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Os Funerais da Mamãe Grande - 1962

Esta é, incrédulos do mundo inteiro, a verdadeira história da Mãe Grande, soberana absoluta do reino de Macondo, que viveu em função de dominio durante 92 anos e morreu com cheiro de santidade numa terça-feira de setembro passado e a cujos funerais veio o Sumo Pontífice. Há quatorze semanas, a Mãe Grande expressou sua última vontade.

-“O Senhor notário estos são os bens terrenos, fonte suprema e única de minha grandeza

e autoridade, que deixo para a intrincado emaranhado de consanguinidade de meus herdeiros.

-Deixo:

-Três sesmarias adjudicadas por Cédula Real durante a Colónia, e que com o transcurso do tempo, em virtude de intrincados casamentos de conveniência, tinham-se acumulado sob meu dominio. o direito de continuar recebendo o pagamento dos arrendamentos das 352 famílias que moram nesse territorio onde prosperassem os seis povoados do distrito de Macondo, pois a terra pertence a mim e é para mim que o aluguel deve ser

pago. Deixo para meus herdeiros o direito de continuar a exploração da terra arrendada

e de receber os dízimos e primícias e todo tipo de dádivas extraordinária, incluindo os porcos, perus e galinhas.

- Deixo tambem três pote cheios de moedas de ouro, enterrados em algum lugar da casa durante a guerra da Independência, que não foram encontrados em periódicas e laboriosas escavações. Junto com um mapa levantado de geração em geração, e aperfeiçoado por cada geração, que facilitaria o encontro do tesouro enterrado.

Por ultimo deixo três baús de cédulas eleitorais falsas que formavam parte de meu património secreto e que Durante muitos anos garantiram a paz social e a concórdia política de meu imperio.

Só faltava então o relato minucioso dos bens morais. Fazendo um esforço supremo - o mesmo que fizeram seus antepassados antes de morrer para assegurar o predomínio de sua espécie - Mãe Grande ergueu-se sobre as nádegas monumentais, e com voz dominante e sincera, abandonada à sua memória, ditou ao notário a lista de seu património invisível:

- Deixo: A riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades do cidadão, o primeiro magistrado, a segunda instância, a terceira discussão, as cartas de recomendação, as contingências históricas, as rainhas de beleza, os discursos transcendentais, as grandiosas manifestações, as distintas senhoritas, os correctos cavalheiros, problema da carne, a pureza da linguagem, os exemplos para o mundo, a ordem jurídica, a imprensa livre mas responsável, a moral cristã, a escassez de divisas, o direito de asilo, o perigo comunista, a nave do estado, a carestia da vida, as tradições republicanas, as classes desfavorecidas, as mensagens de adesão.

Não chegou a terminar. A trabalhosa enumeração abreviou seu último suspiro. Afogando-se no mare magnum de fórmulas abstractas, que durante dois séculos constituíram a justificação moral do poderio da família, Mãe Grande emitiu um sonoro arroto e expirou.