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Universidade de Brasília

IREL – Instituto de Relações Internacionais


História das Relações Internacionais Contemporâneas
Docente: Pio Penna Filho
Discente: Isadora Cristina Schüler Zoni – 180048601

Ensaio sobre “A Agenda Abolicionista Inglesa no Congresso de Viena”

O Congresso de Viena entrou para os livros de história como uma conferência ocorrida
entre 1814 e 1815, que reuniu embaixadores e chefes de estado das grandes potências
europeias da Época. Fala-se do Congresso de Viena como uma ferramenta de universalização
da vontade dos países de manter a paz, visto que com o fim das guerras napoleônicas era
necessário redesenhar o mapa político do continente europeu. No entanto, embora aparente
interesse coletivo na manutenção da paz, o que despertou minha atenção das leituras sobre o
tema diz respeito às agendas menos universais.

Ainda na escola quando estudava a abolição da escravatura no Brasil, vi que havia


uma pressão inglesa para o fim do tráfico negreiro. Refleti sobre a expressão “para inglês ver”
e o que ela significava no cenário escravocrata brasileiro, já que a escravidão por aqui só foi
abolida em 1888, mas a pressão inglesa havia começado muito antes disso. Estudando o
Congresso de Viena, me deparei com a surpresa de que em 1814 a questão abolicionista já
estava na agenda dos ingleses. É por isso que o intuito deste ensaio é entender os interesses
britânicos por trás da pressão na política externa para o fim das práticas escravocratas.

De início, decidi partir de duas suposições: que os britânicos tinham interesses


econômicos relacionados a ampliação do mercado de consumo, e que por isso pressionavam
os demais países no sentido da abolição; ou que eles tinham um racionamento moral e ético
que era contrário às práticas desumanas proporcionadas pela escravidão de pessoas. Alguns
autores, inclusive, reafirmaram essas suposições apontando que os fatores humanitários
podem até ter existido, mas que adoção da política abolicionista estaria muito mais
influenciada pelos argumentos econômicos. Nas palavras de Jerome Reich (1968, p.129): “It
has been claimed by many historians that economic rather than humanitarian factors were
responsible for the abolition of the British slave trade in 1807 and the campaign for universal
abolition of the slave trade which followed”.
No entanto, essa é uma grande generalização. O próprio Reich mas adiante em seu
texto denota que apesar dos historiadores encontrarem uma explicação fácil no argumento
econômico, que este não consegue se sustentar sozinho. Segundo ele: “A careful study of the
years 1807-1818,however, indicates that abolition differed sharply from other objectives of
British foreign policy during this period in that it was enjoined directly by organized and
vocal public opinion”. (REICH, 1968)

Em 1807 o Reino Unido, após 20 anos de contínua agitação, aboliu o tráfico negreiro
africano. Uma longa jornada que começou em 1789 quando Willian Wilbenforce trouxe a
discussão para o Parlamento, e só teve fim em 1807. É imprescindível o resgate histórico
sobre o que estava acontecendo na Inglaterra durante esses anos, já que foram tempos de
confronto direto com os franceses em uma incessante guerra.

Segundo a narrativa de Burton (1996), durante os anos de conflito entre a Inglaterra e


a França, o fortalecimento da agenda abolicionista foi fortemente favorecido pelos relatos de
James Stephen, autor de War in Disguise, que em viagem até as Indias havia presenciado um
julgamento de quatro escravos negros que haviam matado um homem branco. O relato de
Stephen tornou-se ainda mais relevante e pertinente quando este se casou com a irmã de
Wilbenforce, quem inicialmente havia levantado a questão abolicionista no Parlamento.
Stephen defendia a causa com tamanha paixão que uma vez afirmou: “I would as soon
affiance myself in the bonds of friendship with a man who had strangled my infant child, as
lend my feeble support to an administration disposed to violate the sacred duty of adhering to
and enforcing the abolition of the slave trade.” (BURTON, 1996, p.199). Diferente de
Wilbenforce que era um político, movido pelo apoio popular em seus discurso, Stephen era
um homem apaixonado pela causa que defendia e era isso que o tornava perigoso.

Wilbenforce e Stephen enxergavam nas guerras napoleônicas uma oportunidade de


fortalecimento do movimento abolicionista. Stephen que era anglicano e como a maioria dos
ingleses acreditas na prosperidade, liberdade civil e bem-estar social; acreditava que as
desgraças da guerra aproximariam os homens de Deus, e que se o fizessem não poderiam
negar que assim como os ingleses, os negros africanos também era criaturas de Deus.
(BURTON, 1996)

Durante as guerras napoleônicas é que os ingleses conseguiram estabelecer sua


supremacia marítima, e o comércio marítimo tornou-se se fez fundamental para a manutenção
da economia interna. Dentro desse raciocínio é que em 1806, Stephen sugere a Wilbenforce
um novo recorte para a aprovação da política abolicionista. Segundo Stephen a pergunta
chave que garantiria a vitória da Bill no Parlamento e: “Quem, durante a guerra, poderia
defender uma política de comércio que beneficiasse as nações inimigas?”. Nas palavras
originas: “Who in wartime could defend a trade which benefited the nation's enemies? The
new bill would not be argued on humanitarian grounds, but on the grounds of national
economic policy.” (BURTON, 1996, p.213).

Sendo assim, a Inglaterra não teve outra resposta senão negar apoio a um comércio
marítimo que estava beneficiando seus inimigos, em um golpe de mestre promovido por
humanitários que utilizaram o argumento econômico como estratégia de manobra para
finalmente conseguir a abolição da escravatura e a consequente incorporação desse interesse
em sua política externa. Foi assim, baseado num argumento contrário ao fortalecimento das
forças inimigas e na manutenção de um cenário não hegemônico que a agenda abolicionista
ganhou popularidade e passou a ser clamada pelo povo.

O Congresso de Viena surgiu como uma oportunidade dos britânicos de influenciarem


as grandes potências da época rumo ao abolicionismo. De acordo com Nelson (1942, p.194):

As Europe began to assemble to settle the Napoleonic crisis Great Britain


realized that here was an excellent opportunity to force abolition upon the
rest of the world. British statesmen at Vienna made the abolition of the slave
trade one of the most discussed questions, though not officially, at the
ensuing meetings.

Para os britânicos o Congresso representava uma oportunidade de atingir o objetivo de


completa e imediata abolição do comércio de escravos, que por consequência melhor
equilibraria as potências europeias por eliminar a lucrativa atividade em todos os países para
que não houvesse o risco de uma nova hegemonia, e até mesmo de um novo cenário de
guerras.

No Congresso de Viena, França, Espanha e Portugal eram os principais alvos das


negociações britânicas devido a sua expressividade marítima. É importante ressaltar que
muito embora o Congresso tenha apresentado uma oportunidade única de influenciar vários
países, os britânicos já estavam negociando há anos com os países mencionados. Tendo,
inclusive, conseguido que em 1813 a França se comprometesse a abolir o tráfico de escravos
dentro prazo de 5 anos, oferecido subsídios econômicos aos espanhóis para que reduzissem
esse tipo de comércio, e negociado com a família real portuguesa a redução do tráfico de
escravos se limitando às regiões que se encontrassem abaixo da linha do Equador.

It was Castlereagh’s fondest wish as Secretary of State for Foreign Affairs


that the slave trade would be outlawed by the resultant treaty of Vienna.
Thought he subject was never officially put before the Congress, British
statesmen in attendance at Vienna circulated memoranda and held
discussions with the statesmen of those countries most concerned with the
slave trade. When it became obvious to Castlereagh that immediate and
complete abolition of the slave trade could not be obtained at Vienna, he put
forth the following proposals: (1) a reduction of the French period for
abolition from five to two years, (2) the use of coercive measures against
Spain and Portugal by refusing the admittance of their colonial
commerce until the slave trade was completely abolished, (3) the
establishment of permanent commissions in Paris and London to watch
over the enforcement of regulations which might be enacted against the
slave trade. (NELSON, 1942, p.198) (meus grifos)
A meu ver, portanto, é interessante perceber que a Inglaterra foi para Viena com total
intenção de promover a agenda abolicionista. Pela breve análise trazida neste ensaio, é
possível afirmar que o movimento abolicionista se manteve vivo na Inglaterra devido ao seu
peso humanitário, mas sua aprovação e consequente promoção, enquanto agenda de política
externa, está muito mais associada com uma política anti-hegemônica e de equilíbrio
econômico.

Os britânicos promoveram a discussão e buscaram a concretização da agenda


abolicionista no Congresso de Viena, no entanto a única coisa concreta e palpável que
conseguiram foi a inserção no final do tratado da declaração de que o tráfico de escravos é
contra as leis da humanidade. Apesar de pouco expressiva, é uma vitória para a agenda
abolicionista como um todo pois significou a expressa consagração da prática como contrária
às leis da humanidade, e portanto algo ruim a ser combatido.

Referências

BURTON, Ann M. British Evangelicals, Economic Warfare and the Abolition of the Atlantic
Slave Trade, 1794-1810. Anglican and Episcopal History, v. 65, n. 2, p. 197-225, 1996.

REICH, Jerome. The Slave Trade at the Congress of Vienna - A Study in English Public
Opinion--. The Journal of Negro History, v. 53, n. 2, p. 129-143, 1968.

PUTNEY, Martha. The Slave Trade in French Diplomacy from 1814 to 1815. The Journal of
Negro History, v. 60, n. 3, p. 411-427, 1975.

NELSON, Bernard H. The slave trade as a factor in British Foreign Policy 1815-1862. The
Journal of Negro History, v. 27, n. 2, p. 192-209, 1942.