Você está na página 1de 200

RAPAZ

DE BEM
Johnny Alf (1961)

Você bem sabe eu sou rapaz de bem
A minha onda é a do vai e vem
Pois com as pessoas que eu bem tratar
Eu qualquer dia posso me arrumar
Vê se mora!

No meu preparo intelectual
É o trabalho a pior moral
Não sendo a minha apresentação
O meu dinheiro só de arrumação

Eu tenho casa
Tenho comida
Não passo fome, graças a Deus
E no esporte eu sou de morte
Tendo isto tudo eu não preciso de mais nada, é claro!

Se a luz do sol vem me trazer calor
E a luz da lua vem trazer amor
Tudo de graça a natureza dá

Pra que que eu quero trabalhar?


Segundo Rui Castro, Alfredo José da Silva ou Johnny Alf como ficou conhecido, foi o
verdadeiro pai da Bossa Nova e essa sua composição, Rapaz de Bem, é considerada a
primeira obra desse movimento. Tom Jobim era seu grande admirador e tinha colocado em
Johnny, o apelido de “Genialf”.

A história da Bossa Nova é a história de uma geração. Uma geração de jovens artistas
brasileiros que acreditaram no futuro e conseguiram realizar o sonho de levar sua música
aos quatro cantos do mundo.

As primeiras manifestações do que viria a ser conhecido como Bossa Nova, ocorreram na
década de 50, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ali, compositores, instrumentistas e cantores
intelectualizados, amantes do jazz americano e da música erudita, tiveram participação
efetiva no surgimento do gênero, que conseguiu unir a alegria do ritmo brasileiro às
sofisticadas harmonias do jazz americano.

Ao se falar de Bossa Nova não se pode deixar de citar Antônio Carlos Jobim, Vinicius de
Moraes, Candinho, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nara Leão, Ronaldo
Bôscoli, Baden Powell, Luizinho Eça, os irmãos Castro Neves, Newton Mendonça, Chico
Feitosa, Lula Freire, Durval Ferreira, Sylvia Telles, Normando Santos, Luís Carlos Vinhas
e muitos outros.

Todos eles jovens músicos, compositores e intérpretes que, cansados do estilo operístico
que dominava a música brasileira até então, buscavam algo realmente novo, que traduzisse
seu estilo de vida e que combinasse mais com o seu apurado gosto musical.

Impossível precisar quando a Bossa Nova realmente começou. Mas é certo que o
lançamento, em 1958, dos discos Canção do Amor Demais, com Elizeth Cardoso
interpretando composições de Tom e Vinícius, e Chega de Saudade - 78 rpm, com o
clássico de Tom e Vinicius de um lado e Bim-bom, de João Gilberto, do outro -, nos quais
João surpreendeu a todos com a nova batida de violão, foi o resultado de vários anos de
experiências musicais. Experiências empreendidas não só por João, mas por toda a turma
que se encontrava nas famosas reuniões na casa de Nara Leão.

Elizeth Cardoso

Após o lançamento, em 1959, do primeiro LP de João Gilberto, também chamado Chega
de Saudade, a Bossa Nova rapidamente se transformou em mania nacional e em poucos
anos conquistou o mundo.


Mas bem antes disso o Rio de Janeiro já vivia um raro momento de florescimento
artístico, como poucas vezes se viu na história da cultura nacional. Não é à toa que os anos
50 são conhecidos como os "anos dourados". O Brasil vivia então um período de
crescimento econômico que acabou se refletindo em todas as áreas. Em 1956, Juscelino
Kubitschek tomou posse na Presidência da República com o slogan desenvolvimentista
"50 anos em 5".

No mesmo ano, foram lançados os romances O Encontro Marcado, do mineiro Fernando
Sabino, e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, dois importantes marcos na
história da literatura brasileira. Paralelamente, surgia na poesia um movimento inspirado
no concretismo pictórico, cuja maior característica foi a valorização gráfica da palavra e
do qual participaram nomes como os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Décio
Pignatari e Ferreira Gullar, entre outros.

Em 1957, estreava o filme Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, um dos
primeiros representantes do que viria a ser chamado Cinema Novo. Em 1958, a Seleção
Brasileira de Futebol conquistava sua primeira Copa do Mundo, derrotando a seleção
sueca por 5 a 2 e levando o povo brasileiro a cantar alegremente "A copa do mundo é
nossa / Com brasileiro não há quem possa". Também em 1958, Jorge Amado lançava
Gabriela Cravo e Canela e Gianfrancesco Guarnieri estreava no Teatro de Arena de São
Paulo Eles Não Usam Black-tie, um marco na linguagem do teatro brasileiro.

Em 1959, era lançado o movimento neoconcreto nas artes plásticas, do qual fizeram parte
Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lígia Pape, entre outros. Em 1960, Juscelino Kubitschek
inaugurava a nova capital do país, Brasília, que possivelmente teve a primeira música de
Bossa Nova em sua homenagem, composta por Chico Feitosa. Billy Branco havia feito um
sambinha jocoso, Não Vou, Não Vou Pra Brasília, e Chico musicou uma letra que falava
da vida na nova cidade. O tema, chamado Paranoá, nunca foi gravado, mas encontra-se
preservado numa gravação particular feita na época, com o próprio Chico Fim de Noite
cantando. Foi neste contexto que surgiu o movimento que viria a revolucionar não só a
música brasileira, mas toda a produção musical internacional.

Ainda nos anos 40, a grande novidade musical foi o lançamento, em 1946, de Copacabana
um samba-canção de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravado pelo cantor Dick Farney
com claras influências da música americana. A composição foi a precursora do que se
chamou samba moderno, cujos grandes intérpretes foram o próprio Dick Farney e Lúcio
Alves.

Farnésio Dutra e Silva (Dick Farney)

Lúcio Ciribelli Alves (Lúcio Alves)

A suposta rivalidade destes dois grandes cantores era alimentada pela imprensa e por seus
fã-clubes. No início dos anos 50, eram eles, com suas vozes aveludadas, os maiores ídolos
da juventude brasileira. Ao lado de Ary Barroso, Johnny Alf, Garoto, Dolores Duran, Luiz
Bonfá e Tito Madi, entre outros, influenciaram decisivamente a formação da geração que
se consagraria através da Bossa
Nova.

Ary de Resende Barroso (Ary Barroso)

Alfredo José da Silva (Johnny Alf)



Ary de Resende Barroso (Ary Barroso)


Adiléia Silva da Rocha (Dolores Duran)



Luis Floriano Bonfá (Luis Bonfá)

Chauki Maddi (Tito Madi)



Na área de composição, quem mais havia ousado era o romântico Custódio, morto
precocemente aos 35 anos, em 1945, autor de Mulher, Velho Realejo e Saia do Caminho,
seu maior sucesso, e Noturno, composição de harmonia muito elaborada, de bela linha
melódica e considerada, na época, um verdadeiro teste de interpretação para qualquer
cantor ou cantora.
Custódio, que compôs cerca de 700 canções, gravadas pelos grandes nomes da época,
como Orlando Silva e Sílvio Caldas, já tentava misturar os recursos do jazz e da música
erudita aos elementos da música brasileira.

Também era moderno gostar de conjuntos vocais como os Garotos da Lua, do qual João
Gilberto foi crooner, e os Quitandinha Serenades, que contavam com Luiz Bonfá ao
violão. Ou ainda Os Cariocas, então em sua formação original: Ismael Neto, Severino
Filho, Badeco, Quartera e Valdir. Todos eles também demonstravam uma sensível
influência da música americana, mais elaborada e de certa forma mais elegante.

Garotos da Lua

Os Cariocas

Dick Farney, nome artístico de Farnésio Dutra da Silva, chegou a ser apelidado de "o
Frank Sinatra brasileiro", tal a qualidade de sua voz. Logo após o lançamento de
Copacabana, Dick, um apaixonado pela música americana, especialmente por Sinatra, Mel
Tormé e Dick Haymes, embarcou para os Estados Unidos a fim de tentar a carreira por lá,
cantando também em inglês.

Em 1948, o cantor voltou ao Brasil, mas sua carreira já estava irremediavelmente
influenciada pela música americana. Nos anos seguintes ele gravaria sucessos como
Marina e Alguém Como Tu. No verão de 1949, foi fundado na Rua Dr. Moura Brito, na
Tijuca, o primeiro fã-clube do Brasil: o Sinatra-Farney Fã-Clube, do qual faziam parte
nomes como Johnny Alf, João Donato e Paulo Moura. Lá, além de ouvir fervorosamente
sucessos de seus dois ídolos, eles também começavam a "arranhar" os seus instrumentos.
Voltando para a América, Dick tornou-se amigo dos mais conhecidos instrumentistas do
jazz como Dave Brubeck, uma de suas principais influências no piano.

Na década de 50, já amigo de diversos músicos americanos e com respeitado conceito
entre eles, Dick Farney tocava no Peacock Alley, um requintado bar do hotel Waldorf
Astoria, em Nova York. Como os frequentadores do bar em sua maioria não falavam
português, Dick apresentava a música Copacabana com uma versão em inglês. Na época,
Ipanema ainda não era cantada em prosa e verso, sendo o bairro de Copacabana o
verdadeiro cartão-postal do Rio de Janeiro, o que despertava a curiosidade, na letra em
inglês, da canção que havia sido no Brasil um grande sucesso do cantor.

Numa viagem ao Rio, em 1958, Dick deu um memorável concerto de jazz no auditório do
jornal O Globo, apresentando-se com o baixista Xu Viana e o baterista Rubinho. Entre os
temas de jazz, tocou sua versão de Copacabana com a letra em português e inglês, o que
foi o sucesso da noite. O concerto foi gravado ao vivo e virou um LP no qual curiosamente
a faixa Copacabana não se encontra. Dick Farney foi um dos primeiros cantores a
procurar uma nova maneira de interpretar o samba. "Por que não existe um samba que a
gente possa cantarolar no ouvido da namorada?", perguntava ele.

Logo em seguida, uma turma de adolescentes do Flamengo resolveu criar o Dick Haymes-
Lúcio Fan Club, para homenagear o fundador do grupo Namorados da Lua. Lúcio Ciribelli
Alves, nascido em Cataguases, Minas Gerais, também era um amante da música
americana, principalmente do jazz, que começou a ouvir ainda criança, na Tijuca.
Estimulado pela família, Lúcio participou de um programa infantil na Rádio Mayrink
Veiga, Bombonzinho. Deste, passou para o Picolino, na mesma rádio. De lá foi para a
Rádio Nacional, onde, no programa Em Busca de Talentos, ganhou o primeiro prêmio. Daí
em diante, Lúcio não parou mais de cantar. Fã de conjuntos vocais como Pied Pipers,
Moderneer's e Starlighter's, aos 14 anos fundou o grupo Namorados da Lua, do qual era
crooner, violonista e arranjador. Com o grupo vocal, inscreveu-se no programa de calouros
de Ary Barroso, conseguindo o primeiro lugar. A partir daí, os Namorados gravaram mais
de 40 discos em 78 rotações e apresentaram-se em cinemas e cassinos durante alguns
anos.

Em 1947, Lúcio foi convidado para integrar, em Cuba, o grupo Anjos do Inferno. De lá,
com o grupo, foi para os Estados Unidos, onde, assim como Dick Farney, também muito
aprendeu. Logo Carmen Miranda convidava os Anjos para acompanhá-la. Lúcio, no
entanto, preferiu abandonar o grupo e voltar para o Brasil, encantando seus fãs com
sucessos como Foi a Noite, De Conversa em Conversa e Sábado em Copacabana.

Apesar das inovações na área de interpretação, trazidas principalmente das experiências de
Lúcio Alves e Dick Farney no exterior, no início dos anos 50, as músicas consideradas
modernas eram do tipo dor de cotovelo, embora com as harmonias já mais trabalhadas,
como em Ninguém Me Ama, do lendário jornalista Antonio Maria. Muito ligada à natureza
exuberante do Rio de Janeiro e à excelente música que se produzia na América e chegava
através de discos e programas de rádio, como o notável Em Tempo de Jazz, apresentado
por Paulo Santos na Rádio JB, a nova geração, alegre e irreverente, criada nas areias
limpas das praias de Copacabana e Ipanema e sedenta por novidades, queria retratar sua
própria experiência, seus sonhos e estilo de vida.

Naquela época, as boas famílias consideravam cantar e tocar violão atividades menores e
desestimulavam qualquer tipo de iniciativa de seus filhos neste sentido. Roberto Menescal,
filho de uma tradicional família de arquitetos, lembra que, quando começou tentar
profissionalizar-se, foi tocar com seu conjunto num baile ao qual seus irmãos mais velhos
também compareceram como convidados. Depois de muita dança, chegou a hora do
jantar: os convidados foram para as mesas e os músicos, inclusive Menescal, recolheram-
se à cozinha, que era o lugar reservado para eles. "Foi um escândalo na família", recorda
Menescal.

Os rapazes normalmente eram direcionados a seguir carreiras como direito, engenharia ou
arquitetura. As garotas podiam até tocar violão, enquanto esperavam um marido
adequado. Mas os pais de Nara Leão, Jairo e Tinoca, eram uma exceção. Eles recebiam
com prazer os amigos da filha para reuniões musicais em que se trocavam acordes e
ideias, tudo regado a muito refrigerante e sucos de frutas. O apartamento em que
moravam, na Avenida Atlântica, entrou para a História como o principal reduto da nova
turma da Bossa Nova. Nara, que tinha 12 anos em 1954, aprendia violão com um
professor chamado Patrício Teixeira. Roberto Menescal, seu amigo da turminha da rua,
bicava as aulas, já que sua família não via com maior interesse suas tendências para a
música. "A Nara era uma cabeça muito mais adiantada do que a gente", conta Menescal. E
logo toda a turma começou a se interessar por música.

Nas famosas vitrolas Philips, escutavam juntos discos como Julie Is Her Name, da cantora
americana Julie London (cuja maior atração era o violonista Barney Kessel), o violonista
mexicano Arturo Castro, o trompetista americano Chet Baker, cujo estilo cool de cantar
era muito inspirador, e os pianistas George Shearing. Errol Garner e André Prévin. Outro
programa imperdível para eles era assistir aos musicais da Metro. Menescal lembra o dia
em que foi assistir a Cantando na Chuva, com Nara. "Quando saímos do cinema estava
chovendo, e foi a glória. Envolvido pelo clima e pela música do filme, estava em
Copacabana me sentindo o próprio Gene Kelly e a Nara, a Debbie Reynolds".

Um episódio engraçado envolvendo o cinema Metro aconteceu com Menescal. Na época,
os carros era um sonho quase inatingível para muitos adolescentes, principalmente os
carros conversíveis. Um amigo de Menescal, Gustavo, comprou um Studebaker branco,
com rodas cromadas e capota conversível azul-marinho, automática. Menescal, que já
tocava um violãozinho, teve a idéia de irem os dois com carro e violão para a porta do
Metro, a fim de esperar a saída da sessão das quatro e impressionar as garotas.

Estava tudo planejado: eles ficariam parados na porta do cinema, bem à vontade, como
quem não quer nada. Assim que se abrissem as portas, Gustavo apertaria o botão da
capota, que se abriria lentamente mostrando os dois com o violão no banco de trás. Seria
difícil para qualquer garota resistir a tal espetáculo. E lá se foram os dois. Tudo teria
corrido muito bem não fosse o fato de o violão ter sido deixado na parte traseira, perto do
porta-malas do carro. Na hora H, Gustavo apertou o botão e, conforme a capota foi
baixando, também foi esmagando lentamente o instrumento. Eles ainda tentaram impedir a
catástrofe, mas era tarde demais: todo mundo realmente parou, mas para olhar o violão
sendo destruído. "Foi a maior vergonha", lembra Menescal.

Ensaiando o vocal, da esquerda para a direita, Alaíde Costa, Ayres de Carvalho, André Spitzman
Jordan, Oscar Castro Neves, Luizinho Eça, Roberto Menescal, Climene e Dulce Neves.

Carlos Lyra também morava em Copacabana, na Rua Bolívar, e começou a tocar violão
aos 19 anos, por causa de uma perna quebrada quando servia no Exército. Sua mãe, com
pena dos quatro meses de imobilidade receitados pelos médicos, resolveu presenteá-lo
com um violão. Carlinhos começou a estudar com o método de Paraguassu e, mais tarde,
quando saiu do Exército, teve aulas de violão clássico com um sargento da Aeronáutica
chamado José Paiva. "Foi ele quem me ensinou a fazer arpejos, escalas e a tocar com uma
postura correta, muito necessária na Bossa Nova", conta o compositor. Quando entrou
para o Colégio Mallet Soares, Carlos Lyra conheceu Roberto Menescal e Luís Carlos
Vinhas e com eles formou um trio estranhíssimo: dois violões e um piano. Mas ainda era
tudo levado na brincadeira. O colégio Mallet Soares era a escola certa para eles: até os
professores tocavam violão e alguns chegavam a estimular os alunos a matar aula para
fazer um som. "Tínhamos um professor chamado César que tocava violão muito bem, e
saía com a gente para tocar", conta Lyra. Foi no Mallet Soares que ele começou a compor.
Maria Ninguém, clássico da Bossa Nova, foi criada durante as aulas de Francês de dona
Iolanda.

Além das reuniões na casa de Nara Leão, a turma também frequentava os bares e boates
onde se apresentavam Dick Farney, Lúcia Alves, Johnny Alf, Tito Madi, João Donato e
Dolores Duran. "Eles foram os precursores da Bossa Nova, prepararam o terreno para a
gente" reconhece Lyra.

No meio da década de 50, algumas casas noturnas eram o esconderijo da boa música. Num
pequeno barzinho numa rua atrás do cinema Rian, chamado Tudo Azul (pela cor
dominante de sua decoração interior), Tom Jobim era o pianista efetivo, e figuras
conhecidas da noite do Rio não deixavam de aparecer por lá.

Naquele local, Rubem Braga fez a célebre apresentação de Vinícius de Moraes a Lila
Bôscoli, com a famosa introdução: "Vinícius de Moraes, apresento-lhe Lila Bôscoli. Lila
Bôscoli, apresento-lhe Vinícius de Moraes. E seja o que Deus quiser". E foi. Os dois
acabaram se casando.

Carlos Lyra
Havia também o Clube Tatuís, em Ipanema, onde, além das atividades esportivas, a grande
atração eram as jam sessions. O violonista Candinho sempre tocava ali e volta e meia Tom
Jobim aparecia para uma "canja". Também as serenatas noturnas nos barquinhos do Posto
6 e os arrastões no Posto 5 eram programas obrigatórios para eles.

Nas tardes de domingo, um grupo de músicos, entre eles Gusmão, Freddy Falcão, Durval
Ferreira, Maurício Einhorn e Pecegueiro tocavam música moderna no Hotel América, na
Rua das Laranjeiras. Os fins de semana musicais no Clube Leblon, com Eumir Deodato,
Pecegueiro, Jayme Peres, Waldemar Dumbo e Ed Lincoln, era outro local de encontro
entre diversos músicos que viriam a ser importantes nomes da Bossa Nova.

Menescal conheceu seu futuro parceiro Ronaldo Bôscoli numa reunião musical na casa do
veterano compositor Breno Ferreira, autor de Andorinha Preta. Menescal era amigo do
filho de Breno. Sérgio Ferreira, às vezes ia à casa do colega para observar o que faziam
Breno e seus amigos. Menescal ia, olhava, gostava e aprendia. "Mas ainda não era a
música que eu queria. Na verdade eu queria uma coisa que ainda não sabia o que era",
lembra. Numa dessas reuniões, cansado da rodinha que se formara na sala, Menescal
resolveu sair para pegar uma cuba-libre - a famosa mistura de rum com refrigerante, a
bebida da Bossa Nova -, quando em outro aposento escutou um som diferente. "Era a
música com que eu sonhava exatamente o que eu queria ouvir. Só aqueles acordes já me
abriram a cabeça."

A música vinha da varanda. Curioso, Menescal chegou mais perto. Quem tocava era o
violonista Elton Borges, e o jornalista Ronaldo Bôscoli cantava Fim de Noite, uma de suas
primeiras composições com Chico Feitosa. Menescal ficou ali escutando, maravilhado. No
dia seguinte, na casa de Nara, não parava de falar sobre a música. Mas ele não sabia nem o
nome de Ronaldo e somente um ano mais tarde voltariam a se encontrar. Bôscoli passava
na praia e foi abordado por Menescal, que o convidou a conhecer a turma na casa de Nora.
Ronaldo concordou e disse que ia aparecer com um amigo, Chico Feitosa.

Na noite marcada, todos esperaram alvoroçados escutar a novidade. Mas o tempo passava
e ninguém chegava. Já tinham perdido as esperanças, quando finalmente, já no fim da
noite, chegaram Chico e Elton, o que bastou para Chico ser definitivamente apelidado de
Chico Fim de Noite. Eles começaram a tocar, enquanto Nara Leão anotava rapidamente
todas as músicas. A partir dali, começaram a se reunir não apenas para escutar, mas para
produzir música. Logo Ronaldo Bôscoli e Nara Leão se tornaram namorados e noivos,
numa história de amor que terminaria poucos anos mais tarde, quando Ronaldo se
apaixonou pela cantora Maysa.

Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli se conheceram em 1954 e logo se tornaram parceiros.
Fim de Noite foi apenas uma da série de composições criadas pelos dois no primeiro
apartamento que dividiam, na Rua Otaviano Hudson, em Copacabana, que também faz
parte da história da Bossa Nova. Ali moravam oficialmente Chico e Ronaldo, mas sempre
haviam hóspedes circunstanciais, como o compositor paulista Caetano Zama, o pianista
Pedrinho Mattar e Luiz Carlos Miéle.

Um dos mais ilustres foi o próprio João Gilberto, que chegou para passar alguns dias e
acabou ficando meses. Mas na verdade nenhum deles se incomodava muito com aquilo,
uma vez que eram invariavelmente despertados pelo violão de João Gilberto, que voltava
sempre para o apartamento quando o dia já estava nascendo depois de passar a noite por
caminhos desconhecidos e misteriosos.

Apesar de tijucano, Antonio Carlos Jobim era um típico jovem de Ipanema, onde vivia
desde criança. Gostava de pegar onda no mar limpo de Ipanema e de nadar na Lagoa
Rodrigo de Freitas. Adolescente, no início dos anos 40, começou a estudar piano com o
excelente professor alemão Hans Joachim Koelireutter. Tom e Newton Mendonça, seu
amigo de infância e futuro parceiro em hinos da Bossa Nova, como Samba de Uma Nota
Só e Desafinado, já formavam grupinhos musicais com os amigos, nos intervalos entre o
colégio e a praia.

Em 1946, Tom entrou para a Faculdade de Arquitetura, onde não chegou a ficar nem um
ano, resolvendo seguir definitivamente a carreira de músico. Seu gosto musical variava
dos populares Ary Barroso, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Garoto, Noel Rosa e Lamartine
Babo aos eruditos Vila-Lobos, Debussy, Ravel, Chopin, Bach e Beethoven. passando pelas
grandes orquestras americanas.

Sylvia Koscina, João Gilberto, Tom Jobim e Mylene Demongeot.



Em 1949, já casado com sua primeira mulher, Teresa, Tom ganhava a vida tocando piano
em casas noturnas da zona sul, como a Tudo Azul, o Mocambo, o Clube da Chave, o
Acapulco e o Carroussel, entre outras. O maestro passou alguns anos trocando a noite pelo
dia, conseguindo em 1952 um emprego de arranjador na gravadora Continental, como
assistente do maestro Radamés Gnatalli. O salário era baixo, mas certamente melhor do
que o que ganhava como pianista. Uma de suas funções era passar para a pauta
composições de quem não sabia escrever música.

Mas Tom não abandonou a noite. Agora que não precisava mais dela para sobreviver,
tocar na noite tornara-se um prazer. Para ele e, claro, para quem tinha o privilégio de ouvi-
lo.

Apesar de trabalhar na Continental, foi na gravadora Sinter que Tom fez sua estreia como
compositor. Em 1953, a Sinter lançou dois discos com composições suas: no primeiro,
Maurici Moura cantava o samba canção Incerteza, de Tom e Newton Mendonça. No
segundo, Ernani Filho interpretava Pensando em Você e Faz Uma Semana (esta em
parceria com o baterista Juca Stockler). Pouco depois, Tom se transferiu para a gravadora
Odeon, que seria responsável, alguns anos mais tarde, pelo lançamento do histórico LP
Chega de Saudade, com João Gilberto.

Tom Jobim

Em Copacabana ficava a casa do compositor Lula Freire, cujo pai era um influente
político brasileiro. O apartamento, no mesmo prédio da Rua Tonelero 180, onde morava o
famoso político e jornalista Carlos Lacerda, era uma mistura inusitada de política e
música.

"Você abria a porta da casa e encontrava o Baden Powell com o Chico Fim de Noite. Aí,
entrava na outra sala e estava meu pai com o presidente Kubitschek, o senador Gilberto
Marinho e o poeta Augusto Frederico Schmidt", lembra Lula. Antes do advento da Bossa
Nova, o apartamento era um ponto de encontro dos amantes do jazz, principalmente do
jazz west coast, que passava por seu apogeu nos anos 50.
Alguns dos frequentadores da casa de Lula Freire eram Alberto Castilho, Luizinho Eça, os
também pianistas Kumbuco e Roberto Ebert, Pedro Paulo, Marcio Paranhos, Domingos
Jabuti, Bebeto, Pedrinho Hecksher, a vocalista Tecla e Paulinho Magalhães. Alguns não-
músicos, como José Octávio Castro Neves, Elfio Carvalho e Roberto Canto (Irmão do
futuro baixista Ricardo Canto), também eram habitues das sessões de jazz. Maria Helena,
mãe de Lula, conhecedora de jazz e música clássica não só permitia o som que invadia as
madrugadas como participava ativamente das reuniões. Stan Kenton, Chet Baker, Gerry
Mulligan, Dave Brubeck, Shorty Rogers, Mel Tormé, George Shearing e Errol Garner
eram ouvidos pela vizinhança não raramente, até o sol nascer.

Cuba-libres e cafezinhos eram servidos seguidamente por Arlete e Teresa, empregadas da
casa, que também se consideravam "da música" e vez por outra apareciam na sala com o
pretexto de alimentar a reunião, mas o que queriam mesmo era ouvir a música do grupo.
“Elas sentavam, fechavam os olhos e ficavam só curtindo", lembra Lula. Muitos anos
depois dessa época, por volta de 1965, em pleno regime de exceção, ocorreu um fato
engraçado naquele apartamento da Rua Tonelero.

Numa noite de música, o violonista Candinho reparou que, pelo lado de fora da janela,
quase na altura do teto, vindo de um andar superior, estava pendurado um microfone,
obviamente destinado a gravar o que por ali se passava. Candinho chamou o senador
Victorino, pai de Lula, homem de temperamento altamente explosivo, e apontou para o
microfone. O senador mandou buscar uma vassoura e preparou-se para desferir uma
violenta vassourada no microfone. "Vou estourar os ouvidos deste sujeito que está
bisbilhotando minha casa."

Felizmente foi impedido por Lula, que avisou ao pai que o fio do microfone vinha do
apartamento de um vizinho amigo, do 10º andar, o médico Dr. Otávio Dreux. O senador
ligou imediatamente para a casa do Dr. Dreux, sendo atendido pelo filho mais moço do
amigo, Chico, que muito sem jeito explicou que, como adorava Bossa Nova, resolvera
gravar o som que saía pela janela do apartamento. Desfeita a suspeita da incômoda
presença do SNI em sua casa, o senador riu muito e autorizou formalmente a gravação
"externa" da noite, que correu tranquila, cheia de música e com um inusitado microfone
pendurado do lado de fora da janela.

Quando Lula foi morar em Ipanema, na Rua Joaquim Nabuco, a efervescência cultural
continuou. Sérgio Porto, frequentador assíduo do apartamento, dizia que ali era o último
bar aberto do Rio. Naquele tempo, poucos bares, como o Sacha's e a Fiorentina, abriam até
mais tarde, mas até estes fechavam a certa hora da madrugada. Vinicius de Moraes,
notívago de nascença, pedia que Lula sempre guardasse para ele uma cerveja na geladeira.
O compositor lembra que várias vezes, quando todos da casa já dormiam, Vinícius tocava
a campainha, a empregada abria a porta e ele entrava, sentava, tomava sua cerveja, comia
o que encontrava na geladeira e ia embora.

Neste apartamento aconteciam fatos bizarros que bem traduzem o espírito irreverente que
dominava a época. Certa noite, Lula oferecia um jantar para alguns amigos. A porta do
apartamento estava aberta e de repente entrou um sujeito baixinho e careca que, sem falar
com ninguém, ignorando a presença de todos, foi direto para o piano e começou a tocar.
Todos estranharam, mas Lula resolveu que deveriam igualmente ignorar a estranha figura
e continuar a jantar normalmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém
entrar pela casa adentro e, sem falar com ninguém, começar o tocar piano. Quatro músicas
depois, ouviram uma gargalhada do lado de fora. Logo adentraram a caso o empresário
paulista Olavo Fontoura, o compositor americano Jimmy Van Heusen e suas mulheres.

Ainda rindo muito, Olavo explicou: o baixinho careca era ninguém menos do que Sammy
Cahn, grande compositor americano, responsável, entre outras coisas, por alguns dos
maiores sucessos de Frank Sinatra, como All the Way, Three Coins In a Fountain, Be My
Love, Call Me lrresponsable, Time After Time, Chicago, Come Fly With Me etc. Sammy
tornou-se grande amigo de Lula e esteve diversas vezes no Rio, sendo grande divulgador
da música brasileira nos Estados Unidos.
Enquanto isso, as parcerias se multiplicavam. Apresentados por Roberto Menescal, Carlos
Lyra e Ronaldo Bôscoli logo começaram a compor juntos. Se é Tarde Me Perdoa e Lobo
Bobo foram algumas de suas primeiras composições. Bôscoli continuava igualmente
compondo com Chico Feitosa. São desta época Sente, Complicação e Sei. Os talentosos
Irmãos Castro Neves, Mário (piano), Oscar (violão), Léo (bateria) e Iko (contrabaixo),
formavam um conjunto, o American Jazz Combo.

Oscar compôs com Ronaldo Não Faz Assim, uma das primeiras canções da Bossa Nova, e
depois marcou definitivamente sua presença através de diversas composições com o
excelente letrista Lucercy Fiorini. Em 1957, Roberto Menescal estava em casa,
comemorando as bodas de prata de seus pais. Um rapaz que ele não conhecia entrou no
apartamento perguntando se ele não teria um violão para tocar. Apresentou-se como João
Gilberto e disse que Edinho, do Trio Irakitan, tinha lhe dado o endereço de Menescal.

João tinha voltado há pouco tempo da Bahia e precisava mostrar a alguém o que havia
criado. Menescal, que já tinha ouvido falar de João, imediatamente levou-o para seu
quarto. João pegou o violão e mostrou Ô-ba-la-lá, composição sua e uma das primeiras
que continham a famosa batida diferente. Impressionado, Menescal saiu na mesma hora
com ele para mostrar a novidade aos amigos.

A primeira parada foi no apartamento de Bôscoli e Chico Feitosa, onde João, além de Ô-
ba-la-lá, mostrou Bim-bom e tocou vários sambas. Da Rua Otaviano Hudson foram para a
casa de Nara, já em caravana, onde mais uma vez João encantou a todos com seu jeito
revolucionário de tocar violão, que libertava a todos do samba quadrado que até então era
o que de melhor se produzia na música brasileira. A partir de então, João Gilberto passou
não só a fazer parte da turma, mas também a liderar espiritualmente o movimento: todo
mundo queria aprender a tocar como ele. Um dos poucos que conseguiu ter aulas com o
próprio João Gilberto foi Chico Feitosa, na época em que João esteve hospedado em sua
casa.

Os encontros musicais começaram a se multiplicar, tanto nas intermináveis reuniões para
as quais eram chamados, e onde João Gilberto era sempre o grande mito (todas as festas
prometiam a presença do violonista), quanto nos bares e boates. Nestes, normalmente, os
músicos não ganhavam para tocar, a não ser doses gratuitas de bebida durante toda a noite.

Em 1954, um dos locais mais disputados na noite era a boate do Hotel Plaza, na Avenida
Princesa Isabel, em Copacabana. Oficialmente, Johnny Alf era o pianista e já tocava suas
próprias composições, como Rapaz de Bem e Céu e Mar. Os frequentadores mais assíduos
da boate eram Tom Jobim, João Donato, Baden Powell, Dolores Duran, Carlos Lyra e
Sylvinha Teles, entre outros, e o fim da noite era recheado de intermináveis "canjas". Alf,
um dos maiores precursores da Bossa Nova, mudou-se para São Paulo em 1955, deixando
órfãos seus admiradores.

O pianista Luizinho Eça depois de passar uma época estudando piano clássico em Viena,
juntamente com o pianista Ney Salgado, acabou indo tocar profissionalmente no Bar do
Plaza, com o então baixista Lincoln e o violonista Paulo Ney. Como era menor de idade,
Luizinho trabalhava garantido por um delegado que adorava música e permitia que o
pianista se apresentasse na boate, desde que este concordasse em acompanhá-lo ao piano
enquanto cantava uns sambas-canções. Luizinho, espertamente, não só atendia ao pedido
como ensinava ao delegado novas canções, "mais recomendadas para sua voz".

Certa noite, Lula Freire e seus colegas de colégio, Carlos Augusto Vieira e Romualdo
Pereira, todos também menores de idade, foram para o Bar do Plaza para ouvir Luizinho,
que era amigo de Lula desde garoto. O leão de chácara do Plaza, o lutador Waldemar
barrou os três, alegando estar na boate o tal delegado. Romualdo apresentou-se como
sobrinho do delegado, e o segurança não só permitiu que os três entrassem como avisou ao
delegado que os sobrinhos dele haviam chegado. O homem estava tão feliz vendo que a
casa estava ainda com mais clientes para "ouvi-lo cantar" que recebeu os sobrinhos com
sorrisos e abraços e ainda acabou pagando a conta das inocentes cuba-libres consumidas
pelos três.

O encontro de João Gilberto e Tom Jobim foi sugestão do fotógrafo Chico Pereira, que
aconselhou João a procurar o maestro. Eles já se conheciam superficialmente das noitadas
em Copacabana e João resolveu bater na porta de Tom, na Rua Silva em Ipanema.
Apresentou a ele Bim-Bom e Ôba-la-lá.

Tom, que como todos os outros também havia se impressionado com a nova batida de
violão, mostrou a João algumas composições suas, entre elas Chega de Saudade, parceria
com Vinícius e um dos temas escolhidos para o disco Canção do Amor Demais, que
estava sendo preparado para Elizeth Cardoso.

Festejado como o disco que inaugurou a Bossa Nova, Canção do Amor Demais trazia
belíssimas composições inéditas de Tom e Vinicius interpretadas pela "Divina". João
Gilberto acompanhou Elizeth na gravação da faixa Outra Vez, deixando registrada pela
primeira vez em disco sua batida inovadora.

Alguns meses depois, João já entrava em estúdio para gravar o histórico 78 rpm Chega de
Saudade, com a música de Tom e Vinícius de um lado e a sua Bim-bom do outro.

A gravação de Chega de Saudade foi uma verdadeira novela. Cheio de exigências, como o
pedido de um microfone para a voz e outro para o violão, inédito na época, João Gilberto
conseguiu enlouquecer técnicos e músicos. Interrompia a todo instante a gravação, ora
dizendo que os músicos haviam errado, ora que o som não estava bom. Mas o disco
acabou saindo com arranjos de Tom Jobim, que também tocava o piano.

Ronaldo Bôscoli trabalhava como repórter esportivo na Última Hora, e sua irmã Lila era
casada com Vinícius de Moraes. O já consagrado poeta ocupava o cargo de vice-cônsul na
embaixada do Brasil em Paris.

Em 1956, Vinícius voltou de Paris com o rascunho do libreto de Orfeu da Conceição, uma
tragédia de inspiração grega, toda em versos, que ele ambientara ao carnaval carioca e
pretendia montar no Rio de Janeiro.

A chegada do poeta ao Rio é tida como um dos principais marcos da história da Bossa
Nova. Libreto pronto, Vinícius começou a procurar um parceiro para as canções da peça.
Ele já tivera a oportunidade de conhecer Tom Jobim no famoso Clube da Chave, em 1953,
pouco antes de ir ocupar sua função na embaixada de Paris.

No Clube, cada um dos 50 sócios tinha uma chave que abria o armário onde ficava
guardada sua própria garrafa de uísque. Foi lá que Vinícius ouviu Tom pela primeira vez, e
ficou impressionado com o talento do jovem pianista. Chico Feitosa, que a esta altura já se
transformara em secretário particular da poeta, e Ronaldo sugeriram que ele convidasse
Tom para fazer as músicas da peça. Vinicius ficou de pensar.

No dia seguinte, na Villarino, uma uisqueria no centro do Rio, reduto de boêmios e
intelectuais, como Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Sérgio Porto, Fernando Lobo,
Dorival Caymmi, Reynaldo Dias Leme, Carlos Drummond de Andrade, Dolores Duran e
Heitor Vila-Lobos, entre muitos outros, o jornalista Lúcio Rangel apresentou formalmente
o poeta ao compositor, que seria um de seus grandes parceiro.
Vinícius explicou detalhadamente o projeto e justificou a importância cultural do mesmo,
para mais impressionar e logo convencer o jovem maestro a dele participar. Tom ouviu a
explicação toda e ao fim da fala do poeta perguntou: “Tudo bem, mas tem um dinheirinho
nisso aí?”. No dia seguinte já estavam trabalhando na casa de Vinícius.
Em depoimento a Almir Chediak, Tom Jobim lembrou que “no início havia uma certa
timidez e as primeiras músicas ficaram umas porcarias. Fizemos três sambas horríveis.
Mas Vinícius, pacientemente, queria que fôssemos trabalhando até sair alguma coisa
direita”. A primeira “coisa direita” que saiu foi Se Todos Fossem Iguais a Você. Depois
vieram Mulher Sempre Mulher, Um Nome de Mulher, Lamento no Morro e Valsa de
Orfeu.
Orfeu da Conceição estreou no Teatro Municipal em setembro de 1956, com cenários de
Oscar Niemeyer, figurinos de Lila Bôscoli, direção de Léo Jusi, Luiz Bonfá no violão,
regência de Léo Peracchi e com um belo elenco negro encabeçado por Haroldo Costa
(Orfeu), Léa Garcia (Mira) e Dayse Paiva (Eurídice). O espetáculo foi um acontecimento
na vida cultural do Rio. Após uma semana em cartaz no Municipal, a peça foi transferida
para o Teatro República, onde cumpriu temporada com casa lotada por mais um mês.
Naquela época a casa de Vinícius, na Avenida Henrique Dumont, em Ipanema, era a
própria open house. Chico Feitosa, que trabalhava com o poeta, lembra que entrava e saía
gente de manhã até a noite. Eram artistas e intelectuais como Elizeth Cardoso, Ciro
Monteiro, Lúcio Alves, Doris Monteiro, Emilinha Borba, Paulo Mendes Campos,
Fernando Sabino, Rubem Braga, Augusto Frederico Schmidt.
Terminada a temporada da peça, Tom e Vinicius começaram a trabalhar nas músicas da
versão cinematográfica de Orfeu Negro. Roberto Menescal lembra-se do dia em que foi
procurado por Tom. Estava em sua academia de violão, ensinando alguns acordes para
uma menina, quando tocaram a campainha. Menescal deixou a garota esperando e foi
atender. Na porta, ninguém menos do que Tom Jobim. Menescal, fã incondicional do
maestro achou que estava sonhando. “Todas as vezes que tentava ver um show dele, ficava
tão nervoso que acabava enchendo a cara e sempre saía carregado. Eu simplesmente não
conseguia chegar perto do Jobim”, conta Roberto. E, de repente. lá estava ele frente a
frente com o mito. “Você é o Menescal?”, perguntou Tom. “Sou”, respondeu o incrédulo
compositor. “É que eu vou gravar um negócio pro filme Orfeu Negro, e queria ver se você
fazia o violão, porque o João não pode e disse que você faz um violão mais ou menos
parecido com o dele”. Menescal nem voltou para avisar à aluna: dali mesmo acompanhou
Tom ao estúdio.

Menescal, Tom e Nara Leão no apartamento de Nara em Copacabana.


“Naquele mesmo dia já fizemos uma gravação”, lembra, No mesmo dia, Tom convidou o
novo amigo para tomar um chope. No bar, perguntou a Menescal o que ele fazia, além de
tocar violão. Menescal disse que tinha resolvido estudar Arquitetura. “Vai ser músico que
é melhor”, foi o conselho de Tom. Não era um conselho de se jogar fora. Na mesma hora,
Menescal resolveu se dedicar à música.
Orfeu Negro, dirigido pelo francês Marcel Camus, foi o grande vencedor do Festival de
Cannes de 1959. Entre as novas canções compostas e utilizadas no filme estavam A
Felicidade e O Nosso Amor, de Tom e Vinícius, e Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e
Antonio Maria, sendo esta música um grande sucesso internacional e decididamente um
outro marco na história e na divulgação da música brasileira no mundo. A repercussão
causada por Orfeu foi mais um elemento a contribuir fortemente para o clima de euforia
que reinava no Brasil.
Como não poderia deixar de ser, paralelamente à efervescência musical que acontecia na
zona sul a zona norte do Rio não ficaria imune às novidades musicais que encantavam o
outro lado da cidade. Também em Vila Isabel o jazz era o ingrediente principal das
reuniões musicais e lá já se tinha o hábito, mais tarde popularizado por João Gilberto, de
se tocar violão no banheiro, devido à excelente acústica criada pelos ladrilhos.
Quando chegou ao Rio, em 1950, João Gilberto cantava como Orlando Silva, seu grande
ídolo. Nascido em Juazeiro, no interior da Bahia, João chegou à capital aos 19 anos para
ser crooner do grupo Garotos da Lua. Durante algum tempo morou na Tijuca com Alvinho
Senna, violonista do grupo, formado ainda por Acyr Bastos Mello, Milton Silva
(arranjador) e Toninho Botelho (bateria). Com Alvinho, João frequentava a noite de Vila
Isabel, ao lado de músicos como João Donato, Johnny Alf e Bebeto, do futuro Tamba Trio.
O guitarrista Durval Ferreira, que morava por lá, lembra que não era difícil encontrar João
Gilberto tocando seu violão em plena Praça Noel Rosa, talvez rendendo homenagem a um
dos maiores compositores da música popular brasileira de todos os tempos.
Um ano e meio depois de chegar ao Rio, João Gilberto deixou os Garotos da Lua: já era
então uma pessoa absolutamente imprevisível que, apesar do inegável talento, faltava
demais aos ensaios e apresentações da banda. Nesta época, João namorava a jovem Sylvia
Telles, que tinha 18 anos e em breve se transformaria numa das grandes cantoras dos anos
50 e uma das maiores incentivadoras e mais importantes personalidades da Bossa Nova.
Em 1955, convidado pelo amigo Luís Telles para passar uma temporada em Porto Alegre,
resolveu ir conhecer a capital gaúcha. Passou ao todo sete meses no Sul, onde conquistou
grande parte dos boêmios da cidade com seu violão. Após esta temporada, João foi para
Diamantina, onde morava sua irmã Dadainha. Lá ficou oito meses, até maio de 1956.
Passava todo o tempo trancado no quarto ou no banheiro estudando violão sem parar.
Dadainha resolveu devolvê-lo para a casa de seu pai, em Juazeiro. Incompreendido em sua
própria terra, João resolveu voltar ao Rio para mostrar o que tinha descoberto. Uma nova
“batida” de violão, que iria mudar os destinos dos músicos brasileiros e influenciar a
música do mundo inteiro.
Quando terminou o namoro com João Gilberto, Sylvinha Telles ainda não cantava
profissionalmente, mas resolveu se apresentar, sem o conhecimento de seu pai, no
programa Calouros em Desfile, apresentado por Ary Barroso. Fez sucesso e acabou
convencendo a família a aceitar sua opção profissional Sylvia foi, ao lado de Dolores
Duran e Maysa, uma das três grandes cantoras dos anos 50.
Em 1956, o 78 rpm Foi a Noite, em que interpretava a bela canção de Tom Jobim e
Newton Mendonça, era item obrigatório nas discotecas modernas. A suavidade das
interpretações de Sylvinha era um retrato da própria cantora no trato com seus inúmeros
amigos. Grande amiga de Roberto Menescal e de todos os músicos da Bossa Nova deixou
um enorme vazio no coração do grupo ao desaparecer tragicamente num desastre de
automóvel junto com seu namorado, Horacinho de Carvalho, pessoa muita querida na
sociedade carioca.
Do seu primeiro casamento com o violonista Candinho, Sylvinha Telles deixou uma filha,
a cantora Cláudia Telles. Seu irmão, o compositor Mário Telles, foi parceiro do maestro
Moacyr Santos, outro nome admirável entre os arranjadores brasileiros.
Dolores Duran, que também compunha (é autora do clássico A Noite do Meu Bem) em
parceria com Ribamar, contagiava a todos com suas canções, interpretadas com tal
emoção que lembrava as grandes divas dos blues americanos.
Já Maysa vinha do extremo oposto: paulista, casou-se aos 18 anos com André Matarazzo,
sobrinho do conde Francisco Matarazzo e 20 anos mais velho do que ela. Cantava
divinamente nos saraus da aristocracia paulistana. Mas, se no Rio de Janeiro as famílias de
classe média desprezavam a profissão de músico ou cantora, numa família quatrocentona
paulista a coisa era bem pior. O casamento durou menos de um ano, pois, ajudada por seu
pai, Maysa conseguiu gravar um disco e acabou se desligando da família Matarazzo.

Casamento de Bôscoli com Elis e o famoso vestido do estilista


Denner.
O novo jeito de tocar e cantar de João Gilberto rapidamente contagiou toda a turma, que
finalmente encontrou seu caminho musical. Tocar violão virara uma febre. Naquela época,
Carlinhos Lyra e Roberto Menescal já haviam aberto uma academia de violão em
Copacabana, onde ensinavam as técnicas do instrumento para um sem-número de jovens
alunos interessados na nova batida.
João Gilberto e Astrud.
Há controvérsias quanto à origem da expressão Bossa Nova. Uns defendem que Noel
Rosa já a utilizava bem antes do aparecimento de João Gilberto. Outros a atribuem ao
cronista Sérgio Porto, que por sua vez a teria ouvido de um engraxate. Mas a versão mais
aceita é a de que o jornalista Moysés Fuks, do jornal Última Hora, seria o responsável por
sua criação.
Fuks, cuja irmã estudava na academia de Lyra e Menescal, era diretor artístico do Grupo
Universitário Hebraico do Brasil, uma associação estudantil no Flamengo. O jornalista
resolveu convidar a turma para fazer um show no Grupo, no primeiro semestre de 1958.
Ele, ou alguém cuja identidade é um enigma, escreveu no cartaz: “Sylvinha Telles e um
grupo Bossa Nova”. O show, cuja divulgação foi feita apenas no boca-a-boca, foi um
enorme sucesso. Faziam parte do “grupo Bossa Nova” Carlos Lyra, Roberto Menescal,
Chico Feitosa, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e outros.
A partir dali, o termo começou a ser usado pelo próprio grupo para definir a música que
faziam. Poucos meses depois, Tom Jobim e Newton Mendonça compuseram Desafinado,
cujos antológicos versos "Isso é Bossa Nova / isso é muito natural” ajudaram a consolidar
a expressão. João Gilberto, ao ouvir Desafinado na casa de Tom, pediu para gravá-la e o
fez em novembro de 1958, em seu segundo disco. Este tinha, de um lado, a música de
Tom e Newton Mendonça, que viria a se tornar um dos hinos da Bossa Nova, e do outro
uma composição sua, Ô-ba-la-lá.
No início de 1959, Tom Jobim convenceu Aloysio de Oliveira, então diretor da Odeon, a
gravar um LP com João. Neste entraram Chega de Saudade (que deu nome ao LP), Bim-
bom, Ô-ba-la-lá (de João), Desafinado, Brigas Nunca Mais ( de Tom e Vinícius), Lobo
Bobo e Saudade Fez Um Samba (de Lyra e Bôscoli). Maria Ninguém, de Lyra, Rosa
Morena, de Caymmi, É Luxo Só, de Ary Barroso e Luís Peixoto, e Aos Pés da Santa Cruz,
de Marino Pinto e Zé da Zilda. Tom Jobim assinou o texto da contracapa no qual previa a
importância de João, que segundo ele, já havia, em pouquíssimo tempo, influenciado
“toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores”.
Além da música, a grande paixão de Menescal, Bôscoli e sua turma eram as pescarias
submarinas que promoviam no litoral de Cabo Frio e Arraial do Cabo, praias que nos anos
50 eram um verdadeiro paraíso praticamente intocado pelo homem.
Numa dessas ocasiões foi criado O Barquinho, outro clássico da Bossa Nova. É Menescal
quem conta: “Nesse dia a gente estava num barco alugado, fora da Ilha do Cabo, num
lugar em que eu nem devia ter levado a turma, porque era bastante perigoso. Estávamos
Ronaldo, Nara, Bebeto, Luizinho, eu e mais algumas pessoas, talvez umas oito, no total. O
barco enguiçou e o pessoal ficou muito apavorado, porque ali a profundidade era grande e
a âncora não alcançava o fundo.
O barco foi indo para fora e o barqueiro, acostumado com aquilo, foi deixando. Eu
comecei a brincar, dizendo que a gente podia pegar uns peixes e comer crus, que fome a
gente não ia passar. Aí eu comecei, de brincadeira, a cantarolar uma melodia que me veio
à cabeça na hora. O barquinho fazia toc-toc-toc, não pegava, e eu cantarolando, brincando.
Alguém começou a brincar também, dizendo ‘O barquinho vai, a tardinha cai, o
barquinho vai...’. Até que vimos um barco que estava vindo de Abrolhos e rebocou a
gente. Aí ficou todo mundo alegre de novo. No dia seguinte, já na casa da Nora, no Rio, o
Ronaldo me perguntou: ‘Como é aquele negócio que você estava cantarolando mesmo?’
Então eu me lembrei mais ou menos da melodia e a gente fez O Barquinho.”
Mergulhar, na época, era um esporte novo, e Menescal foi um dos primeiros a dominar o
mar, chegando a virar notícia de jornal quando capturou um enorme mero nas águas de
Cabo Frio. Além de Menescal também eram frequentadores assíduos das pescarias
Ronaldo Bôscoli, Chico Feitosa, Chico Pereira, Toninho Botelha e Normando Santos.
Eventualmente, também Luiz Carlos Vinhas e Luizinho Eça. E Nara Leão, enquanto
namorava Bôscoli. Menescal mantinha alugada em Cabo Frio, com o fotógrafo Chico
Pereira, uma pequena casa de sala e quarto, onde às vezes dormiam mais de dez pessoas.
Na única vez que conseguiram arrastar João Gilberto para Cabo Frio, ele se recusou a
entrar no barco e ficou esperando na praia, com o violão, No fim da tarde, quando
voltaram, ele estava na mesma posição, muito vermelho e reclamando muito: “Por que
vocês fazem isso comigo?”. Desta época de pescarias, além de O Barquinho, Menescal e
Bôscoli compuseram, entre outras, Rio, Nós e o Mar, Ah, se Eu Pudesse, A Morte de Um
Deus de Sal.
Entre 1958 e 1959, Tom Jobim lançou diversas canções que se tornaram clássicos da
Bossa Nova: Meditação, Discussão, Samba de Uma Nota Só (com Newton Mendonça),
Dindi, Demais e Eu Preciso de Você (com Aloysio de Oliveira), Este Seu Olhar,
Fotografia (só dele), A Felicidade, O Nosso Amor, Eu Sei Que Vou Te Amar (com
Vinícius). Sylvinha Telles cantou a maioria delas nos dois LPs que gravou em 1959: das
24 canções, 18 eram de Jobim.
Em agosto de 1959, os estudantes de Direito da PUC resolveram organizar um show com
os artistas da Bossa Nova. As principais atrações seriam as já consagradas Sylvia Telles e
Alaíde Costa, além da vedete Norma Bengell, que mostraria além de seus dotes físicos os
seus dotes de cantora. Os músicos convidados seriam Roberto Menescal, Luiz Carlos
Vinhas, Carlos Lyra, Nara Leão, Normando Santos, Chico Feitosa e os irmãos Castro
Neves, entre outros. Ronaldo Bôscoli, que seria o apresentador, prometera levar também
Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Billy Blanco e Dolores Duran.
Os padres da PUC autorizaram a realização do show, mas com uma condição: a saída de
Norma Bengell, cuja presença na universidade católica havia sido vetada. Como os
organizadores não queriam abrir mão da presença dela (“turma era turma...”) o show
acabou sendo transferido para a Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha.
O episódio do veto a Norma ganhou as páginas dos jornais, que o noticiaram com fartura.
O resultado é que, no dia do espetáculo, 22 de setembro, centenas de pessoas se
aglomeravam na porta da Arquitetura para assistir ao “show proibido”. Apesar do
amadorismo gritante do espetáculo, a noite foi um sucesso. Norma Bengell apresentou-se
toda de negro e foi aplaudida de pé, mostrando cinco canções do disco Ooooooh Norma!
que ela gravara pela Odeon.
Alaíde Costa interpretou brilhantemente Chora Tua Tristeza, de Oscar Castro Neves e
Luvercy Fiorini. Até Luiz Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli cantaram. O primeiro entoou
Desafinado e Chega de Saudade, enquanto o segundo mostrou Mamadeira Atonal,
composição sua que nunca chegou a ser gravada.
Os prometidos Vinícius, Tom, Billy Blanco e Dolores compareceram para prestigiar, mas
não subiram ao palco. Os jornalistas Ronaldo Bôscoli e Moysés Fuks encarregaram-se da
repercussão do evento na imprensa, respectivamente na revista Manchete e no jornal
Última Hora, Todos queriam saber o que era exatamente aquela música tocada ali, se era
jazz, se era samba. Mas Tom Jobim e Newton Mendonça já haviam definido: aquilo era
Bossa Nova.
A partir daí, todos queriam escutar Bossa Nova e os convites para shows e reuniões
começaram a proliferar. O grupo fez espetáculos na Escola Naval (do qual participaram
também Lúcio Alves, Sylvinha Telles, Alaíde Costa e Norma Bengell), no Colégio Santo
Inácio, no Franco-Brasileiro, no auditório da Rádio Globo, este último transmitido ao vivo
do auditório na Rua Irineu Marinho e do qual participaram Os Cariocas, já com a
formação que virou oficial: Severino, Badeco, Quartera e Luís Roberto.
Naquela época, gravadores de som não eram muito comuns nas mãos de não profissionais.
Uma das poucas pessoas que possuíam gravador era Jorge Karam, amigo de toda a turma
da Bossa Nova e um apaixonado por música. Graças ao hobby de Karam ficaram
preservados importantíssimos momentos da vida do movimento e de seus participantes.
Do show da Arquitetura e da Escola Naval, como tantos outros, o único recorde que existe
são as preciosas gravações de Karam a quem a história da Bossa Nova muito deve.
Em breve, ter representantes da Bossa Nova numa reunião era sinônimo de status. A
presença de João Gilberto numa festa, então, era disputadíssima. Todo mundo anunciava
sua presença, mas era raro ele aparecer. Em compensação, quando o fazia, deixava seus
ouvintes exaustos: muitas vezes tocava até o amanhecer.
Alguns locais do Rio passaram a ser sinônimos da Bossa Nova, sendo raras as noites em
que os compositores do grupo e seus amigos não se encontrassem. Além da casa de Nara
Leão, as casas de Lula Freire, Geraldo Casé, Chico Pereira e Jorge Karam eram
verdadeiros templos do movimento. As reuniões em casa de Marilene Dabus e Bené
Nunes eram outro ponto de encontro dos músicos e compositores. Um pouco mais tarde,
as casas do advogado Nelson Motta, pai do compositor Nelsinho Motta, e do empresário
Cícero Leuenroth, pai da cantora Olívia, que anos depois se casaria com o compositor
Francis Hime, também eram refúgio seguro para a Bossa Nova.
O movimento tinha muitos simpatizantes e admiradores de primeira hora. Um dos mais
frequentes às reuniões do grupo era o jornalista João Luís Albuquerque. Íntimo dos
músicos e compositores, João Luís foi um dos maiores divulgadores da Bossa Nova, e
certamente um dos seus mais importantes incentivadores.
Muita gente passou a organizar festas apenas para mostrar aos amigos uma pretensa
intimidade com o grupo. Proliferavam jantares e reuniões, tanto no Rio como já em São
Paulo, muitas vezes oferecidos por diplomatas e pessoas da sociedade interessados na
novidade musical.
Um dos episódios mais hilariantes desta época aconteceu na casa do adido cultural da
Argentina. A mulher de Normando Santos, Lolita, que trabalhava na embaixada argentina,
foi encarregada pelo diplomata de organizar um jantar em seu apartamento, na Rua
Siqueira Campos, em Copacabana. Naquela reunião estavam, entre outros, Luiz Bonfá,
Maria Helena Toledo, Luiz Carlos Vinhas, Chico Feitosa, Lula Freire, Ronaldo Bôscoli,
Roberto Menescal, Carlos Lyra, Roberto Carlos, Carlos Imperial, Luizinho Eça e até um
membro do grupo apelidado de Milton Ilha Rasa, que tinha esta alcunha por causa do
estado em que ficavam seus olhos após atravessar as emoções e exageros da noite.
O apartamento do diplomata tinha várias salas. Numa delas se instalaram diplomatas,
músicos e compositores. Em outra foi colocada uma enorme mesa com vários pratos
decorados, arranjos de flores e um belo leitão assado. O dono da casa, aflito, esqueceu a
diplomacia e começou a insistir para que o show começasse.
Nada incomodava mais os integrantes da Bossa Nova do que, em vez de se sentirem
convidados, serem considerados apenas como músicos aparentemente contratados para
divertir uma festinha social. Enquanto os companheiros, de propósito, não se resolviam a
tocar, Luiz Carlos Vinhas aproveitou para tomar um banho na suíte do apartamento. Usou
todos os sais e perfumes da esposa do diplomata. Saiu limpíssimo, mas deixou o banheiro
em situação caótica.
Tanta insistência por parte do dono da casa acabou irritando Vinícius de Moraes, “Vamos
dar uma lição nesse cara, vamos sumir com aquele leitão. Esconde o leitão “, instigou ele.
Ronaldo Bôscoli gostou da idéia até porque o grupo seguiria da casa do diplomata
diretamente para o fim de semana de pescarias em Cabo Frio, onde o leitão seria
certamente muito mais aproveitado - e resolveu produzir o sequestro.
Ajudado por Vinhas, pegou o leitão, com bandeja de prata e tudo, e escondeu atrás de uma
cortina. Vinícius só ria. Na mesma hora, o tão esperado show começou, e cada um tocou
suas músicas, distraindo os animados convivas. Chico Feitosa e Bôscoli ficaram
observando discretamente a sala de jantar. A certa altura um dos garçons foi até lá e levou
aquele susto. Chamou um colega, ficaram os dois gesticulando e olhando para todos os
lados em busca do leitão. Sem outra opção, levaram o problema ao dono da casa.
“A gente não ouvia o que eles diziam, só via os gestos, o movimento dos lábios. Ele dizia
‘Como? Como sumiu?”, lembra Chico. Muito nervoso, o diplomata perguntou aos
presentes se por acaso não haviam visto um leitão por ali. Obviamente, ninguém tinha
visto leitão algum.
Bôscoli, preocupado com a possível confusão, resolveu sumir de vez com o bicho. Numa
operação complicadíssima, ele e Chico Fim de Noite embrulharam o leitão num jornal,
depois numa toalha, deixaram a bandeja atrás da cortina e conseguiram contrabandeá-lo
para o velho fusquinha de Bôscoli, estacionado nas imediações. O jantar acabou em clima
de mistério, e no dia seguinte o prato foi devidamente degustado com “vivas” à Argentina,
na alegre pescaria de Cabo Frio.
Outro episódio que traduz o espírito irreverente da turma aconteceu na casa de uma
condessa na Rua Dona Mariana, em Botafogo. A nobre senhora, anunciando uma noite de
Bossa Nova, convidou o grupo e inúmeros socialites da época. Preparou um belo jantar,
em que se comeu e bebeu à vontade.
No fim da festa, na despedida à dona da casa, era preciso entrar numa fila para beijar a
mão, que a condessa cerimoniosamente esticava a quem saía. O primeiro a entrar na fila
foi Luiz Carlos Vinhas, num monumental pileque. Sem saber o que devia fazer, Vinhas
simplesmente empurrou a mão da condessa para baixo e saiu. Mas este não foi o único
insulto da noite. O pior ainda estava por vir.
Chegou a vez de Zé Henrique Bello, artista plástico, frequentador da Bossa Nova, que
tentava se manter em pé na fila. A condessa esticou o braço. Zé Henrique segurou sua
mão, parou para pensar em alguma coisa e acabou babando na mão da condessa.
Percebendo a gafe, ainda tentou consertar: delicadamente limpou a mão da condessa na
própria camisa e saiu, cambaleando.
O pianista Luiz Carlos Vinhas sempre foi uma das mais divertidas figuras da Bossa Nova.
Conta casos e inventa situações que já fazem parte da história do movimento. Numa noite,
junto com Lula Freire e Chico Toselli, um amigo boêmio, foram para uma reunião de
Bossa Nova no apartamento de uma bela morena carioca que morava na Avenida Nossa
Senhora de Copacabana, e era conhecida muito especialmente pelos seus belos atributos
físicos.
Como já era tarde, por volta das 11 h da noite, e a portaria já estava fechada, ficaram os
três por ali, olhando para cima e escutando o som da reunião no 3º andar, esperando que
aparecesse alguém para abrir a porta. Não demorou muito, chegou um sujeito enorme,
uma verdadeira ilha, que ao abrir a porta perguntou a Vinhas para onde eles iam.
O pianista, que quando fica nervoso dá uma gaguejada, quis se fazer de engraçado e disse
para o cara: “É ne-negócio de Bossa Nova. Va-vamos na casa da fulana. Aquela da-da
bunda grande”. “O grandalhão, sem mover um músculo, respondeu: “É minha irmã”. Luiz
Carlos Vinhas ficou lívido, e segurando imediatamente no braço do sujeito, muito sério
arrematou: “Bu-bunda maravilhosa!”. O grandão acabou rindo e abriu a porto para os três.
Já a salvo, no apartamento, Vinhas comentava que o pescoço do irmão era maior do que a
bunda da dona da reunião.
A mania de todo mundo querer se mostrar íntimo da Bossa Nova irritava de verdade os
compositores. Uma das principais características de quem queria se mostrar “da Bossa
Nova” era dizer que tinha intimidade com os compositores e que sabia cantar todas as
músicas do grupo.
Um dia Chico Feitosa resolveu pregar uma peça numa senhora da sociedade que adorava
se fazer de íntima: no meio de uma reunião começou a cantar uma música inventada na
hora: Volma. “Eu cantava: ‘Voooolma, veja só que lalalalá... veeeeenha...’. Eram apenas
algumas palavras desconexas, e o resto eram sons sem sentido”, conta ele. E não é que a
mulher fingiu conhecer a música, chegando a acompanhar Chico nos vocais?
Em pouco tempo, o termo Bossa Nova começou a servir para dar nome a qualquer tipo de
coisa, desde geladeiras a lançamentos imobiliários. Mas muita gente também começou a
implicar com o movimento: alguns críticos sem nenhuma importância e algumas pessoas
conhecidas que pertenciam a uma outra geração de músicos e compositores e preferiam os
antigos estilos da música brasileira.
O jornalista Antonio Maria, cuja música Ninguém me Ama era usada como exemplo do
que absolutamente não era Bossa Nova, era um deles. O próprio Antonio Maria,
inteligente, ótimo cronista e homem da noite carioca, brincava com sua própria letra,
cantando: “Ninguém me ama, ninguém me quer ninguém me chama de Baudelaire”. Maria
mantinha uma coluna diária no O Jornal, onde sempre encontrava uma maneira de criticar
o movimento. Ele e Bôscoli quase saíram no tapa na porta do Little CIub, mas Aloysio de
Oliveira chegou a tempo de apartar a briga. Os dois, no entanto, ficaram sem se falar para
sempre.
Outro ferrenho inimigo da Bossa Nova era Sílvio Caldas. O cantor afirmava, para quem
quisesse ouvir, que a Bossa Nova nada mais era que um movimento passageiro e sem
categoria, e que rapidamente acabaria. Lamentável engano do seresteiro.
Em contrapartida, os jornalistas Moysés Fuks, João Luiz Albuquerque e Sylvio Túlio
Cardoso formavam o trio de ouro na defesa e na divulgação do movimento. Muita gente
de peso acabou aderindo, como os maestros Radamés Gnatalli, Léo Peracchi, Rogério
Duprat, Julio Medaglia e Guerra Peixe. Ary Barroso (este menos) e Dorival Caymmi
também se chegaram, prestigiando várias reuniões do grupo.
João Gilberto foi apresentado a Astrud Weinert na casa de Nara Leão, Em pouco tempo
eles começaram a namorar e se casaram, tendo Jorge Amado como padrinho. Alguns anos
mais tarde, ela gravaria a versão em inglês de Garota de Ipanema no lendário disco
Getz/Gilberto.
Ainda em 1960, João gravou seu segundo disco, O Amor, O Sorriso e a Flor, que
consolidaria definitivamente a Bossa Nova. Do repertório constavam Meditação (Tom
Jobim e Newton Mendonça), Só em Teus Braços (Tom Jobim), Se É Tarde Me Perdoa
(Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), Corcovado (Tom Jobim), Discussão (Tom Jobim e
Newton Mendonça), Um Abraço no Bonfá (um instrumental de João Gilberto), Doralice
(Dorival Caymmi), Amor Certinho, Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton
Mendonça), O Pato, Outra Vez e Trevo de Quatro Folhas. Tanto Samba de Uma Nota Só
quanto Desafinado tornaram-se clássicos do movimento.
Também no início de 1960, houve o primeiro rompimento sério na Bossa Nova. Carlos
Lyra resolveu não esperar que André Midani, amigo dos compositores da Bossa Nova,
diretor da Odeon, cumprisse sua promessa de gravar um disco com toda a turma e acabou
assinando um contrato para um disco solo com a Philips, através de João Araújo. A notícia
explodiu como uma bomba. Ronaldo Bôscoli não gostou nada da história e acabou
rompendo com seu parceiro.
O disco de Carlinhos, Bossa Nova Carlos Lyra, saiu com arranjos do maestro Carlos
Monteiro de Souza contracapa com texto de Ary Barroso e canções como Rapaz de Bem
(Johnny Alf), Chora Tua Tristeza, Ciúme, Barquinho de Papel, Gosto de Você, Quando
Chegares e Maria Ninguém.
Bôscoli já havia marcado um segundo show para a Faculdade de Arquitetura, no mesmo
local onde acontecera o primeiro. O nome do espetáculo seria A Noite do Amor do Sorriso
e da Flor, com a prometida presença de João Gilberto, Vinícius de Moraes, Os Cariocas,
Johnny Alf e Norma Bengell.
Flagrante de primeira noite da Bossa Nova, o show "A Noite do Amor, do Sorriso e da Flor", na
faculdade de Arquitetura.
Por causa do desentendimento com Bôscoli, a turma de Carlos Lyra resolveu organizar
outro show na mesma data, na PUC, contando também naquela noite com as presenças de
Juca Chaves e Alaíde Costa.
O show da Arquitetura foi infinitamente melhor: Johnny Alf compareceu e tocou seus dois
grandes sucessos da época, Rapaz de Bem e Céu e Mar. Nervoso, o cantor e pianista
precisou tomar um banho gelado antes de entrar no palco. O sempre irreverente Luiz
Carlos Vinhas entrou no palco de velocípede. Outros que se apresentaram na mesma noite
foram Nara Leão, Chico Feitosa, Claudete Soares, Sérgio Ricardo, o conjunto de Roberto
Menescal, Luizinho Eça e os paulistas Pedrinho Mattar e Caetano Zama. Mas as duas
grandes atrações da noite foram João e Astrud Gilberto, que fecharam o espetáculo.
Outros cantores americanos também começaram a descobrir a Bossa Nova. Entre eles
Sarah Vaughan, que viera ao Brasil pela primeira vez no ano anterior, e Nat King Cole,
que gravara duas das faixas de seu disco latino com Sylvinha Telles. King Cole, inclusive,
foi das poucas pessoas que fizeram João Gilberto aguardar algumas horas no corredor da
Odeon esperando para ver o ídolo. Nat saiu e passou por ele sem saber de quem se tratava.
Mais tarde, na casa de Tom Jobim, João comentaria: “Nat não é preto, é azul”.
João Gilberto tornava-se cada vez mais perfeccionista. Certa ocasião foi convidado a fazer
uma apresentação no programa Noite de Gala, que seria transmitido ao vivo do Tijuca
Tênis Clube. O estádio estava apinhado de gente, e quando João começou a cantar “O
pato... saiu cantando alegremente....”, todo o público respondeu em coro: “Qüém, qüém”,
o que foi uma forma simpática de participação no show. Insultadíssimo, João
simplesmente se calou, parou de tocar, disse baixinho ao microfone “eu não sou Miltinho”
e retirou-se. Até hoje ninguém sabe muito bem o motivo da referência ao ex-crooner e
pandeirista dos Anjos do Inferno, que estava nas paradas de sucesso com o samba Mulher
de 30.
A Bossa Nova logo se profissionalizou. O movimento deixara de ser um episódio carioca e
tomava conta das rádios e televisões de todo o Brasil. Por todo o país violões passaram a
ser vendidos como nunca. Músicos e compositores começaram a aparecer nas grandes e
pequenas cidades, alegrando a música brasileira com a mensagem do amor, do sorriso e da
flor.
Em Belo Horizonte um grupo de rapazes e moças se encontrava para um bate-papo nas
horas de folga, entre um estudo de Química e Física. Um violão ou piano quase sempre
fazia parte da conversa. A explosão da Bossa Nova estimulou o grupo, que passou a cantar
e tocar o novo som que vinha do Rio de Janeiro. De vez em quando alguém aparecia
assobiando música nova de sua autoria. De repente surgiu a idéia de formar um conjunto
próprio para tocar suas composições. A coisa era fácil: todos tocavam um ou mais
instrumentos.
O grupo, daí em diante, passou a reunir-se no sítio do pai de Pacífico Mascarenhas, nas
proximidades de Belo Horizonte. Vai dia, vem noite, surgiu Sambacana, uma reunião
musical na base de samba e cana, na qual eram apresentadas para os amigos as novas
músicas.
Os compositores e músicos do grupo eram Pacífico Mascarenhas (Pouca Duração,
Começou de Brincadeira, Amor é Ilusão, Ônibus Colegial, Olhos Feiticeiros, Se Eu
Tivesse Coragem, Mandrake), Roberto Guimarães (Amor Certinho, Serenata Branca,
Menina da Blusa Vermelha), Alceu Nunes (Quantas Noites Ainda?, Estrada da Solidão),
Gilberto Mascarenhas (Rosinha, Explicação), Marcos de Castro, violonista e arranjador do
grupo, e Ubirajara Cabral, pianista e maestro do Coral de Ouro Preto, apontado pelo jornal
O Globo como o melhor conjunto vocal do Brasil em 1962.
Durante as madrugadas, saíam eles de piano e violão, em cima de um caminhão, com o
Coral de Ouro Preto, fazendo serenatas pelas casas das namoradas até o dia clarear. Nos
antigos cenários mineiros, o som da Bossa Nova encantava a todos.
Na Bahia, terra de João Gilberto, Carlos Coqueijo e Alcivando Luz, também amigos do
cantor, apresentavam o novo som em suas casas e na casa de Nilde Almeida. Entusiásticos
shows ocorreram no Teatro Castro Alves e na boate do Hotel da Bahia. Os músicos Perna
Fróes, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque, Gecildo Caribé, Bira da Silva e Lula
Nascimento esquentavam as noites de Salvador. Não menos importante para o movimento,
em épocas diversas, foram os instrumentistas Genivaldo da Conceição, Lindenberg
Cardoso, Fernando Lona e Djalma Correa.
A semente plantada por João Gilberto mais tarde traria Gal Costa, Maria Bethânia,
Caetano Veloso e Gilberto Gil para a cena maior da música brasileira. Euler Vidigal, no
Maranhão, despontava como compositor e reunia grupos de intelectuais, músicos e
apreciadores para ouvir a novidade. Também de Minas, veio a voz romântica do cantor
Luiz Cláudio.
No Rio, locais como o Beco das Garrafas, na Rua Duvivier, em Copacabana, tornaram-se
pontos de encontro dos músicos e amantes do jazz e da Bossa Nova, O nome do local
surgiu do hábito pouco educado que os moradores dos prédios tinham, de jogar garrafas
sobre os boêmios que perturbavam a paz noturna, o que era frequente.
Ali, nas boates Bottle’s, Bacarat e Little Club, os amantes do jazz, da Bossa Nova e das
garrafas promoviam memoráveis encontros musicais. O Little Club e o Bottle’s
pertenciam aos mesmos donos, Giovanni e Alberico Campana, que estimulavam as
apresentações de grupos de jazz e Bossa Nova. Muita gente passou por lá neste início dos
anos 60: Paulo Moura, Juarez Araújo, Cipó, Aurino, Maciel, Luizinho Eça, Luiz Carlos
Vinhas, Sérgio Mendes, Baden Powell, Tião Neto e Chico Batera, entre muitos outros.
O Zum-Zum, boate do compositor Paulinho Soledade, e o Manhattan também abriram
seus espaços para a Bossa Nova. O homem de televisão Geraldo Casé, responsável pelo
que de melhor se fazia em shows de IV abriu uma casa noturna dedicada quase que
exclusivamente aos intérpretes da Bossa Nova. O local tinha o sugestivo nome de Rui Bar
Bossa.
Quando o disco de João Gilberto chegou a São Paulo, a maior concentração de pontos de
encontro do pessoal que curtia jazz, MPB e música instrumental estava na Praça Roosevelt
e seus arredores. Com ramificações, por exemplo, para os lados da Consolação, onde a
boate Cave lançava cantores novos redescobria Aracy de Almeida ou Cyro Monteiro, e
mais tarde apresentaria pocket shows, alguns importados do Beco das Garrafas. Neste
mesmo rumo, chegava-se até a Rua Sete de Abril, onde a Oásis ainda era ponto de
referência nas colunas sociais, e onde tocaram muitos dos músicos que viriam a se engajar
na Bossa Nova.
Nas boates Cave e Oásis, em São Paulo, foi lançada, com grande sucesso, a cantora e
compositora Maysa Monjardim. A Praça Roosevelt, hoje urbanizada com estacionamentos
subterrâneos, túneis, supermercado e outras construções, era então um espaço asfaltado,
onde durante o dia estacionava um mar de automóveis, à exceção daqueles reservados à
feira livre, ou dos fins de semana, quando lá aconteciam simultaneamente vários jogos de
futebol do tipo “pelada”.

Neste terreno atrás da igreja da Consolação funcionava uma espécie de praia dos paulistas
em pleno centro da cidade. À noite, o pessoal a atravessava, com saudosas condições de
segurança, para se deslocar da Baiúca, onde tocavam, por exemplo, os conjuntos de Pachá,
Moacyr Peixoto, Luiz Loy ou do vibrafonista Garoto, até o outro lado da praça, onde
funcionou o Delval de Caco Velho, o primeiro Stardust, onde Alan e Hugo tiveram como
crooner, por exemplo, Jane Moraes, e como tecladistas Hermeto Paschoal ou Eli
Arcoverde.

Neste mesmo “outro lado da praça”, fizeram sucesso o Bon Soir, onde pontificava Walter
Santos, ou o Farney’s, que depois virou Djalma, que depois se tornou Zum-Zum e que
também entrou na onda dos shows de bolso. Também já faziam a noite paulista Agostinho
dos Santos, Maysa e Juca Chaves, que mais tarde participariam dos primeiros espetáculos
do gênero realizados na cidade, como o denominado “Festival Nacional da Bossa Nova”,
promovido pelo então colunista social Ricardo Amaral, em abril de 1960, no Teatro
Record.

Como no Rio, entre as gravações mais curtidas por certo tipo de público que viria a se
encantar com a nova Bossa Nova estavam a versão cantada por Chet Baker, de My Funny
Valentine, e Cry Me a River, com Julie London acompanhada pelo guitarrista Barney
Kessel. Na imprensa e nas rádios, a repercussão dos primeiros discos de Bossa Nova,
particularmente o de João, foi evidentemente de perplexidade, entusiasmo, e em alguns
casos até de indignação No meio dessas polêmicas, pode-se discutir precedências ou
premonições, mas a verdade é que tiveram imediata e entusiástica repercussão em colunas
como as de Armando Aflalo ou Adones Oliveira, assim como em programas de disc-
jóqueis como Fausto Canova. Henrique Lobo, Fausto Macedo ou Walter Silva.

São desta época duas frases infelizes, não definitivamente esclarecidas ou superadas,
mesmo decorridos 35 anos, e que são inevitavelmente lembradas por quem pretenda
estender ao campo da Bossa Nova o espírito de rivalidade entre paulistas e cariocas. Uma
delas, em sua versão mais suave, foi proferida logo após quebrarem o disco 78 rpm de
João Gilberto, e teria a forma de uma pergunta: “Por que gravam cantores resfriados?”.
Sua autoria permanece em dúvida, variando do próprio diretor de vendas da gravadora
Odeon em São Paulo até o gerente comercial das Lojas Assunção, então a maior cadeia de
eletrodomésticos e de discos do país.

A outra, de Vinícius de Moraes, chamava a cidade de “túmulo do samba”, gerando
enormes reações a ponto de, em janeiro de 1965, o poetinha ter escrito quatro crônicas
para o Diário Carioca, preocupado em esclarecer as circunstâncias nas quais teria sido
pronunciada.

Segundo ele, o comentário fora endereçado a Johnny Alf, para fazer desaforo a um grupo
de grã-finos que estavam bêbados, na boate Cave, e comentaram em voz alta que aquele
“cara” desafinava e “não tocava coisa com coisa”. Curiosamente, foi nestes artigos, sob o
título de “SP não é mais o túmulo do samba”, que pela primeira vez ele fez referência a
certo futuro parceiro, “Chico (..) (filho de meu querido amigo o historiador e sociólogo
Sérgio Buarque de Holanda) cujos sambinhas são muito bons”.

Entre as respostas à ofensa do poeta, a de um grupo de artistas e jornalistas paulistas, ou lá
radicados, foi promover “reuniões de bossa”, que aconteciam em residências como as do
maestro Souza Lima, de Renato Mendes ou de Maricene Costa, sempre aos sábados à
tarde. Faziam parte desta turma, entre outros, Theo de Barros, Alaíde Costa, Claudete
Soares, César Mariano, Walter Wanderley, Yvette, Adones Oliveira, Alberto Helena Jr.,
Franco Paulino, Luiz Vergueiro, Solano Ribeiro e Moracy do Val. Alguns destes últimos, a
partir de janeiro de 1963, passaram a produzir “noites de Bossa”, às segundas-feiras no
Teatro de Arena, porque não dava mais para reunir em residências particulares todo o
público interessado em participar desses encontros.

Mais tarde ainda, os mesmos produtores promoveram espetáculos musicais no Teatro
Maria Della Costa, inclusive uma releitura de Orfeu do Carnaval, que havia vencido em
1954 o concurso de textos teatrais inéditos, por ocasião dos festejos do IV Centenário de
São Paulo. O papel principal coube a Agostinho dos Santos.

Paralelamente aos shows, de palco e de arena, e também aos espetáculos em faculdades,
que continuavam a mobilizar a geração mais jovem em torno da nova música brasileira,
um outro grupo, liderado por Márcio Martins Moreira, mais tarde prestigiado publicitário
nos Estados Unidos, se apresentava na rede de teatros de bairro mantida pela Prefeitura.
Eram shows à luz de velas, que reuniam, entre outros, os compositores, cantores e
violonistas Sérgio Augusto e Zelão, o pianista Nelson Ayres e a cantora Sonia.

Entre essa fase, de shows na escala da casa noturna, do auditório de universidade, dos
teatros pequenos e médios, e a era dos grandes espetáculos no Teatro Paramount e na TV
Record, merece citação especial O Fino da Bossa, que causou uma mudança de rumo na
forma e talvez no conteúdo desses eventos. Este foi realizado em maio de 1964 e teve seu
título utilizado posteriormente para um programa semanal de televisão, na Record,
estrelado por Elis Regina.

O teatro, com capacidade da ordem de 1.800 espectadores sentados, ficava na contramão
da convencionada região musical da cidade, isto é, estava localizado do lado contrário ao
da Praça Roosevelt, no fim da Brigadeiro Luiz Antonio, próximo à Praça da Sé e ao Largo
de São Francisco, Era proposta de seus organizadores — um grupo do Centro Acadêmico
XI de Agosto, liderado por Horácio Berlinck Neto e Eduardo Muylaert e reunindo
universitários de diferentes formações — realizá-lo em padrões o mais que possível
profissionais. Todos os artistas seriam formalmente contratados, pois os organizadores
eram todos estudantes de Direito — canções inéditas seriam incluídas, com arranjos
especiais, e o evento seria registrado em disco LP a ser comercializado imediatamente
após sua realização. A direção musical coube a Oscar Castro Neves, também autor de
Onde Está Você?, em parceria com Luvercy Fiorini, que foi interpretada por Alaíde Costa,
acompanhada por um noneto, constituindo-se na faixa principal do referido disco.

As circunstâncias, inclusive o elenco, o local e a expectativa criada levaram o grande
teatro a ficar superlotado, com o público excedente chegando a quebrar as portas na
tentativa de assistir o espetáculo. Participaram ainda o recém-criado Zimbo Trio, Rosinha
de Valença, Nara Leão, Jorge (então) Ben, os trios de Sérgio Mendes e de Edson
Machado, Wanda, Ana Lúcia (estas duas, também acompanhadas pelo noneto de Oscar),
Paulinho Nogueira, Claudete Soares, Marcos Valle, Os Cariocas, Geraldo Cunha, Luiz
Henrique e Walter Wanderley, tendo o disco encabeçado por alguns meses as listas de
vendagem no País.

A partir dali, aquele espaço foi assumido como novo “templo da Bossa em São Paulo”,
mudada a escala desses eventos, alteradas as relações entre artistas e promotores, e aberto
novo mercado — o dos shows ao vivo — para o grande mercado fonográfico. Toda uma
série de espetáculos seguiu-se ao Fino, comandados por Walter Silva, o Pica-pau,
responsável, entre outros, pelo Samba Novo, Mens Sana in Corpore Samba, Bo-65, O
Remédio é Bossa, Historinha, Primeira Denti-Samba e outros, alguns registrados em disco
com grande sucesso, como o Dois na Bossa, que manteve por algum tempo o recorde de
vendagem de disco nacional.

Ampliava-se o sucesso da música popular do Brasil. Porém essa nova escala tenderia a
levar ao afastamento de alguns traços e características fundamentais do movimento da
Bossa Nova, entre os quais o intimismo.

Como no Rio, as novidades da Bossa Nova eram freqüentemente geradas e difundidas em
casas e apartamentos de universitários, gente da classe média, como Horácio Berlinck
Neto e João Evangelista Leão, nos Jardins; Caetano Zama, que morava na região da
Paulista, ou Ana Lúcia e Miúcha Buarque de Holanda, no Pacaembu. A mansão dos
Berlinck, na Rua Itália, contava com todos os itens necessários a reuniões deste tipo —
piano, bateria, contrabaixo, violão. “Minha mãe, tia Helena, era um barato. Recebia todo
mundo, dava casa, comida e roupa lavada. Passei momentos inesquecíveis ali”, recorda
Horácio. Primo da cantora Wanda Sá, volta e meia ele ia para o Rio, onde também
participou de várias reuniões nas casas de Nara Leão e de Chico Feitosa e Ronaldo
Bôscoli.

Por volta de 1960, Horácio foi trabalhar como programador musical na Rádio Eldorado,
“Ali, a gente tinha um gosto musical muito apurado”, afirma ele, que mais tarde
coordenou o espetáculo O Fino da Bossa, no Teatro Paramount. Foi um dos produtores de
Primeira Audição, no teatro do Colégio Rio Branco e na TV Record, onde também
participou da produção do programa de Elizeth Cardoso (Bossaudade) e do de Elis
Regina, Zimbo Trio e Jair Rodrigues, com o mesmo título daquele show do Paramount.

Quando Horácio deixou a emissora, o programa passou a chamar-se simplesmente O Fino,
onde foi diretor cultural numa época em que lá era freqüente a presença de artistas como
Dick Farney, Isaurinha Garcia, Vinícius, Paulinho Nogueira, Johnny Alf, Geraldo Vandré
ou Ana Lúcia. Foi durante cinco anos produtor do talk show de Silveira Sampaio, o mais
importante da época, programa que “batia papo com gente desde cangaceiro até
astronauta, de travesti a presidente, e com muitas personalidades da música.

Naquele tempo, a turma da Bossa era uma fonte inesgotável...”. A casa de Evangelista, na
Rua Cuba, assim como seu sítio em Jundiaí eram pontos de encontro de longas e animadas
reuniões musicais, principalmente durante a época dos musicais da Record, dos quais
participou, assim como Horácio Berlinck, da produção, ao lado da Equipe A (Tuta
Carvalho, Nilton Travesso, Raul Duarte e Manoel Carlos) e de Zuza Homem de Mello,
que aliás era contrabaixista de jazz durante os anos de início da Bossa Nova. Pesquisas de
repertório, ensaios, montagem de números especiais ou garimpagem de novas músicas e
músicos, tudo era pretexto para que as casas de Leão e de Horácio estivessem sempre
cheias de gente, como os músicos do Zimbo, Elis, Cyro Monteiro, Alaíde, Fernando Faro,
Arley Pereira, Chico, Toquinho, os baianos e os militantes da política universitária.

Já a mansão da família Zammataro, na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, perto da
Avenida Paulista, era base paro encontros do pessoal da música e também do teatro
paulista. Seu filho mais velho, Caetano Zama, estudava na Faculdade de Direito do Largo
São Francisco e também na Escola de Arte Dramática (EAD), de Alfredo Mesquita, além
de compor, cantar e tocar violão, tendo constituído com Agostinho dos Santos e Ana Lúcia
o trio de paulistas que participou do recital do Carnegie Hall. Sempre havia disponível um
quarto de hóspedes para albergar o pessoal bossa-novista que vinha do Rio, como Sergio
Ricardo ou Oscar Castro Neves.

João Gilberto era hóspede freqüente, mas preferia dormir na sala. Foi lá que João mostrou,
pela primeira vez em São Paulo, sua interpretação de Insensatez. São muito lembradas até
hoje as reuniões de sábado à tarde e os reveillons dos Zama, onde conviviam Agostinho
dos Santos, Maysa, Flavio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, Alaíde Costa e Maria Lima,
Aracy Balabanian, Juca de Oliveira, Vandré, Roberto Freire e muitos outros.

Psicanalista e professor da EAD, Freire foi o primeiro parceiro de Caetano Zama (Mulher
Passarinho, de 1958) e, anos depois, mentor do grupo teatral da PUC que montou Morte e
Vida Severina, ganhando o Festival de Nancy de Teatro Universitário (1966).

Ana Lúcia gravou seu primeiro disco nos primórdios do movimento. Com composições de
Tom Jobim e arranjos de Guerra peixe. Lembra que seu primeiro contato com a Bossa
Nova foi através do disco Amor de Gente Moça, de Sylvinha Telles. Encantada, resolveu
tentar a carreira participando dos programas da TV Tupi Almoço com as Estrelas e Clube
dos Artistas, onde foi vista por Agostinho dos Santos, que a estimulou a continuar
cantando. Seu apartamento na Rua Piauí, em Higienópolis, era outro ponto de encontro da
turma.

Foi lá que aconteceu uma famosa história de João Gilberto, quando ele, irritado com o
relógio de parede que cantava a toda hora, parou de tocar e só voltou ao violão depois que
pararam o funcionamento do cuco.

Quanto à casa do professor Sérgio e de Maria Amélia Buarque de Holanda, na Rua Buri,
perto do Estádio do Pacaembu, sempre foi local de encontro de intelectuais. Quando
começou o movimento da Bossa Nova, Heloísa (Miúcha), sua filha mais velha, tocava
violão e cantava, com repertório que ia desde Noel Rosa até Vinícius de Moraes e Paulo
Vanzolini, estes últimos freqüentadores assíduos da casa. Os sucessos das músicas de
Orfeu e de Canção do Amor Demais haviam aumentado consideravelmente o prestígio de
Vinícius junto à turma de Miúcha, que já tinha o privilégio de conhecer de primeira mão
as composições de Vanzolini, professor da USP diretor do Museu de Zoologia, grande
contador de casos e autor de excelentes sambas, na linha mais tradicional.

Em 1960, Miúcha participou, cantando e acompanhando-se ao violão um espetáculo do
Grupo Teatral Politécnico homenagem a Manuel Bandeira amigo da família Buarque, que
havia quarenta anos não voltava a São Paulo, onde estudara na Poli e fora sócio fundador
do Centro Acadêmico. Por Causa disso, foi entrevistada na televisão, provocando forte
reação de dona Maria Amélia, que preferia ter os talentos dos filhos limitados às reuniões
da Rua Buri.

Em outubro de 1964 aconteceu a gravação, no colégio Rio Branco, do piloto do programa
Primeira Audição, apresentado por Elis Regina e Luiz Chaves, produzido para a TV
Record por Horácio Berlinck Neto, João Evangelista Leão e Eduardo Muylaert. Deste
espetáculo participaram vários jovens artistas pouco conhecidos, como Chico Buarque,
Yvette, Toquinho, Tuca, Nelson Ayres, Taiguara, Luz Roberto Oliveira, Adylson Godoy,
Zelão, Hamilson Godoy e outros.

A partir do show original, foram editados os três programas de uma série que durou seis
meses e serviu de embrião para o programo O Fino da Bossa, com Elis Regina, Zimbo
Trio e Jair Rodrigues. O surgimento dessa nova fornada de músicos foi saudado por alguns
críticos, entre eles Moracy do Val e Thomás Souto Correa, como a “nova Bossa Nova”, e
por outros como uma primeira geração pós-bossa, por ela muito influenciada, porém sem
fortes compromissos com a mesma.

A cantora Yvette foi talvez quem permaneceu mais fiel à Bossa Nova, embora não se
tornasse suficientemente conhecida fora de São Paulo. Revelada nos shows universitários,
participou de vários espetáculos do Paramount e das reuniões do grupo de Theo, César e
Maricene. Trabalhou com Edu Lobo, tanto em noitadas no Teatro Arena como em seu
programa Edu Bem Acompanhado, na TV Tupi, produzido por Goulart de Andrade. Foi a
primeira intérprete de Preciso Aprender a Ser Só, com arranjo de Oscar Castro Neves,
num show do Arena, assim como de várias outras composições de Marcos e Paulo César
Valle.

Era presença permanente, ainda, em dois programas de TV também na Tupi, importantes
não só por seu padrão musical mas também pela pesquisa de novos formatos para o
musical de televisão: Móbile e Poder Jovem, ambos de responsabilidade de Fernando
Faro. Aliás, a essa altura não faltavam programas de televisão nos qual a Bossa Nova
predominasse como o Gessy às Nove e Meia, de Eduardo Moreira, o Musical Três Leões,
de Walter Arruda e Cecil Thiré, que chegou a apresentar várias vezes o próprio João
Gilberto como figura central, ou o Julio Rosemberg Show, no qual a parte “um-banquinho-
e-um-violão”, cabia ao compositor e violonista Sérgio Augusto.

Maricene Costa cantava na noite, acompanhada pelos conjuntos mais modernos da época;
participou dos circuitos e espetáculos universitários e mais tarde foi para os Estados
Unidos, sob contrato com uma gravadora especializada em jazz. Foi parceira de Vera
Brasil, com quem chegou a ganhar o segundo prêmio num festival da TV Excelsior. Sua
casa foi uma das bases do grupo de Bossa Nova de São Paulo que se rebelou após a
célebre frase de Vinícius.

Não dá para falar da Bossa Nova paulista sem citar três cantoras cariocas que marcaram o
período com participações importantes, em boates, teatros e discos: Alaíde Costa,
Claudete Soares e Marisa Gata Mansa. Claudete cantava no início de carreira no Rio, no
Hotel Plaza, dividindo as atenções com Sylvinha Telles. Quando esta se casou com
Candinho, deixou Claudete sozinha no Plaza. “Ali foi o berço da Bossa Nova”, garante
ela, que participou de vários shows no Rio, inclusive na Faculdade de Arquitetura. “Ficava
enlouquecida, porque adorava esse tipo de música, mas tinha que voltar para o estúdio da
Rádio Nacional para gravar baião. Eu dizia para mim mesma : não é isso o que eu quero.”

Quando Agostinho dos Santos a viu cantando no Plaza, convenceu-a a ajudá-lo a “levar
esse movimento para São Paulo”. Começou na Baiúca, mas logo se indispôs com o
proprietário por motivos de repertório e passou a cantar no Cambridge, de onde diz ter as
melhores lembranças, “porque lá o pessoal ia por causa da música, os freqüentadores eram
os próprios artistas”, segundo ela. Mas foi também musa do João Sebastião Bar, onde era
considerada a pocket singer dos pocket shows.

Foi no bar do Cambridge que formaram um quarteto vocal — ela, Alaíde, Pedrinho Mattar
e o contra baixista Matias Matos — a que denominaram Os Bossais, de início por
brincadeira, e mais tarde resultando num disco que se tornou uma raridade para os
colecionadores.

Já Alaíde Costa, que havia sido revelação do ano no Rio, em 1957, e cooptada por João
Gilberto para incluir três músicas de Bossa Nova em seu primeiro LP em 1959, conquistou
o público paulista a partir do show Festival Nacional da Bossa Nova, um ano depois, no
Teatro Record. Em 1962 casou-se com o radialista Mário Lima e foi morar de vez em São
Paulo, onde teve grandes sucessos em boates, festivais e teatros, com alguns pontos altos
como o show O Fino da Bossa, do Paramount, e o recital Alaíde Alaúde, no Teatro
Municipal, sob a direção do maestro Diogo Pacheco. Como compositora Alaíde fez
músicas e letras, inclusive em parceria, entre outros, com Tom Jobim e Vinícius.

Quanto a Marisa, ou Gata Mansa, de origem no jazz, no Rio de Janeiro, foi crooner do
Copacabana Palace, intérprete destacada do repertório de Dolores Duran, e estrela de
shows do Beco das Garrafas, Tendo casado com o pianista e arranjador César Camargo
Mariano, mudou-se para São Paulo, onde viveu durante sete anos. No período teve
algumas experiências teatrais, entre as quais um musical com Lennie Dale e um
espetáculo no Arena, com Caetano Veloso e Taiguara.

Impõe-se pelo menos a citação de outras personalidades femininas que tiveram passagem
marcante naquela época, em São Paulo, como a violonista e compositora Vera Brasil,
autora de O Menino Desce o Morro, gravação de sucesso de Geraldo Cunha, e Tema do
Boneco de Palha, e que participou de espetáculos com Claudete, Pedrinho Mattar e
conjunto no João Sebastião, ou a cantora Márcia, que alcançava grande êxito no Estão
Voltando as Flores, inclusive apresentando interpretações novas de músicas de Johnny
Alf.

No segundo semestre de 1959, ano do primeiro LP de João Gilberto, Tom Jobim
apresentava, na TV Paulista, o programa O Bom Tom, no qual apresentava os principais
nomes do movimento carioca e abria oportunidades para autores e intérpretes da Paulicéia.
Na mesma época, boates como Michel, Oásis e Baiúca anunciavam novas programações
baseadas no repertório e no estilo da Bossa Nova. Na Cave, por exemplo, eram
anunciados, além de um cantor de rock, Ana Lúcia, Johnny Alf e trio e a participação
especial de Booker Pittman, que compunha à época, com Hector Costita e Enrico
Simonetti, um trio de ouro de músicos estrangeiros radicados em São Paulo e que tiveram
participação no movimento.

Em setembro de 1959, Vinícius de Moraes teve um encontro com os alunos da Politécnica,
superlotando o maior dos auditórios da faculdade e resultando numa crônica que tem sido
incluída em suas antologias. Mais até do que poesia, mulher e política, temas da
divulgação do evento entre os universitários, foi o novo movimento musical que motivou
maior número de perguntas e debates.

O modo diferente de João cantar e de tocar violão, o futuro da Bossa Nova sendo perene
ou um mero modismo, a possibilidade de Norma Bengell ser enquadrada como cantora ou
não, tudo sinalizava por uma grande valorização do tema pela juventude de então. O
evento foi encerrado com o poeta tirando do bolso o manuscrito da letra de uma música
nova que ele ainda não decorara e que cantou, acompanhado por Caetano Zama, em dueto
com Mariana Pôrto de Aragão, uma “cantorinha promissora”, para quem ele previa uma
bela carreira na Bossa Nova. A canção era Samba em Prelúdio, e Mariana abandonou
pouco depois a carreira, para casar-se com seu empresário e dono da boate Cave, Jordão
de Magalhães.

São Paulo sempre se caracterizou pelo alto nível de seus instrumentistas, e o movimento
da Bossa Nova trouxe no mínimo o resgate do violão e a revalorização do trio
piano/baixo/bateria. Para não retroceder demais no tempo, pelo menos desde os áureos
tempos do Teatro Brasileiro de Comédia e da Cinematográfica Vera Cruz, criados por
Franco Zampari, São Paulo passou a ter um local onde se praticava permanentemente o
jazz e a música nacional por ele influenciada.

Essa base era o Nick Bar, de Joe Kantor, vizinho ao TBC e ao qual havia acesso direto
através da sala de espera do teatro. Ponto de encontro de artistas, intelectuais e socialites,
ali se apresentaram os principais pianistas da década de 50 — basta citar, por exemplo,
Dick Farney, que inclusive gravou, em homenagem a ele, uma depois célebre canção, de
autoria de Garoto e J, Vasconcelos.

Vários foram os instrumentistas que se destacaram durante o período de apogeu da Bossa
Nova - digamos, de 1959 a 1964 -, a começar por Johnny Alf, que passara a viver em São
Paulo quatro anos antes e que trabalhou em pelo menos uma dezena de casas noturnas,
entre as quais Cave, Baiúca, Michel e Stardust. Em 1961, quando voltou para o Rio de
Janeiro, acabara de gravar seu primeiro disco, que incluía Rapaz de Bem, Ilusão à Toa e O
que É Amar.

Naquela época despontava no Rio de Janeiro uma das mais importantes figuras da música
brasileira: o violonista Baden Powell. Antes mesmo de o movimento da Bossa Nova
existir, Baden já era um conceituadíssimo e exímio instrumentista. Seu violão transcende a
qualquer movimento musical, mas o advento da Bossa Nova trouxe a Baden Powell a
possibilidade de compor e tocar com e para músicos de alta qualidade.

Foi um dos grandes parceiros de Vinícius de Moraes, com quem escreveu clássicos como
Samba da Bênção, Pra que Chorar, Formosa, Berimbau, Canto de Ossanha e Apelo.
Entre inúmeras outras canções, o grande violonista também compôs Samba Triste, com
Nilo Queiroz, Lapinha e Aviso aos Navegantes, com Paulo César Pinheiro, Cidade Vazia e
Feitinha pro Poeta com Lula Freire.

Na gravação de um disco do compositor francês Michel Legrand, uma certa faixa do disco
Sérénades du XXême Síècle, a difícil peça He Antonio não era tocada pelos violonistas
espanhóis presentes à gravação, como Legrand queria. “Chamem Baden Powell”, sugeriu
um músico da orquestra. Assim foi feito e, uma vez no estúdio, Baden, de primeira,
executou o tema exatamente como havia sido escrito, superando mesmo as expectativas do
genial Michel Legrand. Depois de alguns anos morando em Paris, Baden voltou para o
Brasil. Retornando para mais uma temporada na Europa, escolheu viver uns tempos na
Alemanha, Curiosamente, na cidade de Baden-Baden!

Em l964 dois instrumentistas de grande prestígio e vivência na música popular,
particularmente em São Paulo, o baixista Luiz Chaves e o baterista Rubens Barsotti, o
Rubinho, uniram-se ao pianista Hamilton Godoy para constituir o Zimbo Trio, que chegou
a completar trinta anos com a mesma formação, dedicando-se a um repertório coerente,
mantendo fidelidade a um padrão musical que mostrou possuir público permanente e
chegando inclusive a criar uma escola (o Clam) para a formação musical e
aperfeiçoamento de instrumentistas.

Luiz Chaves, nascido e criado em Belém do Pará, acredita que, antes do surgimento da
Bossa Nova, já existia um movimento nacional que buscava explorar o bom gosto dentro
da música brasileira. Filho de um violinista e uma pianista, Luiz lembra que sua mãe,
apesar da formação erudita, mandava buscar álbuns de Fats Waller nos Estados Unidos.
“Por minha casa passaram os maiores nomes da música do Rio de Janeiro”, conta. Ele
cita, entre outros, Orlando Silva, Os Anjos do Inferno e Lúcio Alves. Enquanto as estrelas
ensaiavam dentro de sua casa, as pessoas se acotovelavam do lado de fora para ouvir. “E
nós íamos aprendendo...”, confessa.

O compositor Custódio Mesquita foi, durante algum tempo, diretor artístico da PRC5,
Radioclube do Pará. Aos treze anos, Luiz Chaves fundou com o irmão Sebastião,
conhecido também como o contrabaixista Sabá - outro nome indispensável em qualquer
relação de músicos importantes na história da Bossa Nova - o conjunto Gaviões do Samba,
inspirado nos Cariocas. Mais tarde, na época do auge da Bossa Nova, Sabá formou com o
percussionista Toninho Pinheiro e com o pianista Cido Bianchi o Jongo Trio, de grande
êxito inclusive pelos arranjos vocais, posteriormente sucedido pelo Som Três, então com
César Mariano ao piano.

O baterista do Zimbo, Rubinho, também cresceu ouvindo música norte-americana, fez
parte de vários conjuntos e tocou em inúmeras casas noturnas. Participava intensamente de
gravações, na época em que surgiu a Bossa Nova — e ele cita, como exemplo, os discos
de Maysa e de Agostinho dos Santos —, graças às quais sustentava o curso de Direito na
Universidade Mackenzie. Segundo Rubinho, a Bossa Nova surgiu no Rio, “mas quando
chegou a São Paulo, todo mundo estava pronto para participar e participou. Foi tudo muito
natural e espontâneo”.

Quanto ao pianista do trio, Hamilton, músico de formação preponderantemente erudita,
conta que ele e seus irmãos, nascidos e criados em Bauru, no interior de São Paulo,
ouviam muita música em casa, já que seu pai adorava orquestras americanas, como as de
Glenn Milier e Tommy Dorsey. Dos artistas brasileiros preferiam como exemplo Carlos
Galhardo, Orlando Silva, Dick Farney e Agostinho dos Santos, O programa da Rádio
Eldorado Um Piano ao Cair da Tarde era algo obrigatório para eles. Seus irmãos Adylson
e Hamilson vêm desenvolvendo suas carreiras profissionais, inclusive como pianistas,
confirmando e deixando claras as influências reveladas por Hamilton.

No que se refere à Bossa Nova propriamente dita. o pianista do Zimbo comenta que “a
gente estava preparado para ouvir um tipo de música e, quando o disco do João Gilberto
apareceu lá em casa, causou reações diferentes. Meu pai se irritava com aquilo, enquanto a
gente adorava”.

Paulinho Nogueira foi um dos primeiros a despontar. Em São Paulo desde 1952, pensava
ser desenhista publicitário, até que descobriu seu verdadeiro caminho e foi trabalhar como
violonista na boate ltapoã. Segundo diz, “a gente estava sempre tocando nas casas
noturnas, e só curtia mesmo a música quando acabava a função; aí é que a coisa
esquentava...”. Professor de violão, não apenas se apresentava nos espetáculos do circuito
universitário, como fazia “escada” para os artistas mais jovens, quando necessário.

Theo de Barros começou tocando jazz na boate de jovem-guarda Lancaster, na Rua
Augusta, alternando com um conjunto de rock. Tocou em várias casas noturnas, como
Cambridge, Baiúca, João Sebastião e Ela, Cravo e Canela, Participou do grupo, das
reuniões e das noites de Bossa Nova, e dirigiu Historinha, já na fase do Teatro Paramount,
tendo preparado, para este espetáculo, arranjos que incluíam trompetes e violinos para o
conjunto de Erlon Chaves.

O cantor, violonista e compositor Sérgio Augusto estudava Química Industrial e
trabalhava na noite para ajudar a custear os estudos. Freqüentador da turma carioca da
qual nasceu a Bossa Nova, seu estilo de tocar violão chamava a atenção, assim como suas
primeiras composições, dentre as quais Barquinho Diferente, gravada por Claudete Soares,
Milton Banana Trio, Zimbo e outros. Fez parte do conjunto de Pedrinho Mattar quando
este se apresentava com Claudete, no Ela Cravo e Canela e no João Sebastião Bar, tendo
inclusive ali substituído Vera Brasil, Sérgio Augusto participava do circuito universitário e
se apresentava no Le Barbare e no Estão Voltando as Flores.

Segundo seu depoimento, “inesquecíveis eram os fins de noite na boate Bon Soir, quando
todos os músicos deixavam seu trabalho e iam ouvir o violão e as canções de Walter
Santos, ídolo de todos nós naquela época, sob cujo samba o sol nascia lá para os lados da
antiga Praça Roosevelt”.

Walter Santos, também baiano e também de Juazeiro, fez parte do back vocal do disco
pioneiro de Elizeth Cardoso, ao lado de Tom Jobim e de João Gilberto, e foi presença do
maior destaque nos primeiros anos da Bossa Nova em São Paulo, assim como outro
conterrâneo, Geraldo Cunha, igualmente violonista, compositor e cantor, que participou do
show O Fino da Bossa, e chamava público em inúmeras casas noturnas entre as quais o Le
Barbare, o Jogral e, anos depois, o III Whisky.

Entre tantos outros, Edgard Gianullo sempre teve pendores para os arranjos vocais, tendo
liderado vários conjuntos com clara influência do jazz e da Bossa Nova, o mais recente
dos quais o Quatro por Quatro. Participou da orquestra de Simonetti e acompanhou
inúmeros cantores da moderna música popular brasileira. Apaixonado por música desde os
catorze anos, em particular dos Anjos do Inferno, a maior diversão de sua turma era fazer
novos arranjos para músicas antigas. “Aparecia até a Carmen, de Bizet, em ritmo de Bossa
Nova”, comenta, citando inclusive que Vinícius e Tom costumavam freqüentar as reuniões
desse grupo em São Paulo.

Mesmo polarizada pela velha Praça Roosevelt, a Bossa Nova paulista a partir de 1961
passou a ter fora dela, não longe, porém em duas direções opostas, as casas noturnas mais
marcantes em matéria de música popular brasileira, e de Bossa Nova em particular.

Para os lados da Vila Buarque, próximo ao Mackenzie e à Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo, a FAU: uma série de bares como o Le Barbare, o Manolo, o Ela, Cravo e
Canela e particularmente o João Sebastião Bar, na Major Sertório, dirigido por Paulo
Cotrim. Na Avenida Nove de Julho, não longe do Anhangabaú, o bar do Hotel Claridge,
que depois virou Cambridge para aproveitar o maior número de letras quando teve de
mudar o nome.

Cotrim havia sido diretor artístico da boate Cave, numa época, entre 1959 e 1960, com
música de qualidade e shows de bolso que tiveram grande sucesso. Era ligado aos
movimentos de juventude católica e dono de uma pensão de estudantes na Rua Sabará,
que era ponto de encontro de jovens lideranças intelectuais e artísticas. Anos mais tarde
transformou-se em prestigiado cronista de assuntos gastronômicos. Sua proposta era a
criação de um novo espaço, especialmente projetado para ser uma casa de música, de
shows e de reunião, objetivo que alcançou, tornando-a no mínimo o local mais badalado
da cidade.

Foram suas atrações, entre muitas outras, Claudete Soares acompanhada por Pedrinho
Mattar, com Sérgio Augusto (violão), Azeitona (baixo) e Hamilton (bateria); o
Sambalanço Trio, do pianista César Camargo Mariano, Kleiber (baixo) e Airto Moreira
(bateria) Pery Ribeiro; o Sexteto Brasileiro de Bossa Nova, liderado por Theo de Barros; e
o Quarteto de Eli Arcoverde. Foi lá, por exemplo, a primeira apresentação pública de
Gilberto Gil, então funcionário em São Paulo da Cia. Gessy-Lever.

Entre os locais eleitos pela Bossa Nova, o João Sebastião Bar era, segundo a cantora Ana
Lúcia, “uma Ipanema para os paulistas. Lá, na mesma noite, podia-se encontrar Lennie
Date, Tônia Carrero, Tarcísio Meira e Glória Menezes ou a Condessa Pereira Carneiro”.
Segundo ela, a maior atração da casa eram as “canjas”, além dos dois ou três conjuntos
contratados e uns quatro cantores. “O Jô Soares, por exemplo, sempre aparecia para tocar
bongô ..“.

Já a história do Cambridge relataria principalmente as diferenças na composição dos
conjuntos que ali se apresentavam, num clima mais calmo, para um público mais voltado à
qualidade musical. Entre outros, deve-se lembrar o conjunto de Manfredo Fest, com
Matias (baixo) e Heitor (bateria); o de Pedrinho Mattar, com Azeitona (baixo), Toninho
Pinheiro (bateria) e Papudinho (pistom) acompanhando Claudete, e o da própria,
acompanhada por Walter Wanderley, no quarteto vocal que formaram com a participação
de Alaíde Costa.

Logo a Bossa Nova começou a ser exportada. A Odeon lançou João Gilberto nos Estados
Unidos através de uma montagem de gravações intitulada BraziI’s Brilliant. Em 1961,
houve no Teatro Municipal do Rio um espetáculo de jazz com os músicos americanos
Coleman Hawkins, Curfis Fuiler, Zoot Sims e Herbie Mann, entre outros. Fascinados com
as possibilidades infinitas de improviso da Bossa Nova, eles voltaram para os Estados
Unidos com algumas músicas para serem gravadas.

O trompetista Alberto Castilho lembra que, em 1961, foi um dos músicos convidados a
tocar no primeiro festival de jazz da América Latina, em Punta del Este, no Uruguai. O
conjunto era formado por ele, Juarez Araújo (sax tenor), Paulinho Ferreira (sax barítono),
Bill Horne (trompete) Pedro Paulo (contrabaixo), Sérgio Mendes (piano), Tião Neto
(contrabaixo) e Oswaldinho Oliveira Castro (bateria). Participavam Argentina, Brasil,
Uruguai e Chile. “Até o conjunto argentino já tocava Bossa Nova”, lembra Alberto,
contando também que durante as apresentações do festival só se tocava jazz, mas nas jam
sessions que aconteciam depois, nos bares de Punta del Este, a Bossa Nova era o grande
acontecimento.

O flautista americano Herbie Mann foi realmente o primeiro músico estrangeiro a adotar a
bossa nova como fonte musical. Em Nova York convenceu o dono da gravadora Atlantic,
Nesuhi Ertegun, a vir com ele ao Brasil para ouvir a nova música que, segundo Herbie,
iria “incendiar o mundo”. Ertegun já conhecia Vinícius de Moraes do tempo em que este
servira no Consulado do Brasil em Los Angeles. Ao saber que o poeta era um dos
participantes do movimento, e depois de ouvir Herbie Mann contar o que ouvira no Brasil,
não teve dúvidas, desceu no Rio e logo na segunda noite Lula Freire promoveu, a pedido
de Herbie Mann, de quem já era amigo, um jantar em sua casa com a presença da nata da
Bossa Nova.

Chico Feitosa, Durval Ferreira, Menescal, Vinícius, Luizinho Eça, Baden Powell, Tom e
Sérgio Mendes tocaram para Nesuhi e Herbie, que sacou da flauta e entrou direto no ritmo
e no som da Bossa Nova. Lá mesmo combinaram que antes de retornar para Nova York
deveriam gravar um disco do flautista com os músicos brasileiros.

O resultado foi a gravação do disco Do the Bossa Nova com o americano e os músicos
brasileiros Baden Powell, Gabriel, Papão, Juquinha, Paulo Moura, Pedro Paulo, Sérgio
Mendes, Durval Ferreira, Otávio Bailly, Dom Um Romão e Luiz Carlos Vinhas.

No estúdio, Nesuhi Ertegun comandava a parte técnica e Tom Jobim coordenava e dava
sugestões sobre os arranjos. Não demorou muito e começou uma migração de músicos
americanos para o Brasil em busca das composições de Bossa Nova. Paul Winter, Bud
Shank e Cannonball Adderley colocaram o Rio em seu roteiro.

Nos Estados Unidos o novo som do Brasil era o novo filão para as gravadoras e editores
de música. Tudo era Bossa Nova. Até o que não era. O violonista brasileiro Laurindo de
Almeida, que residia há anos na América e que não tinha rigorosamente nada a ver com a
Bossa Nova, gravou um disco chamado Laurindo Almeida and the Bossa Nova all Stars.
Os músicos eram excelentes jazzistas como Howard Roberts, Al Viola, Shelly Mane, Milt
Holland, Chico Guerrero, Jimmy Rowles, Max Bennett, Bob Cooper, Don Fagerquist e
Justin Gordon, mas quanto à Bossa Nova eram mais inocentes do que o próprio Laurindo
de Almeida.

O músico David Pike, mais esperto, gravou com os músicos Clark Terry e Kenny Burrell
um disco com as músicas do pianista e grande compositor João Donato, que também
morava na América. Donato voltou para o Brasil e foi imediatamente agregado ao
movimento, até porque havia sido um dos primeiros a mudar o toque e as harmonias da
música brasileira ainda no começo dos anos 50.

A música de Tom Jobim rapidamente estourava na América: Charlie Byrd e Dizzy
Gillespie gravaram composições suas e Stan Getz fez a famosa gravação de Desafinado,
da qual vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas Tom Jobim só foi conhecer os
Estados Unidos quando embarcou junto com outros brasileiros para o famoso concerto no
Carnegie Hall, onde a Bossa Nova foi oficialmente apresentada ao mundo.

Em setembro de 1962, a Bossa Nova conquistou definitivamente seu lugar no mundo da
música, no histórico espetáculo apresentado no tradicional Carnegie Hall de Nova York.
Tudo começou quando Sidney Frey, presidente da gravadora americana Audio Fidelity,
resolveu convidar Tom Jobim e João Gilberto para um show em Nova York Frey, que já
havia estado no Brasil algumas vezes, passou um telegrama para a Divisão de Difusão
Cultural do Itamaraty — cujo chefe era o conselheiro Mário Dias Costa — demonstrando
seu interesse e pedindo o apoio do governo brasileiro.

Na época a política cultural do Itamaraty estava mais ligada à promoção de músicos, como
Nelson Freire e Jacques Klein, e acontecimentos como a Bienal de Veneza. Apesar disso,
Mário Dias da Costa, amante da música brasileira e cultura nacional achou que deveria
conhecer a bossa nova mais de perto. Arnaldo Carrilho, então terceiro-secretário da
Divisão de Difusão Cultural, encarregou-se de fazer o contato entre ele e Chico Feitosa,
que por sua vez levou o diplomata a uma reunião na casa de Nara Leão.

Dias Costa, encantado com o que viu e ouviu naquela noite, resolveu que o grupo deveria
participar do espetáculo em Nova York, com eventual ajuda do governo brasileiro através
do Ministério das Relações Exteriores. Com a autorização de seu chefe, o ministro das
Relações Exteriores, Hermes Lima, e de seu superior imediato, ministro Lauro Escorel,
Mário Dias Costa resolveu usar a verba disponível para eventos de difusão cultural e
financiar as passagens do grupo para Nova York. A hospedagem ficaria por conta do
Consulado do Brasil em Nova York, o que foi providenciado pela consulesa-geral do
Brasil Dora Vasconcellos, uma das mais encantadoras e eficientes personalidades da
diplomacia brasileira.

Chico Feitosa encarregou-se de elaborar a lista dos músicos que iriam participar. A lista
inicial, com dezessete nomes, incluía Ronaldo Bôscoli como apresentador do espetáculo
No entanto, Tom Jobim sugeriu que, no lugar de Bôscoli, embarcasse Aloysio de Oliveira,
que já tinha morado nos Estados Unidos e tinha bons contatos e ótimas relações por lá.
Bôscoli acabou ficando no Rio.

A esta altura, Sidney Frey já havia convocada a imprensa para uma entrevista coletiva, em
que anunciou que alugara o Carnegie Hall para um show de Bossa Nova, e que o
Itamaraty financiaria as passagens. Isto bastou para que dezenas de pessoas batessem à
porta de Dias Costa, garantindo serem integrantes genuínos do movimento. Em São Paulo,
um grupo se reuniu e resolveu participar também, conseguindo suas passagens através da
gravadora RGE. Entre eles, os cantores Agostinho dos Santos, Caetano Zama e Ana Lúcia.

Aloysio de Oliveira ficou preocupadíssimo com a quantidade de músicos inexperientes
(alguns sem terem mesmo nada a ver com a Bossa Nova) que estavam prestes a embarcar
para a apresentação. Ele acreditava que a proposta inicial de Frey era melhor: um show
apenas com João Gilberto e Tom Jobim seria mais do que suficiente para mostrar todo
valor da música brasileira, sem correr o risco de um eventual fracasso na principal casa de
espetáculos que poderia comprometer a intenção de apresentar a Bossa Nova como o que
de melhor se fazia em música fora dos Estados Unidos.

Com esta preocupação martelando sua cabeça, A1oysio tentou suspender a ida do grupo:
convocou uma reunião na casa de Tom Jobim, à qual compareceram Carlos Lyra, João
Gilberto e Vinicius de Moraes e sugeriu que seria melhor que todos desistissem do
espetáculo uma vez que o show poderia transformar-se em uma grande bagunça.

Aloysio foi tão convincente em seus argumentos que todos saíram dali acreditando que
seria mesmo melhor desistir da empreitada. Mas Vinícius chamou Lyra num canto e disse:
“Parceirinho, não deixa de ir não, porque Tonzinho e João vão". "Na verdade o Aloysio
preferia que todo mundo desistisse para só irem ele, o Tom e o João Gilberto”, conta
Carlos Lyra, que imediatamente avisou Menescal e os outros que resolveram enfrentar o
desafio.

Dias depois, embarcaram para Nova York, onde já estava o violonista Luiz Bonfá, que já
desfrutava de grande prestígio junto ao público e aos músicos americanos. No dia do
embarque, criou-se um certo constrangimento quando Aloysio entrou no avião: todos
fizeram um silêncio mortal. O produtor acabou sentando-se sozinho num canto, onde
passou toda o viagem. Na última hora, Tom Jobim, que detestava avião, não quis embarcar
naquele vôo, alegando que o motor do avião estava sujo, e deixou para viajar no dia
seguinte. Mas ele não perdeu muita coisa: Caetano Zama não esquece o tormento que foi
ouvir o cantor Charles Aznavour, que também estava no avião, tocar cavaquinho durante
toda a viagem. A chegada aos Estados Unidos foi uma espécie de sonho. Era outono em
Nova York, com dias belíssimos e vários tons de amarelo colorindo a cidade, coberta de
folhas secas.

Tom Jobim deu um susto em Mário Dias Costa: desapareceu no dia seguinte ao de sua
chegada em Nova York. Todos ficaram preocupadíssimos, até que alguém se lembrou de
que ele tinha dito alguma coisa sobre ir à casa do saxofonista Gerry Mulligan em Nova
Jersey. Foram atrás dele e encontraram “Tom e Gerry”, ao lado de uma pilha de latas de
cerveja. Tinham passado a tarde toda bebericando e tocando juntos.

Finalmente a grande noite chegou: no dia 21 de novembro de 1962, a Bossa Nova subiu ao
palco do Carnegie HalI. Compareceram ao histórico espetáculo Luiz Bonfá, o conjunto de
Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Roberto
Menescal, Chico Feitosa, Normando Santos, Caetano Zama, Ana Lúcia, Cláudio Miranda,
Milton Banana, Sérgio Ricardo, Antonio Carlos Jobim e João Gilberto, além do violonista
Bola Sete, a cantora Carmen Costa, o ritmista José Paulo e o pianista argentino Lalo
Schiffrin.

Ninguém, nem mesmo o próprio Itamaraty, imaginaria que aquele concerto pudesse
superar o sucesso do samba de Carmen Miranda, que chegara as telas de Hollywood nos
anos 40. Cerca de três mil pessoas lotaram o Carnegie Hall e outras mil ficaram do lado de
fora. Na platéia estavam nomes como Tony Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie (este na
primeira fila), Miles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner e Herbie Mann, entre muitos
outros ilustres representantes da música americana.

O master of ceremonies, o famoso crítico de jazz Leonard Feather, fez uma introdução
explicando o que era a Bossa Nova. O sexteto de Sérgio Mendes, por sugestão de Lula
Freire batizado como Bossa Rio (o nome original do grupo era Samba Rio), abriu o
espetáculo e sua interpretação foi aplaudidíssima. Anos depois, Mário Dias Costa
confessou que chegou a chorar quando o grupo tocou Samba de Uma Nota Só, com
arranjo de Paulo Moura.

Alguns jornais publicaram a notícia de que o concerto havia sido um fracasso. Realmente,
o sistema de amplificação não era dos melhores, chegando a pifar quando Normando
cantava sua música. Boa parte do público que estava nos balcões e galerias não ouviu
direito o concerto, o que prejudicou a qualidade de audição do espetáculo, mas sem dúvida
foi a partir dali que João Gilberto, Tom Jobim e Carlos Lyra entre outros, deslancharam
suas carreiras internacionais, e foi também a partir dali que a Bossa Nova conquistou
definitivamente o mundo.

Carlinhos Lyra quase apanhou de um guarda americano porque estava fumando bem
embaixo de um aviso de No Smoking, quando foi alertado por Tom Jobim, que o fez
apagar o cigarro alegando que nos Estados Unidos Lyra poderia ir parar na cadeira elétrica
por infringir a lei. No meio do espetáculo, que durou quase três horas, o Sindicato dos
Trabalhadores em Teatro de Nova York ameaçou apagar todas as luzes, pois já tinham
estourado sua carga horária de trabalho. A consulesa Dora Vasconcellos teve de usar de
toda a sua diplomacia para conseguir que eles continuassem a trabalhar.

Apesar de todos estes contratempos, quem estava pôde presenciar momentos
inesquecíveis. Tom Jobim foi muito aplaudido em Samba de Uma Nota Só, mesmo tendo
errado a letra. Apesar do nervosismo, ele teve grande presença de espírito ao parar de
tocar para recomeçar. “Just a second”, disse Tom para então recomeçar com brilhantismo.
Depois cantou Corcovado, Sob aplausos, Tom Jobim saiu do palco e logo depois voltou
paro dizer: “It’s my first time in New York and I’m ver very, very glad to be here.I’m
loving the people, the town everything. I’m very happy to be with you”.

Já o Gilberto, na última hora, implicou com o vinco de sua calça. Chamou o conselheiro
Mário Dias Costa e explicou-lhe que o vinco não estava paralelo à costura, o que
prejudicaria sua apresentação e conseqüentemente poderia comprometer a imagem da
música brasileira no Exterior. Apavorado, Mário Dias Costa pediu socorro à consulesa
Dora Vasconcellos, que localizou a costureira do teatro para conseguir um ferro de passar.
Até hoje algumas pessoas garantem que a própria Dora passou a calça de João, enquanto
ele esperava tranqüilamente, de meias e cueca.

João entrou no palco com um violão emprestado por Billy Blanco. Ele aguardou o silêncio
e cantou Samba da Minha Terra com Milton Banana na bateria e emendou com
Corcovado e Desafinado, com Tom Jobim ao piano. Levou o Carnegie Hall ao delírio. Os
aplausos não eram à toa: somente naquele ano, Desafinado tivera onze gravações nos
Estados Unidos, uma delas a de um milhão de discos vendidos, com Stan Getz e Charlie
Byrd.

Outro ponto alto do espetáculo foi a apresentação de Luiz Bonfá ao violão e Agostinho
dos Santos cantando Manhã de Carnaval. Bonfá lembra que Agostinho, muito nervoso,
abordou-o pouco antes do show começar: “Bonfá, você vai tocar Manhã de Carnaval”?
Bonfá confirmou. “Posso cantar com você?”, pediu Agostinho. Bonfá, muito sem jeito,
disse que não, já que o que estava combinado era que ele faria apenas um solo com o
violão, e não queria se indispor com Sidney Frey. Agostinho não desistiu: “Não tem
importância, você modula que depois eu entro...”. Depois de muita insistência, Bonfá
cedeu: combinaram que ele faria primeiro uma introdução instrumental e depois
anunciaria Agostinho. Mas quando o violonista começou a tocar, os aplausos abafaram o
som. Agostinho, achando que já era sua hora, entrou. E acabou cantando desde o início,
exatamente como queria. O Carnegie Hall aplaudiu de pé, e cravos vermelhos foram
atirados ao palco.

Nos dias seguintes, alguns inimigos da Bossa Nova na imprensa brasileira noticiaram com
fartura o “fracasso histórico” do show, A mentira e o exagero causaram uma repercussão
tão negativa que Mário Dias Costa foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores
para explicar o que havia se passado. No entanto, o show havia sido filmado por uma
equipe de TV americana. Dora Vasconcellos comprou o filme por 450 dólares e mandou-o
para o Brasil na bagagem do radialista Walter Silva, o famoso Pica-pau. As TVs
Continental e Tupi encarregaram-se de exibi-lo e a verdade veio à tona: o que se via era
algo bem diferente do que a imprensa noticiara. Mostrava, por exemplo, a platéia
aplaudindo entusiasticamente Tom, João, Bonfá, Agostinho dos Santos e os demais
participantes do show.

Logo Depois do concerto no Carnegie Hall, vários brasileiros fecharam contratos para
continuar por lá. João Gilberto assinou um contrato de três semanas com a Blue Angel e
outro com a gravadora Verve para gravar um disco. Tom Jobim foi contratado como
arranjador pela Leeds Corporation. O conjunto de Oscar Castro Neves foi para o Empire
Room do Waldorf Astoria. Chico Feitosa foi convidado por Mel Tormé para assistir ao seu
espetáculo em Nova Jersey.

Após a apresentação, no camarim, Chico ficou tocando suas músicas durante uma hora
para Mel Tormé enquanto ele tirava a maquiagem. Tormé resolveu: “Quero gravar todas.
Vamos nos encontrar na casa de Nesuhi Ertegun em Nova York depois de amanhã para
acertar tudo”. Chico voltou para Nova York, caiu no redemoinho das festas para a Bossa
Nova, esqueceu de Mel Tormé e voltou para o Brasil sem voltar a ligar para o grande
cantor.

Duas semanas depois do Carnegie Hall, aconteceu um novo show de Bossa Nova nos
Estados Unidos — que muita gente, como o próprio Carlos Lyra, garante ter sido o
“verdadeiro” — no George Washington Auditorium, em Washington. Dele participaram
Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, o Sexteto Sérgio Mendes,
Sérgio Ricardo, o quarteto de Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos e
Milton Banana. O grupo fechou sua apresentação em Washington, sendo recebido na Casa
Branca.

Tom Jobim ficou em Nova York por nove meses, período em que foi considerado o
melhor arranjador musical . pela National Academy of Recording Arts and Sciences, da
qual recebeu seu primeiro troféu internacional. O prêmio foi concedido por causa dos
arranjos do disco de João Gilberto que a Odeon havia enviado para os Estados Unidos. Em
maio de 1963 Tom gravou Antonio Carlos Jobim — The Composer of Desafinado Plays,
com doze músicas suas, entre elas Garota de Ipanema, que em breve seria o maior sucesso
da Bossa Nova e da música brasileira no Exterior.

No final daquele ano também chegaria às lojas o disco Getz/Gilberto – Featuring Antonio
Carlos Jobim, que em menos de um ano vendeu mais de dois milhões de exemplares. O
principal êxito do disco foi The Girl from Ipanema, interpretada por Astrud Gilberto. Getz
e Gilberto conheceram-se poucos dias depois do concerto no Carnegie Hall, num encontro
do qual também participaram Tom Jobim e o produtor Creed Taylor, dono da Verve. A
gravação do disco foi uma novela: João e Getz brigavam feitos cão e gato, o primeiro
criticando a altura do sax do segundo, que por sua vez brigava com a voz sussurrada de
João. Mesmo assim as oito faixas foram gravadas em apenas dois dias e o LP estourou nas
paradas, conquistando vários prêmios Grammy.

Carlos Lyra também ficou algum tempo nos Estados Unidos, acompanhando o grupo de
Stan Getz.“Ajudou muito o fato do Getz ser um músico ligado à Bossa Nova. Ele queria
um elemento brasileiro que cantasse acompanhado pelo conjunto dele”, conta. Lyra
cantava somente suas canções e era acompanhado por músicos da melhor qualidade: Getz
no sax, Gary Burton no vibrafone e Chick Corea no piano. Juntos, apresentaram-se nos
Estados Unidos, Japão, Europa, México, Canadá e até no Brasil. Quando se separou do
grupo, Lyra continuou sua carreira no Exterior por conta própria.

O Carnegie Hall havia enfim provado que o evento tinha sido um sucesso na vida dos
compositores e na vida da própria Bossa Nova. Apesar das críticas negativas ao show no
Carnegie Hall, a Bossa Nova no Brasil estava mais forte do que nunca no início dos anos
60.

Incansáveis, os músicos não paravam de compor e novas parcerias surgiam da noite para o
dia. Foi assim com Baden Powell e Vinícius de Moraes. Apresentado a Baden pelo
empresário Nilo Queiroz, aluno do violonista, os dois acabaram passando três meses
trancados na casa de Vinicius, onde beberam dezenas de garrafas de uísque e criaram 25
canções, entre elas Berimbau e Canto de Ossanha.

Em 1962, mesmo ano do Carnegie Hall, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto
finalmente se reuniram para um espetáculo juntos. O antológico O encontro teve lugar na
boate Au Bon Gourmet, em Copacabana. A temporada, prevista para um mês, acabou
sendo prorrogada por mais duas semanas, tal foi o sucesso. Aquela foi a primeira vez que
“o poetinha” cantou em público, e também foi a primeira vez que Garota de Ipanema foi
apresentada num espetáculo. A música, que se tornaria um dos hinos da Bossa Nova em
todo o mundo, foi composta por Tom alguns meses antes do espetáculo no Carnegie Hall,
e Vinicius colocou a letra mais tarde, inspirado pela famosa garota que eles viram passar
da varanda do Veloso, em Ipanema. Helô Pinheiro tinha apenas quinze anos na época. e
costumava passar pela Rua Montenegro, atual Rua Vinícius de Moraes, a caminho do mar.

Na mesma época, João Gilberto lançou seu terceiro disco, que levava apenas seu nome,
viajando em seguida para os Estados Unidos, onde passaria alguns anos sem gravar e até
mesmo sem voltar ao Brasil. Entre 1963 e 1969, João Gilberto apresentou-se em várias
cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa, conquistando para sempre suas platéias.
Em 1965, já separado de Astrud, conheceria em Paris sua segunda mulher, Miúcha
Buarque de Holanda.

Aloysio de Oliveira resolveu sair da Odeon e, em 1963, criou sua própria gravadora, a
Elenco, que se tornou reduto da Bossa Nova. As capas dos discos, sempre brancas e com
fotos de Chico Pereira, tornaram-se uma marca registrada da gravadora.

Um personagem que marcou época na Bossa Nova foi o bailarino Lennie Dale, Ele
chegou ao Brasil trazido por Carlos Machado para coreografar o show Elas Atacam pelo
Telefone. Encantado com o Rio, Lennie foi ficando e se enturmou com os músicos do
Beco das Garrafas, conseguindo convencê-los da importância dos ensaios para uma
melhor performance profissional. Antes disso a improvisação costumava comandar os
espetáculos. Lennie chegou inclusive a estrelar um espetáculo antológico, em que cantava
O Pato com seu forte sotaque, segurando uma fruteira com um pato de verdade dentro. E
foi Lennie também que resolveu inventar passos de dança para a Bossa Nova, já que na
época qualquer novo ritmo musical sempre era associado a uma dança específica.

Neste início dos anos 60, já começava a se formar a segunda geração dos compositores da
Bossa Nova, da qual fizeram parte, entre outros, Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime,
Pingarilho, e Antonio Adolfo. Mais tarde, ainda sob a influência do primeiro grupo,
apareceram Milton Nascimento, Chico Buarque e Toquinho.

A cantora Elis Regina chegou ao Rio, vinda de Porto Alegre, em março de 1964. Ela já
havia gravado três LPs na capital gaúcha: Viva a Brotolândia (1961), Poema (1962) e O
Bem do Amor (1963), nos quais demonstrava a influência de sua maior admiração, Ângela
Maria. Miéle e Bôscoli criaram para ela um pocket show no Little Club, do qual também
participavam o conjunto Copa Trio, do baterista Dom Um, a bailarina Marly Tavares e o
pandeirista Gaguinho. Lennie Dale encarregou-se de ensaiar a “baixinha”: foi dele a idéia
de rodopiar os braços feito moinhos de vento, o que valeu a Elis o bem-humorado apelido
de “Hélice” Regina.

Marcos Valle conta que a música sempre esteve presente em sua vida. “Estudei música
clássica durante treze anos e meu interesse por música brasileira começou muito cedo,
ainda criança”. Lembra ele, que, em 1958, quando surgiu Chega de Saudade, ainda era um
adolescente de quinze anos e só tocava nas festinhas dos amigos. Através da cantora Tita,
Marcos foi apresentado a Johnny Alf, “Ele achou que eu tinha talento e começou a
freqüentar a minha casa e me estimulava muito”, lembra Marcos.

Mas sua atividade musical começou a crescer quando reencontrou Edu Lobo, amigo de
infância do Colégio Santo Inácio, dentro de um ônibus. Edu comentou que estava tocando
violão e que sempre se reunia com Dori Caymmi, filho de Dorival. Entusiasmado, Marcos
resolveu se juntar aos dois e em breve eles formariam um trio vocal, com Edu e Dori nos
violões e Marcos no piano. Edu Lobo frisa que, nesta época, nenhum deles pensava em
música como uma profissão. “Eu já estava programado para estudar Direito e seguir
carreira diplomática”, conta Edu, filho do jornalista e compositor Fernando Lobo. Mesmo
assim, começaram a freqüentar as reuniões da Bossa Nova.

Marcos Valle da primeira vez em que esteve na casa de Ary Barroso: “Estava todo mundo
lá, Vinicius, Carlos Lyra, Baden Powell. Eles eram meus ídolos e de repente eu estava ali,
no meio deles”. Numa outra reunião, esta na casa de Vinicius, Marcos reencontrou Lula
Freire, amigo de infância de seu irmão Paulo Sérgio. Quando, já no fim da noite, Marcos
pegou o violão, Lula imediatamente o convidou para ir no dia seguinte á sua casa para
apresentá-lo aos músicos do Tamba Trio de Luizinho Eça. Marcos foi, mostrou algumas de
suas primeiras composições, Sonho de Maria, Razão do Amor e Vem o Sol, e Luizinho,
que já estava com disco praticamente pronto, resolveu voltar ao estúdio para gravar uma
das canções de Marcos que mais o havia encantado: Sonho de Maria.

Nesse mesmo dia Marcos foi apresentado a Carlos Lyra, Roberto Menescal, Luís Carlos
Vinhas e Chico Feitosa. Menescal acabou levando-o aos Cariocas, que gravaram Vamos
Amar, parceria com Edu Lobo, e Amor de Nada. No ano seguinte Marcos foi chamado
para um teste na Odeon, gravadora na qual acabou ficando por doze anos. Seu primeiro
disco, Marcos Valle Samba Demais, foi lançado em 1964.

Edu Lobo lembra que aquela época foi muito especial, e que talvez nunca mais se repita
em nenhum lugar do mundo. “Bastava você trabalhar muito para que as coisas
acontecessem”, conta Edu. A história de sua parceria com Vinicius é um exemplo. Edu
Lobo conheceu Vinicius de Moraes numa festa na casa de Olívia Hime, em Petrópolis.
“Ela me ligou no final da tarde e disse para eu ir ate lá, porque o Vinicius também estava
indo. Eu nunca tinha visto o Vinicius antes, a não ser em shows, e fui correndo”, lembra.
Na festa, Edu pegou o violão e começou a tocar algumas músicas. Vinicius, interessado,
perguntou se ele não teria uma música nova, ainda sem letra. Edu tinha. Mostrou a música
e Vinicius perguntou se poderia fazer a letra. “Dormi aquela noite sem acreditar e no dia
seguinte, quando eu acordei, era parceiro do Vinicius de Moraes! Esse tipo de coisa não
acontece em lugar nenhum do mundo. Se um grande letrista americano, por exemplo,
encontrar um jovem compositor, antes de começar a parceria ele no mínimo vai ligar para
o advogado”, garante Edu.

A música em questão era Só me fez bem. “Isso foi mais que um prêmio, mais que qualquer
empurrão”, lembra Edu, que ainda nessa época não pretendia seguir carreira musical. “Eu
fazia música como quem pega onda, era uma coisa da geração. Inclusive muita gente, que
tocava bem na época, hoje em dia faz outra coisa”, diz.

Edu atualmente acha inacreditável a facilidade que se tinha de entrar nas casas de pessoas
públicas como Vinicius e Tom Jobim. “A gente ficava só olhando enquanto eles
trabalhavam. Na casa do Tom, eu tocava a campainha e entrava, a Teresa trazia um
cafezinho e eu ficava ali, feliz da vida, só ouvindo. E eles deixavam. Era como se fosse
uma escola”, garante.

Musicalmente, no entanto, tanto Edu Lobo quanto Marcos Valle já começavam a trilhar
seus próprios caminhos. Apesar da influência explícita da Bossa Nova, a inovação
chegava através da versatilidade em termos de ritmo e principalmente nas letras, que
começaram a apresentar mais temas políticos, deixando de lado a máxima “amor, sorriso e
flor” da primeira geração da Bossa Nova. Marcos Valle, um dos primeiros surfistas
cariocas, chegou a compor várias canções ligadas ao mar. O clima para músicas de fundo
social começou a crescer no meio artístico como uma forma de protesto contra o sistema
político vigente. Várias canções foram censuradas e outras tiveram frases mutiladas, o que
só serviu para aumentar mais ainda a curiosidade e o prestígio das mesmas.

Ainda em 1963, após muito hesitar, Nara Leão aceita o convite de Carlos Lyra e Vinicius
para estrelar a Pobre Menina Rica, no Au Bon Gourmet. Entre as canções do espetáculo,
todas compostas pela dupla, estavam Samba do Carioca, Sabe Você?, Pau de Arara,
Maria Moita e Primavera. A temporada, de apenas três semanas, foi um sucesso. Nara
havia começado um namoro com o cineasta Ruy Guerra, também letrista e parceiro de
Edu Lobo.

Carlos Lyra, na época, estava mergulhado em pesquisas sobre a música dos velhos
sambistas do morro, como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti, tentando inclusive
compor com alguns deles. O disco Nara, lançado pela Elenco em 1963, reunia
composições como Diz Que Vou Por Aí de Zé Keti, O Sol Nascerá, de Cartola e Elton
Medeiros, e Luz Negra. de Nelson Cavaquinho, além de Feio não é Bonito e Maria Moita,
de Lyra, Berimbau e Consolação, de Baden e Vinicius, Nanã, de Moacyr Santos, e
Canção da Terra e Réquiem para um Amor, de Edu Lobo e Ruv Guerra. Quando o disco
saiu, Nara foi ferozmente atacada por alguns críticos, mas seu novo estilo acabou
agradando.

Em janeiro de 1964 ela fez uma temporada no Bottle’s, e poucos meses depois partiu para
o Japão com o trio de Sérgio Neto e Edison Machado. Quando voltou ao Brasil assinou
com a Philips para gravar o Opinião. No repertório, Derradeira Primavera de Tom e
Vinicius, Em tempo de Adeus, de Edu Lobo e Ruy Guerra, Opinião e Acender as Velas, de
Zé Keti, entre outras composições que iam de capoeiras do folclore baiano. Nara estava
fugindo de Ipanema, e o disco causou enorme polêmica, tendo sido considerado na época
totalmente anti-Bossa Nova. Logo ela estrearia o show Opinião, de Oduvaldo Viana Filho,
Armando Costa e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, e acompanhada por Zé Keti e
João do Vale, no Teatro de Arena da Rua Siqueira Campos em Copacabana. O espetáculo,
em toda a sua temporada, teve grande sucesso. E Nara passaria a ser a musa de outro
movimento: o protesto da nova geração universitária.

Nesta época começaram a surgir os festivais da canção, que permitiam uma maior
liberdade de composição. A partir de 1965, vários festivais começaram a acontecer nas
emissoras Excelsior, Tupi e Record. Em 1966, Tom Jobim, já de volta ao Brasil após todo
sucesso no Exterior, estava tomando tranqüilamente seu chopp no bar Veloso, em
Ipanema. O telefone do bar tocou. Tom foi chamado e do outro lado da linha estava
ninguém menos que Frank Sinatra, diretamente dos Estados Unidos, convidando-o para
gravarem juntos um disco. Foi um encontro de gênios: O LP chamado Francis Albert
Sinatra & Antonio Carlos Jobim, foi escolhido por unanimidade pela crítica especializada
dos Estados Unidos como o álbum vocal do ano. Em 1967, o disco só perdeu em
vendagem para os Beatles, que haviam acabado de lançar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts
Club Band.

Mais tarde, já em 1968, Marcos Valle estourou em todas as paradas com a Viola
Enluarada. E é ele quem conta como compôs a música: “Eu estava nos Estados Unidos,
em 1967, participando de espetáculos e programas de televisão. E aquela saudade batendo.
Fui gravar um disco em Nova York com arranjos do Eumir Deodato. Saudoso demais do
Brasil, um dia entrei no banho e me veio, embaixo d’água, a melodia completa de Viola
Enluarada na cabeça. Foi um ato de saudade, por isso ela é tão brasileira e tão triste
também. Quando voltei ao Brasil, conheci o Milton Nascimento. Promoveram um
encontro na casa do Tom para a gente se conhecer. Ele era meu fã, e eu dele. Neste
encontro, toquei Viola Enluarada ainda sem letra. Todos adoraram a música e inclusive
me disseram que deveria ser gravada sem letra. Mas eu preferi pedir ao Paulo Sérgio para
fazer a letra. Quando ele me mostrou, fiquei um pouco na dúvida se a letra deveria ser
aquela mesma, mas acabei concordando, e realmente o conjunto de letra e música deu
supercerto.”

Marcos lembra que, antes de ser sucesso de público e disco Viola Enluarada já era sucesso
no meio artístico e era item obrigatório nas rodas de violão e nos shows. No espetáculo do
Quarteto em Cy, por exemplo, Juscelino Kubitschek em pessoa levantou-se e cantou a
plenos pulmões o refrão “Liberdade”. Logo Marcos Valle convidou Milton Nascimento
para gravar música, que rapidamente estouraria nas paradas.

Mais ou menos na mesma época, Marcos Valle foi convidado para participar do programa
Almoço com as Estrelas, comandado por Aerton Perlingeiro na TV Tupi. Marcos seria
agraciado com o prêmio Velho Capitão uma estatueta com a imagem de Assis
Chateaubriand, dono dos Diários Associados e da TV Tupi. “Eu resolvi convidar o meu
irmão Paulo Sérgio, já que ele era meu parceiro. O Paulo Sérgio se sentou num canto da
mesa. meio escondido, e ficou observando tudo. Quando o Aerton anunciou o prêmio, eu
comecei a agradecer e disse que também queria oferecer o prêmio ao meu irmão. Quando
eu falei isso, o Paulo Sérgio já se levantou. Mas antes que ele chegasse perto, o Perlingeiro
disse: ‘De jeito nenhum!’ Ficou aquele clima, o Paulo Sérgio já voltou pro lugar dele, e o
Perlingeiro continuou: ‘Não senhor, o prêmio é seu. Quando o seu irmão merecer um, ele
vai ganhar!’ Depois a gente chorava de rir e até hoje eu não sei se o Aerton viu que o
Paulo Sérgio estava ali”, lembra Marcos.

Poucos anos depois, o Brasil veria o surgimento de outro movimento importante: o
Tropicalismo dos baianos Caetano, Gil e cia. Mas a verdade é que nunca um movimento
musical influenciou tantos músicos em tantas partes do mundo como a Bossa Nova.

Era incontestável que a música brasileira havia mudado, e para muito melhor. O respeito
com que os compositores e músicos brasileiros começaram a ser tratados no Exterior era a
prova do sucesso absoluto da Bossa Nova. O mercado internacional abria-se para o grupo
de jovens amadores e seus seguidores, que haviam conquistado pela primeira um lugar de
destaque para a música brasileira, livre de sotaques, batucadas e cachos de bananas.

Em curto espaço de tempo, Antonio Carlos Jobim já era conhecido e consagrado como um
dos maiores compositores do mundo. A gravação do seu disco com Frank Sinatra
cantando suas músicas e músicas americanas no embalo da Bossa Nova era o
reconhecimento da definitiva influência da moderna música brasileira.

O violonista Baden Powell foi morar em Paris, e tanto na França como na Alemanha
gravou inúmeros discos. O violonista pernambucano Cussy de Almeida morava em
Genebra, Suíça, e chegou a ser o primeiro violino da orquestra Suisse Romande. Voltando
ao Brasil encantou-se pela Bossa Nova. Viajava freqüentemente ao Rio de Janeiro, onde
conheceu diversos personagens da Bossa Nova, terminando por gravar um belíssimo disco
(O Mergulhador) de violino e violão com Candinho.

Também para Paris mudou-se o violonista e cantor Normando. Carlinhos Lyra foi para os
Estados Unidos e México onde viveu e trabalhou com grande prestígio. O pianista e
compositor Eumir Deodato radicou-se em Nova York, onde ganhou diversos prêmios e
discos de ouro, sendo considerado um dos maiores arranjadores pelos músicos
americanos. Sérgio Mendes, há anos com o seu espetacular som característico, já é uma
instituição no cenário da música internacional.

João Gilberto transformou-se em símbolo e padrão de qualidade de interpretação. Astrud
mora na Filadélfia e será sempre a suave “Garota de Ipanema”.

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle deixaram a marca de sua presença em todos os
locais em que a Bossa Nova é ouvida. Vinícius de Moraes, o poeta dos poetas, correu
mundo contando e cantando sua poesia, e por algum tempo chegou a morar na Itália, onde
fez enorme sucesso.

Oscar Castro Neves fixou residência em Los Angeles como notável arranjador e
instrumentista. Roberto Menescal, dono de uma obra que é parte fundamental do acervo
da Bossa Nova, fez diversos shows pelo mundo, e além da música tornou-se um dos
maiores experts em bromélias no Brasil.

Moacyr Santos e Don Salvador fizeram da América sua opção de vida e trabalho. A batida
do violão e dos ritmistas Juquinha, Hélcio Milito, João Palma, Milton Banana, Paulinho
Magalhães, Chico Batera, Edson Machado, Toninho Pinheiro, Ronnie Mesquita, Paulinho
Braga, Ruben Bassini e Dom Um Romão, abriu no Exterior o caminho para que os
percussionistas de vários países acompanhassem a Bossa Nova, que saiu das noites de
Copacabana e Ipanema para as luzes internacionais.








BOSSA NOVA - A VISÃO DE CARLOS LYRA

O primeiro time da Bossa Nova: Tom, Vinícius, Bôscoli, Menescal e Lyra. O uísque também fazia parte
do grupo.

“Quando a Bossa Nova surgiu houve uma grande mudança, uma sofisticação que atingiu a
letra, a harmonia e a melodia. Antes, havia melodias bonitas, produzidas por Ary Barroso,
Custódio Mesquita, Dorival Caymmi, este, uma espécie de precursor da Bossa Nova.

Havia muita gente importante, como Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dircinha e Linda
Batista. Isso era a grande música popular brasileira. Era a música popular mesmo, porque
a Bossa Nova, para mim, é música popular de câmera, não é música popular.

A Bossa Nova foi um tipo de música feita pela classe média para atender a própria classe
média. Quando se fala de influências houve a do impressionismo europeu e do jazz norte-
americano.

O que diferenciava a harmonia da Bossa Nova da harmonia tradicional? Era alguma coisa
elaborada, com elementos do jazz e do impressionismo na parte técnica. A melodia
também ganhou uma sofisticação, algo blue note, com muita nota alterada, coisa que o
povo não cantava. As melodias do povo são mais simples. Por incrível que pareça, as
harmonizações passaram também a dar uma nova cara harmônica às músicas antigas, as
populares.

Na letra, Vinícius de Moraes e os demais letristas - entre os quais, eu me incluo - tiraram
aquele clima de tango e de bolero, um gosto bem latino-americano, para fazer algo mais
leve, mais relacionado com certos textos das comédias norte-americanas e européias...”




















BOSSA NOVA - A VISÃO DE NARA LEÃO

Nara Leão, Sílvio Caldas e Carlos Lyra no programa Renner Brasil, TV Excelsior, São Paulo, maio de
1963.

“A Bossa Nova foi importante para mim e para a humanidade, pois mudou a música do
mundo inteiro. Pimeiro, é preciso destacar o João Gilberto, porque ele mudou tudo.
Chegou até a ser chamado de desafinado, coisa que ele não é.

Na verdade é afinaderrímo, a coisa mais afinada do mundo, mas as pessoas achavam que
um cantor que não gritasse era desafinado. Sua maneira de cantar é fantástica, não precisa
de orquestra nenhuma. O violão, sozinho, parece uma orquestra. Com a boca, faz uma
bateria, milhares de coisas.

A Bossa Nova também mudou as letras. Havia uma parte substancial de nossa música em
que as letras eram dramáticas, sentimentais, derramadas. A Bossa Nova veio com aquele
negócio de amor, sorriso, flor, céu. Era uma coisa leve. Para mim, ela continua viva e
muito nova. A música quando é boa a gente ouve sempre, com prazer. E a Bossa Nova
contribuiu muito com a nossa música tradicional.

Antes o samba não tinha uma harmonia rica. Quando o Carlinhos Lyra me apresentou aos
sambas, tocados de maneira bossa-novista, achei muito interessante. Mas, na época, eu
pensava que não podia cantar uma coisa que João Gilberto já tivesse cantado, porque ele
canta maneira extraordinária.

Só tive coragem de fazer Bossa Nova quando fui para Paris e gravei um álbum duplo. O
João me inibia de cantar Bossa Nova. O que se guardou do movimento foi a maneira de
cantar e a harmonia. Os arranjos e a harmonia”.


















BOSSA NOVA – A VISÃO DO TOM

Em Nova York, gravação do álbum "Stan Getz e João Gilberto". Da esquerda para a direita: Tião Neto,
Tom Jobim, Stan Getz, João e Milton Banana.

“A música brasileira vinha tomando um caminho em direção do modernismo, ao moderno.


Embora essa palavra ‘moderno’ não signifique muita coisa... O fato é que a música
brasileira ia em direção a algo novo, na direção do progresso, daquilo que Juscelino fazia,
quando o Brasil começou a fabricar automóveis, construir estradas, tinha a Petrobrás com
“o petróleo é nosso”, aquela coisa toda.

A gente era jovem e tinha vontade de fazer as coisas. E, sobretudo, apareceu um baiano
chamado João Gilberto, nascido em Juazeiro, na beira do rio São Francisco - ali, você
sabe, cruzando o rio, você está em Pernambuco -, com aquela fantástica batida no violão.

A gente tinha o Johnny Alf, eu e outros fazendo samba moderno, mas com a chegada do
João, o negócio balançou. Ele bagunçou o coreto. Porque a coisa do João era genial.

Depois, a Bossa Nova tornou-se um padrão, uma coisa chata - tché-tché, tché-tché - ficou
todo mundo tocando igual no Brasil, na América, na Europa etc. Houve uma certa
padronização dessa batida.

As pessoas cantavam qualquer coisa nessa batida. O que nunca foi o caso do João. A
batida dele tem a ver com o que ele canta. Aquilo forma um contraponto, um jogo, não é
isso? - que suinga e que balança. Esse é um dos muitos aspectos da Bossa Nova. Há várias
maneiras de você olhar a Bossa Nova..."
























BOSSA NOVA – A VISÃO DE VINÍCIUS DE MORAES

Na casa de Vinícius de Moraes, os Cariocas: Severino, Badeco, Luiz Roberto e Quartera cantam para o
poeta.

"O movimento da Bossa Nova está ligado ao processo de desenvolvimento do país. A


partir de 1922, o movimento modernista rompeu formalmente com a cultura européia.
Houve uma grande busca - criações nacionais na poesia, na pintura, em tudo.

O grande Villa-Lobos é prova disso. Um tremendo músico, um erudito que tinha raízes
populares, que tocava violão e fazia serestas nos bairros boêmios do Rio. Na música
popular, o desenvolvimento foi diferente. O samba tradicional começou com os carnavais
do princípio do século. Houve um grande êxodo de escravos, que se estabeleceram no Rio
e começaram a trabalhar ritmos e danças.

Nisso, a música brasileira se parece muito com o jazz. A contribuição da cultura africana é
importantíssima. Devemos a eles toda a parte de ritmo. Nós tivemos a influência católica.
Os primeiros cantos de jazz tiveram a influência protestante. Era obrigação acompanhar a
missa, escutar esse tipo de música. Não obstante, se preservou a pureza do ritmo africano.

O que há realmente de importante no Brasil é uma unidade de sentimentos que vem da
mistura do português com o negro e o índio. Criou-se, com isso, uma espécie de tristeza
do povo, de melancolia, que explode nas festas tribais, como o carnaval. O português é
muito romântico. O negro também, mas com ritmo e uma vitalidade enorme".

























"O samba, a prontidão e outras bossas, são coisas nossas."
Noel Rosa

A tristeza e melancolia das letras, a repetição dos ritmos 'abolerados' e dos 'sambas-canção'; era tudo a
mesma coisa, não obstante os grandes cantores da época: Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Carlos
Galhardo. Lindas valsas e serestas? Sim, e daí? Daí é que algo tinha de ser feito.
Diferentes harmonias, poesias mais simples, novos ritmos. - Ritmo é batida, como do relógio, do pulso,
do coração- E Bossa Nova é batida diferente do violão, poesia diferente das letras, cantores diferentes
dos mestres. A Bossa Nova não seria melhor nem pior. Seria completamente diferente de tudo, mais
intimista, mais refinada, mais alegre, otimista. Diferente. Não começou especificamente num lugar,
numa rua, num evento, num Festival. A rigor, ela não é nem um gênero musical. É o tratamento que se
dá a uma música, em termos de 'batida' e de ritmo.

O primeiro grande marco inicial da Bossa Nova aconteceu em primeiro de março de 1958,quando João
Gilberto cantou, com a batida de violão diferente, 'Chega de Saudade', posteriormente gravada por
Eliseth Cardoso, no disco 'Canção do amor demais'. Em 1956, ninguém falava em Bossa Nova, mas o
apartamento onde morava Nara Leão, no Edifício Palácio Champs Elysée, em frente ao Posto 4, já era
ponto de reunião dos rapazes bronzeados de Copacabana: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo
Boscoli e outros. Não se compunham músicas ali. Ouviam-se. E trocavam idéias.

Só no ano seguinte, em 1957, João Gilberto chegou ao Rio e, certa noite, foi à casa de Roberto
Menescal, na Galeria do mesmo nome, em Copacabana. E aconteceu o grande encontro: O ritmo
encontrou a música e a poesia.

O GRANDE ENCONTRO:

JOÃO GILBERTO E ROBERTO MENESCAL


UM DESLUMBRAMENTO - OS PRIMÓRDIOS DA BOSSA NOVA
- Tem um violão aí? Eu sou o João Gilberto. Podíamos tocar alguma coisa. Menescal, surpreso com
"aquela figura esquisita", mandou-o entrar. Já ouvira falar num "baiano meio louco, genial,
afinadíssimo," que às vezes aparecia no Plaza, na Rua Princesa Isabel, por volta de 1957. Carlos Lyra já
conhecia "aquela figura". Mas voltemos ao apartamento do Menescal.
Casa cheia. Menescal levou o baiano para o quarto dos fundos. Curioso. Violão examinado e
devidamente afinado, João começou a cantar "Hô–ba-la-la", de sua autoria. Uma espécie de beguine –
musica caribenha já esquecida. Menescal não entendeu nada da letra. Mas quem se importava com
letra? A voz do "cara" era um instrumento! Um trombone da melhor qualidade. E João Gilberto não
parecia cantar. Dizia as letras, num sussurro, mal abrindo os lábios. E repetiu o estranhíssimo "Ho-ba-la-
la" cinco ou seis vezes, cada uma de maneira diferente, mas com a mesma batida. A mesma bossa.
Quase ninguém conhecia João Gilberto, no Rio, em 1957, principalmente os mais jovens. Quem ele era,
o que fazia, como aprendera violão, como cantar daquele jeito diferente. Sabia-se, vagamente, que viera
da Bahia pra cantar num conjunto, mas não se adaptara. E cantava esporadicamente, na noite do Rio.
Fascinado, Menescal resolveu "mostrar sua descoberta" aos amigos.
E saiu com o baiano a tiracolo. Com violão e tudo. Começou pelo apartamento de Ronaldo Bôscoli, na
rua Otaviano Hudson, onde João Gilberto cantou "Ho-ba-la-la" muitas vezes.
E cantou outra canção muito estranha, chamada "Bim-Bom".
MÚSICA NOITE A DENTRO – COMO DORMIR?
A “PRÉ-BOSSA” DE DICK FARNEY
O mestre João Gilberto abriu os ouvidos de Menescal e Bôscoli para uma música que até então
desconheciam. O dia amanhecia quando chegaram os três ao apartamento da Nara Leão, onde "o show"
foi repetido mais uma vez.
E o grupo partiu para a Urca, onde morava Ana Lu. Fascinado, Roberto Menescal queria aprender
aquela "batida" diferente e não tirava os olhos das mãos de João Gilberto. E era professor de violão,
como o Carlos Lyra. E a voz? O baiano explicou como conseguia soltar "um monte" de frases num
único fôlego. "Reza a lenda" que João Gilberto admirava muito a respiração de Dick Farney, que já
cantava uma espécie de "pré-bossa nova". E, mesmo fumando dois maços de cigarros por dia, tinha uma
técnica muito especial, em termos de respiração. Sinatra, claro, era o guru maior. Ensinou ao mestre que
ensinou ao professor. Talvez João Gilberto nem soubesse que Sinatra era mestre em respiração. Seus
mestres eram mesmo os yogues indianos. O baiano era muito estranho!
Com o nome de Farnésio Dutra cantor algum conseguiria ser conhecido, mesmo com o enorme charme
que encantava as meninas, à época da Segunda Guerra Mundial.
Assim, um rapaz de 24 anos tornou-se Dick Farney - charme, voz, elegância, bom gosto "pra dar
vender", como se dizia. Esbanjava talento no Cassino da Urca, no tempo em que o jogo era permitido.
Ele tinha gravado "Copacabana", pela Continental, em 1942, de João de Barro, o nosso querido
"Braguinha". Sucesso absoluto que ouve-se até hoje, nas rádios de bom gosto.
Mas Dick queria mais, muito mais. Seu "papa" era Frank Sinatra, "The Voice". Nele se inspirava para
cantar, gesticular, andar no palco, estar sempre de gravata e cabelo bem penteado. Já o chamavam de "O
Sinatra Brasileiro" e havia até um Fan Clube, de carteirinha e tudo: "Sinatra-Farney Fan Club".Aos
vinte e cinco anos foi para os Estados Unidos para tentar cantar e gravar em inglês, levando um contrato
inicial de cinqüenta e duas semanas com a Cadeia de Radio NBC. E não é que deu certo? Gravou um
grande sucesso da época: "Tenderly". Nos dois anos seguintes a Continental lançou outros sucessos,
clássicos como "Ser ou não ser", "Marina" e "Esquece".
Eram os anos 1947 e 1948, quando voltou para o Brasil - não sem antes ser elogiado pessoalmente pelo
maior cantor do século: Francis Albert Sinatra. Como escreveu Ruy Castro, em relação a Frank Sinatra,
ouso repetir a frase com relação a Dick Farney: "Não creio que o século vinte tenha fundos para resgatar
sua dívida emocional para com Dick Farney". Ele emocionou milhões de corações com "Somos Dois",
"Marina", "Copacabana", "Nick Bar", "Aeromoça", "Não tem Solução", "A saudade mata a gente",
"Tereza da Praia", "Uma loira", "Um Cantinho e Você" e tantas outras belezas!

OS BRONZEADOS RAPAZES DE COPACABANA


ROBERTO MENESCAL, CARLOS LYRA E A ACADEMIA DE VIOLÃO

Em 1956, pressionado pela familia, Menescal teve que "deixar a boa vida" de pesca submarina, violão e
milk shake. E veio o conflito natural de todo jovem: a escolha da profissão. Não sabia se, continuando a
tradição familiar, faria o vestibular para Arquitetura, se entrava para a Marinha (onde havia muitos
"barquinhos" e muito peixe pra pescar), ou continuava a aprender violão com o Edinho, do Trio
Irakitan, para desgosto dos pais.
Falsificando a carteira de estudante, começava a invadir os lugares da noite carioca, fascinado pelo Tito
Madi e pela Sylvinha Telles.
Fascinado também pelo disco "Julie is her name", onde um tal de Barney Kessel "destroçava" um
tremendo violão!
Preocupados, os pais observavam o fanatismo do Menescal, que cursava o último ano do Curso
Científico do Colégio Mello e Souza, na Rua Xavier da Silveira.
Ele soube que no Colégio Mallet Soares, na mesma rua, um tal de Carlos Lyra já tocava violão por cifra,
quase profissional. Muitos alunos, e até professores, "matavam aula" pra ouvir o violão do Carlos Lyra,
que já gravara duas músicas. Sem o conhecimento dos pais, Menescal rapidamente pediu transferência
para o Mallet Soares. Queria ficar perto do mestre das harmonias.
Era 1956. Os pais de Menescal, como todos os pais, não aceitavam o violão, de jeito nenhum. Era
"instrumento de boêmio irresponsável". E, coitado do Menescal, que não tinha nada de boêmio. Não
fumava. Só bebia milk shake. Com a mesada cortada pelos pais preocupados, o nosso Menescal teria
que virar-se. Sem dinheiro para o milk shake, propôs ao Carlinhos Lyra abrirem uma Academia de
Violão. Mais que depressa, Carlos Lyra aceitou, louco pra se livrar dos desvelos de sua super-mãe.
MENESCAL, CARLOS LYRA E A ACADEMIA DE VIOLÃO
HISTÓRIAS NO APARTAMENTO DA RUA SÁ FERREIRA

João Paulo, amigo de Carlos Lyra, tinha um pequeno apartamento na Rua Sá Ferreira, para "encontros
furtivos".
Sabendo que os dois "professores" planejavam montar uma Escola de Violão propôs-lhes o seguinte:
- Vocês me pagam 10% do que receberem dos alunos e a "Academia" pode começar. Fica estabelecido
que os "encontros" estão automaticamente suspensos.
Negocio fechado. E o que parecia uma aventura começou a dar bons frutos. Aluno não faltava, só que a
grande maioria era composta de alunas. As mães zelosas começaram a desconfiar do repentino interesse
de suas filhas pelo violão. E logo souberam da verdade: Os professores eram "dois tremendos boas
pinta".
Mas... negócio é negócio e os professores faziam questão de manter a Academia nos rígidos padrões de
respeito às alunas, principalmente o Roberto Menescal.
Sucesso absoluto. Em poucas semanas já havia quase cinqüenta alunas, inclusive a Nara Leão, em cujo
apartamento aconteciam as reuniões tão famosas.
Carlinhos Lyra, que já tinha composto sua primeira música [e letra], "Quando chegares" [1954], tinha na
praça as músicas "Menino" e "Foi a noite", gravadas pela Silvinha Telles. Ficou independente das
"mesadas maternas".
Enquanto dava aulas de violão, Carlos Lyra , em 1956, "estoura" com seu primeiro grande sucesso:
"Maria Ninguém". Mal sabia que seria uma das músicas favoritas de Jaqueline Kennedy que cantava
"Maria Nobody"!
Daí em diante foi só sucesso. O mestre Tom Jobim afirmava que Carlos Lyra era autor das melhores
harmonias. Em 1962 ele estava no famoso Concerto de Bossa Nova, no Carnegie Hall, de Nova York.
Uma tremenda desorganização que fez a Bossa ultrapassar fronteiras e ganhar o mundo. Nesse mesmo
ano compõe com o mestre Vinicius o musical "Pobre Menina Rica".
Carlos Lyra perguntava ao Vinicius de Moraes:
- Mas, Vinicius, como pode uma menina da Vieira Souto se apaixonar por um mendigo?
E o nosso "poetinha" retrucou:
- É primavera! É primavera!
Nesse musical estão duas obras primas de poesia e música: "Minha namorada" e "Primavera". Sem
dúvida, duas das mais belas obras da nossa MPB.

UM NOVO PERSONAGEM NA HISTÓRIA DA BOSSA NOVA


RONALDO BÔSCOLI ENCONTRA ROBERTO MENESCAL
E COMEÇA UMA PARCERIA DE PRIMEIRA QUALIDADE

Era 1956. Numa roda de violão, na Gávea, Menescal encontrou um grupo de rapazes cantando "coisas
diferentes". Um deles tentava cantar músicas de Dick Farney, o que já era atestado de bom gosto. Era
um repórter do jornal "Última Hora" chamado Ronaldo Bôscoli. E cantava muito mal. Conversa vai,
conversa vem, viram que tinham muita coisa em comum: Detestavam a tristeza das músicas que à época
pareciam "dor de cotovelo". A exemplo de Dick Farney, adoravam Frank Sinatra. O forte do Menescal
sempre foi a música. O do Bôscoli, a letra.
Marcaram um encontro que não houve, mas no segundo, na casa de Nara, os dois disseram "presente".
Já era 1957 e a "Academia do Violão" estava fechada,"por motivo de força maior".
Ronaldo Bôscoli levou Chico Feitosa, (com quem dividia um apartamento) às famosas reuniões em casa
de Nara. Chico já era parceiro de Bôscoli na canção "Fim de noite" e o nosso Ronaldo acabou instalado
na casa de Nara, graças à extrema bondade dos pais da futura "musa da bossa nova". Ele tinha 28 anos e
ela apenas 20. Nara e os pais se encantaram com o hóspede. Charmoso, inteligente e, como ela, muito
tímido, o que aumentava a atração. Já saíam juntos, sem receios dos pais. Sabiam que em sua
companhia ela não corria riscos.
A essa altura Carlinhos Lyra e Menescal reuniram suas economias e reabriram a Academia. Novo
sucesso: 200 alunas! E quando o Menescal apresentou Carlos Lyra ao Ronaldo Bôscoli, aí sim, a Bossa
Nova começou a ficar mais rica, em quantidade e qualidade de poetas, cantores e compositores. E
começou o sucesso: "Se é tarde me perdoa", "Lobo Bobo". E a Academia prosperava, já com um
terceiro professor: Normando Santos. E a turma da casa de Nara aumentou mais ainda, com a chegada
dos irmãos Castro Neves, Mário e Oscar, dois "ases" em música instrumental.

NARA LEÃO
SEU TALENTO, SUA VOZ, SEUS LINDOS JOELHOS
AS FAMOSAS REUNIÕES EM SEU APARTAMENTO

Dr. Jairo Leão e sua mulher, dona Tinoca, eram do Espírito Santo, mas foi aqui no Rio que sua carreira
de advogado teve êxito.
Tinham duas filhas: Danuza, a mais velha, e Nara, que nasceu em 19 de janeiro de 1942 e veio para o
Rio aos dois anos. Tinha apenas quatorze quando a Bossa Nova entrou na sua vida. Era 1956.
O "Cursinho de Violão" recebeu uma nova aluna: Nara Lofego Leão.
Ao contrário do pai de Menescal, o Dr. Jairo tinha uma outra opinião no que diz respeito ao famoso
instrumento. Mesmo antes de existir a escola de violão, Nara já possuia um violão e um famoso
professor: Patricio Teixeira, que dava aulas em sua casa. Levava nítida vantagem em relação às colegas
de classe, claro.
Foi Ronaldo Bôscoli quem descobriu a beleza dos seus joelhos.
Escreve ele:
"Chegando lá, toquei a campainha e quem me recebeu foi a própria Nara. Estava de shortinho curto,
deixando inteiramente a descoberto seus joelhos redondinhos, que foram objeto de muitas poesias,
crônicas e suspiros gerais."
Nos últimos anos de 1950, trabalhava como repórter, num jornal do Rio. Estreou profissionalmente em
1963, cantando no musical "Pobre Menina Rica", de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Gravou duas
faixas no disco de Carlos Lyra "Depois do Carnaval": "É tão triste dizer adeus" e "Promessas de você".
No ano seguinte, em 1964, gravou seu primeiro LP: "Nara". Um disco muito polêmico, porque misturou
Bossa Nova com samba de morro que "não tinha nada a ver".
No fim daquele ano gravou o famoso "Opinião" e participou do show-protesto. Como Carlos Lyra, Nara
era o que se chamava uma cantora "politicamente engajada". Em 1965 convidou uma nova cantora,
Maria Bethânia, para substituí-la no show. Tornou-se, assim, descobridora da famosa cantora baiana.
1966 foi um ano de grandes sucessos: "A Banda", de Chico Buarque e "Disparada" de Geraldo Vandré.
"A Banda" dividiu com "Disparada" o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira da TV
Record. Sucesso fulminante. O compacto vendeu 55 mil cópias em apenas quatro dias.
Um tumor, localizado em seu cérebro, causou sua morte em 7de junho de 1989. Ela resistiu quase
quatro anos.

ANTÔNIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM

A Bossa Nova já nasceu abençoada por Deus. Teve a participação brilhante do maestro Antonio Carlos
Brasileiro de Almeida Jobim - ou simplesmente Tom Jobim.
É unanimidade nacional: Tom foi a figura mais importante da música brasileira, em toda a sua história,
só comparável a Villa-Lobos, a quem admirava profundamente. Conhecido e reconhecido em todo o
mundo, Tom havia mudado de endereço, indo morar em Copacabana.
Em 1954, Tom retornou a Ipanema, para famoso endereço: Rua Nascimento Silva,107 apartamento 201.
Foi nele que, em parceria com Vinicius de Moraes, compôs o clássico "Se todos fossem iguais a você",
em 1956. Em 1957, compôs outro clássico, "Chega de saudade" e reencontrou João Gilberto. Alguns
pesquisadores acham que daquele encontro resultou a Bossa Nova. Vinicius de Moraes concorda, mas o
tema é muito controvertido. Em 62 Tom veio morar perto de mim, aqui na Rua Barão da Torre, também
número 107 e aqui ficou até 1965. Naquele ano recebeu um bom dinheiro de direitos autorais e
comprou uma casa na Gávea, na Rua Codajás, deixando (fisicamente) Ipanema para sempre. Mas
Ipanema, e não Copacabana, é o berço da Bossa Nova. Escreve Ruy Castro em "Ela é Carioca":
"...embora a vitrine da Bossa Nova fosse Copacabana, o coração musical do movimento estava em
Ipanema. Foi aqui que ele compôs, com Newton Mendonça, "Foi a Noite", "Caminhos Cruzados",
"Discussão", "Domingo Azul do Mar", "Meditação", "Desafinado" e "Samba de uma nota só". Aqui ele
compôs, com Dolores Duran "Estrada do Sol", "Se é por falta de adeus" e "Por causa de você".
Em Ipanema ele compôs "Eu sei que vou te amar", "A felicidade", "Insensatez", "Agua de Beber", "O
amor em Paz", "Por toda a minha vida", "O grande amor", "O morro não tem vez", "Ela é Carioca",
"Garota de Ipanema", "Dindi", "Inútil Paisagem", "Samba do avião" e tantas obras primas.
Será coincidência que a fase mais solar e marítima da obra de Tom tenha sido feita quando ele morava
aqui?"
O que vocês acham?

VINÍCIUS DE MORAES
O CASAMENTO PERFEITO: DOIS GÊNIOS SE ENCONTRAM NA BOSSA

Aos quarenta e cinco anos, em janeiro de 1958, Vinicius - o poeta, encontra a semente da Bossa Nova
em "Chega de Saudade" - uma das faixas do LP "Canção do Amor Demais", gravado por Elizeth
Cardoso. Seu parceiro - o maestro maior - foi Tom Jobim. A Bossa Nova nascia privilegiada. Três
"monstros sagrados". Já podia-se ouvir a batida do violão de João Gilberto. De repente um diplomata foi
promovido a guru de um movimento musical. E não parou mais de escrever maravilhas.
Entre 58 e 65 produziu, com Tom Jobim, cinqüenta títulos, quarenta com Baden Powel, trinta com
Carlos Lyra e vinte com Edu Lobo.
Entre 58 e 65 produziu, com Tom Jobim, cinqüenta títulos, quarenta com Baden Powel, trinta com
Carlos Lyra e vinte com Edu Lobo.
A rigor pode-se dizer, sem medo de errar, que a mudança radical da poesia na MPB começou com
Vinícius de Moraes. A mulher traidora, vulgar, vilã e vagabunda cedeu o lugar à garota bonita cheia de
graça, à mulher amada e linda. A mulher rejuvenesceu, deixou de ser vamp. Passou a ser graciosa.
Foi a dupla Tom-Vinícius que universalizou a Bossa Nova.E, pasmem, foi muito criticada por alguns
críticos "de mal com a vida". A Bossa foi acusada de influência americana, quando, ao contrário,
influenciou e contagiou a música de Tio Sam.
É muito extensa a obra poética de Vinícius, literária e musical.

BADEN POWEL
A BOSSA NOVA ENRIQUECE E GANHA O MAIOR VIOLONISTA DO PAÍS
Roberto Baden-Powell de Aquino, ou simplesmente "Baden Powell" nasceu numa cidadezinha do
interior fluminense chamada "Varre-e-sai" em 6 de agosto de 1937. Veio para o Rio em 1955 indo morar
em São Cristovão.
Neto e filho de músicos, o garoto herdou o talento e a genialidade que estarreceram o mundo anos mais
tarde. Seu primeiro violão foi "roubado" de uma tia e seu primeiro professor foi o Meira - violonista da
orquestra de Pixinguinha.
Baden começou a tocar profissionalmente no Cabaré Brasil e, mais tarde, na boite do Hotel Plaza, onde
se reuniam os primeiros "bossanovistas". Seu primeiro sucesso foi "Samba Triste", composto em 1959,
em parceria com Billy Blanco.
Escreve Luiz Carlos Maciel: "Para mim, Baden Powell é o maior compositor da genuína música popular
brasileira - ninguém faz uma seresta moderna melhor que ele. Toca tudo que é possível e toca melhor do
que todo mundo. Ninguém harmoniza melhor do que Baden. Ninguém. Eu o conheci através de Dolores
Duran, no Beco das Garrafas, no Little Club... tenho quase certeza de que fui eu quem o aproximei de
Vinicius de Moraes."
Parecia que "uma química especial" existia entre os dois. Ficavam dias inteiros tentando encontrar o fim
de uma canção! A primeira parceria foi "Samba em Prelúdio". E se seguiram mais de 50 clássicos.
Baden teve muitos parceiros poéticos, inclusive Paulo Cesar Pinheiro. Desse ultimo, eu gosto muito de
"Violão Vadio" que Eliseth interpreta magistralmente. O longo período em que viveu na Europa fez com
que seja muito mais conhecido naquele continente, principalmente na França e na Alemanha.
É, sem dúvida, o maior violonista do Brasil em todos os tempos, não só pela técnica, mas pela
capacidade de criar. Ninguém criava acordes mais lindos. Baden suplantava a todos.

PERY RIBEIRO
A MAIS LINDA VOZ DO BRASIL GRAVA "GAROTA DE IPANEMA"
UM CLÁSSICO DA BOSSA NOVA

Pery Ribeiro é filho da famosa cantora Dalva de Oliveira e do compositor Herivelto Martins. Esse nome
artístico foi sugerido e adotado pelo apresentador César de Alencar nos anos cinquenta.
Gravou seu primeiro disco em 1960. No ano seguinte gravou dois grandes sucessos da dupla Antonio
Maria e Luiz Bonfá: "Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu". É um cantor de estilo genuinamente
romântico e de seus relacionamentos com a Bossa Nova surgiu a primeira gravação de "Garota de
Ipanema", de Tom e Vinicius, feita em 1963. Gravou doze discos desse repertório, dos quais se
destacam:
- "Pery Ribeiro sings Bossa Nova Hits" [1980]
- "Os grandes sucessos da BossaNova" [1980]
Pery é um cantor completo: Um lindo timbre de voz, respiração perfeita, apurado uso do diafragma e
uma ótima divisão de frases. Pena não ter o reconhecimento merecido.
Desenvolveu trabalhos jazzisticos com Leny Andrade e Bossa Três, com quem obteve sucesso na
gravação ao vivo do show "Gemini V", viajando pelo México e Estados Unidos, onde atuou também ao
lado do Conjunto Sérgio Mendes.
Recomendo um disco perfeito do Pery que ouço quase diariamente:
- "Tributo a Taiguara"
Imperdível!
LÚCIO ALVES
OUTRO GRANDE PIONEIRO DA BOSSA NOVA

No seu livro -"A onda que se ergueu no mar"- Ruy Castro escreve, com o brilhantismo e a competência
de sempre, um ótimo resumo biográfico de Lucio Alves, fazendo um paralelo com a vida de outro
"monstro sagrado": Dick Farney.
"Os dois tornaram clássico quase tudo que gravaram. Inspiraram seguidores sofisticados, abriram o
caminho para a Bossa Nova, participaram dela como ministros sem pasta e, juntamente com ela, foram
atropelados pelo processo. Na passagem dos anos 60 para 70, os dois viram seu mercado encolher
dramaticamente. Mas nunca se prostituíram, nunca fizeram concessões a estilos em que não
acreditaram. E pagaram por isso: morreram tristes, abandonados pelas gravadoras, afastados do público
- Dick, em São Paulo, em 1987, aos 66 anos; Lucio, no Rio, em 1993, também aos 66 anos."
Lucio Alves nasceu em 1927, em Cataguazes, Minas Gerais, mas aos sete anos já estava no Rio. Muito
jovem estreou no Programa "Picolino", na Radio Mayrink Veiga. Tinha apenas nove anos e já se
apresentava, cantando o repertório de Orlando Silva, mas sua grande paixão era a voz do seu ídolo:
Bing Crosby. Aos quatorze anos formou o Conjunto "Namorados da Lua". Já fumava desde os nove
anos, "tomava umas e outras" e morava com uma mulher que tinha o dobro da sua idade!
E foi aí que surgiu seu primeiro sucesso: "De conversa em conversa", em parceria com Haroldo
Barbosa. Daí em diante, foi só sucesso: 1945:"Eu quero um samba".
Lucio Alves gravou quase todo o repertório de Dick Farney. Os dois empolgaram a garotada que viria a
fazer a Bossa Nova: Johnny Alf, João Donato, Dolores Duran, Billy Blanco, Tom Jobim, Newton
Mendonça, Tito Madi e Carlos Lyra.
Em 1954, Dick e Farney receberam "um presente" de Tom e Billy: O clássico "Tereza da Praia", em
homenagem a Tereza Hermany - mulher de Tom Jobim. Música e uma letra ma-ra-vi-lho-sas!.
Poucos sabem que Lucio Alves foi uma presença ativa nos primeiros shows amadores da Bossa Nova.
Carro-chefe do famoso show na Escola Naval.

HISTÓRIAS PITORESCAS DA BOSSA NOVA

Todo mundo ouvia falar muito de João Gilberto. Diziam que era um cara maluco, que já havia sido
internado, vivia de cabelo enorme, barbado e que, como um vampiro, só saía à noite.
Certo dia, chegou à casa do Ronaldo Bôscoli. Não era nada do que diziam as más línguas.
Cabelo cortado, barba feita, sapato engraxado e, claro, um violão debaixo do braço. Tocou um violão
fantástico que deixou todo mundo boquiaberto e explicou que tinha brigado com o Tito Madi, não tendo
para onde ir. Já era madrugada quando João, convidado pelo Bôscoli, mudou-se para o pequeno quarto-
e-sala do Edifício Haiti onde já moravam, além do Bôscoli, Mièle e um empregado chamado Chico.
Cinco "artistas" num quarto-e-sala.
Era um sujeito de hábitos muito estranhos. Ficava horas ao telefone, horas no banheiro, para desespero
dos outros moradores. Dormia vestido, com uma gravata tapando os olhos. Ficava, como um morto, em
decúbito dorsal. Sempre muito limpo, muito asseado.
Havia um sistema para compras de mantimentos para a casa em que todos cooperavam. Só que o João
Gilberto só comprava o que gostava: Tangerina!
Ia pra rua de madrugada, passava na feira e comprava quilos de tangerina. Chegava por volta das seis
horas e acordava todo mundo, cantando as músicas do dono da casa, Ronaldo Bôscoli. Aprendeu "Lobo
Bobo" (que o Bôscoli fez para a Nara) e "Saudade fez um Samba", com acordes magníficos,
deslumbrando a todos.
Certo dia disse ao Ronaldo (a quem ele chamava de "Ronga"):
"Que suéter bonito, Ronga! Vocês cariocas tem bom gosto! Me empresta?".
O coitado do Bôscoli emprestou o lindo suéter que ficou pra sempre com o "cara-de-pau".
Quem quiser ver, compre o primeiro LP que gravou: "Chega de Saudade". O suéter está lá.
Quando a Bossa Nova começou a ser descoberta, produzida e respeitada pela imprensa, algumas das
mais lindas mulheres de Copacabana começaram a se interessar também pelos seus autores e cantores,
que passaram a ser literalmente "cantados". Elas organizavam festas em seus grandes apartamentos e
disputavam avidamente a atenção dos galãs.
Tom, Menescal, Bôscoli, Carlinhos e Normando eram os alvos principais. O primeiro era o mais
cobiçado, embora casado e super-vigiado por sua mulher - Teresa Hermany.
Consta que quando uma moça apaixonada pelo "bom pinta" debruçava-se no piano, exibia seu generoso
decote e dizia languidamente: "-Tom, você me leva em casa?", ele respondia:
"- Um momentinho, vou telefonar pra Teresa".
Mas não resistiu aos encantos da atriz francesa Milene Demongeot.
Normando Santos, que era professor de violão na escolinha de Carlos Lyra e Roberto Menescal, tinha
uma aluna especial: Maria Teresa - mulher do então Vice-Presidente da República, João Goulart. Reza a
lenda que ela o convidou para "ver um filminho no Palácio, às quatro horas". Contente da vida, nosso
amigo foi ao cinema Palácio, comprou os ingressos e ficou na porta, à espera daquela beleza de mulher.
Esperou, esperou e nada! Voltou pra casa.
Depois ficou sabendo que ela o esperava no Palácio Laranjeiras, não no cinema Palácio...

A Bossa Nova foi e continua sendo o melhor estilo musical que existiu no mundo. A Bossa Nova nasceu
no Brasil, no Rio de Janeiro e se espalhou por todo o mundo.
Com a Bossa Nova, o Brasil deixou de ter "o complexo de vira lata", expressão criada por Nelson
Rodrigues, para dizer que o Brasil se sentia pequeno em relação a outros países, todos achavam, e até
hoje muitos acham, que o Brasil não vale nada e que de nada de bom sairia daqui. Tinha até uma outra
frase também que dizia que o Brasil nunca daria certo.

Com a Bossa Nova, o Brasil passou a se desenvolver em várias áreas: com Juscelino Kubithseck foi
fundada Brasília e o Brasil passou a ter várias indústrias, o cinema nacional começou a ser respeitado
mundialmente, na pintura apareceu Portinari, no esporte, o Brasil foi Campeão do Mundo no Futebol, a
tenista Maria Esther Bueno foi penta em Wimbledow, o basquete masculino foi bi campeão do mundo,
Ademar Ferreira da Silva foi campeão olímpico no salto triplo e vários outros feitos. Com a Bossa
Nova, a música brasileira ficou conhecida como a melhor música do mundo. E até hoje é uma
linguagem universal.

1 - OS PRECURSORES


Noel Rosa Mario Reis

A música popular brasileira sempre passou por fases de evolução, no final da década de 20, no princípio
do rádio, já começou a definir certos caminhos que seriam marcantes na MPB.

Nesse tempo, a vitrola e o disco iniciavam uma incrementação em suas vendas e assim o rádio e o disco,
começavam a comandar os destinos da nossa música popular.

Uma avalanche de novos talentos despontou proveniente de várias camadas sociais, como o cantor
Mário Reis que com sua voz pequena tenha lançado uma "bossa nova" naquela época. Também tinha
compositores como Noel Rosa, que na sua música Coisas Nossas aparece pela primeira vez a palavra
bossa, que dizia: "O Samba, a prontidão e outras bossas, são coisas nossas". Essa palavra bossa
significava penhor, uma coisa boa, de um grande valor.
Dorival Caymmi

No final da década de 30, apareceu Ary Barroso e Dorival Caymmi, dois compositores que pela
primeira vez levaram a música brasileira ao exterior, na voz de Carmem Miranda. Ary Barroso e
Dorival Caymmi caminhavam para frente com novas harmonias e novos estilos na composição de
melodias.

Com o fim da 2º Guerra Mundial, a música mundial passou por um período de muita melancolia, com
isso surgiu o Bolero, que influenciou muito o Samba Canção, que foi um estilo que vigorou no Brasil da
década de 40 até o fim da década de 50, o Samba Canção era um samba mais lento e mais melancólico,
que só falava de desencontros e desilusões amorosas. O Samba Canção foi marcado por cantores de voz
muito grossa como Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Angela Maria,
entre outros.

No início dos anos 50, o Samba Canção estava um marasmo, alguma coisa diferente tinha que surgir e
surgiu. Vários nomes da música brasileira da época começavam a procurar um novo caminho.

Um deles foi o maestro Radamés Gnatalli, um exímio pianista e arranjador. Ele criou na orquestração,
um estilo inteiramente novo, adaptando para os saxofones e metais as batidas do ritmo do Samba, ele
fez os arranjos originais de músicas como Copacabana, Carinhoso e Aquarela do Brasil, ao mesmo
tempo surgiu o pianista e compositor Garoto que seria muito influenciado por Radamés, especialmente
na música Gente Humilde, que anos mais tarde ganharia letra de Chico Buarque e Vinícius de Moraes.

Outro nome importante da época foi o cantor de Samba Canção Dick Farney. Ele viajou aos EUA no
final dos anos 40, de lá trouxe o Jazz, que seria a maior influência da Bossa Nova. Em 1953, já de volta
ao Brasil, Dick Farney, mistura em suas canções, Samba Canção com Jazz, influenciado especialmente
por Frank Sinatra, Cole Porter, Bing Corsby e Gerswhin, em músicas como Copacabana, Alguém como
Tu, Valsa de uma Cidade, Marina, etc. Nessa mesma época ele conhece um pianista carioca, radicado
em São Paulo, chamado Johnny Alf, que tinha umas melodias bem modernas para a época.

Johnny Alf

Johnny Alf ao lado de outros fãs acaba fundando o fã clube Sinatra e Farney, do Frank Sinatra e do Dick
Farney. Nesse clube apareceram nomes como as cantoras Dolores Duran, Doris Monteiro e Silvia Telles
e compositores novos como Luís Bonfá, João Donato e Billy Blanco, que seriam bastante influenciados
pelos acordes de Johnny Alf e a música de Dick Farney.
Tom Jobim

Em 1954, surge o disco SINFONIA DO RIO DE JANEIRO, que tinha músicas de dois compositores
desconhecidos até então: Tom Jobim e Billy Blanco, esse disco foi arranjado pelo mestre Radamés
Gnatalli, tinha cantores modernos como Dick Farney, Lúcio Alves, Elizeth Cardoso, Dorís Monteiro e o
grupo Os Cariocas, entre outros. As músicas desse disco maravilhoso são: Abertura, com Dick Farney,
Hino ao sol, também com Dick Farney, Coisas do dia, com Os Cariocas, Matei-me no trabalho, com
Gilberto Milfont, Zona Sul, com Elizeth Cardoso, Arpoador, com Lúcio Alves, Noites do Rio, com
Dóris Monteiro e Os cariocas, O mar, com Elizeth Cardoso e Dick Farney, A montanha, com Emilinha
Borba, O morro, com Nora Ney, Descendo o morro, com Jorge Goulart e O samba de amanhã, com
Dick Farney. Esse disco nasceu quando Billy Blanco, num ônibus, viu martelar em sua cabeça o tema
“Rio de Janeiro, que eu sempre hei de amar, Rio de Janeiro, a montanha, o sol, o mar”. Desceu e,
incontinenti, telefonou ao Tom para que anotasse a melodia, que poderia esquecer, propondo também
que fizessem uma sinfonia sobre o tema, depois de algum tempo finalizada em 11 movimentos. “Uma
síntese da vida do Rio”, sem dúvida uma das maiores obras já feita em louvor da terra carioca.

No mesmo ano, Dick Farney e Lúcio Alves, que segundo a imprensa da época se odiavam, gravaram
junto o clássico Tereza da Praia, também de Tom Jobim e Billy Blanco.
Tom Jobim foi aluno do dodecafonista alemão Koellreuter, estudou harmonia e composição com o
compositor e regente Paulo Silva e com o pianista Tomás Gutiérres de Téran. Como exercício,
compunha valsas, mazurcas e prelúdios, que batizou de “prelúdios gasta papel”.

Mas seria estudando piano com a célebre professora Dona Lúcia Branco que Tom aprofundaria seus
estudos dos clássicos, especialmente no maestro Heitor Villa-Lobos, de quem era fã, com isso virou
arranjador da rádio Nacional, lá em 1953 conheceu o maestro Radamés Gnatalli, que seria seu amigo
até a morte de Radamés em 1986.

Em 1955, Johnny Alf faz uma música que ficaria para sempre: Rapaz de Bem, uma mistura de Samba e
Jazz, que muitos hoje consideram o marco zero da Bossa Nova.

João Donato

No início dos anos 50, aparece o então tocador de acordeão João Donato, inspirado no acordeonista
americano Ernie Felicce. O primeiro grupo que integrou chamava-se Os Modernistas, do qual ele era o
arranjador. Muitos shows acabaram não acontecendo por causa de seus súbitos desaparecimentos. Como
ele era o líder do grupo, sem a presença do acordeão os shows e bailes tinham de ser cancelados.
Começava aí sua fama de indisciplinado. O grupo não teve vida longa. Mais tarde funda um outro
grupo, com quase a mesma formação. Com o nome de Os Namorados, gravou em 1953 uma nova
versão para Eu Quero um Samba, sucesso na voz de Lúcio Alves. Devido ao arranjo de Donato, a nova
versão conseguiu ficar ainda melhor do que a original. Foi o seu primeiro cartão de visitas. Neste novo
registro, os baixos de seu acordeão quebravam o ritmo com uma avalanche de síncopes, produzindo
uma batida de efeito desconcertante. Era tão "moderno" que na época ninguém entendeu nada. E eles
não emplacaram de novo.

Só a partir de 1954 começou a ter empregos mais ou menos fixos. Tocou na Cantina do César junto com
Johny Alf. A casa começou a ser freqüentada por um público fiel interessado em jazz. O modesto
prestígio entre os fregueses da cantina fez com que fosse convidado, em 1957, para tocar na boate do
Hotel Plaza. Quando Donato chega, ele se torna o responsável por fazer do local um reduto de músicos.
Tocava-se de tudo na boate do Plaza, de jazz ao baião. Só que Donato transfigurava o baião a tal ponto
que, se Luiz Gonzaga entrasse lá por acaso, não seria capaz de reconhecer o ritmo que ajudou a criar.
Nessa época, veio da Bahia um outro João, que mudaria a história da música brasileira e se tornaria
amigo de João Donato: João Gilberto. Quando conheceu pessoalmente João Gilberto, no início dos anos
50, Donato era um músico mais evoluído e já possuía a fama de excêntrico. Tornaram-se amigos
inseparáveis, já que as afinidades não ficavam apenas no plano musical; tinham também o mesmo
comportamento imprevisível e anti-social. Juntos, faziam visitas periódicas ao Instituto Pinel, em
Botafogo, só para observarem os loucos. Sabe-se lá por que faziam programas do tipo, mas a verdade é
que por estarem sempre juntos acabaram acentuando suas esquisitices e, mais importante, suas
experiências musicais. Pode-se dizer que o encontro dos dois Joões foi de extrema importância para os
rumos que a música brasileira tomaria nos anos subseqüentes.

Em 1955, a cantora Silvia Telles, gravou um disco de 78 rotações, de um lado tinha Foi a Noite, do Tom
Jobim e Newton Mendonça e do outro lado tinha a música Menina, de Carlos Lyra. Na época, o
produtor do disco Aloisio Oliveira queria colocar o ritmo do disco, mas não teve condições, porque era
uma coisa nova e ninguém sabia o que era. Na mesma noite o João Gilberto ligou para o Carlos Lyra e
disse: "Tem uma pessoa aqui que quer falar com você” e passou o telefone para o outro: "Alô,
Carlinhos, aqui é o Tom Jobim, eu sou o outro lado do disco”.

Vinícius e Tom

Em 1956, um outro encontro mudaria a história da música brasileira e mundial. O poeta Vinícius de
Moraes estava procurando alguém para ser parceiro nas músicas da sua peça de teatro Orfeu da
Conceição, baseada no mito grego Orfeu numa adaptação da história para os morros cariocas.

Primeiramente, o Vinícius procurou o compositor Vadico, ex-parceiro de Noel Rosa, mas alegando
problemas de saúde Vadico não aceitou. Sabendo que procurava um parceiro para a parte musical, os
amigos comuns Lúcio Rangel e Haroldo Barbosa sugeriram ao Vinícius o nome de Antônio Carlos
Jobim (Tom e Vinícius já se conheciam desde 1953, no Clube da Chave, mas não eram íntimos). O
amigo Paulo Soledade também já lhe falara a respeito do rapaz. Um dia, nos estúdios da gravadora
Continental, o poeta lhe diz: "Paulinho, estou precisando de um maestro, que me ajude numas músicas
que vou fazer. Você tem algum?". Paulinho Soledade responde de pronto: "Tom Jobim", e daí se contêm
um pouco, mas prossegue: "Tem um problema: ele é moderno. Bebe bonito, conhece poesia e passa a
madrugada lendo Carlos Drummond de Andrade. Pode ser perigoso...". Vinícius, feliz, não o deixa
prosseguir: "Mas é um sujeito exatamente assim que eu quero!”.

Lúcio Rangel apadrinhou um encontro dos dois no Villarino, famoso bar no centro do Rio, freqüentado
por artistas e intelectuais. Vinícius expôs ao Tom seu projeto, e convidou-o para fazer a música. Tom,
por volta dos 29 anos, no início de uma suada carreira, tocando piano na noite para "defender o dinheiro
do aluguel", como ele mesmo contava mais tarde, lançou a Vinícius a pergunta famosa: "Tem um
dinheirinho nisso?". O Vinícius riu e o Lúcio Rangel escandalizado falou: “Isso é coisa pra falar com o
poeta? Dinheirinho nisso? Esse é o Vinícius de Moraes.” E o Tom falou: “Ah bom!”. Logo depois, Tom
Jobim já pode se mudar para seu famoso endereço na Rua Nascimento Silva, 107.

Orfeu da Conceição estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 25 de Setembro de 1956, e lá


ficou em cartaz durante uma semana. Quem era o Orfeu e por conseqüência o cantor era Haroldo Costa,
que tinha uma voz maravlhosa.
Tom escreveu os arranjos para a orquestra, que na peça foi regida por Leo Peracchi. No violão, Luiz
Bonfá e Tom ao piano.

No lado 1 do disco tinha Overture, uma orquestra sob regência do Tom, maravilhosa por sinal, e o
Monólogo de Orfeu dito por Vinícius de Moraes com Luís Bonfá no violão.

No lado 2 tinha os sambas: Um nome de mulher, Mulher sempre mulher, Eu e o meu amor, Lamento no
morro e a música que se tornaria clássica: Se todos fossem iguais a você.
Pelos idos de 1955, o compositor moderno Carlos Lyra, que tinha um topete que parecia ter sido
projetado por Oscar Niemeyer, dava aulas de violão a vários jovens, como Luiz Roberto Oliveira, no
meio de uma delas apareceu um amigo dele de terno e gravata preta, que logo sentou à mesa sem
cerimônia. O papo era dos dois, e Carlos Lyra se esqueceu da aula. A conversa ia animada, e o visitante
dizia que ia participar de uma gravação da Maysa, tocando violão na orquestra. E tocou no violão um
trechinho do acompanhamento do Samba Canção Ouça. Quando este homem saiu, Carlos Lyra falou:
"Fique de olho nesse baiano, que ele ainda vai dar o que falar. O nome dele é João Gilberto".

Na mesma época, o capixaba Roberto Menescal que estudava o colegial no Colégio Mello e Souza, em
Copacabana, já freqüentava umas festinhas com o violão a tiracolo, e era o ai-Jesus das moças do
pedaço. Na sala de lado, distribuindo timidez e sorrisos, e com os joelhos que Deus lhe deu, a também
capixaba Nara Leão - que gostava de receber no apartamento dos pais os jovens compositores, em
reuniões onde cada um mostrava suas últimas músicas.
Menescal resolveu mudar de colégio e foi para o Mallet Soares, a poucas quadras de distância e com
ensino pior. Mas um motivo maior do que passar de ano sem muito esforço era o fato de poder estar
próximo de Carlos Lyra, que ali estudava.
Menescal contou que um dia estava tendo uma festa no apartamento dos pais dele, era uma festa chique,
bodas de prata dos pais dele, todo mundo de smoking, de terno, gravata e o Menescal estava na porta
recebendo os convidados, eis que de repente chega um cara sem terno e presente e fala: “Você tem um
violão aí?” E o Menescal respondeu: “Tenho, mas só que tá tendo uma festa aqui e eu estou recebendo
os convidados”, aí o cara falou: “É mesmo, tá cheio aqui, tem algum cantinho aí pra gente ir tocar
violão?” E o Menescal respondeu: “Tem meu quarto, mas quem é você?” e aí foram pra lá e o cara
começa a tocar e cantar Bim Bom, e o Menescal falou: “Você é o João Gilberto?” E ele respondeu:
“Sou”. Então o Menescal pegou o João pelo braço, saíram da festa e ele foi mostrar o João a todo
mundo e só voltou depois de três dias.

No apartamento da Nara Leão, sempre estavam seu noivo Ronaldo Boscoli, Carlos Lyra, Roberto
Menescal e João Gilberto, este último, morava de favor no apartamento do Ronaldo Boscoli, pois não
tinha lugar para ficar.

Nesse ambiente de mar, meninas e festinhas, como se movidos por uma força única, que cada um deles
começou a tentar tocar o Samba de uma maneira diferente. Alguma coisa nova estava prestes a aparecer.

2 - O início e o apogeu

Com isso tudo, a música brasileira estava caminhando para uma mudança radical. A música, pelo menos
a que se ouvia no rádio e nos discos, era insuportável para um adolescente no final dos anos 50. Boleros
e sambas-canções falavam de encontros e desencontros amorosos infinitamente distantes das vidas de
praia e cinema, de livros e quadrinhos, de inicio da televisão e da ânsia de modernização. Para os
garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Radio Nacional e suas grandes vozes,
dizendo coisas que não os interessavam em uma linguagem que não entendiam, eram abomináveis.
No meio desses cantores de grandes vozeirões, apareceu um que tinha uma voz baixinha: chamado João
Gilberto. No apartamento da Nara Leão, João Gilberto, junto com a Nara, Roberto Menescal, Carlos
Lyra, Oscar Castro Neves, de tanto tentar buscar uma batida de violão diferente acabaram achando. João
Gilberto, ninguém sabe como, um dia apareceu com uma batida que se parecia com um Marcha-
Rancho, que misturava o Samba tradicional com a música americana. Possivelmente essa batida surgiu
depois do encontro com João Donato, que já fazia no acordeão, praticamente a mesma coisa que João
Gilberto passaria a fazer no violão. João Gilberto disse que essa batida foi inspirada no sacolejo das
baianas em Juazeiro. Naquela época João Gilberto, além do gosto pela música também gostava da erva.
Tanto que seu apelido na época era “Zé Maconha”. Diz o escritor Ruy Castro que ele teve que ir para
Diamantina, em MG, para sofrer uma desintoxição. Ficou por lá um mês, passava o dia inteiro no
banheiro da casa de uma prima dele tocando violão, diz a lenda que foi de lá que ele apareceu com a
batida da Bossa Nova.

No fim de 1957, o jornalista Irineu Garcia que dois anos antes, havia fundando um pequeno selo
chamado Festa, para gravar poetas brasileiros dizendo seus poemas. Um desses poetas era o diplomata
Vinícius de Moraes, seu colega de uísques no Villarino, no centro do Rio de Janeiro. Mas Vinícius
estava se bandeando para a música popular e já tinha uma gaveta de sambas e canções em parceria com
Tom Jobim. Num papo entre os dois no Villarino nasceu um disco que seria histórico. A primeira
cantora de que cogitaram foi Dolores Duran, também parceira de Tom e amiga dos três. Mas Dolores
não se empolgou com a idéia de gravar uma parceria alheia. Então pediu alto, sabendo que Irineu não
poderia atendê-la. Subitamente sem cantora, Tom, Vinícius e Irineu voltaram-se para aquela que, depois,
passou a parecer uma escolha óbvia: a classuda Elizete Cardoso, a Divina. Mas Elizete era contratada da
gravadora Copacabana - que só aceitou empresta-la se isso ficasse registrado na capa do LP. Com tudo
acertado, os três partiram para os arranjos e ensaios na casa de Tom, em Ipanema, num endereço que,
por causa desse disco, ficaria célebre: Rua Nascimento Silva, 107.
Tom queria dar às orquestrações uma simplicidade quase de câmara. Para isso, usaria poucos
instrumentos: doze cordas, dois trombones, uma flauta, uma trompa e a seção rítmica - e, mesmo assim
nem todos ao mesmo tempo.
O disco traz 13 faixas, sendo que destas, só uma não era inédita: Outra Vez, que já tinha sido gravada
por Dick Farney em 1954. Tom e Vinícius, talvez por medo do que viria a acontecer, colocaram
praticamente todas as músicas do disco no ritmo de Samba Canção, o ritmo dominante do Brasil na
época. Apenas duas músicas tinham algo diferente. As duas músicas tinham participação de um
violonista, que apenas um grupo seleto de pessoas no Rio sabia de quem se tratava um baiano de 31
anos: João Gilberto. As músicas do disco eram Chega de Saudade, Serenata do Adeus, As Praias
Desertas, Caminho de Pedra, Luciana, Janelas Abertas, Eu não Existo sem Você, Outra Vez, Medo de
Amar, Estrada Branca, Vida Bela, Modinha e Canção do Amor Demais. As duas músicas que tinha
participação de João Gilberto eram: Chega de Saudade e Outra Vez.
João Gilberto não participou de todos os ensaios. Houve divergências entre ele e Elizete quanto à
maneira de cantar Chega de Saudade. João advogava um canto seco, sem vibrato. Mas Elizete não via
razão para modificar seu estilo e pode ter-se irritado com João Gilberto - disse a Irineu que não se
adaptou àquela batida e que preferia ter ao violão seu velho acompanhante, o grande Mão de Vaca. Mas
Irineu pôs panos quentes: João Gilberto ficou e Elizete cantou como gostava, tornando o disco ainda
mais representativo. No contraste entre os dois estilos em Chega de Saudade pode-se quase ver a
transição do samba tradicional para a Bossa Nova. É a história acontecendo. Pronto o LP, Vinícius
sugeriu que se título fosse Eu não Existo sem Você. Tom preferia que ele se chamasse Chega de
Saudade. Mas Irineu, como produtor, delicadamente impôs Canção do Amor Demais. O LP CANÇÃO
DO AMOR DEMAIS chegou às lojas em Abril de 1958. A maioria dos compradores de discos só tinha
um motivo para se interessar por ele: a foto e o nome de Elizete Cardoso na capa, pois Elizete tinha
prestígio, mas quase ninguém ainda conhecia Tom e Vinícius, os autores das músicas.
Quando acabaram de gravar Chega de Saudade, Tom Jobim e João Gilberto encontraram-se na Avenida
Rio Branco com o influente letrista e radialista Haroldo Barbosa. Tom disse: "Haroldo, acabamos de
gravar um negócio que eu acho que vai pegar".

No mesmo ano, em Dezembro, João Gilberto lançaria o seu primeiro disco: um 78 rpm da
Odeon contendo, de um lado, a mesma Chega de Saudade, só que cantada por ele e com a mesma
batida do violão; do outro lado, uma composição sua, chamada Bim-Bom (e, de novo, a inconfundível
batida). Foi uma revolução. Ouvindo num rádio de pilha Spica - a nova sensação tecnológica, novidade
absoluta recém-chegada ao Brasil - João Gilberto cantando Chega de saudade. Foi como um raio.
Aquilo era diferente de tudo que já se tinha ouvido, muitos ficaram chocados, sem saber se tinham
adorado ou detestado. Mas quanto mais se ouvia mais gostavam.
Logo João Gilberto virou ídolo dos mais jovens entre eles nomes como Nelson Motta, Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Joyce, Wanda Sá e mais outros que mais tarde ficariam na
história da música brasileira, tudo por causa dessa batida de violão.

A bossa nova era a trilha-sonora que faltava, que diferenciaria dos "quadrados" e dos antigos, dos
românticos e melodramáticos, dos grandiloquentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas,
dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós. João Gilberto era o pastor
desses jovens e nada os faltaria.

Em 1959, João Gilberto era um sucesso nacional, era adorado e detestado, acusado de desafinado e de
afeminado, celebrado como o inventor de um novo gênero musical. Muitos ouviam apaixonadamente
como o criador de uma maneira nova de cantar e tocar, com um mínimo de voz e um máximo de
precisão, com harmonias e ritmos que refinavam e sofisticavam qualquer canção. Com isso alguns deles
acharam que qualquer um poderia virar cantor.

Enquanto isso os mais velhos odiavam João Gilberto e o novo ritmo. Falavam que era uma cópia do
Jazz e era coisa de americano.

Nesse período o Brasil vivia uma de suas mais gloriosas fases de sua história: o Brasil passou a se
desenvolver em várias áreas com o presidente Juscelino Kubithseck aconteceram os cinqüenta anos em
cinco, culminando com a fundação de Brasília e o Brasil passou a ter várias indústrias, o cinema
nacional começou a ser respeitado mundialmente, na pintura apareceu Portinari, no esporte, o Brasil foi
pela primeira vez Campeão do Mundo no Futebol, lá na Suécia, revelando para o mundo nomes como
Pelé e Garrincha, a tenista Maria Esther Bueno foi campeã em Wimbledow, o basquete masculino foi
campeão pela primeira vez, Ademar Ferreira da Silva é campeão olímpico de salto triplo e vários outros
feitos.

Em 1959, João Gilberto fez o disco CHEGA DE SAUDADE, que para muitos foi considerado o melhor
disco brasileiro de todos os tempos.

No texto da contracapa, Tom Jobim usou a expressão "bossa nova":


João Gilberto é um baiano, "bossa nova" de vinte e seis anos.
Em pouquíssimo tempo, influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores.
Nossa maior preocupação, neste LP foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem
sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser, em suma, sua
espontaneidade. Nos arranjos contidos neste LP Joãozinho participou ativamente; seus palpites, suas
idéias, estão todas aí.

Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra
também é ele. João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo.

Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura que - embora à primeira vista
não pareça - pode se tornar como dizem na linguagem especializada: altamente comercial. Porque o
povo compreende o amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto,
porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical.
P. S. - Dorival Caymmi também acha.

No disco tinha mais uma versão de Chega de Saudade, tinha Lobo Bobo, com direito a um “lobo bobo”
dito pelo João no final, do Carlos Lyra e do Ronaldo Boscoli, Brigas nunca mais, do Tom e do Vinícius,
Ho-bá-lá-lá do próprio João Gilberto, Saudade fez um samba, numa interprtação expetacular do João
Gilberto, também do Carlos Lyra e do Ronaldo Boscoli, Maria Ninguém, só do Carlos Lyra, a
sensacional Rosa Morena, do Dorival Caymmi, Morena boca de ouro, de Ary Barroso, Bim Bom,
também do próprio João, Aos pés da cruz, do Marino Pinto, É luxo só, também de Ary Barroso e a
resposta aos críticos: Desafinado, do Tom e do Newton Mendonça. Realmente esse disco é expetacular,
têm arranjos feitos pelo Tom Jobim, um disco histórico que marcou época.

Com isso a Bossa Nova passou a designar o novo estilo e virou febre nacional, tudo era Bossa Nova, a
música, o cinema, a televisão, a marca de refrigerador, no futebol e até o presidente Juscelino, que virou
“Presidente Bossa Nova” como o compositor Juca Chaves o chamou em uma música sua.
Mas quem criou essa expressão?

Até hoje ninguém sabe, mas o primeiro a usar a palavra Bossa, foi o sambista Noel Rosa, ainda na
década de 30, com a sua música Coisas Nossas.

Dizem que o criador do termo foi um engraxate que, enquanto puxava o brilho aos sapatos do jornalista
Sérgio Porto, assobiava uma música. Sérgio quis saber que música era aquela, ao que o garoto
respondeu: “É uma bossa nova..."

Ninguém sabe se a letra de Desafinado, foi antes ou depois do batismo que dizia: "que isso é bossa
nova... que isso é muito natural...” O produtor de shows Aloiso Oliveira conta que para ele, o nome
bossa nova não era nada estranho. Em 1939 nos Estados Unidos, o Zézinho ou Zé Carioca, já dizia
quando observava a iluminação de mercúrio nas estradas: "Olha! Iluminação bossa nova!".
Segundo o Roberto Menescal, o termo Bossa Nova surgiu quando ele, mais Carlos Lyra e outros foram
fazer um show acompanhando a cantora Sylvia Telles e o produtor do show, não sabendo como iria
chamar o grupo deles colocou no cartaz: Hoje show com Sylvia Telles e um grupo Bossa Nova.
Mas, afinal o que é a Bossa Nova?

Uns a definiram de um modo pitoresco ou poético, dizendo que a Bossa Nova nasceu em virtude dos
apartamentos da zona sul. Como as reuniões musicais eram feitas à noite e em geral duravam até tarde,
o canto e o violão, eram forçados a serem feitos em tom macio e baixinho, para não incomodar os
vizinhos.

Também naquele ano teve o show a "Operação Bossa Nova", produzido e apresentado por Ronaldo
Boscoli no palco, de terno e gravata, explicando entre um numero e outro que Bossa Nova era o
moderno, o novo, o diferente, que era "um estado de espirito ". Também tinha a cantora Nara Leão,
timidíssima, cantando de uma maneira que todos ficaram sem saber se gostavam ou não. Mas sem
duvida queriam ver de novo: ela era de uma beleza estranha, tinha uma bocona, uns olhos meio caídos
que lhe davam um ar de musa existencialista, um cabelo muito liso e muito escuro e uma pele muito
branca, um fio de voz e um charme discretíssimo, sem duvida ela era diferente. A cara da bossa nova.

No show, Lúcio Alves, Alayde Costa e Sylvinha Telles e os desconhecidos Carlinhos Lyra, Oscar Castro
Neves e Nara cantavam e tocavam umas músicas muito diferentes de tudo que se ouvia no radio e na
televisão, parecidas com as que João cantava. Eles se apresentavam de uma maneira mais informal e
intimista, as músicas pareciam mais leves e melodiosas e as letras falavam de situações e pessoas
parecidas com a vida que se levava nos apartamentos, nas praias e nas ruas de Copacabana e Ipanema
naqueles anos bacanas.

No dia 13 de novembro de 1959 teve o histórico Show da Escola Naval com gravação ao vivo do
concerto de Bossa Nova produzido por Ronaldo Bôscoli na Escola Naval, no Rio de Janeiro, com
Alaide Costa, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Irmãos Castro Neves (Oscar, Mário & OIC), Lúcio Alves,
Luiz Eça, Roberto Menescal e Sylvinha Telles. Escola Naval é uma instalação militar no Rio de Janeiro.
A audiência foi talvez uma mistura de militares e fãs, e de acordo com Ruy Castro no livro “CHEGA
DE SAUDADE". O teatro tinha uma capacidade de 600 lugares e quase 1000 pessoas participaram.
Nesse show Ronaldo Bôscoli teve que explicar o que era Bossa Nova, acabou escolhendo a saída mais
fácil: “É o que há de moderno, de totalmente novo e de vanguarda na música brasileira”. Esta gravação
foi ao vivo e durou aproximadamente 65 minutos. Foi um grande show – embora qualquer pessoa
pudesse notar a diferença entre os amadores e os cantores de verdade. Muitos detalhes que certamente
surpreende à maneira como algumas canções clássicas foram realizadas no início, várias conversas
interessantes entre os artistas intérpretes ou executantes, com alguns momentos realmente agradáveis
com Ronaldo Bôscoli, Lúcio Alves e Sylvinha Telles. As gravações em fitas durante muitos anos
passaram na mão de alguns privilegiados colecionadores até que chegou a era digital e foi
disponibilizado em mp3 na internet.
As faixas do show são: Não faz assim, com Luiz Eça e Irmãos Castro Neves, Dialogo, com Ronaldo
Bôscoli, Minha saudade, com Luiz Eça e Irmãos Castro Neves, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, A
felicidade, com Luiz Eça e Irmãos Castro Neves, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Lucio Alves, Agora é
cinza, com Lucio Alves, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Lucio Alves, Por causa de você, com Lucio
Alves, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, Dizem por ai, com Lucio Alves, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli
e Sylvinha Telles, Discussão, com Sylvinha Telles, Dialogo, com Sylvinha Telles, Começou assim,
Sylvinha Telles, Sente, com Sylvinha Telles, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Sylvinha Telles, Oba-la-
la, com Sylvinha Telles, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, Sylvinha Telles e Carlos Lyra, Barquinho de
papel, com Carlos Lyra, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, Maria ninguém, com Carlos Lyra, Dialogo,
com Ronaldo Bôscoli, Lobo bobo, com Carlos Lyra, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Alaíde Costa,
Chora tua tristeza, com Alaíde Costa, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, Garota Be Bop, com Alaíde
Costa, Lagrima, com Alaíde Costa, Dialogo, com Alaíde Costa, Só não vem você, com Alaíde Costa,
Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Chico Feitosa, Ciúme, com Chico Feitosa, Dialogo, com Chico
Feitosa, Complicação, com Chico Feitosa, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli, Saudade fez um samba, com
Roberto Menescal, Dialogo, com Ronaldo Bôscoli e Reloginho da vovó, com Luiz Eça e Irmãos Castro
Neves.
No mesmo ano, um cineasta francês, em visita ao Brasil, acaba descobrindo a peça Orfeu da Conceição,
do Vinícius de Moraes e acaba querendo fazer um filme sobre ela. Vinícius aceitou e no filme tinha o
cantor Agostinho dos Santos como Orfeu, com músicas do Tom, do Vinícius e de Luís Bonfá. O filme
se chamou Orfeu do Carnaval. O filme, realmente foi muito ruim, mas acabou ganhado a Palma de
Ouro, no festival de Cannes, na França e no outro ano o Oscar de melhor filme estrangeiro. Nem
Vinícius quando foi ver o filme, ao lado de Juscelino, agüentou ver, se levantou antes do final e foi
embora. O filme foi bem diferente da idéia original do Vinícius: era uma visão dos europeus aos morros
cariocas, bem diferentes da realidade nossa.

O que ficou para sempre no filme foram as músicas Frevo e A felicidade, do Tom e do Vinícius, Samba
de Orfeu e Manhã de Carnaval, do Luís Bonfá, sendo que esta última foi o tema do filme e com essa
música o mundo passou ter uma outra visão do Brasil, diferente daquela dada por Carmem Miranda
vestida de baiana. As músicas da trilha do ORFEU NEGRO foram: A francesa Génerique, a
explendorosa A Felicidade, Frevo, O nosso amor, as três do Tom e do Vinícius, a expetacular Manhã de
Carnaval, as também francesas Scene du Lever du Soleil, Scenes de la Macumbe, Samba de Orfeu,
Baterrie de capela e no final um medley de Manhã de Carnaval, A felicidade e O nosso amor, tocadas
pelo Bola Sete. Dorival Caymmi disse muito tempo depois que o diretor do filme não gostou da música
A felicidade, que tinha um compositor que o mundo até então não conhecia, que era o Tom Jobim, por
isso pediu que ele fizesse uma canção pra substituir A felicidade. Como deu pra perceber ele não
aceitou, sorte a nossa, porque logo depois a música seria sucesso no mundo todo e Tom Jobim, seria só
o músico brasileiro mais famoso no mundo em todos os tempos.

Também em 1959, a cantora Sílvia Teles lança um disco só de músicas do Tom Jobim. O disco se
chamou AMOR DE GENTE MOÇA. As músicas do disco eram: Dindi, De você eu gosto, as duas com
o Aloisio de Oliveira, Discussão, com o Newton Mendonça, Sem Você, com o Vinícius, Fotografia, só
do Tom, outra gravação de Janelas Abertas, Demais, também com Aloisio Oliveira, O que tinha de ser,
A Felicidade, Canta, Canta mais, as três com o Vinícius, Só em teus braços e Esquecendo Você, as duas
só do Tom.

No mesmo ano a cantora Lenita Bruno, lança o disco POR TODA MINHA VIDA, só com músicas do
Tom e do Vinícius. As músicas do disco foram arranjadas por Léo Perachi e participação de Radamés
Gnatalli no piano. Ainda num clima bem de samba canção. As músicas do disco são: Por toda minha
vida, Serenata do Adeus, Estrada branca, Soneto de Separação, Valsa de Orfeu, Canção do amor
demais, As praias desertas, Eu sei que vou te amar, Canta, canta mais, Modinha, Cai a tarde, uma rara
música do Tom com o Vinícius, Sem você e Eu não existo sem você. O disco foi feito por Irineu Garcia.
Numa noite quente do outono carioca de 1960, um show marcou para sempre a história da música
brasileira.

No anfiteatro ao ar livre da Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha, as luzes se apagaram e ouviu-


se a gravação de Sylvinha Telles e grande orquestra de Eu preciso de você (Tom Jobim e Aloysio de
Oliveira). Uma abertura festiva e empolgante, não em ritmo de bossa nova, mas de ouverture da
Broadway. Uma a uma se iluminaram as janelas do segundo andar atrás do palco e de cada uma delas
foi desfraldada uma bandeira, com as palavras "a noite", "do amor", "do sorriso" e "da flor", no meio do
publico que superlotava os dois mil lugares do anfiteatro.

Muita gente estava ali para ver João Gilberto, lançando o seu segundo LP, O AMOR, O SORRISO E A
FLOR, que estourava nas rádios com clássicos instantâneos como Samba de uma nota só, do Tom e do
Newton Mendonça, Corcovado, só do Tom, O pato, do Jayme Silva e Neusa Teixeira e Meditação, de
Tom Jobim e Newton Mendonça, cujos versos deram nome ao disco e ao show e um slogan para o novo
movimento musical:

"Quem acreditou
no amor, no sorriso e na flor
então sonhou, sonhou,
e perdeu a paz,
pois o amor, o sorriso e a flor
se transformam depressa demais..."
Muitos estavam ali para ver Norma Bengell, que era uma das mulheres mais bonitas e desejadas do
Brasil, vedete das revistas de Carlos Machado, estrela da coluna de Stanislaw Ponte Preta, sonho erótico
nacional. Ela tinha lançado um disco pela Odeon, "Oooooh Norma”, onde cantava com voz sexy e cool
standards americanos, canções de Tom Jobim e o Oba-la-lá de João Gilberto.
Alguns poucos estavam ali também para ouvir a bossa dos novos cariocas Nara Leão, Nana e Dory
Caymmi, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal e Chico Feitosa e de paulistas desconhecidos como
Sérgio Ricardo, Johnny Alf, Pedrinho Mattar e Caetano Zama.
Ronaldo Boscoli era o apresentador e um dos produtores do show, numa bem sucedida manobra em
conjunto com o marketing da Odeon: Ronaldo lançava a sua turma de amigos e a gravadora o disco de
João. Mas a Odeon exagerou: escalou para a "Noite do amor, do sorriso e da flor" alguns de seus artistas
mais populares, como o nordestino e bolerístico Trio Iraquitã e a explosiva sambista carioca Elza
Soares, que não tinham nada a ver com a bossa nova. Muito pelo contrário.
Norma entrou esfuziante, com cabelos louros e curtos e pernas enormes, ovacionada pelo público.
Lindíssima, cantou com voz felina uma música de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini dedicada às
feiosas:

"Vem menina feia,


amor bonito você vai encontrar,
há um pequeno principe esperando por você,
que vai de amor te encantar...”

E depois, todo mundo, bossa ou não, cantou.


Cantou até Normando Santos, um pernambucano muito alto e muito magro, com uma voz grave e
sotaque carregado e um estilo meio antigo de cantar. Cheio e sorrisos e simpatia, ele abriu o vozeirão
em Jura de pombo, primeira parceria de Roberto Menescal com Ronaldo Boscoli, sobre uma briga de
amor entre um casal de pombos, com final feliz. Começava com a pombinha toda de branco indo se
encontrar com um pombo moreno.

A letra não era de duplo sentido, mesmo num tempo em que “pombinha “era uma lírica gíria para as
partes femininas, era para ser romântica e divertida, na linha do sucesso Lobo bôbo, o publico riu e
aplaudiu”“. Depois, surpresa: o paulista Caetano Zama apresentou um ousado "samba concreto”, em
parceria com Roberto Freire, experimentalismo paulistano que já pretendia ir além da Bossa Nova, que
mal estava começando. O menino e a rosa era um jogo de palavras e repetições em uns poucos acordes
de violão e o publico não entendeu, mas aplaudiu.

João Gilberto não tinha nada a ver com tudo isso. João foi a grande estrela da noite, fechando o show.
Abriu com os hits de seu novo disco, Samba de uma nota só, e O pato, depois cantou Brigas nunca mais
em dueto com sua mulher Astrud e fechou com Meditação, diante da platéia hipnotizada pela qualidade
e novidade das músicas e pelo ritmo e a harmonia em perfeita sincronia com sua voz e seu violão.
Como o amor, o sorriso e a flor da canção, o show de João terminou depressa demais.
Nesta noite inesquecível, além da presença suave e carismática de João, impressionaram a beleza e
gostosura de Norma e o charme carioca de Ronaldo e Nara. Nesta noite teve o poeta Vinícius de Morais
e as vozes do quarteto Os Cariocas, com suas harmonizações dissonantes inspiradas nos grandes
conjuntos vocais americanos, o espantoso estilo serpenteante de Johnny Alf, um negro de voz rouca e
fraseada jazzistico. Tudo num ambiente jovem e animado, a sensação de estar testemunhando o
nascimento de alguma coisa grande e bonita.
Durante todo o show muitos ficaram fascinados com os músicos do conjunto, Luiz Carlos Vinhas no
piano, Roberto Menescal com uma incrível guitarra elétrica vermelha, o baterista Helcio Milito e suas
tambas, Bebeto no sax e Luiz Paulo no contrabaixo, um ritmo sensacional, umas sonoridades diferentes,
uns acordes estranhos, umas músicas maravilhosas.
Nesse segundo LP de João Gilberto, O AMOR, O SORRISO E A FLOR, tinham as músicas Samba de
Uma nota só, Doralice, de Dorival Caymmi, Só em teus braços, do Tom, Trevo de quatro folhas, Se é
tarde me perdoa, de Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli, Um abraço no Bonfá, do próprio João, Meditação,
O pato, Corcovado, Discussão, do Tom e do Newton Mendonça, Amor Certinho, do Roberto Guimarães
e mais uma versão de Outra Vez.
No mesmo ano Tom Jobim e Vinícius de Moraes fizeram a SINFONIA DA ALVORADA, a pedido do
presidente Juscelino. Foi encomendada por Juscelino desde fevereiro de 1958, mas o trabalho da dupla
foi adiado por causa de protestos contra a construção de Brasília, originados principalmente nas áreas de
oposição ao governo.
Mais tarde, Juscelino reiterou o convite através do arquiteto Oscar Niemeyer, que transmitiu ao Vinícius
a vontade do presidente de ter a Sinfonia antes de 21 de abril de 1960, dia marcado para a mudança da
capital.

A convite de Juscelino, Tom e Vinícius passaram uma temporada em Brasília, para conhecer o local
onde a cidade estava sendo construída.

Mas, Brasília foi inaugurada sem a Sinfonia, e um espetáculo de luz e som planejado para 7 de
Setembro de 1960, quando a Sinfonia seria finalmente apresentada, também não aconteceu, por causa
dos altos custos apresentados pela empresa francesa Clemancón, que proveria o equipamento e a
tecnologia para o evento.

A Sinfonia da Alvorada foi apresentada em primeira audição em 1966, na TV Excelsior de São Paulo.
Uma segunda apresentação deu-se na Praça dos Três Poderes em Brasília em 1986, com regência de
Alceu Bocchino e Radamés Gnatalli ao piano. O texto de Vinícius foi falado por sua filha Susana de
Moraes e por Tom Jobim.

A Sinfonia é dividida em cinco partes:

I - O Planalto Deserto
II - O Homem

III - A Chegada dos Candangos


IV - O Trabalho e a Construção
V - Coral

Em 1961, Tom Jobim compôs a trilha sonora para o filme Porto das Caxias, de Paulo César Sarracena.
No filme têm a rara Valsa do Porto das Caxias e Derradeira Primavera, esta última em versão
instrumental com uma orquestra tocada por uma banda de circo.

Também em 1961, a cantora Maysa lança o sensacional disco BARQUINHO, as músicas do disco são: a
então novíssima O barquinho, Você e eu, Dois meninos, uma música rara de Roberto Menescal e
Ronaldo Boscoli, Recado à solidão, de Chico Feitosa, Depois do amor, de Normando e do Ronaldo
Boscoli, Só você, de Paulo Soledade, a biográfica Maysa, de Luís Eça e Ronaldo Boscoli, Errinho à toa,
Lágrima primeira, essas duas também da dupla, Roberto e Ronaldo, Eu e meu coração, de Antônio
Botelho, Cala meu amor, uma música rara da parceria de Tom com Vinícius e Melancolia, também de
Luís Eça e Ronaldo Boscoli.

Enquanto a Bossa Nova era muito criticada no Rio, onde ela nasceu, em São Paulo, a Bossa Nova foi
muito bem recebida, vários artistas apareciam na televisão e as músicas tocavam a exaustão no rádio.
De São Paulo, que já acolhera os exilados cariocas Johnny Alf, Claudette Soares e Alaíde Costa
lastrearam uma filial do movimento com trios instrumentais como o Zimbo, Sambalanço (de onde
sairiam Cesar Camargo Mariano e Airto Moreira), Jongo, Bossa Jazz, Manfredo Fest (pianista que
acabaria radicado nos EUA), o cantor Agostinho dos Santos, as cantoras Maysa, Elsa Laranjeira e Ana
Lúcia, a compositora Vera Brasil (Tema do Boneco de Palha), o violonista Paulinho Nogueira, os
compositores Walter Santos e Geraldo Vandré (que lançaria o protesto Menino das Laranjas do futuro
parceiro Théo de Barros) e o organista Walter Wanderley entre outros.
Nessa época alguns jovens inspirados, especialmente em João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto
Menescal, resolvem começar a cantar: como a paulista Wanda Sá e o compositor Marcos Valle.

Também em 1961, João Gilberto lança seu terceiro disco, com seu próprio nome. No disco JOÃO
GILBERTO tinha as músicas: a sensacional Samba da minha terra, de Dorival Caymmi, uma
interpretação maravilhosa de O barquinho, do Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli, Bolinha de papel,
de Geraldo Pereira, Saudade da Bahia, também de Caymmi, A primeira vez, de Marçal e Bide, Amor em
Paz, do Tom e do Vinícius, Você e eu, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, Trem de Ferro, de Lauro
Maia, Coisa mais linda, também do Carlos Lyra e do Vinícius, Presente de natal, de Nelcy Noronha,
Insensatez, do Tom e do Vinícius e Este seu olhar, só do Tom. Logo, a música O barquinho do
Menescal e do Ronaldo Boscoli, vira um grande clássico e uma das músicas que melhor representa o
espírito da Bossa Nova, que é de amor, praia, sol e verão. Ronaldo Boscoli e Roberto Menescal depois
fariam mais músicas maravilhosas como, por exemplo: Você, Rio e Nós e o Mar.


Helô Pinheiro

Em 1962, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sempre que podem, vão ao bar do Veloso em Ipanema
para tomar um chope. Entre uma bebida e outra passa a bela Heloísa Eneida Meneses Paes Pinto, que
mora na esquina da Rua Prudente de Moraes com a Montenegro - que muitos anos depois passaria a se
chamar Rua Vinícius de Moraes -, em pleno coração de Ipanema. Nessa esquina também fica o bar
Veloso, a essa altura uma espécie de escritório do Vinícius.

Helô, sempre que pode vestida de normalista (escola normal), gasta as tardes quentes de verão na praia.
Vinícius e Tom se acostumam a vê-la passar - e se encantam. Dizem gracinhas, assobiam, dizem
bobagens, como qualquer paquerador padrão. Mas - eis a grande diferença - sabem transformar aquele
encanto em arte. Algumas vezes, quando Helô passa em direção à praia, Vinícius, ao invés de dizer
bobagens, emudece. Um dia, numa introspeção mais empolada e abstrata, tenta defini-la para Tom:
"Você notou que quando ela passa o ar fica mais volátil? Eu acho que nem os egípcios, nem o próprio
Einsten saberiam explicar por que". Ali mesmo, na varanda do bar, entre uma piadinha boba e outra,
compõem o que depois viraria o maior clássico da Bossa Nova: Garota de Ipanema.

Em agosto de 1962, no restaurante Au Boné Gourmet, Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Rio,
acontece o show O Grande Encontro: com Tom, Vinícius, João Gilberto, e os Cariocas. No baixo,
Otávio Bailly, e na bateria, Milton Banana. Foi a primeira e única vez que Tom, Vinícius e João Gilberto
cantaram juntos. Nesse show estréiam algumas músicas que fariam grande sucesso como Samba do
Avião, do Tom, Só danço Samba e Garota de Ipanema, do Tom e do Vinícius.

Quando vão cantar Garota de Ipanema, o Tom fala:


"Eu e o Vinícius acabamos de compor um negócio aqui, que acho que vocês vão gostar".

A música tinha acabado de sair do forno e nem eles sabiam cantar direito, tanto que os três estavam com
um papel com a letra da música.
Nessa primeira vez que foi mostrada ao público, Garota de Ipanema ganhou uma introdução feita
especialmente para a ocasião:

João: "Tom e esse você fizesse agora uma canção, que possa nos dizer, contar o que é o amor?"

Tom: "Olha Joãozinho, eu não saberia, sem Vinícius para fazer a poesia"

Vinícius: "Para essa canção realizar, quem dera o João para cantar"
João: “Ah, mas quem sou eu? Eu sou mais vocês. Melhor se nós cantássemos os três”.

Os três: “Olha que coisa mais linda mais cheia de graça.."


O interessante que essa gravação foi roubada pelo cantor Pery Ribeiro, que gravou uma fita com os três
cantando e pegou a música para ele, tanto que ele foi o primeiro a gravar Garota de Ipanema.

Todas as músicas desse show histórico foram: Só danço samba, com Os Cariocas, Samba de uma nota
só, com Tom Jobim e Os Cariocas, Corcovado, com João Gilberto e Os Cariocas, Samba da benção,
com Vinícius de Moraes, Amor em paz, com João Gilberto e Os Cariocas, Bossa Nova e Bossa Velha, do
Miguel Gustavo, com Os Cariocas, Samba do avião, com Tom Jobim e Os Cariocas, O astronauta, com
Vinícius de Moraes e Os Cariocas, Samba da minha terra, com João Gilberto, Insensatez, com João
Gilberto, Garota de Ipanema, com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, acompanhada com
Devagar com a louça, de Haroldo Barbosa, com Os Cariocas, Só danço samba, com João Gilberto e Os
Cariocas, e no final um pout-pourri com Garota de Ipanema, Só danço samba e Se todos fossem iguais
a você, com Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes e Os Cariocas.
Logo a Garota de Ipanema seria um tremendo sucesso, mas ainda Helô não sabe que é a musa
inspiradora da música.
Pouco depois, Helô se encontra com o Tom na praia. Tom é um rapaz bonitão a quem, a essa altura, o
sucesso já livrou de qualquer resquício de timidez. Ele se aproxima de Helô e, sem medir as palavras,
diz: "Tenho uma paixão platônica por você. Você não quer casar comigo?”. A moça se espanta, mas não
perde a pose. "Você está brincando", diz. "Você é um homem casado e eu ainda sou virgem”. Tom de
fato, está casado com Teresa Hermanny. Freqüentadores do Veloso já tentaram convencê-la, sem
sucesso, de que Garota de Ipanema foi feita em sua homenagem. Tom se aproveita: "Mas você não
gostou da música?". Helô continua impassível: "Isso são coisas que vocês espalham por aí. A música
não tem o meu nome. Você está louco". Tom Jobim vendo que perde o controle sobre uma situação que
lhe parecia fácil, se exalta: "Mas eu juro, ela foi feita pra você. Fui eu quem fez e sou eu quem está
dizendo!". Helô vira as costas, não sem antes enfatizar: "Isso é uma boa duma mentira. Eu não
acredito".

Na mesma época, Ronaldo Boscoli é encarregado de fazer uma reportagem de capa para a revista Fatos
& Fotos, revelando a verdadeira identidade da Garota de Ipanema. Vinícius e Tom se aborrecem.
Acham que é cedo demais para a revelação. E que, no momento adequado, a tarefa deveria caber a eles.
A reportagem é publicada. O poeta chega a procurar Ronaldo para reclamar: "Como é que você divulga
na nossa frente?" Ronaldo lhe responde o óbvio: "Eu fui mais esperto" Vinícius não tem como contestá-
lo.

Um dia, Boscoli, mais afoito e mais galanteador, decide abordar Helô na rua. Garota de Ipanema já toca
no rádio, mas ela ainda não consegue acreditar que seja, realmente, sua musa inspiradora. Boscoli lhe dá
a notícia. É amigo íntimo de Tom e Vinícius, não pode estar mentindo. Ela agora é obrigada a acreditar.
Sua vida, desde então, muda. Torna-se o paradigma internacional da mulher carioca. Por meio dela,
Ipanema se projeta, em definitivo, no exterior. Transforma-se, numa palavra mágica aos ouvidos dos
estrangeiros. Quase um sinônimo, moderno, de Brasil.
Helô, na verdade, é uma moça comum. Aos quinze anos, começa a namorar firme o estudante de
engenharia metalúrgica Fernando Abel Mendes Pinheiro, que depois será seu marido. Torna-se, então,
Helô Pinheiro.

Em 1965, o poeta Vinícius de Moraes fala:

"Revelação: a verdadeira Garota de Ipanema."

"Seu nome é Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto,


mas todos a chamam de Helô. Há três anos atrás
ela passava, ali no cruzamento de Montenegro e
Prudente de Morais, em demanda da praia, e nós
a achávamos demais. Do nosso posto de observação,
no Veloso, enxugando a nossa cervejinha,
Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa.
O ar ficava mais volátil como para facilitar-lhe o divino
balanço do andar. E lá ia ela toda linda, a garota
de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria
espacial do seu balanceio quase samba, e cuja fórmula
teria escapado ao próprio Einstein; seria preciso
um Antônio Carlos Jobim para pedir ao piano, em grande
e religiosa intimidade, a revelação do seu segredo.
Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do
mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros. Ela foi
e é para nós
o paradigma do bruto carioca; a moça dourada,
misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça
mas cuja a visão é também triste,
pois carrega consigo, a caminho do mar, o sentimento da
que passa, da beleza que não é só nossa
- é um dom da vida em seu lindo e melancólico
fluir e refluir constante

No mesmo ano, durante um show de Tom e Vinícius no Clube Leblon, o poeta, ao notar a presença de
Helô na platéia, fala ao microfone: "Vamos tocar Garota de Ipanema, mas não vamos encostar-se a ela,
porque o namorado está aí e ele é um tremendo de um armário". Helô se casa no ano seguinte. Tom e
Vinícius recebem os convites para a cerimônia. O poeta está em Cannes e, sem qualquer
constrangimento, despacha um telegrama dizendo: "Estarei mais algum tempo na França. Sugiro
adiamento do casamento”. Tom aceita o convite para ser o padrinho.

Helô Pinheiro nunca mais deixará de ser a Garota de Ipanema. Torna-se garota-propaganda, participa
como atriz - de talento duvidoso - em novelas da TV Globo e da TV Bandeirantes, transforma-se em
apresentadora de programa de variedades.

Em 1987, ela posa nua para a revista Playboy, e o Tom escreve o texto que diz assim:

Heloísa minha brisa


minha eterna inspiração
Quando vejo Helô Pinheiro
tomo logo a extrema-unção.
Vou correndo pro banheiro
vou botar o meu calção
e lá ajoelho e rezo
tomo leite com farelo
pra baixar a hipertensão.

Vou ungir minha cabeça


neste improvisado templo
Maria! Meu saco de gelo!
Minha pipa, meu barbante
meu papel fino avoante
quero escrever A Canção!
É canção pro mundo inteiro
vai render muito dinheiro
é canção universal
que canta a Helô Pinheiro

Casamos no carnaval.
Maria! A roupa de cama!
Troque o lençol, quero fronha
do mais branco puro linho
mande comprar a PLAYBOY
e uma garrafa de vinho
PLAYBOY é que é revista!
É nudez inteligente
Ainda mais com Heloísa
faz bem à alma da gente.

Oh, minha eterna Heloísa


sou teu constante Abelardo
tu és a musa perfeita
e eu teu constante bardo.
Venha depressa Heloisinha
quem te chama é Tom Jobim
te espero na mesma esquina
já comprei o amendoim,

Os shows de Bossa Nova começaram no âmbito universitário (foi o primeiro movimento musical
brasileiro a sair das faculdades) e agregaram inúmeros outros inovadores. Com isso surgiram nomes
como Durval Ferreira (Sambop, Batida Diferente) à precursora Silvia Telles, Leny Andrade, Wilson
Simonal, Baden Powell, que mudaria a Bossa Nova incorporando ritmos africanos e as primeiras
formações instrumentais da nova tendência lideradas por gente como Oscar Castro Neves (e seus irmãos
músicos), Sérgio Mendes, Luis Carlos Vinhas, J.T. Meirelles, além do instrumental/vocal Tamba Trio
(Luis Eça, Bebeto, Hélcio Milito) que ao lado do Bossa 3 (Vinhas, Tião Netto, Edison Machado) daria
início a uma febre de conjuntos de piano, baixo e bateria. Foi um momento de efervescência
instrumental com o aparecimento de músicos novos como Paulo Moura, Tenório Júnior, Dom Um
Romão, Milton Banana, Edson Maciel, Raul de Souza e a ascensão de maestros e arranjadores como
Eumir Deodato e Moacir Santos.

O movimento concentraria novas forças em pocket shows nos minúsculos bares do chamado Beco das
Garrafas (nomeado a partir dos projéteis atirados pelos vizinhos contra o barulho) em Copacabana.
Nessa época o compositor Marcos Valle ao lado do irmão Paulo Sérgio compõe a clássica Samba de
Verão, outra música que representa bem o espírito da Bossa Nova.

Também em 1962, Vinícius de Moraes começa a compor com o violonista Baden Powell. O novo
parceiro o põe em contato com os ritmos baianos, a influência africana e os ritmos baianos, a influência
africana e os ritos do candomblé. Surgiram músicas como Berimbau e o Canto de Ossanha. Baden
defronta o poeta com uma cultura mais primitiva, um universo encantado em tudo diferente daquela
cultura de classe média em que a Bossa Nova floresceu. A parceria é inaugurada com quatro sambas,
feitos por encomenda da cantora Angela Maria. O mais famoso deles é o Samba da Benção.
Certa vez atravessam a madrugada compondo um samba. Ao amanhecer, diante de três garrafas de
uísque vazias e da partitura pronta do Samba em Prelúdio, Baden diz constrangido: "Não sei, não,
parceiro, mas acho que plagiamos Chopin". Para resolver a dúvida, o poeta decide acordar a sua mulher
Nelita, que dorme no quarto ao lado. Convicta, afirma: "Não, não é Chopin". Volta a dormir. Vinícius,
visivelmente aliviado, retorna à sala e anuncia ao parceiro: "Não, não é dele. Mas se ele não compôs, é
porque esqueceu de fazer".
Em 1963, o produtor Aloisio Oliveira funda a gravadora Elenco, que conhecia todos os principais
personagens da bossa nova e já havia trabalhado nas gravadoras Odeon e Philips. O conceito gráfico das
capas, desenvolvido pelo designer Cesar Villela com o fotógrafo Chico Pereira, foi algo totalmente
inovador para a época e gerou inúmeros imitadores, além de ter sido uma estética que ficou
profundamente ligada à bossa nova.

No mesmo ano, Marcos Valle lança seu primeiro disco: o espetacular SAMBA DEMAIS. As músicas
desse disco são: Vivo sonhando, do Tom, Amor de nada, dele, com seu irmão Paulo Sérgio Valle, Moça
flor, do Lula Freire e Durval Ferreira, Canção pequenina, do Pingarrillo, Razão do amor, Tudo de você,
Sonho de Maria, as três do Marcos, com seu irmão, Ela é carioca, Ilusão a toa, de Johnny Alf, Ainda
mais lindo, E vem o sol, as duas do Marcos, com seu irmão e A morte de um deus do sal, rara música de
Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli.

3 - A Bossa Nova conquista os EUA


Desde 1960, por causa do filme Orfeu do carnaval, a Bossa Nova chegou aos EUA. O filme acabaria
ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e Luis Bonfá e o cantor Agostinho dos Santos
começaram a ficar conhecidos em solo americano.

Mas o primeiro músico da Bossa Nova a ficar conhecido nos EUA foi João Donato que em 59, já que
ninguém mais queria saber de chamá-lo para nada, passou a ter dificuldades até para tocar de graça. À
medida que evoluía como instrumentista e arranjador, ampliava sua fama de maluco e irresponsável.
Faltas, atrasos e excesso de aditivos acabaram tornando-o persona non grata nas casas de show do Rio
de Janeiro.
Sem emprego, se mandou para os Estados Unidos a convite do músico Nanai, que o chamou para uma
temporada.

Acabou ficando treze anos. Sua estadia na Califórnia marca o início de uma pequena revolução
jazzística da qual ele foi participante ativo. Donato simplesmente conseguiu o que nunca pode fazer no
Brasil: reincorporar a musicalidade afro-cubana ao jazz. Adotado por "cobras" do gênero latino como os
cubanos Tito Puente, Mongo Santamaria e Johny Rodrigues e os americanos Herbbie Mann e Eddie
Palmieri, João Donato abriu caminho para que, mais tarde, João Gilberto e Tom Jobim fizessem o
enorme sucesso que até hoje perdura no exterior.

No início dos anos 60 músicos americanos do porte de Ella Fitzsgerald e Herbbie Mann em visita ao
Rio de Janeiro conheceram a Bossa Nova e logo começaram a divulgá-la nos EUA.

Em 1962, durante o show no Au Bom Gormet, envolvendo Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João
Gilberto e Os Cariocas, aparece um disc jockey de Washington chamado Felix Grant, naquela noite ele
veio falar com o produtor Aloiso Oliveira e perguntou onde se poderiam encontrar os discos das
músicas apresentadas no show. Aloiso lhe disse que aquelas músicas eram inéditas e ainda não haviam
sido gravadas, mas que ele poderia adquirir outros discos de Bossa Nova, que já se encontravam à
venda. Depois disso ele comprou os discos que pode encontrar e voltou para Washington. Lá, iniciou
uma divulgação intensa, por intermédio de seu programa, da Bossa Nova.

Passaram por lá músicos como Stan Getz e Charlie Byrd, que imediatamente se interessaram pelo novo
estilo que vinha do Brasil, no mesmo ano lançaram o disco que tinha uma versão instrumental de
Desafinado, foi um tremendo sucesso e os dois venderam 1 milhão de cópias pelo disco.
No dia 22 de novembro de 1962, foi feito o show inaugural da Bossa Nova nos EUA, e o lugar não
podia ter sido mais bem escolhido: o Carnegie Hall, em Nova York.
Quem produziu o show foi o empresário Sydney Fry, na verdade o show foi apenas um pretexto para
passar na televisão e vender o disco do show. O show foi uma verdadeira bagunça, todo mundo entrou,
os cantores sérios da Bossa Nova, e muita gente que não tinham nada ver com aquilo, por exemplo, a
Carmem Costa que entrou com duas maracas, o Caetano Zamataro fazendo passo de escola de samba, e
uns caras fazendo batucadinhas atrás. Teve até o músico americano Claude Bernie cantando "I wanna
samba, I wanna samba, go, go, go,". Foi uma verdadeira zona. O compositor Carlos Lyra perguntou ao
Sidney se uma imensa fila que estava atrás era de gente que queria ver o show e o Sidney falou que era
para cantar. Com isso, o Carlos Lyra ficou aborrecido com aquela bagunça toda e não queria mais
cantar, e chamou o Tom para eles irem embora. E disse: "Tom, a gente tem de sair fora desse negócio,
vamos eu, você, João Gilberto, o Bonfá, o pessoal que veio aqui fazer as coisas direito, vamos embora
daqui, não vamos fazer esse show não". E o Tom disse: "Carlinhos, você assinou aquele contrato do
Sidney Fry?" Ele disse que sim, e o Tom falou: "Pois é, aqui não se pode fazer isso não, assinar um
papel e ir embora, porque aqui tem cadeira elétrica!"

Apesar disso tudo, o show teve João Gilberto, Carlos Lyra, Tom Jobim, Roberto Menescal, Sérgio
Mendes, Luis Bonfá e Agostinho dos Santos, sendo que esses dois últimos foram os mais aplaudidos,
pois já eram celebridades nos EUA. A grande ausência foi João Donato, porque só o convidaram na
véspera. Ele disse: "Perá aí. Aqui não é a casa da mãe Joana. Se me avisassem com uma semana de
antecedência”. O João Gilberto ligou pra ele e disse para ele ir para o aeroporto que tinha uma passagem
esperando. Não deu. E eles pensaram muito antes de fazer o show em Nova York. Como ele não estava
incluído, não foi. Eles podiam ter lembrado. Faltaram inclui-lo na lista mesmo. Entrou o lado político
também. Segundo alguns, ele não deveria ter recusado o convite, deveria ter largado tudo e
comparecido.

O disco do show se chamou BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL e as músicas eram Samba de uma
nota só, instrumental com Sérgio Mendes, Bossa Nova York, com o Bola Sete, a Carmem Costa e José
Paulo, Zelão, cantada por Sérgio Ricardo, o autor da música, Não faz assim, do Oscar Castro Neves,
interpretada pelo seu quarteto, Influência do Jazz, com o Carlos Lyra, que foi uma música de protesto,
feita porque a Bossa Nova estava ficando cada vez mais parecida com o Jazz, Manhã de Carnaval,
tendo uma raridade: Luís Bonfá cantando, depois teve outra vez Manhã de Carnaval, agora cantada
pelo Agostinho dos Santos, com Luís Bonfá no violão e o quarteto do Oscar Castro Neves, foi a mais
aplaudida de todas, A Felicidade, também cantada pelo Agostinho dos Santos, com Luis Bonfá no
violão e o quarteto do Oscar Castro Neves, Outra Vez, com João Gilberto cantando e o Tom Jobim e o
Milton Banana no piano, também foi muito aplaudida, outra versão de Influência do Jazz, também
cantada pelo Carlos Lyra, mas com a companhia do quarteto do Oscar Castro Neves, outra versão de
Bossa Nova York, com o quarteto do Oscar Castro Neves junto com Caetano Zama, o autor da música,
depois, Roberto Menescal, estreando como cantor, cantando a sua música O Barquinho e no final mais
duas músicas interpretadas pelo quarteto do Oscar Castro Neves: Amor no Samba e Passarinho.

Apesar do show de uma maneira ter sido um fracasso, logo a Bossa Nova começa a virar febre nos
EUA, contrapondo ao Rock. Os americanos a princípio não entendem o novo ritmo, mas começam a
adorá-lo como se fosse a salvação do Jazz, que estava vivendo uma enorme crise, principalmente por
causa do Rock, que tinha conquistado vários jovens. Era o fim de uma era, de Chet Backer, Cole Porter
e Gershiwn, por coincidência foram alguns nomes que a Bossa Nova teve influência. A Bossa Nova
veio para competir com o Rock, mesmo não sendo um ritmo dançante como o Rock, muitos americanos
tentaram dançar com Bossa Nova, especialmente num tom bem jazzístico do quarteto de Oscar Castro
Neves. A Bossa Nova acabou indo para a Brodway, onde foi apresentada pelo nome de "New Beat", o
Novo Som.
A Bossa Nova passou a ser o símbolo do governo do presidente João Kennedy, sendo que sua mulher
Jaqueline Kennedy, adorou o novo estilo vindo do Brasil, a música preferida de Jackie era Maria
ninguém, do Carlos Lyra, a qual a chamava de Maria nobody. Logo grandes músicos de Jazz como
Gerry Mullingan e Henri Mancini se apaixonaram pela Bossa Nova e passaram a tocá-la nos seus discos
e shows.

Também no ano de 1962, o grande Herbie Mann grava no Rio de Janeiro o disco BOSSA NOVA COM
HERBIE MANN, onde ele, ao lado de grandes nomes da Bossa Nova interpreta várias músicas como:
Deve ser amor, do Baden Powell e do Vinícius de Moraes, com o Baden no violão, Menina Feia, do
Oscar Castro Neves e do Luverci Fiorini, toca com o Bossa Rio, o grupo instrumental de Sérgio
Mendes, Amor em Paz, do Tom Jobim e do Vinícius de Moraes, com o Tom no piano, Você e Eu, do
Carlos Lyra e do Vinícius de Moraes, com a participação do trio do pianista Luiz Carlos Vinhas, One
Note Samba, a versão em inglês de Samba de uma nota só, com o Tom cantando pela primeira vez em
um disco, Blues Walk, do Clifford Brown, também ao lado do Bossa Rio, Consolação, do Baden Powell
e Vinícius de Moraes, também com o Baden no violão e Bossa Velha, do próprio Herbie Mann, ele é
acompanhado por uma escola de samba.
Em 1963, Tom procurou um agente em Nova York e reclamou com ele da má qualidade das versões
americanas de suas músicas. "Como é que o Frank Sinatra vai gravar minhas músicas com essas
letras?", ponderou Tom. "E quem é que disse que o Frank Sinatra vai gravar suas músicas", replicou o
agente, com um debochado sorriso nos lábios.
Em 1963, aconteceria um disco histórico, lá nos EUA, Tom Jobim faz o disco THE COMPOSER OF
DESAFINADO PLAYS, que tinha só de músicas instrumentais, com grandes clássicos do Tom, com o
próprio ao piano. As músicas do disco eram: a primeira versão de Garota de Ipanema nos EUA, Amor
em Paz, Água de Beber, do Tom e do Vinícius, Vivo Sonhando, só do Tom, O morro não tem vez e
Insensatez, do Tom e do Vinícius, Corcovado, só do Tom, Samba de uma nota só, Meditação, Só danço
Samba, também com o Vinícius, Chega de Saudade e no final Desafinado. Foi o primeiro disco solo do
Tom Jobim.
O disco acabaria virando uma peça valiosa, ganhando o Grammy de melhor álbum em 1964, sendo o
primeiro Grammy do Tom. Um crítico americano quando ouviu o disco lamentou que só podia dar no
máximo 5 estrelas, pois o disco merecia mais. E até falou que se a Bossa Nova acabasse naquele
momento já seria lembrada para sempre por causa desse disco.

Em 1964, um encontro memorável: João Gilberto e o saxofonista Stan Getz. Os dois acabaram virando
parceiros de um disco que ficaria para a história da música mundial: GETZ / GILBERTO, o disco teria
participação da mulher do João Gilberto, Astrud e do Tom Jobim, no piano. No disco tinha as músicas
Garota de Ipanema, cantada pela primeira vez em inglês, com a mulher Astrud, Doralice, de Dorival
Caymmi, Para machucar meu coração, de Ary Barroso, a mais famosa gravação de Desafinado,
Corcovado, também cantada em inglês, pela Astrud, Só danço samba, O grande amor, do Tom e do
Vinícius e Vivo Sonhando. Para se ter uma idéia do que foi esse disco ele vendeu mais de 1 milhão de
cópias nos EUA e ganhou quatro Grammys, inclusive de melhor álbum e de melhor música com Garota
de Ipanema, sendo que essa música acabou virando quase um hino do estilo de vida americano da
década de 60, virando depois a música brasileira mais famosa no exterior. Com Garota de Ipanema,
todos os americanos passaram a sonhar com uma praia paradisíaca e muita mulher bonita, virou o
principal símbolo do Brasil.

Mas nesse disco teve uma história interessante que Nornan Gimbell, que fez a letra em inglês da Garota
de Ipanema, não queria deixar o nome Ipanema, pois pra ele e pros americanos Ipanema não sigificava
nada e Tom tentava mudá-lo de idéia. Um dia os dois estavam no táxi em Nova York discutindo e o
motorista falou pro Tom: “Senhor, seu amigo tem razão. Quem já ouviu falar nessa tal de Ipanema?” O
Tom continuava irredutível falando que o título tinha que ser The girl from Ipanema de qualquer jeito,
de tanto instistir Gimbel aceitou. Tom estava certo se os americanos não sabiam onde ficava Ipanema,
logo eles saberiam.

O resto todo mundo já conhece, a música explodiu e o mundo inteiro soube onde ficava Ipanema, mas
Tom nunca perdou Norman Gimbel, quando o apresentava a alguns músicos brasileiros o chamava de
Norman Bengell, um trocadilho com a atriz e cantora Norma Bengell.

Mas a versão de inglês de Garota de Ipanema e de outras tantas do Tom Jobim, ficou bem inferior ao
original, Tom sempre reclamou diso, tanto que anos depois cansado resolveu estudar mais a língua
inglesa e fez suas próprias versões em inglês. Mesmo sendo inferiores ao original, as letras em inglês de
músicas do Tom logo se tornaram um enorme sucesso entre os americanos, sendo regravadas por muitos
cantores e cantoras.
Com o sucesso da Bossa Nova nos EUA, muitos músicos brasileiros passaram a ir para lá, como J. T.
Meirelles, que em 1964, lança o disco O SOM, ao lado dos Copa 5, que seria considerado o surgimento
do Samba-Jazz e faria um enorme sucesso nos EUA, as músicas do disco são: a expetacular
Quintessência, Solitude, Blue Bottle's, Nordeste, Contemplação, Tânia, O novo som, Solo e Serelepe,
também foi Sérgio Mendes, com um grupo que tinha Wanda Sá e Rosinha de Valença, também foi
Walter Wanderley, que também faria um enorme sucesso nos EUA, com a versão instrumental de
Samba de Verão. Além de nomes como Oscar Castro Neves, Eumir Deodato e Moacir Santos.
Em 1965, João Gilberto e Stan Getz lançam outro disco agora ao vivo no Carnegie Hall: GETZ /
GILBERTO N.º 2, o disco começava com várias músicas americanas interpretadas por Stan Getz, sendo
elas: Grandfather's waltz, Tonight I shall sleep with a smile on my face, Stan's blues e Here's that rainy
day, e depois só música brasileira, interpretada pelo João Gilberto: Samba da Minha Terra e Rosa
Morena, do Caymmi, Um abraço no Bonfá e Bim-Bom, do próprio João, Meditação e o Pato. O disco
seria mais um grande sucesso e ganharia dois Grammys, fazendo que João Gilberto virasse disparado o
músico brasileiro que mais ganhou Grammys. Apesar de ter sido uma parceria maravilhosa e feito um
enorme sucesso, João Gilberto e Stan Getz se odiavam. Já que João Gilberto não sabia falar inglês, Tom
Jobim acabou virando o intérprete. Uma vez, João Gilberto estava muito nervoso e falou pro Tom: "Fala
pra esse gringo safado que ele é um filho da p., vagabundo", Stan Getz perguntou ao Tom o que o João
tinha falado e o Tom, por não ser bobo falou: "Ele está falando que é uma grande honra está aqui com
você", aí Stan Getz falou para o Tom: "Não é isso que está parecendo." Tanto se odiavam, que alguns
anos depois Stan Getz acabaria tomando de João Gilberto a sua mulher Astrud Gilberto.

Também em 1965, Tom Jobim faria mais um disco maravilhoso: THE WONDERFUL WORLD OF
ANTÔNIO CARLOS JOBIM, com a participação da orquestra de Nelson Riddle, no disco tinham as
músicas: uma belíssima versão de Ela é Carioca, Água de Beber, a fenomenal Surfboard, uma música
instrumental, só do Tom, Inútil Paisagem e Só tinha de ser com Você, do Tom e do Aloisio Oliveira, A
Felicidade, uma rara versão com o Tom Jobim cantando, Bonita, uma música em inglês feita em
parceria com Ray Gilbert, Favela, feita com o Vinícius, Valsa do Porto das Caxias, só do Tom, a
belíssima gravação de Samba do Avião, só do Tom, uma verdadeira declaração de amor ao Rio de
Janeiro, Por toda minha Vida, do Tom e do Vinícius e a bela Dindi, do Tom e do Aloisio de Oliveira.

No mesmo ano sai o disco BRAZILIAN MANCINI, de Jack Wilson, um pianista americano. O disco
tinha a participação de um tal violonista chamado Tony Brazil, que muitos anos depois descobririam
que esse violonista, não era ninguém menos do que Tom Jobim. Tom logo que chegou nos EUA teve um
sério problema, pois os americanos tinham a imagem de brasileiro do "latin lover", o amante latino, e
esse amante latino tinha que tocar violão. E ele foi obrigado a tocar violão, embora o violão estivesse
longe de ser o seu primeiro instrumento. O disco era uma homenagem ao grande Henri Mancini, nele
além de Tom, tem participação de Tião Neto e Chico Batera. Foi Tião que o chamou, mas Tom deixou
claro que não poderia usar seu nome. O pseudônimo Tony Brazil foi uma idéia do próprio Tião Neto. O
disco apesar de só ter músicas do Mancini tem um estilo bem Bossa Nova. As músicas desse raro disco
são: Blue Satin, Days of wine and roses, Sally`s tomato, Sofly, Lujon, Mr. Lucky, Breakfas at Tiffany`s,
Dear Heart e Night Flower. Não é um disco de interesse apenas histórico. É também um belo disco.
Wilson, então com 29 anos, era um pianista respeitado na Costa Oeste americana e impressionou o
próprio Tom por sua técnica. Praticamente não há solos de Tom, mas sente-se a leveza de seu dedo em
vários arranjos.
Em 1966, outro disco que ficou para história: HERP ALBERT PRESENT SERGIO MENDES &
BRAZIL' 66, no qual o músico americano convida o pianista brasileiro Sérgio Mendes, recém chegado
do Brasil, e seu grupo que formou nos EUA: o Brazil'66. Nesse grupo tinha uma banda de cinco pessoas
com duas mulheres que cantavam tanto em português, como em inglês. As vocalistas eram Lani Hall,
esposa de Alpert, e Jais Hansen, as duas americanas. Sérgio Mendes e o Brazil'66 ficaram famosos por
misturar Bossa Nova, Jazz, Rock e ritmos latinos, numa clara influência de João Donato, que já fazia
isso desde antes de ir para os EUA, eles criaram o que se chamou de "Bossa Pop".

No disco tinha as músicas Samba de uma nota só, The joker, Going out of my head, essas duas últimas
são músicas americanas, Tim Dom Dom, do Coda e do João Mello, Daytripper, dos Beatles, Água de
Beber, em inglês, Slow Hot wind, do Henri Mancini, O Pato, a versão em inglês de Berimbau, do Baden
Powell e do Vinícius, e a que seria a grande responsável pelo sucesso do disco: Mas que Nada, de Jorge
Ben, logo essa música se tornaria um grande clássico nos EUA, faz com que o disco venda mais de 1
milhão de cópias, faz com que depois Sérgio Mendes vire o músico brasileiro que mais vendeu discos
no exterior e vira um ícone dos recéns criados Funk e Hip Hop, feitos respectivamente por James
Brown e Miles Davis, muito influenciados por Sérgio Mendes, João Donato (que até hoje, para muitos
americanos é considerado um dos pais do Funk) e do Moacir Santos, que também vai para os EUA,
onde grava a sua fenomenal Coisa n.º 5, do seu disco COISAS, que seria rebatizada de Nanã, que
depois viraria um hino da música negra americana.

Com isso Sérgio Mendes vira um dos mais cultuados músicos brasileiros nos EUA, sendo, talvez, o
principal responsável pelo fim dos Beatles, o mais famoso grupo de Rock de todos os tempos, em 1970.
Tanto foi o prestígio de Sérgio Mendes, que em 1984 foi convidado a fazer o tema de abertura das
Olimpíadas de Los Angeles, cidade onde se adotou nos EUA. Faria também a trilha sonora de um filme
americano sobre a vida de Pelé, sendo que em algumas músicas teve parceria do próprio Pelé. Sérgio
Mendes acaba virando ao lado do Tom Jobim o "rei da música tocada em elevador". Além desse disco,
Sergio Mendes também gravou vários outros nos EUA, como LOOK AROUND, que tem músicas como
The frog, do João Donato e With a little help from my friends, dos Beatles.
Frank Sinatra e Tom Jobim

Em 1967, Tom Jobim faria mais três discos que ficariam para sempre na memória dos americanos. O
primeiro é WAVE, onde Tom faz só com músicas instrumentais, no disco tinham a belíssima Wave, que
segundo Henri Mancini é a música brasileira mais jazzística de todas e a sua música preferida, The Red
Blose, Look to the Sky, Batidinha, Triste, Mojave, Dialógo, Lamento, Antígua e o mais Samba-Jazz do
disco: Captain Bacardi. Logo Wave faria um tremendo sucesso e ganharia letra feita pelo próprio Tom,
Triste e Lamento, também ganhariam letra, Triste, também do Tom e Lamento, do Vinícius.
O disco que mais faria sucesso do Tom no ano foi FRANCIS ALBERT SINATRA E ANTONIO
CARLOS JOBIM. Quem acabou marcando um encontro foi o próprio Frank Sinatra, que estava
começando a entrar em decadência, especialmente por causa do grande sucesso do Rock, liga para o
Tom, que está no bar do Veloso, quando recebe a notícia, que Frank Sinatra queria gravar um disco com
ele, no princípio não acredita, mas quando Sinatra fala isso para ele, Tom embarca logo para os EUA.
Em janeiro de 1967 hospedou-se no Sunset Marquis de Los Angeles para dar início ao trabalho, afinal
adiado porque Sinatra refugiara-se em Barbados para esquecer mais uma desavença conjugal com Mia
Farrow. Enquanto esperava, repassou todos os arranjos com Ogerman, compôs mais duas músicas
(“Wave” e “Triste”) e quase morreu de tédio.

Enquanto esperava um sinal de Sinatra, Tom escreveu várias cartas a Vinícius. Numa delas autodefiniu-
se como "um infeliz paralisado num quarto de hotel, esperando o chamado para a gravação, naquela
astenia física que precede os grandes acontecimentos, vendo televisão sem parar e cheio de barrigose".
E assinava: "Astênio Claustro Fobim".

Foi um disco histórico, envolvendo o maior cantor e o maior compositor do século XX. Frank Sinatra,
que acompanha o sucesso da Bossa Nova nos EUA, vê em Tom Jobim a salvação para sua gloriosa
carreira que estava em decadência, já Tom vê com isso que terá para sempre seu nome registrado entre
os maiores da música mundial. Frank Sinatra fala para o Tom que ele só gravaria as músicas que ele
conhecia, pois odiava gravar. A primeira música que os dois gravam juntos é Dindi, e Frank fala: "Mas
que música linda!". As músicas do disco além de Dindi são: Change Partners, do Irving Berlin, Quiet
nigths of quiet stars (Corcovado), Meditation (Meditação), If you never come to me (Inútil Paisagem),
How Insensitive (Insensatez), I concentrate on you, de Cole Porter, Baubles, bangles and beads, de
Wright e Forrest, Once I Loved ( O amor em Paz) e a mais famosa gravação de The Girl from Ipanema
(Garota de Ipanema). No disco Tom é obrigado a tocar violão para preservar a imagem de "latin lover".
Com essa gravação, Garota de Ipanema fica de vez na história da música mundial e a Bossa Nova passa
a ser eterna. Muitos consideram esse disco como o melhor disco do mundo no século XX, e não é pra
menos, em 1968, acaba ganhando o Grammy de melhor álbum, tirando o prêmio de Sargent`s People
Lonely Hearth, considerado o melhor álbum que os Beatles fizeram.

Logo Tom Jobim e Frank Sinatra acabam virando amigos, provocando um grande ciúme em Vinícius de
Moraes, que está cada vez mais junto de outros parceiros como Carlos Lyra e Baden Powell.
Também em 1967, Tom faz o disco A CERTAIN MR. JOBIM, as músicas do disco são: Once again
(Outra vez), I was just one more for you (Esperança perdida), Estrada do Sol, Don't ever go away (Por
causa de você) , Zingaro, Bonita, Se todos fossem iguais a você, Off key ( Desafinado), Photografh
(Fotografia) e Surfboard.

Em 1968, Marcos Valle lança nos EUA, maravilhoso disco Samba’68. Esse lp têm vários sucessos do
Marcos, traduzidos para o inglês, como: The answer, Cricket sings from Anamaria (Os grilos), Summer
Samba (Samba de Verão), Chup chup I got away, If you went away, Pepino Beach, She told me, she told
me, It's time to sing, Batucada (Batucada surgiu), The face I love e Safely in your arms. Realmente é um
disco expetacular, um dos melhores que o Marcos Valle fez em todos os tempos. Logo Summer samba
vira um clássico mundial, sendo gravada até pelo Frank Sinatra.

Em 1969, surge mais um disco memorável: DONATO DEODATO, envolvendo João Donato e Eumir
Deodato, até hoje esse disco é procurado pelos americanos fãs de Funk, Rap e Hip Hop. Esse disco só
tem músicas dos dois, que nessa época já eram adorados nos EUA. As músicas do disco são: Whistle
stop, Where's J.D.?, Capricorn, Nightripper, You can go e a extraordinária música Batuque.

Em 1970, Tom Jobim grava mais um de seus espetaculares discos: STONE FLOWER, com arranjos de
Eumir Deodato, as músicas do disco são: Tereza my love, uma homenagem a sua mulher, Chilldren's
Games, que depois ganharia letra e se transformaria na clássica Chovendo na Roseira, uma das
melhores músicas que o Tom já fez, Choro, uma homenagem ao Garoto, Brazil (uma versão de
Aquarela do Brasil), com Tom tocando um piano elétrico, o maracatu sensacional de Stone flower,
Amparo, que depois ganharia letra e se transformaria na clássica Olha Maria, God and the Devil in the
Land of the Sun , outra música com maracatu e a lindíssima canção Sabiá, feita com Chico Buarque.

Também em 1970, nos EUA sai o belíssimo disco A BAD DONATO, do João Donato, também com
arranjos do Eumir Deodato. O disco também é cultuado mundo afora por simbolizar bem essa mistura
de bossa nova, jazz, música latina, funk, psicodelia e o então novato hip hop, além de já ter algumas
músicas com toque eletrônico (!). O disco é todo instrumental e só uma faixa não é inédita. O João
Donato mau (ou maldito) – com cara de traficante colombiano, como aparece na capa do disco serviu
primeiro para assustar aos que estavam acostumados ao seu estilo. Saía Donato de estilo suingado, com
piano bossa nova temperado com calientes ritmos do Caribe, e entrava o Donato elétrico, influenciado
pelo jazz-rock, por Jimi Hendrix e por James Brown. Em 1970, João Donato decidiu gravar em Los
Angeles um disco em que fizesse uma fusão de MPB com jazz, funk rock e eletrônica. Quando entrou
nos estúdios, Donato já tinha idéias mais claras. Pretendia usar instrumentos em dupla (duas guitarras,
dois trompetes, dois pianos, dois trombones, duas baterias...) e sabia também com quem queria cercar-
se: músicos americanos com quem ele já trabalhara (o saxofonista Ernie Watts, o flautista Bud Shank, o
trompetista Jimmy Zito, o clarinetista Don Meza) e velhos parceiros do tempo da bossa nova, como o
baterista Dom Um Romão e o violonista Oscar Castro Neves. Quando já estava no estúdio, Donato
recebeu telefonema de Eumir Deodato que, entusiasmado com o que ouviu se ofereceu para fazer os
arranjos. Foi aceito. Muitos músicos convocados por Donato integraram a orquestra de Stan Kenton, o
que de certa forma fechava um ciclo na carreira do músico brasileiro: era Kenton seu modelo de
compositor-arranjador quando começou a tirar as primeiras notas do piano, nos anos 40.

As músicas do disco são: a já clássica A rã, que já foi gravada até por João Gilberto, Celestial showers,
Bambu, Lunar tune, Cadê Jodel, Debutante`s ball, Straight jacket, Mosquito, Almas irmãs e Malandro.
Dois anos depois, como não havia mais nada para explicar para os americanos, João Donato deu por
encerrada a sua temporada nos EUA. Com o cachê arrecadado com o disco, ele compraria uma
passagem de avião. De volta para o Brasil.
Também em 1970, João Gilberto está no México e grava mais um disco sensacional: JOÃO EN
MÉXICO. As músicas desse disco são: De conversa em conversa, um samba maravilhoso de Lúcio
Alves e Haroldo Barbosa, a clássica Ela é carioca, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, tem a
maravilhosa música O sapo, de João Donato, numa versão instrumental, que mais tarde se tornaria A rã,
tem a bela e rara Esperança perdida, de Tom Jobim e Billy Blanco, tem a instrumental João Marcelo,
composição feita pelo próprio João Gilberto, tem Farolito, música em espanhol, tem a belíssima
Astronauta, também conhecida como Samba da pergunta, do Marcos Vasconcelos e do Pingarrilo, tem
Acapulco, também instrumental, tem a bela Besame mucho, um grande clássico do bolero, também
cantada em espanhol, tem a bela Eclipse, música cantada em italiano e no final tem uma versão em
português da maravilhosa Trolley song.
/
Em 1971, Tom Jobim faz mais dois discos maravilhosos nos EUA: o primeiro se chama TIDE e as
músicas eram: uma versão antológica instrumental de Garota de Ipanema, a clássica Carinhoso, de
Pixinguinha, Tema Jazz, um samba jazz maravilhoso, Sue Ann, Remember, a bela Tide, Takatanga,
Caribe e Rocknália, todas instrumentais e todas só do Tom. O disco teve os arranjos, espetaculares por
sinal, feitos pelo Eumir Deodato. Esse disco também foi uma espécie de continuação do WAVE, já que
Wave significa onda e Tide significa maré.

O outro disco de Tom no ano é uma participação em mais um disco de Frank Sinatra, que se chama:
SINATRA & COMPANY. Tom Jobim participa das sete primeiras músicas, que são todas dele e
arranjadas por Eumir Deodato, as outras sete, são músicas de autores americanos, com arranjos de Don
Costa. As músicas do Tom são: Drinking Water ( Água de beber) - com Frank Sinatra cantando trechos
da música em português, Someone to light up my life( Se todos fossem iguais a você), Triste, Don't ever
go away ( Por causa de você), This happy madness( Estrada branca) - a mais emocionante do disco,
Wave e One note samba ( Samba de uma nota só).
Em 1972, Eumir Deodato vira um sucesso mundial com a sua antológica gravação disco funk eletrônica
de Also Sprach Zaratrusta, música tema do filme 2001: Uma odisséia no espaço. Com essa gravação
começou a era disco-funk, que dominaria todos os anos 70./

Em 1973, Tom lança mais um disco histórico: MATITA PERÊ é o início da fase ecológica de Tom, que
vai acompanhá-lo até a sua morte. O disco é uma maravilha, por não ter achado gravadora no Brasil
querendo gravar o disco, Tom vai mais uma vez aos EUA lançar um disco. Quando termina a gravação
Tom é aplaudido por todos que assistiram, de pé. Anos depois Tom fala que se não tivesse gravado esse
disco terminaria velho cantando Garota de Ipanema num circo. As músicas do disco são: a fenomenal
Águas de Março, que era a segunda gravação dessa música e que pouco depois se transformaria num
clássico mundial, a bela Ana Luiza, a também fenomenal Matita Perê, que foi totalmente inspirada em
Guimarães Rosa, Tempo do Mar, a também bela Mantiqueira Range, um forró bem inspirado de seu
filho Paulo Jobim, Crônica da casa assassinada, do filme do mesmo nome, que se divide em quatro
músicas: Trem pra Cordisburgo, Chora Coração, Milagres e Palhaços e O Jardim Abandonado, o disco
ainda tem as músicas Um rancho nas nuvens e Nuvens Douradas./
Também em 1973, João Gilberto lança um dos seus melhores discos, com seu próprio nome: JOÃO
GILBERTO. Nesse disco, João foge um pouco das músicas da Bossa Nova, gravando mais
compositores antigos como Ary Barroso, Geraldo Pereira, Haroldo Barbosa e Herivelto Martins, além
dos conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil. As músicas desse disco são: uma gravação sensacional
da então nova Águas de Março, de Tom Jobim, Undiú, uma composição instrumental do próprio João
Gilberto, depois tem uma gravação antológica instrumental de Na baixa do sapateiro, de Ary Barroso,
depois tem Avarandado, de Caetano Veloso, depois tem a sensacional Falsa Baiana, de Geraldo Pereira,
depois tem Eu quero um samba, do Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, que virou um clássico na voz
de João, depois tem a bela Eu vim da Bahia, do Gilberto Gil, depois tem Valsa (Como são lindos os
youguis), uma música instrumental composta pelo próprio João Gilberto em homenagem a filha Bebel
Gilberto, que então tinha 7 anos de idade, depois tem a sensacional É preciso perdoar, de Carlos
Coqueijo e Alcivando Luz e fechando o disco Izaura, do Herivelto Martins./

Em 1976, mais um disco fenomenal: THE BEST OF TWO WORLDS, envolvendo João Gilberto, Stan
Getz e a nova mulher de João Gilberto que estava estreando em disco - Miúcha, irmã de Chico Buarque.
Mesmo não contendo seu nome, Miúcha aparece na capa do disco. As músicas do disco são: Double
Raimbow, versão em inglês de Chovendo na roseira, cantada brilhantemente pela Miúcha, Águas de
Março, cantada em português pelo João Gilberto e em inglês pela Miúcha, Lígia, (todas as três do Tom),
numa gravação expetacular cantada pelo João Gilberto, Falsa Baiana, de Geraldo Pereira, também tem
Retrato em branco e preto, do Tom e do Chico Buarque, também cantada pelo João Gilberto, Izaura, de
Roberto Roberti e Herivelto Martins, cantada pelo João e pela Miúcha, Eu vim da Bahia, de Gilberto
Gil, também cantada pelo João, João Marcello, de João Gilberto, a bela É preciso perdoar, de C.
Coqueijo e A . Luz, também cantada pelo João e Just one of those things, de Cole Porter, cantada pela
Miúcha com João Gilberto no violão. /
Em 1977, João Gilberto lança também nos EUA um dos seus discos mais cultuados mundo afora:
AMOROSO. Este disco possui vários standards tanto brasileiros e internacionais. Segundo a cantora
canadense de jazz Diana Krall afirmou, esse disco foi o que a mais influenciou na sua carreira. As
músicas desse disco são: a belíssima S wonderful, de Gerwshin, Estate, de Bruno Martino e Brigueti,
Tim tim por tim tim, de Haroldo Barbosa, Besame mucho, de Velasquez, uma gravação fenomenal de
Wave, Caminhos cruzados, Triste e Zingaro, todas de Tom Jobim, essa última é mais conhecida como
Retrato em branco e preto, com letra do Chico Buarque. Mesmo sendo esse disco, um disco
sensacional, cultuado mundo a fora, João Gilberto não gostou dele, falou que Claus Ogerman que fez os
arranjos do disco, estragou os arranjos. Logo quem? Vai entender o João. Pra muita gente esse é o
melhor disco do João Gilberto./

Em 1980, a espetacular cantora de Jazz Ella Fitzgerald lança o disco ELLA ABRAÇA JOBIM, uma
homenagem maravilhosa a Tom Jobim. O disco é sensacional, mas o que pra muita gente ficou, que a
Ella ficou um pouco ressabiada de fazer seus famosos scats por causa das músicas do Tom, por isso o
disco poderia ter sido melhor por causa da Ella que é a maior cantora de Jazz de todos os tempos e
também por causa do Tom. De qualquer modo, Ella abraça não só Tom Jobim, mas toda a Bossa Nova,
que deve muito a ela, por ser tão adorada nos EUA, ela sendo uma das primeiras divulgadoras da Bossa
nos EUA As músicas do disco são: Somewhere in the hills (O morro não tem vez), The girl from
Ipanema (Garota de Ipanema), Dindi, Off key (Desafinado), Water to drink (Água de beber), Dreamer
(Vivo Sonhando), Quiet night of quiet stars (Corcovado), Bonita, One note Samba (Samba de uma nota
só), Don't ever go away (Por causa de você), Triste, How Insensitive (Insensatez), She`s a carioca (Ela
é carioca), This love that I've found (Só tinha de ser com você) , A felicidade, cantada em português (!) ,
Wave, Songs of the jet (Samba do Avião), Photography (Fotografia) e Useless landscape (Inútil
paisagem).

4 - A crise da Bossa Nova no Brasil

/
Enquanto a Bossa Nova estava cada vez mais conquistando o mundo, aqui no Brasil aconteceram vários
fatores para a Bossa Nova entrar em crise.
Desde o final dos anos 50, surge no Brasil um rival de peso para a Bossa Nova: o Rock, que depois de
estar fazendo um enorme sucesso mundo afora chega ao Brasil. No princípio eram só músicas em inglês
ou versões em português, especialmente com a cantora Celly Campello, com as músicas Estúpido
Cupido e Banho de Lua. Logo vários jovens começam a se interessar pelo Rock especialmente por Elvis
Presley e Chuck Berry. Logo que o Rock chegou ao Brasil foi visto por muitos, como música de
vagabundos e marginais, surgia a chamada "Juventude Transviada". Entre esses jovens que se
interessaram por Rock se destacam Erasmo Carlos e Roberto Carlos, sendo que esse último lançou o
primeiro disco de 78 rotações cantando Bossa Nova, incluindo uma música chamada Brotinho sem
juízo, uma bossa meio fraquinha de Carlos Imperial, numa imitação clara de João Gilberto. Esses jovens
se reúnem especialmente no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde Roberto e Erasmo
moram lá eles se encontram com Tim Maia e Jorge Ben, onde montam o grupo Sputinck's. Em 1960,
surge a música Parei na Contramão, de Roberto e Erasmo, que foi considerado o primeiro Rock
nacional. Já que Roberto Carlos viu que a Bossa Nova não era a praia dele começou a compor rock.
Pouco depois Roberto e Erasmo se juntam a cantora Vanderlea e lançam a Jovem Guarda, inspirados
especialmente em Elvis e nos Beatles. Logo a cidade do Rio de Janeiro está dividida em duas: a zona
norte, que gostam de Jovem Guarda e a zona sul, que gostam de Bossa Nova.

Depois da saída de Juscelino Kubitheck em 1960, o Brasil está mudando. Em 1961, Jânio Quadros é
eleito presidente do Brasil, mas no mesmo ano renuncia e assume o vice João Goulart, por ter ido á
China comunista, João Goulart passa a ser visto com desconfiança e surge o Parlamentarismo, onde o
presidente não manda e sim o primeiro ministro.

No meio de tanta bagunça que o país se encontra vários cantores, especialmente de Bossa Nova, se
revoltam com o caminho que a Bossa Nova está levando e resolvem fazer músicas de protesto
retratando a atual realidade do país, que não é mais aquela do início da Bossa Nova, gente importante
como Carlos Lyra e Nara Leão. Começa então a música de protesto, primeiro retratando a questão da
reforma agrária e a relaidade dos morros cariocas, como na música Zelão, do Sérgio Ricardo.

Estamos em 1963, surge então Jorge Ben, saído do Beco das Garrafas, com seu violão bem suingado,
misturando Bossa Nova e Jovem Guarda, em seu disco de estréia chamado SAMBA ESQUEMA
NOVO, especialmente nas músicas Mas que nada, Tim Dom dom e Chove Chuva. Além dessas musicas
o disco também tem Balança pema, Rosa menina rosa, Quero esquecer você, Uala Ualau, Vem morena,
E so sambar, A tamba, Menina bonita não chora e Por causa de você menina. O disco teve arranjos de
ninguém menos que J. T. Meirelles, expetaculares por sinal. A música Mas que nada era a mais
estranha, era um heavy-samba, um samba com maracatu. Na época, ninguém entendeu que som era
aquele, pois era estremamente novo, mas alguns anos depois se daria o nome de samba-rock, ou jovem
samba como dizia o Carlos Imperial.
/

Ainda em 1963, aparece um disco histórico chamado VOCÊ AINDA NÃO VIU NADA, de Sérgio
Mendes, então um pianista novato saído do Beco das Garrafas. Nesse lp ao lado do grupo Bossa Rio
ergue um dos pilares originais do samba-jazz. Com arranjos do Tom Jobim, do próprio Sérgio Mendes e
em duas músicas do maestro Moacir Santos. As músicas do disco são: Ela é carioca, O amor em paz,
Coisa n.º 2, do Moacir Santos, Desafinado, Primitivo, do Sérgio Mendes, com citação de Berimbau, a
então novíssima Nanã, também do Moacir Santos, que sem dúvida é a melhor gravação dessa música,
Corcovado, Nôa...Nôa..., também do Sérgio Mendes, Garota de Ipanema e Neurótico, de um tal de J. T.
Meirelles. Com certeza o disco merece o título que tem, renovando a já meio cambaleada Bossa Nova.
Partindo para um caminho bem diferente de João Gilberto, com toque caráter instrumental, surgindo
assim o Samba - Jazz.

Também em 1963 surge um Vinícius mais politizado, ao lado de Carlos Lyra compõe o hino da União
Nacional dos Estudantes, a UNE. Na mesma noite, em estado de overdose musical, fazem a fenomenal
Marcha da quarta-feira de Cinzas, essa música acaba sendo uma espécie de premonição do golpe
militar que surgiu um ano depois.

No mesmo ano aparece o grupo Quarteto em Cy, Vinícius de Moraes é uma espécie de grande pai do
grupo vocal - formado, originalmente, pelas irmãs Cynara, Cyva, Cybele e Cylene, nascidas em
Ibirataia, perto de Ilhéus, Bahia. Elas fazem a pré-estréia, no Bottle's Bar, no Beco das Garrafas em
junho de 1964. No mesmo ano na boate Zum Zum, participam de um show histórico ao lado de
Vinícius, ao lado de Dorival Caymmi e de Oscar Castro Neves. O show fica em cartaz cinco meses e é
um enorme sucesso.

Em 1964, Brigitte Bardot, até então a maior musa do cinema mundial vem ao Brasil junto com seu
namorado franco-argelino brasileiro Zagury, que fez com que ela se apaixonasse pela Bossa Nova. Logo
que ela chega no Rio é uma confusão de fotografos querendo ver Brigitte de perto, já que Brigitte veio
ao Brasil pra descansar, ela vai pra Búzios, junto com Zagury. Na época Búzios era um lugar deserto,
um paraíso, tudo que Brigitte queria, eles ficavam o dia inteiro ouvindo e cantando Bossa Nova e
tomando banho de mar. Mas eles não ficaram o tempo todo em Búzios, as vezes eles davam uma
escapulida para o Rio, já que Zagury era amigo de Luiz Éça, ele os levou pra o seu apartamento onde
vários cantores e músicos da Bossa Nova estavam lá, como o Tamba Trio, Vinícius de Moraes, Edu
Lobo, Wanda Sá e muitos outros. Aí eles ficaram a noite inteira tocando e cantando várias músicas
novas, Brigitte ficou encantada. Depois eles foram de madrugada pra praia e ficaram até de manhã,
dizem até que Brigitte tirou a parte de cima do biquíni e foi pro mar, mas tem gente que diz que foi
miragem.
Poucos dias depois a cena se repetiu, só que na casa de Tom Jobim e sem Zagury. Tom deu a Brigitte o
tratamento completo: falou em francês, cantou várias músicas no piano com ela ao lado, tocando todas
as músicas com acordes impressionistas pra impressionar Brigitte. Segundo Roberto Quartin, que
também estava lá, a platéia, pressentindo o clima, foi saindo de fininho e, no fim, só restavam Tom,
Brigitte e ele. Quartin preparou-se pra tambem se retirar, mas Tom instistiu para que ele ficasse. "Eu
vou levar a Brigitte em casa, em Copacabana, e já volto", garantiu. Quartin deitou no sofá e planejou
cochilar, na certeza de uma longa espera. mas, 15 minutos depois, Tom já estava de volta. E, antes que
Quartin fizesse qualqer pergunta, Tom respondeu: "Sabe, Roberto, essas coisas são muito delicadas,
você tem que tirar a roupa, suar muito, dar prazer a mulher e depois botar a roupa de novo. Aí, pega o
carro, volta pra casa, mente pra sua mulher - a troco de quê? Não dá." Brigitte ficaria ainda mais alguns
meses, ficou maravilhada com o Rio e especialmente com Búzios, mas só que depois de Brigitte a
cidade de Búzios, infelizmente não seria mais a mesma./

Também em 1964, a cantora Nara Leão, musa da Bossa Nova, lança um disco que provocou muita
polêmica, mas foi histórico, ao invés de ter músicas de Bossa Nova, tinha só músicas de sambistas
tradicionais como Cartola, João do Vale e Zé Keti. Nara Leão então começa a ser vista com
desconfiança pelos músicos de Bossa Nova, mas eles não imaginavam que com esse disco só de
músicas de sambistas de morro, com uma sonoridade de Bossa Nova, era o início de que pouco depois
seria chamado de MPB. Mas, naqueles anos tão díficis todo mundo queria ouvir a OPINIÃO de Nara.

Ainda em 1964, foi criado o grupo MPB-4, um grupo de quatro homens, que se chamam Ruy, Aquiles,
Miltinho e Magro.
No mesmo ano acontece o golpe militar que mudaria para sempre a historia do Brasil, especialmente na
música popular.
Em 1965, a TV Excelsior de São Paulo promove o I Festival de Música de São Paulo, o primeiro lugar é
da música Arrastão, de Vinícius de Moraes e de Edu Lobo, a música é cantada pela então desconhecida
Elis Regina, que também ganharia o prêmio de melhor intérprete. No festival Elis mostra sua
coreografia girando os braços como se fosse um helicóptero, que foi ensinada pelo coreografo
americano Lennie Dalle. Logo ganha o apelido de Hélice Regina. Pouca gente conhecia a fenomenal
Elis Regina, até então, ela só era conhecida pelos freqüentadores do Beco das Garrafas, onde em 1964
canta a fenomenal Terra de Ninguém, do Marcos Valle, com o próprio Marcos. A partir do festival, Elis
fica famosa e depois se transformaria na melhor cantora que o Brasil já teve. Nessa época, Elis canta
várias músicas do jovem Edu Lobo, que já iam bem à frente da Bossa Nova./

Ainda em 65, acontece um encontro memorável, que daria em um disco também memorável: CAYMMI
VISITA TOM E LEVA SEUS FILHOS, Dorival Caymmi e Tom Jobim juntos, ao lado de Dori, Nana e
Danilo, filhos de Dorival. Esse disco foi feito pela gravadora Elenco do Aloysio Oliveira. O disco tem
as músicas: ... Das Rosas, de Caymmi, Só tinha de ser com você e Inútil Paisagem, do Tom e do Aloisio
Oliveira, Vai de Vez, do Roberto Menescal, Saudades da Bahia, de Caymmi, numa gravação antológica,
Tristeza de nós dois, de Durval Ferreira, Berimbau, do Baden Powell e do Vinícius de Moraes, Sem
você, do Tom e do Vinícius e Canção da Noiva, de Caymmi.

No mesmo sai o disco O COMPOSITOR E O CANTOR MARCOS VALLE, do Marcos Valle. Nesse lp
há alguns dos que se transformariam grande clássicos de Marcos. As músicas desse disco são: as
fenomenais Gente, Preciso aprender a ser só, as mais desconhecidas Seu encanto, Passa por mim, a já
clássica Samba de verão, A resposta, Deus brasileiro, Dorme profundo, Vem, Mais amor, Perdão e Não
pode ser./
Também em 1965, Elis é convidada ao lado do cantor Jair Rodrigues para apresentar o programa O Fino
da Bossa da TV Record. Esse programa tinha além de Bossa Nova, a então novíssima MPB e era um
rival do programa Jovem Guarda, também da Record, que era apresentado por Roberto, Erasmo e
Wanderléa.
Esse programa acaba rendendo no mesmo ano o disco ao vivo DOIS NA BOSSA, com os dois
apresentadores acompanhados do Jongo Trio. As músicas do disco são: um Pout-Pourri histórico com as
músicas O morro não tem vez, Feio não é bonito, Samba do carioca, Esse mundo é meu, A felicidade,
Samba de negro, Vou andar por aí, O sol nascerá, Diz que fui por aí, Acender as velas, A voz do morro
e de novo O morro não tem vez, depois tem Preciso aprender a ser só, cantada só pela Elis, Ziguezague,
cantada só pelo Jair Rodrigues, Terra de ninguém, Arrastão, também cantada só pela Elis, Reza, Tá
engrossando, também cantada só pelo Jair Rodrigues, Deus com a família, também cantada só pela Elis,
Ué, também cantada só pelo Jair e Menino das laranjas. O disco acabaria vendendo mais de 1 milhão
de cópias e é um dos melhores discos da Bossa Nova em todos os tempos. Na época quem gostava de
Bossa Nova tinha por obrigação odiar a Jovem Guarda e vice-versa e quem gostava dos dois era visto
por desconfiança de ambos os lados. Tanto que, Jorge Ben, acabou sendo cortado do programa Fino da
Bossa, por ter se apresentado no programa Jovem Guarda. E a briga entre os dois grupos era feia, mas o
pessoal da Jovem Guarda estava ganhando. Músicos da então nova MPB também odiavam a Jovem
Guarda como Edu Lobo, Dori Caymmi, Nelson Motta, Nara Leão e outros./

Também em 1965 sai o belo disco 5 NA BOSSA, disco ao vivo envolvendo Nara Leão, Edu Lobo e o
Tamba Trio. Na verdade o lp tinha pouco de Bossa Nova e muito das músicas sociais, retratando a
realidade brasileira da época. O disco já começa com a maravilhosa Carcará, do maranhaense João do
Vale e do José Candido, depois tem a sensacional Reza, do Edu Lobo e do Ruy Guerra, depois tem a
desconhecida O trem atrasou, do Paquito, Villarinho e Estanislau Silva, depois tem a também
maravilhosa Zambi, do Edu Lobo e Vinícius de Moraes, depois tem a espetacular Consolação, do Baden
Powel e Vinícius de Moraes, depois tem a belíssima Aleluia, do Edu Lobo e do Ruy Guerra, depois tem
Cicatriz, do Zé Keti e do Hermínio Bello de Carvalho, depois tem Estatuinha, do Edu Lobo e do
Gianfrancesco Guarnieri, depois tem Minha história, do João do Vale e do Raymundo Evangelista,
finalizando o disco tem a espetacular O morro não tem vez, do Tom Jobim e do Vinícius de Moraes.
Em 1966 sai o disco DOIS NA BOSSA VOL. 2, também ao vivo. As músicas desse disco são: um Pout-
Pourri maravilhoso com as músicas Samba de mudar, Não me diga adeus, Volta por cima, O neguinho e
a senhorita, E daí, Enquanto a tristeza não vem, Carnaval, Na ginga do samba, Guarda a sandália dela
e de novo Samba de mudar, depois tem a maravilhosa Canto de Ossanha, interpretada de forma
brilhante pela Elis, a clássica Tristeza, cantada pelo Jair Rodrigues, Tristeza que se foi, São Salvador
Bahia, Louvação, a já clássica Upa neguinho, que virou um hino na voz da Elis, um medley expetacular
de Mascarada/Sonho de um carnaval, cantados pelo Jair Rodrigues, Amor até o fim e Santuário do
morro.

Em 1966 no 2º festival da canção da TV Record um nome entraria para história da MPB: Chico
Buarque. Ele ganharia o festival com a sua música A banda, interpretada por Nara Leão e pelo próprio
Chico, empatado com Disparada, de Geraldo Vandré, cantada por Jair Rodrigues. Difícil era saber qual
música era melhor, diz a lenda que A banda teria ganho por pouco, mas pra não dá problema entre as
torcidas o resultado acabou ficando como empate, justo por sinal./

Chico Buarque sempre teve ligado às artes. É filho do escritor Sérgio Buarque de Holanda e desde
pequeno recebia visitas de Vinícius de Moraes, que era amigo de seu pai. Chico fala que seu primeiro
disco que comprou foi CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, e desde então ficou fã da Bossa Nova, que
seria sua maior influência. Apesar de ser amigo de Vinícius, Sérgio Buarque não gostou da Bossa Nova,
ele gostava mesmo do samba tradicional, como Noel Rosa e Ary Barroso, outros que influenciariam o
filho Chico Buarque. A primeira música de Chico a fazer sucesso foi Sonho de carnaval interpretada,
brilhantemente, por Alaíde Costa em 1964. O próprio Chico fala que essa foi o marco zero da sua
carreira, ainda ligado a Bossa Nova. O Chico falou anos depois que quem abriu os olhos dele pra seguir
outro caminho fora da Bossa Nova foi Edu Lobo. Logo nesse ano, de 166, Chico lançaria músicas que
ficariam pra sempre na memória da MPB: como A banda, Ole olá e Pedro Pedreiro./

Também em 1966, mais um disco maravilhoso: OS AFRO SAMBAS DE BADEN E VINÍCIUS, com a
presença de Baden Powell, Vinícius de Moraes e o Quarteto em Cy. As músicas do disco eram: a já
clássica Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Bocochê, a bela Canto de Iemanjá, Tempo de Amor, Canto
do cabloco Pedra Preta, Tristeza e Solidão e Lamento de Exu. Sem dúvida esse foi um dos melhores
discos da história da música brasileira.
Em 1967, mais um disco memorável: VINÍCIUS E CAYMMI NO ZUM ZUM, com a presença de
Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi e o Quarteto em Cy. As músicas do disco eram Bom dia amigo,
Carta ao Tom (em sua primeira gravação), Berimbau, Tem dó de mim, Broto maroto, Minha namorada,
Saudade da Bahia, História de Pescadores, Dia da Criação, Aruanda, Adalgiza e Formosa.
Também em 1967, sai o disco DOIS NA BOSSA VOL. 3, também ao vivo. As músicas do disco são:
Imagem, cantada só pela Elis Regina, um Pout-Pourri de Mangueira, com as músicas Mangueira, Fala
Mangueira, Exaltação à Mangueira, Mundo de zinco, Levanta Mangueira, Despedida da Mangueira e
Pra machucar meu coração, depois tem O ser humano, cantada só pelo Jair Rodrigues, Cruz de cinza,
cruz de sal, Serenata em teleco-teco, também cantada só pelo Jair, Manifesto, cantada só pela Elis, mais
um Pout-Pourri, chamado Pout-Pourri romântico com as músicas Minha namorada, Eu sei que vou te
amar, A volta e Primavera, depois tem Amor de carnaval, também cantada só pelo Jair, Marcha da
Quarta-feira de Cinzas, também cantada só pela Elis e Capoeira camará, também cantada só pelo Jair.
Depois disso o Fino da Bossa acaba, por falta de audiência, infelizmente.

Ainda em 1967, sai mais um disco sensacional de Marcos Valle: BRAZILIANCE! A MÚSICA DE
MARCOS VALLE, tem a espetacular Os grilos, Preciso aprender a ser só, a também espetacular
Batucada surgiu, Seu encanto, Samba de verão, Vamos pranchar, Tanto andei, Dorme profundo, Deus
brasileiro, Patricinha, Passa por mim e Se você soubesse.

No mesmo ano, sai outro disco de Marcos Valle: VIOLA ENLUARADA, as músicas desse lp são: a
espetacular Viola enluarada, Próton elétron nêutron, Maria da favela, Bloco do eu sozinho, Homem do
meu mundo, Viagem, a também espetacular Terra de ninguém, Tião braço forte, O amor é chama,
Réquiem, Pelas ruas do Recife e Eu.

Ainda em 1967 sai o filme GAROTA DE IPANEMA, e no mesmo ano sai a trilha sonora com grandes
músicos brasileiros como: Elis Regina, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronnie Von,
Baden Powell, Nara Leão e outros. As músicas do filme são: a maravilhosa Noite dos mascarados, do
Chico Buarque, num raro dueto da Elis Regina com o próprio Chico, depois tem Lamento no morro, do
Tom e do Vinícius, cantada de forma expetacular pela Nara Leão, depois tem Surfboard, do Tom Jobim,
interpretada pelo próprio Tom, depois tem Ela é carioca, do Tom e do Vinícius, interpetada pelo Tamba
Trio, depois tem Poema dos olhos da amada, do Paulo Soledade e do Vinícius, interpretada pelo próprio
Vinícius de Moraes, depois tem A queda, do Tom Jobim, interpreta pelo próprio Tom, depois tem o
Tema de abertura da Garota de Ipanema, Por você, do Francisco Enóe e do Vinícius, interpretada pelo
Ronnie Von, depois tem a música Chorinho, do Chico Buarque, interpretada pelo próprio Chico, depois
tem Ária pra se morrer de amor, do Vinícius, interpretada pelo Baden Powell, depois tem o Rancho das
namoradas, do Ary Barroso e do Vinícius de Moraes, interpretada pelo Quarteto em Cy e o MPB-4 e no
final tem o Tema da desilusão da Garota da Ipanema, interpretada por Tom Jobim e orquestra regida
pelo Eumir Deodato. /
Também no ano de 1967, o Festival da canção da Record está fervendo! Têm várias músicas
maravilhosas e de estilos bem diferentes, como Roda viva, do Chico Buarque, cantada pelo Chico e pelo
MPB4, O cantador, uma bossa maravilhosa, de Dori Caymmi e Nelson Motta, interpretada
brilhantemente por Elis Regina, a bela Eu e a brisa, do Johnny Alf, Ponteio, uma fortíssima música de
Edu Lobo com o Capinan, que de Bossa Nova não tinha nada e muito mais.
No mesmo festival aparecia um novo ritmo que começaria a deixar a Bossa Nova para traz: o
Tropicalismo. Liderado pelos cantores Gilberto Gil e Caetano Veloso, ambos começaram sua carreira
por causa da Bossa Nova, mas segundo eles o Tropicalismo era o contrário da Bossa Nova, misturava os
sambas tradicionais com guitarras elétricas, inspirados no cantor de Rock Jimi Hendrix e na Jovem
Guarda. O Tropicalismo foi uma revolução no meio da ditadura militar, no festival de 67, Gilberto Gil,
canta ao lado do grupo Os Mutantes, a bela Domingo no parque e Caetano Veloso canta a espetacular
Alegria, Alegria, onde canta ao lado do grupo Beastie Boys, com guitarras eletrétricas, o que
provocuprotestos por todos os lados da MPB, que seriam as músicas chaves do Tropicalismo, ao lado da
música Tropicália, também do Caetano, começam a inflamar o público a lutar contra a ditadura. Mas
quem ganhou o Festival foi Edu Lobo, com a fenomenal Ponteio, com uma interpetação espetacular,
junto com a Marilia Medalha e o Quarteto Novo. Com esse festival quem saiu ganhando mesmo foi o
Tropicalismo, sendo que músicos como Edu Lobo e Dori Caymmi, detestaram o novo ritmo, inclusive
acusando o Gilberto Gil e o Caetano Veloso de traição, com músicas bem diferentes daquela de quando
eles chegaram da Bahia, Chico Buarque ficaria neutro./

Em 1968, Chico Buarque faz sua primeira música com Tom Jobim, por intermédio de Vinícius, com
grandes ciúmes disfarçados. A música se chama Retrato em branco preto.

No mesmo ano no 3º festival Internacional da Record, Tom e Chico, ganhariam com a belíssima música
Sabiá, interpretada por Cybele e Cynara, do Quarteto em CY, ficaria na história, pois receberam uma
enorme vaia do público, inflamado pela situação do país que estava sobre o Regime Militar e preferiam
Para não dizer que falei de flores, de Geraldo Vandré, que inflamava o povo a lutar contra a ditadura. O
Tom inclusive ligou para o Chico, que estava em Paris e falou: "Chico, vem rápido aqui me ajudar!". O
que o público não tinha prestado atenção que Sabiá, não era uma música alienada à situação do Brasil e
era muito politizada, mas não tinha a rima fácil como em Para não dizer que não falei de flores. O
próprio Vandré falou: “Com essa vaia vocês não me ajudam em nada!” O festival pegou fogo, ficou
ruim quando toca a música de protesto É proibido proibir, que Caetano canta ao lado dos Mutantes,
cabeludos e com guitarras elétricas, quando não achava que poderia pegar mais fogo, eis que surge
Sérgio Ricardo cantando a sua música Beto bom de bola, aí a coisa ferveu de vez, a vaia foi geral. Foi
tão forte a vaia que Sérgio reclamou que não estava ouvindo a voz dele no microfone, não estava
conseguindo nem cantar, de repente ele ficou bravo e fala: “Vocês ganharam, é isso que vocês querem!”
e quebrou o violão e o jogou pra platéia enlouquecida, atitude mais rock and roll é impossível!
No mesmo ano surge o disco Tropicália (outro nome do Tropicalismo e nome de uma música de
Caetano), no disco estão além de Gil, Caetano e Mutantes, estão Gal Costa, Tom Zé e até Nara Leão.
Esse disco mudaria tudo o conceito de música moderna até então. Incluindo muitos falavam que a Bossa
Nova era ultrapassada. Anos depois Caetano Veloso pergunta pro João Gilberto o que ele achava da
roupa, das músicas e do jeito do pessoal do Tropicalismo e João respondeu: “Eu gosto, mas eu tenho
tudo isso aqui na garganta.”
Na mesma época Chico Buarque lança a peça Roda Vida, criticando de maneira clara a ditadura militar,
que seria censurada.

Com isso tudo em 1968, é decretado o Ato Institucional n.º 5, que censurou todas as coisas,
especialmente as músicas. Com o AI-5 vários artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico
Buarque, tiveram que ser exilados. O Brasil todo fica de baixo de um enorme medo e a música
brasileira começa a decair, com a maioria de seus grandes artistas longe do Brasil, por intermédio do
AI-5. A situação do Brasil ficou muito tensa, todos os que o governo acha que farão a revolução
comunista no Brasil, são presos, exilados e torturados.

No meio dessa confusão, Vinícius de Moraes cada vez mais ligado à esquerda, começa a fazer parceria
com um jovem compositor e violonista chamado Toquinho. Toquinho já era conhecido do público desde
1968, quando fez ao lado de Jorge Ben, a belíssima Que maravilha. Em 1969, já casado com a baiana
Gesse Gessy, Vinícius começa a parceria com Toquinho. Por causa de Gesse, Vinícius se muda para a
praia de Itapuã, em Salvador, e começa a seguir o candomblé, e passa a freqüentar o terreiro de Mãe
Menininha do Gantois, a mais famosa mãe-de-santo da Bahia. Na época da parceira com Baden Powell,
o poeta já tinha namorado o sincretismo religioso, mas conservara os olhos recatados de pesquisador. A
primeira música da parceria Toquinho e Vinícius seria a espetacular Tarde em Itapuã, quando Vinícius
mostra essa maravilhosa praia da Bahia ao seu novo parceiro./

Também em 1968, sai o disco JOYCE, o primeiro disco de uma das maiores cantoras e compositoras do
Brasil: a Joyce. Na época com apenas 20 anos, Joyce lança um disco que muitos não entenderam, pois
ela era uma jovem cantando músicas mais “boêmias”, sendo a maioria delas composições da própria, e
o Brasil vivia uma época muito machista em que não existiam outras compositoras mulheres, sendo que
a Joyce foi pioneira, falaram na época, que as músicas do disco eram “músicas de bordéis” e por isso o
disco não fez o sucesso que merecia. As músicas do disco são: Não muda não, Bloco do eu sozinho,
bela música do Marcos Valle, Improvisado, Ansiedade, Superego, Cantiga da procura, Choro chorado,
Ave maria, Anoiteceu, Litoral e Me disseram. Na contracapa do disco tem as palavras meio proféticas
do poetinha Vinícius de Moraes:
Eu poderia falar aqui da Joyce morena, um brôto bacana de Copacabana, de olhos verdes, riso meio
triste e bôca de menina amuada. Uma garota moderna e considerante, com uma carinha de lua nova
em céu de tarde, e toda circunflexa. Gente bem pra frente, como está em moda dizer, e caindo de bossa.
Mas prefiro falar de uma outra Joyce, uma que não tem nada a ver com a que se forma este ano em
jornalismo pela PUC e que uma noite, há uns dois anos atrás, chegou assim para mim, num espetáculo
de que eu participava no "Arena", e disse: "_Eu queria fazer uma entrevista com
você, o cara”. E fêz. Prefiro falar de uma Joyce que aos 11 anos tinha paixão por Tom e colava seus
retratos, e desde os 3 ficava ouvindo "Urubu Malandro" sem parar; uma que conhecia Menescal desde
menina e que de vez em quando gravava jingles com ele só de farra; uma que antes de completar 20 já
fêz por aí umas três dezenas de bons sambas, música e letra, que canta com uma voz linda e
afinadíssima, acompanhando-se ao violão com grande sentido harmônico e um ritmo exemplar; uma
que foi classificada para as finais do 2º Festival Internacional da Canção e que agora está fazendo
uma parceria firme com o meu bom e grande Macalé: outro que quando estourar vai-se ouvir na
Conchinchina. Esta Joyce, quando pega o violão e canta (e ela poderia fácil fazer uma carreira só
como cantora) diz coisas simples e belas, como em sua "Cantiga de Procura".

"Eu quero encontrar um amigo Que fale da vida comigo


Eu quero uma tarde apagada
Pra que ele me encontre escondida
Igual a qualquer namorada
Que espera na porta enfeitada
Que traga no peito guardada
A mesma tristeza sofrida”.

É dessa Joyce que eu gosto de falar, pois essa é a Joyce que vai dar que falar: a Joyce que é toda
musicalidade tem em alto grau o sentido das palavras e conhece o mistério de seu casamento com as
notas. A Joyce que aqui está neste LP com seus primeiros anseios, recados e frustrações de amor e
entra com o pé direito na moderna canção popular brasileira. E, além do mais, com aquêles olhos
verdes e aquela graça toda...Pôxa, assim não vale...
VINICIUS
Rio, junho de 1968./

Em 1969, sai o belíssimo disco MUSTANG COR DE SANGUE, do Marcos Valle, bem inspirado na
onda Soul da época. As músicas desse lp são: a espetacular Mustang cor de sangue, que também foi
gravada de forma maravilhosa pelo Wilson Simonal, com toda sua pilantragem, a bela Samba de Verão
2, Catarina e o vento, Frevo novo, a maravilhosa Azimuth, Dia de vitória, cantada ao lado dos Golden
Boys, Os dentes brancos do mundo, a maravilhosa Mentira carioca, Das três as seis, a espetacular Tigre
da Esso que sucesso, O envagelho segundo San Quentin e a bela Diálogo, cantada ao lado do Milton
Nascimento. Sem sombra de dúvidas esse é o melhor disco que o Marcos Valle fez./

Em 1970, Toquinho e Vinícius vão para Itália e a convite de Sérgio Bardotti faz várias músicas para
crianças que se chamaria na Itália de L'Arca. Logo, Toquinho e Vinícius começam a também ser
perseguidos pelo regime militar, e por causa disso passam a ser heróis dos estudantes, por suas lutas
pelo regime militar, e apresentariam vários shows pelos circuitos universitários.

Enquanto Vinícius, ao lado de Toquinho, são queridos pelos estudantes, o resto do Brasil passa a tratar a
dupla como fazedores de uma música medíocre, que ganharia o nome depreciativo de "easy music",
música fácil, eles são perseguidos pelos tropicalistas que estão no auge e a Bossa Nova em baixa. A
MPB, perseguida pela censura, sofre a concorrência desleal da música pop que invade as rádios FM.
Além disso, eles são vistos pelos militares como comunistas perigosos. Com isso a música brasileira
passa a ser desprezada em relação a música pop internacional.
A parceria de Vinícius e Toquinho renderiam outras músicas memoráveis como, por exemplo, Regra
Três, A tonga da mironga do kabuletê e a belíssima Aquarela. Vinícius chega a falar que sua parceria
com Toquinho, é igual casamento, só faltando o sexo.
Em 1971, a dupla fez dois discos memoráveis: o primeiro se chama SÃO DEMAIS OS PERIGOS
DESSA VIDA, com as músicas: Cotidiano n. º 2, Tatamirô, São demais os perigos dessa vida,
Chorando pra Pixinguinha, Valsa para uma menininha, Para viver um grande amor, Menina das duas
tranças, Regra Três, No colo da serra e Canto de Oxalufã. O outro disco se chama COMO DIZIA O
POETA, que tem participação da cantora Marilia Medalha. As músicas do disco são: a esplendorosa
Tarde em Itapuã, a maravilhosa Como dizia o poeta, Tomara, que é uma música só do Vinícius: música
e letra, Valsa para o ausente, Samba para Gesse, A tonga da mironga do kabuletê, com referências
implícitas a Ditadura Militar, A bênção Bahia, Mais um adeus, A vez do Dombe, O grande apelo, Samba
da Rosa e Melancia e Coco verde.

Os shows da dupla passam a ser vendidos por estudantes indignados e raivosos como uma reação de
esquerda à onda tropicalista e à invasão do pop internacional.

No início dos anos 70, o Brasil recebe muitas influências da black music americana e o maior nome
desse movimento no Brasil se chamaria Tim Maia. Tim Maia é fã de Jovem Guarda, Bossa Nova e do
recém criado Funk./
Também no início dos anos 70 surge a banda de rock Novos Baianos, que ficaria na história misturando
Jimi Hendrix e Beatles com o Samba e a Bossa Nova. No primeiro disco deles foi todo de rock
progressivo, que acabou não fazendo sucesso, mas o produtor Nelson Motta agendou um encontro que
mudaria para sempre a cara do rock nacional: Novos Baianos com João Gilberto, quando João Gilberto
chegou ao apartamento deles o Paulinho Boca de Cantor, que era o empresário da banda, foi abrir a
porta e viu um homem de terno e gravata, com um violão pendurado no braço, achou até que era a
polícia, era João Gilberto, quando João entrou tocou vários sambas e bossas e os deixaram
embasbacados, especialmente na música Brasil Pandeiro, que ser transformaria no maior sucesso deles
no disco ACABOU CHORARE, em 1972. Outra história interessante é que diz a lenda que o nome do
dsco surgiu quando em uma das visitas do João no apartamento ele levou a filha Bebel, que nasceu em
Nova York, ela não parava de chorar, já que ela não sabia falar português direito ainda, ela num
portunhol teria falado quando acabou de chorar: Acabou chorare.

Ainda na década de 70, surge a chamada Era disco, mostrada no filme Nos embalos de Sábado à noite.
Logo invade também o Brasil, que teria nas Frenéticas como seu maior ícone. Tudo era discoteca, até
Tim Maia entrou na onda./

Em 1971, para comemorar seus dez anos de carreira, Nara Leão lança o disco DEZ ANOS DEPOIS.
Por incrível que pareça, é seu primeiro disco totalmente cantando Bossa Nova. As músicas do disco são:
Insensatez, Samba de uma nota só, Retrato em branco e preto, Corcovado, Garota de Ipanema, Pois é,
Chega de Saudade, Bonita, Você e eu, Fotografia, O grande amor, Estrada do sol, Por toda minha vida,
Desafinado, Minha namorada, Rapaz de bem, Vou por aí, O amor em paz, Sabiá, Meditação,
Primavera, Este seu olhar, Outra vez e Demais. Ela gravou músicas do Tom, do Vinícius, do Carlos
Lyra, do Johnny Alf, mas nenhuma do amigo Roberto Menescal. Isso explica porque quase todas as
músicas do Menescal eram em parceria com Ronaldo Boscoli, mesmo casada com Cacá Diegues, Nara
nunca esqueceu a traição de Ronal do que até 1961 era seu noivo, acabou virando namorado da Maysa e
depois se casaria com Elis Regina.

Em 1972, no DISCO DE BOLSO, que foi lançado no jornal O Pasquim, do Rio de Janeiro, tinha a então
inédita Águas de Março, de Tom Jobim e Agnus Sei, de João Bosco, um compositor até então
desconhecido, que estava começando./

Também em 1972, Wilson Simonal, até então o cantor mais popular do Brasil, sofre um duro golpe.
Houve um desfalque na empresa em que Simonal tinha. Seu contador foi acusado, supostamente, de ter
praticado o roubo. Pra aumentar a polêmica ele teria contratado algumas pessoas pra bater nesse
contador. Durante os interrogatórios, Simonal foi acusado de ser informante do Dops. Foi condenado
em 1972. Simonal ficou desmoralizado no meio artístico-intelectual e cultural da época e sua carreira
começou a declinar. O jornal O Pasquim acusou-o de dedo duro. No meio d repressão imposta pela
ditadura militar, todos os jornalistas da época falaram que Simonal era informante do SNI. A imprensa o
condenou. Ele negou veementemente todas as acusações. Naquela época ser acusado de dedo duro era a
pior coisa que podia acontecer, com isso praticamente acaba a carreira de um dos maiores cantores do
Brasil em todos os tempos. No ano 2000, depois da morte dele é que a OAB declarou que Simonal era
inocente.

/Para horror tanto de tropicalistas e desbundados quanto de intelectuais engajados Toquinho e Vinícius
passam a produzir trilhas musicais para telenovelas. Começam na TV Tupi com Nossa filha Gabriela e,
no ano seguinte, numa atitude que parece imperdoável à esquerda mais radical, já estão na TV Globo,
musicando a novela O bem-amado.

Em 1975, voltam a gravar dois discos na Itália: TOQUINHO, VINÍCIUS E ORNELLA VANONI e
VINÍCIUS E TOQUINHO, O POETA E O VIOLÃO.

Também em 75, a dupla, ao lado da cantora Joyce, fazem um show memorável em Punta Del Leste, no
Uruguai.

Graças a sua nova mulher Marta Rodriguez Santa Maria, que é argentina, os dois começam a serem
ídolos também na Argentina. Outras duas mulheres que seriam essenciais para o sucesso da dupla na
Argentina foram as cantoras Maria Creuza e Marilia Medalha. Primeiro Vinícius convida Maria Creuza,
que está casada com Dori Caymmi. Em 71, os três têm um show programado na Boate La Fusa em
Buenos Aires, mas como está brigado com Dori, convida Toquinho para substituí-lo. A grife Brasil,
apesar da insânia do regime militar, está em alta. O país acaba de conquistar o tri campeonato mundial
de futebol. Exporta a imagem de uma nação grande e vitoriosa. Vende. O show em Buenos Aires é
transformado no disco VINÍCIUS, TOQUINHO E MARIA CREUZA EM LA FUSA, sucesso nas
paradas argentinas. Silvina Perez, empolgada, contrata o trio para uma temporada mais longa na
sucursal da La Fusa, em Mar Del Plata.

Os dois parceiros fazem perto de cem shows em Mar Del Plata, acompanhados depois por Maria
Bethania, mais tarde por Chico Buarque e, novamente, por Maria Creuza.
Logo depois os dois trocam a boate La Fusa, que se torna pequena para suas platéias, por imensos
teatros da capital. Vinícius descobre que o sucesso chegou, em definitivo, numa noite em que ele e
Toquinho, apesar da chuva e do frio, lotam sozinhos um ginásio na cidade de Córdoba. "Acho que nos
tornarmos argentinos", comunica ao parceiro. "No Brasil, somos ultrapassados. Aqui, eles nos adoram”.
Está tudo dito.

Em 1973, João Donato volta ao Brasil e grava seu melhor disco: QUEM É QUEM. O disco foi
produzido pelo Marcos Valle. As músicas do disco são: Chorou, chorou, Terremoto, a espetacular
Amazonas, Fim de sonho, a também espetacular A rã, Ahiê, Cala boca menino, um hip hop de Dorival
Caymmi (!), Nanã das águas, Me deixa, a maravilhosa Até quem sabe, Mentiras, com participação de
Nana Caymmi e a bela Cadê Jodel, parceria com Marcos Valle. Nesse disco começa a parceria do João
com o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Esse foi o primeiro disco do João Donato como cantor, na
verdade ele nunca quis ser cantor, só instrumentista, quem o fez mudar de idéia foi o grande Agostinho
dos Santos. O canto dele lembra muito do amigo João Gilberto, a inflûencia que um teve do outro não
se restringiu as esquisitices e sim o canto e o talento musical, isso é o que importa. Anos mais tarde o
João Donato falou: “Comecei a fazer letra com um monte de gente. Eu ia gravar instrumental dentro de
alguns dias e o Agostinho dos Santos falou: ‘Vai gravar tocando piano de novo? Todo mundo já ouviu
isso. Se fosse você, eu gravaria cantando’. Como foi uma resolução apressada, colocamos quatro ou
cinco letristas. Tinha uma semana para arrumar letras para 12 músicas. Tinha mais de uma pessoa
fazendo letras para a mesma música, sem saber! Eu mandava as fitas para todo mundo e chegavam
letras diferentes para a mesma música. Meu irmão (Lysias Ênio) fez a letra para "Até quem sabe" e o
Dorival Caymmi tinha feito também. Quando ele leu a letra do Lysias, disse: 'Vou rasgar a minha, a dele
está melhor'. E rasgou. Eu não devia ter deixado, devia ter ficado com a letra dele e feito outra música
em cima (risos).”

Em 1974, acontece um encontro memorável entre Tom Jobim e Elis Regina, que surgiria um disco
também memorável: ELIS E TOM. A direção da Philips verificou que a cantora Elis Regina estaria
completando 10 anos no elenco da companhia. Depois dos estrondosos sucessos de “Casa no Campo” e
“Águas de Março” nos anos anteriores, o então presidente André Midani perguntou a Elis o que ela
queria de presente e logo ouviu: “Gravar um disco de músicas de Tom Jobim... com Tom Jobim”.
A inspiração para este projeto vinha de um velho LP de músicas de Tom e Vinicius de Moraes, lançado
em 1959 pelo selo Festa - POR TODA A MINHA VIDA, da cantora Lenita Bruno (1926-1987), que
reunia canções camerísticas em arranjos do marido Leo Peracchi (1911-1993), ex-professor de Tom.
Então marido de Elis, o também arranjador Cesar Camargo Mariano há muito conhecia o LP. Quando o
projeto foi proposto, a direção da gravadora convidou para a produção Aloysio de Oliveira (1914-1995),
amigo de todos os envolvidos. O orçamento inicial não permitiria levar Elis, Cesar e Aloysio para os
Estados Unidos, onde Tom morava há alguns anos. Seria mais barato trazê-lo para o Brasil, mas por
algum motivo ele não poderia viajar. Elis e Cesar foram para Los Angeles, onde Aloysio tinha um
apartamento, e foram recepcionados no aeroporto por Tom - que os levou para tomar café em seu
apartamento e, claro, para uma primeira reunião.
Havia uma tensão no ar, fruto do constrangimento do jovem casal Elis e Cesar diante do ídolo
internacional Tom Jobim. Aloysio havia sugerido algumas músicas, após uma primeira conversa em São
Paulo, e já ligava para o maestro Bill Hitchcock - contratado para reger o quinteto de cordas porque, por
uma norma do sindicato local, o estrangeiro Cesar não poderia fazê-lo sem uma autorização especial
que a burocracia certamente retardaria. Mas, de repente, partiu de Tom uma pergunta: “Quem fará os
arranjos?” Tom soubera do projeto através de Aloysio, e o aprovara em poucos dias, mesmo sem saber
de muitos detalhes. Elis e Cesar já vinham amadurecendo-o há meses e, naquele instante, a pergunta
caiu como uma bomba. Cesar lembra-se de que teve vontade de correr “pra casa da mamãe”. A resposta
à pergunta de Tom foi dada por Aloysio, mas demorou como uma eternidade. “Quem vai fazer é o
próprio Cesar, que trabalha com Elis desde 1970!”
Tom já ficara tenso no início da conversa, quando lhe fora dito que músicos chegariam do Brasil no dia
seguinte. “Me explica direito, por que trazer músicos do Brasil? Aqui temos músicos excelentes!” Ao
tomar melhor consciência do que o projeto representava, Tom tremeu. “Peraí, esse negócio é muito
importante! É a maior cantora do Brasil! Eu não posso...” Segundo Cesar, o auge daquele misto de
charminho e insegurança deu-se a partir da informação de quem faria os arranjos. “Você??!! Mas
como?”, surpreendeu-se Tom, para o desespero de Elis e Aloysio. Sem pestanejar, Tom pediu à esposa
que lhe passasse os telefones de Claus Ogerman e Dave Grusin, que revelaram-se assoberbados ao
serem procurados para um projeto tão em cima da hora e não puderam aceitar. Acabou sendo o próprio
Cesar que fez os arranjos, que, aliás, ficaram espetaculares. As músicas do disco eram: a mais famosa
gravação de Águas de Março, num dueto inesquecível dos dois, Pois é, do Tom e do Chico, a
maravilhosa Só tinha de ser com você, Modinha, Triste, a espetacular Corcovado, O que tinha de ser,
Retrato em branco e preto, Brigas nunca mais, Por toda minha vida, Fotografia, Soneto da Separação,
do Tom e do Vinícius, a maravilhosa Chovendo na Roseira, do Tom e do Aloisio Oliveira e a bela Inútil
Paisagem. Findas as gravações, Tom ligou para Cesar e, numa de suas melhores metáforas, sentenciou:
“Eu gosto de tomar banho de banheira, com água parada. Já vocês gostam de tomar banho de chuveiro,
com água fresca. Fiquei um pouco assustado quando recebi tanta informação nova, trazida pelos
jovens”. Foi sua forma de demonstrar simpatia pelo projeto e pela forma como fora realizado./

Em 1975, João Donato, lança um dos seus melhores discos: LUGAR COMUM. É uma espécie de
continuação do sensacional QUEM É QUEM, de 1973. Assim como no anterior o Donato canta na
maioria das faixas e a maioria das músicas em parceria com Gilberto Gil e Caetano Veloso. As músicas
do disco são: a belíssima Lugar comum, Tudo tem, a maravilhosa A bruxa de mentira, a também
maravilhosa Ê menina, a explendorosa Bananeira, que vira um clássico mundial, Patumbalacundê,
Xangô é de bauê, a inglês Pretty Dolly, parceria com Norman Gimbell, a mais que espetacular Emoriô,
que já foi gravada até em inglês, por ninguém menos que Sérgio Mendes, Naturalmente, a suingada
com sotaque latino Que besteira e Deixei recado./
Em 1976, Tom Jobim lança mais um disco memorável o espetacular URUBU. O disco é todo inspirado
em seu ídolo Villa-Lobos e é um disco totalmente ecológico. As músicas do disco são: Boto, do Tom e
do Jararaca, com a participação de Miúcha, mulher de João Gilberto e irmã de Chico Buarque, a bela
Lígia, a fenomenal Correnteza, do Tom e do Luiz Bonfá, Ângela, a também fenomenal Saudade do
Brasil, uma música instrumental maravilhosa, Valse, do seu filho Paulo Jobim, a espetacular Arquitetura
de Morar e o Homem, tirada do disco SINFONIA DA ALVORADA.

Na madrugada de 18 de março de 1976, o pianista brasileiro Francisco Tenório Jr. saiu do hotel que
estava hospedado, em Buenos Aires, para comer um sanduíche e cumprar um remédio. Tenório Jr estava
na Argentina como acompanhante do Vinícius de Moraes e do Toquinho, que faziam uma temporada em
Buenos Aires. Ao sair para a rua, deixaa um bilhete na portaria dizendo o que fora fazer e avisando:
Volto Logo. Tenório não voltou – nem naquela noite nem nunca. Na verdade, nunca mais foi visto por
seus amigos. E seu corpo nunca foi encontrado, tinha 33 anos.
O “desaparecimento” de Tenório ocorreu na véspera do golpe militar contra a presidente Isabelita
Perón. Nos anos seguintes, sob a ditadura do general Jorge Videla, a Argentina viveria cerca de 30 mil
casos como o dele. Só que os “desaperecimentos” começaram antes do golpe e o de Tenório foi dos
primeiros. Tenório era inocente. Com sua aparência, ee poderia ser confundido como um perigoso
“intelectual.” Só em 1986, a história começou a se esclarecer: Tenório foi preso, torturado e morto pela
Marinha argentina, com a conivência de elementos da embaixada brasileira em Buenos Aires. Ainda de
madrugada, Toquinho e Vinícius deram pela sua falta no hotel. De manhã, apreocupação se transformou
em pânico, mas com o golpe nas ruas, bombas explodindo e prisões em massa, Buenos Aires já tinha
virado um caos. Vinícius foi procurar o embaixador do Brasi em Buenos Aires, Rodolfo Souza Dantas,
que concedeu um hábeas corpus, que nunca tenha chegado ao seu destino. O que se passou a partir daí
foi monstruoso: os funcionários brasileiros que deveriam procurar Tenório pra protegê-lo fizeram o
contrário. Eles o acharam, mas juntaram-se aos seus algozes. Naquela época não se sabia da existência
da “Operação Condor”, um esquema clandestino de cooperação entre os países do Cone Sul – uma troca
de favores entre os governos brasileiros e demais países sul americanos, para seqüestrar, torturar e matar
além fronteiras. /

Em 1977, saiu o belo disco MIÚCHA & ANTONIO CARLOS JOBIM, um belo encontro da cantora
Miúcha e do Tom Jobim. As músicas do disco são: Vai levando, de Caetano Veloso e Chico Buarque,
com participação do Chico, Tiro Cruzado, de Márcio Borges e Nelson Ângelo, Comigo é assim, de José
Meneses e Luiz Bittencourt, Na batucada da vida, de Ary Barroso, Sei lá, de Toquinho e Vinícius de
Moraes, também com participação do Chico, Olhos nos olhos, de Chico Buarque, a lindíssima Pela luz
dos olhos teus, de Vinícius de Moraes, o fenomenal Samba do Avião, do Tom, Saia do Caminho, de
Evaldo Ruy e Custódio Mesquita, Maninha, do Chico e com participação do próprio Chico Buarque,
Choro de nada, de Eduardo Souto Neto e Geraldo Carneiro e É preciso dizer adeus, do Tom e do
Vinícius./

No mesmo ano há um encontro memorável envolvendo Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho e
Miúcha, que rendem o histórico disco gravado ao vivo no Canecão: TOM, VINICIUS, TOQUINHO E
MIÚCHA, realmente é um disco memorável que foi produzido pelo grande Aloisio de Oliveira, que
disse: "Este show já nasceu feito. Estava somente esperando a hora de ser realizado. Quando a gente se
encontra participando de uma realização dessa natureza, não se tem a mínima idéia do que ela
representada. Tenho certeza de que mais tarde chegaremos à conclusão de que participamos de um dos
maiores momentos de nossa música." Essas palavras foram proféticas. O disco começa com a música
Estamos aí, que é o tema de abertura do show, depois entra o Vinícius declamando o seu belo e
engraçado poema Dia da Criação, depois ele e Toquinho cantam a maravilhosa Tarde em Itapuã, depois
Toquinho faz um belo solo no violão em Gente Humilde, do Garoto, com letra do Chico Buarque e do
Vinícius, depois os dois cantam a também maravilhosa Carta ao Tom, a seguir entra o Tom e faz uma
paródia engraçadíssima da música que se chama Carta do Tom, depois Tom canta a bela melodia de
Corcovado e dá show tocando Wave, depois entra a Miúcha e os dois cantam a belíssima Pela luz dos
olhos teus, a seguir os dois cantam Saia do Caminho, depois Toquinho e Miúcha cantam Samba pra
Vinícius, numa bela homenagem ao poetinha, depois os quatros cantam Vai Levando, a seguir o Tom e o
Vinícius cantam a clássica Água de Beber e a inevitável Garota de Ipanema, relembrando a bela Helô
Pinheiro, a eterna Garota de Ipanema, depois os quatros cantam Sei lá, depois Vinícius e Miúcha cantam
a também bela Minha Namorada, depois os quatros cantam as fenomenais Chega de Saudade e Se todos
fossem iguais a você e encerram cantando de novo Estamos aí. Esse show fez tanto sucesso, que acabou
sendo levado pra vários lugares do país e até no exterior.

Em 1979, Tom e a Miúcha lançam mais um disco junto: MIÚCHA & TOM JOBIM, as músicas do disco
são: a engraçada Turma do funil, que é uma adaptação que o Tom e o Chico fizeram da clássica
marchinha de carnaval do mesmo nome, a música tem participação do próprio Chico Buarque, Triste
Alegria, da própria Miúcha, Aula de matemática, do Tom e do Marino Pinto, Sublime tortura, do
Bororó, Madrugada, de Candinho e do Marino Pinto, Samba do Carioca, do Carlos Lyra e do Vinícius
de Moraes, a bela Falando de amor, do Tom, Nó cego, de Cacaso e de Toquinho e a bela e
surpreendente musica Dinheiro em penca, uma moda de viola do Cacaso e do Tom Jobim, com
participação do Chico Buarque./

Também em 1979, Toquinho e Vinícius lançam o belo disco 10 ANOS DE TOQUINHO & VINICIUS,
que comemora os 10 anos da brilhante parceria entre os dois. As músicas do disco são: um pout-pourri
que mistura A benção Bahia, Tarde em Itapuã, Tatamirô, Meu pai Oxalá, Canto de Oxum, Maria vai
com as outras e de novo A benção Bahia, depois há mais um pout-pourri, que mistura Um homem
chamado Alfredo, Sei lá e O poeta aprendiz, depois há mais um pout-pourri, que mistura O velho e a
flor, Veja você e Mais um adeus, depois eles cantam o belo Samba de Orly, a Tonga da Mironga do
Kabuletê, depois há mais um pout-pourri, que mistura Como dizia o poeta, Testamento, Para viver um
grande amor, Morena flor, Samba da volta e Regra três, depois há mais um pout-pourri, que mistura
São demais um perigo dessa vida, As cores de abril e O filho que eu quero ter, depois há um último
pout-pourri que mistura Chorando pra Pixinguinha, Choro chorado para Paulinho Nogueira e Carta ao
Tom, o disco termina com Cotidiano n º 2.

No mesmo ano acontece um fato histórico: o governo militar aqui no Brasil concede anistia a todos os
que foram exilados para fora do Brasil, com isso é o fim do AI-5. O hino da anistia é O bêbado e a
equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, interpretado de forma brilhante por Elis Regina.

Em 1980, João Gilberto faz mais um disco maravilhoso: JOÃO GILBERTO PRADO PEREIRA DE
OLIVEIRA, é um disco ao vivo tirado de um especial da TV Globo em homenagem a João Gilberto, as
músicas do disco são: Menino do Rio, de Caetano Veloso, Curare, de Bororó, Retrato em branco e
preto, uma gravação espetacular de Chega de Saudade, cantando ao lado da filha Bebel Gilberto,
Desafinado, O Pato, a belíssima Eu e a brisa, de Johnny Alf, Jou Jou Balangadás, de Lamartine Babo,
ao lado da cantora Rita Lee, num inesperado e sensacional dueto a bela Canta Brasil, a sempre
emocionante Aquarela do Brasil, Bahia com H, de Denis Brean, Tim tim por tim tim, de Haroldo
Barbosa e Geralgo Jacques e o belíssimo bolero Estate, de Bruno Martino e Bruno Brighetti, cantado
em espanhol./
Também em 1980, com 12 anos de atraso, o Brasil finalmente conhece uma cantora e compositora
maravilhosa: a legendária Joyce. Joyce gravou seu primeiro disco em 1968, mas o sucesso popular só
veio com esse maravilhoso disco chamado FEMININA. Nesse disco, Joyce mostrou aos brasileiros, que
é um país machista, que uma mulher poderia ser não só uma grande intérprete, mas uma extraordinária
compositora como ela é. As faixas desse disco são: a esplendorosa Feminina, o manifesto feminista da
Joyce, que acabaria depois sendo sua música mais famosa em todo mundo, Mistérios, a bela e simples
Clareana, uma espécie de canção de ninar para as filhas: Clara Moreno e Ana Martins, a brasileiríssima
Banana, Revendo amigos, a maravilhosa Essa mulher que foi gravada pela Elis Regina, Coração de
criança, Da cor brasileira, a espetacular Aldeia de Ogum, uma música instrumental que tem o espírito
dos afrosambas de Baden e Vinícius de Moraes e no final tem a música Compor. Apesar do grande
sucesso desse disco, especialmente das músicas Feminina e Clareana, Joyce hoje em dia evita gravar
músicas desse disco. Ela falou em uma entrevista que não gosta de gravar essas músicas hoje em dia,
pois ela quer gravar músicas novas e hoje acha essas músicas meio ultrapassadas especialmente
Clareana, ela falou que atualmente não compõe músicas como naquela época. Outro motivo que ela
explicou, é que quando essas músicas Clareana e Feminina fizeram um grande sucesso no Brasil, o
diretor da gravadora dela na época falou que queria mais músicas como essas a cada três meses, o que
ela ficou brava e saiu da gravadora e alguns anos depois ela sairia do Brasil e iria fazer uma carreira
internacional fazendo grande sucesso mundial, especialmente na Europa e no Japão./

No mesmo ano é lançado o disco ARCA DE NOÉ, que era um programa infantil de televisão da Rede
Globo, que foi baseado num livro de Vinícius de Moraes e só tinha músicas de Toquinho e Vinícius. O
disco tem várias participações e as músicas são: A arca de Noé, cantada por Chico Buarque e Milton
Nascimento, O Pato, numa gravação antológica do MPB-4, A corujinha, com Elis Regina, A foca, com
Alceu Valença, As abelhas, com Moraes Moreira, A pulga, com Bebel Gilberto, Aula de piano, com as
Frenéticas, A porta, com Fábio Júnior, a clássica A Casa, com o Boca Livre, São Francisco, com Ney
Matogrosso, O gato, com a Marina Lima, O relógio, com Walter Franco, Menininha, com Toquinho e O
final, orquestrado./

Também em 1980, Tom Jobim lança o belo disco duplo TERRA BRASILIS, que reúne todas as fases de
sua carreira até então, as músicas do disco são: Dreamer, versão em inglês de Vivo Sonhando, Canta,
canta mais, Olha Maria, Samba de uma nota só, Dindi, Quiet nights of quiet stars, Marina del Rey, Off
key, versão em inglês de Desafinado, a linda Você vai ver, onde canta com a mulher Ana Lontra Jobim,
uma versão instrumental belíssima de Estrada do Sol, uma versão meio soul de Garota de Ipanema com
piano elétrico, Chovendo na roseira, Triste, Wave, Someone to light up my life, Falando de Amor, a
fenomenal e até então inédita Two Kites, música originalmente em inglês onde ele fala das “coxas
celestiais” da mulher amada, Modinha, Sabiá e Estrada Branca. Esse foi o último disco que o Tom fez
com arranjos do Claus Orgeman. A bela capa do disco foi feita pelo filho Paulo Jobim./
No mesmo ano, no dia 9 de Julho, acontece mais um fato importante: morre o poeta Vinícius de Moraes,
já vinha tempo que ele não estava bem, vivia mal por causa da bebida, várias vezes os médicos pediram
para ele parar de beber, ele parava, mas quando melhorava tomava de novo. No dia 8 de Julho, ele e
Toquinho, estavam na sua casa no Rio de Janeiro, fazendo os últimos reparos para a trilha sonora da
Arca de Noé, já era bem tarde quando acabaram e Vinícius falou que ia tomar um banho e então
Toquinho foi dormir. Ao amanhecer, a empregada de Vinícius o encontra esparramado em sua banheira
e grita para a mulher de Vinícius e Toquinho para ir correndo, Toquinho ainda encontra Vinícius vivo,
mas logo depois ele morre. Foi uma comoção nacional a morte do poetinha. No enterro, uma atriz joga
uns goles de uísque no caixão, uns aplaudem, mas muitos vaiam. É sua última dose de uísque. Tom
Jobim, seu grande amigo e parceiro não foi ao enterro, como os dois tinham combinados antes, quem
morresse primeiro não iria ao enterro do outro. Ele sofreu muito com a morte do Vinícius, tanto que ele
voltou a beber e só a companhia da família fez ele melhorar da tristeza da perda do poetinha. Vinícius
viveu intensamente, mesmo sabendo que estava mal por causa da bebida ele continuava até a morte, tem
uma frase de uma música do Vinícius em parceria com Toquinho, que reflete bem isso: “Quem já
passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra
quem se deu pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.”
Logo depois o escritor capixaba Rubem Braga, grande amigo do Vinícius, escreve:
Recado de primavera

Meu caro Vinicius de Moraes:


Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma noticia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a
primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua,
que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a
moda voltou-se nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma lestada
muito forte, depois veio um sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de
espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris. O tempo vai passando poeta.
Chega a Primaveira nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um
pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.
No ano de 1981, acontece mais um encontro histórico: de Tom Jobim e Edu Lobo, que fazem junto o
belíssimo disco: EDU & TOM. O disco foi produzido por ninguém menos que o grande Aloysio de
Oliveira, as músicas do disco são: a então inédita Ai quem me dera, do Tom e do Marino Pinto, Pra
dizer adeus, clássico do Edu Lobo com Torquato Neto, a belíssima Chovendo na Roseira, do Tom, só
com Edu cantando, Moto contínuo, do Edu Lobo e do Chico Buarque, a também desconhecida Ângela,
do Tom, só com o Tom cantando, a espetacular Luiza, também do Tom, em sua melhor gravação,
Canção do Amanhecer, do Edu Lobo e do Vinícius de Moraes, Vento bravo, do Edu Lobo e do Paulo
César Pinheiro, É preciso dizer adeus, do Tom e do Vinícius e Canto Triste, do Edu Lobo e do Vinícius.
Quando eles estão gravando a música Vento bravo o Tom fala: “A gente tocando estes pianinhos de
brinquedo (por que estavam tocando teclado) eu estudei tantos anos de piano, e agora estou tocando
nesses pianinhos de brinquedo.”. Outra história interessante na gravação desse disco foi que tinha um
grupo de rock tava gravando no estúdio ao lado e todos muito sérios, com ropuas pretas, óculos escuros.
E o Tom falou: “Que engraçado, a gente aqui cantando essas baladas dilacerantes morrendo de rir, e eles
tocando aquelas coisas lá, tristíssimos”./

Também no ano de 1981, sai o disco ARCA DE NOÉ 2, com as músicas que Vinícius tinha deixado
antes de morrer. As músicas do disco são: A arca de Noé, com Dioniso Azevedo, O leão, com Fagner, O
pingüim, com Toquinho, A cachorrinha, com Tom Jobim, O girassol, com Jane Duboc, O ar, com o
Boca Livre e o próprio Vinícius, O peru, com Elba Ramalho, O porquinho, com Grande Othelo, A
galinha d'angola, com Ney Matogrosso, A formiga, com Clara Nunes, Os bichinhos e o homem, com
Céu da Boca e O filho que eu quero ter, com Paulinho da Viola.

Também em 1981, João Gilberto lança mais um disco sensacional: BRASIL, junto com Caetano Veloso
e Gilberto Gil. Esse disco é em clima bem baiano com músicas antigas e a presença de seus
conterrâneos, além da participação de Maria Bethânia. As músicas desse disco são: O grande clássico
Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, a bela Disse alguém, versão em português de All of me, a
maravilhosa Bahia com H, de Denis Brean, a também maravilhosa No tabuleiro da baiana, também do
Ary Barroso, com participação da Maria Bethânia, depois a sensacional Milagre, de Dorival Caymmi e
pra finalizar o disco Cordeiro de Nanã, de Mateus e Dadinho
Até esse ano de 1981, mesmo com esses vários fatores que fizeram a Bossa Nova entrar em crise no
Brasil, ela ainda está firme e tem vários adoradores. Mas no ano de 1982, surge um novo ritmo que
deixaria a Bossa Nova de lado de vez: o Pop-Rock brasileiro. Apesar de que a maioria desses artistas do
Pop-Rock, terem sido influenciados pela Bossa Nova, especialmente por João Donato, Sérgio Mendes e
Jorge Ben. Eles também são bastante influenciados pela Tropicalia. O Pop-Rock brasileiro nasceu com
a explosão do grupo Blitz, logo surgiriam nomes como Lulu Santos, que ao lado de Nelson Motta, faz a
bossanovística Como uma onda, surgiriam os grupos Kid Abelha, RPM, Titãs, Barão Vermelho, que
teve o grande Cazuza, que adorava Bossa Nova e a cantora Marina Lima que é fã de Tom Jobim. De
Brasília, surgem os grupos Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e o mais famoso grupo de Pop-Rock
nacional: Legião Urbana, que teve Renato Russo como vocalista.
Ainda nos anos 80, aconteceu o resgate de um mestre: João Donato, que teve várias de suas músicas
ganhando letras de grandes parceiros. Como por exemplo: Cadê Você, com Chico Buarque, A rã, com
Caetano Veloso, A paz e Bananeira, com Gilberto Gil./
Em 1982, morre a sensacional Elis Regina. Com apenas 36 anos morrendo de overdose de cocaína
misturada com uísque, sendo que a morte dela causa uma grande comoção em todo Brasil. Ainda hoje é
difícil de acreditar que a maior cantora que o Brasil já teve morreu tão nova e de forma tão trágica, mas
até hoje há milhões de fãs apaixonados da maior cantora do Brasil e uma das maiores do mundo. Um
exemplo disso é o enorme número de cantoras que foram e são influenciados pela Elis como: Leila
Pinheiro, Cássia Eller, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, entre outras e pasmem até a
Madonna, a Bjork, a Diana Krall e a Norah Jones.

Em 1983, Tom Jobim compõs a trilha sonora do filme GABRIELA, CRAVO E CANELA, que foi
dirigido por Bruno Barreto. O filme foi baseado na obra do genial Jorge Amado. A trilha sonora do
filme tem participação especial da Gal Costa. As músicas do filme são: Chegada dos retirantes, Tema
de amor de Gabriela, com a Gal, Pulando carniça, Pensando na vida, Casório, também com a Gal,
Origens, também com a Gal, Ataque dos jagunços, Caminho da mata, Ilhéus e a versão completa
belíssima do Tema de amor de Gabriela, também com a Gal.

Também em 1983, Tom participa, com Chico Buarque da trilha sonora do filme de Miguel Faria, PARA
VIVER UM GRANDE AMOR. As músicas desse disco são: Samba do carioca, clássico do Carlos Lyra
e do Vinícius, Sabe você, também do Carlos Lyra e do Vinícius, Sinhazinha, do Chico Buarque, Desejo
do Djavan, a bela A violeira, do Tom e do Chico, a sensacional Imagina, que era a primeira música que
o Tom tinha feito em 1947 ainda sem nome e mandou pro Chico fazer letra, Tanta saudade, do Chico e
do Djavan, A primavera, também do Carlos Lyra e do Vinícius, Samba do grande amor, também do
Chico e Meninos, eu vi, do Tom e do Chico.//

Em 1984, Tom Jobim forma a Nova Banda. Tudo começou quando o maestro Peter Guith o convidou
pra apresentar em Viena, ao lado Orquestra Sinfônica de Viena. Tom falou com o Peter e disse que
levaria o cantor e flautista Danilo Caymmi e também seu filho Paulo Jobim, que tocaria violão. O
maestro aceitou, mas Tom não estava ainda satisfeito. Resolveu chamar o baixista Tião Neto e o
baterista Paulo Braga. Novamente, Tom falou com o Peter e ele aceitou levar mais dois músicos. Em um
dos ensaios, olhou para Ana e disse: “Vem cantar comigo.” Tom percebeu que o caminho estava certo.
Trocar os metais por vozes. Na mesma noite, chamou sua filha Beth pra cantar no ensaio seguinte.
Simone Caymmi, mulher do Danilo, também foi convidada. Estava pronto o coro. Estava criada a
Banda Nova, que faria sucesso acompanhando o Tom pelo mundo afora. Depois Tom colocou ainda
Jacques Morelenbaun no violoncelo, e no coro acrescentou as cantoras Paula Morelenbaum e a Maucha
Adnet./
Em 1985, Tom Jobim grava a trilha sonora do seriado da TV Globo, O TEMPO E O VENTO. As
músicas desse disco maravilhoso são: Introdução, música feita baseada no texto de Érico Veríssimo, um
trecho de O tempo e o vento ( Passarim), a bela instrumental Chanson pour Michelle, Rodrigo meu
capitão, cantada pelo cantor Zé Renato, Um certo capitão Rodrigo, cantado pela dupla Kleiton e Kledir,
Minuano, uma música folclórica gaúcha, tocada pelo Borghetti, a versão instrumental de O tempo e o
vento (Passarim), a espetacular Bangzália, Querência (Boi Barroso), outra música folclórica gaúcha e
no final a versão completa de O tempo e o vento (Passarim).
Também em 1985, surge uma cantora paraense maravilhosa: Leila Pinheiro. Ela ganha o prêmio de
revelação no Festival dos Festivais, da TV Globo, com a belíssima música Verde. Dois anos antes, Leila
Pinheiro gravou um disco de forma independente./
Em 1986, acontece um encontro maravilhoso entre Cazuza (ex-vocalista do Barão Vermelho) e a filha
de João Gilberto - Bebel Gilberto, que o Cazuza considerava sua melhor amiga, como uma irmã. Eles
lançam um disco muito bom, com composições próprias com o Dé, namorado de Bebel. É o primeiro
disco que Bebel faz. O disco se chama BEBEL GILBERTO. As músicas do disco são: a belíssima Mais
Feliz, que anos mais tarde faria um enorme sucesso com a cantora Adriana Calcanhoto, Nós, do Cazuza
e do Frejat, Amigos de bar, a também belíssima Eu preciso dizer que te amo, que depois faria sucesso
na voz da cantora Marina Lima e Tua na lua.

Também em 1986, o Brasil tem uma surpresa enorme: na trilha da novela Hipertensão, da TV Globo
tem o João Gilberto cantando me chama, do Lobão. É um choque enorme, logo o João que sempre foi
acusado de puritano, fez uma versão Bossa Nova da música do roqueiro Lobão. Acaba sendo a primeira
gravação de uma música rock dos anos 80 feita por um grande nome da Bossa Nova.

Ainda em 1986, morre o grande arranjador e amigo do Tom Jobim: Radamés Gnatalli, que foi sem
dúvida, um dos maiores precursores da Bossa Nova.

Para homenagear o amigo, Tom fez esse poema:

Radar é água alta.


É fonte que nunca seca.
É cachoeira de amor.
É chorão rei de peteca.
O Radar é concertista,
compositor, pianista,
orquestrador, maestrão.
E, mais que tudo, é amigo,
Navega junto contigo,
É conta de doação.
Ajuda a todo mundo
E mais ajudou a mim.
Alô, Radar, eu te ligo
Vamos tomar um chopinho
Aqui fala o Tom Jobim/
Em 1987, Tom Jobim lança um disco memorável, ao lado da sua Banda Nova: PASSARIM. O disco é
maravilhoso e mostra claramente o lado Villa-Lobos de Tom Jobim, com várias músicas ecológicas. As
músicas do disco são: a belíssima Passarim, a também bela Bebel, a fenomenal Borzeguim, a
espetacular Anos Dourados, música que Tom fez ao lado de Chico Buarque para a minissérie da TV
Globo de mesmo nome, com a participação do próprio Chico, Isabella, de Paulo Jobim, Fascinatin'
Rhytm, de George e Ira Gershwin, a fenomenal e engraçada Chansong, uma música de três línguas:
inglês, francês e português, Samba do Soho, de Paulo Jobim, a maravilhosa Luiza, o também belo Brasil
Nativo, de Danilo Caymmi e a fenomenal Gabriela, do filme de mesmo nome.
No mesmo ano sai o belo disco duplo TOM JOBIM INÉDITO, que foi lançado para comemorar os 60
anos de idade de Tom Jobim.
O disco contém gravações inéditas de várias músicas do Tom e tem ele ao lado da sua Banda Nova. As
músicas do disco são: Wave, Chega de saudade, Sabiá, Samba do Avião, Garota de Ipanema, Retrato
em branco e preto, Seresta n.º 5, do maravilhoso Heitor Villa Lobos, Modinha, Canta, canta mais, Eu
não existo sem você, Por causa de você, Sucedeu Assim, Imagina, Eu sei que vou te amar, Canção do
amor demais, Falando de amor, Inútil Paisagem, Derradeira Primavera, Canção em modo menor,
Estrada do sol, Águas de Março, Samba de uma nota só, Desafinado e A felicidade.

/Em 1989, a cantora Leila Pinheiro lança seu primeiro disco todo dedicado a Bossa Nova, que se chama
BENÇÃO BOSSA NOVA. Cada faixa do disco é um pout-porri dedicado à um grande nome da Bossa
Nova. As músicas do disco são: o primeiro é uma homenagem ao Carlos Lyra, que tem: Lobo Bobo,
Saudade fez um samba e Você e eu, o segundo é uma homenagem ao Tom Jobim, que tem: O amor em
paz, Meditação, Corcovado e Ela é carioca, o terceiro é uma homenagem ao Edu Lobo, que tem: Prá
dizer adeus e Candeia, depois uma homenagem ao Marcos Valle, que tem: Preciso aprender a ser só,
Samba de Verão e Gente, depois uma homenagem ao Durval Ferreira, que tem: Batida diferente, Moça
flor e Tristeza de nós dois, depois uma homenagem a Jorge Ben, que tem: Que maravilha, Chove chuva
e Mas que nada, depois uma homenagem ao Johnny Alf, que tem: Ilusão a toa e O que amar, depois
uma homenagem ao Roberto Menescal e ao Ronaldo Boscoli, que tem: Ah! Se eu pudesse, O barquinho,
Você e Nós e o amar, depois uma homenagem ao João Donato, que tem: Mentiras e Até quem sabe, por
último uma homenagem ao Baden Powell e ao Vinícius de Moraes, que tem Prá que chorar, Tem dó e
Samba da Benção. Esse disco de certa forma, acabou levando a Bossa Nova aos mais jovens, pois o
disco vendeu mais de 250 mil cópias./

Também em 1989, morre a cantora Nara Leão, aos 47 anos, com um tumor no cérebro. O estado de
saúde de Nara há uns 10 anos não chegara a ser segredo, mas vinha sendo cuidadosamente pra que não
se transformasse em manchetes. Em 1979, ela sofrera uma vertigem e desmaiara em seu apartamento
em Ipanema. Na queda, ela feriu o rosto e foi levada para um hospital, já em convulsões sucessivas. Os
diagnósticos foram tantos e tão discrepantes que ninguém se entendeu: ela teria problemas cardíacos,
um coágulo no cérebro, embolia e tudo era grave. Mas foi confirmado o tumor no cérebro. Naquele
mesmo ano Nara tinha acabado de gravar o disco MY FOOLISH HEART, com versões em português de
clássicos americanos, exigência dos japoneses. Sem dúvida foi outra perda e tanto para a Bossa Nova,
que perdeu a sua musa.
No mesmo ano o grande Jorge Ben, mudou o nome para Jorge Ben Jor. Um ano depois, Jorge Ben Jor
faz o grande sucesso W/ Brasil, que acaba virando uma febre no início dos anos 90.
/Em 1990, Tim Maia, lança o belo disco TIM MAIA INTERPRETA OS CLÁSSICOS DA BOSSA
NOVA, é seu primeiro disco cantando Bossa Nova. As músicas do disco são: Folha de Papel, Eu e a
brisa, A rã, A rã II, Minha namorada, Useless Landscape, Wave, The girl from Ipanema, Samba da
pergunta e Meditação.
Os anos 90 começam muito mal para a música brasileira. Começa a aparecer novos ritmos e novos
cantores e bandas que fazem um sucesso muito grande e logo desaparecem. Surgem então as músicas
comerciais de gosto bastante duvidosos. O primeiro deles é a Lambada, que quando aparece é um
enorme sucesso que tem o cantor Beto Barbosa como destaque. Logo depois surge a terrível música
sertaneja, que de sertanejo não tem nada. O que tem é uma mistura de bolero e samba-canção, voltando
os cantores de voz grossa e falando de várias desilusões amorosas. Surgem então as duplas Chitãozinho
e Xororó, Leandro e Leornardo, Zezé di Camargo e Luciano, entre outros. O grande Nelson Mota
chamou o sertanejo de "breganejo", que é realmente o que ele é.

Pouco depois lá da Bahia, terra de Caymmi e João Gilberto surge o Axé music. No início era até um
ritmo interessante com os batuques do Olodum e da Timbalada, do compositor Carlinhos Brown e da
cantora Daniela Mercury, mas logo o Axé se perde e surgem várias bandas "rebolantes", que cantavam
muito mal e tinha várias mulheres bonitas que só sabiam rebolar e mais nada. Surge então o Gera
Samba, que depois se transforma em É o tchan, Companhia do Pagode, Araketu, entre outros. As letras
das músicas incitavam o sexo e encantando principalmente às crianças.

Depois, surge o chamado Pagode paulistano, que várias bandas que faziam músicas horríveis e
cantavam muito mal fazem um grande sucesso e vendem muito, como: Raça Negra, Só Pra Contrariar,
Soweto, Molejo, entre outros.
Ao mesmo tempo em que esses cantores e bandas medíocres invadem a rádio e a televisão brasileira
aparece grandes cantores e compositores que dá um sinal de esperança a música brasileira, que vive um
momento difícil: como por exemplo: a sensacional cantora Marisa Monte, que é fã da Bossa Nova e da
Tropicália, cujo disco foi apadrinhado pelo grande Nelson Mota, que faz músicas maravilhosas como
Bem que se quis. Também surge o grande Ed Mota, sobrinho do Tim Maia, que mistura soul music,
Bossa Nova e Rock. Também surgem as cantoras Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, entre outras.

Aparecem belas bandas como Skank, o maior sucesso do Pop-rock nacional dos anos 90, e a banda de
reggae Cidade Negra.

Mas, a melhor coisa que surgiu nos anos 90 foi o movimento mangue beat, esse movimento surgiu nas
ruas de Recife, a "manguetown". O principal nome do mangue beat foi o grande Chico Sciense ao lado
de sua Nação Zumbi. O mangue beat misturava Maracatu, música eletrônica, Rock, Tropicalia, entre
outros. Além do Chico Sciense e da Nação Zumbi, surgiram nomes como: Mundo Livre, Lenine, Naná
Vasconcelos, DJ Dolores, entre outros. A música que melhor representa o movimento é Maracatu
Atômico, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Além dessa também tem músicas como: A Cidade,
Praiera, Samba Makossa e Manguetown. O mangue beat sofreria um grande revés em 97, com a morte
de seu maior mestre Chico Sciense, mas aparecem nomes como Lenine, Otto, O Rappa, Planet Hemp,
Charlie Brown Jr, além da Nação Zumbi (sem o Chico) e o Mundo Livre S/A.

No meio desse marasmo na música brasileira e na política brasileira, com sertanejo e Collor, entre
outros, em 1990 sai o belíssimo livro Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, do
Ruy Castro. Sem dúvida esse livro é a bíblia da Bossa Nova e ajudou muito os jovens descobrirem esse
som maravilhoso. Esse livro ajudou até o João Gilberto a sair da “fortaleza” do seu flat no Leblon. João
ficava recluso no seu flat, de pijama, vendo jornais, jogos e lutas de boxe com quase nenhuma visita.
Têm varias histórias de pessoas que tentaram entrar no seu flat e não o conseguiram ver. Pouquíssimas
pessoas conseguiram esse feito. O máximo que João fazia era atender o telefone, nisso ele ficava horas
conversando, cantando, o próprio Ruy Castro falou que o João saía, ficava uma meia hora fora e depois
voltava, as vezes falando em castelhano. Mas ninguém conseguia delsigar o telefone pois o João tem o
magnetismo de prender as pessoas com quem fala.O Roberto Menescal falou pro Ruy Castro: “Cuidado
com ele. É uma cobra, hipnotiza pelo telefone.” Tinha quase dez anos que ele não gravava um disco de
estúdio, mas Mayrton Bahia, diretor artístico da Polygram afixara no quadro da gravadora o aviso com
o dia e a hora do comparecimento do João ao estúdio. Ao ler os avisos, os funcionários da Polygram
disfarçavam pra ninguém perceber seus risos. Porque era o João Gilberto e marcara a gravação para as
23:00. O pessoal da Polygram correu um bolão com apostas sobre se ele estaria ou não no estúdio. Pois
quem apostou no João ganhou.

/
Ele compareceu no estúdio, a partir dali, naquela e nas noites seguintes gravou tranquilamente as doze
faixas do disco que se chamaria JOÃO. Mas esse disco demoraria um ano pra sair, graças a incrível
preciosismo do João nas gravações, chegando ao ponto de ter 10 gravações diferentes de uma mesma
música, sendo que João escolheria a primeira. O disco demorou a sair, mas foi mais um belíssimo disco
do João Gilberto, sendo que nenhuma música era Bossa Nova mesmo. Ele gravou três músicas bem
conhecidas que já foram muito tocadas, quatro canções estrangeiras, também com longa experiência em
embalar casais de namorados. Mas as faixas restantes é que eram as jóias da coroa – cinco preciosidades
da música brasileira. As músicas do disco eram: a maravilhosa e rara Eu sambo mesmo, de Haroldo
Barbosa e Janet de Almeida, a também bela e desconhecida Siga, de Fernando Lobo e Hélio Guimarães,
depois tem a também rara Rosinha, de Jonas Silva, ex-integrante do Garotos da Lua, no qual foi
substituído em 1950 pelo próprio João Gilberto, depois tem o bolero italiano Málaga, de Fred
Bongusto, depois tem outro bolero: a bela Una mujer, do francês Paul Misraki, depois tem a rara Eu e
meu coração, de Inaldo Vilarinho e de Toninho Botelho, colega de pescaria dos meninos da Bossa
Nova,.depois tem o clássico You do something to me, de ninguém menos que Cole Porter, música
maravilhosa de 1929, depois tem a também clássica Palpite infeliz, de Noel Rosa, numa gravação
expetacular, o primeiro samba de Noel na voz de um nome importante da Bossa Nova, que abriu a porta
pra muitos outros depois gravarem músicas do Noel, depois tem a belíssima Ave Maria no morro,
clássico de Herivelto Martins, depois tem a também maravilhosa e clássica Sampa, de Caetano Veloso,
sendo que essa música é a mais nova do disco de 1977, outra gravação expetacular do João, a também
maravilhosa e rara Sorriu para mim, do lendário Garoto e no final o super clássico francês Que reste-t-il
de nos amours, de Charles Trenet, música que ficou ainda melhor na voz do João./

No mesmo ano de 1991, o produtor Almir Chediak, funda a Lumiar discos e começa a produzir
songbooks de grandes nomes da nossa música, interpretado por diversos músicos brasileiros dos mais
diferentes estilos. O primeiro songbook é o do Noel Rosa e sai também em 91. Nesse disco têm duas
gravações de Tom Jobim: a sensacional Três apitos e a também bela João Ninguém, pela primeira vez o
Tom gravava músicas do Noel, uma paixão antiga que por causa da Bossa Nova e do enorme ligamento
do Tom com Ary Barroso e Dorival Caymmi, tinha ficado no esquecimento. Mas Tom gravou essas
músicas de uma maneira que deixou todos fascinados, sendo que Almir Chediak chegou a oferecer uma
letra de uma música do Noel, pra o Tom colocar letra! Seria uma parceria e tanto: Tom Jobim e Noel
Rosa, mas Tom acabou desistindo, o Tom chegou até a pensar em fazer um disco inteiro só de músicas
do Noel, mas por problemas com a gravadora, Tom também teve que desistir. Foi uma pena.

/
Também em 1991, a maravilhosa Joyce é procurada pela lendária gravadora americana Verve pra lançar
um disco nos EUA, com vários músicos de Jazz. Como era de se esperar, o disco foi espetacular e se
chama LÍNGUAS E AMORES. O disco é uma belíssima ponte entre esses dois mundos: o Brasil e os
EUA. O disco começa logo com a fenomenal Caymmis, música que a Joyce fez como é pra se imaginar
em homenagem ao grande Dorival Caymmi, com citação da belíssima O mar, clássico de Caymmi,
depois tem a faixa título a bela Línguas e amores, também da Joyce, uma música que fala as belezas da
língua portuguesa, inglesa e outras pelo mundo, depois tem a expetacular Táxi driver, também da Joyce,
uma música em inglês com pedaço em português, com direito a rap do cantor de jazz Jon Hendricks,
que é um samba jazz maravilhoso, sem dúvida a melhor música do disco, depois tem a também bela
Desafinada, do Mário Adnet e do Cláudio Nucci, inspirada, claro no clássico Desafinado, do Tom e do
Newton Mendonça, depois tem uma surpresa, a Joyce cantando Chica-chica boom, que ficou famosa no
mundo inteiro na voz da Carmem Miranda, depois tem a também bela Na casa do campeão, música
também da Joyce, depois tem a instrumental Bailarina, também da Joyce, depois tem também a bela
Duas ou três coisas, também da Joyce, depois tem a maravilhosa Arrebenta, também da Joyce e pra
fechar o disco com chave de ouro tem a expetacular Chansong, do nosso maestro soberano Tom Jobim,
que fala justamente de línguas e amores.

/Em 1992, Tom Jobim lança ao lado da sua Banda Nova, o expetacular disco RIO REVISITED, lançado
de um show no templo do jazz Wiltern Theatre ao vivo em Los Angeles em 1987, sendo que esse tour
chegou até ao programa do David Letterman, que é o programa mais visto na TV americana. O disco
tem participação especialíssima da Gal Gosta que Tom apresenta como “a pretty flower from Bahia: our
friend Gal Costa” em excelente fase. As músicas desse disco são: One note Samba, Desafinado, Água
de beber, uma interpretação maravilhosa de Dindi, feita pela Gal, Wave, também cantada pela Gal, uma
maravilhosa gravação do Tom em Chega de saudade, outro show em Two kites, sendo que Tom,
agradece a bela cidade de Los Angeles que ele morou durante dois anos e pede desculpas pelo seu
inglês, Samba do Soho, em inglês cantada pelo Paulo Jobim, Sabiá, uma interpretacao de arrepiar do
Danilo Caymmi em Samba do Avião, com direito a um “táxi”, falado pelo Tom no final da música,
Águas de Março, em inglês, numa gravação também maravilhosa e Corcovado, cantada pelo Tom e pela
Gal Costa.

No verão de 1992, acontece um momento mágico. Tom está tocando na praia do Arpoador, a sua praia
de infância, para uma multidão maravilhada por aquelas canções, que eram, na verdade, a cara do Rio.
Tom começou a cantar Samba do avião, acompanhado por milhares de pessoas na areia. Naquele exato
momento, um aviãozinho da Ponte Áerea sobrevoou a praia, mais baixo que de costume e piscando
luzes coloridas. A platéia foi ao delírio. Ninguém poderia ter produzido aquilo.

Em 1993 a Estação Primeira de Mangueira, homenageia o mestre Antônio Carlos Jobim no carnaval
carioca. Naquela época, Tom estava sendo homenageado em todos os cantos do Brasil. O contato foi
feito, Tom adorou a idéia, fez a música Piano na mangueira, junto com Chico Buarque, que acabaria
sendo seu último sucesso. Momentos antes do desfile, Tom avisa que só entra na avenida com um
comprimido de isordil debaixo da língua. O compositor até que tenta conter a emoção, mas todas as
preocupações caem por terra quando ele sobe ao topo do carro alegórico. Do alto, o Tom da Mangueira,
como canta a multidão de integrantes da verde e rosa, constata que não dá mesmo para segurar a
emoção. Inclusive, Tom diz que foi a maior emoção de sua vida.
A letra da música do Tom da Mangueira:
Mangueira vai deixar saudade
Quando o Carnaval chegar ao fim
Quero me perder na fantasia
Que invade os poemas de Jobim
Amanheceu
O Rio canta de alegria
Aconteceu
A mais linda sinfonia
O sol já despontou na serra
Dourando o seu corpo sedutor
O mar beija a garota de Ipanema
A musa de um sonhador
É carnaval
É a doce ilusão
É promessa de vida no meu coração
Vem, vem amar a liberdade...
Vem cantar e sorrir
Ver um mundo melhor
Vem, meu coração está em festa...
Eu sou a Mangueira em Tom maior
Salve o samba de terreiro
Salve o Rio de Janeiro
Seus recantos naturais

No mesmo, Chico Buarque faz a belíssima música Paratodos, que é uma homenagem aos grandes
nomes da música brasileira, especialmente Tom Jobim, a quem o chama com toda justiça de Maestro
Soberano.

/Também em 1993, sai o songbook do Vinícius de Moraes, as músicas do disco são: disco 1 - Chega de
Saudade, Se todos fossem iguais a você, A felicidade, Estrada branca, Valsinha, Caminho de pedra,
Carta ao Tom, Apelo, O velho e a flor/ Vejo você/ Mais um adeus, O nosso amor, Lamento, Soneto de
Separação, Tempo Feliz, Teleco-teco e Samba da benção. Disco 2 - Onde anda você, Eu não existo sem
você, Samba do pouso, Eu sei que vou te amar, Só danço Samba, Valsa sem nome, Samba em prelúdio,
Chora Coração, Serenata do Adeus, Olha Maria, Arrastão, Canção do amanhecer, O morro não tem
vez, Cartão de visita, Quando tu passas por mim e Formosa. Disco 3 - Tem dó, Sem você, Canto triste,
Medo de amar, Janelas abertas, Derradeira Primavera, Modinha, Amor em paz, Insensatez, Garota de
Ipanema, É preciso dizer adeus, Gente humilde, Valsa de Eirídicie, Água de beber, Por toda minha vida,
O que tinha de ser, Eu te amo amor, Ela é Carioca e Bom dia tristeza. Os 3 volumes tem participação de
músicos do naipe de: Tom Jobim, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Joyce, Miúcha, Quarteto em CY, Toquinho,
MPB-4, Emílio Santiago, Carlos Lyra, Os Cariocas, João Bosco, Baden Powell, Edu Lobo, Leny
Andrade, Roberto Menescal, Wanda Sá, Chico Buarque, Tim Maia, Caetano Veloso, Gal Costa e outros.
Começa o ano de 1994. Vários acontecimentos mudariam a história do Brasil e do mundo. No Brasil,
surge o Real, uma moeda que na época valia mais que o Dólar, que foi o grande passo para o Brasil se
livrar da inflação. No mesmo ano, o Brasil é tetra campeão mundial de futebol nos EUA. Ainda em 94,
Fernando Henrique, que criou o Real, é eleito presidente da república. Morre o grande piloto Ayrton
Senna. Na música, morre um dos maiores letristas da Bossa Nova: Ronaldo Boscoli, parceiro de
Roberto Menescal, Carlos Lyra e Wilson Simonal. No mesmo ano, Tom Jobim, ao lado de sua Nova
Banda, acaba fazendo uma turnê mundial, passando por Nova York, sendo que lá ele volta a se
apresentar no Carneggie Hall, Londres, Jerusalém, Portugal, Rússia e Japão.
/No mesmo ano, a cantora Leila Pinheiro lança o belo Cd: ISSO É BOSSA NOVA, também só com
músicas de Bossa Nova. As músicas do Cd são: Ouverture, um pout-porri sensacional de abertura que
tem: Desafinado, O pato, Ela é carioca, Vivo Sonhando e Garota de Ipanema, depois tem A primeira
vez, Discussão, Amor certinho, Sem mais adeus, Caminhos cruzados, Este seu olhar, Folha de papel,
Samba da pergunta, Por quem morreu de amor, Chega de Saudade, Rapaz de Bem, Sabe Você e uma
gravação antológica de Samba do Avião.

/Ainda em 1994, João Gilberto volta a lançar um Cd. O belo disco EU SEI QUE VOU TE AMAR,
gravado ao vivo em São Paulo. O disco tem as músicas: Eu sei que vou te amar, Desafinado, Você não
sabe amar, Fotografia, Rosa Morena, Lá vem a baiana, Pra que discutir com madame, Isto aqui o que
é?, Meditação, Da cor do pecado, Guacyra, Se é por falta de adeus, Chega de saudade, A valsa de
quem não tem amor, Corcovado, Estate, O amor em paz e Aos pés da cruz.

Também em 94, sai o songbook do Carlos Lyra. As músicas do Cd são: Samba do Carioca, Quando
Chegares, Maria Ninguém, Coisa Mais Linda, Primavera, Ciúme, Canção que morre no ar, Feio não é
bonito, Saudade fez um Samba, O negócio é amar, Minha namorada, Entrudo, Influência do Jazz,
Marcha da Quarta-feira de Cinzas, Lobo bobo, Sabe você, Você e eu, Se é tarde me perdoa, Maria
Moita e Maria do Maranhão. O Cd tem participações do naipe de: Tom Jobim, Caetano Veloso, João
Bosco, Gal Costa, Tim Maia, Gilberto Gil, Joyce, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Os Cariocas, Quarteto
em CY, Emílio Santiago, Lisa Ono e outros.

/Ainda em 94, tem o disco ELIS REGINA NO FINO DA BOSSA AO VIVO, três discos, com os
melhores momentos da pimentinha no programa Fino da Bossa, na década de 60. As músicas do disco
são: Disco 1 - um pout-pourri com Terra de Ninguém e Influência do Jazz, Formosa, junto com Baden
Powell, Cyro Monteiro e o Zimbo Trio, um outro pout-pourri, com as músicas: Lá vem a baiana,
Saudade da Bahia e Das rosas, todas do Dorival Caymmi com a presença do próprio, depois têm Pra
dizer adeus, do Edu Lobo, Discussão, com a presença de Pery Ribeiro, um outro pout-pourri, com as
músicas: Insensatez, Corcovado, A felicidade, Esse seu olhar, Só em teus braços, Garota de Ipanema e
Se todos fossem iguais a você, todas do Tom, com a presença de Jair Rodrigues, depois tem Garota de
Ipanema, com o Baden Powell, Aleluia, com o Edu Lobo, Samba do avião, com o Luiz Loy Trio e o
Lennie Dalle, depois tem Vem balançar, do Walter Santos, também com o Luiz Loy Trio e por último
um pout-porri, com as músicas: Roda de samba, Despedida da Mangueira, O morro não tem vez, Zelão
e O morro com a participação do Agostinho dos Santos, da Elza Soares e o Lúcio Alves. Disco 2 -
Devagar com a louça, com Elza Soares e o Luiz Loy Trio, Mulata assanhada, com o Ataulfo Alves,
Lunik 9, também com o Luiz Loy Trio, Eu vim da Bahia, com o Gilberto Gil, um pout-pourri com as
músicas Consolação, Carcará, Aleluia e Zelão, com o Baden Powell, o Jair Rodrigues e o Zimbo Trio,
Tristeza em mim, com o Baden Powell e Rosinha de Valença, Amor em paz, com o Zimbo Trio,
Bocochê, também com o Baden, Estamos aí, também com Luiz Loy, um outro pout-pourri com as
músicas: Reza, Esse mundo é meu, Aleluia, Zambi, Tem dó, Tempo feliz, Arrastão e Menino das
Laranjas, também com o Luiz Loy, Agora ninguém chora mais, com o Jorge Ben e o Zimbo Trio e um
outro pot-pourri com as músicas: Falsa baiana e Imagem, com o Wilson Simonal. Disco 3 - Mas que
nada, também com Luiz Loy, Você, com o Pery Ribeiro, Telefone, com Os cariocas, Zé não é João, com
o Baden Powell e o Cyro Monteiro, Somewhere, com O quarteto, Sambou, sambou, com o Zimbo Trio e
o Hermeto Pascoal, depois tem um pout-pourri, com as músicas: Saudosa maloca, Luz da Light, Provas
de carinho, As mariposas, Um samba no Bixiga, Bom dia tristeza e Trem das Onze, todas do Adoniram
Barbosa, com a participação do próprio, depois tem Eu só queria saber, com a Claudette Soares, depois
tem outro pout-pourri com as músicas: Minha namorada, Primavera, Cartão de visita, Feio não é
bonito, Maria Moita, Maria ninguém, Maria do Maranhão, Aruanda e Samba do carioca, todas do
Carlos Lyra, com participação do Jair Rodrigues e do Zimbo Trio, depois tem Esse mundo é meu,
também com o Zimbo Trio e por último, mais um pout-pourri, com as músicas: Se acaso você chegasse
e Terra de ninguém, com a Elza Soares, o Jair Rodrigues e o Zimbo Trio.

/Também em 1994, tem a volta ao Brasil de uma das suas maiores cantoras e compositoras: a Joyce,
depois de uma bem sucedida excursão pela Europa e Japão, que se apresentou também em Londres,
onde a sua música Aldeia de Ogum, faz um grande sucesso nas pistas de dança. Graças ao grande
Roberto Menescal, ela lançca um disco expetacular chamado REVENDO AMIGOS, onde ela canta
vários sucessos dela em duetos com grandes nomes da música brasileira. As músicas desse disco são: a
bela Outras mulheres, parceria com Paulo César Pinheiro, que ela canta sozinha, depois tem Cartas do
exterior, onde ela canta com Emílio Santiago, depois tem Stone washed, parceria com a Monique
Hecker, onde ela canta com Sandra de Sá, depois tem a também bela Da cor brasileira, parceria com a
Ana Terra, onde ela canta ao lado da Fátima Guedes, depois tem Mistérios, parceria com Maurício
Maestro, onde ela canta com a Gal Costa, depois tem o super clássico internacional: a expetacular
Aldeia de Ogum, sucesso nas pistas de dança européias, onde ela divide com o pianista Gilson
Peranzetta, depois tem a também belíssima e famosa Clareana, parceria também com o Mauricio
Maestro, onde ela canta junto com o grupo mineiro Boca Livre, depois tem a também clássica Monsieur
Binot, onde ela canta junto com Gilberto Gil, depois tem a maravilhosa Minha gata Rita Lee, onde ela
canta ao lado da filha Clara Moreno, depois tem Duas ou três coisas, onde ela canta junto com Ney
Matogrosso, depois tem mais um grande clássico Essa mulher, parceria com a Ana Terra, que ficou
famosa na voz de Elis Regina, nesse disco ela canta junto com a Wanda Sá, depois tem a também bela
Mulheres do Brasil, onde ela canta junto com a Beth Carvalho, depois tem a também sensacional
Feminina, que também é um sucesso mundial, que ela canta sozinha e no final tem a belíssima Capitão,
que ela fez em parceria com Fernando Brant, onde ela divide os vocais com ninguém menos que Chico
Buarque, numa interpretação maravilhosa, encerrando o disco com chave de ouro.

/Em Setembro de 94, Frank Sinatra convida Tom Jobim para cantar uma música do seu Cd Duets 2, que
tinha o Frank Sinatra, cantando ao lado de grandes nomes da música mundial. Tom Jobim escolhe a
música Fly me to the moon, que acabaria sendo uma gravação antológica, por entre outros motivos, por
ter sido a última gravação do Tom, Tom chegou a falar que fez essa música em péssimas condições, pois
já não estava bem, sentia uma forte dor no peito, mas a gravação foi muito elogiada e ao lado de I`ve got
under my skin, que Sinatra gravou com Bono Vox sãs as melhores do disco.
Em Novembro de 94, Tom lança o que talvez seja seu melhor disco: o espetacular ANTONIO
BRASILEIRO, que é o nome que Chico Buarque o dá na música Paratodos. O Cd realmente é
esplêndido e tem várias participações especiais. As músicas desse disco são: Só danço Samba, música
que, aliás, o Tom não gostava, Piano da Mangueira, How Insesitive, um encontro inusitado e
sensacional com Sting, um cantor de Rock, que é a melhor gravação dessa música, a bela Querida, tema
da novela O dono do mundo, a sensacional e emocionante Surfboard, Samba de Maria Luiza, uma
música feita para a filha caçula de até então sete anos de idade, com participação da própria, Forever
Green, música feita para a ECO-92, com a Maria Luiza cantando em inglês (!) com o pai,
Maracangalha, de Dorival Caymmi, com a participação do próprio, a belíssima e então inédita
Maricotinha, também do Caymmi e com participação dele, Pato Preto, um forró ecológico do Tom,
Meu amigo Radamés, uma música instrumental em homenagem ao grande maestro Radamés Gnatalli,
que morreu em 86, Blue Train, a versão em inglês que Tom fez da clássica Trem Azul de Lô Borges,
Radamés y Pelé, homenagem a dois de seus heróis Radamés e Pelé, Chora Coração, uma bela e rara
música da parceria com Vinícius de Moraes, tirada da Crônica da Casa Assassinada e a complicada de
cantar Trem de ferro, música tirada de um poema de Manuel Bandeira. Parecia que o Tom sabia, que
esse era seu último disco, pois se juntou a amigos como Dorival Caymmi e Sting, aumentou a
participação da família com a presença do neto Daniel Jobim e da filha Maria Luisa, reviveu antigos
clássicos e colocou músicas novas.

/Ainda em novembro de 94, Tom Jobim vai se tratar em Nova York por causa de um tumor maligno, e
não para fazer uma angioplastia. Esta só foi feita porque os médicos americanos descobriram o grau de
obstrução coronariana de Tom e decidiram começar logo a desobstrução, para só depois operar a bexiga.
Tom não mudara radicalmente seus hábitos por causa das doenças. Seguia comendo o seu franguinho
"atropelado", como batizou o grelhado da dieta, e tomava vinho na churrascaria Plataforma. Tom tentou
mudar do uísque para a cerveja e, depois para o vinho, mas não conseguiu deixar de tomar pelo menos
uma dose de scotch por noite. Além isso, ia traçando seus charutos. No dia 07 de dezembro, ele
submeteu a cirurgia para extirpar dois tumores na bexiga. Eles foram eliminados depois de uma
operação de pouco mais de uma hora. Segundo a família de Tom, a cirurgia foi um sucesso. Mas
algumas horas depois ele começou a passar mal, com dificuldades para respirar, e morreu ás 8 horas da
manhã, do dia 8 de dezembro de 1994, no hospital Mont Sinai, um dos mais famosos do mundo, por
causa de um coágulo sangüíneo parado no seu pulmão. As últimas palavras ele disse ao enfermeiro, que
lhe arrumava a grade da cama e tentava amenizar a crise respiratória: “Quero ir para a praia! Para junto
do mar... respirar a maresia... respirar...’’”.

Tom Jobim foi enterrado na tarde do dia 09 de dezembro, no cemitério São João Batista, no Rio de
Janeiro, envolto nas bandeiras do Brasil e do Fluminense, depois que um caminhão do Corpo de
Bombeiros conduziu o caixão pelo roteiro que o morto cantou em vida como nenhum outro - O Rio e
suas praias, suas matas e mulheres, a Ipanema da Avenida Vieira Souto, que passou a se chamar
Avenida Tom Jobim. Tanto o presidente do país onde nasceu e amava Itamar Franco, quanto o do país
que conquistou com sua música e ao qual diziam ter vendido sua alma, Bill Clinton, manifestaram sua
tristeza.

O cineasta Arnaldo Jabor falou: “A morte do Tom Jobim, não foi à derrubada de uma árvore, mas a de
uma floresta inteira.”

Tom morreu na época que sua música mais famosa Garota de Ipanema, era a segunda mais tocada no
mundo, só perdendo para Yesterday, dos Beatles.
Na época na revista Veja, João Gilberto falou: "Estou aqui, falando ao telefone sem fio, de frente para a
janela que mostra o Rio de Janeiro. Estou vendo o mar, a Lagoa Rodrigues de Freitas, os morros. O Rio
do Tom. O Rio de Janeiro do meu amigo Antônio Carlos Jobim. Mas agora onde está Tom? É
Drummond, de quem ele gostava tanto, quem pergunta: E se todos nós vivêssemos?".

Foi uma comoção mundial, pois morreu o Tom maior da música mundial, Tom Jobim pode ter morrido
em Nova York, mas ele sempre voltou ao Rio de Janeiro que tanto amou, mesmo na sua morte. Esse Rio
de amor que se perdeu.

Em 1995, sai o songbook instrumental do Tom Jobim. As músicas dos CDs são:
Disco 1 – a maravilhosa Surfboard, Paulo vôo livre, a belíssima Meu amigo Radamés, a espetacular
Bangzália, Caribe, Choro, Antigua, Andorinha, Takatanga, Diálogo, Batidinha, a ótima Capitan
Bacardi, Mojave, Sue Ann, Arquitetura de Morar e Tema pra Ana.
Disco 2 - The red Blose, Rocknália, Look to the sky, Tide, Tema jazz, Tempo do mar,a extraordinária
Stone flower, Deus e o diabo na terra do sol, Radamés y Pelé, Tereza my love, Rancho nas nuvens,
Marina del rey, Remember, O homem, a lindíssima Chanson pour Michelle e Nuvens Douradas. Os dois
discos têm músicos do naipe de: Gilson Peranzetta, Daniel Jobim, Paulo Bellinati, Jacques
Morelembaun, Paulo Jobim, Sivuca, Roberto Menescal, Mário Adnet, Ed Motta, João Donato, Hermeto
Pascoal e outros.

/Também em 1995, sai a belíssima coletânea ANTONIO CARLOS JOBIM: COMPOSER, o cd na


verdade é uma junção dos dois primeiros discos cantados por Tom Jobim nos EUA, mais algumas faixas
bônus. As 12 primeiras músicas são do disco THE WONDERFUL WORLD OF ANTONIO CARLOS
JOBIM de1965, que são: Ela é carioca, Água de beber, Surboard, Useless undscape, Só tinha de ser
com você, A felicidade, Bonita, O morro não tem vez, Valsa do porto das Caxias, Samba do avião, Por
toda minha vida e Dindi. As duas músicas seguintes são inéditas, que são: Hurry up and love me (Eu
preciso de você) com Aloysio de Oliveira e Ray Gilbert e Pardon my English (Samba Torto) também
com Aloysio de Oliveira e Ray Gilbert. Da faixa 15 até a 24, as músicas são do disco A CERTAIN MR.
JOBIM. As músicas desse disco são: Bonita, Se todos fossem iguais a você, Off key, Photograph,
Surfboard, Outra vez, I was just one more for you, Estrada do Sol e Zingaro. E no final quatro faixas
bonus escritas em português: Esperança Perdida, Fotografia, Por causa de você e Desafinado.
/Em 1996, saíram mais quatro discos glorificando a obra de Tom Jobim. O primeiro disco foi o
songbook do Tom Jobim, que veio completar as músicas do disco anterior. As músicas do disco são:

Disco 1 - Correnteza, Só danço Samba, Bonita, Querida, Meditação, Foi a noite, Triste, Olha pro céu,
Esquecendo você, Piano na Mangueira, Sabiá, Fotografia, Teresa da Praia, Eu preciso de você e
Samba de Maria Luiza.

Disco 2 - Eu te amo, As praias desertas, Você vai ver, Só em teus braços, Só saudade, Brigas nunca
mais, Chansong, Esperança Perdida, Ana Luiza, Vivo sonhando, Demais, Falando de amor, Samba
torto, Discussão e Saudade do Brasil.

Disco 3 - Chega de Saudade, Boto, Só tinha de ser com você, Outra vez, Canção do amor demais,
Desafinado, Caminhos cruzados, Two Kites, A felicidade, Luciana, Corcovado, Esse seu olhar, Inútil
Paisagem, Borzeguim e Frevo de Orfeu.
Disco 4 - Ângela, Anos Dourados, A violeira, Águas de Março, O grande amor, Olha Maria, Garota de
Ipanema, Por causa de você, Retrato em branco e preto, Lamento no morro, Canção em modo menor,
Pato preto, Estrada do sol, Passarim e Desafinado.
Disco 5 - Luiza, Sem você, Imagina, Eu sei que vou te amar, Chovendo na roseira, Samba de uma nota
só, Samba do Avião, Amor em paz, Dindi, Wave, Canta, canta mais, Pois é, Solidão, Gabriela, Oficina,
Se é por falta de Adeus e Lígia. Nos cinco CDs, há artistas fantásticos como: Edu Lobo, João Donato,
Miúcha, Johnny Alf, Leny Andrade, Quarteto em CY, Carlos Lyra, Maria Luiza Jobim, Daniel Jobim,
Djavan, Joyce, Os Cariocas, Roberto Menescal, Wanda Sá, Toquinho, Marcos Valle, MPB-4, João
Bosco, Ed Motta, Leila Pinheiro, Tito Madi, Paulo Jobim, Chico Buarque, Maria Bethânia e outros.
Depois saiu o Cd BATE-BOCA, com o MPB-4 e o Quarteto em CY, relembrando as músicas de Tom
Jobim e Chico Buarque, com participação do próprio Chico. As músicas do disco são: Meninos eu vi,
Eu te amo, Piano na Mangueira, A violeira, Anos dourados, Biscate, Retrato em branco e preto,
Falando de amor, Pois é, Noite dos mascarados, Sabiá, Imagina e a inédita Bate Boca, uma música
instrumental do Tom Jobim, que começa com ele a mostrando ao Chico Buarque.

/Outro foi UM HOMEM ILUMINADO, que veio junto com o livro, de mesmo nome, da Helena Jobim,
irmã do Tom, sobre a sua vida. O Cd contém algumas músicas que Tom, ao acabar de compor, gravava
em fita cassete e mandava para Chico Buarque fazer letra.
Quando Helena pediu um prefácio para o livro, Chico, ao invés de escrever um texto, enviou-lhe as
fitas, junto com uma mensagem gravada. As músicas do disco são: Fala de Chico Buarque, no qual
Chico fala que "tudo que eu fiz foi para o Tom", Meninos eu vi, Anos Dourados, a inédita Bate boca,
que Tom fala que parece uma música do Tchaycovsky, a também inédita Miguel, única do disco com
letra, que Tom fala que a fez quando estava no bar Plataforma e estava todo mundo bêbado que tem uma
letra bem engraçada, Para viver um grande amor e Luiza. Nesse livro, Helena conta vários casos do seu
irmão que pouca gente conhecia, incluindo detalhes dos últimos dias do Tobim antes de ir para os EUA
pra fazer a cirurgia que o acabaria matando. Sem dúvida o livro Antonio Carlos Jobim - Um homem
iluminado, é um relato emocionado da irmã que conviveu de forma intensa com Tom Jobim, que era
realmente um homem iluminado.

/O quarto Cd foi o espetacular ANTONIO CARLOS JOBIM E FRIENDS, gravado ao vivo no Free Jazz
de 1993, em São Paulo. O Cd é uma homenagem de grandes músicos de Jazz ao mestre Tom Jobim. As
músicas do Cd são: um Medley instrumental com Herbie Hancock, contendo Inútil Paisagem, Triste e
Esperança perdida, Ela é carioca, também instrumental, The girl form Ipanema e Once I loved, as duas
cantadas pela cantora americana Shirley Horn, O grande amor, também instrumental, No more blues,
versão em inglês de Chega de Saudade, cantada por Jon Hendrics, Água de beber, também
instrumental, depois entra a sensacional Gal Gosta e canta A Felicidade e Se todos fossem iguais a você,
depois entra o Tom que canta Luiza, toca Wave em instrumental, toca e a Gal canta, a música Caminhos
cruzados, com direito a um "bravo, bravo!" , de Tom Jobim e no final todos entram e cantam Garota de
Ipanema.

/Ainda em 1996, sai nos Eua o sensacional disco ALMOST IN LOVE, da cantora brasileira Ithamara
Koorax ao lado de Luís Bonfá, todas as músicas do disco são de Bonfá. As músicas do cd são: Almost in
love, que já foi gravada até por Elvis Presley(!), Non-stop to Brazil, Amor sem adeus, em parceria com
Tom Jobim, Menina flor, Samba de Orfeu, Perdido de amor, The gentle rain, a lindíssima Correnteza,
também com o Tom, Say goodbye, Empty glass, a inevitável Manhã de Carnaval, Vida, Samblues for
Mr. Coryel e de novo Empty glass.

Em 1997, houve um grande encontro envolvendo Tim Maia e Os Cariocas, que fazem o disco AMIGOS
DO REI. As músicas do Cd são: Ter você é ter razão, do Dominguinhos, Essa tal felicidade, do Tim
Maia, Ela é carioca, Lindeza, do Caetano Veloso, Amigo do rei, do Lenine, Não quero dinheiro só
quero amar, do Tim, Telefone, Samba do Avião, Azul da cor do mar, do Tim e a belíssima Valsa de uma
cidade, de Ismael Neto e Antônio Maria.
Também em 1997, a cantora Cláudia Telles, lança o belo disco POR CAUSA DE VOCÊ, em
homenagem a mãe Silvinha Telles. As músicas do disco são: Dindi, Lobo bobo, Por causa de você,
Discussão, Esquecendo você, A felicidade, Obrigada meu bem, parceria da Silvinha, com o Aloisio de
Oliveira, Dorme, do Candinho e do Ronaldo Boscoli, Duas contas, do Garoto, Chuva, do Durval
Ferreira, Amendoim torradinho, Henrique Beltrão, Se todos fossem iguais a você e no final um medley
com as músicas: Corcovado, Rio, Você e Samba do Avião.
/Ainda em 97, sai pela Lumiar Discos, o belíssimo cd MINHA ALMA CANTA, com as canções que
Tom Jobim gravou nos songbooks feitos pela Lumiar. As músicas desse disco são: Na batucada da
vida, de Ary Barroso, Três apitos, de Noel Rosa, Choro bandido, de Edu Lobo e Chico Buarque, que o
Tom canta ao lado do Chico, João ninguém, de Noel Rosa, Janelas abertas, cantada pela Gal Costa,
com o Tom no piano, Samba do carioca, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, Pra machucar meu
coração, de Ary Barroso, cantada pelo Edu Lobo, com Tom no piano, Chega de saudade, Valsa
brasileira, do Chico Buarque e do Edu Lobo, cantada pela Leila Pinheiro, também com o Tom no piano,
Milagre, de Dorival Caymmi, Sem você, cantada pelo Chico Buarque, também com o Tom no piano,
Por toda minha vida, É preciso dizer adeus e O bem do mar, de Dorival Caymmi.

5 - A Bossa Nova conquista o Japão


No início dos anos 80, a Bossa Nova estava em crise no Brasil e até nos Estados Unidos, onde na
década de 60 competiu em pé de igualdade com o Rock. A partir dos anos 70, com o advento do Soul,
da Disco Music e do Reggae, a Bossa Nova começou a perder seu terreno nos Estados Unidos. Mas no
início dos anos 80, a Bossa Nova começou a ser ouvida e adorada no outro lado do mundo: no Japão.

Os primeiros músicos brasileiros a divulgarem a Bossa Nova no Japão foram Nara Leão e Roberto
Menescal, quando os dois começaram a fazer shows e lançar discos no Japão. Mas a primeira artista
brasileira a lançar um disco no Japão, foi a Divina Elizeth Cardoso, em 1978 lançou o belo disco
ELIZETH LIVE IN JAPAN com vários sambas e bossas maravilhosos. O disco começa com Barracão,
de Luiz Antonio, depois tem o belíssimo samba Na cadência do samba, de Luiz Bandeira, depois tem a
maravilhosa Apelo, do Baden Powell e do Vinícius de Moraes, depois tem a clássica A noite do meu
bem, de Dolores Duran, depois tem Última forma, do Baden e do Paulo César Pinheiro, depois tem
Naquela mesa, de Sérgio Bittencourt, depoits tem a também clássica É luxo só, de Ary Barroso e Luiz
Peixoto, depois tem o super clássico Manhã de carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, depois tem a
maravilhosa Preciso aprender a ser só, do Marcos e do Paulo Sérgio Valle e no final a também
maravilhosa Outra vez, do Tom Jobim. Até hoje anos depois de sua morte, Elizeth ainda é adorada no
Japão.

/Em 1985, há um reencontro maravilhoso entre Nara e Menescal, que lançam juntos o belo disco: UM
CANTINHO E UM VIOLÃO. Menescal não lançava um disco há mais de 15 anos. Esse disco acabou
saindo primeiro no Japão e depois no Brasil. As músicas do disco são: O negócio é amar, de Carlos
Lyra e Dolores Duran, Tristeza de nós dois, Sabor a mi, Da cor do pecado, Transparências, Blusão,
Resignação, Vestígios, There will be another to you, Comigo é assim, Mentiras e Inclinações musicais.
Em 1988, Nara é convidada pelos japoneses a fazer um disco de clássicos do jazz cantados em
português em ritmo de Bossa Nova. O disco se chama SONHOS DOURADOS. O disco é maravilhoso
e já começa com Eu gosto mais do Rio, versão em português de How about you, essa versão em
português ficou ainda melhor que a original, depois tem Um sonho de verão (Moonlight serenade),
Garoto levado (Lullaby of birland), Milagre (Misty), Jamais (The boy next door), Além do arco-iris
(Over the rainbow), depois tem a maravilhosa versão Aqui nessa mesa de bar, do super clássico As
times goes by, Coisas que lembram você (These foolishing things), Me abraça (Embraceable you) e no
final Como vai você (What is new).
No mesmo ano, depois de muita insistência dos japoneses, Tom Jobim faz um show histórico aos pés no
famoso Monte Fuji. Há algum tempo que os japoneses queriam um show do Tom, mas o Tom desistia
porque falava: Eu não vou pra lá só por causa do dinheiro, ninguém conhece minha música. Tom estava
enganado, todos conheciam as músicas dele e quando acabou o show ele foi ovacionado pelo público,
Tom ficou tão emocionado que voltou mais vezes ao Japão.

/Em 1989, Nara mais uma vez é convidada a lançar um disco de clássicos de jazz cantados em
português. Ela lança o belíssimo disco MY FOOLISH HEART, que acabaria sendo histórico porque ela
fez esse disco poucos dias antes de morrer. O disco começa com a belíssima Maravilha, versão em
português do clássico S‘ wonderful, depois tem Adeus no cais (My funny valentine), Mas não pra mim
(But not for me), Mais uma vez amor (I’m the mood for love), depois tem Só você, bela versão em
português do super clássico Night and day, Cartas de amor (Love letters), E se depois (Tenderly),
depois tem a bela e melancólica Descansa coração (My foolish heart), Onde e quando (Where on
when), Pleno verão, versão em português do super clássico Summertime, A saudade me bateu
(Sentimental journey), Fumaça nos olhos (Smoke gets your eyes), Alguém que olhe por mim (Someone
to watch of me), Sem querer (You ’ll never know) e fechando o disco Um beijo (Kiss).
/Também os japoneses conheceram duas cantoras brasileiras que fazem um enorme sucesso no Japão até
hoje, que são a Wanda Sá e a Joyce.

No final da década de 80, uma brasileira naturalizada japonesa, acabaria sendo uma espécie de
embaixatriz da música brasileira entre os japoneses: Lisa Ono. Lisa Ono é filha de japoneses e desde
pequena mora no Japão.

Uma coisa difícil de explicar é o motivo dos japoneses adorarem a Bossa Nova. Talvez as melhores
definições tenham sido do Tom Jobim, que disse: "Deve ser porque eles têm bom gosto", do Carlos
Lyra, que disse: "Os japoneses não têm uma música popular, o que eles têm é uma música de mais de
mil anos, que é uma música tribal", do Roberto Menescal que disse que "os japoneses gostavam muito
do Sérgio Mendes e achavam que ele era americano, quando descobriram que ele era brasileiro
passaram a adorar a música brasileira" e do compositor japonês Ryuchi Sakamoto, que disse: "É uma
música muito controlada. É calma, tem piano e a paixão está toda escondida. É como um oceano, quase
sem ondas, mas com muita coisa acontecendo debaixo d'água. É como o canto de João Gilberto, você
pode ouvir a paixão, mas ela está escondida dentro da música. Os japoneses gostam desse controle e
dessa paixão oculta."

Na década de 80, alguns discos da Nara Leão, foram gravados no Japão, mostrando aos japoneses a
nossa música. Com isso, vários japoneses vieram ao Brasil em busca de vinis raros de música brasileira,
especialmente Samba e Bossa Nova, aí eles levaram esses discos para o Japão e lá transformaram em
CDs, que hoje só existem no Japão, a preços muito caros, especialmente da Nara Leão, do Roberto
Menescal, da Joyce, da Wanda Sá, do Sérgio Mendes, da Elizeth Cardoso, do João Donato e do Moacir
Santos.
Em 1989, a cantora Leila Pinheiro, lança o belíssimo disco BENÇÃO BOSSA NOVA, o Cd é produzido
por Roberto Menescal, é dedicado aos 30 anos da Bossa Nova e sai simultaneamente no Brasil e no
Japão.
Ainda em 1989, Lisa Ono lança seu primeiro disco, CATUPIRY, o Cd só sai no Japão e tem só músicas
feitas pela Lisa Ono. As músicas do disco são: Catupiry, O amor, o céu e o mar, Look for a Star, Saci
Pererê, Piquenique em Paquetá, You`re so unique, Chega de pisar na bola, Carnaval dos meus sonhos,
Moço menino, Madrugada de Quarta-feira, Lua cheia e Acalanto para Maira.

Em 1990, Lisa Ono lança mais um disco: NANÃ, as músicas do Cd são: Besteira, Rio de Janeiro,
Morcega, Maira, Sereno, Passeio nas estrelas, Litoral do Sol, Paper doll, Guarujá, A abelha e o
zangão, Choro e Canto para Nanã. A maioria das músicas tem autoria de Paulo César Pinheiro,
parceiro de Baden Powell, e da própria Lisa Ono.

Em 1991, Lisa Ono lança mais um disco: MENINA, as músicas do Cd são: a bela O samba, da Lisa e
de Paulo César Pinheiro, Clea, Grumari, Quem fala o que quer, Roda de choro, You`ll never know, O
corso, De como um reino se desencantou, Pára com isso, Rio flor do mar, Orixá, Carnaval e Cancela.
/Em 1992, o Quarteto em CY, lança no Japão o belo disco ao vivo: BOSSA NOVA. O Cd tem
participação da Lisa Ono e tem as músicas: Refém da Solidão/Pra que Chorar/Consolação, Desafinado,
Eu Sei que vou te amar, Água de Beber, Onde Anda Você, Samba de uma Nota Só/Você e Eu, Dindi, I`ll
See You in Rio, Manhã de Carnaval, A Felicidade, Passeio nas Estrelas, Chega de Saudade e Por Toda
a Minha Vida.

Ainda em 1992, Lisa Ono lança mais um disco: SERENATA CARIOCA, as músicas do Cd são: O
guarda-chuva azul, Minha casa, Borboleta, Lobo do mar, Primeiro vapor, Água do moinho, Flor do
campo, The good life, Velho botequim, Taiyo no Kodomotachi, Brazileiro e Serenata Carioca.

Em 1993, Lisa Ono lança o disco NAMORADA, onde pela primeira vez em disco solo grava alguns
clássicos da Bossa Nova, além de músicas próprias. As músicas do Cd são: Namorada, Quero-te assim,
Acalanto de amor, Ah! Se eu pudesse, Minha namorada, Pela luz dos olhos teus e O que é amar.

Em 1994, Tom Jobim e a Nova Banda fazem uma turnê mundial, que passa pelo Japão e participam do
Cd ESPERANÇA, da Lisa Ono, um disco ao vivo. As músicas do Cd são: Samba de enredo, Temporal
em pesqueira, Um abraço no João, Meu carnaval, Estrada Branca, onde tem participação do Tom nos
pianos e no vocal, A gafieira, Brincadeira de roda, O carnaval do macaco, Praia nova, O que é que o
samba tem, Bolero canção, Um beija-flor e Samba da esperança.

Também em 1994, a cantora brasileira, Astrud Gilberto, que está morando no Japão, lança o disco: SO
& SO: MUKAI MEETS GILBERTO, as músicas do disco são: Champagnage e Caviar, da própria
Astrud, Velas, do Ivan Lins, Nós dois, do japonês Mukai e da Astrud, o clássico Berimbau, Milagre dos
peixes, do Milton Nascimento, Terra firme, Keep on riding, as duas só do Mukai e Hold me, da Astrud.
/Em 1995, Lisa Ono lança um Cd só com músicas do João Donato, com participação do próprio. O Cd
se chama MINHA SAUDADE, e tem as músicas: Minha saudade, A rã, Brisa do mar, Amor perfeito,
Amazonas, A paz, Sambou, sambou, Simples carinho, Terremoto, Até quem sabe, Não tem nada não,
Entre um sim e um não e Quem diz que sabe. Esse disco foi o primeiro todo dedicado à obra do João
Donato, o primeiro de muitos que viriam depois, na época alguns maldosos chegaram a falar que a Lisa
Ono e o João Donato tinham um caso.

/Em 1996, a cantora Jane Duboc lança o Cd FROM BRAZIL TO JAPAN. As músicas do disco são:
Alguém cantando, do Caetano Veloso, a clássica Manhã de carnaval, Camisa amarela, do Ary Barroso,
Alguém cantando 2, Vassourinhas, Se todos fossem iguais a você, Alguém cantando 3, Fotografia, Doce
de coco, Alguém cantando 4, João e Maria, do Chico Buarque, Juazeiro, Curare, Alguém cantando 5,
Rio, Anda Luiza, Balanço zona sul, Pisa na fulô e Alguém cantando - final.

Também em 1996, Lisa Ono lança mais um Cd, RIO BOSSA. As músicas do disco são: Festa de rua, É
luxo só, Baiãozinho, do Eumir Deodato, Senza fine, Na santa paz, Retrato em branco e preto, O pato,
Giro, a bela Cerejeira do Japão, Deixa, Dom de iludir e Sambadouro.
Em 1997, sai mais um disco da Lisa Ono, ESSÊNCIA. As músicas do Cd são: Red blouse, do Tom
Jobim, Essência, Beijo partido, Across the universe, do Paul Mccartney e do John Lennon (!),
Travessia, do Milton Nascimento, Waiting for Angela, Non-stop to Brazil, do Luís Bonfá, Smile, Me
leva, Afternoon in Thailand, Me nina e Shia a wa se.
Também em 1997, sai mais um disco da Astrud Gilberto no Japão: chamado de THE GIRL FROM
IPANEMA. As músicas do disco são: The girl from Ipanema (mais uma vez!), Meu pião, Far away,
Well make today last night again, Black magic, All I've got, as últimas quatro da própria Astrud, Love
for sale, Puppy song e um medley com Mamãe eu quero e Chica chica boom chic, famosas na voz de
Carmem Miranda.

Em 1998 é um ano especial para a Bossa Nova. É um ano que a Bossa faz 40 anos e no Japão vários
discos saem para comemorar essa data. O primeiro deles é o espetacular BOSSA CARIOCA, da Lisa
Ono, com participação do Paulo e do Daniel Jobim. As músicas do disco são: Só danço samba, Samba
do Soho, Chega de saudade, Samba do carioca, Corcovado, a rara e bela Maria é dia, do Tom Jobim,
com direito a trechos da música em japonês, Os dois, da Lisa, numa homenagem ao Tom e ao Vinícius,
Samba de verão, Ela é carioca, Diz a ela, O barquinho, Saudade, uma parceria da Lisa e do Daniel
Jobim e no final Palpite infeliz, do Noel Rosa.

Outro disco que sai é TODOS OS CAMINHOS, da Jane Duboc, que tem as músicas: Lá e cá, Minha
arte, Quem canta seus males espanta, Paixão zen, Diamante negro, Quando alguém cantar, Ninguém,
Bailarina, Sem dizer nada, Katmandu, Romã, Todos os caminhos, Farol e de novo, Lá e cá.
/O último disco é BOSSA NOVA 40 ANOS, com vários nomes da música popular brasileira. As
músicas do Cd são: Desafinado, com a Wanda Sá, Roberto Menescal, Os Cariocas, Leila Pinheiro, Ivan
Lins, Leny Andrade, Carlos Lyra, Joyce, Marcos Valle e Paulo Jobim, Samba da pergunta, com Leny
Andrade, Meditação, com o Paulo e o Daniel Jobim, Rio que vai Rio que vem, com a Wanda Sá,
Berimbau, com Os Cariocas, Pernas, com Sérgio Ricardo, Pode ir, com Leila Pinheiro e Carlos Lyra,
Saudade fez um samba, com Roberto Menescal, Eu sabia, com Ivan Lins, a inédita Nara, com a Joyce
em homenagem a inesquecivel Nara Leão, Samba de verão, com Marcos Valle, uma raríssima gravação
de Chega de saudade, com o Tom Jobim e a Maria Luiza Jobim, Preciso aprender a ser só, com o
Silvio César e a inédita Benção Bossa Nova, com Carlos Lyra, Wanda Sá, Roberto Menescal e Leila
Pinheiro. No mesmo ano, Roberto Menescal e a Wanda Sá param a cidade de Tóquio, num show
comemorativo aos 40 anos da Bossa Nova, com 30 mil pessoas, a maioria absoluta de japoneses,
cantando em português (!), os clássicos da Bossa Nova.

Também em 1998, sai no Japão, o disco SUÍTE AFRO-CONSOLAÇÃO, do Baden Powell. As músicas
desse disco são: Suíte Afro-consolação, Samba triste, Berimbau, Manhã de Carnaval, Garota de
Ipanema, The shadow of your smile, Odeon, Invention, Coisa n.º 1, Jongo, Prelúdio das diminutas,
Adelita, Tributo ao professor Meira, O cego Aderaldo e Samba novo.
/No mesmo ano de 1998 sai o extraordinário cd ASTRONAUTA – CANÇÕES DE ELIS da
maravilhosa Joyce com as músicas feitas em homenagem a Elis Regina, a maior cantora brasileira de
todos os tempos. As músicas desse disco são Samba pra Elis, música inédita da Joyce com o Paulo
Cesar Pinheiro, maravilhosa composição em homenagem a Elis, com citação de Essa mulher, da Joyce,
Canto de Osanha, clássico afrosamba de Baden e Vinícius, Upa neguinho, de Edu Lobo e
Gianfranscesco Guarnieri, que virou um ícone na voz da Elis, Morro velho, do Milton Nascimento, a
sempre emocionante Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta,
com participação especial do Dori Caymmi, Astronauta (Samba da pergunta), de Pingarrillo e Marcos
Vasconcelos, Oriente, do Gilberto Gil, o clássico do samba Folhas secas, do Nelson Cavaquinho, a bela
Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Mauricio Tapajós, Menino das laranjas, de Theo de Barros, uma
das primeiras que Elis cantou, Essa mulher, música da Joyce e da Ana Terra que a Elis gravou, Na
batucada da vida, de Ary Barroso e fechando o disco o superclássico Águas de Março, de Tom Jobim,
cantada em inglês brilhantemente pela Joyce e pelo Dori Caymmi.

/Em 1999, sai no Japão e depois no Brasil o belo disco: ESTRADA TOKYO-RIO, com o Roberto
Menescal e a Wanda Sá. Todas as músicas do disco foram feitas pelo Menescal. As músicas do Cd são:
Estrada Tokyo-Rio, com um teclado de emocionar, Nas quebradas da vida, A volta, The king of
rock'n'roll, com um toque havaiano, Vai de vez, a melhor gravação do disco, Revolução, Só quis você,
Balansamba, Dançar com você, Contemplação, a clássica Rio, Manequim, a bela e rara Saudades de
você, uma parceria do Menescal com a Nara Leão e o belo samba Novas bossas.

A Bossa Nova acabou chegando à Europa antes do que nos Estados Unidos com o filme Orfeu Negro,
em 1959. Com isso, os europeus conheceram as músicas maravilhosas de Luís Bonfá, Tom Jobim e de
Vinícius de Moraes. Logo músicas como Manhã de carnaval e A felicidade comeam a fazer grande
sucesso na Europa. Com isso vários artistas europeus passam a se interessar pela Bossa Nova como
Henri Salvador e Michel Legrand.
Mas, com o advento do Rock, nos anos 60, os europeus, especialmente os ingleses, começaram a
esquecer a Bossa Nova. Na Inglaterra acabam surgindo bandas como The Beatles e Rolling Stones, que
fizeram sucesso em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil.

Em 1963, poucos meses depois do concerto no Carnegie Hall, um conjunto que os deuses pagariam pra
ouvir: com João Gilberto, João Donato, Tião Neto e Milton Banana fazem uma temporada com muito
sucesso na Itália.

No final dos anos 60, assim como aconteceu nos Estados Unidos, a Inglaterra começou a gostar de Soul
Music.
/No início dos anos 70, Toquinho e Vinícius abriram de novo as portas da música brasileira na Europa,
especialmente na Itália, na Espanha e em Portugal. Também no início dos anos 70, Gilberto Gil,
Caetano Veloso e Chico Buarque, estão exilados na Europa e começam a fazer shows por lá,
especialmente Chico Buarque que faz sucesso na França.

O primeiro disco do Vinícius de Moraes na Europa foi LA VITA, AMICO, É L'ARTE DELL'INCONTRO,
o disco foi lançado na Itália em 1969 com os italianos Sérgio Endrigo e Giuseppe Ungaretti e tem
algumas músicas do Vinícius traduzidas para o italiano. As músicas do disco são: Samba da benção, A
vida vivida, Serenata do adeus, Mais uma vez, A vida vivida, O que tinha de ser, O mergulhador, Poema
dos olhos da amada, outra vez Vida vivida, A felicidade, Poética, A casa, Rancho das flores, Deixa,
Soneto do amor total, Se todos fossem iguais a você, O dia da criação, de novo Samba da benção e
Finale.

/Baden Powell foi talvez o músico brasileiro que fez mais sucesso na Europa. Em 1973, lança em Paris
o disco: BADEN POWELL GRAVADO AO VIVO EM PARIS, as músicas desse LP são: Garota de
Ipanema, Folha morta, Jesus alegria dos homens, Marcha escocesa, Berimbau, Tristeza, Samba triste,
Opus n.º 10, do Chopin e Berimbau.

Em 1976, também na França, sai o disco MELANCOLIE: BADEN POWELL ET CORDES, mais um
disco do Baden. As músicas desse disco: Ano e meio, Se todos fossem iguais a você, Midjão, Acalanto
das nonas, Rosa Maria, Aos pés da santa cruz, Horizon, Saudade da Bahia, Imagem, Dindi e Só danço
samba.
/Em 1976, saiu mais um disco de Vinícius de Moraes na Itália, dessa vez com Toquinho e Ornella
Vanoni, e também tem várias músicas dele traduzidas para o italiano. O nome do disco é LA VOGLIA,
LA PAZZIA, L'INCOSCIENZA, L'ALLEGRIA. As músicas do disco são: Sem medo, A rosa
desfolhada, Samba da rosa, Samba em prelúdio, Anema e core, Se ela quisess, Sinal fechado, do
Paulinho da Viola, Assenza, Eu sei que vou te amar, Mais um adeus, L'assente, Acende uma lua no céu e
Samba pra Vinícius, do Toquinho e do Chico Buarque.

Em 1977, sai o disco MARIA D'APPARECIDA ET BADEN POWELL, do Baden Powell, lá na França.
As músicas do disco são: Deixa, A volta, Carta ao poeta, Vou deitar e rolar, Violão vadio, Amanhecer,
parceria com a mulher Sílvia, Refém da solidão, Sermão, Samba do perdão e As verdades, todas as
outras músicas são em parceria com Paulo Cesar Pinheiro./

Um dos maiores divulgadores da música brasileira, especialmente da Bossa Nova na Europa, foi o
Festival de Jazz na cidade suíça de Montreux, que já faz bastante tempo que vários músicos brasileiros
participam. Alguns nomes que já participaram foram: Tom Jobim, João Gilberto, Elis Regina, Jorge
Ben, Dorival Caymmi, Baden Powell, entre outros, sendo que alguns deles gravaram discos ao vivo por
lá.

Em 1979, Elis Regina gravou o disco LIVE IN MONTREUX. As músicas do disco são: Cobra criada,
do João Bosco, Cai dentro, do Baden Powell e de Paulo César Pinheiro, Madalena, do Ivan Lins, Ponta
de areia/Fé cega, faca amolada/Maria Maria, as três do Milton Nascimento, num pout pourri
expetacular, Na baixa do sapateiro, de Ary Barroso, Upa neguinho, Corcovado ao lado do gênio da
música instrumental Hermeto Pascoal, uma gravação antológica de Garota de Ipanema, que ela
detestava, chegou a jurar que nunca cantaria essa música, também com o Hermeto Pascoal, quando
Hermeto começou a tocar ela baqueou, mas logo se recuperou e cantou como se fosse a última música
de sua vida, virou a música pelo avesso, cantou uma vez toda em inglês, chegando a imitar Ella
Fitzgerald, rindo e debochando, provocou Hermeto, voou com ele diante da platéia eletrizada e Asa
branca, também com Hermeto Pascoal, clássico do rei do baião Luís Gonzaga em ambiente free jazz,
harmonias jamais sonhadas se cruzando com fraseados audaciosos de Elis, arte musical de altíssimo
nível protagonizada por dois virtuoses. Sem dúvida nenhuma foi um disco histórico. Em 2001, Charles
Gavin, dos Titãs, garimpando pérolas perdidas achou não só as fitas do disco histórico, como também a
gravação completa do show, com outras músicas que não tinha entrado no disco: poderosas
interpretações de Elis para o clássico Águas de março e para os vigorosos sambas Onze fitas, de Fátima
Guedes, e Agora tá, de Tunai e Sérgio Natureza, três músicas de Gilberto Gil: Amor até o fim, Mancada
e a belíssima Rebento, feita justamente pra Elis, fechando o disco a também bela Samba dobrado, do
então novato Djavan./

No mesmo ano, só que na Itália acontece um encontro histórico envolvendo Tom Jobim, Vinícius de
Moraes, Toquinho e Miúcha, que muitos anos depois se transformaria em DVD chamado
MUSICALMENTE , diretamente dos estúdios em Milão. É praticamente o mesmo show do
maravilhoso show ao vivo que eles fizeram no Canecão em 1977. As músicas desse DVD sensacional
são: Samba de Orly, Pout-pourri de Caymmi, tocado pelo Toqunho no violão, Tarde em Itapuã,
Desafinado, Wave, Samba de uma nota só, Águas de março, O que será, do Chico Buarque cantada pela
Miúcha, Samba pra Vinícius, Vai levando, Felicidade, Água de beber, Garota de Ipanema,. Sei lá e no
fim um pout-pourri de músicas do Baden Powell com Berimbau e Canto de Osanha.

Em 1986, foi à vez de João Gilberto, gravar seu LIVE IN MONTREUX, que foi um álbum duplo. As
músicas dos discos são: Disco 1 - Tim tim por tim tim, Preconceito, Sem compromisso, Menino do rio,
Retrato em branco e preto, Para que discutir com madame, Garota de Ipanema, Desafinado e O pato.
Disco 2 - a maravilhosa Adeus América, Estate, Morena boca de ouro, uma gravação bem emocionante
de A felicidade, Sandália de Prata e Aquarela do Brasil. Mais um disco espetacular na lista do João,
mas quando o João foi ouvir o cd da versão brasileira pra esse disco achou uma vergonha, em
comparação com a edição americana. Quando saiu em cd, só ficou um álbum simples.

Em 1989, saiu um LIVE IN MONTREUX duplo especial com o primeiro uma homenagem a Nesuhi,
com vários nomes americanos e o segundo com vários nomes da música brasileira que participaram do
festival de Montreux de 1979 até 1989. O primeiro disco foi TRIBUTE TO NESUHI, o segundo foi
BRAZILIAN NIGTHS, as músicas desse segundo disco foram: Ponta de areia, com Milton
Nascimento, Dindi, com a Gal Costa, Bilhete/Começar de novo, com Ivan Lins, Águas de Março, com
Tom Jobim, Gota d`agua, com Chico Buarque, Chega de saudade, com João Gilberto, Miragem, com
Djavan, Asa branca, com Elis Regina e Hermeto Pascoal, Choro, com Gilberto Gil, Tanto amar, com
Ney Matogrosso, O corsário, com João Bosco, Saudade da Bahia/Sampa, com Caetano Veloso e Santa
Clara clareou/Zazueira, com Jorge Ben.

/Ainda assim a Bossa Nova passou a ser relegada ao segundo plano pela Europa até o final dos anos 80,
quando saiu na Inglaterra o disco duplo: THE ESSENCIAL MARCOS VALLE, uma coletânea com os
maiores sucessos de Marcos Valle. As músicas do disco são: Cd 1 - Mentira, Mustang Cor de Sangue,
Malena, Pista 2, Não tem nada não, Não tem nada não (instrumental), Freio aerodinâmico, Próton
Elétron Neutron, Viagem, Terra de Ninguém, Ele e ela, Vem, Samba de Verão e Democustico. Cd 2 - Os
grilos, que acabou sendo a música dele que mais fez sucesso nas pistas européias, Tião branco forte,
Previsão do tempo, Mentira Carioca, Seu encanto, Gente, Com mais de 30, Garra, Deus brasileiro,
Amor de nada, Morte de um deus de sal, Wanda Vidal, Revolução Orgânica, Batucada surgiu e
Azimuth. Com esse disco, vários DJs londrinos conheceram e se interessaram pela Bossa Nova, com
isso houve uma corrida de vários DJs para o Brasil em busca de vinis raros de música brasileira dos
anos 60 e 70, especialmente do Marcos Valle, da Joyce e do Walter Wanderley. Os ingleses viam ao
Brasil pegaram os sebos dos vinis, aí os japoneses, que não são bobos transformavam em CDs que só
existe no Japão e vendem a um preço muito alto. Com isso tudo mostra a falta de respeito com que a
Bossa Nova é tratada no Brasil, sendo que as gravadoras jogavam fora os sebos, e como ela é respeitada
no resto do mundo.
Tudo começou nos clubes de Jazz londrinos do circuito underground como o Wag e Dingwalls. A
combinação do samba com o jazz parecia algo tão novo e excitante que logo surgia uma legião de
admiradores do estilo.

Com isso, a Bossa Nova começou a fazer sucesso nas pistas de dança européias e surgiu, como que os
ingleses chamaram a "New Bossa" ou "Drum`n Bossa". Na verdade a expressão “New Bossa” surgiu
ainda na segunda metade dos anos 80, na Inglaterra onde vários nomes do pop inglês foram
influenciados pela Bossa Nova como: Everithing but the girl, Stereolab, David Byrne e outros.

Enquanto Marcos Valle e Joyce faziam um grande sucesso na Inglaterra, aqui no Brasil estavam cada
vez mais longe da mídia. No início dos anos 90, eles ganharam status de cult na cena jazz e dance e seus
velhos álbuns brasileiros passavam de mão em mão por algumas centenas de libras. O show de Joyce no
Fridge, em Londres, no inverno de 93, foi um marco. Numa noite fria e úmida do inverno inglês, dois
mil jovens londrinos compareceram para ouvir o doce som da guitarra e da voz de Joyce. A Joyce até se
assustou, porque no meio da platéia tinha gente de piercing na língua, de cabelo pintado de verde, entre
outras coisas. Nesse mesmo ano a música Aldeia de Ogum da Joyce explode nas pistas de danças
londrinas.

De fato, foi Joyce quem deixou Marcos a par do movimento. Ele lembra que: "Joyce me contou o que
estava acontecendo com nossa música na Europa, em 93. Eu ouvia falar, mas nada sabia a respeito.
Somente depois de fazer algumas apresentações no Jazz Café de Londres, em 96, comecei realmente a
me dar conta. Isso me motivou a querer gravar novamente, voltar a trabalhar com minha música."

/Em 1992, sai na Suíca, o disco LIVE IN SWITZERLAND, do Baden Powell, as músicas do disco são:
Vento vadio, O astronauta, Valsa de Eurídice, Petite valse, Adelita, Jeux interdits, Astúrias, Chora
violão, Naquele tempo, um medley com: Retrato brasileiro, A jangada voltou só, Cantiga de roda, Hino
do Flamengo, Hino nacional brasileiro e Carinhoso, depois ainda tem: Jongo, Falseta, Coisa n.º 1 e
Tributo ao nordeste/Asa branca.

Também em 1992, sai na Alemanha o disco THE FRANKFURT OPERA CONCERT, do Baden Powell.
As músicas do disco são: Valsa de Eurídicie, Prelúdio, Asa branca, A lenda do Abaeté, Se todos fossem
iguais a você, Samba triste, Petite valse, Imagens, Pescador, Valse n.º 1, Berceuse, Canto de Ossanha,
Coisa n.º 1 e Marcha escocesa.
Em 1994, sai em Paris o disco DE RIO À PARIS, do mestre Baden Powell. As músicas desse disco são:
Mesa redonda, Samba novo, Pra que chorar, Tributo ao professor Meira, Overture afro-brasileiras n.º
2, Vou deitar e rolar, Sermão, Asa delta, Sentimentos brasileiros, El dia que me queiras e Um carioca
portenho.
/No ano de 1994, Tom Jobim, em viagem a Londres, conheceu os produtores Béco Dranoff, Paul Heck e
John Carlin, da Red Hot, uma organização inglesa, que arrecada fundos em benefício da AIDS. Eles
acabaram acertando um projeto de se fazer um disco só de música brasileira, Tom imediatamente os
encorajou a prosseguir, autorizando o uso de suas composições, antes de seu inesperado falecimento em
dezembro de 94. Depois a Red Hot, procurou o feedback de vários artistas - brasileiros e internacionais
- para confirmar o felling sobre a relevância atual da música brasileira. Surge então em 1996, o
belíssimo disco RED HOT + RIO, que se tornou uma verdadeira colaboração onde os artistas
escolheram as canções e recriam-nas nos mais variados estilos. O Cd foi criado como um tributo
informal à beleza e à influência internacional da MPB, desde a Bossa Nova e ao Tropicalismo até hoje.
As músicas do Cd são: Desafinado, cantado em português pela Astrud Gilberto, ex-mulher de João
Gilberto e por George Michael (!), Corcovado, também cantada em português pelo grupo inglês
Everithing but the girl, num clima bem inglês, o francês Cesária Évora, o brasileiro Caetano Veloso e o
japonês Ryuichi Sakamoto arrasam em É preciso perdoar, o cantor Maxwell, canta a música em inglês
Segurança, tem Águas de Março, cantada com trechos em português pela maravilhosa Marisa Monte e
com trechos em inglês pelo David Byrne, numa das melhores gravações do disco, tem Water to drink,
cantada por Incógnito e Anna Caram, numa versão funk, tem Gilberto Gil cantando em português e em
inglês sua Refazenda, tem Money Mark tocando Use your head, tem PM Dawn, Flora Purim e Airto,
cantando Non-fiction burning, a música mais inglesa do disco, tem os brasileiros do Funk`lata,
detonando em Sambadrome, tem Crystal Waters, transformando The girl from Ipanema num "Samba-
house", tem Mad Professor, tocando Black Orpheus Dub, tem os brasileiros Chico Sciense e a Nação
Zumbi cantando a fenomenal Maracatu Atômico, com remix do DJ londrino Soul Slinger, com citação
de Aquele abraço, do Gilberto Gil, tem o grupo inglês Stereolab e o americano Herbie Mann, num
medley de One note samba/Surfboard, tem Milton Nascimento tocando sua Dancing, numa gravação
que lembra muito Moacir Santos, um dos ídolos do Milton, tem o Tom Jobim e o Sting, na já antológica
versão de How Insensitive e fechando um disco a belíssima e rara gravação de Preciso dizer que te amo,
com o Cazuza e a Bebel Gilberto. Realmente é um Cd espetacular com o melhor da música brasileira
com a música eletrônica.

/Um ano antes, em 1995, surge a gravadora britânica Far Out Recordings, uma gravadora com a
proposta de música brasileira, especialmente a Bossa Nova, e música eletrônica.

O primeiro disco dessa gravadora é FRIENDS FROM RIO VOLUME ONE, as músicas do Cd são:
Batucada, com Mingo Araújo, Casa forte, com Edu Lobo, Para Lennon e MacCartney, com Lô Borges
e Fernando Brant, Francisco Cat, com Célia Vaz, Maracatudo, Os Grilos, com Marcos Valle, Bebe,
com Hermeto Pascoal, Batunk, com Paulo Meirelles e Aquelas coisas todas, com Toninho Horta.

No mesmo ano de 1995, sai o disco MISTURADA, com todas as músicas do disco anterior, mas com
remixagens de vários DJs brasileiros e ingleses.

Também em 1995, Baden Powell grava seu LIVE IN MONTREUX JAZZ FESTIVAL. As músicas
desse disco são: Apresentação, Vento vadio, Na baixa do sapateiro, Samba do avião, Samba novo,
Naquele tempo, Manhã de carnaval, Jongo, Garota de Ipanema, Astronauta, A lagoa de Abaeté, Asa
branca, Falsete e Samba da minha terra.

/Ainda em 1995, sai o fabuloso disco Live in the mojo cub, da Joyce, um disco que a Joyce lançou ao
vivo na cidade alemã de Hamburgo. As músicas desse disco são: a bela Povo das estrelas, só da Joyce,
Samba de mulher, da Joyce e da Lea Freire, depois tem Samba de gago, Nacional Kid, a
maravilhosaSom do planeta, um medley maravilhoso com Suíte Baracumbara e Banana, as duas
também só da Joyce, Berimbau, um poema do Manuel Bandeira que a Joyce musicou, Sambari, também
só da Joyce, a belíssima Caymmis, da Joyce e do Paulo César Pinheiro, com citação de O mar, de
Dorival Caymmi, depois tem a também maravilhosa Fã da Bahia, depois tem o super clássico Aldeia de
Ogum e finalizando o disco tem a espetacular Taxi driver.
Em 1996 tem a volta da banda de soul music brasileira dos anos 70, Azimuth. Eles foram descobertos
por Marcos Valle na década de 70, chegando a fazer um grande sucesso com a música Linha do
horizonte, mas tinham sumido e resolveram voltar lançando o disco CARNIVAL, as músicas do Cd são:
Jazz Carnival, A queima roupa, Face da conta, Calma, Esperando minha vez, Tudo que você podia ser,
Prefácio, Tempos atrás, Ausgang e Quem com quem.

/Também em 1996, sai o disco BADEN POWELL À PARIS, que ele grava em Paris. O cd é um disco
duplo, as músicas do cd são: Disco 1 - Variações Afro-brasileiras, Samba do avião, Imagens Nordeste-
Brasil, Samba triste, Se todos fossem iguais a você, Prelúdio n.º 1, A Lagoa de Abaeté, Asa branca e
Marcha escocesa. Disco 2 - Garota de Ipanema, Aos pés da cruz, Samba novo, Valsa n.º 1, Tributo ao
amigo Pedro Santos, Oriental, Samba da minha terra, Samba capoeira e Coisa n.º 1.

Em 1997, sai o disco MISTURADA 2, com os remixes de vários DJs do disco do Azimuth, lançado um
ano antes.
/Também em 1997, sai o disco TARDES CARIOCAS, da Joyce, pela gravadora Farout Recordings, na
verdade este disco é a versão em Cd do mesmo disco que saiu na década de 70 e era vendido por 200
libras na Inglaterra. As músicas do disco são: Barracumbarra, a maravilhosa Tardes cariocas, a bela
Duas ou três coisas, Luz do chão, Curiosa, Nuvem, Nacional Kid, Ela e Suor. Esse disco até hoje é um
dos mais procurados da Joyce no mundo inteiro.

Falando na Joyce, nesse mesmo ano, na Inglaterra sai a belíssima coletânea THE ESSENCIAL JOYCE,
com várias músicas de sucesso que a Joyce gravou, dela e de outros compositores sensacionais. As
músicas do disco são: Caqui, Nada será como antes, de Milton Nascimento, Adeus Maria Fulô, um
clássico do baião, The man from the avenue, História do samba, Joya, a peróla inaugural do samba Pelo
telefone, do saudoso Donga, Pede passagem, Acorda amor, Viola fora de moda, Passarinho, a sua
clássica Clareana, em homenagens as filhas, a maravilhosa Aldeia de Ogum, também sua, a belíssima
Banana, o manifesto feminista da explendorosa Feminina, talvez a sua música mais famosa mundo
afora, Mágica, Samba de gago, Beira rio, um medley com Doçura forte e Água e luz, Baracumbara,
Curioso, a explendorosa Fã da Bahia, que faz muito sucesso no Japão e no final Rodando a baiana.
Uma homenagem mais do que justa a uma mulher que ainda no final dos anos 60, ousou ser uma
compositora de música brasileira num mundo extremamente machista, que com seu enorme talento
conquistou seu mercado mundo afora, especialmente no Japão, na Europa e nos EUA.

Também em 97, sai a coletânea QUANTIN, com vários artistas tocando música brasileira. As músicas
do Cd são: Obnoxious, Chão vermelho, Wave, Só tinha de ser com você, Reza brava, Apocalipse, Dindi,
Children, Bonita, As incríveis peripécias de Danilo, Vocês querem mate, Ginger bread boy, Quarenta
graus a sombra, Sombra morta, Memória e Ao amigo Quantin.
Em 1998, sai mais um disco do Azimuth, chamado de WOODLAND WARRIOR, as músicas do Cd
são: Amazon adventures, The quest, Laranjeiras, Sinto muito, Woodland warrior, Festa nativa, That`s
today, Xingo, Ah! Você não sabe e Cahmeleon.
/Ainda em 98, sai o belíssimo disco só de músicas inéditas NOVA BOSSA NOVA, de Marcos Valle,
com a participação da cantora Patrícia Alvi. É uma bela volta de Marcos Valle que havia mais de 10
anos que não gravava, mas ao contrário dos anos 80, que ele parecia que estava em decadência, que no
máximo conseguiu fazer o sucesso disco-funk Estrelar, faz um disco que resgata a integração do soul e
do funk na sua obra, influências que já faziam parte de sua música nos anos 70, quando viveu nos EUA.
O disco começa com a instrumental Novo visual, que já começa mostrando a que Marcos Valle veio,
depois tem a faixa Abandono, uma música com jeito de funk, cantada brilhantemente pelo próprio
Marcos, Cidade aberta, cantada pela Patrícia, numa faixa que lembra Moacir Santos, um dos ídolos de
Marcos, misturando ritmos eletrônicos com ritmos nordestinos, tem Bahia blue, uma bela faixa
instrumental, também misturando música eletrônica com música nordestina, tem Frei aerodinâmico,
também instrumental, num samba-house delicioso, tem Moshi moshi, uma bossa simples feita para o
mercado japonês, tem a bela faixa título Nova Bossa Nova, um samba soul maravilhoso, tem a
instrumental Nordeste, a mais Moacir Santos do disco, tem a sensacional Bar inglês, a melhor faixa
instrumental do disco, que tem o clima mais inglês do cd, e tem Vontade de rever você, a melhor música
do disco, cantada pela maravilhosa Patrícia Alvi, numa "bossa nova lounge" sensacional, feita em
parceria com o irmão Paulo Sérgio Valle e o músico americano de funk Leon Ware, numa faixa enorme,
que pára a música, fica um tempo sem tocar nada e volta num sensacional, secreto e surpreendente
Drum`n`Bass fechando o disco. Com esse álbum, fica provado pelas pistas de danças européias quem é
o mestre.

Ainda em 1998, sai o disco FRIENDS FROM RIO 2, que tem as músicas: Escravos do Jó, Dona Cora,
Geraldofla, Bengele, Lance livre, Vera cruz, Super legal, Sob o mar, Zona sul, Começo da festa, Cravo
e canela, Mistério no armazém 24 e O circo.

Também em 1998, sai o disco BRAZILIAN LOVE AFFAIR, que é uma coletânea. As músicas do disco
são: Tudo que você podia ser, Prefácio, essas duas com Azimuth, Super Legal, com Aricia Mess, Para
Lennon e Macartney, com Clareace, Bebe, com Friends from Rio, Magica, da Joyce, Os grilos, do
Marcos Valle, Francisco Cat, com Célia Vaz, Batmacumba, com Ile Aye, Apocalipse, com José Mauro,
Duas ou três coisas, Nacional Kid, as duas com a Joyce, Nova Bossa Nova, com Marcos Valle, Aoyama
Sam e É ruim, estas duas últimas com Grupo Batuque.
Ainda em 98, sai o disco MISTURADA 3, com os remixes das músicas do segundo disco do Azimuth.

/Em 1997, direto do Rio de Janeiro surge o projeto Bossacucanova. Tudo começou nos estúdios da
Albatroz, gravadora do Roberto Menescal, onde o filho dele, Márcio Menescal, Alexandre e o dj
Marcelinho Da Lua eram técnicos de estúdio e cuidavam da gravação de discos de nomes célebres da
bossa, como o próprio Roberto Menescal, Os Cariocas, Carlos Lyra e Wanda Sá. "A gente adorava
aquelas músicas, mas também ouvia funk, hip hop e acid jazz.", conta Márcio.
Um dia, veio a idéia de fazer um remix de uma gravação de Só Danço Samba, dos Cariocas, depois
acabaram fazendo com outras gravações até fazerem um disco chamado BOSSACUCANOVA VOL. 1:
REVISTED CLASSICS, que saiu sem grandes repercussões em 97. As músicas do disco são:
Berimbau, com Os Cariocas, Influência do jazz, com Carlos Lyra, Vai de vez, com a Astrid, Meditação,
com a Wanda Sá, Maria moita, também com Carlos Lyra, Se todos fossem iguais a você, com a Cris
Dellano, Só danço samba, com Os Cariocas, Samba de uma nota só, com a Cláudia Telles, Consolação,
com o Sílvio César, uma gravação explendorosa de O barquinho, com Roberto Menescal e Batidas
grátis um remix de uma música de Da Lua.
As coisas começaram a acontecer em 1998, quando o rapper Marcelo D2, do Planet Hemp, foi à Nova
York mixar seu disco solo (Eu Tiro é Onda), e mostrou o BOSSACUCANOVA VOL.1: REVISITED
CLASSICS para o produtor Béco Dranoff, da Red Hot Organization - ele ficou fascinado e resolveu que
aquele seria o primeiro lançamento de seu selo, Ziriguiboom. No mesmo ano, Da Lua foi à França,
discotecar no festival Transmusicales e levou a tiracolo Alexandre e Márcio - lá, eles deram entrevistas
que divulgaram o disco na Europa e distribuíram entre os DJs alguns vinis do BCN (que foram lançados
pela belga Crammed, do qual a Ziriguiboom é o selo de música brasileira).

Resultado: em 1999, o Bossacucanova foi convidado pela Six Degrees (subsidiária da Crammed nos
Estados Unidos) para uma turnê de discotecagem pelo país e pelo Canadá, ao lado do projeto eletrônico
Banco de Gaia e o DJ Cheb I Sabbah. "Foram 25 dias e 10 vôos", conta Da Lua. No meio dessa grande
viagem promocional, eles acabaram sendo intimados a fazer um ao vivo numa rádio na Califórnia, a
KCRW, no programa Morning Becomes Eclectic. "Disseram para a gente inventar alguma coisa",
diverte-se Márcio, que logo pegou um baixo. Com Alexandre nos teclados, Marcelinho nas pick-ups
(atacando também como rapper, de improviso) e alguns músicos convidados na percussão e guitarra, o
Bossacucanova não só deu conta do recado como ainda deixou os executivos da Six Degrees salivando.

A música do primeiro disco do Bossacucanova, que fez mais sucesso foi O barquinho, que logo virou
hit nas pistas de danças européias, outra música que fez bastante sucesso foi Maria Moita, que acabou
servindo como propaganda em uma empresa telefônica na Espanha.

7 - A Bossa Nova hoje

Em 1998, ano dos 40 anos da Bossa Nova, o Brasil ainda está imerso em um desastre na sua música.
Surgem novos ritmos passageiros como o chamado Forró universitário, que na verdade é um forró bem
mixuruca, aparecem então grupos como Falamansa e Rastapé.

Mas ao mesmo tempo aparece uma mania de Bossa Nova no Brasil, a Bossa Nova volta a ser trilhas de
novela, volta a tocar no rádio, talvez pela febre da Bossa Nova na Europa, vários jovens brasileiros
descobrem o ritmo e se apaixonam.
Nesse mesmo ano, sai o songbook do Marcos Valle, com grandes nomes da música brasileira
interpretando as músicas de Marcos. O Cd é um disco duplo e tem as músicas: Disco 1 - Samba de
verão, Passa por mim, Terra de ninguém, Rocking`you eternally, Black is Beautiful, O amor é chama,
Pigmalião, Quarentão simpático, Seu encanto, Ao amigo Tom, Dia de vitória, Dorme profundo e
Adam`s Hotel. Disco 2 - Preciso aprender a ser só, Bloco do eu sozinho, Sonho de Maria, Eu, Capitão
de indústria, Mustang cor de sangue, Azimuth, E vem o sol, Gente, Os grilos, Viola Enluarada, Minha
voz virá do sol da América e Campina grande. O Cd tem participação de nomes como: Caetano Veloso,
Gal Costa, Ed Motta, João Bosco, Roberto Menescal, Wanda Sá, Emílio Santiago, Eumir Deodato,
Maria Bethânia, Chico Buarque, Edu Lobo, Johnny Alf, Joyce, etc.

/Também em 1998, sai o disco CASA DA BOSSA, um Cd ao vivo com grandes duetos de músicos
brasileiros, sendo Bossa Nova ou não. As músicas do disco são: O barquinho/Vagamente/Você, com o
Pery Ribeiro e a Rosana, Ilusão à toa, com Johnny Alf e Fafá de Belém, Samba de verão, Marcos Valle
e a Patrícia Marx, Desafinado/Astronauta, com a Wanda Sá e o Zé Renato, Tristeza de nós dois/Estamos
aí/Batida diferente, com Leny Andrade e Emílio Santiago, Pra você, com Sílvio César e Elba Ramalho,
Lobo bobo, com a Sandra de Sá e o Wilson Simonal, sendo a melhor gravação do disco, Corcovado,
com Os cariocas e a Ithamara Koorax, Este seu Olhar/Só em teus braços, com a Nana Caymmi e o
Erasmo Carlos, Primavera/Sabe você, com a Alaíde Costa e a Joyce, Nanã, com o Zimbo trio e o
Márcio Montarroyos, Chega de saudade, com o Quarteto em CY e o Frejat, do Barão Vermelho,
Balanço Zona sul, com o Tito Madi e a Cláudia Telles e Mocinho bonito/Você e eu/Fotografia, com o
Léo Jaime e a Dóris Monteiro.
/Ainda em 1998, sai uma caixa com quatros CDs chamada: 40 ANOS DE BOSSA NOVA, uma caixa
comemorativa do aniversário da Bossa Nova. As músicas dos discos são: Disco 1- Amanhecendo, Onde
está você, Desafinado, Este seu olhar, Samba do Avião, Inútil Paisagem, Samba em prelúdio, Se todos
fossem iguais a você, Rapaz de bem, Aleluia, Noite dos mascarados, Garota de Ipanema, Eu sei que vou
te amar e Céu e Mar.

Disco 2 - Terra de ninguém, Só tinha de ser com você, Quem quiser encontrar o amor, Chove chuva,
Sonho de um carnaval, O amor em paz, Chora tua tristeza, Por toda minha vida, Nós e o mar, Deixa,
Pra machucar meu coração, Antes e depois, Nanã e Primavera.

Disco 3 - A felicidade, Preciso aprender a ser só, Menina flor, Onde está você, Nós e o mar, Também
quem mandou, Consolação, Canta, canta mais, Reza, Corcovado, Mulher passarinho, Balanço zona
sul, Derradeira primavera e Você.
Disco 4 - Estrada do sol, A noite do meu bem, Influência do jazz, O barquinho, Tristeza de nós dois,
Vem, Estamos Aí, Estou só, Berimbau, Balanço zona sul, Sou sem paz, Samblues, Ternurinha e Manhã
de carnaval.

Os CDs têm músicas interpretadas por grandes nomes da música brasileira como: Agostinho dos Santos,
Wanda Sá, Cesár Camargo Mariano, Alaíde Costa, Zimbo trio, Tom Jobim, Toquinho, Maysa, Elis
Regina, Marcos Valle, Jorge Ben, Dick Farney, Edu Lobo, Chico Buarque, MPB-4, entre outros.

Ainda em 1998, nos Eua, sai o disco BOSSA NOVA MEETS DRUM`N`BASS, da Ithamara Koorax, as
músicas do cd são: Wave, Summer samba, Corcovado, Morning of carnival, Minha saudade, Garota de
Ipanema, How insensitive, Desafinado, Os grilos e Browday Bossa Nova.
Em 1998, também é o ano que sai em Cd o histórico disco: CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, da Elizeth
Cardoso, lançado em vinil em 58, também para comemorar os 40 anos da Bossa Nova.

No final de 1998, João Marcello Boscoli, filho da Elis Regina e do Ronaldo Boscoli, junto com os
irmãos Cláudio e André Szajman, amigos desde a infância montam uma gravadora. Mas não uma
gravadora qualquer, e sim uma companhia que revelasse novos talentos da música brasileira e resgatasse
a carreira de artistas deixados de lado pela mídia. Com isso surgiu a gravadora Trama. Os idealizadores
tinham em mente ocupar um vácuo cultural e mercadológico negligenciado pelas majors do setor,
excessivamente voltadas para a produção padronizada de música. Essas companhias ignoraram, durante
mais de uma década, a diversidade da música brasileira e os anseios do público consumidor, responsável
pelo sexto maior mercado mundial.
/Em 1999, sai o belo disco SÓ DANÇO SAMBA, de João Donato, só com músicas de Tom Jobim. As
músicas do disco são: Só danço samba, Corcovado, Samba de uma nota só, Caminhos cruzados, Garota
de Ipanema, Vivo sonhando, Meditação, Fotografia, Amor em paz, Ela é carioca, Outra vez, Brigas
nunca mais, Triste e Wave.
Também em 99, sai o songbook do João Donato, as músicas dos discos são: Disco 1 - Simples carinho,
Brisa do amor, Nua idéia, Bananeira, Mentiras, Maria surpresa, Coisas distantes, Emoriô, Nasci para
bailar, Os verbos do amor, Sambou sambou, Fim de sonho, Cadê você e Muito a vontade.
Disco 2 - Até quem sabe, O fundo, A rã, A bruxa de mentira, Café com pão, Terremoto, É proibido
afinar o piano, Chorou chorou, Nossas últimas viagens, Amor perfeito, Sambolero, Os caminhos, Quem
diz que sabe e Doralinda.

Disco 3 - Minha saudade, Depois do natal, A paz, Naturalmente, Everyday, Gaiolas abertas, Daquele
amor nem me fale, Amazonas, Flor de maracujá, Entre um sim e um não, Lua dourada, Lugar comum,
Fonte da saudade e O escafandrista.
Os três CDs têm participação de músicos como: Leny Andrade, Os cariocas, Leila Pinheiro, Ed Motta,
Djavan, Gilberto Gil, Johnny Alf, João Bosco, Miúcha, Marcos Valle, Caetano Veloso, Ivan Lins, Joyce,
J. T. Meirelles, Edu Lobo, Chico Buarque, Gal Costa e outros.
/Ainda em 99, sai o belíssimo disco VIVENDO VINÍCIUS AO VIVO, com o Baden Powell, Carlos
Lyra, Toquinho e Miúcha, numa bela homenagem ao poetinha Vinícius de Moraes.

As músicas do disco são: Disco 1 - Samba pra Vinícius, Tarde em Itapuã, A felicidade, Cartão de visita,
Berimbau, Samba de Orly, Pela luz dos olhos teus, Você e eu, Valsa de Eurídice, Mais um adeus, Minha
namorada, Tua imagem, O amor em paz e Formosa.
Disco 2 - Cântico lamento/Consolação, Sabe você, A casa/O pato/A tonga da mironga do
kabuletê/Cotidiano n.º 2, Regra três, Eu sei que vou te amar, Variações bachianas de Baden Powell,
Coisa mais linda/Pau de arara, Aquarela, Samba em prelúdio, Primavera, Serenata do adeus/Valsinha,
Garota de Ipanema, Marcha da Quarta-feira de cinzas e Samba da benção.

/Em 1999, também sai a belíssima coletânea MEUS PRIMEIROS PASSOS E COMPASSOS, pelo selo
Revivendo, que tem as primeiras músicas do Tom Jobim, com vários intérpretes.

As músicas do Cd são: Incerteza, com Mauricy Moura, que é a primeira gravação de uma música do
Tom, que a fez em parceria com Newton Mendonça, Pensando em você, a primeira música que o Tom
compôs sozinho e Faz uma semana, as duas com Ernani Filho, Solidão, com Nora Ney, Outra vez, com
Dick Farney, numa gravação bem diferente feita pela Elizeth Cardoso e pelo João Gilberto, Teresa da
Praia, na antológica gravação do Dick Farney e do Lúcio Alves, toda a maravilhosa Sinfonia do Rio de
Janeiro, com vários cantores expetaculares, como Os Cariocas, Dick Farney, Elizeth Cardoso, Lúcio
Alves, Nora Ney, Dóris Monteiro e Jorge Goulart, O que vai ser de mim, com Nora Ney, Se é por falta
de adeus e Engano, as duas com a Dóris Monteiro, Vem viver ao meu lado, com a Gilda de Barros, a
bela A chuva caiu, com a Ângela Maria, música do Tom com Luís Bonfá, Teu castigo, com a Dalva de
Oliveira, Samba não é brinquedo, com Dora Lopes, Foi a noite, com a Sílvia Telles, Sonho Desfeito,
com Bill Far, Pé grande, com Raul de Barros, Só saudade, com a Cláudia Morena, Eu e meu amor,
Mulher, sempre mulher, Lamento no morro e Se todos fossem iguais a você, essas da peça Orfeu da
Conceição, cantadas pelo Roberto Paiva e no final, Luar e batucada, também cantada por Sílvia Telles.

/Ainda em 1999, sai o disco HARD BOSSA, o primeiro da Joyce pela gravadora Farout Recordings. As
músicas do disco são: Zoeira, Quarup, a bela Criança, Nome de guerra, a maravilhosa London Samba,
que na verdade é um samba-jazz de primeirissíma qualidade, Todos os santos, Juparana, Novelo, a bem
jazzística Hard Bossa e Vatapá, com citação de música de Dorival Caymmi. Todas as músicas são
inéditas e da Joyce.
Em 99, ainda tem o disco do Azimuth, que se chama PIECES OF IPANEMA, as músicas do disco são
Pieces of Ipanema, Brazymuth, Papa, Carambola, Tribal, Sunderly Samba, Onde anda meu amor,
Brincando a fogo, Mimosa e Juntos mais uma vez.
Também em 1999, sai o disco 35 ANOS AO VIVO, um cd que é um show comemorativo dos 35 anos
do Zimbo Trio, as músicas do disco são: O cavaleiro e os moinhos, de João Bosco e Aldir Blanc, Água
de Beber, Lamentos, do Pixinguinha e do Vinícius de Moraes, Garota de Ipanema, um medley intitulado
Tributo ao Milton, com as músicas: Ponta de Areia, Teia de renda, Fé cega, faca amolada, Nada será
como antes, O que é feito de Vera, Certas canções e Maria Maria, depois ainda tem Choro para
contrabaixo, A felicidade, O morro não tem vez, Negro maluco e Aquarela do Brasil.

/No final de 1999, pela gravadora Trama sai o espetacular disco SAMBA RARO, do Max de Castro,
filho de Wilson Simonal. O cd mistura samba, soul, bossa nova e música eletrônica. As músicas do cd
são: Intro, a faixa título sensacional Samba Raro, Afrosamba, uma homenagem clara aos afrosambas de
Baden Powell e Vinícius de Moraes, Pra você lembrar, a melhor faixa do disco, fazendo referência a
Sonho de Carnaval, do Chico Buarque, depois tem Ela disse assim, Rapadura, o samba rap Onda
diferente, 1 flash, 2 bailarinas, Você e eu e Outro. Todas as músicas são do próprio Max de Castro. O cd
acabaria se transformado em referência na chamada nova MPB, sendo elogiado por gente como Nelson
Motta, Jorge Ben Jor e Ed Motta, que, aliás, falou que esse disco era o novo Chega de Saudade, que foi
o primeiro disco de João Gilberto. O cd também acabaria fazendo sucesso no exterior, especialmente
nos Eua, Japão e Inglaterra, tanto que Max foi capa da revista Time, que o chamou da "maior estrela da
música brasileira dos últimos 30 anos". Pouco depois a música Pra você lembrar é remixada pelo Dj
Patife e vira um dos maiores sucessos nas pistas européias e japonesas.

/Estamos no ano 2000, a gravadora Crammed lança o que seria o "carro-chefe" de sua gravadora: o
espetacular álbum TANTO TEMPO, da Bebel Gilberto. No seu primeiro disco solo, Bebel reinventa o
som clássico da Bossa Nova com a luz cool do novo século. O cd é produzido pelo iugoslávio radicado
no Brasil Suba, que acabaria falecendo pouco antes de o disco ficar pronto. No cd, Bebel mistura alguns
clássicos da Bossa Nova, com músicas próprias e o resultado ficou espetacular.

As músicas do disco são: uma versão bem cool e lounge music de Samba da Benção, a belíssima e
sombria August Day Song, da própria Bebel com participação da cantora Nina Miranda, a bossa de
Tanto Tempo, também da Bebel, a mais animada Sem Contenção, também da Bebel, com a percursão de
João Parahyba, um mestre do Samba-Rock, a clássica Mais Feliz, da Bebel, com o Cazuza e o Dé,
Alguém, também dela, a mais eletrônica do disco, o clássico Summer Samba, a versão em inglês de
Samba de Verão, a mais carioca música do disco, Lonely, também dela, com o marido da prima dela,
Carlinhos Brown na percursão e o grupo americano Thievery Corporation, a maravilhosa Bananeira, a
melhor gravação do disco com participação especial do mestre João Donato, Samba e Amor, do titio
Chico Buarque, com o Celso Fonseca no violão e a maravilhosa e surpreendente Close Your Eyes,
também dela, com letra em inglês e português. É um dos melhores discos que saiu no mundo nos
últimos anos e fez com que ela virasse estrela mundial e saísse da sombra do pai João Gilberto. O disco
acabou vendendo mais de 1 milhão de cópias no mundo todo.
Ainda no ano 2000, sai o aguardado disco JOÃO, VOZ E VIOLÃO, do João Gilberto. Tinha nove anos
que ele não lançava um disco em estúdio. O disco foi dirigido por Caetano Veloso. A capa do disco
mostra o rosto da atriz Camila Pitanga fazendo sinal de silêncio para uma platéia imaginária. Podia ser
um recado aos jecas novos-ricos que, em 1999, o vaiaram no Credicard Hall, em São Paulo, e para
quem ele mostrou a língua e cantou Vaia de bêbado não vale, num show ao lado de Caetano Veloso.
Esse disco recebeu muitas críticas aqui no Brasil, por ser mais um disco de banquinho e violão do João
Gilberto, ter mais uma vez gravações de músicas como Chega de saudade e Desafinado, e
especialmente sua voz falhar em algumas faixas, coisa que parecia impossível. Mas nesse disco foi o
primeiro disco de estúdio nesse formato – só João e o violão, sem orquestra. Também ninguém acusava
Frank Sinatra de gravar pela milésima vez Night and day, porque acusam o João de regravar Chega de
saudade e Desafinado? Ainda porque mais de uma geração inteira, não tinha ouvido a gravação original
dessas músicas. Por coincidência, esse disco que recebeu várias críticas no Brasil, recebeu o Grammy
de World Music, nos Estados Unidos, fazendo com que o João ganhasse seu sétimo Grammy, recorde
no Brasil. As faixas desse belo disco são: a bela Desde que o samba é samba, de Caetano Veloso, sendo
a primeira gravação do João dessa música, a maravilhosa Você vai ver, música do Tom, que também o
João não tinha gravado, o bolero Eclipse, de Lecuona, a rara Não vou pra casa, de Antonio Almeida, a
eterna Desafinado, a bela Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil, a maravilhosa Coração vagabundo, de
Caetano Veloso, a também bela Da cor do pecado, clássico de Bororó, a bela Segredo, de Herivelto
Martins e Marino Pinto e no final mais uma gravação de Chega de saudade. Como disse Caetano
Veloso: “Melhor do que isso só mesmo o silêncio, melhor do que o silêncio só João.”

/Também em 2000, sai o belo disco WANDA SÁ & BOSSA TRÊS, com o lendário grupo Bossa Três e
a cantora Wanda Sá. O cd é primeiro lançado para o mercado japonês e depois chega ao Brasil. O cd
privilegia mais algumas canções raras da Bossa Nova, mas têm alguns clássicos também. As músicas do
cd são: Errinho à toa, da dupla Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli, Deixa a nega gingar, de Luiz
Cláudio de Castro, Casa forte, do Edu Lobo, um medley, com Se é tarde me perdoa, de Carlos Lyra,
Pra machucar meu coração, de Ary Barroso e Palpite Infeliz, de Noel Rosa, depois tem a maravilhosa
Brisa do mar, de João Donato, Light my fire, da banda de rock The Doors, a mais surpreendente do
disco, que foi uma espécie de agradecimento, já que o baixista do The Doors já declarou várias vezes
que as músicas da banda foram inspiradas na Bossa Nova, Pode ir, de Carlos Lyra e Vinícius de
Moraes, uma versão funk de Zazueira, de Jorge Ben Jor, um medley com Moonlight, de John Willians e
com Garota de Ipanema (de novo!), um outro medley com as belas Estrada do sol e Foi a noite, Amor
até o fim, do Gilberto Gil, Canção que morre no ar, também de Carlos Lyra, Zanga, zangada, também
do Edu Lobo e no final um medley com as sensacionais Two kites, Fotografia e Eu preciso de você,
todas do nosso maestro soberano Antônio Carlos Jobim. Esse disco também marca a despedida do
fantástico contrabaixista Tião Neto, morto em 2001 e do pianista Luiz Carlos Vinhas, morto em 2002.

/Também em 2000, sai pela Trama o também belo disco PROJETO ARTISTAS REUNIDOS, um disco
ao vivo que reúne o chamado projeto artistas reunidos, que reúne: Max de Castro e Wilson Simoninha,
filhos de Wilson Simonal, Pedro Mariano, filho de Elis Regina e César Camargo Mariano, Jairzinho
Oliveira e Luciana Mello, filhos de Jair Rodrigues, e Daniel Carlomagno, o úníco sem ascendência na
MPB. O disco é como um "abre-alas" para essa turma, que veio sacudir a música brasileira, com um pé
na música dos pais nos anos 60 e 70, e com o outro no século XXI. As músicas do disco são: um
medley, que mistura Aqui nesse pedaço, do Daniel, do Simoninha e de Jairzinho, Samba da minha terra,
de Dorival Caymmi, Qual mentira vou acreditar, de Mano Brown, Samba de uma nota só, do Tom e do
Newton Mendonça, De noite na cama, de Caetano Veloso, Você não entende nada, também de Caetano
e Zazueira, de Jorge Ben Jor, depois ainda tem a sensacional Simples desejo, do Daniel e do Jairzinho,
Mais um caso, só do Daniel, Histórias complicadas, de Max de Castro, Disritmia, do Jairzinho, Só
chamar, do Daniel, do Pedro e do Jairzinho, Tributo a Marthin Luther King, do Wilson Simonal e de
Ronaldo Boscoli, Calados, do Jairzinho, Pedra sobre pedra, do Daniel, Tropical melancolia, do Max de
Castro, Morena paulista, do Jairzinho, Livre para viver, do Cláudio Zoli e Bebete Vãobora, de Jorge
Ben Jor. Realmente essa turma mostrou que veio para ficar.
/Também em 2000, sai o primeiro disco de Wilson Simoninha, também pela Trama, chamado de
VOLUME 2, as músicas do disco são: Vinheta, Mas que nada (com uma vinheta da primeira gravação
dessa música), Bebete Vãobora, cantada com o Jairzinho, que coloca um rap no meio da música, É isso
que dá, do Jairzinho, Música romântica, do Max de Castro, com participação do Pedro Mariano,
Agosto, também do Max, a clássica Nanã, misturada com um rap maravilhoso feito pelo Camorra,
Aquele Gol, do próprio Simoninha, que é um "baião eletrônico", a bela Lua clara, também do
Simoninha, Ter você, do Daniel Carlomagno, Vou buscar, Orgulho, as duas também do Simoninha, Flor
do futuro, de Cláudio Zoli e a sensacional Eu e a brisa, de Johnny Alf.

No dia 26 de junho de 2000, morre o grande cantor Wilson Simonal, ele já estava doente e não resistiu.
Ele que acabou morrendo meio que no ostracismo, conseguiu acompanhar pelo menos um pouco do
sucesso de seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha. Realmente vai ficar na memória por seu jeito
todo suingado de cantar que deu início a chamada pilantragem.

/Ainda em 2000, sai também pela Trama o sensacional disco LEMBRANÇAS, do mestre do violão
Baden Powell. As músicas do disco são: As pastorinhas, de Noel Rosa, Inquietação, de Ary Barroso,
Molambo, de Jayme Florence, Falei e disse, do próprio Baden, com o Paulo Cesár Pinheiro, Dora, de
Dorival Caymmi, Linda flor, de Henrique Vogeler (que é o primeiro samba-canção), Maria, também de
Ary Barroso, Minha palhoça, de J. Cascata, Branca, de Zequinha de Abreu, Mágoas de cabloco,
também de J. Cascata e O astronauta, do próprio Baden com o Vinícius de Moraes.

O cd acabaria sendo histórico, pois Baden Powell morreria alguns meses depois, no dia 26 de setembro
de 2000. Foi uma perda enorme para a música brasileira e mundial, pois não tinha ninguém que tocava
um violão como Baden.

Também no ano 2000, a cantora Claudette Soares lança o disco: CLAUDETTE SOARES AO VIVO,
mostrando músicas de várias fases na sua carreira, não sendo só de Bossa Nova. O disco também tem
várias participações, as músicas do disco são: De tanto amor, Teletema/Ao redor/Meia volta/Juliana,
Lágrimas por dentro, um pout-porri envolvendo: Registro, Ao amigo Tom e De palavra em palavra,
com o Roberto Menescal, depois tem A volta, Bom tempo, Autonomia, Primavera, Hoje, Coisas, Razão
de viver/Tristeza de nós dois, Como é grande meu amor por você, Fotografia/Demais, com a Cláudia
Telles, Eu gosto mais do Rio, O que é amar, O cravo brigou com a rosa/Que maravilha, com o Jorge
Ben Jor, Mundo novo, vida nova, Acontece, Tudo se transformou, Se eu pudesse dizer que te amei,
Quando eu errei, Cenário e Jogando conversa dentro.

Em 2000, também sai o novo disco do Azimuth, chamado BEFORE WE FORGET, as músicas do disco
são: Equipe 68, Antes que esqueça, Folgada, Rosaile, Araruama, Raspa do tacho, Castelo, Valsa for
US, Tropical rain, Tempos do Paraná, Antes que esqueça/Organ Prelude e Castelo.

Também em 2000, sai nos EUA o sensacional disco AMAZONAS, do João Donato. As músicas do cd
são: Sambolero, Amazonas, Glass beads, Aquarius, Alegria para contar, Mentiras, Sugar cane breeze,
Coisas distantes, A rã, Like nanai, Everyday, Brisa do mar, Tardes de verão, Os caminhos, Fim de
sonho, O fundo, Café com pão e Bananeira.

/Também o ano 2000 foi o ano de relembrar os 20 anos da morte do poetinha Vinícius de Moraes e saem
dois discos maravilhosos. O primeiro deles foi A ARTE DO ENCONTRO, juntando o MPB-4 e o
Quarteto em Cy. As músicas do disco são: Samba pra Vinícius, Minha namorada/Primavera, Chega de
saudade, Berimbau/Canto de Ossanha, Samba em prelúdio/Apelo, Lamento no morro/Anoiteceu,
Odeon, Samba do carioca/Sabe você, Mais um adeus/Regra três/Samba da volta, Arrastão, Garota de
Ipanema, Se todos fossem iguais a você/Eu sei que vou te amar, o medley chamado suíte esperança com
as músicas: Tempo feliz/A felicidade/Marcha da Quarta-feira de Cinzas/Deixa/Frevo do Orfeu, que é o
melhor momento do disco e no final 20 anos depois de morto, Vinícius de Moraes volta a se intitular "o
branco mais preto do Brasil" no Samba da benção.

/O segundo foi o espetacular TOM CANTA VINÍCIUS, o disco saiu de um show ao vivo que o Tom
Jobim fez ao lado da sua Nova Banda em 1990, na época para relembrar os 10 anos da morte de
Vinícius de Moraes. O cd é realmente maravilhoso e as músicas do disco são: Soneto da separação,
Valsa de Eurídice, só do Vinícius, tirada do Orfeu da Conceição, a bela Seranata do adeus, também só
do Vinícius, Medo de amar, também só do Vinícius, essas duas tiradas do disco CANÇÃO DO AMOR
DEMAISdepois tem a clássica Insensatez, numa interpretação maravilhosa, Poética, um poema do
Vinícius declamado pelo Tom, Eu não existo sem você, Derradeira Primavera, Modinha, cantada pelo
Danilo Caymmi, a clássica Eu sei que vou te amar, um medley com a belíssima Carta ao Tom, do
Toquinho e do Vinícius e Carta do Tom, que é a resposta do Tom, a sempre emocionante A felicidade,
cantada pelo Danilo Caymmi, Você e eu, Samba do carioca, as duas o Vinícius fez com Carlos Lyra, Ela
é carioca, uma versão meio japonesa de Garota de Ipanema, com direito a um “arigatô” do Tom, e no
final "uma valsinha com sabor meio parisiense" como disse o Tom, que é a maravilhosa Pela luz dos
olhos teus. No show, Tom também fala um versinho que fez para Vinícius: "Meu Vinícius de Moraes,
não consigo te esquecer. Quanto mais o tempo passa, mais me lembro de você. Cadê meu poetinha?
Cadê minha letra, cadê? Morro nesse piano de saudades de você."

/Também em 2000, aqui no Brasil sai três discos que fazem homenagem conjunta a dois mestres:
Gershwin e Tom Jobim. O primeiro deles é PARA GERSHWIN E JOBIM, de Mário Adnet. As músicas
desse disco são: I got rhythm, do Gershwin, A american no samba, do próprio Mário, Desafinado, em
português e inglês, a bela Jobim in heaven, Chorojazz, as duas também de Mário, a maravilhosa e
clássica Love is here to stay, também do Gershwin, Pedra bonita, Antônia, as duas também do Mário, a
clássica Tico tico no fubá, de Zequinha de Abreu, Song of Isabella, Planeta azul e Trote da raposa, as
três também do Mário. O cd também tem participação de Joana Adnet, filha do Mário.

O segundo deles é o cd: PAULO MOURA VISITA GERSHWIN E JOBIM, do Paulo Moura. Esse foi
um cd ao vivo. As músicas desse disco são: um pot-pourri espetacular que reúne: Rapsody in blue,
Samba do Avião, Só danço samba e I got rhythm, depois tem Surfboard, Água de beber, Falando de
amor, Prelúdio II, Lady be good, I've got plent o'nuttin, The man I Love, Embraceable you, a clássica
Summertime e no final um pot-pourri também sensacional só com músicas do Tom: Esse seu olhar, Eu
sei que vou te amar, Eu não existo sem você e Se todos fossem iguais a você.
E o terceiro cd é: PARA GERSHWIN E JOBIM 2 KITES, também do Mário Adnet, que serve como
continuação do seu disco anterior. As músicas do disco são: um medley que junta as clássicas e belas:
Rapsody in blue e Samba do Avião, depois tem a sensacional Surfboard, Na mesma direção, do próprio
Mário, But not for me, cantando ao lado da filha Joana, a também sensacional Chansong, cantando ao
lado do filho do Tom Paulo Jobim, Bate boca, Someone to watch obver me, também cantando ao lado
da filha, a também sensacional Two kites, Desafinada, também do Mário, cantando ao lado da Joyce,
com referências ao clássico Desafinado, do Tom e do Newton, Fascinating rhythm, que o Tom gravou
no seu disco PASSARIM, Acho que vai ficar bom, também do Mário, a rara Valsa do porto das Caxias,
do Tom e Xotistrote, também do Mário.
/No final de 2000, sai para o mercado japonês, o belíssimo disco TUDO BONITO, da Joyce com o João
Donato. As músicas do disco são: a sempre sensacional Bananeira, a bela Prossiga, parceria dos dois,
Adolescência, a nostálgica Anos 30, o afro-samba de Canto de Yemanjá, rara e bela parceira de Baden e
Vinícius com citação de música de Dorival Caymmi, o belo bolero de Drume negrita, Lamarca na
gafieira, Falta de ar, do João Donato, a clássica Só tinha de ser com você, Galã tantã, a latina Sambou,
sambou, do João Donato e a belíssima Tudo bonito.

O ano de 2001 foi marcado pela volta na mídia do samba-rock, que estava esquecido pela imprensa,
mas resistia aos bailes de gafieira. Aparecem nomes como Paula Lima, Funk como le gusta, Seu Jorge e
voltaram a tona nomes como Trio Mocotó e Bebeto. No mesmo ano acabou surgindo uma das piores
coisas que apareceram na música brasileira em todos os tempos que foi o chamado funk carioca, que na
verdade é uma dança que estimula o sexo com letras de duplo sentido aliado a batida eletrônica,
completamente diferente do funk criado por James Brown, acabou virando uma febre entre os
brasileiros, especialmente com o Bonde do Tigrão, que logo sumiu.

Também no ano de 2001, sai a belíssima coletânea THE MASTER COLLECTION – SÉRGIO
MENDES, pela gravadora Universal em parceria com a rede Globo. Nesse estraordinário cd tem algum
dos maiores sucessos do sensacional Sérgio Mendes, o rei da música do elevador e um dos maiores
nomes da Bossa Nova em todos os tempos. As músicas desse cd são: a música que fez Sergio Mendes
ser conhecido no mundo todo: o super clássico Mas que nada, do Jorge Ben Jor, depois tem a também
clássica Night and Day, de Cole Porter, depois a também famosa The look of love, depois tem a bela
Goin out of my head, depois tem Mascarade, depois tem a maravilhosa So many stars, do próprio
Sérgio Mendes, depois tem What the world needs now is love, num clima bem hippie, falando em hippie
tem o clássico With a little help from my friends, dos The Beatles, do disco YELLOW SUBMARINE,
depois tem a bela e surpreendente Norwegian Wood, também dos Beatles, com vários toques latinos,
depois tem Scarborough fair/Canticle, depois tem o clássico Day tripper, também dos Beatles, depois
tem a maravilhosa Pretty World, versão em inglês do clássico Sá Marina, que ficou eternizada na voz de
Wilson Simonal, depois tem Watch what happens, depois tem a também bela Look around e no final
uma versão instrumental de Desafinado, ainda da fase que o Sérgio Mendes estava no Brasil e lançou o
espetacular disco VOCÊ AINDA NÃO OUVIU NADA. Com isso finalmente o Brasil relembrou do
inventor da Bossa Pop, o grande mestre Sergio Mendes, que ainda faz um enorme sucesso nos Eua e
agora é idolatrado no Japão e na Europa.

/Também o ano de 2001 foi marcado por vários lançamentos de Bossa Nova. Como por exemplo:
BOSSA ENTRE AMIGOS, num disco ao vivo, reunindo Roberto Menescal, Wanda Sá e Marcos Valle,
com a participação da cantora Patrícia Alvi. O disco na verdade tem vários clássicos com a maioria
deles num arranjo meio fraquinho, mas o talento dos quatro se superou. O disco começa com a Wanda
Sá e o Roberto Menescal, cantando alguns sucessos do Menescal, que são: Ah se eu pudesse, Telefone,
Vagamente, um medley com O barquinho/Você, depois tem os dois começando a cantar Samba de
verão, do Marcos Valle e ele continua a cantar, depois o Marcos Valle e a Patrícia Alvi cantam mais
algumas músicas dele que são: a desconhecida Seu encanto, um medley com Ao amigo Tom e Preciso
aprender a ser só e por último a sempre emocionante Viola enluarada, depois o disco continua com
sucessos de outros compositores da Bossa Nova. O Marcos e a Patrícia cantam Você e eu, do Carlos
Lyra e do Vinícius de Moraes, Este seu olhar, do Tom Jobim e A rã, do João Donato, a qual o Marcos
conta uma história, que uma vez estava na casa do Lula Freire e o Tom vira para ele e diz: daqui a
poquinho vai chegar meu professor, e o Marcos pensou: não é possível, esse cara tem professor? E aí
quando ele chegou era o Donato e o Tom falou: esse é o João Donato, esse é meu professor, foi com ele
que eu aprendi as coisas. Para se ter uma idéia de como João Donato foi importante. A Wanda Sá e o
Menescal cantam: Rapaz de bem, do Johnny Alf, E nada mais, de Durval Ferreira e Lula Freire e Tem
dó, do Baden e do Vinícius. No final os quatro cantam três músicas novas: Nova Bossa Nova, do
Marcos Valle, Benção Bossa Nova, do Carlos Lyra e Roberto Menescal e a inédita Bossa entre amigos,
do Marcos Valle e do Roberto Menescal. Essas três ultimas musicas acabam sendo as melhores do cd.

Também em 2001, sai o disco JOBINIANDO, de Ivan Lins homenageando Tom Jobim, com produção
de Roberto Menescal. As músicas do disco são: um medley com Vivo sonhando e Triste, Acaso, do
próprio Ivan, Inútil paisagem, Soberana rosa, também do Ivan, Samba do Avião, Bonita, Rio de Maio,
também do Ivan, um medley com Este seu olharPromessas, cantando junto com a Cris Dellano, a bela
Times after time, que ficou famosa na voz de Frank Sinatra, Caminhos cruzados, Eu sei que vou te
amar, Dindi, a inédita Jobiniando, do Ivan com o Martinho da Vila e no final uma faixa bonûs com She
walks this earth, a versão em inglês de Soberana rosa, numa faixa techno, remixada pelo
Bossacucanova.

/Também em 2001, sai finalmente ao Brasil em cd, o primeiro disco da Wanda Sá: VAGAMENTE, de
1964. O disco tem participação de dois monstros sagrados da Bossa Nova: Roberto Menescal e Eumir
Deodato. As músicas do disco são: a desconhecida Adriana, do Roberto Menescal, E vem o sol, do
Marcos Valle, Encontro, da própria Wanda Sá e do Nelson Motta, Só me fez bem, do Vinícius e do Edu
Lobo, Mar azul, do Francis Hime, Também quem mandou, Tristeza de nós dois, Vivo sonhando, Sem
mais adeus, Inúltil Paisagem, Tristeza de amar, do Geraldo Vandré, Vagamente e três faixas bonûs em
inglês que são: Summer Samba, Quiet nigths of quiet stars e To say goodbye. Alías esse disco já tinha
saído em cd no Japão há quase 10 anos e é um dos mais vendidos naquele país que adora tanto a Bossa
Nova.

Ainda em 2001, pela Trama sai o disco COOL STEPS: DRUM`N`BASS GROVES, do Dj Patife, que
mistura música brasileira, incluindo a Bossa Nova, com a batida eletrônica do Drum`n`Bass, famoso
mundialmente com o também brasileiro Dj Marky. O cd na verdade é um verdadeiro celeiro de feras da
música brasileira e inglesa, com vários artistas. As músicas do disco são: Touch of freedom, A go go,
Revisited, a clássica Só tinha de ser com você, do Tom Jobim e do Aloisio de Oliveira, cantada
brilhantemente pela então desconhecida cantora Fernanda Porto e remixada pelos mais famosos djs do
Brasil: Dj Patife e o Dj Marky, depois tem Future`s call, The way I fell, Just a groove, Pure funk, a
sensacional Grooves, ritmos, sons e vinhetas, do Jairzinho Oliveira, com a presença do próprio, a bela
Esfera, Wishing Well, a bossa de Jam session, do Patife e do João Parahyba, do Trio Mocotó,
Supergrass, 81 is the number e no final uma faixa bônus com a espetacular Sambassim, da Fernanda
Porto, um samba rock com batidas eletrônicas, que foi a grande responsável pelo estouro do Patife pelas
pistas européias, cantada pela própria Fernanda.
/Ainda em 2001, chega ao Brasil, o maravilhoso disco do Bossacunova, que se chama BRASILIDADE.
O cd tem a presença do Roberto Menescal, pai do Márcio, ele saiu em 2000 pela Crammed e no Brasil
foi lançado pela Trama. No primeiro cd tinha apenas gravações de clássicos da Bossa Nova com batidas
eletrônicas, sem ninguém tocar, já no segundo tem o Márcio Menescal tocando baixo, o Alexandre
Moreira nos teclados, o Marcelinho Da Lua no scratch e o Roberto Menescal numa surpreendente
guitarra elétrica, alías é ele e sua guitarra que é a melhor coisa do cd. As músicas do disco são: uma
versão bem Soul Bossa Nova de Telefone, continuando no Soul Music tem Nanã, depois tem uma
versão bem moderna e contagiante de Rio, com a voz de Cris Dellano, depois tem a inédita e mais
surpreendente do disco Guanabara, num samba house de primeira, com o Menescal dando show na
guitarra, depois tem uma versão bem hip hop de Água de beber, depois uma versão bem funk de Garota
de Ipanema, cantada brilhantemente pelo Ed Motta, com todo seu suingue, depois tem uma versão bem
blues da rara Morte de um deus de sal, com mais um show de Menescal na guitarra, a também inédita
Brasilidade, começando num sample de Vinícius de Moraes falando de uma carta ao Tom e depois
misturando música eletrônica, com tamborim, ganzá e triângulo, depois tem uma versão bem animada
de Surfboard, uma versão esplendorosa de Nós e o mar, depois tem a continuação dela, a inédita Mais
perto do mar, as duas com a Cris Dellano, com direito a sampler das ondas do mar nas duas músicas,
realmente é emocionante, e no final uma versão bem hip hop de Bye bye Brasil, do Menescal com o
Chico Buarque. O disco sem dúvida, é o melhor disco de Bossa Nova que saiu nos últimos anos e um
dos melhores em todos os tempos, com um jeito meio samba soul jazz eletrônico.

Ainda em 2001, sai pela Farout Recordings, três grandes álbuns: o primeiro é BRAZILIAN LOVE
AFFAIR VOL. 2, as músicas do disco são: Intro, Os escravos de Jó, com Friends from Rio 2, Ponteio,
com Da Lata, Quem com quem, com Azimuth e Marcos Valle, Nas águas do Rio, com Célia Vaz, Times
before, com Azimuth, Soberana, com Wilson das Neves, Quarup, com a Joyce, Mama Samba, com o
Grupo Batuque, Freio aerodinâmico, com Marcos Valle, Amazon adventure, com o Azimuth, Canto de
Libertação, com a Aricia Mess, Constelação, com Tutti Moreno e Dindi, com Victor Assis Brasil.

/O segundo deles é o sensacional GAFIEIRA MODERNA, da Joyce. As músicas do disco são: o


afrosamba Forças d`alma, que a Joyce dedica às forças da alma africanas no Brasil no século XX:
Clementina de Jesus, Pixinguinha, Baden Powell e Moacir Santos, Na casa do Villa, uma homenagem
clara ao mestre Heitor Villa-Lobos, relembrando quando Tom Jobim foi visitar o ídolo, ficou
imprensionado como ele continua compor com tanto barulho em sua casa ao que o Villa respondeu:
“meu filho, o ouvido de fora não tem nada ver como o ouvido de dentro”, Pega leve, onde ela fala da
mistura da Bossa Nova com a música eletrônica, que ela chama de “gafieira moderna”, The band on the
Wall, que é o nome de um clube de jazz na cidade inglesa de Manchester, a música saiu lá mesmo
durante uma passagem de som, a feminista Samba da Sílvia, onde canta com a maravilhosa cantora Elza
Soares, Bota de sete léguas, um samba-funk de primeira, a bela Risco, Diz que eu também fui por aí,
que é dedicada ao mestre do samba Zé Kéti, a magnifica Azul Bahia, mais um dos brilhantes temas
instrumentais que a Joyce fez ao longo da carreira e a maravilhosa Quatros elementos, com letra de
Paulo Cesar Pinheiro. Todas as músicas desse ótimo cd são da Joyce e inéditas.
E o terceiro disco é o também sensacional ESCAPE, do Marcos Valle, as músicas do disco são: o
sambinha maravilhoso de Escape, a sensacional Maria Mariana, a bossa manifesto de O indío e o
Brasil, o contagiante samba-jazz Poweride, a bossa de Apaixonada por você, o R&B com letra em
inglês Reality, a espetacular Online, que fala de amores pela internet, que tem a cara da Joyce, a
sensacional Lost in Tokio Subway, Festeira, um samba com baião, bem ao estilo de Baden Powell e o
funk de Fundo falso, todas as músicas do disco também são inéditas. O cd tem participação da cantora
Patrícia Alvi e do grupo Azimuth.
/Também em 2001, sai o sensacional disco OURO NEGRO, uma homenagem, mais que merecida, ao
maestro Moacir Santos. O disco foi produzido por Mario Adnet e Zé Nogueira. O cd é um disco duplo e
recria com maestria várias pérolas do maestro com a presença de grandes nomes da música brasileira.
As músicas dos discos são: Disco 1 - a sempre contagiante Nanã, com o próprio Moacir Santos, Suck-
cha, Coisa n.º 6, a bela Navegação, com o Milton Nascimento, Amphilious. Mãe Iracema, Coisa n.º1,
Sou eu, com o Djavan, Bluishmen, Kathy, Kamba, Coisa n.º 9, Orfeu, com o Ed Motta e Amalgamation.
Disco 2 - Evocative, Coisa n.º 2, Lamento astral, a belíssima Maracatu nação do amor, com o Gilberto
Gil, Coisa n.º 4, Coisa n.º 10, Jequié, Oduduá, com o João Bosco, Coisa n.º 3, Amon, Quermesse, a
expetacular De repente estou feliz, com o João Donato e a Joyce, Maracatucutê e Bodas de prata
dourada, com a Muiza Adnet.
Ainda em 2001, sai o disco É LALÁ LAY-Ê, do João Donato, todas as músicas são inéditas e em
parceria com seu irmão Lysias Ênio. João Donato canta em todas as faixas, as músicas do disco são: a
bela Então que tal, Alguma coisa assim, Se você souber, Do jeito que sei, Vento no canavial, É lalá lay-
ê, a sensacional Bateu pra trás, Sem legenda, Minha garotinha, Pelo avesso e Minha garotinha.

Também em 2001 sai o disco E QUERO QUE A CANÇÃO SEJA VOCÊ, da Leny Andrade numa
belíssima homenagem ao grande compositor Ronaldo Boscoli. Nesse cd estão alguns de seus maiores
sucessos, especialmente com o Roberto Menescal e o Carlos Lyra. As músicas do disco são: a inevitavél
O barquinho, A volta, Rio, Vagamente, Se é tarde me perdoa, Saudade fez um samba, Fim de noite,
Copacabana de sempre, Canção que morre no ar, Você e Telefone.
Ainda em 2001, sai nos EUA o belo disco LAKE OF PERSEVERANCE, do fenomenal Dom um
Romão. O cd tem participação de Danilo Caymmi, Ithamara Koorax e Eumir Deodato. As músicas do
disco são: Lake of perseverance, Blue bossa, Apache groove, House carnival, Sambão, Bit box,
Tentação, Groovystation, Naima, Mas que nada, Eric`s stuff, Afro blue e The fisherman`s dream.

Também em 2001, sai nos EUA mais um disco de Ithamara Koorax, o espetacular SERENADE IN
BLUE, o cd tem participação da banda Azimuth, de Cristina Braga e Dom um Romão. As músicas do
disco são: Cristal, Um homme et une femme, Mas que nada, Serenade in blue, Moon river, Samba de
verão, The shadow of your smile, Bonita, uma bela versão de Aquarela do Brasil, sendo que no fim a
melodia deságua em Garota de Ipanema, Arranjuez, Dio come ti amo e Iluminada. Todos os arranjos do
disco foram feitos por ninguém menos que Eumir Deodato.
Estamos no ano de 2002, o ano que a Bossa Nova comemora os 40 anos do histórico show no Carnegie
Hall, em Nova York. A boa música brasileira continua fazendo enorme sucesso especialmente na
Europa e Japão. Aqui no Brasil o chamado funk carioca que andava em baixa, voltou, graças ao Mc
Serginho e a Lacraia, uma das coisas mais ridículas que apareceu no Brasil em todos os tempos.
Também aqui no Brasil surgem outros fenômenos passageiros como Kelly Key e o Rouge, mas no meio
disso tudo apareceram bons nomes como de Jorge Vercilio e o maior fenômeno da música brasileira
daquele ano: Os Tribalistas, grupo formado pela Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Bown,
que acaba virando uma mania nacional. No quesito de Bossa Nova, foi outro ano de vários discos
sensacionais feitos no mundo todo.

Um deles é a belíssima coletânea dupla A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR, organizada pelo
fenomenal escritor Ruy Castro, que escreveu um livro de mesmo nome.

As músicas do disco são:


Disco 1 - Wave, com Os Cariocas, Two Kites, com Mario Adnet, Jangal, com Dom um Romão, Eu
gosto mais do Rio, com Nara Leão, Domingo azul, com Billy Blanco, Esse seu olhar/Só em teus braços,
com a Sílvia Telles e Lúcio Alves, Tem dó, com Rio 65 Trio, Tristeza de nós dois, com Emílio Santiago,
E nada mais, com Os gatos, Ela é carioca, com Quarteto Jobim Morelembaun, Danielle, com o Tamba
Trio, Astronauta, com Cyro Monteiro, Surfboard, com Roberto Menescal e Canção que morre no ar,
com a Sílvia Telles.

Disco 2 - Os grilos, com o Marcos Valle, Captain bacardi, com Tom Jobim, Você, com Dick Farney e a
Norma Bengel, Pois é, com a Nara Leão, Lindúria, com o Ed Motta, Que besteira, com João Donato,
Tema para quatro, com Os cariocas, Tim Dom Dom, com Jorge Ben, Aquarela do Brasil, com a
Ithamara Koorax e o Eumir Deodato, Coisa nº 8, com Moacir Santos, Ledusha com diamantes, com
Ronaldo Bastos e Celso Fonseca, Maria ninguém, com Brigitte Bardot(!), Samba de verão, com o
Marcos Valle e a Patrícia Marx e Bananeira, com a Bebel Gilberto.

Na contracapa do cd Ruy Castro diz:


A Bossa Nova dá, de novo, à praia

Vou te contar: a onda que se ergueu no mar foi a Bossa Nova. Das areias de Ipanema e das águas de
Cabo Frio, a música que, por volta de 1958, um punhado de rapazes e moças estava fazendo por amor,
chegou às pequenas boates de Copacabana. E ali, ao Brasil, a Nova York e ao mundo. Até 1967, essa
música foi adotada por uma infinade de artistas – de Brigitte Bardot a Frank Sinatra – influenciou o jazz
e a música internacional e definiu o gosto e o caráter de uma geração. Era inevitável que, um dia,
intérpretes e autores como João Gilberto, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Robetrto Menescal, Sylvia
Telles, Nara Leão, Os Cariocas, o Tamba Trio, Baden Powell, Marcos Valle e João Donato tivessem de
sair mais cedo da praia e tomar um avião. O planeta os solicitava. Mas vários fatores, inclusive
extramusicais, fizeram com que, nos anos 70 e 80, o processo fosse interrompido e a Bossa Nova, quase
silenciada. Não foram as décadas mais melodiosas do século, foram? Durante esse longo hiato, no
entanto, um homem nunca acreditou que a Bossa Nova tivesse chegado ao fim do caminho: Antônio
Carlos Jobim. Seu legado e o de seus colegas era rico demais para que a música abrisse mão dele. Tom
continuou trabalhando e evoliundo – usando a Bossa Nova original como plataforma rítmica para a
exploração de novos universos melódicos e harmônicos. Por causa dele, pode-se dizer que a Bossa
Nova, de fato, nunca morreu. Hoje já não contamos com Tom, mas o processo foi retomado. Discos há
muito esquecidos voltam a circular; os jovens descobrem, encantados, inúmeras canções que fazem juz
à sua inteligência; velhos artistas gravam novos discos: e novos artistas surgem por toda parte,
refundindo a Bossa Nova em padrões contemporâneos: Bebel Gilberto, Celso Fonseca, Mario Adnet,
Ithamara Koorax, o Quarteto Jobim-Morekenbaum e, mais jovem do que nunca, João Donato. Todos
eles, de ontem e de hoje, estão representados neste CD duplo – até mesmo Brigitte! Como as ondas, a
Bossa Nova dá, de novo, à praia.

Com esse livro Ruy Castro fez uma continução do espetacular Chega de saudade, de 1990. É uma prova
que a Bossa continua cada vez mais nova. Nesse livro ele conta as andanças de Tom Jobim pelo mundo,
defendendo a ecologia e finalmente sendo reconhecido no Brasil, a nem sempre amistosa relação da
musica brasileira com a americana, o verão de Brigitte Bardot no Brasil regado de Bossa Nova, a trágica
história de Orlando Silva, as diferenças e as semelhanças de Dick Farney e Lúcio Alves, incrível
desaparecimento de Tenório Jr, o fim e o retorno do Samba Jazz, as incríveis histórias de Johnny Alf e
João Donato, os últimos momentos de Nara Leão e no final um perfil do João Gilberto em 1990 e em
2001. Realmente um livro imperdível.

/Também em 2002, só que no Rio de Janeiro, sai o belíssimo disco CASA, de Jacques e a Paula
Morelenbaun e o japonês Sakamoto, este disco foi feito na casa de Tom Jobim e é mais uma
homenagem maravilhosa ao maestro, o cd tem participação de Paulo Jobim e Ed Motta. As músicas
desse disco são: As praias desertas, O amor em paz, Vivo sonhando, Inútil paisagem, Sabiá, a raríssima
Chanson pour Michelle, Bonita, Fotografia, Imagina, Estrada branca, O grande amor, Canção em
modo menor, Tema para Ana, Derradeira Primavera, Esperança perdida, Sem você, Samba do avião e
Improvisation, do Sakamoto e do Jacques Morenbaun.

Pela Europa, continua a sair discos de música brasileira. O primeiro deles é a coletânea BRAZILIAN
LOVE AFFAIR VOL. 3, com vários artistas. As músicas do disco são: Retratista, com Otto, Água, com
Nina Miranda e Cris Dellano, Icaraí, com Os Ipanemas e Jorge Helder, Pra você lembrar, com Max de
Castro, Disritmia, com Jairzinho Oliveira, Las luces del norte, com Los Ladrones, Laranjeiras, com
Azimuth, Calados, com Luciana Mello, Samba de Sílvia, com Joyce e Elza Soares, Olha aí, com
Jairzinho Oliveira, A nova estrela, com Gogo, Aquele gol, com Wilson Simoninha, Taruma, com Grupo
Batuque, Escravos de Jó, com Célia Vaz e Da Lata e Dig It, com João Parahyba.

O segundo deles é PARTIDO NOVO, o novo disco do Azimuth. As músicas desse cd são: Em Marica,
Partido novo, Tempo clássico, Rede de espera, Nome dele é Joan, Meu amigo, Duro de roer, Livre como
um pássaro, Saudade do doutor, Questão de ética e Algodão doce.

O terceiro deles é a coletânea OFF THE SELF, com vários artistas. As músicas desse cd são:
Khameleon, com Difusion, Colours, com Big Band, Brazil, com Democustico, Ponteio, com Da Lata,
Elevator, com Flytronix, Smile, com 4 Hero, Strike hard, com Trouble man, Eyile, com Salidor, Faca de
conta, com Azimuth, Banzo theme, com Banzo, Second future, com Difusion e Carambola, com
Azimuth.
/Também na Europa, só que pela Crammed, sai o sensacional disco JUVENTUDE/SLOW MOTION
BOSSA NOVA, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, que se juntaram para fazer um belíssimo disco no
melhor estilo "bossa lounge". As músicas do disco são: a belíssima Samba é tudo, a maravilhosa Satélite
bar, O que restou do nosso amor, versão em português do clássico Que Reste-t-il de nos Amours, que já
foi gravada pelo João Gilberto, a explendorosa Slow motion Bossa Nova, Valeu, a bela Ledusha com
diamantes, A voz do coração, Dylan em Madrid, Feito pra você, Miles ahead of time, O sorriso de
Angkor, Meu carnaval, a belísissima La piu bella del mundo, com citação de A voz do morro clássico do
Zé Kéti, e no final Juventude. Um disco sensacional, que fez com que Slow motion Bossa Nova virasse
um clássico e criou polêmica com Max de Castro e com o pessoal da Trama por causa de um trecho da
música Samba é tudo, onde fala que samba raro é um samba sem valor.
Nesse mesmo ano, também pela Crammed sai a belíssima coletânea THE NOW SOUND OF BRAZIL,
com o melhor da música brasileira atual, na visão deles. As músicas desse belo cd são: Tantos desejos,
do falecido Suba, remixada pela Nicola Conte, a belíssima Influência do Jazz, com o Bossacucanova
remixando o canto de Carlos Lyra, depois tem Tanto Tempo, da mundialmente famosa Bebel Gilberto,
remixada pelo Peter Kruder, depois tem Outro lado, da banda holandesa Zuco 103, remixada pelo
Charles Webster, depois tem Segredo, também cantada pelo Suba, depois tem a extraordinária
Guanabara, com Bossacucanova e Roberto Menescal, depois Dia de Yemanjá, com a maravilhosa
cantora Cibelle, depois tem Bom sinal, com o grande Celso Fonseca, depois tem a já clássica Sem
contenção, da sensacional Bebel Gilberto, depois tem Cosa nostra, com Erlon Chaves, remixada pelo
Raw Deal, depois tem Treasure, também com Zuco 103 e no final tem Os orixás, com o maravilhoso
Trio Mocotó.

/Mas o maior fenômeno da Bossa Nova, que foi lançado em 2002, foi o disco CHILL:BRAZIL, lançado
pela gravadora Warner Music, com as músicas do disco produzidas e escolhidas pelo Marcos Valle.
Esse disco acabou se tornando o maior sucesso de discos vendidos pela essa nova Bossa Nova,
ultrapassando a marca de 700 mil discos em todo o mundo. O cd é um disco duplo onde tem várias
versões de música brasileira com um toque de lounge music. As músicas desse disco são:

Cd 1- Guanabara, música inédita do Marcos Valle, Mas que nada, com Milton Nascimento, Vôo sobre
o horizonte, com Azimuth, A paz, com Gilberto Gil, Wave, com João Gilberto, Água de Beber, com Tom
Jobim, Samba da benção, com Bebel Gilberto, Pode parar, com Jorge Vercilio, Menino do Rio, com
Baby Consuelo, Ando meio desligado, com Ney Matogrosso, Mistério da raça, com Luis Melodia, All
star, com Nando Reis, Menina bonita, com Pedro Luis e a parede, Pescador de ilusões, com O Rappa,
À vontade, com Ed Motta, Maria fumaça, com Banda Black Rio e Sambassim, com Fernanda Porto.

Cd 2 - Garota de Ipanema, com Tom Jobim, Tim tim por tim tim, com João Gilberto, Tarde em Itapuã,
com Os cariocas, Tanto tempo, com Bebel Gilberto, Eu vim da Bahia, com Gilberto Gil, Alô alô
marciano, com Elis Regina, Linha do horizonte, com Azimuth, Only a dream in Rio, com Milton
Nascimento, Abri a porta, com A cor do som, Alice, com Kid Abelha, Momentos que marcam, com
Sandra de Sá, Um jantar para dois, com Ed Motta, Bumbo da Mangueira, com Jorge Ben Jor, My funk
samba, Santo Antônio, as duas com Banda Black Rio, Por você, com Barão vermelho e Só tinha de ser
com você, com Fernanda Porto, Dj Patife e Dj Marky.

/Também em 2002, sai o sensacional disco MANAGARROBA, do mestre João Donato. O cd tem várias
participações especialíssimas. As músicas do cd são: Não tem nome, que mistura vários sucessos de
João Donato, com um toque eletrônico, Flor do mato, a sensacional Balança, um samba-rap com toque
latino, do João Donato numa parceria do rapper Marcelo D2, com vocais do próprio que é sem dúvida, a
melhor faixa do disco, a também latina E muito mais, a também belíssima E vamos lá, parceria com a
Joyce, com participação da própria, Caminho do sol, Falta de ar, Nunca mais, com a participação dos
Tribalistas: Marisa Monte e Arnaldo Antunes, a maravilhosa Muito à vontade, a também sensacional
Não sei como foi, com participação do João Bosco, Luz de bolero e o surpreendente rock psicodélico de
Managarroba, com a participação de Davi Moraes nas guitarras elétricas. Sem dúvida esse é o melhor
disco do João Donato desde LUGAR COMUM, de 1975.
/Em 2002, também saem alguns discos maravilhosos pela Trama. Um deles é SAMBALAND CLUB, o
segundo disco de Wilson Simoninha. As músicas desse cd são: Seja bem vindo, com a participação do
Seu Jorge, Mais um vira lata, Rei de maio, a sensacional Mais um lamento, Essência, Saudade
machuca, com Jair Oliveira, um show de samba-jazz no medley Ela é carioca/Samba do carioca, com a
participação do Jongo Trio, Barbarella 2001, Tudo bonito, Quem sou, com o coral gospel Just Sing Soir,
depois tem a Vinheta, do pai de Simoninha, Wilson Simonal, dedicando a música ao seu filho, seguindo
da espetacular Tributo a Martin Luther King, também com o coral Just Sing Choir, sendo esse sem
dúvida o momento mais emocionante do disco, depois tem uma versão instrumental de Seja bem vindo e
no final, uma Entrevista com Miele, sendo uma faixa bônus.

Também em 2002, sai pela Trama o sensacional disco ORCHESTRA KLAXON, o segundo disco de
Max de Castro. As músicas do disco são: O futuro pertence a jovem vanguarda, o espetacular funk de A
história da morena nua que abalou a estrutura e o esplendor do Carnaval, que é a melhor faixa do
disco, em parceria surpreendente com Erasmo Carlos, depois tem a bela A vida como ela quer, com
participação de Daniel Jobim, depois tem o samba-jazz moderno de Mais uma vez um amor, depois tem
o samba-rock de O nego do cabelo bom, com participação da Paula Lima e do inventor do samba-jazz
J.T. Meirelles, Marcha Roxa, a sensacional Os óculos escuros de Cartola, cantando ao lado da Patrícia
Marx, Petit comitê na casa da tia Ciata, a bossa moderna de Sonho de Verão, parceria com Nelson
Motta, Acapulco daqui a pouco, Linha do tempo e a também sensacional Calaram a voz do nosso amor.
Também em 2002, sai finalmente o primeiro disco da Fernanda Porto, que tem o nome de FERNANDA
PORTO, que só podia ser lançado pela Trama. Todas as faixas são da Fernanda, menos uma. As músicas
do disco são: a bela De costas para o mundo, a sensacional Eletricidade, o maracatu com drum'n'bass
Baque virado, a também bela música Amor errado, a espetacular Tudo de bom, a também sensacional
música Vilarejo íntimo, a versão inaugural da também espetacular Sambassim, Outro lugar do mundo,
uma homenagem à cidade de São Paulo, Tanta besteira, a clássica Só tinha de ser com você, Jeito novo,
Tempo para tudo, que foi tirada da Bíblia e 1999, escrita em latim (!). Sem dúvida esse é um dos
melhores discos que surgiram no mundo nos últimos anos e a Fernanda Porto mostrou que veio para
ficar e já está fazendo um grande sucesso, inclusive no Brasil com sua drum'n'bossa.
Chegamos ao ano de 2003, enquanto o Brasil continua tendo vários ídolos instântaneos, o mundo,
especialmente a Europa e o Japão continuam consumindo o que a música brasileira tem melhor para se
apresentar. O mundo, incluindo o Brasil, vive uma crise que parece sem fim no mercado fonográfico,
culpa principalmente por que o povo está se cansando de se ouvir porcaria, por isso aqui no Brasil
acontecem vários relançamentos em cds de discos a muito tempo fora do catálogo, um exemplo disso
são os discos da Odeon, agora EMI, que são relançados graças ao baterista do Titãs, Charles Gavin.
Enquanto isso se continua a lançar discos de Bossa Nova no mundo todo, sendo bossa eletrônica, ou
não.

Um dos discos que saíram foi à belíssima coleção: BOSSA NOVA LOUNGE, com três cds com o
melhor da Bossa Nova, com um toque de lounge music. No primeiro cd tem: Remember, Só tinha de ser
com você, Summer samba, Vivo sonhando, Tristeza vai embora, Lost in paradise, Coisa Nº 1, Você,
Garota de Ipanema, Mas que nada, Know it all, Muito a vontade, Ela é carioca e Look to the sky. No
segundo cd tem: Solo, Oba-lá-lá, Minha saudade, Água de beber, Corcovado, Moça flor, Tristeza de nós
dois, Você e eu, Surfboard, Só danço samba, Ansiedade, Jucabobão, Samba de uma nota só e Samba do
Avião. E no terceiro cd tem: Jodel, Dreamer, Desafinado, Anoiteceu, Menina flor, Ilusão à toa, Tânia,
Noite só, Faithful brother, Coração vagabundo, Bonita, Slow motion bossa nova, Amor em paz,
Catavento, Triste e Eu e o crepúsculo.
Em 2003, tem mais um disco espetacular Joyce, chamado BOSSA DUETS, lançado primeiramente no
Japão e depois para os outros países. Onde a Joyce comemora seus 35 anos de carreira ao lado de alguns
grandes nomes da música brasileira. As músicas desse disco espetacular são: a clássica Você e eu, com
citação de Águas de Março, cantada brilhantemente pela Joyce e o Toninho Horta, a belíssima Lugar
comum, onde a Joyce canta com o sempre sensacional João Donato, Receita de Samba, da Joyce e do
Paulo Cesar Pinheiro, onde ela canta com a filha Ana Martins, que faz sucesso como cantora no Japão,
Plexus, cantada ao lado do Johnny Alf com citação de Rapaz de bem, Yarabela, cantada ao lado do
Toninho Horta, Criança, também da Joyce, cantada ao lado da Wanda Sá, o manifesto da new bossa
London samba, uma música instrumental dela, onde toca ao lado do Toninho Horta, a maravilhosa O
sapo, também com João Donato, a deliciosa Fã da Bahia, música da Joyce cantada ao lado da Wanda
Sá com citação de Na baixa do sapateiro e Samba da benção, a também maravilhosa Céu e mar, com
Johnny Alf e a expetacular E vamos lá, da Joyce e do João Donato, junto com os dois está Ana Martins,
filha da Joyce. Sem sombra de dúvidas esse é o melhor cd que a Joyce, que é a maior cantora do Brasil
na atualidade, lançou nos últimos anos. Ela está cantando e compondo cada vez melhor.
/Também em 2003, tem um encontro memorável entre Marcos Valle e o argentino Victor Biglione, este
encontro dos dois dá o espetacular disco LIVE IN MONTREAL, gravado ao vivo no Canadá, onde tem
os maiores sucessos do Marcos e mais quatro músicas sensacionais de outros artistas. As músicas desse
cd são a maravilhosa instrumental Azimuth, Preciso aprender a ser só, num clima bem jazzístico, a
inevitável Samba de Verão, que já foi cantada até por Homer Simpson, a explendorosa Terra de
ninguém, Gente, Minha voz virá do sol da América, a sempre espetacular Manhã de Carnaval, Frevo,
do Egberto Gismonti, a maravilhosa Viola enluarada, Ao amigo Tom, a espetacular Os grilos, a música
francesa What are you doing to rest up my life, Fé cega faca amolada, de Milton Nascimento, a também
espetacular Mustang cor de sangue e no final a também maravilhosa Batucada surgiu.
/Nesse ano de 2003, também sai o maravilhoso disco COPA BOSSA, pela gravadora Albatroz, que nada
mais é do que o pessoal do Bossacucanova, mas que fizeram um disco com esse nome porque o pessoal
da Crammed queria que saísse um disco igual à BRASILIDADE, mas o pessoal do Bossacucanova
queria um disco igual ao primeiro disco, com vários sucessos da Bossa Nova remixados sem nenhum
instrumento, aí acabaram chegando um acordo e lançaram esse disco no Brasil, com esse nome e vão
lançar outro com o nome de Bossacucanova na Europa. As músicas desse disco são: Só tinha de ser com
você, com Os Cariocas, com versão bem diferente da que ganhou o mundo na voz da Fernanda Porto e
remixada pelo DJ Patife, a inevitavel Samba de verão, com o Marcos Valle, Canto de Osanha, com Leo
Gandelmann, numa versão instrumental muito boa, a clássica A felicidade, com Cris Dellano,
transformada num samba-house maravilhoso, a inédita e maravilhosa Copa, com Roberto Menescal e
Wanda Sá, uma versão de arrepiar de Lobo bobo, com Carlos Lyra, Minha namorada, em versão
instrumental, com Roberto Menescal, uma versão Lounge Music de Fotografia, com Cris Dellano,
Você, com Leny Andrade, uma versão instrumental de Samba da benção, com Luis Carlos Vinhas, a
bela música Our love is here to stay, composta pelos irmãos Gershwin com Cecilia Dale e no final a
maravilhosa Na orelha do pandeiro, com Andrea Ciminelli, com direito a programação eletrônica do DJ
Marcelinho da Lua.
Ainda em 2003, na Europa sai o belíssimo disco SAMPA NOVA, que é assim que os ingleses estão
chamando esse movimento que saiu de São Paulo e está tomando o mundo, especialmente com os
artistas da Trama. O cd é uma bela coletânea que tem as músicas: Sereia, cantada pelo falecido Suba,
Desafio, pelo sempre criativo Tom Zé, Bob, a maravilhosa bossa psicodélica cantada pelo Otto e a
Bebel Gilberto, Easy boom, pelo Drumagick, Catimbó, pela Cibelle, Do mote do doutor Charles
Zambohead, da Nação Zumbi, The secrets of floating islands, do Dj Xerxes, a já clássica Sambassim, da
Fernanda Porto, São Paulo fim do dia, com Jair Oliveira, O futuro pertence a jovem vanguarda, com
Max de Castro, Tempo, com Bojo, Seja o que for, com Anvil FX, Bob, remixada por Edu K e Chamegá,
cantada pelo Tom Zé.
Ainda em 2003, sai a belíssima coletânea A MÚSICA DE MARCOS VALLE E PAULO SÉRGIO
VALLE, com as melhores músicas dessa dupla dinâmica, interpretadas por alguns dos melhores
músicos da músia brasileira. As músicas do disco são: Samba de verão, cantada por Caetano Veloso, na
já clássica gravação que foi tema da novela Laços de Família, uma interpretação antológica, que não
podia deixar de ser, de Black is beautiful, cantada por ninguém menos que Elis Regina, a sempre
emocionante Viola enluarada, interpretada por Jair Rodrigues, Capitão de indústria, cantada
brilhantemente pelo Paralamas do Sucesso (!), Gente, cantada por Os Cariocas, O Cafona, cantada pelo
MPB-4, Ao amigo Tom, pela Claudette Soares, o samba jazz Sonho de Maria, pelo Tamba Trio, Preciso
aprender a ser só, pelo saudoso Tim Maia, a espetacular gravação de Terra de ninguém, cantada pela
Elis Regina e Jair Rodrigues direto do Fino da Bossa, 26 anos de vida normal, cantada por Erasmo
Carlos (!) num clima bem “samba jovem”, uma raríssima gravação instrumental de Seu encanto, tocada
por Tom Jobim, Passa por mim, cantada pela sumida Márcia e no final uma interpretação fenomenal de
Mustang cor de sangue, pelo Wilson Simonal.

/Também em 2003, pela gravadora Universal, sai o maravilhoso disco PURE BRAZIL – THE GIRLS
FROM IPANEMA, uma coletânea dupla só de maravilhosas cantoras brasileiras. As músicas dos discos
são:

CD 1 – Dreamer, com Astrud Gilberto, Só tinha de ser com você, com a Elis Regina, Rapaz de bem,
com Nara Leão, Vagamente, com Wanda Sá, Desafinado, com Gal Costa, Você e eu, com a Silvia Telles,
Meditação, também com a Nara Leão, Alô alô taí Carmen Miranda, também com a Elis Regina, A rã,
também com a Gal Costa, Tristeza de nós dois, também com a Wanda Sá, Olhou para mim, Samba da
pergunta, com a Márcia, Lugar comum, com a Miúcha e Once I loved, também com a Astrud Gilberto.

CD 2 – So nice, com a Bebel Gilberto, um medley de Que maravilha, Chove chuva e Mas que nada,
com a Leila Pinheiro, Monsieur Binot, com a Joyce, Lá vem a baiana, com Jussara Freire, Capim, com
Zizi Possi, Garota de Ipanema, com Marina Lima, Na cadência do samba, com Cássia Eller, Na hora
da sede, com Zélia Duncan, Meu guarda chuva, com Paula Lima, Fotografia, com Marilia Gabriela, Me
liga, com Patricia Marx, Quando você me olha, Luciana Mello, Coisas do Brasil, também com Leila
Pinheiro e Tanto tempo, com a Bebel Gilberto.

O que de melhor aconteceu neste ano de 2003, sem sombra de dúvidas foi o surgimento de uma cantora
espetacular, que fez com que muitas pessoas se emocionassem: a maravilhosa Maria Rita Mariano, ela é
filha do grande César Camargo Mariano e da inesquecível Elis Regina, além de se parecer muito
fisicamente com a mãe, ela canta igualzinho, foi uma prova sensacional que aqui no Brasil ainda pode
ser comercial e ter um enorme talento. O primeiro disco dela saiu pela gravadora major Warner Music,
com um marketing bem forte da Rede Globo, essa mistura de enorme talento com um grande marketing,
fez com que o disco dela vendesse quase 800 mil cópias.
/Outra coisa maravilhosa de 2003 foi o disco do rapper Marcelo D2, com uma mistura sensacional de
Rap com Samba e Bosssa Nova. Este disco se chamou A PROCURA DA BATIDA PERFEITA, e teve
participação de gente do naipe de Dom Salvador e do mestre João Donato, o disco todo é uma
maravilha, as músicas desse cd são: Pra prosteridade, A procura da batida perfeita, Vai vendo, o
afrosamba de A maldição do samba, Profissão MC, CB sangue bom, Batidas e levadas, Lodeando, com
seu filho Sthefan, Pilotando o bonde da excursão, Re-batucada e a sensacional Qual é, que ganhou o
VMB, da MTV como melhor clipe do ano.
Também em 2003, apareceu o maravilhoso grupo Kaleidoscópio, mais um que investe na mistura de
mpb com eletrônica que está dominando o mundo. Eles fizeram o belíssimo disco TEM QUE VALER.
O grupo é um duo formado por Ramilson Maia nas picapes e a voz espetacular de Janaina Lima. As
músicas desse disco são: Você me apareceu, a maravilhosa Tem que valer, que logo virou sucessso
nacional, a clássica Madalena, do Ivan Lins, Meu sonho, Chega mais perto, a também clássica Flor de
lís, do Djavan, Chuva, a clássica e sempre espetacular Tarde em Itapuã, do Toquinho e do Vinícius,
Feliz de novo, Tô que tô, Lua, Frevo mulher, Paro para pensar, Tudo passa, Aqui e uma versão lounge
de Tem que valer. Pena que o grupo só durou nesse disco.
/Também em 2003, lá na Europa sai o sensacional disco CHILL BRAZIL 2, pela gravadora Warner
Music, aproveitando o sucesso estrondoso do primeiro disco, no qual as músicas foram escolhidas pelo
Marcos Valle. Já neste segundo disco, também duplo, as músicas foram escolhidas pela legendária
Joyce.

As músicas desse disco são:

Cd 1 - Demorô, uma belíssima música inédita da Joyce, She`s a Carioca, com Tom Jobim, Triste, com
João Gilberto, Ana Maria, com Milton Nascimento, Encontro das águas, com Jorge Vercilo, Tudo por
acaso, com Tânia Maia, Mas não dá, com Sônia Rosa, Up up and away, com Osmar Milito, O lugar do
nosso amor, com Gilberto Gil, Sidarta, com Johnny Alf, Tamborim, cuíca, ganzá, berimbau, com
Azimuth, Balanço zona sul, com Conjunto Som 4, Os grilos, com Marcos Valle, Mas que nada, com Zé
Maria, Arrastão, com Zezinho, Bebete vão bora, com Pedroti, Sem complicação, com Ramatis, Algo
sobre nós, com Tutti Moreno e Drum`n"bossa, com Insul.

Cd 2 - So Nice, com Bebel Gilberto, Samba De Uma Nota Só, com Tom Jobim, ´S Wonderful, com João
Gilberto, Febril, com Gilberto Gil, Tem Que Valer (Eletro Bossa), com Kaleidoscópio, Minha
Namorada, com Conjunto Som 4, Quem Te Viu, Quem Te Vê, com Sonia Rosa, Summer, com Os
Camponêses, Céu Lilás, com Ramati, Raios Da Manhã, com Jorge Vercilo, Quem Vai Dizer Tchau?,
com Tania Maya, Não Vá Ainda, com Zélia Duncan, Beleza E Canção, com Milton Nascimento,
Maracatu Atômico, com Osmar Milito, Samba Do Avião, com Zé Maria,
Batucada, com Marcos Valle, Suite Norte, Sul, Leste, Oeste, com Hermeto Pascoal, Outro Lado, com
Zuco 103 e Macumbalada, com Samba do Morro.
Também em 2003, pela Farout Recordings sai a coletânea BRAZILIAN LOVE AFFAIR 4, com o 4º
volume dessa série maravilhosa. As músicas do cd são: E o meu amor vi passar, com a Patricia Marx e
João Parahyba, Papa, com Azimuth e Sabrina Malheiros, Na batida do agogô, com Grupo Batuque,
Falso amor, com Jair Oliveira, Todos os santos, com a Joyce, A sereia, com Democustico, Beleza não
vai embora, com Orlan Divo, Fibra, com Paulo Moura, Escape, com Marcos Valle, Nature Plans, com
Ed Motta e remix do 4 Hero, Rede de espera, com Azimuth, Os óculos escuros de Cartola, com Max de
Castro, Preguiciman, com Mamond e Vera cruz, com Vox Populli.
/Ainda em 2003, sai o explendoroso disco duplo JOBIM SINFÔNICO, pela gravadora Biscoito Fino,
com as músicas de Tom Jobim, interpretadas pela Orquestra Sinfônica de São Paulo. Este projeto foi
idealizado pelo Mario Adnet e pelo Paulo Jobim, filho do Tom. Todos os arranjos originais foram
mantidos, na medida do possível.
No primeiro cd tem as músicas: O planalto deserto, O homem, A chegada dos candangos, O trabalho e
a construção, estas quatros músicas fazem parte da Sinfonia da Alvorada, a inédita Prelúdio, a
maravilhosa Overture do Orfeu da Conceição, a quase inédita Macumba, Modinha, a clássica Se todos
fossem iguais a você, cantada pelo Milton Nascimento, a também clássica A felicidade, a também
inédita Lenda, que Tom fez para seu pai e Imagina.
No segundo cd tem as músicas: Saudade do Brasil, Matita Perê, também cantada pelo Milton
Nascimento, Canta canta mais, Trem para Cordisburgo, Chora coração, Milagre e palhaços, O jardim
abandonado, essas quatro últimas da Crônica da casa assassinada, a raríssima Bangzália, cujos arranjos
originas feitos pelo Dori Caymmi foram perdidos não se sabe se foi pelo Tempo ou pelo Vento, Meu
amigo Radamés, Gabriela e a inevitável Garota de Ipanema, com arranjos mais do que espetaculares de
Eumir Deodato.

/No mesmo ano sai pela gravadora Som Livre o expetacular disco VINÍCIUS 90 ANOS, pra comemorar
os 90 anos do nascimento do poetinha Vinícius de Moraes. O disco é uma coletânea dupla que foi
produzido por ninguém menos que Gilda Mattoso, última mulher de Vinícius. O disco vem
acompanhado de um livro com as letras das músicas, vários depoimentos e várias fotos sobre o
Vinícius. As músicas desse histórico cd são:

CD 1 – Onde anda você, com Vinícius cantando e Toquinho no violão, tem o poema O haver, com o
próprio Vinícius declamando acompanhado por Edu Lobo no violão, depois tem a sempre emocionante
Marcha da quarta-feira de cinzas, cantada pelo Toquinho e pelo Vinícius, depois tem um Depoimento
de Chico Buarque sobre Vinícius de Moraes, depois tem a eterna Tarde em Itapuã, cantada pelo
Toquinho e Vinícius, depois tem o poema A um passarinho, declamado pela Luciana de Moraes, filha
do Vinícius, depois tem Garota de Ipanema, com Tom e Vinícius do álbum ao vivo que eles fizeram no
Canecão em 77, depois tem o Depoimento de Calazans Neto, também relembrando Vinícius, depois tem
o afrosamba Samba da Benção, com o próprio Vinícius de Moraes cantando e se declarando “o branco
mais preto do Brasil”, depois tem o Depoimento de Tom Jobim, relembrando sua parceria e amizade
com Vinícius, depois tem Cotidiano n.º 2, com Toquinho e Vinícius, depois tem o Depoimento de
Carlos Drummond de Andrade, também se lembrando o Vinícius e no final tem a rara Gilda, do
Vinícius e do Toquinho, que acabou sendo a última gravação que Vinícius fez, sendo uma homenagem a
Gilda Mattoso.

CD2 – Tem o clássico Pela luz dos olhos teus, cantada pelo Tom e pela Miúcha, depois tem O que tinha
de ser, cantada pela Maria Bethânia, depois tem a também clássica Insensatez, cantada pela Alaíde
Costa, depois tem a também clássica A felicidade, cantada pelo Agostinho dos Santos, depois tem Água
de beber, cantada pela Mayza, depois tem Samba em prelúdio, cantada pelo Geraldo Vandré e pela Ana
Lúcia, depois tem a bela Como dizia o poeta com Toquinho, Vinícius e Maria Medalha, depois tem uma
raridade, Vinícius cantando uma música em inglês com Toquinho no violão: Nature Boy, de Éden e
Ahbez, que Vinícius falou que viu nascer em Los Angeles, depois têm Dora, música de Dorival
Caymmi, cantada pelo Toquinho e pelo Vinícius, depois tem Janúaria, do Chico Buarque, também
cantada pelo Toquinho e Vinícius, depois tem Toquinho e Vinícius cantando a maravilhosa Tristeza,
uma clássica Marchinha de carnaval feita pelo Haroldo Lobo e o Miltinho e no final tem um encontro
maravilhoso de Toquinho, Vinícius e o sambista Cyro Monteiro cantando o samba Você errou, do
mestre Cyro Monteiro.

/Também no mesmo ano saiu outro disco pra homenagear os 90 anos do nascimento do grande Vinícius
de Moraes: o belo MIÚCHA CANTA VINÍCIUS & VINÍCIUS MÚSICA E LETRA, pela gravadora
Biscoito Fino. Festa, sinônimo de bebida, belisquetes, boa conversa e boa música, era com Vinicius de
Moraes. O endereço da farra foi sempre o próprio poeta, que, onde baixava, tratava de descontrair o
ambiente apenas para deixá-lo mais à sua feição. A cantora Miúcha acompanhou o fenômeno de perto.
Cresceu ouvindo e vendo Vinicius, a cada visita, alegrando a casa dos pais dela, Maria Amélia e Sérgio
Buarque de Hollanda. Com o amigo do pai aprendeu a tocar violão – agradecida, deu ao seu
instrumento o nome de Vinicius. Definitivamente fisgada pela música, Miúcha viria a fazer, em 1977,
com Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, um show histórico que botou gente pelo ladrão no Canecão antes
de ganhar a Europa. Essas e outras boas lembranças e lições do Poetinha, além de 14 músicas dele, duas
inéditas, estão concentradas neste CD maravilhoso. As músicas do disco são: Tomara abre o disco com
Miúcha e a filha Bebel Gilberto dividindo os vocais. Em torno das duas, os sopros suaves, o violão de
João Lyra, a bateria de Carlos Bala à moda do tempo de Beco das Garrafas, sem nenhum ranço de
nostalgia.. Mais grave, a segunda faixa do disco, Ai Quem me Dera, de que Miúcha dá conta sozinha,
ganhou arranjos de violino. O tom, romântico e sem a afobação dos dias de hoje, continua com
Saudades do Brasil em Portugal. Mais tranqüila, mas não menos emocionante, foi a gravação de Medo
de Amar, que Miúcha divide com o irmão Chico Buarque. A emoção, afinal se está tratando aqui do
poeta do amor, é mais contida em Serenata do Adeus, que Miúcha divide apenas com Leandro Braga ao
piano. Brilhou aqui o esquema olhos nos olhos, com a cantora acompanhada por um instrumentista e
arranjador que sabe o que faz, sem, por isso, esquecer do sentimento. A receita funcionou também em
Valsa de Eurídice, que Miúcha gravou mais uma vez olhos nos olhos, acompanhada pelo violão
surpreendentemente contido e reverente, do prodígio gaúcho Yamandú Costa, o disco também tem
Teleco Teco, que o poeta compôs pensando no balanço de Ciro Monteiro, traz Miúcha se divertindo ao
lado de Zeca Pagodinho, herdeiro legítimo da linhagem de Ciro e Jorge Veiga. A grande surpresa é
Georgiana, canção inédita que Vinicius fez para o nascimento da filha. Os versos divertidos, em inglês,
ganharam acento country com a gaita de Milton Guedes e os violões de João Lyra, também tem Tempo
Será, a canção seguinte o Brasil andou ouvindo por meses a fio, na hora da novela Mulheres
Apaixonadas, mas, mérito de Vinicius, é o tipo da música à prova do tempo e das repetições. A deliciosa
e conhecidíssima Pela Luz dos Olhos Teus é repartida por Miúcha e Daniel Jobim, neto do maestro
Tom, com quem ela gravou a canção em seu primeiro disco, de 1977. Miúcha e Daniel registraram a
canção nos mesmos estúdio e piano e com o mesmo técnico de gravação, o veterano Mario Jorge, que
deram à luz a versão dela e de Tom Jobim. Você vai ouvir, ainda, a paixão rasgada de Encontro à Tarde,
o encontro de Miúcha e Toquinho, o mais terno dos parceiros do poeta, em Canção de Nós Dois e a
finíssima Cem por Cento, o bota-fora fica por conta do frevo Quem For Mulher que me Siga, a outra
inédita do disco, que a cantora Cyva, do Quarteto em Cy, encontrou gravada em fita cassete pelo próprio
Vinicius.
Também em 2003, sai a maravilhosa coletânea JOYCE – ESSENTIAL BRAZIL, com alguns clássicos
da extraordinária cantora e compositora Joyce até o início da década de 90. As músicas desse disco são:
a maravilhosa Clareana, a espetacular Feminina, a neo-hippie Monsieur Binout, Nada será como antes,
de Milton Nascimento, Eternamente grávida, Muito prazer, Deixa, a maravilhosa O chinês e a bicicleta,
Moreno, Banana, Mistérios, a eterna Wave, de Tom Jobim, Duas ou três coisas, com Ney Matogrosso,
Tiro cruzado, Apesar de tudo e Capitão, dividindo os vocais com ninguém menos que Chico Buarque.

No final de 2003, pela Trama sai o maravilhoso cd TRAMA D&B SESSIONS, dos djs Patife e Mad
Zoo. Eles deram um "upgrade" em algumas grandes músicas da Trama e o álbum ficou muito bom,
apesar de parecer daqueles discos para se fazer caixa, mas se há por aí muitos discos bem piores que
fazem sucesso e vendem bem, porque não fazer esse disco, só com ótimas músicas? As músicas desse
disco são: Esfera, com a Rosy Aragão, Tudo de bom, sucesso da Fernanda Porto, que ficou ainda melhor
que a original, Flor do futuro, com Claúdio Zoli, Todas as letras (sou teu nego), com Jair Oliveira, Mais
um lamento, com Wilson Simoninha, a já bem combalida Noite do prazer, com Cláudio Zoli, Sem
pensar, com Patricia Marx, a também já combalida Sambassim, com a Fernanda Porto, Vem ficar
comigo, do Silvera, a maravilhosa música Amor errado, também com a Fernanda Porto e Demais pra
esquecer, com a Patricia Marx.
/No final de 2003, também sai o belíssimo disco TRANQUILO, o primeiro disco solo do Dj Marcelinho
da Lua, do Bossacucanova. Convidado por Rafael Ramos, ele entrou no estúdio da Deckdisc e tirou
tudo das mãos, ombros e cabeça. Só pra ver no que dava. Deu em TRANQUILO, seu primeiro disco
solo. Um disco de DJ, que é bom para ouvir em casa também. Um disco de produtor, que faz bonito nas
pistas de dança também. E assim nasceu TRANQUILO, um disco sem muito bla bla blá, como diz o
título da música que abre os trabalhos, Sem bla bla blá tirado de um sampler de (empostar a voz, por
favor) Alberto Roberto, o inesquecível personagem criado por Chico Anysio. A guitarra é cortesia de
Pedro Sá. Outros personagens reais também bateram ponto no estúdio da Deckdisc. Seu Jorge botou a
voz na versão drum and bass de Cotidiano, de Chico Buarque, que teve também participação do
maestro Luiz Cláudio Ramos no violão, que acabou sendo a faixa do disco que fez mais sucesso, aqui
no Brasil e na Europa. Bi Ribeiro (ele mesmo, do Paralamas) e Gustavo Black Alien (ex-Planet Hemp)
fizeram a festa em Tranquilo, um cruzamento natural entre reggae e jungle/drum and bass. Mart´nália
tocou pandeiro e cantou a clássica Refazenda, de Gilberto Gil. Roberto Menescal escreveu, arranjou e
deu cores especiais a Pro Marcelinho tocar. Lembranças da viagem à Dinamarca geraram a música
Cristiania´71, com a voz de Helen Calaça. A rappeira cubana Telmary Diaz, em turnê pelo Brasil com o
grupo Rapeiros de Cuba, foi capturada e levada ao estúdio, onde gravou Que cosa fuera, com
arquitetura musical assinada por Mauro Berman (ex-baixista do grupo carioca Coma). Gabriel Muzak
emprestou a voz para a boemia reggae de Jornada (cuja letra faz uma sutil referência à trajetória dos
integrantes do Dubom). João Donato deu o toque, e que toque, de latinidade a Lá fora. Que é uma
mistura maravilhosa de dub e reggae. Sem dúvida nenhuma é melhor faixa do disco. Já o toque
ecológico ficou por conta de letra de Da Lua. Repare só. Palafita sunrise virou uma espécie de samba
dub, com metais sampleados e a lembrança do seminal grupo inglês The Specials surgindo no meio da
fumaça. Saudade teve vocais de Gabriela Geluda e tablas do percussionista Siri. E, por fim, há o doce
no final do arco íris: o balanço suave de Não pode fazer barulho, com discurso em favor do silêncio, em
francês, feito pela musa de longa data, Nina Schipper. Aos poucos, o pitch vai sendo desacelerado e,
num simbólico apagar das luzes, após tirar suas idéias legais, malucas, engraçadas e impossíveis das
mãos, ombros e cabeça, Da Lua simplesmente sussurra: “Valeu brou, até mais.” Com esse disco
Marcelinho da Lua, conseguiu o que muita gente não acreditava, conseguiu fazer com que o Roberto
Menescal composse uma house e fez o João Donato tocar um Dub, uma deliciosa loucura.
No inicío de 2004, finalmente chega ao Brasil o disco da Joyce A BANDA MALUCA, gravado pela
Farout Recordings, o disco chegou ao Brasil graças a maravilhosa Biscoito Fino. O disco é
extraordinário e mostra aos ingleses que o Brasil tem outras coisas maravilhosas, além da Bossa Nova.
As músicas do disco são: a sensacional Banda maluca, onde ela fala do samba globalizado, o xote de
Chuvisco, a surprendente e psicodélica Os medos, onde aparecem várias vozes faladas em inglês,
alemão, japonês, espanhol, francês e português, a bossa zen de Na paz, a também psicodélica Samba do
Joyce, em homenagem ao escritor James Joyce, o forró de For Hall, a francesa L`étang, o forró
eletrônico de Galope, uma versão voz e violão espetacular de A hard day`s night dos Beatles,
Cartomante, Mal em Paris, Pause bitte, Tufão, com direito a uma citação de O mar de Dorival Caymmi
e na faixa bônus mais uma versão sensacional de A hard day`s night.

/Também no início de 2004, sai finalmente o mais novo disco de João Gilberto, o nome do disco é
JOÃO GILBERTO IN TOKIO, gravado ao vivo no Japão, é mais um disco ao vivo de João Gilberto
onde ele grava as mesmas músicas de sempre? Mais ou menos, tem várias músicas que ele já gravou
muitas vezes, há outras que ele não gravava faz tempo e até algumas músicas que ele nunca gravou (!),
as músicas do disco são: Acontece que eu só baiano, de Dorival Caymmi, que ele nunca tinha gravado,
a clássica Meditação, Doralice, que tinha tempo que ele não gravava, Corcovado, mais uma vez, Este
seu olhar, outra que tinha tempo que não gravava, Isto aqui o que é, também gravada muitas vezes, a
sempre emocionalmente Wave, a engraçada Pra que discutir com madame, Lígia, que também tinha
tempo que não gravava, a rarísssima Louco, que ele nunca tinha gravado, de Wilson Batista, Bolinha de
papel, que também tinha muito tempo que não gravava, Rosa morena, mais uma vez, a extraordinária
Adeus América, que também tinha tempo que não gravava, Preconceito e Aos pés da cruz. Apesar de ter
várias músicas famosas e dele gravar pela milésima vez, para os japoneses isso não importa, tanto que
quando acabou o show, eles aplaudiram "O Mito" João Gilberto, por exatos 25 minutos. Recorde
mundial da história da música. Muita gente aqui no Brasil não gosta que o João cante as mesmas
músicas, mas nos Estados Unidos ninguém reclamou do Frank Sinatra gravar Night and day e Fly me
too the moon milhões de vezes. E tem gente que diz que os breganejos fazem sucesso no Japão, isso a
grande mídia brasileira não fala.

/No mês de Julho chega ao Brasil o disco mais esperado no ano na Europa: o cd da Bebel Gilberto, que
tem o nome simplesmente de BEBEL GILBERTO. Depois do sucesso mundial do seu disco TANTO
TEMPO, em 2000, no qual ela vendeu quase 1 milhão de cópias no mundo todo, ela volta e trás um
novo disco tão maravilhoso quanto o anterior. Nesse cd ela privilegia mais ainda a sua porção lounge
music e também quase todas as músicas são de composições dela. O cd começa logo com uma versão
bem Bossa Nova em inglês de Baby, do Caetano Veloso, que virou clássico na Europa graças a versão
dos Mutantes, depois tem Simplesmente, uma bela canção dela, feita um pouco em inglês e um pouco
em português, depois tem Aganju, uma música feita pelo marido da prima dela: Carlinhos Brown, com a
mãe nos backing vocal, depois tem a belíssima All around, toda em inglês, a Bebel falou que essa foi a
melhor musica que ela compôs, depois tem River song, também dela, apesar do nome ela é toda feita em
português, depois tem a canção Every day you`ve been away, toda em inglês, feita por encomenda pelo
Pedro Baby, filho da Baby do Brasil e o Daniel Jobim, neto do Tom, depois tem Cada beijo, dela
também, que ela canta de uma maneira bem sensual, depois tem O caminho, também dela, com o
lendário João Donato no piano, ele que é o melhor amigo do pai dela, depois tem Winter, feita em inglês
também dela, apesar do nome tem um clima bem de verão, depois tem Céu distante, feita em português
também dela, depois tem Jabuticaba, toda feita em inglês também dela, relembrando os tempos de
quando ela criança e visitava a casa da avó que tinha um pé de jabuticaba, aliás o disco foi dedicado a
ela e no final tem a música Next to you, também dela e em inglês. O cd foi produzido pelo francês
Marius de Vries, empresário de Madonna, aliás, foi ela que o indicou para Bebel. O cd é mais uma
prova que aquela menina na década de 80 que começou cantando sem sucesso, que só era conhecida por
ser filha do João Gilberto e da Miúcha e sobrinha do Chico Buarque, que depois virou a melhor amiga
do Cazuza, cresceu e se transformou na maior estrela da música brasileira da atualidade no mundo e
está cantando e compondo cada vez melhor, isso sem contar que virou um mulherão.

O ano de 2004, também foi para lembrar dos 70 anos de João Donato, um dos maiores mestres da
música brasileira em todos os tempos. Nesse ano saiu dois discos maravilhosos para homenageá-lo.

/O primeiro deles é WANDA SÁ COM JOÃO DONATO, uma das maiores musas da Bossa Nova,
fazendo um disco fantástico com o mestre João Donato, nem todas as músicas do cd são dele mais a
maioria foi ele que compôs. As músicas do disco são: a sensacional Minha saudade, parceria rara com o
amigo João Gilberto, Não tem nada não, um medley que mistura Perdido, música dele e Samba torto,
de Tom Jobim e Aloísio Oliveira, nada mais natural, pois o Tom falou mais de uma vez o Donato foi um
de seus maiores mestres, tem também Falta de ar, Cartão de visita, There will never be another you,
Receita de samba, a explendorosa Sambou, sambou, dele com a Joyce, O que é amar, do Johnny Alf,
outro grande nome que foi influenciado pelo Donato, a clássica A rã, But not for me, Daquele amor nem
me fale, É com esse que eu vou e Quem diz que sabe.

O segundo deles é o belíssimo disco EMILIO SANTIAGO ENCONTRA JOÃO DONATO, um disco
mais que esperado pois Emilio Santiago sempre gravou músicas do Donato, e ele o considera um dos
seus compositores favoritos. Esse disco que tem participação do próprio Donato no piano. O Emílio
decidiu gravar só músicas que ele ainda não tinha gravado, as músicas do disco são: Vento no canavial,
a espetacular E vamos lá, em parceria com a Joyce, E muito mais, Nunca mais, as belas Então que tal e
Até quem sabe, Sambolero, Everyday, Os caminhos, Pelo avesso, a também bela Mentiras, Surpresa,
Clorofila do sol e a sempre emocionante A paz. Sem sombra de dúvida esse foi o ano de João Donato.

/Também em 2004, sai o disco CHILL:BRAZIL 3, depois do sucesso dos dois primeiros discos que
tiveram músicas selecionadas por Marcos Valle e Joyce, respectivamente. Agora nesse terceiro volume
as músicas foram selecionadas por ninguém menos que o ministro da Cultura: Gilberto Gil. O cd, assim
como os dois primeiros, são duplos. As músicas do disco são:

Cd 1 – Só tinha de ser com você, com Tom Jobim, Zíngaro, com João Gilberto, Slow motion bossa
nova, com Celso Fonseca, Lá vem a baiana, com Jussara Oliveira, Cara valente, com Maria Rita, Você
já foi a Bahia, com Nana, Dori e Danilo Caymmi, Circo Marimbondo, com Chico Buarque e Mestre
Marçal, Princesa, com Jorge Ben Jor, Teco Teco, com Gal Costa, Cada macaco no seu galho, com
Caetano Veloso e Gilberto Gil, Preciso, com Margareth Menezes, Amor meu grande amor, com Barão
Vermelho, De repente Califórnia, com Lulu Santos, A Novidade, com Paralamas do Sucesso, Preciso
dizer que te amo, com Leo Jaime,
Não me deixe só, com Vanessa da Mata, Refazenda, com Marcelinho da Lua e Rio de Janeiro, com Elza
Soares.
Cd 2 – Sampa, com Gilberto Gil, Caminhos Cruzados, com João Gilberto, Só vendo que beleza, com
Elis Regina, A Rita, com Chico Buarque, Canto de Ossanha, com Baden Powell, Tudo de bom, com
Fernanda Porto, Mais feliz, com Bebel Gilberto, Só deixo meu coração na mão de quem pode, Vestido
Vermelho, com a Preta Gil, Socorro, com Arnaldo Antunes, Busca a vida, com Renata Arruda, Se eu
não te amasse tanto assim, com Ivete Sangalo, Devolva-me, com Adriana Calcanhoto, Sozinha, com
Sandra de Sá, Estácio Holly Estácio, com Luiz Melodia, Navilouca, com Pedro Luis e a Parede,
Segredos, com Frejat e Go Back Remix , com Titãs.

/Ainda em 2004, sai a belíssima coletânea dupla ANTOLOGIA, do Marcos Valle, onde mostra as
músicas em versões orginais que Marcos Valle fez para os discos da Odeon, de 1963 a 1974. Essa
coletânea mostra além dos grandes sucessos, de um dos maiores nomes da música mundial na
atualidade, várias raridades.

As músicas do disco são:


Cd 1 – Amor de nada, E vem o sol, Tudo de você, Razão de amor, a de sempre Samba de verão, A
resposta, Gente, Não pode ser, Preciso aprender a ser só, Viola enluarada, num dueto espetacular com
Milton Nascimento, Próton Elétron Nêutron, Bloco do eu sozinho (alguém lembrou aí de Los
Hermanos?), uma interpretaçao maravilhosa de Terra de ninguém, num dueto com os Golden Boys (!),
Ultimatun, Beijo sideral, Os dentes brancos do mundo, Samba de verão 2 e no final a sempre
maravilhosa Mustang cor de sangue.

Cd2 – Batucada surgiu, a espetacular Os grilos, Quarentão simpático, Freio aerodinâmico, Com mais
de 30, Que bandeira, Garra, a maravilhosa Black is beautiful, com um dueto com a desconhecida
Marizinha, Wanda vidal, O beato, Malena, Revolução orgânica, Não tem nada não, Mentira, Nem
paletó nem gravata, Casamento filhos e convenções, Nossa vida começa com a gente e no final Meu
herói.

/Ainda em 2004, saiu o cd MORENA BOSSA NOVA, da cantora Clara Moreno, mas quem é Clara
Moreno? Vocês devem estar se perguntando. Clara Moreno é carioca da gema. Filha de dois artistas
consagrados da música brasileira – a expetacular Joyce e o compositor e violonista Nelson Ângelo. Vem
atuando na cena brasileira de música desde a década de 90, tendo lançado CLARA MORENO e
MUTANTE os dois pela gravadora japonesa Avex e pelo selo brasileiro Cucamonga em parceria com a
Avex, que também lançou este CD com remixes de DJs, entre eles: Ashley Beedle e Joe Claussell,
obtendo com os mesmos, expressivas críticas da imprensa e apresentações aqui no Brasil e no exterior
como o Bossa Getz Festival em Tóquio, e o Jazz Café em Londres.
MORENA BOSSA NOVA marca o encontro de Clara com o produtor e músico Rodolfo Stroeter e com
o selo Pau Brasil/ YB music. O CD apresenta um repertório que abrange composições de Joyce, Celso
Fonseca, Rodolfo Stroeter, Gilberto Gil, Tom Jobim e Henry Salvador. Em MORENA BOSSA NOVA o
ecletismo musical de Clara se mescla com arranjos inéditos e a sonoridade do CD prima pela
originalidade da criação destes. Interpretando duas canções inéditas da mãe Joyce: as maravilhosas
Heavy Telecoteco e Morena Bossa Nova, além de regravar a explendorosa Aldeia de Ogum, também de
Joyce, que virou um samba-house pra ninguém botar defeito. Clara passeia pelo samba, pela new bossa
e pela música cantada sem palavras. Do compositor carioca Celso Fonseca, Clara recebeu uma
composição inédita Outras Praias, além de regravar a já clássica Slow Motion Bossa Nova e a
maravilhosa Samba é Tudo, do mesmo Celso Fonseca e de Ronaldo Bastos. Já as inéditas composições
Eletromblé, Mercado da Mãe Preta, Kabrum e Feiticeira, de Rodolfo Stroeter contribuem para a
variação temática e rítmica do CD. Completando o repertório, a conhecida composição Ela, de Gilberto
Gil, além de Solidão, uma rara música de Tom Jobim e o sucesso de Henry Salvador Dan Mon Ilê, com
citação de Garota de Ipanema, recebem também arranjos diferenciados.A colaboração de Clara em
MORENA BOSSA NOVA com alguns dos melhores músicos brasileiros da atualidade como Marcos
Suzano, Joyce, Teco Cardoso, Robertinho Silva, Tutty Moreno, Nailor “Proveta”, Webster Santos, Celso
Fonseca, Rodolfo Stroeter, Zé Pitoco – além da presença do tecladista norueguês Bugge Wesseltoff –
eleva a condição de modernidade e de espontaneidade que permeia o CD. A bossa de Clara Moreno é
carioca e cosmopolita, vai do Rio para o mundo em uma parabólica esperta. Sim, é bossa. Mas o tempo
é outro, o clima é novo e o som é globalizado. Clara Moreno sabe disso. Saindo da Joyce, realmente não
podia esperar coisa diferente, pra os saudosistas Clara é a primeira metade da música Clareana.

/Também em 2004 sai a bela colêtanea RETRATOS – WILSON SIMONAL. Uma bela homenagem a
um dos maiores cantores que o Brasil já teve. O disco começa com o clássico Lobo bobo, de Carlos
Lyra, depois tem a bela e pouco lembrada Chuva, de Durval Ferreira e Pedro Camargo, depois tem
Inútil paisagem, do Tom,.monstrando uma fase bem Bossa Nova e um pouco diferente da habitual do
Wilson Simonal, onde se lembra da voz do grande Agostinho dos Santos, depois tem Lágrima flor, do
Billy Blanco, depois tem a expetacular Sá Marina, uma das músicas mais famosas cantadas pelo
Simonal, depois tem o “samba jovem” da desconhecida Juca bobão, de Del Loro, depois tem a primeira
música de pilantragem de todos os tempos: Mamãe passou açúcar em mim, do Carlos Imperial, depois
tem o clássico Tributo a Martin Luther King, do Simonal com Ronaldo Boscoli, o hino negro que ele
dedicou ao filho dele Wilson Simoninha, depois tem a bela e desconhecida Meia volta (Ana Cristina),
do Antonio Adolfo, depois tem Telefone, do Roberto Menescal, depois tem Balanço Zona Sul, do Tito
Madi, depois tem Nanã, outro hino negro, do mestre Moacir Santos, que na voz do Simonal virou um
clássico mundial, depois tem a belíssima Duas contas, do Garoto e finalizando esse belo cd a fenomenal
Rapaz de bem, do Johnny Alf, a primeira Bossa Nova de todas.

O ano de 2004, também é o ano de relembrar os 10 anos da morte de Tom Jobim. A Som Livre lança o
belo disco TOM JOBIM LOUNGE, produzido e remixado pelo Dj Grecco. Na verdade o cd é uma
remixagem do OLHA QUE COISA MAIS LINDA, mas tirando algumas músicas. O cd, com certeza, é
daqueles para se fazer caixa, mas como sempre gosto de dizer: é melhor fazer caixa com músicas que
prestam de que fazer com músicas horríveis, como tem vários por aí. As músicas do disco são:
Corcovado, com Daniela Mercury, Garota de Ipanema, com Simone, Luiza, com Carlinhos Brown,
How Insensitive, com Paulo Ricardo, Eu sei que vou te amar, com Paulinho Moska, Lígia, com
Orquestra Som Livre, Samba do avião, com o MPB-4, a única do disco que não estava no cd OLHA
QUE COISA MAIS LINDA, A Felicidade, com Martinho da Vila, Wave, com Lenine, Triste, com Zé
Renato, Desafinado, com Quarteto em CY, Águas de Março, com João Bosco, Sem você, com Leila
Pinheiro e O amor em paz, com Ivan Lins.
/O ano de 2004 lembrou os 30 anos de um dos maiores discos de todos os tempos: ELIS & TOM. E essa
data não podia ser esquecida, a Trama, do João Marcelo Boscoli, filho da Elis e a Universal, dona dos
direitos do disco se juntaram e chamaram César Camargo Mariano, na época marido da Elis e produtor
do disco, para remixar, no caso mixar de novo. ELIS & TOM foi remixado no Estúdios Trama pelo
engenheiro Luis Paulo Serafim sob a supervisão de Cesar Camargo Mariano, a partir dos masters
originais de 8 canais das sessões de gravação - realizadas na Califórnia, nos Estúdios da MGM, em
março de 1974.
Para ficar o mais fiel possível ao disco original, César chamou o mesmo que mixou o disco e colocou
todos os instrumentos na mesma ordem do lp original. Ele fez além, fez com que 30 anos depois
pudessémos ouvir as conversas impagáveis do Tom e da Elis, além até da respiração da Elis enquanto
cantava, tudo isso em formato de DVD – Aúdio, que fez com que a qualidade sonora ficasse muito
melhor do que a de um cd normal. Além dos clássicos do disco que são: Águas de Março, Pois é, Só
tinha de ser com você, Modinha, Triste, Corcovado, O que tinha de ser, Retrato em branco e preto,
Brigas nunca mais, Por toda a minha vida, Fotografia, Soneto de separação, Chovendo na roseira e
Inútil paisagem. O DVD – Aúdio tem duas faixas bonus: uma outra versão de Fotografia e Bonita,
música que Elis não quis colocar no disco, pois não gostou do seu sotaque em inglês, além de tudo ela
era modesta (!). A caixa vem o DVD – Aúdio e um cd normal. Nunca “Elis & Tom” soou tão bem,
mantendo fidelidade ao trabalho original e só oferecendo como diferencial a QUALIDADE do áudio -
preservado da melhor forma para as futuras gerações.
/Em 2004, finalmente saiu o mais novo disco do Bossacucanova: UMA BATIDA DIFERENTE. Como
nos dois discos anteriores o cd tem várias participações especialissímas. Como no BRASILIDADE, eles
tocam todas músicas, mas ao contrário do anterior, em que quase todas as músicas são instrumentais,
nesse disco todas são cantadas. As músicas desse belíssimo cd são: a inédita Bom dia Rio, cantada pelo
Roberto Menescal e a Cris Dellano, parceria do BCN e do Nelson Motta, uma delícia de bossa lounge,
com um sampler de uma entrevista do Menescal de 1968, depois tem O samba da minha terra, clássico
de Dorival Caymmi, cantada pela banda holandesa (!) Zuco 103, depois tem Essa moça tá diferente, do
Chico Buarque, cantada brilhantemente pelo Wilson Simoninha, depois tem a inédita Previsão, parceria
da Adriana Calcanhoto com o BCN, cantada pela própria Adriana e com Léo Gandelmann no sax,
depois tem Eu quero um samba, do Haroldo Barbosa, que ficou famosa pelo João Gilberto, cantada pela
Cris Dellano, com o grande Bebeto no violão, depois tem a inédita Just a samba, parceria do Celso
Fonseca, com a BCN, cantada pelo próprio Celso Fonseca, depois tem a também inédita Queria, feita
em parceria do BCN com ninguém menos que o maior mestre dessa Nova Bossa Nova: Marcos Valle,
cantada pelo próprio Marcos, depois tem a clássica Waters of March, cantada pela Cris Dellano, depois
tem Bonita, também do Tom, com o Roberto Menescal no violão, que foi transformada num delicioso
samba-house, depois tem a maravilhosa Feitinha pro poeta, do mestre Baden Powell, feita por
encomenda a Vinícius de Moraes, cantada pelo Menescal, depois tem Onde anda meu amor, do Orlan
Divo, cantada pela Cris Dellano e pelo próprio Orlan Divo, também com o Bebeto no violão e no final,
Vai levando, do Caetano Veloso e do Chico Buarque, cantada pelos mestres do samba-rock: Trio
Mocotó. O cd conseguiu ficar ainda melhor que o excelente BRASILIDADE, com certeza o
Bossacucanova veio pra ficar.

/Também em 2004, saiu finalmente o disco do Marcos Valle CONTRASTS, que foi produzido por um
DJ (Roc Hunter) e, inicialmente, foi lançado apenas na Europa e no Japão, pelo selo inglês Far Out.
Agora, ganha lançamento nacional, via gravadora Trama. Se tem algum motivo de o Brasil ser hype na
Europa atualmente, o compositor Marcos Valle e seus relançamentos que saíram nos anos 90 têm boa
parcela de culpa disso. Ele foi responsável por influenciar muitos DJs a misturar MPB com eletrônico,
principalmente drum'n'bass.
CONTRASTS deixa nítido em suas 11 faixas inéditas a principal marca de Marcos Valle: fortes
melodias e sofisticação harmônica envolvidas em ritmos que sempre influenciaram suas composições
como o samba, o baião e o funk. O violão é presença forte no álbum, fazendo o contraponto com sutis
grooves eletrônicos, que ficaram por conta do DJ inglês Roc Hunter.
Além de produzir e fazer os arranjos de CONTRASTS, Marcos Valle canta, toca violão, piano acústico,
Fender Rhodes, órgão Hammond, piano Wurlitzer, escaleta e teclados no álbum. O irmão e parceiro de
sempre Paulo Sérgio Valle comparece com a deliciosa Água de Coco, que lembra a clássica Água de
Beber, do Tom e do Vinícius e em Passatempo, um surpreedente baião, a excepcional cantora e
compositora Joyce com Besteiras de Amor e na expetacular Valeu, (na qual também canta), que é a
melhor faixa do disco e o letrista Ronaldo Bastos com Disfarça e Vem, a maravilhosa Nega do Balaio e
My Nightingale, única música em inglês do disco, tem também Contrasts, faixa que dá nome ao
trabalho, é um belo tema instrumental, o cd ainda tem o Tema do Tiago, mais uma música instrumental,
a expetacular Parabéns (Dança do Daniel), essa música e a anterior são em homenagens aos seus
filhos: Tiago e Daniel, a última música do disco é o baião-funk Que que tem. E como faixas-bônus
foram incluídos no álbum três remixes de DJs europeus, que já eram tocadas em clubs antes mesmo do
CD ser lançado por lá. As músicas remixadas foram: Valeu, remixada pelo 4 Hero, Parabéns (Dança do
Daniel), remixada pelo Daz I-Kue e Bugz in the Attic e a última é Nega do Balaio, remixada pelo
Buscemi`s Jungle Jazz. Esse cd é uma prova que Marcos Valle está cada vez mais integrado com a
música eletrônica e cada vez melhor. Sem dúvida é o melhor disco que Marcos Valle fez pela Farout.

Ainda em 2004, pela Farout Recordings saíram duas coletâneas maravilhosas glorificando a música
brasileira. A primeira é BRAZILIAN LOVE AFFAIR 5, é o 5º lançamento dessa série maravilhosa. As
músicas do disco são: O sonho, com Democústico, A paz, com a Nina Miranda e Troblemann, Suspeita,
com Os Ipanemas, Te querendo, com Azimuth, Estação Verão, com Sabrina Malheiros, Chuva, com
Vertente, Galope, com a Joyce, Tarde em Itacuruca, com José Roberto Bertrani, Ida e volta, com Grupo
Batuque, Água de coco, com Marcos Valle, Sob o mar, com Friends from Rio, Neon Dawn, com Viper
Squad e Café Sem, com Mamound.
A 2ª coletânea é a também maravilhosa BRAZILICA, com algumas músicas brasileiras que fizeram
sucesso e marcaram a história dos 10 anos da Farout, remixadas pelo dj Kenny Dop. As músicas do
disco são: Sertão, com Os Ipanemas, Taruma, com Grupo Batuque, Fibra, com Paulo Moura, Escravos
de Jó, Sob o mar e Zona Sul, as três com Friends from Rio, Ponteio, com Da Lata, Fundo falso, com
Marcos Valle, Icaraí, com Os Ipanemas, Percussion breakdown, A sereia, com Democustico,
Pregiciman, com Mamond, Água, com Nina e Crhis, Estação verão, com Sabrina Malheiros, Las luces
del norte, com Los Ladrones, Without words, com Natures Plan, Vera cruz, com Friends from Rio,
Torcida do Flamengo, com Grupo Batuque, Apaixonada por você, com Marcos Valle e Sunderley
Samba, com Azimuth.
/Também em 2004, sai o mais um disco do Marcelo D2: MARCELO D2 ACÚSTICO MTV, com
músicas do seu primeiro disco solo que foi EU TIRO É ONDA, o seu segundo que foi A PROCURA
DA BATIDA PERFEITA, mais duas músicas do Planet Hemp. Sai o cd e o DVD. As músicas do disco
são: Vai vendo, a maravilhosa A maldição do samba, A procura da batida perfeita, Eu tive um sonho,
1967, com Canto de Osanha, como música incidental, Batidas e levadas, Contexto, com Bnegão, do
Planet Hemp, com citação da maravilhosa Mentira, do Marcos Valle, o samba-jazz de Samba de
primeira, com citação de Tim dom dom, Encontro com Nogueira, Profissão MC, Pilotando o bonde da
excursão, Batucada, a expetacular Espancando o macaco, do João Donato, com o próprio no piano, a
clássica Mantenha o respeito, do Planet Hemp, também com João Donato no piano, CB (Sangue Bom),
com o americano Will I am, da banda Black Eyed Peas, Sessão, uma versão reggae de Lodeando, com o
filho Stephan e a já clássica Qual é. Realmente é um dos melhos discos do ano e Marcelo D2 já pode se
considerar um verdadeiro arquiteto da música brasileira.

Também em 2004, só que nos EUA sai o disco BOSSA CUBANA, com o grupo cubano Sexto sentido e
“the king of Bossa Nova” João Donato, como saiu na capa. Esse disco reforça mais a idéia de que
verdadeiramente foi João Donato que começou essa onda latina na música americana ainda nos anos 60.
As músicas desse disco são: Bossa cubana, uma versão latin lover de The girl from Ipanema, Come
together, The secret life of plants, Vento no canavial, Baby don’t cry, It`s probably me, Michelle, a
clássica Bananeira, que ganhou o mundo graças a Bebel Gilberto, Jungle fever, Es nuestra cancion,
Wait for me, Crazy, Lush life e Send one your love.

/Em novembro pela gravadora Biscoito Fino sai o belíssimo disco inédito TOM JOBIM EM MINAS
AO VIVO PIANO EM VOZ. Foi durante as águas de março de 1981 que o público presente no Palácio
das Artes, em Belo Horizonte, assistiu pela primeira vez, em 20 anos, a um recital de Antonio Carlos
Jobim na capital mineira. Ainda tocado pela perda do poetinha Vinicius de Moraes, que morrera há
menos de um ano, Tom recriou de maneira particularmente emocionada algo essencial de seu
cancioneiro e homenageou seus principais parceiros de vida e música.
Só com o piano, Tom cantou, tocou e conversou, soberano das artes seja em que palácio for, como se
estivesse na sala de visitas de sua própria casa – ou na sala de qualquer um de nós. São 18 músicas, duas
com Newton Mendonça, duas com Dolores Duran, duas com Aloysio de Oliveira, uma com Chico
Buarque, sete com Vinicius, quatro só de Tom. Era o segundo e último dia de apresentação do maestro
em Belo Horizonte, a convite de uma fundação local.

De saída, Tom demonstrou que a noite seria mesmo confessional: “Não sou muito de fazer show. Quem
me levou pra este negócio foi o Vinicius, o Toquinho, A Miúcha”. E prosseguiu: “É fácil fazer show
escorado em músicos, parceiros, orquestra grande. (Desta vez) preferimos fazer uma coisa mais íntima
porque a gente não pode ser aquele menino tímido pra sempre, né?”, gracejou o maestro, no plural,
como se falasse também pelo piano, antes de dedicar o show aos parceiros, “que muito me ajudaram”.
O primeiro parceiro citado foi Newton Mendonça, em Desafinado e Samba de uma Nota Só, dois dos
maiores standards internacionais da obra de Jobim. Sobre a primeira, contou o maestro que a princípio
“ninguém quis gravar, os editores não queriam editar e nem João Gilberto quis nada com ela”. Em
seguida, Jobim falou de “uma moça chamada Dolores Duran. Eu tava fazendo uma música com
Vinicius. Fomos à rádio nacional e lá estava a Dolores. Toquei a música, ela tirou o lápis de sobrancelha
da bolsinha, em cinco minutos escreveu a letra e botou assim: Vinicius, dois pontos. Outra letra é
covardia”. Tom tocou Por Causa de Você, a obra prima tirada da caixa de maquiagem de Dolores
Duran, e engatou outra parceria com Dolores, Estrada do Sol, a única de todo o concerto executada em
versão instrumental. O início da parceria com Vinicius de Moraes já foi esmiuçado por diversos
pesquisadores. Mas nada como ouvir contada por Tom. “Ele era diplomata e veio de Paris com a idéia
de fazer uma peça de teatro chamada Orfeu da Conceição. Chegou no Rio e procurou um músico para
compor com ele as músicas da peça”, disse, como quem confidencia ao ouvido de cada espectador.
Confirmou que o primeiro a ser procurado por Vinicius foi o veterano Vadico que, adoentado, recusou a
oferta. Até que se deu o mitológico encontro no Bar Vilarino, no centro do Rio, numa noite de 1956.
“Lucio Rangel me apresentou ao Vinicius, que me levou ao grande mundo carioca, em casas com
pianos de cauda e senhoras bem lavadas. Eu andava com uma pastinha cheia de arranjos, competindo
com o aluguel. Perguntei: Escuta tem um dinheirinho nisso? Lucio ficou escandalizado: ô Tom Jobim,
esse aí é o poeta Vinicius de Moraes. Eu digo, ah bom” recorda, sob a cumplicidade de risos radiantes.
Tom mencionou “alguns sambas meio bobos jogados na lata do lixo, até que apareceu um samba bom”,
e iniciou uma seqüência de tirar o fôlego: Se Todos Fossem Iguais a Você, Água de Beber, Eu não
Existo sem Você, Modinha, Chega de Saudade. Dindi e Eu Preciso de Você representam a parceria com
Aloysio de Oliveira. Depois de Aloysio, Tom falou de um certo “parceiro meu de olhos azuis, que
dizem que são verdes, depende da luz do dia. O rapaz é um gênio, é craque mesmo, tipo Pelé,
Garrincha”, situa, antes de proporcionar ao público uma apresentação magistral de Retrato em Branco e
Preto. No piano, o contraponto dos graves, com as teclas agudas solando a melodia, deram a medida
dos dias tristes e noites claras propostas pela letra de Chico Buarque de Hollanda.
Conhecedor das pedras do caminho, Jobim anunciou, por fim: “um rapaz aqui um tanto dispersivo. Meu
parceiro também, um tal de Tom Jobim”. A introdução de Corcovado fez Belo Horizonte vislumbrar o
Redentor de alguma janela do Palácio das Artes. Os olhos de LígiaFalando de Amor. No final, a
enxurrada melódica e poética de Águas de Março e o bis de Garota de Ipanema. ANTONIO CARLOS
JOBIM EM MINAS nos transforma em testemunhas auditivas e sensoriais de uma das mais felizes
noites da história da música brasileira, isso 10 anos depois da morte do nosso maestro soberano, o Tom
maior da música brasileira. abrangem versos pouco conhecidos antecipando o samba-choro

/No final de 2004 a gravadora Dubas, de Ronaldo Bastos, deu um grande presente para quem gosta de
um som moderno, pesado e suingado: o CD do raro primeiro LP do baterista Dom Um Romão, gravado
no Rio no nunca demais celebrado (para a música instrumental) ano de 1964. E DOM UM
(Dubas/Universal) traz, além de sua evidente exuberância musical, muita das características desse som
brasileiro de 1964. Traz, em primeiro lugar, aquele lance de pratos inconfundível do estilo de Dom Um
(e de Edison Machado) que, das sessões de jazz do Beco das Garrafas, tanto influenciaria os bateristas
de samba, bossa nova e jazz brasileiro. É o vibrante “samba no prato” que caracteriza o som do Beco,
do samba-jazz. Logo na primeira faixa, Telefone (de Roberto Menescal), e por todo o disco o estilo de
Dom Um está íntegro, os pratos na frente, a marcação firme com o pé no bumbo e a baqueta “deitada”
sobre o aro da caixa num balanço incrível.
Depois do estilo, o repertório é também tipicamente 1964. Convivem Bossa Nova (Telefone, Zona Sul,
esta inspirada melodia de Luiz Henrique) e canção de protesto (o samba de morro, de Zé Ketti, Diz que
fui por aí, e a nordestina Fica mal com Deus, de Geraldo Vandré); temas inspirados no candomblé,
como Samba nagô, Consolação, de Baden Powell, e Birimbau (Capoeira), de João Mello e Codó, e um
refinado standard como Vivo sonhando (de Tom Jobim), este aliás com arranjo de sopros originalíssimo
de Waltel Branco, com solos vigorosos de Paulo Moura no sax soprano e do trombonista Edson Maciel
“Maluco”; brincadeiras formais do sambalanço de Orlandivo, Jangal (parceria com o percussionista
Rubens Bassini) e Zambezi (com Roberto Jorge), interessantíssimas para bateria; e complexos temas
jazzísticos de Waltel Branco, África e Dom Um Sete, verdadeiros desafios técnicos.
Por fim, mais 64 impossível, há os músicos que acompanham Dom Um, comuns aos grandes discos de
samba-jazz, achados nos Moacir Santos, Meirelles, Sérgio Mendes, etc. Como os trompetistas Pedro
Paulo, Maurílio, Hamilton e Formiga; J.T. Meirelles e Jorginho nas flautas e sax altos; a seleção
brasileira de tenoristas: Paulo Moura, Cipó (autor de dois arranjos), Zé Bodega (da Tabajara), Sandoval,
Juarez e Bijou, e, curiosamente solando em Dom Um Sete, o chorão K-Ximbinho; Bassini e Jorge Arena
nas percussões e muitos outros grandes músicos da época, com destaque para o solo de sax barítono de
Aurino Ferreira em Fica mal com Deus.
Idealizado e produzido por Armando Pitigliani — produtor que um ano antes lançara o igualmente
seminal, e muito mais popular, SAMBA ESQUEMA NOVO, de Jorge Ben, também com Dom Um
Romão na bateria — DOM UM carrega o espírito da época. Hoje sendo reverenciado pelos djs
londrinos.
Em 2005, sai pela Biscoito Fino, o DVD JOYCE A BANDA MALUCA – AO VIVO, o primeiro DVD
da maravilhosa Joyce. A banda maluca saiu do Rio, virou CD no Japão, Europa e Brasil. Agora ganha
imagens através de um elegante musical gravado em um teatro em São Paulo em co-produção da
gravadora Biscoito Fino com a TV Cultura. Apenas Joyce e os músicos, sem platéia. Uma fotografia
musical que mostra a intimidade de quem está tocando junto e viajando o mundo há mais de dez anos.
Joyce fugiu dos padrões de Dvds que revisam carreiras e optou por mostrar sua produção recente. Das
18 músicas, 12 são saídas de seus dois últimos CDs, Gafieira moderna (2001) e Banda maluca (2004).
Entre os extras, o making of da gravação do disco Banda Maluca (que saiu na Inglaterra com o título de
Just a Little Bit Crazy); uma entrevista com a cantora, exibida em especial da TV Cultura; cenas da
turnê na Europa e no Japão, com as participações das filhas de Joyce, as cantoras Clara Moreno e Ana
Martins; um quiz para testar os conhecimentos dos fãs. Quem acerta, ganha como prêmio uma versão
exclusiva de Monsier Binot e Claeana, em formato voz e violão. Outro diferencial foi a opção por
registrar o show em um teatro vazio, sem público. Se a qualidade técnica da imagem peca em alguns
momentos, o valor artístico compensa. Joyce se mostra como uma das mais antenadas e talentosas
artistas brasileiras. Exportada para o mundo com embalagem verde e amarela, a música de Joyce
levanta bandeira de um país moderno e antenado a suas tradições. A bossa dela é outra. As músicas
desse DVD são: Banda maluca, com citação da música Chiclete com banana, do Jackson do Pandeiro, a
clássica Upa neguinho, do Edu Lobo, Diz que eu também fui por aí, Você e eu, do Carlos Lyra e do
Vinícius, Receita de samba, Forças d`alma, Azul Bahia, Galope, Na casa do Vila, A hard day`s night,
L`étang, For hall, Na paz, Samba do Joyce, Aldeia de Ogum, sucesso nas pistas eletrônicas no mundo
todo, Pause Pitte, a clássica Feminina, sua música mais famosa, e a eterna Aquarela do Brasil.

/O ano de 2005 é o ano de lembrar os 25 anos da morte do poetinha Vinícius de Moraes. Como dizia o
poeta, o bom samba é uma forma de oração. Por isso, saiu pela gravadora Biscoito Fino, o novo disco
de Maria Bethânia: QUE FALTA VOCÊ ME FAZ, uma belíssima homenagem ao poeta. Bethânia
redimensiona sua memória afetiva – e a de infindáveis gerações de brasileiros – através do cancioneiro
de Vinicius de Moraes. São 15 faixas, em parcerias com Antonio Carlos Jobim, Garoto, Chico Buarque,
Carlos Lyra, Baden Powell, Toquinho, Adoniran Barbosa, Jards Macalé, além de uma versão de
Caetano Veloso para Nature Boy, de Eden Ahbez, incluindo um antigo registro da voz de Vinicius,
recuperado por Bethânia. As músicas do disco são: a belíssima Modinha, parceria com o amigo Tom
Jobim, depois tem um medley com Poética I, um poema do Vinícius e a bela Astronauta, parceira com
Baden Powell, depois tem a clássica Minha namorada, magnifíca música com parceria de Carlos Lyra,
depois tem a sempre emocionante A felicidade, um dos maiores clássicos da parceria com o Tom, depois
tem a sensacional Tarde em Itapuã, parceira com Toquinho, praticamente um hino em homenagem a
Bahia, terra natal de Bethânia, depois tem um medley com Lamento no morro e o Monólogo de Orfeu,
duas peças maravilhosas do inesquecível Orfeu da Conceição, falando em Orfeu, depois tem Mulher
sempre mulher, também do Orfeu, as 3 em parceria com o grande Tom Jobim, depois tem a comovente
Gente Humilde, que Vinícius fez a letra, entusiasmado com a parceria entre Tom e Chico Buarque,
pediu a Chico, em Roma, algumas sugestões para a letra que acabara de escrever sobre a melodia de
Garoto. Proposta aceita, Vinicius tratou de comunicar em um telefonema exultante para o maestro, no
Rio: “Tomzinho, o Chico agora também é meu parceirinho!”, depois tem a rara O mais que perfeito,
parceria, até de certa forma surpreendente com Jards Macalé, depois tem a melancólica O que tinha de
ser, também em parceria com Tom, depois tem outra música rara Bom dia tristeza, junto com o rei do
samba paulistano Adoniram Barbosa (lembrando que um dia Vinícius disse que “São Paulo é o túmulo
do samba”!), depos tem o clássico afrosamba Samba da benção, em parceria com Baden Powell, depois
tem a também clássica Você e eu, parceira com Carlos Lyra, depois tem a também bela Eu não existo
sem você, mas uma da brilhante parceria com Tom Jobim e fechando o disco a música Nature boy.
Também em 2005, sai o belíssimo cd BOSSA NOVA LOUNGE – SUMMER SAMBA, mas um volume
dessa coletânea maravilhosa celebrando o melhor da Bossa Nova com toque de lounge music. As
músicas desse disco são a clássica Os grilos, numa versão menos conhecida, tocada pelo grupo Os
Cadedráticos, Samba de verão, que não podia faltar, cantada pelo Marcos Valle, Mar, mar, tocada pelo
Walter Wanderley, Tema feliz, com a Leny Andrade, o clássico Samba do Carioca, tocado por ninguém
menos que Meirelles e os Copa 5, a desconhecida Espero por você, cantada por Jorge Ben Jor, a clássica
Rio, tocada pelo mestre João Donato, Surfin`in Rio, cantada pela Sylvia Telles, Adriana, pelo Roberto
Menescal, Feitinha pro poeta, pelo grupo Os gatos, Samba da pergunta, pela Marcia, Meditação, pelo
Eumir Deodato, Doralice, na versão que ganhou o mundo com João Gilberto e Stan Getz e fechando o
disco a rara e bela Andorinha, com o nosso maestro soberano Tom Jobim.
Ainda em 2005, foi descoberto na Inglaterra um disco inédito de João Donato, que ele tinha gravado em
1973 aqui mesmo no Brasil, o nome do disco é A BLUE DONATO, na verdade o disco é um resto de
gravação de um outro disco do João Donato, que acabou saindo sem essas músicas. As músicas desse
disco são: Mimosa n.º 1, Tom thumb, a explendorosa Não tem nada não, Message from the nile, Mimosa
n.º 2 e Mr. Keller. Esse cd saiu pela gravadora inglesa What Music, e como sempre, ainda não se sabe
quando vai chegar aqui no Brasil. As músicas são todas instrumentais e têm o jeito bem samba jazz, que
o João Donato foi um dos criadores.
/Também em 2005, sai aqui no Brasil uma belíssima coletânea dupla chamada FOTOGRAFIA – OS
ANOS DOURADOS DE TOM JOBIM. Um cd duplo que mostra muito bem porque que Tom foi o
maior compositor de música popular do mundo em todos os tempos.

No primeiro cd estão vários sucessos. As músicas desse primeiro cd são: Garota de Ipanema, Água de
beber, Insensatez, Samba de uma nota só, Só danço samba, Chega de saudade, Desafinado, Águas de
Março, na clássica versão com Elis e Tom, Só tinha de ser com você, também com Elis e Tom,
Fotografia, também com Elis e Tom, Chovendo na roseira, com Edu e Tom, Luiza, também com Edu e
Tom, Passarim, Gabriela e Anos Dourados, com Chico Buarque.

Já no segundo cd tem gravações raras. As músicas desse segundo cd são: a primeira gravação de Águas
de Março, em 1972, Olha Maria, com Chico Buarque, Canção em modo menor, com Nana Caymmi e
Tom Jobim, Soneto da separação, com Vinícius de Moraes, Matita perê, com Paulo César Pinheiro, Pé
do Lageiro, com Tom Jobim e João do Vale, O rio da minha aldeia, Cavaleiro monge, essas duas
últimas saídas do disco A MÚSICA EM PESSOA, com artistas brasileiros musicando poemas de
Fernando Pessoa, outra versão de Águas de Março, essa com Tom Jobim, Chico Buarque e Caetano
Veloso, a versão orginal de Anos dourados, instrumental como saiu na minissérie da TV Globo, Trem
azul e fechando o disco a bela Querida.

/Também em 2005 sai no Japão o extraordinário disco RIO-BAHIA, da sempre explondorosa Joyce e
Dori Caymmi, filho do mestre Dorival Caymmi. Como era de se esperar saiu primeiro no exterior e só
em 2006 chegou ao Brasil. “Existem pequenas iguarias que só dão aqui. Aí, vem o japonês e compra".
Em tom de brincadeira, Joyce traça um paralelo entre o cupuaçu, fruto brasileiro patenteado por uma
empresa japonesa (!), e a trajetória dela e de outros músicos brasileiros que encontraram no exterior
espaço para gravar. RIO-BAHIA, de Joyce e Dori Caymmi, é a prova. Lançado pela JVC na Ásia e
Oceania e pela Far Out na Europa e nos Estados Unidos, o disco já tem turnê marcada no Japão, em
julho, e na Europa, em setembro.
E no Brasil? Por aqui, nem sinal. "Para variar, sairá primeiro lá fora", diz Joyce. "No começo eu achava
estranho, mas já me acostumei. São discos gravados aqui, com músicos daqui e com canções cantadas
em português.
Aí, sai por uma companhia estrangeira. É a ”mcdonaldização” da música." As músicas desse disco são:
a bela Mercador de Siri, música do Dori Caymmi e do Paulo César Pinheiro, a maravilhosa e inédita
Rio-Bahia, da Joyce, com citação de Acontece que sou baiano, do Dorival Caymmi, Flor da Bahia,
também inédita, do Dori e do Paulo César Pinheiro, a rara Geraldo boa pinta, de Geraldo Jacques e
Haroldo Barbosa, que o João Gilberto nunca gravou, Fora de Hora, parceria inédita e maravilhosa do
Dori com Chico Buarque, Daqui, também inédita, da Joyce e do Roberto Stroeter, com um clima bem
nordestino com direito a sanfona e tudo, The colors of joy, também inédita e também da dupla Dori e
Paulo César Pinheiro, E era Copacabana, outra parceria inédita , agora da Joyce e do Carlos Lyra, num
bolero delicioso, Jogo de cintura, também inédita e também do Dori e do Paulo César Pinheiro, depois
tem o clássico baiano Saudade da Bahia, do Dorival Caymmi, cantada só pela Joyce, depois tem a
extraordinária Demorô, com direito a letra e tudo, música que a Joyce gravou e colocou no cd CHILL:
BRASIL2, depois tem mais uma música inédita Rancho da noite, da Joyce e do Paulo César Pinheiro,
depois tem mais uma inédita a bela Saudade do Rio, também do Dori e do Paulo César Pinheiro e
fechando esse disco que é uma verdadeira ponte do Rio para Bahia, a música Pra que chorar, clássico
do Baden Powell e do Vinícius de Moraes. Com direito a um coral que foi chamado de A festa do
Vinícius, com a Mônica Salmaso, Renato Braz, Clara Moreno, Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, Noa
Stroeter, Andréa Brandi, Joana, Flora, Dori Caymmi e a Joyce.
/Dia 12 de junho de 2005, Lagoa Rodrigues de Freitas, Rio de Janeiro. Nesse dia e nesse local
aconteceu um show histórico da Bossa Nova. Não, você não está louco, se acha que voltou no tempo
especialmente ao final dos anos 50 e início da década de 60. Os tempos são outros estamos no século
XXI, a TV e a rádio brasileira está enfestada de música de péssima qualidade especialmente Funk e
Breganejo, mas a Bossa Nova já tem quase 50 anos e parece cada dia mais nova como mostra nesse
show que saiu o cd e o DVD ao vivo BOSSA NOVA IN CONCERT. Mesmo com isso tudo ainda se
ouve Bossa Nova nas novelas, nos programas de TV e até no rádio e por milhões de jovens no mundo
inteiro especialmente no Japão e na Inglaterra e até no Brasil. Nesse show têm vários artistas que
ajudaram a formar a Bossa Nova, outros que se entregaram no caminho até chegar a New Bossa, ou a
Nova Bossa Nova, que ganhou a Europa (especialmente a Inglaterra) e o Japão com novos nomes e
artistas já consagrados sendo cada dia mais modernizados. O show foi apresentado por ninguém menos
que Miele, como em vários outros shows históricos da Bossa Nova. O cd e o DVD têm direção de
Roberto Menescal, um dos que tem maior autoridade no mundo pra se falar de Bossa Nova. As músicas
desse disco histórico são: Ela é carioca, com Os Cariocas, fantásticos como sempre, Adeus América, do
Haroldo Barbosa, numa interpretação de arrepiar também com Os Cariocas, muito diferente da versão
cantada pelo João Gilberto, depois tem a cinquentona Rapaz de bem com Jhonny Alf modernizando o
marco zero da Bossa Nova, depois tem um que não podia faltar o professor do Tom Jobim: João Donato
mais moderno que nunca com Minha saudade e a extraórdinária Amazonas, depois tem Carlinhos Lyra
parcerinho 100% como dizia Vinícius de Moraes com o clássico Lobo bobo e com o coro na também
clássica Minha namorada, depois tem Roberto Menescal, outro que não podia faltar e a Wanda Sá
cantando mais uma vez O barquinho juntando com Você também do Menescal, depois eles cantam
Telefone, ao lado do Miele, depois tem a bilionésima gravação de Garota de Ipanema, cantanda pelo
Pery Ribeiro, que alías foi o primeiro que gravou em 1962, depois tem uma interpretação emocionante
de O astronauta do Baden Powell e do Vinícius com o Pery Ribeiro com citação de Só tinha de ser com
você apresentando Leny Andrade, depois tem a Leny, que é a nossa Ella Fitzgerald dando show em
Batida diferente, do Durval Ferreira, com o próprio no violão, depois tem uma das primeiras
composições da Bossa Nova: Chora tua tristeza com o Oscar Castro Neves, autor da música, no violão
e a Cris Dellano transformando esse clássico numa New Bossa, com sua voz espetacular, depois tem a
rara A morte de um deus de sal, numa versão instrumental com Roberto Menescal e Oscar Castro
Neves, falando em New Bossa, depois tem o inventor dela Marcos Valle cantando a sua clássica e de
sempre Samba de verão, de diferente só que ele mistura português e inglês no meio da música, depois
tem um dos maiores sucessos da New Bossa e da música de hoje no mundo o já clássico Os grilos,
numa versão super moderna com Marcos Valle e a Patricia Alvi, depois tem Águas de março, cantada
pela Cris Dellano e o Bossacucanova e no final tem Rio, cantada pela Cris Dellano, com o
Bossacucanova, Oscar Castro Neves e Roberto Menescal, transportando as pistas londrinas de vez pra o
Rio de Janeiro e mostrando ao mundo que a Bossa está cada vez mais nova e mais moderna.

No dia 27 de julho de 2005, morre um dos maiores, senão o maior baterista brasileiro: Dom Um Romão,
que fez parte do lendário Copa 5 ao lado de J. T. Meirelles e participou de alguns dos maiores discos
brasileiros de todos os tempos como : CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, SAMBA ESQUEMA NOVO,
O SOM, A BAD DONATO e FRANCIS ALBERT SINATRA E ANTONIO CARLOS JOBIM.
/Também em 2005, sai pela gravadora Biscoito Fino, mais um disco da Leila Pinheiro. O belíssimo
NOS HORIZONTES DO MUNDO. Nos Horizontes do Mundo, música de Paulinho da Viola, que dá
nome ao 12º disco de Leila Pinheiro, é uma obra plural. Plural visitado na escolha das 16 canções – 11
inéditas, dos mais de 20 compositores, dos 40 músicos, das múltiplas sonoridades. Além de tocar piano
e/ou teclado em todas as faixas, Leila grava duas músicas de sua autoria: pela primeira vez registra a
balada Hoje, que a tornou parceira de Renato Russo em 1993, e assina o tema Delicadeza.. A profunda
organicidade do CD resulta também do incansável e fértil intercâmbio entre os habitats musicais de Alê
e de Leila. Co-produzido pela cantora, o trabalho foi gravado no Estúdio da gravadora Biscoito Fino no
Rio em outubro e novembro de 2004 e mixado em fevereiro deste ano, no Studio Ilha dos Sapos, de
Carlinhos Brown, em Salvador. No repertório, além da canção de Paulinho da Viola que batiza o
trabalho, um generoso leque de inéditas. Gozos da Alma, fulgurante e arrebatadora melodia de Francis
Hime, espécie de metonímia do espírito de Leila, com letra de Geraldo Carneiro emprestada da poesia
seiscentista do londrino John Donne é horizonte inesquecível. Tiranizar, atualíssima lâmina poética de
Caetano Veloso cai como luva na bossa de Cézar Mendes - um raro fazedor de canções -, cantada ao pé
do ouvido, quase sussurrada. Vem, Amada, samba-canção de Simone Guimarães, recebeu um plangente
piano, minimalista, reforçando a simplicidade desse bilhete de amor. Eduardo Gudin confirma-se poeta
de primeiríssima em O Amor e Eu, samba feito especialmente para Leila, transformado num fino
samba-reggae, com direito a timbau e rubber nose gravados na Bahia. Nesta música, à percussão de
Marcos Suzano, juntou-se Kiko Freitas, um excepcional baterista, um pintor com baquetas, de
criatividade e técnica impressionantes. A Vida que a Gente Leva, cativante canção da safra recente de
Fatima Guedes, transborda o traço da compositora na música e na letra. Pela Ciclovia, instigante
parceria entre Marcos Valle e Jorge Vercilo provoca os ouvidos com sopros, teremim e percussão
enquanto passeia pela orla carioca. Literalmente anti-horário, sem pressa, Walter Franco assina A 60
Minutos por Hora, um mantra para ser ouvido pela vida afora. O belo, por exemplo, dos Gozos da
Alma, de Francis e Geraldinho Carneiro: acho que não há no planeta quem não se emocione com essa
canção e veja nela essa beleza a que eu me refiro”. Leila se mostra novamente uma feliz promotora de
encontros inéditos. A tão alardeada e já histórica parceria entre Ivan Lins e Chico Buarque, Renata
Maria – gravada com a bênção de Chico, duetando com Leila –, nasceu a pedido dela. Assim como Deu
no que Deu, cruzamento do samba carioca da gema de Joyce com a poesia da paulicéia esperta de Luiz
Tatit, temperado pela presença da compositora, tocando violão e cantando. Depois de ter dito estar
“enferrujado”, Chico fez essa letra maravilhosa para a música do Ivan que eu lhe havia entregado na
esperança de que ficasse pronta a tempo de entrar no disco. Com Renata Maria se inaugura essa
histórica parceria. A letra chegou quando o disco já estava fechado. Mudamos o arranjo, pensado
inicialmente só para eu cantar, e complementamos depois com a “cama” de teclados em Salvador e com
o flugel maravilhoso do Jessé Sadoc. Mais feliz fiquei quando Chico aceitou o convite para cantar
comigo. Ivan Lins é, para mim, um dos maiores compositores contemporâneos do mundo. Depois de
finalizada, coloquei Renata Maria para ele ouvir pelo telefone, chorou como criança, dizendo não
imaginar que o sonho de ter uma canção sua letrada por Chico Buarque ainda fosse se realizar.”
A Minha Alma, virulento hit do Rappa e Marcelo Yuka, é tiro certeiro na emoção, rasgada por efeitos de
guitarra e pela voz de Nelson Cavaquinho entoando Juízo Final. Em contraponto, Onde Deus Possa me
Ouvir, de Vander Lee, traja piano e cordas do estilista Lincoln Olivetti, que igualmente assina arranjos e
regências de cordas em Gozos da Alma e Hoje. Os sopros delirantes também são arte de Lincoln em
Pela Ciclovia, Deu no que Deu, belíssima música de Joyce, e E Muito Mais. Este suingante achado de
João Donato e seu irmão Lysias Ênio, ganha, com os metais de Lincoln, reforço no sotaque
“acubanado” característico da levada de Donato. Não por acaso é em Havana, literalmente, o local de
encontro da voz de Leila com o clássico do porto-riquenho Benito de Jesus, Nuestro Juramento, bolero
estrondosamente conhecido na voz do equatoriano Julio Jaramillo. Em Cuba foram gravados
contrabaixo, flauta, baila, güiro e maracas pela trupe do Buena Vista Social Club, naquele clima de
tristeza emocionada que só lá se encontra.

/Ainda em 2005, sai pela gravadora Biscoito Fino, o belissímo DVD Carlos Lyra - 50 Anos de Música.
Celebrando o que poucos artistas podem ostentar diante de tão imponente efeméride: um repertório
inteiro de clássicos, muito além da Bossa-Nova que o projetou e a qual seu nome se associa durante as
cinco décadas que mudaram a maneira de se fazer e pensar música no Brasil e no mundo. Dirigido por
Jodele Larcher, o DVD foi gravado em março de 2004 no Canecão, no Rio, com participação de amigos
como Marcos Valle (Quem Quiser Encontrar o Amor), Leny Andrade (O Negócio É Amar), João
Donato (Você e Eu, junto com Emilio Santiago), Os Cariocas (Mas Também quem Mandou, com o
saxofone de Léo Gandelman), Roberto Menescal e Wanda Sá (Tem Dó de Mim). Outras gerações
abraçam o compositor, de Ivan Lins (Canção que Morre no Ar) a Miúcha (Sabe Você), passando pela
pós-bossanovista Leila Pinheiro (Saudade Fez um Samba, Se É Tarde me Perdoa, Lobo Bobo), até o
popstar Toni Garrido (Samba do Carioca). O Quarteto em Cy comparece em Aruanda e Antonio Adolfo
junta seu teclado ao violão de Carlinhos em Primavera.
Perpetuando o clã, a filha Kay e o sobrinho Cláudio renovam as forças em Pode Ir e O Barco e a Vela,
esta de autoria de Cláudio Lyra. Até o humorista Chico Caruso dá o ar da (sempre muita) graça na
espantosa Comedor de Giletes, pouco conhecida parceria de Lyra com Vinicius. Ao lado da banda
formada por Helvius Vilela (teclados), Adriano Giffoni (baixo), Dirceu Leite (sopros) e Ricardo Costa
(bateria), Carlos Lyra comanda Minha Namorada, Quando chegares, Um abraço no João, Se quiseres
chorar, Maria Ninguém, Coisa Mais Linda, Maria Moita, Gente do Morro, Sambalanço. Ao final,
Menescal, Wanda e Leila se juntam ao compositor para entoar Benção bossa-nova, antes do final
apoteótico de Marcha da Quarta-feira de Cinzas, com todos os convidados no palco, materializando as
palavras de Vinicius de Moraes. Carlos Lyra, o parceiro cem por cento, mais uma vez une ação ao
sentimento.

/No panorama fértil das novas cantoras da música brasileira – em especial, no samba – uma nova voz
surge para conferir generosidade e dolência ao gênero. Trata-se de Ana Martins, cujo disco SAMBA
SINCOPADO, gravado no Japão, ganha edição brasileira, via Biscoito Fino agora em 2005. Pra quem
não sabe, Ana Martins é a segunda metade da música Clareana, da mamãe Joyce. Assim como boa parte
dos artistas brasileiros que vêm encontrando solo propício na terra do sol nascente, Ana Martins já
gravou três álbuns no Japão, todos produzidos por Kazuo Yoshida. SAMBA SINCOPADO é o primeiro
deles a sair no Brasil. Na hora de escolher o repertório, Ana apostou categórica na influência de uma
das cantoras responsáveis pela abertura dos portos nipônicos à nação musical brasileira: Nara Leão. Foi
direto à fonte e encontrou, nos momentos em que Nara se aproximou de sambistas como Zé Kéti, Elton
Medeiros, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola, a matéria-prima para este trabalho. Ana recria
clássicos do gênero como Coisas do Mundo Minha Nega e Recado, de Paulinho da Viola, esta em
parceria com Casquinha; Quatro Crioulos, do musical Rosa de Ouro, com participação especial do autor
Elton Medeiros; Nega Dina e Diz que Fui por aí, de Zé Kéti; Pranto de Poeta, de Nelson Cavaquinho e
Guilherme de Brito, todos recriados por Nara, a partir de sua convivência com estes sambistas, em
1964, no Teatro Opinião. Há ainda Fez Bobagem, composta por Assis Valente na década de 30 e
regravada por Nara nos anos 60. O SAMBA SINCOPADO de Ana Martins abre espaço para bossa-
novistas e pós-bossa-novistas de primeira e segunda geração. Tem Vinicius de Moraes, com Tom Jobim
em Lamento no Morro, Francis Hime em Anoiteceu e Baden Powell em Amei Tanto; Chico Buarque em
Madalena Foi pro Mar, Morena dos Olhos D´Água, Homenagem ao Malandro; Sidney Miller em
Maria e Maria Joana, em interpretações repletas de sofisticação cool e despojado requinte. Sofisticação
acentuada pelo acompanhamento de Tutty Moreno (bateria e percussão), Jorge Helder (baixo acústico),
Robertinho Silva (percussão), Nivaldo Ornelas (sax e flauta), Lula Galvão (violão), além da mãe de
Ana, Joyce (violão, vocais e arranjos), que, aliás, foi da própria Joyce esta idéia de Ana gravar um disco
com repertório da maravilhosa Nara Leão.

/O primeiro DVD de um gênio da música brasileira é algo para ser comemorado, muito além de
classificações por gêneros ou estilos. Sobretudo quando o artista em questão repassa seus grandes
sucessos, em 50 anos de carreira, somados a novas composições que provam que o mestre continua a
produzir incessantemente, dialogando com diversas gerações de músicos brasileiros, do samba ao
bolero, da bossa-nova ao hip hop.
Saiu no mês de outubro o expetacular DVD
DONATURAL, o primeiro DVD de João Donato. DONATURAL apresenta João Donato em sua melhor
forma, cercado de amigos e convidados, provando que sua música é impossível de restringir-se a
segmentações. Ao dom natural de João, juntam-se os de Gilberto Gil, Marcelo D2, Joyce, Leila
Pinheiro, Ângela Ro Rô, Emilio Santiago e Marcelinho da Lua, acompanhados por Luis Alves (baixo),
Robertinho Silva (bateria), Donatinho (teclados), Sidinho (percussão), Ricardo Pontes (sax e flauta),
Jessé Sadoc (trumpete), com Donato ao piano. O DVD foi gravado ao vivo em uma noite do verão
carioca (10 de janeiro de 2005), no Espaço Cultural Sergio Porto. Muito à vontade, para não evitar o
trocadilho com um de seus discos mais importantes, Donato inicia os trabalhos com Gaiolas Abertas,
parceria com Martinho da Vila. Em seguida, recebe Joyce, com quem compartilha a maravilhosa
Sambou, Sambou (com João Melão) e a explendorosa E Vamos Lá, parceria com a cantora e violonista,
que é sem sombra de dúvidas um dos melhores momentos do DVD. Lugar Comum, clássico com
Gilberto Gil, é interpretado por Donato e banda. Mais convidados: Leila Pinheiro aparece para dividir a
latina E Muito Mais e Até Quem Sabe; (ambas com Lysias Ênio); Emilio Santiago, com quem Donato
gravou um álbum inteiro, reforça Vento no Canavial (também com Lysias); Ângela Rô Ro recria seu
sucesso Simples Carinho, de Donato e Abel Silva. O clássico Amazonas (com Lysias) antecede duas
outras canções com Gilberto Gil – A Paz e Bananeira -, desta vez com a presença do cantor ministro e
parceiro nas composições, em dueto para entrar para a história, duas das mais famosas músicas do
Donato no mundo todo. Minha Saudade é uma inusitada parceria entre dois gigantes que atendem pelo
singelo nome de João: Donato e Gilberto, interpretada por Donato. É a senha para o momento pop,
protagonizado nas parcerias com os Marcelos, da Lua (Lá Fora) e D2 (Balança), que, aliás, as duas
músicas são o melhor momento do DVD. Resta agora, voltar ao Donato essencial, do clássico A rã (com
Caetano Veloso), de Café com Pão (com Lysias Enio), Bluchanga, (só dele) e Nasci para Bailar, de
Donato e Paulo André Barata. A direção do DVD é de Gustavo Caldas e Murilo Saroldi. Realmente
João Donato mostra neste DVD que está mais jovem do que nunca e está cada vez melhor e prova por
que hoje em dia é dos mais importantes músicos no mundo.

/Também em 2005 sai o belíssimo filme COISA MAIS LINDA, que é um documentário sobre a Bossa
Nova. COISA MAIS LINDA dá ao espectador uma visão geral, um painel histórico, musical e
informativo de como se iniciou o movimento musical, Bossa Nova, que tem seus primórdios no início
dos anos 50, atingindo um de seus ápices em 1962, quando se internacionaliza definitivamente, no
concerto do Carnegie Hall, NY. A música que se fazia naquela época revoluciona a cultura musical
brasileira na melodia, nas harmonias e arranjos, na composição, na batida famosa e nas letras líricas e
românticas que prefiguravam um país feliz do Amor, do sorriso e da flor. Um período luminoso, quando
um grupo de jovens da Zona Sul do Rio vira de ponta a cabeça a nossa música, com defensores e
detratores, superados pelo tempo na eternização da Bossa Nova 40 anos depois um sucesso cada vez
mais consagrado no mundo. Nossos principais condutores são os dois maiores compositores vivos do
movimento: Roberto Menescal (do clássico "O Barquinho") e Carlos Lyra (dos eternos "Lobo Bobo",
"Coisa Mais Linda" e "Você e eu"). Eles criaram canções que tocam pelo planeta, e estão presentes no
filme contando as origens e os segredos do que viveram, com graça, felicidade e humor, de uma época
inesquecível, num verdadeiro papo de velhos amigos, passando pelos locais que marcaram o início de
suas carreiras. COISA MAIS LINDA apresenta entrevistas e números musicais exclusivos, de Roberto
Menescal, Carlos Lyra, João Donato, Alaíde Costa, Johnny Alf, Kay Lira, Leny Andrade, Chris Delano,
Joyce, Sergio Ricardo, Billy Blanco, enfim de todos os remanescentes vivos da época e alguns
seguidores atuais. Entre muitos outros, contendo também originais e exclusivas imagens de arquivo de
shows, apresentações internacionais, assim como de artistas estrangeiros que participaram deste
movimento na época. O filme é ordenado em blocos, onde se focalizam: Ritmo, Letra, Harmonia, o
Banquinho, a Batida, com depoimentos de teóricos e escritores de livros sobre o tema, como Sergio
Cabral, Tarik de Souza, Arthur da Tavola, e de participantes ativos como Miele, Nelson Motta, etc..
Destaque também para o Maestro Antonio Carlos Jobim, sua carreira e a dupla Tom/Vinicius. Nara
Leão também é homenageada. Um comovente bloco sobre a Musa, composto de inúmeras fotos,
depoimentos, fonogramas da época e imagens de arquivo. O filme não pretende ser e nem é uma aula.
Porém sua realização despretensiosa faz com que se transforme num documento audiovisual que
proporciona ao espectador duas horas de boa música, pura diversão, e que ao mesmo tempo informa
sobre este marco da cultura brasileira, que cada vez mais ocupa espaço nos corações e ouvidos de
homens e mulheres em vários paises do mundo.

/Tambem em 2005, sai pela gravadora Dubas, o maravilhoso JET-SAMBA, mais um cd do Marcos
Valle. Este é o primeiro trabalho em quase 20 anos de sua carreira totalmente produzido, gravado e
masterizado no Brasil, onde atua como produtor, compositor, músico e arranjador de todas as faixas,
fazendo releituras de músicas suas já conhecidas do público, como o tema de abertura da novela "Selva
de Pedra" e, ainda, apresentando belíssimos temas inéditos de sua autoria, com a participação de um
time de músicos de primeira qualidade. O fato de Marcos Valle ser compositor tão grande quanto Dori
Caymmi e Edu Lobo — com quem formou um trio, ainda adolescente no Rio do início dos anos 60, e
que tanto definiria três vertentes da música criativa brasileira do pós-bossa nova — às vezes é posto em
questão. Talvez pelo seu flerte com a música pop e a música comercial, (jingles, novelas), tida como
menores ainda que tão enriquecidas por ele. JET-SAMBA (Dubas) vem não só mais uma vez evidenciar
o altíssimo nível do compositor Marcos Valle como confirmá-lo pianista e, principalmente, orquestrador
criativo. É um disco instrumental, o que não fazia desde BRAZILIANCE, gravado nos Estados Unidos
em 1968. Como indica o samba-jazz do título, Jet-samba, é música para voar. A começar já na primeira
das 12 faixas, Selva de pedra, famoso tema que abria a novela homônima, no qual o orquestrador
encontra novas e insuspeitadas cores, explorando as sonoridades de seus pianos, o acústico e o elétrico
Fender Rhodes, e do gordo naipe de sopros tocado por Jessé Sadoc (trompetes e flugel), Renato Franco
(flautas e saxes) e Aldivas Ayres (trombone), que se desdobram em todas as entradas de seus
instrumentos para dar conta da variedade e do tamanho dos arranjos. Selva de pedra define o espírito:
temas bonitos e viajantes, solos melódicos e cristalinos de piano e sopros, harmonias supertrabalhadas e
um groove dado pela cozinha rítmica (o piano de Valle, o baixo de Alberto Continentino e a bateria de
Renato “Massa” Calmon, ambos do grupo de Ed Motta) que sempre marcou o trabalho de Valle. O
repertório traz vertentes do trabalho de Valle. Tem jazz brasileiro, a inédita Jet-samba, baião expetacular
em Campina Grande, samba meio valsa no delicioso compasso 6/8 (Vem e Esperando o messias), tão
usado por compositores como Jobim (Chovendo na roseira) e Menescal (Morte de um deus de sal);
mistura de culturas, Brasil/México, o trompete mariachi virando bossa nova; choro bem pianístico,
Catedral e Posto 9; temas grandiosos como Previsão do tempo ou líricos como Adams Hotel. Dois
momentos opostos são significativos da dimensão da música de Valle: o tema originalmente eletrônico
Bar inglês ganha versão “tocada” e igualmente nervosa, comprovando o forte conteúdo de suas
experiências no pop de ponta, numa versao maravilhosa; e La petite valse, linda valsa meio brasileira
meio francesa que revela a filiação musical de um compositor que vem de lá, de Jobim e Debussy, desse
amalgama de samba carioca e impressionismo francês com pitadas de tudo que soe bem, e que é a razão
profunda de a música brasileira ser assim tão original.

/Também em 2005 sai o sensacional filme Vinicius, em homenagem aos 25 anos da morte do poeta
Vinícius de Moraes. Logo depois sai pela gravadora Biscoito Fino o disco VINICIUS - TRILHA
SONORA DO FILME. Em seu depoimento no filme Vinicius, o poeta Ferreira Gullar diz que Vinicius
de Moraes ensinou o Brasil a ser feliz. De fato, são muitas as gerações que reconheceram no poeta a
alegria permanente que a música, sobretudo quando acompanhada pela lírica de Vinicius, tem sido
capaz de proporcionar aos brasileiros. A trilha sonora do filme - lançamento Biscoito Fino - retrata
exatamente esta capacidade de perpertuar-se que, como poucas, caracterizam a obra de Vinicius.
Gravada especialmente para o documentário dirigido por Miguel Faria Jr., a trilha reúne parceiros
canônicos - Carlos Lyra, Chico Buarque, Francis Hime, Toquinho, Edu Lobo - a artistas que
despertaram para a música a partir do contato com a poesia de Vinicius, como Caetano Veloso, Gilberto
Gil, Maria Bethânia e Olivia Byington, até aqueles que surgiram depois da morte do poeta - Zeca
Pagodinho, Adriana Calcanhotto e os novos Renato Braz, Mônica Salmaso, Yamandú Costa, Sérgio
Cassiano, Martin´alia, a neta Mariana de Moraes. O álbum, como o filme, abre na crônica de Rubem
Braga, narrada por Ricardo Blat, sobre a chegada da Primavera de 1980, a primeira desde 1913 sem a
presença física de Vinicius. Presença que, para além da herança artística, se materializa como nome de
rua, onde trafega o doce balanço das belas moças que o poeta não cansava de decantar. Em seguida,
uma de suas mais emblemáticas canções, em parceria com Antonio Carlos Jobim, cujo título se compara
à própria falta que Vinicius faz: Se Todos Fossem Iguais a Você, na voz de Renato Braz - que também
canta Por Toda a Minha Vida. O hábito, cultivado por Vinicius, de abranger diversas gerações, estende-
se à interpretação cool de Monica Salmaso para Insensatez e Canto Triste, ou na dolente versão de voz e
violão de Adriana Calcanhotto para Eu Sei que Vou te Amar. Boa surpresa é o canto jazzy de Mariana
de Moraes em Coisa Mais Linda, parceria com Carlos Lyra, acompanhada, entre outros, por Luis
Claudio Ramos no violão e Wilson das Neves, na bateria. O violão virtuoso de Yamandú Costa sola
Valsa de Eurídice, intrincada melodia que prova que Vinicius era um homem de intensa musicalidade,
manifestada em versos ou, no caso, em notas. Chico Buarque, acompanhando-se ao violão, revisita
Medo de Amar, letra e música de Vinicius, do álbum CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, lançado por
Elizeth Cardoso, em 1958, com canções de Tom e Vinicius. Chico conta que esta foi a primeira canção
do poeta a impressioná-lo, apresentada a ele pelo próprio Vinicius, amigo de seu pai, no início dos anos
50, em Roma. Chico menciona ainda o Poema dos Olhos da Amada, canção que na trilha aparece na
voz e violão de Caetano Veloso. Maria Bethânia interpreta O que Tinha de Ser, de seu mais recente
álbum, QUE FALTA VOCÊ ME FAZ, inteiramente dedicado à obra de Vinicius de Moraes, lançado este
ano pela Biscoito Fino.
O parceirinho cem por cento Carlos Lyra é quem canta Você e Eu, um de seus muitos clássicos com
Vinicius. Também de Lyra é a embolada Pau de Arara – o Comedor de Gilete, feita para o musical
Pobre Menina Rica, recriada por Sérgio Cassiano, do grupo pernambucano Mestre Ambrósio, com
percussão de Naná Vasconcelos. Outros parceiros importantes a marcar presença são: Toquinho - com
Tarde em Itapoã, da fase baiana de Vinicius, na década de 70 – e Francis Hime, em Sem Mais Adeus,
sua primeira composição, letrada por Vinicius num guardanapo de papel do Antonio´s, a segunda casa
do poeta. Edu Lobo redimensiona Berimbau, interpretando ao seu modo o violão afro-samba idealizado
por Baden Powell, autor da melodia. Formosa, outra de Baden, é relida por Gilberto Gil, afirmando o
componente africano do “branco mais preto do Brasil”. Do afro para as rodas de samba, Zeca
Pagodinho emenda mais um Baden, Pra que Chorar, sob o trombone de Roberto Marques. Martin´ália
transforma Sei Lá (A Vida Tem Sempre Razão) em partido alto. Olivia Byington canta Modinha, gravado
anteriormente pela cantora na recriação do álbum CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, também lançado
pela Biscoito Fino. Dentre as récitas, a poesia de Vinicius ambienta-se nas vozes de Camila Morgado
(Soneto de Fidelidade), Ricardo Blat (Poética I), Ferreira Gullar (Minha Pátria) e Maria Bethânia
(Soneto do Amor Total). Realmente não dá pra perder o filme que é maravilhoso e sua trilha sonora que
é sensacional.

/No final de 2005, sai o belíssimo disco FALANDO DE AMOR FAMÍLIAS CAYMMI E JOBIM
CANTAM ANTONIO CARLOS JOBIM, com um encontro memorável de Nana, Danilo e Dori
Caymmi, com Paulo e Daniel Jobim 40 anos depois do histórico disco CAYMMI VISITA TOM E
LEVA SEUS FILHOS. As músicas desse disco maravilhoso são: o clássico Samba do Avião, com
introdução de Dorival Caymmi, cantada pelos cinco, depois tem a antiga Foi a noite, cantada pela Nana
e pelo Paulo, depois tem o maior achado do disco, a inédita Bonita demais, versão em português do
clássico Bonita, feito por ninguém menos que Vinícius de Moraes, letra até então que ninguém
conhecia, cantada brilhantemente pelo Daniel Jobim, depois tem As praias desertas, cantada pela Nana
Caymmi, depois tem o clássico Anos dourados, cantado pelo Dori Caymmi, depois tem Outra vez,
cantada pela Nana, depois tem o clássico Desafinado, com introdução feita por Ronaldo Boscoli,
cantado pelo Paulo Jobim, depois tem a raríssima Esperança perdida, do Tom e do Billy blanco,
cantada pela Nana, a Nana inclusive falou que a mãe dela Stella não conhecia a música e ela brincou
que o Tom tinha psicografado a letra lá do céu, depois tem o clássico Eu sei que vou te amar, cantado
pelo Danilo Caymmi, depois tem Só em teus braços, cantada pela Nana, depois tem a raríssima Pra não
sofrer velho riacho, cantado pelo Paulo e pelo Dori, depois tem o clássico Falando de amor, cantado
pela Nana e pelo Danilo, depois tem a sempre maravilhosa Corcovado, cantada pelo Daniel, depois tem
a rara Esquecendo você, cantada pela Nana Caymmi, depois tem a inédita Canção para Michelle, letra
feita pelo Ronaldo Bastos para a música Chanson pour Michelle, tirada do disco O TEMPO E O
VENTO, cantada também pela Nana e finalizando o disco a maravilhosa Piano na Mangueira cantada
pelos cinco: Nana, Danilo, Dori, Paulo e Daniel


O ano de 2006 começa muito bem pra música brasileira, no exterior, porque aqui a coisa continua feia
com a volta do funk agora com força total, com direito a passar na novela das 8 da Rede Globo, mas no
início do ano sai na Europa duas colêtaneas maravilhosas pela Farout Recordings.
A primeira delas é AZIMUTH – PURE (THE FAR OUT YEARS 1995 – 2006) com o melhor da
explendorosa banda Azimuth fez pela gravadora Farout Recordings com direito a músioca inédita. As
músicas desse cd são: Brazymuth, Tudo o que você podia ser, Laranjeiras, O lance, Quem com quem,
música feita com ninguém menos que o Marcos Valle, que é o mentor espiritual da banda, já que o
nome da banda vem de uma música expetacular do Marcos Valle, o disco também tem Carangola,
Saudades do doutor, Antes que esqueça, Juntos mais uma vez, Chameleon, Carnival, Xingo, Morning e
Tempos do Paraná.

A segunda delas é a sensacional BRAZILIAN LOVE AFFAIR REMIXED, é a versão remixada de uma
colêtanea maravilhosa de música brasileiora feita por vários djs europeus. As músicas desse disco são:
Pára de fazer, música inédita de Marcos Valle, remixada pelo 4hero, depois tem a bela Besteiras de
amor, também do Marcos Valle, remixada por Jazzanova, depois tem Maracatueira, cantada pela
desconhecida Sabrina Melheiros, remixada pelo Incognito, depois tem Chuva, do Vertente, remixada
pelo Seiji`s Oreja, depois tem a expetacular Parabéns, também do Marcos Valle, remixada por Daz-I-
Kue`s Bugz in the Attic Dub, depois tem Somewhere beyond, do Natures Plan, remixada pelo Marc
Mac`s Dollis House, depois tem Ah você não sabe, do Azimuth, remixada pelo Roc Hunter Body and
Soul Mix, Laranjeiros, também do Azimuth, remixada pelo Frytonix, depois tem Francisco Cat, do
Friends from Rio, remixada por APE e no final tem Batlle of the Giants, do Grupo Batuque, remixada
pelo Roc Hunter.
Também em 2006 e também na Europa, sai a belíssima coletânea THE NOW SOUND OF BRAZIL 2,
pela Crammed com o melhor da música brasileira atual, pelo menos na visão dos europeus. O cd
começa com a versão remixada da sensacional Simplesmente, da fantástica Bebel Gilberto, remix
belíssimo de Tom Middleton Ballearic, depois tem a brasileiríssima Samba da minha terra, com sotaque
holandês da banda Zuco103 ao lado do Bossacucanova, depois tem Inexplicata, com Apollo 9, depois
tem Esplendor, com a Cibelle, depois tem Por acaso pela tarde, do grande Celso Fonseca, depois tem
Trancelim de Marfim, com Dj Dolores e Issar, depois tem Eu nasci no Brasil, com Zuco 103, depois
tem a sensacional Cada beijo, também da Bebel Gilberto, remixada por ninguém menos que Thievery
Corporation, depois tem Love is Queen Omega, com Zuco 103 e Lee Scratch Perry, depois tem a música
86, com Apollo 9, depois tem Meu amor, com a Cibelle, depois tem Roberto Menescal e o
Bossacucanova, transformando a clássica Bonita, de Tom Jobim, num samba house maravilhoso, depois
tem a música Atlântico, de Celso Fonseca, remixada pelo Da Lata e no final tem mais uma versão de
Trancelim de marfim, do Dj Dolores, só que agora remixada pelo Apollo 9.
/Mas a melhor notícia para a música brasileira do ano de 2006 sai em Los Angeles, nos EUA, mas
precisamente no bairro de Beverly Hills, onde acontece um encontro memorável e surpreendente: do
rapper americano Will.I.Am, líder da famosa banda Black Eyed Peas e o mestre da Bossa Nova: Sérgio
Mendes. Eles se juntam e fazem um disco excepcional chamado TIMELESS, eterno, como Sérgio
Mendes é, depois de 10 anos sem lançar um disco e 40 anos depois do sucesso estrondoso do disco que
vendeu mais de 1 milhão de cópias. Nesse disco de 1966, Sérgio Mendes criou a Bossa Pop, e com
TIMELESS, cria a Bossa Rap, uma mistura maravilhosa de Bossa Nova com Hip Hop. O disco começa
logo de cara com o superclásssico Mas que nada, transformado num samba rap, com trechos da música
em inglês, feitos por ninguém menos que a banda Black Eyed Peas, quem canta em português é
Gracinha Leporace, que é mulher do Sérgio Mendes, depois tem a bela That heat, do Will Adams, com
citação de Slow Hot wind, música de Henri Mancini e Norman Gimbel, com participação do Will.I.Am
e da cantora americana Erykah Badu, depois tem os clássicos afrosambas Berimbau/Consolação,
cantados pela Gracinha Leporace e com participação expecialíssima de Stevie Wonder tocando flauta
(!), depois tem o clássico The frog, de João Donato, se tornando uma Bossa Rap, com participação do
Will.I.Am e do rapper Q-Tip, depois tem a música Let me, versão em inglês de Deixa, do Baden Powell,
cantada brilhantemente pela americana Jill Scott, com participação também do Will.I.Am, depois tem a
também clássica Bananeira, do João Donato in jamaican style, transformada num reggae com rap feitos
pelo jamaicano Mr. Vegas e cantada pela Gracinha, sem sombra de dúvidas é uma das melhores faixas
do disco, depois tem a também clássica Surfboard, de Tom Jobim, transformada numa Bossa Rap
sensacional com direito a letra em inglês inspirada de Will.I.Am, das praias cariocas para as ruas
americanas, depois tem a bela Please Baby don`t, do americano John Legend, cantada por ele mesmo
num clima bem Bossa Nova, depois tem o maravilhoso Samba da Benção, de Baden Powell e Vinícius
de Moraes, com participação do Quarteto Maogani e do grande Marcelo D2, transformando esse
clássico da música brasileira num samba rap delicioso, e no final ele manda a benção a Sérgio Mendes,
a Will.I.Am, a Baden Powell, e ao “branco mais preto do Brasil” o poeta Vinícius de Moraes, depois
tem a bela e inédita Timeless, do Sérgio Mendes, do Pritnz Board e da India. Arie, cantada
brilhantemente bela própria India. Arie, num ritmo meio de escola de samba, depois tem a bela e
surpreendente Loose Ends, do Justin Timberlake, do Will Adams e do Troy Jamerson, cantada pelo
Justin Timberlake, pelo Will.I.Am e pelo Pharaohe Monch, depois tem a também surpreendente Fo`hop
(Por trás de Brás de Pina), um forró e embolada com hip hop, feito pelo mestre Guinga e pelo Mauro
Aguiar, com participação do próprio Guinga e do Marcelo D2, depois tem a bela Lamento no morro, de
Tom e Vinícius, tirada da peça Orfeu da Conceição, em 1956, para as pistas de dança do mundo 50 anos
depois, num samba house com uma versão instrumental com participação do Quarteto Maogani, depois
tem a bela Ê menina, do João Donato, cantada pela Gracinha, pela costariquenha Debi Nova, pelo
Sérgio Mendes e pelo Will.I.Am e no final tem o rap maravilhoso de Yes, yes y`all, feito pelo Will
Adams, pelo Charles Stewart e pelo Tariq Trotter, com participação de Black Thought, pela Chali2na,
pela Debi Nova e de novo pelo Will.I.Am. Finalmente, Sérgio Mendes teve o albúm que merecia com
produção do Will, e esperamos que com esse disco ele finalmente seja reconhecido e respeitado no
Brasil, já que nos Eua, na Europa e no Japão, ele é considerado um dos reis da Bossa Nova.

Finalmente em abril de 2006 sai pela gravadora Biscoito fino o cd RIO-BAHIA da Joyce e Dori
Caymmi, depois de quase de um ano de espera, mas valeu a pena esperar porque esse disco e
maravilhoso. É um reencontro da Joyce com o Dori que foi arranjador do primeiro disco dela em 1968.
Como a Joyce falou no encarte do disco os dois são cariocas, mas cada um deles tem um pé na Bahia –
ela por ser casada com um baiano, Tutty Moreno, e Dori por ser filho de Dorival Caymmi, o homem
que, com Jorge Amado, inventou a Bahia. As canções falam destes lugares amados, berços da música
brasileira, aquarelas do Brasil.

/No final de maio o selo Jobim Biscoito Fino relança álbum idealizado por Hermínio Bello de Carvalho,
que apresenta a última parceria de Tom e Chico. A música de Antonio Carlos Jobim e a Estação
Primeira de Mangueira são duas das maiores referências da identidade carioca. Coube ao poeta
Hermínio Bello de Carvalho juntar uma e outra em um álbum inteiramente dedicado a estas vertentes
que constituem um dos grandes patrimônios da cultura brasileira. A Jobim Biscoito Fino relança NO
TOM DA MANGUEIRA, idealizado por Hermínio no LP original de 1991, pouco antes do desfile em
que a escola homenageou o maestro, no carnaval seguinte. “Tom estava eufórico e compusera com
Chico a obra-prima Piano na Mangueira, lembra Hermínio”. Convidei Mauricio Tapajós para ser o
produtor-executivo do disco e colocamos no estúdio um dos elencos mais caros do país – sem que
ninguém cobrasse um tostão de cachê. Cismei de gravar Tom e Chico ao vivo, mas um problema
técnico fez com que os re-convocássemos ao estúdio. Tom foi de uma docilidade extrema ao fazer o
play-back para Carlos Cachaça recitar um poema. Como juntar Cartola, já desaparecido, a Paulinho da
Viola? E Clementina a Ney Matogrosso? A tecnologia foi abrindo caminho e solucionando essas coisas
que íamos inventando”, explica.
A abertura do álbum é exatamente Piano na Mangueira, última parceria de Tom e Chico, interpretada
pelos próprios. Na seqüência, uma série de músicas de levantar poeira, em parte organizadas nos
famosos blocos-temáticos concebidos por Hermínio. Sob o violão de Marco Pereira, Gal Costa recria
Fala Mangueira, título do disco de 1968, reunindo Cartola, Clementina de Jesus, Carlos Cachaça e
Odete Amaral. Idealizado por quem? Hermínio, naturalmente.
O desfile de “sambas que constituem o hinário daquela agremiação”, nas palavras de Hermínio,
prossegue com Nasceste de uma Semente e Semente do Samba, juntando a voz de Ney Matogrosso ao
violão de Raphael Rabello. A tal da tecnologia tratou de inserir a voz de Clementina de Jesus, gravada
mais de vinte anos antes. Os duetos germinam ainda em Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e
Guilherme de Brito, repisadas na cadência de Zezé Gonzaga e Baden Powell. A faixa seguinte une Tom
e Carlos Cachaça em Não Quero Mais Amar Ninguém, de Cachaça com Cartola. Cláudio Nucci entoa
Pranto de Poeta, outra de Nelson e Guilherme, e Paulinho da Viola recria Todo o Tempo que Eu Viver,
de Cartola, junto ao próprio autor, num dueto só possibilitado pelos recursos de gravação então
emergentes. Alcione, Beth Carvalho, Mestre Marçal e Peri Ribeiro enfileiram quatro criações de
Herivelto Martins, com a participação do próprio mestre: Mangueira Não, Saudosa Mangueira, Lá em
Mangueira, Praça Onze. Outra ilustre mangueirense, Leci Brandão, recria o injustamente pouco
lembrado Padeirinho, em A Mais Querida.
Quando o Samba Acabou é uma das grandes criações de Noel Rosa, onde o poeta da Vila cita uma
disputa amorosa protagonizada no morro da Mangueira, aqui na voz de Alaíde Costa. Assim como esta
Joyce e Johnny Alf evidenciam a genealogia do samba na Bossa-Nova, em duas músicas de Benedicto
Lacerda: Sabiá de Mangueira e Despedida de Mangueira. Sandra de Sá mostra que sambista também
tem groove, em Meninos da Mangueira, que transforma Papai Noel num mulato sarará da família de
Dona Zica, de acordo com os versos de Sergio Cabral para a melodia de Rildo Hora.
Nelson Cavaquinho aparece em três gravações da época do Zicartola, segundo Hermínio, a principal
inspiração do disco: Rei Vagabundo, A Mangueira me Chama e Sempre Mangueira. Época esta em que
surgiam os gênios de Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, revezando-se em Exaltação à
Mangueira, Sei lá Mangueira e Mundo de Zinco. Maria Bethânia e o grupo vocal Garganta Profunda
entoam Primavera, dos bastiões Nelson Sargento, Jamelão e Alfredo Português. Três vertentes díspares
da música brasileira se locupletam em Enquanto Houver Mangueira, Onde Estão os Tamborins e
Levanta, Mangueira, com Benito de Paula, Ivan Lins e Elza Soares. O Piano na Mangueira repousa no
acervo do incansável Hermínio: “afago o manuscrito original do Piano na Mangueira, que Tom e Chico
me ofertaram com tanta delicadeza, repetindo que a Mangueira é mesmo tão grande que nem cabe
explicação, assim como este disco é para mim um chão de esmeraldas que volto a pisar ao lado de meus
queridos concidadãos mangueirenses”, diz emocionado o poeta, que sabe ser mesmo diferente aquele
pranto sem lenço que alegra a gente.
/Em julho sai também pela Biscoito Fino o DVD TOM JOBIM AO VIVO EM MONTREAL, um DVD
que mostra o maestro Antônio Carlos Jobim à frente da Banda Nova no Festival Internacional de Jazz
do Canadá, em 1986.
Maior nome da Música Popular Brasileira em todas as suas vertentes, o maestro Antonio Carlos
Brasileiro de Almeida Jobim completaria 80 anos em janeiro de 2007. Antecipando as comemorações
(como se as efemérides pudessem por si só justificar a celebração permanente em torno do nome e da
obra de Antonio), a Jobim Biscoito Fino lança o DVD Tom Jobim ao vivo em Montreal, gravado em
1986, no festival internacional de jazz da cidade canadense. Vivendo aquela que o próprio maestro
considerava a melhor fase de sua trajetória – em que percorria os palcos à frente de sua Banda Nova,
mostrando as canções que o consagraram internacionalmente como um dos maiores músicos do século
XX -, Jobim aparece feliz, renovado e falante nas quase duas horas de espetáculo registradas neste
DVD. Ao lado de Jacques Morelenbaum (violoncelo), Paulo Jobim (violão), Danilo Caymmi (flauta),
Sebastião Neto (baixo) e Paulo Braga (bateria), com o vocal de Ana e Elizabeth Jobim, Simone
Caymmi, Maúcha Adnet e Paula Morelenbaum, Tom interpreta seus standards – com versões em
português ou nas adaptações para o inglês -, além de músicas menos conhecidas de seus álbuns, àquela
altura, mais recentes.

As músicas desse DVD são Samba de uma nota só, clássico que Tom fez com Newton Mendonça, Água
de beber, também clássico, mas com Vinícius de Moraes, a eterna Chega de saudade, a maravilhosa
Two Kites, música que Tom fez sozinho, a também maravilhosa Wave, que o Tom compôs sozinho, a
então novíssima Borzeguim, a bela Falando de amor, a também nova Gabriela, a clássica A felicidade,
que Tom também fez com Vinícius de Moraes, o também clássico Samba do avião, que Tom compôs
sozinho, a expetacular Waters of March, a também eterna e expetacular Garota de Ipanema e no final de
novo Tom canta Samba de uma nota só, com direito ao Tom Jobim fazendo citação a Canção do Exílio,
poema do Gonçalves Dias. O extra traz uma entrevista de Tom concedida em sua casa, no bairro do
Jardim Botânico, no Rio, em 1981, ao jornalista Roberto D’ávila, num dos momentos mais
confessionais e comoventes já registrados com a presença do maestro – que fala de música, brasilidade
e sentimentos como o amor e a tristeza, indispensáveis à sua criação.
Nesse mesmo ano de 2006, morre um dos maiores mestres da música brasileira: o maestro Moacir
Santos, que compôs a maravilhosa Nanã que é conhecida no mundo todo, além de outras composições
sensacionais e foi homenageado pelo Vinícius de Moraes na música Samba da Benção onde ele diz:
“Benção ao maestro Moacir Santos, que não é um só, mas tantos como o meu Brasil de todos os santos,
inclusive meu São Sebastião”.
/Em agosto de 2006, sai a continuação de uma das coletâneas de maior sucesso na música mundial:
CHILL:BRASIL 4. Depois do sucesso dos três primeiros cds que foram compilados pelo Marcos Valle,
pela Joyce e pelo Gilberto Gil, agora sai o quarto volume cujas músicas foram escolhidas pela Roberta e
a Flávia Eluf. Assim comos os três cds anteriores o disco é duplo.
As músicas desse disco são:

CD 1 – Querida, com Tom Jobim, Carta ao Tom, com Toquinho e Vinícius de Moraes, La piu bella del
mondo, com Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, Triste, com João Gilberto, Foi assim, com Fafá de
Belém, Quem eu quero bem, com Daniela Procópio, Como nossos pais, com Belchior, Ponteio, com
Hélio Delmiro, Correnteza, com Tom Jobim, Sad Samba, com Deeper & Pacific, Um índio, com Barão
Vermelho, A Paraíba não é Chicago, com Marcos Valle, Estou livre, com Tony Bizarro, Vamos dançar,
com Ed Motta, Meu guarda-chuva, como Funk como le gusta e Dzarm, com Jorge Ben Jor.

CD 2 – Sá Marina, com Wilson Simonal, Testamento, com Toquinho e Vínicius, Samba de verão, com
Conjunto Som 4, Águas de Março, com Rosa Passos, Pelas tabelas, com Roberta Sá, Aquele abraço,
com Gilberto Gil, Lata d’água, com Sônia Rosa, Madalena, com Elis Regina, Olha aí, com Johnny Alf,
Bolinha de sabão, com Renato Perez, Dores de amores, com Luiz Melodia, Feiticeira, com Zezé Motta,
Saudade da Bahia, com Nana, Dori e Danilo Caymmi, Bebete Vãobora, com Eletrosamba e Balé de
Berlim, com Gilberto Gil.
Em 2007, é o ano de celebrar os 80 anos de nascimento do maestro soberano: Antônio Carlos Brasileiro
de Almeida Jobim, o inesquecível Tom Jobim, que nasceu no dia 25 de janeiro de 1927.
No mês de janeiro, há um especial na TV Globo chamado Eu sei que vou te amar, tëm algumas coisas
muito importantes das músicas do Tom, mas foi muito pouco, teve apenas 1 hora de duração, não falou
nada da vida do Tom e ainda, com a maioria das músicas não deixou completar. Mas apesar de ser fácil
meter a lenha na TV Globo, pelo menos foi o único especial que foi passado na TV aberta.
Mas, homenagem merecida que o Tom recebeu foi a caixa com três DVD chamada MAESTRO
SOBERANO, que saiu no ínicio do mês de fevereiro pela gravadora Biscoito Fino. São três DVDs,
dirigidos por Roberto Oliveira, que destacam aspectos fundamentais formadores da obra e do gênio de
Tom.
O primeiro deles é CHEGA DE SAUDADE, com narração de Nelson Motta, mostra as primeiras
músicas do Tom, enfoca a criação da Bossa-Nova, a disseminação planetária do movimento, e sua
insuspeita permanência como um dos mais representativos estilos da música mundial. As faixas desse
primeiro DVD são: Eu não existo sem você, Anos dourados, Lamento no morro, A felicidade, Se todos
fossem iguais a você, Eu sei que vou te amar, Canta, canta mais, Chega de saudade, Carta ao Tom 74,
Desafinado, Só tinha de ser com você, Água de beber, Você e eu, Só danço samba, Chega de Saudade e
Imagina.

O segundo deles é ÁGUAS DE MARÇO enfoca a relação de Tom com a ecologia, narrado por Chico
Buarque, que Tom já falou “que toda minha obra foi inspirada na Mata Atlântica”. Mostra a
maravilhosa Floresta da Tijuca, o expetacular Jardim Botânico e as músicas ecológicas que o Tom fez,
muitas antes até de existir essa palavra ecologia. Tom Jobim sempre foi muito preoucupado com essa
questão, ele disse: “sem mato, ar e bicho, não há música”. As faixas desse segundo DVD são: Lenda,
Águas de março, Chovendo na roseira, Estrada do sol, Correnteza, Gabriela, Borzeguim, Saudade do
Brasil, Sabiá, Vento bravo, Luiza, O boto, O jardim abandonado, Águas de março, Matita perê,
Passarim e Ai quem me dera.

O terceiro deles é ELA É CARIOCA, prioriza a ambientação da obra de Jobim no Rio de Janeiro e a
paixão do maestro pela cidade, com narração de Edu Lobo. Tom circulava com desenvoltura pela cidade
e gostava de fazer comrentários divertidos como este: “O Rio de Janeiro é uma cidade bastante
dissipante, você vai a um lugar e acaba em outro”. As faixas desse terceiro DVD são: Ela é carioca,
Surfboard, Corcovado, Wave, Retrato em branco e preto, Ela desatinou, Você vai ver, Falando de amor,
Eu te amo, Insensatez, Lígia, Luiza, Garota de Ipanema, Samba de uma nota só, Ela é carioca, Samba
do avião e Estrada branca.
Os documentários apresentam imagens clássicas de Tom – como o dueto com Elis Regina em “Águas
de março” – e também momentos raros da filmografia sobre o maestro – como o espirituoso flagrante
do encontro com Edu Lobo no estúdio, durante a gravação do álbum feito pela dupla em 1981. Dois
shows antológicos de Jobim e a Banda Nova – um gravado em São Paulo, em 1990, outro no Rio, em
1985 – permeiam registros históricos com o melhor do criador. A herança de Jobim também é flagrada
nas imagens do show de Revéillon de 1996, na Praia de Copacabana, em que Caetano Veloso, Chico
Buarque, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Gal Costa e Gilberto Gil prestam tributo ao mestre. E
também na apresentação do Quarteto Jobim-Morelenbaum, formado por Paulo e Daniel Jobim, Paula e
Jaques Morelenbaum. Para os seguidores de Jobim, que têm na fé em Antônio o caminho da salvação
pela música, o dia 25 de janeiro equivale a um segundo natal, 80 anos depois do nascimento do mestre e
60 desde o lançamento da pedra fundamental de sua obra.
/Prepare-se pra “viver o momento dos momentos”, em Abril chegou o mais novo disco da Bebel
Gilberto, que se chama MOMENTO, e é com essa frase na faixa título que Bebel convida a todos a
ouvir seu terceiro disco. Esse disco já deu o que falar antes de chegar às lojas do mundo inteiro, pois
ninguém sabe como, vazou primeiro pela internet e muitas pessoas no mundo copiaram o disco em
MP3. O disco foi co-produzido pela própria Bebel e pelo Guy Sigsworth e é uma maravilha, aliás, como
os dois discos anteriores, que levaram a Bebel a ser uma das maiores estrelas da música mundial na
atualidade. O cd começa com a bela Momento, que dá nome ao disco, que foi feita pela Bebel, pelo
Masa Shimizu e pelo Mauro Refosco, depois tem a maravilhosa Bring back to love, que explodiu nas
pistas européias antes ainda do disco chegar, que é uma declaração de amor ao pé do ouvido sussurada
pela Bebel, essa música foi feita pela Bebel Giberto, Didi Gutman e a Sabina Sciubba, depois tem a
também bela Close to you, também da Bebel, só que em parceria com Guy Sigsworth, depois tem a que
talvez seja a melhor música do disco a expetacular Os novos yorkinos, uma faixa bilíngüe com letra em
português e em inglês, onde o título da música é uma variação aos Novos Baianos, ela divide o vocal
com a Sabina Sciubba, lembrando que a Bebel também é uma nova yorkina, essa música foi feita pela
Bebel Gilberto, Didi Gutman e a Sabina Sciubba, depois tem a bela Azul, também da Bebel, com o Guy
Sigsworth, depois tem a expetacular Caçada, uma rara música do tio dela Chico Buarque, com direito a
banda de pífanos pra reforçar o maracatu dessa música maravilhosa, sem dúvida é a mais surpreendente
música do disco, a música ainda tem participação do João Helder e do grande Celso Fonseca, depois
tem o super clássico Night and day, de Cole Porter, onde Bebel dá uma aula de como cantar cool jazz,
depois tem a expetacular Tranqüilo, do Kassin, onde a Bebel divide a música com a maravilhosa banda
brasileira Orquestra Imperial, música gravada no Rio de Janeiro num clima de total desconstração, essa
participação da Orquestra Imperial só vem a brilhantar o cd ainda mais, depois tem a maravilhosa Um
segundo, da Bebel, com Masa Shimizu, depois tem a bela Cadê você, uma balada com jeito de Nova
Bossa Nova, que a Bebel sabe fazer como ninguém, mais uma música da Bebel Gilberto em parceria
com Guy Sigsworth, e pra finalizar mais esse disco extraordinário da Bebel tem a bela Words, uma faixa
acústica com jeito também de Bebel Gilberto, que fez em parceria com Masa Shimizu e com Erich
Batista.

/Ainda em 2007 chega depois três anos o novo disco da Clara Moreno, o maravilhoso MEU SAMBA
TORTO, ao contrário do expetacular MORENA BOSSA NOVA, nesse cd a Clara Moreno deixa de lado
a música eletrônica e volta para a Bossa Nova e alguns sambas antigos. Ela fala que no primeiro disco
se inspirou mais na Bebel Gilberto e nesse segundo ela se inspira mais no João Gilberto, que ela gravou
algumas músicas que ficaram famosas na voz do mestre. Além do João, fica nítido a semelhança ainda
mais da mãe Joyce que consegue ser moderna sem precisar da música eletrônica e do grande Celso
Fonseca, que, aliás, produziu o disco ao lado do Rodolfo Stroeter. Esse cd foi feito pela gravadora
Farout Recordings, que é a mesma da mãe da Clara, Joyce. As músicas desse disco maravilhoso são: a
bela Meu samba torto, que dá nome ao disco, uma nova Bossa Nova inédita feita pelo Celso Fonseca,
que participa da faixa tocando violão, depois tem a expetacular Litorânea, também do Celso Fonseca,
agora em parceria com Ronaldo Bastos, o Celso aparece nessa música dividindo os vocais com a Clara,
depois disso tem a também inédita e expetacular Sabe quem? Feita em parceira da mãe Joyce com Zé
Renato, ex integrante do Boca Livre, que tem grande importância na carreira da Joyce, a mãe que
participa da faixa tocando violão e o padastro Tutty Moreno tocando bateria, depois tem a bela Sei lá,
feita pelo pai da Clara: Nelson Ângelo, a quem ela dedica o disco, depois tem a francesa Mon manege a
moi, de Norbet Glanzberg e Jean Constantin, com participação também da Joyce no violão e do Tutty
Moreno na bateria, depois tem a clássica Moça flor, uma Bossa Nova maravilhosa do Durval Ferreira e
do Lula Freire, que ficou famosa na voz do Tamba Trio, nesse disco cantada pela Clara e pelo Celso
Fonseca, depois tem a também clássica Se acaso você chegasse, do Lupícinio Rodrigues e do Felisberto
Martins, que ficou famosa na voz da Elis Regina, do Jair Rodrigues e da Elza Soares, no Fino da Bossa,
depois tem a expetacular Bahia com H, do Denis Brean, grande clássico na voz de João Gilberto, talvez
a melhor faixa do disco, com direito a citação de Chica chica boom, famosa na voz de Carmem
Miranda, depois tem o samba Rosa de ouro, do Elton Medeiros, do Hermínio Bello de Carvalho e do
Paulinho da Viola, cantada pela Clara Moreno e pelo Celso Fonseca, depois tem a maravilhosa Morena
boca de ouro, do Ary Barroso, também famosa na voz de João Gilberto, depois tem o grande clássico
Copacabana, do Braguinha, que morreu o ano passado, e do Alberto Ribeiro, depois tem a rara Vem
morena vem, do Jorge Ben, tirada do seu primeiro disco SAMBA ESQUEMA NOVO, depois tem a bela
Ela vai pro mar, do Celso Fonseca e do Ronaldo Bastos, também com Celso, dividindo os vocais com a
Clara e no final a clássica Tenderly, do Walter Gross e Jack Lawrence, música em inglês, um belo jazz
pra finalizar o disco.

/A cantora e compositora carioca Joyce e o compositor e guitarrista mineiro Toninho Horta estavam se
apresentando no Blue Note, em Tóquio, em maio de 1995, quando se deram conta que num certo
momento do show, que eles chamavam de “baile” _ quando os músicos saíam do palco e ficavam só os
dois _ empreendiam uma verdadeira “viagem” musical a partir de um simples acorde de violão. No
repertório sobressaiam sempre as composições de Tom Jobim, falecido cinco meses antes.
Voaram para Nova York com a idéia de um disco dedicado ao maestro. Como só tinham um dia na
cidade, gravaram 10 músicas em uma noite, com vocal de Joyce e violão de Toninho. Já no Rio, a
pedido do produtor japonês Kazuo Ioshida, gravaram outras duas canções, Estrada do Sol e Frevo de
Orfeu, estas incluindo também o violão-base de Joyce. Em Frevo de Orfeu e Esse Seu Olhar, Toninho
também participa vocalmente. Com o título de SEM VOCÊ (uma das músicas do disco, de Tom e
Vinicius), o CD _ que saíra anteriormente apenas no Japão pela Omagatoki, em 1995 _ está sendo agora
em maio de 2007, lançado no Brasil pela Biscoito Fino. A escolha do repertório aconteceu na intuição.
“Lembra desta?”, “E aquela? Ah, que bom que você sabe!”. Acostumados a tocar de improviso em
shows, como aconteceu em Viena e Copenhagem, por exemplo, amigos desde o início de suas carreiras
– participaram do mesmo conjunto musical, A Tribo, nos anos 70, com Nelson Ângelo e Novelli -
começaram a gravar SEM VOCÊ na base do improviso, sem ensaio, “um disco de jam session”, como o
define Joyce. Das parcerias de Tom com Vinicius de Moraes escolheram quatro: Ela é Carioca, com
citação de Garota de Ipanema, Frevo de Orfeu, Só Danço Samba e Sem Você, que deu nome ao CD.
Outras duas músicas são parcerias de Tom com Aloysio de Oliveira: Inútil Paisagem e Dindi.
Correnteza tem a assinatura de Tom e Luiz Bonfá e Dolores Duran é a letrista de Estrada do Sol. O
repertório foi completado com Lígia, Vivo Sonhando, Outra Vez, Este seu Olhar e Só em teus Braços,
com música e letra de Tom. “Rola uma fraternidade entre Toninho e eu”, admite Joyce. “Temos o
mesmo background como, por exemplo, o mesmo disco da Julie London com Barney Kessel, onde ela
canta Cry me a River. Mais do que Julie London, eu e Toninho somos tarados pelo Barney Kessel. O
Toninho mamou nele. E eu, na June Christy. E este disco saiu com a carga emocional pela perda do
Tom”. SEM VOCÊ é o segundo disco de Joyce dedicado a Tom Jobim. Em 1987 lançou TOM JOBIM:
ANOS 60, com Gilson Peranzzetta, aos 60 anos de vida do compositor, que escreveu ele mesmo o texto
da contracapa. SEM VOCÊ acabou ganhando essa edição brasileira em mais uma belíssima homenagem
aos 80 do nascimento de Tom Jobim./
Também em 2007, sai o belíssimo cd JOBIM JAZZ, feito pelo Mário Adnet. Jobim Jazz combina
arranjos bem trabalhados de Mario Adnet com clássicos do repertório de Tom Jobim e de quebra ainda
traz uma lista de músicos de dar água na boca a qualquer produtor e fã da boa música brasileira. Marcos
Nimrichter (piano, acordeão), Eduardo Neves (sax tenor), Ricardo Silveira (guitarra), Nailor Proveta
(clarinete), Jessé Sadoc (flugelhorn), Helio Delmiro (violão), Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas),
Andréa Ernest Dias (flauta), Armando Marçal (percussão), Joyce (voz), Vittor Santos (trombone),
Romero Lubambo (violão) são apenas alguns dos nomes que você vai reconhecer neste trabalho.
Com arranjos e direção de Mario Adnet, Jobim Jazz apresenta clássicos bem conhecidos e ainda traz
também composições mais raras tais como o samba Domingo sincopado de 1956, parceria com Luiz
Bonfá. Esta primeira faixa é um samba com muito suíngue e um arranjo dando destaque ao naipe de
metais. Até mesmo só com essa primeira faixa este álbum já se justificaria mesmo se o resto do CD não
fosse de alta qualidade. Entretanto, conhecendo a qualidade do trabalho que Mario faz, você sabe que
pode esperar muito mais. Na faixa seguinte, a mistura de baião e maracatu em Quebra pedra (Stone
flower) é enaltecida com a percussão de Armando Marçal e o solo de acordeão de Marcos Nimrichter.
Depois tem a rara e bela Sue Ann, tirada da trilha do filme The Adventurers, depois tem o samba jazz de
Tema jazz, única música do Tom com citação direta do termo jazz, depois tem Rancho nas nuvens, a
sensacional Surfboard, Meninos, eu vi, parceria com Chico Buarque, a clássica Só danço samba, a
também rara e bela Paulo vôo livre, onde o Mário divide os vocais com a Joyce, Valsa do Porto das
Caxias, Frevo de Orfeu, o choro Bate-boca e a raríssima Polo pny, também tirada do filme The
Adventurers. Sem dúvida uma belíssima homenagem ao Tom.

/No mesmo ano, sai nos EUA o belíssimo álbum SURRENDER, da cantora de jazz Jane Monheit. Esse
cd é uma bela homenagem a música brasileira, especialmente a Bossa Nova e tem participação do Ivan
Lins, do Toots Thielemans e do Sergio Mendes. As faixas desse cd são: If you went away, versão em
inglês da maravilhosa Preciso aprender a ser só, do Marcos e Paulo Sergio Valle, Surrender, a bela Rio
de maio, onde ela divide os vocais em português com Ivan Lins, autor da música, a maravilhosa Like a
lover, versão em inglês da belíssima O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, o clássico Só tinha
de se ser com você, do Tom e do Aloisio Oliveira, também cantanda em português, a também
maravilhosa So many stars, com participação de Sérgio Mendes no piano, a clássica Moon river, a bela
Overjoyed, de Stevie Wonder, a também maravilhosa Caminhos cruzados, do Tom e do Newton
Mendonça, também cantada em português, com participação do gaitista Toots Thielemans e no final a
também bela A time for love, Johnny Mandel e Paul Francis Webster.
/Uma das melhores surpresas de 2007 foi o disco ONDE BRILHAM OS OLHOS SEUS, que traz a
vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai, em sua estréia solo provando ser uma das melhores cantoras do
país numa recriação de canções gravadas por Nara Leão. Com produção do marido e também parceiro
de Pato Fu, John Ulhôa, que também toca todos os instrumentos, o álbum conecta dois grandes
momentos da Música Brasileira, dois universos ricos e criativos, a fase áurea de Bossa-Nova e
Tropicália e o momento atual, onde produção, composição e interpretação ganham alta qualidade com
nomes fora da mídia e do grande mercado. Fernanda Takai dá nova alma a clássicos, como Insensatez
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e Com açúcar, com afeto de Chico Buaque e atualiza lindamente
pérolas esquecidas, como Seja o meu céu, de Robertinho do Recife, uma das melhores do disco. Ciente
de suas limitações, assim como Nara, Fernanda explora o sentimento através de sua voz doce e pequena.
O resultado se encaixou de forma perfeita ao repertório de Nara, como se as canções tivessem sido feito
para ela, como em Canta, Maria de Ary Barroso e Diz que fui por aí de Zé Ketti, outro destaque do
álbum. Ao todo são 13 músicas, com versão particulares, numa desconstrução que às vezes causa até
estranhamento. Não há fidelidade alguma às versões originais e esse é um dos maiores méritos do
trabalho. A bossa, MPB, choro e samba de nomes como Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de
Moraes, Caetano Veloso, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Erasmo e Roberto Carlos e Ary Barroso se
transformam em versões discretas e caprichosamente modernas. O cd também tem a primeira
regravação de Lindonéia, clássico da tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Luz negra, de Nelson
Cavaquinho, a bela Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, de Roberto e Erasmo Carlos, a maravilhosa
Odeon, de Ernesto Nazareth com letra do Vinícius de Moraes, a espetacular Estrada do sol, de Tom
Jobim e da Dolores Duran, Trevo de quatro folhas, que já foi gravada pelo João Gilberto, a belíssima
Descança coração, música que pode ter sido a última gravada pela Nara, versão em português da
clássica My foolist heart, feita pelo Nelson Motta e Ta-hi, sucesso na voz de Carmem Miranda. . Pop,
rock, jazz, soul e em alguns momentos até um clima meio ambient music. Além de John, o disco conta
com participações de Lulu Camargo, tecladista do Pato Fu, e Roberto Menescal, que gravou as guitarras
de “Insensatez”. Em formato digipack e belo projeto gráfico, o CD vale a pena também pelo belo
projeto gráfico, que inclui textos de Nelson Motta, letras das músicas e fotos. Co-produzido por Nelson
Motta (que lançou a idéia do projeto), “Onde Brilham os Olhos Meus” foi eleito ‘Melhor Disco’ pela
APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), na categoria popular Um daqueles discos que vale a
pena ter em casa e que nos revela uma nova e bela faceta da carreira de Fernanda Takai.

/No final de 2007, pela Biscoito Fino sai o belíssmo DVD A Casa do Tom. “Esse negócio de entender
de uma coisa, tem que amar. Quando você ama, isso cria uma capacidade. Você se interessa pela coisa,
você começa a olhar”. A frase de Tom Jobim foi tão bem entendida por Ana, sua mulher durante 17
anos, que ela lança agora um DVD, pela Jobim Biscoito Fino, com sua história de amor com o maestro,
com a família e com a natureza que aprendeu a ver pelos olhos de Tom e tão bem registrou em fotos,
publicadas em diversos livros sobre o compositor. A inspiração para este DVD veio do Ensaio Poético,
livro que lançou em parceria com o marido em 1987 na Casa de Cultura Laura Alvim. Na época, Ana
pensou em fazer um vídeo com Tom que pudesse ser exibido em diversos monitores enquanto durasse a
exposição de fotografias do livro. Chamou o primo documentarista Luiz Eduardo Lerina, contratou uma
equipe composta por cinegrafista e sonoplasta, e saiu em campo documentando o marido na intimidade.
Tudo feito de maneira muito livre, como ela faz questão de dizer. Tom abordava os temas que tinha
vontade no momento e ela seguia sua intuição, filmando-o na casa que estavam construindo no Jardim
Botânico, no Rio, no sítio da família em Poço Fundo, na serra fluminense e em Nova York. O material
resultou em oito horas de gravação. Guardado há exatos 20 anos, de vez em quando Ana se via às voltas
com o pedido de alguma televisão que desejava exibir uma imagem ou trechos do trabalho. Ela sentiu
que os empréstimos poderiam acabar com o ineditismo e a intimidade dos filmes: “Começamos a ficar
meio ciumentos, porque se fosse fragmentado perderia o sentido”. Decidiu então que iria preservar toda
a documentação para a hora certa. Não deve ter sido fácil mergulhar nesta memória com passagens
muitos dolorosas. Mas ela conseguiu, de certo modo, fazer uma catarse e está feliz com o resultado.
Além de lindo, o DVD é emocionante. Narrado pela própria Ana Jobim, tem como fio condutor o
poema Chapadão, que Tom começou a escrever quando escolheram o terreno no alto do Jardim
Botânico para construírem sua casa: “A casa levou quatro anos para ficar pronta e o poema, oito”, conta
ela no DVD.
O poema vai intercalando falas, fotos em P&B e cor, filmes caseiros, filmes profissionais, uma grande
entrevista com Tom feita por Ana e histórias saborosas de uma intimidade de amor: “No dia da
mudança para o alto do Jardim Botânico”, conta Ana, “a única preocupação de Tom era o piano. Ele
mesmo ligou para a transportadora, tomou conta de cada passo, desde a saída da casa antiga, à chegada
na casa nova, até a posição do piano na sala”. As locações mudam. Tom pode estar no apartamento de
Nova York ao piano e abandonar o teclado para carregar a filha Maria Luiza, ainda um bebê, ou
brincando com o filho João Francisco no Central Park ou nos jardins de Poço Fundo. Ou conversando
com Narciso, um empregado do sítio, que lembrava os personagens fantasiosos de Guimarães Rosa que
Tom tanto amava: “Seu Tom, senhor acredita que eu meti tanta bordoada no lobisomem, que o
lobisomem só olhava pra mim com a cara redonda, a orelhazinha curta e todo rupiado. Falei: vai me
pegar...”. Esta conversa acontece debaixo de uma mangueira e Tom não perde a oportunidade de exercer
seu fino humor: “Você vê: essa mangueira aqui, por exemplo, não dá manga, mas dá água...Isso na
verdade, isso não é uma mangueira, isso é o pessoal de Hollywood que veio me filmar...são os cabos da
CBS, da NBC”.
Musicalmente, A Casa de Tom - Mundo, Monde, Mondo também é intimista. Tema para Ana, a
primeira faixa, é executada por Ryuichi Sakamoto e Jaques Morelembaum, numa gravação feita na
própria casa de Ana e Tom. Sakamoto tinha loucura para conhecer o piano do maestro. Ana emprestou a
casa – Tom havia morrido oito anos antes – e os dois músicos acabaram gravando todo um CD no piano
encantado. Mas Ana guardou uma preciosidade. O próprio Tom interpretando Tema para Ana, que ele
nunca gravou comercialmente e ela tinha guardado num gravador caseiro.
Ao todo são 24 músicas, algumas com participações (Dorival Caymmi, Chico Buarque, Maucha Adnet,
a própria Ana Jobim, Danilo Caymmi, Paulo Jobim e a pequena Maria Luiza, acompanhando o pai em
Samba de Maria Luiza, além da célebre gravação de Garota de Ipanema com arranjo de Eumir Deodato
e participação de Jerry Doggion (sax-alto), Ron Carter (baixo), Joe Farrel (flauta) acompanhando o
piano de Tom. Nos extras, mais seis canções e dois poemas. Além de Águas de Março, uma verdadeira
homenagem a Dorival Caymmi (Maracangalha, Saudades da Bahia, Suíte do Pescador e Maricotinha),
uma lembrança de Bororó (Curare) e os poemas Chapadão e Oda a Rio de Janeiro, de Pablo Neruda.
E voltando àquela história “esse negócio de entender de uma coisa, tem que amar”, Ana Jobim dedicou
o trabalho aos dois filhos, João Francisco e Maria Luiza, sem esquecer de citar os dois mais velhos, de
Tom com Tereza, Paulo e Elizabeth. A Casa do Tom é, principalmente, um resgate do pai para Maria
Luiza, que tinha apenas sete anos quando ele morreu.

O ano de 2008 foi o ano de celebrar os 50 anos da Bossa Nova. Nunca se falou tanto de Bossa Nova na
mídia brasileira igual esse ano que tivemos vários shows históricos, vários lançamentos e relançamentos
maravilhosos, livros espetaculares, teve gente até falando que era pra parar de falar de Bossa Nova, que
já estava enjoando. Mas falar de que? Falar que o funk e o breganejo continuam inundando os nossos
ouvidos? Esse ano além da Bossa Nova se falou e ouviu muito o breganejo universitário que invadiu as
tvs e as rádios brasileiras, mas isso não importa, pelo menos o que mostrou esse ano de 2008 que a
Bossa Nova está cada vez mais viva, seja no Brasil ou no exterior, sabemos que esse “namoro” com a
mídia brasileira é passageiro, mas vamos aproveitar a onda que continua se erguendo do mar.
No dia 1° de março de 2008 tivemos um show sensacional pra comemorar os 50 anos da Bossa Nova na
praia de Ipanema, com grandes nomes como Roberto Menescal, Carlos Lyra, João Donato, Oscar Castro
Neves, Wanda Sá, Marcos Valle, Joyce, Leila Pinheiro, Emílio Santiago, Zimbo Trio, Leny Andrade,
Bossacucanova, Maria Rita e a nova bossa-novista Fernanda Takai. Pena que não foi gravado em dvd,
quem sabe possa sair no futuro. Esse show acabou provocando ciúmes de nomes como Pery Ribeiro que
ficaram de foram em detrimento de artistas que não teriam nada com a Bossa Nova.

Tiveram vários shows em homenagens a Bossa Nova pelo Brasil e pelo mundo, como em homenagem
ao João Donato, que contou com Bebel Gilberto, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2, Roberta Sá,
Fernanda Takai, Marcelinho da Lua e Marcelo Camelo. Teve também um show em Londres no dia 26
de maio com a Joyce, o Marcos Valle, o Dori Caymmi, João Donato, Roberto Menescal, a Wanda Sá,
Clara Moreno e o Vinicius Cantuária. Mas nenhum show foi mais esperado e mais festejado do que os
shows do João Gilberto no Brasil, ele fez quatro shows históricos, um melhor que o outro. Dois em São
Paulo, um no Rio e um em Salvador. Onde ele surpreendeu a todos a cantar a sensacional Chove lá fora,
obra prima do Tito Madi (lembrando que eles não se falavam desde aquele famoso episódio que o João
acertou o violão na cabeça do Tito numa entrega de troféu tv Record em 1961). O Tito ficou muito
emocionado com a gravação e também com o convite do João pra ver seus shows, que o perdoou desse
episódio. O João cantou uma música inédita em homenagem ao Japão, cantou 13 de ouro, O nosso
olhar, de Sérgio Ricardo, emocionou a todos a cantar Samba do avião, que ele nunca gravou e claro
todos os seus clássicos. O João como sempre se atrasou, mas reclamou menos do que de costume, ele
estava de muito bom humor, até deixou a platéia cantar algumas músicas com ele, sendo que no Rio
teve um coro emocionante de Chega de saudade, com o João acompanhando no violão. No show em
Salvador rolou muita emoção quando João lembrou o grande mestre Dorival Caymmi, que tinha
morrido alguns dias. O João cantou divinamente João valentão e até Acalanto. O mestre dos mestres
Dorival Caymmi que não era Bossa Nova, mas ajudou a mostrar o caminho para se criar a Bossa Nova,
com seus samba canções, cantados por Dick Farney, Lúcio Alves e Sylvia Telles. Ou com jeito baiano
de ser, que influenciou João Gilberto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Roberto Menescal, Joyce, João
Donato, Marcos Valle e tantos outros. O mesmo Caymmi que se incorporou ao espírito da Bossa Nova,
fazendo discos com Tom Jobim e Vinícius, além de ter sido modernizado pela voz e violão de João
Gilberto. Caymmi morreu no dia 16 de agosto.

Tivemos a perda do Caymmi, mas tivemos um ano de muitos livros, cds e dvds sensacionais que saíram
nesse ano. Nesse ano foi lançada a biografia do Carlos Lyra: EU E A BOSSA. O livro CAYMMI E A
BOSSA NOVA, feito pela Stella Caymmi, neta do Dorival, mostrando o quanto a obra de Caymmi era
tão próxima da Bossa Nova. E o espetacular livro EIS AQUI OS BOSSA NOVA, do Zuza Homem de
Mello, com relatos inéditos de vários nomes que fizeram parte da Bossa Nova, gente como Tom Jobim,
Carlos Lyra, Elis Regina, Nara Leão, Johnny Alf, Roberto Menescal, Vinícius de Moraes, além de
Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros fazendo com que entendemos mais esse estilo, de
tudo que aconteceu naquela década mágica de 1958 a 1968.

/Tivemos o dvd do maravilhoso especial ANTONIO BRASILEIRO, exibido pela Globo em 1987, que
só poderia ter saído pela Biscoito Fino. Esse especial foi feito em homenagem aos 60 anos do maestro.
Narrado por Aloysio de Oliveira começa no Museu de História Natural de Nova York, ao som de
Saudade do Brasil, com Tom, a falar do tardio oligoceno do continente para em seguida flanar pelo
Central Park embalado por Two Kites ou, sentado num banco do parque, a dedilhar Desafinado no
violão. Num retorno ao Museu de História Natural, Tom relembra a tranqüilidade de Ipanema e exibe
um jereba. Já no Rio de Janeiro, Tom grava duetos espetaculares com Marina (Lígia), Joyce
(Insensatez), com Gilson Peranzetta ao piano, Gal Costa (Dindi), Chico Buarque (Anos Dourados) e
Edu Lobo com Chico Buarque (Choro Bandido), sendo a única gravação dessa música com os três
juntos. Paula Morelenbaum fecha o bloco cantando a Bachianas Brasileiras n.º 5, de Villa-Lobos,
ouvindo-se um Tom desabafar em off: ‘‘Mas que saudades de Villa-Lobos!’’. No último bloco, como já
havia acontecido em Nova York, onde Tom saiu do estúdio para ciceronear a câmera pelo Central Park,
ele anda pelas aléias do Jardim Botânico e, sentado num de seus bancos, lê duas obras-primas de Carlos
Drummond de Andrade, Elegia e Poema da Necessidade. Tem ainda Caetano Veloso interpretando Eu
Sei que Vou te Amar, Tom e Maúcha Adnet cantando Bebel; Luíza (com Tom e imagens de Vera
Fischer); um depoimento de Sonia Braga e Se Todos Fossem Iguais a Você em ritmo de marcha-rancho.
Tom volta a ler o Poema da Necessidade para tocar então Borzeguim, um manifesto em defesa do mato,
do índio e dos bichos da selva influenciado por Villa-Lobos, diante de uma tela com desenho animado
do Still. Tom Jobim toca acompanhado pela banda formada por Danilo Caymmi (voz e flautas), Jaques
Morelenbaum (violoncelo e flautas), Paulo Braga (bateria), Paulo Jobim (violão) e Sebastião Neto
(baixo). Nos vocais, Ana Lontra Jobim, Elizabeth Jobim, Maúcha Adnet, Paula Morelenbaum e Simone
Caymmi. Nos extras ainda tem o vídeo completo do histórico encontro de Tom Jobim com Gerry
Mullingan, em 1962.
/Tivemos também o sensacional cd BOSSA ETERNA, do fabuloso trombonista Raul de Souza, também
lançado pela Biscoito Fino. Considerado um dos maiores trombonistas do mundo, inventor do
souzabone (um trombone elétrico com quatro válvulas), ícone da música instrumental brasileira e tendo
tocado em gravações e apresentações com Sarah Vaughan, Herbie Hancok, George Benson, Ron Carter,
João Gilberto, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Gilberto Gil e Maria Bethânia, Raul de Souza
homenageia os 50 anos da Bossa Nova lançando o CD BOSSA ETERNA, gravado na Biscoito Fino em
março de 2008. O projeto conta com a participação especial do gênio da música brasileira João Donato,
que junto ao amigo Raul de Souza, foi responsável pela criação dos arranjos. Raul assina a direção
artística, e abre o CD Bossa Eterna, com uma composição de sua autoria, Bossa eterna, que dá nome ao
disco, assim como outras duas, as únicas em que toca o souzabone: Pingo D´Água e A la Donato
(homenagem ao amigo). Detalhe importante (e que só o tempo é capaz de proporcionar): apesar da
longa amizade, essa é a primeira vez que Raul de Souza e João Donato, ambos com 73 anos, gravam
juntos. As outras sete faixas são de bambas da canção brasileira, de Baden Powell e Vinicius de Moraes
(Só por Amor) a Tom Jobim (Bonita), passando por Tito Madi (Balanço Zona Sul), João Donato
(Malandro, Lugar Comum, esta em parceria com Gilberto Gil, e Fim de Sonho, com João Carlos
Pádua). Por fim, Nuvens, parceria de Maurício Einhorn e Durval Ferreira. Participam: João Donato
(piano), Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (baixo acústico) e o convidado especial Maurício
Einhorn (harmônica).

/Saiu também o cd e o dvd MARCOS VALLE CONECTA AO VIVO NO CINEMATEQUE, o primeiro


dvd do Marcos Valle, lançado pela EMI. Nesse dvd o Marcos inovou, em vez de um show foram quatro
e além de seus clássicos ele toca algumas músicas de outros. O dvd começa com o Marcos tocando três
músicas do seu cd instrumental JET-SAMBA: Selva de pedra, que foi tema de uma novela de mesmo
nome, Jet samba e Esperando o Messias, depois ele canta Valeu, música em parceria com a Joyce,
Online, Garra, Wanda Vidal, Brasil X México, mais uma instrumental, depois tem Água de coco,
Próton, elétron, nêutron, Nem paletó e gravata, essas duas com o dj Plínio Profeta, Mentira, Batucada
surgiu, essas duas com dj Nado Leal, depois tem o convidado Marcelo Camelo, onde cantam Cara
valente, do Camelo, a inevitável Samba de verão e um medley espetacular de Nem paletó e gravata e O
vencedor, música do Marcelo, depois tem mais convidados, a banda Fino coletivo, onde cantam Dragão
e Boa hora, música do repertório deles, depois ainda a banda +2, formada por Kassin, Domenico e
Moreno, onde cantam Homem ao mar, do Kassin, o sucesso Estrelar, Não tem nada não e um medley
com Sincerely hot, do Domenico e O cafona, do Marcos Valle. O dvd ainda tem nos extras a antológica
Os grilos e Lost in Tókio Subway, mais uma instrumental. Boa parte das músicas desse dvd o Marcos
canta acompanhado da Patrícia Alvi. Esperamos que com isso o Brasil finalmente reconheça o quão
importante é o Marcos Valle para a nossa música, coisa que os europeus e japoneses descobriram há
muito tempo.
/Depois da volta triunfal de Sérgio Mendes com o cd TIMELESS, de 2006, produzido por Will Adams,
da banda Black Eyed Peas, puxada especialmente pela gravação de Mas que nada, eis que Sergio lança
em 2008 o também maravilhoso cd ENCANTO, onde também é produzido por Will. No cd anterior
vemos uma aproximação interessante da Bossa Nova com o rap, já nesse disco tem menos rap e mais
bossa, mais pop e eletrônica. O cd começa com uma gravação espetacular bem pop de The look of love,
cantada pela Fergie, a voz feminina do Black Eyed Peas e o Will, depois tem “o hip hop baiano” Funky
Bahia, com Carlinhos Brown, Siedah Garret e Will, uma versão eletrônica de Waters of march, com
Ledishi, depois tem Odo-Ya, também com Carlinhos Brown, depois tem Somewhere in the hills, com
Natalie Cole, uma versão em espanhol de Lugar comum, do João Donato e Gilberto Gil, com Jovanitti e
João Donato, uma gravação bem Bossa Nova de Dreamer, com Lani Hall e Herp Alpert, companheiros
de Sérgio na época do Brazil’66, depois tem um samba jazz instrumental maravilhoso chamado
Morning of Rio, onde o Sérgio lembra um pouco a época do Beco das Garrafas, uma versão em
espanhol de E vamos lá, do João Donato e da Joyce, com Juanes, depois tem Catavento e girassol, do
Guinga e do Aldir Blanc, cantada pela Gracinha Leporace com a presença do Guinga ao violão, depois
tem a bem dançante Acode, do Sérgio Mendes e a Vanessa da Mata, com a participação da Vanessa
cantando, depois tem uma versão bossa rap de Água de beber, com Will, o cd ainda tem como faixa
bônus Les eaux de mars, versão em francês de Águas de março, com Zap Mamma e a versão em
português de E vamos lá, com João Donato ao piano. Com esse cd o Sérgio mostra que é o mesmo de
sempre, bem antenado com a Bossa Nova e a música pop, relembrando bem os discos com o Brazil’66.

/Tivemos também o espetacular cd TELECOTECO: UM SAMBINHA CHEIO DE BOSSA, da Paula


Morelembaun, talvez o melhor cd do ano. Refrescar a memória, revisitando a história, sob um olhar
contemporâneo e moderno. Esta parece ser a proposta deste lançamento. TELECOTECO (UM
SAMBINHA CHEIO DE BOSSA) é assim. Abrange com rara eficiência músicas do final da década de
30 até início dos anos 60. Englobando este período anterior à Bossa Nova, o álbum possui de certa
forma perfil explicativo, expondo o ‘mix’ de influências (Choro, Tango, musicais norte-americanos) que
culminaram no surgimento do estilo eternizado por João Gilberto. Em um repertório minuciosamente
elaborado, o álbum é praticamente um ensaio aberto que unem tradição e modernidade, conferindo a
composições clássicas uma roupagem contemporânea de muito bom gosto, As músicas desse cd são: a
sensacional Manhã de carnaval, com participação do Riuichi Sakamoto, depois tem a maravilhosa Não
me diga adeus, de Luis Soberano, Paquito e João Correa das Silva, famosa nas vozes da Elis e da Nara,
tem uma espetacular gravação de O samba e o tango, de Amado Régis, sucesso na voz de Carmem
Miranda, com participação do dj Bajofondo, depois tem uma gravação sensacional da clássica Our love
is here to stay, de George e Ira Gershwin, com toques latinos ao piano de João Donato, depois tem a
menos conhecida Um cantinho e você, de José Maria de Abreu e Jair Amorim, com participação de Leo
Gandelman, a maravilhosa Ilusão à toa, de Johnny Alf, onde a Paula divide os vocais com Marcos
Valle, depois tem Telecoteco, música de Murilo Caldas e Marino Pinto, Sei lá se ta, de Alcyr Pires
Vermelho e Walfrido Silva, com Chico Pinheiro no violão, a sensacional O que vier eu traço, Alvaiade e
Zé Maria, com participação do dj Marcelinho da Lua, depois tem a maravilhosa Você não sabe amar, de
Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima, com participação de João Donato, a rara Ternura antiga,
da Dolores Duran, participação do Leo Gandelman e no final a rara e sensacional Luar e batucada, de
Tom Jobim e Newton Mendonça, também com Leo Gandelman.

/Tivemos o surpreendente e maravilhoso ESTUDANDO A BOSSA, do Tom Zé, lançado pela gravadora
Biscoito Fino. Nesta época em que as pessoas contemplam e praticam a Bossa Nova, quase como um
refúgio espiritual saudosista de algo criado há 50 anos atrás, pleno de melodias, graça, beleza, talento,
descontração, otimismo, charme, refinamento, qualidade musical, provocação, autenticidade etc, etc, ele
nos revela a mais original leitura daquele momento artístico, a partir de uma ótica bem humorada,
verdadeira crônica de um passado inesquecível, com vistas para futuro. Tudo que serviu de matéria
prima da Bossa Nova está deliciosa e anarquicamente presente em seus versos, atuações vocais,
arranjos, toques de violão, maneirismos, dialetos, sotaques, expressões; do nome dos participantes, às
palavras chaves (barquinho, sol e sal, chega de saudade, bada-badi, bada-badá, biom-bom), da citação
às musas femininas a componentes essenciais, como a sincopa ou Copacabana, do panorama sonoro da
época, com o samba-canção abolerado, trágico, do ninguem-me-ama/ninguém-me-quer, às polemicas
despertadas pela implantação do novo gênero musical e assim por diante. As músicas do disco são:
Prefácio – Brazil, capital Buenos Aires, Rio arrepio, com Mariana Aydar, Barquinho herói, com Mônica
Salmaso, a maravilhosa João nos tribunais, onde João Gilberto vai parar no banco dos réus, a também
maravilhosa O céu desabou, com Tita Lima, onde o Tom Zé lembra os críticos da Bossa Nova liderados
por Tinhorão, depois tem Sincope Jãobim, com Andréia Dias, O filho do pato, com Márcia Castro,
Outra insensatez, põe, com David Byrne, a bela Roquenroll bim bom, com Jussara Silva, Mulher de
música, com Fabiana Cozza, a sensacional Brazil, capital Buenos Aires, com Fernanda Takai, Amor do
Rio, com Zélia Duncan, Bolero de Platão, com Mariana de la Riva, Solvador, Bahia de Caymmi, com
Anellis Assumpção e Daniel Maia, e De: Terra, para: humanidade, com Badi Assad.

Tivemos também a bela coletânea FAR OUT BOSSA NOVA, lançada pela gravadora Far Out
Recordings. As músicas desse cd são: Rio Bahia, com Joyce e Dori Caymmi, Keep an Eye on Love,
com Zeep, Meu samba torto, com Clara Moreno e Celso Fonseca, Nova Bossa Nova, com Marcos Valle,
Pra Zé, com Azimuth, Roberto Menescal e Sabrina Malheiros, San roque, com The Ipanemas, Pro
Bonfá, com Célia Vaz, It`s too late, com Sabrina Malheiros, Rejoycing, com Democustico, Filhos,
com Arthur Verocai e. Ivan Lins, a belíssima gravação de Berimbau, com a Joyce, do disco SAMBA
JAZZ E OUTRAS BOSSAS, ainda inédito no Brasil, Vem moreno vem, com Clara Moreno e Dindi, com
Victor Assis Brasil.

/ Nesse ano de 2008, também tivemos a sensacional coletânea Coleção FOLHA 50 ANOS DE BOSSA
NOVA, da Folha de São Paulo, com 20 cds. Todos os discos tiveram um livreto com textos do Ruy
Castro. Mas cadê o João Gilberto? Pois é, ele não liberou, falou que não gosta desse formato coletânea.
Os cds foram:

1 – Tom Jobim – Chega de saudade, Sabiá, Samba do avião, Garota de Ipanema, Retrato em branco e
preto, Eu não existo sem você, Águas de março, Por causa de você, Inútil paisagem, Samba de uma
nota só, Wave, Se todos fossem iguais a você e Lígia.

2 – Dick Farney – Copacabana, Tereza da praia, Inútil paisagem, Uma loura, Sábado em Copacabana,
Aeromoça, Não tem solução, Chuva, Fotografia, Marina, Ponto final, Nick bar, O que é amar e Apelo.
3 – Vinícius de Moraes – Pela luz dos olhos teus, Berimbau, Só por amor, Deixa, Seja feliz, Mulher
carioca, Samba em prelúdio, Labareda, O astronauta, Deve ser amor, Samba da benção e Além do
amor.
4 – Baden Powell - Valsa de Eurídice, Apelo, Chuva, Deixa, Tempo feliz, Lamentos, .. Das rosas,
Garota de Ipanema, Canto de Ossanha e Coisa n.º2.
5 – Carlos Lyra – Sambalanço, Lobo bobo / Saudade fez um samba / Se é tarde me perdoa, Gente do
morro, O barco e a vela, Minha namorada, Canção que morre no ar, Mas também quem mandou, Um
abraço no João, Só choro quando estou feliz, Você e eu / Coisa mais linda, Pode ir, Se quiseres chorar,
Maria Moita e Os olhos da madrugada.

6 – Nara Leão - Eu gosto mais do Rio, Insensatez, Corcovado , Sabe você, O barquinho, Wave, Águas
de Março, Com açúcar, com afeto, Chega de saudade, O negócio é amar, Tristeza de nós dois e
Descansa coração.
7 – João Donato - A rã, Chorou, chorou, Ahiê, Amazonas, Até quem sabe, Cadê Jodel, Bananeira,
Lugar comum, Café com pão, Gaiolas abertas, O fundo, Daquele amor nem me fale e Mambinho.
8 – Johnny Alf - Ilusão à toa, Rapaz de bem, Escuta, O que é amar, Fim de semana em Eldorado, Disa,
Céu e mar, Seu Chopin, desculpe, Diagonal, Fuga, Moça flor, Tudo distante de mim, Que vou dizer eu?,
Tema sem palavras e Vem.

9 – Lúcio Alves - Idéias erradas, A noite do meu bem, Estrada do sol, Lá vem a baiana, Copacabana,
Alguém como tu, Dizem por aí, Ninguém me ama, De conversa em conversa, Valsa de uma cidade,
Garota de Ipanema, Razão de viver, Mudando de conversa, Beija-me e Pra dizer adeus
10 – Miúcha - Turma do funil, Triste alegria, Aula de matemática, Sublime tortura, Samba do carioca,
Falando de amor, Vai levando, Na batucada da vida, Sei lá, Pela luz dos olhos teus, Samba do avião e
Dinheiro em penca.

11 – Roberto Menescal - Meditação, Céu e mar, Rio, Corcovado, Menina feia, O pato, A morte de um
deus de sal, Telefone, Adriana, Mar, amar, Copacabana de sempre, Amanhecendo, A banca do distinto e
Bye bye Brasil.

12 – Marcos Valle – Gente, Ainda mais lindo, Preciso aprender a ser só, Seu encanto, Passa por mim,
Samba de verão, A resposta, Deus brasileiro, Terra de ninguém, Viola enluarada, Ao amigo Tom, Não
tem nada, não, Vem, Próton, elétron, nêutron e Os grilos.

13 – Leny Andrade - Estamos aí, A resposta, Clichê, Olhando o mar, Samba de rei, Tema feliz, Razão de
viver, Coisa nuvem, Esqueça não, De manhã, Batida diferente, O amor e a rosa, O amor que acabou,
Sambop e Nós e o mar.
14 – Pery Ribeiro - Garota de Ipanema, Primavera, Ah! Se eu pudesse, O que eu gosto de você,
Berimbau, Moça da praia, Você, Amanhã, Canto de Ossanha, Samba do dom natural, Samba da
pergunta, Tempo feliz, Deus brasileiro / Vivo sonhando, Olé, olá e Tristeza.
15 – Sylvia Telles – Dindi, Discussão, Fotografia, Janelas abertas, Demais, A felicidade, Canta, canta
mais, Só em teus braços, Estrada do sol, Aula de matemática, Eu preciso de você, Canção da volta,
Chove lá fora, Duas contas e Foi a noite.
16 – Maysa - O barquinho, Você e eu, Cala meu amor, Eu e meu coração, Nós e o mar, Ah! Se eu
pudesse, Samba triste, Cheiro de saudade, Fim de noite, A mesma rosa amarela, Caminhos cruzados,
Por causa de você, Água de beber, Meditação e Outra vez.
17 – Wilson Simonal - Olhou pra mim, Amanhecendo, Balanço zona sul, Nana, Lobo bobo, Ela vai, ela
vem, Rapaz de bem, Samba do carioca, Garota moderna, Só tinha de ser com você, Juca bobão,
Mangangá, O apito no samba, ....Das rosas, e Só danço samba.
18 – Os Cariocas – Rio, Samba de uma nota só, Devagar com a louça, O amor em paz, Telefone, Amor
de nada, Ela é carioca, Domingo azul, Vê, Samba da pergunta, Desafinado, Pra que chorar,
Amanhecendo, Tema para quatro, Samba do avião e Tim tim por tim tim.

19 – Joyce - Aos pés da cruz, Sabe você, O astronauta, Maria Moita, Tarde em Itapoã, Estrada branca,
Eu sei que vou te amar, Mundo melhor, Wave, Ela é carioca, A felicidade e S'wonderful.
20 – Milton Banana Trio – Resolução, Estamos aí, Vê, Você, Cidade vazia, São Salvador, Amanhã,
Garota de Ipanema, Ela é carioca, Noa... Noa..., Nana, Sambou, sambou, Roda viva, Amazonas, Vesti
azul, Samba da benção e Carolina.
/Além disso, saiu o sensacional cd e dvd JOYCE AO VIVO, que saiu pela gravadora EMI. Depois do
dvd BANDA MALUCA AO VIVO, que tinha saído pela Biscoito Fino onde a Joyce cantava sem
público, finalmente teve o dvd que merece, celebrando seus 40 anos de carreira. DVD produzido pelo
grande Roberto Oliveira. As músicas desse dvd são: Delicadeza, E era Copacabana, Me disseram, a
música que provocou polêmica num festival em 1967, Não muda não, Samba de mulher, Revendo
amigos, com participação da Leila Pinheiro, a sensacional Havana-me, Monsier binot, Mistérios, a
clássica Essa mulher, música que ficou famosa na voz da Elis Regina, com participação do Dori
Caymmi, Da cor brasileira, O chinês e a bicicleta, a clássica Clareana, as inéditas E passa o carrossel
e No fundo do mar, as duas com a presença de João Donato, A banda maluca, com citação de Uva de
caminhão, do Assis Valente, Samba da zona e Feminina que é o cartão de visitas da Joyce no mundo.
Nos extras ainda têm: Cinema Brasil, com Francis Hime, Mulheres do Brasil, com Clara Moreno e Ana
Martins, Pra você gostar de mim, com Zé Renato, Madame quer sambar, com Roberto Menescal e
outra gravação de Mistérios, agora com Mônica Salmaso.

Nesses 50 anos de Bossa Nova não poderia faltar o cd BOSSACUCANOVA AO VIVO, lançado pela
Crammed, celebrando os dez anos do grupo que revolucionou a Bossa Nova. Incrementando batidas
eletrônicas ao som suave da bossa, sem perder a brasilidade. Um cd sensacional com vários convidados
que marcaram esses 10 anos de Bossacucanova. As músicas do cd são: Eu quero um samba, já com a
Cris Dellano oficialmente como a voz feminina do grupo, Maria moita, com um Carlos Lyra
sensacional nos vocais, Samba da minha terra, Essa moça ta diferente, com Wilson Simoninha, Samba
de verão, com Marcos Valle, Águas de março, Bom dia Rio, com o Jacques Morelembaum, Garota de
Ipanema, com Ed Motta e Roberto Menescal, uma versão espetacular cantada de Telefone, com Roberto
Menescal e Leo Gandelman, Balanço zona sul, com o Wilson Simoninha e Minha menina, do Jorge Ben
Jor, numa gravação que lembra Os Mutantes, o cd ainda tem como faixas bônus gravadas em estúdio:
Influência do jazz, com Carlos Lyra, Pedro Luis e Leo Gandelman, O barquinho, com Roberto
Menescal e Fernanda Takai e no final Nasci pra bailar, com João Donato e Leo Gandelman,
interessante que é a primeira vez que o Donato participa de um cd do Bossacucanova, lembrando que
ele já participou dos dois cds solo do Marcelinho da Lua. Vai ser lançado também um dvd.

Tivemos também o cd e dvd CELSO FONSECA AO VIVO, lançado pela EMI. Numa tentativa de
popularizar a obra sensacional do Celso, esse dvd teve algumas participações naturais e outras nem
tanto. As músicas desse dvd são: a espetacular Slow motion Bossa Nova, a música que fez Celso
Fonseca ficar famoso no mundo inteiro, até no Brasil graças a Gisele Bundchen, a maravilhosa Feriado,
o samba rap de Viajando na viagem, uma gravação meio estranha de Is the love, do Bob Marley, com
Gilberto Gil, música que foge do estilo do Celso, a maravilhosa Palco, do Gil, com participação do
próprio, aí o Celso estava mais a vontade, a sensacional Satélite bar, a surpreendente gravação de Ela só
pensa em beijar, do Mc Leozinho, a transformando numa Bossa Funk, Queda, A voz do coração, com
participação sensacional da Roberta Sá, a inédita Nunca pensei, a descartável gravação de Um dia de
domingo, sucesso na voz de Tim Maia e Gal Costa, num dueto esquisito com a Ana Carolina, a bela
gravação de Você não entende nada, de Caetano Veloso, a clássica Sorte, música do Celso e do Ronaldo
Bastos, que ficou famosa no Brasil com a gravação da Gal Costa, Polaróides, a belíssima Samba é tudo,
Meu samba torto, Beleza, Maria fumaça, clássico da Banda Black Rio e no final uma gravação de Ive
Brussel, do Jorge Ben Jor, com participação do Gilberto Gil, da Roberta Sá e do filho João Pedro
Fonseca.

/Nesse ano de 2008 tivemos até o cd e dvd CAETANO VELOSO E ROBERTO CARLOS E A
MÚSICA DE TOM JOBIM. Foi um encontro surpreendente envolvendo dois grandes nomes da nossa
música celebrando o nosso maior nome Tom Jobim. Mas porque Caetano Veloso e Roberto Carlos,
tinha vários outros nomes mais ligados a Bossa Nova para essa homenagem? Pelo que se viu acabou
privilegiando os dois por causa da grande aceitação da mídia, especialmente ao Roberto. Apesar de que
os dois têm sim ligações com a Bossa: o Caetano ficou maravilhado ao ouvir Chega de saudade com
João Gilberto e acabou virando um herdeiro do João, já o Roberto Carlos pra quem não sabe começou
cantando Bossa Nova imitando o João Gilberto, depois os dois seguiram pra outros caminhos. O dvd
teve momentos maravilhosos e outros nem tanto, provavelmente pelo nervosismo do Caetano. Mas no
modo geral ficou bom, o Roberto surpreendeu cantando Tom Jobim, especialmente nas canções mais
românticas. As músicas desse dvd são: a inevitável Garota de Ipanema, Wave, Águas de março, com
Daniel Jobim, Por toda minha vida, Ela é carioca, Inútil paisagem, Meditação, a rara e bela Caminho
de pedra, onde o Caetano deu show cantando sozinho com citação de Stone Flower, O que tinha de ser,
Surfboard, também com Daniel Jobim, Insensatez, onde o Roberto canta em espanhol, Por causa de
você, Lígia, relembrando o famoso dueto do Tom e do Roberto, Corcovado, Samba do avião, Eu sei que
vou te amar, uma gravação meio estranha de Tereza da praia, A felicidade, Se todos fossem iguais a
você e no final a também inevitável Chega de saudade.

Mas a melhor noticia de 2008 foi o aparecimento do disco JOÃO GILBERTO NA CASA DO CHICO
PEREIRA, com gravações caseiras inéditas que o João Gilberto fez na casa do fotografo Chico Pereira
no ano de 1958. Isso era um dos mais bem guardados segredos da Bossa Nova, que poucas pessoas
tinham acesso. No livro CHEGA DE SAUDADE o Ruy Castro fala: “Quando João Gilberto cantou pela
primeira vez em seu apartamento, na rua Fernando Mendes, levado por Menescal, Chico experimentou
a mesma sensação quer tiver ao conhecer o fundo do mar. Com a vantagem de que a voz e o violão de
João Gilberto podiam ser capturados. Não perdeu tempo: assestou um microfone, alimentou seu
gravador Gruding com um rolo virgem e deixou-o rodar. Foi a primeira das muitas fitas que gravaria
com João Gilberto em sua casa.” Ninguém sabe ao certo como todos tiveram acesso via internet, esse
disco apareceu num leilão no Japão, nos Eua e na Alemanha. Provavelmente nunca esse disco vai virar
oficial, mas é uma pérola ouvir o João pronto pra estourar com a Bossa Nova, sendo que algumas
músicas o João nunca gravou. Além de alguns bate papos. As músicas desse disco são: Um abraço no
Bonfá, um Solo de violão desconhecido, Chega de saudade, Bim bom, Ho-ba-lá-lá, É luxo só,
Desafinado, Saudade fez um samba, Valsa com vocalise (Every day), do João Donato, Este seu olhar, A
felicidade, Preconceito, Caminhos cruzados, Mágoa, do Tom Jobim e do Marino Pinto, Lobo bobo,
Brigas nunca mais, O bem do amor, do Carlos Lyra, Louco, Trevo de quatro folhas, O pato, Aos pés da
cruz, Rosa morena, João valentão, do Dorival Caymmi, Chão de estrelas, do Sílvio Caldas e Orestes
Barbosa, Bate-papo, Um medley com Nos Braços de Isabel, do Sílvio Caldas e do José Júdice e Liberta
meu coração, do Geraldo Pereira e José Batista, Bate papo, Lá vem a baiana, Bate papo, Lá vem a
baiana (reprise), Bate papo, Doralice, Doralice (reprise), Você não sabe amar, Beija-me, do Roberto
Martins e do Mário Rossi e Bate papo.

/Tivemos também o maravilhoso encontro de Marcos Valle, Carlos Lyra, Roberto Menescal e João
Donato, que fizeram o cd OS BOSSA NOVA pela gravadora Biscoito Fino. A idéia da reunião inédita
entre Carlos Lyra, João Donato, Roberto Menescal e Marcos Valle, que nunca haviam feito um disco
inteiro juntos, foi do produtor José Milton. Ele pensou num verdadeiro encontro entre amigos que, sem
dúvida alguma, descambaria em boa música. As conversas entre os cinco tiveram início em março, mas
a gravação teve que esperar até agosto, já que os quatro compositores estavam com as agendas lotadas,
comemorando a bossa em shows pelo mundo afora. O CD veio com clássicos da época, canções
inéditas e quatro temas instrumentais. Passaram longe dos maiores clássicos. Em vez de Minha
Namorada, O Barquinho, A Rã ou Samba de Verão, interpretam Samba do Carioca (Lyra e Vinicius de
Moraes), Vagamente (Menescal e Ronaldo Bôscoli), De um Jeito Diferente (Donato e Lysias Enio) e
Gente (Marcos e Paulo Sérgio Valle). Mas o CD tem ainda, em algumas faixas, Dirceu Leite (sopros),
Jessé Sadoc (trompete), Carlos Bala (bateria) e Jaques Morelenbaum (cello). Este último foi exigência
de Donato, na música De um Jeito Diferente. A primeira faixa do disco, Samba do Carioca, Lyra divide
a interpretação com Marcos Valle. Em seguida, Menescal e Donato recriam Teresa da Praia, de Tom
Jobim e Billy Blanco, num dueto sensacional. Lyra e Valle prosseguem com Até o Fim, composta em
2007 e lançada por Emílio Santiago. Esta é a primeira gravação dos autores. João Donato é o arranjador,
pianista e intérprete de Um Jeito Diferente, parceria com o irmão Lysias Enio. Sextante, música inédita
de Lyra, é interpretado pelo autor e João Donato. Gente, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle une
Lyra e Marcos e logo a seguir, Roberto Menescal cantar Vagamente, parceria com Ronaldo Bôscoli que
ganhou arranjo e piano de Marcos Valle no disco. Segue-se uma instrumental de Menescal e Donato, A
Cara do Rio. Os dois ganham o reforço de Jorge Hélder e Paulo Braga. A faixa seguinte é bem especial.
Reúne três belíssimas canções unidas pela mesma harmonia: Bewitched (Richard Rogers/Lorenz Hart),
Esse seu Olhar e Só em Teus Braços, ambas de Tom Jobim, sendo que a última entra como música
incidental.
A mais antiga música do CD é Ciúme, composta por Carlos Lyra em 1954, interpretada por Roberto
Menescal e João Donato. Mais uma instrumental, Entardecendo, de Valle e Donato, seguida de outra
parceria de Menescal e Bôscoli, Balansamba, nas vozes de Menescal e Lyra. O revezamento continua
com Marcos Valle cantando Até Quem Sabe, de Donato e Lysias. O trabalho termina com os quatro
cantando juntos Bossa entre Amigos, de Menescal e Valle. Sem dúvida alguma, OS BOSSA NOVA é a
saideira perfeita para o ano que comemora os 50 anos do gênero.

Ainda no final do ano saiu o maravilhoso disco TOQUINHO E MPB-4: 40 ANOS DE MÚSICA,
também pela Biscoito Fino. Toquinho e MPB4 surgiram no cenário musical por ocasião dos
memoráveis festivais da década de 1960 e consolidaram suas carreiras ao longo de mais de 40 anos. É
um verdadeiro louvor a música brasileira. Distinguem-se as homenagens a Dorival Caymmi, Tom
Jobim, Paulinho Nogueira, Baden Powell, Vinicius de Moraes, principal parceiro de Toquinho durante
10 anos, e a Chico Buarque. Além disso, destaca-se a versatilidade da música brasileira, com Toquinho
e o MPB4 intercalando-se nas interpretações, desde Noel Rosa até Cazuza e Renato Ladeira, incluindo
canções de João Bosco e Aldir Blanc, Lobão, Herbert Vianna e Paula Toller, Edu Lobo, Gonzaguinha,
Fernando Lobo e Antonio Maria. Ressalta-se ainda a parte do CD dedicada às crianças, com músicas
que dignificam o trabalho de Toquinho junto ao público infantil e que ganham uma feição ainda mais
lúdica e expressiva com a participação do MPB4. As músicas desse cd são: Tarde em Itapuã, um pot-
pourri em homenagem a Caymmi: com Das rosas, Marina, Samba da minha terra e Saudade da Bahia,
depois tem De frente pro crime, do João Bosco e Aldir Blanc, depois tem um pot-pourri em homenagem
a Tom Jobim: Modinha, Se todos fossem iguais a você, Carta ao Tom e Carta do Tom, depois tem Faz
parte do meu show, de Cazuza e Renato Ladeira, depois tem um pot-pourri com Me chama, do Lobão e
Nada por mim, do Herbert Vianna e Paula Toller, depois tem Canto triste, do Edu Lobo e do Vinícius,
um pot-pourri de músicas infantis com A casa, O vento, A bicicleta, O pato, uma gravação antológica de
Ninguém me ama, do Antonio Maria, com o Miltinho fazendo a voz do pato e O caderno, ainda tem
Iolanda, de Pablo Milanes e Chico Buarque, Quem te viu, quem te vê, do Chico Buarque, um pot-pourri
com Jesus alegria dos homens, de Bach e Bachianinha nº. 1, de Paulinho Nogueira, também tem Gago
apaixonado, do Noel Rosa, um pot-pourri com Cavalo marinho e Berimbau, as duas do Baden e do
Vinícius, O que é, o que é , do Gonzaginha, Samba pra Vinícius, do Toquinho e do Chico Buarque, um
pot-pourri com músicas do Toquinho e Vinícius com: Como dizia o poeta, Testamento, Para viver um
grande amor, Morena flor, Meu pai Oxalá, Maria vai com as outras, O bem amado e Regra três, no
final ainda tem Roda viva, do Chico Buarque.

Com isso tudo, apesar de tantos lixos que existem na música brasileira atual, a Bossa Nova está
ganhando cada faz mais espaço aqui no Brasil, seja nas novelas, nos comerciais, nos programas de tv,
nos jornais e até no rádio. E no mundo a Bossa Nova está cada vez mais forte especialmente na Europa
e no Japão, onde vários estrangeiros consomem discos dos melhores artistas brasileiros de todos os
tempos.

Isso é mais uma prova de que aquele grupo de jovens músicos na zona sul do Rio de Janeiro no fim da
década de 50 que criou a Bossa Nova, fizeram um ritmo brasileiro, que o mundo inteiro adora, e eterno.