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5 DIFERENÇAS ENTRE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE

Muito se fala de Nietzsche e de Schopenhauer, eles estão o tempo todo justapostos e


sobrepostos. É muito comum vermos pessoas salientando suas semelhanças, principalmente
o pessimismo e o niilismo. Para quem não conhece, ele às vezes se tornas sinônimos. Bom,
neste texto, temos o objetivo de fazer o contrário: mostrar algumas diferenças e aguçar a
curiosidade para pesquisas futuras.
Nietzsche descobriu Schopenhauer ainda na universidade aos vinte e um anos, por
acaso, numa livraria. Comprou “O Mundo Como Vontade e Como Representação” e
apaixonou-se instantaneamente por sua filosofia: sem deus, sem providência divina, apenas
uma vontade cega e insaciável. Wagner e Schopenhauer foram suas maiores influências
durante a juventude.
Mas nem tudo são flores, Nietzsche se afasta de Schopenhauer ao longo de sua vida,
e até mesmo chega a fazer-lhe severas críticas (como era seu costume a todos aqueles que
um dia admirara). Dentre as divergências, para maior didática, podemos separá-las em
categorias:
Vontade: em Schopenhauer apenas Vontade: cega, insaciável, inquieta. A coisa-em-si
de Kant, a resposta para todos os enigmas. A Vontade é auto-discórdia, uma fome eterna que
alimenta-se de si mesma. Como nunca pode ser satisfeita, ela é a causa de toda a dor; como
não tem finalidade, ela nunca encontra a paz. Nietzsche se apropria deste conceito tornando-o
múltiplo: vontade de potência é a potência que quer a si mesma, é uma vontade de lutar,
combater, é a definição do guerreiro e do artista.

O ponto sobre o qual incide a ruptura de Nietzsche com Schopenhauer é preciso: trata-
se justamente de saber se a Vontade é una ou múltipla” (Deleuze, Nietzsche e a Filosofia).

Dor: A dor é algo inevitável nos dois filósofos, mas é importante notar o uso que cada
um faz dela. Schopenhauer a considera a substância absoluta da existência, a raiz de onde
tudo cresce, vivemos mergulhados na dor para ter apenas alguns limitados momentos de
prazer. Daí a conhecida comparação schopenhauriana com o pêndulo:

É necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está


destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela
rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência
mesma se lhe tornam um fardo insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para
aqui e para acolá, entre a dor e o tédio (Schopenhauer, Mundo Como Vontade e Como
Representação, § 57).

Já Nietzsche encontra algo que justifica a dor, a própria vida: “a existência parece
bastante santa por si mesma para justificar por acréscimo uma imensidade de sofrimento”
(Nietzsche, Fragmentos Póstumos). Não cabe a nós julgar a dor, ela é parte do pacote e
devemos aprender a transformá-la em nosso combustível. Não se pode conquistar grandes
coisas sem a dor (Epicuro sabe bem disso, veja aqui). É daí que vem a famosa frase, “da
escola de guerra da vida: o que não me mata, torna-me mais forte” (Nietzsche, Crepúsculo dos
Ídolos).
Arte: seguindo esta lógica, cada filósofo também chega a uma definição de arte que
envolve os outros conceitos. Para Schopenhauer a vida é sofrimento, algo insuportável, pesado
demais. A única saída é o asceticismo, dos budistas e dos santos, ou a arte. Pela
contemplação estética temos a possibilidade de escapar da dor. Olhar o mundo à distância,
esquecê-lo por alguns minutos de prazer estético. Um lenitivo, um bálsamo, um calmante para
os desgostos e infortúnios da existência. Nietzsche segue o caminho oposto, a arte é a
afirmação da vida e só é útil se puder intensificá-la:

Toda arte, toda filosofia pode ser vista como remédio e socorro da vida em crescimento
ou em declínio: elas pressupõem sempre sofrimento e sofredores. Mas existem dois tipos de
sofredores, os que sofrem de superabundância de vida, que querem uma arte dionisíaca, e
desse modo uma perspectiva trágica da vida – e depois os que sofrem de empobrecimento de
vida, que requerem da arte e da filosofia silêncio, quietude, mar liso, ou embriaguez
entorpecimento, convulsão. Vingança sobre a vida mesma – a mais voluptuosa espécie de
embriaguez para aqueles assim empobrecidos!” – Nietzsche, Nietzsche contra Wagner.

Vida: Podemos explicar a visão que Schopenhauer tem da existência usando uma
anedota que ele próprio contava: imagine que se pudesse bater nas lápides dos cemitérios e
perguntar às almas que tranquilamente descansam se estas querem voltar à vida, certamente
que elas responderiam negativamente pois finalmente encontraram seu descanso eterno. Não
vale a pena viver: as felicidades não pagam as dores, por isso os mortos preferem continuar
onde estão. Já para Nietzsche a terra é a única verdade, única salvação: afirmada em seu
máximo mesmo com todas as dores, um eterno prazer em existir e uma confiança no devir.
“Minha fórmula para a grandeza do homem é amor-fati” (Ecce Homo, Por que sou tão esperto,
§10). Isso significa que quanto mais o homem é capaz de afirmar aquilo que lhe acontece, mais
forte ele se torna para encarar o presente.
Niilismo: Para Schopenhauer, a falta de finalidade da natureza é insuportável. O
homem, por ser a forma de vida mais complexa e bem acabada, tem acesso a todo sem-
sentido da existência. Não vale a pena viver porque uma vontade satisfeita rapidamente se
torna tédio e é substituída por outra vontade. A vida é sofrimento. O homem schopenhauriano
não consegue aceitar a realidade, sua saída é a calma contemplação do espetáculo do mundo,
abdicando de toda Vontade. Posteriormente, Nietzsche faz um rigoroso estudo de
Schopenhauer neste quesito. Ele chama a filosofia de seu predecessor de “niilismo passivo” e
desenvolve uma psicologia do homem ressentido neste quesito (já abordado no blog, clique
aqui). Nietzsche procura reabilitar o “niilismo passivo” transformando-o em “niilismo ativo”,
as tormentas do niilismo anunciam a grande saúde. O mundo não tem sentido? Tanto
melhor, só assim o homem forte, potente, pode criar valores. O além-do-homem criado por
Nietzsche é aquele que se alimenta do niilismo para criar seus próprios valores.
É muito importante salientar que esta exposição e as diferenças em questão não
trazem a resposta de quem está certo e quem está errado – os dois concordariam neste ponto:
não é uma problemática de qual filosofia é verdadeira e qual é falsa -, são apenas dois modos
de interpretar o mundo. Toda filosofia esconde uma biografia, um modo de vida. Os dois
nasceram em momentos diferentes e tiveram vidas diferentes, logo, cada um olhava o mundo à
sua maneira. Nem cabe a nós escolher uma ou outra, não é preciso cair no dogmatismo,
apenas entender as diferenças filosóficas e desfrutar a beleza que cada uma tem a oferecer.