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Em l976j^ccbi um convite da professora Eunice Durham para participar


dc uma mesa-redonda sobre “Mudança Cultural na Sociedade Moderna”
na XXV111 reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciên­
cia— SBPC —, em Brasília. Vejamos o momento. A ditadura militar esta­
va no auge. As reuniões da SBPC tinham se tornado rituais de resistência
por parte dos cientistas brasileiros, ou seja, fundamentalmente professo­
res e estudantes universitários. E naquele ano a reunião seria em Brasília,
o centro geográfico e político do regime!
Até a véspera da reunião, por uma mistura de medo e minha jd costu­
meira incapacidade de mt antecipar aos prazos, nada tinha escrito. Mas
naquele dia, no último momento, tive uma pequena inspiração e esbocei
rapidamente a minha intervenção em inglês. Comecei com uma descrição
da minha tentativa de cozinhar o prato nacional do Brasil em Nova York
para uma turma de negros do sul dos Estados Unidos que moravam na
cidade. Em vez de se maravilharem com a feijoada (e meu considerável
esforço para produzi-la), olharam para ela com uma familiaridade ances­
tral, considerando-a apenas soul food, comida típica dos negros norte-
americanos. Arrasado, tentei entender o que tinha acontecido. De fato,
era vítima de um mal-entendido tão caro aos antropólogos: nada é cons­
tante; o sentido nunca é universal, mas sim atribuído por sistemas cultu­
rais em siruações concretas. O que era prato nacional num lugar era prato
dc negro em outro.t^Mas, se era assim, por que tanta diferença entre as
duas sociedades, ambas construídas sobre o escravidão? Era esta a minha
pergunta.

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PfTCR FftV A P E R S I S T Ê N C I A O-A RAÇA

O medo que senti antes da mesa-redonda acabou sendo infundado. A PEUOADA E SOUL FOOD, N O T A S S O B R E A M A N IP U L A Ç Ã O D E
mesa foi muito bem recebida e a minha contribuição, em tradução da pró­ S lM B O L O S é t n ic o s e n a c io n a is

pria Eunice Durham, saiu publicada no ano seguinte nos Cadernos de


Opinião, uma revista conceituadíssima nos meios intelectuais da época (Fry Em julho último [ {9751, em Nova York, decidi oferecer a meus antigos
1976). Fiquei bastante envaidecido com a receptividade que o artigo teve um prato típico brasileira. Com muita dificuldade consegui encontrar fei-
e o incluí numa coletânea de trabalhos meus publicada na coleção “Antro­ jão-preto, costeletas de porco defumadas, couve e outros produtos, e as­
pologia Social", organizada pelo professor Gilberto Velho na editora Zahar sim pude preparar uma feijoada, que servi com a devida pompa. Foi a í que
(Fry, 1982). um de meus amigos, um preto do Alabama, depois de ter olhado 6 cheira­
Com o passar dos anos, fui descobrindo que, para algumas pessoas, do atentamente a travessa, acabou com todo o suspense ao comentar que
aquele pequeno ensaio representava um “achado” importante na de­ se tratava simplesmente de comida à qual estava acostumado desde crian­
núncia do racismo à brasileira. Para outros, é o único texto meu que ça. O que no Brasil é um prato nacional, nos Estados Unidos é soul food.
conhecem. Mas, para mim mesmo, foi se tornando uma espécie de Está claro que a origem do prato é a mesma nos dois países, pois em
T embaraço. E quando o reli recentemente, mc dei conta de que ele de ambos este item da cultura culinária foi elaborado pelos escravos utilizan­
fato representa um bom exemplo da mais ingênua interpretação do do as sobras do porco desprezadas por seus senhores. A diferença está no
racismo neste país, a que tenho combatido numa série de artigos ao dignificado simbólico do prato. Na situação brasileira, a feijoada foi in­ J r ''
longo dos últimos anos. corporada como símbolo da nacionalidade, enquanto nos Estados Unidos P '
r Resolvi incluí-lo neste livro de textos junto com estas considerações tomou-se símbolo de negritude, no contexto do movimento de liberação f *
críticas porque olliar para as mudanças de interpretação entre 1976 e 2001 negra.
permite pensar sobre os limites da nossa objetividade e o quanto somos Mas a feijoada não é o único exemplo de assimilação, por parte da
moldados pelo contexto histórico no qual estamos inseridos. E, também, sociedade brasileira como um todo, de itens culturais elaborados pelos
negros. O samba e o candomblé também são, em maior ou menor grau,
porque, por mais que o Brasil tenha mudado nos últimos 25 anos, e por
utilizados como símbolos nacionais brasileiros e, como tal, exibidos em
mais que eu tenha mudado também, há algo insistentemente familiar nas
cartazes e guias turísticos. Além disso, todos esses itens "produzidos“ e
minhas duas interpretações. Isto sugere que a mudança social, cultural e
elaborados pelos negros em situação de dominação foram absorvidos pe­
individual é um processo cumulativo que, por mais que negue o passado,
los *produtores“ da "cultura de massa” e incorporados em filmes, discos,
constrói-se sobre ele. Ainda considero importante perguntar por que a
livros e revistas.
minha feijoada se tornou soul food nos Estados Unidos.
Gilberto Frcyre usa esses exemplos, entre outros, para demonstrar que
Mas vamos primeiro ao texto original:1
a colonização foi, no Brasil, um processo essencialmente harmônico, mar­
cado pela ausência de preconceito racial. Tratando a cultura como se fosse
geneticamente transmissível, Freyre opõe a experiência colonial portuguesa
‘Mantive o texto exatamente como foi publicado em 1976, apenas atualizando algumas da* à francesa, à inglesa e à alemã, as quais, por motivos culturais, seriam mais
referências bibliográficas.
contaminadas pelo preconceito racial. Esse argumento chega ao extremo
I 4 ft
M T K * » R Y A P E R S I S T t K C I A DA U Ç »

em A integração portuguesa nos trópicos, de 1961 (Freyre, 1961). Nesse rnodo de vida, mas como manifestações de aposições ou aceitações que
isculpadas quaisquer práticas racistas porvintura existentes em implicam um constante reposicionamento dos grupos sociais na dinâmica
ue como sendo "erros lamentáveis", decorrentes de uma imita- das relações de classe".

S ianismo” em voga entre outros povos, inclusive entre os sul-


africanos da facção bôer-calvinista mais etnocêntrica (Freyre, op. cit.: 36),
como se os portugueses tivessem sido atacados por uma doença contagio­ CANDOM BLÉ

sa, conforme a imagem utilizada por Eunice Durbam.


Como se sabe, a aparente ausência de práticas racistas em Moçambique Como todos sabem, o candomblé nasceu da escravidão negra. Proibidos
era ilusória. Ç maior grau de miscigenação, por exemplo, foi mais um re­ de praticar sua religião tradicional, os escravos desenvolveram uma forma
sultado da falta de mulheres brancas portuguesas e da necessidade de esta­ religiosa na qual divindades africanas podiam se esconder atrás de másca­
belecer alianças com os potentados negros locais do que conseqiiência de ras de santos católicos. Mas, desde o início, o candomblé foi reprimido pela
pretensos traços culturais não-raciais dos quais os portugueses pudessem elite dirigente. Tbdos os autores mais antigos que escreveram sobre o as­
ser portadores. Gilberto Freyre comete o erro imperdoável de considerar sunto enfatizam a violência da repressão policial e o fato de que os centros
os traços culturais como variáveis independentes, abandonando a análise de culto estavam escondidos em "lugares ermos e de difícil acesso"
da situação na qual se desenvolvem. Ê muito significativo que essa análise (Rodrigues, 1953:63). Mas a situação não era simplesmente a de uma
pseudocientífica da colonização portuguesa tenha sido incorporada à ideo­ oposição total, uma vez que os ogãs dos centros de culto, posições hono­
f
logia oficial, pois ”provando“ desse modo que a colonização portuguesa ríficas que conferiam certos direitos e privilégios, eram geralmente recru­
era intrinsecamente diferente das demais, podia-se manter o argumento tados na própria elite repressora. Esses ogãs ofereciam sua proteção e, em
de que os territórios portugueses ultramarinos eram províncias da metró­ troca, recebiam votos < outros serviços. Já nessa época o candomblé, em­
pole. bora produzido pelos negros, dependia para sua existência, pelo menos em
Neste breve artigo, gostaria de examinar mais de perto o candomblé e certa medida, da elite branca.
o samba. Uso como ponto de partida a observação de Eunice Durbam de Situação semelhante existia no Rio de Janeiro no final do século passa­
que "o grupo que reelabora e utiliza o produto cultural acabado tende a do. loão do,Rio descreve os centros de culto nos morros e mostra também
ser dependente daquele que o produziu. Estando a distinção entre produ­ como muitos frequentadores eram membros da elite branca que buscavam
tores e consumidores de cultura presa a uma distinção de classe, a relação comprar serviços mágicos a fim de derrubar rivais políticos ou conseguir
entre eles assume necessariamente uma conotação política, isto é, ela tem amantes. Ele descreve metaforicamente essa relação nos seguintes termos:
implicação em termos de poder." "Somos nós que lhes asseguramos a existência, com o carinho de um ne­
No caso dos traços culturais que mencionei, os produtores originais gociante por uma amante atriz" (Rio, 1906:26). Mais uma vez, os cultos,
foram os grupos dominados. Serà interessante, portanto, examinar o modo embora estigmatizados pela classe dominante, eram usados por ela e se
como foram assimilados, reciaborados ou rejeitados pelos outros grupos tomaram, de certo modo, dependentes dela. Sinto-me tentado a interpre­
sociais, tendo em vista a sugestão de Eunice Durbam de que “as diferenças tar essa relação em termos da teoria de M argliggglas sobre poluição e 4
culturais aparecem não como simples expressão de particularidades do sujeira (Douglas, 1966). Mary Douglas observa que as partes da sociedade

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peter f«y * P ERS I S TÍ HCI A DA RA Ç A

e da natureza classificadas como excluídas da estrutura formal de podei Em São Pauto e no Rio de Janeiro a história é um pouco diferente. A í
são consideradas sujas e poluidoras. Mas, ao tmsmo tempo, são dotadas também os cultos foram reprimidos e estigmatizados e tendiam a se loca­
necessariamente de certos poderes e cercadas de perigos. Acho, portanto,' lizar em fundos de quintal dos subúrbios. Em São Paulo havia um pelotão
que o poder mágico atribuído à macumba e ao candomblé é um corolário policial especial, ligado à Delegacia de Costumes, encarregado da repressão
da posição socialmente marginal de seus produtores. ' ’ ao “baixo espiritismo". Entretanto, como mostrou Diana Brown (Brown,
A situação obviamente mudou desde essa época: muitos centros de culto 1986), no Rio de Janeiro (e penso que também em São Paulo) os cultos
emergiam de seus esconderijos em "lugares ermos e de difícil acesso "para que "saíram dos esconderijos" foram aqueles que tinham uma forte lide­
se exibirem sob os holofotes das máquinas fotográficas de turistas e dire­ rança de classe média e que adotaram medidas para "purificar" o culto de
tores de filmes, incorporando-se à literatura popular e erudita. Há poucos seus aspectos "africanos” mais óbvios. Esses líderes formaram federações
meses, a Igreja Católica abriu suas portas à comunidade do candomblé que lhes permitiram eleger-se deputados e senadores durante a fase populista
baiano, e a notícia foi devidamente divulgada pelas revistas de luxo. Ago­ da política brasileira. Ê interessante notar que em São Paulo e no Rio de
ra não é mais perigoso entrar para o candomblé — é chique. O que parece Janeiro (e provavelmente em outras cidades também) as variedades de cultos
ter acontecido é que alguns dos terreiros mais conhecidos e tradicionais afro-brasileiros aceitáveis e aceitas eram justamente as que eram inaceitá­
foram absorvidos não só pelos produtores da “cultura de massa", mas pelos veis na Bahia. A Bahia optou pela "pureza",da tradição africana, enquan­
intelectuais, especialmente pelos antropólogos, que foram os responsáveis, to as cidades mais ao sul escolheram a "pureza" das inç vações de classe
em grande parte, pela glorificação dos cultos de origem ioruba, em detri­ média.
mento dos de origem banto e daqueles que adotaram práticas rituais da Novas mudanças se produziram depois dos acontecimentos de março
umbanda em expansão. Desde o início do estudo científico sobre os can­ de 1964. Mas é interessante notar que um dos meios de que o governo de
domblés, os antropólogos com tendência a dar explicações em termos de São Paulo lançou mão para adquirir uma certa legitimidade post hoc foi
genética cultural classificaram os terreiros de suposta origem ioruba como promover festivais de umbanda. Isto ocorreu particularmente durante o
sendo, de algum modo, mais "puros" que os de origem banto (aliás, a pró­ governo de Laudo Natel, quando os órgãos oficiais providenciaram locais
pria categoria banto não tem nenhum sentido neste contexto, pois refere- públicos para os festivais em honra de Ogum (São Jorge) e Oxóssi (São
se a um grupo linguístico e não cultural). Os que tinham absorvido práticas Sebastião). Mas, se o governo favorecia essa estratégia, o mesmo não acon­
nâo-ioruba foram classificados como “impuros ou deturpados“ (para uma tecia com outros setores da população. O jornal O Estado dc S. Paulo,
discussão deste problema, consultar Velbo, 1975). Não querendo entrar representante da respeitabilidade burguesa, sentiu-se no dever de publicar
em detalhes, acredito ser razoável afirmar que escritores, cantores e inte­ veementes editoriais que denunciava m o escândalo representado pelo apoio
lectuais contribuíram muito para o desenvolvimento desses centros de culto, do governo estadual a esse "fenômeno brasileiro de regressão cultural". O
cujos nomes i desnecessário mencionar, por serem sobejamente conheci­ mesmo jornal manifestava igualmente seu desprezo por certos "simulado­
dos (o que, por si só, já é bastante significativo). Desse modo, nesses cen­ res da adtura, quase sempre *intelectuais de esquerda’ que tentam, para
tros o controle absoluto exercido por seus “produtores" originais foi estas manifestações de primarismo, ousadas explicações sociológicas” (O
reduzido e esses candomblés não são mais a expressão de pequenos grupos Estado de S. Paulo, 1°I4I73).
localizados, mas de uma verdadeira cultura nacional. Entretanto, apesar da oposição que ainda possa existir em relação aos

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A H B 5 I S T Í N C I A CA RAÇA
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cultos (e que nâo deve ser subestimada, pois os cultos são ainda bastante tigo período dé “entressafra”, entre um carnavale outro, está todo ocupado
estigmatizados), está claro que o que era originalmente domínio dos ne­ com “ensaios" que atraem “turistas" da Zona Sul, que, por sua vez, forne­
gros de classe baixa foi transformado, em parte, pelos brancos das classes — 1
cem o dinheiro necessário ao pagamento da dívida contraída com a Zona
média e alta. Os produtores originais deste item cultural foram, em certa Sul. A autonomia da Mangueira como produtora de sambas e desfiles foi,
medida, destituídos de seu papel de liderança e relegados à condição de portanto, afetada pelos produtores da "cultura de massa" que, talvez sem
*extras“ adicionais. ^ querer, usaram seus recursos financeiros para garantir que o samba seja
produzido do modo como desejam, quando desejam. Goldwasser insiste
que os mangueirenses ainda são .“donos de si mesmos”, mas tenho a im­
SAM BA
pressão de que isto é uma ilusão. A interpretação que me parece mais ade­
quada é a de que, embora a gente da Mangueira aparentemente ainda
Não sou de modo algum um entendido em matéria de samba e sei que produza seu próprio samba e seu desfile, essa produção se faz no interesse
estou me arriscando a ferir suscetibilidades. Entretanto, os dados apresen­ de outro grupo, que denominei metaforicamente de “Zona Sul”. Como
tados por Maria Júlia Goldumser em seu livro sobre a Mangueira (Gol- ocorreu com o candomblé na Bahia, o samba não i mais simplesmente a
dwasser, Í97S) parecem-meUuficientes para os objetivos deste artigo. expressão cultural de um pequeno grupo localizado. Transformou-se num
Goldwasser mostra a estreita relação que existe entre samba e candomblé. simbolo nacional, e isto não apenas pela infiltração da Zona Sul em ativi­
Originalmente, quando o samba era produzido e consumido pelo povo do dades puramente culturais, mas pela sutil manipulação do capital. Quem
morro, era severamente reprimido pela policia e obrigado a se esconder no está financeiramente endividado torna-se politicamente dependente.
candomblé, então considerado um pouco mais aceitável. Mas, com o tem­ Até agora, enfatizei deliberadamente um lado da moeda. Tintei mostrar
po, a importância cada vez maior do carnaval provocou a transformação de modo muito esquemático como dais itens culturais, produzidos original­
da repressão em apoio explicito. As escolas de samba desceram legitima­ mente por negros, foram sutilmente adotados pela burguesia branca e trans­
mente pam as avenidas e o samba passou a ser consumido por uma popu- formados em instituições nacionais lucrativas (tanto econômica quanto
laçâo que ultrapassava em muito as fronteiras do morro, do R h de janeiro politicamente). Sugeri que os produtores originais desses itens culturais se
ou mesmo do Brasil. O carnaval se tomou uma atração turística lucrati­ transformaram, de certo modo, em empregados dos novos produtores e
estimuladores da “cultura de massa ”. Natumlmente, reconheço que esta visão
va. Goldwasser acredita que, apesar de tudo isso, a escola de samba da
simplificada não faz justiça a uma realidade que é muito mais complexa.
Mangueira ainda é produzida pelos mangueirenses. Entretanto, os dados
Nem todos os candomblés da Bahia estão sob as luzes da publicidade — na
que ela apresenta sugerem outra interpretação. Durante o período populista,
verdade, a maioria continua a funcionar sem o conhecimento (e o reconhe­
a Mangueira ganhou um terreno onde podia fazer os ensaios. Mais tarde,
cimento) da elite cultural baiana e dos turistas — e o samba ainda é produ­
esse terreno foi vendido à escola que, assim, endividou-se com o capital.
zido localmente, sem interesses financeiros diretos de fora. Além do mais, e
Mais tarde, a Mangueira decidiu construir seu Palácio do Samba. O proje­
nisso concordo com Goldwasser, seria ingênuo supor que o povo da Man­
to foi desenhado, financiado e executado pela "Zona Sul". Desde então, a
gueira perdeu toda a sua autonomia política e artística.
Mangueira tem se preocupado tanto com o pagamento de suas prestações
Voltando agora à anedota que contei no início deste artigo, cabe per-
quanto com a produção de um desfile de carnaval vitorioso. Agora, o an-
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RCtIR F*y A PERSISTÊNCIA DA RAÇA

< guntar por que i que, no Brasil, os produtores de símbolos nacionais e da O reitor, Zcferino Vaz, mantinha relações estreitas com os poderes cons­
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cultura de massa escolheram iterts culturais produzidos originalmente por tituídos, por meio dos quais “protegia” seus professores e alunos na me­
grupos dominadost E por que isto não ocorreu nos EUA e em outras socie­ lhor tradição do coronel ismo local.
dades capitalistas? Os símbolos nacionais da Inglaterra não se originaram Um aspecto interessante da constituição deste oásis é que a liberdade
na cultura das classes populares, e na Rodêsia não foram os brancos que de expressão era tanta que as bibliografias dos cursos dc graduação só
adotaram o Zimbábue como seu símbolo cultural nacional. continham livros c autores proibidos em outros lugares. Posso estar exa­
fítra falara verdade, acbo difícil respondera estas questões. Uma possibi­ gerando um pouco, mas 1embro-mc dc que os autores prediletos dos nos­
lidade é que o candomblé e o samba representavam os produtos culturais sos colegas e alunos de ciência política, sociologia e economia eram V.l.
mais originais do Brasil e eram, portanto, capazes de distinguir simbolica­ Lênin, Karl Marx, Louis Althusser, Rosa Luxemburgo, Leon Trotski, M.
mente o Brasil de outras nações latino-americanas e do mundo desenvol­ Pouiantsas ctc.... Nós, antropólogos, éramos considerados, por muitos,
vido. Outra interpretação possível, e a que realmente prefiro, é que a adoção “empiristas” na melhor das hipóteses e cientistas burgueses na pior. Mi­
desses símbolos era politicamente conveniente, um instrumento para ga­ nha perplexidade era grande. Afinal, era recém-chegado do “gueto” da
rantir a dominação, mascarando-a sob outro nome. Assim, o casamento antropologia britânica e nào tinha familiaridade com estes autores. Pus-
entre colonizadores portugueses e princesas negras em Moçambique, uma me a lé-los, mas com bastante dificuldade, confesso.
sagaz manobra política, foi interpretado pelos apologistas do colonialismo O resultado era uma espécie de fusão entre o marxismo vigente na
português como prova da ausência de preconceitos raciais. Gilberto Freyre, Unicamp c a antropologia social britânica. Se o primeiro falava da subor­
o supremo expoente da lusotropicologta, deduz da troca aparentemente dinação da superestrutura à infra-estrutura, a antropologia social britânica,
livre de traços culturais entre vdrios grupos étnicos a natureza essencial- herdeira sobretudo do durkhcimianismo importado por Radcliffe-Brown,
Y mente democrãtica da estrutura social brasileira. Penso, ao contrário, que subordinava o mundo do espírito (a cultura) ao mundo concreto e real
a conversão de símbolos étnicos em símbolos nacionais não só oculta uma das relações sociais, ou a “estrutura social." Tanto uma tradição como a
situação de dominação racial, mas torna muito mais difícil a tarefa de outra queriam explicar a cultura em função de algo considerado mais
denunciá-la. Quando se convertem símbolos de "fronteiras“ étnicas em “real"; no caso do marxismo, a infra-estrutura econômica; no caso da
símbolos que afirmam os limites da nacionalidade, converte-se o que era antropologia social, a “estrutura social." Quem tentava inverter esta rela­
I originalmente perigoso em algo “limpo”, "seguro" t "domesticado". Ago- ção era acusad^^ “cukumlista.” “ ” ‘
/ nj que o candomblé e o samba sãu considerados "chiques" e respeitáveis, Nada estranho, portanto, que eu entenda a feijoada de 1975/76 como
/ perderam o poder que antes possuíam. Não existe soul food no Brasil. algo que pertence ao mundo da “cultura" e que deveria ser entendido em
função das relações concretas, no caso, entre o que eu chamava ora de
“produtores de símbolos nacionais e da cultura de massa,” ora de “elite
C O M E N T Á R IO S 2 5 A N O S D E P O IS dominante”, ora de “membros brancos das classes média e alta”. De certa
forma, esta explicação decorria da maneira como tinira colocado minha
Nos anos 1970; a Unicamp era um oásis dc relativa liberdade de expres­ pergunta inicial. Em vez de me perguntar apenas por que a feijoada era
são num oceano de conformismo e conformidade com o governo militar. prato nacional no Brasil e prato dc negros nos Estados Unidos, perguntei: *\

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MUR FRV A P E K S t S J t N C I A DA RAÇA

“por que é que, 1 1 0 Brasil, os produtores de símbolos nacionais e da cultura Além disso, agradava por não poupar críticas ao então arquiinimigo
de massa escolheram itens culturais produzidos originalmente por gru­ dos intelectuais paulistas, Gilberto Freyre. Este, considerado um “cultu-
pos dominados? E por que isto não ocorreu nos EUA e em outras socieda­ ralista" além da conta e defensor da “democracia racial," teria que ser o
des capitalistas? Os símbolos nacionais da Inglaterra não se originaram na anárema dos marxistas. Mas, no meu caso, havia ainda mais um motivo \
cultura das classes populares, e na Rodésia não foram os brancos que ado­ de crítica, pois conheci este autor na década de 1960 através do que tal­
taram o Zimbábue como seu símbolo cultural nacional” (grifo meu). Esta vez seja a sua publicação mais ideológica, Portuguese Integration in the
pergunta não era teórica c ideologicamente inocente. Continha as semen­ Tropics, Este livro, publicado em Lisboa, explora a idéia de lusotro-
tes da sua resposta; era uma profecia que se cumpria na sua resposta; era picalismo para justifkar a permanência da colonização portuguesa na
uma tautologia perfeita. Eu era levado a pensar a sociedade brasileira como África. Tendo estado em Moçambique e me identificado com o movi­
V
dividida em dois atores coletivos, os poderosos brancos e os fracos ne­ mento anticolonial no país vizinho da Rodésia (agora Zimbábue), o li­
y gros, cada qual tentando tirar as vantagens possíveis a partir de um vro de Freyre era o ícone de tudo que era ruim na política portuguesa
y Y racionalismo supostamente universal. na África. É por isso, certamente, que eu aderia com tanta facilidade e
/ 1 ^ '
A diferença observada entre os Estados Unidos e o Brasil seria inter­ entusiasmo ao coro basicamente paulista contra as idéias de Gilberto 1
pretada em função de diferenças de ordem material entre uma domina­ Freyre. , \
ção mais forte que a outra. Os colonizadores britânicos, com seu poderio Espero rer deixado claro que a minha maneira de compreender os dois
econômico e técnico, não precisavam fazer aliança com seus conquista­ sentidos da feijoada se afinava com o meio social em que vivia na época A "
dos. Os colonizadores portugueses, por outro lado, por causa da sua rela­
}* Y
ao mesmo tempo que me mantinha fiel também à tradição antropológica ,
tiva fraqueza e pela falta de mulheres, eram obrigados a dominar por meio
da qual fazia parte. “Feijoada e soul f o o d é uma adaptação da antropo-
de casamentos com seus conquistados. Não conseguindo impor sua cul­
logia britânica estrutural-funcionalista ao marxismo do subtrópico cam­
tura sobre os dominados, seriam obrigados a optar pelo subterfúgio de
* pineiro5 da década de 1970. N o fim das contas, a adoção da feijoada, do
transformar a cultura dos dominados em cultura nacional. Portanto, a di­
candomblé e do samba como símbolos da identidade nacional brasileira
ferença entre os significados do mesmo prato, supostamente oriundo das
seria nada mais que um ato maquiavélico da sua elite branca dominante
mesmas circunstâncias da escravidão,’ seria explicada pelas diferenças de A "
para “ocultar” a realidade da dominação econômica e racial. A “função”
poder entre a colonização portuguesa e a colonização britânica.
da feijoada era manter o status quo, impedindo a percepção do racismo e,
Meu artigo de 1976 agradou bastante. Afinal, parecia ser até marxista
por consequência, o seu combate.
na sua orientação (de fato, esta ilusão foi criada pelo uso de termos como
Com o passar dos anos, conservei o meu interesse pelas relações ra­
“o capital,” “elite dominante” e coisas do gênero), e ao mesmo tempo
ciais no Brasil e pelas diferenças entre o que observava no Brasil e em ter­
sugeria pistas para o moderno movimento negro que aparecería dois anos
ras colonizadas pelos britânicos. Esta comparação tornou-se ainda mais
mais tarde com a fundação do Movimento Negro Unificado.

'Roberto DaMatta, numa resenha deste meu artigo, observou corretamente que a estrutura da 4De agora era diante apenas "Feijoada...
feijoada é de fato de origem portuguesa! *Atrave»a-»e o Trópico de Capricórnio nas estradas que ligam Sâo Paulo a Campinas.

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PUC» FRY A P E R S I S T Ê N C I A DA RAÇA

obsessiva quando, em 1989, fui morar por quatroanogno Ziinhàbug/ go de 1975/6 contém uma mal disfarçada crítica à sociedade brasileira, o
Cada vez que ia a Moçambique, chegava ao aeroporto de Maputo com se de 1991 parece bem mais crítico em relação à empreitada colonial britâ­
estivesse chegando ao Rio de janeiro. N o Zimbábue, a linha entre as “ra­ nica. Como observou corretamente Fernando Rosa Ribeiro na época, eu
ças” era muito clara. Tive que me conformar cm ser visto apenas como me tornara um “nacionalista” brasileiro!8 Mas, principalmente, penso que
\ / y
homem branco, ponto. Em Moçambique, a linha era um pouco mais con­ o que mais tinha mudado era a minha maneira de fazer antropologia. Tendo
fusa e me senti úm homem branco, vírgula. Nesse período escrevi um pe­ emigrado da Inglaterra para o Brasil, tive contato não só com o marxismo
queno texto tentando comparar o Zimbábue com Moçambique, fazendo campineiro da década de 1970, mas também com a antropologia estrutu­
o paralelq com uma comparação entre os Estados Unidos e o Brasil que ral francesa e os trabalhos de Marshall Sahlins, que estudei com entusias­
apresentei na 43a. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progres­ mo durante os anos de 1982/3, quanSõYuI^pTofessor visitante no Museu
so da Ciência, no Río de Janeiro, em 1990 (Fry, 1991). Nacional do Rio de Janeiro. Cheguei a dar, junto com Yvonne Maggie,
Mas este trabalho é bastante diferente de “Feijoada c soul food", pois um curso de teoria antropológica, no qual acompanhamos a carreira de
desta vez a “cultura” não aparece como epifendmeno da “estrutura social^ i jiahlms, que começa num determinismo ecológico e prossegue, depois de
ou da economia, mas como instauradora de modos específicos de coloni - j um período com Claude Lévi-Strauss em Paris, rumo a uma antropologia t A
zaçâoy Em vez de considerar a colonização portuguesa apenas como uma cada vez menos presa às determinações da infra-estrutura. Ao mesmo tem-j
versão mais pobre da colonização britânica, afirmei que as duas coloniza­ po, tive o prazer de mc familiarizar com os trabalhos de Louis Dumónt,
ções obedeciam a lógicas distintas. Se a ênfase nas colônias britânicas re­ que me tornaram muito mais radical nas minhas comparações. Tentava,
caía na segregação racial, a ênfase formal nas colônias portuguesas recaía ao menos, evitar interpretar o Brasil por meio das categorias do mundo
na assimilação. Desta forma, eu me aproximava da minha antiga nêraesis, anglo-saxão! Mais tarde prossegui neste caminho, escrevendo um artigo
Gilberto Freyre.7 sobre os perigos de se misturar categorias “nativas” com categorias “analí­
Por que esta mudança? Em primeiro lugar, o fim da ditadura militar ticas” na análise do racismo à brasileira (capítulo 6). N o mesmo ano, escrevi
no Brasil, e o colapso do bloco soviético traziam novos ares ao mundo e uma resenha do livro sobre o movimento negro brasileiro do americano
possibilitavam um olhar bem menos complacente com o “socialismo real.” Michael Hanchard (capítulo 5), em que desenvolví a mesma crítica ao tra­
Mas, ao mesmo tempo, confesso que preferia a sociedade moçambicana à balho dele que agora faço ao meu “Feijoada e soul food".
sociedade zimbabuana. A primeira parecia permitir o estabelecimento de Mas há outros acontecimentos que contribuíram para esta mudança de
uma identidade individualizada, em contraste com a segunda, em que me perspectiva, em particular a crescente sofisticação na análise de duas insti­
sentia constantemente prisioneiro da minha suposta “raça.” Se meu arti- tuições que são fundamentais paia o meu argumento em “Feijoada...”, es­
pecificamente o samba e ©candomblé. Beatriz Góes Dantas, que era nossa
aluna na Umcamp, escreveu sua tese de mestrado, mais tarde publicada em
‘Neste período, chefiei a filial do Zimbábue do escritório da Fundarão Ford em Nairobi. Era
responsável também pelo programa de educação, cultura e direitos humanos da Fundação em
Moçambique.
?Crcio que fiz as pazes com Gilberto Freyre num arngci recente sobre a mesma problemática. “Na época nào concordei com Fernando, ficando até bastante aborrecido com o seu comentá­
Fry, P. (2000). “CuUures of Difference: tbe aftermath of Portuguese and British colonial poli­ rio. Agora reconheço que a minha tentativa de enxergar poMtividade no arranjo brasileiro tem
cies in Southern África.- Social Antbtopt/logy S(2): 117-144. algo a ver com a minha opção de viver e fazer carreira neste país.

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1 60
n u n n r
A P Í RS t S T í NC I A DA RAÇA

■C livro (Dantas, 1988) sobre as religiões afro-brasileiras, comparando a cida-


1995). Começando coiii uma leve (podería ter sido bem mais pesada) crí­
j de de Laranjeiras, em Sergipe, com a cidade de Salvador, na Bahia. Obser­
tica de “Feijoada”, Vianna mantém a pergunta (por que o samba setÕiP
vando que noções de pureza e de mistura diferem radicalmente de um lugar
nou música nacional?), mas faz uma análise radicalmente diferente,
para outro, ela afirma que o campo afro-brasileiro se constrói na relação 'pretendo mostrar como a transformação do samba em música nacional
entre os negros e os brancos dominantes, tanto governantes quan to intelcc-
não foi um acontecimento repentino, indo da repressão à louvação em
mais, tanto “repressores” quanto adeptos. Mais tarde, Yvonne Maggie, que
menos de uma década, mas sim o coroamcnto de uma tradição secular dc
já tinha observado a relação entre os intelectuais e a consolidação da “pure­
contatos [,..] entre vários grupos sociais na tentativa de inventar a identi­
za nagô” como padrão no campo religioso afro-brasileiro Q/elho, 1975),
dade e a cultura popular brasileiras. Não é níínha intenção negar a exis­
aprofundou o estudo sobre a relação entre os cultos afro-brasileiros e a
tência da repressão a determinados aspectos dessa cultura popular (ou
sociedade que os envolve, estudando a repressão c a defesa de determina­
dessas culturas populares), mas apenas mostrar como a repressão convi­
dos praticantes e terreiros na justiça carioca na virada do século XIX. Em
via com outros tipos de integração social, alguns deles até mesmo contrá­
Medo do feitiço (Maggie 1992), Maggie afirma que a crença no candomblé
é generalizada na sociedade. Aprendemos como jufzes, advogados e prati­
rios à repressão". (Vianna, op. cit., p. 34).
Creio que a grande diferença entre os autores que citei e meu próprio A
A
cantes do espiritismo e do candomblé compartilham as mesmas crenças e trabalho mais recente, por um lado, e “Feijoada...", por outro, está na /<
como todos têm o mesmo interesse em extirpar os “charlatics", deixando maneira de lidar com a “mestiçagem” cultural e biológica no Brasil. Em
( intocados os praticantes supostamente honestos. Apoiando-se nas etnograhas
“Feijoada...", a mistura e a ideologia do não-racialismo são tratados como A
| de Nina Rodrigues e de João do Rio, Maggi e mostra como eu estava errado mentiras que “ocultam" uma realidade mais concreta. Nos trabalhos dos *
ao sugerir que a “elite dominante” brasileira transformava, cínica e cons­ autores que citei e nos meus trabalhos mais recentes, os ideais de mistura /
cientemente, o candomblé em símbolo nacional. Fazia parte! Como afir­ e de nâo-radalismo são tão concretos e reais quanto os desejos de pureza
mava Nina Rodrigues, os políticos baianos iam aos terreiros não só atrás de e racismo. No final de “Feijoada...", concluí que “a conversão de símbo­
votos de cabresto, mas, e sobretudo, atrás da proteção dos orixás, que con­ los étnicos em símbolos nacionais não apenas oculta uma situação de
sideravam absolutamente fundamentais para qualquer vitória.
dominação racial mas torna muito mais difícil a tarefa de denunciá-la.
Ou seja, após os trabalhos de Dantas e Maggie, era impossível continuar
Quando se convertem símbolos de “fronteiras" étnicas em símbolos que
1 a pensar o Brasil como um país composto de dois atores coletivos estan-
afirmamos limites da nacionalidade, converte-se o que era origínalmente
j ques (elite/povo ou brancosfnegros), cada qual com os seus interesses, que perigoso em algo “limpo”, “seguro" e “domesticado”” (minha ênfase ago­
j determinavam os contornos da “cultura nacional”. Evidentemente, trata­ ra). Nós todos sabemos agora que nada "ocultou" 0 racismo no Brasil.
va-se de uma sociedade era que todos compartilhavam conceitos e pre­ TodoíãsTpesquisas recentes indicam que mais dc 90 por cento dos brasi­
missas culturais básicos. Os candomblés, as macumbas, os espiritismos
leiros de todos os matizes reconhecem a existência de racismo no pafs.*
contemporâneos são o resultado de embates e negociações entre elite e
povo, brancos e negros, letrados e iletrados ao longo do anos.
Esta perspectiva analítica foi desenvolvida de modo muito feliz no ceino *Vcja, por exemplo, uma pesquisa promovida pelo jornal Folha de S. tüalo, Turra, C. e G,
\fetmiri, org. (1995). Raciono cordial: A mais completa análise sobre o preconceito de cor no
do samba por Hermano Vianna no seu livro O mistério do samba (Vianna,
Brasil, SSo Paulo, Editora Ática.

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163
P I T I R f * Y
A P E R S I S T Ê N C I A O * R A Ç A

Também não tem sido difícil denunciar o racismo, se levarmos ém conta difícil de achar. Quero terminar com um sentimento que provém da ex­
o crescimento do número de organizações dedicadas ao combate ao ra­ periência de conviver com ingleses, americanos, brasileiros e africanos a o _
cismo no país, e se lembrarmos que o próprio governo agora reconhece o longo dc uma vida de já quase sessenta anos. Os ideais de não-racialismo *
racismo no Brasil (Cardoso, 1995). Então, se a incorporação dc “coisas” e da libertação do indivíduo de qualquer determinação “racial,” que no
supostamente de origem africana na hagiografía brasileira não esconde Brasil se tornaram a ideologia oficial por muitos anos e que formara a visão j
/ nada, o que é que revela? Revela, penso eu, que o Brasil vive uma tensão de mundo de muitos brasileiros até hoje, são valores cada vez mais raros ;
constante entre os ideais da mistura e do não-racialismo (ou seja, a recusa no mundo contemporâneo. Contra as obsessões étnicas e raciais que têm
J em reconhecer “raça" como categoria de significação na distribuição de produzido os mais terríveis conflitos e a maior mortandade humana na
t juízos morais ou de bens e privilégios) por um lado, e as velhas hierarquias história recente, vale a pena levar estes ideais a sério.
-p raciais que datam do século XIX do outro. O primeiro ideal, freqiien-
temente chamado de “democracia racial,” é considerado politicamente
correto (ninguém quer ser chamado de racista). A outra idéia, a da inferio­
ridade dos negros, é considerado nefasta, porém reconhecida como lar­ Bibliografia
gamente difundida. Esta tensão nos ajuda a pensar na co-existência da
repressão e da paixão pelo candomblé e pelo samba ao longo da história Brown, D.D. Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazit. Nova York;
recente do país. Visto desta maneira, a democracia racial é um mito no Columbia Umversity Press. 1986.
sentido antropológico do termo: uma afirmação ritualizada de princípios Cardoso, RH. “Discurso do Senhor Presidente da República.” !n Direitos huma­
* r
considerados fundamentais à constituição da ordem social. E, como todos nos: novo nome da liberdade e da democracia. Brasília: Presidência da Repú­
os mitos, não deixa de ser desmentido com uma freqüência lamentável. blica. 1995.
Se fiquei convencido de que a interpretação em “Feijoada...” &baslca- Dantas, B.G. Vovó Nagô e Rapai Branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de
í mente falha, não nego que, para a maior parte do movi mento negro e para Janeiro: Graal. 1988.
grande parte dos intelectuais interessados no tema das relações raciais, ela Douglas, M. Purity and Danger: AnAnalysis af Concepisof Pollution and Taboo.
Londres; Routlcdge 8c Kegan Paul 1966.
continua mais ou menos aceitável. Eles continuam pensando que os ar­
Freyre, G. Portuguesa Integration In The Tropics. Lisboa. 1961.
ranjos brasileiros de “mistura” e “democracia racial" apenas escondem uma
Fry, R “Feijoada c Soul Food: notas sobre símbolos étnicos e nacionais.” Cader­
“realidade” que fica muito próxima da “realidade” raciarSos Estados
V nos de Opinião A. 1976.
Unidos. Um exemplo clássico da hegemonia desta forma de interpretação
----- ■. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Coleção Antro­
y é um coletânea de artigos que saiu no ano passado com o título Tirando a pologia Social), Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1982.
máscara: ensaios sobre o racismo no Brasil (Guimarães 8t Huntley, 2000). - — . “Politicamente correto num lugar, incorreto no outro? (relações raciais no
'' A máscara é, sem dúvida, a “democracia racial”, que, como a feijoada, o Brasil, nos Estados Unidos, em Moçambique e no Zimbábue).” Estudos Afro-
candomblé e o samba, “oculta” a opressão racial no Brasil. Asidticos, 167-97. 1991.
— Eles podem estar certos. Afinal, o que este artigo procura mostrar é ------“O que a Cindereia Negra tem a dizer sobre « ‘Política Racial’ no Brasil.”
que as interpretações vão e voltam, e que a “verdade” fica em algum lugar Revista USP 2 8 ,122-135. 1995a.

t « 4
16 5
t
Palavras Finais

Os antropólogos são os cartógrafos da diferença cultural, construindo as


suas teorias sobre a variedade de formas de organização social e de siste­
mas de representação revelados no e engendrados pelo encontro colonial
e, mais recentemente, na proliferaçãõT3é~novas e velhas identidades que
surgein no bojo da globalização. Mas quase sempre, como que por ossos
de um ofício que nasceu em grande parte como crítica ao colonialismo, a
ênfase dos antropólogos recai na experiência de redes, comunidades e
identidades “subalternas" ao poder dominante. Os antropólogos, porém,
raramente se preocupam com a diversidade cultural das próprias nações
imperiais. S
Neste livro, tratei, sobretudo nos primeiros capítulos, as empreitadas j
coloniais e os estados modernos também como instâncias de “diversidade
cultural”. As maneiras pelas quais os britânicos e portugueses lidaram com ;
as diferenças de cultura e dc aparência física dos seus súditos obedeceram
a imperativos culturais distintos. Os britânicos construíram as suas colô­
nias celebrando (e até produzindo e exacerbando) as particularidades cul- '
turais dos seus súditos. Os portugueses embarcaram num processo de
sedução cultural, imaginando, pelo menos, um mundo onde todos seriam
portadores da cultura portuguesa. A lógica do sistema britânico levou a
Jim Crow e ao Aparthcid no passado, e a solidariedades “étnicas" e “ra­
ciais” no presente. Hoje essa é a lógica que impera nas organizações inter­
nacionais as mais diversas. A lógica do sistema português levou a um j
sistema de escravidão assimilacionista no passado e a um ideal de “demo­
cracia racial" até muito recentemente. É uma lógica com quase nenhuma

3 3 S
A MB5I5TÊMCIA OA RAÇA
PSJER f *r

que prevê a universalização desta prática. Onde há cotas, os candidatas


ressonância nos foros internacionais contemporâneos, dominados como
ao vestibular cncontram-se obrigados a sc definirem como negros ou n$o
são por portadores da tradição anglo-saxônica.
(brancos?). Em duas universidades, a Universidade Estadual de Mato Gros­
Apesar dessas diferenças entre as culturas coloniais, os resultados
so do Sul (UEMS) e a Universidade de Brasília (UnB), candidatos a vagas
materiais foram surpreendentemente semelhantes. As antigas colônias dos
reservadas para negros devem apresentar fotografias para confirmar o séu
portugueses na América Latina e dos ingleses na África são hoje socieda­
status racial. Em junho de 2004, candidatos ao vestibular da UnB forma­
des campeãs de desigualdade social e racial. Brasil, África do Sul e
ram duas filas, uma para negros e outra para o resto (brancos?). Os pri­
Zimbábue encontram-se entre as onze sociedades mais desiguais do pla­
meiros foram fotografados. As fotografias foram analisadas por uma
neta,'com coeficientes de gini2 de aproximadamente Õ,59 para Brasil e
comissão, formada por um estudante, um sociólogo, um antropólogo e
África do Sul e 0,57 para Zimbábue.
trés representantes do movimento negro, que rejeitou 212 dos 4.385 can­
Como tenho tentado demonstrar, para enfrentar as desigualdades so­
didatos. Desses, 34 entraram com recurso e foram entrevistados por uma
ciais e “raciais’’ as ex-colônias britânicas embarcaram em programas de
segunda comissão, que, após entrevistas para determinar o pertencimento
ação afirmativa que sâo formal e logicamente consistentes com as políti­
racial dos candidatos, ratificou 21 como negros. Como observaram Mar­
cas anteriores de segregação racial. Nos Estados Unidos, por exemplo,
cos Chor Maio c Ricardo Ventura Santqs, o trabalho das comissões, o
havia um largo consenso sobre a identidade racial ou étnica dos cidadãos.
“tribunal racial” da UnB, pode ser dividido em dois tempos: “o primeiro,
A ação afirmativa não apresentou nenhuma mudança mais radical na
foi o da equipe da ''anatomia racial’; e o segundo, o da sessão de 'psicolo­
maneira pela qual os americanos se imaginavam como nação dividida em
gia racial’” (Maio e Santos, 2005).
categorias raciais ou étnicas mais ou menos estanques. Mais recentemcn-
Como observei no momento da implementação das cotas na UnB, há
te, o Brasil embarcou nesse caminho. Aqui a ação afirmativa não veio so­
r

uma lição importante nessa história (Fry, 2004a). As cotas raciais têm como
a

mente para compensar os negros pelo passado de escravidão e pelo presente


-

consequência lógica a definição de quem tem e quem não tem direito ãs


da discriminação. Veio desfazer a “mistura racial" para produzir só duas
vagas reservadas para negros, ou seja, quem é negro c quem não o é. Essa
raças. Antes uma sociedade de classes que recusava reconhecer as identi­
definição é relativamente fácil numa sociedade onde há largo consenso
dades raciais, o Brasil é agora imaginado como uma sociedade de “raças”
sobre quem é quem racialmente, como nos Estados Unidos ou na África
e “etnias” distintas. As políticas de ação afirmativa racial terão a conse­

I m
do Sul, por exemplo. Mas, no Brasil, onde as definições raciais e de cor
quência de estimular os pertencimentos “raciais” e “étnicos”, assim forta­
sâo notoriamente situacionais, ambíguas e imprevisíveis (os defensores de
lecendo a crença em raças.
cotas talvez quisessem que não fossem tão ambíguas assim), c onde não
Onde este processo fica bastante claro é na implementação das cotas
raciais em algumas universidades e na proposta de reforma universitária
| há critérios objetivos para determinar a raça de ninguém, ficou decidido
que a identidade racial seria autodeclarada. N os debates sobre essa ques­
tão, os mais engraçados defensores das cotas escamotearam a questão da
'Foi Antonio Sírgio Guimarães que chamou a minha a atcnçio para case fato. Surpreendente-
definição racial, sugerindo a formação de comissões compostas de poli­
mente, o coeficiente de Moçambique foi estimado em apenas 0,4, mas a base esradstica para
o cálculo í muito frágil. ciais e donos de restaurantes. Ninguém os levou a sério. Mas os candida­
*0 coeficiente de gini — que varia de 0 para 1,0 — mede o grau de desigualdade de renda. tos às vagas da UnB se encontraram perante uma comissão “formada por
Quanto maior o valor do coeficiente, maior a desigualdade.

3 3 7

3 3 6
y e » e * m y
A PERSISTÊNCIA OA SAÇA

membros de movimentos ligados à questão da igualdade racial e especia-^ mental Arco íris, Ana Paula Prado, afirmou que “[a] doença começou a
listas no tema". O estabelecimento de comissões de experts é uma conse- ter a cara do Brasil. Ataca pessoas pobres, de baixa instrução e nos lugares
qüência lógica de uma política que exige a definição dos candidatos em mais distantes dos grandes centros",
duas categorias raciais estanques. A lógica £ prístina. Como assinalaram Se a Aids “não é uma doença associada à raça negra”, cabe perguntar
com toda propriedade Chor Maio e Ventura Santos, “[o] vestibular da UnB então sobre a ênfase dada ao crescimento entre os negros. Que interesse
transformou-se ern uma espécie de ‘pedagogia racial’, de conversão podería haver em criar, por assim dizer, mais um grupo de risco? E o que
identitária de pardos e pretos em negros, culminando no trabalho da podería estar acontecendo quando Pedro Chequer afirma num lugar (O
Comissão encarregada de. identificar os ‘verdadeiros’ beneficiários das j Globo) qce “Aids não é uma doença associada à raça negra", e, em outro
cotas” (Ibid.). (O Estado de S. Rwlo), que “é preciso criar trabalhos de prevenção dirigi­
O mais recente exemplo desta pedagogia racial (para quem teme a dos à população negra”?
persistência da raça) é ura novo programa de combate a HIV/Aids dirigi­ Essa pergunta toma-se mais instigante ainda perante o lançamento,
do aos “negros”, que vem no sentido de prestar mais verossimilhança à no mesmo dia Internacional de Luta contra Aids, do Programa Integrado
minha análise da anemia falciforme feita no capítulo 9.1 N o dia 1° de de­ de Ações Afirmativas para Negros (Afroatitude), uma parceria entre o
zembro de 2004, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, O Globo e muitos Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, a Secretaria
outros jornais noticiaram o Boletim Epidemiológico da Aids de 2004, di­ Especial de Direitos Humanos da Presidência da Repúbiica, a Secretaria
vulgado no dia anterior pelo Ministério da Saúde. Quase todas as man­ de Estado de Promoção da Igualdade Racial e a Secretaria de Ensino Su­
chetes enfatizaram o crescimento da doença entre mulheres e negros. perior do MEC, com financiamento do DFID, o braço desenvoivimentista
O avanço da Aids entre as mulheres tem sido notado faz muito tempo do governo britânico. O programa prevê 500 bolsas para jovens negros
e tem a ver certamenté com a transmissão heterossexual num país onde universitários cotistas para “pesquisar a relação entre a epidemia e ques­
muitos homens mantêm relações sexuais com homens e mulheres, e ainda tões sociais, econômicas e culturais dos afro-descendentes”. Ou seja, o
com a dificuldade que as mulheres têm de exigir que seus maridos usem Ministério da Saúde, contrariando a opinião do seu diretor do Programa
camisinhas. Mas o que me chamou a atenção nas manchetes foi o aumen­ Nacional de DST que a Aids “não é uma doença associada à raça negra",
to entre “negros e pardos”, sobretudo quando duas pessoas altamente bein- parte da hipótese de que “questões socioeconômicas e culturais dos afro-
informadas viram o aumento da doença entre os pobres. O diretor do descendentes" são importantes para entender o curso da epidemia. E ain­
Programa DST/Aids do Ministério da Saúde, Pedro Chequer, teria dito da acha que quem terá que descobrir esses supostas fatores serão os jovens^
que “a Aids não é uma doença associada à raça negra, tanto que a maioria c pobres alunos negros cotistas de seis universidades públicas. Os jornais
dos casos registrados é de gente branca, (...) a população negra de mais que deram tanta ênfase ao aumento de casos entre negros e pardos, e o
baixa escolaridade é mais desinformada e, portanto, mais exposta à doen­ Governo Federal, que incentiva pesquisa sobre as “questões socioeco­
ça". Por sua vez, a presidente da organização homossexual uão-governa- nômicas e culturais dos afro-descendentes”, sugerem que há algo de espe­
cífico entre os negros que os corna agora (antes não) mais suscetíveis à
*Ai palavras que seguem foram retiradas de um artigo que publiquei sobre essa questão no
doença. Não consigo imaginar o que podería ser este “algo". Só posso
jornal O Globo cm 15 de dezembro de 2004 (Fiy, 2004b) supor à luz dos meus argumentos ao longo deste livro que a criação de

33 B 3 3 9
A M R S I I t t N C I A OA * A ( A

mais um grupo de risco terá como consequência o fortalecimento da crença negros e mestiços, há cada vez mais gente negra e mesriça “fnra â m au
!ugar", sobretudo no mercado de trabalho, mas também nas universida­ r
em raças. *
É necessário reconhecer a relevância do fator “raça" onde realmente des e nas profissões liberais (Lima, 2001). São esses os que mais criticam
tem importância, como a insidiosa discriminação racial, sobretudo. Ao o irüto da democracia racial na medida em que enfrentam o mal-estar do
imputar “questões culturais” para o alastramento de ura vírus entre ne­ racismo disfarçado nos lugares antes ocupados quase que unicamente por
gros pobres (e não brancos pobres), o governo brasileiro tomou mais um brancos, soi disant. Como bem observou Costa Pinto, esse processo já-
passo no sentido de “naturalizar" a “raça” e a “cultura” negras. estava em curso na década de 1940 (Pinto, 1953). O mito só gozava de
•* Alguns leitores estão provavelmente se perguntando o que proponho. um apoio geral quando tudo era hierárquico e havia apenas um pequeno
para combater a discriminação racial como alternativa às políticas racia- número de negros de status alto: suficientes para garantir a plausibilidade
lizadoras. do mito, mas poucos demais para colocá-lo em questão.
O que os capítulos deste livro sugerem é que quando os Estados O que fazer então? Não vou opinar sobre o que podem fazer as orga­
racializam, criam (e, repito, não apenas refletem) divisões muito difíceis nizações da sociedade dviL Elas, evidentemente, vão seguir os ditames de
de serem eliminadas. Eis o drama da antiga Iugoslávia, de Ruanda, seus membros e financiadores. Além disso, têm um alcance limitado e só
Zimbábue e da África do Sul. Sugerem também que a idéia de democracia atingem o conjunto da sociedade quando conseguem fazer com que as suas
racial está longe de ser destituída de interesse c que, em princípio, é per- idéias sejam largamente aceitas e/ou adotadas pelo Estado.
feitamenre coerente com a democracia tout court. O desafio, me parece, Tampouco me cabe comentar a agenda dos ativistas negros (eles pró­
é saber como reconhecer a defasagem entre os ideais da democracia racial prios organizados em ONGs), que lutam legitimamente em prol de seus
e a realidade do racismo e da desigualdade racial. Como manter o grande J objetivos de fomentar uma “consciência racial” e de acelerar a mobilida­
ideal de uma sociedade anti-racista e até a-racista num Brasil cada vez mais de social da classe média negra a curto prazo. Queria, sim, engajar os res­
igualitário e cada vez menos hierárquico? Como transformar uma ideolo­ ponsáveis pelo desenho das políticas governamentais. Argumento que as
gia velha, na época da sua consolidação revolucionária, mas hoje, do ponto políticas que visam à redução das desigualdades raciais e a discriminação
de vista do movimento pró-negro, caduca, em uma inspiração para um racial não podem ser avaliadas apenas em termos da agenda dos ativistas
futuro tão distinto do passado que a gerou? — negros, ou seja, dos possíveis avanços spciaisdos poucos ou muitosjne-
Talvez seja realmente impossível. A democracia racial perdeu legitimi­ gros que ela acarretaria. Elas deveríam ser avaliadas nos seus possíveis’
dade até como ideal a ser atingido e há uma verdadeira sanha de enxergar efeitos sobre o conjunto da sodedade.jTenho argumentado (e tenho cita­ t '
raça, mesmo onde não se aplica. do váriosbfãsnèlroacom a mesma opinião) que há um sério risco de que
Roberto DaMatta sugere persuasivamente que o racismo à brasileira e as políticas de ação afirmativa que exigem a definição racial dos cidadãos,
a “fábula das três raças" que sustenta são apropriados a uma sociedade, e que atribuem especificidade mórbida à “raça negra”, resvalem para a
hierárquica na qual cada pessoa “sabe do seu lugar" (DaMatta, 1981). Com [ produção de tuna cisão racial cada vez mais palpável, É“possível que as
õ^escTrnêhVo dê valóres igualitários próprios a uma sociedade liberal de medidas já tomadas venham a ter ou já tenham tido esse efeito. Afinal,
consumo, sobretudo no período pós-militar, que também viu uma enor- / nenhum vestibulando escapará da obrigação de declarar a sua “raça” na
me expansão no ensino médio e, portanto, a mobilidade social de muitos í hora da inscrição. Mesmo assim, vale observar que havia, e ainda há, ou-

* 4 1
MTC*
* FRY A PtltSISTtttCIA OA RAÇA

tras maneiras de promover o avanço social dos cidadãos negros e pobres Evid entemente o custo dc um choque dc qualidade nos territórios
sem fomentar a cisão racial e, ao mesmo tempo, solapando a crença em pobres do país £ vultoso, ao contrário da política de cotas cujo custo é
raças e o preconceito e a discriminação raciais que estão na base das desi­ quase zero. Para o Estado, não custa praticamente nada implantá-las. É
gualdades observadas. difícil levar a sério a idéia de que a reparação dos danos de SOO anos de
Entre os defensores das cotas raciais nas universidades corre solta a escravidão e discriminação pode ser efetuada sem um investimento imen­
<
noção de que as polfticas universais não surtiram efeito. Afinal, as desi­ so dc recursos humanos e materiais. Os defensores das coras também fa-
gualdades sociais e raciais continuam inalteradas faz muito tempo. Gosta­ lam a favor de políticas territoriais, muitas vezes argumentando que as
ria de sugerir, ao contrário, que polfticas verdadeiramente universais nunca cotas representam uma medida apenas temporária que aumentará o ta­
foram experimentadas, ou, quando foram, duraram pouco. Mesmo manho da elite negra a curto prazo. As evidências de outros lugares do
Fernando Henrique Cardoso e seu Ministro de Educação, Paulo Renato mundo sugerem que ação afirmativa deste tipo, uma vez implementada,
de Souza, reconheceríam que a universalização do ensino fundamental que tende a se aprofundar e nunca a se extinguir (Sowell, 2004). Cria-se um
eles conseguiram implantar não foi igual para todos. As melhores escolas efreulo vicioso. Os membros das raças/etnias que a ação afirmativa pro­
públicas continuam nos territórios dos cidadãos mais abastados e, por­ duz e fortalece identificam-se tanto com a ação afirmativa, que temem
tanto, mais claros. A grande experiência de Darcy Ribeiro4 de levar esco­ por sua sobrevivência caso venha a ser reduzida ou extinta.
las de qualidade para os territórios mais pobres e negros do Rio de Janeiro A questão do acesso às universidades públicas tem que ser levada muito
na década de 1980 não teve continuidade. Urge, portanto, um massivo a sério. Algumas experiências não racializadoras já estão em andamento:
investimento de recursos materiais c humanos nos lugares de maior con­ os cursos pré-vestibulares para alunos carentes, o estabelecimento de campi
centração de pobreza e negritude. Este tipo de política, que é adotada na em zonas mais pobres (USP) e a abertura de cursos noturnos. Todas essas
França, cuja constituição proíbe políticas dirigidas a “comunidades”, não práticas já começam a surtir efeito. Há vozes que levantam dúvidas sobre
é “racialmente neutro”1, já que a conseqüência de investir em territórios os próprios exames de admissão (vestibular e Enem). Não havería outros
f
pobres é beneficiar predominantemente pessoas negras sem incorrer na métodos para averiguar aptidões para o ensino superior?
racializaçdo que decorre de políticas dirigidas a “grupos raciais". Embora Uma vez dentro das universidades, surge, sobretudo para os alunos ,
haja muitos defensores dessa forma de agir, mesmo entre alguns defenso­ mais pobres de todas as cores, o problema da permanência. Para alguns
res das cotas (veja capítulo 10), o fato do sistema de cotas ter dominado o alunos (também de todas as cores), rebentos de famílias abastadas que
debate parece eximir quaisquer esforços neste sentido.4 investiram pesadamente na sua educação até o pré-vestibular, a educação
universitária representa uma espécie de estorno de impostos. Chegam à
*0 governo Brizota nessa época pregava um "socialismo moreno*. faculdade em carros reluzes que lotam os estacionamentos. Os alunos mais
*Esse conceito é tle Williain G. Bowen e Dcrek Bok tio seu livro The Shape ofthe Rxuer: Long•
term Consequenees of Ctmsidering Race m Coüege and Univeriity Admissions,
pobres (estatísticas recentes revelam que são muito mais numerosos do
‘As cotas destinadas a alunos que estudaram em escolas públicas têm um efeito semelhante às que imaginávamos) mal conseguem arcar com as despesas com transpor­
polfticas dirigidas a territórios, porque atingem prcdonunaiuenieutc pessoas mais escuras. Como
te público, manutenção e material escolar, o que prejudica e atrasa a sua
mostrei no capitulo 11, a partir do trabalho de Elidma Machado (Machado, 2004), a maioria , , *
dos negros que entraram na Uet j no vestibular de 2002 o fez sem recorrer a qualquer cota, ou formação. Não seria razoável propor que os mais abastados pagassem
por meio da cota reservada para egressos de escolas públicas. mensalidades ou que se introduzisse ura sistema “Robin Hood” através
i l ^
' ^ -7 l V
342 14 3
P T f R M V

A rtüSlITtNCI* D* RAÇA
é

do qual as famílias abastadas contribuíssem para um fundo que financias­


da Aids, mobilizou o que h í de melhor da comunidade publicitária e foi
se os alunos mais pobres? eficaz em sensibilizar a população sobre os mecanismos de transmissão do
Os defensores das cotas e os seus críticos concordam num ponto fun­
HIV/Aids. Mesmo que os desafios relativos ao controle da epidemia ainda
damental: a discriminação racial em todas as suas formas, mais ou menos
sejam significativos a campanha publicitária, associada ao trabalho das
sutis, mais ou menos internalizadas, é responsável pela reprodução das
ONGs foi bastante eficaz em informar a população, levando a uma certa
desigualdades raciais. Logicamente, portanto, a única maneira realmente
modificação dc comportamentos sexuais. Por que não lançar mão da inte­
eficaz de atacar a raiz da desigualdade racial é erradicar a crença em raça»
ligência e criatividade dos inagos publicitários para combater a crença cm
que a torna possível. Toda política que aumenta e celebra a crença em raças / y '
' taças, a crença nociva na relação entre aparência e/ou genealogia e determi­
(cotas, por exemplo) contribui a longo prazo para a persistência do racis­
nadas capacidades físicas, morais e intelectuais?
mo e a possibilidade do preconceito e da discriminação. Segue, portanto,
Volto, finalmente, ao papel da educação formal. Em resposta a velhas
que o caminho para a diminuição da discriminação racial passa necessa­
reivindicações do movimento negro, o governo tomou obrigatório o en­
riamente por políticas que desqualificam o mito da raça, dissociando as
sino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Em linhas
aparências e a ascendência familiar das pessoas das suas eventuais quali­
gerais, a idéia é louvável, porque visa a equilibrar o ensino da história. O *
dades e defeitos. i Parecer do Conselho Nacional de Educaoão7 e mitido em março de 2004
Uma maneira de solapar a crença em raças ê aumentar cada vez mais a
define o espírito da lei e determina a sua implementação^ Não obstante,
presença de negros e mestiços na mfdia no sentido de combater a precon­
esse documento 6 um exemplo contundente do como o Estado propõe
ceituosa correlação entre cor e os lugares do esporte e da pobreza. Em al­
exacerbar a racialização da sociedade em vez de debelí-Ia.Tmbora reco­
guns lugares, como Rio de Janeiro e Salvador, por exemplo, há uma política
nheça que raça é uma construção social,* quase todas as medidas propos­
dc cotas para negros e mestiços na publicidade oficial (Silva, 2000). Cotas
tas, em vez de combater a crença em raças e diminuir a sua precminência
deste tipo seriam desnecessárias se houvesse uma maior sensibilidade por
na vida social, fazem o contrário. Aliás, depois de ter afirmado que a “cons­
parte dos governos, comerciantes publicitários e administradores dos ou­
ciência política c histórica da diversidade” deve conduzir à “igualdade
tros meios de comunicação de massa, mostrando cada vez mais negros e
básica de pessoa humana como sujeito de direitos”, constata que o "forta- /
mestiços positivamente “fora dos seus lugares”. Como argumentei no capí­
lecimenro de identidades e de direitos deve conduzir para [...] o esclarecí-!
tulo 8, a publicidade já começou (apenas timidamente) a empregar mais
modelos negros e mestiços vendendo mercadorias sofisticadas. Joel Zito
Araújo, no seu livro sobre telenovelas (Araújo, 2000), denuncia a persistên­ TCF 3/2004, Processo 23 001.000215/2002-96, disponível na página www.obscrva.ifc4 .ufrj.br.
cia da relação entre negros e posições subalternas. Contudo, no seu último **É importante dcvtacar que se entende por raça a construção social forjada nas tensas rela­
ções entre brancos e negros, muitas vezes simuladas como harmoniosas, nada tendo a ver com
capítulo aponta para uma mudança qualitativa importante, com a presença o conceito biológico de raça cunhado no século XVIII e hoje sobejamente superada Cabe
em algumas novelas de personagens negras de alto status social e profissio­ esclarecer que o termo raça é utilizado com frequência nas relações sociais brasileiras, para
informar como determinados características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre
nal. Recenremente, um conjunto de ONGs organizou uma campanha pu­
ouuas influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujei­
blicitária intitulada “Onde você guarda o seu racismo?". Mas foi tímida e to» no interior da sociedade brasileira. Contudo, o termo ganhou novo significado com M o­
durou pouca O governo nada fez ainda de substancial. Frente à pandemia vimento Negro que, em várias situações, o utiliza com um sentido político e dc valorizaçáo do
legado deixado pelos africanos.*

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« I I I I I I * P t S S I S T t N C I A DA !t AÇA

mento a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal” Em vez de desmascarar os “equívocos quanto a uma identidade hu­
(grifo meu). Com efeito, apesar de promover a luta contra a discrimina- ' mana universal” não seria mais interessante insistir veementemente na
ção racial e o preconceito, o documento instiga as escolas a imaginar o condição universal de Homo sapiens sapiens, lançando mão das recentes
Brasil náo como um pais de mistura genética e cultural, mas como uma pesquisas dos gcneticistas brasileiros, alinhavadas no capítulo 9, que con-
sociedade composta de “raças” e “grupos étnicos” estanques, cada qual tundentemente demonstram as afirmações da Unesco em 1950, mostran­
com a sua “cultura”. A sociedade brasileira, informa o parecer, “é forma­ do que o interior genômico dos indivíduos não está relacionado às suas
da por pessoas que pertencem a grupos étnico-raciais distintos, que pos­ aparências?
suem cultura e história próprias, igualmente valiosas e‘que em conjunto Reconheço que essas estratégias de reduzir o preconceito e a discrimi­
constroem, na nação brasileira, sua história”. Adiante, o parecer chega a nação raciais não terão efeitos palpáveis a curtíssimo prazo. Mas sem elas
enxergar tamanha diversidade entre “grupos étnico-raciais” que, lembran­ não vejo nenhuma solução para o racismo e as desigualdades raciais a longo
do as prescrições de Nina Rodrigues de criar códigos penais para “raças1
prazo. Meu receio (meu e de muitos outros) é o dc que as medidas adotadas
v distintas (capítulo 7), j
até este momento e as outras planejadas, ao imaginarem um Brasil de “ra­
' Pa . /VO ,.^-xV X3ry«jSl ças” e “grupos étnicos” estanques, venham conseqüentemente produzi- "7 „
; fp]recisa o Brasil, país muliiétnico e pluricultural, de organizações escola­
res em que todos se vejaih incluídos, «m que lhes seja garantido o direito lo. Meu temor (espero que infundado) é que a utopia de uma sociedade
de aprender e de ampliar conhecimentos, sem ser obrigados a negar a si em que as aparências dos cidadãos nada significariam no processo de dis­
mesmos, ao grupo étnico/racial a que pertencem, a adotar costumes, idéias, tribuição de justiça, dc educação, de saúde e de habitação, e dos afetos
comportamentos que lhes são adversos. E estes certamente serão indica­ estaria sendo sacrificada cm nome de políticas imediatistas, cujas possí­
dores da qualidade da educação que estará sendo oferecida pelos estabe- veis consequências são raramente discutidas e muito menos levadas em
"7 lecimentos de ensino de diferentes níveis. consideração. Temo que a crença em raças persista e se fortaleça.

E, ao encorajar a reeducação dos jovens para que se tornem “cidadãos


orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial”, chega ao limite de
compactuar com uma justificável “revanche” por parte dos negros. Bibliografia
Se náo é fácil ser descendente de seres humanos escravizados e forçados à Araújo, J. 21.A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. São Paulo:
condição de objetos utilitários ou a semoventes, também é difícil descobrir- Editora Senac. 2000.
se descendente dos escravizadores, temer, embora veladamente, revanche Fry, P. "Alógica das cotas raciais.” O Globo. Rio de Janeiro: 7 p. 2004a.
dos que, por cinco séculos, têm sido desprezados e massacrados”. — . “Que aumento é esse?" O Globo. Rio de Janeiro: 7 p. 2004b.
Góes, J. R. R D. “O racismo vira lei.” O Globo. Rio de Janeiro: 7 p. 2004.
Como bem assinalou José Roberto Pinto de Góes: “De que revanche Lima, M. R. D. S. Serviço de “branco", serviço de "preto": um estudo sobre
estão falando? E o que dizer dessa história de fazer emergir dores e me­ "cor“ e trabalho no Brasil urbano. (Tese de Doutorado). Instituto de Filo­
dos?" (Góes, 2004). sofia e Ciências Sociais — IFCSj Programa de Pós-Graduação em Sociolo-

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