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Intersecção Dança e Psicologia: Das imaterialidades e materialidades

Pensemos, então, em uma dança como um modo de intercambiar


experiências.

“A apresentação visual dos movimentos do outro é capaz de evocar as representações


de movimento similar no corpo do observador; como todas as
representações motoras, tende a se expressar imediatamente num movimento.

4SCHILDER, Paul. A Imagem do Corpo – As energias constitutivas da psique. São Paulo:


Martins Fontes, 1999; p. 274.
”4

a
arte pode oferecer ao espectador o que não se vê, ou seja, signos para que
ele próprio realize o sentido; espaços de ausência e silêncio; apresentar
uma forma pelo seu avesso, seu interior… Pela negativa (que também é uma
forma de mostrar); instigar a tolerância para o vazio, reverso da razão econômica;
recuperar esperanças adormecidas. Propor uma ação contra a anestesia
dos sentidos também pode ser visto como uma perspectiva utópica da arte.

Ao abordar a questão do corpo na obra de arte, imagina-se que esse


corpo possa produzir uma “imagem crítica” que, ao ser vista (através de um
estímulo sensorial dado pela visão e pelos aspectos sinestésicos de quem
vê), poderá desencadear uma percepção e um juízo sobre o próprio corpo do
observador e, possivelmente, sobre imagens e discursos de corpo vigentes
na sociedade. O corpo do qual se fala, neste caso, não é um “corpo espetacular”,
e sim, um “corpo experiência”; pelo ato vivenciado, na apresentação
da obra, tem a possibilidade de se “estender” a outros corpos. Ao gerar essa
imagem, compartilha a experiência e propõe uma maior consciência de “ser
corpo”. Aponta para um “despertar”.

PALUDO, L. A dança como um movimento...

SERRES, Michel. Variações sobre o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand


Brasil, 2004.

não há na composição da obra nenhuma


proposta a fazer revelações fundamentais, não há nenhum grande gesto e
nenhuma grande causa a ser defendida. O que está presente é o cotidiano e o íntimo, numa
provocação a que cada expectador encontre algum traço de
si em algum fragmento da obra. A postura ética que talvez se possa aí definir
é de descolar o corpo feminino da lógica da eficácia e da produtividade; a
lógica de mercado, que padroniza os corpos e os retira de sua história. O
compromisso ético que se engaja com a posição de um olhar psicanalítico é
acompanhar o processo de resgate do corpo, como corpo/palavra, corpo/
escrita, como véu propriamente, como no dizer de Lacan, o corpo na sua
função “sujeito-objeto-mais além”4. Neste processo, a lógica que está em
jogo, mesmo no corpo nu, é a lógica simbólica, que produz história e que faz
transmissão.

composição cênica deste


processo aproxima-se da narrativa produzida pela escuta psicanalítica na
clínica.

5Becker, Ângela. “Narrativas em cena: desejo e criação no processo da performance” in


Narrar, construir, interpretar. Revista da APPOA nº 30, junho/2006.

cuja palavra é também corpórea, e


cujo corpo também compõe narrativas
“o que diz respeito ao
corpo é necessariamente mais narcísico e menos simbólico do que o que se
coloca em palavras?

Lembrando ainda o que Marcel Duchamp denomina como “coeficiente


artístico”, podemos pensar o processo de criação como extremamente próximo
à experiência de um processo analítico: “o coeficiente artístico é como
uma relação aritmética entre o que parece inexpresso embora intencionado
e o que é expresso não intencionalmente”. A obra de arte é então tomada
como o resultado deste processo em que a tentativa de encobrir o Real é, ao
mesmo tempo, sua revelação.

Um processo de dançar e falar,


isto é, narrar de si próprio, através do corpo e da palavra num entrelaçamento
que buscava cada vez menor distância entre um e outro.

BECKER, Â. L. Narrar, subjetivar, dançar