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História do Islão Medieval

2º Teste
Prof. Pedro Barbosa

As seitas xiitas do Islão


Os grupos xiitas não são tanto na natureza das crenças mas sim nas filiações.
Existem dois grupos: os que reclamam ser descendentes de Hassan, e os que reclamam
ser descendentes de Hussein, o segundo filho. São estes os representantes do xiismo.

Hassânitas: gira em torno dos filhos de Hassan, o primeiro filho. Este grupo dá
origem à linha do Emirato Zaidita de Taibadistan. Em Marrocos surgiram as dinastias
ushrifinas, que reivindicam uma descendência com Hassan; e a estes juntam-se os sharifes
de Meca.

Husseinitas: estes dão origem à linha do Emirato do Iémen e a grupos


diversificados com expressão ocidental, entre os quais os idríssidas, que formam o
primeiro estado árabe em Marrocos. Este grupo funda Fez e transforma-a na capital do
seu reino. Esta é a primeira cidade árabe ocidental depois de Qaraiwan. A descendência
de Hussein é muito mais extremista, tanto pelo martírio de Hussein como por terem
bastantes seitas que saem por uma única via num determinado tempo. Neste grupo há
logo uma importantíssima dissidência com Ismail, que faz uma descendência ismaelita,
que dá origem aos fatímidas.

A transformação cultural do mundo abássida

 Koiné árabe e koiné helenística:

O que caracteriza a revolução abássida do ponto de vista cultural é a formação de


uma nova koiné, como havia existido na Grécia antiga; mas esta agora centra-se na língua
árabe, estando, por isso, mais a oriente do que a koiné helenística. A koiné helenística
tinha como limite oriental a mesopotâmia, sendo por isso mediterrânea. Já a abássida está
localizada entre a Mesopotâmia e o Irão, apesar de se estender por todo o Mediterrâneo.
 Literatura abássida:

A primeira operação da formação cultural começa logo pela fixação de um cânone


literário com o aparecimento da literatura árabe que não é estritamente poética. Há a
fixação de uma literatura eminentemente oral que começa a ser feita em forma de diwan,
que mais tarde servirá para se falar da administração.

Há duas formas de literatura: a fixação árabe e o corpus de traduções. Esta última


é a menos árabe de todas e é a mais nuclear. Esta literatura é datada do século IX e é
determinada pelo califa Al-Mamun, que criou uma espécie de instituição na corte para o
estudo das áreas da filosofia e das ciências do mundo. A missão dos sábios desta
instituição é construir um corpus de estudo em árabe, visto que até agora só há coisas em
aramaico (siríaco) e em grego, e um pouco também em sânscrito. Apesar de se
continuar a comunicar nas línguas grega e aramaica, é o árabe que é a língua da
comunicação no mundo islâmico.

Os árabes traduzem do grego Aristóteles, os filósofos aristotélicos e


neoplatónicos, os tratados de geometria, álgebra e geometria, os tratados científico-
tecnológicos, até mais do que os textos filosóficos. Estes textos são essenciais, tendo sido
preservados no mundo bizantino, mas no ocidente só os conhecemos através do árabe,
sendo depois traduzidos para o latim. Um exemplo desta passagem é por exemplo a lógica
aristotélica. A escolha da informação que é feita é-o pelos estudiosos árabes.

 Adab:

Envolve um conjunto de conhecimentos bastante diversificados, em que no centro


está, por um lado a poesia e a literatura e por outro, as ciências religiosas. É uma cultura
urbana de sofisticação e o que caracteriza este modelo é um sistema de produção de
cultura capaz de incorporar a tradição islâmica, a tradição árabe da poesia, dentro de um
sistema urbano, sofisticado e elitista. Eram também destinado a separar as classes altas
da restante população. Há um sistema de distinção.

O acesso ao adab e a posse de certos meios financeiros resulta numa pertença a


uma certa linhagem; permite distinguir a hassa (patriciado) e a sufal (plebe). Um membro
da família do profeta fez parte da hassa, mas ela não é apenas constituída por xarifs, visto
que há uma mobilidade social (uma das formas de ascender socialmente era através do
adab). A literacia é o modo privilegiado de ascensão social.
Qual o significado da koiné abássida?

Uma koiné é uma comunidade intercultural unida por uma linguagem comum. Assenta
numa língua comum e em alguns princípios comuns de forma de pensamento. Isto
acontece pela primeira vez no período helenístico. Também os árabes tinham uma
comunidade assim, mas a koiné abássida tem um código civilizacional comum, que
assenta na centralidade do alcorão, num racionalismo e numa expressão urbana de grande
alcance. O essencial da koiné são as cidades, e a explosão do mundo urbano dá-se com o
mundo abássida.

A koiné abássida assenta no espaço territorial do império helenístico. O mundo


abássida é a concretização do império helenístico, as centralidades são as mesmas e os
valores em jogo também são os mesmos.

 Processo de orientalização:

A partir da terceira década do século IX, temos um Al-Andaluz em processo de


orientalização, entrando na koiné abássida. Há uma continuação do processo de vagas
sucessivas de orientalização da Península Ibérica que já vêm do Neolítico, passaram pelos
fenícios, gregos, cartagineses, romanos, e agora árabes. Este é um território sempre
propício a vagas de orientalização.

O triunfo da koiné abássida permite em grande medida transformar o árabe numa


língua de comunicação global, e numa língua de contacto direto com as línguas orientais
(hindustânicas e chinês) e nesse sentido a koiné abássida tem uma versão breve, o sítio
onde é a língua política, comercial e cultural, e uma versão extensa, o sítio onde é apenas
comercial, sendo isto na Ásia e na África Oriental.

 Cidades:

O Islão abássida é sobretudo uma rede de cidades, mas isto não é novo, porque o
mundo helenístico já era uma rede de cidades. Alexandre fundou uma série de cidades,
tal como os seus generais e os seus sucessores. Além disso, o próprio Império Romano
também é construído e pensado como uma rede de cidades. A própria perceção do Império
era uma perceção das cidades. Isso condiciona a forma de pensar o território, que é
contrastante com as populações não romanizadas. Isto vai influenciar o mundo islâmico
e a koiné abássida.
Não há Islão sem cidades, isto é, é uma religião de cidades. Isto é uma inversão,
isto porque antes era uma religião das rotas caravaneiras e mais tarde, no período omíada,
há uma adesão urbana muito restrita. O período abássida consagra a formação de cidades.
A dinastia começa com a edificação de Bagdad, que é um projeto ideológico altamente
representativo, porque o plano circular que demonstra a centralidade do império. Aqui
recusa-se o plano octogonal das cidades helenísticas e coloca-se um plano circular, sendo
isto um modelo persa. Isto demostra o grau de sofisticação da corte abássida, o que
contrasta violentamente com o profeta montado num burro, e com as mesquitas de cana
no tempo dos primeiros califas.

O que caracteriza também a koiné abássida é a transladação cultural, sendo que os


centros proeminentes do conhecimento vão mudando de sítio. A koiné abássida excede a
centralidade que antes tinha pertencido ao mediterrânio oriental (Grécia, Alexandria e
Constantinopla) para o oriente e Bagdad, e mais à frente a Córdova e a Toledo.

 Língua:

A koiné abássida não significa que se tenha deixado de falar outras línguas. O árabe
era falado na corte, e além deste havia também outras línguas faladas entre o povo no
quotidiano. Isto para não falar da liturgia, que era falada em latim. Também se falava
grego. Na koiné há uma língua dominante mas que não destrói as outras línguas dentro
das comunidades.

Dimensão económica do período abássida

O mundo abássida é um mundo independente. Há uma grande circulação de


matérias-primas (sobretudo metais e o têxtil). Este comércio liga a área asiática próxima,
a saber, a costa ocidental do Hindustão e as regiões da Ásia ocidental, por um lado, e por
outro em África, mas terras islâmicas. O ponto central é a área onde o islão se
desenvolveu. Podemos pensar no mundo abássida como um mundo articulado em que o
centro é Bagdad, mas o comércio não tem barreiras religiosas, ele é mantido com a Europa
cristã. A economia abássida é uma espécie de antevisão de uma economia-mundo, pois
constrói um modelo que implica um conceito de centro-periferia. Tão importante como a
Ásia central são as terras islâmicas do ocidente, onde se inclui o Al-Andaluz e o Magrebe.
Nesse sentido há um polo económico alternativo que tem um centro claro na
Península Ibérica (porque era na Andaluzia Bética que estavam os centros urbanos,
Córdova, Sevilha, Granada, ainda que perifericamente, e depois uma coisa excêntrica que
é Toledo, eram cidades muito grandes, não tanto como as grandes cidades abássidas, mas
que têm uma grande rede), que está em contacto com o norte de África e com a Europa
Carolíngia. Este polo funciona em coesão desde o século X até meados do século XIII
com a conquista de Sevilha.

 Escravatura:

O eixo africano é extremamente importante, nomeadamente o que está entre o Médio


Oriente e a África Oriental. O que está em jogo aqui é a manutenção de um velho eixo
que já existe desde o Egipto faraónico, e que articula o baixo Egipto até à Núbia. Todo
este comércio é efetuado por mercadores arabófonos e está fortemente articulado com a
Mesopotâmia. Este comércio tem o ouro Meridional do Monomotapa, mas tem
principalmente escravos. A economia do mundo abássida é intensamente esclavagista.

A região dos Zandes é o principal centro de abastecimento de escravos do mundo


abássida, e este comércio é feito por comerciantes arabófonos e está islamizada apenas
até aqui, a esta região do canal de Moçambique. Este negócio era muito próspero, e era
daqui que os escravos eram enviados para as grandes plantações. Estamos aqui na origem
dos sistemas de plantação (já utilizados pelos romanos) que utilizavam mão-de-obra
escrava. Esta +e mais uma prova de que a economia abássida é uma continuação da do
mundo antigo. No mundo abássida chega mesmo a haver revoltas de escravos, a revolta
dos Zandas.

 Produção têxtil:

As quatro regiões de grande produção têxtil na esfera de influência abássida, duas


delas sob a influencia direta do mundo abássida, e ainda o Al-Andaluz sob uma influência
mais indireta, na área da Bética. Outra zona é o Baixo Egipto, depois a Baixa
Mesopotâmia por um lado e Fars pelo outro, e a região correspondente à Transoceania.
Estas regiões estão sempre ligadas a fatores de exportação mas parecem aqui
relativamente autónomos. Não é um mundo com um centro único, mas tem articulações
entre centros diversos, e isto acaba por ter tradição política. Estamos perante entre uma
coincidência entre os grandes núcleos de produção têxtil e os futuros núcleos de
principados que se vão autonomizar. Há o desenvolvimento têxtil, conglomerado urbano
e depois a autonomização política.
 Importância dos oásis:

O qanat é uma forma de fazer oásis, é uma forma de captar e conduzir águas, que vai
buscar água a um poço no cimo de um desnível. Depois escava-se um canal subterrâneo
acessível a partir do nível do solo por uma sequência de poços que servem para arejar e
para limpar o canal artificial. Um qanat é um aqueduto subterrâneo com manutenção
coletiva, que pode ser feita por uma estrutura tribal, sendo que são quase sempre os
jovens, as crianças, quem limpa os poços. No termo disto está uma bacia de retenção, que
normalmente já é à superfície ou quase, que depois abastece bacias de barro. Isto permite
abastecer as terras, sendo que o controlo do dispositivo é coletivo, mas as parcelas são
individuais. Isto era controlado por uma régua de metal, que para além de controlar a
circulação, controlava a própria grandeza do caudal. Mas por trás disto era sempre preciso
existir comunidades muito organizadas, com uma gestão partilhada das infraestruturas
mas com uma gestão individual da terra. Era isto que permitia a agricultura oasiana, sendo
que estes modelos de agricultura estão conotados com regiões com uma autonomia
política crescente, no nordeste iraniano, na zona de Far.

 Exportação:

Há também as importantes correntes de exportação, mais uma vez multicêntricas, com


as zonas do linho, da seda, da lã e do algodão. Chamaria a atenção para as zonas
tradicionais de produção do linho, no Nilo e na Baixa Mesopotâmia, e no Orontes, e
depois a zona de produção da seda. Isto juntamente com o algodão está ligado à
divulgação de hábitos de consumo cuja democratização advém do rico crescimento
urbano abássida. O linho e algodão era essencial nos climas quentes, mas depois começam
a lançar a base para a roupa eterna, estamos na base das formas de vestir contemporâneas.

 Seda:

A divulgação da produção de seda está diretamente ligada com as rotas orientais, e


estava ligada aos hábitos de luxo, mas depois começou a ser democratizada com a cultura
abássida. A seda não era apenas ligada às elites governativas, mas também aos grandes
mercadores, a todos aqueles que tinham dinheiro.
 Produção agrícola:

A montante estão as coisas que têm a ver com a produção agrícola ou pecuária,
mas em outras regiões há a produção de plantas tintureiras. É uma produção agrícola
especializada mas também com alguns pigmentos que estão ligados à pesca.

 Camelos:

Interessa também sublinhar a difusão dos camelos e dromedários, que têm


essencialmente duas grandes áreas, o começo da Ásia central (muito em associação da
rota da seda) e depois outra área que abrange a Península Arábica, a Mesopotâmia, o
Egito e até o Sahara. Isto porque eram os camelos que permitiam circular no deserto.
Agora uma outra aproximação para os cavalos. Isto é mais confuso porque há raças
endémicas do extremo-ocidente.

 Madeira:

Outro produto comercial de grande circulação era a madeira. O Mediterrâneo


praticamente não tinha maciços florestais, exceto os Apeninos, o interior dos Balcãs, a
zona do Cáucaso e a Anatólia. Isto é importante para perceber o Mediterrâneo abássida,
com um clima seco sem vegetação que suscita as necessidades das técnicas de irrigação.

 Trigo:

As zonas produtoras de trigo eram o Magrebe, a preponderância do Egipto e da grande


Síria, ambos grandes centros produtores de trigo. Estes dois centros acabam por ser dois
centros de dois universos que se vão dissociar neste período.

 Arroz:

Um outro cereal que é o arroz, que é bastante menos importante no Mediterrâneo, mas
que vai ter uma importância renovada no período abássida. Este era cultivado mais ou
menos nas mesmas regiões, que incluía o Al-Andaluz. Isto é sempre nas áreas da
agricultura irrigada.

 Tâmaras:

As tâmaras, que são o contraponto do dromedário, há tâmaras onde há dromedários,


muito associadas à área meridional, dos nómadas, e são muito importantes para a
economia. Pode-se sobreviver no deserto com algumas tâmaras e alguma água. É um fruto
que tem uma importância decisiva na revolução alimentar.

 Açúcar:

Uma coisa que diz bastante respeito aos portugueses, é o açúcar. Esta também está
em Fars, no vale do Nilo, Vale do Nilo, Sicília e sul da Península Ibérica. Falta aqui depois
o elo do século XV, que é o arquipélago da Madeira. É um produto que se democratiza
também, é um produto de luxo com as especiarias, mas que se democratiza, entrando de
forma muito acentuada com a culinária.

Desagregação do mundo abássida


Vai começar a partir do século IX. Já no século VIII a unidade do império é restrita às
terras centrais do Islão, á Síria, ao Egipto, à Mesopotâmia e ao Islão, uma vez que a
ocidente já tinham surgido novas alternativas, dissidências não inteiramente religiosas,
mas que se podem situar na esfera da família do profeta. Um exemplo é o Emirato
independente no Al-Andaluz. No caso do Emirato Idrissida, centrado em Fez, Marrocos,
a esse lado de divergência política deve ser acrescentado um lado de divergência
legitimista no sentido em que eles se reclamam do lado da descendência de Ali. Até ao
século IX temos uma união no império e na Umma, em que o califa nomeia os
governadores. Era este o normal funcionamento de um império. O regime de nomeações
está nas mãos do califa. As províncias correspondem a unidades regionais e à sua frente
está o wali, o governador, sendo que são estas as unidades territoriais que depois darão
origem às fronteiras das dissidências. Em termos de esferas de afirmação de poder, as
províncias do mundo Omíada passam para o califado Abássida.

 Vizires formam dinastias autónomas:

Um processo de afirmação de poder é o processo de separação entre a função califal


e executiva. Esta é a ideia que preside à formação do Islão ente os finais do século IX e o
século XII. O vizirato era a máquina de governo e compõe a administração do mundo
Abássida. Assim, os vizires, que passarão a ter o poder executivo, começarão a formar
verdadeiras dinastias autónomas, um pouco por à semelhança do que acontece com os
perfeitos do palácio no mundo merovíngio. Aqui o vizir exerce sempre o poder de facto,
mas sempre em nome de outrem.


 Vizires persas – Walis:

Essa dissociação de poderes é sempre feito por vizires de fação persa, os Buwayhids,
e é isso que permite que no século X possa aparecer num território dinástico da família
de vizires, apesar de isso ser parte do califado de Bagdad. Este desdobramento de
instituições da administração central acontece nas regiões da Mesopotâmia e do Irão,
sendo que isto é o contrário ao que acontece nas províncias, que eram personagens de
administração central periférica (ou provincial).

Vão começar a surgir Emiratos que se situam nas antigas províncias que se forem
autonomizando, por isso no século IX há dois Emiratos no extremo ocidente (o Omíada
em Córdova e o Idríssida em Fez), no Mediterrâneo central há um Emirato em Qairawan,
dominado pela dinastia Aqhuabida. Estes são muito importantes para a história do
Mediterrâneo e da Europa, porque são eles que vão fazer a conquista da Sicília e da Itália
Meridional.

 Al-Andaluz:

Este território teve um wali, um governador, até 756, começando depois a ter um
emir, que apesar de ter um título de realeza e de ter uma independência administrativa e
fiscal, continuava a reconhecer a autoridade religiosa do califa. Assim, nos emiratos,
apesar de se reconhecer a autoridade religiosa dos califas, há sempre uma independência
administrativa e frequentemente também fiscal, não havendo geralmente nenhum tributo
anual prestado ao califa.

A primeira fase da dissolução do império faz-se, isto acontece mais no caso do


Irão, em que os tahinidas (?), a família persa que ocupa um cargo por nomeação da família
abássida, vão ocupar o cargo por quatro gerações, que é um cargo na verdade dinástico.

No princípio do século X, em revolta contra o califado de Bagdad é proclamado


em Qairawan um califado álida. Este é o primeiro califado shiita que tem um plano de
conquista. Este califado shiita tem a particularidade de estar rodeado de poderes próximos
que ainda reconhecem o califado de Bagdad, tanto a ocidente (al-Andaluz) como a oriente
(Egipto). Apesar de estarem entre sunitas, eles têm um projeto de expansão, que em
meados do século X implica a conquita do Egipto e que vai mudar o califado de Qairawan
para Fustat. Há uma expansão para Tunis (um pouco a sudeste da antiga Cartago). Os
fatimidas instalam a sua sede em Fustat e depois proclamam o califado, tudo isto num
plano de conquista do oriente, conseguindo chegar à Síria. Durante mais de duzentos anos
eles conseguiram um poder absolutamente estabilizada que controla o Egipto e a Síria e
que se inscreve dentro dos movimentos sectários do shiismo, e tendo algumas emanações
posteriores, uma vez o que o movimento dos drusos é ele próprio uma deriva do
movimento fatimida.

 Fatímidas:

Os fatimidas vão governar no entanto sobre províncias que são quase na totalidade
sunita, eles conseguem triunfar politicamente numa área de total afirmação do sunismo,
e isso permite compreender a dominação fatimida como uma dominação tolerante que
não impõe o xiismo com um programa de conversão, o que não exclui a afirmação da
Madraça de al-Azhan. Esta é normalmente referenciada como a universidade mais antiga
do mundo islâmico, sendo inicialmente um centro de propaganda xiita criado pelos
fatimidas. É um dos grandes centros de produção cultural do mundo islâmico, mas depois
do fim do califado fatimida, houve uma conversão desta madraça para o sunismo.

Decomposição do califado Abássida – Berberes e Turcos


Entramos num domínio que corresponde no Islão ao fim da hegemonia árabe e à
sua substituição (tanto do ponto de vista político como militar) por uma hegemonia turca.
Normalmente quando se fala em turcos no ocidente fala-se dos otomanos, uma
formulação turca tardia que hegemoniza o mundo islâmico entre o século XV e o século
XX e que se expressa em turco. O predomínio turco começa muito mais cedo, de um
modo muito fragmentado, e afirmando-se em línguas que não são nativas do turco, o árabe
e o persa.

Essa presença turca pode-se dizer que se faz inicialmente através de uma dimensão
que é militar, sendo que a partir do século IX, os turcos, que tinham estado sempre fora
do Islão até aí, constituem para as terras centrais do Islão o principal foco de recrutamento
militar, isto é, de mercenários. Isto está associado na origem à decadência do djunt como
forma de organização do exército, e à decadência dos processos de recrutamento de base
tribal, que entrou em colapso no momento em que a sociedade árabe se urbaniza, o que
acontece ao longo do século IX.

A consequência direta disso é a substituição do recrutamento interior à sociedade


islâmica por um recrutamento externo, e nesse ponto segue uma regra quase invariável,
que é a tendência das sociedades urbanizadas para encontrar os recursos fora de si
mesmos. No caso do Islão no século X isso verifica-se em processos de recrutamento de
contingentes vindos da periferia da estepe ou desértica, essencialmente berberes,
beduínos e turcos.

No extremo ocidente, existe população berbere em toda a área magrebina, diga-se


que o limite oriental entre o mundo berbere e não berbere (líbico-egípcia) era Trípoli,
embora se possa dizer que estas fossem as mesmas populações. Os berberes são uma
presença permanente, já os romanos utilizavam mercenários berberes nos exércitos, o que
tem uma grande reativação no século X, em que o Califado Omíada utiliza os berberes
no Andaluz, da mesma forma que estavam a ser usados os turcos no oriente. Pode-se
pensar no impacto da utilização dos berberes na conquista do al-Andaluz, uma vez que a
partir de 1091 a Península Ibérica faz parte do Império Berbere, em que o emir é de origem
berbere. Ele faz parte dos lantuna, que são originários da zona de Marrocos e da
Mauritânia, habitando pela zona do Sahara Ocidental, e tinham alguns hábitos
semelhantes aos dos atuais tuaregues. É nesta data que Yusuf B. Tashfin, pelos berberes,
conquista os Banu Abbad de Sevilha, sendo o último rei Al-Mutamid. Este momento é
importante porque é no ocidente a tomada do poder no ocidente pelos berberes e é o
contraponto da tomada de poder dos turcos no oriente.

Com este triunfo berbere encontramos um triunfo político-militar berbere


que instala um regime militarizado, que começa por ser feita pelos Almorávidas, sendo
depois substituída pelos Almóadas, da tribo Masmuda, ou unitários (que é o que quer
dizer Almóadas), professam um Islão heterodoxo que tem o seu próprio profeta (um
pouco como os Drusos) que é um berbere que fez a viagem a oriente e veio pregar uma
nova doutrina a ocidente, ele chamava-se Ibn Tumârt. Ele terá estudado com Al-Ghazali
no oriente, mas a diferença é que este mantém-se dentro do Islão, ao contrário de Ibn
Tumârt.

Al-Andaluz
A conquista da Península Ibérica só é possível porque é a evolução natural da
conquista do norte de África, estendendo-se depois para norte, só sendo parada em
Poitiers. O Andaluz vai ser a última província muçulmana e o Império Muçulmano vai
manter as estruturas administrativas da Antiguidade Tardia e as elites dessa província,
sendo que elas vão ser intermediários entre o poder central e a população.

A conjuntura visigoda é bastante propícia a uma conquista externa, porque estava


bastante enfraquecido, centralizado em Toledo e com uma crise hereditária, o que levou
a uma independentização das elites peninsulares. Elites essas que vão tratar diretamente
com o poder muçulmano.

A conquista em si vai começar por um general do norte de África e era cliente do


governador de Kairwan, e vai passar o estreito com cerca de 7.000 tropas berberes, o que
leva alguns historiadores a dizer que esta é uma conquista berbere, dando-se a conquista
árabe apenas no ano seguinte. A partir de 712 o governador da Ifriquia rapidamente
atravessa o estreito com cerca de 11.000 homens árabes, sendo que esta pressa se prendia
com o facto de 1/5 da conquista pertencer sempre ao conquistador. O governador da
Ifríquia estabelece em Córdova um regime de governadores do Al-Andaluz coordenado
pelo seu próprio filho, sendo que ele devia responder ao próprio califa Omíada em
Damasco. Isto está em vigor até ao início do emirato Omíada no Al-Andaluz.

Córdova é escolhida como capital porque era mais a sul e tinha sido um centro na
Bética, o que permitia uma defesa mais simples do estreito de Gibraltar. Nesta altura
também não era certo que os conquistadores permanecessem no território, mas é certo
que este domínio durará até 1492. Esta é então a última província a ser conquistada e será
também, em 756, a primeira província a independentizar-se do califa abássida de Bagdad.
É a Revolução Abássida que determina a história desta região porque o último da linha
dos Omíadas, que primeiro se refugiou no norte de África, a partir de 755 alia-se a uma
das fações militares existentes no Al-Andaluz e inicia-se assim o Emirato Omíada de
Córdova.

Este território, ainda que seja independente do Império Abássida, vai continuar
nominalmente a ter a tutela abássida. Alguns autores dizem que o nome do califa abássida
é pronunciado nas mesquitas até à existência do califado autónomo, mas alguns autores
dizem que isto durará apenas dois anos depois da independentização.
 O primeiro emir reinou trinta e três anos, e teve como principais preocupações
a estabilização das fronteiras a norte, bem como estabilizar as várias fações
árabes e berberes. Podemos questionar por que razão os abássidas nunca
tentam uma ação contro os Omíadas em Córdova, mas isto deve-se ao facto
de a Península ser muito longínqua e ser caro ataca-la. Uma das principais
ações deste primeiro emir é a construção da Mesquita-catedral de Córdova,
que vai ser mantida assim mesmo após a conquista cristã.

 O segundo emir, filho do primeiro, continua a manter as fronteiras a norte e é


no seu reinado que o Al-Andaluz se define como monaquita, ao mesmo tempo
que as elites se convertem em massa para o Islão.

 Ele foi sucedido pelo terceiro emir, Al-Raqam I, que terá de lidar com várias
revoltas em Toledo e também com conflitos nas marcas com o mundo cristão.
Terá também de lidar com revoltas em Córdova que lutavam contra impostos
considerados ilegais pelo Islão. É também nesta altura que se vão começar a
fortalecer as elites locais e que vão tornar os seus cargos dinásticos. Também
neste reinado começam a ser seguidos em Córdova personagens vindos da
corte de Bagdad, o que provoca uma orientalização da corte. É também aqui
que é feito pela primeira vez um juramento de aliança pelos filhos do emir, e
foi ele um dos principais introdutores do cerimonial de corte no Al-Andaluz,
sendo o primeiro emir Omíada a usar a pompa digna de uma sucessão
dinástica. Ao mesmo tempo ele faz uma série de reformas administrativas que
se vão basear no modelo abássida.

Ele contrata também para a sua corte vários letrados e entra a figura de
Ziriago, um músico proveniente de Bagdad e abandonou essa cidade devido
às invejas do seu próprio mestre, tendo sido uma das principais figuras no
século IX no Al-Andaluz. Entre as inovações que traz do mundo abássida, ele
introduz diferentes estilos de roupa de acordo com as estações, ele inventa
também um desodorizante anti manchas, passando assim as suas inovações
também pelo higiene. Outra das suas inovações é também o corte do cabelo e
uma cozinha mais requintada própria das cortes mais desenvolvidas,
introduzindo alimentos como os espargos. Representa também um papel mais
cerimonial na corte, sendo considerado um mestre da etiqueta. Estas
inovações, além de beneficiar o Al-Andaluz, começa a fazê-lo uma unidade
única vista isoladamente do resto do mundo islâmico.

Como todos os outros emires, este tem de ampliar a mesquita de Córdova


e inicia também a construção da mesquita de Sevilha, cidade que em 844 é
alvo de um ataque normando, o que faz com que a partir daí receba uma frota
marítima e sejam reconstruídas as suas muralhas. A elite desta época, de
origem ibérica, apesar de o emir a conseguir controlar, irá ressurgir após a sua
morte. Quando morre este emir deixa um estado completamente estabelecido.

 O quarto emir vai ser o seu filho Muhamed I, que reina durante apenas três
anos e é a partir daqui que vai começar a existir uma desestabilização. Isto
porque o número de muçulmanos vai aumentar muito, o que coloca em causa
a existência dos impostos. Por isso são cobrados impostos ilegais e vai haver
muitas contestações. Além disso as elites locais vão começar a revoltar-se e
vai-se também notar uma encastelação da Península Ibérica. Um dos
principais rebeldes fortifica-se numa zona perto de Córdova, numa zona
bastante montanhosa, e por estar muito perto da capital era bastante perigoso
para o poder central.

Estas elites vão ser muito importantes na desagregação do Al-Andaluz, em que


em 286 o emir apenas conseguia controlar as zonas perto de Córdova. Em alguns casos,
a lealdade de alguns destes rebeldes ao Islão ortodoxo não era completa, tendo recebido
missionários xiitas. Para cúmulo, as fontes muçulmanas dizem que o líder de uma destas
fações se converte ao Cristianismo em 289, mas nunca saberemos se isso é verdade. A
situação descontrola-se nos reinados seguintes e o panorama não será muito favorável aos
emires.

 Abderramán III herda o poder em 912, o Emirato de Córdova era apenas um


fragmento do que tinha sido com o primeiro emir. A escolha deste emir é
política, visto que o Al-Andaluz se encontrava ameaçado pelo califado
fatímida. O seu reinado divide-se em três fases, 912-929, em que tenta
restabelecer as fronteiras, e a partir de 929-938 ele tenta controlar os cristãos
do norte mas e derrotado pelo exército cristão de Rodrigo II. A partir de 938
nunca mais sai em campanha e dedica-se à construção da sua cidade palatina.
O emir obtém alguns sucessos contra as elites locais e em 928 consegue que o
filho de Omar Ibn-Assun, um revoltoso, se renda ao poder central, exumando
os seus restos mortais e do seu filho, o que mostraria que eles tinham cometido
a apostasia. Como propaganda desta conquista e deste emir, ele vai mandar
crucificar o corpo de um seu opositor juntamente com os seus dois filhos junto
à cidade de Córdova, como exemplo para as outras elites. E é na sequência
disso que o emir adota o título califal e a tomada deste título é uma reação
tardia ao califado fatimida que continuava a pairar no norte de África. Para
isto ele vai também cunhar moeda de ouro pela primeira vez, o que mostra que
ele controlava algumas zonas das rotas do ouro. Contudo, em 939 ele é
derrotado por uma coligação cristã do norte e ele culpa a elite da corte. Depois
da expiação desta derrota ele vai-se dedicar à construção de uma nova cidade
palatina longe de Córdova, Madina-Pazarra, o que mostra que ele deveria
temer a própria elite da corte. Este califa chega até a receber tributos de cortes
do norte cristão, como Navarra, recebendo até a rainha deste reino, a solicitar
ajuda para que um seu neto receba a coroa de Leão.

 Época das Taifas:

O filho de Abderramán III herda um reino bastante estabilizado, apesar de ter de


lidar com um saque fatimida. Assim, ele vai tranquilamente dedicar-se à cultura,
adquirindo livros e obras provenientes de todo o mundo. Ele protagoniza uma das
ampliações mais particulares da mesquita de Córdova e chega também a solicitar artesãos
bizantinos para a entrada da mesquita e para a cúpula. Nesta altura Córdova parece ter
cerca de 100.000 habitantes, daí a necessidade de ampliação da mesquita, sendo por isso
a maior cidade da Europa juntamente com Constantinopla. A partir da morte deste califa
o poder Omíada vai decrescer, principalmente porque o seu filho tinha apenas onze anos,
o que leva vários membros da corte a aproveitarem-se da situação. É desta forma de
Almansor vai tomar o poder subindo ao cargo de mordomo. Apesar da sua ascensão ao
poder minar a legitimidade califal, ele vai aparecer como protetor do Islão, tendo o seu
apogeu no saque de Santiago de Compostela em 977. Como toma este papel vai pretender
destruir a heterodoxias que existiam dentro do território peninsular.

Apesar de ter este caráter de protetor do Islão, revela-se pouco popular junto da
população devido à cobrança de impostos, porque mantém os impostos ilegais e continua
a contratar massivamente soldados berberes. Em 1002 o seu filho mantém a sua política,
mas com a morte deste, o seu irmão vai provocar a desagregação da península no seu
reinado de apenas um ano.

Ele comete o erro, consegue que o califa nomeie o seu sucessor califal. Apesar de
o califa ser apenas uma figura nominal, vai colocar em causa o edifício ideológico do
califado. A unidade desintegra-se finalmente quando Sanchuelo se vira para o norte. Entre
1008 e 1031 vão suceder-se bastantes califas. As duas cidades palatinas vão ser saqueadas
e destruídas durante esta altura, quer pela população, quer por mercenários berberes.

Agora surgem os reinos das taifas, pequenas construções que pretendiam reduzir
a sociedade de corte nas suas próprias cortes. Para isso vão proclamar-se como mordomos
de um califa há muito desaparecido, sendo esta uma forma de legitimar o poder. Apesar
desta divisão política, há um grande florescimento cultural. Por exemplo, Sevilha chegou
mesmo a ter um monarca poeta. Outra das taifas importantes era Granada, coordenada
por uma dinastia berbere, sendo que um dos seus soberanos acaba mesmo por escrever as
suas memórias.

Estas taifas pagavam um tributo aos reinos cristãos do norte, o que era prelúdio
para o domínio cristão da Península Ibérica, sendo que as fronteiras dos reinos cristãos
vão progressivamente descendo mais para sul. É neste contexto de desagregação política
do Al-Andaluz que em 1085 Afonso VI toma Toledo e a dinastia almorávida berbere entra
na Península Ibérica, e em 1086 eles derrotam as tropas de Afonso VI, que foge para
Toledo. Esta cidade marca um acontecimento para a reconquista cristã porque nunca mais
voltará para as mãos muçulmanas.

Ao princípio esta nova dinastia é bem vista pela população, porque não cobrava
os impostos ilegais, o que era bastante fácil para uma dinastia com uma economia de
saque e que controlava rotas comerciais, e não tinha soldados mercenários. Contudo, esta
economia de expansão dura apenas dois reinados e vai começar a ter uma posição
defensiva tanto na Península Ibérica, como no norte de África, sendo que nesta altura
surge outra dinastia berbere, os Almóadas, que conquista a capital no norte de África em
1147. A dinastia almorávida acaba também por se desagregar.

Os almóadas surgem na época das cruzadas do oriente e da tomada de Jerusalém,


tendo quase um carater profético contra a reconquista cristã e o fundador desta dinastia
vai assumir uma figura quase profeta, quase nomeando-se como “o esperado”, o que
estava bastante associado ao xiismo. Ao mesmo tempo, os almorávidas assumem o
estatuto califal.

Em 1185, o terceiro califa almóada ainda consegue vencer Castela, mas em 1212,
com o quarto califa eles perdem uma batalha e acabam por se desagregar, o que leva a
uma terceira época de taifas na década de trinta deste século. Isto leva à conquista de
Córdova e de Sevilha, ficando apenas o reino de Granada na Península Ibérica,
sobrevivendo até 1492, acabando a terceira época de taifas.

Este reino apenas sobrevive porque se vai tornar vassalo de Fernando III de
Castela. Questionamos porque é que os reinos cristãos não fizeram logo desaparecer o
reino muçulmano de Granada, mas a resposta reside no facto de eles pagarem um
importante tributo a Castela, por estar situada numa região montanhosa e custosa de
conquistar e por se um refúgio dos muçulmanos. Além do mais, surge uma nova dinastia
no norte de África que surge como apoio de Granada, que podia tanto ser engolida pelo
norte cristão como ser anexada pela dinastia do sul. Parece que apenas na segunda metade
do século XIV há o grande auge da construção de Granada. A partir do século XV a sua
posição vai-se começar a debilitar porque o casamento dos reis católicos une as duas
cortes, e leva a uma forte oposição ao reino de Granada, que também provocou os cristãos
do norte, levando à queda de Málaga, Almeria, e por fim Granada, que sofre uma
campanha em 1491, tendo o sultão de se render em 1492, refugiando-se no norte de
África.

Fatímidas
O Egipto fatímida não teve de se confrontar militarmente com o Ocidente. Vindos
do Magrebe Oriental, os fatímidas ismailitas proclamaram no Cairo, um novo califado,
com gritos de esperança xiita.

Obaid-Allah declarava pertencer à descendência do Profeta pela sua filha Fátima.


Assim Abu Abd Allah encarregou-se de preparar a sua ascensão. Foi neste contexto que,
conseguiu ganhar as boas graças de berberes em peregrinação a Meca, seguiu-os até à
Pequena Cabília, daí marchou contra os Aglábidas e conseguiu abrir caminho para
Keruan, onde após diversas peripécias, Obaid Allah, fazendo-se tomar pelo mádi por
todos os xiitas entrou como um triunfador.
Assim as medidas brutais empregues pelo mádi para fazer aderir a população ao
xiismo e os processos fiscais abusivos, aos quais ele recorreu para preparar uma
expedição ao Oriente, provocaram a terrível revolta do berbere kharijita Abu Yazid, que
pôs em perigo o poder dos primeiros califas fatímidas.

Neste contexto podemos dizer que, os fatímidas tentaram muitas vezes implantar-
se no Egipto entre 913 e 936. Após a queda dos Ikhchididas, o califa Al- Moizz retomou
o projecto em 926. Sendo que, o seu libertador Jaubar apoderou-se de Fostât e
empreendeu a construção de uma nova cidade no Cairo. Ao mesmo, o Cairo conseguiu
anexar a Síria. Al-Moizz entrou no Cairo em 973, depois de ter confiado Ifriqiya e o
Magrebe central aos príncipes berberes Sanhâja. O poderio fatímida atingiu então o seu
apogeu, favorecendo no Egipto a eclosão de uma das mais brilhantes civilizações que este
país conheceu.

Seljúcidas
No século XI, apareceram na cena política os turcos seljúcidas sunitas.
Esmagando o xiismo até então preponderante (buyidas e fatímidas), eles impuseram aos
países conquistados novas maneiras de pensar e de viver, sem atingirem o Ocidente, onde
os berberes se libertaram da tutela Oriental. Assim vimos que, o Oriente e o Magrebe
ficaram de costas voltadas. Os Ghaznevidas fundaram um Império, que unificou, durante
algum tempo, as províncias persas. Toghrulbeg destruiu o poderio buyida e fez-se
reconhecer sultão pelo califa de Bagdade. Assim Toghrulbeg juntamente com Alp-Arslan
e Malik Châh, não só dotaram o seu Império de uma organização política e social, que
kopserviu de modelo a todo o Oriente muçulmano, mas foram em todas as frentes os
defensores do Islão sunita. Além disso, não ficaram satisfeitos por terem libertado o califa
abássida do jugo dos buyidas xiitas. Foi com base neste aspecto que, aniquilaram a acção
de seitas e esforçaram-se por expandir o ensino da ortodoxia. Invadiram a Ásia Menor e
retiraram o domínio aos bizantinos, estabeleceram igualmente o seu poder sobre a Síria
fatimita até ao momento em que, a chegada dos cruzados transformou o Próximo Oriente,
introduzindo nele os principais francos.

Após a morte de Malik-Châh, o Império Seljúcida começou a fragmentar-se e a


dividir-se. Assim os governantes provinciais emanciparam-se e formaram-se dinastias
locais na Síria, Mesopotâmia, Arménia e Pérsia.
Estado Ayyubida
É o estado fundado por Saladino e que é o estado que será dominante até 1250,
data do seu desaparecimento, que é parcial, porque o modelo deste estado é o modelo do
estado mameluco. De uma forma ou de outra, podemos dizer que a matriz deste estado é
a matriz do Médio Oriente (Egito e Síria) até à conquista otomana.

Isso só por si seria suficiente para realçar os começos do estado fundado por
Saladino, mas há aspetos mais importantes que a durabilidade. Esses aspetos prendem-se
com o facto de Saladino ter sido o primeiro sultão a conseguir reunificar o Islão do ponto
de vista de uma ideia comum depois do colapso abássida. Isso passa por um retorno da
unidade da égide sob uma ortodoxia, a sunita. Saladino rompe com a única construção
política que ao tempo não seguia o Islão sunita, que era o estado fatimida.

Isso permite colocar diretamente o Egito e depois a Síria em obediência simbólica


ao califa de Bagdad. Como na verdade os estados seljucidas e pós-seljucidas também se
reconheciam na égide teórica do califa de Bagdad, temos um Islão unificado debaixo da
obediência carismática do califa, e politicamente (num mapa relativamente complexo),
mas em que a ocidente surge uma força aglutinadora, o sultanato ayyubida.

Pela primeira vez há uma congregação, um reconhecimento global, em torno da


figura de Saladino e da dinastia que ele cria resultante dos méritos pessoais e também de
um programa político e militar que empreende. O primeiro passo é juntar o Egipto e Síria
de novo. Ele cria um estado centrado no Cairo, que é o centro suposto do sultanato
ayyubida, e sê-lo-á com os sucessores imediatos de Saladino, mas com ele o centro real
é Damasco.

Isso tem várias razões estratégicas, a primeira dominar os senhores autónomos, a


segunda é a relação com os estados cristãos latinos e a terceira é a relação com o califado
de Bagdad. Acaba por controlar todas as cidades interiores. Vai traduzir-se num programa
de governo que o aproxima dos grupos religiosos que lideram as cidades. Em parte porque
tem um comportamento muito contido, que se traduz numa certa imagem de um sultão
ascético em oposição à imagem tradicional das cortes sumptuosas do Médio Oriente,
também elas do mundo abássida. Há uma contra retórica acerca do luxo, a abstenção do
mesmo, uma severidade geral do ponto de visto da conduta. A questão da frugalidade é
uma questão central do discurso religioso.
Num mundo onde a sociedade das cortes tinha atingido o seu apogeu, Saladino
apresenta um modelo novo para as cidades; o dinheiro das cortes canaliza-se para o
desenvolvimento das cidades, de madraças, de mercados e de fortificações, ganhando
com isso uma espécie de imunidade – a obra de Saladino é inatacável. Tendo em vista
que chegou ao trono depois de vários golpes e alguns assassinatos, não maculava a aura
que irá construir em seu redor. É um dos pontos que o transforma em líder incontestável
da comunidade.

O terceiro ponto tem que ver com os Cruzados e a jihad, sendo este ponto
totalmente jihadista desde a primeira hora. Ele é educado no contexto de reação islâmica
aos Cruzados, nos círculos próximos de Nur-Aldin, sendo que toda a sua juventude se faz
pós-1144 e influenciada desde muito cedo por estes conflitos, refletindo-se já na sua
maturidade. Apesar de não ser considerado um sexto pilar do Islão, pela maioria dos
crentes, há que notar que a própria da expansão do Islão contém em si um elemento
jihadista, no sentido em que o crente deve pegar em armas mas quando o Islão está a ser
atacado.

Isso pode ter uma face externa, contra os invasores, sendo o Islão uma religião
proselitista, aquilo que é considerado um estado natural, é que toda a gente aceita a última
mensagem que é a pregação do Profeta; o caminho para essa universalidade não só pela
pregação mas também pela jihad, vista como um instrumento para chegar a um estado
natural – o Islão como religião universal. E uma face interna, como a jihad sendo uma
coisa para dentro, tendo a ver com o progresso das sociedades islâmicas. O que pode
funcionar como contra ponto à jihad é o estatuto do dhimi, grupo que fica sob proteção
do califa, cristãos e judeus, e zoroastristas. A ideia que esses indivíduos podem viver com
outras religiões sob domínio islâmico é tão matricial como a jihad. Há, no interior do
Islão, um equilíbrio entre as duas coisas.

No século XII, seguramente, parece que há algumas variáveis no sentido de


inverter isto e trazer o jihadismo à tona. A primeira variável quem a ver com a expansão
a Ocidente e uma pressão nova no mundo islâmico, e de um Ocidente que não pressiona
sob uma motivação cruzadística. Não é claro até que ponto se estende a perceção do lado
islâmico dessa motivação cruzadística. Vêm-na do ponto de vista militar ao invés do
ponto de vista religioso.
Em primeiro lugar, esta pressão cristã das Cruzadas que acaba por radicalizar; em
segundo lugar, a própria militarização da sociedade que é mais propensa a uma ideário
que passa por uma conceção belicista, ou que envolva uma atividade guerreira; e, em
terceiro lugar, a prevalência crescente do misticismo sufi, formas ascéticas que veem na
jihad uma das suas manifestações. Esse ponto é importante e tem um contraponto evidente
na criação das ordens militares a Ocidente. Essas não aparecem no Oriente, uma vez que
nem judeus ou islâmicos têm uma tradição monástica. A componente militar adquire uma
característica religiosa e a componente religiosa adquire uma característica bélica,
radicalizando-se.

A ascensão do Saladino e a forma como corporiza o novo projeto islâmico é feito


também pelo seu papel que lidera a jihad de forma bem-sucedida, mostrando isso na
grande vitória de Hatin, na conquista de Jerusalém particularmente simbólica (terceira
cidade mais sagrada do Islão) mas que não perde, por isso, a sua dimensão de simbolismo;
um dos sucessores de Saladino, Al-Kamil, vai negociar a sua entrega no âmbito da
segunda Cruzada ao imperador Frederico II. É uma entrega, demonstrando o peso da
ideologia, é má para todos. Entrega a cidade em condições impossíveis para os cristãos,
sendo uma das condições à sua entrega seria a destruição dos muros. Houve quem a
comparasse à formação do primitivo enclave judaico. Em grande medida, é tática, mas
certo é que o ulema condena-o muito duramente pela entrega porque é crime entregar
uma cidade sagrada a um inimigo da cidade.

A presença de Saladino é exemplar, ao limpar os estados cristãos latinos, deixando


uma faixa, por um lado quase consegue reverter a situação e, ao mesmo tempo,
transformar-se num emblema do Islão e fazer reconhecer a sua autoridade pelo conjunto
da Umma. É precisamente por isso que a sua figura acaba por ser vista como, pelo
renascimento árabe, por volta do século XIX e XX, uma figura histórica enigmática.

As cruzadas
Os países orientais atraíam também outros grupos da população da Europa
Medieval. O feudo do cavaleiro passava por herança somente ao filho mais velho e os
outros não recebiam terras. Estes procuravam terras novas, botins, glória, e de bom grado
participavam em qualquer guerra para as receber.
Além disto, o comércio e o incremento dos mercados de luxo obrigava a grandes
gastos. Uma saída semelhante para esta situação era uma expedição ao oriente, onde
esperavam obter grandes botins e terras.

Com o oriente sonhavam também os camponeses. Os senhores feudais


sobrecarregavam-nos com contribuições. No oriente esperavam encontrar a salvação da
fome e da opressão dos senhores. As cidades comerciais, sobretudo as do norte da Itália,
também estavam interessadas na conquista do oriente. Esperavam obter grandes lucros
mediante o aumento do comércio com os países ocidentais.

A igreja pregava com insistência uma expedição ao oriente para a conquista da


síria e da palestina. Em Jerusalém, de acordo com a lenda, estava sepultado o fundador
da religião cristã – Jesus Cristo. O clero exigia a reconquista do “sepulcro do senhor” das
mãos dos infiéis (muçulmanos). Na realidade, a igreja contava com uma expedição
triunfal ao oriente para aumentar as suas riquezas e elevar o seu prestígio. Então as
cruzadas tiveram razões económicas e religiosas.

No ano de 1095, o papa Urbano II convidou todos os reunidos a marchar para


Jerusalém para libertar o “sepulcro do senhor” do domínio dos infiéis. Falou também do
grande botim reservado para os conquistadores no oriente. O papa declarou paz em toda
a europa enquanto durasse a expedição; prometeu aos participantes defender as suas
famílias e bens, além do pagamento das suas dívidas, a liberdade dos camponeses.
Ordenou também que todos os bispos pregassem as cruzadas.

A expedição dos pobres foi uma espécie de “pré-cruzada”, que em primeiro lugar
empreendeu a marcha de uma milícia de camponeses pobres. Estavam sem organização
e mal armadas, mas mesmo assim dirigiram-se para o Reno. No primeiro combate, os
camponeses foram aniquilados na Turquia. Os miseráveis destroços da milícia camponesa
foram levados para Constantinopla para esperar os cavaleiros.

Em todos os senhorios da Europa se reuniram vários cavaleiros, mas que seguiram


diferentes caminho: um grupo seguiu o mesmo trajeto dos pobres e o outro marchou até
à Itália. Alguns destacamentos chegaram até ao sul da Itália e dali transladaram-se por
mar para a península balcânica.

Em 1097, mas milícias senhoriais reuniram-se em Constantinopla perante o


imperador bizantino Alex Comneno, que os transladou para a Ásia Menor. Cada cidade
conquistada era motivo de discórdia entre os chefes. Os cruzados tiveram de travar uma
longa luta na Antioquia devido às suas grandes muralhas. No entanto a luta foi ganha e
uma grande quantidade de muçulmanos foi degolada.

Em 1099 dá-se a ocupação de Jerusalém, e sem compaixão pelos muçulmanos os


cruzados degolaram crianças e mulheres. Os cruzados interrompiam a matança para rezar
nos lugares santos, e depois recomeçavam os ataques e saques.

Com as terras conquistadas pelos cruzados formou-se o reino de Jerusalém, o


principado de Antioquia e os condados de Edessa e Trípoli, que eram vassalos do reino
de Jerusalém. Um dos chefes da expedição dos cavaleiros, Godofredo, foi escolhido para
primeiro rei. Mas terras conquistadas foi implantada a ordem feudal. Os camponeses
locais foram transformados em servos, devendo entregar aos senhores a maior parte das
suas colheitas. A população muçulmana era terrivelmente oprimida r mais uma vez
sublevou-se contra os tiranos opressores.

O reino de Jerusalém ocupava uma faixa estreita ao longo do mediterrâneo. Tinha


que se defender continuamente dos vizinhos principados muçulmanos. Para a defesa
foram organizadas ordens religioso-militares especiais: a dos Templários, os
Hospitaleiros e a Teotónia Alemã.

 Segunda e terceira cruzadas:

Os cruzados conseguiram conquistar a Síria e a Palestina porque os senhores


feudais agiram separadamente, com frequência e lutavam uns contra os outros. Mas o
estado fundamentado pelos cruzados era precário: tinha que se defender constantemente
dos muçulmanos. Além disso, a população indígena odiava os cruzados. Entre os
cavaleiros havia choques e lutas, e uns até se aliavam com os muçulmanos. Com isto
começaram a perder aos poucos as terras conquistadas.

No ano de 1144, os turcos apoderaram-se de Edessa. A segunda cruzada não teve


bons resultados pois a situação do estado dos cruzados tornava-se cada vez mais difícil.

Bem cedo os cruzados tiveram um inimigo perigoso: os desunidos estados da


Síria, Mesopotâmia setentrional e o Egipto, que foram unificados sob o comando de
Saladino, que declarou guerra aos cruzados. Como os chefes cruzados não souberam unir-
se, Saladino obteve uma vitória em Tiberíade em 1187. Os cavaleiros foram derrotados e
o rei de Jerusalém caiu prisioneiro. No mesmo ano Saladino conquistou Jerusalém, e isto
serviu como pretexto para a terceira cruzada.

Na terceira cruzada participaram três soberanos europeus: o imperador germânico,


Frederico I (barba roxa); o rei francês Filipe II Augusto; e o rei Inglês, Ricardo Coração-
de-Leão. Frederico I dirigiu o seu exército para a Ásia Menor, através da península
balcânica, mas na passagem de um rio o imperador afogou-se e a maior parte do seu
exército teve que ser retirado. Filipe II Augusto e Ricardo Coração de Leão concentraram
todas as forças na tomada da fortaleza de São João do Acre. Contudo, mesmo depois de
a tomarem, as desavenças entre os reis continuaram. Filipe II regressou à França, e
Ricardo à Inglaterra, abandonando Jerusalém e a Palestina deixando-as nas mãos dos
muçulmanos. As possessões dos cruzados na Síria e na Palestina diminuíram
consideravelmente.

 Quarta cruzada:

Nos princípios do século XIII iniciaram-se os preparativos para a quarta cruzada.


Os cruzados resolveram reunir-se em Veneza, e daí os navios venezianos transladaram-
se para o oriente. Nesse tempo havia choques entre Veneza e Bizâncio. Os venezianos
aproveitaram as forças dos cruzados para acabar com Bizâncio, sua rival comercial mais
importante. Devido a esta rivalidade, os exércitos de cruzados em lugar de se dirigirem
para Jerusalém, kforam para Constantinopla que tomaram de assalto em 1204,
submetendo-a a um saque terrível. Esta cruzada demonstrou que os cruzados não
pensavam absolutamente em libertar o “sepulcro do senhor” mas sim nas pilhagens e

ganhos. Saqueavam não só muçulmanos mas também cristãos. Depois de apoderar-se de


Constantinopla, não pensaram sequer numa expedição ulterior no Oriente. Os cruzados
apoderara-se de uma parte considerável do império bizantino; e nesse território
conquistado formaram o império latino. Os bizantinos conservaram só conservaram uma
parte da península balcânica e alguns domínios da Ásia Menor. No entanto, a posição do
império latino era algo de precária. A população aborígene odiava os cavaleiros que as
saqueavam. No norte, era necessário sustentar as guerras com os búlgaros. Os bizantinos
fortificaram-se na Ásia Menor e daí atacavam o império latino. No ano de 1261
apoderaram-se novamente de Constantinopla e restauraram o império bizantino, no
entanto este império nunca mais recuperou totalmente desta quarta cruzada.
 O fim das cruzadas:

No século XIII empreenderam-se outras cruzadas. A última, a oitava, ocorreu no


ano de 1270. Todas elas só acarretaram a perda absurda de um grande número de pessoas.
Ojhhhhhhhhbklçºs cavaleiros que permaneceram no oriente não se puderam sustentar a
si mesmos e no ano de 1291 caiu o último baluarte dos cruzados, São João do Acre. Já os
cavaleiros da europa ocidental conservaram apenas a ilha do Chipre durante uns duzentos
anos.

As cruzadas não conseguiram atingir o seu objetivo inicial. Nem os cavaleiros da


europa ocidental nem os das cidades conseguiram consolidar-se no oriente. Contudo, o
significado das cruzadas foi muito importante para a europa:

- Aumentaram o comércio com o oriente.

- Pelo mediterrâneo, onde antes das cruzadas navegavam quase exclusivamente


mercadores orientais, desenvolveram então vastas relações comerciais as cidades
meridionais, italianas e francesas.

- Bizâncio, rival das cidades italianas, recebeu um golpe tremendo.

- Veneza e Génova assenhoreara-se não só ao mediterrâneo, mas também ao mar negro.

- As cruzadas deram a conhecer aos europeus novas culturas agrícolas e novas espécies
de frutas. (trigo sarraceno (ou trigo mouro, é a única espécie de trigo que não tem glúten),
milho, arroz, limões e damascos). Começou a difundir-se o uso do açúcar de cana.

- Apareceram novos ramos de indústria: o fabrico de vidro e dos tecidos de seda.

- Os europeus conheceram também a magnifica cultura oriental, o que aumentou


consideravelmente o horizonte mental dos homens daquele tempo.

Império Indiano Mongol: a religião unitária de Akbar


Desde o século VIII que havia invasões islâmicas na Índia principalmente a partir
do Afeganistão, e a partir do século XIII do Sulnato de Deli foi governado por uma
dinastia turco-afegã.

Assim podemos dizer que, o Islão demonstrou na Índia, os traços principais do


paradigma ulemá-sufi. No entanto, não apresentou uma estrutura social muçulmana
unitária, nem uma comunidade muçulmana uniforme.
Com o tempo, os sufis acabaram por se tornar mais importantes do que os ulemás
apoiados pelo Estado, os primeiros reconhecidos pelos seus indianos como seus «homens
sagrados».

A filosofia mística de um tal Ibn Arabi, que ensinava a unidade de todo o ser, veio
muito ao encontro da mentalidade indiana. Os sufis mantinham um maior distanciamento
crítico com o Estado dos ulemás, que estavam ao serviço deste como juízes, funcionários
públicos e professores.

As bases do Império Mongol Indiano foram lançadas no século XVI, na época da


Reforma na Europa por Zahir Babur. Graças a uma cavalaria e técnicas de luta e
armamento superiores, Babur conquistou Cabul em 1504, Khandahar em 1506 e o Norte
da Índia em 1526. Após a queda de Agra, Babur nomeou-se «Imperador do Indostão», na
mesquita de Deli.

Mais tarde, Akbar levou a cabo uma expansão territorial para Sul e para Leste.
Aos 34 anos, governou um grande Império, que abarcava todo o Norte da Índia até para
lá de metade do subcontinente.

Em termos de política religiosa, tentou desde cedo alcançar um equilíbrio entre a


pequena minoria dominante dos muçulmanos e a grande maioria dos hindus, praticando
uma invulgar tolerância: proibição da escravização de prisioneiros de guerra hindus,
abolição do imposto individual, autorização para que os hindus desempenhassem cargos
públicos. «Paz para todos», eis a designação posterior da política religiosa de Akbar: as
religiões do Império deveriam considerar-se mutuamente parceiros em pé de igualdade,
e entre elas deveria alcançar-se uma «reconciliação geral».

Como era evidente esta política tolerante foi criticada, sobretudo por parte dos
ulemás defensores da xariá, que nos debates sobre questões teológicas e práticas se
revelavam, muitas vezes inferiorizados. Akbar desejava ser um muçulmano fiel ao
Alcorão, crê no Deus único, mas que se pode revelar noutras religiões.

Mais tarde, Akbar fundou a sua ordem «Ser-um-só divino», ao serviço da única
«religião divina», composta por elementos das religiões que lhe eram conhecidas. A sua
religião única acabou por não se impor, mas restavam os membros da ordem, que na sua
ligação religiosa ao soberano constituiam um factor importante para a conservação das
dinastias mongóis.
O sistema clássico mongol conseguiu manter-se até à soberania do Aurangzeb.
Foi com ele que o Império Mongol adquiriu a sua maior expansão, mas entrou também
uma crise económica.

Otomanos
O Império sunita dos Otomanos expandiu-se pela Anatólia, que devido à
imigração turca, bem como à repressão e à conversão dos cristãos se tornou um território
islâmico independente. Em 1354, os Otomanos teriam chegado aos Balcãs, subjugando o
Norte da Grécia, a Bulgária e a Sérvia. A batalha decisiva teve lugar no campo dos
Melros, no Kosovo em 1389. Depois da conquista de Constantinopla pelo sultão Mehmed
II, em 1453, que se assumiu como sucessor do imperador bizantino, a sede de conquistas
dos Otomanos passou a ser ilimitada. Assim o século XVI tornou-se numa época de nova
expansão. O sultão passou a ser divinizado como soberano de guerra, califa e
conquistador imperial. Na dinastia consolidada do sultanato, tinhamos um Estado militar
e administrativo de organização centralista: no topo, o grão-vizir e os restantes ministros
(vizires). Desta forma, o Império Otomano passou a assumir a hegenomia islâmica, com
o Islão sunita como religião oficial e um exército regular forte, cujo núcleo era constituído
por uma artilharia modernizada e uma infantaria de elite, composta pelos janízaros (nova
tropa). O sultão Selim I foi o verdadeiro fundador do grande Império Otomano: soberania
marítima sobre a parte leste do mar Mediterrâneo, conquista do Azerbaijão e do Norte da
Mesopotâmia, desde a Síria até ao Egipto. Os Mamelucos que detinham a soberania
militar sobre o Egipto e a Síria e que, durante muito tempo, foram o bastião político,
religioso e cultural contra os Mongóis, revelaram-se totalmente impotentes perante os
Otomanos, pois não tinham artilharia. Nas décadas seguintes, a soberania otomana foi
alargada à Arábia. O sultão incorporava não só a autoridade patrimonial (otomana) e
islâmica, mas também a imperial que, na sua cultura cosmpolita, se baseava em elementos
árabes, persas, bizantinos e europeus. Os turcos, cuja presença se fez sentir por toda a
parte com representantes e tropas, tomaram o lugar dos Árabes como povo do Estado
privilegiado. Solimão reforçou o Estado a nível interno, reorganizou o exército, construiu
mesquitas monumentais e alargou o império até Bagdad, Bassorá e Bahrein.

Em 1571, a frota otomana foi derrotada na batalha naval de Lepanto contra uma
aliança cristã. O Império Otomano ultrapassou o zénite do seu poder, embora tenha
conseguido manter-se a nível elevado durante um século e meio. O século XVII foi um
século de preservação. Um segundo cerco a Viena, em 1683, terminou em fracasso. O
avanço dos turcos foi interrompido, tendo o Império Otomano cometido o mesmo erro de
todos os Impérios Mundiais: prolongou demasiado o seu poder. Assim revelou-se cada
vez mais difícil manter, e sobretudo, financiar os grandes e disciplinados exércitos. O
Império Otomano nos tempos modernos deu origem ao mais forte dos Estados
muçulmanos. Assim devemos dizer que, Mehmed II destacou-se pela invasão da Europa
Balcânica, conquista da Síria e do Egipto aos Mamelucos por Selim I. O império
estendeu-se desde as portas de Viena até ao Nilo e de Bagadad a Tunes e Argel, ocupadas
pelos corsários turcos.