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INTRODUÇÃO

À SINTAXE
DA LÍNGUA
PORTUGUESA

LETRAS LIBRAS|101
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INTRODUÇÃO À SINTAXE
DA LÍNGUA PORTUGUESA

Camilo Rosa Silva

CARTA A ALUNOS E ALUNAS

Caríssimos e Caríssimas,

Nos dias atuais, quando a tecnologia permite que as distâncias sejam medidas em
segundos, o tempo se confunde com o espaço. As transformações todas por que passa a
humanidade, cada vez mais globalizada, se fazem sentir, também, no uso e no estudo da
linguagem.
Assim, aprofundar nossa compreensão sobre a característica que mais nos torna humanos -
a capacidade de abstratizar o mundo real e processar a expressão do outro, atribuindo-lhe
significados através da língua natural - é algo provocante, instigante, estimulante...
Dessa maneira, este encontro que a EAD agora facilita se materializará na condução de
atividades dialógicas atreladas a um objetivo que se desfolha em vários outros: conhecer a língua;
acessar o conhecimento produzido por diferentes posturas teóricas; vislumbrar as estruturas
lingüísticas e averiguar as regularidades e especificidades de seu funcionamento.
Nesse lugar, a Sintaxe, que contém em sua própria concepção, enquanto área do
conhecimento, o estudo das combinações entre os termos constitutivos dos enunciados pode
sugerir-nos uma já desgastada mas inevitável metáfora: a ligação entre nós que estamos cá e
vocês que estão do outro lado. Entretanto, mais do que em lados opostos ou distanciados pela
geografia, a virtualidade que hora nos aproxima faz convergir ideais de compartilhamento, de
permuta, de câmbio de saberes e experiências, cuja vivência nos anima e impulsiona.

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Neste ensejo, ressaltamos que a Sintaxe, preocupada que é com os elos, sugere-nos que
estendamos a mão e que estejamos receptivos ao outro, num sentimento revelador de que o
desejo de aprender é determinante em qualquer processo de formação.
Reconhecemos que a tarefa ora encarada não é das menos árduas: a linguagem verbal é
tão complexa quanto simples; pode fluir na espontaneidade do falar coloquial ou rebuscar-se em
torneios sintáticos e estilísticos altamente elaborados... As teorias que se propõem a desvelá-la
vão avolumando informações, por vezes, facilmente assimiláveis, outras tantas forjadas em densa
impenetrabilidade.
Nosso esforço convergirá para uma proposta que apresente as idéias nucleares dos
estudos na área em tela, fazendo-o de forma introdutória, mas sem perder de vista a possibilidade
de aprofundamento – ao gosto do estudante – com a exposição de referências que sinalizam a
verticalização dos estudos sobre a língua.
Assim, cabe-nos, de antemão, reforçar o convite ao estudo da Sintaxe, disponibilizando-nos
a mediar a construção de uma jornada que seja, ao mesmo tempo, instrutiva e prazerosa.
Oxalá seja bem sucedida nossa experiência...
Com um abraço!
Camilo Rosa Silva

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Para início de conversa...

Nosso plano de estudo para a disciplina Sintaxe está organizado em três unidades. Em cada
uma delas, abordamos aspectos distintos, mas viselvemente interrelacionados, com o objetivo de
contemplar pontos teóricos, somados às referências históricas e algumas análises de elementos
terminológicos pertinentes à disciplina. Para completar a abordagem, direcionamos a atenção à
reflexão sobre o ensino e a apredizagem da língua, tendo em mente seu uso nos diversos
contextos que envolvem os processos interacionais.

Na Unidade I, apresentamos um panorama dos estudos da Sintaxe, apontando os


elementos que compõem essa área de interesse dos estudos da linguagem, suas bases teóricas,
sua configuração enquanto área do conhecimento, e a contribuição da lingüística para a
sedimentação da referida disciplina.

Na Unidade II, enfocamos a abordagem considerada tradicional, ressaltando o caráter


metalinguístico que a caracteriza. Trazemos à tona a terminologia utilizada pelos gramáticos e
autores de livros didáticos de português, atentando à relevância que a posse desse conhecimento
apresenta para a descrição da língua portuguesa.

A Unidade III traz uma reflexão sobre a diversidade de abordagens que analisam a
línguagem, ressaltando a contribuição que perspectivas distintas podem imprimir ao ensino da
língua.

Este capítulo de Sintaxe é permeado por uma tentativa de dialogar com aspectos
linguísticos da Lingua Brasileira de Sinais, vislumbrando possíveis convergências entre as
estruturas e respectivas funções sintáticas de Libras e da Língua Portuguesa.

O percurso que agora iniciamos é pontuado por uma preocupação recorrente, a qual
tentamos impor como nosso propósito mais instigador: realizar uma reflexão sobre a sintaxe,
considerando a relevância que o conhecimento sobre a gramática representa nesse permanente
dinamismo caracterizador da língua, de seu uso, de seu estudo... e da própria vida!

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UNIDADE I

O QUE É SINTAXE

Entendemos por sintaxe a relação estabelecida entre os elementos linguísticos que atuam
na formação dos enunciados. Assim, a constituição de frases, orações e períodos, considerando-se
os diversos contextos em que se usa a língua, é o objeto de estudo dessa disciplina. De fato, por
constituir-se enquanto fenômeno que ativa a relação entre os itens linguísticos, atuando na
estruturação e organização dos textos, a sintaxe assume, entre as diversas correntes teóricas que
se preocupam com o estudo da linguagem, uma grande importância.

Constumamos entender que a Sintaxe compreende estudos dos processos gerativos,


combinatóros e formadores das frases nas diversas línguas naturais. Sua origem, enquanto ramo
de estudo da linguagem, remonta aos gregos. Os reflexos da tradição fundada pelo filósofo
Aristóteles podem ser apontados na divisão da frase em sujeito e predicado, concepção ainda hoje
evidenciada nos estudos veiculados em gramáticas e livros didáticos de língua portuguesa.

No dicionário de linguística organizado por Jean Dubois et al. (1997, p. 559), encontramos a
seguinte definição para sintaxe:

parte da gramática que descreve as regras pelas quais se combinam as unidades


significativas em frases; a sintaxe, que trata das funções, distingue-se
tradicionalmente da morfologia, estudo das formas ou das partes do discurso, de
suas flexões e das formações das palavras ou derivação. A sintaxe, às vezes tem
sido confundida com a própria gramática.

Da definição apresentada, podemos perceber que os autores tentam definir a sintaxe


comparando-a com a morfologia. Como ambas as disciplinas focalizam a estrutura dos
enunciados, ou seja, há preocupação com o estudo da forma, encontra-se, assim, um forte vínculo
entre elas.

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Nesse exercício comparativo, no entanto, é importante destacar que a preocupação da
morfolgia se restringe aos limites da estruturação das palvaras, enquanto a sintaxe se preocupa
com a combinação que estas realizam na linearidade do discurso.

Assim, estariam identificadas as fronteiras e objetos de uma e outra disciplina. Entretanto,


não é raro, como já indicamos, que os estudos da linguagem aproximem essas duas áreas
utilizando para tanto o termo morfo-sintaxe. Isso faz sentido, especialmente, porque a morfologia
trata da formação e estrutura dos itens lexicias e, no interior deles, há diversas possibilidades de
combinações facultadas pelo sistema linguístico. Assim, raízes e radicais se combinam com
prefixos, sufixos, flexões e desinências, observando-se que determinadas combinações são
possíveis, enquanto outras não são admitidas pelos próprios sistemas das línguas. Fenômeno
semelhante corre na combinação entre os itens linguísticos que se agrupam na formação das
frases, o que constitui mais um elemento dessa aproximação entre a sintaxe e a morfologia.

O autor da Gramática da Língua Portuguesa, Domingos Paschoal Cegalla (2010, p. 269)


apresenta a análise sintática como a parte da gramática que

examina a estrutura do período, divide e classifica as orações que o constituem e


reconhece a função sintática dos termos de cada oração. As palavras, tanto na
expressão escrita como na oral, são reunidas e ordenadas em frases. Através da
frase é que se alcança o objetivo do discurso, ou seja, da atividade linguística: a
comunicação com o ouvinte ou o leitor.

Entre os gramáticos, é pacífica a consideração de que a sintaxe se constitui, dentre os


aspectos do funcionamento das línguas, como digna da maior atenção. Evanildo Bechara (2009),
por exemplo, localiza a sintaxe dentre os aspectos linguísticos que devem constar
obrigatoriamente em uma gramática normativa. Esse autor é um dos que preferem agrupar
sintaxe e morfologia, utilizando o termo “morfossintaxe”, porque, em sua visão, essa união estaria
mais próxima do que de fato ocorre na realidade linguística. Vejamos o que pensa Bechara:

A parte central da gramática pura é a morfossintaxe, também com menos rigor


estudada como dois domínios relativamente autônomos: a morfologia (estudo
da palavra e suas “formas”) e a sintaxe (estudo das combinações materiais ou
funções sintáticas). Ocorre que, a rigor, tudo na língua se refere sempre a
combinações de “formas”, ainda que seja combinação com zero ou ausência de
“forma”; assim, toda essa pura gramática é na realidade sintaxe, já que a própria

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oração não deixa de ser uma “forma” (na lição tradicional, ela não pertence ao
domínio da morfologia). (p. 54)

Como já afirmamos, o autor prefere falar em morfossintaxe, destacando o aspecto formal


da sintaxe e, nesse caso, evidenciando sua correlação direta com a morfologia. Ainda segundo o
autor, nenhuma estrutura linguística, que do ponto de vista tradicional pertenceria ao domínio da
sintaxe, deixa de se apresentar como uma forma.

Do exposto, basta-nos, a principio, entender que a preocupação básica da sintaxe é


descrever e analisar a relação que as palavras mantêm entre si na organização das frases, ou seja,
dos enunciados. Se quiséssemos fazer uma analogia entre sintaxe e o corpo humano, poderíamos
pensar que a sintaxe seria a coluna dorsal da língua, ou seja, a estrutura em torno da qual se
organizam os demais componentes que formam o todo. Na língua, essa responsabilidade pelos
elos e encadeamentos caberia à sintaxe.

DE OLHO NA LÍNGUA

Se observarmos atentamente a fotografia abaixo, veremos que o modo como as pessoas se ligam
umas às outras para formarem uma corrente, constituindo um todo no qual cada parte tem sua
importância, mas funciona na dependência do outro, podemos afirmar que se trata de um processo
sintático.
Assim também ocorre com os elementos linguísticos. Eles têm seu valor, o qual se atualiza quando
se organizam em relações lineares, ou seja, sintáticas.
Algumas vezes, as mãos que se unem são elementos meramente gramaticais, outras vezes, os
próprios itens lexicais dão conta dessa relação.

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DIALOGANDO COM LIBRAS
A sintaxe da Língua Portuguesa não é igual à sintaxe da Língua Brasileira de
Sinais. De fato, a disposição como as línguas organizam, particularmente,
seus elementos linguísticos, sejam lexicais ou gramaticais, é específica.
Isso não que dizer que haja menor ou maior complexidade numa língua
oralizada, como o português, em relação a Libras ou a qualquer outra
língua.
Na realidade, cada sistema linguístico tem suas especificidades, suas
singularidades, o que torna as diversas línguas, cada uma a sua maneira,
complexas para os que não as têm como língua materna.

SINTAXE: ASPECTOS HISTÓRICOS

Etimologicamente, o termo sintaxis tem origem na língua grega e significa ordem,


disposição. Na tradição dos estudos da linguagem, a sintaxe se consolidou como parte da
gramática que estuda a descrição dos processos combinatórios através dos quais as palavras
compõem as sentenças.
Durante muito tempo, a fonética/fonologia e a morfologia foram privilegiadas pelo
interesse dos estudiosos da linguagem, fato que se manteve até metade do século XX. Na
evolução do latim para o português, por exemplo, os estudos históricos destinaram pequena
atenção à sintaxe, privilegiando, basicamente, aspectos fonético-fonológicos e morfológicos. Em
parte, isso se deveu ao fato de que se percebia na sintaxe uma infinitude de possibilidades
funcionais que fugia ao controle dos estudiosos, sempre preocupados em definir positivamente
aspectos formais da língua.
No percurso histórico dos estudos da linguagem, a sintaxe ganhou significativo relevo a
partir da teoria elaborada pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky, que defendeu a
natureza gerativa da língua, instigando a realização de relevantes estudos nessa área. O autor
defende que o falante detém um conhecimento inato, que possibilita a utilização da língua em

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combinações ilimitadas, respeitando as condições estruturais impostas pelos próprios sistemas
linguísticos.
Chomsky assegura que a sintaxe ocupa um papel central na língua, já que está relacionada
à capacidade que o falante tem de elaborar sentenças. Ele defende que o homem já nasce com
essa capacidade, ou seja, ela é algo inerente à condição humana.
As línguas naturais são constituídas por um lado físico, estrutural, que é o próprio material
linguístico, e por outro componente, que é o funcional, responsável pela atribuição de sentidos ao
que se fala e se escreve, ou seja, aos usos da língua, considerando-se os contextos sociais de
interação. Desse modo, historicamente, à medida que se privilegia um ou outro desses aspectos,
os estudos vão apontando tendências e construindo conhecimentos que se tornam
representativos de abordagens diversas, conhecidas por nomes mais gerais, como Estruturalismo,
Gerativismo, Funcionalismo e Sociointeracionismo.

Nos estudos que se preocupam com a sintaxe das línguas, em geral, há contribuições
consistentes formuladas por essas variadas teorias. Todas elas e os muitos autores que as
representam têm seu valor e, embora apontem descrições e resultados distintos em suas
abordagens, são responsáveis pelo que se sabe hoje a respeito da natureza complexa e
multifuncional das línguas humanas. Não se trata, portanto, de eleger esta ou aquela teoria por se
entender que uma seja mais correta que a outra. O fato é que cada abordagem observa a língua a
partir de um ponto de vista específico e, em conseqüência da especificidade do lugar de onde se
lança o olhar sobre os fenômenos e fatos linguísticos, enxergam-se comportamentos também
específicos.

Apesar da diversidade de tratamentos que promovem discussões, análises e


questionamentos distintos, vale salientar que, quando se fala em sintaxe, independentemente da
linha teórica utilizada, o que se pretende referir é a maneira como se realizam as combinações
entre os elementos linguísticos, sua estrutura, suas relações e seu funcionamento na linearidade
discursiva.

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DIALOGANDO COM LIBRAS
A análise da American Sign Language (ASL), realizada por Stokoe,
em 1960, constitui o estudo pioneiro que vai reconhecer as
línguas de sinais como constituídas por componentes básicos
comuns a todas as línguas, ou seja, o fonológico, o morfológico e o
sintático. Isso é importante porque ratifica as línguas de sinais
como possuidores de uma gramática própria.

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

Os conceitos e definições apresentados


aqui precisam ser confrontados com
outros apontamentos para que você
observe o que autores diversos dizem
acerca dessa temática.
Para isso, propomos que faça uma coleta,
em gramáticas e manuais didáticos, do
conceito de sintaxe, observando se a
delimitação dessa área de estudos
apresentada pelos autores revela
consistência e clareza.
Observe, ainda, se há, no tratamento
dado pelos autores, referências à relação
entre morfologia e sintaxe.
Consulte, pelo menos, três fontes
distintas.

LETRAS LIBRAS|111
UNIDADE II

1 Frase, oração, período

Neste capítulo, nos dedicaremos ao estudo da sintaxe numa abordagem considerada tradicional.
Em outras palavras, estudaremos, basicamente, a organização da estrutura do discurso, referindo a
terminologia já consagrada pelos estudos da gramática do português. Historicamente, esse tipo de
abordagem parte da tríplice classificação nas unidades enunciativas em frase, oração e período.

Vamos revisitar esses conceitos:

Frase

É a menor unidade de comunicação com sentido completo. Pode ser formada por apenas uma
palavra, ou por um grupo de palavras, conforme os exemplos a seguir:

(1) Silêncio!
(2) Que Calor!
(3) Você?
(4) Meu time ganhou o campeonato.
(5) Repita o exercício tantas vezes quanto seja necessário.
(6) O Congresso aprovou o código florestal sem pensar nas consequências.

As construções de (1) a (6) permitem observar que a frase pode ou não organizar-se em
torno de um verbo. Na língua oral, ela é caracterizada pela entoação, que pode ser acompanhada
pela mímica, além de ser complementada pela situação ou contexto em que o falante se encontra,
como é o caso dos dois primeiros exemplos.

Muitas vezes, o que constitui uma frase em um contexto pode não fazer nenhum sentido
em outro e, por não funcionar comunicativamente, deixa de ser frase. Por exemplo: um cartaz
com a palavra “Silêncio” é uma frase, se estiver na parede de uma biblioteca ou de um hospital,
mas não faria sentido se fosse colocado em uma feira livre ou na porta de uma boate.

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Dependendo das intenções de quem as produz, as frases tem diversas classificações.
Muitas vezes, essa classificação não é determinada apenas pela forma, ou seja, pelos elementos
linguísticos, mas recebe forte influência do contexto de uso. A frase do exemplo (2), se
pronunciada em uma sala fechada, pode ser uma solicitação para que se abram as janelas,
deixando de ser uma frase meramente declarativa e passando a ser apelativa.

Numa frase como:

(7) Gostaria de saber se você vai à reunião.

Não há ponto de interrogação no final nem uma entonação semelhante ao padrão das
frases interrogativas, mas fica claro que a intenção do autor da frase é formular uma pergunta.

A frase do exemplo (3) só funciona comunicativamente em um contexto específico, no qual


se desenvolva o diálogo entre dois ou mais interlocutores, e embora o sinal utilizado seja de
interrogação, a frase pode muito bem cumprir uma função exclamativa, que denote espanto,
admiração ou incredulidade.

Portanto, o que determina o tipo a que pertence uma determinada frase é um conjunto de
fatores dependentes do contexto, das intenções dos falantes e das condições de recepção e
interpretação por parte dos interlocutores.

Oração

Quando a frase se organiza em torno de um verbo ou locução verbal recebe o nome de


oração. Nos exemplos apresentados até aqui, apenas (4), (5), (6) e (7) contém orações, já que (1),
(2) e (3) não apresentam nenhum verbo em sua estrutura. Geralmente, a oração é formada por
um sujeito e um predicado; é o caso do seguinte exemplo:

(8) O balão caiu sobre a plantação.


(sujeito) (predicado)

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Pode existir oração sem sujeito, mas não há oração sem predicado. Na frase a seguir, não
há identificação de um termo que corresponda ao que se entende por sujeito 6, portanto, a oração
é formada apenas por predicado:

(9) Choveu durante a madrugada.

Apesar de haver oração sem sujeito, a classificação tradicional considera essas duas
funções (sujeito e predicado) como Termos Essenciais da Oração.7

A Língua Portuguesa se caracteriza por apresentar preferência pela construção dos


enunciados com a sequência: sujeito + predicado. O predicado é constituído, geralmente, por um
verbo e seu complemento. Embora isso não seja categórico, uma vez que essa posição pode ser
invertida, se diz que ela é uma língua de estrutura S+V+O (sujeito + verbo +objeto).

DE OLHO NA LÍNGUA

Nem sempre a oração corresponde exatamente à frase. Por exemplo, em Convém que te apresses há duas
orações e uma só frase, pois somente o conjunto das duas é que traduz um pensamento completo;
isoladas, elas constituem simples fragmentos de frase, ou seja, uma é parte constitutiva da outra: que te
apresses é o sujeito de convém. Vale salientar, também, que é comum usar-se os termos estrutura,
sentença e enunciado, de forma genérica, como sinônimos para frase, período e oração.

Período

Chamamos de período ao enunciado formado por uma ou mais orações. Segundo a classificação
tradicional, o período pode ser:

Ø Simples - quando constituído de uma só oração:

(10) A rua estava deserta.


6
Ver adiante definição de sujeito e predicado.

7
Essa discussão será retomada adiante.

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Ø Composto - quando constituído de duas ou mais orações:

(11) A rua estava deserta quando aconteceu o crime.

A presença do verbo é que define a existência ou não de oração. Um período tem tantas
orações quantos forem os verbos nele presentes. Em (10), temos um verbo e, portanto, uma
oração; em (11), há dois verbos e, consequentemente, duas orações.

DIALOGANDO COM LIBRAS


“A sintaxe descreve a ordem e a relação entre as palavras e os termos da oração,
caracterizando-se, em Libras, na maioria das vezes, pela organização sintática dos sinais
na seguinte ordem: sujeito – verbo – objeto (SVO), que é um dos princípios universais
possíveis para a organização das palavras na frase.” (BRITO, 1995; QUADROS & KARNOPP,
2004)

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

O Coveiro

Millôr Fernandes

Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na
distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais.Tentou sair da cova e não conseguiu.
Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu.
Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a
noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas
tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouviu um som humano, embora o
cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite

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é que vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram.
Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: "O que é que há?"

O coveiro então gritou, desesperado: "Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!" "Mas,
coitado!" - condoeu-se o bêbado - "Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima
de você, meu pobre mortinho!" E, pegando a pá, encheu-a e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela.

A propósito do texto.
a. Retire duas frases;
b. Retire uma oração formada apenas por um verbo;
c. Identifique um período composto.

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

Procure em gramáticas tradicionais e livros didáticos


outros exemplos de frase, período e oração,
observando se eles se encaixam nas definições
anotadas nesta seção.

2 Os constituintes oracionais

Vejamos, agora, os termos que compõem a oração.

A Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) considera o sujeito e o predicado termos essenciais


da oração. Usar essa terminologia implica dizer que o sujeito e o predicado são termos
indispensáveis para a formação da oração. Isso é verdadeiro para grande parte das orações da
língua, que realmente se estruturam a partir desses dois termos ditos fundamentais. Já vimos, no
entanto, que existem orações formadas exclusivamente pelo predicado, ou seja, existe a
possibilidade de haver oração sem sujeito, o que significa dizer que a oração pode estar completa
mesmo sem apresentar um dos termos essenciais.

LETRAS LIBRAS|116
2.1 Definindo o sujeito

Numa perspectiva meramente sintática, o sujeito é o elemento com o qual o verbo


concorda em pessoa e número. Examinemos os exemplos:

(12) As chuvas alagaram o sertão paraibano.


(13) A nuvem encobriu o sol ao meio-dia.
(14) Foram distribuídos pelo Ministério da Educação todos os livros solicitados.

Observemos que em todas as orações o verbo concorda com o sujeito, em relação à


pessoa do discurso (1ª, 2ª e 3ª) e à variação de número (singular e plural),
independentemente de estar posicionado antes ou depois do predicado.

É IMPORTANTE LEMBRAR:

Ø O sujeito nem sempre inicia a oração, ou seja, ele pode estar anteposto ou posposto ao
verbo.
Ø O verbo concorda em número e pessoa com o sujeito.
Ø Quando o sujeito não está presente, diz-se que o sujeito é oculto, implícito ou desinencial
– porque pode ser identificado no contexto pela terminação do verbo.
Ø Identificado o sujeito, o restante da oração constitui o predicado.

DE OLHO NA LÍNGUA

Tradicionalmente, o sujeito tem sido classificado em simples, composto, oculto, indeterminado e


inexistente. Essa é a terminologia mais frequente em gramáticas pedagógicas e em livros
didáticos. Ao lado dela, encontram-se denominações como sujeito implícito e oração sem sujeito.
Também é possível encontrar referências a sujeito agente e sujeito paciente.

Essa classificação tem valor didático para identificar formas possíveis de estruturação das frases
do português, mas é bastante questionada pelos especialistas. Eles criticam as abordagens que as

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escolas fazem desses conteúdos, afirmando que são inconsistentes e improdutivas, deixando de
valorizar o domínio sobre os usos da língua e cobrando dos alunos a memorização de
terminologias que não desenvolvem suas habilidades linguísticas.

Frequentemente, a mistura de critérios sintáticos e semânticos para a classificação do sujeito é


apontada como aspecto negativo dessas análises. Por exemplo: ao se falar em sujeito agente ou
paciente – aquele que pratica e aquele que sofre a ação – o critério é semântico.

É também comum ver-se definições como:

Sujeito é o ser que pratica a ação. Então, na frase “Miguel apanhou de João” o sujeito teria que ser
João (mas não é).

Ou ainda:

Sujeito é o ser sobre o qual se declara algo. Então na frase: Segundo Flávia, João é incompetente,
o sujeito teria que ser Flávia que é quem faz a declaração (mas não é).

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

A Morte Devagar
Martha Medeiros

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as
mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova,
não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem
comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante
de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com
apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

LETRAS LIBRAS|118
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a
um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e
soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o
certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos
sensatos.

[...]

Identifique os sujeitos presentes no texto acima. Lembre-se de que para cada oração deve (ou
pode) haver um sujeito e um predicado.

In http://zerohora.clicrbs.com.br/ acesso em maio de 2011.

2.2 Definindo o predicado

A gramática tradicional reconhece três tipos de predicado: verbal, nominal e verbo-


nominal.

O predicado verbal é aquele que tem como elemento central um verbo:

(15) Ocorreu um fato inesperado.


(16) O velho prédio foi demolido.

O predicado nominal tem como núcleo significativo um nome; esse nome atribui uma
qualidade ou estado ao sujeito, daí ser chamado de predicativo do sujeito:

(17) O copo cristal é frágil. (adjetivo)


(18) A vida é uma luta. (nome)

Há predicativos do sujeito formados por expressões mais complexas:

(19) “A raça humana é uma semana do trabalho de Deus.” (Gilberto Gil)

LETRAS LIBRAS|119
O predicado pode ser também verbo-nominal: apresenta dois núcleos significativos: um
nome e um verbo. No predicado verbo-nominal, o predicativo pode referir-se ao sujeito
(predicativo do sujeito) ou ao complemento verbal (predicativo do objeto):

(20)O dia amanheceu ensolarado.


sujeito verbo predicativo do sujeito

(21)As mulheres julgam os homens inconstantes.


Sujeito verbo objeto direto predicativo do objeto

DE OLHO NA LÍNGUA

Assim como ocorre com o sujeito, a análise do predicado se dá, nas gramáticas tradicionais,
geralmente, em orações isoladas, construídas com essa finalidade, ou em exemplos
descontextualizados, retirados de textos da literatura. Como podemos observar nos exemplos
apresentados até aqui, não há grandes dificuldades em identificar esses termos nesses tipos de
ocorrências.

Entretanto, em outras situações de usos da língua, os textos são construídos através da


sobreposição ou do entrelaçamento das ideias e nem sempre os limites da frase coincidem com a
junção dos termos chamados essenciais, sujeito e predicado. Em um texto longo, por exemplo, o
sujeito pode ser apresentado numa frase e ser retomado mais adiante, através de variadas
estratégias coesivas, as quais dispensam a repetição de determinadas estruturas (sujeito e
predicado).

LETRAS LIBRAS|120
DIALOGANDO COM LIBRAS

Assim como a Língua Portuguesa, a Libras apresenta uma


predominância da ordem SVO (sujeito + verbo + objeto) quando
o sujeito e o objeto estão explícitos na sentença. Por exemplo:

JOÃO AMAR ELA MARIA


João ama Maria
MARIA GOSTAR ELE JOÃO
Maria gosta de João.

Entretanto, é importante anotar que essa ordem não é fixa,


podendo haver alteração, uma vez que tanto o sujeito quanto o
objeto podem ser omitidos na construção das sentenças em
libras. (QUADROS, 1997)

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

Retomando o fragmento do texto O Coveiro, de Millor Fernandes, retire dele cinco orações e
classifique os predicados que as constituem.

LETRAS LIBRAS|121
3 A transitividade verbal

Inicialmente, é possível separar os verbos que contém uma significação própria e


acrescentam informações sobre os sujeitos, funcionando como núcleo do predicado: são os
chamados verbos significativos; outros, entretanto, não podem ser considerados núcleos porque
sua carga informacional é reduzida a um papel funcional de elo entre o sujeito e uma informação
qualificativa ou circunstancial relativa a esse sujeito; são os verbos de ligação.
Costuma-se pensar a transitividade verbal como a condição de completude ou
incompletude do significado, no sentido de o verbo necessitar, ou não, de um outro termo que lhe
complete o sentido na formação de um determinado predicado.
Há verbos que, sozinhos, podem dar conta de um predicado. São chamados de
Intransitivos. Mas há outros que não conseguem preencher todo o sentido da informação e
exigem complementos denominados de objetos; são os verbos transitivos. Os verbos podem se
ligar diretamente ao seu complemento, ou seja, são transitivos diretos; e outros podem fazê-lo
com o auxílio de uma preposição, isto é, são verbos transitivos indiretos.

(22) Amanheceu.

Neste exemplo, temos um verbo intransitivo, pois expressa uma idéia completa e, por isso,
dispensa complemento.

(23) Maria confia em você.

Neste caso, diz-se que o verbo (confia) é transitivo já que seu significado não se esgota em
si mesmo, mas se estende a outra palavra que lhe serve de complemento.

Como afirmamos acima, os verbos transitivos subdividem-se em:

a - Transitivos diretos (VTD): quando exigem um complemento sem preposição obrigatória. Esse
complemento é o objeto direto.

(24)O sorveteiro derrubou o carrinho.


VTD objeto direto

LETRAS LIBRAS|122
b - Transitivos indiretos (VTI): quando pedem um complemento com preposição obrigatória. Esse
complemento é o objeto indireto.

(25)João gosta de matemática.


VTI objeto indireto

c - Transitivos diretos e indiretos (VTDI): quando exigem dois complementos, um sem preposição
e outro com preposição obrigatória (o objeto direto e o objeto indireto).

(26)Maria ensina matemática para quatro turmas.


VTDI objeto direto objeto indireto

Atenção: Os verbos de ligação (VL) servem como elo entre o sujeito e seu atributo. Eles não
recebem complementos verbais, os chamados objetos, e sim predicativos do sujeito.

(27) O curso de Libras é valorizado.


VL predicativo do sujeito

DE OLHO NA LÍNGUA

A predicação de um verbo somente pode ser determinada no contexto de uso, nunca


isoladamente:

a. A canoa virou. (verbo intransitivo – predicado verbal)

b. A cozinheira virou o frango na assadeira. (verbo transitivo – predicado verbal)

c. Diante disso, papai virou uma fera. (verbo de ligação – predicado nominal)

Observe que o verbo virar, como tantos outros na língua portuguesa, possui uma transitividade
relativa. Além disso, ele pode mudar sua predicação; ora ele é predicado verbal, ora nominal.

Reiteramos aqui a necessidade de considerar que nos fatos da língua em situações de uso, a
realidade é bem diferente de quando utilizamos exemplos construídos como virtualidades que
servem de modelo para ilustrar determinadas classificações. Em um diálogo entre pessoas que
estejam frente a frente, a repetição de determinadas estruturas linguísticas torna-se

LETRAS LIBRAS|123
desnecessária. Isso significa que o contexto pode ter interferência direta na presença ou ausência
de alguns complementos verbais, mas isso não faz com que o verbo mude sua transitividade.

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

Texto:

O candidato a deputado sobe no palanque e diz:

- Neste bolso nunca entrou dinheiro do povo.

Aí grita uma pessoa que assistia ao comício:

- Calça nova, heim, Excelência!

Classifique, quanto à transitividade, os verbos sublinhados no texto humorístico acima.

LETRAS LIBRAS|124
4 Estudo do Período Composto

Sabemos que num período composto, normalmente estruturado – isto é, não constituído
por frases de situação ou contexto - as orações se interligam mediante dois processos sintáticos
universais: a coordenação e a subordinação.

Orações coordenadas e subordinadas

Leia o período a seguir:

(28) O carteiro bateu palmas no portão, mas a moça não ouviu.

Nesse período há duas orações:

1ª oração: O carteiro bateu palmas no portão,

2ª oração: mas a moça não ouviu.

A ligação de uma oração com a outra se faz, muitas vezes, por meio de uma conjunção
coordenativa, se as orações forem da mesma natureza (ou categoria), ou seja, se elas tiverem a
mesma estrutura sintático-gramatical, apresentando um processo de encadeamento de idéias. É o
que ocorre em (28).

Enquanto a coordenação se estrutura a partir da igualdade de valores sintáticos, a


subordinação surge quando elementos de valores sintáticos diferentes estabelecem conexões
entre si. É um processo de hierarquização, em que o enlace entre as orações é muito mais forte do
que na coordenação. Nenhuma oração subordinada subsiste por si mesma, isto é, sem o apoio da
sua principal. Isso quer dizer que qualquer oração subordinada é, na realidade, um fragmento de
frase, como se pode perceber no exemplo abaixo:

(29) Dizem / que o circo chegará hoje.


Oração principal oração subordinada

LETRAS LIBRAS|125
AMPLIANDO O CONHECIMENTO

Pesquisa em gramáticas ou livros didáticos como se


classificam as orações coordenadas e as subordinadas.
Apresente exemplos para cada tipo.

Não é nossa intenção, nessa disciplina, apresentar detalhadamente todos os processos de


coordenação e de subordinação. A classificação das conjunções que fazem parte desse processo é
assunto que vocês já viram no ensino médio. No entanto, faremos alguns comentários sobre o
tema, enfatizando o valor semântico de determinados elementos coesivos (conjunções) em
algumas estruturas da língua portuguesa.

Prestem atenção nessas frases:

(30) Mas, amigo, explique isso melhor.

(31) As condições de trabalho eram adequadas e o salário era baixo.

(32) A caminhada é muito longa e vamos partir bem cedo.

Sabemos que a conjunção mas, conforme atesta a maioria de suas ocorrências na língua
portuguesa, é adversativa. No entanto, percebemos em (30) que, semanticamente, ela não traduz
a idéia de oposição; apenas tem a função de chamar a atenção do ouvinte, ou é usada para dar
início a uma conversa. No exemplo (31), a conjunção e indica uma oposição, podendo ser
substituída pela conjunção mas. Já em (32), o e tem valor semântico de conclusão, tarefa
normalmente atribuída às conjunções logo, portanto, então.

DE OLHO NA LÍNGUA

Os itens linguísticos, também, podem mudar de categoria, ou seja, deixarem suas funções
originais para assumirem outras funções. Vejamos:

Mal saiu de casa, começou a chover.

LETRAS LIBRAS|126
Fica evidente neste exemplo que o termo mal, tradicionalmente usado como substantivo (ex.: O
mal prevaleceu), ou advérbio (ex.: Ele jogou muito mal) muda de categoria, passando a funcionar
como uma conjunção conclusiva equivalente a assim que, logo que, etc. (ex.: Assim que saiu de
casa, começou a chover).

Os pesquisadores têm chamado esse fenômeno, em que há mudança de categoria dos termos ou
expressões linguísticas, de GRAMATICALIZAÇÃO.

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

Procure selecionar frases comuns do dia-a-dia em que algumas conjunções aparecem com sentido
diferente daquele normalmente apresentado nas gramáticas tradicionais.

O Período Misto

Para que vocês entendam o que é período misto, é necessário recuperarmos as noções de período
composto por coordenação e de período composto por subordinação.

As orações que compõem um texto nem sempre apresentam uma formulação que se enquadram
em um ou outro formato, ou seja, a coordenação e a subordinação. Nos usos da língua, no dia a
dia, especialmente, na oralidade, é comum vermos orações que se sucedem ou se superpõem em
combinações que misturam a autonomia da coordenação e a dependência da subordinação.

Vejamos o seguinte período:

(33) Os jogadores treinaram de manhã e o técnico orientou aqueles que estavam com dúvidas.

Temos três orações:

a. Os jogadores treinaram de manhã


b. e o técnico orientou aqueles
c. que estavam com dúvidas.

LETRAS LIBRAS|127
A primeira oração pode ser considerada sintática e semanticamente completa; a segunda se
soma à primeira, mas apresenta um outro tipo de relação com a terceira. Portanto, entre as duas
primeiras orações, há uma relação de independência, mas a relação que a terceira mantém com a
segunda é de dependência. Temos, então, um exemplo de período misto, no qual encontramos
duas orações coordenadas e uma subordinada.

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

“Ao fazer a leitura do livro, posso, sem demagogia, confessar que fiquei bastante emocionado.
Aos poucos minha memória resgatou meu passado, Parelhas... Lia bastante, principalmente os
romances. Meus prediletos eram aqueles que retratavam o nosso Nordeste. Emocionava-me com
os personagens, envolvia-me na leitura. (Esquecia o feijão de mamãe).
“ Com Notas para uma canção do Exílio, esqueci o tempo, o alimento, as minhas obrigações
passaram alheias ao meu sentido, só para perceber a existência de uma Serra Negra que, sem
dúvidas, é a mesma minha Parelhas adormecida em minha memória.” (Eduardo Eneas – sobre o
livro Notas para uma Canção do Exílio)

A propósito do texto acima, tente classificar os períodos. Em seguida, separe e classifique todas
as orações.

DIALOGANDO COM LIBRAS


Em seu estágio atual, a Libras constitui um sistema completo, com
uma sintaxe própria: um sistema de ajuntamento de elementos
menores em palavras e um sistema de construção de sentenças a
partir daquelas palavras. (SOUZA, 1998)

LETRAS LIBRAS|128
Se compararmos os enunciados dos exemplos abaixo, veremos
que se enunciam informações similares, utilizando combinações
seqüenciais e escolhas lexicais típicas de cada língua.
Vejamos os exemplos:
1. O professor de Português é insubstituível. (Português)
2. Ninguém professor Português. (língua de sinais)

NINGUÉM PROFESSOR PORTUGUÊS


(Exemplos retirados do livro: Entre a Visibilidade da Tradução da
Língua de Sinais e a Invisibilidade da Tarefa do Intérprete, de
Andréa da Silva ROSA)

OS TERMOS INEGRANTES DA ORAÇÃO

O predicado, um dos termos essenciais da oração, é constituído por elementos que, relacionados
ao verbo ou a seus objetos, exercem funções sintáticas determinadas. A abordagem tradicional
denomina essas funções de complemento verbal (objeto direto e objeto indireto), complemento
nominal e agente da passiva.

Os complementos verbais já foram lembrados no estudo da transitividade verbal. Aqui,


comentaremos o complemento nominal e o agente da passiva.

Observem as frases a seguir:

LETRAS LIBRAS|129
(34) A UFPB deu apoio aos pesquisadores.
Sujeito + VTD + objeto direto + objeto indireto

(35) O reitor fez entrega dos prêmios aos vencedores.


Sujeito + VTDI + objeto direto + complemento nominal + objeto indireto

O complemento nominal tem algumas semelhanças com o objeto indireto. Por exemplo,
ambos estão sempre acompanhados de preposição. O que os distingue é o termo a quem cada um
se refere: o objeto complementa um verbo e o complemento nominal, logicamente, preenche o
sentido de um nome (substantivo, pronome, numeral ou oração subordinada completiva
nominal).

Em geral, os nomes que exigem complementos nominais possuem formas correspondentes


a verbos transitivos, pois ambos completam o sentido de outro termo.

E o agente da passiva?

Para entender essa função, é preciso destacar uma característica semântica do sujeito, segundo a
qual esse elemento podem realizar uma ação ou receber os efeitos de uma ação realizada por
outro agente. Daí se classificarem as vozes do verbo com ativa, passiva ou reflexiva.

O termo responsável pela ação expressa pelo verbo e que recai sobre o sujeito é
denominado agente da passiva.

(36) O professor foi agredido pelos alunos.

Neste exemplo, como o sujeito sofre a ação, ele é passivo; o ser que realiza essa ação (os
alunos) é o agente da passiva.

O agente da passiva, portanto, é o termo da frase que pratica a ação expressa pelo verbo
quando este se apresenta na voz passiva. Vem acompanhado, comumente, da preposição "por" e,
eventualmente, da preposição "de".

O agente da passiva pode ser expresso por nomes ou pronomes.

LETRAS LIBRAS|130
(37) O vestibular de libras foi aplicado pela COPERVE. (substantivo)

(38) Este livro foi escrito por ele. (pronome)

Embora o agente da passiva seja considerado um termo integrante do predicado, é


possível que ele não venha expresso na frase.

(39) O deputado foi mal recebido. (pelos eleitores)

Termos Integrantes da Oração

Além dos complementos verbais, complemento nominal e agente da passiva, temos outros termos
que também participam constitutivamente da oração. São os chamados termos integrantes:
adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto.

Adjunto adnominal

Funciona como determinante, especificador ou qualificador para o substantivo núcleo do sujeito,


de algum termo integrante ou mesmo de um outro termo acessório. Adjetivos, locuções adjetivas,
artigos, pronomes e numerais são as classes que podem funcionar como adjunto adnominal.

(40) O jogador veterano desfalcou o time da capital.

Sujeito: o jogador veterano


Núcleo do sujeito: jogador
Adjuntos adnominais: o, veterano
Predicado verbal: desfalcou o time da capital
Núcleo do predicado: desfalcou (VTD)
Objeto direto: o time da capital
Adjuntos adnominais: o, da capital

LETRAS LIBRAS|131
DE OLHO NA LÍNGUA

Como o complemento nominal apresenta algumas semelhanças com o adjunto


adnominal, vamos chamar a atenção para alguns detalhes:

Como características em comum, podemos apontar o fato de que ambas as categorias


referem-se a um nome e podem ser acompanhadas de preposição.

Mas os dois podem se distinguir a partir da consideração dos seguintes pontos:

a) O complemento nominal preenche o sentido do nome, atribuindo-lhe uma significação


extensa e específica.

Ex.: Ana deve obediência aos pais.

b) O adjunto adnominal acrescenta uma informação ao nome. Essa informação teria um


valor acessório e poderia ser descartada, sem prejudicar a compreensão da frase.

Ex.: Todos os dias, ela toma leite de cabra.


Essa análise deve levar em consideração o contexto. Em frases isoladas, como os
exemplos colocados aqui com um objetivo didático, essas interpretações são bem claras.
No entanto, em outras situações de uso real da língua, muitos termos deixam de ser
expressos porque o contexto dispensa as repetições e redundâncias.

Adjunto Adverbial

É o termo que representa uma circunstância, expressando ideia de tempo, lugar, modo,
causa, finalidade, entre outras. O adjunto adverbial modifica o sentido de um verbo, de
um adjetivo ou de um advérbio.

(41) Amanhã não haverá aula na zona rural

(42) O São João de Patos é muito animado.

LETRAS LIBRAS|132
No primeiro exemplo, o termo “amanhã” representa uma informação circunstancial de
tempo; o termo “não” anula a informação veiculada pelo verbo e a expressão “na zona rural”
acrescenta uma informação de lugar. Todos se referem ao verbo e modificam-lhe o sentido,
acrescentando novas informações. No exemplo (42), “muito” é adjunto adverbial de intensidade.

O adjunto adverbial pode ser expresso por:

1) Advérbio: O mágico morava longe.

2) Locução Adverbial: aquele aluno morava num condomínio fechado.

3) Oração: Quando o convidado chegar, o show terá início.

DE OLHO NA LÍNGUA

As circunstâncias expressas pelos adjuntos adverbiais, muitas vezes, apresentam dificuldade de


identificação e interpretação. Isso significa que é necessário considerar todo o contexto para
identificar a intenção do usuário que emite a informação.

No exemplo:

Mariana torce fervorosamente pelo Botafogo.

“Fervorosamente” pode ser interpretado tanto como o modo como o sujeito torce, como pode
ser tomado como indicador da intensidade com a qual a ação se manifesta. Talvez, nesse caso
específico, se possa atribuir os dois sentidos à informação expressa pelo adjunto adverbial.

Aposto

É um termo que explica ou especifica um outro termo de valor substantivo ou pronominal.


Geralmente, na modalidade escrita, se marca a presença do aposto pelo uso da vírgula, dos dois-
pontos ou do travessão.

(43) A UFPB, importante instituição nordestina, oferece curso de graduação em Libras.

LETRAS LIBRAS|133
A expressão importante instituição nordestina, isolada por vírgulas, apresenta uma
informação acessória, explicativa, sobre o termo que a precede. A função sintática do aposto
equivale à do termo a que ele se refere. Observem que um termo poderia substituir o outro sem
qualquer prejuízo para a interpretação da informação.

É importante ressaltar que o termo a que o aposto se refere pode desempenhar qualquer
função sintática, inclusive a de aposto, como podemos comprovar no exemplo a seguir:

(44) Conheci o jogador Neymar, ídolo do Santos, time do interior paulista.

A expressão “time do interior paulista” exerce a função de aposto de “Ídolo do Santos” que,
por sua vez, funciona como aposto do objeto direto “jogador Neymar”

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

O aposto se classifica de acordo com a relação que se


estabelece entre ele e o termo a que acrescenta alguma
explicação. É possível encontrar aposto com característica
explicativa, comparativa, enumerativa, resumitiva,
distributiva, entre outras.
Pesquise em gramáticas tradicionais exemplos para essas
e outras classificações do aposto.

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

Texto:
João e Maria
Chico Buarque

Agora eu era o herói


E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três

LETRAS LIBRAS|134
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

In http://letras.terra.com.br/chico-buarque

Indique a função sintática exercida pelos termos sublinhados no texto.

CONCORDÂNCIA VERBAL e CONCORDÂNCIA NOMINAL

A concordância verbal se estabelece considerando a relação do verbo com o sujeito da


oração, com o qual deve concordar em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª, 3ª).

(45) O artista não cumpriu o contrato.

LETRAS LIBRAS|135
O sujeito, um nome representando a terceira pessoa do singular leva o verbo
também para a terceira pessoa do singular. Compare com o exemplo seguinte:

(46) Os artistas não cumpriram o contrato.

O verbo é levado para a terceira pessoa do plural para concordar com o sujeito. Observem
que o verbo não é influenciado pelo seu complemento, o objeto direto:

(47) O artista não cumpriu os contratos.

Há diversos casos especiais nos quais a concordância pode suscitar dúvidas. Entre eles,
podemos destacar os sujeitos formados por nomes coletivos e por pronomes relativos, entre
outros. Também merece atenção o caso em que o sujeito se posiciona depois do verbo,
especialmente, se entre o verbo e o sujeito se apresentam outros elementos linguísticos. É
necessário estar atento a essas construções para não fazer uso inadequado de concordância não
padrão quando o contexto exige formalidade.
A concordância nominal se estabelece entre o substantivo e os termos que a ele se
referem, como o adjetivo, o numeral, o pronome e o artigo. É necessário observar a concordância
em relação ao gênero (masculino ou feminino) e à pessoa do discurso.

(48) Dois trabalhadores rurais foram contemplados com o sorteio.

Tanto “dois” como “rurais” que estão acompanhando o substantivo “trabalhadores” e por
isso são adjuntos adnominais se apresentam no gênero masculino e no número plural; o mesmo
caso ocorre com o adjetivo “contemplados” - que mesmo estando distante do referido
substantivo, funcionando como predicativo do sujeito-, como se refere ao substantivo
“trabalhadores”, também concorda com ele em gênero e número.
Tanto a concordância verbal como a nominal apresentam várias especificidades que são
identificadas à medida que os usos linguísticos vão exigindo combinações que fogem à regra geral.

LETRAS LIBRAS|136
Em alguns casos, nem mesmo os estudiosos comungam da mesma opinião sobre quais seriam as
combinações ideais para construções menos recorrentes.
Essas singularidades podem ser conferidas em diversas gramáticas normativas às quais devem
servir como fonte de consulta para esclarecer esses casos.

DIALOGANDO COM LIBRAS


Na concordância verbal em LIBRAS ocorre uma concordância
espacial, dependente dos referentes. “Um verbo com
concordância pode ser a própria sentença” (QUADROS, 1997). A
flexão relacionada ao tempo é indicada pelo ponto de sinalização
no corpo, exemplo: mais a frente do corpo pode indicar futuro, ou
é produzido um sinal composto:
/AMANHÃ/ + verbo. (BRITO, 1995)

EXERCÍCIOS DE APLICAÇÃO

I- Identifique e corrija os erros de concordância para que se enquadrem na norma considerada


padrão:

1. “Cabe muitos”

2.“falta alguns amigos”

3.“sobrou trinta”

4.“teus cabelo é da hora”

5.“eu quero vinte pastel”

6.“esse anel vale cinco real”

LETRAS LIBRAS|137
II- Reescreva as frases adequando a concordância à norma padrão:

1. Comprou livros da literatura francesas e inglesas.

2. Sílvia anda meia tonta da cabeça.

3. OS dois beberam tanto que ficaram tonto.

4. Paula mesmo comprou aquele vestido rasgado.

5. Não é permitido a entrada.

6. Vieram menos pessoas do que o esperado.

7. É necessário paciência para vencer na vida.

8. Segue anexo meu pedido de demissão.

9. É meio-dia e meio.

10. Ela ficou meia triste com aquela notícia.

11.Breno e Mariana conquistaram bastante vitórias.

12. Aceito como verdadeira essas declarações

13. Ana deixou bem claro as suas obrigações.

LETRAS LIBRAS|138
UNIDADE III

Conhecimento gramatical reflexivo: algumas provocações

Um dos assuntos mais pulsantes em relação ao ensino/estudo da gramática diz respeito à


instabilidade dos pontos de vista utilizados pelos autores para classificar os termos lingüísticos
utilizados pelos escritores considerados modelos ou alçados em exemplos propostos pelos
próprios autores das gramáticas. Quando o critério sintático não dá conta da análise, lança-se mão
do critério semântico; muitas vezes, os dois critérios concorrem simultaneamente ou são usados
de forma aleatória.

Mário Perini, em sua Gramática Descritiva do Português (2001) instiga o leitor, afirmando,
em relação à análise tradicional:

A falta de coerência teórica se manifesta, por exemplo, nas muitas definições que
não podem ser seguidas se se deseja identificar as entidades que elas pretendem
definir.

O autor dá destaque a fatos como a inadequação à realidade lingüística, quando a


gramática apresenta verdadeiras ficções – usos que caíram de moda há muito tempo ou que
simplesmente só existiram em recursos estilísticos de autores consagrados; outro aspecto
ressaltado é a desatualização em relação aos resultados dos estudos realizados nas últimas
décadas e que são ignorados pelos autores dos compêndios gramaticais.

São bastante conhecidos os trabalhos do linguista Marcos Bagno sobre os usos do


português no Brasil e a prática de ensino que vitaliza o preconceito, o que ocasiona a exclusão de
numerosas camadas de falantes de variedades consideradas marginais. O foco do autor tem sido
os defensores do purismo gramatical, conservador e discriminatório, absolutamente distante da

LETRAS LIBRAS|139
realidade lingüística e avesso à inclusão dos socioeconomicamente desfavorecidos. Em
determinada passagem do seu livro Preconceito Lingüístico, o autor afirma:

No que diz respeito ao ensino de português no Brasil, o grande problema é que


esse ensino até hoje, depois de mais de cento e setenta anos de independência
política continua com os olhos voltados para a norma lingüística de Portugal. As
regras gramaticais consideradas certas são aquelas usadas por lá, que servem para
a língua falada lá, que retratam bem o funcionamento da língua que os
portugueses falam. É a concepção que impera, por exemplo, no livro Não erre
mais, de Luiz Antônio Sacconi, que na página 64 explica:
A lua é mais pequena que a Terra.
Eis aí uma frase corretíssima, [afirma Sacconi], que muitos imaginam o contrário.
Mais pequeno é expressão legítima, usada por todos os portugueses, que usam
menor quando se trata de idéia de qualidade: poeta menor, escrito menor, etc.

Bagno (1999) aponta a confusão feita pelo autor, ao considerar que correto é aquilo usado
pelos portugueses e lembra que a forma mais pequeno não é aceita pela norma culta no Brasil,
que dá preferência à palavra menor em todas as circunstâncias que estabelecem comparação.
Esse é um, dentre numerosos exemplos que o autor apresenta para reforçar seus argumentos
contra o preconceito lingüístico.

Nesse embate entre os que defendem o ensino da norma culta e aqueles que chamam a
atenção para a ineficiência de um ensino de gramática que enxerga a língua como algo congelado
e estanque, algumas vozes surpreendem, ora pela ênfase que imprimem a sua postura, ora pela
lucidez que aflora de seus questionamentos.

Na concepção de Expedito Ignácio (1999), a gramática tradicional, embora contraditória


em diversos conceitos, tem seus méritos já que os resultados das pesquisas mais avançadas não
conseguiram beneficiar seus legítimos destinatários, aqueles que buscam a melhoria do
desempenho lingüístico na escola dos níveis fundamental e médio. Para o autor, a clientela que,
em cinqüenta anos, foi bem servida por essa mal fadada gramática, hoje a recebe pelas portas dos
fundos, tímida, travestida de modismos, mal explicada, equivocada, enfim, de um modo
altamente prejudicial. O modelo tradicional, dito ultrapassado, segundo Ignácio, talvez não seja
tão ruim. “Pelo menos é bastante forte para resistir ao tempo e aos sábios”.

LETRAS LIBRAS|140
Do nosso ponto de vista, defendemos que, apesar das novidades teóricas que sugerem a
necessidade de valorização pedagógica de todas as variedades de língua, nunca é demais salientar
a importância da língua considerada culta, já que, em diversos momentos de nossas vidas, de
acordo com as exigências sociais e suas gradações de formalidade, ela nos é extremamente
necessária. Por isso, muitos dos conceitos presentes na gramática tradicional não podem ser
desprezados. Essa posição defendida por Ignácio, evidentemente, deve ser relativizada e
contextualizada, situando-se em experiências de usos formais, em relação às quais a escola não
pode fazer nada diferente do que lançar mão dos padrões oficialmente estabelecidos.

Quanto ao ensino de análise sintática é necessário que o professor reflita sobre de que
modo as informações compartilhadas nessa prática podem desenvolver a competência linguística
dos alunos e ajudá-los a aprimorar os diversos usos da língua. Esse aprimoramento está
relacionado com o domínio da língua culta e da língua padrão, como também com a consciência
sobre a adequação aos contextos de usos que cada registro – do mais formal ao mais coloquial –
assume nas relações sociais humanas.

Quando o ensino centra-se apenas na apresentação e memorização de nomenclaturas, ou


seja, em atividades metalinguísticas, perde-se a oportunidade de provocar a reflexão sobre os
recursos linguísticos postos à disposição do usuário da língua, o que pode levar ao
desenvolvimento das competências e habilidades do aluno. Isso significa que é muito mais
relevante para a aprendizagem o tratamento epilinguístico, que consiste no recurso às atividades
que desenvolvam estratégias voltadas para a utilização da língua nas mais diversas instâncias
comunicativas.

DE OLHO NA LÍNGUA

A gramática deve ser vista como o estudo das condições lingüísticas que sustentam a significação,
ou seja, funciona como recurso sistematizador do conhecimento sobre o que faz as expressões
lingüísticas constituírem os enunciados.
Segundo Travaglia (2001), as gramáticas usadas no ensino de língua portuguesa se baseiam numa
“visão estrita e redutora do que ela [a língua] seja, se eternizam em exercícios que só têm a ver

LETRAS LIBRAS|141
com a segmentação de elementos lingüísticos (análise morfológica e sintática), levantamento de
traços de algumas classes e categorias, classificações e nomenclatura”. (p. 236)
Podemos reiterar, então, que já não há mais lugar para o ensino de gramática como mero
exercício de metalinguagem, especialmente, considerando os conhecimentos formulados pelos
estudos de análise lingüística que se preocupam com os usos da língua em contextos reais de
interação.

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

Tente refletir e expressar sua posição sobre a


importância de se conhecer as estruturas sintáticas
da língua, relacionando tal conhecimento com a
abordagem que o ensino orientado pela gramática
tradicional vem realizando nessa área.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é como se faz. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1999.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37 ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

BRITTO, Lucinda Ferreira. Por uma gramática da Língua de Sinais. Rio de janeiro: Tempo Brasileiro, UFRJ –
Departamento de Lingüística e filosofia, 1995.

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gramaticalização: teoria, análise, ensino. João Pessoa: Idéia, 2004.

CUNHA, Celso Ferreira da. Gramática da língua portuguesa. 11 ed. Rio de Janeiro: FAE, 1986.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da Língua Portuguesa. 48ª Ed. Rio de Janeiro,
Companhia Editora Nacional, 2010

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DUBOIS, Jean et. al. Dicionário de lingüística. 10 ed. São Paulo: Cultrix, 1998.

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Dermeval da; CHRISTIANO, Mª Elizabeth Affonso (orgs.). Estudos lingüísticos: realidade brasileira. João
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NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 14 ed. São Paulo:
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QUADROS, R. M. de. Educação de Surdos, aquisição de linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

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SILVA, Camilo Rosa (org.). Ensino de Português: demandas teóricas e práticas. João Pessoa: Idéia, 2007.

LETRAS LIBRAS|143
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