da eleição. O/A parlamentar eleito/a tou de um processo em que os movimentos sociais
faz do seu cargo uma propriedade sua e rompe a exigiam demandas como transporte público, re-
relação com o/a eleitor/a e a cidadania. gularização fundiária, saneamento, iluminação, e,
Todos esses elementos permitem dizer que há como resposta, as autoridades informavam que não
lutas incompletas no Brasil e que a democracia no havia orçamento alocado para prover tais serviços
País ainda não está suficientemente consolidada. públicos. A partir daí, a cidadania reivindicou par-
A Constituinte de 1988 garantiu alguns avanços ticipar da discussão sobre o orçamento público.

16 Fórum Social Mundial 2015


O orçamento público é uma peça política por agenda programática e de lutas comuns como a
excelência, vendida pelas elites como peça para Assembleia de Movimentos Sociais são cada vez
os/as profissionais – economistas, estatísticos/as, mais necessários.
engenheiros/as, etc. A peça orçamentária tem
duas pernas: a receita e a despesa. O OP vai per-
mitir que essa discussão se realize não apenas sobre Estabilidade política e sociedade civil
a despesa, mas sobre as receitas. Quem paga im- organizada para radicalizar a democracia
postos? Quem tem favores tributários? Por que o
governo decide renunciar à cobrança de impostos Moçambique, país localizado no sul do conti-
de setores da indústria que vêm se instalar nesta nente africano, viveu 16 anos de uma guerra que
ou naquela região? Quem decide isso e com quais uns/umas chamam de desestabilização e outros/
critérios? Por que fazer a discussão com o povo só as de civil, entre 1986 e 1992. Esta guerra opunha
pelo lado da despesa? Quem define critérios inde- o governo monopartidário dirigido pela Frente de
xados para a Saúde e por que não mudá-los? Libertação de Moçambique (Frelimo) à Resistên-
Essas questões foram levantadas pelo orça- cia Nacional Moçambicana (Renamo). Ambas,
mento participativo em Porto Alegre, mas não no contexto da democratização, se transformaram
foram aprofundadas de fato nessa cidade, onde o em partidos. Com os acordos de paz assinados em
PT foi reeleito por quatro mandatos consecutivos. 1992, o País realizou cinco eleições gerais legislati-
Não se conseguiu manter a radicalidade da parti- vas e adotou uma Constituição que prevê o multi-
cipação da cidadania no controle da coisa pública, partidarismo.
da receita e da despesa pública, na definição de A experiência da guerra mostra que há pré-
prioridades de investimento. Quando um governo condições para se garantir a democracia partici-
estadual dá incentivo para a empresa deixar de pa- pativa: existência de ambiente legal, participação
gar o imposto sobre circulação de mercadorias, é das instituições públicas credíveis, sociedade civil
evidente que o retorno para o município vai ser unida, solidária e informada e a capacidade da
menor, vai haver prejuízo para a cidade onde aque- própria sociedade civil de controlar as políticas
la empresa se instalou. Assim também é quando o públicas. Associada a isso, democracia pressupõe
governo federal isenta empresas automobilísticas um governo de todos/as para todos/as. Porém,
de pagar o imposto sobre a produção industrial, da mesma maneira que no Brasil, a democracia
reduzindo repasse de recursos que são do municí- representativa em Moçambique encontra limites,
pio e dos governos estaduais sem que os mesmos frutos de um sistema político em que não há re-
tenham sido consultados sobre isso. gime legal para destituir dos cargos mandatários/
Esse tipo de discussão não pode ser feito em as eleitos/as que atuam contra os interesses da po-
cima do prazo, tem que começar logo no início do pulação.
ano para que possa acontecer com o envolvimento Para além das eleições, a participação social em
do maior número possível de entidades, organiza- Moçambique é formalmente instituída por meio de
ções comunitárias, sindicatos, associações e mesmo mecanismos de interlocução como os Observatórios
com setores empresariais nas assembleias do OP. de Desenvolvimento e os espaços de revisão conjunta
Por outro lado, prefeitos/as, secretários/as e go- em que a sociedade civil é convidada pelo governo a
vernantes em diferentes níveis não deveriam acei- fazer a avaliação do exercício e revisar e fazer suges-
tar discutir sua política de investimentos, renúncias tões ao plano para o ano seguinte. Já a participação
fiscais, favores tributários com esses setores fora popular é entendida como manifestações ocasionais,
dos espaços amplos. Porém, isto vem acontecendo que reivindicam interesses específicos. Por exemplo,
e tem como resultado a redução das receitas e das a de ex-trabalhadores/as da antiga República De-
possibilidades de atender às despesas públicas. mocrática Alemã (RDA), que há cerca de 15 anos lu-
A participação popular converte-se em ins- tam para receber a indenização de seus salários sem
trumento para dizer não ao valor de troca, que obter sucesso até o momento. Grande parte destes/
expressa um projeto fracassado que pode levar a as compatriotas morrem e a luta vai se intensificando
humanidade à extinção. Espaços de articulação de com outras pessoas solidárias ao movimento.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 17


Formar a consciência de cidadania, gerir os Ocupar as ruas para aprofundar a
conflitos políticos decorrentes dos fatos que vão democracia
acontecendo, promover o desenvolvimento econô-
mico nacional e a consciência da identidade na- As experiências do Movimento Passe Livre
cional são papéis da sociedade civil moçambicana. (MPL) e das lutas contra a ditadura no Brasil ou
Destes, talvez o mais influente seja o primeiro, que na Tunísia mostram como a democracia não está
é entendido pela maioria das organizações do País descolada de um processo amplo de ocupação
como a base para uma sociedade civil interativa e das ruas e de organização popular por aqueles/as
vibrante. Há limitações que condicionam a ação e que são mais afetados por condições de trabalho e
a participação da sociedade civil, como a depen- de vida muito precárias e pela injustiça social. O
dência econômica, fruto do contexto político ten- MPL é um movimento social que surgiu em 2005
sionado pelo conflito entre a Frelimo e a Renamo, e pauta o transporte e o direito à cidade, baseado
além de déficits em termos de capacidades técnicas no projeto da Tarifa Zero. Ele parte do pressupos-
e financeiras, e, principalmente, para se afirmar to de que uma cidade só existe quando as pessoas
como representante daqueles/as que não têm ex- podem circular por ela.
pressão. Da mesma forma que no Brasil, também O transporte é um direito transversal. A cida-
em Moçambique não há um marco legal que de- de é um espaço, território, onde moram pessoas,
fina parâmetros de atuação de uma associação ou cidadãos/ãs, entendidos/as como constituídos/as
de uma organização sem fins lucrativos. Todo o se- de direitos. Se uma pessoa tem direito a escola ou
tor terciário é caracterizado como sociedade civil, a saúde pública, mas não consegue chegar ao local
o que provoca muita confusão. para usufruí-los, ela, de fato, não tem esses direi-
A ação coordenada em rede é um dos cami- tos assegurados porque há uma catraca impedin-
nhos para enfrentar as lacunas de dependência do seu acesso. Portanto ela não chega a ser um/a
e incapacidade técnica e já tem dado resultados, cidadão/ã portador/a de direitos, não tem direito
como a aprovação da lei de acesso à informação, à cidade, não vive em um espaço democrático e
que estabelece o que constitui segredo de Estado não pode nem mesmo se mobilizar ou se organizar.
e o que são informações de interesse público, que Dado de 2011 do IPEA mostra, no entanto que 37
não constituem segredo e são fundamentais para milhões de brasileiros não têm condições de pagar
atuar como sociedade civil. A Joint, Plataforma transporte todos os dias, tendo que escolher o direi-
de ONGs de Moçambique, também adotou um to ao qual vai ter acesso em um determinado dia.
documento chamado código de ética da socieda- O MPL surgiu em um contexto de luta pelo
de civil, que define parâmetros de identidade e de transporte que existe no Brasil desde 1910. Nesse
atuação para as organizações que a integram. Ao ano, aconteceu a Revolta do Vintém, quando tra-
mesmo tempo, a rede atua para quebrar barrei- balhadores/as pararam a cidade de São Paulo con-
ras como, por exemplo, o devido reconhecimento tra o aumento do bonde. Em 1987, houve outra
a uma organização LGBT ,cujo registro, até hoje, luta histórica chamada de quebra-quebra contra o
passados 5 ou 6 anos de atuação, não foi aceito preço do transporte, que resultou na conquista do
pelo governo, ainda que a mesma já faça parte dos direito ao vale transporte, um benefício que mui-
espaços institucionais de participação pública e tos/as trabalhadores/as no Brasil têm. Em 2003,
contribua positivamente com ideias. em Salvador, houve a Revolta do Buzu, contra o
Outro ponto de alerta são as tentativas de silen- aumento da tarifa. Em 2004, a luta contra o au-
ciar a democracia e a liberdade de expressão por mento da tarifa em Florianópolis foi vitoriosa. Esse
meio da criminalização e assassinatos de pessoas breve levantamento histórico mostra que a questão
que têm acesso a informações de utilidade pública. do transporte mobiliza as pessoas na cidade porque
Dois casos recentes estão sob investigação: o assas- mexe com acesso a direitos e à democracia e pauta
sinato do jornalista Carlos Cardoso e do constitu- temas que afetam diretamente a vida da população.
cionalista Gilson Estaque. A articulação em nível Um projeto de emenda da Constituição brasi-
regional e internacional é uma forma de superar as leira quer incluir o transporte como direito social
limitações nacionais e influenciar a política no País. fundamental porque ele cumpre função determi-

18 Fórum Social Mundial 2015


nante na emancipação daqueles segmentos que organizar, juntamente com o governo de transição,
não possuem meios próprios de locomoção. A eleições livres para a Assembleia Nacional Consti-
experiência do MPL mostra que essa luta permi- tuinte, que teve como objetivo principal escrever
te organizar a população desde a base e pautar a uma nova Constituição.
democracia direta, já que ninguém entende mais Nas eleições na Tunísia, saiu vitorioso, infeliz-
de transporte do que o/a usuário/a em relação ao mente, o partido conservador Ehnada. A popula-
trajeto ideal ou ao valor da tarifa. Entretanto, os/ ção foi às ruas novamente em abril de 2012 para
as técnicos/as da SPTrans, companhia paulistana defender questões primordiais, como o direito
de transporte, ou os/as técnicos/as orçamentá- à manifestação e a inscrição da igualdade entre
rios/as se esquecem de ouvir esta demanda. homens e mulheres na Constituição. Em feverei-
A participação direta é a opção escolhida pelo ro de 2013, o assassinato de Chokri Belaid, líder
movimento, uma vez que a estratégia de repre- do Patriotas Democráticos e integrante da Fren-
sentação incorreu sempre, até o momento, em te Popular dos partidos de esquerda, , levou um
marginalização da periferia e em uma espécie milhão de pessoas para as ruas e resultou no es-
de apartheid urbano. O movimento está na rua tabelecimento de um novo governo que avançou
quase todos os dias, não foi apenas em 2013, em efetivamente no processo constituinte. Um segun-
atos que se organizam de forma descentralizada, do assassinato, do deputado Mohamad Ibrahim,
pautando o direito à cidade como instrumento da em julho de 2013, levou a sociedade a iniciar um
democracia direta, colocando as demandas da po- sit-in no Bardo, local onde se reunia a Assembleia
pulação diretamente na rua, sem intermediação Constituinte. Esses protestos duraram cerca de
de técnicos/as. seis meses e envolveram centenas de milhares de
tunisianos/as até que o novo governo decidisse se
retirar do poder.
As ruas no processo em curso na Tunísia Quatro organizações da sociedade civil –
a União Geral dos Trabalhadores da Tunísia
Na Tunísia, o levante popular que levou à der- (UGTT), a Tika, que reúne o patronato no País, a
rubada do ditador Ben Ali em 2011 se deu em um Ordem dos Advogados e a Liga Tunisiana de Di-
contexto de altas taxas de desemprego, que atin- reitos Humanos – foram as responsáveis por iniciar
gem igualmente as pessoas graduadas. No final de um diálogo nacional que resultou na redação da
dezembro de 2010, na cidade de Sidi Bou Said, nova Constituição, aprovada em janeiro de 2014,
ponto de início do movimento, um vendedor de e pela entrada de um novo governo de transição,
frutas se imolou ateando fogo ao próprio corpo em que preparou as eleições de novembro de 2014.
um ato de protesto contra a proibição de traba- Esses fatos mostram que as urnas e as ruas se mis-
lhar por estar fora do que seriam as regras. Nessa turam para dar uma chance à democracia e que a
cidade, há 44% de mulheres graduadas desempre- sociedade civil tem um papel fundamental nessa
gadas e 25% de homens graduados e desemprega- construção.
dos, o que representa 17% do total da população
desempregada e 29% de graduados/as e desem-
pregados/as. Por um projeto de sociedade realmente
A contestação nas ruas desde então não parou, democrático
o que pode ser o fator que explica o porquê de a
Tunísia ser o único entre os países da chamada Pri- Na Tunísia, é correto dizer que o processo re-
mavera Árabe, como Líbia, Egito, Síria ou Jordâ- volucionário em curso foi interrompido. Frente ao
nia, que não retrocedeu e avançou em seu processo dilema entre retroceder em direitos ou manter o
de consolidação democrática. Após a saída de Ben que já havia sido conquistado com possibilidades
Ali, a população voltou às ruas várias vezes: pri- de avanço, a segunda opção foi a escolhida. Isso fez
meiro para exigir a saída dos ministros do antigo com que, nas últimas eleições, vários atores proe-
regime e a dissolução do partido do ex-ditador, luta minentes do antigo regime retornassem ao poder.
que levou cerca de seis semanas. Em seguida, para Porém, a luta continua e temas como o modelo

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 19


econômico ainda devem ser trabalhados. Uma e pelo poder econômico que controla o Congresso
luta forte que se apresenta no horizonte dos mo- Nacional, exige uma resposta comum: é preciso
vimentos e organizações sociais da Tunísia é con- pensar uma reforma política profunda do sistema
tra a Aleca, acordo de livre comércio completo e no Brasil. Esse processo tem que ser construído
aprofundado com a União Europeia, que é liberal de maneira a empoderar o povo e a construir um
e que, se assinado, fará apenas reforçar a dispari- projeto de sociedade que vá além da negação do
dade social e regional no País. neoliberalismo e aponte uma saída. As ruas devem
A democracia é um processo e uma busca ser ocupadas com uma pauta clara, que estimule a
permanente. Não é tática ou estratégica e precisa adesão da população. Unir esforços dos diferentes
ser construída com protagonismo de povos, com movimentos sociais, fortalecer as mídias indepen-
pessoas sendo sujeito e não objeto da política. O dentes e ocupar as ruas são maneiras de enfrentar
contexto de ofensiva imperialista com processos de a crescente agressão da direita e dos movimentos
desestabilização econômica e política no Brasil e conservadores em todo o mundo e construir esse
outros países da América Latina, empreendida pe- projeto de poder popular, alternativo ao modelo
los meios de comunicação de massa hegemônicos que se apresenta hoje.

Manuel do Rosário, representante Olívio Dutra, ex-governador do Rio


da JOINT em Moçambique Grande do Sul
“O governo pode até adotar políticas “É preciso construir um trabalho
democráticas, de inclusão, mas fará social e comunitário capaz de mudar
de tudo para se manter no poder. a correlação de forças na sociedade.
Diante disso é preciso tentar ser Casar a democracia representativa
ativo, crítico e usar o espírito de com a participativa faz com que
solidariedade para unificar os irmãos o regime democrático não seja
em luta.” episódico. Temos que construir um
modelo em que as pessoas sejam
protagonistas e não objetos da
política. Não dá para discutir receitas
com ricos e despesas com pobres.”

Lilia Rebaï, representante da Euro Letícia Cardoso, representante do


Mediterrâneo na Tunísia Movimento Passe Livre (Brasil)
“Ao contrário de Líbia, Egito, Síria, “O transporte é um direito
Argélia e Marrocos, onde movimentos transversal. A cidade é um espaço
acabaram depois da jornada ou onde vivem pessoas, cidadãos
as nações agora vivem em guerra constituídos de direitos. Se a pessoa
civil ou ditadura, aqui a relação tem direito à escola pública, saúde
entre a organização da sociedade pública, mas não tem direito a
civil, os movimentos populares, a chegar ao local, ela não tem direito,
luta por participação nas urnas e está sendo cerceada, não vive em um
a democracia representativa são espaço democrático e não pode nem
fatores de esperança para que a mesmo se organizar. ”
construção da democracia continue.”

20 Fórum Social Mundial 2015


Sociedade civil global e a
agenda de desenvolvimento pós-2015
Composição da mesa:
Regina Marques, Movimento Democrático de Mulheres/Federação Democrática Internacional de Mulhe-
res (FDIM), Portugal
Marco Sorrentino, Movimento Ecossocialismo ou Barbárie, Brasil
Claudio Mascarenhas, Instituto Gérmen, Brasil
Sergio Andrade, Agenda Pública, Brasil
Miguel Santibañes, Campanha Beyond 2015, Chile
Alanieta Vakatale, Campanha Beyond 2015, Pacífico

Coordenação da mesa:
Maíra Vannuchi, Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), Brasil
Sarah Enees, Fórum Internacional das Plataformas Nacionais de ONGs (FIP), França

Agenda Pós 2015 em busca de um cas da agenda ambiental, climática, de segurança


paradigma de desenvolvimento e das cidades.
Uma série de coletivos de governos locais, ci-
A Agenda Pós 2015 está em discussão e dades, províncias está envolvida na discussão, que
deve ser aprovada pela Assembleia Geral da não ocorre apenas em nível do secretariado geral
Organização das Nações Unidas (ONU) em da ONU. O debate dá sequência à discussão dos
setembro deste ano. Ela se materializa em 17 ob- Objetivos do Milênio (ODM). Para a sociedade ci-
jetivos que se ramificam em metas e indicadores, vil organizada, é preciso pensar essa agenda como
os quais apontam para um novo paradigma de um instrumento de incidência de participação, que
desenvolvimento até 2030. Esse debate implica possa ajudar a disputar posições, a realizar proces-
pensar em qual desenvolvimento desenvolvimen- sos de controle social e de discussão de priorização
to queremos e quais são as necessidades econômi- de orçamento e políticas públicas. No campo da

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 21


sociedade civil, esse diálogo já praticamente se en- tiva ao capitalismo a partir das experiências que já
cerrou. Cabe aos dirigentes das nações decidirem se desenvolvem em nível local e dos aprendizados
agora se são estes os 17 objetivos a comporem a ganhos com os erros cometidos no chamado socia-
Agenda Pós 2015. Entretanto, essa é uma agenda lismo real soviético.
permanente de interlocução entre a sociedade civil A discussão sobre o Pós 2015 permite superar
e os governos, e de monitoramento, seguimento, um modelo de discussão pautado por agendas
supervisão e controle social de implementação das pontuais, setoriais ou locais para construir uma
políticas públicas pós 2015. agenda de enfrentamento de desafios que são
A plataforma de Objetivos do Desenvolvi- planetários. Essa é a proposta do ecossocialismo,
mento Sustentável (ODS) busca uma grande que busca construir um paradigma a partir das
convergência das agendas do movimento social. práticas de mulheres e homens de movimentos
E coloca ainda o desafio de pensar a situação em sociais em vários locais do planeta, em um
cada localidade. O governo brasileiro registrou movimento articulado de desenvolvimento de uma
um bom desempenho no cumprimento de boa alternativa de governabilidade e governança para o
parte dos ODM. Os documentos de posições so- planeta Terra. Esse debate, junto a toda a base da
bre cada uma das metas foram construídos em sociedade, pode ser fomentado por meio de círculos
amplo diálogo com a sociedade civil brasileira, de cultura que dialoguem sobre o que é esse mode-
em uma experiência que talvez seja única no lo de sociedade ecossocialista que se quer construir
mundo. Mas, quando a situação intra-regional e como funcionaria essa sociedade a partir da ação
brasileira é avaliada, percebe-se que, apesar dos local combinada com a articulação global.
avanços já detectados, ainda existem muitas as- Na campanha Beyond 2015 (Para Além de
simetrias a serem trabalhadas. Isso implica tam- 2015), um primeiro passo importante no debate é o
bém que, para além de serem apropriados pela mapeamento global de organizações da sociedade
sociedade civil, os ODS têm que ser também civil com vistas à construção de posicionamentos
apropriados por boa parte da cidadania em seu comuns. Busca-se, com isso, promover uma articu-
processo de implementação. lação em nível global, para organizar a pressão e a
incidência política desde cada país. Nessa agenda,
um tema importante é o financiamento ao desen-
Socialismo, ecossocialismo ou barbárie volvimento, que será tratado em reuniões a serem
realizadas em julho de 2015, na Etiópia. Outro
Discutir paradigma de desenvolvimento traz momento fundamental de negociação é a Confe-
de volta ao centro do debate o tema da economia. rência das Partes sobre a Mudança Climática, que
Esta deveria ser conduzida pela política, ou seja, acontecerá em dezembro, em Paris, na França.
pelo pensamento do que queremos, do que pro- Tal articulação em rede é possível graças aos
pomos, de que mundo melhor queremos construir. instrumentos tecnológicos que hoje existem e fa-
Hoje, quem conduz o motor da economia são as cilitam essa conexão. A campanha Beyond 2015
elites econômicas, com uma visão capitalista de be- se estrutura em torno de cinco coordenações re-
nefício de poucos em detrimento de muitos. gionais nos diferentes continentes (África, América
Até o final dos anos 1980, havia dois projetos Latina, Ásia, Europa e Pacífico), um secretariado
de mundo em disputa: o socialista e o capitalista. com sede em Bruxelas, na Bélgica, além de uma
Hoje, com algumas raras exceções como Cuba e coordenação de regiões em Paris. Há pontos de
alguns países do norte europeu, a lógica do capital apoio também em Edimburgo (Escócia), no Cana-
e do lucro impera na maior parte do globo. A mí- dá e em Nova York, nos Estados Unidos. Isto para
dia reforça esse processo ao desconstruir o Estado, dar conta do enraizamento em nível nacional, in-
as identidades nacionais, homogeneizando toda a cidindo junto aos governos, bem como para estar
humanidade, tentando destruir a diversidade. O fortemente vinculado aos movimentos sociais, que
processo que temos desenvolvido desde o Fórum são dois aspectos fundamentais para a Campanha.
Social Mundial é uma resposta a esse cenário e Este processo permite expressar uma diversidade
uma retomada da discussão do que é uma alterna- de vozes, como a de Fiji, país da região do Pacífico,

22 Fórum Social Mundial 2015


a mais afetada pelas mudanças climáticas em curso cação sexual, aos direitos sexuais e direitos repro-
atualmente, e que, graças aos recursos tecnológi- dutivos, que fazem parte dos direitos humanos.
cos, foi capaz de contribuir com documentos dife- A própria ONU reconhece que em nenhum
rentes sobre a campanha Beyond 2015, ganhando país as metas propostas em torno dos direitos das
representação e empoderamento. mulheres foram cumpridas. Porém, há alguns
avanços globais que beneficiam as mulheres. Um
exemplo é que se combateu o analfabetismo em
Mulheres em alerta para os riscos de muitos países que lutaram por sua independência
retrocessos e por sua autonomia e que, de fato, foi possível eli-
minar o analfabetismo entre as mulheres, a exem-
Os processos de diálogo em torno da Agenda plo da Venezuela e também da África lusófona, em
Pós 2015 tem maior ou menor grau de envolvimen- países como Angola e Moçambique.
to da sociedade segundo o tecido social existente Já no campo do trabalho, há retrocessos e a
em cada país. As organizações de mulheres aler- percentagem de mulheres que trabalham frente à
tam para o fato de que muitos governos, localmen- dos homens é menor que em 1995. Em Portugal e
te, encontram formas de dizer que há uma parti- na Europa a situação é mais terrível: todas as em-
cipação social, quando na verdade, os documentos presas públicas, setor onde há mais mulheres tra-
centrais discutidos são finalizados unicamente por balhando, estão sendo privatizadas e, portanto, há
técnicos/as e pelos governos, em função do que um fosso cada vez maior entre mulheres e homens,
são seus próprios desígnios, sem real consulta junto mas também um fosso cada vez maior entre os/as
à sociedade. Essas organizações também têm cha- mais pobres e os/as mais ricos.
mado atenção para a disseminação de um discurso Outro ponto de risco na agenda é o deba-
que afirma não mais ser necessário a auto-orga- te sobre a paridade, que é uma falsa questão de
nização das mulheres, já que existem leis que ga- igualdade. O fato de hever um homem e uma
rantem seus direitos no marco da ONU, expressos mulher no poder é importante desde que haja
pela Conferência de Pequim (Beijing), de 1995. uma visão transformadora subjacente, que bus-
Na Europa, o neoliberalismo tem perpetuado de que resolver os problemas da maioria das mu-
maneira escancarada uma ideologia que justifica lheres e da maioria dos homens e das crianças.
a precariedade pelo fato de as mulheres ocuparem Estar em posições de poder para praticar a mes-
postos no mercado de trabalho, remetendo-as para ma política determinada pelo Banco Mundial,
casa e dizendo que elas são as responsáveis pela o Fundo Monetário Internacional ou o Banco
educação dos filhos. Esse processo de retirada das Central Europeu, sejam homens ou sejam mu-
mulheres do cenário público é acelerado por cortes lheres, não significa alcançar igualdade. Para que
nos orçamentos públicos de educação e saúde, ta- o Pós 2015 seja um futuro diferente, há que se
refas que acabam sendo assumidas pelas mulheres trabalhar para que as mulheres sejam valoriza-
em suas casas. das, para que seu patrimônio de conhecimento
Desde a década de 1970, as organizações de e suas formações estejam a serviço dos países, da
mulheres têm registrado na agenda da ONU que soberania alimentar e também da soberania dos
não há igualdade sem desenvolvimento, nem de- povos. As mulheres têm que estar integradas na
senvolvimento sem paz e nem há desenvolvimento vida pública e na vida social para o desenvolvi-
sem igualdade entre homens e mulheres. Naque- mento dos países, dos povos, para dar solução
les tempos, as mulheres não apenas tinham direi- real a problemas com maior dignidade.
tos muito desiguais em relação aos homens, como No documento de Pequim, os governos mem-
também eram afastadas da vida social, política, bros da ONU haviam se comprometido a dimi-
da educação, não tinham direito à saúde materna nuírem em 50% a morte materna até 2000, o que
nem à licença maternidade. Com a plataforma implica rever a legislação punitiva contra o aborto.
de ação da Conferência de Pequim, conseguiu- Isso não aconteceu, com raríssimas exceções, como
se avançar em um conjunto muito alargado de em Portugal e no Uruguai. Essa tem sido uma luta
direitos das mulheres, entre eles, o direito à edu- constante, que esbarra na presença do Vaticano

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 23


como ator nos espaços da ONU e coloca para a tos de decisão dos seres humanos. A plataforma de
sociedade o tema da laicidade do Estado. A liber- Pequim nunca mais foi alterada porque o Vaticano
dade religiosa é para as mulheres uma questão fun- está presente nesse espaço para conter ou reverter
damental. Porém, a religião não pode ser imposta os direitos sexuais e reprodutivos. A sociedade civil
como uma variável que domina as pessoas e que precisa estar munida de argumentação muito sóli-
coloca os países em situação de subordinação. E, da para que os debates na ONU avancem. Caso
portanto, não pode ser invocada para limitar direi- contrário, podem haver retrocessos.

Alanieta Vakatale, do Fórum Sérgio Andrade, representante da


Internacional de plataformas Agenda Pública - Agência de Análise
Nacionais de ONGs (FIP), Plataforma e Cooperação em Políticas Públicas
nacional de ONGs das Ilhas do “Há um novo paradigma sendo
Pacífico (PIANGO) e Campanha pensando para o que nós chamamos
Beyond 2015 (Ilhas do Pacífico) de desenvolvimento. Isso está sendo
“O pacífico é um grande vazio construído de uma forma mais
no mapa, estamos em um local coletiva. É uma enorme oportunidade
muito distante, mas nosso sinal de para pautar nossas ações e pensar
internet é muito bom. Pela internet é numa agenda de desenvolvimento
possível conhecer pessoas e buscar que de fato inclua as mais diversas
contribuições que fazem a diferença. agendas contempladas por este
Sim, minha ilha é apenas um ponto Fórum Social Mundial.”
no oceano, mas é um ponto de mais
de 100 mil pessoas. É só um ponto,
mas isso significa muito pra gente. ”

Cláudio Mascarenhas, do Instituto Marcos Sorrentino, do Movimento


Gérmen Ecossocialismo ou Barbárie
“A política precisa estar submetida “A Agenda Pós 2015 não pode estar
à economia. O capitalismo cria pautada somente em agendas
novas edições a cada momento. locais, setoriais ou pontuais.
Este encontro precisa ser de Temos que construir uma Agenda
construção de uma proposta além unificada, que responda ao principal
do capitalismo. Um projeto de vida, desafio que está colocado para a
de governança planetária. Minha humanidade hoje, que é o desafio
proposta é que isso aconteça em de sobrevivência, inclusive, em sua
torno do nome socialismo.” diversidade.”

Regina Marques, do Movimento Democrático de Mulheres de


Portugal e da Federação Democrática Internacional de Mulheres
“Não há igualdade sem desenvolvimento, nem desenvolvimento
sem paz. As mulheres são a metade da humanidade, mas, em
março de 2015, a ONU reconheceu que nenhum país alcançou
as metas propostas. Ainda há novos desafios para a igualdade
de gêneros. As mulheres precisam ser valorizadas e seus
conhecimentos de vida precisam ser aproveitados para o
desenvolvimento dos países e dos povos. ”

24 Fórum Social Mundial 2015


IV Fórum Mundial
de Mídia Livre
IV FMML – A sociedade civil e os princípios em disputa por uma internet livre
Stéphane Couture, pesquisador da Universidade McGill, Canadá
Alexandra Haché, coordenadora de projetos da Tactical Tech, Alemanha
Mohammad Tarakiyee, Associação para o Progresso das Comunicações – APC, Jordânia

Coordenação:
Rita Freire, Ciranda, Brasil e Bia Barbosa – Intervozes, Brasil

IV FMML – A Sociedade civil e os sistemas de comunicação


Nelson Breve, presidente da Empresa Brasil de Comunicação – EBC, Brasil
Stelios Kouloglou, jornalista independente e documentarista, membro do parlamento europeu pelo
Syriza, Grécia

Coordenação:
Rita Freire, Ciranda, Brasil e Eliane Gonçalvez, representante do Conselho Curador da EBC, Brasil

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 25


Edição 2015 cobra visibilidade para as Tempo ruim, clima de resistência
lutas sociais
Quando o Fórum Social Mudial (FSM) reali-
Em um mundo interpretado pelas notícias de zou sua abertura em Túnis, em 24 de março deste
agências globalizadas como Reuters, France Press e ano, o IV Fórum Mundial de Mídia Livre já estava
Associated Press é difícil contrapor a visão unila- em seu terceiro dia de atividades que incluiu deba-
teral dos acontecimentos propagados pela mídia tes, grupos de trabalho sobre uma carta coletiva,
de massas. plenária, oficinas do hacklab, a abertura do Cine
As mídias livres precisam lutar pela diver- Médios Libres, da exposição de cartuns O lápis e o
sificação das vozes e democratização dos meios spray como armas de denúncia, além das primeiras
de comunicação, papel enfatizado na abertura reuniões ampliadas de pauta. Para a comunicação
do IV Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), que acompanha o FSM, é natural chegar antes e
que reuniu 300 comunicadores/as para a pales- debater seus temas para então entrelaçar-se com
tra inaugural no dia 22 de março, no Instituto de demais organizações e movimentos em atividades
Engenharia da Universidade El Manar, em Tú- e coberturas conjuntas.
nis, capital da Tunísia. Após uma jornada de debates que incluíram a
Convidado para abrir a edição, o veterano Ro- relação entre a mídia, a intolerância e a violência
berto Sávio, da Agência Inter Press Service e do siteO- política, entre outras agendas em torno do direito à
therNews, apontou a concentração da mídia como comunicação, e uma manhã marcada pela Assem-
um grande entrave à percepção do mundo em sua bleia das Mulheres no FSM, a marcha de abertura
diversidade. Como ele observou, poucas agências foi um momento de mobilização e reflexão sobre a
produzem as notícias e as imagens que são distri- chegada ao FSM na Tunísia.
buídas para as TVs de todo o mundo, o que reduz O tempo fechado que deixou aviões sobre-
cada vez mais as diferenças entre as coberturas jor- voando por meia hora os céus carregados de Tú-
nalísticas. A imprensa formatada pelo padrão oci- nis, sem autorização de pouso, e a chuva forte que
dental, geralmente norte-americano, é quase sem- caiu sobre a cidade não impediram participantes
pre estrangeira à cultura dos demais países, mas se do FSM de marcharem da antiga porta Bab Saa-
impõe e acaba naturalizada. O antídoto, segundo doun, da praça de acesso à Medina, até o Museu
ele, é fortalecer a comunicação horizontal, diver- Bardo, com faixas, cartazes, guarda-chuvas e pa-
sificada e sem valores mercadológicos: o universo lavras de ordem para dizer não à intimidação e
das mídias livres. levantar suas bandeiras históricas por um mundo
Participaram da abertura do FMML a tu- justo e igualitário.
nisiana Nosha Ben Mohamed (mediadora) e a A cidade ainda se recuperava do atentado
marroquina Maria Moukrim, do portal Febrayer. que seis dias antes tirou a vida de 24 visitan-
com, que atuam na comunicação no Magreb- tes do Bardo, ferindo dezenas de outros/as, em
Mashrek. Na região que abrange o norte da grande parte estrangeiros/as. O museu foi rea-
África e Oriente Médio, marcada por grandes berto apenas simbolicamente, com apresentação
mobilizações desde a Primavera Árabe, as mí- de orquestra para convidados/as, entre eles/as
dias alternativas lutam para sobreviver à falta de alguns/algumas integrantes da delegação brasi-
legislação favorável a suas atividades e à busca leira. A recusa ao clima de insegurança imposto
por fabricar uma aproximação explosiva entre pelo ataque foi um ato de resistência da socie-
política e religião, mistura que geralmente er- dade civil de Túnis à opressão pelo medo. E o
gue muros quase intransponíveis à liberdade de FSM participou. Os debates do FMML também
expressão e que não é exclusividade da região. refletiram a inquietação da cidade, ao colocarem
No IV FMML, foram apresentadas algumas ex- em questão a forma como a mídia confere ao
periências alentadoras, como o próprio portal terrorismo uma face única, aparentemente des-
Febrayer, criado a partir da tomada das ruas pela vinculada das políticas de Estado dominantes no
juventude do Marrocos, em 20 de fevereiro de mundo, da cultura da xenofobia e da indústria da
2011, no bojo da Primavera Árabe. guerra que o sustentam.

26 Fórum Social Mundial 2015


Há limites para o humor político? viço acessório e não se limita a cobrir e divul-
gar seus eventos. Ao procurar promover outras
Enfrentar temas difíceis ou invisibilizados formas de cobertura, não competitivas, tendo
pela atual conjuntura da comunicação foi uma iniciado já nas primeiras edições o conceito de
das marcas da quarta edição do FMML. Em uma cobertura compartilhada, a mídia alternativa
atividade que reuniu cartunistas, ainda chocados passou a debater a comunicação em sua nature-
com outro atentado recente, que dizimou prati- za política e a se articular para defendê-la como
camente toda a equipe do jornal francês satírico direito. A convivência no interior do FSM trans-
Charles Hebdo, conhecido por suas charges ácidas formou laboratórios de mídia experimental em
contra os fundamentalismos e religiões, foi colo- laboratórios de movimento social por outra mí-
cada pela mediadora Imane Bounjara, do portal dia. E o Fórum Mundial de Mídia Livre nasceu,
E-joussour, uma questão delicada: há limites entre em 2009, às vésperas do FSM de Belém, capital
humor, como ferramenta de resistência, e liberda- do Pará, desse processo. Reuniu a comunicação
de de expressão? As formas de humor são univer- compartilhada do FSM com uma articulação
sais quando os seus sistemas de referência cultural para avançar em políticas para a mídia livre, en-
não o são? tão discutidas no Brasil.
A convicção de que nada, por nenhum ponto Essa origem confirmou o Fórum Mundial de
de vista, justifica a violência contra a manifestação Mídia Livre como parte do Fórum Social Mun-
do pensamento, foi um primeiro ponto de consen- dial, além de resultar em forte envolvimento bra-
so nessa atividade que reuniu o jornalista Sébas- sileiro na continuidade do processo. Como toda
tien Boistel, do Ravi (jornal satírico francês) e os atividade autogestionada, o FMML tem organi-
cartunistas Nidhal Ghariani, do Marrocos, e Car- zação própria, vida e articulação fora dos even-
los Latuff, do Brasil. O atentado ao Charles Hebdo tos, mas, nos encontros centralizados do FSM, in-
foi execrável em todos os aspectos, assim como ao tegra-se ao processo, promove debates conjuntos
Museu Bardo, e esse foi o sentimento comum dos/ com outras organizações temáticas, participa das
as debatedores/as. coberturas e dá seus passos mais decisivos.
Posto isto, é preciso olhar para a mídia e re- Depois de um seminário internacional em Da-
fletir sobre as mensagens que transmite quando kar (Senegal, 2011), uma segunda edição no Rio
se trata do/a “outro/a”. Coberturas de atentados de Janeiro (Rio + 20, Brasil, 2012), uma terceira
são feitas como espetáculos midiáticos baseados na edição em Túnis (Tunísia, 2013), vários seminá-
estigmatização de culturas e etnias. O humor tam- rios regionais e quatro internacionais só no último
bém pode estigmatizar. Lembrando que na Fran- ano (Porto Alegre, Túnis, Paris e Marrocos), o IV
ça há uma lei de 1981 para garantir que qualquer FMML foi realizado pela segunda vez em Túnis
assunto possa ter abordagem satírica, Boistel dis- com a missão de finalizar a redação coletiva de
se acreditar que o que incomodou nos cartuns do uma Carta Mundial da Mídia Livre.
Charlie Hebdo não foram as referências a Maomé, A tarefa foi estabelecida no III FMML,
mas o fato de terem sido apropriadas por jornais de também em Túnis, fruto dos debates sobre a
direita, avessos à imigração e às diferenças. Carlos necessidade da comunicação entre as lutas so-
Latuff foi direto em seu posicionamento: pode-se ciais e o conjunto da sociedade. No meio desse
fazer a crítica aos líderes religiosos e políticos, mas caminho há, porém, uma pedra. O diálogo ho-
nada justifica propagar o ódio e a islamofobia. O rizontal da sociedade que se mobiliza por mu-
cartunista, lembrou ele, tem essa responsabilidade. danças não é possível, ou não se dá de maneira
justa, quando a comunicação é subordinada aos
interesses de mercado, inviabilizada por regras
De mídia a movimento social, pelo obsoletas ou asfixiada por regimes autoritários.
direito à comunicação A existência de mídia livre depende de muitos
enfrentamentos no campo da comunicação e
Desde o início do processo do FSM, a comu- a Carta Mundial da Mídia Livre foi proposta
nicação que o acompanha foge à condição de ser- para apontá-los.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 27


“Imagine um mundo sem mídia livre”, foi o lembrou Soraya Misleh, que integra a Frente em
título de uma das atividades do FMML em Túnis, Defesa do Povo Palestino. A Palestina vive sob a
mediado pela organização Ritimo, da França, com mais longa ocupação, desde a proclamação, em
a jornalista Erika Campelo, e da qual participa- 1948, do Estado de Israel, que expulsou seus/suas
ram ativistas do Brasil, do Quênia e do Chade. A habitantes e até hoje avança sobre as terras ocu-
realidade constatada nesse debate é que já vivemos padas, instalando assentamentos ilegais. O cerco às
em um mundo desprovido de liberdades para a co- informações sobre a Faixa de Gaza, arrasada du-
municação. Isso fica claro onde as lutas sociais são rante os ataques de Israel em 2014, é um exemplo
criminalizadas pela imprensa, protestos são proibi- do silêncio imposto pelas forças ocupantes. Repre-
dos por razões políticas e as mídias comunitárias sentantes dessas três lutas têm se manifestado nos
são perseguidas. encontros do Fórum Mundial de Mídia Livre, par-
Outro debate, mediado pelo Brasil, com as jor- ticipando dos debates e defendendo estratégias de
nalistas Laura Dauden e Rita Freire, em conjunto comunicação que ajudem a tornar mais conhecidas
com o Fórum Social Mesopotâmia, reuniu repre- as suas causas.
sentantes dos povos curdo, saharawi e palestino
para debater a imagem transmitida por uma mídia
que ignora as motivações de cada luta e os direi- A tarefa de afirmar o que nos une
tos violados. O povo curdo está dividido em quatro
países (Turquia, Síria, Irã e Iraque), onde defende a A Carta Mundial da Mídia Livre, lançada nes-
preservação de sua identidade e cultura nacionais, ta edição do FSM em Túnis, começou a ser elabo-
desrespeitadas em todos esses lugares. Hoje resiste rada em janeiro de 2014 e os debates em torno de
ao avanço do Estado Islâmico nos territórios em seus conteúdos amadureceram em diversas etapas
que luta por autodeterminação e é um povo conhe- durante o ano.
cido pela coragem de suas mulheres que lutam na Com problemas tão diferentes quanto a falta
linha de frente. Helena Latife comoveu os/as par- de regulação que sustenta os velhos e privilegiados
ticipantes ao relatar o destino das curdas seques- grupos de mídia no Brasil ou as detenções admi-
tradas pelo Estado Islâmico, as mais velhas mortas, nistrativas israelenses que tiram de cena jornalistas
as demais violentadas, escravizadas e vendidas em palestinos sem qualquer acusação, é difícil imagi-
mercados. Quem sabe dessas mulheres no mundo? nar que uma única carta possa identificar campos
Cinco mil foram sequestradas só em agosto, sem de ação comuns para quem luta por outra comuni-
muito interesse da mídia internacional. cação no mundo.
Larosi Abdalahi, representante saharawi, falou A mídia livre é, em si, um campo bem amplo.
da violência que seu povo sofre ao reclamar direi- Conforme foi definida no FMML, soma quem
tos internacionais violados e enfrentar igualmente faz outro tipo de mídia, não competitiva, e tam-
o silêncio internacional. Ex-colônia da Espanha, o bém quem faz o sistema livre para essa mídia
Saara está sob ocupação pelo Marrocos, que ex- funcionar. Também é parte quem desenvolve a
plora riquezas naturais onde se encontram 11% tecnologia livre a ser usada no sistema e quem
de toda a reserva mundial de pescados, 28% das defende a política que vai assegurar apoio para
reservas de fosfato e 230 mil toneladas de urânio. essa mídia, bem como infraestrutura para che-
O povo saharawi aguarda a convocação de um gar a todas as pessoas, em todos os lugares. É
referendo pela Organização das Nações Unidas mídia livre quem produz outros conteúdos, não
(ONU) que, no entanto, se esquiva. Larosi lamen- mercadológicos, e quem inventa outros modos de
ta que a missão da ONU no caso seja a única no apresentá-los, outras narrativas. E também está
mundo a não vigiar pelos direitos humanos. Ela incluído todo um universo sem mídia, que traz
relatou que em 2014, Marrocos expulsou 72 de- outras vozes, histórias e demandas para o movi-
legações internacionais que buscavam apurar de- mento da comunicação. O que seria uma carta
núncias de violações. para toda essa gente?
São lutas por autodeterminação que a mídia O FMML precisou debater a construção de
menospreza e, quando aborda, criminaliza, como sua carta em lugares e condições diferenciadas

28 Fórum Social Mundial 2015


para assegurar seu alcance. Em Porto Alegre, Rio cumento foi proposta no primeiro dia do FMML,
Grande do Sul, durante um seminário em janeiro com a formação de grupos abertos. As contribui-
de 2014, reuniu parceiros/as de todo o processo ções foram apresentadas no dia 23 de março e in-
para um primeiro rascunho. Em Túnis, no mês corporadas durante o FSM. O texto final foi lan-
de maio, mobilizou comunicadores/as do interior çado na Assembleia de Convergência pelo Direito
do País e rádios comunitárias do norte da África à Comunicação do Fórum Social Mundial, no dia
e Oriente Médio, que fizeram mudanças. Em Pa- 28 de março de 2015.
ris, em novembro, ampliou o debate para ativistas
da Europa e do Canadá, revendo a estrutura do
documento. Em Marrocos, logo em seguida, se Debates fundamentais para o Brasil, a
deu a maior participação de países africanos e a internet e a mídia pública
revisão de tudo em grupos de trabalho. A par-
tir daí, o FMML lançou o rascunho da carta que A Casa Brasil foi, para o Fórum Mundial de
resultou desses vários seminários de 2014 a uma Mídia Livre, a possibilidade de debater com a dele-
consulta pública. gação brasileira do FSM e parcerias internacionais
A proposta da Carta Mundial de Mídia Livre dois temas cruciais para a defesa das liberdades
foi inserida em uma plataforma interativa desen- democráticas na comunicação do País, mas que
volvida em conjunto por hackers da Ciranda Inter- ainda enfrentam resistências e incompreensões.
nacional da Comunicação Compartilhada, Coli- Duas mesas foram organizadas pelo FMML,
vre e desenvolvedores/as do Participa.Br, a partir mediadas por Intervozes (Bia Barbosa) e Ciranda
do sistema Noosfero e ficou aberta a contribuições (Rita Freire) para dar conta dessas agendas. A pri-
finais entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015. meira delas focalizou a internet.
Ganhou versões em português, francês, espanhol, Nos dois últimos anos, o Brasil tem sido pro-
inglês e árabe. tagonista no debate das liberdades e direitos da
Foi esse material que chegou ao IV FMML internet, com duas iniciativas de forte apelo inter-
para um trabalho coletivo de sistematização e re- nacional. Uma delas foi a aprovação, pelo Con-
dação final. Entre seus temas, a carta afirma a im- gresso Nacional, e a sanção, pela presidenta Dilma
portância da regulamentação dos meios de comu- Rousseff, do Marco Civil da Internet, consagrando
nicação e o respeito ao princípio da neutralidade como princípios o direito à privacidade, a neutrali-
da internet. A metodologia para finalização do do- dade e a liberdade de expressão. Em uma socieda-

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 29


de hiperconectada, esses princípios são necessários Tactical Tech (Alemanha), e Mohamed Tarakiyee,
para assegurar o direito de todas as pessoas a se integrante da Associação para o Progresso das Co-
comunicarem pela rede em condições iguais. municações (APC, Jordânia), apresentaram dife-
A outra iniciativa foi a realização da Conferên- rentes aspectos do que deve ser assegurado para
cia Netmundial, que reuniu governos, empresas e uma efetiva democracia na rede.
sociedade civil para discutir princípios comuns e Nessa atividade foram enfatizadas a necessida-
modelos para a governança democrática da rede. de do engajamento da sociedade civil no debate
No entanto, o futuro da internet continua em dis- sobre o futuro da internet, a preocupação com o
puta, na medida em que se aproximam a regula- uso de tecnologias livres para a proteção de dados,
ção do Marco Civil da Internet pelo Brasil – em a promoção de conceitos de soberania digital e a
que a neutralidade da rede precisa ser reafirmada necessidade de priorizar sistemas alternativos a
– e a realização do Fórum sobre a Governança ferramentas corporativas no universo do Fórum
da Internet (IGF, na sigla em inglês), programa- Social Mundial.
do para novembro, em João Pessoa, Paraíba, com
decisões a serem tomadas sobre a gestão técnica
da rede, hoje a cargo de uma organização dos Es- A mídia pública deve estar próxima do
tados Unidos. FSM e das mídias livres
No debate na Casa Brasil, Stéphane Couture,
pesquisador da Universidade McGill (Canadá), O segundo debate promovido pelo FMML na
Alexandra Haché, coordenadora de projetos da Casa Brasil se deu em torno da mídia pública e sua

30 Fórum Social Mundial 2015


relação com as lutas sociais. De acordo com a Car- mídias livres e as agências da América Latina e as de
ta Mundial da Mídia Livre, há um entendimen- língua portuguesa para um maior intercâmbio de
to de que as mídias públicas precisam conquistar coberturas sobre as pautas dos movimentos sociais.
autonomia frente a governos e ao mercado para A presença da EBC no Fórum Social Mundial, não
cumprir sua finalidade. E nisso se aproximam das apenas para cobrir, mas para participar dos seus de-
mídias livres, em sua relação direta com a socieda- bates, pode ser um impulso a essa interlocução.
de que se mobiliza.
No entanto, no Brasil, essa autonomia ainda
depende de maior valorização pelo poder público e Na Assembleia de Convergência,
apropriação pela sociedade civil. Para esse debate, compromissos com o direito à
o FMML convidou o presidente da Empresa Brasil comunicação
de Comunicação (EBC), Nelson Breve, e a conse-
lheira Eliane Gonçalves, representante dos/as tra- No dia 28 de março de 2015, ativistas de mí-
balhadores/as no Conselho Curador da empresa. dias, coletivos e movimentos de comunicação rea-
Como contraponto à luta brasileira para consoli- lizaram em Túnis a Assembleia de Convergência
dar sua mídia pública, foi convidado o jornalista sobre o Direito à Comunicação, onde foi feita a
e eurodeputado Stelios Kouloglou, representante leitura em três idiomas (francês, inglês e português)
do partido de esquerda Syriza, que recentemente da Carta Mundial de Mídia Livre, oficialmente
venceu as eleições na Grécia, provocando uma re- lançada na atividade.
viravolta nas relações do País com as imposições de Participantes aderiram à carta em um ato sim-
ajuste feitas pela comunidade europeia. Entre as bólico, assinando coletivamente um grande banner
primeiras medidas do novo governo, foi anunciada do IV FMML e debatendo em seguida as diversas
a reabertura da TV pública grega, fechada pelo agendas do movimento de comunicação ligado ao
governo anterior. FSM para 2015.
Na Grécia, o fechamento da emissora foi mo- Entre as convergências resultantes da assem-
tivo de comoção. Manifestantes saíram às ruas e bleia, foi aprovada a realização de um seminário
trabalhadores/as se mantiveram no prédio, decidi- conjunto entre o FMML, que programa uma edi-
dos a manter a televisão em funcionamento. Para ção temática sobre a internet, e as organizações
Kouloglou, a sociedade grega reagiu fortemente ao que propuseram a realização de um Fórum Social
fechamento porque a programação é independen- da Internet. O debate sobre a governança da rede
te e de alto nível de qualidade e há uma tradição é uma das prioridades do FMML para o ano.
de independência da mídia pública em relação ao Outra convergência se deu em torno do com-
governo. promisso de atuar para dar visibilidade às lutas dos
Eliane Gonçalves lembrou que a Constitui- povos por libertação, em particular os povos cur-
ção Federal prevê a complementaridade dos siste- do, saharawisaharawi e palestino, assim como ao
mas público, estatal e privado, mas, segundo ela, enfrentamento ao genocídio da juventude negra,
essa situação ainda não ocorre no Brasil e não é denunciado no Brasil.
muito clara a diferença entre o campo público e A Assembleia decidiu também apoiar e assumir
o estatal. a participação do FMML na Missão Humanitária
Para Nelson Breve, os meios de comunicação a Gaza, iniciativa aprovada pelo Conselho Interna-
precisam ter controle social na formulação, regula- cional do FSM e promovida por organizações e jor-
ção e fiscalização. “Se a sociedade civil não puder nalistas do Brasil, em solidariedade ao povo pales-
acompanhar de perto a formulação das políticas tino. A Missão já estava programada para começar
que têm a ver com a comunicação, a sua efetiva logo após o final do FSM 2015, com a participação
regulação e fiscalização, significa que ela não terá de vários/as jornalistas ligados ao FMML.
controle sobre os seus bens públicos de comunica- Atuar junto ao FSM para dotar seus eventos e
ção. Esse é o direito que precisa ser afirmado.” seu processo de sistemas e tecnologias de comuni-
Uma das propostas colocadas na mesa sobre a cação compatíveis com os princípios do FMML,
mídia pública é a de apoiar uma articulação entre as realizar uma cartografia das mídias livres e promo-

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 31


ver uma ação global de formação em mídia livre movendo o respeito à imagem da mulheres na mí-
foram outras convergências aprovadas. dia, pelo apoio às articulações entre mídias livres
Entre as várias propostas assumidas como en- e, em particular, às propostas de financiamento às
caminhamentos da Assembleia foram aprovados redes livres debatidas no Brasil.
o compromisso de atuar pelo fortalecimento das A grande convergência, no entanto, ficou a
relações entre as mídias livres na América Latina, cargo da difusão e utilização da Carta Mundial da
pela superação do distanciamento entre as lutas Mídia Livre como ferramenta para o debate e a
pelos direitos de internet e as lutas feministas, pro- promoção do direito à comunicação.

Mohammad Tarakiyee, Associação Bia Barbosa, Intervozes


para o Progresso das Comunicações “Há uma falsa impressão das pessoas
– APC (Jordânia) de que se elas não estão fazendo
“Se falarmos da questão de gênero, nada de errado, não tem problema
hoje temos cerca de 300 milhões de que vejam sua atitude na internet.
mulheres a menos do que homens Mas isso parte do princípio de que
usando a internet. É isso mesmo o todos nós somos criminosos em
que queremos? Pessoas vigiadas, potencial e que por isso os dados
que não conseguem formar um têm que ser sistematicamente
grupo online? Precisamos falar guardados. Isso é uma distorção
sobre direitos. O desempoderamento completa de um direito fundamental:
econômico é também uma o direito à privacidade.”
dificuldade muito grande para o
acesso.”

Nelson Breve, presidente da Empresa Alexandra Haché, coordenadora


Brasil de Comunicação – EBC de projetos da Tactical Tech
“Se a sociedade civil não puder (Alemanha)
acompanhar de perto a formulação, “Precisamos ser pacientes, ter
fiscalização e regulação significa que tempo e dar oficinas antes de tentar
ela não tem controle sobre os seus convencer as pessoas a usarem
bens. Esse é o direito que preciso ferramentas livres, para termos
ser firmado. Eu lanço o desafio de uma massa que critique o governo
que precisamos reconhecer todos os e essas corporações e buscar
meios de comunicação como bens participar de aulas na internet e
públicos que necessitam de controle no mundo digital para ajudar a
e legitimidade da sociedade civil.” comunicar essa questão.”

Stéphane Couture, pesquisador da Universidade McGill


(Canadá)
“Existem duas formas de abordar as alternativas: uma é sobre
infraestrutura e a outra são as políticas públicas. Isso é também
uma questão de estabelecer coalizões políticas de maneira que
as pessoas pelo menos conheçam o problema. Precisamos saber
que tipo de pontes conseguimos construir, buscar estratégias e
discutir isso com outras pessoas em outros espaços.”

32 Fórum Social Mundial 2015


Combate ao racismo e à xenofobia
e luta por reparações
Composição da mesa:
Maha Abdelhamid, Collectif Tunisien pour l´Égalité et contre le Racisme (Movimento Negro da Tunísia)
Edson França, da Unegro, União de Negros pela Igualdade, Brasil
James Early, Smithsonian Center for Folklife and Cultural Heritage, Estados Unidos
Jurema Werneck, ONG Criola e Articulação de Mulheres Negras do Brasil
Mireille Fanon-Mendes, Fondation Frantz Fanon, França

Coordenação da mesa:
Gilberto Leal, Conen – Coordenação Nacional de Entidades Negras
Nilza Iraci, Geledés - Instituto da Mulher Negra

A luta contra o racismo e a xenofobia é um O racismo não é somente a discriminação pela


assunto de todos/as, central na construção de cor da pele, mas a discriminação praticada contra
uma nova concepção de humanidade. O racismo uma determinada população para estabelecer pri-
atinge diversas populações e etnias, está visível vilégio de uns/umas sobre outros/as. O racismo
em diversas dimensões da vida humana e se ex- organiza sistemas econômicos e de governo que
pressa no sexismo, no genocídio e no extermínio se sustentam na ideia ocidental da superioridade
da juventude negra em vários países. O racismo racial e cultural de quem é branco/a e na inferiori-
exige dos movimentos sociais a tarefa cotidiana dade dos povos, religiões e culturas negras ou não
de construção de novas ideologias. Lutar contra brancas. Ele é visível nas várias sociedades onde
o racismo significa também lutar pela transfor- povos negros foram escravizados, mas também na
mação dos sistemas que produziram e ainda pro- relação com povos originários indígenas nos vários
duzem discriminação, exploração, abuso sexual e continentes, na relação com os povos do mundo
outras tantas violências e isso significa lutar con- árabe, com palestinos, sarauís, ciganos e dalits. Se
tra o capitalismo, o patriarcado e a homofobia. expressa tanto na perseguição às religiões de matriz

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 33


africana no Brasil, quanto na islamofobia alimen- No Brasil, diante de uma elite que não assu-
tada pelo Ocidente. Está nas sociedades dos países mia a existência do racismo, o primeiro foco do
mais ricos do hemisfério norte, como na relação movimento anti-racismo foi a denúncia do mito
com migrantes latinos/as, asiáticos/as, africanos/ da democracia racial. Havia toda uma construção
as ou da Europa do leste. O racismo permitiu uma ideologica que negava fatos concretos de racismo
divisão econômica, financeira e militar entre os po- presentes na sociedade, academia e governos, que
vos, as comunidades e os Estados. compartilhavam o mito e influenciavam o senso
Foi a ideologia do racismo que permitiu racio- comum. O reconhecimento da existência do ra-
nalizar, ou seja, tornar natural e aceitável, a ex- cismo permitiu elaborar diagnósticos dos danos e
ploração de mulheres, homens e crianças negras que o Estado operasse e se comprometesse com o
como escravos nas Américas e em vários outros enfrentamento do problema já que esta é uma luta
países que foram colônias entre os séculos XI e que não deve ser apenas do movimento social.
XIX, período em que o trabalho físico e mental Essa luta passou pela elaboração, no período
do povo africano foi o sustentáculo principal do pós-ditadura brasileira, da Constituição Fede-
capitalismo. O racismo torna-se mais complexo ral, aprovada em 1988, que inclui em seu texto
quando olhamos para as perspectivas de gênero o racismo como crime inafiançável e imprescri-
ou geracional: as mulheres negras experimentam tível. A organização popular, ao longo do perío-
o racismo de forma diferente dos homens negros, do da ditadura e da redemocratização do País,
as lésbicas negras de forma diferente das heteros- levou à eleição, somente em 2002, de um gover-
sexuais negras e o mesmo para a juventude e as no que assumiu a reivindicação do movimen-
pessoas com deficiência. to negro com mais força. Há pouco mais de dez
Desconstruir a ideia de superioridade de uns/ anos, há conquistas no plano institucional, como
umas sobre os/as outros/as é, portanto, o primeiro o reconhecimento dos territórios quilombolas,
passo para enfrentar o racismo. Isso passa pela edu- a implementação de políticas afirmativas como
cação, auto-organização e conscientização dos povos as cotas nas universidades e no serviço público
que sofrem o racismo. Passa também por medidas a federal, o Estatuto da Igualdade Racial, além da
partir do Estado que deve reconhecer sua existência implementação de estruturas institucionais como a
e estabelecer políticas para combatê-lo. Finalmente, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade
enfrentar o racismo passa por reconhecer o aspecto Racial (Seppir). Todas essas medidas são positivas,
econômico que está por detrás do mesmo: a escravi- mas insuficientes para reverter o quadro de desi-
dão, em vários países, foi abolida por uma decisão de gualdades, sendo que só serão efetivadas a partir
ordem econômica e não por um reconhecimento de da cobrança da sociedade civil organizada.
que a população negra fosse igual e digna dos mes- Já na Tunísia, o movimento negro retomou sua
mos direitos que os/as brancos/as e marcou o início articulação recentemente, a partir da revolução de
de um segundo tipo de escravidão, caracterizada pela 2011. A presença negra nesse país é composta por
oferta de mão-de-obra com baixa qualificação e re- descendentes de escravos/as traficados/as no pe-
muneração, igualmente explorada. ríodo colonial e também por migrantes que che-
gam, a partir do século XX, fugindo das guerras
que atingem os vários países da África subsaariana.
Trajetórias no enfrentamento ao A maior parte se concentra na região sul do País,
racismo: Brasil e Tunísia que é também a mais pobre e marginalizada.
A abolição da escravatura veio em 23 de janei-
Um caminho necessário na luta contra o racis- ro de 1846 e, como no Brasil, nos Estados Unidos
mo é o reconhecimento de que ele existe. Ele apa- ou em outros países colonizados, foi desacompa-
rece socialmente de maneira muito evidente em nhada de um processo de inserção dos/as ex-es-
comportamentos de discriminação contra a popu- cravizados/as na sociedade em condições adequa-
lação negra ou de cor, no uso de termos de cunho das. A colonização francesa acentuou ainda mais o
pejorativo ou na desigualdade de oportunidades de processo de empobrecimento e de marginalização
acesso a bens e serviços, formação e trabalho. da população negra. O racismo está visível em ex-

34 Fórum Social Mundial 2015


pressões pejorativas, em atos discriminatórios, a como por exemplo, a adoção de uma legislação
exemplo de cemitérios distintos para brancos/as que penalize os atos racistas e o estabelecimento
e negros/as no sul do País, e na desigualdade de do 23 de janeiro como uma data comemorativa da
acesso a educação e trabalho, mas não há nenhu- libertação dos/as escravos/as. A participação do
ma lei que coíba ou puna tais atos. Também não movimento negro tunisiano no FSM 2015 também
se sabe exatamente qual a porcentagem da popu- reforçou essas reivindicações.
lação negra (avaliada em 15%), uma vez que as
estatísticas do censo demográfico não incluem a
opção de declaração de cor. Ainda hoje, há jovens Ocupação de espaços de poder
negros/as que carregam em seu nome a expres-
são “atig”, que significa, “liberado/a”, seguida do Mesmo com todos os mecanismos de enfrenta-
nome do antigo senhor de seus/suas antepassa- mento ao racismo e de inclusão da população ne-
dos/as escravizados/as. gra na sociedade, ainda há esferas onde é preciso
Até a independência da Tunísia, em 1956, não avançar. Entre elas, a da participação e a da repre-
houve um movimento de conscientização racial sentação política. No Brasil, há organizações do
similar aos que aconteciam na África do Sul, Esta- movimento negro em quase todos os Estados bra-
dos Unidos ou Brasil, tanto pelo isolamento quan- sileiros, mas ainda é preciso que sua força política
to pela falta de lideranças intelectuais negras que se amplie para impor mudanças e avançar na luta.
pudessem defender e falar em nome dos direitos da Outras falas destacaram a necessidade de pensar
população negra. Em meados da década de 1960, para além do Estado, visto que este é construído
surge uma primeira tentativa de organização, li- com violência para controlar povos ditos inferiores,
derada por um homem chamado Slim Marzoug e construir novas institucionalidades.
Mazouk, que estudou na França. Ao retornar à Dados do censo brasileiro realizado pelo IBGE
Tunísia, ele tentou organizar os/as negros/as nas – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística re-
regiões do sul do País em torno de um partido polí- velou que a população negra e as mulheres negras
tico. Essa iniciativa foi vista como uma ideia sepa- representam, respectivamente, 51,73% e 25% da
ratista que ameaçava o projeto de “tunisificação” população do País. Entretanto, essa população está
conduzido pelo líder da independência, Habib sub-representada em todos os espaços de poder e
Bourguiba, para construir uma sociedade homo- decisão, sendo que a mulher negra ocupa a base da
gênea, sem discriminações, o que ainda não acon- pirâmide social.
tece na prática. Slim Marzoug Mazouk foi preso O Brasil tem um sistema legislativo bicameral
várias vezes e, na última, o Estado decretou sua no qual há apenas um negro no Senado. Entre
insanidade mental e ele foi internado em um hos- os 513 deputados, apenas 43 ou 8,3% dos/as de-
pital psiquiátrico por 35 anos. Libertado cerca de putados/as são negros/as, situação que se repete
um mês antes de sua morte, já velho e doente, deu nas capitais e prefeituras. No executivo, o cená-
entrada novamente no hospital onde logo faleceu. rio é o mesmo: são 37 ministérios e apenas uma
Recuperar o caminho deste personagem pio- representação negra, no Ministério da Igualdade
neiro, relevante em um momento em que a popu- Racial. Frente a isso, avaliou-se que, em sociedades
lação negra não tinha informações sobre direitos e multirraciais, a ocupação desses espaços de poder
estava silenciada, foi um dos objetivos da Marcha é fundamental na ação contra o racismo. Por outro
da Igualdade iniciada em 18 de março de 2014. lado , o entendimento é de que não basta ter ne-
Trata-se de uma caravana que começou na cidade gros/as ocupando espaços de poder porque ser ne-
de Djerba, conhecida por sua herança escravagis- gro/a não significa a automática incorporação do
ta, passou por Gabès e Sfax até chegar na capi- tema do enfrentamento ao racismo na sua agenda.
tal Túnis, em 21 de março, Dia Internacional de Durante a mesa, foram feitas ressalvas a essa ideia
Luta contra o Racismo, instituído pela Organiza- citando como exemplo o caso do governo Barack
ção das Nações Unidas (ONU). A marcha contou Obama, que se por um lado representa uma valo-
com uma grande participação da população ne- rização da identidade negra, por outro não rompe
gra tunisiana e deu visibilidade às suas demandas, com o sistema que gera opressões.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 39


O número da população e a natureza da eco- Classe, gênero e raça sempre foram questões
nomia brasileira - sétima maior do mundo, terceira importantes, mas raça foi utilizada para raciona-
em termos de produção de aviões, primeira na pro- lizar a exploração de homens, mulheres e crian-
dução de soja e rica em recursos naturais - deman- ças negras, e muitos dos/as nossos/as aliados/as
dam que a sociedade negra do País pense onde vai brancos/as falavam em classe, pois raça não era a
estar daqui 25 anos frente a espaços como o grupo questão central do sistema de exploração.
dos BRICS - Brasil, Índia, China e África do Sul. As populações negras estão nas Américas há sé-
Durante o debate, a sociedade civil negra brasilei- culos, são as mais empobrecidas, aquelas com os índi-
ra foi chamada a pensar seu papel não apenas na ces de encarceramento mais altos, com mais proble-
luta contra o racismo no Brasil, mas no continente, mas de saúde, mas estão vivas porque têm lutado. É
exercendo liderança frente à emergência da CE- necessário falar a partir das nossas fortalezas, da nos-
LAC - Comunidade de Estados Latino-America- sa resistência e de nossa visão sobre progresso, não a
nos e Caribenhos. Por exemplo: como impulsionar partir de nossas debilidades, para nos situarmos me-
o governo brasileiro a abordar as questões relativas lhor na negociação de poder. A luta por liberdade é
ao Haiti e ao desenvolvimento de Cuba? Como as- uma luta constante. Derrotamos a escravidão e o co-
segurar que a presidenta Dilma Rousseff, quando lonialismo, derrotaremos o racismo, mas outras lutas
no próximo ano estiver em Washington DC, fale a virão. É preciso elaborar uma estratégia, analisar os
partir da maioria da cidadania brasileira para os/ problemas de hoje para, em seguida, identificar como
as 200 milhões de descendentes de africanos/as lutaremos durante nossas vidas rumo a uma nova
nos Estados Unidos? Esse é um desafio posto para concepção da humanidade. A liberação do povo ne-
o movimento negro no Brasil. gro está no bojo da liberação da humanidade.

Protagonizar processos, fortalecer a Reparações como reforço à luta contra o


resistência racismo
Muitas falas destacaram a necessidade de Ficou evidente no debate que as reparações ou
auto-consciência, educação e auto-organização, medidas afirmativas de melhoria da vida da po-
mas também de que haja espaço para que os/ pulação negra são um reforço, mas não o centro
as negros/as falem com suas próprias vozes nos das políticas de combate ao racismo. A reparação
vários espaços de participação, como nas confe- é uma negociação com o poder no mundo de hoje
rências da ONU, mas também no Fórum Social e elas são conquistas do movimento negro organi-
Mundial, onde há uma dominação intelectual zado, não foram dadas. Nos Estados Unidos, logo
branca. Durante muitas décadas, o movimento após a abolição, aos/às descendentes de africanos/
de direitos humanos falou em nome de negros/ as foram prometidos 40 hectares de terra além de
as, ciganos/as, pobres e jovens e é hora de rei- insumos para a produção como instrumentos para
vindicar essa igualdade e expressar a riqueza do seu desenvolvimento e manutenção, mas esse con-
aporte dessas populações em documentos inter- teúdo foi negado.
nacionais. Em relação à educação, as falas regis- Na democracia burguesa, as reparações per-
traram o aporte de US$ 2 milhões do governo mitem que algumas pessoas negras tenham acesso
brasileiro para a publicação dos nove volumes mais fácil à educação, melhorem de vida enquanto
da História da África editados pela Organização estão vivas e, nesse sentido, elas representam avan-
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência ços, mesmo que não signifique que alcançamos a
e a Cultura (Unesco), a inclusão da população utopia. No Brasil, por exemplo, o estabelecimento
negra nos currículos escolares da Colômbia e as de cotas de acesso à universidade e ao serviço pú-
cadeiras sobre estudos negros nos Estados Uni- blico federal teve um efeito imediato que é a pre-
dos. Construir coalizões entre esses/as professo- sença maior de negros e negras nesses espaços, em
res/as é um caminho para denunciar o racismo cargos altos ou de maior visibilidade, algo que não
e combatê-lo. é visto nos espaços do mercado privado.

40 Fórum Social Mundial 2015


As políticas afirmativas também trazem contra-
dições, porém o papel da sociedade civil organizada betes herdadas de seus/suas antepassados/as, que
é trabalhar para conscientizar para a transformação foram forçados a comer açúcar.
social, o rompimento com a base material e a criação O mundo não irá avançar se os/as negros/as
de uma narrativa que supere o racismo e todas as for- não avançarem: as prisões nas Américas, seja nos
mas de opressão. Pensar como cidadãos/ãs em sua Estados Unidos, Brasil, Colômbia, Cuba ou Vene-
totalidade, não apenas como cidadãos/ãs negros/as, zuela, estão plenas de mulheres e homens negras/
mas como agentes de transformação para um mode- os. Isto significa que os recursos de sociedades
lo civilizatório onde todas as pessoas tenham o direito inteiras estão sendo utilizados de maneira negativa,
a viver com dignidade. Há uma tendência dentro das não em serviços públicos de saúde ou educação, e
comunidades negras de ser anti-brancos/as e pró-ne- que a sociedade inteira não está avançando dessa
gros/as, mas não pró-humanidade. maneira.
As reparações ao povo negro são um tema A mesa destacou que é preciso trabalhar com a
fundamental e de ordem democrática para toda a juventude, pois não se trata apenas de falar de dis-
população, não se trata de separatismo ou de be- criminação ou resistência. As reparações são ele-
nefícios apenas para uma parte. A escravidão foi mentos e ocasiões para trabalhar rumo à transfor-
declarada um crime contra a humanidade e deve mação com o objetivo de atingir a plena cidadania,
existir uma penalidade e reparações para seus/suas de ser capaz de participar com nosso poder mental
descendentes, como no caso de Barbados, onde a e imaginação de novas maneiras de expressar a hu-
população sofre com amputações derivadas de dia- manidade, novas formas de entender a economia,
novos jeitos de entender o desenvolvimento.

Maha Abdelhamid – James Early – Smithsonian Center for


Movimento Negro da Tunísia Folklife and Cultural Heritage/EUA
“Após a abolição da escravatura na “O racismo não é somente a
Tunísia, não houve nenhum processo discriminação pela cor da pele,
de inserção dos ex-escravizados mas a manutenção de privilégios
na sociedade. A colonização orientados pelo sistema econômico
francesa acentuou esse processo. que atinge outros nichos, como
A participação no FSM 2015 visa discriminações e abusos contra
fortalecer o movimento, pois a mulheres e crianças. Precisamos
Tunísia não possui leis contra a lutar contra o racismo para que
discriminação ou que defendam a todos nós nos tornemos cidadãos.
população negra, que na sua maioria Questões sobre reparação são
não fala árabe e são de religiões questões da democracia, dos direitos
diferentes.” humanos.”

Jurema Werneck – ONG Criola/Brasil Edson França, da Unegro - União de


“O racismo não é novidade no Negros pela Igualdade
mundo, pois se trata de violência. “A sociedade brasileira é peculiar,
É a experiência de subordinação e pois as elites não assumem a
dominação, um sistema complexo existência do racismo, o que fez
que atua de maneiras diferentes com que o foco do movimento
sobre cada um de nós. Os anti-racismo fosse a denúncia
homossexuais, os deficientes, as do mito da democracia racial, da
mulheres, os transexuais, todos construção ideológica que negava
experimentam os racismo de um fatos concretos. A busca pelo
lugar diferente. Não é algo abstrato.” reconhecimento do racismo permite
diagnósticos dos danos e que o
estado opere e se comprometa com
o problema.”
Mireille Fanon-Mendes - Fondation Frantz Fanon/França
“A abolição não ocorreu porque as pessoas estavam convencidas
de que os negros são iguais aos brancos, mas porque se chegou
ao final de um ciclo econômico que estava custando demais. Os
negros foram libertados e se tornaram trabalhadores explorados
de outra maneira. Essa lógica nunca foi realmente quebrada e
isso explica porque nós continuamos a ser subjugados.”

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 41


Atividades complementares
acontecendo na Tunísia. No primeiro momento,
assistiu-se à transmissão ao vivo da mesa temática
“Democracias: novas estratégias de participação
popular para o empoderamento da sociedade ci-
vil”. Participações brasileiras destacaram-se, como
Olívio Dutra, apresentando a experiência do Or-
çamento Participativo em Porto Alegre (RS) e Letí-
cia Cardoso, do Movimento Passe Livre, reforçan-
do a importância do transporte coletivo como um
direito transversal a todos os outros direitos.
O segundo momento foi a mesa de diálogos
Atividade autogestionada: “Educação de jovens e adultos e direitos dos realizada no Brasil, tendo como mediadores Moa-
povos”, realizada na Casa Brasil
cir Gadotti (FME/IPF), Terezinha Vicente (Ci-
randa e Fórum Mundial de Mídia Livre), e como
Educação de jovens e adultos e coordenador, Roberto da Silva (FE-USP). O pro-
direitos dos povos fessor Moacir Gadotti comentou as manifestações

A
educação de jovens e adultos também foi pro- acorridas em 2015 no Brasil, destacando que a dis-
blematizada no Fórum Social Mundial 2015. puta central pelo direito à participação passa pela
Instituto Paulo Freire-Brasil (IPF), Federação experiência tensa da democracia. Por sua vez, Te-
Única dos Petroleiros (FUP) e Petróleo Brasileiro rezinha apoiou que o povo vá às ruas para se mani-
S.A. (Petrobras) realizaram no dia 27/03/2015, na festar, porém contestou a fonte de informação que
Casa Brasil, a Mesa de diálogo “Educação de jo- as pessoas acessam para se organizar e ir às ruas.
vens e adultos e direitos dos povos”. O rádio e a televisão são ainda o principal meio
Geanne Campos, representando o Projeto de informação da população brasileira. “É difícil
MOVA-Brasil, e Angelo Kapwatcha, pelo Fórum construir uma democracia participativa quando as
Regional para o Desenvolvimento de Angola, apre- pessoas só tem acesso a um lado da história”.
sentaram as experiências de educação popular dos A atividade contou com 111 participantes a
dois países. Também compuseram a mesa de diá- distância contribuindo, desta forma, para ampliar
logo: José Barbosa (Petrobras) e José Genivaldo da a atividade realizada pelo coletivo brasileiro em
Silva (Federação Única dos Petroleiros). A coorde- Túnis e provocar reflexões a partir de diferentes
nação foi de Luiz Marine (Instituto Paulo Freire). contextos locais.

A Educação e a construção da
Democracia participativa

N
a manhã do dia 25/03, o Instituto Paulo
Freire realizou, em sua sede, em São Paulo, a
atividade estendida do FSM 2015, “A Educa-
ção e a construção da Democracia Participativa”
com dois momentos importantes que integraram
as equipes do Projeto MOVA-Brasil, nos 11 esta-
Moacir Gadotti, Roberto da Silva e Terezinha Vicente, durante a
dos, aos participantes e a discussões que estavam atividade estendida

42 Fórum Social Mundial 2015


Perspectivas
O legado do FSM 2015 na Tunísia
para o processo do FSM 2016 no
Canadá

N
o dia 28 de março de 2015, a Tunísia des- tirem incansavelmente: “Vocês são bem vindos”
pediu-se da 10ª edição do Fórum Social e “a presença de vocês é importante para o povo
Mundial. Tendo acolhido duas edições tunisiano!”.
do evento mundial, o país tornou-se, ao lado do Esta edição se deu em um cenário mundial
Brasil, o outro grande território de identidade do de crise do modelo de desenvolvimento predo-
FSM. Tunísia e Brasil são os dois países que abri- minante: capitalista, patriarcal, racista e impe-
garam mais de uma edição do FSM: duas edições rialista. Ao mesmo tempo, a oportunidade de
foram realizadas na Tunísia e cinco no Brasil. aproximação física de povos do mundo todo evi-
A realização do FSM 2015 ocorreu em condi- denciou a conexão entre as lutas locais e globais,
ções adversas inesperadas, que mudaram parte todas contra um mesmo inimigo: o sistema po-
dos rumos e expectativas do evento e impu- lítico e econômico que explora recursos, ocupa
seram decisões e adaptações. O primeiro fato territórios e massacra povos de todo o mundo.
inesperado foi de ordem política: no dia 18 de Depoimentos de militantes do Saara Ocidental,
março, seis dias antes do início do evento, o país da República Democrática do Congo, da Palesti-
e o mundo foram surpreendidos por um aten- na, do povo curdo, da periferia de São Paulo, de
tado no renomado Museu do Bardo, ao lado do remanescentes quilombolas, de povos indígenas,
Parlamento tunisiano. Vinte e quatro pessoas de jovens urbanos/as ede movimentos de mulhe-
foram brutalmente assassinadas, 45 feridas, a res, entre outros, entreteceram-se no contexto
maioria turistas das mais diversas nacionalida- do FSM 2015.
des e regiões do mundo. “Os sangues dos po- Como era de se esperar, as opiniões sobre
vos se misturaram”, declararam os dirigentes esta última edição do Fórum Social Mundial são
do Fórum Tunisiano de Direitos Econômicos e tão diversas quanto seus/suas participantes.
Sociais (FDTDES), que coordenou a organização São muitos os olhares, de diferentes pessoas e
do evento. movimentos, cada qual analisando o todo com
O FSM 2015 não foi cancelado e a confirma- uma visão própria que responde a determinadas
ção da participação da maior parte das delega- expectativas.
ções soou como um apoio ao povo tunisiano na Alguns olhares destacam a expressão de
sua luta contra as forças conservadoras e an- certas lutas que se mostraram mais fortalecidas,
tidemocráticas. Durante todo o evento, as pes- a exemplo do movimento LGBT, que realizou,
soas participantes de outras regiões do mundo pela primeira vez, no País, uma marcha sobre o
ouviram tunisianos e tunisianas na cidade repe- tema. Outros relatos enfatizam o enfrentamento

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 43


ao racismo, movimento que se firmou como fun- dos/as brasileiros/as com participantes de dife-
damental na dinâmica do FSM e nas discussões rentes países.
sobre direitos humanos na Tunísia e na região. As primeiras reflexões da delegação brasilei-
Um avanço a ser registrado refere-se aos mo- ra sobre sua participação no FSM 2015 revelaram
vimentos de desempregados/as na região, que uma avaliação geral bastante positiva em rela-
conseguiram criar e lançar a Rede Mundial de ção ao evento, à participação da sociedade civil
Luta contra o Desemprego e o Trabalho Precá- brasileira, à condução do projeto de mobilização
rio, aproveitando para articular a adesão de ou- pelo seu caráter transparente e democrático, o
tras organizações do resto do mundo. que favoreceu a composição de uma delegação
Por outro lado, foi identificada a perda de bastante plural. É possível afirmar que foi uma
entusiasmo da juventude tunisiana, em compa- excelente oportunidade de intercâmbio entre a
ração com 2013, quando da realização da primei- sociedade civil brasileira e a tunisiana, ambas
ra edição do FSM na Tunísia. Segundo algumas em luta pelo aprofundamento de seus processos
percepções, o entusiasmo pós-revolucionário democráticos. O FSM 2015 favoreceu a forma-
dos/as jovens deu lugar a certo ceticismo em ção social e política destas lideranças brasileiras
relação ao processo democrático em curso no e viabilizou intercâmbios e articulações nacio-
País, especialmente após as recentes eleições nais e internacionais nos mais diversos campos
que deram a vitória a representantes de um par- de atuação.
tido de coalizão dominado pelos liberais. Um dos principais desafios do FSM perma-
Não só a juventude da Tunísia, mas também nece sendo a articulação das lutas e a constru-
grande parte das organizações do mundo árabe ção de pautas e estratégias comuns que resul-
demonstra preocupação com a situação social e tem numa articulação mais global e que amplie
política na região, especialmente em relação às a possibilidade de incidência transformadora no
guerras civis, à militarização dos regimes e ainda cenário mundial. Esse desafio também está pos-
à existência de grupos extremistas antidemocrá- to para a sociedade civil brasileira, cuja partici-
ticos. É evidente a dificuldade do FSM em rea- pação no FSM foi diversa, mas, de certa forma,
cender a chama da utopia e da esperança em um dispersa. A conjuntura brasileira e latino ameri-
mundo melhor no contexto internacional atual. cana, marcada pelo avanço orquestrado da direi-
Já a participação dos/as cerca de 200 brasi- ta e do conservadorismo em vários países, exige
leiros e brasileiras e de mais de 100 organizações a convergência dos movimentos sociais e a cons-
e movimentos sociais de diferentes regiões foi trução de possibilidades de incidência mais efe-
um resultado importante da mobilização reali- tiva do FSM no contexto planetário. O processo
zada por meio da parceria estabelecida entre as de organização da delegação brasileira deu novo
sete organizações que coordenaram o processo, fôlego para a rearticulação do FSM no Brasil.
a Petrobrás e a Secretaria Geral da Presidência Nessa perspectiva, decisões tomadas na
da República. reunião do Conselho Internacional (CI) do FSM,
O espaço denominado “Casa Brasil”, uma realizada em Túnis, dias 29 e 30 de março,
tenda de 300 metros quadrados de extensão apontam para algumas possibilidades no senti-
onde foram realizadas mesas de diálogo e de- do das transformações necessárias. Entre elas
bates promovidos por organizações brasileiras, destacam-se:
deu visibilidade aos temas debatidos e à presen- • Em janeiro de 2016, acontecerá, em Porto Ale-
ça brasileira no FSM. A estrutura, com capacida- gre (RS), uma edição do Fórum Social Temático
de para participação de cerca de 150 pessoas e em comemoração aos 15 anos de existência do
tradução simultânea para os idiomas português, FSM. O evento, a ser realizado no mesmo perío-
inglês e francês, favoreceu uma maior interação do em que acontecerá o Fórum Mundial Econô-

44 Fórum Social Mundial 2015


mico de Davos, dará início ao processo de mo- respostas mais efetivas à necessidade de inci-
bilização para a 12ª edição do FSM. dência do FSM no cenário sócio-político mun-
• A decisão dos/as integrantes do CI foi apoiar a dial. Neste sentido, um Grupo de Trabalho (GT)
realização da próxima edição do FSM no Cana- do CI do FSM foi criado. Dele fazem parte, entre
dá, proposta defendida com grande entusiasmo outras, organizações que coordenaram a par-
por um grupo de organizações daquele país. ticipação da delegação brasileira no FSM 2015
Merece destaque o envolvimento de movimen- como Abong, Instituto Paulo Freire, Flacso-Bra-
tos de juventude nessa articulação que, assim sil e União Brasileira de Mulheres.
como na Tunísia e no Brasil, deixaram transpa- A mobilização da sociedade civil brasileira
recer uma nova cultura política de forte parti- em torno da rearticulação do processo do Fó-
cipação popular. O FSM 2016 será realizado no rum Social Mundial e a resposta obtida por meio
mês de agosto de 2016, na cidade de Montreal, do amplo envolvimento e comprometimento de
em Québec. pessoas, organizações e movimentos sociais
• Outra decisão importante do CI do FSM diz res- com a edição 2015 nos dão indicadores de que
peito à reflexão sobre a importância da reorga- é importante seguirmos investindo energia e es-
nização do próprio funcionamento do Conselho forços no FSM como possibilidade de construção
Internacional, a fim de buscar atualizar-se e dar de outro mundo possível. Há esperanças.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 45


Anexos
Organizações contempladas pelo projeto

ABAM – Associação das Baianas de Acarajé, de Itararé


Mingau, Receptivo e Similares CPS NOIR MEDEIROS – Centro de Promoção
ABONG – Associação Brasileira de ONGs Social Noir Medeiros de Souza
Ação Educativa – Assessoria, Pesquisa e Ciranda Internacional de Comunicação
Informação Compartilhada
Agência de Redes para Juventude Coalizão por um Brasil Livre de Usinas
AJAGUM OBIRIN – Organização de Mulheres Nucleares
Negras; Kilombo – Organização Negra do RN Comissão Ilha Ativa
AMNB–E’LÉÉKÒ: Gênero, Desenvolvimento e Comissão Pró Indio – Acre
Cidadania Comunicação Mulher/Articulação Mulher e
ANPG – Associação Nacional de Mídia
Pós-graduandos CONAQ – Coordenação Nacional das
APALBA – Associação das Pessoas com Comunidades Negras Rurais Quilombolas
Albinismo na Bahia CONAM – Confederação Nacional das
Articulação Antinuclear Brasileira Associações de Moradores
AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras Cooasteps
ASA Articulação no Semiárido COOPERAR
Associação Baiana de Deficientes Físicos Cooperativa dos Artesãos do Rio Grande do Sul
Associação Cultural Aspiral do Reggae CONEN – Coordenação Nacional de Entidades
Associação de Desenvolvimento Rural de Negras
Juruena CRAMMER 2
Associação Estadual das Comunidades CRIOLA/Marcha das Mulheres Negras
Quilombolas do Piauí CSI – Confederação Sindical Internacional
Associação Vida Brasil CUT – Brasil – Central Única dos Trabalhadores
Campanha Popular contra o Muro de Engajamundo
Apartheid – Stop the Wall Escola Nacional Florestan Fernandes
Casa Brasileira de Pesquisa e Cooperação Facción – Facção
Casa do Movimento Popular FACES DO BRASIL – Plataforma Nacional de
CEN – Coletivo de Entidades Negras Comércio Justo e Solidário
CTB – Central dos Trabalhadores e FLACSO – Faculdade Latino-Americana de
Trabalhadoras do Brasil Ciências Sociais
Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Fora do Eixo
Luta pela Paz Fórum Mundial de Educação
Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão Fórum Mundial de Mídia Livre

48 Fórum Social Mundial 2015


Fórum Nacional pela Democratização da MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
Comunicação MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
Fórum Permanente do HipHop de Porto Alegre MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais
Fotógrafos pela Palestina Sem Terra
Frente em Defesa do Povo Palestino Movimento Nacional de Luta pela Moradia
FUP – Federação Única dos Petroleiros Movimento Nacional dos Catadores de Materiais
Geledés Recicláveis
GERMEN – Grupo de Defesa e Promoção MPL – Movimento Passe Livre
Socioambiental MUSAS – Movimento de Mulheres Solidárias do
Grupo Tortura Nunca Mais Amazonas
Instituto Amigos Fórum Social Mundial Porto Núcleo de Organização e Valorização da Mulher
Alegre Ongnet
INSTITUTO BRAÇOS – Centro de Defesa dos Organização para Desenvolvimento Humano
Direitos Humanos Rios da Amazônia
IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Plataforma Operária e Camponesa para a
Econômicas Energia
Instituto Búzios REBRIP – Rede Brasileira Pela Integração dos
IECAM – Instituto de Estudos Culturais e Povos
Ambientais Rede Amazônia Negra
Instituto Imersão Latina Rede de Alimentação e Economia Solidária da
Instituto Palmares de Promoção da Igualdade Bahia
INSTITUTO PARRHESIA ERGA OMNES Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e
IPF – Instituto Paulo Freire Direitos Reprodutivos
INSTITUTO SUPER ECO – Associação Rede Jubileu Sul
SUPER ECO de Integração Ambiental e RENAFRO – Rede Nacional de Religões Afro
Desenvolvimento da Criança Brasileiras e Saúde
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação SOS Corpo Instituto Feminista para a
Social Democracia/AMB
Levante Popular da Juventude Themis Gênero Justiça e Direitos Humanos
MAM – Movimento Nacional pela Soberania UBES – União Brasileira dos Estudantes
Popular frente à Mineração Secundaristas
Mídia Ninja UBM – União Brasileira de Mulheres
MMM – Marcha Mundial das Mulheres UJS – União da Juventude Socialista
MNDH – Movimento Nacional de UNEGRO – União de Negros Pela Igualdade
Direitos Humanos UNE – União Nacional dos Estudantes
Mova Brasil – Articulador Social

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 49


Carta Mundial da Mídia Livre
Nós, comunicadores/as e ativistas, engajados/as em múltiplas práticas de comunicação
emancipatória em diferentes regiões do mundo, livremente reunidos/as em março de
2015 em Túnis, por ocasião do 4º Fórum Mundial de Mídia Livre, organizado nos marcos
do Fórum Social Mundial 2015, adotamos a presente Carta Mundial da Mídia Livre, como
resultado de nossa reflexão coletiva iniciada em 2013 e como expressão da nossa voz
de resistência e engajamento em defesa de uma comunicação justa e emancipatória,
comprometida com as evoluções do mundo e da humanidade.
Carta Mundial da Mídia Livre

Somos mulheres e homens comunicadoras humana, intercultural, horizontal, não-violen-


e comunicadores, ativistas, jornalistas, hackers, ta, aberta, descentralizada, transparente, in-
meios comunitários ou livres, movimentos so- clusiva e compartilhada, através de múltiplos
ciais, associações ou organizações populares. instrumentos e formas de expressão (rádio,
Somos blogueiras e blogueiros, produtores/as televisão, audiovisual, imprensa, internet etc),
de audiovisual, desenvolvedores/as de tecnolo- experimentando novos modos de organização
gia livre, associações, redes, sindicatos, escolas e produção de informação. Nossas fontes de
de comunicação, centros de pesquisa e organi- financiamento, quando existem, não condicio-
zações da sociedade civil que apoiam o acesso à nam nossa maneira de comunicar nem nossa
informação e à comunicação. linha editorial.
Somos indivíduos e coletivos, profissionais, Estamos conscientes de que o termo “mí-
amadores/as, militantes pela democratização da dia livre” remete a diferentes interpretações
comunicação tanto em nível local quanto global, em função de diversas realidades linguísticas e
que afirmamos que esta democratização e o di- culturais. Nós o escolhemos, antes de mais nada,
reito à comunicação de todas e todos são uma porque ele nos reúne em torno de práticas co-
condição essencial para a construção de um muns, baseadas na busca por autonomia diante
mundo justo e sustentável. das lógicas comerciais ou estatais, na luta contra
Desde o início dos movimentos de luta al- todas as formas de dominação e no desejo de
termundista, trabalhamos de mãos dadas pa- garantir espaços de expressão abertos. Quere-
ra construir um espaço de expressão dos mo- mos construir modelos econômicos solidários e
vimentos sociais. O Fórum Social Mundial, que sustentáveis.
compreende os fóruns temáticos e regionais O diálogo dentro da nossa diversidade nos
organizados em todo o mundo desde 2001, fun- ensinou a melhor conhecer nossas forças, nos-
ciona como um espaço de convergência e coo- sas contradições, nossa ética comum, nossas
peração difundido pelas mídias livres. Nossa sensibilidades, práticas e nosso desejo de luta e
rede de ativistas surgiu no bojo desta dinâmica independência. Os encontros realizados desde
e se transformou num movimento estruturado 2013 também nos permitiram elaborar princípios
em prol da liberdade de expressão e da luta por de ação e um horizonte estratégico comum.
outra forma de comunicação. Continuaremos a Esta Carta marca tanto o resultado de um
cooperar com outros movimentos, contribuindo processo quanto um novo ponto de partida para
para fazer da comunicação uma questão políti- continuar a construção de um movimento eman-
ca, visando a transformação do sistema mundial cipatório dos atores da informação, da comuni-
de comunicação. cação e de suas tecnologias.
Praticamos novas formas de comunicação Precisamos mais do que nunca de uma

50 Fórum Social Mundial 2015


comunicação contra-hegemônica, plural e blogs, redes sociais, a música, a arte de rua etc).
­engajada Com o avanço das novas tecnologias de in-
Constatamos que a produção de conheci- formação e comunicação, principalmente a In-
mento e a difusão de informações pelos meios ternet, vivemos nos últimos anos o surgimento
hegemônicos estão subordinadas aos poderes de novas potencialidades de compartilhamento
políticos e econômicos. Os meios comerciais e difusão de conhecimento em quase todos os
reproduzem um sistema de valores e de com- países do mundo. A existência de grupos que
preensão do mundo em crescente dissonância defendem as mídias livres cada vez mais nume-
das reais necessidades da população e de gru- rosos e interconectados reforça nosso desejo e
pos sociais já marginalizados. Nos últimos 20 nossa capacidade de trabalhar juntos além das
anos, com a concentração da mídia e o desen- fronteiras e das diferentes linguagens midiáticas.
volvimento transnacional de redes de telecomu- Constatamos que a sociedade civil se apro-
nicações em todas as partes do mundo, o poder pria das novas tecnologias para criar rádios e
dos atores tradicionais da comunicação se am- TVs independentes na internet, blogs, redes so-
pliou. A grande mídia se tornou o vetor hegemô- ciais, plataformas de compartilhamento de áu-
nico de construção de sentidos, de subjetivida- dio e vídeo, jornais e revistas digitais. Tecnoati-
des e da opinião pública, instaurando uma lógica vistas desenvolvem softwares livres e interfaces
de mercantilização da cultura e da linguagem e que são verdadeiras alternativas aos programas
podendo se tornar um fator de desestabilização e serviços comerciais.
em diferentes regiões do mundo.
De modo mais profundo, percebemos que o Afirmamos princípios comuns para conduzir
modo de comunicar da mídia hegemônica con- nossa ação e promover as mídias livres em
tribui para a exacerbação dos problemas que o nossas sociedades
mundo atravessa atualmente nos planos cultural Considerando as declarações internacio-
e político. Ela homogeniza e monopoliza onde nais, as cartas e os textos de referência que di-
se deveria valorizar a diversidade, favorecer a zem respeito à comunicação, entre eles o artigo
participação, a colaboração com uma constru- 19 da Declaração Universal dos Direitos Huma-
ção coletiva de conhecimento e compreensão nos (1948) sobre a liberdade de expressão, assim
do mundo. Ela se organiza em torno do factual, como as diferentes declarações de movimentos
do interesse particular e do valor comercial onde sociais sobre o direito à comunicação adotadas
se deveria compreender os processos sociais em nos Fóruns Sociais Mundiais, afirmamos que
sua temporalidade e profundidade, e promover o 1.  A liberdade de expressão para todas e to-
interesse público. dos, o direito à informação e à comunicação e
o acesso libre ao conhecimento são direitos hu-
Construímos uma comunicação inclusiva, manos fundamentais. O direito à comunicação
plural e transformadora caracteriza nossa humanidade e nossa vocação
Frente a esse sistema hegemônico de co- de viver em comunidade. Mulheres e homens
municação, ativistas e atores da sociedade ci- sempre buscaram formas de se informar de ma-
vil têm recorrido histórica e continuamente às neira livre e independente, quaisquer que sejam
mídias livres em seu combate pela democracia as situações de dominação histórica que os gru-
real e a justiça social. Essas mídias dão espaço pos hegemônicos exerceram sobre os meios de
a outras vozes e se opõem à hegemonia dos informação da sociedade.
discursos utilizando canais não comerciais e 2.  Democratizar a informação e a comunica-
não governamentais (como as rádios comunitá- ção é uma condição fundamental para a parti-
rias, canais de televisão independentes, jornais, cipação e o exercício da democracia. A redistri-

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 51


buição da palavra, a comunicação e nossa ação Promovemos a participação social, a coopera-
como mídias livres não devem ser limitadas a ção e o compartilhamento de informação em
questões técnicas ou instrumentais. Fundamen- diferentes mídias e por diferentes produtores/
tais para nossos movimentos assim como para as de conteúdo.
o conjunto com a sociedade, elas são antes de Lutamos contra todos os discursos de ódio,
tudo uma questão política. intolerância e violência.
3.  A informação e a comunicação são essen- Destacamos outras formas de viver, outras
ciais para as mobilizações e lutas m defesa dos representações do mundo e incentivamos no-
direitos humanos. vas formas de participação e engajamento polí-
4.  A informação e os canais de comunicação tico. As mídias livres visam a formar mulheres e
são bens comuns. Seu uso e gestão devem es- homens para o uso e a leitura crítica dos meios,
tar baseados na busca do interesse público e da numa perspectiva de educação popular.
pluralidade, tendo como prioridade o incentivoà Assumimos o dever de contribuir para o ree-
participação popular. Isso requer o abandono quilíbrio dos fluxos de informação entre todos
dos modelos construídos a partir da ideologia os países, e dentro de cada país em si, criando es-
de mercado e o reconhecimento de novos seto- paços públicos democráticos que encarnem uma
res da comunicação, além dos setores privado ética da informação respeitosa da vida privada.
e estatal. Nós sabemos como é importante respei-
tar as culturas, as memórias, as histórias e
Assumimos plenamente nosso papel as identidades dos povos. Nossa ação permite
de mídias livres afirmando nossas que a sociedade ouça os interesses, as vozes e
particularidades e responsabilidades as ações dos povos indígenas, das minorias dis-
A ação das mídias livres se baseia na busca criminadas e dos grupos sociais oprimidos em
pela independência frente ao controle exercido função de sua religião, identidade, orientação
pelo Estado, pelos poderes econômicos, políti- sexual, classe, deficiência, raça, etnia ou idioma.
cos, ideológicos, religiosos e pelos grandes gru- Os conteúdos que veiculamos valorizam a
pos de comunicação. Nós nos diferenciamos das diversidade de imaginários, de identidades e
lógicas do lucro e do mercado que caracterizam expressões culturais, em oposição ao reforço
a mídia hegemônica. dos padrões de beleza e comportamentos im-
Queremos ser solidários/as às transforma- postos aos povos. Não damos espaço a nenhu-
ções sociais, econômicas, ecológicas, democrá- ma forma de discriminação ou de opressão de
ticas em curso nas diferentes regiões do mundo. gênero ou de qualquer minoria no mundo.
Nossas lutas constituem um aporte essencial Num contexto de convergência, nossas
para os direitos humanos e as lutas contra a co- mídias livres trabalham pela soberania tec-
lonização, as invasões, o patriarcado, o sexismo, nológica. Elas rejeitam a mercantilização das
o racismo, contra o neoliberalismo e todas as identidades digitais e promovem a partilha de
formas de opressão e fundamentalismo. Nós nos conhecimento através do uso de licenças livres
mobilizamos contra as manifestações de violên- e padrões abertos.
cia na internet e em outras mídias, sobretudo Nós reivindicamos uma transformação dos
contra as violências de gênero e contra as mino- sistemas de comunicação e nos engajamos
rias sexuais. Nossos eixos estratégicos e nossas priorida-
Nossas formas de comunicação privilegiam des são as seguintes:
a valorização da diversidade de expressões • Afirmar o direito à comunicação como um di-
e de compreensões do mundo, a tolerância, a reito fundamental.
pluralidade de vozes e a distribuição de poder. • Defender a Internet como um bem comum.

52 Fórum Social Mundial 2015


• Desenvolver marcos regulatórios democráti- • Mobilizar e criar laços entre as diferentes mí-
cos para a comunicação, por meio da criação dias e os movimentos sociais, especialmente
de órgãos/agências independentes, visando no processo do Fórum Social Mundial.
combater sobretudo a concentração dos meios. • Fazemos um apelo à mobilização e articula-
• Apoiar e incentivar o desenvolvimento de ção de ações relacionadas a esta Carta
meios comunitários, a partir da reserva de es- • Utilizar a Carta para construir reivindicações
pectro e atribuição de frequências para os se- em favor das mídias livres, em nível nacional,
tores sociais. regional e internacional.
• Reforçar a independência dos serviços públi- • Compreender a Carta como um instrumento
cos de comunicação (mídias públicas) frente pedagógico e de aprendizagem, organizando
aos governos e mercados. debates e fóruns de discussão sobre as mídias
• Incentivar a utilização de idiomas e dialetos e a Internet livres.
nos diversos espaços de expressão midiáti- • Construir parcerias com outros setores so-
ca, dando atenção particular às línguas mino- ciais e atores internacionais para a promoção
ritárias. e a defesa dos princípios enunciados acima.
• Reivindicar a implementação de políticas pú- • Realizar uma cartografia de mídias livres, que
blicas que visem fortalecer as mídias livres, sua fomente diferentes iniciativas de compartilha-
qualidade e sustentabilidade. mento de informações e experiências, com ba-
• Combater o monopólio das infraestruturas de se no princípio da livre participação e no respei-
Internet, a guarda de dados pelas corporações to ao direito de anonimato.
e a vigilância do ciberespaço. • Esmiuçar a Carta para gerar instrumentos,
• Desenvolver uma governança democrática da ferramentas ou mecanismos em nível temático
Internet, garantindo a neutralidade de rede, o ou regional.
direito à privacidade e à liberdade de expressão • Promover os princípios da Carta nas mídias li-
nas redes. vres em cada região do mundo e no âmbito de
• Facilitar o acesso às tecnologias livres e eventos internacionais intergovernamentais ou
abertas. promovidos pela sociedade civil.
• Universalizar o acesso aos meios de comuni- Nós, mídias livres, temos consciência de
cação e à Internet banda larga. nossa força e do papel crucial que temos a de-
• Lutar contra a criminalização de militantes e sempenhar e nos comprometemos, aqui e ago-
organizações que desenvolvem mídias livres. ra, com a luta pelos princípios e compromissos
• Proteger jornalistas e todos os atores da co- estabelecidos acima, até que eles se tornem
municação que sofrem violência, perseguições realidade.
ou exploração.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 53


Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais
Fórum Social Mundial 2015  – Tunísia, 27 de março
Os povos unidos jamais serão vencidos!

Nós nos reunimos na Assembleia dos Movi- o problema, mas resulta na mercantilização, na


mentos Sociais durante o Fórum Social Mundial privatização e na financeirização da vida e da
2015 em Túnis, levando em conta toda a nossa natureza.  
diversidade, para construir uma agenda comum Nós afirmamos que os povos não são res-
de lutas contra o capitalismo, o imperialismo, o ponsáveis por essa crise e, portanto, não devem
patriarcado, o racismo e todas as formas de dis- pagar pelas consequências dela. Não há saída
criminação e opressão. possível dentro do sistema capitalista. Aqui, na
Nós construímos uma história e um trabalho Tunísia, nós reafirmamos o nosso engajamento
comum que permitiu avanços com a esperança pela construção de uma estratégia comum de
de conseguir vencer o sistema dominante e con- luta contra o capitalismo. É por isso que nós, os
cretizar diversas alternativas para um desenvol- movimentos sociais, lutamos:
vimento socialmente justo e respeitoso com a • Contra as transnacionais e o sistema finan-
natureza. ceiro (FMI, Banco Mundial e OMC). Principais
Os povos de todo o mundo sofrem atualmen- agentes do sistema capitalista que privatiza a
te com o agravamento de uma crise profunda do vida, os serviços públicos e os bens comuns,
capitalismo na qual empresas privadas transna- como a água, o ar, a terra, as sementes, os re-
cionais, os bancos, os conglomerados midiáticos, cursos minerais, promovendo guerras, violando
as instituições financeiras internacionais bus- os Direitos Humanos e pilhando os recursos. As
cam potencializar seus lucros às custas de uma transnacionais reproduzem as práticas extrati-
política intervencionista e neocolonialista, que vistas prejudiciais à vida, monopolizam as ter-
conta com a cumplicidade dos governos liberais. ras e desenvolvem sementes e alimentos trans-
Guerras, ocupações militares, tratados neoli- gênicos que privam as pessoas de seu direito à
berais de livre-comércio (Transatlântico, Trans- alimentação e destroem a biodiversidade.
pacífico, ALECA, EU-MERCOSUL, APE, MER- Nós lutamos pela anulação da dívida ilegítima
COSUL-Israel e diversos tratados bilaterais) e e odiosa que hoje é um instrumento global de
políticas de austeridade se traduzem em pacotes dominação, de repressão e de asfixia econô-
econômicos que privatizam os bens comuns e os mica e financeira das pessoas. Nós rejeitamos
serviços públicos, baixando os salários, violando os acordos de livre-comércio que são impostos
os direitos, aumentando o desemprego, a preca- a nós pelos Estados e as transnacionais. Nós
rização e a sobrecarga das Mulheres no trabalho afirmamos que é possível construir uma inte-
de cuidados e a destruição da natureza.  gração de outro tipo, para os povos e pelos os
Essas políticas neoliberais afetam intensa- povos, baseado na solidariedade e na liberdade
mente tando os países Sul com os países do Nor- de circulação para todos os seres humanos. 
te, aumentando as migrações, os deslocamentos Apoiamos o chamado para um dia internacio-
forçados, os desabrigados, o endividamento e as nal de ação contra os acordos de livre comér-
desigualdades sociais. Essas políticas reforçam cio agendadas para o dia 18 de abril de 2015.
o conservadorismo e o controle sobre o corpo e • Pela justiça climática e a soberania alimentar,
a vida das mulheres, além de nos impor a “eco- porque nós sabemos que o aquecimento global
nomia verde” como uma falsa solução para a é um resultado do sistema capitalista de pro-
crise ambiental e alimentar que não só agrava dução, distribuição e consumo. As transnacio-

54 Fórum Social Mundial 2015


nais, as instituições financeiras internacionais ritórios. Nós denunciamos o discurso falso de
e os governos que estão aos serviços deles não defesa dos Direitos Humanos e o combate aos
querem reduzir as emissões de gases do efeito fundamentalismos, que são muitas vezes utili-
estufa. Nós denunciamos a “economia verde” zados para justificar as intervenções militares.
e rejeitamos as falsas soluções para a crise cli- Nós defendemos o direito à soberania e a au-
mática como os biocombustíveis, organismos todeterminação dos povos. Nós denunciamos a
geneticamente modificados, a geoengenharia, instalação de bases militares estrangeiras para
e os mecanismos de mercado de carbono como fomentar os conflitos, controlar e pilhar os re-
o RESS (Redução de Emissões ligadas ao Desflo- cursos naturais e a promoção das ditaduras em
restamento e à Degradação) que seduz as popu- diversas partes do mundo.
lações empobrecidas com falsas promessas de Nós exigimos ações de reparação para todas
progresso enquanto as privatizações e a mer- as pessoas do mundo que são vítimas do co-
cantilização das florestas e territórios onde es- lonialismo. 
sas populações têm vivido por milhares de anos. • Pela democratização das mídias de massa e
Nós defendemos a soberania alimentar e a a construção de mídias alternativas, que são
agricultura camponesa que são as soluções fundamentais para derrubar a lógica capitalista.  
reais para as crises alimentar e climática e sig- • Pela resistência e solidariedade. Nós lutamos
nificam, também, o acesso à terra para aqueles pela liberdade de nos organizarmos em sindica-
que nela trabalham. tos. Em movimentos sociais, em associações e
Nós chamamos uma grande mobilização so- todas as outras formas de resistência pacífica. 
bre o clima no mês de Dezembro de 2015 em Nós denunciamos a intensificação da repressão
Paris concomitantemente à COP 21. Vamos contra os povos rebeldes, as detenções, prisões
fazer de 2015 o ano de mobilização dos movi- e assassinatos de ativistas, estudantes e jorna-
mentos sociais pelo mundo todo em favor da listas, assim como a criminalização de todas as
justiça climática.   nossas lutas. 
• Contra a violência contra as mulheres que Inspirados pela história de nossas lutas e pe-
acontecem regularmente em territórios ocupa- la força renovadora das pessoas nas ruas, a
dos militarmente, mas também a violência que Assembleia dos movimentos sociais chama
as mulheres sofrem quando são criminalizadas todos e todas a desenvolver ações de mobili-
por participarem de lutas sociais. Nós lutamos zação coordenadas em todo o mundo durante
contra a violência doméstica e sexual que é uma semana global de lutas contra o capita-
exercida contra as mulheres quando elas lismo de 17 a 25 de Outubro de 2015.
são consideradas como objetos ou mercado- Movimentos sociais do mundo inteiro, avan-
rias, quanto a soberania sobre seus corpos e cemos em direção a uma unidade global para
sua espiritualidade não são reconhecidas. Lu- derrotar o sistema capitalista! 
tamos contra o tráfico de mulheres, meninas Reforçamos nossa solidariedade com os po-
e meninos. vos de todo o mundo que lutam todo o dia con-
Nós defendemos a diversidade sexual, o direito tra o imperialismo, o colonialismo, a exploração,
à auto-determinação de gênero, e nós lutamos o patriarcado, o racismo, a injustiça na Tunísia,
contra a homofobia e a violência sexista. na Palestina, no Curdistão, na Síria, no Iraque, na
Nós chamamos apoio para as ações da 4ª Líbia, na Grécia, na Espanha, em Burkina Faso,
Marcha Mundial das Mulheres entre Março e no Mali, na República Democrática do Congo, na
Outubro de 2015. república Centro-Africana, no Saara Ocidental... 
• Pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as Viva a luta de todos os povos!
ocupações e a militarização dos nossos ter- O povo unido jamais será vencido!

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 55


Declaração de convergência global dos
movimentos em luta por terra e água
Direitos à água e à terra, uma luta comum
De Dakar a Tunis: Declaração da convergência global das lutas de Terra e da Água

(Túnis, 28 de março de 2015) divididas, ou são obrigadas a tornar-se refugia-


Nós, movimentos sociais, organizações de dos, obrigadas a migrar, perdem os seus direitos,
base e organizações da sociedade civil que se e sãoem situação de pobreza e fome. Estima-se
dedicam à defesa dos direitos à terra e à água, que 3.000 pessoas morrem a cada dia devido à
se reuniram em outubro de 2014, em Dakar, no falta de água. O acesso e gestão de espaços de
Fórum Social Africano. Estamos lutando e pro- vida em comunidade são destruídos por milita-
testando contra a exploraçaõ de recursos natu- res e grupos armados, que perpetuam a guerra
rais, especialmente a água e a grilagem e apro- e ocupações, Autoridades Estatais criminosas,
priação de bens comuns, e contra as violações apoiadas por elites econômicas, financeiras e
sistemáticas dos direitos humanos associados. políticas. Isso prejudica os sistemas alimentares
O Compartilhamento de nossas ideias levaram locais e muitos produtores locais, que alimentam
ao reconhecimento da ligação essencian entre a maioria da população do mundo. Quando as
nossas lutas, dada a inextricável exploração da pessoas resistem, elas são criminalizadas, pre-
terra e da água. Nós nos encontramos novamen- sas e mortas.
te no Fórum Social Mundial em Tunis no mês de Os enormes lucros das elites são, portanto,
março de 2015 para continuar este diálogo com construídos sobre a violação sistemática dos
os movimentos e organizações de todo o mundo, direitos humanos da maioria dos camponeses,
a fim de ampliar essa convergência. assentamento informal e moradores de favelas,
Até o momento, mais de 200 milhões de hec- pescadores, pastores, povos indígenas e comuni-
tares de terra foram apropriados globalmente dades, nômades, trabalhadores rurais e urbanos
por empresas privadas, governos, elites e espe- e os consumidores, especialmente os jovens e
culadores, muitas vezes com o apoio do Banco mulheres, que são despojados de suas terras e
Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o G8 meios de subsistência por meio de violência, in-
e outras instituições e consórcios. A apropriação timidação e tortura. Apropriação de terras sem-
dos bens comuns por essa minoria leva à con- pre caminha lado a lado com a apropriação da
centração, despejos forçados e da opressão dos água, e assume diferentes formas: casos de uso
povos. Isso é implementado em nome da prote- insustentável da água na agricultura, através da
ção do meio-ambiente, prevenção das mudanças privatização e da gestão dos serviços públicos
climáticas, a produção de “energia limpa”, mega de água (que roubam este recurso vital daqueles
-projetos de infraestrutura e/ou assim chamados que são incapazes de pagar por isso), contamina-
de desenvolvimento, normanmente promovidos ção de aquíferos causados ​​pela mineração não
por Parcerias Publico-Privadas como a New Al- regulamentada, a mudança do curso dos rios e
liance for Food Security and Nutrition in Africa. cursos de água pela construção de barragens e
Áreas e territórios inteiros são expropriados e o consequente despejo das comunidades locais,
populações locais expulsas, enquanto a perda a militarização do acesso a pontos de água, a de-
de identidade e de ecossistemas torna a vida im- sapropriação de pastores e comunidades de pes-
possível! Comunidades cujos direitos e dignidade cadores de seus meios de subsistência através
foram abusadas encontram-se com as famílias de práticas como a extração de areia do litoral.

56 Fórum Social Mundial 2015


A criminalização dos ativistas que lutam pe- • Água, terra e sementes são Bens Comuns, e
la defesa dos Commons tornou-se generalizada, não commodities.
ainda que escondido pelas autoridades. Terra e • Reconhecemos que os Estados tem o mandato
recursos hídricos estão cada vez mais escassos, legal e constitucional para representar os inte-
e, portanto, fundamental para a segurança das resses das pessoas. Estados têm, portanto, o
sociedades e da soberania dos Estados. No en- dever de se opor a qualquer política e tratado
tanto, a escassez subjacente da água, terra e as internacional que mina os direitos humanos
crises alimentares não é um dado; é uma cons- e sua própria soberania, como os regimes de
trução política, geo-estratégica e financeira. resolução de litígios entre investidores e Esta-
Em resposta a essas ameaças à nossa vida dos como incluídos na Parceria Transatlântica
e bem-estar, estamos respon d endo ao afirmar de Comércio e na maioria dos tratados de de-
os nossos direitos e promovendo soluções reais. senvolvimento.
Acreditamos que o acesso dos povos e controle • Políticas de gestão da água da Terra devem
da terra e da água é essencial para a paz, para promover a realização da justiça social, a
parar as alterações climáticas, bem como para o igualdade de gênero, saúde pública e justiça
cumprimento dos direitos humanos fundamen- ambiental.
tais e garantir uma vida digna para todos. Distri- • Tomamos uma posição firme contra a ocupa-
buição igualitária da terra e da água, e da igual- ção estrangeira e dominação em todas as suas
dade de gênero são fundamentais para a nossa formas.
visão de soberania alimentar, com base na agroe- Por isso, em conjunto com organizações da
cologia (conforme descrito na Declaração do Fó- sociedade civil de todo o mundo, nós firmamos o
rum Internacional de Agroecologia em Nyéléni, compromisso de:
em fevereiro de 2015), nos sistemas alimentares • Sensibilizar, educar e organizar as comunida-
locais, na biodiversidade, no controle da nossas des em áreas rurais e urbanas, a fim de cons-
sementes, e no respeito pelos ciclos naturais de truir um movimento forte e unido lutando para
água. Esta visão se aplica a populações rurais, o reconhecimento e realização de nossos di-
urbanas e peri-urbanas e inclui a produção a re- reitos humanos à alimentação, água e terra e
lação respeitodas entre produtor-consumidor de territórios.
solidariedade e cooperação mútua. • Sempre defendemos o direito dos cidadãos e
A nossa solidariedade, base a da em nosso das comunidades ao consentimento livre, pré-
compromisso como ativistas, é construído sobre vio e informado e plena participação na gover-
os seguintes princípios e co nvicções que unifi- nança dos recursos naturais em instituições
cam nossas lutas: jurídicas dos cidadãos.
• Que os direitos humanos à água, alimentos e • Criar sinergias entre os atores da sociedade ci-
terra são fundamentais e cruciais para a vida. vil em todo círculos lutando contra a pilhagem e
Todas as pessoas, homens, mulheres, adultos, apropriação de terras e água a fim de construir
crianças, ricos, pobres, moradores rurais e ur- plataformas nacionais e regionais que apoiam
banas, têm direito a eles. a construção de uma convergência internacio-
• Que a água e terra não são apenas recursos nal de terra e água lutas.
naturais vitais, mas também fazem parte do • Recuperar nossas terras, águas e as semen-
nosso património comum, cuja segurança e go- tes; recuperar os espaços políticos legítimos
vernança deve ser preservada por cada comu- que nós, como detentores de direitos lutaram,
nidade para o bem comum da nossa sociedade como o Comitê de Segurança Alimentar e Nu-
e do meio ambiente, e agora para as gerações tricional; e se opor a cooptação de nossa lin-
futuras. guagem de uma forma que falsamente suporta

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 57


soluções como “agricultura adaptável as con- regulatórios constitucionais e legislativas que
dições climáticas”. garantam a todos a disponibilidade e acessibili-
• Expressamos nossa solidariedade e apoio aos dade à água e saneamento, bem como a aplica-
defensores dos direitos humanos e aqueles que ção juducial e efetiva do direito humano à água.
resistem a mercantilização da terra e da água, • Reconhecer, respeitar e proteger os direitos
especialmente quando eles são criminalizados. consuetudinários coletivos que regulam o aces-
• Nos opomos às políticas nacionais e tratados so, segurança e governança da terra e da água,
internacionais que promovem a privatização e os nossos Bens Comuns, assegurando e refor-
mercantilização dos recursos naturais, bem co- çando os direitos das mulheres.
mo a propriação e mercantilização da terra e • Defender rigorosamente as suas obrigações
da água, tarifas por consumo, reajustes tarifá- de não reconhecer situações ilegais, inclusive
rios automáticos e os Acordos de Parceria Eco- e especialmente atos proibitivos pelos poderes
nômica (APE) entre a UE e os países ACP para atuais, e não cooperar ou transacionar com
ambos os produtos e serviços. qualquer das partes que se dedicam a/ou bene-
• Denunciar os sistemas de ranking ‘business’ de ficiar de situações ilegais.
compensação climática e de biodiversidade do • Garantir consentimento livre, prévio e infor-
Banco Mundial elaborados exclusivamente pa- mado dos povos e participação plena quando
ra suportar a especulação e fomentar a apro- são tomadas decisões sobre a gestão de terras,
priação e mercantilização das terras, negligen- água e outros recursos naturais. E não apenas
ciando completamente os direitos humanos e nos ouvir, mas atender as nossas demandas, in-
as normas sociais e ambientais. cluindo o nosso direito de dizer não à mercanti-
Nós convocamos as organizações governa- lização e apropriação da terra e água.
mentais internacionais, os Estados e as autori- • Implementar a Convenção 169 da Organização
dades locais: Internacional do Trabalho sobre os Direitos dos
• Reconhecer a indivisibilidade dos direitos hu- Povos Indígenas e Tribais e Declaração da ONU
manos e as suas obrigações internacionais sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
para a sua realização, especialmente para gru- • Explicitamente endossar a promoção dos direi-
pos vulneráveis e marginalizados, mulheres e tos humanos, incluindo os direitos humanos à
jovens. Eles devem aplicar sistematicamente a água, alimentos e terras, como parte dos Obje-
abordagem dos direitos humanos, acabar com tivos de Desenvolvimento Sustentável do pós-
as violações e prevenir e reprimir as violações 2015 Agenda da ONU.
dos direitos humanos. • Implementar as diretrizes CFS / FAO sobre a
• Implementar políticas adequadas de reforma governança responsável da posse da terra, das
agrária, reforma agrária, genuína restituição Pescas e Florestas, e as Diretrizes da FAO para
de terras, a redistribuição equitativa e gestão Proteger pequenos e sustentáveis pescadores
sustentável da terra, água e outros recursos imediatamente e com a nossa participação ple-
naturais. na como titulares de direitos; e promulgar leis
• Adotar políticas coerentes, incluindo em ma- nacionais que fazem suas disposições que de-
téria de desenvolvimento que beneficiem o fendem os direitos dos povos totalmente judi-
empoderamento das comunidades, em vez de ciáveis.
interesses econômicos e geopolíticos. • Suportar e adotar a Declaração da ONU sobre
• Respeitar, proteger e realizar o direito humano os Direitos dos Camponeses e outras pessoas
à água e ao saneamento que foi reconhecido e que trabalham em áreas rurais como está sen-
explicitado pela Resolução da Assembleia Geral do atualmente desenvolvidos no Conselho de
das Nações Unidas 69/2010, e adotar os marcos Direitos Humanos.

58 Fórum Social Mundial 2015


• Adotar e aplicar um tratado vinculativo para reitos aos recursos essenciais necessários para
prevenir e reprimir crimes cometidos por em- a vida, nós precisamos fazer a voz da sociedade
presas transnacionais e outras empresas de civil ouvido nas negociações para a adoção dos
negócios. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na
• Adotar as medidas e instrumentos de direito Agenda Pós-2015 da ONU, na aplicação das di-
internacional aplicáveis, designadamente no retrizes internacionais e regionais sobre terras e
âmbito do Pacto Internacional sobre os Direitos recursos naturais, e da COP 2015, a fim de parar
Económicos, Sociais e Culturais (PIDESC) das Na- as mudanças climáticas.
ções Unidas, a fim de fortalecer efetivamente o À medida que continuamos a construir essa
direito humano à água e ao saneamento, e para convergência, nós reconhecemos e apreciamos
esclarecer e especificar o seu conteúdo e as obri- a nossa diversidade, acolhendo diversas inicia-
gações dos Estados, e para evitar qualquer for- tivas que estão surgindo e que vamos debater
ma de água seja apropriada ou mercantilizada. e discutir. Para isso, assumimos o compromisso
Conclamamos a sociedade civil, movimentos de disseminar amplamente esta presente decla-
sociais, organizações populares, sindicatos de ração. Vamos levá-la para os nossos territórios e
trabalhadores e ONGs do mundo para entrar nes- comunidades, a fim de envolvê-los ainda mais no
ta discussão, para fortalecer essa declaração e processo de moldar essa convergência.
apoiar as suas reivindicações por todos os meios
disponíveis. Precisamos promover a solidarieda- Água e terra: mesma dificuldade mesma luta!
de de nossas lutas, incluindo a luta por nossos di- Túnis, 28 de Março de 2015

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 59


Fórum Parlamentar Mundial

Moção sobre a Dívida empresas transnacionais e Direitos Humanos,


O Fórum Parlamentar Mundial (FPM), reunido apesar da oposição da União Europeia, dos Es-
em Túnis durante o Fórum Social Mundial 2015, tados Unidos e de alguns outros países;
declara que a questão da dívida é utilizada como • Convida os parlamentos nacionais e regionais
uma ferramenta de dominação dos povos pelas a adotarem as resoluções de apoio a esse gru-
forças do capital. Os problemas atuais que a tran- po de trabalho que terá sua primeira sessão de
sição democrática na Tunísia está enfrentando trabalho em julho de 2015 para iniciar a reda-
devido à dívida é uma prova concreta disso. ção de um tratado vinculativo sobre as multi-
Apoia-se os pedidos de criação de comitês nacionais e os Direitos Humanos;
de auditoria da dívida com participação cidadã, • Encoraja os parlamentos nacionais e regionais
em especial de mulheres, a exemplo do processo a rejeitarem acordos de livre comércio que
que se iniciou no Parlamento grego e deve acon- servem aos interesses de transnacionais e de
tecer também em outros países. grandes investidores internacionais e os acor-
O Fórum Parlamentar Mundial solicita a ava- dos bilaterais abusivos de proteção de investi-
liação da dívida dos países colonizados referen- mentos que vários governos do mundo come-
te a esse período e o rápido reenvio dos ativos çam a rejeitar;
de ditadores depositados em bancos do Norte • Acredita que temos de lutar, em especial, con-
e outros. tra resoluções de litígio entre investidores e Es-
O Fórum Parlamentar Mundial apoia o pedi- tados (ISDS), que permitem que investidores e
do das Nações Unidas pela anulação das dívidas transnacionais escapem das juridições comuns,
dos países afetados pelo vírus Ebola. mecanismos de arbritagem especiais, que per-
O Fórum Parlamentar Mundial rejeita a apli- mitem aos investidores e às transnacionais ex-
cação de políticas de austeridade que prejudi- torquir enormes somas de recursos dos Esta-
cam as pessoas e afetam sobretudo o empre- dos; bem como dissuadir os poderes públicos
go dos/as jovens e faz as mulheres ainda mais a adotarem regras essenciais para o bem-estar
vulneráveis. dos/as cidadãos/ãs, a preservação dos bens pú-
blicos e as salvaguardas ambientais.
Moção sobre as empresas transnacionais e • Incentiva os parlamentos nacionais e regionais
as violações dos Direitos Humanos a responsabilizar as transnacionais em seus
O Fórum Parlamentar Mundial, reunido em países de origem e de forma vinculativa pelas
Túnis durante o Fórum Social Mundial 2015, con- ações delas e de suas filiais no exterior;
dena o poder abusivo de que dispõem as empre- • Incentiva a formação de um comitê interparla-
sas transnacionais, que aumenta em virtude de mentar para apoiar o trabalho dos movimentos
acordos de livre comércio tais como APE, ALECA, sociais pela soberania das pessoas e para des-
TISA, TTIP e TPP, e protesta contra a impunida- mantelar o poder das empresas transnacionais.
de de que essas empresas desfrutam a despeito
de violarem os Direitos Humanos, destruindo o Moção sobre a paz
meio ambiente ou sonegando impostos. O Fórum Parlamentar Mundial, reunido em
O Fórum Parlamentar Mundial: Túnis durante o Fórum Social Mundial 2015, con-
• Congratula a decisão do Conselho de Direitos dena o crescimento do terrorismo e explicita sua
Humanos da Organização das Nações Unidas solidariedade a todas as vítimas, em particular
(ONU) de criar um grupo de trabalho sobre àquelas dos últimos atentados em Túnis.

60 Fórum Social Mundial 2015


Ressalta-se que a grande quantidade de ati- O Fórum Parlamentar Mundial demanda dos
vidade terrorista está ligada ao apoio que o im- Estados que assumam sua responsabilidade
perialismo dá às organizações fundamentalistas de proteger internacionalmente homens, mu-
tais quais o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda, além lheres e crianças de ameaças por meio de um
da política de agressividade e ingerência ociden- forte trabalho de engajamento em termos de
tal contra os países do Oriente Médio, do Magre- reassentamento.
be e do Maxerreque. O Fórum Parlamentar Mundial pede que os
O Fórum Parlamentar Mundial confirma seu Estados respeitem o princípio internacional de
apoio às lutas de liberação em todo o mundo, não repulsão. O FPM denuncia a construção de
reafirmando o direito dos povos a autodeter- muros por todo o mundo com o fim de evitar os/
minação, e rejeita toda forma de ocupação e as migrantes e os/as requerentes de asilo, bem
­colonialismo. como a externalização de suas fronteiras aos
O Fórum Parlamentar Mundial rejeita todas países de terceiro mundo.
as medidas que reforçam as capacidades milita- O Fórum Parlamentar Mundial demanda o
res e as políticas repressivas de regimes autoritá- fim da criminalização e da detenção dos/as indo-
rios sob o pretexto de lutar contra o terrorismo. cumentados/as e refugiados/as.
O Fórum Parlamentar Mundial condena a O Fórum Parlamentar Mundial demanda que
corrida armamentista e os atos de desestabili- sejam realizados inquéritos sobre a violação dos
zação conduzidos pela Organização do Tratado direitos fundamentais dos/as migrantes em to-
do Atlântico Norte (OTAN) e seus Estados-mem- dos os países.
bros. O FPM pede o desmantelamento da OTAN.
O Fórum Parlamentar Mundial lembra que Moção sobre a Renda Básica de Cidadania
as políticas de segurança não devem ameaçar A fim de alcançar os objetivos de justiça, a
e atacar os direitos e liberdades democráticas verdadeira liberdade e dignidade para todos e
dos/as cidadãos/ãs. O FPM apoia a resolução po- todas, a erradicação da pobreza e a paz, o Fó-
lítica dos conflitos respeitando o direito interna- rum Parlamentar Mundial encoraja todas as na-
cional e a carta das Nações Unidas. ções a adotarem uma Renda Básica de Cidada-
nia, independente das condições, que garanta
Moção sobre políticas migratórias a todas as pessoas, sem distinção de origem,
O Fórum Parlamentar Mundial, reunido em raça, idade ou sexo, as condições socioeconô-
Túnis durante o Fórum Social Mundial 2015, de- micas que lhe permitam cumprir as necessida-
nuncia os obstáculos crescentes à liberdade de des básicas, tendo em conta o nível de riqueza
movimentação das pessoas em todo o mundo. dos países.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 61


Cronologia e História da Tunísia

1881 Instauração de um protetorado francês na região da Argélia.


12 de maio de 1881 Invasão de tropas francesas no território argelino é seguida pela assinatura do Tratado de Bardo
pela autoridade local (Bey) reconhecendo, então, o protetorado francês.
8 de junho de 1883 Acordo de Marsa completa o Tratado de Bardo, formalizando o resgate da dívida pela França.
A alteza Bey de Túnis firma o compromisso de realizar reformas administrativas, judiciárias e
financeiras que o governo francês julgava como útil.
1907 Nascimento ecrescimento do Movimento de Jovens tunisianos de Ali Bach Hamba, influenciado
diretamente pelo movimento dos Jovens Turcos. Movimento reformistade intelectuais, cujo slogan
era “o progresso, o desenvolvimento da vida e direito político.”
1911 Início de uma série de manifestações no mês de novembro em Túnis e nas grandes cidades do
país. O movimento de Jovens tunisianos é proibido e é declarado estado de emergência. Este
período marca a transformação gradual de intelectuais militantes agindo através de movimentos
de rua.
1914 – 1918 1ª Guerra Mundial – Mobilização de jovens recrutas tunisianos para o front de batalha na França.
1920 Fundação do partido Destour (partido liberal-constitucional) que reivindicava um retorno à
constituição de 1861, anterior ao protetorado. Publicação do primeiro manifesto pedindo
“a emancipação do povo tunisiano dos laços de escravidão”.
1934 Devido a uma cisão ideológica dentro do partido Destour, Habib Bourguiba funda o Novo-Destour
no dia 2 de março. Esse novo partido se declara de uma vertente mais modernista e secular, se
inspirando nas primeiras estruturas políticas socialistas e comunistas europeias.
Abril de 1938 O Novo-Destour mobiliza uma grave geral no dia 08 de abril que contou com 10.000 pessoas.
Depois disso, seguiram-se diversos dias de confronto que culminaram em 22 mortes e 150 feridos.
No dia 12 de abril o Novo- Destour é dissolvido e seus comitês fechados, os dirigentes do partido
são levados à corte militar por conspiração contra a segurança do Estado.
1943 – 1944 Durante a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha domina o território da Tunísia. 1945 Habib Bourguiba vai
ao Egito para preparar uma luta anti-colonial e retorna à Tunísia em 1949.
20 de janeiro de 1946 Fundação da União Geral dos Trabalhadores Tunisianos (UGTT) apoiando o Novo-Destour. Farhat
Hached foi escolhido como Secretário Geral do Sindicato.
1952 Os principais dirigentes comunistas e neo-destouristas são presos no dia 18 de janeiro e incia-se,
então, uma luta armada contra o protetorado.
5 de dezembro de 1952 Farhat Hached, o principal símbolo do movimento de luta nacional, é assassinado. Posteriormente,
é relevado que sua morte foi planejada pelo Serviço de Documentaçãoexterna e contra-
espionagem francês (SDECE).
A Mão Vermelha, suspeito de ser o braço armado dos serviços franceses, desempenhou um papel
importante neste caso.
1954 Em um discurso na cidade de Cartago em 31 de julho, Pierre Mendès France (Presidente do
Conselho de Ministris, de junho de 1954 até fevereiro de 1955) anunciou a concessão de autonomia
interna para a Tunísia com a formação de um governo interino.
3 de setembro de 1954 É anulada a decisão de dissolução do partido Neo-desrouriano.
1º de junho de 1955 Habib Bourguiba retorna para a cidade de Túnis depois de 3 anos na prisão.
20 de março de 1956 Proclamação oficial da independência da Tunísia. Revogação do Tratado de Bardoedo Acordo de
Marsa.

62 Fórum Social Mundial 2015


Abril – agosto de 1956 Bourguiba forma um governo e adota, em 13 de agosto, o Código do Estatuto Pessoal que
estabelece a igualdade jurídica entre homense mulheres.
27 de julho de 1957 Abolição da Monarquia e proclamação da República da Tunísia. Habib Bourguiba é eleito Presidente
da República.
1959 Promulgação da nova Constituição em 1º de junho, instaurando um regime presidencial. Em 17 de
junho, a França assina um acordo garantindo a retirada de suas tropas do território tunisiano, com
exceção da base naval de Bizerte.
1961 “Crise de Bizerte”: Violentos confrontos em julho entre as forças armadas francesas e a popualção
ao redor da base resultam entre 600 e 2000 mortos tunisianos.
Um cessar-fogo é assinado e a França evacua a base naval em 15 de outubro.
12 de agosto de 1963 Salah Ben Youssef, principal líder de oposição a Bourguiba, é assassinado em Frankfurt na
Alemanha.
1973 Legalização do Direito ao Aborto. A Tunísia é o único país do Magrebe que autoriza o aborto.
1964 – 1975 Governo de Bourguiba, que foi reeleito em novembro de 1964 até novembro de 1974.
Nacionalização das terras e implementação de uma economia planificada até 1969, ano em que
marca o fim da experiência socialista. O Partido Comunista Tunisiano é considerado ilegal e a
constituição é modificada em 18 de março de 1975 que condecorou Bourguiba como presidente
vitalício.
26 de janeiro de 1978 Protestos em Tunis, seguidos de uma greve geral convocada pela UGTT resultam em cerca de 200
mortos. É declarado Estado de Emergência.
1981 Criação doMovimento Tendência Islâmica(MTI) e o Partido Comunista recebe autorização para
exercer novamente suas atividades.
1983 – 1984 Muitos protestos acontecem por todo o país devido à duplicação do preço dos pães e cereais,
resultando em cerca de 70 mortos.
2 de outubro de 1987 Zine-el-Abidin Ben Ali é nomeado primeiro ministro.
7 de novembro de 1987 Golpe de Estado planejado por Ben Ali derrubou o presidente Bourguiba, considerado incapaz de
continuar suas funções presidenciais pelo seu estado de saúde.
1989 Regime de Ben Ali continua por reeleições consecutivas até o início de 2011, pelo Partido da
Reunião Constitucional Democrática (RCD).
5 de janeiro de 2008 Início da crise da área de mineração da região de Gafsa: convulsão social sem precedentes
no governo de Ben Ali. A crise ocorreu após um concurso de recrutamento considerado
discriminatório realizado por uma empresa produtora de fosfatos. A Empresa foi submetida ao
“programa de ajustamento estrutural” imposta pelas instituições financeiras internacionais
(FMI e Banco Mundial) e a região e sua população se viram gradualmente marginalizados e
empobrecidos. O movimento persistiu por mais de cinco meses, mas não conseguiu se espalhar
além da área da região de Gafsa, principalmente devido à repressão imposta por Ben Ali.
17 de dezembro de 2010 Primeiras ondas de protestos populares e o início da “Revolução de Jasmin” ou “Revolução da
Dignidade“. O movimento foi desencadeado pela imolação de um jovem tunisiano, verdureiro,
de 26 anos que teve seus bens confiscados mais de uma vez pela polícia por não ter dinheiro
suficiente para subornar as autoridades.
14 de janeiro de 2011 O presidente Ben Ali renuncia ao poder depois de impasses políticos e fortes manifestações
durante 3 semanas no país.

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 63


14 de janeiro até Fase de transição com a constituição de um governo de alianças nacionais com a oposição:
23 de outubro de 2011 • Autorização pelo Senado tunisiano para estabelecer o presidente interino Fouad Mebazaa que
governou por decreto;
• Criação de uma instância superior e independente para as eleições (ISIE) pelo decreto-lei nº
27 de 18 de abril de 2011: essa instância é encaregada de preparar e realizar as eleições com o
objetivo de assegurar um bom funcionamento até a proclamação dos resultados.
• Regulamentação sobre a próxima Assembleia Nacional constituinte, por decreto-lei
• Adoção do decreto-lei nº 88 de 25 de setembro de 2011 que garantiu a liberdade de associação
23 de outubro de 2011 Primeira eleição livre e transparente: composição da Assembleia Constituinte encarregada de
redigir uma nova Constituição (sistema de lista proporcional, em turno único).
14 de novembro de 2011 Foi anunciado o resultado oficial das eleições pelo presidente do ISIE : taxa de participação de
52% e vitória do partido religioso Enhnahda com 41,47% das cadeiras.
13 de dezembro de 2011 Moncef Marzouki, ex-presidente da Liga tunisiana de Direitos Humanos e do Congresso pela
república se torna presidente da república.
14 de dezembro de 2011 O número 2 do Partido Islamista Ennahdha , Hamadi Jebali, é nomeado Primeiro Ministro.
11-12 de junho de 2012 Onda de violência no noroeste do país, seguida da exposição artística «Primavera da Arte » na
cidade de Marsa. As obras foram consideradas blasfemas por grupos “salafistas”: Instauração de
um toque de recolher em Túnis e em outras 4 regiões do país.
13 de junho de 2012 Ben Ali condenado à prisão perpétua por cumplicidade em assassinatos.
6 de fevereiro de 2013 O líder de oposição da esquerda secular Chokri Belaïd é assassinado – outra onda de violência no
país.
Fim de fevereiro de 2013 Hamadi Jebali é demitido como primeiro ministro e Ali Larayedh é nominado como primeiro
ministro que governou até a promulgação da nova constituição.
26–30 de março de 2013 Realização do Fórum Social Mundial em Túnis, no Campus da Universidade de Túnis – El Manar.
25 de julho de 2013 Assassinato do opositor de esquerda Mohamed Brahmi. A UGTT anunciou uma greve geral após o
assassinato e se iniciam manifestações anti- Ennahdha. Essa movimentação mobiliza uma parte da
população, mas também mobilizaram manifestações de apoio ao partido islâmico.
5 de outubro de 2013 Perante a multiplicação das manifestações contra o governo, Ennahdha se compromete a deixar o
cargo até o fim do mês de outubro.
Dezembro de 2013 Foi alcançado um primeiro acordo entre o Partido Islamista Ennahdha e o partido de oposição com
o objetivo de eleger um novo Primeiro Ministro para o governo interino. Mahdi Jemaa foi escolhido
por consesnso (ex-ministro da indústria do antigo governo). Mahdi Jemaa é um tecnocrata
especialista em questões energéticas e com apoio da União Tunisiana da Indústria, do Comércio e
do Artesanato (UTICA) tendo feito carreira na Hutchinson, subsidiária do grupo Total.
26 de janeiro de 2014 Adoção da Constiuição pelos deputados da Assembleia Constituinte por uma grande maioria (200
votos). Essa constituição instaura um regime parlamentar misto no qual :
• O presidente e a Assembleia Legislativa são eleitos por voto univesal e direto para um mandato
de 5 anos.
• O Islã é reconhecido como religião representativa da Tunísia mas não pode ser uma base para a
formulação e aplicação das leis.
• Os principais direitos e liberdades fundamentais são garantidos: cidadãos livres e iguais perante
à lei; liberdade de opinião, de expressão, de pensamento, de imprensa, liberdade de livre
associação de partidos políticos e sindicatos; liberdade de reunião e manifestação pacífica.
• Os direitos das mulheres são respeitados: proteção dos bens das mulheres, o princípio da
igualdade e da luta contra aviolência contra as mulheres.
• Criação de uma corte constitucional que garanta o respeito e a aplicação da Constituição pelos
legisladores.

64 Fórum Social Mundial 2015


29 de janeiro de 2014 Novo governo formado por Mehdi Jomâa
26 de outubro de 2014 Eleição da primeira “Assembléia de Representantes do Povo”, desde a revolução, que definiu a
composição do parlamento. O resultado foi o seguinte :
• 86 deputados do Nidaa Tounes. O partido é liberal, de coalizão; reúne políticos de esquerda e
centro-direita; e defende o Estado Laico, se contrapondo ao seu principal adversário (Ennahda),
que é um partido islamita.
• 69 deputados do Ennadha. O partido é islamita e governou a Tunísia após a revolução, tendo o
seu governo bastante criticado. Apesar de ser o segundo maior partido tunisiano, o Ennahda
sofreu uma redução de sua bancada (menos 21 cadeiras), além de ter sido derrotado nas eleições
presidenciais.
• 16 deputados da União Patriótica Livre. O partido pertence ao magnata Slim Riahi, que possui
diversos negócios no país e é conhecido como o “Berlusconi tunisiano”.
• 15 deputados da Frente Popular. É o principal partido de esquerda da Tunísia, de base socialista e
popular.
• 31 deputados de 12 outros partidos, totalizando 217 cadeiras na Assembléia tunisiana.
23 de novembro de 2014 Realização do 1º turno das eleições presidenciais, que resultou em um segundo turno formado
por Béji Caïd Essebsi (Nidaa Tounes) e Moncef Marzouki (Ennahda). A eleição foi a primeira
democrática, desde 1956.
23 de dezembro de 2014 Béji Caïd Essebsi é eleito presidente , com 55,6% dos votos no segundo turno. Em seu discurso,
defendeu o Estado Laico e a superação do autoritarismo característico nos governos anteriores.
Essebsi tem 88 anos, foi aliado do governo do ditador Ben Ali, e primeiro-ministro após a
“Primavera Árabe”.
02 de fevereiro de 2015 O primeiro-ministro, Habib Esid, anuncia um governo de coalizão, com a participação do partido
islamita Ennahda, derrotado nas eleições presidenciais, mas com um terço dos deputados eleitos.
18 de fevereiro de 2015 Um atentado, atribuído a jihadistas, deixa quatro policiais mortos, numa região próxima à fronteira
com a Argélia, considerada um reduto de radicais islâmicos.
18 de março de 2015 Um ataque terrorista reivindicado pelo Estado Islâmico mata 24, sendo que 21 turistas, e fere 45
pessoas
24 a 28 de março de 2015 Realização do Fórum Social Mundial pela segunda vez em Túnis, na Universidade El Manar.
Por : Vida Brasil e Abong

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 65


Missão Gaza
30 de março a 5 de abril
Aline Baker Awad Luiz Alberto Junqueira de Carvalho 
Eliane Gonçalves Magno de Carvalho Costa
Fabio José Bosco Marcelo Yves
Gabriel Silva Huland Moara Assis Alves Salzedas Crivelente
Glauciana Sousa Mohamad El Kadri 
Leonardo Guimarães Vieira Rita Freire
Leonardo Severo Rogério Batista Pantoja
Lúcia de Fátima Rodrigues Gonçalves Soraya Misleh de Matos

Revelações de um povo em situação de o encontro não tiveram permissão para viajar à


apartheid Tunísia. O propósito disso, de acordo com o pes-
O Fórum Social Mundial (FSM) tem sido for- quisador Ahmad Jaradad, membro do Conselho
temente marcado pela solidariedade internacio- Internacional do FSM e articulista do Alternative
nal ao povo palestino, que desde 2006 enfrenta Information Center, é justamente impedir a visi-
um bloqueio desumano e agressões constantes bilidade do que se passa em Gaza. “Neste mo-
por parte do Estado de Israel. As informações e mento, cerca de 400 mil pessoas não têm onde
imagens que chegaram da Faixa de Gaza durante morar e estão sobrevivendo sob as ruínas das
os 51 dias de massacres, em 2014, chocaram e suas casas, sob árvores ou nas ruas”, informou.
sensibilizaram os movimentos sociais e levaram
as organizações do Conselho Internacional (CI) Difícil caminhada ao inferno da ocupação
do FSM a emitir nota conjunta contra os ataques A organização de uma Missão Humanitária à
e pelo fim da ocupação. Gaza teve início com uma proposta da Frente em
Com cerca de 1,8 milhões de palestinos/as, Defesa do Povo Palestino, assumida e encami-
Gaza é hoje uma região arrasada pela enorme nhada por organizações brasileiras do Conselho
perda de vidas, destruição de famílias, um gran- Internacional do Fórum Social Mundial, endossa-
de contingente de desabrigados/as e está drasti- da pelas organizações internacionais e aprovada
camente afetada em sua infraestrutura, capaci- na reunião do CI em Hammamed, Tunísia, em no-
dade de abastecimento, condições de moradia, vembro de 2014.
atendimento médico, acesso a água, comida e A Missão foi programada para começar ime-
serviços emergenciais. Agravando ainda mais diatamente após a edição do Fórum Social Mun-
esse quadro, sua população vem sendo, aos pou- dial em Túnis, no final de março de 2015, e a mo-
cos, silenciada, com menor cobertura da mídia ou vimentação para viabilizá-la se deu no Brasil. A
restrição ao acesso às redes sociais, devido a ra- pedido do Coletivo Brasileiro Rumo a Túnis 2015,
cionamentos de energia, e enfrenta um controle que facilitou a participação da delegação brasi-
ainda mais rigoroso à sua entrada ou saída. O ra- leira nesta edição do FSM em Túnis, o governo
reamento de notícias confiáveis sobre as condi- brasileiro buscou apoiar o acesso de uma dele-
ções de vida em Gaza, que só chegam por meios gação à Palestina. A Faixa de Gaza tem fronteiras
alternativos, e falta de apoio à sua reconstrução terrestres com Israel e Egito, ambas fechadas. A
aumentaram a preocupação internacional. possibilidade de solicitar entrada por Rafah, do
No último FSM, em Túnis, 125 ativistas dos lado egípcio, não foi descartada pela Missão. O
movimentos sociais de Gaza inscritos/as para Brasil optou pelo contato diplomático com o go-

66 Fórum Social Mundial 2015


verno de Israel, que controla os passaportes de grupo de brasileiros/as enquanto era submetido
quem entra, sai ou circula no País ocupado. Após a uma espera de quatro horas, mesmo sem filas
o FSM, quinze ativistas de entidades ligadas ao e com funcionários/as de sobra para verificação
evento global e a Frente em Defesa do Povo Pa- simples dos passaportes.
lestino seguiram para a Jordânia, que faz fron- A parte do grupo que passou pelo controle
teira com o outro lado da Palestina, a Cisjordâ- deu prosseguimento à Missão nas áreas autori-
nia, também sob ocupação. zadas, aguardando, no entanto, a liberação do
Os problemas que a Missão enfrentou a se- caminho até Gaza, que não foi dada enquanto a
guir e os relatos que trouxe das áreas visitadas delegação esteve na Cisjordânia. A autorização
revelam uma situação de controle e isolamento chegou somente após a volta ao Brasil, e mesmo
ainda mais grave do que a imaginada pelo grupo. assim, apenas para metade do grupo, excluindo
O primeiro entrave foi a demora para a permis- até a equipe da Empresa Brasil de Comunicação
são de entrada em Gaza. Alegando dificuldades (EBC). A integridade da delegação tornou-se
com seus feriados de Pessah, que coincidiram mais uma demanda para a diplomacia brasilei-
com a viagem do grupo, o governo israelense, ra, já que o grupo está determinado a cumprir a
inicialmente, autorizou apenas a entrada na Cis- próxima etapa e chegar a Gaza.
jordânia, imiscuindo-se no direito do povo pa-
lestino de receber visitantes e solidariedade. Na Prisões dentro da prisão, a Palestina
passagem da Jordânia para a Palestina, a mis- asfixiada
são passou por outra intromissão inaceitável. Os Durante sua estada na Palestina ocupada, a
integrantes de sobrenome árabe Soraya Misleh Missão Gaza esteve com autoridades brasileiras
e Mohamed El Kadri foram impedidos de entrar. e palestinas, comunidades, lideranças como Mus-
O motivo alegado foi a segurança de Israel. “A tafá Bargouthi, que já foi preso político, e dois
postura foi agressiva mesmo sem nenhuma acu- jovens que passaram anos na cadeia. Um deles,
sação”, disse El Kadri. Ra’ed Zibaar, recebeu a visita dos/as ativistas dois
O governo brasileiro foi acionado e reagiu dias após sua libertação. O outro, de cidadania
com uma nota diplomática, manifestando seu
descontentamento. A pedido da delegação, o as-
sunto está nas mãos do Itamaraty. “O Brasil deve
tratar os/as cidadãos/ãs israelenses da mesma
forma que nos trataram”, cobrou El K ­ adri. O gru-
po quer a reversão da medida, com a entrada de
ambos na próxima etapa, justamente a etapa de
Gaza, e vai exigir judicialmente, se preciso, a reci-
procidade no controle de entrada de israelenses
no Brasil, como determina a diplomacia brasilei-
ra. “As autoridades brasileiras não podem acei-
tar a discriminação contra os/as brasileiros de
origem árabe”, adverte Fábio Bosco, integrante
da Missão, diante da situação xenofófica enfren-
tada na fronteira. Possivelmente, foi a primeira
vez que o mau humor profissional do serviço
de controle israelense foi enfrentado ao som da
canção de Chico Buarque de Holanda, outrora
dedicada à ditadura brasileira, e entoada pelo Missão Gaza: brasileiros de origem árabe barrados na fronteira

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 67


brasileira, em greve de fome. O primeiro foi rece- outra cidade. A casa, explica Lara, não pertence
bido em festa por sua comunidade, em Kobar, um ao/à palestino/a, mas ao controle de Israel.
vilarejo próximo a Ramalah. Mas, até sua mãe te- Para os/as integrantes da Missão Gaza, as
me que ele volte à prisão sob qualquer acusação. histórias relatadas pelas duas pareciam condu-
“Ele não vai deixar de resistir à ocupação”, diz ela, zir a um filme de ficção cujo roteiro é o controle
com um misto de medo e orgulho. As informações sem descanso, um cerco armado e uma guerra
sobre a situação do segundo preso surpreende- de nervos mantida para segregar uma popula-
ram os/as brasileiros/as. Islam Hasan Jamil Ha- ção em sua terra. Ou para convencê-la de que
med, hoje com 30 anos, está preso desde os 17, aquela terra não é sua.
com breves intervalos. A primeira vez, por atirar Por direito, as crianças palestinas podem
pedras em soldados e depois em detenções admi- estudar por meio de livros árabes distribuídos
nistrativas que, pelas regras de Israel, não preci- pela Autoridade Nacional Palestina, como uma
sam de explicação. Por fim, foi preso pelo governo garantia de que terão acesso à sua cultura e à
palestino e permanece encarcerado mesmo após visão de mundo de seu povo na escola. Mas, as
cumprida a pena. As alegações são ameaças de famílias se deparam com versões manipuladas
morte contra ele ou de nova prisão por Israel. A do material, de modo que as páginas onde está
proteção à vida de Islam depende da diplomacia mencionado que Jerusalém é a capital da Pales-
brasileira, já acionada pela delegação e pela famí- tina são retiradas e as menções à palavra Nakba
lia, conseguir trazê-lo para o Brasil. (como os/as palestinos/as chamam a criação do
“Não há outra palavra para descrever a con- Estado de Israel, em 1948, considerada uma “ca-
dição do povo palestino, senão apartheid”, disse tástrofe”), desaparecem. “A história é reescrita à
Ingrid Jaradad Gassner, ao receber a Missão Hu- revelia dos palestinos”, diz Ingrid.
manitária do FSM no dia 3 de abril de 2015 e ouvir
perguntas sobre a ocupação israelense. Até ocu- Viver na Palestina é um ato de resistência
pações têm algum tipo de estatuto internacional, Uma informação dada por palestinos/as é de
mas o que acontece na Palestina, denuncia ela, é que eles/as não podem trabalhar como guias tu-
comparável ao apartheid da África do Sul. Coor- rísticos em Jerusalém Oriental, sua capital. A
denadora da campanha BDS (Boicote, Desinvesti- propaganda turística de Israel apresenta Jerusa-
mento e Sanções contra Israel até que a ocupação lém como seu patrimônio. Em seu terceiro dia na
acabe), Ingrid discorre sobre a vida em Jerusalém Palestina, os/as integrantes da Missão Gaza cir-
Oriental, asfixiada pelo cerco demográfico estabe- cularam pela cidade, observando assentamentos
lecido por Israel. Palestinos/as de fora não podem tranquilos, onde adultos israelenses passeavam
circular na velha capital sem passar por controle, com seus cachorros e crianças, próximos a áreas
nem se fixar ali, nem construir além dos 13% das palestinas onde as casas vão sendo tomadas sob
habitações, que já estão todas ocupadas. diferentes pretextos.
Seu depoimento reforçou as palavras da asses- Do outro lado da rua de um desses condomí-
sora de Comunicação do Departamento de Negó- nios de luxo, a delegação parou para conversar
cios Estrangeiros da OLP – Organização para a Li- com um velho morador que, sentado ao lado da
bertação da Palestina, Lara Habash, que atendeu porta, fazia guarda de sua casa. Ou da metade
o grupo pela manhã. Mesmo o casamento entre dela. A outra parte foi tomada a força for colonos
palestinos/as de Jerusalém com parceiros/as de armados, que ficaram com metade do imóvel.
outras partes da Palestina é inviabilizado pela po- De tempos em tempos, o velho Nabeel al-Kurd
lítica habitacional, que não permite expansão, não é agredido. Uma vez, os colonos trouxeram ca-
autoriza reformas e suspende a permissão de resi- chorros e o morador conta que foi parar no hos-
dência se o/a morador/a decide formar família em pital. Dias depois, recebeu um telefonema. “Me

68 Fórum Social Mundial 2015


perguntaram se o cachorro estava bem”, conta recebeu a notícia de que o marido havia sido
ele, humilhado, mas decidido a ficar. preso a caminho de visitá-la no hospital. Ra’ed
Permanecer e resistir é uma espécie de ato Zibaar ficou preso por 14 anos. “Eu nem sabia
de bravura de que os/as palestinos/as têm cons- onde buscar ajuda, o que significava precisar da
ciência. “Não preciso que me digam como lutar comunidade”, disse ela, ao receber o marido de
pela Palestina, eu já estou lutando por viver e volta, com o filho adolescente.
permanecer aqui”, disse o taxista Bassam Lah- A advogada Niven Brahme, ativista pelos di-
leh, que ajudou a delegação a se locomover nos reitos das mulheres, vive na área rural do Vale
vários percursos sem transporte público. Alto, do Jordão e acredita que ali as condições das
magro e de cabelos brancos, ele contou ter se palestinas sejam ainda piores do que nas cida-
tornado taxista desde a construção do muro, des porque não há apoio, educação, nem cons-
em Jerusalém, que o deixou sem trabalho e ciência da comunidade quanto à sobrecarga e
proibido de entrar na cidade, mesmo para rezar os problemas psicológicos que elas sofrem. Ela
na Mesquita Al–Aqsa. Ele também não pode diri- relata que muitas mulheres são obrigadas a re-
gir até o Mar Morto, que observa bem de longe, construir suas casas. Quando são demolidas, é
da estrada. São privilégios de israelenses e tu- delas a responsabilidade por abrigar a família,
ristas. Mesmo enfrentando limitações por toda por preparar comida para as crianças e até pelo
parte – em uma delas a estrada foi bloqueada rebanho. Como não há água, a comunidade foi
sem anúncio prévio e os motoristas tiveram de obrigada a substituir sua agricultura tradicional
fazer um retorno de quase meia hora para reto- pela criação de ovelhas. No entanto, o direito
mar o caminho –, o taxista foi sempre simpático das mulheres não é um assunto em uma situa-
e solícito, como recorda a historiadora Glaucia- ção em que toda a comunidade se sente sem
na Souza. “Me impressionou sua generosidade. direitos. Ainda que os problemas para elas se-
Mesmo trabalhando 12 horas todos os dias e re- jam maiores, o sentimento é de que ninguém se
cebendo por isso o equivalente a 18 dólares por importa.
dia, ele parou em uma quitanda de um amigo
em Jericó, pegou algumas moedas no porta lu- A segregação mantida por cores, avisos e
vas do táxi e nos presenteou com tâmaras, fru- armas
ta sagrada, com votos de benção por pisar na Uma população estigmatizada por todo tipo
Palestina e se propor a divulgar o sofrimento de sinalização e distribuição seletiva pelos espa-
do seu povo.” ços urbanos, habita moradias de fácil identifica-
A resistência cotidiana pesa, especialmente ção. As casas e prédios palestinos são marcados
sobre as mulheres, como explicou Ruayda Ra- por caixas d’água pretas. Vistas de cima, formam
bag, que integra o Conselho de Brasileiros/as na pontilhados pretos sobre os prédios. É fácil sa-
Palestina, ao receber os/as integrantes da Mis- ber quais são. Para os/as israelenses, ou não há
são em sua casa, em Kobar: “É a mulher quem necessidade de caixas d’água porque o encana-
leva os filhos para a escola, trabalha, faz as com- mento é direto para as suas torneiras, ou quando
pras, cuida das economias”. E isso é agravado precisam delas, as suas caixas são claras.
por um altíssimo índice de desemprego entre “No caminho entre Ramallah e o Vale do Jor-
as mulheres, o que faz com que 60% delas ga- dão é fácil identificar em qual lado da estrada
rantam a renda da família a partir de trabalhos estão as residências palestinas. Basta procurar
informais. “Como muitos homens estão presos, pelas construções rudimentares, especialmente
mulher tem que ser pai, mãe, tudo”, afirmou. quando comparadas à sofisticação das colônias
Foi o que viveu ali em Kobar, a jovem Neda. israelenses no território ocupado pelos sionis-
Aos 17 anos, quando acabara de tornar-se mãe, tas”, observou o jornalista da CUT – Central Úni-

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 69


ca dos Trabalhadores, Luiz Alberto Junqueira de militares que controlam o movimento da popula-
Carvalho. No início de uma estrada que conduz à ção palestina em Gaza e Cisjordânia]. As verdes,
pequena vila Faysail, no Vale do Jordão, a placa palestinas, significam que a travessia não será
não indica o nome da vila. Sua inscrição diz: “Ca- fácil. Aliás, os checkpoints são a síntese perfei-
minho para uma vila palestina, cuidado, perigo ta da vida em gaiola. Grades por todos os lados,
para israelenses”. bloqueios, raios-X, detectores de metal e muitas
A delegação seguiu até lá e encontrou uma camadas de vidro separando jovens soldadinhos
comunidade fabricando tijolos de barro e pedra com identidades azuis de pessoas de todas as
usados na reconstrução de casas e escolas des- idades com papelzinho verde. E, claro, se não
truídas pelos colonos. De acordo com a organi- obedecer, vai preso”, resume.
zação de palestinos/as Solidariedade ao Vale do Após passar por um posto de controle, a jor-
Jordão, mais de mil famílias palestinas perderam nalista Lúcia Rodrigues, da Ciranda, que também
suas casas na região entre 2011 e 2014. integra a Missão, concluiu que “o checkpoint é
Como forma de expulsá-los/as, há a proibi- uma das coisas mais bizarras que Israel impõe
ção de perfurar poços além da água salobra aos palestinos. Para andar dentro de seu próprio
para plantio. Embora vivam ao lado do Rio Jor- país, eles têm que pedir autorização. Cabe aos
dão, os/as moradores/as pagam caro pela água soldados israelenses decidir se a pessoa passa
que bebem, enquanto as fazendas israelenses, ou não para o outro lado. A decisão pode levar
do outro lado, são fartamente irrigadas. “Fiquei horas, embaixo de chuva.”
chocado com o fato de o governo israelense se Ainda na madrugada, integrantes da Missão
apropriar da água dos palestinos nativos para visitaram el-Taibeh, para assistir a travessia dos/
redirecionar para os assentamentos e fazendas as trabalhadores/as palestinos/as contratados
de colonos judeus importados de outros conti- por empresas israelenses. “É inaceitável que doze
nentes. E aos palestinos resta comprar a pró- mil trabalhadores levem duas horas para passar
pria água, racionada”, lembra Leonardo Vieira, por um checkpoint para trabalhar em empresas
da CUT. israelenses”, constatou Magno Carvalho, da CSP-
“A segregação e a construção de uma reali- Conlutas, que viu de perto os abusos israelenses.
dade fragmentada, expropriada, são constan-
tes. Todos os aspectos da vida, do documento Assentamentos, prisões e humilhações: a
de identidade à programação do casamento, do presença sionista
plantio à colheita, passam pelas autoridades is- Os assentamentos de Israel na Palestina
raelenses. O cotidiano é ocupado, visivelmente: ocupada são ilegais, mas brotam por toda Cis-
o muro, as estradas, os postos de controle e a jordânia, dividida em três áreas: A, B e C, uma
fronteira, até na partida. “Ser “outro” é sempre sob controle palestino, outra sob controle de
menos humilhante do que ser palestino”. As Israel e outra mista. Mas isso não quer dizer
impressões de Moara Crivelente, do Cebrapaz - nada para o avanço dos colonos, como Aline
Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Baker testemunhou. “Por onde se caminha
Paz, se confirmam a cada etapa da viagem. na Palestina se vê colônias israelenses, é as-
“Há cores para separar algumas gentes de sustador! E onde tem colônia, tem soldados e
outras gentes”, constatou a jornalista Eliane estradas particulares para os israelenses, tem
Gonçalves, da EBC. “Carros de placas amare- opressão e agressão aos palestinos. Essas co-
las, de Israel, podem ir a qualquer lugar. Placas lônias, que são ilegais perante a Organização
brancas, palestinas, não. E se não obedecer, vai das Nações Unidas e à comunidade internacio-
preso. Identidades azuis, para israelenses, signi- nal, estão por toda parte e crescendo numa ve-
ficam passagem livre pelos checkpoints [postos locidade avassaladora.

70 Fórum Social Mundial 2015


Alerta: “Caminho para uma vila palestina, cuidado, perigo para israelenses”

A Missão visitou Hebron, onde testemunhou onde Integrantes da Missão testemunharam


inclusive um tipo de segregação vertical. Uma uma “mini-intifada”, como chamou a jornalista
rua central da cidade é separada em dois an- Eliane Gonçalves. Todas as sextas-feiras, há ma-
dares. Na parte de baixo, palestinos/as se pro- nifestações e enfrentamentos na cidade. Solda-
tegem com uma tela que cobre a rua. Na parte dos israelenses chegam armados e lançam bom-
do alto, israelenses lançam lixo e objetos sobre a bas de gás. Jovens atiram pedras e alguns saem
tela que os isola dos/as antigos/as moradores/as. feridos. Um deles, alvejado quando criança du-
“Em Hebron, os palestinos são obrigados, rante as manifestações, está paraplégico. Outros
por força de tanques, fuzis e metralhadoras, a estão presos.
conviver com mandos e desmandos diários dos “Eu nunca tinha ouvido falar tanto em pri-
ocupantes, entrincheirados em bairros centrais são”, diz Eliane Gonçalves. “Uma espécie de as-
por detrás dos checkpoints”, constatou o jor- sombração que paira por trás das muitas proibi-
nalista Leonardo Severo, da CUT. A delegação ções. Qualquer coisa pode ser interpretada como
ouviu relatos de Ahmad Jaradad sobre a proibi- suspeita e se o papel (documento palestino) for
ção aos/às palestinos/as de circularem de carro verde, pode dar cadeia. Me lembro das pessoas
ou acionarem ambulâncias. “Mesmo se for algo recomendando: “aqui não pode fotografar”,
emergencial, de doença grave, a pessoa precisa “aqui não pode parar”, “aqui não pode entrar”.”
informar antes a Autoridade Nacional Palesti- Numa dessas, Eliane também foi barrada.
na, que por sua vez, precisa pedir autorização “Foi banal. Mas dessas banalidades que ajudam
a Israel. Assim, muitas pessoas acabam tendo a dar a dimensão das interdições. Pensei em vi-
que socorrer os entes queridos carregando-os sitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, o
nas costas, já que é mais rápido do que aguar- lugar sagrado dos judeus. Mas levava, enrolado
dar por Israel. Isso é vexatório e humilhante”, na bolsa, um cartaz que comprei em uma das
relatou o jornalista. muitas tendas da cidade. Um dos soldadinhos de
Outro lugar visitado foi o vilarejo de Sualid, papel azul (documento israelense) viu o cartaz e
próximo da cidade de Hamalah, na Cisjordânia, disse: não pode. Pronto, não entrei.”

Processo do coletivo brasileiro rumo à Tunísia 71


que enquanto houver ocupação, não terá visto
de saída nem recursos. Com duas filhas jovens
casadas, ele sequer consegue ver o filho mais ve-
lho, de 30 anos, se casar. Recebendo 18 dólares
por dia, não é possível juntar o dote que preci-
sa dar à família da noiva. Disse isso com mágoa,
lembra Glauciana. “Ele contou que a situação é
muito comum em seu país. Os jovens sonham em
se casar e constituir família, que é uma forma de
resistir, contudo o desemprego assola. Alguns,
em momentos de desespero, tentam pular o mu-
ro e são alvejados. Não aguentei”, ela admite. “A
cada história minha perplexidade aumentava.
Deixei a Palestina chorando.”
De volta à Jordânia, a delegação voltou a
encontrar Soraya e Mohamed, que durante a se-
paração do grupo decidiram visitar o campo de
Baqaa, em Amman, capital da Jordânia. Criado
em 1968, é um dos dez administrados pela UNR-
WA (agência das Nações Unidas responsável pe-
la assistência aos/às refugiados/as palestinos/
as) no país. “Em suas ruelas estreitas, que lem-
bram algumas favelas brasileiras, o campo abri-
ga mais de 100 mil habitantes, segundo dados
oficiais, e cerca de 300 mil, conforme os/as mo-
“Boicote Israel” – ruas de Hebron
radores. Entre eles, vários viveram a Nakba, em
O cartaz que Eliane levava é a reprodução do 1948”, constatou Soraya Misleh. Eles/as estão a
desenho de um artista sionista e que, em 1936, 150 quilômetros da Palestina, mas não podem
foi usado como propaganda pelos próprios sio- voltar para casa. E os/as mais jovens não podem
nistas para promover o turismo local. “Hoje, o conhecê-la. Hoje há cerca de cinco milhões de
desenho virou uma testemunha incômoda de palestinos/as vivendo em campos de refugiados/
que todo mundo ali, até mesmo quem nega de as, na diáspora.
pés juntos, sabe bem o nome do lugar em que Soraya conta que foi comovente para os/as
estávamos pisando”, conta Eliane. O cartaz sio- visitantes ouvir Abu Haitham, um palestino de
nista de 1936 diz: Visite a Palestina! 80 anos expulso de sua terra juntamente com
a família em 1948, sobre a sua convicção de que
Voltar para casa, um direito de cinco mi- voltará à Palestina. “Ele me disse que a ideia po-
lhões de palestinos/as de ser de que o sionismo é indestrutível, mas é o
Foi o velho taxista de Hebron quem levou par- contrário. Que vamos continuar lutando, expon-
te da delegação de volta à Ponte Alenby, passa- do-o”, recorda. Ao saber que ela é jornalista e
gem para a Jordânia. No caminho, falou da famí- que havia mais jornalistas na Missão, outro refu-
lia, de parentes que moram no Brasil, na cidade giado, Abu Jamil, de 45 anos, chamou-os/as de
de Campinas, mas não conseguem visto para jornalistas livres e pediu: “Contem ao mundo a
visitar os que ficaram. Bassan Lahleh também verdade. Estamos lhes dando o fardo da questão
gostaria de viajar e ver essas pessoas, mas sabe palestina para carregarem.”

72 Fórum Social Mundial 2015


“1. O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da
reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre
de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da
sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital
e por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma
sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e
destes com a Terra.” (...)
“4. As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo
de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos
governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a
cumplicidade de governos nacionais. Elas visam fazer prevalecer, como uma nova
etapa da história do mundo, uma globalização solidária que respeite os direitos
humanos universais, bem como os de todas/os cidadãos e cidadãs em todas as
nações e o meio ambiente, apoiada em sistemas e instituições internacionais
democráticos a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos.”
Carta de Princípios do Fórum Social Mundial

E
ntre os dias 24 e 28 de março de 2015, realizou-se em Túnis, capital da Tunísia,
mais uma edição do Fórum Social Mundial (FSM). O evento aconteceu em uma
difícil conjuntura, marcada por um atentado ocorrido seis dias antes do evento,
em 18 de março, em que 24 pessoas das mais diversas nacionalidades e regiões do
mundo foram brutalmente assassinadas, deixando ainda outras 45 feridas. Isso não
impediu que cerca de 45.000 ativistas, de 4.400 organizações e movimentos de
mais de 120 países, marcassem sua presença no FSM, reforçando o apoio ao povo
tunisiano em sua luta contra forças conservadoras e antidemocráticas que ameaçam
o fortalecimento da democracia nesse país.
A delegação brasileira, a maior vinda da América Latina, destacou-se pela sua
diversidade. O Coletivo Brasileiro rumo ao FSM 2015 na Tunísia foi responsável
pela organização de um total de mais de 200 pessoas, representando cerca de
100 organizações e movimentos de todo Brasil e dos mais diversos segmentos.
Esta publicação traz um relato das atividades centrais feitas no marco do projeto
que permitiu a participação dessa diversidade de atores e atrizes, bem como fotos e
documentos relativos às múltiplas articulações nas quais a sociedade civil brasileira
está envolvida internacionalmente.

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