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MISCELÂNEA DE NARRATIVAS IRREAIS

1ª Edição

Coverge
Curitiba
2019
Delírio
substantivo masculino
1. p.ext. confusão mental.
2. p.ext. profundo entusiasmo; exaltação.
Origem

ETIM lat. delirĭum, ĭi ‘alucinação, loucura’

Bem vindo à DELÍRIOS, um projeto de publicação contínua editorial


independente voltada para contos e expressões artísticas áudio e visuais de
cunho fantástico. Do espírito e pensamento colaborativo, a Coverge tomou por
conta a inspiração e vontade de fomentar a criatividade e também dar a artistas a
oportunidade de compartilhar o seu talento, além de, com esta iniciativa, abrirmos
espaço para mostrarmos nosso trabalho e criarmos, em conjunto a todos que nos
dão o mínimo de atenção, uma rede de parcerias, network e amizades exponencial.

Mergulhe agora na primeira edição da miscelânea de narrativas irreais, MIRAGE,


um universo recheado de criatividade e emoções.

BOA LEITURA!

Organização
Washington Albuquerque
Castro Pizzano
Cláudya Spíndola
Hezi Santos

Projeto Beta
Coverge
SUMÁRIO

11 SEM CONTROLE 38 INCONSCIENTE


Adnelson Campos R. L. Martins

19 DE
UM LUGAR 40 APOCALIPSE:
A
CHAMADO LUXÚRIA MOLÉCULA DE DEUS
Yuri Gonçalves Rener Alcântara
43 COMO AS FLORES
23 VERMELHO
Ana Nogueira DOEM
Estela Pires

27 MOLOCH
Vitor Luiz
49 DESEJO SANGRENTO
Luís Fernando Amâncio

30 RECEITA (DE AMOR)


Soeli Tiegs 55 O QUE VOCÊ SONHA
EM FUGIR
32 ÀS MOSCAS Estela Pires
Aparecida Gianello
59 SUPER
34 O DESERTO, O MEDO GERINGONÇA
E O CANSAÇO Julia Mascaro Alvim
Luísa Fresta
63 UM DISCO DE
36 EPITÁFIOS GARDEL
Emerson Figueiredo Estela Pires
71 INVESTIDA 100 O LABIRINTO DE
AUDACIOSA AGONISTES
Lucêmio Lopes João Pereira de Matos

73 LIMUSINE AZUL 105 MISTÉRIO:


Fernando Antônio Fonseca ASSASSINO, DE QUEM
MORREU?
75 DINHEIRO MALDITO Paulo Luís Ferreira
Gerson Machado de Avillez

112 NA PRAIA DO OSSO


77 A
LEGISTA DE
DA BALEIA
OLHOS CLAROS Joaquim Lopes
Josafá de Oros

115 DOCE VAMPIRESCA


78 O ENIGMA DE UM Leonardo Angioletti
DIA
Leandro Serpa 118 OLHOS URBANOS
Marcelo Stoenescu
81 A SUBSTÂNCIA DA
VIDA 121 CHAMAS DA VIDA
Gisela Peçanha Paulo Ismar Mota Florindo

84 A QUINA DA 126 AMARÍLYS E SEUS


VENTURA LOBISOMENS
Gustavo Eloi Lorena Costa

89 O FILHO DO 127 DEVORADOR


BARQUEIRO Wanderson Razoni
Jéssyca Carvalho
130 HÁ ALGO NAS
93 O MASCATE GALERIAS
VIAJANTE Yuri Gonçalvez
Rener Alcântara
134 O HOMEM DA CAPA
96 ACRIANÇA MAIS ESCURA
ANTIGA DA RUA Lucas delo Santos
Schleiden Nunes Pimenta
137 OS
INVISÍVEIS
DONOS DO PODER
Tiago Ducatti

143 OS CAMINHANTES
Luís Amorim

144 UM LUGAR PARA SE


ETERNIZAR
Marcelo Davi

149 ÔNIBUS
Pedro Poleto

151 ENTRE O HOSPÍCIO E


A IGREJA
Schleiden Nunes Pimenta

152 O SENTIDO
DA VIDA
Thiago Roza

155 PONTES
MEMORÁVEIS
Vanessa Santos de Jesus
LIVE DANGEROUSLY AND YOU LIVE RIGHT.
Goethe
SEM CONTROLE
11
Adnelson Campos

Sentado na poltrona de um luxuoso escritório, no trigésimo sexto andar de


um exuberante edifício no centro da cidade, César aguardava ansiosamente a chega-
da de seu anjo.
Compartilhar o seu segredo seria sua única esperança de voltar a assumir o
controle do mundo que criou, de sentir-se seguro novamente. Precisava somente de
mais uma conquista, a mais importante de sua vida. Os últimos acontecimentos su-
garam sua energia e pela primeira vez sentia-se impotente. O que a tornava imune?
— questionava-se.
O tempo demorava a passar, a ansiedade o destruía. Pediu à secretária que
deixasse a visitante entrar sem demora. Pegou a caneta e um bloco de papel, ano-
tando alguns pontos de sua vida. Precisava entender o sentimento que o dominava.
Quando criança, de forma inconsciente, influenciava pessoas. Comandava as
brincadeiras, definia os grupos, atuava como mediador. Sempre havia alguém dis-
posto a segui-lo ou servi-lo. Não era o mais forte, nem o mais belo, mas era muito
respeitado.
Percebendo poder manipular a percepção das pessoas, conseguia o que queria
com seus pais, professores e orientadores, namorava as mais belas garotas. Encon-
trou vários rivais, e por mais que ele tentasse evitar, a presença de algumas pessoas o
incomodava, a ponto de sentir calafrios e fortes dores de cabeça. Sempre conseguiu
afastá-los.
Foi o que fez com dois de seus colegas, pois detestava se sentir desafiado. Eles
ousaram superá-lo em inteligência e praticidade, pareciam imunes à sua vontade e
não lhe restou alternativa a não ser incriminá-los injustamente para que fossem ex-
pulsos da escola.
Apesar desses atos, até então ele não havia se decidido quanto a qual cami-
nho seguir na aplicação de suas habilidades, se o do bem ou o do mal. Recolheu-se
na neutralidade, no equilíbrio reconhecido pelos seus admiradores, permanecendo
assim até a idade adulta.
Observou a história de grandes líderes da humanidade, pacifistas e ditadores
que manipulavam a percepção humana e cujos feitos marcaram o mundo todo e não
somente a vida de seus seguidores. Ele desejava superá-los, já que todos foram der-
rotados.
Tornou-se um grande neurocirurgião, não por achar importante salvar vi-
das, mas encarou tudo como a base para a execução de um plano maior. Aprendeu
técnicas de hipnose e de persuasão, estudou a parapsicologia e a radiestesia. Preferiu
ser reconhecido no meio científico apenas pelas suas qualidades como médico tradi-
cional, escondeu suas outras habilidades. Suas ideias influenciavam pessoas em todo
o mundo.
Com seu trabalho conseguiu uma pequena fortuna, empregando-a em um
projeto pessoal. Acreditava que podia construir o seu próprio destino, ditar regras,
controlar todas as pessoas à sua volta.
Escolheu para morar um país cujo território era formado por um pequeno
arquipélago. Rapidamente, conquistou a confiança dos principais líderes locais. Fre-
quentava os mais badalados eventos sociais e tornou-se conselheiro dos governantes.
Transitava em todas as esferas do poder, em todas as camadas sociais, mesmo nas
marginalizadas.
Na sua estratégia, ele possuía dois modos diferentes de viver, de agir e assim
testar a sua capacidade, os seus limites. Deixou de atuar como médico e passou a
administrar uma instituição filantrópica fundada por ele para resgatar jovens e adul-
tos envolvidos com drogas e com a marginalidade. Usando sua comunicação eficaz,
angariou fundos no mundo todo. Seu marketing pessoal não lhe custava nada, a mí-
dia lhe oferecia publicidade em troca de entrevistas e autorização para realização de
documentários sobre seus feitos.
Milhares eram seus seguidores em redes sociais. Vários livros descreviam sua
trajetória e seu rosto estampava a capa de revistas dos mais diversos ramos, desde
periódicos científicos até de divulgação de eventos sociais.
O “Protetor”, como passou a ser chamado, era exemplo de virtudes. A pro-
gramação neurolinguística era uma de suas principais armas de convencimento e de
disseminação de seus modelos mentais. Ele falava para uma multidão, pelo rádio,
televisão ou em filmes distribuídos na Internet. Os receptores imaginavam que a
mensagem era dirigida para eles, individualmente, como a mão de um amigo que
apoia, orienta, conforta.
Numa parte do dia ele investia na sua personagem de bom moço, geralmente
participando de reuniões e jantares promovidos pelas autoridades e pessoas ilustres.
Muitos o invejavam, poucos se arriscavam a desafiá-lo.
No restante das horas, encobertas pelas trevas, ele mergulhava num mundo
obscuro, podre e assustador. Formou uma legião de seguidores que incluía ladrões,
assassinos, traficantes, corruptores de menores, entre outros criminosos. Todos obe-
deciam cegamente às suas orientações. Oferecia sexo fácil, drogas e dinheiro como
prêmio. Passou a ser chamado de “Sombra”, alusão ao seu rosto quase sempre es-
condido pela escuridão da noite e pelo capuz de seu manto. Apenas os líderes dessas
facções o viam, raramente, em encontros nos supostos subterrâneos da cidade.
Para influenciar seus seguidores o Sombra utilizava a projeção do pensamen-
to, materializando na mente dos receptores forma, cor, cheiro, tamanho, tudo aqui-
lo que pode ser captado pelos sentidos humanos. Assim, apesar de seu esconderijo
ser uma sala ampla, de paredes claras, seus seguidores, enganados por suas mentes,
podiam sentir os odores, a umidade do local e o que há de mais inóspito. César não
suportava sujeira.
Tornou-se uma lenda na Deep Web e o descreviam como um homem enor-
me, de olhos vermelhos e riso assustador, muito diferente do verdadeiro homem de
estatura mediana e corpo franzino, porém de olhos vibrantes e cheios de energia.
Administrava um jogo perigoso, onde incitava a criminalidade de um lado
e de outro tentava combatê-la. O objetivo do grupo do submundo era derrotar o
Protetor. Os seguidores do Protetor procuravam esvaziar as ações do Sombra. Ele se
sentia invulnerável. Acreditava que podia controlar cada uma das peças, da mesma
forma como um enxadrista simula uma disputa consigo mesmo. Prorrogava o jogo
ao máximo, nunca chegando a um xeque-mate. Quando ele se percebia perdendo o
controle, tirava alguém de circulação. Perdas humanas e materiais ocorriam dos dois
lados. Eram necessárias.
Não havia ninguém em quem confiasse, muito embora fingisse acreditar in-
condicionalmente em algumas pessoas para conseguir fidelidade. Isto o fazia solitá-
rio. Sentimentos não eram importantes, a experiência, o exercício do poder sobre as
pessoas sim. Para os prazeres, ele conquistava mulheres, podia pagar por qualquer
coisa.
Foi assim, até o dia da apresentação de uma peça. Ele assistia ao espetáculo no
camarote reservado ao presidente do país. O ministro da defesa lhe pedia conselhos
quando ele desviou o olhar para o palco. O refletor iluminava a atriz principal, que
representava uma bailarina. Traços suaves, gestos delicados e o belo sorriso o cativa-
ram, o hipnotizaram e por um instante ele entrou numa espécie de transe. Era como
se ele flutuasse no ar junto com ela, nos saltos e giros. Aqueles olhos pareciam diri-
gir-se a ele. César não conseguia perceber nada mais a sua volta a não ser a mulher
contida por a aquelas sapatilhas.
A perfeita acústica do teatro trazia o som da voz dela como que a soprar ao
seu ouvido, tão suave quanto seus movimentos e ele parecia poder sentir o perfume
do seu corpo, o calor de sua pele. Ela o enfeitiçava e fazia seu corpo arrepiar. Embora
os passos fossem de balé clássico, para os olhos de César os movimentos eram inten-
sos, sensuais, capazes de resgatar toda a sua irracionalidade. Ele tentou se aproximar
da mente dela, não conseguiu. Ficou intrigado. Por um instante, teve a impressão
que algo sombrio pairava sobre seus pensamentos, sentiu-se ameaçado. Não se sentia
assim desde a adolescência.
Ao final do espetáculo, usando sua influência, foi conduzido pelos funcio-
nários até os camarins. Lá encontrou o prefeito que o apresentou ao diretor e aos
atores:
— Senhores, este é o Dr. César Ferranetti, um dos maiores cientistas deste
planeta e com orgulho, cidadão honorário de nossa cidade. Nós o chamamos de Pro-
tetor.
César apertou a mão dos presentes, até chegar em Ariel.
— Muito prazer, senhorita Ariel — disse César tentando olhar nos olhos ela,
buscando um acesso aos pensamentos da mulher.
— É todo meu, Senhor...como é mesmo o seu nome?
— César Ferranetti — respondeu ele, segurando as mãos dela por um longo
tempo.
Ela se sentiu incomodada e retirou a mão, desculpando-se com um leve sor-
riso.
— Já conhece a nossa ilha? Eu conheço um excelente lugar para o jantar —
propôs César.
— Desculpe-me. Estou cansada e sem fome. Além do mais, dizem que não é
muito seguro andar pelas ruas da cidade à noite, pois um sujeito perigoso controla o
submundo e pelo jeito o Protetor não tem tido muito sucesso em combatê-lo.
— Ajudo no que posso. Entretanto, garanto que estará segura comigo. Que
tal jantarmos num outro dia? Soube que a Companhia fica na cidade até o fim de
semana — insistiu.
— Tentarei acomodar o compromisso em minha agenda. É possível que eu
passe alguns dias de minhas férias por aqui. Minha assistente manterá contato.
César sentiu um misto de raiva e de desejo. Ela o esnobara na frente de to-
dos. Para compensar sua irritação, lançou uma onda de roubos e ações violentas na
cidade, aterrorizando a população dos arredores do hotel onde Ariel se hospedava.
Na noite seguinte, ele propositadamente a encontrou-a no trajeto até o tea-
tro. Um acidente impedia o trânsito e ele surgiu, sugerindo que caminhassem até o
destino dela, a poucas quadras. Ela aceitou. César tentou usar suas técnicas de persu-
asão. Nada conseguia desviar a jovem de suas convicções. E uma delas era não ceder
terreno para ele.
— Você é uma pessoa intrigante Ariel. Olho em seus olhos e sinto que há um
grande segredo escondido por detrás desse olhar e desse sorriso tímido.
— É a vantagem de uma atriz. Não se sabe quem está presente, se uma perso-
nagem ou a verdadeira pessoa.
— Eu conheço muito bem as pessoas, mergulho em seus pensamentos mais
profundos.
— O senhor é um telepata? Acredita em paranormalidade?
— Não, só um neurologista que busca entender os mistérios da mente.
— Pois quando eu olho em seus olhos, também tenho a impressão de que
esconde segredos.
— Além de atriz, também arrisca opiniões como psicóloga?
— Não, meu meio é o teatro. Pensei que de repente o senhor pudesse ser
uma espécie de Dr. Jekyll, disfarçando o Mr. Hyde que o domina — provocou Ariel.
— Quem sabe. Mas lhe garanto que numa situação dessas eu dominaria a
situação.
— Cuidado, o Mr. Hyde pode estar escondido em outras pessoas, até mesmo
em mim!
— Não acredito que um monstro possa se esconder atrás de um doce anjo
como você!
— A visão nos prega peças doutor, quer na escuridão da noite ou na lumino-
sidade do sol sobre o deserto. Enxergamos aquilo que mais tememos ou, em certas
vezes, o que mais desejamos ver. Outras vezes, ainda, aquilo que outros querem que
vejamos.
— Precisamos conversar mais sobre isso, minha cara.
Nos dias seguintes, Ariel conseguiu evitar os encontros com César. Incon-
formado, numa atitude desesperada, resolveu sequestra-la. Talvez ela pudesse se in-
teressar pelo seu outro lado. Com apoio da sua facção criminosa ele levou-a até seu
esconderijo.
Para surpresa dele, Ariel estava tranquila e segura, mesmo numa situação de
aparente inferioridade. Incorporando o Sombra ele tentou submetê-la aos seus dese-
jos. Retirou a venda dos olhos dela, manteve-a amarrada pelas mãos, sentada a uma
cadeira. Aproximou-se, aspirou o perfume dela. Disfarçando a voz, disse:
— Das sombras desta cidade eu a observo e sonho em encontrá-la.
— Um admirador que precisa amarrar a pessoa admirada para chamar a aten-
ção. Me parece um ato de covardia — afirmou Ariel, com ar de indiferença.
— Não quero maltratá-la. Apenas conhecê-la e oferecer a oportunidade de
me conhecer também. Saiba que posso realizar qualquer desejo seu.
— Tenho certeza que não queira realizar o meu principal desejo: sua morte.
— Vejo que muitos falam mal a meu respeito. Sou mal, mas também posso
ser bom, generoso com as pessoas que me são caras.
— Não preciso da sua generosidade.
— E se não tivesse alternativa? — perguntou César.
— Me obrigaria?
— Posso fazê-lo, com facilidade, porém a julgo especial. Gostaria muito de
conquistar o seu respeito, o seu carinho. Nunca admirei tanto uma mulher quanto
admiro e quero você.
— Conseguir o meu respeito, escondido atrás de uma máscara?
— Na hora certa, verá o meu rosto.
Ele segurou o rosto dela pelo queixo, olhou no fundo dos olhos dela, na es-
perança de conseguir algum efeito sobre seus atos. Mais uma vez suas técnicas não
funcionaram.
César não entendia como qualquer argumento ou técnica utilizada não surtia
efeito sobre ela. Também não compreendia os sentimentos que tomavam conta dos
seus pensamentos antes movidos só pela razão, pela fria lógica cartesiana e egoísmo.
Numa nova tentativa de ganhar a confiança dela, simulou um resgate, onde
o Protetor apoiava as autoridades locais na busca. Conseguiu um abraço de agrade-
cimento, quando soltou a mordaça e as cordas que a amarravam. Isto o encheu de
esperança.
Ele procurou o Secretário de Cultura, que lhe devia alguns favores. Pediu
que oferecesse para Ariel o cargo de Diretora do Instituto de Artes. Ela aceitou o
bom salário para continuar fazendo o que mais gostava. Porém, ela mantinha César
distante.
Ariel despertou a ira de César quando começou a se relacionar com um rapaz,
um fotógrafo recém-chegado na cidade. O Sombra ordenou a execução do intruso,
porém, inacreditavelmente, o sujeito conseguia escapar de todas as emboscadas. A
presença dele era muito forte, insuportável para César. Passou a vigiar os movimen-
tos de Sigmund.
Precisava de Ariel ao seu lado. Com o pensamento nela, deixou de lado os
seus projetos, perdeu vários dos membros das equipes de ambos os lados e quase
foi pego em emboscadas quando incorporava uma e outra personagem. Passou a
ter medo da morte. Só podia ser Sigmund o responsável pela instabilidade que se
instalara, pensava ele.
Acreditava que Ariel poderia lhe devolver a tranquilidade. Partiu para uma
ação desesperada: dividiria com ela seus maiores segredos. Seria uma prova de amor.
Entregaria nas mãos dela a sua vida e o destino dos mundos que criara.
Enquanto aguardava a chegada do seu anjo, conferiu se tinha todas as infor-
mações para convencê-la. Verificou a temperatura do ambiente, ajeitou as flores no
vaso da sala. Ajustou o colarinho da camisa e, suspirando, lembrou-se do rosto de
sua amada.
O som do telefone celular interrompeu o silêncio no ambiente. Estava tudo
certo. O estúdio fotográfico de Sigmund fora pelos ares. O fotógrafo descansava no
local.
A secretaria anunciou a chegada de Ariel. Para surpresa de César a pessoa que
adentrou sua sala parecia muito diferente daquela que esperava. Ela trajava uma rou-
pa de couro negra, colada ao corpo, longos cabelos negros e soltos, lábios coloridos
por um vermelho intenso e uma maquiagem acentuada sobre a face. Parecia gigante.
Ele levantou-se para recebê-la, ela seguiu a passos firmes em sua direção. Fi-
cou tão próxima que César podia sentir a respiração dela.
— Então, devo chamá-lo de Protetor ou de Sombra? — perguntou Ariel com
ar de desafio.
— Espero que me permita explicar-lhe, de falar-lhe dos meus motivos e das
coisas que aprendi durante os últimos meses! — disse César ainda surpreso.
— Não perca seu tempo! — disse Ariel dando as costas para César.
Ela deu dois passos e virou-se novamente em direção a ele.
— Acreditou ser o único a ter poder sobre as pessoas? Achou que poderia
guardar seus segredos por tanto tempo? Olhe para mim! — disse ela, num baixo e
sedutor tom de voz.
Seria a oportunidade tão esperada, pensou ele, olhando no fundo dos olhos
dela. Ela sorriu, sentindo que dominava a situação. Ele mostrou-se totalmente re-
ceptivo, preso pelo brilho no olhar dela. Ela disse algumas palavras numa língua
desconhecida para ele, tocou sua fronte e em poucos segundos César não tinha mais
controle sobre suas próprias ações.
Sob o comando de Ariel, ele deixou a sala. A secretária parecia alheia ao que
se passava, como se estivesse em transe. Tomaram o elevador até a cobertura do
edifício.
César ficou em pé sobre o parapeito. Ela ordenou que ele virasse em sua di-
reção.
— Idiota! Achou que poderia manipular todas as pessoas à sua volta? Você
não se lembra de mim antes daquela noite no teatro, não é? — perguntou-lhe Ariel,
irada — Eu fui sua colega em sala de aula, no quinto ano. Chamavam-me Angel. Por
sua causa eu fui ridicularizada e obrigada a mudar de escola. Você se sentia ameaçado
por mim.
— Você está enganada e se o fiz foi de maneira impensada. Éramos muito
jovens.
— Naquela época, até então, eu não tinha tomado consciência dos poderes
da mente. Jurei que me vingaria! Pois bem doutor César, eu acompanhei à distância
todos os seus passos.
— Não é possível, eu sentiria a influência de outra energia.
— Olhe para baixo! Veja quem lhe observa!
— Sigmund, não é possível! Ele deveria ter explodido junto com o estúdio!
— O nome verdadeiro dele é Charles, também nosso ex-colega de classe.
Éramos especiais, nós três. Poderíamos ter feito grandes coisas juntos.
— Ainda podemos fazer muitas coisas juntos, Angel. Tenho tudo que preciso
aqui, podemos conseguir muito mais juntos. É um sentimento novo para mim: amo
você Angel!
— Eu o odeio, com todas as minhas forças!
— Tudo por conta de uma transferência de colégio quando ainda éramos
crianças?
— Não. Tudo pelo poder. Eu e Charles somos os mais fortes.
— Eu sou mais poderoso! Não consegui rastrear força maior que a minha no
planeta. Só não a destruo porque a amo! — gritou César.
— Engana-se! Você não tem nada, não está no comando, muito embora eu
tenha conseguido que você pensasse assim. Se sentia tão seguro, absoluto que se
esqueceu da proteção contra a sugestão hipnótica a distância. Foi assim que eu o
manipulei.
— Eu estou no controle, você vai ver! — esbravejou César.
César não conseguia controlar os próprios movimentos do corpo. Fez o má-
ximo esforço que pode. As pessoas que andavam pelos arredores gritavam de dor,
afetadas pelas projeções de pensamento e energia de César. Angel e Charles perma-
neciam imunes.
— Me conceda um último desejo? — implorou César.
— Acho que posso fazer isso por você.
— Um último olhar em seus olhos — pediu, acreditando que poderia retomar
o controle.
Angel aproximou-se, olhou no fundo dos olhos dele, quase tocou os lábios
nos dele. César pode sentir o seu hálito. Porém ela desferiu um tapa em seu rosto,
imprimindo a marca de seus dedos na pele dele. Ela repetiu mais algumas palavras
no estranho idioma. César tentou resistir, praguejou contra ela. Ariel executou um
novo comando.
César virou-se, olhou mais uma vez para Charles que sorria e que lhe fez um
aceno de despedida. Naquele momento César não incorporava nenhuma persona-
gem. Era apenas um sujeito solitário, sem amigos, sem amor e sem poder. Lançou-se
no vazio.
Lá embaixo uma multidão cercava o corpo esmagado contra o asfalto. Uma
chuva fria caia agora sobre o corpo inerte, enquanto a doce jovem, carregando a
tiracolo uma bolsa de bailarina, cabelos presos, roupa leve e andar suave, saia do
elevador do prédio e passava despercebida pelos seguranças que corriam até o topo
do edifício.
— Aqui é o Sombra. Fim da linha para ele, assuma você o papel do Protetor!
— disse Angel ao telefone, indiferente.
DE UM LUGAR
CHAMADO LUXÚRIA
19 Yuri Gonçalvez

— Desdê, está acordada?


— Hm?… Sim… Mais ou menos.
— É o Kid, ele te chamou. Parece que houve algum problema na última en-
trega.
— … Diga que já vou. Quantas vezes já não aconteceu “algum problema” esse
ano… Talvez seja hora de eu mudar de vida mesmo.
Por quanto tempo Luxúria não foi o refúgio dos drogados de Antros. Cidade
noturna, alheia à ordem, Luxúria foi levantada sobre tudo o que há de pior no uni-
verso; cidade noturna, vizinha do inferno, Luxúria é onde fiz minha vida. Com Kid
não foi diferente— esse homem parece que nasceu nesse buraco. Mais um problema
na entrega, então, o que será agora? Nesses oito anos de vivência, quanta coisa já não
tive que resolver… Enfim, não vim pra Luxúria senão para ganhar dinheiro— e isso
ela me garante. Que tipo de problema, então, teremos hoje?
Chegar ao Beco é sempre uma emoção a mais. Os cabeças de Luxúria se re-
únem aqui para discutir seus próximos movimentos, manter as diplomacias, trocar
capangar, propor ideias e executá-las; tudo acompanhado de Syn-X, a droga sintética
que circula em Lux como ar. Syn-X 1, Syn-X 2, Syn-X 3, e a lista vai; quantas va-
riantes dessa merda já não existe? Apesar do ar de importância dessas mesas, estes
caras não estão nada mais que entorpecidos até o limite humano; julgam realmente
discutir próximos movimentos, manter diplomacias, etc. Luxúria é uma cidade de
mentira; todo mundo acha que está fazendo alguma coisa, mas, na realidade, só estão
com o cérebro corroído de drogas, fantasiando coisas. Luxúria é linda quando se está
sob o efeito do Syn-X— e fica mais ainda conforme a intensidade da droga. Os que
perdem o efeito, têm que voltar pra realidade, fazer algum trabalho nesse lixo de
cidade: se livrar de algumas carcaças humanas que explodiram as cabeças tamanha
empolgação sob o Syn-X; fazer algum serviço pros condes da noite; roubar algum
lesado em algum lugar, esperando não ser descoberto; e a lista segue— e segue muito.
De tudo isso, uma ou outra coisa não fiz. Frente a sala do Kid, me pergunto, mais
uma vez, qual será meu trabalho.
— Ó, Dêmona, como é bom vê-la! Venha, venha, tenho um trabalho pra
você. Sente-se. Isto. Como é bom olhar pra esses olhos verdes mais uma vez. Numa
terra onde todo mundo cospem os olhos pra fora das órbitas, vê-los assim, calmos,
serenos, me causa um efeito simplesmente… instigante! Como eu te amo, mulher!
— Vamos lá, Kid, sem isso. O que pega? E o que esses dois degenerados estão
aqui ainda?
Havia dois fodidos do Kid na sala, e eles me incomodavam muito. Dois ca-
beludos com porte esquelético, quase se despedaçando por si só; curiosamente, eram
“seguranças” do careca. Kid era uma pessoa boa, apesar do lugar em que estávamos.
Ele tinha uma vozinha fina, doce, e a aparência de um touro, e claramente poderia
resolver seus problemas por si só, sem a ajuda das marionetes horríveis que ficavam
em sua sala. Ele pediu pros dois saírem, e assim eles fizeram, sem falar muita coisa,
como se fossem realmente marionetes.
— Pra que caralhos você usa esses caras, Kid? Uma porretada e eles se espa-
tifam. Aliás, como diabos eles sobreviveram todo esse tempo? Desde que te conheço
esses caras estão aqui.
— Ah, deixe eles, por favor, Dêmo. Por que você implica toda vez com eles,
aliás? São meninos tão bons: Rod e Rig, os irmãos trapo, homens tão distantes dessas
terras, que transcenderam. São camaradas perfeitos, eles, Dêmo, não reclamam de
nada e fazem de tudo; mas, como você disse, “uma porretada e eles se espatifam”, e
é por isso que eu te chamei; e te chamo. É o seguinte, Dêmona, Rig fez uma entrega
ontem e tudo parecia ocorrer bem. Três caixinhas de Syn-X 2, num apartamento lá
na Fossa, aquele bairro das “coisinhas secretas”, sabe, né? Há gente pra tudo nesse
mundo! Então, o que pegou foi o seguinte: o conde de lá veio aqui hoje me dizer
que estou fornecendo Syn-X adulterado, e que uns vinte cidadãos de bem morreram
por causa do produto que mandei pra eles; era o Syn-X de ontem que o Rig levou.
Como eu não posso dar uma resposta pro conde sem antes ter averiguado a situação
de perto, estou te enviando pra lá justamente pra isso. O conde, inclusive, está aqui.
Odek, pode entrar!
Um sujeitinho de óculos, baixinho e franzino entrou. Estava trajado de ma-
neira elegante, o pobrezinho, tentando provar sua importância através da roupa que
usava, não da aparência que tinha— quem o visse sem as roupas, com certeza o toma-
ria por um pigmeu entorpecido, viciado no mais forte Syn-X. Ele me olhou de cima
a baixo, deu uma risadinha e voltou-se para o Kid, mas, assim que o fez, grudei-lhe
pelo pescoço e coloquei-o contra a parede. O que pensou quando olhou pra mim?
— Riu por quê, desgraçado? Algum problema comigo?
— Ah, Mona, não faça isso! Nada como a de Otelo, nada, nada! Solte o rapaz.
Isso vai me causar ainda mais problemas, Dêmo.
— Vejo que não anda cuidando bem de suas cadelas, Kid; elas andam violen-
tas.
Ao ouvir aquilo, senti-me na completa liberdade para espancá-lo, e assim
o fiz. Kid levava as mãos à cabeça, começava a murmurar algumas coisas, e o ho-
mem no chão se defendia como podia. Pisoteei o homem até não aguentar mais, e
ele eventualmente apagou. Kid chamou os irmãos e eu fiquei olhando pro nojento
jogado no chão.
— Bem… Não era exatamente isso que eu precisava de você, Mona, mas acho
que tenho de me contentar. Provavelmente virão atrás dele em breve, e eu quero que
você tenha uma boa explicação para eles, pois eu não tenho. Rod, Rig, levem esse
coitado lá pra fora e peça para que comunique os amiguinhos dele sobre o ocorrido,
eles estão na mesa 13. Oh, Mona, você é incontrolável. E agora, o que vou fazer?
— Kid, eu te conheço. Você me chamou aqui pra dar uma surra nesse vaga-
bundo. Pare de dramas. Me diz o que tenho que fazer agora. Mesa 13?
— Calma, calma. Não se adiante. Deixe o pessoal lá, eles estão à vontade,
consumindo do bom e do melhor, e serão eles quem farão teu pagamento hoje. Eu
preciso de algo diferente. Esse conde aí queria ir contigo pra lá, e isso atrapalharia
a investigação; eu temo que eles armaram algo pra nós lá. Eu nunca trabalhei com
Syn-X adulterado. Eles provavelmente querem aplicar um dos velhos golpes do ne-
gócio: sequestrar alguém de confiança de um conde pra trocar em carregamentos do
nosso Syn. Quero me certificar de que não é isso, então tirei o homem da jogada. Eu
me resolvo depois com ele, não se preocupe. Se o negócio realmente pegar pro seu
lado, eu te arranjo um jeito de voltar pra Antros com tudo o que você quiser; você
não precisa mais viver nesse buraco, Mona, você merece mais que isso. Vá até o
apartamento onde foi feita a entrega e investigue; o que encontrar lá, traga pra cá. Se
realmente tiver sido adulterado, então temos um grande problema, pois começamos
a usar aquele carregamento hoje mesmo… Que barulho é este?
Barulhos de todo quanto é tipo eclodiam além da porta de Kid. Ao abri-la, a
cena mais brutal se desenhou pelo arco da porta. Os condes, seus capangas, e todo
o resto, se espancavam mutuamente, fazendo jorrar sangue pelos salões do Beco,
num frenesi nunca antes visto. Kid pediu para que eu fechasse a porta e se mantinha
calmo, apesar de tudo.
— Que porra é essa, Kid? O que está acontecendo?
— É uma longa história, Desdê. Só alguém que conhece meu passado poderia
compreender isso. Eu sei que você é uma das poucas nesse lugar que não usam o
Syn-X, que encaram essa realidade como ela é, esse buraco imundo que é Luxúria.
Você não merece isso. Ninguém merece isso. Eu trabalhei essa fórmula e fiz ela ser
espalhada pela cidade. O caso de ontem, do apartamento, foi controlado, pra com-
provar a funcionalidade da droga. Realmente todo mundo lá morreu, mas porque
estávamos lá pra abatê-los; caso contrário, Fossa estaria tomada por gente tipo essa
aí de fora. Luxúria vai se tornar um inferno de agora em diante. Essa droga é um
psicoativo poderosíssimo que fará com que todo mundo entre num estado extrema-
mente violento, e ela é contagiante. Eventualmente, as ruas serão tomadas pelo caos.
Você, Mona, é uma das únicas pessoas que não usam o Syn-X, e é por isso que você
está aqui. Desdê, espalhe meu nome. Eu acabei com Luxúria, eu fiz o que ninguém no
mundo poderia fazer. Essa é minha contribuição para o mundo, e é por isso que que-
ro ser lembrado. Há um motoqueiro te esperando na viela de trás do Beco, que você
pode chegar por essa porta atrás de mim. Meu trabalho foi feito, deixe-me só. Foi um
prazer. Eu queria te dizer que isso é coisa de sua cabeça. Que você usou o Syn-X e é
tudo mera criação da droga, mas não, meu anjo. É o fim, realmente. Vá, fuja. A rea-
lidade de Luxúria nunca foi espaço pra você. E, após testemunhá-la também, soube
o quanto você sofreu nesses oito anos. Se for pra viver isso aqui, é melhor não viver.
Fui incapaz de interromper o que veio a seguir. Kid explodiu a cabeça com
um revólver. A gritaria continuava, lá fora, e tudo parecia se quebrar. O caos, como
disse Kid, tomaria conta de Luxúria. Eu estava atônita, e procurava injeções em meus
braços, pois aquilo não poderia ser real. Nada. Não podia ser. Eu peguei o revólver de
Kid e fui pra viela. Eu sairia dali viva, não importa como. Este foi meu compromisso.
Luxúria acabou. Saio com uma mão na frente e outra atrás, mas, ao menos, sairei
com vida— coisa que pouquíssimos, ainda mais agora, irão. Lá estava o motoqueiro.
E lá estava a multidão que o cercava, estraçalhando cada pedaço de seu corpo. Vitros
se quebravam pelas ruas, uma gritaria constante ecoava pelas vias. O inferno era
aqui. Acordar na normalidade e dormir num apocalipse. Este seria o dia de hoje, se
eu dormisse. A porta do escritório foi arrombada, corriam em direção a mim aqueles
mesmos cabeludos de mais cedo— injetaram agora, será? Não, não haviam injetado
nada. Logo cravaram-lhes pedaços de vidro nas costas. Ainda gritavam por socorro.
E assim o fiz também. Mas era tarde demais. Já me cercavam. Eu atirava, mas não
havia força que poderia parar o ímpeto dos drogados. Sim, eu não dormiria hoje.
Seria isso bom ou ruim?
23 VERMELHO
Ana Nogueira

Colocou a sua capa de chuva que havia sido o último presente que seu pai
lhe deu e desceu pela escadaria cheia de ferrugem. O perigo era duplo, porque se não
bastasse o estado pouco conservado das escadas ainda havia a chuva que ia deixando
tudo escorregadio.
Érika somente respirou aliviada quando sentiu o chão frio embaixo de seus
pés.
— Pensei que você tivesse mudado de idéia.— disse Rogéria, sua melhor
amiga, no momento em que se encontraram. A menina tinha um irmão gêmeo cha-
mado Rogério e os pais acharam que seria uma boa idéia os gêmeos terem nomes
iguais. O menino também iria com eles na aventura porém as esperava perto da
ponte que seria o ponto de encontro para que depois seguissem rumo ao cinema.
— Eu disse que vinha não disse? Mas essa chuva não ajuda muito. — disse a
menina se colocando debaixo da sombrinha da amiga. As duas riram juntas por um
momento. Estavam animadas, mesmo que ainda não tivessem escolhido o filme.
— O Rogério ficou na ponte coberta porque ele não queria pegar chuva, ele
queria que eu ficasse com ele, porém não ia deixar você vim sozinha.
— Agradeço, amiga.— disse a menina pensando em como tinha escolhido
realmente bem a sua melhor amiga.
Érika sabia o porque da amiga ter vindo a acompanhar, não tinha muita re-
lação com a chuva, tinha mais relação com o fato de que a rua estava meio deserta.
No chão várias poças haviam se formado. Caminhava com cuidado, porém
isso não impediu que seu pé afundasse em uma delas. Ao olhar para baixo a menina
pensou ter visto algo de diferente naquela poça. Era como se um líquido vermelho
tivesse sido diluído recentemente e ainda não tivesse se misturado completamente
com a água.
A garota estava de sapato fechado, mas ficou preocupada de ter algum corte
escondido e o sangue ser dela, porém logo reparou que essa teoria não era válida, pois
passou o resto do caminho reparando nas poças e notou que a situação se repetia em
todas. Começou a ficar com um certo medo, pois era quase como se tivesse gotejando
sangue de algum lugar diretamente nas poças. Olhou para os lados e não viu nada
de diferente. Saiu de baixo da sombrinha por uns momentos, para olhar para o alto,
mas novamente tudo conforme a normalidade. Porém o medo crescia a medida que
foi notado que o líquido vermelho foi ficando mais forte a medida que avançavam.
— Rogéria, acho que tem algo de errado. Olhe para as poças de água.
A amiga estava distraída pensando no compromisso que teriam e nem olhava
para o caminho.
— Érika, estamos meio atrasadas. Deve está uma fila do lado de fora do cine-
ma, ainda mais que hoje é entrada franca. Além disso, essas poças parecem úmidas
e normais como todas as outras.— disse não passando nem dois segundo olhando
para as poças e depois completou olhando para amiga— Deve ser o tempo frio que
lhe faz imaginar coisas.
Ainda ia falar mais alguma coisa, porém o barulho de um carro se fez ouvir,
dessa vez Rogéria ouviu também e ficou meio tensa. O veiculo parecia está andan-
do lentamente, o que não fazia muito sentido, pois a rua estava deserta e não tinha
motivo para que ele fosse nessa velocidade. O medo aumentou quando o veiculo
começou a segui-las de forma lenta e sinistra. Olharam-se pensando se correr seria
a melhor opção.
A maioria das janelas estava fechada por conta da chuva então pensaram que
gritar talvez não fosse uma boa opção, pois poderia apenas irritar mais o seguidor
delas e talvez o socorro não chegasse a tempo, porém não conseguiram conter o gri-
to quando a porta do carro começou a se abrir lentamente e um braço enluvado fez
menção de puxar uma delas para dentro do carro.
Correram sem direção, o cinema e os amigos ficaram esquecidos assim como
a sombrinha caída em algum ponto, depois de um tempo notaram que não tinham
para onde correr. Estavam diante de uma rua sem saída. O carro parou e ouviram
passos se aproximando cada vez mais rápido. O homem do carro deve ter percebido
que era mais simples as pegar sem o carro. Haviam as encurralado naquele local.
O medo tornou o clima ainda mais frio. A chuva estava um pouco mais fraca,
porém o local continuava meio deserto. Mesmo cega pelo medo a menina reparou
que as poças voltaram a ficar com o vermelho diluído. Sentiu um líquido mais espes-
so molhar a sua cabeça e escorrer lentamente.
O homem mau e o capanga dele as encarou com um sorriso maldoso se apro-
ximando de forma lenta como um leão que ver as presas. Um deles segurava uma
faca. Encostada na parede da rua sem saída Érika começou a sentir o líquido espesso
gotejar ainda mais chegando a molhar sua blusa e casaco. As poças próximas come-
çaram a ficar ainda mais vermelhas. Foi quando ouviram um barulho como de bater
de asas e por um momento foi como se o tempo parasse.
Um ser pousou na frente delas, se colocando entre as meninas e os homens.
Ele tinha longas garras e dentes afiados. De sua boca semi-aberta uma gosma ver-
melha escorria, parecia sangue misturado com outra coisa mais pegajosa. Os homens
que eram os predadores se tornaram as vítimas. Com apenas um rápido movimento
da garra do dedo menor, que era afiada como um bisturi, o monstro cortou o rosto
do homem e logo depois o peito que segurava a faca e o obrigou a derrubar a arma
no chão. O outro homem ao tentar fugir sentiu uma dor nas suas costas. Era a garra
maior do monstro que entrou atravessando músculos e ossos e atingindo em cheio o
coração que ainda tentava bombear o sangue.
A criatura olhou por um momento para as meninas, mas desde o começo
Érika sentiu que ele não ia lhes fazer mal. A criatura levantou voo carregando um
daqueles homens e deixando as meninas ainda assustadas para trás. O sangue do
homem escorria e pingava em uma poça próxima, o vermelho se diluindo as poucos
na água parada.
27 MOLOCH
Vitor Luiz

Tantos são os que jamais tiveram um só momento de paz. Muitos são os que
esperam o dia nascer para secar as lágrimas. Cinzento era o final daquela tarde. O sol
de sábado já buscava abrigo por entre nuvens negras; o horizonte agora contrasta
com o que fora um ensolarado dia. Tudo está morno e sem cor. Não há som algum lá
fora. Existe apenas culpa e dor.
A garota se atrapalha um bocado com as chaves na fechadura. Entra cor-
rendo tropeçando nas próprias pernas. Na pressa deixa a porta aberta e corre pelos
pequenos cômodos, atirando a bolsa entreaberta no sofá e ajoelhando-se em frente
ao sanitário; a oração feita em bílis da mais nova devota no altar dos santos tristes.
Pelo zíper mal fechado na bolsa de couro sintético, vê-se o panflete branco
e azul com um título em caixa alta. Sobre colunas de textos ilegíveis por conta do
tamanho das letras, apenas se pode identificar o duplo “P”. A garota de joelhos suja o
chão num descontrolado jato de vômito e se contorce de dor segurando o abdômen.
Está fraca e mais pálida do que sempre fora. Seu corpo frágil por mais uma vez se
debruça sobre o assento e o febril azedume é expelido de sua garganta. Ela se senta
e encara a parede por alguns segundos, enxugando a boca com as mangas da camisa.
*
No turbilhão que existe em sua mente não há espaço para outra coisa, a não
ser o ocorrido daquela tarde. A violência auto infligida, o cheiro de morte ainda nas
roupas, a dor que não cessa e parece agora residir no peito. Por fim reúne forças e se
levanta, ainda tonta pela segunda intravenosa dada pelo negro e profano sacerdote.
O pequeno espelho rachado reflete seu rosto jovem e macio. É uma pele tão
branca que se pode ver o conjunto de veias esverdeadas em seu braço. Lentamente
ela tira as roupas. As peças vão se acumulando umas sobre as outras num canto.
A pélvis inchada e vermelha. Os quadris doloridos. Ela ainda pode ouvir o som da
sucção.
A água cai como num batismo. Cada gota parece passear pelo seu corpo nu
enquanto ela encosta a cabeça na parede e se deixa massagear. Os dedos dos pés se
contraem; criam pequenas ondas pelo chão que rapidamente se empossa por conta
do ralo fechado. Rezaria, se soubesse, para que devagar a água subisse e se tornasse
uma só coisa com ela. Um aquário frente aos pequenos dedos que lhe apontam en-
tusiasmados.
*
Na sala a fumaça passeia pelo ar. Alça voo livremente misturando o seu chei-
ro com o do vinho barato num copo impróprio para tal. Mesmo a tevê ligada não
a distrai. O relógio de Fritz Lang torna-se o que repousa em sua parede — “Father!
Father! Will ten hours never end?” — seus profundos olhos são janelas para um
prédio oco.
A casa pouco a pouco mergulha numa escuridão histérica. Apenas os pon-
teiros vagarosos podem ser ouvidos de seu quarto, juntamente com seus passos des-
calços no piso frio. A cama não parece tão confortável como antes. Está dura com o
fundo de um caixão sobre terra plana e sob a remexida ainda fofa. As cobertas são
como mortalhas que cobrem seu cadáver vivo; o anúncio de um banquete eterno aos
famintos vermes que propositalmente se atrasarão para o jantar.
Deitada de lado, repousa a cabeça nas mãos e esquenta a fria orelha, dobran-
do a cartilagem e fazendo um zumbido surdo dentro de sua cabeça. Olhando para a
parede apenas uma lágrima inexpressiva escorre, atravessando o topo do nariz, mar-
cando a outra bochecha e manchando o travesseiro onde metade de seu rosto tenta
se esconder; quando feliz, o diabo nunca dorme. De barriga para cima ela encara o
teto nu e branco mergulhada no silêncio claustrofóbico e ameaçador; nem mesmo
a noite parece existir lá fora. Tudo está dormente e o ar pesado no quarto afugenta
até mesmo os pesadelos. Exceto um, que de pesadelo tinha bem pouco, e a observa
no final da cama.
Agora sentada pega o maço de cigarros no criado mudo. A fumaça canceríge-
na é sua única companhia, mas até mesmo as toxinas presentes parecem ter vergonha
de com ela serem vistas; saí a contragosto e sem sabor pela boca que disse “sim”, e
some rapidamente sem se despedir ou olhar para trás. Seu rosto estático se desvia
apenas o suficiente para ver a porta aberta e o chão. De imediato leva as mãos ao
rosto e chora copiosamente olhando o que lá estava, como se cada detalhe, cada vír-
gula, cada esquina do que deveria ser e não mais o é, pudesse ser absorvido pelos seus
sentidos; aquele pequeno intervalo de tempo no espaço vazio, donde outrora houve
uma alma com tantas promessas esculpidas em caco de vidro.
*
Como sempre o sol nasce vigoroso e zombeteiro. São quase sete da manhã.
Ela não dorme há quatro dias. O lixo se acumula pela casa. Maços de cigarro e gar-
rafas de vinho pelo chão e pela mesa. A tevê desligada. O piso parece ter um carpete
feito com pontas de cigarros apagadas a esmo; o carpete vermelho de uma rainha
sem príncipes. De pé num canto da sala ela encara a sujeira da casa como se olhasse
diretamente para dentro de si.
O cheiro forte de janelas e portas fechadas lembra mofo, poeira e qualquer
coisa que já começava a apodrecer no fundo da pia. O ar é quase sólido. Ao lado de
cinzeiros cheios e copos cansados manchados de vinho, o celular toca. São mais de
vinte chamadas perdidas onde se lê “Mãe”. Ela apenas observa o aparelho tremer e
acender. O nome escrito na tela parece martelar seu cérebro a cada zumbido grave
que faz sobre a mesa. Tremendamente ensurdecedor. É como se as paredes tremes-
sem ou escavadeiras disputassem uma corrida dentro de seu crânio.
Sua lastimável aparência reflete-se mais uma vez. Nem ao menos lembra a
doce e bela garota que um dia fora. Suas olheiras negras profundas, o cabelo en-
sebado e quebradiço, o odor de um animal há muito enjaulado. Num espasmo de
consciência o chuveiro parece apetitoso. Em ébrios passos ela caminha entorpecida
até o banheiro. Dessa vez sentada, deixa que a água caia sobre si numa cascata dolo-
rosa e aflitiva. Ali as lágrimas não podem ser percebidas. Todavia existem, mesmo
camufladas.
*
O tempo é sólido dentro da casa. Passa como se cada segundo durasse o pró-
prio existir do universo. Mesmo assim as noites e os dias ainda são percebidos pelas
janelas fechadas onde as cortinas já caíram há muito. No chão, mesmo convidativo,
nem baratas se aventuram. Sentem nojo de vê-la sentada naquele canto. A poça es-
cura formada pelo que da garrafa ainda goteja, faz companhia ao único movimento
que seu cansado corpo faz; a parábola traçada entre o repouso do cigarro e os lábios
rachados e gosmentos.
Antes apenas surgia vez ou outra, mas agora também mora ali. A sua única
companheira e testemunha que um dia tentou ser mais que isso. A garota de pele
outrora macia, sorri ao vê-la novamente se esgueirando por baixo do sofá. Tímida e
com medo ao perceber que era notada, some novamente, mergulhando a entorpeci-
da moradora em lágrimas soluçantes que apagam o cigarro — Durma tranquila e que
Morfeu te carregue. O diabo no armário tem um sono leve — e insistem em rolar e
pingar no chão sujo, lavando as pegadas feitas pelo verdugo.
*
Aquela noite chegou junto com o frio. A garota de pele macia está em seu
trono de lixo e restos, sentada no chão e encostada na parede. Seus olhos fixos igno-
ram a fumaça que sai pelo nariz e pela boca. Hipnotizada ela continua a olhar para
frente, como fez nas últimas seis horas, parando apenas para acender um novo cigar-
ro.
De costas para si a criança brinca com bonecas imaginárias. Seu vestido bran-
co e virginal recebe os longos e dourados fios loiros que lhe cobrem o rosto. A essa
altura uma já se acostumou com a presença da outra. Mesmo assim a criança ainda
teme sofrer novamente. É arredia e desconfiada, mas sempre se aproxima e logo
sorri.
De costas ela ergue o pescoço e se contorce em estranhos e repetitivos mo-
vimentos. Vez ou outra parece sentir dor. Reconhece pelo cheiro que os profundos
olhos insanos lhe observam, contudo isso não mais a assusta. Ela retorna ao seu
brincar como fez durante toda aquela semana, enquanto a garota, consumida pela
própria amargura, permanece imóvel; teme que qualquer movimento brusco a afaste
novamente — um brinde ao barqueiro!
*
O quarto fechado está menos fétido que o resto da casa. Nele o silêncio é
maior. Já passam das quatro da manhã. Dali duas horas nascerá outro sábado. A casa
parece ocupada por viciados em drogas e moradores de rua. Não há o mínimo de
higiene e parece ser possível pegar uma doença ao se sentar no sanitário. A garota de
pele outrora macia, agora cinzenta e quebradiça, está deitada na cama fumando outro
cigarro, pego do maço que repousa ao lado de frascos de remédios e uma solitária
garrafa de vinho.
Tal como a casa ela também se deteriora consumida na própria miséria. Seu
rosto entorpecido encara o resto da grande cama. A criança brinca de costas sentada
aos seus pés. Seu rosto inexpressivo logo dá lugar a um sorriso alcoólico calmante,
que antecede um grito desesperado revelando veias pulsantes em seu pescoço pelo
tamanho esforço. Todavia nada é ouvido. Exceto pelo tiquetaquear do relógio na
parede, nada mais parece emitir som algum na casa.
Assim como antes do amanhecer, a noite permanece silenciosa. Em seu
canto favorito, onde o trono da realeza feita em lixo lhe serve perfeitamente, a garo-
ta, que um dia teve a pele macia e delicada e não ferida e gelada como agora, perma-
nece encarando o que há em sua frente. Não há mais dor. As lágrimas já não existem;
todas foram choradas até não sobrar mais nenhuma. Ela apenas sorri — o sorriso de
um milhão tons.
O cigarro que fumava não mais pode ser segurado visto a falta de controle nas
mãos; os profundos cortes nos pulsos impedem qualquer sustentação por parte dos
dedos. Ela se contenta em assistir enquanto tudo ao seu redor esfria mais ainda e sua
pele fica um tanto azulado.
A criança em sua frente dança balé em passos sincronizados e perfeitos. Seus
pés brancos descalços tocam o chão levemente sobre cacos de vidro e cigarros apaga-
dos. A casa mergulha num último silêncio. Guardanapos de seda na mesa de Jantar.
Lábios ruidosos que se saciam. A praia dos músicos invertebrados. O rosto dos ino-
centes indispostos. A ruína do templo de Ísis. Allen Ginsberg molhado sob a cama.
30
RECEITA (DE AMOR)
Soeli Tiegs

Preparava a mistura: uma xícara de farinha de milho, duas de açúcar (muito


doce, pensou), uma de leite quente, outra de óleo, meia de chocolate amargo, quatro
ovos, uma colher de sopa de fermento, óleo e fubá para untar. Quarenta minutos a
cento e oitenta graus, no forninho elétrico pré-aquecido.
Rudolf van den Stein era assim, digamos, bem-acabado, esmerado, aplicado,
apurado, aprimorado, quando tencionava algo.
Fechou a porta da cozinha. Um pouco da janela também. Era motivo de cha-
cota por estes cuidados com o soprar do vento, mas e se o bolo sem glúten desanda?
Não! Abriu rapidamente o aparelho. Esquecera do principal: meia xícara de
nozes e amêndoas, ao natural, picadas por igual, com sua super afiada fina faca pon-
tiaguda, da qual até ele tinha considerável receio. Ficava na bainha original, como
viera na revista, cuja função primeira seria partir tomates cereja, que ele detestava.
Já a cor...
Destemido, obstinado por leitura, Padre Vieira lhe supria:
“É a guerra aquele monstro, que se sustenta das fazendas, do sangue, das vi-
das, e quanto mais come, e consome, tanto menos se farta.”
Dos próprios escritos, o preferido, inspirado na ex:
“Lobos Cerebrais
Agonia, não respirava, pensava, pensava, enlouquecera? Enlouqueceria?
E seu cérebro borbulhava larvas e demônios, não conseguia respirar, e sua
ânsia lhe arrancava os cabelos, com caspas, e jorravam minhocas em frenesi, ge-
mendo, e viravam setas que fincavam e dilaceravam. Não, borbulhavam gosmentas
serpentes picantes com seus uivos felinos, então eram gigantes, então se foram e
ficou o vazio (ou o oco).
E pipocavam, devoravam o cérebro e se instalaram no vazio.
E seu cérebro se abriu em dois, de um lado minhocas, do outro serpentes,
larvas ao fundo que borbulhavam nas fezes, e iam enlouquecendo, e se consumindo,
e pensando se e que e para que tal coisa, saiam pelas orelhas, nariz, iam garganta
adentro.
Porque falava sem pensar, ficava nervosa, e depois não dormia, demônios
vociferavam, reverberava olhos ao chão — lhe escapuliam e se apoderavam de tudo,
natureza viva virou morta, e brotavam, escalpelavam, e via pessoas.
Loucura.

Era preciso parar o cérebro, que vinha, se apossava, e lhe dilacerava, cortava
em fatias, que cozinhava.
Lagartos repicavam, triplicavam, rebentavam.
E as imagens iam mordicando, tomando conta, e lhe picavam o cérebro, açoi-
tavam, e ela gritava, e arrancou a cabeça, que fervia num tacho de ferro enorme.”
A torta, no entanto, era para a atual. Extravagante, espantosa, colossal, estu-
penda, enigmática Gertrudes!
Arrepia-se imaginando-a deliciando-se na guloseima e sussurrando: horren-
do, assombroso, pasmoso, disforme, perverso, cruel aberração abominável!
Desarvora na sexta-feira úmida, nebulosa, só ele na estradinha. Vagueia len-
to, esbarrando no cascalho, esgueirando-se entre os arbustos. E uma ânsia lhe toma,
e seu ar consome, e seu corpo arde, as unhas rebentam, a cabeça lateja, e vê, no breu,
Gertrudes! Só ela, ela, ela... E corre desvairado, corre feito onça, o lindo lobo de pelo
preto liso reluzente. E avança, e a seiva e a saliva escorrem da mandíbula rubi, e a fera
fenece frente a donzela.
E ela, encantada, polvilha geleia e Rudolf devora o bolo e sucumbe estatelado
com a receita dela!
32 ÀS MOSCAS
Aparecida Gianello

Ainda estão lá, as moscas...

Olhos fixos no teto, brancas nuvens na cabeça. Acorda assim, todo santo dia.
Calcula que sejam centenas, milhares talvez. Certeza de algum animal jazendo no
forro. Franze o nariz, decidido a resolver o problema naquele mesmo dia, antes ain-
da que despencasse o negrume do ocaso. Também recolheria o lixo, tarefa da qual
se dedicara a bem desempenha-la muito antes de tudo acontecer. Não obstante sua
memória pareça encurtada a cada dia, os cuidados devidos com a própria imagem
seguem ordenadamente, se estendendo a tudo o que há em sua volta.

Sucedeu que os filhos, o gato, o cachorro, todos se foram. Ficaram os dois,


apenas por um tempo até ela cismar de querer o divórcio. Agora está só, preso à
rotina. Mas longe de remexer nas feridas, trazer mais dor. Importa-lhe tão-somente
o agora, lembranças o ferem, no corpo e na alma. Segue, assim, tentando se refazer...

Uma espreguiçada e vai logo tomar seu banho, o primeiro de muitos. Adqui-
riu a mania depois do ocorrido. Quando finalmente se convence de não mais haver
nenhuma sujeirinha incrustada, ensaboa-se mais uma vez a fim de garantir que even-
tuais odores exalem de seus poros.

Enquanto passa o café, aguarda ansioso aquela que religiosamente vem pe-
netrar em seus mandos. O pequeno inseto chega pela fresta improvisada no canto
esquerdo da janela. Esse é bem-vindo, diferente daquele outro, bicho dos infernos...
Despretensiosamente, ela invade o espaço, ora pairando sobre os aromas do café, ora
circundando sua cabeça. Ele parece gostar, e se permite à bisbilhotagem. Talvez quei-
ra deixar pistas com a amiga abelhuda. Um registro ainda que vago de suas facetas,
capturadas pelas lentes e antenas precisas de uma miúda arapuá.

Momentos depois, na pequena sala de estar, ele tenta se distrair com um


punhado de jornais velhos, mas cai no enfado. Precisa urgentemente ser inundado
daquelas brancas nuvens... E se entrega à azáfama dos quefazeres. Ultimamente, os
cuidados da casa tem sido a abstração perfeita contra os venenos do ócio, inibindo
até o mais prosaico pensamento. Logo o cheiro de lavanda se espalha pelos cômo-
dos, disfarçando o pesado ar que antes pairava sobre a antiga mobília, tornando o
ambiente mais leve, aconchegante e convidativo. Pena que ninguém mais o visite.
Nesse momento ele se lembra dos amigos... Desapareceram, todos, um a um. Havia
tempos que nenhuma viva alma transitava por ali.

Ao meio dia, novamente ele se vê na cozinha, é hora de preparar o almoço.


Meticuloso, faz tudo bem feito. Sabe que precisa se manter ocupado, ou eles che-
gam... A distração o mantém incólume, impedindo os pensamentos de tomarem
formas.

O silêncio fatídico das horas é quebrado apenas pelo ranger de alguma porta
ou janela mal fechada aos açoites do vento. Ainda, o relógio cuco na parede, care-
cendo de reparo ou corda, seguido de uns tiques, vez ou outra solta um grunhido
assombrador.

Monótona e repetitiva, a tarde surge decrépita. É quando ele sente mais forte
o sumo da pestilência raspando-lhe a garganta. A solidão não dá trégua até leva-lo a
uma tristeza sem precedentes. Começa com uma apatia, por volta das três da tarde,
e atinge seu ápice às seis, com a aproximação tênue da escuridão. A causa de tudo,
ele pensa, são os pensamentos. Desconfia ainda, que sejam eles a atrair todas aquelas
moscas. Quem sabe não devesse tomar uma atitude. Quem sabe não devesse quebrar
a rotina, buscar uma solução. Quem sabe... Só assim o deixariam em paz.

Após o jantar, agora mais calmo, ele segue com suas ações protocolares. E se
banha. E se veste. E se deita, por fim, fitando o teto. Absolutamente certo de que o
veneno surtiria efeito, ele sorri cerrando os olhos. Amanhã, será outro dia.

Ainda está lá, às moscas...


34
O DESERTO, O
MEDO E O CANSAÇO
Luísa Fresta

Há muito tempo que queria contar esta história, mas acontece que por medo
de que me fosse destinada a honraria de ser a primeira alma a habitar o espaço, optei,
até o momento, por não o fazer. Sei que poderá parecer uma desculpa airosa, uma
vez que a maior parte das histórias que vivi, que ouvi ou que testemunhei ficarão por
contar por inabilidade e preguiça. Mas esta, asseguro-vos, tal como a do cinema que
morreu virgem na mesma zona e circunstâncias, constitui exceção. Acontece que
com a idade vamos perdendo o medo e os perigos mais contundentes são aqueles aos
quais escapámos; os que se perfilam mais à frente parecem cada vez mais inócuos.
Mas passemos aos factos: no longínquo ano de 1931 existia uma localidade
ameaçada pelo avanço das areias, na qual se reuniu um Conselho de Sábios com o
objetivo de travar a fome do deserto ao qual fora arrancada. A vila tinha apenas
saída para o mar e orgulhava-se de ter curvas doiradas por toda a sua extensão, em
dunas imensas de suaves ondulações, como um mar cor de castanha de caju. Já nessa
época era vulnerável, pois a natureza, que tem sempre a última palavra — quantas
vezes feroz e indignada, ao cabo de eternidades de silêncio e tolerância — reclama-
va-a insistentemente. Nessa altura era conhecida pelo nome de Porto das Areias.
Durante quatro décadas foram aí plantadas muitas árvores ao longo de dezenas de
hectares, e o deserto pareceu conformar-se com essa cortina verde durante algum
tempo. Estaria, provavelmente, a planear uma nova estratégia, sabendo que o tempo
dos homens é finito e não sabe esperar. As areias, ao contrário, pareciam divertidas
com as artimanhas que conheciam desde o primeiro dos seus grãos; sentaram-se à
espera, em contemplação quieta, que era o que melhor sabiam fazer para ludibriar a
vigilância das populações e dos engenheiros agrónomos e vencê-los pelo cansaço. A
espera silenciosa seria recompensada: na década de 70 do século passado, as popula-
ções, envolvidas numa guerra sem quartel, viram-se obrigadas a recorrer à madeira
das árvores para transformá-la em combustível e suprir as suas necessidades mais
imediatas: como era de prever, em apenas dez anos a fileira de árvores plantadas esta-
va consideravelmente reduzida e o deserto ria estrondosamente nas suas noites mais
frias, fazendo com que milhares de microscópicas areias voassem e se espalhassem
pelo céu para depois caírem de novo nos seus braços, como pequenas estrelas órfãs.
A fera fala a linguagem da fome e da sobrevivência e o deserto age também de acordo
com a sua própria natureza: não há maldade nem violência nas suas exigências. Pro-
fere ameaças e tempestades com a naturalidade do vulcão ou do tornado; devem ser
levadas a sério, mas não levadas a mal.
Quando avisou que ia tomar conta do cemitério local ninguém lhe deu ouvi-
dos; até que o novo sofreu o mesmo destino sem que ninguém tivesse lá sido sepul-
tado. Nunca foi inaugurado e acabou por desaparecer debaixo da areia… conta-se que
uma quadrilha de ladrões e de caçadores furtivos passava certo dia pela zona e decidiu
esconder o produto de um grande assalto no cemitério inativo. Além de diamantes
e certa quantidade de marfim, levavam um projeto encontrado num antigo posto
fronteiriço. Um deles tinha reconhecido o desenho de uma estranha peça encon-
trada no meio do nada: para ele não fazia sentido, mas mais por instinto do que por
conhecimento, decidiram juntar o conjunto de desenhos à documentação já meio
amarelecida e esconder tudo no cemitério. Mas esses quatro homens nunca mais fo-
ram vistos e diz o povo que foram tragados pela mesma areia que cobriu o cemitério,
embora a versão oficial dê conta de uma perseguição policial na qual a carrinha em
que seguiam teria sido abalroada. O deserto tudo ouve, sem comentar: consta, no
entanto, que ofereceu um colar de diamantes e uma jarra de marfim a uma amiga
welwítschia por quem andava em tempos perdido de amores. Por essas e por outras
não escapa à fama de predador e de insaciável senhor do outrora Porto das Areias,
hoje chamado Porto dos Mistérios. Quanto ao projeto, nunca mais se soube dele e as
peças espalhadas pelas areias desapareceram na memória dos homens.
Várias estradas foram engolidas com a mesma sofreguidão pelas areias que
viajam com o vento, assim como parte do quartel dos bombeiros e um cinema, joia
da arquitetura construída pouco antes da independência do país. Trata-se de um
cinema onde jamais se exibiram filmes, abandonado à nascença e convertido preco-
cemente em fantasma, inspirado nos projetos do grande mestre Niemeyer. O espaço
mantém a sua grandiosidade de estátua muda, soberba dama caída em desgraça. Mui-
to embora sirva hoje de recetáculo de lixo e de toda a espécie de objetos rejeitados, e
de valhacouto de pequenos traficantes, conserva uma monumental estrutura depu-
rada assente em linhas sinuosas; tem a forma singular de um cogumelo gigante ou de
uma nave espacial e enormes janelas redondas como as dos paquetes. Ali se projetam
secretos espetáculos sobre a malograda quadrilha e se coreografam bailados sob o
murmúrio do vento, quando as areias se alinham na escuridão e de vez em quando se
maquilham com o brilho branco da lua.
Mais recentemente foram plantadas milhares de estacas de arbustos de cres-
cimento rápido, os quais, juntamente com outras espécies, deverão fixar as dunas.
Formam um cerco em torno da pequena vila. O deserto vai olhando curioso para
o esforço contínuo e o desespero dos técnicos e dos habitantes locais enquanto se
espreguiça, sedutor, alternando côncavos e convexos movimentos musculares e bo-
cejos de vento forte no horizonte, molhando o dorso no Atlântico. Sabe que resistirá
até ao último sopro.
36 EPITÁFIOS
Emerson Figueiredo

Ia ao cemitério ao menos duas vezes por semana. Aos amigos dava a desculpa
de que visitava o túmulo da mãe, mas, na verdade, ele gostava mesmo era de passear
entre as lápides, “ver” as esculturas e ler seus epitáfios na tentativa, infrutífera, de
tornar-se mais íntimo de todos aqueles que já se foram.
Entender uma pessoa baseando-se apenas nas informações contidas em sua
sepultura era uma tarefa impossível, e ele sabia, não obstante pensasse como Ma-
chado de Assis, para quem, os epitáfios são, entre a gente civilizada, uma expressão
daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao
menos da sombra que passou:
“Mãe e avó amorosa.”
“Filho exemplar, pai dedicado.”
Sentia-se em paz onde as pessoas jaziam em descanso eterno. Gostava de ir
quando o cemitério estava quase fechando, pois quase sempre estava vazio. Mas não
ia apenas em busca de sossego e meditação, furtava esculturas e artigos de bronze
enquanto refletia sobre a pessoa que jazia abaixo dos entalhes que furtava. Começou
por simples diversão, mas tornou-se um meio de vida. Sempre se detinha quando se
deparava com um epitáfio mais elaborado:
“Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não
prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não
conseguiu, e aqui está.”
Outros eram engraçados e traziam indicativos sobre a causa da morte ou pro-
fissão:
“Queria ter ficado mais no bar.”
“Sou escritor, mas ninguém é perfeito.”
“Desculpe, não posso ficar em pé.”
“Eu disse que estava doente.”
Outros desafiadores:
“Estou pronto para encontrar com o meu Criador. Se meu Criador está pre-
parado para o grande teste de me encontrar é outra questão.”
Trágicos:
“O amor vai nos separar”
Matemáticos:
“Aqui jaz o matemático que passou um sexto da sua vida como menino. 1/12
da sua vida passou como rapaz. Viveu um sétimo da sua vida antes de se casar.
Um quinquênio após, nasceu seu filho, com quem conviveu metade da sua
vida.
Depois da morte do filho, sofreu mais quatro anos antes de morrer.
Quantos anos viveu o professor?”
Calculou a resposta, virou um jazigo à esquerda e deparou-se com uma es-
tátua de bronze de pequeno porte, que nunca tinha visto. Uma escultura perfeita
de uma criança com os olhos lacrimejantes e semblante taciturno. Olhou a lápide à
procura do epitáfio:
“Aqui repousa aquele que escolheu matar a viver, criança que não deveria ter
crescido, nem tampouco, saído dos braços da mãe. Que Deus conforte sua alma e
daqueles que ele ceifou quando adulto.”
Pegou a faca, que sempre trazia consigo, para tentar extrair a estátua da base,
quando percebeu que havia outra placa:
“Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa
fazer mal, e se não se dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta, é
sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar
uma criança não conheço diferença que se sinta.”
Deixou a faca cair devido ao susto que levou quando uma criança saiu an-
dando por detrás da lápide. Era pequena, devia ter no máximo quatro anos de idade.
Abaixou-se para conversar com ela:
— Olá garotinho! Está perdido, onde estão seus pais?
— Não sou criança! — Disse o ser que acabara de pegar a faca no chão e ca-
minhava em direção ao larápio.
38
INCONSCIENTE
R. L. Martins

Todos adoram quando surge uma notícia boa, como o início das obras de
revitalização de parques que foram esquecidos ao longo do tempo pela prefeitura.
Porém, deixam de adorar quando a empreiteira responsável e suas escavadeiras che-
garam revirando o solo e trazendo à tona segredos obscuros há muito tempo ador-
mecidos.
Quem mais temia em ser descoberto não tinha conhecimento algum do que
estava acontecendo, jazia inconsciente no leito de um hospital havia alguns meses
após um trauma cranioencefálico.
A visão, de onde me encontrava, era como tivesse mergulhado para dentro de um
dos programas da Discovery sobre o pantanal, com a exceção de alguns detalhes peculiares.
A embarcação por qual estava sentado era uma gôndola e seu gondoleiro trajava uma roupa
diferente do convencional, terno e cartola de um amarelo vibrante. Até aquele instante não
havia reparado que deixara de cantarolar para si e dirigido a palavra para mim.
— Como? Perdão, não prestei atenção ao que disse.
— Se fosse mais atento, tudo poderia estar sendo diferente agora.
— O que quer dizer com isso?
— Você deve, lá no fundo, saber muito bem do que estou falando. Não há nada de
mim que você possa esconder.
— Onde estou? Faz tempo que não converso com alguém.
— Com certeza! Ainda não faz ideia do que aconteceu?
— Momento atrás estava... Não consigo recordar, mas estou aqui, neste pantanal...
— Pântano!
— Claro, desculpa! Devo estar sonhando... – Balbuciei. — Não iria querer viajar até
um lugar como esse...
— Tão inocente, não? Não, mas para esse quesito, talvez. – Soltou uma gargalhada,
virando seu rosto para me encarar, enquanto aproveitava para ver seu semblante: tufos de
cabelo ruivo saiam debaixo da cartola, o cavanhaque e bigode espetados da mesma cor, e seus
olhos eram tomados por um breu profundo. — Não se lembra da última vez que teve consci-
ência de estar vivo?
— Estou vivo! – Gritei.
Ficara quieto após ter me sobressaltado. Não conseguia entender por que falava
em incógnitas, era difícil de comunicar de forma objetiva e direta. Retornou a cantarolar em
uma língua incompreensível para mim e aproveitei o instante para observar o local que me
cercava. Pendurados nos galhos das árvores estavam diversos ossos; ao longo do “rio” estacas
de madeiras sustentavam labaredas, que só agora havia reparado como ali seria escuro sem
elas; e aquele cheiro de carne queimando causava-me uma sensação de déjà vu.
Por um dos corredores da ala leste do hospital era possível escutar os mur-
múrios das fofocas oriundas da copa. A notícia, que havia chegado que nem furacão,
foi que o chefe de polícia estava naquele momento com o conselho do hospital indi-
ciando um dos pacientes, que encontrava-se em coma, como culpado pelo assassina-
to a quem pertencia os ossos carbonizados encontrados meses atrás enterrado em um
dos parques da cidade.
— É impossível que tenha sido ele. – Afirmou uma das enfermeiras enquan-
to bebericava um pouco do seu café quente.
— Por que diz isso? Acabou se afeiçoando por cuidar dele desde sua chega-
da? Sabe que ele não pertence a essa cidade, encaixa com o perfil que a mídia vem
mostrando, logo mais estarão lá na frente querendo uma declaração.
— Quem está no limbo são pessoas sem pecados, que nunca foram batiza-
das. Pobre alma!
— Guadalupe, o homem está em coma, a polícia tem provas... Esqueça essa
história de limbo. Isso não existe. Ele não é inocente...
40
APOCALIPSE: A
MOLÉCULA DE DEUS
Rener Alcântara

Tornei-me um matador hábil. Um assassino, talvez? Não. Certamente não


sou nenhum assassino, porque as coisas que eu mato não estão vivas. Definitivamen-
te são monstros nascidos no submundo e que emergem das profundezas do inferno.
Eles não possuem alma. Já faz dois anos que estou vagando, e com todo esse tempo,
perdi meus familiares e meus amigos. Poderia passar a pensar que não há motivos
para continuar nessa luta que parece em vão, mas a Terra me pertence e matarei até
o último dia em que não mais conseguir erguer um bastão ou apertar um gatilho.
Tudo começou desde quando vi o plantão de notícias na tevê. A informação
fora de que um terremoto relativamente potente surgiu no mundo oriental, prin-
cipalmente, atingindo a Europa. Enquanto que para nós pertencentes às Américas,
apenas as regiões litorâneas que sofreram parte desse impacto com um tsunami que
chegou 1 hora após o terremoto.
As consequências desse cataclismo, fez com que o CERN, o famoso colisor
de hádrons europeu para pesquisa nuclear, havia tido sofrido enormes danos e suas
novas partículas geradas, no qual nem sequer, pertencia à tabela periódica, associou-
-se com a radiação de centenas de usinas nucleares, causando algo inimaginável até
então. Essa nova partícula, os cientistas batizaram de “A molécula de Deus”, sendo
considerada a molécula da gênese da vida.
Tal molécula possuía o poder de dar vida ao que já está morto. Em suma, essa
molécula foi como um vírus infectante que trouxe todos os mortos novamente a
vida. No entanto, eles agora são zumbis, ou melhor, monstros das trevas, irracionais
que vegetam e que matam os que não estão infectados. Suas aparências foram dras-
ticamente alteradas, ocorreu uma bizarra metamorfose em seus corpos, que agora,
parecem verdadeiros demônios. Desde então, estou lutando contra esses monstros
diabólicos sedentos por sangue.
Apesar de estarem mortos, eles não são como os estampados zumbis de séries
de tevê. Não são atraídos por barulhos ou, numa vontade incontrolável de carne
humana. Acho-os mais parecidos com animais selvagens, como as minhocas, que
estão praguejadas a se arrastarem sobre o solo. Assim como na origem do universo,
os primeiros seres eram organismos unicelulares, acredito que “a molécula de Deus”,
transformou esses monstros em um tipo de organismo que rodam as ruas para fago-
citarem os não semelhantes a eles, no caso, eu. Parece ser como um instinto primi-
tivo de sobrevivência, onde eu me tornei o parasita. Porém, ainda não decifrei por
completo o que os faz me reconhecerem.
Para mim, que sempre acreditei que o apocalipse seria algo mais surreal, numa
batalha travada entre anjos e demônios, céu e inferno, agora, me dou conta que nada
disso fora algo real para acreditar. Nem mesmo o nosso governo possuía um lugar
seguro para casos emergenciais como este e, em nenhuma parte do país, havia algum
lugar seguro para abrigar uma colônia de selecionados. Estávamos cada um por si.
Agora, o mundo está praticamente dominado por esses seres misteriosos. As
urbes estão cheias deles. E há poucos como eu, vagando rumo à sobrevivência. A
visão de todas as cidades era de um todo caótico. Nada estava no lugar, nada mais
era reconhecido. Fogo, cinzas, sangue, monstros, ruínas, medo, são as palavras que
descreviam o cenário. O mundo parecia estar de cabeça para baixo e as aberrações
tomavam contam de onde havia a paz.
O rigor mortis de suas carnes putrefatas os tornava lentos e com pouca co-
ordenação motora, mesmo assim, eles poderiam me vencer pela quantidade. Mesmo
havendo outros iguais a mim, relutando em desistir, eu sempre andava sozinho. En-
tão, sempre tinha que me refugiar em torres e edifícios.
Era estanho matá-los. Seus corpos eram gelatinosos e malcheirosos. Geral-
mente, meus golpes eram certeiros em suas cabeças que facilmente rolavam feito
uma bola de boliche. Por onde andei, deixei um rastro de sangue. Ainda sinto os
objetos lacerantes que usei para cortar as suas vísceras que caíam ao chão repleto de
líquidos escuros.
Quando não tinha alguma arma em mãos, eu os chutava fortemente, tanto
que o meu pé os atravessavam. No início, meu estômago revirava, sentia o gosto
ácido em minha boca, mas, após algumas centenas de chutes, me acostumei. Hoje,
apenas sinto as suas costelas e demais ossos crepitarem com os meus golpes.
Percebo agora, que eles estão evoluindo rapidamente. Estão ficando resisten-
tes, e mais velozes. Está tendo uma seleção entre eles próprios, onde, o dominador
jugula o seu oponente o engolindo por completo e ganhando mais força. Já presen-
ciei batalhas entre dois dominantes que durou cerca de 20 minutos. Para o derrota-
do, a sua morte fora uma certeza. O seu sangue apodrecido coloria a rua da cidade.
Somente a chuva fria e forte que caia era o suficiente para lavar todo aquele sangue
espichado, deixando a rua limpa para a próxima batalha.
Nesses dois anos, permaneci na mesma urbe que nasci. Desde então, só en-
contrei sobreviventes quatro ou cinco vezes. Porém, estou desenvolvendo as minhas
próprias estratégias para matá-los aos montes, em vez de um por um. Faz alguns
meses que estou determinado a exterminar todas essas aberrações da minha cidade,
para que aqui seja um refúgio para muitos.
Já estou sem munições, por isso, estou juntando o máximo de dinamites em
um metrô da cidade. Quero atraí-los o máximo que eu conseguir e depois detonar
todos. E hoje, é o grande dia.
Sai do meu refúgio e fui procurá-los. Não demorou muito e encontrei um
bando, um dos maiores. Eles me notaram e rastejaram em minha direção, enquanto
eu os guiava para o abatedouro. Consegui deixá-los todos no andar subterrâneo do
metrô e logo acionei o dispositivo que explodiu. Certamente as toneladas de concre-
to os esmagaram feito um chiclete no sapato. Porém, a catástrofe fora maior do que
calculei, todo o túnel desabou cortando a cidade ao meio. O abalo foi sentido em cada
pilar dos prédios adjacentes, muitos deles desabaram, inclusive, o que eu estava.
Sobrevivi, mas estou preso há 18 horas sobre os escombros. Agora sei qual
será o meu fim. Vejo o céu nublado, temperatura agradável em torno dos 25 °C, a
paisagem não é a das mais belas, porém, estou achando um dia ótimo para morrer.
Minha única tristeza é saber que após a minha morte, me transformarei num daque-
les seres diabólicos e horrendos.
Ao longe, ainda havia um desses monstros, um relativamente pequeno que
não seguiu o bando para o precipício da morte que lhe fora prometido. Vejo-o lenta-
mente se aproximar de mim. Ele está a minha procura para me devorar. Será o meu
fim.
Mesmo sempre tendo essa possibilidade em meu subconsciente, em mor-
rer devorado por um deles, agora que esse fatídico dia chegou, sinto a minha carne
tremer, meus olhos se arregalarem e meu coração acelerar, batendo tão frenético que
sinto minhas veias pulsarem.
Não havia ninguém para que eu gritasse. Não havia nenhum deus para que
eu rogasse. Nem havia ninguém para que eu me despedisse. Após eu exterminar cen-
tenas desses monstros, agora era a hora da vingança, um deles teria o prazer agridoce
de saciar da minha carne quente e ensanguentada com os arranhões que ganhei. Ele
já está a poucos metros, perto o suficiente para que eu sinta o seu mau-cheiro e de
sentir a minha repugnância por seus corpos asquerosos.
Fecho os olhos e espero ser devorado. A última coisa que quero presenciar é
a escuridão. Ouço um barulho ensurdecedor nesse meio tempo seguido de um banho
de gosma que me cobriu por inteiro. Tive que abrir os olhos para entender o aconte-
cido.
Lá estava uma figura distinta de pé, apontando em minha direção uma
arma. A imagem é a de uma humana, uma mulher. Um anjo que surgiu das trevas e
me salvou do vale da morte. Nunca a tinha visto antes, mas, já me apaixonei pela sua
rebeldia.
43
COMO AS FLORES
DOEM
Estela Pires

Eis o próspero futuro da nação: um bando de jovens completamente bêbados


circulando em um descaso completo nessa casa fria minimalista, falando alto, rindo,
encostando nos quadros caros como se fossem uma parede qualquer, brincando com
as estátuas e apoiando copos nos livros. Livros de mesa, que tristes são os livros de
enfeite, a erudição bruta ignorante. Esse lugar é uma estrutura complexa, mas frágil,
sustentada por uns poucos slogans que nos grudaram à cabeça. Somos tão felizes. O
amor é leve, o amor é suave. O amor vai vir quando a gente menos espera. O mundo
é daqueles que vão atrás dele. Nós temos muita sorte de ter tudo isso.
Todos no limiar da saudade, só não se lembram do quê.
Descobriram que sofrer por desamor era um prazer hegemônico e para exter-
minar esse vício, mudaram os nomes das coisas. Melhor, agora o amor não dói mais.
Mesmo por que não temos tempo para sofrer a falta de um alguém e nem esperar por
ele quando estamos tão ocupados indo de encontro ao mundo. Você sabe, cada um
de nós precisa ir atrás dos seus sonhos e seus sonhos devem ser nobres. Que sorte a
nossa.
Talvez estejamos mesmo felizes, agora e talvez e não todos. No fundo, a sorte
é de todos os que tem a chance de não ser a gente, estamos felizes somente quando
e onde podemos não ser a nossa vida cotidiana. Digam que eu sou ingrata, repitam
bem alto. Pelo menos, eles não sabem que estão perdendo, enquanto nós ganhamos
sem ter cabeça para dormir anoite. Ao correr em disparado nessa avenida de mão
única, com nossos carros sofisticados importados, sem lembrar que ela dá para indi-
ferença de uma rua sem saída.
Eu assisto a tudo isso tentando me convencer de que eu sou mais. Se concebe
tão grotesca a ideia de fazer parte disso. Pior ainda pensar que isso é a única forma,
será que eu saberia compor esse culto às coisas como membro permanente?
Alguém sentou do meu lado. “Você é muito bonita”. “Eu sei, também acho”,
eu respondo e ele ri. Eu sorrio, olho no espelho do outro lado da sala, a minha cintura
minuciosamente curvada, a barriga aparente bronzeada, os ossos por debaixo do co-
lar colorido, os ombros brilhantes, meu cabelo dourado e os cílios enormes, compõe
uma figura encantadora e eu celebro isso com uma vaidade vermelha deliciosa. Não
sou muito mais do que as coisas que a gente cultua, certamente o suficiente para que
eu me encaixe no grupo de meninas bonitas para alguns gostos e tipos. Ele ainda me
encara curioso e achando graça em toda a situação, enquanto eu jogo meu cabelo de
um lado para o outro e sorrio para o meu próprio reflexo no espelho. “O que você
está fazendo? ”, ele pergunta, se aproximando mais. Olho para ele: “Pensando no
quanto você tem razão”. Ele riu mais uma vez, de uma risada pejorativa e debochada
(antes de me beijar disse que eu não sou melhor do que ninguém).
Eu divido os meninos que eu gosto em dois grupos, há aqueles como você,
intelectuais, que me tratam como se eu fosse uma obra de arte, valorizam os meus
talentos, tem gostos parecidos com os meus, estão sempre por perto, acham que
me amar já é em si um privilégio, aqueles que seriam perfeitos para eu me apaixo-
nar, mas nunca acontece. Os outros são as paixões, meninos estúpidos, sem muito
conteúdo, charmosos e maiores que eu, que sabem que eu não sou melhor do que
ninguém, que gostam de mim, mas preferem as que são menos ainda, gostam de
mim quando eu sou menos. Mesmo assim, para eles eu serei sempre demais, exagero
um pouco, é assim que funciona: o único amor que dura denso apaixonado é aquele
que não é correspondido. Cada vez que eu escolho um desses dois tipos eu digo algo
para mim e para o mundo. Se eu ainda escolhi o segundo tipo nessa noite, é por que
ainda há tempo.
Depois, eu ainda saí do meu isolamento introspectivo para lidar com as pes-
soas. Os jovens se organizam em rodas e o desafio é manter um assunto interessante
o suficiente para que elas não se desfaçam, e que seja atraída cada vez mais gente.
Panis et circenses. Isso acontece assim e dessa forma, já que todos são tão desinteres-
santes e insuportáveis, que qualquer diálogo que valha alguma coisa chega a ser uma
relíquia em lugares como esse, é melhor ser aplaudido como aberração do que vaiado
por não ser nada.
Todos estavam bêbados e pouco importa, decidi perguntar o que querem
fazer da vida, quem sabe assim eu obteria uma boa resposta sincera, teria algumas
ideias minimamente boas.
Triste foi ouvir inúmeros cursos de graduação e opções de carreira, triste é
quando nem o álcool melhora a concepção de vida das pessoas, nem toda uma far-
mácia nos vasos sanguíneos dessa geração faria diferença mínima. Ninguém nunca
largaria a escola, se tornaria astronauta, ou se deixaria levar pela corrupção do mun-
do, não. O que querem fazer da vida se resume em uma palavra, nem toda a ciência
e a filosofia foram capaz de explicar a vida, mas a gente define em uma palavra. A
overdose não mata mais, tudo evoluiu para que a gente a tolerasse com gosto, e como
toleramos. Engenheiros inúteis, médicos e economistas e advogados, inúteis todos
eles, por que fazem isso da vida, fazem da vida isso e não se deve fazer da vida nada
que possa ser resumido em uma palavra pouco lírica.
Eu não tenho a mínima ideia, será que a errada sou eu? Às vezes, eu me sinto
como as bonecas que eu um dia cansei de brincar, sou tão sozinha, assisto a toda essa
gente e se não for real certamente eu me arrumei demais para a ilusão efêmera. É só
que. Não sei. Eu não quero crescer, eu tenho medo de me tirarem de mim, eu tenho
muito medo.
Na verdade, eu só rio das respostas e continuo fazendo o meu showzinho e
implorando pela sua atenção, por que sei que você me odeia, mas me ama mesmo as-
sim. Você finge que não me vê, na verdade, eu sei que me repara muito bem— quan-
do eu quero eu sou sempre percebida, minha presença pode ser tão sorrateira quanto
espalhafatosa, nunca duvide de uma menina que não tem nenhum bom motivo para
fazer tudo o que faz.
Já reparei que não costumo chamar as pessoas pelo nome, é uma forma de
não olhar nos olhos? Meu comportamento é sempre tão falsificado, plagiar uma feli-
cidade absurda foi um costume que eu me habituei e hoje existo como se viver fosse
natural.
Uma vez li que a mentira é sempre uma espécie de infidelidade. Então está
bem certo e confirmada a minha tese de que a infidelidade é hegemônica. Mentimos
em média 200 vezes por dia para os outros, sabia? A vida é só uma porção de menti-
ras que a gente escolheu acreditar, mais as que a gente conta para os outros. Acreditar
na verdade é a maior ingenuidade já proclamada, ainda tem gente que acredita. A
mentira, essa mentira, e os jovens organizados e preocupados com o mercado de
trabalho é o lixo que a gente recolheu das ruas e ensinou nas escolas.
E a infidelidade, meu deus, nunca reparamos que a coisa menos natural no
mundo é ser fiel? Não que isso faça com que pese menos, é só que trair não é um
desvio, é o caminho mais óbvio. Eu nunca fui fiel a nada e mentiria todas as vezes
sem nenhum pudor, me orgulho disso. Como um funeral e todos condenam a huma-
nidade, mas ninguém sabe quem foi que matou o mundo.
Pelo menos, alguns de nós ainda se apaixonam, é comovente sim. Paixões su-
aves, que ajudam a viver. Se apaixonar todos os dias talvez seja a única saída. Aman-
tes também existem em um número razoável, o que é bom também. O que faltam
mesmo são os amantes apaixonados, triste, mas tudo bem, eu sei que nem todos
estão prontos para pular do oitavo andar, ainda mais hoje em dia quando e onde o
sofrimento nunca vale a pena, a vida não deve ser nociva. Você sabe, eu sempre vou
te amar, mesmo apaixonada por outros alguéns, o amor não acaba, algumas lágrimas
escorrem e o relógio corre e as coisas passam, o amor vai embora, perde, mata e
morre, apesar disso, só se transforma, o amor, se é amor, nunca acaba.
Para mim, o amor é aquilo que existe apesar. Por que era ele, por que era
ela, por que era eu e assim por diante. Todo o outro lado. É um negócio que a gente
guarda com a gente, só para seguir tendo o que carregar. A paixão não, ela é essa coi-
sa louca, que o gosto avoluma, o corpo estremece e o cheiro aperta o peito com uma
voracidade inata, a paixão é o gosto bom que o oposto tem, sempre um gosto bom,
ainda que a gente prefira o amargo, o doce, o azedo, o salgado, ou o quinto sabor. A
paixão descontrola e desconsola. O amor existe apesar de o gosto não agradar mais, o
amor dorme sempre ao lado, diferente das paixões eloquentes, que vivem sempre na
dor bonita que o sexo atrás, o amor também é muito vivo na solidão das noites frias,
sem aquecer nem nada. Na paixão, a gente se convence temporariamente de que a
vida é uma festa, o amor nos convence para sempre de que a vida pode ser razoável e
na maioria das vezes isso basta. Nunca conheci um caso real de dois amantes apaixo-
nados eternos, acho que essas duas coisas quando combinadas resultam em verdadei-
ros assassinos, se convertem em bichos perigosos, mas eu tenho um pressentimento
de que se soubéssemos de perto como é essa forma de insanidade, também teríamos
toda a coragem para enfim sermos nós mesmos. Eu só vi na literatura e no cinema,
mesmo assim, já aviso de antemão que venderia a minha alma ao diabo se me dis-
sessem que existe sim. Enquanto isso, sigo com a certeza de que o único amor que
dura é aquele de janelas de serenatas caladas, o que atira céus abertos e cai no deserto.
Persiste enquanto amor, somente quando parte da paixão desalenta.
O que você vai fazer da vida, também não sabe, aposto. Somos perdidos, so-
mos essa espécie de perdição, pois amamos mais do que nos apaixonamos, seremos
sempre uma boa história para contar. Me vem um nó na garganta. Talvez seja hora
de ir embora daqui.
A volta para casa foi muito agradável. Ficamos todos quietos, eu, uma ami-
ga, você e alguns amigos seus no carro. Eu adoro percursos longos, eu estava meio
dormindo, a rua se misturava em um bonito devaneio, as luzes borradas ficavam tão
lindas, a rua vazia é mais cheia do que eu, não quero chegar em casa. Você devia pen-
sar que eu estava dormindo, ficava me olhando fixamente, como se ninguém pudesse
vê-lo. Não chora, amor.
Quando eu te perguntei se você gostava da sua namorada, você disse que sim
e segurou na minha mão como que respondendo que é bem óbvio que gostar não
basta. É tão ruim quando eu deixo de ser um problema meu.
Chego em casa e reparo no espelho do elevador que eu não sou tão bonita
assim. Não sou.
A minha vaidade é tão abominável assim? A minha autoestima desmedida,
meu orgulho absoluto, a minha certeza de que eu sou melhor? Eu só tenho plena
convicção de que sou boa, não preciso de ninguém, não quero precisar de ninguém.
Sozinha eu sou mais, sozinha eu posso tudo. E todos ajudam a criar esse monstro,
reafirmando a minha superioridade e ainda assim eu preciso existir como se toda
essa gente importasse (por que importa). A verdade é que eu gosto de ser abraçada e
de algum carinho, mesmo não tendo ideia de como retribuir. Todas essas coisas que
eu escrevi na cabeça, um monte de palavras, mas eu não sei como começar e onde
acabar. Talvez eu só seja meio estúpida por não admitir uma porção de coisas, eu
sinto muito, mesmo, acho que digo isso como justificativa e também como pedido
de perdão.
Eu costumo sonhar com rosas vermelhas. Não importa o que aconteça, eu
sempre ganho rosas vermelhas, mas a atmosfera, longe de ser romântica, é sombria,
densa e embaçada. As rosas vêm como uma espécie de aviso e é assustador o olhar
das pessoas que entregam as rosas. As rosas vermelhas. O vermelho é a cor mais den-
sa, é o tom mais amargo de todos os tons. Às vezes ainda, ressoa uma trilha sonora
desafinada e gritante: meus sonhos são acompanhados de baladas bregas. Sempre
assim, eu me deparo com um lugar qualquer que eu já frequentei e toca baixinho
uma melodia distante, às vezes sussurrada por alguém, outras entoada por algum
instrumento, e porventura só a se confundir com o barulho do vento. As coisas são
quase descoloridas, as pessoas também, mas tudo segue aparentemente normal, uma
situação normal, até que alguém me dá uma rosa vermelha e o vermelho é a única
cor viva e que ataca, todo o resto permanece quase que em preto e branco. E quando
eu toco nos espinhos, algumas gotas de sangue respingam e mancham meu vestido
branco, aí eu reparo que estou vestida de noiva. Nisso, a música passa a crescer até
se tornar insuportável e todo o resto continua normal e a olhar para mim como se
eu fosse estrangeira segurando a rosa vermelha. Tem algo pegando fogo também,
aliás é como se a própria música pegasse fogo e eu acabo olhando para a fogueira me
confundindo com qualquer coisa que também arde em chamas.
Acordei assustada com o barulho da chuva, mas era só um tiroteio na rua de
cima. Já é quase de manhã e tudo ainda é deserto. Levantei-me da cama, da cama das
tempestades e do deleite do grito, dos pesadelos enchentes e dos estrondosos ruídos,
do trovão ardente, das circunstâncias violentas e olhei para o rio. Como um rio seco
é a mesma coisa que nada, o rio está em toda parte, salvo o fato de estar seco.
Eu gosto do caminho para a escola, eu gosto de todos os caminhos, prefiro ser
meio do que fim. Sobre esperas em geral: eu tenho um apreço enorme pelos trânsitos
infernais, por atendimento ruim, pelo tédio irremediável, em suma, pelas horas gas-
tas bestamente. Como se a arte de perder não fosse nenhum mistério, não é mesmo
nada sério. Nenhum compromisso pode ser mais urgente do que essa espera que é
o estar-entre. A ação e a praticidade me parecem muito mais tediosas, enquanto o
pacato é tão toscamente sagrado e sincero (como eu). Que perfeita é a nossa estranha
condição de demora. Não quero chegar a lugar nenhum.
Não me importo muito com a escola em si, quer dizer, às vezes eu gosto sim,
mas na maioria do tempo é como se eu não estivesse mesmo lá. Se soubessem que eu
sou mais ausente do que todos os alunos que não vão às aulas, há tempos que eu teria
repetido por falta, por ter faltado comigo, com aqueles que sentam perto e com os
pobres professores que merecem muito mais. Eu gosto da ideia de ensinar, mas te-
nho medo do que alguém que aprendeu as minhas lições pode fazer consigo mesmo.
Sempre assisto às aulas na defensiva, como se todas as autoridades tivessem como
objetivo único me convencer de algo absurdo. Que absurdo, tenho uma guerra em
mente e ainda costumo achar o meu campo de batalha mais seguro, morro de medo
dos acordos de paz.
Vi você passando do outro lado do pátio com uma rosa vermelha e já me
assustei, arrepiada. Não, não era um pesadelo, que bom, penso com todos os ossos
do meu corpo tensionados. Ainda assim, é um aviso. Talvez o que nos falte seja jus-
tamente aquela decadência das baladas bregas. Doces pecados, torturas do amor, não
creio em mais nada, ainda bem que tocou essa música suave. Coração de papel, hier
encore, la solitudine e que tudo mais vá para o inferno.
Eu queria que as flores não doessem.
Homens: gosto das cores de suas roupas; do jeito deles andarem; da crueldade
de certas caras. Vez por outra, vejo um rosto de beleza quase pura, total e completa-
mente masculina. Eles levam vantagem sobre a gente: planejam melhor as coisas, são
mais organizados. Enquanto só as mulheres escrevem cartas (uma metáfora que eu
ainda não descobri o que significa, mas parece funcionar), eles, os homens, pensam
na gente, concentrados, estudiosos, decididos: a nos aceitar, a nos descartar, a nos
trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco
importa; seja lá o que decidirem, a gente acaba mesmo na solidão e na loucura.
Vi um par desses sapatos assim postos e adiante colocados, no concreto bati-
do surrado, parado no meio-fio em plena Presidente Vargas. E, ao me perguntar, por
quê por nenhum caminho caminhavam, vi que os tais calçados estavam descalçados
na calçada, não estavam sendo usados, como se estivessem alheios cansados de serem
calçados por meias descasadas. Nesse caso, não há dúvida, foi o homem que se per-
deu e não os sapatos que foram perdidos por qualquer sujeito desajeitado. Como não
amar os sapatos dos homens invisíveis? Só contam a versão das meninas que perdem
seus sapatos de cristal, esses sapatos pretos, sujos, surrados, quase que desaparecendo
na rua cinzenta são a mais dura história silenciada.
Eu preciso fazer alguma coisa, mas ao entrar no departamento dos achados e
perdidos não sei mais se sou achada ou perdida e um desespero me desabada em uma
tacada só. Todos seguram rosas vermelhas. Nos campos de concentração nazistas os
prisioneiros usavam sapatos em tamanhos trocados. Vestir os sapatos dos outros é
sempre uma experiência torturante à qual ninguém deveria ser submetido à força.
Meu deus, onde está o homem invisível dos sapatos? Enquanto eu penso, corro louca
tentando procurá-lo e todos seguram rosas vermelhas e querem que eu as receba de
bom grado. Olho para baixo e a minha sombra se desgrudou dos meus pés, meus pés
que também estão descalços e furados (será mesmo impossível fugir do nosso pró-
prio destino?). Piso no chão frio, mas não sinto nada, além do cheiro de queimado.
Todos destroem os sapatos com suas tochas e armas, bem seguros de que os
perdidos devem ser eliminados, para que os outros se achem minimamente. Eu já
aceitei um buquê completo e os espinhos me rasgam a pele e o vermelho se esvai
pelos meus pés pelados, eu caminho rumo ao altar para jurar o amor na saúde e na
doença, tudo se estilhaça em cacos. O fogo queima cada vez mais ardente, não ouço
as baladas bregas, só gargalhadas ocas passivas e balas perdidas. Em algum lugar na
multidão enxergo seus pés também descalços, amor. Se eu dissesse que não sabia que
tudo acabaria assim, estaria mentindo. O céu fica sempre nublado, mas não chove,
eu gostava de você por que você tinha cheiro de terra molhada apesar do deserto que
a cidade se consolidava. Não, os sapatos eram seus, você era o homem perdido e eu
não consegui te encontrar a tempo. A rua dói vermelha, as rosas densas vermelhas.
Como não amar os sapatos dos homens invisíveis? Como não amar?
49
Desejo Sangrento
Luís Fernando Amâncio

Com cautela, o rapaz levanta da cama e ascende o abajur ao seu lado, ajus-
tando a luz para sua potência mais fraca. Na penumbra, ele pode observar a jovem
deitada ao seu lado. Seu sono parece pesado, então ele retira o lençol que cobre seu
corpo. Quer observar sua nudez.

Como é bela. A jovem está deitada de bruços, com o rosto virado para o outro
lado. Um braço está dobrado, a mão debaixo do travesseiro, e o outro estirado ao
lado do tronco. As pernas estão levemente abertas. Sua respiração é audível, calma
e ritmada.

Chega mais perto. Ainda que sob a fraca iluminação, ele pode ver pequenos
traços de veias riscando sua pele alva. Há algumas estrias em suas pernas, celulites em
sua bunda. Isso o encanta ainda mais. É uma mulher real, sem Photoshop, sem filtros.
O que um adolescente viciado em pornografia diria ser uma imperfeição, para ele é o
que torna sua beleza extraordinária.

Toca ela. Sente seus dedos ainda mais ásperos ao deslizarem por uma pele tão
macia. Deixa sua mão passar pelo pescoço, pelos seus vastos cabelos. São bonitos,
mas ele os prefere presos, o que faz. Sua mão segue pelas costas, particularmente no
sulco onde está sua coluna. Toca, mesmo, pressionando de leve aqueles ossos, aquela
carne.

Pula as nádegas. Aperta as pernas da jovem. Pernas volumosas, um pouco


flácidas, alguém poderia criticar. Para ele, estão ótimas. Envolve o joelho da garota,
como é delicado! Parece uma peça que se despedaçaria no primeiro pulo mais ousa-
do. Desce a mão para a panturrilha, encontrando ali provavelmente o mais rígido
de seus músculos. Olha para o chão e vê, ao lado da cama, o sapato de salto alto. A
elegância tem seu preço.

Demora alguns minutos apalpando o pé da mulher. Aqueles dedos pequenos,


unhas minúsculas e impecavelmente feitas, o deixam fascinado. Aperta o peito do
pé. Não aguenta e beija ele. Todo. Cada dedinho, cada centímetro. Sempre gostou de
pés, mas nunca tivera uma oportunidade para contemplá-los.

Como não podia ficar a noite toda ali, vai para a bunda. Tem um belo volume,
ele pensa. Quantos homens não se viraram para observá-la na rua? Ele nunca fez
isso, achava ofensivo. Mas uma bunda daquelas valia mesmo a reverência. Beijá-la.
Ela era sua exclusividade agora. Que rapaz de sorte.

E agora, beijando aquele corpo todo, sem rumo e com voracidade, ele pode
sentir melhor seu cheiro. A jovem transpirava naquela noite quente. O cheiro que se
destacava era o do suor, mas aquilo não o incomodava. Achava até agradável. Havia
um pouco de álcool, também, naquela transpiração. Mas não prejudicava a sensação.

Vê-la de frente. Sem pensar muito, ele começa a virá-la. Com delicadeza,
claro, não queria que ela acordasse agora. Não ia acordar. Era difícil virar um corpo
que não queria ser mexido. E ele, sedentário há anos, ficou bastante ofegante com a
ação. Seu coração, já acelerado, disparou. Mas não era pelo esforço. Era a emoção. Lá
estava ela, nua, para ele. Sem ninguém para censurar seu olhar. Nem ela.

Era linda. As pernas agora estavam mais abertas. O rosto, voltado para cima,
podia ser contemplado na paz de seu sono. Os seios. Ele poderia ficar uma pequena
eternidade só olhando para eles. Mas não queria apenas contemplar. Se lançou sobre
ela com mais beijos e mais toques. Precisava senti-la. Seu rosto, seus braços, busto,
genitália.

Se conteve um pouco. Não era impossível que ela acordasse, embora pouco
provável. Se afastou e olhou para si. Para seu corpo, também nu. Um horror. Sen-
tiu-se o Corcunda de Notre-Dame contemplando a cigana Esmeralda. Seus pelos
negros por todos os lados, sua barriga arredondada, as pernas finas.

E, mais do que tudo, seu pênis. Como Deus havia sido infeliz nessa parte da
anatomia masculina. Um pênis frouxo tornava um homem nu uma peça cômica,
aquele membro molenga pendendo de suas pernas. Agora, enrijecido por toda aquela
excitação, era menos patético. Ainda assim, não era uma bela visão.

Desviou os olhos para a jovem. Aquilo valia a pena ser visto. Como queria
que fosse sempre assim. Ter aquela mulher, ou alguma outra, ali, em sua cama. Des-
pida para ele. Por ele. A vida seria menos miserável. Talvez, se não for muita inge-
nuidade pensar nessa possibilidade, poderia até ser feliz.

Pena que nunca seria assim. Se esperasse por mais algumas horas, a jovem
acordaria. Com dores de cabeça, se sentindo lesada. Não lembraria de como havia
chegado ali. Se irritaria com ele, provavelmente chamaria um taxi. Ou a polícia. E a
magia daquele momento estaria para sempre perdida.

Era uma pena, mas a garota não podia acordar. Por isso, ele foi até a cozinha,
buscar sua faca de cortar carne.
Sabe quantas vezes eu já li esse trecho? Se souber, me diz, porque eu também
quero saber. Mas foram muitas, disso eu tenho certeza. Sou como aquele pai orgu-
lhoso ao ver o filho, em um recital de piano, tocar “Cai cai balão”. Só que esse “Cai cai
balão” aí é premiado. É o trecho mais elogiado do meu livro, Desejo Sangrento. Best
seller, querida, isso mesmo! Já foi lançado em quase uma centena de países, traduzido
para idiomas que eu sequer imaginava existir. Uma adaptação de cinema está sendo
produzida. Hollywood, baby! Sim, os milhares de dólares já caíram na minha conta e,
se o desempenho nas bilheterias for bom, a quantia vai aumentar.

Agora, vamos segurar a empolgação. Quem me ouve falando assim pode


achar que eu sou um babaca convencido. Não. É só orgulho pela trajetória que me
trouxe até aqui. Hoje, nessa cobertura com ampla vista para o horizonte da cidade,
minha vida não lembra em nada os perrengues que passei.

Vamos recuar nossa história. Cinco anos atrás e eu, apesar de parecer mais
velho do que hoje, levava meus inseparáveis óculos de 4 graus de miopia para tra-
balhar como auxiliar de bibliotecário numa escola na periferia. Um concurso que
pagava pouco, é verdade, mas que viabilizou que eu concluísse minha graduação em
literatura.

Parecia uma escolha inteligente. Eu precisava de dinheiro para pagar a facul-


dade. Amava ficar rodeado por livros. E, naquele ambiente de silêncio, poderia escre-
ver meus textos. Não sei quando surgiu esse desejo em ser escritor. Provavelmente
na infância, quando meus colegas ganhavam medalhas no esporte e meu consolo era
tirar 10 em redação. Ou pode ter sido quando comecei a querer me libertar da vida de
orçamento apertado que meus pais podiam me oferecer. Se escrever era a coisa que
eu fazia melhor, então eu precisava ser profissional.

Só que nem tudo sai como a gente planeja. Geralmente, aliás, acontece tudo
ao contrário, mesmo. Uma biblioteca de escola pública pode ser tudo, menos um
lugar aconchegante para a criação literária. Havia as aulas em que a professora de
literatura teimava em levar os alunos até lá. Éramos invadidos por adolescentes chei-
rando a CC, manuseando livros com a delicadeza com que um ogro deflora sua es-
posa nas núpcias das bestas. Machado de Assis, Julio Verne, Shakespeare, Camões…
Toda a literatura mundial era revirada com brutalidade, me rendendo semanas de
ofício reparando capas de livros. Isso sem falar nos casais que iam para lá buscar um
recanto para o namoro ou nos que achavam que ali era lugar para fumar. Era tenso.

Havia, é verdade, dias melhores. E aí, longe dos olhares vigilantes da minha
supervisora, eu escrevia meus textos. Contos sensíveis, sobre a fragilidade da vida,
questões existenciais de quem vive uma vida amarrado em rotinas, desigualdades
econômicas… A história que eu mais gostava das que escrevi naquela época foi sobre
uma mãe de família, esquentando a barriga no fogão o dia todo, lavando roupa, o
chão e apanhando do marido à noite. Um primor, sendo sincero. Narrativa poética,
roteiro bem construído, história pertinente. Postei no meu blog, o que fazia com
todos os meus textos.

Sabe o que as pessoas que leram comentaram? Nada. Nem um parabéns, nem
um gostei. Nada. Algumas pessoas liam ou, ao menos, curtiram a publicação na rede
social. Mas não reagiam como faziam com omemes.

Na época, eu não percebia isso. Eu era ingênuo e iludido. Achava que cada
curtida era, de fato, alguém avaliando bem minha escrita. Por isso, participava de
concursos literários de todo país. Acreditava que ali estava a chave para minha mu-
dança de status. Com o aval de um concurso, chamaria a atenção das editoras e pode-
ria viver de literatura. Seguir meu projeto de ser escritor.

Formei, então tinha as noites para escrever. Com o dinheiro do trabalho con-
segui alugar uma casa, um barraco apertado nos fundos da casa do meu senhorio. Ali,
virava noites escrevendo. Ou tentando. Nem sempre a inspiração vinha e eu tinha a
teoria de que era melhor não escrever se o texto fosse nascer pobre.

De pobre, aliás, bastava eu. Trabalhar na biblioteca estava cada vez pior, eu
com pouquíssima paciência naquela escola. E, depois de tanto participar de concur-
sos literários, comecei a colher os frutos. Uma menção honrosa aqui, um terceiro
lugar lá e… bom, basicamente foi isso. Em cem concursos, ou algo assim, fui laureado
em dois. Claro, sem prêmio algum além de uma medalha e um diploma. Mas os tex-
tos seriam publicados em coletâneas, divulgariam meu blog, aparecendo leitores para
outros textos meus, certo? Estou aguardando os leitores dessas coletâneas até hoje.

Até que meu conto, “Menos um dia para Vana”, aquele mesmo que eu descre-
vi acima, foi premiado em um concurso. Primeiro lugar em um certame promovido
pela Câmara dos Vereadores da cidade de Jundiaí. Ganhei 500 reais como premiação.
O dinheiro mal pagava meu aluguel, mas, ainda assim, fiquei eufórico. Era a vitrine
que eu precisava.

Tomado pelo otimismo dos ingênuos, achei que era a hora de fazer escolhas.
Apostar alto. Pedi exoneração do meu cargo na escola. Aquela rotina só estava me
atrapalhando. Iria viver de literatura, finalmente! Eu tinha economias, então fiquei
alguns meses por conta de escrever meu primeiro livro. E foram logo dois: um de
poesia e um de contos. Textos cuidadosamente escolhidos, revisados incansavelmen-
te e com linguagem apurada. Histórias boas, que desafiavam o leitor, tirava-o de sua
zona de conforto.

Sabe o que aconteceu? Vamos adiantar dois anos nessa história. Lá estou eu,
em casa, aquele mesmo barraco, barba por fazer, corpo magro, olheiras engolindo
meus olhos. Estou na frente do computador, cigarro aceso. Na geladeira barulhenta,
que ganhei quando meus pais trocaram a deles, só garrafas de água, praticamente. E
eu escrevendo para internet. Webwriting é o nome disso. Eu fazia freelas nessa área,
escrevia notícias sobre novos lançamentos da indústria automobilística, tecnológica
e anúncios de vagas de emprego. Cinco reais por texto de 600 palavras, que iam
para sites caça-cliques. Na minha caixa de e-mail, junto com spams e, basicamente,
mais spams, podiam ser encontradas mensagens de editoras negando publicar meus
livros. “Não é o que estamos procurando agora”, diziam, sempre antecedidos de um
“apesar da qualidade”. Isso quando respondiam. O silêncio é a negativa mais doloro-
sa, mas quem se importa?

Há dois anos eu alcançava o fundo do poço. Os freelas tomavam meu tempo


e me entediavam, enquanto as recusas de publicação me deixavam frustrado com a
escrita. Mas quando não dá mais para cair, a gente arruma um jeito de se levantar.
Refleti, pensei no futuro. Onde eu ia parar? Não parecia promissor.

Então, lembrei do que eu realmente queria: uma vida boa. Não importava o
caminho que me levasse a ela. Eu estava obcecado por boas críticas, por agradar um
público que me desprezava. Por mais que eu tentasse inovar na escrita, na narrativa,
a impressão que eu tinha é que esses leitores acadêmicos já tinham uma opinião
pronta para meus textos: temática batida, linguagem pobre. E o pior, mesmo se gos-
tassem, eles eram uma meia dúzia. Não pagariam minhas contas.

Ninguém enriquece como escritor sem vender livros. Era nesse público que
eu precisava focar, em pessoas que não se importavam se a história que eu estava
contando era um clichê. De fato, até preferiam reconhecer os rumos da narrativa. A
princípio foi estranho mudar o foco. Eu vinha de anos com o pensamento da facul-
dade, separando literatura boa de literatura pobre. Só que mais pobre ainda era eu, o
verdadeiro bobo da história.

Foi assim, pesquisando sobre clássicos da literatura popular, que cheguei à


ideia de Desejo Sangrento. Um suspense com muito sangue, como o nome já indica-
va. Pesquisei outras vertentes também. Fantasia, terror, romances. Até livro espírita
eu toparia escrever tamanho era o desespero da pessoa que vivia à base de pão com
margarina no café da manhã e miojo no almoço. Assinaria o livro como “ditado pelo
espírito Nissin”.

Fui estudando os gêneros e a maioria deles eu não teria condições de escrever.


Fantasia é coisa para nerd, eles torceriam o nariz se eu não mostrasse total conheci-
mento da obra completa do J.R.R. Tolkien. Terror também não era minha praia e
para romances água com açúcar me faltaria estômago. Sobrou o suspense policial. E,
embora com um pé atrás, me dediquei com afinco à missão. No fundo, eu não enten-
dia porque as pessoas leriam um livro sobre uma história que poderia estar noticiada
no mais tosco dos noticiários.

De fato, quanto mais a mídia noticiou casos de serial killers nos meses seguin-
tes, maior foi a procurava pelo meu livro. Surgiu até a teoria de que alguns daqueles
assassinos estava se inspirando no Desejo Sangrento. Fiquei preocupado, a princípio,
com uma possível repercussão negativa. As vendas, porém, só aumentaram.

Sim, o livro foi um sucesso. A primeira editora que eu tentei se interessou em


publicá-lo. Por sorte, eu havia enviado para outras. E na medida em que as respos-
tas chegavam, eu pude barganhar valores. A edição também ficou bem bonita, um
calhamaço com capa dura. Preço bom nas livrarias. Livros mal acabados não atraem
leitores.

Enfim, podemos adiantar para o tempo presente. Para essa cobertura. Moro
aqui há dois meses. Vê esses móveis? Tudo planejado. Eu tinha pavor de fazer mu-
danças, achava sempre uma tristeza carregar móveis, fogão, geladeira…
Ficava semanas tomando Dorflex por causa de dor contraída em mudança. E
dessa vez, não precisei trazer um copo. É tudo novo. E se precisasse carregar algo,
pagaria alguém para fazer isso.

Tudo bem, devo soar péssimo dizendo essas coisas. Fiquei deslumbrado, é
verdade, mas vai passar. É só a emoção do momento. Você observou que há dois
anos eu só comia miojo no almoço? Acho que tenho licença para ser um pouco arro-
gante agora. Vai melhorar.

Hoje, participo de eventos de cultura pop, dou entrevistas para televisão e até
sou convidado para encontros literários. Sabe o que é mais curioso? Se há anos eu
perseguia críticas positivas, que valorizassem minha escrita, foi eu abandonar essa
pretensão e abraçar a literatura mais, digamos, popular, que consegui reconhecimen-
to. Sim, é verdade, sou muito elogiado por escrever com qualidade. Dizem que, por
mais que um livro sobre um serial killer seja algo comum, a forma como eu escrevo,
como construo o personagem principal, é diferenciada.

Não é engraçado? Quando perdi esse objetivo, as coisas caminharam. Claro,


não foi fácil, precisei me dedicar. Ninguém escreve sobre uma mente doentia sem
mergulhar, de fato, nesse universo. Gente normal, ordinária, é fácil de entender.
Elas estão por todos os lados, somos bombardeados por elas logo que nascemos. E
ninguém quer ler um livro só com elas. Agora, um psicopata é bem mais complexo.
Só com uma boa imersão para poder conceber um personagem desses. Por isso, meu
livro está tão valorizado. O Denzel Washington está cotado para ser um policial no
filme, dizem os produtores.

Olha, mas como eu estou falante, não? Vou parar, querida, nem te dei ainda a
devida atenção. E daqui há pouco você acorda, né? Já já o remedinho para de fazer o
efeito. Deixa eu tirar o seu vestido. Ele desabotoa por trás? Quero vê-la com calma.
55
O QUE VOCÊ
SONHA EM FUGIR
Estela Pires

O sol já está nascendo, reparo, e olho para o teto com um gosto que nunca
tinha sentido antes enquanto você fala, como de costume, que eu mereço muito mais.
Qual é o problema se estar deitada do seu lado olhando para o teto lascado, com essas
flores terríveis desenhadas por um dos seus dias ruins é, para mim, uma obra de arte?
Pode ser tosco, mas a gente é mais, continue a rabiscar as flores. Se você não arriscar
o teto, quem vai? Continue a rabiscar as flores.
“Você conhece poesia, leu os clássicos, fala de cinema, zomba da política, leva
até jeito como escritora, se deixa fazer algo grande”, você comenta, sempre tão pre-
tensioso. Acho isso uma grande besteira, eu devo é ganhar melhor do que a maioria
das escritoras fracassadas, além do mais, todas têm casas e maridos inúteis, enquanto
eu durmo com todos eles e moro em cada uma delas. Elas podem até sonhar mais
alto, tenho é pena, nunca vão saber como é o mundo aqui embaixo. Não quero ser
nada. “É melhor reinar no inferno do que servir no céu?”— você insiste rindo. “O
céu pelo clima, o inferno pela companhia”— respondo. Sou a puta mais culta que
você já conheceu na sua vida, não sou? É por isso que você tem uma foto minha na
carteira? Fico pensando o que a sua mulher pensaria se encontrasse isso, se é que ela
existe. Engraçado isso: já vi tantos homens se confortando dizendo para mim que
não são casados, mas cada vez mais eu suspeito que você cultiva a fantasia de uma
esposa imaginária, como se só existisse prazer na infidelidade. Masoquista é aquele
que se queima, principalmente pelos pecados que nunca cometeu e o amor é sempre
uma forma de masoquismo.
Quando eu era pequena, sonhava que o inferno era um cabaré francês, Lúci-
fer era um rapaz alongado e charmoso que me apresentava à comunidade: estavam
todos lá e me esperavam ansiosamente.
Você brinca com os meus dedos frios me perguntando para onde eu vou —
diz que faria qualquer coisa para ir junto. Amor, por que lhe parece tão angustiante
que eu apenas goste de ser a outra? Não tenho para onde ir e tudo bem, nunca quis
chegar a lugar nenhum. Quantas vezes você vai me pedir para ficar, aterrorizado com
a minha condição de fugitiva? Você vive me perguntando o que eu sonho em fugir,
diz que é fútil meu hino da solidão. Desde sempre que eu já fugia, eventualmente, de
amores jovens ou compromissos pontuais, entretanto, sabia que nunca conseguiria
parar, como se fosse um fardo ou uma destinação que eu, em um deleite, sempre me
encaminhei: a minha fome é a de adiar o mundo, a de não ter nada para colocar na
mala. As despedidas podem até ser dolorosas, mas eu adquiri o hábito de nunca ficar
por tempo suficiente e não há como realmente deixar pessoas nas quais você nunca
esteve. Entretanto, não posso dizer que não seja duro não durar, é difícil sim em
alguns momentos, mesmo assim, eu prefiro essa nota rápida que é a minha liberdade
escrita nas coisas.
Às vezes, me pego em um bar vazio, quase fechando, madrugada adentro e
penso se esse é o destino adequado para uma romântica tão convicta e irremediável
(como se eu não soubesse muito bem do gostinho doce que a tragédia tem). Talvez
se o tempo fosse diferente, ou se eu fosse outra, as coisas poderiam não ser assim.
Num dia fatídico, as mulheres resolveram queimar seus sutiãs e agora se espera que
sejamos alguém na vida: temos que trabalhar, votar e dirigir, a nossa voz é de ex-
trema importância, meu deus. Fossem outros tempos bastava que eu lesse livros e
tocasse piano. (Sempre me identifiquei mais com os objetos do que com as pessoas,
não quero ser gente, quero ser coisa, matéria dura e oca, ser de carne e osso dói mui-
to). Rezo para Deus para que ele me transforme em um abajur. Minha preferência
pelo demônio se atenuou na medida que eu reparei que talvez eu me veja também
na hipocrisia divina, na bondade questionável d’Ele. Ele criou os homens para ser
adorado, eu também adoro ser idolatrada.
Você parece ter voltado a dormir, vou embora e levo a foto comigo.
Leio o jornal de ontem, ou anteontem, pouco importa. Que eu leia o jornal
do século passado, as inscrições em pedra, os fósseis enterrados, tanto faz. Mais vale
passar os olhos pelas páginas sujas, acariciar as manchetes que imploram por atenção.
Para que os passantes olhem e vejam que eu parei para ler o jornal, que eu me preo-
cupo com o mundo. É importante até suspirar: que absurdo! Mais uma bomba! Mais
uma vida! Mais um desastre! Passantes ridículos, um tão absurdo quanto o outro, eu
mais desastre que todos eles. Eles concordam quando eu reclamo das notícias, a fata-
lidade inconformada com a desgraça e tudo que eles sabem fazer é concordar. Uma
pessoa que não concorda com nada é o que? Interessante, no mínimo.
Queria contar que eu não deixei de ser o que não fui por falta de escolha, na
verdade, a ideia foi justamente ter muitas. Eu escolhi não escolher, não sou lá muito
boa em me posicionar, definir isso em detrimento daquilo. Uma mestra em estar-en-
tre, em cima dos muros, com o rabo entre as pernas.
Poucos sabem que eu tenho estudos, sou letrada e tudo isso, leio mais do que a
maioria da clientela, moro num apê minúsculo, mas moderninho, frio e minimalista
no centro da cidade, a ideia é ter apenas coisas suficientes que caibam no bolso, ou
que eu não me importe em deixar para trás. De qualquer forma, ganho bem, mais
do que o suficiente para sustentar as minhas vontades capitais, entendam, eu gosto
da decadência, do desgosto na cara dos conhecidos: às vezes, apareço às reuniões
da turma que estudou comigo, mesmo sem ter sido convidada e me comove aquele
desprezo no olhar frio dos antigos colegas. Não sei se é impressão minha, mas parece
estar sempre imbuída uma inveja ou um desejo secreto e isso me sobe à cabeça numa
crueldade inata. A minha promiscuidade é um encanto aos olhos dos outros e eles
me odeiam por isso, há coisa mais irresistível? Ainda capricho no traje de prostituta
quando vou encontrá-los, aqueles vestidos gritantes de lantejoulas vermelhas, salto-
-altos extravagantes e, porventura, até glitter ou bijuterias exageradas. As fantasias
banais e o seu tédio constante são tão frágeis que se abalam facilmente por uma
personagem hollywoodiana e eu me divirto contando casos absurdos e totalmente
ridículos, vendo-os se deliciarem ao me confundirem com a própria aventura. O que
mais choca são os palavrões, meu deus, como amam palavrões, essa elite puritana
de novos ricos se consola na minha liberdade, sonhando também com essa remota
possibilidade.
Muitos sentem pena, até você sente, eu acho. Não sinta, eu só preferi uma
vida interessante do que um final feliz. Você diz que as 50 pratas são um preço pífio
a se pagar pelo meu serviço de musa, talvez eu só seja musa por que sou uma prosti-
tuta, por que tenho mistérios cuja verdade você não guarda, por que você acha que
é só mais um, por que sabe que o nosso amor não pode ser mais do que um amor,
nunca nos casaremos ou teremos filhos, ou moraremos juntos e como tudo aquilo
que é impossível, é muito mais bonito.
Depois de devorar o jornal em dois tempos, caminho pela cidade que é mi-
nha. A silhueta dos prédios arranha-céus me serve de café da manhã, pouco importa
o nascer do sol mais bonito quando não há nada nem ninguém para recortá-lo em
extremidades gritantes. Caminho sempre virando à esquerda, até me perder em ab-
soluto, depois eu penso em como voltar: o importante é não deixar rastros, o impor-
tante é não lembrar das esquinas deixadas. Isso me incomoda, mesmo assim, realizo
esse exercício diário, lembrança de que eu escolhi estar sozinha, que ter todos é tam-
bém não ter ninguém, eventualmente dá um aperto no peito, mas não é nada sério.
Você me perguntou o que eu sonho em fugir, bom, acho que já mudei tanto o motivo
e o lugar que hoje não sei mais o porquê exato, só adquiri o hábito, como o de usar
tênis coloridos. E como parar? É uma linha tão simpática de ser, a boemia enrustida,
o romance plural.
Sei lá, há algo de bonito nisso: que eu sou só os charmes e caprichos, um mal
necessário na vida dos homens, os detalhes mundanos, a poesia nefasta, os suaves de-
salentos de um cotidiano para sempre sonhado. Sou aqueles que preferiram os cafés e
bares escuros e a cerveja como amante contínua, escolheram os trilhos e não o trem.
Sou uma escrita torta em linhas erradas, os crimes da Terra imperdoáveis e a nudez
forte da verdade. Talvez, a solução seja justamente o fato de você se chamar Raimun-
do (não rima com o teto florido lascado do seu apartamento e, ainda assim, aquele
estar do seu lado é um dos meus lugares prediletos). Talvez eu te devolva aquele 3x4
meu que encontrei na sua carteira hoje cedo, continue a rabiscar as flores, com amor,

Elis.
59 SUPER
GERINGONÇA
Julia Mascaro Alvim

Alice. She’s reading Shakespeare. Sim. O bigode do próprio autor a inspira.


Quer consertar a geringonça! Ele se aproxima apaixonado e seu bigode imita Salva-
dor Dalí. Sorri brandamente. Quer fazer sexo com Chico Buarque... Por quê? Indaga
curiosa. É apenas a imagem, responde amoroso...
Não deixaria ele se aproximar, pensou Alice, e evocou o que a imagem lhe
dizia. Éramos papagaios na vida passada, respondeu reclusa. A resposta da menina o
encorajava. Poste-se qual Alice no país das maravilhas! E vamos brincar de cinema.
Apagou as luzes e a comeu.
Passados cinco anos, espreitavam as pessoas aglomeradas na festa do Oscar.
Que chique! Perambulavam de mãos dadas a impressionar o público, tão restrito em
seus desesperos. Queriam paz e foram-se para dentro. O vestido de Alice brilhava ao
tempo em que Salvador, Shakespeare na verdade, emplumava-lhe as mãos: eram o
mais belo casal...
Não ganharam prêmio algum e partiram na geringonça consertada. Mas, o
público ainda os espreitava...
Fugiram solícitos. Prosseguiram à história. Os pelos da perna de Alice fa-
ziam-na parecer um homem. Não havia refúgio, então, dormiram na geringonça
mesmo que havia sido programada para o sul. Encontraram ao chegar ali uma me-
nina esperta. Tornou-se amiga deles e pôs-se a cantar: Tuas pernas ejaculam, qual a
foice de Mattar, são dois pelos clareados, que não dobram por passar, arranque mais
certo os que aparecem bem nas coxas, pois a cera empelotou... Entendiam os porquês
da criança e a adotaram para si. Quando Telma entrou no que parecia ser uma nave,
imperou lúcida. Shakespeare vai me matar!Proferiu branda. Vai sim, concordaram
os adultos e Dalí partiu para o refeitório. A sala era suprema. Sim. Localizava-se no
patamar e a vista era ampla. Lembrava a cúpula do teatro municipal de São Paulo.
Havia um piano ali também. Alice começou a tocar uma música clássica e deixava
sua voz permear a música até o momento em que começou a gritar: Ave Maria! Não
se Aborreça! Pediu Shakespeare... Não podia se desvencilhar do personagem Dalí,
já que ambas não o reconheciam nesse estado. Imediatamente apareceu o garçom.
Parecia um extra-terrestre, pensou Alice. E protegeu a menina de qualquer fator que
o fizesse revelar. Impossível captar sua história e num rompante. Disse: -O senhor
está pálido! A educação do homem foi excessiva. Permaneceu sorrindo por alguns
minutos. Trouxe o espelho da menina que estava guardado em seu aposento. Cuida-
do para não refletir por sobre o filme plástico, prosseguiu, é capaz de o material quei-
mar. Não se queimará não! Gritou Telma. E refletiu bem no centro do cartaz. Alice
caiu no chão despencando sobre o tapete. Batia as mãos tirando a poeira dele até
produzir uma nuvem de fumaça. Vamos embora daqui! Shakespeare estava cansado
de tramas sutis. Propuseram ir ao convés. Miguelito, o garçom os conduziu. Lá fora
conversavam todos sentados nas espreguiçadeiras, menos Miguelito. Este não se en-
vergonhava de ter um nome no diminutivo. Mil, o apelidaram. Também gostou da
ideia e começaram a jogar gamão. Telma a não entender nada do que se passava abriu
uma portinhola e ali estava situado o anão Vulcão. Começou a conversar com ele e
sentiu um pouco de medo, mas logo o apresentou aos amigos. Vulcão já tinha cer-
teza que Miguelito era realmente um extraterrestre. Permaneceu em segredo. Não
podiam enfraquecê-lo, pois sorviam as energias de modo a imperarem no convés.
Vulcão esticou a coluna para cumprimentar os homens. No âmbito do tempo surgiu
uma nuvem de fumaça que encobriu toda a geringonça. Então entraram de roupa
na piscina. Era delicioso se molhar em tal fumaça. Não sabiam ainda se se tratava de
fumaça proveniente de combustão ou névoa. Pouco importava. Telma nadava pei-
xinho e os outros mergulhavam até o fundo de seis metros. Tocavam a mão no chão
para ver quem vencia. Alice voltou primeiro. O que faziam os homens no fundo da
piscina? Queriam impressionar as mulheres? E o vapor da água subia e descia rumo
à sala de calefação. Foram todos para lá. Estava aquecida. Nenhuma roupa ficou pen-
durada ali. Preferiram estendê-las na lavanderia. Nus estavam neste outro aposento.
A menina resplandeceu em timidez. Não olhava nada e eles permeavam a bruma que
os encantava. Estavam no paraíso? Pensou Miguelito. E foi ao cabeleireiro fazer um
estilo punk de corte. Desvencilhados de Miguelito sabiam não estarem em guerra,
mas encontraram Chico Buarque de Hollanda amaldiçoando tal Geny. Cantava su-
pimpa! Simplesmente localizava-se a estibordo. Como aparecera ali? Viera de um
Brasil miserável repleto de favelas e morros retalhados por vidas pedintes? Lógico
que teletransportára-se até ali. Fariam uma festa para provar a existência dos cinco.
Posso trazer a Gal Costa. Somente se cantasse a noite inteira. Dito e feito. Chegou
laminada e imperou no palco do teatro. Também no palco do refeitório depois da
meia-noite. Cansou-se e foi dormir. Deitou na casa das máquinas. Era o único lugar
possível. E foi embora de helicóptero no dia seguinte. Deixara um livro para todos de
presente: o dicionário das palavras extintas. Começaram a ler. Lux. Luz. Vate. Retro.
Passaram o dia assim. Depois projetaram o filme: A viagem do Capitão Tornado...
Acabada a história, leram também Vento das Pedras que estava escondido entre os
cobertores do closet principal. A partir daí rumaram sem rumo algum. Velavam o
corpo de Ornella Muti e a colocavam despropositadamente em vanguarda. Estava
viva, mas não respirava. Permanecia diva mantendo o modelo de beleza. Era uma
cena. Imaginavam apenas a rapariga a imitar branca de neve, tão pálida, tão jovem.
Porém, eram castigados sem saber. O anão vociferou: uma vaca! E foi preparar umas
codornizes junto a Miguelito. Em sânscrito pensavam. Uma prostituta maravilhosa
seria capaz de enfeitiçar Alice. Aliviaria seus instintos bissexuais ultrajando a cidade.
Estavam errados: Qual era o nome do anão? Não lembravam e o obrigaram a manter
relações sexuais com Ornella. Assistiam tudo com sadismo. A presença em ectoplas-
ma de quem escrevera tais perversidades não era revelada e Sodoma ruía sobre suas
cabeças. O pôster de Anais Nin fora equilibrado no tripé do hall.
É o momento de voltarmos, proferiu Telma, já adulta e arregaçada pelo novo
namorado. Tinha um caralho mais grosso que o normal. Proibiram-na de cantar. Vi-
vera a música de forma drástica. Sofria com tal decisão e emancipava a escrita. Quan-
do cantamos muito, a voz precisa se restabelecer. Vivi isso sem orgulho e acredito
meu marido ser o imperador da China. Sabia cantar sete meses seguidos sem preju-
dicar a bendita. Era o que queria mais. Preparava-se para cantar especialmente para
hermafroditas. Portava-se futurista. Como as flores em relação ao espaço sideral.
Poéticas, exuberantes e simples ao mesmo tempo. Alice diminuíra de tamanho. Que
trágica! Perdia-se novamente na saleta do tronco de árvore a destrancar fechaduras
especiais. Uma dera acesso à sala onde Karen Magnética fora presa. Originara-se esta
Karen em sua própria sala de estar. Entre reverberações de luzes e cores. Nem das
fotografias lembrava-se até este dia e seus pais apareciam em Saturno numa viagem
que fizeram em lua de mel. Impossível. Nascera com dezessete anos. Porém casara-se
aos vinte e dois. Outra estória pra contar. Enfim, no país das maravilhas, os soldados
eram estupradores e a perdição amalgamava os poetas. Todos os homens relegados
ao esquecimento. A sífilis devorava os justos e ninguém perguntava por que até mor-
rerem em acidentes aéreos e automobilísticos. A estupidez das pessoas gera tamanha
prolixidade! Pensou. Separaram-se dos outros: Alice e Telma. Alice infantilizada pela
abundância de aventuras e Telma sóbria a ponto de parecer Bernarda Alba. Agora
encontraram Júlia, a vilã de Bernardo e Bianca do Walt Disney. Havia mudado de
nome, mas ainda morava em Chicago. Ou não. Tinha duas mansões. Odiava ter de
tirar os cílios postiços diariamente exceto aos finais de semana quando descançava.
Falou sorrateiramente às duas: Os jacarés estão hibernando. E foram visitar a prisio-
neira. Era Rita Lee, a filha adotiva dela. Planejaram o assassintato da vilã e foram para
a geringonça. Situava-se entre o triângulo da Bermudas. Nova festa: com centenas
de pessoas a ocupar o saguão principal. O filé-mignon consistia em agradar a todos.
Maria Bethânia figurava onírica na tela de cinema. Interpretava Yerma. Durante as
danças a esposa da Casa de Bonecas extasiava-se independente. A miniatura do edifí-
cio obrigava Tennessee Williams e Eugene O’Neill a iluminarem o recinto. A bomba
explodiu matando a todos. Sobrou Shakespeare.
Tamanha astúcia não suprimiu o instinto do autor. Manteve-se solitário.
Deu um solitário à namorada certo tempo depois. Carmem. Uma bailarina flamenca.
Não queria mais geringonças. Agora o must seria uma máquina do tempo, ou mesmo
uma nave espacial. A diferença era: a nave viaja no tempo, mas a máquina faz você
sonhar. Pouco importa as pessoas da história. O heroico seria permanecer fiel...
Reunira todos no passado novamente. A era Vitoriana trouxera Orlando in-
terpretado por mim. Evocava Diadorim quando era obrigada há permanecer qui-
nhentos anos na banheira de luxo. Chamei João. Trouxe a esposa. Comemos salada
e lasanha. Confesso que achei meio esquisito. Costumava me imaginar abraçada por
trás num cartaz de filme. Antonio Banderas apertava meu corpo com força e eu ex-
pressava a essência do tango em um rosto extremamente maquiado. Éramos ban-
didos a se amar. Havia me casado no início da película com um amigo e o traía. A
cena de meus lábios sendo pintados para entrar na igreja me deixava nervosa. Dirigia
periculosamente na praia atrás de Antonio que já estava morto. Chorava e gritava
ao saber a notícia... Almodóvar dirigira a história. Fácil aprender alemão. Difícil é
articular em hebraico. Não sou...
A partir daqui fodo com Shakespeare. Ele está inspirado. Tem um pênis deli-
neado e vascularmente excitante. Abro as pernas para ele diante do espelho e ele me
penetra por trás. Estou sentada em seu colo e peço para enfiar só a cabeça... Umas
vinte vezes... E olhamos nosso sexo a tremer... Sua força consegue manter minhas
pernas bem abertas e posso então gemer: Rogéria... Nossa futura filha... Nasceu de
uma relação ilícita. Espero que meu amor seja fiel a mim mesmo após a morte. Acho
pecado a relação sexual gratuita, porém não desfaço rendas. Sou a bruxa de Parana-
piacaba e quero fazer sucesso neste mundo tão cruel. Já vivi o martírio. Então Jesus
me disse: serás feliz. Realmente acreditei e os momentos epifanicos de minha traje-
tória não renegam a atenção que mereço. Invejo Shakespeare pela sua astúcia. Te-
remos gêmeos: Juca e Chico. Dois personagens impossíveis de tão cruéis. Também
enforcaria Judas qual pagã sobre o andor. Quero geleia de morango. Estou grávida
de São João. Isabel é fichinha perto de mim. O que há? Achas que não sou capaz?
Vejo-te lúcido sobre o túmulo. Ressuscitaste do inferno. Olhas como quem já partiu
desfazendo impérios. Anda, pois, devagar a lavar o sangue de uma glória perpétua
que ninguém acreditará logo depois. O cheiro de teu corpo elucida o lugar. Plana
etéreo... Realça a luz evacuando o silêncio... És meu...
O tempo foi capaz de nos teletransportar até aqui meus caros amigos. Lem-
bro um arco-íris brilhante que vi quando era criança. Sou um pouco clarividente.
Também já vi um anjo azul-brilhante maior que um ser humano. Seu rosto emanava
vermelho e veio me avisar de minha gravidez e me alertar do perigo. Não tente me
assassinar de novo alma cruel. Temos mil anos para nos vingar. E a Terra que perde-
rá a água fará sua miséria distante. Quererás chuva, ela não virá, morrerás de sede e
os insetos devorarão desesperados a tua plantação. Vossa vontade é o estorvo da vio-
lência. Chego ao fim de mais uma história. Então posso sorrir para qualquer um na
rua como a estúpida Macabéa. Sim Clarisse, vamos nos dar as mãos. Correremos vo-
ando sobre a plataforma. Esculpi sua estátua e não me envergonho. Fui à profundeza
dos abismos. Minhas poesias eternizaram as crianças e Cecília já pode voar. Somos
musas inspiradoras a atiçar Mefisto em terrenos aplanados. O chão enlameado nos
faz escorregar por sobre um mundo pequeno e abarrotado. Impeço-te de prosseguir.
Shakespeare vem vindo. Múltiplo. Sincero. Quer adotar cem Dálmatas e se traveste
de Malvina Cruela.
Tiramos corpos de caixões. Trabalhamos no cemitério. Os preservados viram
velas onde os cristais ocupam o aquário da menina manca. Quem preferiu ostras,
hoje prefere camarão frito. Preciso reler A Bolsa Amarela, pois não relembro o enre-
do. Mas guardo segredos. Onde cabe tudo. Até pergaminhos métricos...
Você está muito curioso para saber o final de tudo isto. E o final é:
Estamos a caminho de Saturno. Viagem de férias. Na própria geringonça. Os
temas são dados. Já estou na quinta página e quero me livrar de Batman. Não posso
narrá-lo qual herói, pois estaria desenraizando outro Robin. Completamente dife-
rente do que já existiu. Prefiro, agora, os personagens do meu país, quais os persona-
gens de Chico naquela canção: agora eu era herói... e o meu cavalo só falava inglês...
Marieta está desesperada para sair da caixa mágica. Prevejo a morte dos entes.
Minha lua é em touro...
63
UM DISCO DE
GARDEL
Estela Pires

Interessante nesse jeito de não ter nada a ver comigo e interessado no meu
monólogo íntimo, óbvio que eu preferia os meninos bonitos, mas você era maior.
Após acordar em completo desespero e querer ser eu, deitei nos seus braços e me
apaixonei pela vida pela primeira vez. A estrada estendia-se lá fora e a gente ace-
lerava para lugar nenhum ainda mais rápido. Você me prometeu que tudo que eu
conhecia podia ser apenas uma memória distante e eu gostava de pintar as unhas
de vermelho no painel do seu carro, parar em lojas de conveniência e ser completa
inconveniência.
Sabe esses devaneios absurdos que a gente até se autocensura de tão remotas
as possibilidades concebidas em sonho? Eu cheguei muito perto. Naquele cansaço
absoluto, despenquei, como nunca tinha escorregado antes. Eu, que sempre neguei,
neguei por consequência, resolvi, por pura urgência e cansaço, a própria inconse-
quência. Era bem certo que você não faria bem, eu queria o seu mal, precisava dessa
maldade puro libido, volúpia inteira.
Eu me sentia uma princesa rasgando o vestido e soltando o longo cabelo ne-
gro em uma boate suburbana, era maravilhoso, era vasto e você ainda me chama-
va de princesa. Tudo começou com um inofensivo convite para dar uma volta no
mundo de baixo e a lembrança de que esse mundo é apenas o mundo do meio, em
pouco tempo nos agarrávamos como duas serpentes, eu não conseguia manter as
minhas mãos longe das suas, era a primeira vez que me desesperava de tal forma,
nosso amor barato vivia em qualquer lugar — tinha alguma combinação quase que
completamente barroca na nossa vida glamorosa e marginal, assim como a cobra no
banco de trás e seu sonido acompanhava bonito a trilha sonora da nossa trilha que ia
do nada ao nada. Você era alto e flertava com as meninas das pequenas cidades onde
parávamos, elas também enlouqueciam, sabíamos bem da traição mútua em segredo
e a aceitávamos numa tentativa plena de amar amor inteiro.
Lembro de pararmos meio a ermo no meio da estrada e de você derramando
o meu biquíni preto, o seu corpo quente junto à minha pele gelada arrepiada, a luz
pálida da lua dizendo que guardaria tudo em segredo. Você falava da minha beleza
antiga e sobre como nos conhecemos em outras vidas e gritávamos para os deuses do
tempo a nossa virtude. Mesmo que não fôssemos em verdade os maiores de todos,
ainda creio que éramos enormes, gigantes.
Passava meus dedos pelas suas tatuagens feias, sabia como eram importantes
para você. Não era mais o amor que me mantinha ali, eram os vícios, quase que uma
doença, pura obsessão. Eu não precisava acreditar em nada, via tudo diante dos meus
olhos enquanto o espetáculo brilhava e nenhuma história era tão fascinante quanto
as minhas memórias. Dancei a cantiga do infinito nos seus lábios, senti o seu cheiro
refrescante nas minhas roupas, vi nos seus olhos o reflexo das estrelas e decidi que eu
era uma. Eu podia esquecer o mundo lá fora, ou talvez fosse justamente o mundo lá
fora transbordando pra dentro e de dentro para fora em um mesmo impasse.
Até que, numa quarta-feira de cinzas, você desapareceu, como um sonho
bom, uma presença quase que irradicada, levou as fotos, as roupas, as músicas e a
melhor parte de mim. Nunca soube como nem por quê e tudo o mais e enfim e então,
seu nome me fugiu só e apenas. Gosto de pensar que você me deixou por amor, por
acreditar que acordar com uma faca no peito talvez fosse melhor do que nunca acor-
dar. A maioria das mulheres morre uma vez só, mas eu não sou como a maioria das
mulheres. Pensar no outrora é um fracasso, e se eu não quiser ser forte? Esse outrora
que eu tenho posso guardar agudo afiado em todas as coisas.
Quando decidi ser eu naquele momento, acho que também optei sempre pela
dor. Há algo de bonito na dor, no sofrimento irresistível, é quase que consequência
de se estar vivo, aquela dor que existe no nascimento pode ser revivida, eu quero me
alimentar da placenta, de tal forma que eu nunca teria feito diferente, eu sou gente,
eu sou selvagem. Eu não quero esquecer, eu quero sofrer denso você inteiro para
todo o sempre. Quando estou sozinha em casa, digamos numa terça-feira à tarde e
toca um tango no apartamento junto ao meu, eu já não resisto mais. Sabe, parece ha-
ver algo de nobre, nessa humilhação, de não evitar, não fugir, apenas deixar que doa.
Chorar com vontade grande, lágrimas ácidas e esfregar os olhos com tanta força para
pintar o rosto de preto com os restos do rímel, até ficar tão inchada a ponto de não
enxergar mais quase nada. Não há nada tão libertador quanto atentar contra si mes-
mo, atentar sem nenhum pudor, até temer e sentir pena de mim mesma. Fall in love.
Sobre quedas— em/para/por amor. Nessas tardes, eu me deixo cair em completo,
imaginando rostos, lembrando vozes. Quando sinto que cheguei no ponto máximo
da queda-livre, aí surge um alívio único, como se eu tivesse finalmente próxima de te
encontrar, sinto seu braço apoiado no meu ombro e você colocando a minha música
favorita, solto-me arrancada em completa saudade. Ainda bem que eu te escolhi para
me destruir. Lá no fundo do poço mais sujo eu posso ver que apesar de hoje, houve
ontem e anteontem e vários anos atrás, o que importa é que ainda sinto a vida aperta-
da, ao encontrar restos importantes delicados (que ajudam a viver) em um lixo a céu
aberto, ao descobrir memórias e não cobri-las se novo, por gosto e tortura. É que eu
coloquei a cabeça para fora do carro e o vento bateu jogando meu cabelo no ar e, ao
olhar para trás, eu gostei do que vi e hoje escrevo essa carta por me faltarem palavras.
65O QUE FOI,
MEU BEM?...
Fernando Antônio

Eram 2:00 hrs. da madrugada de sexta-feira.Leiam o que me aconteceu:


Havia trabalhado até as 7:00 hrs. da noite, e para comemorar o “Dia Inter-
nacional da Cerveja”, dirigi-me até um pub na região central da cidade para tomar
algumas cervejas long-neck e bater um papo com algumas garotas que freqüenta-
vam o lugar. Aproximei-me do balcão e pedi cerveja para mim, após o que, fui para
uma mesa e acenei para uma moça que conhecia. Seu nome era Suzy. Começamos a
conversar sobre amenidades e futilidades, para quebrar o gelo. Depois conversamos
sobre assuntos atuais, pois Suzy era bem informada à despeito de ser uma garota de
programas. Falei-lhe que a crise política pela qual o país passava estava ameaçando
meu emprego, sem o qual estaria perdido pois embora não fosse casado, tinha que
pagar uma pensão alimentícia para meu filho, que tive com uma ex-namorada além
das despesas usuais de um homem solteiro de meia-idade: um carro seminovo não
quitado ainda, o aluguel da quitinete em que morava e as despesas de subsistência.
Já estava na oitava garrafa de cerveja long-neck, ao passo que Suzy já ha-
via consumido três latas de soda limonada pois ela não consumia bebidas alcoólicas.
Confesso que estava ficando meio embriagado. A noite havia avançado e a madru-
gada se insinuava em sua cumplicidade. Em um dado momento sugeri à Suzy que
fossemos dar um passeio pelos arredores, para livrar-me da embriaguês. Paguei a
conta e saímos do pub às 01:30 hrs. da madrugada. Começamos a andar por uma rua
secundária meio escura, quando Suzy disse-me que tinha a impressão de estar sendo
seguida por uma luz que circulava no céu. Eu olhei para me certificar e não vi nada.
Continuamos nosso passeio. Subitamente, Suzy parou e apontou para o espaço estre-
lado, mostrando um incrível objeto brilhante que se deslocava em todos os sentidos,
em manobras arrojadas comparadas à um “drone” ou a um objeto qualquer desco-
nhecido. Emitia uma luz avermelhada e não fazia barulho. Após esta constatação
tomei-a pela mão, e começamos a correr desesperadamente pelas ruas, tentando nos
livrar da incômoda presença do objeto. Depois de uns trinta minutos de louca fuga,
paramos e, com pavor, olhamos ao redor para verificar se havíamos nos livrados
do objeto. Quando parecia que havíamos nos safados do apuro, olhamos para trás,
e o OVNI (vou chamá-lo assim) estava à uns 5 m. de distância, grande e brilhante,
emitindo uma luz vermelha intensa que nos cegava. Suzy, para complicar as coisas,
desmaiou. Tratava-se, evidentemente de uma abdução, e eu tomado de fúria, corri
para o OVNI e o segurei com as duas mãos, ferozmente, tentando de todas as formas
agarrá-lo e destruí-lo.
Subitamente, senti um calor irradiado queimar minhas mãos e um barulho
de coisas se quebrando. Acordei. Estava estrangulando meu abajour freneticamente,
que se quebrou, enquanto Suzy, seminua, acordou e assustada perguntou: “O que foi,
meu bem?...”.
67
SOB AS PRESAS
DO MAL
Lucas delo Santos

Pode se dizer que eu estava perdido, no meio do nada, sem nada, e ao mesmo
tempo em uma escuridão total. Tinha deixado São Sebastião do Paraíso, com destino
a Jacuí. Um pequeno povoado, e sudoeste de minas. Quando passei por Paraíso o
ponteiro de meu relógio já passava das cinco horas, e ali sábia que chegaria ao anoite-
cer. Dirigindo meu Mustang Shelby preto com duas listras brancas em seu capô, seu
motor de quatro cilíndricos roncava como um avião, contornando as curvas fechadas
da estrada apertada de cor negra com destina a pequena cidadezinha, no caminho,
não encontrava uma única alma viva.
A menos de duas semanas recebi uma ligação. Tava eu em minha casa de
veraneio, de barriga pro ar aproveitando merecidas férias. Quanto o meu celular
tocou, rapidamente corri para atender e para minha surpresa do outro lado da linha
estava uma velha amiga. Roseli, conhecida por Rosa, e posso dizer que era mesmo,
uma verdadeira rosa de beleza.
Meu nome é Dante; sou especialista em resolver casos inexplicáveis, na ver-
dade sou um Hunter, melhor dizendo um caçador. E minha especialidade são mons-
tros. Alguns de meus casos são realmente com criaturas do mal, vindo direto do
inferno do submundo, outros casos não passa de falsas histórias, isso acontece muito.
Sempre existem fatos relativos, lendas urbanas, que muitas das vezes não passa de
um engraçadinho querendo pregar uma pesa. Cabe a mim, resolver estes casos.
Rosa me ligou a frita, dizendo que algo misterioso estava acontecendo nesse
povoado. Jacuí, uma pequena cidadezinha do interior, sudoeste mineiro. A cidade foi
fundada por volta do ano de 1750, a corrida mineira do ouro levou ao novo povoado.
Atualmente a fonte de economia do município, é o poder agrícola, com as grandes
lavouras cafeeiras. Com pouco mais de 7502 habitantes, a 971 metros do nível do
mar, Jacuí está na lista das menores cidades da nação brasileira, tem como principais
vizinhos os municípios de São Pedro da União, São Sebastião do Paraíso, Monte
Santo de minas, Itamogi e Fortaleza de Minas.
Não consegui compreender muito bem, Rosa estava muito nervosa, e falava
coisas desconexas. Pelo o que pude entender se tratava de um vampiro, embora já
tivesse cruzado com alguns ao longo de minha vida. Realmente são criaturas da noi-
te, sanguinárias, rebeldes e loucos por um gole de sangue fresco. Não gosta da luz do
dia, o sol queima sua pele, duas presas enormes se desgarra de sua boca, quanto estão
pronto para atacar, são como uma víbora, que mostra suas longas presas na hora do
bote. Não gosta do sol, alho os rebele, água benta os fere, e sua imagem não reflete
no espelho, as histórias de que uma estaca de madeira cravada em seu peito os leva
a morte, é uma total mentira, isso não resolve em nada. A única forma de matar um
vampiro é decolando sua cabeça.
Embora em alguns de meus casos sobre vampiro, não passava de uma dis-
função mental do agressor. Não se tratava de um vampiro de verdade, fato este que
comprovei na pequena cidade de Monte Santo de minas há alguns anos. Um homem
de nome Benedito avia cometido um crime, matado duas crianças e sugado o seu
sangue, na época achei que podia mesmo ser um vampiro, depois de minhas inves-
tigações constatei que não passava de uma pobre alma atormentada. Naquela situa-
ção Benedito foi internado no sanatório psiquiátrico da cidade de São Sebastião do
paraíso. Anos mais tarde descobri que ele avia fugido. Fato este que me levou a crer
que poderia ser o mesmo Benedito que estava rondando as imediações do pequeno
povoado vizinho. Jacuí é o uma pequena cidade, por não ter muito movimento e
ser cercado por fazendas onde a mata agrega, passa a ser um ótimo esconderijo de
pessoas com antecedentes criminais, não duvidaria que Benedito estivesse por lá, não
vejo um vampiro verdadeiro há muitos anos. Minhas pesquisas me levam a crer que
eles estejam extintos.
Cruzei o último trecho, e avistei a pequena cidade de Jacuí. Rosa ainda mora-
va na mesma casa, tinha me passado o endereço. E quanto adentrei na cidade, rumei
com meu mustang para a casa da velha amiga.
A casa estava do mesmo jeito da última vez que há vi, o que avia mudado era
a cor, na época era branca, agora estava verde. Quanto toquei a companhia Rosa
apareceu por entre a porta e correu em minha direção com um sorriso do canto de
uma orelha a outra, abriu o portão e me deu um forte a caloroso abraço, seguido de
um leve beijo.
Rosa ficou muito feliz com minha chegada. E pude me colocar a par da situ-
ação, soube de imediato que ocorreram mais dois ataques levando assim mais duas
vítimas. Duas jovens, Ana e Patrícia, ambas de 15 anos. Isso colocava o número de
desaparecido em sete, tirando os que eles encontraram já em óbito nas redondezas da
cidade que tiveram seus sangues drenados.
Com estas novas notícias, não podia eu perder mais nenhum segundo ali.
Tinha que começar minha investigação.
Rosa fez questão de me acompanhar, embora não queria colocá-la em perigo,
não queria que ela viesse comigo, com tudo ela vez questão de me acompanhar. E mi-
nha primeira parada foi ao local onde as primeiras vítimas tinham sido encontradas.
Um pequeno bosque no fim da rua principal a área comercializada do municí-
pio. O bosque era na saída do km que levava direto para São Pedro da União.
O pequeno bosque era pouco iluminado, e em sua adjacência levava para uma
fazenda vizinha rodeada por uma mata fechada. Não tive nenhuma dúvida; se tinha
alguma coisa ali, deveria estas naquela mata.
Desci de meu Mustang, abri o porta malas, pequei mais dois pentes de minha
pistola semi automáticas, que já estavam prontas no coldre debaixo de minhas axilas,
encobertas por meu sobre tudo preto. Coloquei os dois pentes em meu cinto junta-
mente com alguns outros acessórios. Um rosário, alho, e um cantil com água benta. E
não podia esquecer a bela, e fatal sophitia. Á lâmina que tudo mata. Minha espada de
lâmina longa, á joguei por cima de meu ombro por dentro do sobre tudo, deixando
apenas à haste de seu punho a mostra por de trás de minha cabeça.
Passava das três da madrugada, hora mais que perfeita para caçar um vam-
piro. Isso se realmente fosse um vampiro. Antes de adentrar a mata, pedi para que
Rosa ficasse de vigia no carro, por eventuais conseqüências. Deixei uma arma com
ela, por precaução. Adentrei a mata, uma mata fechada, tendo como companhia a
luz das estrelas, a passos lentos, ponderados, vagueie por entre a relva alta, e o solo
úmido. Embreando mata adentro; passos á frente; ouvi um som vindo do centro da
mata, gritos a sussurros, e uma melodia, um rock dos anos oitenta, ‘Sweet Child o
mine’ da banda Guns n’ Roses.
Aproximei calmamente, em direção ao som, e percebi que o som aumentava,
avistei um pano branco, uma tenda rente a uma redoma de árvores; do outro lado, a
sena que observei me deixou pasmo. Estava de frente com uma colméia. Cinco vam-
piros dançavam ao redor de duas jovens, três eram machos, e duas fêmeas, mais três
jovens estavam acorrentados a uma árvore. E havia mais dois vampiros machos, na
outra extremidade, juntamente com mais três fêmeas, bebendo e saçaricando.
Seria uma árdua tarefa para livrar os cinco prisioneiros daquele bando.
Já tinha enfrentado outros vampiros, mais nunca tinha visto um bando uni-
do, já tinha ouvido boatos de vampiros se organizando, formando uma comunidade.
Não pensei que isso fosse realmente verdade.
Enfrentar aquele bando em plena noite, não seria nada inteligente de minha
parte, minha melhor opção era esperar o amanhecer. Recostei-me rente uma copada
de uma árvore e esperei o dia clarear. Pensei que poderia esperar, não foi bem o caso.
Minutos mais tarde, quanto pensei que estava tudo bem, uma dessas feras me
localizou, três deles estavam voltando de uma caçada e acabaram por cruzar comigo
em meu esconderijo, com isso teve início ao embate.
Saltei da copada da árvore, e rolei pelo chão, desviando dos primeiro ataques,
com o barulho, todo o bando ficaram em alerta. Os três que acabara de chegar pros-
traram se em minha frente, e outros quatros, chegaram a minhas costas, estava eu
completamente cercado. Saquei de minha semi automáticas e executei os primeiros
disparos, como era de se esperar, não teve nenhum efeito. Um deles arreganhou suas
presas em minha direção, em sinal de desdém, e com um gesto fez sinal para que os
demais me atacassem.
Executei mais disparos, embora não os matasse; pelo menos os tirava de ação
por alguns segundos, isso me dava algum tempo. Com os disparos tirei três de ação,
e corri da direção do que estava mais próximo. Saquei minha sophitia e o golpeie
rapidamente, sua cabeça voou longe. Tal ato deixou os demais mais nervosos.
Começamos ali um embate.
Ataques vinham de ambos os lados, consegui desviar de alguns, mais outros
me atingiam em cheio e suas garras afiadas provocavam largos cortes em minha pele,
com isso estava com um rasco em meu braço esquerdo e um nas minhas costas, o
sangue começava a escoar. Com tudo já tinha abatido mais dois daquelas bestas, os
decapitando.
Depois daquele ato, um macho, com longos cabelos, olhos amarelos, barrou o
ataque dos demais. Fixou-se em minha direção, e me encarou com total veemência.
Isso é só o começo Hunter; ainda iremos nos encontrar, minha rainha, não
ira gostar nada disso, você ira pagar caro pelo que fez. Disse o do olho amarelo
com uma voz entre cortada.
Não ouve tempo para nenhuma resposta de minha parte. O olho amarelo me
lançou outro olhar fulminante e em seguida desapareceram por entre a mata escura,
ocultando seus rastros. Não pude segui-los, ainda mais com as vítimas do bando ali
presente.
Com a ajuda de Rosa que tinha ficado de vigia em meu Mustang, rente ao
bosque, conseguimos tirar as pessoas que estavam prezas no meio da mata. Das cinco
pessoas, duas vieram a falecer, não tivemos muito tempo. Outros dois corpos foram
encontrados nos arredores da colméia.
Apenas dizemos as autoridades, que os jovens se perderam na mata, e que
os mortos foram atacados por algum animal extremamente feroz, mais que tinha
solucionado o problema.
Foi uma correria, mais ainda encontrei um tempo para passar ao lado de
Rosa. Depois daquele embate, uma noite ao lado de uma mulher seria reconfortante.
Foi uma noite maravilhosa.
Acordei por volta das cinco da madrugada, Rosa dormia serenamente, como
um anjo, e não quis acordá-la. Peguei minhas coisas, despedi de Rosa com um leve
beijo em seu rosto, e deixei Jacuí para trás. Aquele problema ali tinha sido resolvido,
mais outro acabara de encontrar. Os vampiros estavam se organizando, estavam eles
agora em bandos, e o que me impressionou, foi que eles tinham uma rainha. Isso me
levava a crer que minha luta com aquelas bestas, estava apenas começando.

FIM
71
INVESTIDA
AUDACIOSA
Lucêmio Lopes

Já passava das 15:00 horas quando ocorreu a inesperada abordagem no meio


da rua, sem que ninguém notasse:
— Essa coisa rígida que você está sentindo por baixo da minha roupa é o cano
de um revólver calibre trinta e oito; apenas siga em frente, como se nada estivesse
acontecendo.
A vítima obedeceu sem questionar. Como fazia um frio intenso na Avenida
Paulista, nenhum dos transeuntes prestava muita atenção nas coisas que aconteciam
ao redor, e isso dava mais tranquilidade para quem queria camuflar seus atos na
multidão.
— Não tente qualquer gracinha, doçura; não olhe para trás, nem para os la-
dos; não diminua o ritmo dos seus passos. Se notar sequer um movimento estranho,
eu te encho de balas.
Os dois caminharam por vários quarteirões sem despertar suspeitas, já que
pareciam um casal de namorados comum, desses que andam bem agarradinhos um
no outro. Ainda mais no frio...
— Entra ali, à direita, rápido!
Quando essa frase foi dita, ficou claro que não se tratava de um assalto, pois
o lugar para onde iam era o Parque Trianon, a conhecida reserva ecológica em pleno
centro de São Paulo. Eles foram até uma área deserta do parque, por trás de grandes
árvores, onde o assédio prosseguiu.
— Vire-se lentamente, sempre olhando para baixo, não quero matar você por
gravar o meu rosto, entendeu bem? Você sabe que quando a gente está sob o efeito
do álcool não consegue se controlar direito, muitas coisas podem dar errado... Por
isso, não se meta a besta comigo.
O tom da voz era extremamente agressivo, com ameaças constantes de tiros
à queima roupa, caso as ordens não fossem cumpridas à risca. Quanto mais o assédio
sexual se aproximava de um desfecho, mais crescia o grau de excitação da voz:
— Vamos, tire a roupa bem devagar: quero ver o efeito do frio nos poros
das suas nádegas, quero sentir o arrepio da sua pele, acariciando-a com o meu rosto.
Quero, quero muito suas mãos em mim, seus olhos em mim; já não me importo que
veja quem sou eu; já não me importo de morrer, após morrer de prazer...
O monólogo prossegue sob a influência de desejos ardentes e de cachaça, até
que veio a mais constrangedora de todas as ordens:
— Agora faça sexo oral comigo! Mas faça de uma forma que eu não tenha
vontade de te matar depois que terminar. Faça com carinho, faça com vigor, faça
como se fôssemos amantes inseparáveis. Melhor ainda: aja como se estivéssemos
gravando um filme pornô.
A ordem foi executada da melhor forma possível, uma vez que o efeito de
ver uma arma apontada em sua direção não representava a melhor das inspirações.
Era muita excitação, sim, mas só de um lado, e medo do outro; uns olhos viam uma
arma, enquanto outros só reviraram e reviravam, suplicando aos pés de Afrodite
pelo império da carne.
— Preciso muito disso. Quando eu ainda era adolescente, vi uma cena de sexo
oral no cinema, coisa que me deixou na mais completa excitação; passei a sonhar com
aquilo todos os dias da minha vida. Acabei casando muito cedo, e, para infelicidade
minha, fazer sexo com a boca sempre representou um tabu para a pessoa com quem
me relaciono, o que acabou me trazendo uma verdadeira obsessão, pois desejo não
satisfeito é desejo amplificado. Eu segurei meu desejo doentio o quanto pude, até que
hoje, depois de um porre daqueles, decidi realizar minha fantasia a qualquer custo.
A vítima ouve o desabafo com perplexidade. Agora tinha certeza de que sua
vida corria risco, caso não agisse conforme o solicitado.
— Mais caprichado, minha gostosura, eu desejo mais, muito mais do que isso.
Se esforce, se entregue ao ato, mostre-me vida, pulsação; minha alma quer sentir sua
saliva me fazendo ferver com a reação em cadeia da minha bomba de hormônios.
Desaparecia tudo ao redor; tudo flutuava, uma alma planava sobre os bosques
do paraíso; havia promessas de uma alegria infinita. Vieram palavrões, gemidos, ges-
tos aflorados das profundezas do gozo.
— Vai, porra, chupa isso com gosto que eu já estou quase lá. Chupa, chupa,
chuuuuuuupa...
Enquanto atingia o momento mais intenso de sua existência, Maria Clara
gritava e disparava para o alto todas as balas do seu revólver, comemorando a grande
vitória do prazer.
73
LIMUSINE AZUL
Fernando Antônio Fonseca

A idéia se tornou precursora da razão, a imagem precedeu a ação: tudo muito


rápido! Movimentos suaves e lágrimas incontidas de extrema sensualidade. A mu-
lher despe-se em strip-tease, calculando a reação da platéia. Cadência em suas atitu-
des. Domina a prêsa, a plateia estupefata, e se prepara para a parte final da exibição.
Despe-se de seu traje íntimo e se exibe em sua total nudez. Súbitamente se retira,
anônima, profissional, deixando o público em insano transe. Apressada, sai do cama-
rim, e se retira pela porta dos fundos do cabaret, desaparecendo com seu choro em
uma limusine azul, que se foi...se foi...com a névoa da madrugada, vítima dos erros
que cometeu.
75
DINHEIRO MALDITO
Gerson Machado de Avillez

Poderia ser apenas 50,00 reais, longe do valor módico dispersado por aquela
quadrilha que em conluio com funcionários roubaram por aquela empreiteira atra-
vés de projetos superfaturados para o governo. Mas achar o montante total em no-
tas marcadas que foram repassadas à políticos seria quase impossível de se localizar.
Uma fraude para se apropriar de outra. O dinheiro é uma coisa essencialmente suja,
em todos sentidos.
Cerca de 90% das notas de real apresentam traços de cocaína, sem contar de
outras impurezas que incluem até mesmo coliformes fecais, mas de moeda de troca
se tornou objetivo num capitalismo feroz. Sabe-se lá por onde passa o dinheiro, mas
mesmo o lendário ‘Garganta Profunda’ do caso Waltergate nos EUA do século XXI
disse que se quisesse descobrir a verdade, seguissem o dinheiro.
Assim fazíamos na operação Lava Jato em mais um caso correlato com ou-
tros políticos de todas matizes, partidos e lados. Inicialmente a verificação de núme-
ros de série ocorriam em bancos, mas tão logo fomos capazes de rastrear a próprio
custo números de série.
Inicialmente a primeira pista veio de uma nota de 50,00 reais encontrada
por acaso na casa de uma senhora morta em circunstâncias misteriosas. Descobrir de
quem a senhora pegou, e dessa pessoa quem pegou, seguindo a linearidade inversa,
poderíamos chegar até o ponto de origem. Mas para isso um trabalho de investigação
por entrevistas e interrogatório se fazia necessário para se cruzar dados.
Todavia uma carta encontrada no local da morte da senhora nos chamou
peculiar atenção. Nela dizia:

“Esse dinheiro é maldito! Desde quando meu neto o achou largado na rua 10,
enfrente aquela mansão abandonada repleta de drogados a minha vida desabou. Ago-
ra entendo por qual motivo os próprios delinquentes a abandonaram na rua. Esse di-
nheiro, seja qual for a procedência é maldito, não apenas sujo. Mas essa maldita nota
penetra meus sonhos e parece-me fazer enlouquecer enquanto somos assombrados
por algo negativo que converge a tudo dar errado. Não aguento mais, vou desfazer
dessa nota o quanto antes, antes que...”

O bilhete misterioso fora interrompido subitamente ali. A senhora caída


ao chão fitando o vazio com seus olhos sem vida ainda segurava a caneta, estava
com a língua roxa e inchada. A retina de seus olhos se deslocaram e momentos antes
da morte parecia ter liberado muita adrenalina. Fosse o que fosse a apavorou de
sobremaneira que fez a velha enfartar. Seguimos até o dito lugar que era refúgio de
drogados que viviam à míngua como zumbis para que os grandes bandidos produto-
res disso ostentassem uma vida de luxo, grandes boçais! Mas mal sabia onde aquele
dinheiro me levaria... A seguir a história da nota.
Um drogado recebeu um misterioso cortejo do traficante que fingindo es-
tar comovido com a situação desesperadora do viciado que em constante estado de
entorpecimento era submetido pela eterna dívida para com aquele lacaio do inferno.
Mas a caridade tinha motivo, tudo pelo qual o traficante havia cheirado naquela nota
uma semana antes quando estava numa orgia com ‘novinhas’ num baile funk, mas os
efeitos daquilo foram maiores que o previsto, em ausência a qualquer proporção ao
feito em si. Vendo uma sucessão de problemas surgirem, o meliante em desespero
resolveu fazer uma “caridade” a um de seus clientes não somente perdoando sua dí-
vida, como lhe dando a maldita nota em questão.
O homem parecia feliz, como pinto no lixo adentrou o recinto planejando
quantas doses mais poderiam usar com aquele dinheiro afim de alimentar o insaciá-
vel vício. Mas tão logo ele iria passar o pior dia da sua vida como se já não vivessem
num mundo cão. Trocando em miúdos, o homem sem querer usou uma seringa
nova, mas ao perceber levantou e caiu de cara, e nisso um dos vizinhos lhe pegou
a nota antes mesmo que ele a usasse. Aquilo desencadeou uma briga e na briga sem
querer matou o colega usuário. Ao esconder o corpo tentou cavar para sepulta-lo ali
mesmo, mas ao parar para pegar a nota passou mal. Aquilo bastou para que mesmo
aquele esquálido trapo humano tentasse mudar de vida a começar jogando aquele
dinheiro fora.
O traficante havia ganho o dinheiro do ‘parça’ que lhe devia uma grana,
grana conseguida num assalto que deu errado, e ele matou a tiros um casal que esta-
va brigando na rua. O noivo da moça havia conseguido o dinheiro ao comprar um
relógio no camelô, com quem trocou a sua nota de cem sacada no banco ao receber
o salário. A partir daquilo mais uma vez tudo deu errado, a noiva descobriu a traição
dele, o relógio parou de funcionar e ao trocar o ambulante em questão havia sumido
até que no meio de discussão foram assaltados, e mortos fazendo o assaltante levar
a nota e o relógio com defeito. Todavia ao ser percebido por um segurança que deu
tiros matando seu comparsa. O assaltante fugiu para descobrir que sua namorada
estava com outro o levando quebrar a cara dela o que levou a mãe dele expulsa-lo de
casa.
O fato é que o camelô também era um meliante suspeito que vendia reló-
gios que na verdade eram de segunda mão, roubados. Afirmando o preço “camarada”
ao cliente vendeu justamente o relógio encontrado no apartamento de um gerente
de banco na Zona Sul, ao lado do dinheiro. O crime ocorrido pela invasão aconte-
ceu de modo inusitado, encontrado o gerente morrendo com o pescoço cortado ao
ter caído sobre o vidro do boxe no banheiro enquanto tomava banho ao perceber
o barulho da invasão. O dinheiro estava sujo de sangue, e o bandido, temendo que
fosse reputado a ele um crime além de invasão e furto, fugiu sem prestar socorro à
vítima. Todavia, por azar ao chegar na esquina seu comparsa havia sido identificado
e morto numa troca de tiros com um policial à paisana o levando fugir desesperado
do apartamento da vítima e sabendo que estava sendo procurado pelo crime, correu
para passar a mercadoria adiante, o camelô em questão que fora detido pela guarda
municipal minutos após ter passado a mercadoria e a nota, na cadeia o camelô ainda
fora violado sexual, não bastando o crime de receptação de mercadoria roubada.
O gerente do banco havia pego o dinheiro de forma desviada, ao atribuir o
depósito de 500,00 em caixa eletrônico como extraviado. Burlando as câmeras de se-
gurança ao gerar um loop no vídeo, o sujeito pegou o envelope o qual as letras eram
praticamente ilegíveis. Pensando ter sido escrita por um homem em desespero, usou
aquilo como pretexto para não reconhecer a quem seria o beneficiário. Todavia, um
funcionário viu o dolo e ameaçando-o avisou que iria denuncia-lo. Para impedir isto,
o homem o ameaçou dizendo que senão recebesse parte da quantia roubada como
suborno iria dar cabo de sua vida.
O sujeito temerário aceitou, pois sabia dos rumores do gerente ter costas
quente com gente poderosa que não presta. Mas após aquilo, passou a receber cartas
anônimas ameaçando denúncias igualmente anônimas caso não lhe desse dinheiro.
Achando se tratar do funcionário em questão, imediatamente providenciou um meio
de cala-lo, sem saber que o mesmo apenas havia relatado para seu tio, o invasor do
apartamento em questão.
Por sua vez o homem que havia depositado o envelope havia adentrado
o banco em desespero ao receber aquele dinheiro numa oferta na igreja onde era
presbítero. Segundo ele, Deus havia revelado que aquele dinheiro era de Belial, e que
poderia arruinar a vida dele. De fato, durante toda semana em que esteve em posse
do dinheiro seu pai morreu, e sabendo disso a esposa dele, sua mãe, entrou em coma.
A mulher brigou um dia antes querendo separação, o restante é história.
Tudo pelo motivo de que naquele dia o empreiteiro relacionado a empresa
de construção que superfaturava obras estava arrependido. Segundo ele o montante
ganho de forma ilícita havia sido oferecido num ritual maligno ao lado dos políticos
envolvidos, incluindo o senador Vilson Barbacena. Um sujeito pego em gravações
flagrantes, não somente negociando propinas como ameaçando supostas testemu-
nhas do caso.
O ritual era singelo. Um enorme pentagrama com uma cabeça de bode
decepada, enquanto no meio de desenho que se estendia pelo chão era morta uma
galinha preta que esguichando seu sangue para todo lado o lançou sobre as notas
em questão, recém tiradas do banco. 100.000,00 reais em notas de 50. Invocando
entidades inomináveis as mentes sãs, o homem jurou que o dinheiro oferecido em
louvor as entidades iriam dar prosperidade, mas ao receber parte do dinheiro, o em-
preiteiro, na mesma semana, descobriu que estava com câncer, para no dia seguinte
sua filha morrer num assalto provocado pelo mesmo viciado desesperado que deixou
o dinheiro no chão da rua.
O ocaso que moveu o acaso, levou a sucessão de encontros e desencontros
que acarretou naquela sequência de infortúnios em desventurosa coincidência, pois
o empreiteiro era sobrinho da senhora que morreu infartada com a nota.
Ando muito preocupado onde foram parar as demais notas de 50.
77
A LEGISTA DE
OLHOS CLAROS
Josafá de Oros

Quando o vento batia sobre o exterior do saco a superfície — como uma pele
preta — se mexia num movimento conhecido e por isso fora de cogitação extraordi-
nária. Por vezes aquilo parecia a respiração ofegante de um bebê ou de outro peque-
no mamífero. O movimento que ao mesmo tempo transparecia repetitivo, acelerado
e tranquilo, ainda assim chamava a atenção de alguns. Quem por ali passava olhava
aquilo com certo ar de desprezo. Olha, percebia o movimento, mas deixava de lado
como se deixa a paisagem. Tudo levava o passante a crer que de fato era apenas
o vento que regia aquela cena de absurda normalidade mesmo que tomado o saco
por duas moscas azuis e ‘zoadentas’ ensaiando piruetas num bater de asas. Em uma
dinâmica excitada ia desenhando no ar e nos ouvido estranhas sinfonias de dor e de
horror.
O saco preto estava a beira do caminho. As duas moscas saíam da superfície
do saco e pousava num seixo a beira do caminho.
Meia hora depois dos últimos que passaram veio o escultor. Parou, se acoco-
rou, puxou o saco para junto das pernas, desamarrou o cordão da boca e caiu com o
fedor de podre. De imediato pegou o telefone no bolso, discou nervoso e disse para
sua esposa: Encontrei outro cadáver de bebê, banhado num vermelho visceral, cha-
ma a legista dos olhos claros!
78 O ENIGMA
DE UM DIA
Leandro Serpa

Meu caro Adriano, escrevo-te estas humildes palavras com o pesar de que
desde o início estarei a importunar – te e de pronto peço desculpas antecipadas.
Sinto incomodá-lo, porém ignorante que sou e afetado que estou, considero
justo romper o silêncio e despertá-lo.
Esta semana presenciei eventos que afetaram meu equilíbrio. No início da
semana, talvez segunda ou terça-feira, levei minha mãe em um velório e senti me
consternado ou atiçado pela expressão do defunto. Em uma dessas aulas da faculdade
chamou minha atenção uma imagem da História da Arte. À noite estas imagens se
somaram a alguns problemas que tenho enfrentado. Acordei no meio da madrugada
angustiado, pulsando em fúria e para liberar esta energia ruim escrevi algumas pa-
lavras no meu caderno de dúvidas. Horas depois tranquilizado por ver minha raiva
transformada em algo palpável me veio à mente a sua imagem. Não me pergunte
como estas coisas acontecem. Minha inteligência neste assunto é mínima, mas o fato
é que estava lembrando de você; de nossos momentos no trabalho, aqueles proble-
mas que enfrentamos na linha de produção na fábrica, das garotas e você, modéstia
a parte, ainda deve me algumas aulas..., mas encurtando os fleches, diria que minha
mente se concentrou nos momentos finais, anteriores e posteriores a sua inesperada
partida.
Adriano, tu sabes o quanto te admiro. Tu és um dos poucos amigos que tenho
e desconfio que minha mente, antes de mim, percebeu que preciso de sua ajuda.
A imagem que me afetou e que neste momento sinto que estamos ligados a
ela é uma tela de dimensões pequenas, um pequeno “gesto” de uma alma iluminada.
Estou falando da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci (1452 – 1519). Peço que veja esta
obra. Confesso que já a tinha visto outras vezes, porém agora lembrando do gesto
aparentemente inconsequente de Marcel Duchamp (1887 – 1968), artista francês do
século XX, que pôs bigodes e barba nesta imagem, sinto me confrontado, como se
estivesse diante de uma questão óbvia, mas perdoe minha ignorância, não consigo
uma resposta apenas questionamentos e afinal; Qual é o segredo? Existe mesmo um
enigma? Ou, Qual é a jogada? Haverá outro lance? Adriano se comunica:
- Leandro. Agradeço pela carta e pelos elogios que fizeste a este insigni-
ficante. Do outro lado que estou distante do barulho e dos problemas sem solução
posso falar com tranquilidade e descobri amigo que o silêncio é uma fonte de inspi-
ração, ademais causa me alegria ser despertado durante esta noite escura e vazia para
atender a um amigo com uma questão tão pertinente.
Suas dúvidas apresentam tantas faces e caminhos que poderíamos viajar sé-
culos e não chegaríamos a uma resposta definitiva. De fato estamos diante de um
enigma, porém que apresenta a resposta em sua própria face, mas o que é mais im-
portante observar são os “reflexos” que tais imagens projetam na sociedade e de um
modo tão poderoso que não conseguimos compreender. É amigo, sua intuição pro-
cede e posso dar te uma resposta a questão inicial que tanto o afeta. Para isso preciso
da sua ajuda. Espero que esqueça por um instante a zombaria do trabalho e todas
aquelas vezes que o deixei sem graça diante de nossos amigos e confie em mim. Se
estiveres diante da imagem de Mona Lisa peço que fixe seus olhos neste retrato, ou
se não as tens diante de ti faça um exercício de memória. Agora, imaginando eu que
esteja diante de uma das incontáveis reproduções da senhora Lisa, desejo que a ob-
serve por alguns segundos. Passado este tempo feche seus olhos..., Minutos depois.
Desculpas, se o fiz ficar muito tempo neste estado, mas na situação que me encontro
qualquer gesto é motivo de risada. Por favor, desconsidere as tolices deste seu amigo
caçoador e volte à imagem. Se não conseguires mentalmente cubra os olhos de Lisa
com alguma coisa qualquer, de repente uma caneta sirva. Retorne as suas lembranças
e o seu momento de afetação. Fixe novamente atenção na imagem e imagine os olhos
dela fechados, o sorriso enigmático e me responda amigo:
- Não estás diante da imagem da morte? E o que é problemático na questão:
Como pode uma sociedade venerar a morte sem ao menos se dar conta disto?
Leandro responde:
- Adriano suas respostas deixaram me perplexo, mas refeito do susto te re-
meto a seguinte questão:
- Porque um homem sombrio como Marcel Duchamp seria capaz de uma
atitude tão irresponsável como aquela? (De riscar uma reprodução de Mona Lisa
e escrever: “Ela tem o rabo quente”). Estaria ele brincando com a morte? Adriano
responde;
- Leandro, confesso que ultimamente tenha me sentido mal, cansado, mas
suas questões me despertaram, pelo menos parcialmente, de maneira que estou con-
siderando a hipótese de ser seu conselheiro “espiritual”. Que resposta pode dar a esse
desocupado? Bem, desculpe minha ironia e indo ao assunto que nos une nesta hora
adianto que não tenho nem metade das respostas e minhas palavras são assim como
as suas, suposições, infinitas questões sem resposta. E falando neste nosso amigo o
senhor Duchamp, confesso a ti que ele não é tão sombrio quanto parece e até sabe
contar piadas, veja só! (Riso) e outro segredo; não joga tanto xadrez assim como
andam dizendo por aí.
Posso adiantar-lhe que Da Vinci e Duchamp são cárceres da mesma cela, co-
mungam o pão e o vinho da mesma safra. Adriano confidencia:
- Meu amigo nesta “caverna” onde me encontro custa muita energia o menor
gesto, de maneira que soprar minha voz em seus ouvidos é um martírio ao qual não
imaginas. Aqui é proibida a comunicação e cada palavra pronunciada tem o valor de
uma orelha arrancada. Peço que preste atenção na sociedade, como se comporta esta
“máquina abstrata”. Muito do que está na imagem se corresponde à vida material,
assim como você suponho que o trabalho destes dois homens “encerra” um ciclo da
atividade humana, mais precisamente a ocidental. Quanto as outras questões como
o fato de Da Vinci desenhar cadáveres ou Duchamp jogar xadrez e estudar cálculos,
espero que consiga as respostas entre seus colegas e professores. Adriano continua:
- Você mostrou me algo que eu jamais ousaria imaginar. A morte não é um
mal isolado, ela faz parte da unidade cíclica que compõe a vida, pertencendo, portan-
to a “roda” da vida, porém suas questões apontam para uma sociedade que não possui
este conhecimento e, no entanto considera a morte um mal “alheio e necessário”, e
por isso avança vorazmente furando, rasgando, escalpelando, degolando e fuzilando
até o êxtase. Desejam alucinadamente encarar a imagem da morte e bem sabemos
isto não é impossível. Como sabes, posso falar com propriedade e afirmo que não é
possível aos mortais enxergar o último instante de modo que a passagem é feita na
sombra escura. No instante supremo, na hora penúltima nossos músculos enrijecem
nossa mente “trava” e apagamos. Adriano prossegue:
- Posso afirmar ainda que a aventura humana em busca da máscara, do refle-
xo da morte, e da passagem para a terra dos mortos, só encontrará em si mesma o fim
da existência humana e a extinção de toda a vida. Adriano conclui:
Calarei agora meu amigo e desde já te desejo sorte em suas pesquisas. Não
se preocupe com as dores de um apartado e siga. É isto o que desejo. Confesso que
brilha em meus olhos a curiosidade e espero ansioso que tragas novas soluções para
esta questão tão importante. Fecharei meus olhos neste instante. Adeus amigo, ou
melhor, até breve.
81
A SUBSTÂNCIA
DA VIDA
Gisela Peçanha

Amaldiçoada seja — Ele pensou.


E ela entrou pela sala. Afobada, nervosa, com os saltos das botas negras fazen-
do barulho no assoalho. Os seios ainda muito duros e róseos, camuflados sob a blusa
de renda preta, emprestavam-lhe mais e mais juventude. Raivosa, neurótica, ruim
de coração. Mas perfeita. Um sonho de se olhar e de se viciar de todo jeito. Pernas
brancas como papel, e duras como um iceberg: ela.
Gelo. Poderia ser seu sobrenome. O que lhe inundava as veias, a cor de sua
alma, o líquido sem o calor de seu sangue. Mas a pele muito alva, revelava presença
de glóbulos vermelhos, no ruborizar de sua face. E apenas isso. Nada mais atestava
vida naquela mulher odienta. Ele pensava assim. Ele.
Colocou o casaco e a bolsa sobre a poltrona, e sentou-se arreganhando as
pernas em posição de parto. Apenas para provocá-lo. Para incendiá-lo; ou criar umas
brasinhas em seu corpo destruído. Acendeu um cigarro e pôs-se a encarar. Com
aquele risinho nojento, falso, miserável, crápula. Com a desfaçatez dos canalhas. Sor-
ria com os olhos lânguidos, as pernas abertas, a calça de couro, o cigarro dentre os
lábios. A juventude agressiva e não contagiante. Não contaminante. Juventude cruel
dos que a possuem, majestosamente. E, com a voz rouca de garganta cheia de nico-
tina — o que lhe emprestava uma sonoridade sensual e mordaz— iniciou a melodia
de sua fala.
— Vejo que ainda não morreu.
‘’Vejo que não morreu’’... Era a forma dela ofertar boa noite. Diariamente, ao
chegar do trabalho, encontrava-o assim: sentado na sala, perto da lareira e olhando
para o teto, ou para o vago. Regozijando-se com sua autocrucificação. Um Jesus en-
sanguentado e vítima de um mundo pérfido e intragável. Diferente disso, eram os
dias em que bebia garrafas de vodca, a cair e ficar desmaiado por horas sobre o tapete.
Era encontrado assim, pela manhã: jogado como uma folha de jornal amarrotada,
ensopada de álcool. A empregada o tentava acordar e chamava o jardineiro para car-
regá-lo até a cama; e ainda se sentia o aroma do perfume vaporizado por toda a casa
— rastro que a perversa deixava ao sair para o trabalho, em direção à luz da manhã
— o largando, desfalecido, ali mesmo. E os dias sórdidos eram assim.
— Não morri não. Ainda não — Ele respondeu com a voz trêmula, mas
agressiva.
E, com a mesma dificuldade de sempre, empurrou a cadeira de rodas para
perto dela. Ele poderia ter uma cadeira automatizada, cara, de última geração, mas
não queria; ia empurrando-se, se arrastando pelas paredes todas já arranhadas, já
imundas, indo aproximando-se e, quanto mais se aproximava, mais enxergava aque-
les dois faróis azuis que eram os olhos dela: debeladores, lascivos, vis. Os donos da
alma dele. A excitação pungente de sua vida, de suas noites, de seus pesadelos. O
olhar de escárnio da beleza infinita da — ainda — juventude constelada dela.
Ao sentir a aproximação da cadeira de rodas, ela levantou-se e foi até a janela.
De soslaio, observou o vulto daquele homem já velho, parado no meio da sala, com
as pernas esmirradas como gravetos, e um cobertor no colo. Chinelos nos pés, olhos
fundos esbugalhados. Corroídos. Inchados. Aquela visão do inferno. Vê-lo ali, sem o
bater da vida, sem a alegria dos melhores momentos, era repulsivo. Ela era tão mais
jovem do que ele, e detinha o direito ao frescor dos novos sonhos. Dona do poder de
existir, e de sugar o sopro da vida. Ele, não mais. Não queria. Não suportava.
Casara-se com ela, no broto dos dezenove anos da quase menina. E ele, já
passava, e muito, da casa dos quarenta. Para ela, uma paixão de moça diante da sa-
bedoria e da maturidade do professor da faculdade. Para ele, o fascínio do corpo e
da tez, da propriedade da pele. O sexo súbito e incontrolável, os gozos espetaculares
e os sussurros de uma voz quase infantil, dotada de meiguice ainda não poluída.
Como uma pulverização de eucaliptos, adentrando as masmorras das grandes bi-
bliotecas empoeiradas e escuras, onde ele vivia enterrado: estudando, pesquisando,
aprofundando-se, sofrendo das angústias perversas do saber. Tornando-se, homeo-
paticamente, gordo e velho. Fumando e bebendo, para suprir o que a alta filosofia
não fazia por ele, não o convencia, muito menos, o curava. E, sem fé, perdia todos
os rumos. O prazer e a nobreza da dor sempre o acompanharam. A dor, para ele, era
destino certeiro dos grandes sabedores confinados em suas solidões, por deterem a
amplitude da mente. O mundo banal jamais o interessou. E ela, apenas aprendiz. Ela,
tenra. Ela, com bicos do seio rosa-bebê. Ela, solar. Casaram-se na praia — por desejo
dela — sempre natural e leve que era. E continuava sendo. Ele reclamou do início ao
fim. Da areia, do sol, do calor, do vento. Do excesso de amor e de alegrias. De tudo.
Apagou o cigarro no vidro da janela. De costas, ainda. Ele, imóvel na cadeira,
olhava para os pés magérrimos dentro das meias. Mortos. Mórbidos e cadavéricos.
Havia uma grande beleza quase Cristiana naquela visão — ele pensava.
Foi quando, de repente, seus olhos foram atraídos para uma estatueta de
bronze sobre a cantoneira, e ele foi tomado por um desejo incontrolável de esmagar a
cabeça dela. Poder ver o sangue jorrar e inundar o tapete onde ele dormia em prantos
— e bêbado, no seu desespero — sem que ela se condoesse. Sem que se aliasse ao seu
pacto implacável com a melancolia profunda. Mulher fútil e banal. Não compreen-
dia. Não tinha alcance. Vazia. Sua jornada era talhada por caminhos pequenos, com
destinos óbvios e superficiais — Mentalizada ele, diariamente.
Queria para ela uma morte medonha e brutal; de preferência, que desfigu-
rasse seu rosto impávido de porcelana. E aquele riso que não parava de rir. Riso dos
rasos, dos comuns, dos que não conhecem o quanto viver é implacável. Que o azul
incomparável de seus maquiavélicos magníficos olhos se tornasse nulo, pela ceguei-
ra. Que sua juventude derretesse. A estátua nem resolvia tanto.
Ela não o olhava, mas sentia o calor do corpo dele, a alguns metros. E lem-
brava-se de como amava a sua inteligência. Do tanto que havia aprendido com tudo
o que ele falava. O que ele contava, e o que ensinava. As horas sobre a cama, onde
ela era apenas uma bonequinha estúpida com sexo pulsante de mulher e, ainda, com
uma pureza interior que ele sabia capturar e desbravar. Lembrava-se dos significados
que encontrou para a vida, depois que o conheceu. Do nada que sabia, e de tudo que
aprendera, em todos os dias ao lado daquele homem.
E lágrimas quentes se represavam em seus olhos, prontas a explodir. Uma
vontade imensa de chorar, de cair, de se jogar. Vontade de se guardar no colo dele,
como um feto desnutrido, ou uma planta implorando rega, e sentir o perfume cítrico
do início que não existia mais. Pois ele recusava-se a tomar banho, e permanecia
muitos dias com a mesma roupa. Deleitava-se com aquele sofrimento, e com aquele
desterro de tudo.
Contendo o choro, foi até a janela olhar a noite seca lá fora. Desejo que ele a
tomasse nos braços e que a amasse com furor. Que dissesse que a amava. Que a bei-
jasse como antes. Que pedisse ajuda. Ela não lhe daria sua pena, nem sua compaixão.
Jamais. Mas abriria os braços para acalentá-lo: não como a um bebê, mas como a um
homem profundamente amado.
Então, respirou bem fundo — na intenção de confessar sua dor — pelo fim
do amor deles, e do amor dele por ele mesmo. Linda, nevada, e com a turquesa dos
olhos inigualáveis inundados de lágrimas, virou-se para ele...pois, pungente, era o
seu amor imortal, trancado e abatido no peito. Sentia tudo. Sorria docemente, re-
signadamente, mas com o rosto encharcado. A estatueta de bronze permanecia no
lugar, mas a gaveta onde ele guardava a arma, estava perto.
Enquanto ela fumava na janela, ele foi-se empurrando na cadeira, até a cô-
moda. Pegou a arma que estava carregada com uma única bala, e escondeu-a sob o
cobertor que aquecia suas pernas mortas — avistando, na semipenumbra, aquela
mulher belíssima com os cabelos escorridos até a cintura. De costas para o tiro cer-
teiro. Preparada para — finalmente — conhecer a morte da vida. Ele foi até ela e
engatilhou a mira, com a mão trêmula, pingando suor frio.
O tiro foi certeiro. E ela caiu; mas com os olhos ainda moços, ainda ingênuos
— abertos e arregalados — o fitando. Os olhos vivazes, ainda não estavam mortos.
Ele alcançou a garrafa de uísque e o isqueiro dela. Acendeu uma única vez.
E, finalmente tornou negros, os olhos mais azuis que conheceu na vida.
Regozijou-se e embebedou-se, até o despertar de um lindo céu turquesa de
verão...

Que ele, não viu.


84A QUINA DA
VENTURA
Gustavo Eloi

Como consolo, o marido abandonado metia o filho atrás da porta sempre


que a mágoa se convertia em rancor, atribuindo à figura do garoto a herança viva
de um acinte, de uma vergonha difícil de purgar. Daí a reincidência do mesmo cas-
tigo, nunca satisfeita e logo convertida em hábito. Apesar do aparente despropó-
sito, tal metodologia de castigo se nutre de uma racionalidade muito arraigada em
famílias partidas, as quais recorrem a ela após as ingênuas ambições matrimoniais
se desencantarem, para então instalar-se em seu lugar hábitos atenuantes, fábulas
compensativas gestadas no sádico: é a razão, em uma palavra, que retorna para so-
correr o humilhado mediante sucedâneos perversos, indispensáveis para o socorro
de um total esmagamento. Numa formulação direta: é preciso eleger um causador
para convertê-lo em algo ainda menor que a si mesmo, e com isso conformar-se.
Sim, o menino lançado atrás da porta por oito horas diárias, bem cronometradas, isto
é, calculadamente prescritas segundo os limites fisiológicos, muitas vezes acrescidos
de crueldades eventuais – como a compressão da porta ou o ininterrupto palavrório
catártico a impregnar no menino expiatório uma conscientização desabonada de sua
existência – nada mais era que o presságio de uma loucura, advinda da mágoa, que o
marido abandonado apressava-se em objetivar no filho, purgando-a em coisa con-
creta. E isso tudo, feito hábito.
Todavia, por mais irônico que possa parecer, o hábito atenuou a tragédia do
menino.
A realidade cotidiana do garoto era aquela porta dura a lhe roçar os ombros,
eventualmente a lhe ferir os ombros, sem que com isso pudesse atinar para a face
sádica de seu destino. Só entendia o que via, pois sequer os conceitos sonoros, pro-
feridos pelo pai, lhe eram acessíveis; e a tenra criatura via tão somente a obscuridade
geral de seu espaço, além de uma pequena fresta luminosa, o desvão das dobradiças,
a quina de um universo oferecido com parcimônia, fenda milimétrica onde se lhe
abria a alteridade do mundo, isto é: uma fresta de milímetros era o que lhe facultava
o mundo por horas a fio, e pela qual atravessava fenômenos alegóricos, lúdicos, que
abasteciam sua estreita vida - apesar das locuções iracundas do pai:
— Tá gostando do inferninho? Aí você não me dá vergonha, é o único lugar
do mundo onde você não pode me dar vergonha! Ninguém pode ver seu jeito de
bichinha aí atrás. Se deixo você brincar na rua, no outro dia tá todo mundo falando,
tá todo mundo querendo te comer. Porque você é a cara da sua mãe, jeitinho de ra-
meira. Vai ficar no inferno, pro papai não ter vergonha de você.
O homem, amiúde presa de uma epifania vocabular, transgredia o tom até
degenerar num cinismo surdo:
— Não está ouvindo? Alô, alô, tá acordado aí atrás? - E ia empurrando a
porta, espremendo os dedinhos entre a quina da porta até arrancar um grunhido
acusatório.
Talvez, para caracterizarmos com precisão tudo o que a quina representou
na vida do garoto, sobretudo devido a um pequeno incidente relacionado ao último
ato narrado sobre o pai - o de empurrar a porta até arrancar um grunhido - seja ne-
cessário atentar para um gênero de impressões que o menino recolhera do mundo
até aquele momento, para que o incidente possa revelar seu fundamental salto qua-
litativo. Com efeito, o resultado de ser em circunstâncias tão singulares se refletiu
sobretudo no inchaço de seus pezinhos, fruto do castigo corriqueiro que ele sequer
discernia enquanto tal; um inchaço que alterava não só suas formas anatômicas, mas
que incutia uma estranha sensação de amortecimento a lhe cindir, precocemente, a
noção de unidade. Sim, não estava sozinho no próprio corpo, e a periódica descarga
de urina e fezes lhe corroboravam a impressão de ser pária na própria carne, animal
passível de obediência e confraternização estrangeira na própria intimidade – o que
de certo modo naturalizava as crueldades do pai. Foi quando a quina se dobrou sobre
os dedinhos do menino, de acordo com os empurrões paternos, e um novo elemento
jorrou de dentro para fora, intrigando seu hospedeiro até às raias da fascinação.
Pois esta substância rubra, minada de um recanto obscuro de seu próprio ser,
só poderia referir-se àquele inferno tão reiterado pelo pai, justificando o discurso do
progenitor por meio da evidência concreta de seu sangue, doce, quente, colorido,
feliz, no qual, aprendera, deveria estar. Aquele estranho fenômeno interno, aquela
assunção viscosa recebeu da intelecção do garoto uma significação característica, e
que nada mais é do que o produto da imaginação de uma criança castrada de suas sãs
potencialidades, e que se curva à cata de um substrato possível, substituto, atenuante.
Com os dedinhos sanguinolentos, de pé atrás da porta escura, o garoto des-
cobriu ao examinar a singularidade daquela substância outra qualidade, uma genuína
qualidade infernal, e através dela, com a ponta dos dedos doloridos, começou a criar
formas gratuitas na madeira da porta fechada sobre si, doando ao mundo toda a irra-
cionalidade que recolhera de sua modesta abertura, grafando linhas de sangue ovais,
ora retilíneas, ora curvas, ora serpenteadas, sequência de signos surgida em alguém
desde cedo depositária de loucura e ressentimento. Descobria, por assim dizer, uma
espécie de gratificação fáustica na textura do sangue, onde a alegria e o sofrimento, o
céu e o inferno, dão as mãos em único ser simbólico, enquanto o mundo do lado de
fora brada e oprime:
— Sua mãe também não saía do inferninho, passava a noite à espera de pinto
lá! Rameira! É o patrão que vem hoje? Ou o rapaz do corsinha? Como tá aí atrás,
hein? Hein? Hein? Tá gostoso? Olha homem passando pela porta, deixa passaaaar,
deixa passaaaaaar...
Então o homem ulcerado empurra a porta como se levantasse uma bola de
vôlei, com calculado comedimento, espalmando as duas mãos, torcendo os punhos; e
em consequência a quina estreita-se seguidamente, espremendo o pequeno amálga-
ma de carne, artérias e ossos, membros autônomos de um menino que grunhi. Mas
é um grunhido resignado, porque seu mundo é assim mesmo, sempre o fora desde
que a sua consciência despontara em plena crise conjugal. Por isso a curiosidade do
menino mantem-se alheia à dor; apesar do esfolamento reiterado, seus olhos lacri-
mosos se encantam com as imagens miraculosas que atravessam a pequena fresta
de luz, a projetar nos olhinhos úmidos imprecisas fantasmagorias de ofuscamento,
bruxulear dourado, vermelho, prateado, e que o menino atribui a uma espécie de epi-
fania mágica saída do sangramento de seus dedos, que latejam, adormecem e dotam
seu sombrio perímetro de novas formas simbólicas, não obstante a falta de conceitos
capazes de definir aqueles rabiscos em sangue, pois eram tão somente vestígios de
uma sobrevivência que se debate.
A propósito de tais fantasmagorias visuais, acrescente-se a aliança das demais
cisões de seu corpo, como por exemplo o estômago enfraquecido que ruge uma lin-
guagem assemelhada aos momentos mais coléricos do pai, e que por isso deve signi-
ficar a proximidade do inferno; ou também a completa insensibilidade de seus pezi-
nhos, dois glóbulos inchados a ampararem uma miríade de seres vivos, como castiçal
de vela talhada: e a cera que escorre, quente, acalentando o fascínio do menino que
se percebe tão estrangeiro quanto nunca, tanto dentro quanto fora de seu corpo.
Em essência, trata-se do processo de naturalização de uma vida anômala, exilada em
singular subterrâneo na qual fora forçado a se criar, e cujos valores daí derivados se
articulam conforme o ritmo dos passos incessantes do pai pela casa, percussão sin-
copada que provoca uma espécie de arrebatamento ditirâmbico na consciência crua
do garotinho, enfeitiçando-o, hipnotizando-o enquanto o cansaço de suas pernas
e a perda de sangue, a dor de suas mãozinhas e o paradoxal encantamento em seus
olhos se sobressaem às parcas energias do organismo infantil, facetas antagônicas
de um impossível jogo compensatório. Desacorda, pois, embalado em alucinações
etéreas, sem, contudo, enxergar a mágica derradeira de seu sangue respingado pelo
chão mesclar-se à urina, união das duas faces de um menino só, embora ele se com-
preendesse como muitos.
Do lado de fora, o pai que retorna do portão interrompe seus passos na pro-
ximidade da mesa, onde deposita a carta precatória que, ele intui, contém o desfecho
de seu drama familiar. Desdobra o conteúdo com o cuidado que uma má premonição
engendra, transpassado de mágoa, saudade que não se quer entregar como tal e que
ele a todo instante tenta sufocar, por conceber o sofrimento amoroso como fraqueza,
vulnerabilidade idêntica ao do filho, não menos reprimido.
Tribunal do Estado de...
Vara da Família...
Partes: Maria de Loudes dos...
A cada linha transcorrida, a mágoa parecia ganhar força, encharcando seus
olhos e oprimindo seu coração, vítima de um vasto calafrio. Era o fim, de fato; o casal
estava oficialmente cindido, atestava aquele documento. Estrebuchou um soluço que
ele logo devolveu a seu lugar com um golpe sobre a mesa, velha tática de exteriorizar
demônios íntimos, seu traço de caráter latente. Mas então lembrou-se da figura da
ex. esposa, lá na sua subjetividade alheia às invectivas públicas, e seu punho arre-
feceu-se, seu nervo recuou em trégua, e os dedos refrigerados se estenderam como
um cadáver abatido. Acabou, ecoava fundo em sua cabeça tal sentença, abrigando-se
nele com férrea convicção; terminou, asseguraram-lhe as duas folhas de sulfite sobre
a mesa. Assim a mágoa lograva por vencer a fúria, pois já não havia força capaz de re-
ter e unir uma composição definitivamente segregada – patenteava-lhe aquela carta
sobre a mesa, objetivação conclusiva de seu drama familiar. Nem mulher, nem filho.
Estrebucho, dessa vez sem reter a tristeza há tempos represada pela ira, e que agora
se transformava em luto sóbrio, pois trazia consigo certa aceitação serena, subscrita
concretamente sobre a tábua da mesa.
De súbito ergueu-se da cadeira como quem desperta em meio a uma orgia,
enxergando nos pertences quebrados e nas coisas espalhadas o efeito colateral de
uma superada embriaguez, o furor instintivo do qual advêm vergonha póstuma. In-
dagou acerca de seu futuro, de si neste mundo de desapreço, e soube que seria um
homem mais duro a partir de então, amargo, ressequido pelo dispêndio de amor
gratuito, homem sem seiva a roçar sua casca em superfície áspera. Recolheu cacos e
talheres espalhados pelo chão da cozinha com uma lucidez grave, ajuizando incons-
cientemente sobre a finitude de todas as coisas, sobretudo a própria. Sim, ao cabo
tudo é frigidez e mau cheiro, e consciencioso é o homem que carrega o irremediável
no coração, que endurece e bombeia. Acabou, e sentia-se com essa crescente convic-
ção um indivíduo meio morto, sem néctar ou essência, nem arroubos de ódio.
Óbvio que essa transformação estava sujeita a degenerações espontâneas,
pois nele ainda resistia o conflito de suas inclinações: a resignação amargurada e o
rancor violento, que só terminaria com a calcificação total de seu temperamento.
Mas o despacho judicial sobre a mesa lhe representou a culminância objetiva de todo
imbróglio; aquelas linhas técnicas e equidistantes lhe trouxeram um veredicto ine-
xorável; era ele, o despacho judicial, quem selara um fim e inaugurava um recomeço;
Pouco a pouco, portanto, a amargura ia ganhando terreno, seu caráter sanguíneo ia
se ressequindo numa capitulação que o fazia curvar-se para recolher os destroços do
chão, quando então uma poça escura lhe enregelou os pés descalços. Fitou a porta
recostada na parede, entre os quais jazia seu filho.
Aquele menino de quatro anos, frágil, abobado, finalmente receberia alforria
depois de anos de desacordo, de acusações cruzadas que obrigatoriamente passavam
por ele, situado a meio caminho. Talvez jamais voltaria a vê-lo. Mas assim deveria
ser, e um fatalismo amargurado passou a condicionar o olhar do pai para o filho. Foi
até a porta e com dois toques leves, uma vez purificado do furor, tentou chamar o
menino para o lado de fora, sem entusiasmo nem ódio, com uma indiferença pro-
saica, isto é, endurecido por uma fatalidade que pouco a pouco ia germinando no
caráter do homem. No entanto o silêncio cresceu, a viscosidade nos pés umedeceu, e
instigado por esse desconforto difuso ele recorreu ao trinco, puxando-o para desve-
lar uma realidade imprevista, rubra e pálida – cena desmedida capaz de revolver no
temperamento do homem uma nova revolução, já não mais tragado pela fúria, nem
pelo abatimento, mas pelo místico.
É lugar comum que a desrazão pode assediar de muitas maneiras, por muitas
formas e em consequência de muitas causas. E de igual modo sua contenção, seu
método de anteparo pode receber inúmeras facetas atenuantes, motivos equívocos
ou noções falseadas para socorrer o espírito conturbado do homem, que de outra
maneira sucumbiria no inaudito. Foi justamente assim que aconteceu: à vista do fi-
lho desfalecido atrás da porta - com os olhinhos semicerrados a encarar o vazio com
ingênua profundidade, rodeado por hieróglifos riscados a sangue, conjunto mórbido
a acusar ação de hordas invisíveis - que a loucura voltou a despontar, e de igual modo
um assomo místico voltou a acudir, anteparo atenuante para o choque do desmedi-
do. A partir daqui uma outra revolução temperamental eclodiu na alma do homem,
como se recebesse dos céus outra provação em meio a maior crise de sua vida, esse
demiurgo que não se cansa de impor seus caprichos. Claro que seu estado de luto
oriundo de um sofrimento estrutural, da frustração conjugal, contribuíra em muito
para essa específica associação de ideias, a qual deu para a imolação misteriosa de seu
filho um significado metafísico; afinal de contas, o que seria todos aqueles símbolos
grafados ao lado do corpo da criança, o que seria aquela paz expressa no rosto do des-
falecido, senão um enigma a convoca-lo para outra esfera do ser, uma vez testemu-
nhado seus sinais arcanos? Contudo, a partir de então o homem regenerado aderiu
a tal ressignificação, encontrando um novo norte que não a mera paixão a dois, mas
a paixão pelo Todo. A partir de então pôde dedicar-se aos mistérios do universo,
guiado pela hermenêutica daqueles hieróglifos, pela oração e trabalhos litúrgicos que
a certeza do infinito habitualmente logra inculcar, reconciliando-se com o mundo.
Com efeito, como resultado do sacrifício do filho pela mão de entidades sobrenatu-
rais, o pai recebera a dádiva de uma nova vida, cujo destino fora reatado com Deus,
atenuando o remorso e o abandono com a ideia da providência. O Boníssimo, o Su-
premo, mediante suas linhas tortas lhe arrancara a família terrena para lhe entregar,
em seu lugar, a chave de acesso ao celestial, premio concedido depois de cumprida
sua missão de temperança e amor. Assim creu, com conveniente racionalidade, e
autêntica fé.
É esta a gênese de um homem de bem.
89 O FILHO DO
BARQUEIRO
Jéssyca Carvalho

Essa história começa com um barqueiro que navega no obscuro das águas dos
rios Estige e Aqueronte. Um deus velho, mas imortal. Filho da deusa Nix, a personi-
ficação da noite. Adorada pelos amantes da bruxaria. Aquela que controla a vida e a
morte dos homens e dos deuses.
Naquela época, as crianças da minha idade tremiam ao ouvir as histórias con-
tadas sobre Caronte. Não posso negar que às vezes perdia o sono, entretanto, minha
curiosidade sempre sobressaía ao medo.
Me chamo Therasia. Aos dez anos de idade foi quando o vi pela primeira vez.
Esperava o adormecer dos meus pais, para poder brincar perto da água. Era uma
menina travessa, louca para encarar uma aventura. Por isso, não hesitei em querer
comprovar o que havia ouvido dos pescadores do vilarejo. Eles juravam tê-lo avista-
do. Talvez estivesse ali para carregar a alma de alguém.
Naquela noite, caminhei próxima à margem. Ouvi sussurros. Mas na verda-
de, tratava-se do canto de alguém. Sentado numa pedra, jogando uma moeda para o
alto e, pegando-a para atirá-la novamente, estava um garotinho de cabelos longos e
brancos.
Me aproximei para saber seu nome e o que ele fazia sozinho naquele lugar.
“Ámmon” foi o que disse para responder a primeira pergunta. Estava à espera de seu
pai, pois havia perdido sua mãe naquela mesma tarde.
Conversamos bastante e até brincamos um pouco. Ele era meio esquisito.
Não tirava os olhos da água. Também não me deixou tocar na moeda. Ficou irritado
quando tentei pegá-la e me chamou de atrevida.
Não foi a minha intenção aborrecê-lo. Todavia, meu novo amigo me mandou
ir embora. Disse que eu não devia estar ali. Então o fiz. Fingi, para ser sincera. Me
escondi atrás de uma árvore. Logo, meus olhos estatelaram ao perceber a cortina de
fumaça que se formava no rio. Dela, surgiu um barco que, por si já era assustador.
Porém, aquele que o conduzia foi a verdadeira casa dos meus arrepios. Trajado com
vestes sombrias, por baixo do capuz, havia a face de um velho magro, alto, cuja barba
era longa e espessa.
Vi quando Ámmon entregou sua moeda e embarcou. Concluí que estava
morto. Seu objeto valioso era na verdade a passagem para o submundo. Meu novo
amigo havia mentido, talvez para privar-me do susto. De nada adiantou, uma vez
que durante anos carreguei sua imagem, deixando a margem para desaparecer na
neblina, dentro daquele barco.
Passaram-se doze anos. Eu sempre voltava àquele lugar após completar mi-
nhas tarefas. Sabia que não veria o garotinho de cabelos brancos novamente. Porém,
havia uma força que me arrastava para a água.
Não demorou muito para que meus pais viessem com a ideia de esposar-me.
Segundo as tradições, já passava da hora de encontrar um marido. Entretanto, meu
coração não havia desperto para ninguém. A escolha deles foi péssima. Petrus. Um
sujeito que me olhava feito um lobo sedento.
Certo dia, estava caminhando rumo ao rio e fui seguida por meu suposto noi-
vo. Claro que suas intenções eram perversas, ao me perceber sozinha, longe do po-
voado. O infeliz tentou encostar suas mãos asquerosas em mim. Revidei e consegui
correr até a margem. Entretanto, para o meu azar, tropecei. Era para ter acontecido
o pior infortúnio da minha vida, se não fosse pela aparição de um herói que, não
hesitou em mata-lo com sua espada. Sua beleza cegou até mesmo a minha razão. Era
um anjo e tinha longos cabelos brancos.
— Ámmon? É você? — Indaguei ao relembrar a imagem daquele garotinho.
— Ainda continua a mesma atrevida. Ousa a tratar tão intimamente um ser
como eu?
— Perdoe-me. Só quero agradecê-lo. Salvou a minha vida.
— E agora você me deve sua alma. Ao menos é mais valiosa que a deste in-
feliz.
— Não entendo. Vi quando embarcou... Caronte veio te buscar.
— Ele veio buscar o filho. Agora, terá que vir comigo.
— Por que eu iria? Estou viva. Não pode me arrastar para o submundo.
— Sim, eu posso. Devo a Hades. Você quitará minha dívida, Therasia.
— Então se lembra de mim. Mas para que precisa que eu me torne sua moeda
de troca?
— Meu pai foi condenado por um ano ao exílio nas profundezas do Tártaro,
por ter carregado Hércules vivo em sua barca.
— É apenas um ano. Logo será liberto.
— Não se puder oferecer algo para mantê-lo aprisionado.
Fiquei abismada ao perceber o rancor que tomava seus olhos. Só podia pensar
que Caronte havia lhe feito um grande mal. O que mais levaria um garotinho a se
tornar tão frio?
Fiquei meio atônita com tudo o que havia acontecido em poucos minutos.
Quando dei por mim, Ámmon já havia me colocado no barco. Pensei em contestá-lo
e até mesmo pular na água. Todavia, ao olhar o corpo de Petrus na areia, concluí
que estava destinada a sofrer de qualquer maneira. No vilarejo havia muitos homens
iguais a ele ou até piores. Conhecer o submundo seria loucura, mas o risco me atraía.
Ainda mais na companhia daquele carcereiro que, mesmo sendo uma criatura da
escuridão, era fascinante aos meus olhos.
A neblina envolveu todo o barco. Antes que pudesse me dar conta, nossa rota
havia mudado. Estávamos agora nas águas do rio Estige. Logo adentramos para um
lugar mais sombrio. Os sons dos murmúrios de lamento e os gritos eram atormen-
tadores.
Me abracei com o ramo de ouro que meu companheiro de viagem havia me
dado. Tratava-se do meu salvo conduto, vindo de uma árvore fatídica, consagrada a
Perséfone. Estremeci quando vi Cérbero. O monstruoso cão de três cabeças era real.
E me estraçalharia por estar viva naquele lugar proibido. Porém, me surpreendi ao
perceber a forma dócil que nos recebia. Estava mais do que claro que a entrada seria
fácil. Difícil seria se eu tentasse fugir.
Navegamos mais um tempo. Tentei usar o diálogo para tirá-lo da defensiva.
Àmmon não deu muita trela no início. Mas minha insistência acabou arrebatando
um sorriso de seus lábios. Então usei cautela para sanar a minha curiosidade.
— Perdoe-me por mais um atrevimento. Preciso perguntar por que sente
tanto ódio por Caronte. Não que eu seja uma admiradora, é claro.
— Ele armou a morte da minha mãe e quis me usar como moeda de troca para
se redimir diante de Hades.
— Certo. Acho que posso conviver com isso. Prefiro servir a um deus eter-
namente, a me casar com um dos bêbados do vilarejo.
— Está ciente que vamos rumo ao Tártaro? E irá de livre e espontânea von-
tade?
— Sim. Desde que não precise esperar mais doze anos para vê-lo novamente.
O filho do barqueiro largou o remo para me observar. Havia surpresa presen-
te em seus olhos. Um novo sorriso, mais sereno dessa vez, surgiu. Ele caminhou até
a extremidade, a qual me encontrava sentada.
— Não posso prosseguir com isso.
— Por quê? Acaso fiz algo para tornar-me indigna?
— Não. Mas não posso dar a Hades o que se tornou cobiça aos meus olhos.
Sua fala tocou em cheio o meu coração. As palavras haviam sumido da minha
boca. Estremeci quando ele me arrastou bruscamente para os seus braços.
— Salve a minha alma, Therasia. — Disse sob um sussurro embriagante.
— Só se você tomar a minha.
Àmmon agarrou o meu pescoço, fazendo com que uma corrente elétrica per-
corresse o meu corpo. Como um vampiro sedento por sangue, ele beijou os meus
lábios. Um beijo fervoroso o suficiente para incendiar o submundo.
Me entreguei sem remorsos em uma paixão tão insana quanto a de Hades e
Perséfone. O suficiente para causar inveja em ambos. Ali, onde residiam os mortos,
havia dor, havia ódio, mas também havia amor.
— Foi um erro trazê-la. — Àmmon falou enquanto recolocava suas vestes,
quebrando o encanto no qual havia me aprisionado. — Preciso tirá-la daqui.
— Mas eu não quero partir.
— Não seja tola.
— Pensei que me quisesse ao seu lado. Te ofereci a minha alma.
— E ela agora me pertence. No momento certo eu a tomarei. Agora, você
pegará o ramo de ouro que lhe dei. Por sorte, tenho nas mangas um truque para
adormecer Cérbero. — Falou, ao pegar uma espécie de flauta mágica.
— E o que fará sobre Caronte. Ele estará livre em um ano.
— Encontrarei outra forma de vingança. Afinal, os rios do submundo preci-
sam do seu barqueiro. Não quero continuar nessa vida pela eternidade. Adeus, minha
bela Therasia.
Antes que pudesse contestar, Ámmon empurrou o barco. Vi seu rosto de-
saparecendo em meio a neblina. Acabei adormecendo. Quando abri os olhos, o céu
havia se tornado azul, para o meu desgosto.
Mais dias angustiantes vieram. Tornei-me noiva de Antonius, irmão de Pe-
trus. Era um bom homem. Fazia todos os meus gostos. Quase me sentia culpada por
não amá-lo. Todavia, meus pensamentos já pertenciam a outro.
Todas as noites, voltava ao mesmo lugar. Sentia-me observada, porém, trata-
va-se do meu desejo de vê-lo outra vez, gritando alto. Seria capaz de tudo para estar
em seus braços novamente. Trocaria a luz pelas sombras.
Finalmente chegou o dia do casamento. Os comentários sobre a minha beleza
que recendia através do vestido, não me afetavam. Eu me sentia a noiva mais infeliz
daquele mundo.
Diante de todos, caminhei até o altar. Antonius segurou minhas mãos com
ternura. Em uma delas, deixou uma moeda de ouro. Era a amostra do seu presente
de casamento.
Meu coração gelou ao sentir a presença de alguém. Lá fora, distante dos olha-
res daqueles presentes na cerimônia, eu o vi. Meu noivo, tomando meu rosto para
fita-lo, questionou o que estava havendo. Ao me virar, Àmmon havia desaparecido.
Uma mistura de desespero e adrenalina começava a surgir dentro de mim.
Olhei para a moeda de ouro e em seguida para o meu prometido e lhe pedi perdão.
Suspendi o vestido e corri rumo à margem. Para minha infelicidade não havia nin-
guém.
Uma lágrima escapou. Entretanto, percebi um punhal cravado na areia. Seria
um sinal do meu amado? Me aproximei para pegá-lo. Lembrei-me das histórias so-
bre as famílias que colocavam moedas de ouro na boca dos defuntos para que estes
pudessem pagar o barqueiro por sua passagem. Assim, o fiz. Com a moeda presa
entre os dentes, cravei o punhal no peito. A dor não era maior que o amor que eu
sentia.
Fiquei imersa na escuridão por um tempo, ouvindo gritos que pareciam per-
tencer a minha família e ao meu noivo. Senti que alguém me carregava nos braços.
Ao abrir os olhos, vi meu corpo na areia, rodeado de pessoas angustiadas. Ele ficava
cada vez mais distante.
Dei-me conta que estava deitada em um barco. Alguém me guiava para aden-
trar o submundo. Àmmon estendeu sua mão e me trouxe para junto dele com um
beijo apaixonado. Agora sim, sentia-me feliz. Abraçada ao seu corpo, enquanto ele
remava rumo à escuridão. Podia haver luz em qualquer lugar. Até mesmo lá. Ne-
nhum mal nos afetaria, desde que minha eternidade estivesse selada ao lado do filho
do barqueiro.
93 O MASCATE
VIAJANTE
Rener Alcântara

O som da aldrava ecoou casa adentro. O homem, sentado na sala tragando


o seu cachimbo enquanto contemplava as chamas da lareira, levanta-se lento e com
esforço, gemendo um bocado, se arrasta até a porta para atender a quem o chama.
— Já estou indo! Já estou indo! — disse o homem ao ouvir novamente ba-
terem na porta — O que deseja? — indagou seguido de uma forte tragada no seu
cachimbo após finalmente abrir a porta.
— Bom dia, meu senhor! — respondeu a visita — Sou um mascate viajante e
estou aqui para lhe oferecer uma mercadoria: um porco de ótima qualidade e de bom
preço.
O homem, segurando o cachimbo em mãos, olha curioso para aquele estra-
nho. Um homem que nitidamente era mais velho que ele, vestindo um sobretudo
cashmere chocolate de aparência bem cuidada, que parecia conter todo o ar frio da-
quela noite. Seu chapéu, por outro lado, parecia que já estava muito surrado pelo
uso em excesso. Sua barba era excepcionalmente branca, tão branca quanto o leite.
Embora fosse um desconhecido, sua aparência, seu olhar e a sua forma de falar, de
imediato, lhe transmitiu um ar de que fosse um homem de bem. Talvez um velho
que ainda se dedica ao fardo do trabalho em ter que andar de casa em casa. Tudo isso
foram o bastante para ganhar o fio primordial de confiança e continuar com aquela
conversa.
— E por quanto estais vendendo?
— Por pouco, quase nada. Basta me dar algo seu. Qualquer coisa, até mesmo
uma gota de sangue.
— Sangue?
— Sim!
— Por uma mísera gota de sangue eu compro. Nunca fiz um negócio tão fácil.
— Garanto que não, meu senhor — concordou o mascate.
— Mas, não estou vendo o porco. Onde está?
— Agora que já o vendi, tratarei que trazê-lo amanhã, logo após o raiar do sol.
— Então sendo assim, também só lhe pagarei amanhã.
Na manhã seguinte, como acordado, logo que o sol clareou no céu, o mascate
surgia ao longe na estrada, cruzando os cômoros verdejantes de relva, puxando o
porco. O animal era deveras majestoso e de ótima aparência, uma raça exótica que
ninguém conhecia, porém, qualquer criador gostaria de tê-lo em sua propriedade.
— Como trato, aqui está o teu animal — disse o mascate estendendo a corda
com o bicho preso.
O homem ficou encantado com tamanha formosura do animal adquirido.
— Bem! Como trato, também quero a minha gota de sangue como o paga-
mento.
— Sim, sim! Espere, que buscarei um espinho para alfinetar o meu dedo.
— Não há necessidade. Tirarei do meu jeito — disse o mascate.
O vendedor retira da sua cartola um sapo também peculiar. Um sapo gordo e
gigante, e com uma aparência nada amigável.
— Ponha um dos seus dedos na boca do sapo — ordenou o mascate.
O homem, mesmo sentindo asco do sapo, se atreveu a pôr o dedo na boca do
bicho que lhe mordeu quase que instantaneamente. O sangue então acabara de ser
coletado pelo próprio sapo.
— Parabéns pela compra do porco — disse o mascate despedindo-se e partin-
do de imediato de lá, deixando para trás o homem confuso com aquela compra mis-
teriosa, porém, ao mesmo tempo, contente por ter um porco de altíssima qualidade.

***

Alguns anos haviam se passado desde a compra do porco, até que, quando o
animal estava muito maior e gordo, o seu dono resolveu abater o animal para comer
de sua carne, e assim o fez.
Dias depois, o proprietário do falecido porco, acordou com um enjoou, mas,
logo cessou. Posteriormente, ele passou a sentir uma fome tão insaciável que parecia
que nada era o bastante para a sua fome. A busca por comida era tamanha, que ele
abocanhava comida estragada e restos mofados de pão que encontrara esquecido no
seu armário da cozinha. Tal fome foi responsável para que ele logo ganhasse alguns
quilos a mais.
Com o decorrer dos dias, mais coisas estranhas vinham surgindo, como a
vontade de fuçar a terra e buscar tubérculos e vermes.
Na outra semana, seu corpo também passou a mudar, além do seu ganho de
peso exacerbado, agora as suas orelhas começaram a crescer ao ponto de tombar
em seus ombros. Nesse estágio, o homem já não saia de casa com vergonha de sua
aparência um tanto horrenda. Uma deformidade que muitos poderiam o considerar
como um demônio.
A modificação continuava sem cessar, até mesmo a sua voz foi danificada,
tornando-se rouca, depois, sem pronunciar palavras, somente sons de grunhidos.
Suas mãos e seus pés afunilavam prejudicando o seu manuseio com os objetos, tendo
que se alimentar unicamente com a boca. Esta que também já havia ganhado um
saliente alongamento e presas bem proeminentes.
Por fim, antes de perder a sua última característica humana: a inteligência,
autonomia e racionalidade, ele pôde tomar consciência que estava condenado a
transformar-se em um animal, em um porco. Algo que lhe assustou completamente
e logo se lembrou do porco comprado por uma gota de sangue aquele mascate via-
jante misterioso. Estou sobre uma maldição, concluiu o homem.
Antes mesmo de procurar uma cura, o homem perdeu a sua racionalidade
humana e tornou-se um animal incapaz de lembrar que um dia fora um homem. Não
tardou e o mesmo mascate que havia lhe vendido o porco, chegou por lá, segurando
uma corda que serviu para amarrar no seu pescoço e ser guiado pelo mascate, talvez,
para ser vendido para mais um tonto ambicioso que não meça as consequências de
coisas fáceis demais.
Dizem que o mal por si mesmo se destrói. Porém, esse provérbio faz mais
sentido quando há um grupo de malfeitores agindo juntos, onde, a ganância de um,
destrói os seus próprios companheiros. Mas, e quando apenas um homem age sozi-
nho? Quem garantirá que ele será punido?
Esse mascate é a entidade mística do submundo responsável por essa tarefa
de fazer com que os corruptos e malfeitores venham a cumprir parte da sentença dos
seus pecados cometidos em vida e, para aquele homem que havia se transformado em
um porco gordo, só fora parte do seu castigo por seus malfeitos. Assim, o trabalho
dessa entidade misteriosa é fazer com que se cumpre o provérbio popular em que o
mal por si mesmo se destrói: onde um homem pecaminoso abate outro pecaminoso,
fazendo apenas com que esse ciclo se feche. E, para aquele porco abatido por outro
homem, só lhe resta que a morte chegue para buscar a sua alma.
96
A CRIANÇA MAIS
ANTIGA DA RUA
Schleiden Nunes Pimenta

Há alguns anos Gabi tentava ficar acordado para ver o que acontecia na noite
de Natal. E conseguiu. Seus amigos da rua que lhe incentivavam:
— Por favor, Gabi! Por favor! Ele virá, eu vi...
Embora seus pais dissessem que nada daquilo existia e ele sempre lhes acredi-
tasse em qualquer situação, alguma tremida na sua voz acontecia. Pensava no baru-
lho da carroça, os rangeres estranhos, os “toc-tocs” das botas de... Ah, sabia que nem
toda letra proferida por eles estava na sua devida verdade.
Mas também não queria detalhes dos seus amigos; poderiam lhe atrapalhar.
Se eles realmente o viram, que guardassem os pormenores para si. Que não lhe des-
sem spoiler algum — já lhe bastava o episódio final de Stranger Things.
De fato, deixou de acreditar em segredos e mistérios natalinos desde que
descobriu a realidade sobre Papai Noel. Roupão vermelho, renas voadoras, duendes
bondosos, saco de presentes sem fundo, que presenteavam o mundo todo em apenas
algumas horas? Como pôde acreditar? Embora seja verdade a estória de ter ficado
acordado para descobrir que o tal gordinho barbudo eram sua mãe e seu pai pisando
em ovos para chegar ao seu quarto com seus presentes sem serem escutados.
De todo modo, o que seus amigos lhe contaram era muito pior. No caso de
seus pais, que já lhe mentiram uma vez, por que não haveriam de mentir-lhe uma se-
gunda também? Pois, ei-la: várias mortes, torturas e sofrimento de inocentes, no ter-
reno abandonado perto da sua casa, para homenagear os banquetes do dia de Natal.
Pensou naquilo por um ano todo, com tranquilidade, com bravura. Risos,
tantos risos!, que nem o vigia da rua ousava se aproximar! Em plenas 4h35 da ma-
nhã. Mas, nos últimos três dias vésperos, finais, todo o seu corpo tremia. Ansiava.
Não brincou com os amigos, não comeu o tempo todo como era de praxe na semana
que antecipava o dia 25. As castanhas, as ameixas, os pêssegos verdes — que tanto
adorava mastigar por minutos a fio — , sobraram desta vez. Escreveu uma carta de
despedida, para caso não voltasse, caso se perdesse, caso “Ele” lhe pegasse.
Foi dormir — de mentirinha — por volta das sete horas da noite. Todos lhe
estranharam, principalmente seu irmão mais novo, para o qual escreveu: “Miguel,
continuamos anjos na vida dos nossos pais. Não brigue, obedeça, não minta — mas
continue a fingir que acredita nos livros da Disney. Sabe o quanto é importante para
eles. Sei que ainda não sabe ler, mas um dia a professora Dalva lhe ensinará”. Dentre
outras palavras de carinho, um “eu te amo” e vá lá.
— Ele vem! Mas ele vem!
Com os olhos arregalados, sentado na cadeira da varanda, perspassava as di-
cas que recebera:
— Os adultos não o veem. — Contou Pablinho.
— Por quê? Por que não o veem?
— Vai ouvir os gritos, você saberá. É tão alto, mas tão alto, que não tem como
alguém não ouvir. Ou os adultos não o ouvem, ou é que eles também têm muito
medo de ir...
— Graças a Deus que o sino da igreja já toca às 6h00. — Fernando, que já era
um pouco mais dramático, disse-lhe e já olhou em reza para os céus. Um monstro,
um assassino, um vilão, que só as crianças conseguiriam ver?
No entanto, só ele estava ali. A criança mais antiga da rua. Era sua obrigação
os defender.
“4h35 da manhã”, diziam.
— Por que todo conto de terror precisa ter um horário em que as coisas
acontecem?

“Ele virá! Barulho de carroça, facão na mão, bota branca até o joelho... parece
um açougueiro, só que ri”.
Fazia frio, um pouco, e só, de uma neblina estranha que na verdade não pas-
sava de geada da manhã. Mas a imaginação...
...Fez-lhe chegar! Sons mesmo de carroça, de motor velho, eixo frouxo, ran-
gir de dentadura velha, mais o pânico que lhe fez levantar. Levou as mãos ao cinto:
a faca de serrinha, o garfo, as pedras do quintal; atrás da pilastra do portão, à espera,
ergueu a mão, pôs-se como em seus treinos, avançou o pé direito e foi tempo de
ouvir da janela do caminhão:
— Ah, Gabi! Essa hora, menino? Vai dormir!
Se não era o Sr. Haroldo, pulando pelo quebra-molas, batendo cabeça no teto
do carro, chegando da sua roça de alfaces hidropônicas e gergelins. Já ia fazer suas
vendas na praça de Aguanil. Viu-o de relance, acenou, fez-lhe um:
— AôÔô!
Baixou a guarda e, ainda paralizado, deixou-se cair. Deslizou as costas pela
pilastra, bunda ao chão, faquinha entre as mãos unidas e descansadas por sobre as
coxas finas. Sem coragem de voltar para a cadeira atrás dali.
Seu estômago, vazio, implorava pelas castanhas ou por algumas uvas thomp-
son que deixara de comer; as pálpebras, por mais duas horas de sono; suas vozes, por
um ato de bravura que sua rua e seus amigos tanto precisavam. Logo seria tempo
de ir à missa, mas pensaria nisto depois — afinal, já há três semanas não se valia da
desculpa da dor de cabeça. Estava em tempo de a reutilizar.
Perdeu-se logo em devaneios, pensamentos estranhos, tantas cogitações. Sr.
Haroldo... E se ele fosse açougueiro, matasse alfaces, risse enquanto cumprimentava
as crianças da rua? Esbravejava sozinho, da estrada entre Campo Belo a Cristais, mais
Aguanil:
— Vai, besta! Estas alfaces? Têm agrotóxico, nem lavei! HAHAHA!
E ria.
Longe de suspeitas, passava só como trabalhador que passa; atacava boias-
-frias nos cafezais da entrada da cidade, enxia-lhes as bocas de alfaces, torturava-lhes
com os “creques” de folhas e verduras secas, cruas, ainda cheias de terra, de...
“Meu Deus, que sono...”.
... um barulho no esmalte dos dentes que lembra quadro negro desunhado.
Jogou-se, subitamente, ao portão. Olhou o seu relógio do Bob Esponja: 5h12.
Dormiu! Descuidado, aventureiro de primeira viagem, não deixou-o destrancado. A
chave? Capaz! Escalou pela fechadura, saltou pelas lanças, ralou a barriga na calçada
do lado de lá. Não pensava, só ouvia. À sua frente, a rua que subia, a igreja lá em cima,
o sino que às 6h00 já iria tocar. Tinha pouco tempo antes de os adultos acordarem.
Virou à direita, chocou-se ao poste, cambaleando pôs-se a escutar.
Sons terríveis; gritos agudos, esganiçados, de socorro, e rangeres de metais.
Faca em faca, corrente no amolador. Depois, passos rápidos, como que correndo
atrás de alguém; um rádio alto a reverberar, ruidoso e toscamente, alguma daquelas
breguices hipnotizantes de bar.
Mais perto, vozes desconhecidas. Conversavam, riam, contavam causos a de-
bochar. No terreno logo abaixo, eis que da ex-casa demolida de um ex-melhor amigo,
acostou-se por detrás das rodas velhas e gastas da caminhonete daqueles homens.
Distraídos em suas piadas, ao corte de mais uma vítima de Natal, não o viam a abrir
o cadeado da carroceria; faca de serrinha no buraco em ponta fina. Fez um “clique”,
escancarou-a; seis a sete reféns saíram assustadoramente em disparada, aos gritos;
grilhões ainda nos pés e uma criança aos prantos ensurdecedores. Até crianças ti-
nham a audácia — ou a maldade — de aprisionar?
Gabi chorou.
Subiu pelo eixo de ferro; ali esperou. Um e outro corriam para uma esquina,
e outra, sem saber para onde ir, enquanto o sequestrador e seu comparsa vinham
— podia ouvi-los — correndo para ver se algum ainda sobrara dentro da caçamba.
À sua aproximação chutou a porta de uma vez, para surpreendê-los, atingindo o
comparsa baixinho ao chão; bateu a cabeça, apagou. Em seguida, saltou na cabeça do
outro, dançou com ele da boleia às paredes das casas; ele na tentativa de furar-lhe os
olhos, o bandido na intenção de segurá-lo para jogá-lo ao chão...
Como se fosse touro, como se montado, pegou impulso e correu em dada di-
reção e, com bastante força, tacou-lhe ao gramado ensanguentado do terremo aban-
donado. O assassino, a lenda urbana, viu o seu rosto então...
— Mas o que...
Estarrecido, não soube o que fazer. Riu.
A uma luz bruxuleante que se acendeu de uma casa próxima, unida ao farol
quebrado da caminhonete, a visão de Gabi começou a se desfocar. O homem, aven-
tal branco, botas vermelhas de sangue, facão ainda na mão, aproximava-se. Crescia,
sumia.
Sua cabeça rodava; ferido, sentia tudo: o ralado na barriga, a pancada do peito
no poste, o pé que virou com o golpe do seu inimigo e a queda.
— Não vai... você não vai fazer mal a mais ninguém...
E apontou-lhe a faca de serrinha.
Dizia aos tropeços, tentando proteger uma vítima posta numa base de ferro
atrás de si. Perdeu o apoio, caiu de cara numa poça densa, gosmenta. À sua frente,
uma cabeça aberta, costelas à mostra, de um vermelho visceral, olhos abertíssimos,
vivíssimos, prontos a lhe falar:
— Ele vem! Está vindo aqui!
O sino, o sino dos adultos, tocou. Tudo se dissipou; lembrou-se dos seus ami-
gos a lhe dizer. Sentiu certo frescor; os ventres quentes daquela criatura morta a lhe
proteger.

Toda a vizinhança veio, logo cedo, embora a ceia tenha acontecido apenas à
noite. De manhã, os pais de Gabi o levaram ao hospital, à delegacia, e até o pediatra
da família veio a Campo Belo para lhe visitar em pleno Natal. Ninguém soube dizer
ao certo o que lhe aconteceu.
Ceiou com eles; conversaram e riram como se nada lhes acontecera.
— Onde já se viu? Foi procurar o Papai Noel!
— Gracinha...
Olhavam-no com carinho, apertavam-lhe as bochechas. De longe, Fernando
e Pablinho se fitavam em códigos.
A mesa farta, uma música brega a tocar; as castanhas, os presentes, o som de
outros amigos a bater em um violão lá no quintal. Vez e outra vinha o monstro da
noite anterior — que, não entendia o porquê, também fora convidado. Como seus
pais não podiam lhe ver?
— Tá vindo, tá vindo!...
Abria a geladeira, pegava mais uma cerveja, fazia-lhe um cafuné. Pergunta-
va-lhe:
— Está tudo bem?
Na sua cabeça existia apenas o terror da noite anterior, que, pela palpitação
e pela dor, não havia terminado ainda. O que ele era, o que fazia, como escondia sua
verdadeira face dos adultos ademais? Indagava-se por que ninguém o impedia. Ah!
Que terror! Mais uma vez, o que a sua família e os outros lhe escondiam? Sentia-se
não ter para onde correr.
À sua frente, bem no centro da mesa, olhava para um porco inteiro, posto
artisticamente em uma tábua de bambu; alfaces do Sr. Haroldo em volta, rasgadas,
regadas no azeite mais algumas salteadas de gergelins. As ameixas a enfeitá-lo; uma
gigantesca maçã verde desproporcionalmente enfiada na sua boca. Baixinho, Gabi
chorava:
— Mals, amigo, por não te salvar. Se não fosse o portão trancado...
Depois, mordiscava pesarosamente um pedaço de presunto defumado. Nesta
hora o porco fitava-o também tristonho, cabeça aberta, costelas à mostra, de um
vermelho visceral, olhos abertíssimos, vivíssimos, prontos a lhe falar.
100 O LABIRINTO
DE AGONISTES
João Pereira de Matos

E, no entanto, o odor acre e pútrido da corrupção também aqui estava pre-


sente. Alguns móveis estavam lascados, os seus embutidos e nacarados partidos, os
tapetes que desfiavam e o estuque invadido pela percolante mancha de uma humi-
dade de décadas, marmoreando-se num intrincado rio negro com os seus canais e
afluentes, descendo até aos tacos do soalho onde o caruncho completara o desenho
deste minucioso dédalo. É certo que no chiaroscuro da luz ou ausência dela, com a
habilidade de uma sabedoria antiga, os donos mitigavam os estragos deste palacete.
Todavia, assim apenas se obviava a hipótese de descuido: quem trafica com a sombra
para esconder as mazelas é porque não pode restaurar o imaculado apogeu da pros-
peridade. Não querendo lançar deslustre sobre esta venerável casa há também um
fascínio no mofo que é aquele da vida que nos desgasta a carcaça e que a insufla da vi-
talidade orgânica da queda destinada a todos os corpos. Também uma mansão como
esta respira com aquilo que, em permanência, está conspirando para a dor de existir.
Todo o pormenor é sempre um perigo e foi a curiosidade dele que, antes de
mais, o levou a seguir a fissura, primeiro, no tecto, depois, na parede, cuja estrutura
irisada subia por uma pequena e serpenteante escada para vir desaguar num corredor
mais escuro e menos povoado de carpetes e reposteiros do que as passagens e apo-
sentos mais nobres mas que, pelo contrário, descobre o esqueleto fundamental do
edifício, nu da maquilhagem de pompa e mármores. Aí, talvez, uma porta que enco-
bre uma outra escada, também essencial mas agora descendente. São íngremes estes
degraus. Rangem com o timbre nauseante da madeira apodrecida. O bolor permeia
estes recessos, adensando-lhes a penumbra. Ainda assim, para baixo, por via torta
no intestino desta mole de pedra e cal e onde os olhos não alcançam, às apalpadelas.
Uma luminosidade nimbada aguarda o fim desta primeira descida onde o luar
cálido da noite amena parece ainda conseguir penetrar, sabe-se lá por que fissuras.
Assim, por um corredor ainda mais estreito, opressivo, horizontal, fundo. E
ao sentir o peso da terra sente também uma restolhada, embaixo. O rumor frenéti-
co da vida vegetativa na semi-luz das coisas, insectos, roedores, até serpentes que,
pressentindo já o distúrbio no seu mundo cego de líquenes, se escondem nos seus
interstícios, recuando da escuridão mitigada para a treva absoluta.
Não lhe demovem a ventura, porém, de continuar o percurso, constrito pe-
las paredes maciças cuja caliça se esboroa ao toque, na bizarra fosforescência da sua
purulenta textura.
Dir-se-ia até, Agonistes, que degrau a degrau se te estreita o caminho.
Cada vez mais abaixo. Pensou que não lhe encontraria o fim. O peso das pare-
des, das toneladas de solo que se interpunham até à superfície, tornavam tão denso o
ar que se sufocava. Mas ele, inalterado, continuou. Tinha de ver até onde podia ir. E,
o que era mais interessante, ultrapassava diversos estratos, diversos tempos de cons-
trução destes túneis, destas passagens, por vezes, improvisadas e, outras, adornadas
de abóbadas de tijolo vermelho, colunas e até arabescos como se estas caves tivessem
sido construídas para habitação e com esplendor. Que contraste este da esquizofrenia
dos séculos. Depois de um arco finamente trabalhado vinha uma secção onde mal
cabia um homem. Passando uma porta carcomida pelo tempo e cravejada de fungos,
uma galeria ampla e arejada e, noutra direcção, um ar seco onde, por estagnação e
novamente a custo, se respirava. Sim, desse modo podia saber, mais ou menos, em
que zona da cidade estaria: mais perto do rio ou do mar, consoante o salitre escorria
das paredes ou apenas a emanação insalubre das lamas do leito do rio que, muito
acima, se conseguiram infiltrar esculpindo sempre as suas figuras negras de pesadelo,
absurdas e extravagantes, por todo o lado e até aos tectos inacessíveis. Pelo contrário,
quando toda a pedraria estava ressequida, sabia que se desviava das zonas irrigadas
passando através do núcleo calcário da cidade.
Há quanto tempo estava neste Amazonas doméstico? Não tinha modo de sa-
ber. Devia ter trazido o relógio, isso era evidente, mesmo que à pouca luz do isqueiro
com que iluminava o caminho não fosse tarefa fácil distinguir os dígitos e os pon-
teiros no seu velho cebola. Não interessava. Fascinava-o a descoberta. Nem sequer o
preocupava a possibilidade, sempre perigosa, de se perder nesta vastidão subterrânea
de túneis e passagem e vãos e escadarias e rampas e celas e galerias e poços e precárias
escadas esculpidas na rocha. Ou será que era a mente que ampliava este rizoma que
contaminava a cidade? Afinal, poder-se-ia, talvez, perceber porque existia: as fomes
e guerras e contrabandos vários foram erigindo esta catedral às avessas, para baixo,
sempre para baixo ou, ao invés, isto não fosse uma vasta catedral mas modesta ermi-
da, ampliada no seu espírito pela desorientação frenética da descoberta. Já esquecido
da festa, lá em cima, só lhe interessava continuar.
Descer é função e faz-se caminho andando. Descer é missão mas já se não
lembra de quê. O que espera encontrar? O que irá encontrar se é que haverá algo
para encontrar? Se término haverá para esta descida, para este deambular a esmo
ou se, a dado momento, já tanto desceu que depois começará a subir, o que não é
mais do que a mesma descida, em direcção à saída, a uma civilização toda outra, com
vastas extensões planas de ar limpo e fresco e oloroso, com uma luz que tudo beija e
que é tão brilhante que se a não pode olhar de frente. Porque foram transfigurados
— as coisas e ele — por esta jornada, pelas geometrias reversas do submundo, onde
as coordenadas do espaço e do tempo de tal maneira se confundem que a viagem,
parecendo durar uma vida, teve o lapso do breve instante e, achando que alcançou
as goelas da terra, não mais chegou que ao limite inferior desta sua bela e estranha
cidade de Cárpato-Nova. Percorre estas galerias desalvorado porque não há modo de
manter uma rota neste produto da esquizofrenia dos séculos, do absurdo arquitec-
tónico e do despudor estético. Sempre a mesma repetição. A uma pequena divisão,
minúscula e poeirenta, sucede-se um salão subterrâneo em tudo semelhante a qual-
quer construção elegante não fora a ausência de janelas, o ar bafiento decantado pelas
ranhuras da pedra e as portas sem saída que abriam para uma parede sólida. Noutro
local, talvez logo a seguir, talvez muitos quilómetros depois, uma passagem tão baixa
que teria de gatinhar, sujando as calças do seu melhor fato e cortando as mãos na
gravilha afiada. Não, não era fácil percorrer este formigueiro erguido por mão hu-
mana se bem que segundo os delírios dos vários construtores que se decidiram a usar
do seu talento e esforço, não para maravilharem os concidadãos mas para erigirem
um laborioso monumento desconhecido, ao sabor da necessidade mas, por vezes
como vamos constatando ao andarmos a par com este Agonistes, com indústria e
com gozo, adornando e esculpindo, tendo o cuidado da harmoniosa proporção ou
demonstrando aquela ambiciosa alegria da arte, para a qual não lhe chega o recato do
que é meramente funcional.
A confusão transformava-lhe os passos numa geometria demencial. Perden-
do-se a orientação, pelo efeito de se adentrar no desconhecido, cada nova curva foi
como um abismo onde se experimenta a vertigem e a aceleração dela pois consome
a memória, ainda que recentíssima, do percurso e nos faz entrar no pleno efeito da
queda que é da ordem do irreversível. Quando se começa a cair, mais e mais depressa
se cai e jamais se recua. E só mais fundo se irá, só mais caleidoscópica se turva a visão
do caídor, só mais se deseja que não acabe esse descer que o chão é duro e mutila
e a velocidade inebria, só mais se deseja o fim porque a ansiedade se acumula na
igual proporção da vertigem. Mesmo assim, em alguns trechos, foi-lhe evidente a
topografia arquitectónica da superfície. O grande túnel direito e abobadado existia
por baixo da larga avenida que rasgava a cidade e descia com ela, num suave declive
sempre em direcção ao rio, o ponto focal desta pólis que durante tanto tempo foi
esquecido. Ou uma secção mais caótica, claramente improvisada que espelhava, fiel,
o atabalhoado traçado dos bairros antigos desta urbe milenar. Poder-se-ia quase re-
contar o seu percurso através das vicissitudes históricas deste outro mundo discreto,
escondido debaixo dos pés de todos, por comparação com o que lá em cima foi o
românico, o maneirista, o barroco, o moderno. E alguns sítios beneficiavam até de
uma instalação rudimentar de luz eléctrica que mais escondendo do que iluminando
era, não obstante, um símbolo do progresso que também aqui tinha chegado.
Tudo se confunde com tudo. Ele confundia-se com tudo. O seu ser, a identi-
dade mesma que o distingue do cosmo, no delírio de aqui andar perdido tornou-se
indiscernível deste pulular de câmaras e corredores, de corredores e câmaras que,
acreditava, respiram e se multiplicam como um grande dilatar de pulmão. Ou como
rede radicular que esgravata a terra em perpétua expansão, para os lados, em direcção
aos arrabaldes, para baixo, em direcção ao inferno. Os seus olhos já se tinham habitu-
ado à ausência da luz, o seu corpo sentia a pressão do que estava por cima como um
aconchego e protecção maternais. Ágil, percorre em marcha célere, quase em corri-
da, com uma naturalidade de céu aberto, essa geografia doida. Alienatio mentis. É a
benevolência do corpo que leva da asfixia ao êxtase. Por isso a sua consciência está
noutro sítio, um habitat interior de memórias e sensações. E, esquecendo-se do que
é, de visões. Um caleidoscópio de luz antiga coalescendo naquele momento quando,
outrora, passeava com o pai à beira-rio. Sim, todos os que morreram, afinal, lhe
aparecem, ainda vivos, recuperados para este tempo sem hora não só para a vida mas
exumados, num instante de síntese, na sua máxima plenitude. Podia, então, dialogar
com eles «pai, há quanto te não via? Agora, posso finalmente dizer-te quem sou, em
quem me tornei. Posso também falar-te nas mágoas e remorso imensos de tantas
ocasiões perdidas. Sei que querias que fizesse algo de grande, de importante para o
mundo mas resguardei-me numa esfera radicalmente privada e íntima. Irrelevante,
sou quase invisível, de tal modo passo desapercebido na multidão. E fui cego, cego
para o amor. Não tenho filhos. A tua linhagem acabará comigo. E os meus irmãos?
Não creio que produzam descendência. Espalhados pelo mundo não lhes auguro
nada de bom. Estou cansado. Estou cansado de andar às voltas. Desorientado. Cer-
rado na minha desilusão não sei o que é o horizonte. Tantas vezes comecei tantas
coisas que não deram em nada. Tantas vezes recomecei e caí e voltei a tentar para só,
ainda com mais força, voltar a falhar. Um acontecer-me recorrente, esse do logro,
mas não sei porquê. Que grão haverá em minha engrenagem? Que melancolia, funda
e negra, transporto que me não deixa viver? Sou à parte de todos só pelo sofrimen-
to? Singular na desorientação? Único na errância? Belo na desdita? Nem isso me
singulariza pois há tantos que sofrem e de penar mais gravoso. Há muitos em plena
agonia e nem por isso desistem. Antes pelo contrário. Perseveram. Sabem enfrentar
as adversidades, o aguilhão da injustiça, como heróis anónimos da sua própria des-
graça. Eu sei que estou muito aquém deles. Quer no que concerne ao fardo que tenho
de transportar, quer na coragem de empreender o esforço. O problema, meu pai, é
outro. Eu não sei. Não sei o que faça ou o que deva deixar acontecer. E mesmo que o
soubesse não saberia, por certo, nem como fazer o que devo nem como aceitar o que
não posso evitar. Bem vês, há muito que estou perdido. Deixei acumularem-se uma
miríade de pequenos traumas, de vários dissabores, a maioria corriqueiros, todavia
que me infectam a memória e pervertem a alegria e que, distorcendo o que quero
e sou, me perdem. Ajuda-me, pai. Tu que sempre soubeste como. Tu que sempre
soubeste querer. Tu que sempre soubeste o quê». «E tu, minha mãe, como és bela.
Lembro-me daquela viagem que fizemos todos e como os dias estavam lindos, os
dias desse Outono quase esquecido de onde só sobressaia o dourado do entardecer e
o teu sorriso, o teu carinho, a tua alegria de levares essa tua tribo por um bosque tão
doce. Deleitoso. E o cheiro de jasmim quando anoitece que invade e perfuma esta
cela onde estou, até agora infecta pelos miasmas da terra que a tua presença exorci-
zou». «Faremos, meus pais, depois do reencontro com os meus irmãos com quem
não falo, há anos e anos, com quem talvez nunca falei deveras, novas viagens, ainda
mais prodigiosas. Pois muito mudou e eu também. Tenho estado mais triste e mais
só, abandonado pela energia da juventude e olhando a velhice, o cortejo de peque-
nos e grandes incómodos da velhice, sem nunca ter vivido na plenitude. Todavia, se
ficardes comigo, talvez isso pudesse ser diferente. Irei reerguer-me. Terei a vida que
vós sempre quisestes para mim. Serei, finalmente, feliz».
Andou ainda muito antes de ver outra luz, ténue e ainda distante. Mas, ali
está ela, mais à frente. E quando parecia que se aproximava, quando parecia que es-
tava quase a chegar, um desvão ou um desvio, afastavam-na. Era possível, contudo,
reencontrá-la um pouco depois, com a sua intensidade difusa, com vultos de gente,
com as suas imagens de sombras-chinesas ébrias neste espaço confinado e talvez até
assustador: se havia esta iluminação de lanterna mágica então haverá alguém que a
produz, aqui o Sol não chega, estas galerias não lhe conhecem o esplendor, tudo é tão
cego como os ratos que de olhos vermelhos e baços o observam com outros sentidos
mais eficazes para perscrutar a treva. Pois tal brilho, feérico , era também rubro.
E intenso. Mais e mais intenso enquanto se aproximava. E o rumor, a princípio,
um marulhar de vozes e, depois, juntando-se-lhe o rugido de uma orquestra, talvez
desafinada, talvez distorcida pela arquitectura claustrofóbica destas galerias que am-
pliando todos os sons lhe davam tons espectrais, estridentes aos metais, guturais às
cordas e sísmicos aos tambores e bombos.
O que se passaria aqui, a esta profundidade, no mais recôndito âmago, longe
da vista, nesta festa evanescente e derradeira sob luzernas vermelhas que tingiam de
sangue o calor opressivo e mórbido de entranhas e com uma sinfonia cacofónica de
gritos e ritmos tribais?
Não o sabia mas avançando, decidido, iria descobrir.
105 MISTÉRIO:
ASSASSINO DE
QUEM MORREU?
Paulo Luís Ferreira

Como se percebe, pelo título, o enigma desse enigmático crime não é o cri-
minoso, mas a vítima. Afinal quem enfim morreu nessa extraordinária trama?... Em-
bora valha ressaltar: não se martirize por isso, pois a história é feita de gente morta
e o futuro de gente que vai morrer. E é isso o que iremos investigar em todas as
suas minúcias. Mas como todo bom enredo de mistério e suspense se começa pelos
preceitos morais e éticos dos suspeitos, comecemos então, pelo princípio de, quem
de fato morreu?
Eu precisava passar um fim de semana na casa de minha mãe. Já estavam
insuportáveis as cobranças. Se bem que estava mesmo devendo, pois há bem pouco
tempo eu não passava mais do que um fim de semana sim, outro não, sem visitá-la.
No mínimo ia aos domingos para almoçar. Mas naqueles últimos seis meses a coisa
ficara difícil. E tudo por causa da Luzia. Luzia chegava ao meu apartamento logo as
sextas-feiras à noite. Saia do trabalho e fazia ponte direta. Era um grude. E só voltava
na segunda pela manhã. Isso porque eu a deixava bem na frente da agência onde ela
era articulista de criação. — função que, cá comigo, não sabia nem do que se tratava
— . O fato é que Luzia estava tomando todo o meu tempo dos fins de semana. Era
teatro, restaurante e cama na sexta. Cama no sábado o dia inteiro; à noite cinema
ou um show de rock, restaurante e cama. No domingo, cama até as dez horas com
breakfast e jornal na bandeja, almocinho caseiro, mais cama, e à tarde vernissage;
na volta, pizza e cama. Não necessariamente nessa ordem. Muito embora, a cama
estivesse em qualquer uma das ordens. E quando eu falo cama, subentenda-se sexo,
sexo e mais sexo. E quando falo sexo, falo de sexo vigoroso, forte! De frente, de lado,
de costa, de pé, de falo, língua e dedos. Dedos dos pés e das mãos. Orelha, lóbulo,
nuca, joelhos e profundezas das entranhas. Luzia era o tipo da garota três gês, ou seja,
garota/gata/gostosa. Acrescentando-se ao rótulo o adjetivo “assanhada” com direito
a todas às acepções da palavra.
Pois bem, foi neste entretempo que eu fui me esquecendo de mamãe. E sem
nenhum propósito. Apenas a tal ocupação descrita acima, o conúbio com a citada
dama. Quando dei por mim estava devendo quase seis meses de fidelidade filial. E por
que não dizer, saudade maternal. A roupa que minha mãe tanto esperava para que eu
levasse para ela lavar nos fins de semana já havia virado uma baita conta na lavande-
ria. E Luzia consumindo meu ser e meu corpo. Coitado de mim, pobre indigente do
sexo!... Estava um trapo, ultimamente vivia em frangalhos.
Nos últimos dias mamãe não parava de me azucrinar o juízo. Ora por te-
lefone, ora por telegrama fonado, e-mail nem pensar. Computador para ela era o
demônio em forma de máquina. Por fim, em um sábado, tomou coragem e bateu
em minha porta. Na exata hora em que eu e a Luzia estávamos no bem bom; bem
bom pra ela, pra mim um suplício. Tocou a campainha tantas quantas vezes eu nem
sei. Até que, mesmo exaurido e extenuado do sexo selvagem de Luzia, criei coragem
arranjei forças buscadas não sei de onde. Acredito que à base de pensamento positi-
vo, e aproveitando o ensejo para me livrar daquele leito eletrificado e da companhia
inebriante, devastadora e insaciável chamado Luzia. Levantei-me e caminhei cam-
baleante até o olho mágico da porta. A surpresa não foi pouca, quando com a nesga
do olho espremido contra o outro, o da porta, vi aquela carantonha do tamanho do
mundo; na ponta da venta uma verruga com dois cabelos formando uma antena.
Era a cara cheia de indignação de minha mãe. Mais que depressa olhei para Luzia
e insinuei que ela se fizesse de dormindo embaixo dos lençóis. Abri a porta. E num
espalhafato de falso entusiasmo abracei-a e gritei: Mamãe!... Mamãe! Não, primeiro
gritei depois abracei. O que foi motivo de galhofa por parte de Luzia umas horas de-
pois na cama, quando me disse cochichando ao meu ouvido; lambendo e mordendo
o lóbulo de minha orelha, nunca ter visto coisa tão hipócrita quanto aquela minha
efusiva e falsa manifestação emocional, não mais que racional. Comentários à parte,
mamãe viera me relatar uns acontecimentos nos últimos dias em sua casa.
Tratava-se de umas pisadelas no telhado da casa durante a noite. Motivo que
a deixava assustada. Eram pisadelas fortes, rangiam como porão de navio preste a
naufragar. Parecia que ia rachar o telhado a qualquer instante. Em outros momentos
eram um som surdo como patadas fofas de urso. Falava mamãe, dramaticamente
horrorizada; e acrescentava: precisava urgentemente que eu fosse passar uns dias em
sua casa para descobrir aquele mistério. Em sua opinião: — e dava outra versão dos
fatos, cheia de sentimentalismo — . Só podia ser bandidos. Ou, no mínimo, algum
homem interessado em sua pessoa. Aproveitando de ela ser uma senhora desprovi-
da de guarda, de proteção. Pois estava esquecida pelo único e desalmado filho. Um
ingrato. Mas não havia de ser nada. Deus haveria de lhe prover forças para suportar
tanta injúria, e enfrentar com altivez tamanha coisa assustadora. O que lhe preocu-
pavam eram os nervos, pois estavam num estado deplorável. Por qualquer motivo
entrava em pânico, chorava à toa. Já não era a mesma mulher de quando o filho
morava com ela. O que ela pedia mesmo — intimava — , era que eu fosse ficar uns
dias com ela. Mais tarde, na cozinha, quando fazia uma sopa de ossobuco com tutano
e legumes, pois estava me achando meio anêmico, amarelo opaco como uma papoula
murcha. E acrescentou: onde já se viu! Um filho abandonar a mãe por uma lam-
bisgóia dessas!... Ainda bem que a Luzia não estava por perto, senão a coisa ia ficar
vermelha. Pois quando pisam nas patas de uma gata como a Luzia, sem querer ela faz
leão morrer de cócegas só balançando o rabo em seu focinho.
Só com muito tato consegui apaziguar os ânimos de mamãe e fiz com que
Luzia batesse um papo ameno com ela. Depois de um longo monólogo da mamãe e
algumas vírgulas de Luzia, mamãe concordou que Luzia poderia ficar comigo em sua
casa. — desde que dormíssemos separados, Luzia no quarto dos fundos e eu no sofá.
Claro que concordamos; pois o que é a noite!, se não o manto do profano e o acalanto
da luxúria, bálsamo para o espírito e consolo da triste carne! Porém, também ditei
minha cláusula: que a nossa permanência seria só para elucidar e resolver o imbró-
glio. Marcamos para o outro final de semana.
Assim concordado assim feito. No final da semana seguinte fomos nós, eu
e a Luzia, de mala e cuia para a casa de mamãe. Do portão, já avistamos mamãe no
umbral da porta de faca peixeira atravessada na boca, em estado bélico, a nos esperar.
Das narinas, dois vulcões soltavam tufos de fumaça; das orelhas de abano o ouvido
trinavam apitos de trem fantasma; os olhos fumegavam labaredas de fogo em direção
à minissaia de Luzia e suas roliças e belas coxas de pelinhos dourados. Luzia, por sua
vez era só alegria, seu rosto era só luz de menina extasiada com as cores do jardim, a
pulular como mais uma borboleta a cheirar uma por uma as flores: margaridas, rosas,
copos-de-leite, jasmins, hortênsias, orquídeas... Uma menina tonta cheia de graça e
airosa elegância.
— Teria sido uma fada a semear tão encantador jardim?...
— Não, foi a mamãe mesmo quem as plantou. — perguntou Luzia, respondi
eu.
Como todo e sempre mamãe estava de mau humor. Por mais nítido esfor-
ço que fizesse para se mostrar agradável, era flagrante seu estado de sem sal e sem
açúcar. E para isso Luzia era craque. Fazia que não era com ela. Monta e desmonta a
cozinha, arria as panelas dos armários para fazer pipoca. Põe CDs no som, — os dela,
que trouxe — dança, canta. Mamãe resmunga uma coisa, Ela se faz entender com
outra incongruência qualquer e uma risada. E acrescenta:
— A senhora é muito engraçada!, gostaria que minha mãe fosse como a se-
nhora.
Mamãe por sua vez desembucha com toda empáfia que Deus lhe deu um mu-
xoxo:
— Te esconjuro!... — e fez com o polegar direito três cruzes: uma na testa,
outra na boca, a última no peito. E para persignar-se por completo, completou:
— Vade retro!... Livrai-me Deus, meu Senhor, de tamanha blasfêmia. Amém!
O sábado se foi, chegou a noite. Luzia aproveitou para desarrumar mais
um pouco a cozinha fazendo uns petiscos para acompanhar os filmes que havíamos
alugado, os quais seriam regados a vinho enquanto assistíssemos. Lá pelas tantas a
mamãe se pronunciou mais uma vez com seu péssimo humor.
— Vocês vieram aqui para vigiar a casa ou fazer festa? Desse jeito não vai
aparecer ninguém!
— Ah, a senhora quer que apareça alguém, hã!... — eu disse.
— Eu quero que você dê um fim nisso. — respondeu ela ainda mais raivosa.
Fomos dormir. Luzia no quarto dos fundos e eu no sofá. Tudo como fora
ditado pela eminência, sua senhoria, minha progenitora. Para em seguida ser desdito
por nós, segundo um bem bolado que armamos para o meio da noite logo após os
primeiros roncos da velha senhora. Lá fora a noite estava gélida e fustigada pelos
ventos.
Logo que os uivos da noite se fizeram ouvir através dos ventos soturnos,
nosso enrosco no sofá ressoou gemidos abafados. No telhado dava-se início o des-
vendar do esfíngico mistério.
Depressa nos desplugamos e nos posicionamos em nossos respectivos postos.
Ouvimos com grande atenção passo a passo os ruídos vindos de sobre o telhado. Eu e
Luzia de vassoura e rodo nas mãos, trepados em cima de cadeiras cutucando as telhas
de baixo para cima, dando início a um bulício genérico numa desesperada correria
por parte do famigerado “delinquente”. O suficiente para acabar com os roncos da
mamãe. Que, sem tino, corria de um lado para o outro dentro do quarto, ensande-
cida. Paramos. Demos um tempo a nossa primeira sessão de massacre. No entanto,
lá em cima, algo se debatia em polvorosa agitação. O que seria aquilo? Seria bicho?
Assombração? Ou, segundo mamãe, alguém interessado nela?
O pior de tudo isso foi quando a coisa acalmou e quietou-se, entra mamãe em
extrema ansiedade a acender as luzes da sala e num misto de constrangimento, cons-
ternação e estupefação, sem contar a contenção para não abrirmos uma escandalosa
gargalhada pela pura cena de nonsense em que eu e a Luzia exibíamos para a mamãe.
Pois, estávamos pelados, de vassoura e rodo nas mãos em cima das cadeiras, estáti-
cos e nus como manequins em sótão de loja. Mamãe, mumificada, paralisada; com
os olhos esbugalhados, dura e fria como estátua de cemitério. Todo seu pudor fora
afetado, desmoronara, queimara-se diante nossa indecência. No ímpeto, o primeiro
impulso foi taparmos nossas genitálias com a vassoura e o rodo. Inútil, ficamos mais
ridículos ainda. De tanto aperreamento deixamos a postura de manequins e passa-
mos a fazer mil piruetas numa estapafúrdia coreografia como se estivéssemos dan-
çando o samba do crioulo doido, na tentativa de ora esconder a bunda, ora esconder
o pau, eu; Luzia, os peitos e a xana. Em meio a esse estardalhaço mamãe correu para
a cozinha em estado de choque.
Quanto a nós, nos vestimos e fomos para fora da casa verificar in loco o des-
mascaramento do estrupício. Tudo quedado e tranquilo, só o farfalhar das folhas de
uma ameixeira soava no quintal quebrando a paz da serena madrugada.
Lá dentro da casa, o soluço escandaloso de mamãe quebrava o encanto da
noite dando um ar fantasmagórico ao misterioso clima de terror de filme de terceira
categoria. Só faltava cair um nariz, uma orelha ou uma mão do telhado. Mas não,
tudo acalmara mesmo, restava voltar para dentro de casa, arrumar uma boa desculpa
para tentar consolar a mamãe, dormir e esperar o domingo acordar e verificar o real
acontecido.
Entrei na casa com falta de ar e esbaforido, como se estivesse, como Hércu-
les, acabado de realizar um de seus doze trabalhos. Ou mesmo a cara do Davi após
a vitória sobre Golias. No mínimo, com cara de espanador quando acaba de tirar o
pó dos móveis, saciado. E, como um furacão, passei pela sala direto para a cozinha,
e falei em bom tom:
— Pronto... Tudo acabado! Acabou-se o mistério, o estorvo se mandou. —
mamãe tentou com a fala balbuciada, entrecortada por soluços de um falso choro,
perguntar:
— O que foi?... O que era?... (soluço)
— Isso eu não sei mamãe, o que sei é que o bicho ou qualquer que tenha sido
a coisa escafedeu-se... Sumiu.
— Eu não acredito!... (soluço) Não acredito!... (soluço) Quero só ver ama-
nhã... (soluço) Preciso ver pelo menos o rastro desse cão. — falou a mamãe mais
enfezada do que nunca.
— Não mamãe, o cão não era... No muito era um urso. Não passa disso, eu
garanto. — disse eu, enchendo-a de confiança.
— Vamos ver... (soluço) vamos ver. — completou ela em tom de sentença.
Acredito ter sido esta a fala a que desencadeou todo o processo dos aconte-
cidos daquele dia. E qual foi o significado disso tudo, o leitor há de me perguntar.
Muitos foram os tropeços que sofri em minha vida errante, entretanto nenhum tão
vil quanto aqueles presságios em que vivenciei aos quais faltou uma explicação derra-
deira que agora, você leitor exige. O destino é mesmo um grande tecelão dos nossos
infortúnios; no entanto, e de forma mais geral, costuma-se terminá-los contrariando
todas as leis da natureza da vida e com uma falta indecorosa de consideração para
com algum dos partícipes do enredo, da trajetória de nossas vidas. Acontece, porém,
que tenho cá comigo um trunfo para quando descreverem meus culpados atos, os
quais me isentarão dos prováveis remorsos e a inevitável condenação celeste.
Aqui eu vou dar um breque neste relato por um ou dois parágrafos para que
vocês leitores entendam no melhor sentido o título dado a este engodo ou embuste
em que me meti. Na verdade é uma confissão, que a priori peço não comecem por
julgar-me partindo do título. Pois, de cara serei taxativo. Não sou masoquista. Tam-
pouco assassino! Já cometi várias sandices, menos matar, isso não!
Contudo, como é de ciência, a alma humana sempre serviu de alojamento
para atos vis, tanto quanto aos nobres. Na ocasião dos fatos ocorridos afluía dos meus
sentidos a mais profunda e arraigada vontade do meu ser. Tudo o que é mais latente
em um criminoso se tornara em mim, inexorável. Nem um resquício, nenhuma fa-
gulha, uma atitude mínima de nobreza não acudiu a mim em socorro da vítima. Algo
muito estranho me consumia, possuía-me com uma força descomunal.
Foi assim que transcorreu aquela interminável meia hora, pela qual me
ocupara na manhã daquele fatídico domingo de maio. Todo o meu bom senso e bom
mocismo estavam degringolando como uma geléia escorrendo por entre os dedos.
Após estes profanos pensares sobre e alma humana pulei da obscena e im-
provisada cama numa ansiedade que aflorava os nervos. E, como um Sherlock Hol-
mes, saí a investigar os arredores da casa acompanhado de minha cara Sra. Watson
— era elementar — em busca de algumas pegadas, alguns galhos quebrados do rosei-
ral, com os quais mamãe orlava o caminho de pedra-seixo que cortava o jardim até
o portão de entrada. Quaisquer vestígios que fosse. Claro, não chegamos a uma total
perscrutação dos detalhes, pois nos faltavam à indispensável lupa e o imprescindível
pó de perlimpimpim. O cheiro de jasmim e damas-da-noite ainda impregnava o ar
que sobrara da noite serenada.
A aflitiva curiosidade aumentava a cada passo dado em sentido a alguma pis-
ta. Num estalo lembrei-me de um ocorrido na hora do furdunço da noite passada, no
corre-corre do telhado e nas estocadas das vassouras antes de acontecer o silêncio
total. Quando houve um baque e o barulho de algo que caia. “Um corpo que cai”.
Bendita lembrança acorreu-me Hitchcock! Estas pistas já eram por si só irrefutáveis
e evidências a toda prova. Mas onde?... Onde caíra esse corpo? Rodeamos a casa no
sentido das calhas, observando as laterais. Nada encontramos.
A situação estava ficando desesperadora quando Luzia, afastando-se um pou-
co de mim, aborrecida com minha lerdeza, foi fazer uma inspeção por conta própria
nas dependências da lavanderia. De repente um grito numa mistura de êxtase e his-
teria; era a Luzia completamente perplexa. Imóvel, com as mãos premindo as faces,
amassando o rosto. A fisionomia completava o olhar de pavor, cujo foco era um
balde plástico de cor roxa ao lado do tanque de roupa. Corri em seu socorro.
O fim daquele suplício e a minha salvação chegaram de onde menos espera-
va. Lá estava o motivo de tanta arenga. Dentro do balde agitava-se, usando todos os
recursos possíveis para escapar da armadilha da morte na qual houvera se metido.
— ou caído, melhor dizendo.
Um rato guabiru daqueles enormes, da espécie Rattus Rattus. Mesmo sem
pesar, pelo tamanho, daria para imaginar seu peso. Dois quilos, dois quilos e meio?
Não sei. A certeza que eu tinha era a de que ele cavara sua própria cova. Decretara sua
sentença. Debatidiço, lutava em centímetros cúbicos de água de sabão numa alucina-
da tentativa de fuga pela parede escorregadia do balde. Se ele escolhera sua forma de
morrer, não sei. Porém, eu dei o veredicto e decretei a sentença.
Só faltava executar a pena com os devidos critérios e requintes por mim es-
tabelecidos. E logo pus em prática. Aos poucos fui adicionando mais água com sabão
no balde enquanto assistia impassível o condenado se estrebuchar numa desesperada
contenda com a morte tentando galgar o plástico liso do fatídico recipiente. Nunca
tivera tendências para o sadismo, como já disse. Entretanto, naquele dia extrapo-
lei, saciei toda minha repugnância pela humanidade, pelos deuses, os semideuses,
os heróis, os ídolos, os santos, os anjos; e uma avidez de ir a Brasília matar todos os
políticos, ratos e vermes que por lá pululam; estavam todos impregnados na figura
daquele desinfeliz.
Naquele instante só restava uns poucos milímetros de focinho fora da água.
Acredito que o miserável já não enxergava nem uma pata além do focinho. Mesmo
assim, porque forçava as pontas das patas, dançando numa pirueta infernal o balé
da morte. Agora respirava o máximo que podia em agoniada subida à tona para em
seguida dar grandes golfadas de espuma de sabão. Quando o vi mergulhar em seu úl-
timo estertor de morte. As bolhas de sabão flutuaram e ele não mais emergiu. Diante
desse quadro, pincelado de crueldade, regozijei-me. Foi a glória!
É claro, fora um crime sem nenhuma vantagem, apenas o livrar-me de ma-
mãe e da aporrinhação de tê-la ao telefone ou na porta de minha casa com seu mór-
bido mau humor. O que havia, no entanto, de mais torpe em mim houvera se extin-
guido. Será!?...
Com esta espontânea e inquisitiva indagação investiguei minuciosamente
todos os recantos do meu espírito; e concluí que o pior estaria por vir. Pois o que
aflorou de minha impoluta alma foi uma exclamação de espanto e horror... Aquele
sórdido e medonho rato seria a mamãe? Meu Deus!...
Enfim se tratara de uma astuciosa trama matricida cheia de sofismas? Uma
elaborada trama, mas sem os erros típicos dos passionais?... E desse modo, premedi-
tada com esmerada arquitetura? Ao fim de tudo, do desfecho do hediondo e sórdido
crime, dormi com o delicioso carinho das garras aveludadas e o melodioso som do
rom rom de Luzia... E a incógnita.
112
NA PRAIA DO
OSSO DA BALEIA
Joaquim Lopes

Naquela altura, praticávamos geocaching, para tornar o exercício ciclista mais


motivador. Ir à procura das caixinhas escondidas em locais aprazíveis, ou só curiosos,
através da sua localização GPS, obrigava-nos a pedalar para chegar aos locais indica-
dos no respetivo site da Internet, mas sem a carga de exercício físico obrigatório que
o andar de bicicleta tinha tido até então. Isto, porque pedalávamos, quase diariamen-
te, uma dezena de quilómetros, não tanto pelo gosto, mas para manter alguma forma
física, aconselhável a um casal sexagenário.
Naqueles dias de férias, a nossa base era a Praia de Vieira de Leiria, uma loca-
lidade muito animada, em época de veraneio, mas que naquele meado de um setem-
bro invulgarmente nebuloso, mesmo para aquelas paragens litorais, perdera parte do
bulício habitual. No primeiro dia, fomos à procura de uma cache escondida junto ao
parque de campismo da Praia de Pedrogão. Era um pequeno tupperware com um bo-
neco pokemon e um caderninho minúsculo — coisa de miúdos. Assinámos: “Rolling
biker 56” — o meu nickname — e “Fiftie Agnes” — o da minha companheira Inês.
No dia seguinte, fomos para sul, para encontrar, junto ao farol de São Pedro
de Moel, num buraco da falésia em que pescadores amadores se empoleiram para
lançar as linhas ao mar, uma caixa de VHS com três florinhas secas e um pequeno
texto: «Este farol chamado “do Penedo da Saudade” foi construído no promontório
onde, segundo a lenda, a duquesa D. Juliana Máxima de Faro, dona destas terras,
vinha, através destas flores chamadas “Saudades” e que só aqui crescem, relembrar o
marido, mandado executar pelo rei D. João IV, no século XVII.» Assinámos também
o registo, conforme a norma.
No terceiro dia, rumámos a norte, para a zona da Lagoa da Ervedeira — zona
bonita e ainda arborizada, felizmente poupada aos grandes incêndios de 2017. Não
foi fácil encontrar a cache escondida num pinhal, uns quilómetros depois. Até aonde
a vista alcançava, a paisagem que acompanhava a ondulação arenosa do solo, era
um mar lúgubre de pinheiros queimados, com os seus braços negros e nus pedindo
clemência. Com eles, ardeu, provavelmente, a caixinha que procurávamos. Decidi-
mos que só podia ser um resíduo plástico calcinado que encontrámos no local que as
coordenadas GPS indicavam, junto a um tronco queimado. Como passava pouco das
três da tarde, resolvemos continuar para uma cache escondida na Praia do Osso da
Baleia, a uns doze quilómetros, segundo indicava o GPS.
Pedalar com um objetivo definido é bem mais fácil do que fazê-lo para cum-
prir um número de quilómetros definido. Como, além disso, as autarquias dotaram
toda aquela zona costeira de ciclovias ao longo das estradas principais, o nosso exer-
cício podia ser um passeio aprazível, apesar do céu nublado; infelizmente, o aspeto
desolador da paisagem acabrunhava-nos. Os pinheiros, já de si retorcidos por ação
dos ventos marítimos, assim reduzidos a troncos negros sugeriam formas espectrais
inquietantes. Pedalávamos calados, de olhos no ecrã de GPS, lançando olhares apre-
ensivos à multidão tétrica e torturada que nos envolvia.
Entretanto, lembrámo-nos do crime horrendo que aconteceu naquela mesma
praia há uns trinta anos, em que um tipo, aparentemente normal e integrado, matou
a mulher, a filha e mais cinco amigos com quem estava a confraternizar na praia. O
que fará alguém enlouquecer de um momento para o outro? Que transtorno mental
invadirá o cérebro de uma pessoa e a fará não reconhecer os seus próximos, ou, reco-
nhecendo-os, odiá-los ao ponto de os matar à machadada? Ainda que incomodados
com a evocação, decidimos que não havia, atualmente, nenhum motivo para evitar
aquela praia e falhar o nosso objetivo.
A Praia do Osso da Baleia não tem uma povoação associada, não tem um
restaurante nem um bar, nada. Pelos vistos, não passa daquela enorme extensão de
areia, na altura, nevoenta, apoiada por um pequeno parque de estacionamento, en-
tão, deserto. O GPS fez-nos subir a duna baixa que nos separava da praia e caminhar
uns trezentos metros para norte, mas nada havia ali, além de areia, naquela base de
duna a cem metros da água. No entanto, o localizador por satélite era claro: «Che-
gou ao seu destino!». Depois de uma inspeção mais atenta, descobri uma pequena
ponta negra a emergir da areia. Ali comecei a escavar com o canivete suíço, que anda
sempre comigo. Não tardou que embatesse em algo rígido, que retiniu. Parecia um
antigo frasco de compota ou de azeitonas e estava enterrado no que poderiam ter
sido os restos de uma fogueira. Olhámo-nos sem dizer nada, a apreensão no olhar.
O interior era visível e mostrava apenas o que parecia uma pequena placa
óssea. Abrimos o frasco e percebemos que a placa estava esgrafitada. Consegui ler:
«Nós que aqui estamos», de um lado e «por vós esperamos», do outro.
O choque destas palavras tão simples, mas tão simbólicas, que aparecem
escritas em cemitérios e “alminhas” um pouco por todo o país, foi brutal. Naquele
momento, por coincidência, correu uma brisa fria e pareceu-nos que o nevoeiro se
adensou. A Inês recuou dois ou três passos, o olhar em pânico. Eu larguei aqueles
objetos, como se queimassem, a tentar racionalizar. «Que raio! Quem teria feito uma
maldade destas? Brincadeira estúpida!»
— Quero ir-me embora — articulou, por fim, Inês.
— Estúpidos! — resmunguei eu, enquanto pegava no braço dela e nos enca-
minhávamos para a estrada.
Na parte sul da praia, avistámos a vaga imagem de um grupo de seis ou sete
pessoas, que pareciam sentadas e reunidas em círculo, talvez à volta do início de uma
fogueira. Não as tínhamos visto ao chegar, mas aquela visão de normalidade recon-
fortou-nos. Ver membros da nossa espécie num local inóspito transmite-nos um
sentimento de segurança, de solidariedade potencial. Passou-me pela cabeça, mo-
mentaneamente, a ideia de nos aquecermos um pouco, antes de partirmos, porque a
temperatura tinha caído fortemente. Uns metros andados, pareceu-nos que olhavam
para nós. Para quebrar o desconforto, acenei-lhes. Não responderam.
— Quero-me ir embora! — acentuou Inês.
— Tem calma!; está tudo bem — tentei eu sossegá-la, mas pouco convencido.
Nesse momento, levantaram-se dois ou três e começaram a dirigir-se para
nós.
— Calma! Não dês a entender que tens medo — disse eu, para travar a minha
parceira que apressara muito o passo.
Entretanto, calculava distâncias, apesar do nevoeiro cada vez mais cerrado.
Nós estaríamos a duzentos metros da passagem da duna, mais cinquenta até às bici-
cletas. Eles estariam a uns trezentos metros da passagem da duna. Com passo ligeiro
chegaríamos antes deles, sem problema. Alem disso, não tínhamos razões para temer
ameaças vindas deles. Era só uma questão de prudência. O homem pode ser a salva-
ção de outro homem, mas também pode ser a sua perdição. E, em locais ermos, uma
pequena diferença de força ou de número pode transformar os homens em predado-
res brutais. Impregnados de “selva”.
Nessa altura, levantou-se vento vindo de sul. Empurrava-os a eles e travava-
-nos a nós. Procurei conter o pânico, mas Inês já tentava correr, sem grande êxito.
Chegámos à passagem, quando os três desconhecidos, com os outros mais atrás, já
pareciam demasiado próximos, mas sem conseguirmos distinguir-lhes as feições.
Então, já gesticulavam e gritavam. Ou assim parecia, por causa do vento.
Corremos para as bicicletas e arrancámos, desvairados, Inês à frente e eu, sem
olhar para trás, concentrado na pedalada. Durante aqueles metros iniciais de inércia
da bicicleta, ouvi distintamente as pancadas dos pés deles, em corrida, mesmo atrás
de mim.
— Acelera, Inês — gritei, apavorado. — Se me apanharem, foge tu!
Eu sabia que lhe apetecia gritar e chorar, mas aguentou uma pedalada vigoro-
sa, durante centenas de metros, demonstrando um sangue-frio notável. Aos poucos,
para minha grande surpresa, as passadas pesadas dos nossos perseguidores deixaram
de se notar. Ouvia-se só o som soprado do vento nos troncos calcinados, a abafar
o ruído rastejante dos pneus no asfalto vermelho. Olhei, enfim, para trás, mas só
discerni o trilho deserto da ciclovia. Talvez uma hora depois, estávamos no quarto
do hotel.
Raramente voltámos a falar daquele anoitecer na Praia do Osso da Baleia.
Não sabemos o que vimos ou o que pensámos que vimos. Não faço ideia do que veria,
mas tenho para mim, que, se naqueles momentos iniciais da fuga me tivesse distraído
um momento a olhar para trás, não estaria aqui para contar.
115
DOCE VAMPIRESCA
Leonardo Angioletti

Névoa clara e gélida que corta o corpo como navalhas em garoa. No tempes-
tuoso momento por essa estrada não caminho à toa.
Na treva sombria um corvo negro me guia, coração arranhado pela impureza
do amor e a triste desilusão.
Caminhando como Adão, até o linear da escuridão. Dos ossos ao pó e das
cinzas ao fogo, a impiedade neutraliza o meu ego.
A maçã que levaste ao pecado não declina apenas minha alma ao relicário, a
mordida da tentação é traiçoeira assim como o prazer da carne passageira.

Seu instinto voraz que acerca o meu pescoço, “doce vampiresca”, talvez meu
alento não a apeteça. Tão obscuro quanto um poço, cega meus olhos e esgarça nas
rochas em volta o meu sangue.
Sedutora vampiresca, meu sangue não é o vinho que delicia sua sede e a cha-
ma de minha aura não é a luz do seu submundo.

Vampiresca, mesmo com a pele seca o meu sangue a alimenta, não deixe
pingar sequer uma gota destes dentes, ao roubar-lhe um beijo quero de volta minha
essência. Manjar manchado que derrama sobre sua saliência, me poupe da luxúria
pecaminosa que incendeia minha veemência.

Não fraquejo diante da morte, sou um velho conhecido do barqueiro Caron-


te. Se este meu sangue não for capaz de saciá-la, talvez o amor que nutre nas minhas
veias a façam se apaixonar. No caminho dos ímpios é inquestionável a avareza, mas
é indubitável a certeza de que a dor em seus braços me satisfaz.

Hades não condene minha alma, a linda vampiresca me acalma, estava na


boate quando me tornei a presa para o abate, sedução disfarçada de sensualidade
sepultaram minha razão com ociosidade, na penumbra da espelunca o seu vulto me
persegue, assim como seu cheiro que me atiça ao desejá-la.

Acalma-te, não me venha com este sorriso rasgado, jaz sua língua em sangue
injustiçado inundada, apara-te as unhas. O calafrio lascivo e corpóreo me leva ao
purgatório. Lamento “vampiresca” o amor doentio que sinto, enquanto suga minha
esperança em desalento.
Seus braços são um açoite em ranhura delicado, talvez este coração pulse
apaixonado, dama da noite e princesa da escuridão me transporte ao outro lado e que
o chicote da justiça me absolvam deste pecado.

Leve-me ao seu submundo, mesmo lá onde o sol não paira te darei os cam-
pos Elíseos. Minha bela vampiresca sua sina é de uma audaciosa menina, diante dos
trechos em chamas que ardem e queimam os meus ossos, flagelam incessantemente
as minhas entranhas.

Vampiresca pode chamar de inferno ou reino dos mortos, mas na terra con-
tigo é o meu lugar. Quando a viste nesta boate dançar, não imaginava que o meu
coração conseguiste arrebatar. Sua dança sensual que vieste o meu “Eu” a hipnotizar,
não se conteve diante da beleza áspera e sofredora ao me mordiscar.

Véu da lua ensanguentado míngue pela estrela ao seu lado, como levarei luz a
um lugar malfadado. Belíssima vampiresca não julgue minha alma e não leve minha
vida dentre os lábios, mesmo entre os sábios o amor não existe lógica ou explicação,
aprecie esta súplica até quando meu espírito partir.

Poupe minha vida, já vi diante dos teus olhos negros as portas do além, apesar
de sombrio ainda assim é mágico, quem dera foste alucinação, me entregar a esta
paixão fúnebre que me acalanta em um réquiem de cordas. Cesse a harpa melodioso
Orfeu, não emita o som da enganosa ilusão, pois ainda meu corpo não pereceu.

Veja a neve lá fora congelaste, assim como o teu semblante que desapareceste.
Faça-me um sepulcro de gelo, contemple minha existência por toda a sua imortali-
dade. Neste gelo que espelha em sua alma, não desanime, mesmo entre os esquecidos
a redenção é possível.

Devoradora vampiresca, como se não bastasse o sangue sugaste a trova da al-


vorada, não impeça os anjos querubins de cortejá-la, mesmo na sombra existe beleza.
Leve-me contigo ou me esqueça, até que neste frio o meu corpo compadeça. Retire o
sabor de sangue em sua boca, deixe-me adoçá-la com esses sentimentos, no labirinto
promíscuo a pelugem da noite ma acoberta.

Debruce sobre mim, não se desprenda, fique comigo, a eternidade é uma


criança assustada sem morada, de pesadelo ao sonho, afinal o que seria tudo isso.
Acorde meu querido Adão, sofreste uma alucinação. Impossível de acreditar tudo
parecia ser tão real igual ao seu rosto terno que vejo agora. Sorriste com delicadeza,
afastando-se com um riso e dentes afiados e avermelhados. Não foi um pesadelo de
amor, tão pouco um sonho de transcendência, obscureceu o tempo e linha tênue da
vida profanou.

Vampiresca, se por um vislumbre a eternidade a trouxeste, todo o sangue que


corre em minhas artérias o teria eternamente. Não quero a luz do mundo, mas sim
ao sombrio e estanho mundo no qual você me baniu, pois visceral é o amor que sinto
por você. Se não for para sempre, que seja por algumas horas, que este sangue em
meu coração possa bombear até a última gota capaz de lhe saciar.
118
OLHOS URBANOS
Marcelo Stoenescu

Alguém está sempre te olhando...


Percorro a cidade com olhos urbanos. Vejo pessoas, que como zumbis, vagam
de um lado para outro sem rumo. Presas ás suas vidas, procuram dar razão ao tempo
fazendo algo que não gostam ou não queiram. Meus olhos parecem enxergar como
um raio x o que pensam as pessoas. Meus olhos também parecem buscar algo além
de uma rua ou uma passagem para um edifício por um jardim. O outono deixava as
pessoas introspectivas, e o vento arrastava as folhas do chão até nossos olhos. O frio
cortava os olhos. Todos continuavam a andar a esmo. No outono é sempre assim...
Outro dia fui a uma livraria que vendia livros velhos. Um sebo. Não o do
Messias que é mais famoso. Fui a um sebo de livros caros. Os livros estão caros e
raros agora. Muitos podem ser impressos pela Internet. Alguns não existem mais.
Os escritores foram embora. Morreram e deixaram livros velhos e mofados. Muitos
com cheiro de fungos. Mas todos velhos e mofados. São apenas os livros que lem-
bram os autores. Velhos e mofados. Frios, como o vento de outono que corta meus
olhos.
As pessoas buscavam algo ou algum autor que não sabem ainda. Olhavam
títulos. Obras mofadas e tristes. Algumas em inglês e outras em espanhol. Capas
bonitas e embaladas com plástico e etiqueta. Não se pode abri-los, ou guardá-los no
mesmo lugar. Você tem que colocá-los em uma prateleira vazia. Só o livreiro pode
guardá-lo. Mas as pessoas olhavam os títulos como se vagassem no tempo de suas
memórias passadas. Procuravam algum autor qualquer. Pode ser do sexo masculino
ou feminino. Dei de cara com o livro da escritora Adelaide Carraro, proibida durante
muito tempo, pelo menos pelo meu pai e minha mãe. Mas tudo ficou para trás. Hoje
leio de tudo sem restrição.
Estou lendo Caio Fernando de Abreu, e a solidão o marcou muito tempo.
Neste ano, li uns 13 livros. Acredito que muita gente daquele sebo não leu nenhum.
Vagavam sem rumo, sem nada pra fazer. Mas os livros são nostálgicos. As pesso-
as andam vagando por aí como vampiros em busca de sangue. Vampiros estão na
moda. Livros e filmes estão por aí. Adolescentes leem e crianças também. Vampiros
vivem a noite em busca de sangue e novidades. Usam capas compridas e lentes de
contato vermelhas. Olhares profundos e místicos. Querem sangue de meninos e me-
ninas. Possuem uma hierarquia e alguns conseguem sobreviver pela manhã. Aguen-
tam o sol amarelo, mas não tão forte. São os filhos das trevas buscando algo para
passar o tempo. Mas servem a um senhor. Servem ao mestre. Encontram-se sempre
vagando e perambulando pelas praças e cantos obscuros. Pelas favelas e por sobre os
muros. Pelos becos e antros da terra. Por baixo da terra, com seus amigos gnomos.
Quando são mulheres, sugam toda a energia do homem além de seus bens. Quando
são homens, absorvem as mulheres deixando-as apaixonadas e loucas, comprando
presentes aos amantes e disponibilizando seus bens mortais. A cabeça desses mortais
parece virar. Seus encantos são fatais e sua sedução mortal. Estacas e cruzes de prata
não são eficientes. O tempo é outro e a cidade cresceu. Adaptaram-se para isso.
Falam línguas estranhas. São ousados e não tem medo. Quando querem uma
coisa vão atrás e não brincam em serviço. Matam por prazer de matar e bebem o
sangue.
Cada um com seu jeito especifico, sua gangue, seus métodos de agir. Usam
escopeta, 45, 765, Glock, 38, facas e ponteiras. São cruéis. A vida não significa nada
para eles. Ao contrario de nós. Eles são muitos e nós poucos. São mutantes e crescem
sem parar. Transformaram-se no que são. Vampiros da cidade em pleno outono.
Ouvimos falar deles lá nos confins da Transilvânia, quando ouvi meu pai falar
que brincava aos pés do castelo do conde. Dracul era o seu nome. Venerado hoje por
todos.
Costumava empalar seus oponentes como forma de castigo. Deixava-os san-
grando até a morte em frente o castelo ou pelo caminho. Era mal e bebia o sangue
dos oponentes.
O poder busca o poder através da crueldade e da astúcia de alguns perante os
outros. Quando presos, são violentos, agressivos e sagazes. Preferem a morte quando
acuados. Suas garras são longas. São feios, pois perdem a sua beleza e mostram a sua
verdadeira cara. Mutantes vampiros.
Na mesma época, em pleno Natal de Londres, algo intrigava os homens da
Scotland Yard. Mulheres prostitutas apareciam mortas e sem sangue. Apenas duas
marcas no pescoço em forma de furos davam a entender que foram sugadas. Todo
seu sangue vazou por ali e a hemorragia era certa e mortal. Diziam que um homem
de olhos vermelhos e dentes longos rondava pela noite de Londres. A polícia estava
em alerta. Mais mulheres prostitutas mortas e sem sangue. A polícia nada achava. Es-
tavam tontos. Parecia que o assassino tinha asas e voava assim que a polícia chegava.
Mas estavam á espreita. Faltava pouco para surpreenderem o assassino.
Era um fim de semana tranquilo. Bêbados e prostitutas por todos os lados.
Uma lua imensa e redonda iluminava o relógio que marcava 0 hora. A hora boa,
como dizem. Os homens bebiam nas tabernas e as prostitutas riam pelos cantos.
Num descuido, uma delas entrou em um beco bêbada. Descuidada a promíscua, pa-
rou para apertar o espartilho, donde seus seios fartos pulavam para fora. Uma som-
bra ela vira. Um homem grande então apareceu como que do nada, agarrando-a.
Tampou sua boca e travou os dentes em seu pescoço. A mulher grita e logo vários
policiais aparecem no beco.
Uma visão aterradora. Um homem de quase dois metros de altura com olhos
vermelhos e muito sangue na boca. Em seus braços, a prostituta quase morta, sem
sangue. Tiros e mais tiros e o homem cai. Preso, é espancado com cassetetes até
confessar seus crimes. É arrastado por toda Londres com méritos aos policiais da
Scotland Yard. Hoje vivem como seres mutantes, presos a tecnologias, presos em
seus mundos, em uma bolha pessoal, aguardando o outono passar, e o inverno gé-
lido chegar...
121
CHAMAS DA VIDA
Paulo Ismar Mota Florindo

João e Maria seguiam pela floresta de Notinville. Mesmo sem luar, a dupla
pressentia que já passava das tantas da madrugada. João, sacana, com mil e um pensa-
mentos, queria ser o lobo mau da Maria. Nas fantasias que desfilavam em sua cabeça,
imaginava Maria perguntando para que servia aquela boca enorme, aquele coração
grandão e aquela outra coisa maior ainda (coisa da cabeça pequena de João). Por sua
vez, Maria queria apenas chegar em casa depois da balada na taverna do João Gran-
dão. Naquela aldeia todo mundo se chamava João ou se chamava Maria. Era Maria
das Graças, Maria da Fé, Maria Faceira.... Esta que conduzia o João (João jurava que
conduzia Maria), se chamava Maria da Paquera. Eram tantas outras Marias, assim
como outros tantos Joãos.
Conversa vai, conversa vem, João tenta se aproximar um pouco mais de Ma-
ria da Paquera. Maria, pressentindo as intenções, grita:
— João Pequeno! Não vem que não tem. Conheço bem a tua fama. Vai tentar
algo com as tuas cabritas. Com esta aqui, tem que ter muito tutano nas canelas para
conseguir alguma coisa. Além do mais já é tarde e estou cansada. Me leva para casa
que já está de bom tamanho para ti, João PE QUE NO!
João, agora cabisbaixo xingou até a última geração de sua mãe por ter coloca-
do este nome em um ser tão grande... de espírito. Do alto de seu um metro e meio,
João Pequeno não aceitava sua condição de quase anão. Não que isso fizesse diferen-
ça, afinal de que valem centímetros a mais se o cara não se garante, pensava ele. E
assim, seguiu mata adentro conduzindo Maria da Paquera — ou sendo conduzido.
Maria da Paquera e João Pequeno tentavam em vão olhar por entre árvores e
arbustos, mas viam apenas o breu a sua frente. A lamparina de cobre, alimentada por
azeite e gordura animal iluminava menos de meia braça a frente dos dois. Poderia ser
pior, quando apenas velas serviam de lúmen. Agora eles tinham a lamparina, inova-
ção que chegara a pouco em Notinville.
Desde que o João da Luz se mudou para a aldeia e começou a fabricar lampari-
nas e fornecer combustível para alimentar as luminárias, a vida dos aldeões melhora-
ra consideravelmente, principalmente à noite. Inclusive a Taverna de onde voltavam
João e Maria, recebia mais clientes, devido à melhor iluminação do ambiente. Toda
a aldeia saudou a chegada do progresso, agradecendo ao João da Luz pela luminosa
novidade. Agradecimento à distância, diga-se, a bem da verdade. Conheciam o be-
nemérito apenas de nome. Ninguém nunca vira, nem de relance, o semblante do
homem das lamparinas.
Porém, naquela mata fechada, sem luar e com névoa, nem a melhor lampa-
rina de João da Luz era suficiente para iluminar decentemente o caminho trevoso.
A escuridão e a parca luz formavam sombras em cada passo avançado. Sombra, es-
curidão e caminho tortuoso despertam medos em qualquer ser, imaginem aos mais
medrosos. E medroso é uma palavra que define bem o João Pequeno. Mais medroso
ficou, depois que começou uma onda de desaparecimento de pessoas na aldeia. Este
fato também assustava João Pequeno, e muito.
João Pequeno, além de medroso, era adepto de uma boa teoria da conspira-
ção. Sempre que o assunto sumiço de gente vinha à tona, João Pequeno lembrava
que os desaparecimentos meio que coincidiam com a chegada de João da Luz à aldeia.
Maria não dava muita importância, dizendo que era lenda “aldeana” e coisa de quem
não tinha muito o que fazer. João Pequeno insistia na teoria conspiratória, acrescen-
tando fatos que aconteceram em outras aldeias do reino, relacionados a desapareci-
mentos nunca esclarecidos.
Na escuridão, além das sombras, se destacavam os dentes do João Pequeno
a arreganhar a bocarra para Maria na esperança vã de roubar um beijo. Mas Maria
da Paquera queria distância da boca do João Pequeno. Maria tinha pressa em sair
daquele labirinto de sombras e chegar o quanto antes em casa para descansar os pés.
Depois de bailar com quase a metade da população masculina da aldeia na Taverna
do João Grandão, seus membros inferiores acusavam o abuso físico sofrido no chão
batido da casa noturna.
Enquanto trilhava o caminho de casa, Maria da Paquera lembrava dos conse-
lhos de uma das suas amigas, Maria do Brilho, que sempre recomendava que a amiga
não deveria se entregar a qualquer João da aldeia. Se fosse para ficar com alguém que
fosse com o João da Grana. Afinal, ninguém tinha mais recursos na aldeia do que o
João da Grana. O pai dele era um grande madeireiro, derrubava boa parte da mata to-
dos os anos. Não existia casa no reino que não tivesse a marca do João Machado, pai
do João da Grana. O rapazote mais desejado pelas moçoilas da aldeia desfilava pelas
tavernas da redondeza cada semana em um cavalo novo. Não se sabe quantos cavalos
tinha o pai do João da Grana, mas estimava-se às dezenas, a maioria puros sangues.
Naquele instante, João queria ser um único neurônio de Maria para poder ler
as sinapses geradoras dos pensamentos da amiga, pois naquela caminhada o silêncio
de Maria só não era maior do que o medo que João Pequeno sentia na escuridão que
os engolia. Como Maria da Paquera bem sabia, João Pequeno só tinha de enorme o
medo do escuro. Mas, para tentar seduzir Maria da Paquera, João Pequeno se fazia de
corajoso. Todo borrado, quase tremendo de susto a cada estalar de graveto, manti-
nha a pose e seguia em frente. Altivo e viril como nunca fora, continuava sua segun-
da aventura épica na mata. A outra aventura aconteceu quando levou Maria da Fé
até a igreja local para rezar o terço. Daquela vez não se atreveu a tentar conquistar a
rapariga. Maria da Fé percorreu todo o percurso sem parar de rezar por um instante
sequer. Quem se atreveria a tentar pecar com a mais religiosa das mulheres da aldeia?
Diziam a boca pequena que o pai do primeiro filho da Maria da Fé era João Cristão,
o padre da aldeia. Nesta, o João Pequeno perdeu feio.
De repente o silêncio de ambos é quebrado por um uivo. João se agarra em
Maria. Maria rapidamente afasta João.
— O que tu tá pensando, João PE QUE NO? Já te disse pra não ter essas in-
timidades comigo!
Qual um cachorrinho com o rabo entre as pernas, João Pequeno assume sua
condição de medroso. Maria segue em silêncio. João nem tanto. O bater de dentes
acusa a sua covardia que se acentua no próximo uivo. João reúne todas as suas forças
no istmo de coragem que reside naquele templo do medo e se esforça sobremaneira
para não sair em desabalada carreira. Afinal, ter a Maria do seu lado, é melhor do que
seguir sozinho.
João e Maria continuam a jornada e outro uivo, ainda mais poderoso, faz João
Pequeno estremecer, empalidecer e travar as pernas. Maria o arrasta, o chamando
de covarde. Neste momento, João reconhece que perdera todas as esperanças com
Maria. O plano de se fazer de corajoso se foi com o último uivo. Agora, João Pequeno
queria apenas chegar na casa de Maria, entregar a encomenda e dar no pé para sua
casa que ficava a pouco mais de cinquenta braças da casa de Maria.
Apressam o passo e, além dos uivos, os dois ouvem barulho de madeira que-
brada, veem faíscas a iluminar a mata fechada e ainda mais uivos aterrorizantes.
— É o capeta! Sussurrou João, quase sem voz.
É o fim dos tempos, deve ser o demônio que veio me buscar. Ninguém man-
dou eu desejar a freira, pensou o João Pequeno. Tantos desejos libidinosos só podiam
dar nisso, continuou João com sua autoconfissão, enquanto tremia mais do que vara
verde de salso chorão.
João Pequeno usa do último resquício de coragem, toma a mão de Maria e
com voz sufocada pelo medo e quase inaudível, pede para ela correr junto com ele.
Neste momento até Maria da Paquera já está assustada e segue o amigo em direção
contrária de onde se ouvia o barulho de metal sendo arrastado e uivos.
Nesta fuga alucinada perdem o rumo das casas. Param numa encruzilhada.
No escuro, sem a lamparina que perderam na disparada, não conseguem identificar
nada familiar para poder escolher o rumo certo. Maria, já furiosa devido ao medo
insano do amigo, resolve de forma científica o caminho a seguir:
— Uni-du-ni-tê, o caminho escolhido é você. — Apontando com o dedo
indicador o destino escolhido, tomam o rumo desconhecido.
Já despontavam os primeiros reflexos do dia quando enxergaram uma tímida
luz ao fundo. Foram se aproximando de mansinho e notaram que era uma casa gran-
de com um galpão maior ainda, nos fundos. João Pequeno disse que a casa parecia
feita com doces. Maria beliscou o João e disse que isso era coisa de gordo, de glutão.
Conhecendo o amigo, completou dizendo que João estava tendo alucinações devido
à falta de comida, desde a noite anterior.
Aproximaram-se de mansinho, meio sestrosos. João foi direto bater na porta
para pedir ajuda ou informação sobre qual caminho a seguir. Maria, mais cautelosa,
pediu para o amigo não fazer isso. Disse ela que, primeiramente, deveriam dar uma
espiada no entorno para evitar alguma surpresa desagradável. João e Maria dão meia
volta na casa e chegam até ao galpão dos fundos. Para alcançar a janela João Pequeno
sobe em uma pilha de lenha, provavelmente fornecida pelo João Machado. Maria da
Paquera apenas estica os pés. João Pequeno sentiu mais uma estocada fatal no ego.
Espiam pela janela. Vislumbram um grande tanque aquecido por uma fornalha que
aparentemente derretia gordura. O cheiro que se dissipava pelas frestas da janela era
de gordura animal, segundo análise sensorial do João Pequeno, especialista em comi-
da. Maria Paquera, que usava mais o cérebro, do que o nariz, deduziu que a gordura
poderia ser usada nas lamparinas. Por aproximação, também chegou à conclusão que
aquela era a casa de João da Luz, o fabricante de lamparinas que abastecia a aldeia.
Pela quantidade de gordura nas tinas, deveria abastecer todo o reino. Maria pensou o
porquê de a fábrica estar situada em local tão isolado, e também qual seria o motivo
de ter escolhido Notinville para estabelecer a fábrica. Notinville era tão distante de
tudo.
Mal terminou suas conjecturas e alguém, sorrateiramente, chegou por trás
da dupla. Os dois se assustaram e rapidamente se viraram para ver quem era. Tudo
se apagou.
João Pequeno e Maria da Paquera acordam amarrados, cada um em um dos
pilares de sustentação do grande galpão. Próximo aos dois, a fornalha ardia em cen-
tenas de graus. Maria olha para João Pequeno que, olhos arregalados, não conseguia
falar. Maria passa a mão na cabeça e sente um galo sangrando. Olha para o João, vê
sangue escorrendo de sua face roliça.
Ao redor, veem uma pilha de ossos calcinados adornando o ambiente. Em
um armário improvisado, amontoados de vestes de gente simples confirmam que
muitos corpos já passaram por aquele tanque fumegante. Também podia-se ver uma
grande oficina de ferreiro, com chapas de bronze encostadas na parede de pedra. O
ambiente era quente, cheirando à graxa derretida no tanque e à fumaça que exalava
da forja ao lado.
João e Maria agora já pressentiam seu destino. Juntaram todas as evidências
e desvendaram o mistério. João Pequeno tinha até vontade de confrontar Maria da
Paquera e demonstrar que ele tinha razão, que não era mera teoria da conspiração.
Mas, para quê? Inflar o seu ego não resolveria nada. Resignou-se com a dor dos pul-
sos amarrados e a cabeça rachada. Maria da Paquera, só olhava ao redor e molhava
o rosto com as lágrimas de despedida. Uma vida pela frente e tudo terminaria ali,
naquele caldeirão do bruxo das lamparinas.
As divagações da dupla são interrompidas por passos arrastados de um ho-
mem de meia idade, cabelos grisalhos e aparência corpulenta.
— Oh! O que temos aqui, um baixinho gordinho e uma mocinha meio ma-
grinha. Humm... o nanico com certeza vai dar uma boa quantidade de graxa para
minhas lamparinas. E tu, mocinha, ainda se fosse bonita, vá lá, eu poderia querer
casar contigo, mas tu não fazes o meu tipo. Tu vais servir de comida para os meus
lobos que puxam o trenó que me conduz pela mata, noite adentro. Meus lobos não
são muito exigentes.
João da Luz se dirige à bancada de ferramentas bem organizada onde escolhe
a lâmina adequada para o serviço. Antes de começar a amolar o aço, em tom didático
explicou, apontando os baldes de azeite de oliva:
— As minhas lamparinas são um sucesso devido à estabilidade do combustí-
vel que forneço. Se a gente usar somente azeite de oliva, o óleo verte pelas frestas da
lamparina e cai no chão. Por isso, comecei a misturar graxa bovina que sobrava de
um açougue, mas tive dificuldade de abastecimento. O gordo do açougueiro não quis
mais fornecer com exclusividade a matéria-prima para mim.
Os primeiros raios de sol que entravam pela janela tingiam de prata a barba
grisalha e espessa de João da Luz, enquanto ele amolava com capricho sua lâmina de
corte. Emoldurado pela névoa nauseante das instalações, João da Luz confere o fio do
cutelo, que brilhava tanto quanto seus olhos amendoados. Virando-se para a dupla,
conclui seu relato:
— O João Carneiro, o açougueiro, foi meu primeiro fornecedor desta ótima
matéria-prima.
126
AMARÍLYS E SEUS
LOBISOMENS
Lorena Costa

Era noite de lua cheia, sexta-feira 13. Amarílis mais uma vez estava pronta
para seu trabalho noturno em uma casa de shows de sua cidade. Desde criança tinha
a voz afinada e bela, por isso, fazia cover das melhores bandas e cantores do mundo.
Morava em uma grande metrópole onde o comum nessas noites eram esses estabe-
lecimentos ficarem abarrotados de jovens.
O que sempre causava estranheza a todos era o fato de que a voz da moça
causava uma certa hipnose aos homens que a escutavam. Alguns tinham seus com-
portamentos totalmente alterados por causa de seu canto. O encantamento era tanto
que passavam a noite inteira a espera de uma chance de chegarem perto dela. A can-
tada que ela mais ouvia era “Seu canto parece de uma sereia, gata...” O pior sempre
vinha depois.
As noites de Amarílis sempre terminavam em um quarto de motel, ou até
mesmo dos hotéis mais baratos da cidade. Os rapazes para os quais ela servia de
companhia deixavam com que seus instintos mais selvagens transparecessem sem
nenhum pudor entre quatro paredes e a enlouqueciam de prazer, não faziam questão
do sexo seguro. Também não a poupavam de suas forças físicas e tomados por uma
ira inexplicável, a agrediam com bofetadas, mordidas e pontapés.
A moça, estranhamente, achava tudo muito normal e se divertia por noi-
tes inteiras. Porém, vivia a trocá-las por uma vida de dor e sofrimento onde via-se
obrigada a, frequentemente, utilizar de seus feitiços para expulsar de seu ventre uma
gravidez indesejada.

127 DEVORADOR
Wanderson Razoni


Em meio a remanescentes traços laranjas e rosas em uma extensão de faixa
azul pálido, a lua pisca do alto em minha direção para avisar que está a caminho.
“Será sua noite, meu bem”, transmite ela. O vento morno esfrega minha bochecha
pela janela do meu carro, que deixo David (David?) guiar até o lago, enquanto penso
na facilidade que é usar um aplicativo de relacionamento: basta criar uma conta e se
deparar com milhares de corpos deliciosos, quem sabe até achar um cara legal.

Por enquanto não aconteceu comigo, então desfruto.

Desde cedo, despertei e decidi saciar meus desejos, não poderia me permitir
passar outro sábado deprimido e sentindo a falta dele. Já fazem duas semanas que
descobri uma traição e acabei com ele. Segui em frente. No fim das contas, o tal de
David é legal, apesar de tentar avançar demais. Tem uma boca carnuda e uma pele
bronzeada cor de café que reluziu na luz do restaurante em que nos encontramos
mais cedo. Não me contive e em vários momentos me fixei em seu corpo, curvilíneo,
cintura e batatas grossas e um tronco saltado, um ursão. Além de bom de papo.

Achei difícil haver um encontro tão bom assim. O homenzarrão tem pra mais
de trinta e poucos anos, mostrou uma experiência muito vasta em diversas coisas,
com uma leve tendência a críticas e conversas sombrias. Não me importei mas fiquei
com uma pulga atrás da orelha.

Nos bancos de trás do Jeep, senti sua barba em meu pescoço, suas mãos es-
pessas rastejando pelo meu peito e meu quadril e sua boca densa abraçando a minha,
me acobertando e então deixei ir. Sua língua em meus dentes, seus lábios roçando em
meu olfato, saboroso... e, quase sem querer, o mordi. O gosto ferruginoso impreg-
nou meu paladar e ele gemeu pedindo pra parar. Me desculpei. “Tudo bem”, disse ele
e então, sorrindo, foi ao botão do meu jeans. JÁ?, pensei. Queria ir com calma e ir
ao parque para um passeio seria legal. Desde então ele enfiou os dedos sob o cós de
minha calça mas o contornei. Calma, grandalhão.

As árvores passam, mais rápidas e opacas à medida que chegamos ao destino e
me sinto um pouco mais ansioso. Ele me parece bem maior agora e, quando me olha,
sinto sua íris devorando meu corpo aos poucos, sinto seus olhos duros dentro de
minha roupa e a energia que seu corpo exala pesa em mim como se me acorrentando,
indefeso. Estava à procura disso hoje. Lado a lado, andamos em direção às águas ver-
de oliva do campo, mais íntimos e a conversa mais insinuante. Sinto certa excitação
quando ouço sua voz sendo projetada desses beiços e toco em seu braço, animado.
-Podemos só ser um pouco mais discretos? — disse ele.

Sério? Certo, então. Assinto mas, cara...SÉRIO?

Continuamos, os rastros de cor sobre nós se transmutando para o cobalto,
e vejo a lua ascendendo mais rápida, fulminando mais forte e moldando sombras.
Sombras distorcidas das árvores, sombras de movimento ao longe e acima, sombras
dos nossos corpos deslizando ao chão, seja nos cobrindo ou nos rodeando. Uma co-
ruja corta meus pensamentos e o lago aparece em nossa frente. Está quase deserto em
seu contorno, as árvores privando as visões de fora e de dentro. Quem não está no
lago, não nos vê. Percebo duas figuras ao longe, o som de um avião que cruza nossas
cabeças, um badalar de sinos ecoando e um ponto na água, em uma margem dupla
com baixos arbustos, esquecida pela luz da grande bola de prata. Ótimo.

Então pergunto:
-Vamos cair?
-Daqui a um minuto — responde, olhando fixamente para o lago — Estou
completando um pensamento.
-Faço parte dele? — olho bem furtivo em seus olhos.
-Claro que sim.
Começo a me despir e então o observo começar o ritual: ele tira sua camiseta
de algodão, com apenas uma mão, revelando suas costas grandes e peludas devagar.
Tira os sapatos, desabotoa a calça, abrindo o cinto com estranho prazer. Até que
estamos os dois ali, corpos seminus, sendo engolidos pela extensão líquida daquele
campo, agora quase negra.

Nadamos lentamente rumo ao portal intocado pela lua.

Na margem oposta, a uns mil passos (supondo que fosse possível caminhar
sobre as águas), vemos as figuras distraídas em um piquenique. O cenário parecia
perfeito para um rápido assassinato. Principalmente quando penso que a dupla está
suficientemente próxima para testemunhar um acidente e suficientemente distan-
te para não observar um crime; suficientemente próximos para ouvir um visitante
desesperado se debatendo e gritando por ajuda e suficientemente distantes para não
notar que o visitante, nada desesperado, estava prendendo o corpo do outro homem
debaixo d’água. Fácil. Porém, afasto o pensamento e ele se aproxima de mim.

Suas mãos já miram minhas costas e seu grosso aperto me segura pela cintura,
me envolve com os braços, puxando minha língua para enrolar na sua, então me dei-
xo amarrar. O fundo foge aos meus pés e a ele me agarro, sentindo a água fria defluir
por entre nossos braços, abaixo de minhas pernas. A mesma água que molha seu
sexo, molhando o meu, me tocando lá embaixo. Estamos úmidos, as cobras nas pon-
tas de meus dedos rojam em seu tronco, por seus gordos pomos, que quero lamber e
morder, por sua nuca firme, enquanto seu corpo luta de volta, agarrando meu cabelo
e bebendo da água que jorra de minha boca, beliscando meus músculos e apanhando
minha bunda, rasgando o único pano que ainda me cobria, com violência. Sinto-o
então chegar em meu ouvido, morder minha orelha com força, enfiar seu dedo entre
mim e dizer:

-Eu vou te foder todo.

Seu dedo está em mim e não há luz alguma além de raios prateados escapan-
do detrás de uma árvore ao longe, está escuro, não há vida agora que seja capaz de
impedir uma morte, não há som que traga segurança, bastava ficar para trás e ser
agarrado pelos tornozelos, puxados para o fundo, ingerindo um volume letal de lago,
sendo assistido sob a água, vazando terror, visto pelos olhos bem abertos da morte.
Seu dedo está em mim e a raiva me toma. Um babaca baixo está com o dedo em mim
e quer ME FODER. Finalmente, não mais me reprimo:

-Mesmo? Meu ex disse a mesma coisa.

Imerjo e torço seu cotovelo pra trás, puxo seu tornozelos enquanto o vejo
engolir o lago em seus pulmões, se debatendo, escorrendo horror de seus olhos vi-
drados, surpresos com a aparição de afiadas serras em meu sorriso, como vislumbro
a cada escroto com quem topo, abismados com tais presas dilacerando seus membros
e mastigando sua carne, até que cravo minhas garras em sua gostosa barriga e já me
sou por completo, com as duas mãos em seu estômago, tocando suas vísceras, vendo
sua boca se esticar, soprando um grito afogado e se preenchendo com mais líquido,
pobre homem. Esfarrapo minha caça, cedendo à criatura que me habita sem arrepen-
dimento, sentindo o gosto tão familiar. Seu corpo cessa devagar e me divirto; per-
corro sua pelo e o arranho esperando o término de seu ciclo para então me deliciar
finalmente de seu coração, sepultando meus dentes em seu peito e sentindo o calor
do fluido rubro que se esvai como fitas flutuantes ao meu redor, se enroscando em
meu corpo. Ponho o dedo de sua mão, que antes estava entre meu corpo, em minha
boca, passo a língua e fecho um corte até ouvir um CRAC e finalizo meu lanche.

Imagino os próximos instantes de desespero, seu corpo boiando na água en-
quanto grito assustado a procura de ajuda, e já sei de cor. Dou início, satisfeito:

-Socorro!!!



130 HÁ ALGO NAS
GALERIAS
Yuri Gonçalves

Ah, cara, por que eu? Por que eu?! Isso não é mais o caminho certo a se fazer,
definitivamente não. Por que não ir por cima? É só ir se esgueirando, ou ir de noite…
E, até porque, ser preso e melhor que ser esquartejado! Querem me matar, só pode;
querem me matar. Parece que isso não importa pra eles — morreu, morreu; tanto
faz, devem pensar. Mas isso é péssimo, péssimo. Vai dar tudo certo, eu tenho certeza;
vai dar tudo certo. Só são algumas galerias, nada demais. O esgoto não é tão grande
assim — e eu o conheço bem, muito bem; aposto que melhor que o psicopata que
está se escondendo por aí. Vai dar tudo certo.
— Dré? Está aí, rapaz? — bateu à porta um qualquer.
Deve ser o Dáblio. Desgraçado seja você, Dáblio. Se não tivesse ficado doen-
te, quem iria pra esse suicídio seria você. Mas sua hora vai chegar, você sabe disso.
Esse buraco imundo, essa vida desprezível; lugar infernal, que eu morra, mesmo.
Não, isso deve resolver. O doce injetar da agulha; oh, sim, sim, isso deve resolver. É
um mundo belo aqui. Não há o que temer, naturalmente. Dáblio está à porta, devo
atendê-lo.
— Dré, é bom te ver bem. Viu, não foi por mal, tá? Só caiu mal, faz parte.
Você consegue. Aliás, o Caverna falou que vai mandar um outro moleque contigo,
pro caso do psicopata aparecer; ele recomendou que, pelo menos, um de vocês tem
que sobreviver pra contar a história.
Caverna, o “chefe” do nosso setor. Setor D, um dos oito submundos sob a ci-
dade de Drama, todos nas galerias do esgoto da capital pulsante. Caverna é o melhor
errante que já trabalhou nesses túneis; o nome é pela sua capacidade de armazenar
drogas em todo quanto é orifício. Pra quem vive no esgoto, produto armazenado em
certas cavidades pouco incomoda na hora do consumo. Então um moleque vai me
acompanhar. Pergunto-me quem é. Moleque imbecil, claramente quer se mostrar
pros superiores; como se isso funcionasse num lugar como esse, que ninguém real-
mente se importa com ninguém.
— Ah, e Dré, o Caverna vetou o uso de qualquer coisa na viagem, certo? Você
e o garoto irão ter que ir sóbrios; se forem drogados, claramente vão alucinar com
as histórias do psicopata. Vá ao Magia, o moleque e o produto estão esperando você
lá; vão dar um jeito em vocês. É isso. Boa sorte, camarada. Pelo que soube, você trará
umas novas coisinhas pra nós lá do B; ansiamos todos por isso. Até lá.
Claramente querem acabar com essa empreitada. Sem uso de nada? Talvez
o Caverna tenha colocado o cérebro no mesmo lugar das drogas e esqueceu lá. Isso
não vai dar certo. Vai ser muito pior sem. Mas, enfim, paciência. O desgraçado é tão
meticuloso que deixou a produção com o moleque, só pra eu ter que ir no Magia.
Paciência, Dré; paciência. Vamos lá, então.
Se tinha alguém que entendia de psicoativo nesse buraco, esse cara era o
Magia. Provavelmente o mais viciado do nosso setor, ele também era o cara das puri-
ficações, retirava qualquer resquício dos produtos do nosso mundo. Magia, pelo que
dizem, jamais dormia, e estava sempre com os olhos saltando pra fora das órbitas. De
fala acelerada, ele murmurava um monte de palavras perdidas enquanto retirava o
paciente da sua “zona”; era um completo lunático. Sua cabine era famosa no setor, e
sua opinião tinha grande peso nas decisões do Caverna; era um dos mais influentes
membros de nossa sociedade. Com sorte, eu conseguiria convencê-lo a me deixar
levar umas duas seringas, pelo menos pra minha proteção. Aqui estávamos, então,
no Magia. Pedi pro moleque chorar uma seringuinha pra nós. O Magia chegou.
— Dré, Dré, Dré! Menino, rapaz! Bom te ver, bom te ver. O Caverna falou,
então tá falado: sem nada, meu amigo, sem nada! Venha aqui, já! Teu menino já está
limpinho e pronto pra te acompanhar; o produto está na mochila, o “Cav” preparou
tudo já, é só levar. Setor B! Anos que não piso nesse lugar, deve ser o mesmo infer-
ninho dantes; oh, como eram bom os pózinhos mágicos de lá! Venha, venha. Vamos
limpá-lo. Sim, calma. Um, dois. Lua, capricórnio, Saturno, robótica, xamanismo e
cartão-ponto! Restaurantes e liquidações; estacionamentos subcutâneos; pigmenta-
ção superior à pele. Dermatologista! Desgraça, saia daqui! Saia, vamos. Vocês dois,
sumam daqui, sumam daqui!
— Mas, Magia, espere, espere! Tem um assassino lá fora, você precisa nos dar
alguma coisa pra nos protegermos. — disse o garoto, esperto garoto.
— Ora, seu moleque! Peça ao Caverna, isso não é problema meu! Sumam,
vamos, xispa! Desgraçados, drogados; viciados! Cadê minha seringa, cadê?! Dré, seu
vagabundo imundo, devolva minha seringa, devolva!
Eu não sairia do setor sem alguma coisa; não, não, era impossível sobreviver
sem ela! O Caverna que me surre depois, mas eu prefiro ser punido a ser esquarte-
jado. Sim, sim! Vamos, moleque desgraçado, corra também! Vamos sair daqui antes
que chamem aqueles bugios brutamontes pra nos pegar; por que não enviam eles,
desgraçados?! Desgraça, desgraça. Agora estamos aqui, meio ao inferno desse esgoto.
— Ei, garoto. O que você sabe fazer? Por que está aqui comigo? Por que não
ficou e ajudou o Magia? Por que não me parou? Por que não fala? Por que está me
olhando com essa desconfiança toda? Por que está com medo? Fala, garoto, fala!
— Calma, Dré. Eu só quero ajudar. Caverna pediu, eu aceitei. Sou novo aqui,
preciso criar meu nome. Pode me chamar de Épi, sou filho de um errante do setor A,
aquele que morreu recentemente, vítima do assassino. É um dos motivos pra eu vir:
se eu encontrar esse doente, farei ele se arrepender por ter matado meu pai.
— E você ficou sabendo da história por inteiro? Você ficou sabendo? Garoto,
você não sabe de nada! Você não sabe, não sabe! Era loucura. Loucura. Ouvi dos
errantes do setor A que conheciam teu pai. Era uma loucura.
— Ouvi, mas não sei se é a mesma história. Cada um conta uma coisa. Se
importaria de me contar enquanto viajamos?
— Você não quereria saber, mas eu vou te contar mesmo assim. Vou te con-
tar porque você precisa saber da enrascada que se meteu, garoto idiota, ingênuo! Teu
pai foi morto, seu imbecil, e você também vai ser! E eu... Eu também! Não, não...
Não posso…
— Calma, Dré. Todo dia gente de todos os setores viajam por essas galerias;
seria muito azar o assassino atacar logo a gente. Conte-me a história.
— Menino, você… Tudo começou no setor A, você sabe: seu pai. Ele foi in-
cumbido de levar produtos para o setor G, um muito longe, mas em momento algum
reclamou. Rumores dizem que ele caminhava por estes corredores tristes, com esse
rolar das águas, essas goteiras, fazendo seu sapato bater contra o concreto maciço e,
eventualmente, das grades que servem como pontes sobre certos canais. Ele andava,
andava sem pensar muito, apenas rumando ao seu destino e, eventualmente, come-
çou a ouvir mais que um andarilho. É natural, como você percebe, que nossos passos
ecoem, mas ele sabia que aquilo não era mero eco. Ele começou a acelerar o passo e
seus sentidos se apuraram. O barulho das águas se tornou mais intenso, as goteiras
pareciam perseguí-lo e os passos pareciam se aproximar. Cada esquina que dobrava,
temia encontrar pela frente o psicopata que já havia feito duas vítimas até então; ele
sabia da existência, mas não da história completa. Tudo se dá em uma sequência, pri-
meiro três pedras são arremessadas no canal, de uma entrada oculta, quicando sobre
as águas. Depois, três batidas distantes, do que parecer ser uma clava ou um pedaço
de pau qualquer. E, então, um assobio, um assobio monótono, um constante; um
alarme. A próxima esquina que você virar, ele estará lá, pronto para te picar ao meio
e consumir tudo o que você carrega. Foi assim com ele. Com os sentidos apurados,
viu como as pedras quicaram sobre a superfície aquosa e foram parar perto de seus
pés, ele achou estranho, julgou ser algum bandido, não o assassino; ninguém quer
que seja o assassino. Depois, as três batidas. Era algum ferreiro de algum setor, só
poderia ser, pensava ele; o assassino não poderia ser, por que anunciaria sua vinda?
Então o assobio. Parecia o vento. A goteira continuava, os passos ecoavam, normal-
mente; normalmente até o virar da próxima esquina. O assassino estava lá, armado
com um porrete, pronto para espancá-lo até a morte, quiçá fazendo usos indevidos
do instrumento que portava, da maneira que apenas o Caverna poderia suportar. O
terror começaria ali, e a morte era iminente.
— E você acredita nisso mesmo, Dré? Como foi assim, se ele morreu? — dis-
se, após se agachar, pegar três pedrinhas e jogar no canal.
— Você é idiota, garoto? Por que está fazendo isso? É óbvio que não acredito,
mas pode ter sido exatamente isso; nem eu nem você sabe. E de onde você arranjou
essa ripa, rapaz?
— Vamos colocar a prova. Se for isso mesmo, o assassino deve aparecer. —
disse, batendo com o pedaço de madeira nas grades. — Se ele aparecer, estamos em
dois, vamos pegá-lo.
— Pare, pare com isso agora! Não é coisa que se brinque. Pare agora! Meu
senhor, cadê a seringa, cadê a seringa?! Aqui. Tome, moleque, acalma-te.
— Dré. Você está ouvindo? Me sinto bem, agora. Meu pai vai ser vingado.
Sei disso. Onde está meu pai?
— Ouvindo o quê, cara? Para com isso, já disse. Está bem agora, vamos con-
tinuar a caminhada. Pare de assobiar, pelo amor de deus!
— Não sou eu, Dré.
Estávamos parados e, ainda assim, os ecos de passadas continuavam, alguém
não havia parado. Não era nem eu nem ele, o garoto. O assobio se aproximou. Olha-
va para os dois lados, buscando a origem do ruído. Então um vulto. Um porrete des-
ceu dos céus na cabeça do moleque, pulverizando-a. Banhado em sangue, o mesmo
porrete buscou meu peito, empurrando-me no canal, jogando-me na água turva,
infestada de tudo o que de pior saía daquilo que é orgânico. Um braço me alcançou.
Eu me afogava. O que era pior, morrer ou ser esquartejado? Me debatia pra ver se a
mão me soltava, mas ela era forte demais. Fui tirado pra fora da água. Lá estava ele,
o psicopata.
— Pobres criaturas do submundo, mal podem resistir a força de um homem
da superfície. Degenerados. A que ponto chegaram, não é? Mas sua sociedade sofrerá
e sucumbirá, pois nesse labirinto eu sou o novo minotauro, e o terror é meu maior
aliado. Venha, vamos descobrir se os sujeitos sob a asa do Caverna possuem a mesma
capacidade dele.
E o porrete encontrou seu caminho por dentro de mim. Esse não é o cami-
nho mais certo a se fazer, definitivamente não. Por que não ir por cima?… Por que
eu?
134 O HOMEM DA
CAPA ESCURA
Lucas Santos

Sou uma pessoa muito incrédula, mais o fato que irei relatar nestas linhas,
aconteceu comigo, não tem muito tempo. Até hoje me arrepia quando conto esta
história.
Era meados de novembro, vésperas de finados, ou simplesmente “día de los
muertos”. Venho de uma família bastante religiosa, devota ao cristianismo. Assim
como era de costume em minha casa, todos os anos em novembro no dia de finados
nos vestiam de preto, comprávamos rosas, e rumava para o cemitério para um dia de
celebração e penitência com os parentes já falecidos.
Pra dizer a verdade nunca gostei desta prática, mas como era uma tradição
de família, lá íamos nós, todos os anos para o cemitério. E acima de tudo não queria
contrariar minha mãe.
Aconteceu que, os anos; passou, e me tornei moço, continuamos a percorreu
os dias de finados como tradição de família.
Uma semana antes do dia de finados, sabia eu que estava começando uma
semana de rituais e costumes, pra dizer a verdade já estava mais do que acostumado
com tudo aquilo. Aconteceu que uns dias antes do dia de finados; estava eu voltado
do meu trabalho, quanto me deparei com um sujeito, alto, chapéu por sobe a cabeça,
e um sobre tudo escuro cobrindo todo o seu corpo atlético.
Como trabalhava em outra cidade, tinha que viajar cerca de 40 km todos os
dias, acabava por chegar em casa na boca da noite.
Voltando com meu carro, deparei com este estranho sujeito a beira pista.
Fiquei com dó do sujeito e parei meu carro junto à linha do asfalto. O sujeito disse
que estava indo para a mesma cidade que eu, e se por ventura podia eu lhe dar uma
carona. Pra mim não tinha nenhum problema.
O homem da capa escura entrou em meu carro, e dali seguimos viagem. Não
era muito de conversa, falava pouco, estava a reluzir em seus pensamentos. Pergun-
tei o seu nome, que vez questão de me dizer. Perguntei também sobre sua profissão,
que me disse que era comprador de gado, mexia com retiro, era casado e tinha uma
filha, que deveria ter minha idade, disse ele.
Mesmo muito calado, era um homem carismático, sorriso no rosto, um olhar
sereno, um boa praça. Quanto, chegamos ao trevo, contornei a pequena avenida que
subia e dava entrada para cidade. Logo acima ficava um posto de gasolina, a garagem
da prefeitura, o cemitério e a cooperativa de cafeicultores.
Naquela ocasião perguntei onde o homem morava, ele sorriu e me disse que
estava morando perto da cooperativa. Na rotatória que dava acesso ao pátio da coo-
perativa ele pediu para eu parar o carro, pois ali estava bem perto de sua casa.
Encostei meu carro e o homem desceu rapidamente, me abriu um sorriso e
me agradeceu abertamente. Fiquei ate mesmo muito lisonjeado. Despedimos e cada
um tomou o devido rumo.
Aconteceu que nos dias seguintes encontrei com este estranho homem nova-
mente, isso aconteceu ate na ante véspera do dia de finados. Como era fim de semana
e o dia de finados caia no domingo, na sexta feira foi o último dia que dei carona para
o estranho homem da capa escura.
Domingo de manhã como sempre acontecia em minha casa; arrumamos; co-
locamos nossa melhor roupa preta, e partimos para o cemitério, em penitência, em
visitação para com “los muertos’.
Não era o melhor passeio pra falar a verdade, se não fizéssemos, acharia mui-
to melhor.
Na praça do cemitério, junto à praça da cooperativa, assim que chegamos, já
tinha um grande número de pessoas aglomerados. Barraquinhas com pessoas ven-
dendo flores se viam aos montes. Era um ótimo negócio pra época. Minha mãe não
hesitou e comprou alguns vasos de flores.
Ali, era como uma festa de reencontro. Parentes que passávamos anos sem se
verem, estavam todos ali. Com a única missão; celebrar “los muertos”. Uma pratica
estranha, pra minha pessoa. Acho que deveríamos adorar os vivos, não “los Muer-
tos”.
Conversa vai, conversa vem, juntamos as famílias, e adentramos ao cemité-
rio. Percorrendo os corredores estreitos e apertados, cercado por diferentes lápides,
de diferentes tamanhos, e túmulos de todas as espécies, tamanho e forma. Pessoas
tinham aos montes, de todo quanto é jeito.
Ali rodeado de inúmeras pessoas, uma cena chamou muito minha atenção;
na ala leste bem ao fundo, vi uma lápide, de ardósia, com uma pequena capelinha em
seu jazigo, mais não foi isso que chamou minha atenção. O que realmente me deixou
pasmado, foi que em cima da pequena capelinha avia um sujeito sentado, de costas,
contemplando o infinito, não dava para percebe sua fisionomia. Com tudo o largo
chapéu e a longa capa escura, era inconfundível, lá estava o sujeito que dias atrás
encontrei parado rente ao asfalto, e dei carona para ele.
O que me deixou encabulado, foi do porque, que ele estava sentado em cima
de uma lápide, não era muito devoto das praticas religiosas, mais acho que ali, os
túmulos merecem um pouco de respeito.
Estava tão distraído que nem percebi minha mãe pegando minha mão e cha-
mando para nossa primeira parada, o túmulo de meu avô. Mas a cena ao fundo cha-
mava muito minha atenção. Aproximei do túmulo de meu avô e deixei um pequeno
vasinho de flores, pedi licença para minha mãe e familiares, dizendo que tinha que
me ausentar por alguns minutos, tinha que tirar aquela história a limpo.
Por ter uma grande concentração de pessoas no cemitério, tive um pouco de
dificuldade para alcançar meu objetivo, mais quanto aproximei o homem já não es-
tava mais lá, tinha sumido. Fiquei impressionado, e o procurei por toda a parte, não
o encontrei em meia a multidão.
No túmulo que ele estava sentado, vi uma senhora, que não passava dos 40, e
uma jovem que não chegava aos 20. Estavam, abraçadas de frente a lápide de ardósia,
a mesma aonde virá o homem da capa escura.
Aproximei a passos lentos, e um fato me chamou muita minha atenção; e fez
com que meus cabelos arrepiassem, e minha alma congelasse. Junto à pequena cape-
la, uma foto, me deixou atordoado, ali estava enterrado o mesmo homem que dias
atrás andei dando lhe carona.
Aproximei da mulher e da jovem, descobri que a mulher era a esposa do ho-
mem, e a menina sua filha. E que aquele homem já tinha morrido fazia sete longos
anos.
Naquele momento perdi o chão, fiquei sem palavras, sem reação; ainda mais
quanto descobri que ele tinha sido morto quanto voltava do trabalho, na mesma
encruzilhada que dava aceso ao asfalto onde eu o pegara.
Não sei bem o que significa tudo isso, o fato que depois daquele acontecimen-
to, comecei a respeitar mais “los muertos”. Nunca mais vi o sujeito da capa escura,
mais ouvi histórias, histórias de pessoas que encontraram com ele, assim como eu o
encontrei.
Dizem que quanto se esta só, e com pensamentos triviais, passando pela
BR491 ainda é possível se deparar com o estranho sujeito da capa escura.
Dizem por ai que ele ainda esta por lá.
Bom! Eu nunca mais o vi. Mais ainda me causa arrepios, toda vez que men-
ciono este conto.

FIM
137
OS INVISÍVEIS
DONOS DO PODER
Tiago Ducatti

_ Estas foram as notícias do Estado. _ anuncia a voz do rádio _ agora meio


dia e vinte e cinco. _ encerrava a voz aveludada e tranquila, enquanto uma vinheta
jazzística preenchia musicalmente o fundo do programa.
O som do carro não estava alto, era o suficiente para que o elegante condutor
pudesse ouvir. O homem trajava um terno de marca, uma camisa bem passada, com
a gola envolvida por uma gravata comprada nos últimos meses. O calor da cidade não
era capaz de causar mal-estar ou desconforto algum, afinal, o ar-condicionado ligado
era quase capaz de competir com o volume vindo das caixas de som.
Algum desavisado poderia se equivocar facilmente ao ver o elegante senhor,
e dizer que ele estava a caminho de seu local de trabalho. Contudo, somente um tolo
não perceberia o olhar de satisfação que trazia, um olhar que apenas um homem que
já encerrou seus deveres laborais poderia estampar. Especialmente por essa razão, ele
dirigia tranquilo o carro sedã, sem pressa alguma de chegar a sua moradia.
Tomado pela morosidade o condutor não fez questão de ultrapassar o semá-
foro próximo, observou com tranquilidade enquanto passava do verde ao amarelo,
e, já desacelerando o carro, ao vermelho. Parou. Manteve sua atenção na rádio por
alguns minutos, mas logo alguns jovens que atravessavam a faixa lhe chamaram a
atenção.
“Nossa!”, pensou o senhor. “Juro que esses garotos estão vindo para cá cada
vez mais malvestidos. Aquele ali, então, barba por fazer, camiseta repleta de dese-
nhos... Tampouco sabe se portar, como sacode os braços!”, pensava julgando dura-
mente os jovens que atravessavam para entrar no prédio que há pouco havia saído.
Antes que os rapazes terminassem de atravessar a faixa, o que fora menos
criticado mentalmente pelo condutor olhou para o carro. No exato momento em
que o senhor pensou ter feito contato visual com o pedestre, ele sentiu seu coração
palpitando, sua visão enturveceu, foi como se todos seus sentidos tivessem desligado
completamente.
Pouco depois o condutor do veículo recobrava a consciência:
“Que foi que aconteceu?”, pensava, enquanto a visão clareava e olhava para as
paredes de uma sala, que lhe parecia familiar, e que estava repleta de estantes. “Que
lugar é esse? Por quê não estou no meu carro? O que aconteceu com meu terno?”,
surpreendeu-se ao reparar que não mais trajava o terno garboso. Olhou para suas
mãos e viu apenas uma camisa listrada cobrindo-lhe os braços, no pulso não havia
mais o relógio que custava algumas centenas de reais, as pernas estavam cobertas
por uma calça cinza bastante puída, e os sapatos gastos não haviam visto o brilho da
graxa em algum tempo.
_ Ô garoto! _ uma voz esquecida, mas que soava habitual, surpreendeu ao
homem _ agora que você assinou a frequência, vê se não enrola pra entrar na sua
sala, fiquei sabendo que seu chefe está aí, não vai querer que ele ache que você está
perdendo tempo com prosa né? _ indagou um senhor se aproximando.
_ Seu Divino!? _ o tom de surpresa não poderia ter sido maior.
_ Vamos trabalhar menino! _ disse o senhor colocando-o para fora da saleta
cheia de estantes.
“Não pode ser! Seu Divino?!? Seu Divino faleceu! Lembro que foi motivo de
luto e honrarias...”, pensava se escorando no outro lado da porta pela qual acabara de
ser expulso, suas pernas bambearam e ele estremecia perplexo com toda essa situa-
ção. Toda sorte de ideias coabitava sua cabeça naquele momento, quanto mais pensa-
mentos emergiam mais acelerada ficava sua respiração. Temendo qualquer forma de
colapso, centrou sua atenção em algo que pudesse lhe acalmar, avistou um banheiro e
foi em busca de refrescar sua cabeça, como se seu cérebro fosse uma máquina à vapor
suscetível de melhorar seu desempenho mediante alguma forma de resfriamento.
A sua expectativa se frustrou logo que abriu a porta do banheiro, as ideais
e pensamentos foram interrompidos, junto com a total paralisia que o atingiu ao
avistar o espelho. Via seu reflexo incrédulo, era ele mesmo, no entanto, trazia sua
aparência de quando possuía uns vinte e poucos anos de idade. A barriga que havia
conseguido com os anos não estava mais lá. O cabelo que, geneticamente havia cedi-
do parte da cabeça ao nada, havia regressado. Os pesados óculos que habitualmente
não saíam do rosto não eram mais necessários. O agora jovem, enfrentando o espan-
to, começou a se estudar, olhava para o rosto sem rugas, para o corpo jovial, e tudo
que pode considerar foi: “Isso não pode ser real!”.
_ Você tá bem menino? _ disse Seu Divino, que adentrava o lavabo _ Por quê
que você está parado aí até agora?
_ Estou sim, eu só ia... jogar uma água no rosto pra acordar um pouco, mas
já vou para a sala. _ respondeu desculpando-se após a nova surpresa do funcionário
mais velho.
_ Vamos lá rapaz, já te falei que o chefe tá aí, você tem que causar uma boa
impressão, acho que tem boas chances de ser contratado.
O restaurado jovem apenas conseguia concordar com a cabeça, enquanto an-
dava em direção a sua sala. Em um certo ponto o senhor que lhe acompanhava dei-
xou que seguisse sozinho, com certeza disse algo motivacional e virou-se para voltar
a sua sala, mas ele não conseguira captar com clareza. Uma quantidade espantosa de
lembranças de revolviam em seu interior: Seu Divino, aquela sala com muitas estan-
tes, o corredor pelo qual estava andando… Ele parou subitamente:
“Esse é meu antigo estágio!”, reconheceu em pensamento. “Quando eu traba-
lhei com o doutor Aparecido, deve ter sido por volta de 77… 78, talvez?”, continuou
seu raciocínio dando alguns passos apressados em direção a uma porta. Quando che-
gou, inspecionou a porta, a placa colada ali acusava que sua suspeita tinha se con-
firmado. “Isso quer dizer que…”, considerou, abrindo lentamente a porta. _ Lívia! _
anunciou em tom alto, impensadamente.
_ Entra _ disse uma voz vagarosa, desprovida de qualquer forma de ânimo _
seu trabalho está na mesa, melhor começar _ disse a funcionária pálida, com olheiras
fundas e olhos sempre preguiçosos. Como era de praxe, a pálida servidora mal olhou
para o jovem enquanto ele entrava na sala, como se seu olhar fosse algo muito pre-
cioso para desperdiçar com o aprendiz. Debruçou-se sobre os papéis indicados pela
servidora, ainda tentando elaborar uma explicação lógica para tudo, ele não conse-
guia manter o foco, sua cabeça ia e voltava em nomes, acontecimentos, lembranças,
rostos, e em uma razão para estar ali revivendo tudo.
Repassou tudo o que acontecia nos minutos que precederam os estranhos
acontecimentos que o levaram de volta aos tempos de estágio, muitas vezes seu ra-
ciocínio era interrompido pelas mesclas de suspiro e reclamação trivial tão caracte-
rísticas de Lívia, as quais ficaram enterradas em sua memória como uma das poucas
formas de comunicação diária entre eles. “Que calor né?”, “deviam arrumar esse ar-
-condicionado!”, “até agora não trouxeram o jornal!”, coisas dessa sorte eram comu-
mente disparadas pela funcionária de tempos em tempos.
Para sua sorte, ainda se lembrava muito bem do trabalho que lhe era atri-
buído, mas, foi com surpresa que reconheceu que a atividade detinha certo grau de
complexidade, a qual pensou não ser condizente com seu status de estagiário, ainda
mais dada a falta de assistência que a sua companheira de sala lhe provia. Por vezes os
atalhos propiciados pela tecnologia lhe vieram, instintivamente, como meios capazes
de aumentar sua produtividade, evidente que tais instintos não encontravam efeito
algum, afinal, não havia sequer um computador na sala toda.
Ainda no início da tarde, enquanto sua atenção se dividia entre suas tarefas
habituais, sua colega lamentosa e a solução para a enigmática situação que vivia, o es-
tagiário notou como o dia estava movimentado, algo raro naquela sala. Lembrava-se
muito bem que, nesses dias mais intensos, o telefone tocava ocasionalmente, e havia
um fluxo regular de pessoas que entravam timidamente para perguntar “o doutor se
encontra?”, olhando para a porta que dava acesso à sala privativa.
Naquela tarde, as primeiras ligações passaram desapercebidas pelo rapaz, que
trabalhava de forma vivaz, no entanto, notou quando um dos primeiros excursio-
nistas apareceu, questionando o paradeiro de seu superior. Normalmente não lhe
cabia atender ao telefone ou àqueles que visitassem a sala, Lívia era encarregada de
atender ao público, tarefa que desempenhava com um pouco mais de ânimo do que
as interações com o aprendiz. A insólita ebulição de pessoas e telefonemas pela qual o
ambiente passava levaram o jovem a desconfiar que, talvez, a resposta que procurava
poderia residir nessa anomalia.
Assim, o rapaz começou a reparar como as respostas de Lívia eram similares,
não importava se eram direcionadas àqueles que telefonavam ou aos que buscavam
pessoalmente encontrar com seu chefe. “Nossa… Ele acabou de sair”, “Ele saiu pro
almoço, já deve estar voltando”, foram algumas das mais usadas no início da tarde,
e progressivamente começaram a se alterar para “Ele deu uma saidinha pra resolver
algumas coisas, alguns minutos e ele chega”, conforme avançava o horário.
O jovem estranhou as respostas da servidora, afinal, como ele logo verificou,
uma luz emanava por debaixo da porta da sala privativa. Enquanto olhava a fresta
luminosa, o agora estagiário permitiu que um pensamento viesse a sua mente, re-
cordando-se da época que agora revivia, “nos anos que passou ali naquele prédio,
quantas vezes havia visto o doutor Aparecido?”. Era como se ele sempre estivesse
presente, mas não se lembra de vê-lo tanto assim, talvez a foto pendurada na parede
permitisse essa sensação.
_ Perdeu alguma coisa? Por quê está olhando pro chão desse jeito? Melhor se
concentrar ou vai errar aí, hein! _ Lívia o repreendeu, de forma atônita, percebendo
seu fascínio com a fresta da porta.
“É isso!” pensou o jovem, certo de que encontrara a única explicação para
os estranhos eventos que estava vivenciando. “O motivo para ter regressado a esta
data tão inexpressiva e desimportante só pode estar relacionado a um erro! É a mi-
nha chance de corrigir o que quer que tenha sido, voltar nesse momento não é uma
punição, é uma benção!” pensou, deixando sua surpresa transparecer um pouco em
seu olhar.
_ Ah, sim, desculpe _ disse percebendo que não respondera sua colega de sala
_ Eu já estou quase acabando, acabei me distraindo lembrando dos horários das aulas.
_ despistou a funcionária, cuja resposta foi virar o rosto com um olhar de descrença.
“Um erro! Tudo que tenho que fazer é encontrá-lo e tudo isto acabará!”,
motivou-se o rapaz. Em seguida, começou a repassar todo o trabalho desenvolvido
naquela tarde, reparou, contudo, que a movimentação da sala começava a diminuir,
como a calmaria que segue a tempestade, parecia que tudo estava se alinhando para
que pudesse resolver aquele mistério. Alguns minutos mais tarde, a paz que se insta-
lava foi finalmente violada por uma batida na porta.
_ Boa tarde senhora, tudo bem? _ anunciou Seu Divino ao entrar na sala de
forma destemida, dirigindo-se à Lívia _ Eu queria apenas chamar o rapaz ali para
tomar um café. Garoto, só você não foi lá lanchar, larga o serviço por alguns minutos
e venha, também precisa repor as energias. _ disse ele se dirigindo ao rapaz.
“Meu Deus, agora não, por favor! Ainda não consegui terminar de revisar
todos os trabalhos”, pensou, enquanto Lívia consentia na sua saída.
_ Acho que hoje eu não vou lanchar, Seu Divino. É que estou revendo os
trabalhos aqui antes de entregar, sabe? _ tentou dissuadi-lo da ideia.
_ Deixa disso meu rapaz, quero trocar uma palavrinha com você. Já sabe que
não há maneira melhor de conversar do que durante um café. Venha, vamos! _ res-
pondeu de forma que o jovem não poderia recusar.
Inconformado ele saiu da sala, e foi junto do funcionário até a copa no andar
superior. Havia alguns pães para quem quisesse se servir, e café de duas formas, uma
extremamente doce, como mel fresco, e outra amarga e com gosto de borra queima-
da, ambas igualmente ruins na opinião do jovem. Ambos se serviram com o bule da
bebida amarga.
_Sabe garoto… _ começou o senhor, enquanto o estagiário desejava com to-
das suas forças voltar para sua sala _ eu sei que lhe falei várias vezes para fazer um
bom trabalho, lutar bastante, e que, com certeza, isso seria recompensado. _ conti-
nuou abrindo um sorriso amarelado.
_ Sim, eu sei _ disse o jovem impassível _ é por isso mesmo que eu não posso
demorar muito, tenho que voltar logo para poder terminar de rever tudo. _ disse
impacientemente, almejando a correção do erro que seria sua redenção.
_ Fique tranquilo, meu jovem, até hoje eu não ouvi falar nada ruim sobre seu
trabalho. Todo mundo comete uns deslizes aqui e ali, ainda mais quando está apren-
dendo. Estou certo que você cometeu alguns, não é mesmo? _ O aprendiz apenas
acenou com a cabeça, sem entender como poderia estar tão próximo de consertar
as coisas, e, ainda assim, estava preso em uma conversa tão genérica. _ Mas, eu só
queria que você entendesse que… sabe, nem sempre as coisas saem como a gente
imagina. Tá me entendendo?
_ Claro, eu só preciso voltar lá e corrigir algumas coisas _ respondeu o obce-
cado estagiário.
_ Eu admiro seu empenho, garoto. Mas, às vezes, isso não é o suficiente, sabe?
Principalmente, sobre aquilo que lhe falei mais cedo, sobre o cargo… ser trabalhador
nem sempre é suficiente, tem outras coisas que fazem a diferença pra gente ser con-
tratado. E você sabe, nem sempre tem vagas sobrando pra todo mundo.
Aos poucos, lembrou da expectativa que viveu de ser contratado, como havia
se dedicado ainda mais ao seu trabalho, esperando que talvez pudesse ganhar um
pouco mais de dinheiro. Infelizmente, como ele agora lembrava, isso não ocorreria
naquela oportunidade.
A conversa entre os dois logo foi encerrada. A cabeça do jovem agora estava
verdadeiramente revirada. “Será que foi um erro? Por qual motivo seria tão elogiado,
se um erro singular tivesse sido o responsável por quebrar sua expectativa de ser
contratado?”.
Tentava fazer sentido de tudo uma vez mais, agora descontente com a con-
clusão que obteve mais cedo. Girou a maçaneta da porta e começou a abri-la quando
viu a porta da sala privativa se fechar, quando alguém saía de seu interior. Parou na
porta da sala e viu Lívia se levantar, logo a figura de uma mulher voluptuosa ofuscou
a desanimada funcionária. Era uma jovem, talvez alguns anos mais velha do que ele
naquele momento, de aparência deslumbrante, longos cabelos negros e pele alva,
como se a própria Lynda Carter tivesse saído do seriado televisivo de domingo.
_ Deixa eu te apresentar, menino, essa aqui é a Rebeca. Ela vai ser contratada
para o cargo do Seu Divino assim que ele se aposentar.
_ Olá, tudo bem? Infelizmente, eu já tenho que ir, vejo vocês em breve. _ disse
a atraente mulher.
Enquanto ela deixava a sala, o jovem reparou que a luz da sala do doutor ainda
estava acessa. Em um instante toda a confusão que habitava sua cabeça se desfez, che-
gou a uma conclusão tão óbvia quanto dois mais dois são quatro. Então, uma revolta
que nunca antes habitara seus pensamentos passou a dominá-lo. Em um instante o
jovem pulou em direção a porta da saleta, a servidora ainda esboçou uma reação,
tentou proferir mais uma de suas declarações prontas sobre a ausência do doutor,
sem conseguir, contudo, parar o rapaz.
Ele se enfiou na sala mesmo com a advertência da servidora, em sua cabeça
agora estava certo de que nunca havia visto o doutor em pessoa, mas conhecia sua
aparência, ao menos pela foto pendurada na outra sala. O que estava ali, definiti-
vamente, não era o homem que esperava ver. O que estava ali, na verdade, não era
homem, não era sequer humano.
Diante do aprendiz se encontrava uma criatura de aparência monstruosa, um
emaranhado de carne e miolos que flutuava, e parecia ter notado sua presença na
sala. Apesar do espanto e da náusea que aquela massa flutuante lhe causava, o jovem
logo decidiu confrontá-la, parecia-lhe que somente assim poderia encerrar o pesade-
lo revelador que fora reviver aquele dia há anos esquecido. Ele deu uns dois passos
em direção à monstruosidade, quando a porta da sala se abriu, Lívia adentrou a sala
acompanhada de outros funcionários, que começaram a puxar o rapaz para retirá-lo
da sala. Olhou para eles, tentou resistir, mas eles estavam em vantagem.
Neste exato momento, tentou fitar a criatura uma última vez, mas ela aos
poucos desaparecia, enquanto um som agudo estourava-lhe os ouvidos. Ao ser ar-
rastado pela porta, o jovem perdeu suas forças, era como se tivesse ficado mais leve,
sentia como se tudo estivesse ficando mais claro, claro de mais para manter os olhos
abertos.
Uma buzina rompe o silêncio. O sinal está verde há alguns instantes, mas o
sedã continua parado, alguns carros atrás já tentam contorná-lo, enquanto outros
impacientes iniciam o estardalhaço. Alguns minutos depois e o sedã continua para-
do, o ar-condicionado funciona com força, e o som toca alguns dos últimos sucessos
estrangeiros. O sinal se fecha, e o sedã continua parado. Um condutor enraivecido
desce de seu veículo, para ao lado do carro, cutuca a janela, e em sobressalto buscam
o celular, transparecendo nervosismo.
O pedestre que passou pelo carro sedã minutos antes chega ao edifício de
onde o carro saíra. Atravessa, junto de seu colega, um longo corredor, onde os dois
se despedem e cada um segue um rumo. Sobe as escadas, e entra na segunda sala à
esquerda.
_ E aí, Jorge? Tudo tranquilo? _ perguntou fechando a porta da sala.
_ Opa, e aí, João? Tudo bem, e você? _ Respondeu o funcionário, quase sem
empolgação nenhuma em ver o estagiário entrando na sala.
_ Beleza. Você sabe se o doutor está? Queria trocar uma ideia com ele sobre
um assunto importante…
_ Ih rapaz! Sabe o que é? É que ele acabou de sair pro almoço… _ respondeu
o funcionário ajeitando as mangas da camisa que trajava _ mas não esquenta não, ele
deve chegar daqui a alguns minutos, aí se ele tiver um tempo ele conversa contigo.
_ Ah, tá o.k. então _ respondeu o estagiário sem conseguir esconder uma
parcela de sua frustração.
_ João, você cuida das coisas por aqui bem rapidinho? É que eu vou ter que
ir ali no banco agora, e depois vou tirar meu horário de almoço. Certo? _ Disse já se
levantando da cadeira.
_ Claro, só que…
_Valeu hein garoto. _ falou abrindo a porta. _ ah, mais uma coisa, se alguém
ligar ou vier aqui, diz que o doutor saiu pro almoço e já deve estar chegando. Tá
certo? _ iniciou, já do lado de fora, fechando a porta.
143
OS CAMINHANTES
Luís Amorim

Alegres eles caminhavam por entre ditas piadas e imaginadas outras ainda
que não verbalizadas pelo menos no momento que de avanço era rumo ao castelo,
aos olhos deles visto como um saboroso eventualmente garantido de sangue ban-
quete. As humorísticas tiradas estariam adiadas para o interior centenário de pedra
feita construção acastelada, cada vez mais próximo quando ansiosamente lá dentro
estariam rodeados por gente outra e diversamente numerosa de quentes veias, assim
eles o desejavam com ardor de garganta impaciente. Muitos eram os caminhantes de
vampiresca estirpe que esfomeados pela sua tradicional ementa venciam as íngre-
mes dificuldades do terreno para terem como reduzida de maior cada vez distância
perante o de castelo previsivelmente certo nocturno banquete. E eis que após for-
ça imensa no caminhar, visível cansaço eles notavam no reciprocamente colectivo
restando como interrogação no premente da altura se ainda existiriam suficientes
energias para o prometedor degustar de sangue que os moveu rumo monte acima
com entrada de castelo já no então de altura os recebendo, inclusive com abertura
de gigantesco portão no comparativo à altura dos vampirescos seres feitos visitantes
inesperados, ou talvez não, pois com misterioso estender de acesso, até com aver-
melhada vistosa na sua tonalidade, o tapete de notáveis dimensões, naturalmente os
cumprimentou e lhes acenou convite de abrangência colectiva para não usarem de
timidez eventualmente pensada como reveladora e finalmente pudessem fazer uso
de entrada que só poderia ser de natureza triunfal. Apesar de algum desconfiar, os
vampiros rodeados pela sua incontrolável fome deram os seus ofegantes seres para
o espaço receptivo imediatamente ultrapassado perante o enorme salão que já no
então avistavam, ainda que não pela sua totalidade. Mesa de ceia no quase de perder
à vista foi compensada quando na sua extensa de vampira contagem vislumbraram
que haveria pomposas cadeiras para todos. Com a final proximidade, os caminhantes
perceberam que a majestosa ceia de mesa encontrava-se repleta de vultos, talvez cada
qual pronto e reservado para vampiro recíproco chegando em conclusão na perigosa
aproximação, a dizer-lhes esta, precisamente o contrário, pois cada vampiro ser é
que estaria destinado ao vulto correspondente e de mente confortável por sentado,
na ocasião de seu fim percebida como um impaciente fantasma esperando pelo seu
par nessa, desejavam eles, os fantasmagóricos seres, tão alegre como prazerosa e in-
terminável noite.
144
UM LUGAR PARA
SE ETERNIZAR
Marcelo Davi

Estou em um lugar onde não posso gritar, chorar e lamentar. O medo jamais
seria bem-vindo aqui, não sei onde estou. Vejo pessoas serem castigadas por derra-
marem lágrimas, os castigos são severos, suas peles apodrecem aos poucos e quando
elas gritam suas bocas queimam como se estivessem encostando no fogo.
Caminho por esse lugar com pouca iluminação e com um chão mucoso, estou
descalça, tenho impressão de pisar em várias lesmas, sensação nada agradável. Não
sei definir se o que sinto é frio ou calor, visto que a temperatura é aleatória em um
tempo extremamente curto. Um guri deitado e tremendo, está completamente nu,
seu corpo está revestido por um tipo de lodo e seu rosto também está coberto por
algo bastante nojento com uma cor peculiar, parecido com lilás. Aproximo desse
garoto e percebo que em sua barriga tem riscos que formam a palavra “suicídio”.
Observo ele por um tempo e sigo meu caminho sem me importar, estou em uma
situação que não posso nem me ajudar, o que poderia fazer com aquele pobre garoto?
Provavelmente estou em algum pesadelo, depois de entender a ter controle
dessa “realidade”, comecei a me meter em muitas confusões. O estranho é que mesmo
eu sabendo que não posso morrer, tenho medo de perder minha vida. Algo que gosto
até nos pesadelos, é que posso ser eu mesma e não preciso fingir me importar com
ninguém, porque não serei punida e a consciência permanecerá em paz. Algumas
pessoas podem considerar um absurdo sobre minha sinceridade, só que é essa ver-
dade, elas não conhecem o limite de sua bondade ou maldade, porque existe sempre
algo maior que coloca limites, sejam leis, religiões ou educação.
A maioria dos humanos pode pensar que dominar o sonho, significa ter po-
deres ou ser capaz de estar em qualquer lugar. Gostaria de presenciar cada expressão
de desilusão em cada um que descobrisse a verdade, somos frágeis até fora da realida-
de que é muito incompreendida.
Conseguimos encontrar algumas coisas pessoais, ocasionalmente encontro
meu diário, quando acho ele, consigo fazer algumas anotações que me impressiona, é
útil em momento que acordamos e não lembramos de quase nada.
Olha só! Um casal apaixonado atravessando uma ponte, tentarei me apro-
ximar. Cada vez que mais me aproximo, percebo que não se trata de um casal apai-
xonado e sim de duas pessoas abraçadas com uma corrente enrolada nelas, como se
fossem obrigados a ficarem juntos para manter as aparências. Decido empurrar os
dois da ponte. Até que a morte os separem, certo?
A ponte que parece tão bela, aos poucos vai ficando velha e sombria, olho
para baixo e lá está o casal se afogando e não morrendo, o amor talvez não seja
eterno, mas o sofrimento pode ser. Bom, pelo menos eles não precisarão manter as
aparências, seja longe ou perto, perceberão que eles estão em desespero. Caramba!
Me sinto uma heroína, mesmo não querendo, penso que ajudar o próximo está en-
raizado nos humanos. Continuarei seguindo meu caminho.
Outra vez aparece meu irmão caçula se cortando em meus pesadelos, não im-
porta quantas vezes tiro a lamina de suas mãos, ele sempre acha uma nova e sempre
encontra um lugar novo para se cortar.
Dessa vez, farei diferente, ajudarei ele a cortar seu corpo e perguntarei como
ele se sente sobre isso. Pego sua lamina e corto todo o seu rosto, braços e pernas. Ele
me olha assustado pela minha ação, pedi para que ele fizesse o mesmo comigo. Em
meu pedido, ele olhou em meus olhos e disse:
— Eu me corto porque me odeio, desconheço minha própria existência, já
você, minha irmã, não tenho coragem de cortar, porque sei o que sinto por você e
conheço o que representa.
Aquelas palavras deveriam me comover, não entendi porque não senti nada
no momento que ele fez aquela declaração. A única coisa que consegui responder:
— Deveria mostrar seu reconhecimento não só neste “Mundo”, maninho…
Esquecerá tanto sua importância, que deixará de existir por amar tanto os outros e
não ter coragem de fazer algo que ajude.
Limpo um pouco as manchas de seu sangue que está em minhas mãos e deixo
ele continuar fazendo o que faz de melhor. O ambiente muda repentinamente, em
poucos segundos, estou em minha sala de aula, de fato, não consigo fugir de tantas
hipocrisias reunidas.
Estou sentada na primeira fileira da direita para esquerda e na carteira da
frente, como uma boa aluna “disciplinada”, claro que não. Costumo sentar nesse lu-
gar para que eu não precise ficar olhando muito a “beleza interior de meus colegas”.
Podem me chamar de arrogante o quanto quiserem, abomino todos na mesma pro-
porção. Na verdade, eu odiava, quando não conhecia bem meus sentimentos, hoje,
sinto desprezo e respiro harmonia dizendo o quanto amo estar com todos. É melhor
desprezar alguém quando a pessoa pensa que você tem alguma afinidade e que não
existem motivos de intimidações.
Tenho uma paixão pelo Destino, ele sempre tenta chamar minha atenção,
jogando lembranças que me incomodam de alguma forma. Agora, por exemplo, es-
tou mais uma vez assistindo o espetáculo da minha “colega de sala” beijando alguém
que eu sentia prazeres e desejos de beijar. Não serei mentirosa, na primeira vez que
fui obrigada rever, chorei tanto, que perdi até o controle da respiração. Enquanto eu
perdia a consciência por falta de ar, eles dois provocavam gradativamente. Acabei
perdendo a consciência, acordei ainda com dificuldades na respiração.
Agora é diferente. Observo essa cena encarando com total indiferença e falo
em voz alta:
— Senhor Destino, quer ver algo inédito? Então mostre algo especial. Quero
sentir prazer, manifeste sua criatividade.
Em pouco tempo, os dois que estão envolvidos em um beijo “apaixonado”
começam a se enxergar como realmente são, criaturas. Eles se assustam, mas suas lín-
guas e seus lábios já não podem desgrudar. Eles olham para mim, mostrando medo,
aí que fico realmente frenética. Tudo fica tão bom, as pessoas ao redor sem boca,
não podem gritar, seus olhos sangram, tudo aquilo deixa meu corpo quente, o calor
aumenta tanto, que acabo tirando todo meu uniforme no mesmo momento que tudo
acontece.
Por isso sou apaixonada ele, só ele sabe me deixar louca com essa pura cria-
tividade, sem mesmo me tocar! Existem vantagens de ter o controle, que é poder
descontrolar a respiração por boas causas. O Senhor destino nunca ficou próximo de
mim, já o avistei algumas vezes bem de longe, mas nada que desse tempo suficiente
em me aproximar.
Quando estou conseguindo tirar o máximo de proveito em admirar meus
“colegas” acabo parando em outro ambiente. Um lugar que parece ser a sala de jantar
e para ajudar, me vejo cima da mesa e minha família está presente. Sim, todos estão
assistindo e eu ainda não estou vestida e também estou muito “molhada”.
O Senhor Destino pensou mesmo que poderia me deixar em agonia, coita-
do… Lá estava minha família exemplar e com olhares de espanto. Com certeza eu
deveria me envergonhar, mas a única coisa que consegui dizer foi:
— Será que alguém pode me ajudar descer desta mesa?
Ninguém responde nada, todos continuam me olhando com manifestação de
espanto, mas as expressões vencedoras foram dos meus pais. Eles olham para meu
corpo como se não sentissem nada, meu irmão, como sempre, tampa os olhos e sente
pura vergonha alheia. Por alguns segundos, fiquei confusa por parar naquele lugar,
mas depois de um tempo começo a entender. Desço da mesa e sento no colo do meu
pai, viro meu rosto e fixo os olhares diretamente nos olhos de minha mãe, é a melhor
oportunidade de provoca-los:
— O que há com você dois? Quando ofereço meu corpo de boa vontade para
seus prazeres, vocês olham assustados, agindo como pais normais. Vamos lá, mãe,
leve-me para o quarto e sinta prazer em me tocar enquanto convence novamente
meu pai colocar outro filho dentro de mim.
No momento que acabo de falar, o ambiente fica completamente escuro e
começo a flutuar como se o local tivesse perdido a gravidade, não consigo me mo-
vimentar livremente. O ambiente fica completamente silencioso. Depois de alguns
minutos de angústia começo a ouvir uma certa voz misteriosa, as primeiras palavras,
não consigo entender muito bem, mas depois conseguir compreender algumas fra-
ses: “Você está quase pronta para além desse mundo, o ‘Submundo’…” A voz miste-
riosa não para de repetir essa frase, me deixa completamente confusa.
Tenho a impressão de perda da consciência, significa que logo acordarei. Eu
poderia ter meu diário e anotar os acontecimentos, infelizmente será um progresso
perdido, porque posso não lembrar de nada. Talvez eu consiga lembrar de algo, só
não conto com isso.
Parece que alguém está me abraçando pelas costas! Sinto um corpo frio en-
costando no meu, só que não consigo enxergar nada, tenho uma sensação de como
estivesse sendo abraçada pela própria morte. Enquanto estou sendo abraçada, a voz
que estava longe parecia ser desse ser que está me abraçando e dessa vez me dizendo
outras coisas…
— Aqui está o que você precisa. Cuide melhor das suas anotações. Não se
acostume com esse apoio, pois, na próxima terá que encontrar sozinha.
Sinto em minha mão direita algo sendo colocado, parece ser meu diário…
Sim! É o meu diário. A gravidade parece estar sendo normalizada e já não ouço mais
nenhuma voz e nem a sensação de ser abraçada. As luzes voltam, mas dessa vez são
iluminações de vela, ainda estou na sala de jantar, mas minha família já não está por
aqui. Olho para meu corpo e estou vestida com meu pijama.
Um garoto aparece todo sigiloso, vestido igual o ser misterioso que costumo
chamar de Senhor Destino, seria ele? Ele me encara por alguns segundos, negando
ser o que costumo chamar de “Senhor Destino” percebendo que já estou em total
descontrole deste ambiente, resolvo tentar conversar com ele:
— Quem é você e o que você quer?
Ele reage cinicamente com minha pergunta e continua encarando como se
quisesse me falar algo, mas não diz nada. Não vejo escolha a não ser tentar sair do lo-
cal e deixar ele lá, talvez seja só uma distração. Antes de tentar sair, penso em anotar
esse acontecimento no meu diário, quando resolvo abrir, ele reage dizendo que não
poderei registrar este momento.
Esse garoto me deixa completamente embaraçada, revelando que é meu futu-
ro filho suicida. Ele me diz que costumo repetir algumas coisas quando entro neste
“Mundo”, mas que estou progredindo, porque algumas de minhas ações estão evo-
luindo.
Bem que eu poderia perder minha consciência agora mesmo e ser poupada
de um momento estranho como esse, mas como não tenho outra escolha, continu-
arei ouvindo.
— Nicole, não adianta anotar muitas coisas em seu diário, porque só vai estar
anotado aquilo que queremos que esteja escrito e não pense em agir como se estives-
se no controle, porque você ainda não tem o domínio de quase nada!
O garoto começa a me intimidar de uma forma que me provoca muita raiva,
sinto vontade de esgana-lo agora mesmo.
— O que você quer de mim? Quer me deixar louca? Você não pode chegar
desse jeito dizendo que é meu filho, que irá se suicidar e não explicar absolutamente
nada. Agora você vai esclarecer as coisas que diz, senão darei um jeito de sair desse
lugar agora mesmo!
Preciso ser agressiva com ele para ter algum resultado, mas ele me olha como
se estivesse realmente no controle da situação, um sorriso surge como se ele já espe-
rava que eu fosse reagir dessa forma. Será que ele é realmente quem diz ser?
— Mãe… Sei o que a senhora passa e conheço o que ainda vai passar. Reco-
nheço todos os sofrimentos que estão em sua memória, enxerguei a dor que sentiu
em sua alma e seu corpo quando foi abusada diversas vezes pelos seus próprios pais.
Sinto esse seu amor que tem pelo seu irmão e o medo que ele tire a própria vida um
dia por ser obrigado a testemunhar os acontecimentos e não conseguir fazer nada.
Estou com as emoções fora de controle e não sei se estou prestes a chorar ou
gritar, eu só quero sair disso e acordar e não lembrar de nada. As lágrimas caem por
si mesmas, o garoto que diz ser meu filho se aproxima e me abraça. Seu abraço me
causa um conforto que nunca senti antes, sinto até vontade de dizer que o amo.
Ele continua me abraçando e dizendo que em breve terei o controle de qual-
quer coisa. Começa a escurecer novamente. A voz misteriosa ressurge dizendo no-
vamente que “estou quase pronta para o Submundo, mas ainda restam vestígios de
medo e insegurança”…
Acordo em minha cama, ouço a voz da minha mãe me chamando para a co-
zinha, meu irmão entra em meu quarto animado por ser o dia do meu aniversário
de dezesseis anos. Vou até à cozinha e lá está minha família completa. Sinto uma
sensação estranha, uma vontade enorme de vomitar só de olhar para aquele bolo
e doces. Sinto uma tontura como se minha pressão estivesse alterada e todos ficam
preocupados, meus tios pedem aos meus pais que eles me levem para o hospital. O
clima fica muito tenso, meus pais pedem para meu irmão me acompanhar no quarto
e me ajudar a colocar algum agasalho e poder sair.
Entrando no meu quarto, vejo o diário do lado da cama e olho as últimas pá-
ginas escritas,“seja forte, em breve você terá o controle de tudo, parabéns pela nova
gravidez”. Não acredito! Isso não pode ter acontecido novamente… Meu irmão se
assusta com minha reação, começo ter uma crise de choro. Ele parece muito confuso
e chama meus pais a entrarem no quarto.
Minha mãe entra no quarto com expressão de preocupada e com uma seringa
em sua mão, ela finge me abraçar e aplica essa seringa em mim.
— Filha, se acalme, eu e seu pai, iremos resolver.
Foram as últimas palavras que lembrei antes de tudo ser apagado…
Estou em um lugar onde não posso gritar, chorar e lamentar. O medo não é
bem-vindo por aqui, não sei onde estou…
149 ÔNIBUS
Pedro Poleto

Nenhuma peculiaridade, nada a ver com fábulas, assim foi o dia em que César
entregou seu olhar aos olhos de Clara. A garota, que nunca aconchegava olhares,
sentiu imediatamente o desejo que César transmitia pela íris nublada de amor, um
calor ao mesmo tempo intenso como o amargo de um café forte e suave como um
adoçante dietético irradiava do fuzilar de César. A agressiva violação ocular do ga-
roto detinha de uma graciosidade sublime, não incomodava o alvo, percebia-se uma
incondicional paixão além dos prazeres da carne, um fascínio belo e inexplicável pelo
simples existir de Clara. Todos dias da semana era a mesma situação no ônibus.
Este encontro de olhos perdurou até um devaneio de César dá-lo coragem
o suficiente para seus turbulentos pensamentos corroerem sua razão, permitindo a
paixão tomar o controle de suas ações, César agora era movido por tudo aquilo que
ele sempre sentiu. Em passos desajeitados o rapagão aproximou-se do amor carni-
ficado. Ele não fazia a menor ideia do nome da dona de seus suspiros e inspirações,
embora às vezes César imaginava qual seria o nome dela, também não tinha noção
alguma da história de Clara, era ciente apenas acerca de como a dama sentava-se de-
licadamente no ônibus após ajeitar o vestido amarelo de Nápoles, balançando a perna
inquietantemente e do fato que se atrasava às segundas-feiras de manhã.
Clara encarou seu admirador por alguns segundos, alguma coisa a dizia o que
estava por vir, César carregava um peso gigantesco sobre os ombros, a dilatação vi-
brante de sua pupila diante de Clara explicitava seu amor. Duas gotas de suor escor-
reram da mão de César, as letras canibalizavam-se em sua boca, não as conseguia ex-
pulsar, formar sílabas, palavras, frases. Depois de algumas paradas e um considerável
número de quebra-molas o silêncio ensurdecedor cessou. Oi, disse ela. Um zumbido
invadiu os tímpanos de César, ofegou instantaneamente. Sempre te vejo, continuou.
O garoto resfolegou engolindo o amargo desespero da situação. E-Eu, gaguejou.
Clara assentiu, como se pedisse para César completar a frase. Te amo, confessou.
Clara riu. Poderia ser vergonha de tamanho apreço! Ser amado gera remorso,
imaginou César. A risada não parou. Um desconforto ácido começou pelo estôma-
go do garoto, incomodando-o juntamente a uma pontada forte no lado esquerdo
do peito, o gume do cruel platonismo amoroso o havia atingido. Suas esperanças
murcharam e foi ali que ele descobriu que seu amor não valia nada. Não é assim que
funciona, disse Clara. Uma tremedeira incorrigível começou nos lábios de César, ele
não tinha mais o que fazer, as pontas de seus dedos começaram a formigar e ele pre-
viu um choro, daqueles que apenas interrompem ao adormecer. Naquele momento
o gelo que crescia por dentro deu-o a certeza de estar completamente morto por
dentro, já podia sentir o cheiro da putrefação de todos seus sentimentos, o deboche
oriundo de sua paixão dizimou-o.
Clara levantou-se, apertou o botão sinalizador do ônibus e esperou em frente
a porta. César apenas apreciou o seu amor ir, foi assim o último encontro dos dois.
Ao atravessar a rua descuidadamente Clara foi pega por um ônibus, tão parecido com
aquele que havia acabado de sair, provavelmente com os mesmos amores dentro. O
Impacto, forte como o amor de César, foi suficiente para retirar a vida da garota no
mesmo instante, o devoto pôde apreciar cada milímetro do corpo de sua deusa, cada
caquinho jazia espalhado pelo chão da rua, alguns no vidro do ônibus e na calçada,
bagunçados e banhados em carmesim. Todos os passageiros gritaram espantados,
alguns viraram os rostos, outros os dois, mas não César, César riu.
151
ENTRE O HOSPÍCIO
E A IGREJA
Schleiden Nunes

Há 5 anos e uma vez ou outra, geralmente aos domingos, eu caminho pela


minha rua. Vou buscar sorvete para a sobremesa. Subo duas quadras, e, na terceira
esquina, dobro à esquerda. A sorveteria fica de frente a uma igreja, que é a própria
esquina, feia de amedrontar! Ocupa meio quarteirão. De lado, divide a calçada de
pedestres com um prédio branco e que parece um hospital abandonado. Combi-
nam-se num determinado aspecto: são assombrados. Não tenho dúvidas. O tal posto
de saúde possui paredes que em verdade são grades e portas que são portões; pelas
frestas pode-se ver dentro: amontoados de poeira, restos de objetos de uso médico
e de correspondências não sei se dos correios ou do além. Sua pintura é manchada,
mas fora branca um dia; perto do que seria a entrada há uma pichação que nunca me
atrevi a ler. Já a igreja é de prédio mais alto, pintura esbranquiçada mas que fora de
cor de mancha; não possui uma só pichação. Creio que os pichadores intimidaram-se
com os dois anjos imóveis logo ao parapeito do sino da torre, e deram meia-volta
então; dois anjos, duros feitos pedras... de gelo. É construção antiga, de marquises
desenhadas, com porão que dá para a rua assim como suas janelas góticas. As por-
tinholas do porão foram recobertas por tijolos internos, e as janelas têm grades an-
ti-insetos, anti-gente, parece. Como é bonita! Outro dia, olhei-a de longe, e notei
que no seu interior há uma árvore imensa e um jardim escondido, talvez. Porém,
sua porta de altura de quatro homens nunca estava aberta. Duvido que ela guarde
moradores, mendigos, loucos... Dos loucos, mais fácil é acreditar que eles tenham
vivido seus últimos dias naquele hospital. Um hospício? Se for, os loucos de lá que
tomaram a igreja, ou os loucos da igreja que pararam no hospício? Penso sempre que
existe alguma relação entre as duas construções. Pensei em transformar esse texto
num conto maior, e inventar uma história de gala, mas não brinco com eles. Temo
que isso se torne uma obsessão e procuro me controlar; tentei outro caminho para ir
à sorveteria, principalmente aos domingos, contudo outro caminho não há. Aquele
sorvete é o melhor da cidade, enquanto que aquele quarteirão é mesmo de gelar os
ossos e o coração! Deve haver nisso alguma relação.
152
O SENTIDO DA VIDA
Thiago Roza

É como morrer e não morrer, experimentar o gosto da morte, seja amargo,


doce, salgado, azedo, apimentado, e voltar a viver em seguida, sabendo, com toda
certeza que vai morrer algum dia, e definitivamente, viver, ou morrer, pelo resto dos
seus dias, que compõem a eternidade. Morrer antes do tempo, mas não exatamente.
Saber que ainda resta algum tempo depois da experiência realizada, e que há possi-
bilidade de rever muitos quais sejam os conceitos. Viver renovado, sabendo que vai
morrer, em algum tempo, seja longo, ou curto.
Como os vendilhões de caixões no bairro central da cidade de Curitiba, que
prometiam, a quem comprasse caixões, que tivesse um dia de morto, mas só para
aqueles que comprassem seus caixões, e especificamente, um caixão em especial, que
tinha alguns zeros adicionais em seu preço, o conforto era garantido, e a experiência
prometida. Afirmavam que se o conforto não fosse conhecido, poderiam colocar, os
clientes, o próprio corpo morto em algum outro lugar, bem longe dali; algum caixão
mais barato, ou outro de melhor conforto.
O bom da história era que todos os clientes, ricos milionários, estelionatários,
políticos corruptos, enormes empresários, pagavam tudo a vista, com um desconto
razoável. Já, pobres fantasiados com roupas muito caras, nunca pagavam de uma só
vez. Assim, prometiam o cartão de crédito, mesmo depois de mortos, que continu-
aria a pagar prestações a perder de vista, com muita regularidade, provavelmente
comprometendo a renda familiar em algumas décadas, quem sabe.
O certo era que o ensaio era também bem pago, estava com o preço escondido
em algumas prestações adicionais daquele objeto fúnebre tão bem divulgado.
No dia marcado, o morto ainda vivo, se maquiaria com ajuda de uma moça
especialista em famosos, que ela dizia estarem todos mortos por dentro, só esperando
o enterro apropriado, já que deviam esperar chamar a senha deles, como todo cida-
dão bem educado. Ela, que maquiava tudo muito pálido, depois aprontava a roupa
adequada, um terno de fina costura, um vestido cheio de seda frágil. Feito tudo isso,
o cliente, ensaiando, deitava no seu canto de repouso, e provava daquele conforto tão
prometido, sabendo que quando seu dia chegasse, toda aquela almofada amorteceria
o peso daqueles ossos, e da carne seca que estaria longe de toda a alma, e assim, um
pouco mais leve em termos de consciência.
Na cerimônia ensaiada, existiam aqueles que choravam, aqueles que comen-
tavam, aqueles que falavam mal do morto, aqueles que discursavam. A experiência
era autêntica.
Diziam os organizadores de todo aquele negócio que muitos clientes tinham
vontade de chorar, mas tinham de se segurar para que tudo corresse conforme pla-
nejado, afinal mortos não choram.
As flores estavam lá de acordo com a personalidade do morto vivo. Tinha até
um religioso convidado, que variava de padre, pastor, rabino, ministro espiritual, pai
de santo, filósofo no caso dos ateus para falar do grande nada que se seguiria após o
fim daquele momento terreno.
Assim era tudo aquilo. Um verdadeiro espetáculo, de fazer contemplar e cho-
rar qualquer um que sentisse e ouvisse tudo que se passasse lá naquela pequena capela
ecumênica.
Após a experiência, o cliente, muito bem respeitado em seus desejos, os últi-
mos a se realizar, comentava e criticava tudo que se passara. Frequentemente dizia
como queria que tudo fosse feito, e o que queria que os vivos, no seu grande dia, mu-
dassem. Sim, sim, como quiser meu querido, este será seu dia, você, portanto, deve
escolher como ele será celebrado; todos só estarão falando de você, todo mundo de
algum ou outro modo, você será o centro das atenções.
E todos saiam de lá muito bem agradados, cheios de expectativas para o gran-
de dia, que seria o último deles, no mundo dos vivos. O último. Por isso um ensaio é
tão importante, tão cheio de expectativas. Nele todos os erros são cometidos, todos
os cronogramas colocados à prova, vêem se cada um está de acordo com a sua função
no grande espetáculo, nada poderá sair errado. Todos devem fazer algo próximo do
combinado, e então, eles serão criticados por tudo que foi prometido, colocado no
planejamento daquele momento.

O Sentido da Vida — parte 2:

Tadeu era funcionário de banco. Tinha devotado pouco mais de trinta anos,
de sua vida comum como contador de assuntos financeiros, àquele banco público
que estava vivendo um período de grande instabilidade financeira. Ele, a exemplo
de seu trabalho, vivia um período de enorme instabilidade, emocional. Entretanto,
só ele disso tinha conhecimento. Já não sabia o que era, mas tinha certeza, algo ele
tinha perdido em algum momento de sua jornada como homem, como ser humano,
como vivo. Algo importante, que estava fazendo enormes faltas nesses últimos anos
de emoções incertas, insatisfações, grande indiferença. Pensava em si mesmo como
uma máquina que lutava para funcionar sem uma peça essencial.
Ficou sabendo daquele famoso e controverso ensaio fúnebre por meio de um
cliente meio pobre, que veio emprestar muito dinheiro de uma só vez, e em segredo,
confessou a Tadeu do que se tratava a experiência. Ele, inicialmente, achou tudo
muito mórbido, polêmico demais para se gastar tanto dinheiro assim.Em casa, no se-
gredo de seu trancado quarto, longe da esposa e dos filhos já crescidos que quase não
ligavam muito pra ele, pesquisava sobre o que era aquilo tudo. Lia os depoimentos,
assistia aos vídeos, às entrevistas, ficava surpreso com o efeito e repercussão que um
ensaio fúnebre teria na vida de um vivo.
Com muita reflexão, resolveu aderir ao tal movimento. Nunca tivera cora-
gem de tirar a própria vida, acreditava que a decisão de matar o próprio corpo era
permanente demais, além de pecado em tantas religiões que ainda desconhecia. Ago-
ra, um ensaio de um dia de morto era uma oportunidade única. Caso se arrependesse
de morrer, teria uma nova chance. Sairia ileso, sem se machucar, dessa estranha e
única experiência. Tudo isso pago por seu próprio dinheiro. Só ele ficaria sabendo,
ninguém mais, todos o tratariam com a indiferença habitual nos dias seguintes ao
ensaio. Imaginava tudo. Já ficava ansioso com o que poderia acontecer.
Emprestou toda a quantia da própria poupança, que era regularmente arma-
zenada para casos de enormes apertos financeiros, desemprego, doença, separação,
processos judiciais. Justificava a si mesmo que o dinheiro seria bem usado, ele estava
muito doente, devia ser de um órgão intangível como a própria alma, e só ele era
quem seria capaz de dar o próprio diagnóstico, e também ministrar o próprio trata-
mento.
Chegando perto do lugar onde se instalava a luxuosa agência funerária, foi
interrompido por um grupo de dois estranhos homens. Ambos sabiam que muitos
clientes chegavam naquele lugar com quantias razoáveis de dinheiro a mão. Geral-
mente a abordagem era fácil, discreta, nenhuma vítima tinha ainda reagido. Tinham,
estranhamente, medo de morrer.
Com lentidão foram andando próximo a Tadeu, a passos cada vez mais pe-
sados e apressados. O homem, que escondia dentro do paletó, em um bolso interno,
um generoso pacote de notas de cem reais, começou a perceber que era seguido.
Ambos, um de cada lado, interromperam o contador de banco público no meio de
sua trajetória, e sem cerimônias, mostraram as armas que carregavam em seus cintos.
Cada um tinha um revólver, cada revólver estava carregado.
Tadeu que era indiferente a tudo, ultimamente, sentiu uma paixão violenta
e urgente. Parecia algo estranho, que não percebia em si mesmo em muito, sentia
novamente que vivia.
No instante que observou que de fato, poderia não desfrutar daquilo que seria
o seu momento, e apenas seu, percebeu que, de fato, teria algo importante a perder.
Não poderia deixar coisa assim acontecer.
Reagiu, com total inexperiência.
Foram dois tiros.
Um na barriga, na altura do fígado.
Outro no peito, próximo ao coração.
Os bandidos, rapidamente, tiraram o envelope com as notas; sangue escorria
daquele invólucro.
Tadeu, em seus últimos minutos, sangrava para a morte.
Ninguém precisava lhe contar sobre isso, era uma a certeza óbvia daquele
momento. A morte estava próxima.
Achou infeliz a ironia aquele momento, no qual, o instante em que se sentiu
mais vivo nos últimos trinta anos era, também, o seu último. Não teria uma segunda
chance. Não seria apenas um ensaio. Queria ter vivido mais. Em poucos minutos
tudo já estaria consumado.
155 PONTES
MEMORÁVEIS
Vanessa Santos de Jesus

Quando atravessei a rua direta correndo, eu vi em minha direção uma moça


com blusa regata branca, olhos negros brilhantes, com a juventude à flor da pele e
o sorriso escarlate que a distinguia. Mas os meses passaram e o ano virou também e
já era 2017. Foi quando entrei no prédio do meu trabalho e encontrei uma segunda
moça com a mesma semelhança da moça de 2016, e novamente o sorriso escarlate
reaparece com o rosto envelhecido que a distinguia.
Nesse momento, a ponte revelava as semelhanças entre as duas figuras hu-
manas. Apesar do desconhecimento entre ambas, o sorriso escarlate e eu éramos as
pontes memoráveis entre as duas semelhanças.
Não basta dizer isto:
Agora, a juventude da primeira moça virou estrela e a existência do enve-
lhecimento da segunda moça ainda permanece, por isso o sorriso ficou memorável.
Os capítulos deste livro são compostos por variações da família Spartan,
criada por Matt Bailey em 2017, essa é uma fonte sem serifa e open source
criada para fins pessoais e de estudos, ao longo dos anos, iniciada com apenas
um peso, ganhou sete variações.
Saiba mais em: https://www.mtbailey.com/portfolio/spartan.html

O texto é composto em Crimson Text. A Crismson é uma fonte serifada


desenvolvida especialmente para livros impressos, autoria de Sebastian
Kosch.
Saiba mais em: https://fonts.google.com/specimen/Crimson+Text

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