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P974 Psicologia, orga11izações e trabalho no Brasil [recurso eletrônico]/

Organizadores, José Carlos Zanelli, Jairo Eduardo Borges-Andrade,


Antonio Virgílio Bittencourt Bastos. - 2. ed. - Dados eletTônicos.
- Porto Alegre: Artmed, 20 L~ .

Ed itado também como livro impresso em 2014.


ISBN 978-85-8271 -085 ·2

1. Psicologia. 2. Psicologia organizacional. 3. 1. Zanclli, José Carlos.


11. Borges-Andrade. Jairo Eduardo. lll. Bastos, Antonio Virgílio
Bittencourt.

CDU L59.9:005.32(81)

Catalogação na publicação: Ana Paula i'v!. Magnus - CRB 10/2052


PREFÁCIO

Ü trabalho é uma prátic.-i transformadora da sequer consegue aco1npanhar as decisões da 1ná...


realidade que viabiliza a sobrevivência e a reá- quina que opera. Táis diferenças revelam o i1n-
li7.ação do ser humano. Por m.cio do ato e do pro- pacto que a institucionalização do trabalho pro-
duto de seu trabalho, o hon1e)n percebe sua '"- du1. no ser humano, como contexto pelo qual de
da como Uln projeto elaborado e conduzido por sobrevive, se re.•liza e recebe graves problemas
ele me.s mo, reconhece sua c<,>ndiçào ontológi- para resolver em s ua adaptação a si mesmo e ao
ca, material iza e expressa sua depcnd~ncia e po- m u11do. O triibalho tem sido um<t fonte de para·
der sobre a natur<'ta, produzindo as condições dolW$ par.a as pessoas e para a sodedade.
materiais, culturais e cnstitucionai.s que consti- Alocado dessa forma à sociedade e às suas
tuem seu ambiente, e desenvolve seu padrao de a tividades, o csnido do trabalho transformou-
qualidade de vida. Do ponto de vista en1píri- -se e1n um campo fértil para o desenvolvimento
co, o trabalho co11si$te na aplicação de conhe- das ciências sociais e comportamentais, criando
cimentos e habilidades ao desenho de processos U1na arena tra nsdisciplinar que facilitou o diá-
de produção dentro de uma sinta)(• constituída logo e a coopcraçao entre es_~as ciências. A com-
por condições econômicas, tecnológicas, sociais, preensão das relações entre os processos sub-
culturais e políticas. essa aplicação de recursos jetivos e produtivos tornou-se imperativo do
pessoais nào ocorre no vácuo, é balizada por equilíbrio ecooõulico, da saúde e da felicidade
macroestruturas a111bientais constituidas por huJnanas, desde a implementação da técnolo-
valores, relações de poder, significados e conhe- gia do vapor, em meados do século XVIII. Nesse
cir:ne11tos que cc.>n1poe111 sua iQS:litucional izaçao. momento, a adaptação do desempenho humano
A institucional ização do trabalho é faciln1ente a fluxos racionalizados de prod ução demandava
constatada na diferenciação de fornias de ação domínio mais profundo e sistematizado sobre a
produtiva entre as sociedades, cm seus diversos relaça.o entre os fluxos de produção e o contex-
estágios evolutivos. Sociedades cqnstituídas por to, assim como, nesta segunda d~cada do século
comunidades scmples, quase autóno111as e liJni- X,'\I, o engaja1nento 110 trabalho de1nanda auto-
tadas ao uso de tecnologia.~ a rtesanais apresen- gestão das próprias competências, vínculos, car-
tam práticas intuitivas de trabal ho, fortemen te reira e sincretis1110 da inserçãQ na e.str,utura de
dependentes do esforço físico, ao passo q ue so- redes (G insbourger, 201 1). O apareci1nento da
ciedades em estágio de sofisticado deseJ1volvi- psicologia organizacional e do trabalho (POT),
menlo tecnológiço> ca racteri7àdas por tran$a- no fim do século XIX, foi uma resposta a essa
çõcs complexas, em eventos virtualizados e1n al- demanda; e s ua institucionalização, como espe·
ta velocidade dentro de estruturas frag1ne11tadas cialidade das ciências comporta1nentais, cresceu
e policêntricas (Bartjargal et ai., 2013}. apresen- e tornou-se unia das contribuições mais signifi-
ta1n práticas de trabalho altam.e nte dinâmicas, cati,-as para o desenvolvi111ento da administra-
dependentes da busca e do manejo instantâneo ção dos negócios e da qualidade de vida, a par·
da iJ1forn1ação, con10 ocorre con1 o flash trading tir dos trabalhos de Münstcrberg, no in!cío do
(Johnson et ai., 2013}. em que o operador nem séc1il0 XX.
X t Prefácio

l-loje, n\1m contexto qlac de1nnnda mais do solicitadas a aprender babilidades em tempo
qualidade de desempenho,• POT ocupa mais curto que sua condição humana permite,
uma posiçáo-chave nos instrumentos de ou a alterar suas identidades, sem que is.o faça
gestão. Ela ajuda a organi1.ar e legitimar parte de seus planos de vida. Sem a prctensao de
a compreens.io que as pes.soas e as inst i- abarcar toda a amplitude do aprofundamento,
tuí~cs soc:iais requerem para funcionar. este livro foi elaborado para revisar aspectos sig-
(Sampson, 2000. p. 1). nificativos dessa massa de conhecimentos, inte·
grando nele os avanços já registrados na sintoxe
Estudando problemas como o desempe- da sociedade e do trabalho produzido nos ulti-
nho, a SJúde do trabalhador, seus padrões de mos anos.
qualidade de vida, o impacto do emprego e das Fortemente balizado por culturas desen-
condiçocs de trabalho sobre a vida humana, tan- volvidas con10 consequência de um longo pro·
to sob o ponto de vista de atividade pessoal co- cesso de adaptaçáo ao ambiente, o trabalho foi
mo de atividade in>titucio n.1li1.ada, a POT criou institucionalizado, até a em industrial, cm hni-
uma massa de conhecimentos que, embora con- ma simbiose com a vida social e fam iJiar, fora da
trovertida em vJrios aspectos (Prillehcnsky, influência do conte1''to econômico competitivo
199·1; Steffy; Grhnes, J992). rn is como sua base que caracteriz.a o p resente momento histórico.
epistemológico e os valores a ela associados, se Naquele período, em 1uuitas sociedades, era dif(-
fez presente ci11 toda a história da gcst~o de pes- cíl distinguir a atividade de trabalho da ativida-
soa>, por meio de con tribu içocs diversificadas. de social e familiar. O advento da mecanizaçao
Os conhecimentos produzidos pela POT torna- e, dep<)is, da au tomaçao e de sua alocaçao den-
ram viáveis tanto a utili1.aç:ío de tecnologias so- tro das quatro paredes das organizaçocs iniciou
fisticadas, po r parte de gru pos de trabalho cons- o distanciamento d essa prática transformadora
titufdos por pessoas • imples, como a fo rmação da esfera doméstica, colocando-a sob o domin io
e adaptação de eq ui pes interdependentes ap- de u111a gramática própria, cuja comprccnsuo
tas para o desempen ho clicai de m(1ltiplas ati- tem sido um crescente desa fio para as cie ncias.
vidades sofistic'1das, co mo se observa no traba- A aculturação do trabalho à gramática du indus-
lho dos astronautas e do• técnícos cm cirurgias. trialização e posteriormente à gramática da so-
A rápida cvoluç"o das tecnologias de pro- ciedade con1petitiva e globalizada foi e tem si·
duçao tem colocado novas demandas na missão do um tenta que desafia teorias e frustra esfor·
da POT (Olson-Buchanan; Brya11; Thompson, ços pela busca de altos padroes de igualdade e de
2013). P.1rticularrnente, a alteraç.10 na sintaxe qualidade de vida. Imagine-se como deve ter si-
do contexto de trabalho fomentada pela imple- do complicado para os gestores das empresas cm
rnentaçao da tecnologia digital, pela~ novas for· Papua Nova Guiné entender por que os indivt-
mas de contrato de trabalho, pela fragmentação duos das tríbos Orikawas "( ... J preferiam trab:i-
econômica e pelas nttworkttl enterprisn ao lon- lhar de graça en1 suas comurudades do que rea-
go dos últiJnos 1O anos reformulou elementos lizar a mesma atividade com remuneração fora
significativos dos instrumentos, das condiçoes da comunidade l ... J"(SchwiJnmcr, 1979).ou co-
e dos i1npactos do trabalho. Essa nova sinta- mo está sendo difícil equacionar os efeitos das
X'• é camcteri1.ada pelo crescimento da automa- rupturas nas carreiras profissionais diante das
ção, da depcnd~ncia de infonnação e de com- inurtezas e da descontinuidade dos negócios.
pet~ncias coletivas, pcl• complexidade da inter- A POT tem-se dedicado a investigar essas ques-
secçao de múltiplos processos na produção do tões, pe<quisaodo e teorizando sobre os deter-
desempenho, pelas incertezas e pela habilidade minantes do desempenho como forma de subsi-
dos eventos. Diante de rais alterações, a POT é, diar a C>rgani7,açao racional do trabalh o que ca·
mais uma vez, sol icitada a ampliar seu objeto e racteriza a institucionalização deste na forrna do
a aprofundar sua produç3o de conhecimentos emprego da era industrial e nas traje tórias das
para colaborar com a comprecns~o do desem- carreiras sem fronteiras.
penh o e da rcalizaçao do trabalhador, em um Além de ser uma necessidade em socie-
con tex to de condiçócs singulares que írcquentc- dades cotnplexas (da qual é quase impossivcl
n1entc d emanda adaptações que superam os li- livrar-se), a organ ização racional dos !l uxos de
mites da condiçao lnu11'111'1. As pessoas t~m si- prod ução, exigida pela busca de regularidade na
P1efácio • XI

prod ução industrial. estimulou os pesqui:;ado· do conhecintento que estuda as relações dobo·
res do século XX a co1upreender o desempenho mem com o trabalho, tem sido tm1a fonte contí-
no trabalho <l<mt ro de ambien téS densos e for· nua de concei tos e teorias que subsidiam o equa-
temente manualizados. Em seus estudos, eles se dona1nenio da eficácia e os 1neios d e evolução
depararam com enonne variedade de questões da qualidade de vida no trabalho. Etnbora sen1
embutidas na adaptação, no desenvolvimento o sucesso esperado no estudo da fad iga, a POT
e na compensação dos trabalhadores. Além das imediatamen te expandiu seu ca1npo de ação pa-
primícias de tais questões, como a avaliação de ra abranger todos os aspectos da adaptação do
habilidades e a conformidade ao grupo, tais es· trabalhador às ta refas e todos os impactos d e seu
tudos foram enriquecendo a con1preensão da vínculo com o trabalho sobre sua vida pessoal e
relação h<>mem· lrabalho e da gestão do desem- s uas possibilidades de vida social, econômica e
penho pela descoberta dos vínculos e-ntre este e subjetiva (Cha nlat, 1990).
a iden tidade, a dominação de minorias e elites Depois de um longo processo evolutivo,
sobre maiorias, a responsabilidade ética e social, no qual as ciências cotnportameatais caminha·
a qualidade de vida, o crescin1ento psicológico ran1 em correlação com a reflexão epistemológi-
e a vida dentro de redes que fu nciona1n e1n al- ca que e<tracterizou o debate científico d urante o
ta velocidade. A POT mergulhou fundo na com- século XX - e abrindo espaços para campos es-
preens.'io dos dois processos implicados tanto no pecíficos de aplicação e1n áreas con10 educação,
trabalho industrializado como ao trabalho ho· saúde e conflitos sociais - , o conhecimento so-
je regido pelo capitalismo financeiro (Touraine, bre a subjetividade implicada no trabalho tor-
2013). A POT produziu c<m hecimentos sobre o nou-se elemento do silogismo da eficiência nas
processo de regulagem do desempenho e sobre o organ izações. Não se pode ignornr que a psico-
processo de emancipação do trabalhador (lv!al- rnetria e as relações ht1man~ts constituíra 1n-st na
vczzi, 20J 4). O debate ontológico sobre a lnuna- principal atividade da área de recu rsos hu1nanos
nização do trahalho, que caracteriiou os anos de de 1930 a 1960, assim como não há com<> negar
J 970, aparece mu ito mais complexo neste início que os textos de admillistração con têtn infor-
do terceiro m ilenio dentro da desordem criada mações o ri undas de pesquisas sobre o desempe-
pela soberania das redes (Chun, 2011 ). Sem ig- nho. Há mais de LO anos, a literatuni dos negó-
norar as in úmeras fontes de sofrimento presen · cios não cessa de alarde.a r que o diferencial com-
tes na vida do trabalhador, como a marginaliza- petitivo está na gestão de pessoas. Mesmo hoje,
ção, a insatisfaçao e as desigualdades, a história com Lodo o desenvo]\rimento Lecn()lógic<>>qual-
da POT explicita por que o trabalho não é ape- quer arquitetura avançada do processo de pro-
nas u ma transformação da matéria, mas rnm- dução torna-se ineficaz se não houver pessoas
bétn da vida psiqu ica, econôm ica, social, cttltu- que a ponham em funcionamento e estejan1 de
ral e política. pr<ln Lidao para corrigir s ua trajetória. A forma
Por tais 111oti,ros, 11ão foi por acaso que a de dependência das pessoas foi alterada nas ati-
POT foi consolidada como uma aliada estraté- vidades, porém co ntinua sendo tão fundamental
gica da gestão dos negócios pela sua potencia- quanto no in icio da era industrial ( Flcetwood;
lidad e de ser fonte fértil de infonnação para a Hesketh, 2010). Além disso, o trabalho, nas con·
ad ministração e para a compreensão da rela- <lições do presente momento histórico, produz
çao homem-trabalho. A percepção dessa alian- novos problemas, como a solidao do teletraba-
ça já se fazia presente na investigação da fad i- lho, a não legitin1ação do trabalho autónomo
ga, no fim do século XIX, por força da pressão como forma d igna de "emprego" e as patologias
por n1ais produção, consequência da substitui- promovidas pelo forte envolvimento com a lógi-
çã<> da tecnologia do vapo r pela tecnologia ele- ca bi nária do contexto cri.a do pelo computador.
tro1necânica. O estudo da fadiga, que era um sé- Hoje, ünpulsionada pelos ''entos da glo-
rio obstáculo ao desempen ho e grave causa de balização, surge uma nova sintaxe à qual o de-
sofrünento d o trabalhado r, revelou a potenciali· sempenho e as pessoas são obrigados a se adap-
dade dq con hecimento sobre<) desempenho co- tar. Novamente, os pesqub'adores em POT são
mo um recurso ind ispensável à gestão dos negó- compelidos a revisar seus conceitos e Jn odelos
cios e ao desenvolvimento da qualidade de vida para responder a novas questões colocadas pela
do trabalhador. Desde en tão, a POT, con10 área l1ova gra111<.l tica da sociedade. agora caracterÍZc'l·
Xii t Prefácio

da pela compressão do tempo e do espaço, 1nar- dos valores, da liderança e do deseovolvhnento,


ca visível da sociedade do presente momento que s.~o tratadas nas v-árias partes deste livro. O
histórico. Nessa sociedade nao há como se livrar ser humano mantém sua condiçao on tológica
da forte competitividade econômica, que torna de ser indeterminado e destinado a criar os i.t1s-
o mnbiente instável, nenJ das rupturas que a1nea- tru1nentos de sua adaptação (Malvezâ. 2014),
çan1 a vida de todos, ta1npouco da onipresente porém, a siJJ taxe do contexto é outra; as teorias e
estru lura d.e c.o m unícaç.à() de 1nassa qtte assu111e os conceitc)s $à() cl1amados e se relegi tú11ar. tvfais
parte da gestão da subjetividade sob o aspecto de uma ve-L, co11firmain-se a labilidade e o caráter
c,ultura, padrões sociais e internaliz.,ção. A ex- evolutivo do conhecimento. fs te ~como a vida,
periência do trabalho tornou-se mais complexa um contlnuo processo de adaptação ao ambien-
porque deixa de estar alocada em um espaço co- te. A POT é novamente convocada a contrib uir
nhecido e visível, de relativmnente fácil contro- co111 a co111pree11são dess.:1110,ra si.J1taxe, e este li-
le, para ser transferida para o mundo caracteri- vro é uma resposta a tal chamado.
z.,do pelas propriedades do hipertexto·, no qual Como colocou Rousseau ( 1997), a POT
sua ambiguidade e incerteza São exponenciadas. e11frent..'1 uma nova era. Há m uitas questões
Um dos mais significativos desafio$ do trabalha- abertas que exigem revisão dos modelos e con-
dor é o enfrentamento rotineiro das desconti- ceitos. Os instrumentos e as condições de traba-
nuidad.es que o obrigam a um ininterrupto ajus- lho são outros. Da operação das máquinas, evo-
tantento, para o qual lhe falta seosibilidade ou luiu-se para a gestão do controle pelos.con1puta·
apoio institucional. A segunda sequência do fil- dores, evolução que in1põc aos pesquisadores a
me Por um fio ( Phone 8ooth}, dirigido por Jo- revisão de todos os aspectos implicados na rela-
el Schtunacher (2001), n1ostra, dentro de u1na ç.-\o homem-trabalho, das exigências de compe-
linguagc·n1 estética si ngula r, como o personagem tências ao equacionainento da qual idade de vi-
Stu realiza v-ários negócios ca1nin hando por du- da e da real ização existencial. A diversidade de
as quadras na cidade de Nova York. Seus instru· si luaçoes e a ambiguidade dos eventos refletem
mentos de trabalh o são seu descn1penho, suas a instabilidade da realidade, fato que dem<\nda
narrativas t seu celular. Consrata-se, ness;.t se- dos pesquisadores a revisá.o das categorizações.
quênçia do filn1e, corno o telefone 1nóvel subs- Surge111 sitl1açôes nov,1s, con10 os cdnceitos de
tituiu i11teira111el1te a infraestrutura e o espaçc> homem-fronteira (Hartog, 2004) e de carreiras
do escritório. O mundo tradicional do escritó- sem fronteiras (Briscoe; Hall; Mayrhofer, 2012 ).
rio (ou da fábrica) e o mundo no qual Stu tra- Seriam esses conceitos confláveis? A substanti-
balha s.-\o duas realidades radicalmente distintas vidade dos cargos foi u1n pressuposto co11stan -
en1 suas contingências e i11strun1eotos. A parti.. tc e s ignificativo nas pesquisas sobre habilida-
cipaç.ã o de processos psicológicos evoluiu c.o m a de e motivação, contingência hoje enfraqueci-
tecnolt)gia e as fc)rmas de organ.izaçao, como se da com a flexibilização" o caráter artesanal dc>s
observa na concentração de decisões sobre um processos de produção. A transformaç.-\o das ta-
mesmo indivíduo, hoje daramente evidenciada rt>fas substantivas em tarefas fluidas e artesanais
no aumento do envolvi111cnto de operadores e (Malvezzi, 2013 ) e o desaparecimento dos pos·
técnicos em tarefas gerenciais. A POT é chama- tos de trabalho debilitara111 a eficácia do contro·
da a novos desafios que inclue1n até seu próprio le operacional, que foi transferida para o contro-
nome. Seriam duas especial idades, POT e psico- le estratégico (Kali inikos, 2003 ).
logia do trabalho (PT)? Essa questão é difícil e A virtualização dos sujeitos com os quais o
traiçoeira . Tal divisão i.tnplicaria a separação en- trabalhador interage (a estrutura de comunica-
tre os processos regulatórios e emancipatórios ção de 1nassa, o mercado e as redes) propõe aos
em duas especi.a lidades d istintas. Será que esse pesquisadores a revisão do como sé cónfiguram
arranjo ajuda o u atrapalha? as relações entre sujeitos. A press.-\o pela con1-
Tais mudanças e questões materializam petitividade favorece o ol har do construcionis-
alterações profundas na profissionalizaç.~o. no 1110 sobre a pesquis., do desempenho, uma vez
vinculo de em prego, nas identidades profissio- que os i1Jdividuos tên1 de co1.1struir suas ct)n1pe·
_nais, nas carreiras e 11a própria <lfquitetura das tências, assiJn como o personage1n Pi do fihne
empresas. Recolocam as velhas questões da com- A.s aventuras de Pi, di rigido por Ang Lcó (20 12).
petência, do vinculo com o trabalho, do poder, Pi é jogado em un1 barco no qual fica à deriva
Prefácio • XIII

por 200 dias, en1 alto-n1ar. Ele aprendeu a criar ciências experimentais, a construção dos conhe-
as competências que garantiram sua sobrevi- cin1cntos sobre o trabalho esteve e1n grande par-
vência. A competitividade fon1enta a e){pecrati- te voltada para a busca de significância na atua-
va de melhorias; por isso, temas como cultura ç.ão de variáveis que podiam ser mensuradas
organizacional c:.0J110 \'ariável da gestão de co111· porque o ambiente era estável e inantinha suas
petências ganhrun unpulso na compreensão do contu1gências. Com freqw!ncia, os resultados
desempenho. O conceito de liderança, tradicio- eram confirmados pela replicação de estudos
nalmente contaminado por sua associação aos en1 diferentes ambientes. Hoje, devido à volatili-
instru1nentos de a utoridade que acompanham dade do an1biente, a realização de pesquisas traz
a ação gerencial, sofre influência da crescente os desafios que levantam a questão da terceira
substituiçá<) da estrutura hierárquica pela coor- epistemologia das ciências (Chala rd-Fillaudeau;
denação efetiva e, como conceito, evolui na d ire- Raulet, 2003 ). Na análise de Chun (201 l), con10
çilo da criação de competências. O crescimento controlar todas as variáveis sob o controle da so-
das empresas-rede coloca a relação d.e intcrde- ben1nia das redes? Uma das caracterfsti<:as do
pe11dência co1110 um imperativo da arquitetura trabalho no contexto virtual é a i111pennanên-
do fluxo de produção. Não é à toa que Cooper cia do próprio conte){to_,como se constata na ro-
( 1998) propõe a rede comp•lrtilhada de conhe- tina dos trabalhadores de rua, comumen te cha-
cilnento ( interstandittg) como um fund<lmento n1ados d.e "camelôs''. Seu trabalho é o exen1plo
ruais apropriado para ação orgc111izacio11al que vivo da diversidade e da volatilidade.
o conhecimento (urulerstaruJing), entendido co- O projeto realizado nesta nova edição é
mo fato objetive) e que se impoe à consciência uma contribuição sob re o avanço da POT em
dos ind ivíduos. Nà.o tn enos ilnportantes são as relação a essa nova sintaxe d.o conte){to de traba-
c.onscqu~ncias que a flexibilização dos co ntex- lho q ue deixa profissionais e pesquisadores des-
tos e o imperativo de adaptação imedia ta a eles parametrados. Infelizmente, não há espaço pa-
de1nandam d os indivíduos, gerando aquilo que ra a amplitude de revisão que as n1udanças de-
Kristeva (1991 ) coloca como o indivíduo sendo nla11dal11. Poré1n, coloca-se co1110 ''a]iosa tarefa
"solicitado a ser o eu e o outro». 1-\lém dessa de- que assume o aprofundamento de alguns desses
n1a11da de revisão co11ceitual, essa nova si11taxe temas já in1pactados pelas condições novas e que
do contexto de trabalho cria novos proble1nas, de1nandam realinhamento de seus conteúdos e
como Collinson (2003) detectou entre executi- fronteiras. Tratando d.o trabalh o na sociedade
vos bem-sucedidos, cond ições contrad itórias, a tual, com ponte bem a rquitetada para o deba-
con10 a co11,rivência et1U·e ºeus .realizados, po- te sobre a condição hu1nana do trabalhador, es-
rém in~eguros,: ou, aind.a, a co11staraçâo de Sen- ta nova edição, o livro revê os coo textos das or·
nett (2000) quanto ao desenvolvunento de iden- ganizações e do trabalho, nas contingências do
tidades defensivas. Que m.udanças estão impli- presente mo1nento histó rico, explicitando os pa-
cadas nessas alterações da su1taxe do coa texto de rã1netros ontológicos e históricos dessa gramáti-
trabalh o para as variáveis tradicionalmente as- ca, enriquecendo-os com a discussão do avanço
sumidas como significativas pela POT? Con10 do ri tual da investigação cicnúfica e suas conse-
fuuciona o processo de motivação em ambientes quências para as categ<)rizações e para o conteú-
que se movem em alta velocidade? Coino medir do da POT. Alicerç.ado nessa base, o livro acres-
e desenvolver competências oscilan tes cm fun- centa a análise de alguns dos esteios d.a POT, de-
ç.'lo da alta interdependência dos desempenhos senvolvendo aspectos significativos da relação
(Gi nsbourger, 20 l I ). Como co nfigu rar a cvolu- hon1em -t-rabalho e da produção do desen1pe-
ç.'io da carreira con1 rupturas frequentes? Con10 nho relacionados aos individuos. Dessa forma,
s~ dá <.l. integraçao em um amb iente carac.teriza- apresenta discussões sobre cogn i.ções, aprendi -
do por virtua.lidade e por contatos físicos duni- zage1n, motivação, emoções, liderança e víncu-
nuídos e voláteis? Essas são algumas das ques- los en tre o ind ividuo e a organização.
tões que hoje baten1 m1 porta da POT. Além d.isso, esta obra ded ica vários capitLt-
A POT, quando li.mitada ao espaço físico los a temas relacionados à malha social na qual
da fábrica, desenvolveu uma 1netodologia que o trabalhador vive e desen1penha seu trabalho.
esteve fundamentalmente expressa pelo moddo Nesse campo) encontram-se a discussao e a revi-
de causa e efeito. Influenciada pelo sucesso das são do processo de socialização organizacional,
XÍV t P(efácio

a análise da criação e o papel do poder em sua COLl.INSON, D. Jde11tities at1d i11se<=ul"ities: selves at
expressão no conte>..'to organizacional e seu des· work. Orgariizatíon, v. JO, n. 3, p. 527· 547. 2003.
dobramento na dimensão e jogo poUticos. Sem COO PER, R. Epilogue, intcrvicw with Robert Coopcr.
omitir a revisão do conceito de cultura orgaJ1i· ln: CHIA, R. Orga11ized worlds. l.ondon: Routledge,
zacional e as características t-le stta d.i,rersidal-le, 1998.
o projeto completa-se na. discuss.~o de u1na das FLEET\VOOD, S.; HESKETH, A. Explni11i11g the per-
questões q ue mais permc.iam a POT, qu e é opa- fomw11ce of H RM. Cambridge: Cambridge Univcrsity,
2010.
pel dos psicólogos nas organizações, revisando
sua profissionalização e seus objetos de trabalho. G INSBOURGER, F. La révolution des interdépendan·
ces. füprit, p.101- 11 1,2011.
Conlo t1n1 todc>. <> li\1 r<> revela a pre<>cupa-
çào da POT com a nova sint.IXC do contexto de 1-IARTOG. F. i\1e1n6rias ele! Ulis!fc<1.: narrativa~ sobre a
fro1ltr:ira na Gréci-a A11tiga. Belo Horizonte: UFMG,
trabalho, co1no voz que aprende a aperfeiçoar-se
2004.
para melhor explicitar seus co nteúdos e melh or
JOHNSt)N, N. et ai. Abrupt risc of ne\\l" 1llaclli11e eco~
servir. Não contén1 todas as respostas cuja bus- logy beyo11d hu111a11 response ti111e. f\lature: Scic11t.ific
ca angllstia os pesquisadores e profissionais, po- Reporr~. v. .3, n. 2627, 2013.
rém co11tribi1i significiõltiva 111e11te para a elabora-
KALLINIKOS, J. Networks as alternative for ms of or·
ção de uma psicologia que representa de forma g3nizatio11: so1nc critical re111arks. ECJS 2003 Procee-
mais C(lIDpleta e enriquecedora a experiência dings, n. 55, 2003.
de trabalho no atual mo1nento h istórico - uma KRIS'fEVA, J. Stra11gers lo <>Ur$cl~1es. NC\\' York: Co-
fonte em que cada um pode inspirar-se na bus- lumbio Univtrsity Prei», 1991.
ca de respostas. É um livro que estimulará are- MALVEZZI, S. Reflexões sobre gestão de pessoas.
Oex.ã o e a lín1entará esperanças ao trabalho de Dom, p. 73-80, 2013.
tantos profissionais que acredita1n na utopia da MALVEZZI, S. Thc history of iro ining. ln: \VTLLEY-
saúde mental dentre> da-~ condiçoes do mundo . BLACK\VELL handbook o f trainillg. 1S.J.; s.n. ], 2014.
globalizado, porque explicita as regras do jogo e No prelo.
muitos dos recursos de que cada ind ivíduo dis- OLSON-BUCHANAN, J.; BRYAN, L; THOMPSON,
põe para levar adiante seu projeto de vida pes- L. Usirtg i11dus1r;af-CJrganizatio11al ps)·clioWgy fór tire
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9 1-112,20 11.
APRESENTAÇÃO

C o1n o o destaque na capa desta nova edição nheci111e11to socíalo1en le relevante para o co11~
deno ta, os dez anos de oferta deste Psitalogia, or- texto brasileiro.
ganizações e trabalho no Brasil (q ual ificado pe- Se aates havia a convicção de que a prá-
los leitores, logo em seguida ao lançamen to e em tica e1n POT estava aprisionada a uma produ-
m uitas localidades, como "o livro verde") foram ~ão cie11tífica 1nuitas vezes ultrapassada e a L101
marcados pelo contín uo interesse do p úblico. material d id<ltico no q ual a realidade b rasileira
Sua tiragen1 01aiiteve-se e111 quan tidade con~­ é a grande ausente, hoje sabemos que avança-
tan tc e elevada para o padrão ed itorial brasilei- n1os q uan titativa1nente n o nú1n ero de publica-
ro. Isso é ind icador claro da pertinência e do re- ções nacionais e de profissionais comprometi·
conhecimen to de sens propósitos. Para relem- dos com a ,\rea, tanto na aplicação como na pes-
brar, esses fora1n os terinos d o parágrafo final q uisa. Mas, sem dúvida, 1nu ito temos por fuzer.
da Apresentação há dez anos: só nos resta, neste Estign1as em relação às práticas persisten1 den-
nion1ento, d esejar que o produto desses anos de tro e fora do âmbito de interação dos pro fissio-
trabalho em eqnipe possa feclludar o nosso en- nais psicólogos e, 1nuitas vezes, in ternos à pró-
sino, aprin1orando a capacitação dos n ossos alu- pria área. Eni contrapartida, há progressos qua-
nos, e auxiliar os profissionais da psicologia e de litativos na produção de conhecimentos e na
á reas paralelas. Enfim, ajudar a fortalecer a psi- atuaçáo aplicada, ainda que em alguns segmen-
cologia organizacio nal e do trabalho como um tos e e1u volu1ne meDor do que o desejado.
domínio legltiln o de produção de conhecilnen- Os encontros dos >1utores deste livro, pro·
to e de prátiL-a profissional. fessores e pesquisadores de várias regiões do Pais;
Os anseios e objetivos do conj unto de con1in uan1 a ter nos Simpósios. da ANPEPP seu
a utores que deu origem à produção inicial fo- mo1n ento 1nais sígnificativo. Mas ou tras opor-
ram be1u acolhidos pelos destinatários da obra. tunidades de debates e construções foram con-
Se assin1 se cun1pri u> rtvisar o 1ivro de n1odo a solidadas, em espaços virtuais ou presenciais. O
a tualizá-lo foi se tornando mna obrigação pa- Congresso Brasileiro de Psicologia Organi't.acio-
ra esse conjun to de profissionais. A h istória se nal e do Trabalho (CBPOT), promovido pela As-
repete: a proposta fo i se tornando, nos últünos sociação Brasileira de Psicologia Organi1.adonal e
anos, u ni desejo e unia necessidade d(l Grupó do Trabalho (SBPOT}, a cada dois anos, propor-
de Trabal ho em Psicologia Organizacional e do ciona també1n un1 desses mou1entos.
Trabal ho (GTPOT), na deno1nina~ào da Asso- O projeto da segunda edição do livro
ciação Nacional de Pesquisa e Pós-Grad uaçao m_an Leve como objeti vo a prod uçao de um texto
em Psicologia (ANPEPP). E se repete o argu- básico para uso no ensil10 da POT. para a pren-
mento: o GTPOT, apesar das alterações na sua dizes que, de algum modo, dependem dos ensi-
constituição ao longo deste tem po, vem a tuando nrunentos da psicologia em diversas áreas co n-
como uma equipe de trabalho que, de forma sis- cetnentes à formaçllo profissional, tanto e1n ní-
temática, tem p rocurado consolidar, en tre nós, a vel de graduação quanto de pós-graduação.
psicologia organizacional e do trabalho (POT) l\llan teve, de igual maneira, a intenção de ser-
como uma área de prod ução e aplicação de co- vir para a atualização d e profissionais da psico-