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INSTITUTO FILOSÓFICO E TEOLÓGICO DO SEMINÁRIO ARQUIDIOCESANO

SÃO JOSÉ DE NITERÓI

GABRIEL BARRETO CARDOSO

SANTO TOMÁS DE AQUINO


Metafísica, epistemologia e ética

NITERÓI
2018
1. INTRODUÇÃO

Um dos grandes santos da Igreja Católica, Tomás de Aquino tornou-se uma figura
icônica por sua contribuição intelectual para a doutrina do catolicismo, sendo assim
considerado como um dos maiores teólogos de todos os tempos. Expoente entre os
escolásticos, foi um dos maiores nomes da filosofia medieval, destacando-se pela sua
incrível capacidade de sintetização e de produção literária. Sua contribuição filosófica
deve-se, sobretudo, à Metafísica, que para Santo Tomás, representa a contemplação da
criatura para com seu criador e com todas as outras coisas criadas, levando-a a concluir a
existência de Deus. Ao defender a possibilidade de se alcançar a Deus através da razão,
o Aquinate consegue unificar duas realidades opostas por definição, mas totalmente
conciliáveis: fides et ratio.

2. METAFÍSICA

Falar da metafísica de Santo Tomás é, necessariamente, falar sobre a metafísica


aristotélica. O Doutor Angélico possui extensos comentários aos XII livros da Metafísica
de Aristóteles, sendo bastante influenciado por sua obra. Do grego, o Aquinate herdou
também o extenso vocabulário e sua metafísica trata de conceitos como substância e
acidente, matéria e forma, ato e potência. A metafísica tomista é altamente sistemática e
dividida entre Metafísica Geral e Metafísica Específica. A primeira, diz respeito a tudo
aquilo que se pode dizer do ente e, por isso, é chamada de Ontologia. A segunda diz
respeito a tudo aquilo que se pode alcançar de Deus somente através da razão e, por isso,
é chamada de Teodiceia. A metafísica tomista é pautada pela busca da verdade, da causa
e dos princípios do ser e possui, para o santo, um caráter contemplativo e espiritual.
Em O ente e a essência, Santo Tomás lançou as bases que fundamentaram sua
metafísica, apresentando premissas e conceitos que fizeram parte da sua filosofia.
Destaque-se, sobretudo, a distinção feita entre ente lógico e ente real.
O ente lógico contempla toda a parte conceitual que se pode dizer do ente. Tem
fundamental importância por mostrar-nos que é possível pensar coisas que não existem
na realidade, mas são apenas conceitos abstratos. Em seu primeiro volume da História da
Filosofia, Giovanne Reale, ao falar sobre essa questão, apresenta uma citação de Sofia
Vanni Rovighi, que traz o conceito de cegueira para elucidar o ente lógico. Ela afirma
que “existem olhos privados de sua função normal, mas não existe a cegueira: a cegueira
é o modo pelo qual o intelecto expressa o fato de que certos olhos não veem.”1
O ente real contempla a realidade, ou seja, todas as coisas que existem. É uma
divisão importantíssima, pois nela encontram-se duas importantes doutrinas tomistas que
são fundamentais para a compreensão de sua metafísica: a doutrina da participação,
segundo a qual todos os seres possuem um grau de participação do ser divino de Deus e
a doutrina do ato de ser - actus essendi - donde se complementa a doutrina da participação
afirmando que à todas criaturas são conferidas o ato de ser.
Santo Tomás afirma que, em Deus, ser e essência se identificam e, portanto, Deus
é ato puro. As criaturas, pelo contrário, possuem apenas a potência de ser, pois somente
Deus é ato puro. Deus é ser, as criaturas possuem o ser, que lhes foi conferido pelo ato
puro, isto é, Deus. É aqui que é feita a ponte entre a Ontologia e a Teodiceia, onde a
metafísica começa a construir as bases argumentativas para que santo Tomás possa
demonstrar a existência de Deus através das as cinco vias.

3. EPISTEMOLOGIA

A Epistemologia – ou Teoria do Conhecimento – é uma área filosófica fundamental


para o pensamento tomista, podendo ser considerada até mesmo como um alicerce que
estrutura a produção filosófica de Santo Tomás de Aquino. Essa importância fica clara
quando se estabelece que, para o Aquinate, o conhecimento (epistemologia) está
profundamente ligado ao ser (metafísica). Para ele, o ser é acessível ao nosso pensamento,
afinal todo conhecimento é conhecimento do ser.
A escola filosófica a qual Santo Tomás pertenceu, constitui-se uma outra via para
a compreensão da sua teoria do conhecimento, uma vez que o realismo submete a razão
às exigências do objeto, ou seja, o pensamento se ajusta ao objeto.
Também na epistemologia tomista, fé e razão são postas em diálogo. Isso fica
evidente quando Santo Tomás afirma que, embora a razão siga suas próprias leis e
justamente por isso não possua dependência da fé, ainda assim é um instrumento valioso
para se aproximar de Deus, afinal a verdade da razão não contradiz a verdade da fé. Ainda
que Filosofia e Teologia sejam duas ciências distintas, possuem o mesmo objeto material

1
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulinas, 1990,
pg. 556.
comum: Deus. A distinção se dá apenas no campo do objeto formal, onde a Filosofia se
pauta na demonstração científica enquanto a Teologia é guiada pela revelação.
A relação entre fé e razão também elucida a questão da verdade e do erro. Se no
processo do conhecimento o intelecto erra, é sinal de que a razão é que está errando. A
revelação é absoluta, pois é proveniente do próprio Deus. A razão, ao contrário, é
limitada, pois está submetida às limitações cognoscitivas. Da mesma forma, quando no
processo do conhecimento o intelecto acerta, é sinal de que foi adequado com a verdade.

4. ÉTICA

A epistemologia é, de certa forma, a base da ética tomista. Para Santo Tomás, o


homem possui natureza racional e, portanto, é capaz de alcançar o conhecimento. Dentre
os conhecimentos adquiridos, incluem-se o conhecimento do bem e do mal. Este é um
conceito muito importante na ética tomista, chamado de sindérese, isto é, a aptidão que
todo homem possui, por natureza, de distinguir o bem do mal e de tender para a prática
de boas ações. É natural que o homem rejeite o mal, pois este é a ausência de bem. No
entanto, o conhecimento do bem e do mal não fere a liberdade do homem que, embora
faça uso da inteligência, é marcado pelo pecado original, que afeta a vontade. É daí que
o homem, diante de uma situação, não faz o bem que quer, o bem que a inteligência lhe
diz, mas o mal que não quer, mesmo sua inteligência afirmando ser errado (cf. Rm 7, 19)
É como diz Reale: “Mas compreender ainda não significa agir. E o homem,
justamente porque é livre, peca quando se afasta deliberadamente e infringe aquelas leis
universais que a razão lhe dá a conhecer e a lei de Deus lhe revela.”2
Reale ainda apresenta as distinções de leis apresentadas por Santo Tomás, a saber:
lex aeterna, lex naturalis, lex humana e lex divina. Onde a lei eterna diz respeito ao modo
como Deus ordena o universo, a lei natural corresponde ao conceito de sindérese e a lei
humana é a lei jurídica, consequência dos conceitos apreendidos na lei natural e que
regem uma sociedade. Mas a maior entre elas, para Santo Tomás, é a lei divina, ou seja,
a lei proveniente da revelação e aquela na qual todas as leis encontram o seu fim e,
portanto, aquela na qual está pautada a ética tomista – e não só a ética, mas também a
política, por exemplo.

2 2
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulinas,
1990, pg. 567
Bibliografia

REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo:
Paulinas, 1990

GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2001

SARANYANA, Joseph-Ignasi. La Filosofía Medieval: Desde sus orígenes patrísticos


hasta la escolástica barroca. 2ª Ed., Pamplona: EUNSA, 2007

FAITANIN, P. A Metafísica Tomista. Instituto Sapientia de Filosofia. Disponível em:


http://www.institutosapientia.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article
&id=1347:a-metafisica-tomista&catid=115:tomismo. Acesso em maio de 2018.