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História do Islão Medieval

A Arábia do século VII, onde surgiu o Islão era uma terra isolada. No entanto, esta tornou-
se num sistema de relações económicas internacionais e até, intercontinentais. Assim a
Arábia foi uma fonte viva de desenvolvimentos sociais e culturais.

Neste contexto podemos dizer que, a Arábia definiu-se como uma terra separada das
outras. Assim podemos dizer que, existem três Arábia. Uma a Oeste onde se encontrava,
o Hidjaz, isto é, barreira montanhesa de rochas primárias ou vulcânicas. A segunda Arábia
designava-se por Yémen. E por fim, a terceira Arábia era conhecida como o Nadjd, ou
seja, o planalto.

Os Árabes do Sul produziam mirra, incenso e outras especiarias e essências que


constituíam a sua principal fonte de exploração.

A organização política da Arábia do Sul era monárquica e o seu parecia assentar na


sucessão de pais para filhos. Os reis não tinham carácter divino como nos restantes
territórios do Oriente, e a sua autoridade, pelo menos em determinadas épocas, era
limitada por conselhos dos notáveis e posteriormente, por um certo tipo de feudalismo,
em que os senhores locais governavam dos seus castelos os vassalos e camponeses.

A religião da Arábia do Sul era politeísta e apresentava analogias, mais de ordem geral
do que de pormenor, como de outros antigos povos semitas.

Os templos constituíam centros importantes da vida pública e possuíam grandes riquezas,


administrativas pelo chefe dos sacerdotes.

Os Árabes do Sul parecem ter estabelecido colónias no Norte provavelmente para fins
comerciais. A primeira informação detalhada que se possui data da época clássica, altura
em que a penetração de influências helenísticas procedentes da Síria e a exploração
periódica da rota comercial da Arábia Ocidental deram origem a uma série de estados
fronteiriços, semi-civilizados nos desertos limítrofes da Síria e do Norte da Arábia.

Estes Estados ainda que de origem árabe, encontravam-se sob uma forte influência da
cultura aramaica helenizada e utilizavam, de um modo geral, a língua aramaica nas suas
inscrições.

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Num dado momento, no século IV, as rotas comerciais parecem ter-se desviado do Oeste
da Arábia para outros canais através do Egipto e do Mar Vermelho e através do Vale do
Eufrates e do Golfo Pérsico. No sudoeste, as civilizações do Iémen enfraqueceram e
submeteram-se ao domínio estrangeiro. A perda de prosperidade e as migrações das tribos
do Sul para o Norte foram sintetizadas e simplificadas pela tradição nacional árabe no
episódio dramático da rotura do dique de Marib e consequente devastação. A norte, os
estados fronteiriços anteriormente florescentes ou ficaram sujeitos ao domínio imperial
ou regressaram a um anarquismo nómada.

As cidades existentes na maior parte da península arábica foram perdendo importância ou


desapareceram, e o nomadismo alastrou por toda a parte, à custa do comércio e da cultura.

O traço dominante da população centro e norte da Arábia neste período que precedeu a
ascensão do Islão era o tribalismo beduíno.

Na sociedade beduína a unidade social era constituída pelo grupo e não pelo indivíduo.
Este só tinha direitos e obrigações enquanto membro do respetivo grupo. O grupo
mantinha-se unido pela necessidade de autodefesa contra as dificuldades e perigos da vida
no deserto, e internamente pelos laços de sangue de descendência por linha masculina,
que constituía o vínculo social básico. A subsistência da tribo dependia dos rebanhos e
manadas e da pilhagem de aldeias vizinhas e de caravanas que se aventuravam a
atravessar a Arábia.

É através de uma espécie de cadeia de pilhagens recíprocas que os produtos e géneros


provenientes dos territórios colonizados penetravam por via das tribos mais próximas das
fronteiras, até às tribos do interior.

A organização política da tribo era rudimentar. O chefe era o sayyid ou sheikh, chefe
eleito, o qual raramente representava algo mais do que o primeiro entre os seus iguais.

Mais do que ditar ele seguia a opinião tribal. Não podia impor obrigações nem infligir
penalidades. Os direitos e as obrigações cabiam às diversas famílias no seio da tribo, mas
a nenhuma de fora. A função do “governo” do sheikh era mais de arbitagem do que de
exercício de autoridade. O sheukh era eleito pelos anciãos da tribo, normalmente de entre
os membros de uma única família, funcionando como uma espécie de “casa de sheikhs.”
Assim o conselho dos anciãos era denominado por majlis, constituído por chefes das

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famílias e pelos representantes dos clãs existentes na tribo. Os majlis funcionavam como
porta-voz da opinião pública.

A vida da tribo era regulada pelo direito consuetudinário, a Sunna, cuja autoridade
advinha da veneração pelo passado, e encontrava a sua única sanção na opinião pública.

A religião dos nómadas era uma forma de polidemonismo próxima do paganismo dos
antigos semitas. As entidades por eles adoradas eram, na origem, os habitantes e seres
tutelares de lugares específicos, que viviam nas árvores, nas fontes e especialmente nas
pedras sagradas. Havia alguns deuses no sentido real que transcendiam na sua autoridade
as fronteiras dos cultos puramente tribais. Os três principais eram Monat, Uzza e Allat,
que estavam submetidos a uma divindade superior, Allah. A religião tribal não possuía
um verdadeiro clero. A fé tribal concentrava-se à volta do deus da tribo, geralmente
simbolizando uma pedra.

O oásis era a única exceção a este modo de vida nómada. Aqui, pequenas comunidades
sedentárias formavam uma organização política rudimentar, e a família a mais importante
do oásis estabelecia, em regra, uma espécie de regime de pequena realeza.

Os nómadas foram, entretanto, estabelecendo as cidades com um nível de sociedade muito


mais avançado.

Maomé e a origem do Islão

A personalidade de Maomé, antes da pregação era mal conhecida. A data da Hégira


marcou o momento em que, Maomé saiu de Meca para Yathrib (Medina). A Hégira
marcou o ponto de partida da era islâmica.

Maomé terá nascido em Meca por volta de 570 d.C. Na família dos banu hashim em que
pertencia a família dos quraish.

Pouco depois de nascer Maomé ficou órfão e foi criado pelo avô e mais tarde, pelo seu
tio Abu Talib que era mercador.

Maomé conheceu a viúva Khadija com quem casou.

Meca era, entretanto, uma cidade comercial e pensa-se que durante algum tempo Maomé
se tenha ocupado a dirigir alguns negócios.

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Maomé exerceu o ofício de mercador e de caravaneiro.

Os conceitos de monoteísmo sugerem que Maomé tenha estado sujeito a determinados


contactos com judeus e cristãos.

Foi no dia 27 do mês do Ramadão do ano 610 (9º mês do calendário islâmico) que Maomé
ouviu o chamamento quando, na gruta de Hira no Monte da Luz, lhe apareceu o Arcanjo
Gabriel. Este repetiu-lhe várias vezes: «recita». Maomé soube então que Alá o escolhera
para ser seu enviado, encarregado de «recitar» aos homens as revelações que lhe eram
transmitidas por Gabriel ou pelo Espírito Divino: essas revelações fragmentárias,
agrupadas posteriormente, iriam constituir o Corão.

Ao princípio os habitantes de Meca consideravam a sua pregação inofensiva. Assim


inicialmente obteve apoios escassos e encontrou-os sobretudo nas classes mais humildes.
Entre os primeiros convertidos estavam a sua esposa Khadija e o seu primo Ali (que foi
o 4º califa).

Maomé apresentou-se como aquele que adverte, que anunciava a chegada próxima do
juízo final, no decorrer do qual o Deus único, grande justiceiro, recompensava os homens
conforme as suas ações. Dizia que, a finalidade desta vida não era tornarmo-nos ricos,
mas a submissão a Alá e a obediência aos seus mandamentos: fazer a oração e praticar a
esmola.

Após a morte do seu tio e também da sua esposa Khadija, a situação de Maomé em Meca
alterou-se. Entretanto Maomé havia-se tornado mais agressivo e começou a atacar
abertamente a religião existente em Meca.

Os motivos da sua oposição eram dois:

1. Receava-se que a abolição da antiga religião e do estatuto que gozava o santuário


de Meca privassem a cidade da sua situação única e privilegiada como centro não
só de peregrinação, mas também de negócios;
2. Maomé não pertencia a nenhuma das famílias dominantes de Meca e por isso
ninguém o queria no poder.

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O último período da sua permanência em Meca foi assinalado pela perseguição da vida
dos muçulmanos que foi suficientemente forte para dar origem à retirada de um grupo de
adeptos de Maomé para a Abissínia.

Porém a nova fé do Islão continuava a atrair novos discípulos entre os mais notáveis
destacam-se Abu Bakr, Omar e Othman. O facto de não conseguir em Meca um progresso
significativo levou Maomé a tentar o êxito noutras cidades. Assim em 622, aceitou o
convite do povo de Medina e para lá se transferiu, convidando os seus adeptos a
acompanhá-lo. Deu-se, portanto, a Hégira que não se tratou de uma fuga, mas sim de uma
“migração.”

Esta ida de Maomé para Medina foi um ponto de viragem e os quraish não esboçaram
qualquer tentativa de o impedir. O povo de Medina convidara Maomé por se tratar de um
homem possuidor de um espírito e força invulgares capaz de arbitrar e resolver as suas
dissidências internas.

Ao contrário da população de Meca não tinham qualquer atracão pelo paganismo e


estavam prontos a aceitar, sob certas condições, o aspeto religioso do Islão, desde que
este fosse ao encontro das suas necessidades políticas e sociais.

Houve divergências de opinião entre o povo de Medina sobre se deveria ou não recorrer
a esse árbitro “estrangeiro.” Os que apoiaram Maomé ficaram designados pela tradição
por Ansar e os que se lhe opunham eram designados de Munafiqun.

Efetivamente Maomé acaba por instalar-se em Medina e aí tudo muda, toda a realidade
era diferente para o Profeta.

Em Meca Maomé era apenas um cidadão, em Medina era o magistrado supremo de uma
comunidade. Em Meca era forçado a submeter-se de forma mais ou menos passiva à
ordem existente, em Medina era ele que governava. Em Meca pregava o Islão, em Medina
podia pô-lo em prática.

O governo de Maomé em Medina deparou-se com graves dificuldades. Os seus adeptos


convictos eram pouco numerosos, faziam parte deles os Muhajirum (os que tinham
acompanhado desde Meca) e os Ansar (habitantes de Medina que o apoiavam).

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Antes de mais, Maomé teve de fazer frente aos Munafiqun, cuja oposição era
essencialmente política (só mais tarde estes converteram-se ao Islão).

Maomé esperou encontrar um acolhimento entre os judeus, cuja fé e as escrituras lhes


permitiu entender as reivindicações do Profeta com maior simpatia. Maomé adotou
algumas práticas judaicas, incluindo o jejum de kipur e a oração voltada para Jerusalém.

Os judeus, no entanto, rejeitaram as pretensões do Profeta e opuseram-se-lhe a nível


religioso. Essa oposição falhou como consequência da sua divisão interna e
impopularidade entre a população de Medina, de um modo geral. Maomé, ao
compreender que não podia contar com qualquer espécie de apoio dessa população
(judaica) abandonou mais tarde as práticas judaicas, substituiu Jerusalém por Meca na
orientação das suas preces e conferiu à sua doutrina um carácter árabe e nacional.

Desde a sua chegada a Medina, Maomé detinha poderes políticos suficientes para se
proteger e proteger também os seus adeptos contra qualquer tipo de oposição violenta que
pudesse surgir.

Ao tomar consciência que uma doutrina religiosa necessitava do apoio de um corpo


político, Maomé passou a agir politicamente e através de uma diplomacia hábil converteu
a sua força política numa autoridade religiosa.

A comunidade estabelecida a Umma constituiu uma evolução da cidade pré-islâmica, com


algumas alterações vitais e marcou o primeiro passo na via da posterior autocracia
islâmica.

Confirmava a organização e costumes tribais, mantendo para cada tribo as respetivas


obrigações e privilégios relativamente aos estrangeiros.

Porém, no seio da Umma, todos esses direitos vieram a ser abandonados e todas as
disputas submetidas à decisão de Maomé.

A Umma veio completar mais do que suplantar os costumes sociais da Arábia pré-
islâmica, todos os seus conceitos se inseriam numa estrutura de tribalismo. Manteve as
práticas pré-islâmicas em matéria de bens, de casamento e de relações entre membros da
mesma tribo.

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Também se organizou uma nova conceção de autoridade, o sheikh da Umma, ou seja, o
próprio Maomé, exercia as suas funções, isto para os verdadeiros convertidos, não por
força de uma autoridade condicional e consensual, não espontaneamente reconhecida pela
tribo e sempre revogável, mas por uma absoluta prerrogativa religiosa. A fonte de
autoridade foi transferida da opinião pública para Deus que a conferiu a Maomé.

A Umma tinha, portanto, um duplo carácter. Por um lado, era um organismo político,
uma espécie de tribo nova de que Maomé era o sheikh e os muçulmanos e os outros, os
seus membros. Todavia também possuía um significado religioso.

Constituía uma comunidade religiosa, uma teocracia. Os objetivos políticos e religiosos


nunca se apresentavam separados. Só a religião podia amentar o estado entre os árabes,
para quem o conceito de “autoridade política” era completamente estranho.

Os imigrantes economicamente débeis e não desejando cair na dependência da população


de Medina, voltaram-se para a única profissão que lhes restava, a das armas.

A pilhagem, atividade a que se dedicavam, era naturalmente própria nesta altura. As


grandes caravanas de mercadores eram os seus principais alvos e rendiam bastantes
lucros.

O próprio Maomé nunca foi criticado por consentir estes atos de pilhagem, que de resto,
eram vistos por todos como legítimos. As expedições contra o comércio de Meca serviam
um duplo propósito: por um lado ajudavam a manter o bloqueio à cidade, única forma de
a submeter à nova fé. Por outro lado, iam aumentando o poder, a riqueza e o prestígio da
Umma em Medina.

A batalha de Badr ajudou a estabilizar a comunidade e marcou o início de um novo tipo


de revelação. A partir de então as revelações de Medina eram muito diferentes das de
Meca, referindo-se aos problemas práticos do governo, à distribuição do produto das
pilhagens e a questões semelhantes.

O próprio Islão começou a transformar-se. Maomé pregava agora uma religião nova da
qual ele era o Profeta. Essa nova religião era mais estritamente árabe e, com a adoção da
kaaba de Meca como local de peregrinação a conquista da cidade tornou-se um dever
religioso.

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Em Março de 625 os Quraish, reagindo ao perigo crescente das incursões de Medina,
enviaram uma expedição contra Maomé e derrotaram os muçulmanos em Uhud. Porém
não perseguiram até Medina, regressando a Meca.

Em 628 Maomé sentiu-se suficientemente forte para tentar um ataque a Meca. A


expedição transformou-se numa peregrinação pacífica. A adoção de tréguas por 10 anos
sendo que os muçulmanos foram autorizados a efetuar a peregrinação a Meca no ano
seguinte e a lá permanecer durante 3 dias.

Em 630 o assassinato de um muçulmano por cidadão de Meca serviu de causa ao ataque


decisivo e à conquista de Meca.

Com a tomada de Meca e submissão dos Quraish à Umma do Islão, a missão do Profeta
estava concluída. O traço mais significativo do último ano foi a reação das tribos nómadas
à comunidade de Medina. Maomé deparou-se com situações que lhe eram totalmente
desfavoráveis.

O sistema que lhes propunha era-lhes estranho em todos os pontos de vista, exigindo a
renúncia ao seu imenso amor pela independência individual e uma parte importante do
seu código de virtudes e tradições anuais (?).

O seu verdadeiro objetivo, o da conversão, nunca foi realmente alcançado. O objetivo


aparente da sua diplomacia após a Hégira foi o da expansão da sua própria influência em
detrimento da dos Quraish. Conseguiu-o evitando nas questões militares e políticas, nas
suas negociações coletivas com as tribos, e remetendo a religião para a conversão
individual. A tribo concordava em reconhecer a soberania de Medina, abstinha-se de
atacar os muçulmanos e os seus aliados e aceitava o pagamento do tributo religioso
muçulmano.

Com a morte do Profeta, surgiu uma nova religião. Dotou essa religião de um livro de
revelações, criou uma comunidade e um Estado bem organizado e armado.

Califas

Abu Bakr: Neste califado, o Islão assegurou o domínio da Arábia, sobretudo na região
central e multiplicou as incursões aos confins da Síria e do Iraque.

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Além disso, neste califado também se deve destacar o movimento surgido entre as tribos
(ridda). As guerras da ridda transformaram-se numa guerra de conquista que veio a
expandir-se muito além das fronteiras da Arábia.

Ainda existiram neste califado, várias batalhas contra os bizantinos.

Assim neste califado podemos dizer que, houve uma oposição entre as sociedades
nómadas que ocupavam o centro da Península Arábica e a parte ocidental e as sociedades
urbanas que caracterizavam o Iémen e o Hadramault.

Omar: Instituiu um sistema de acordo com o qual o Império, no seu conjunto era confiado
à comunidade muçulmana. Sendo que, o califa era o seu mandatário. Além disso, nomeou
num colégio eleitoral um shura.

Othman: Tal como Muawiya era membro de uma das famílias dominantes de Meca. As
guerras de conquista que constituíram o ponto essencial da história árabe até à morte de
Omar sofreram uma interrupção. A migração do povo árabe chegara ao fim. Os árabes
tinham invadido em massa as províncias ocupadas. Neste contexto, houve uma revolta
contra Othman que não foi religiosa nem pessoal. Foi uma revolta dos nómadas contra
qualquer tipo de controlo centralizado. O ataque contra Othman vinha do Egipto, mas
situou-se em Medina. Talha, Zubair, Amr e Aisha constituíram centros de conspiração
contra o califa.

Ali: Assinalou o fim de Medina como capital do Império Islâmico, pois mais nenhum
califa passou a residir na cidade. Era a primeira vez que um califa conduzia um exército
muçulmano para uma guerra civil contra outros muçulmanos. Ali e o seu exército
dirigiram-se a Kufa. Depois avançou para Barsa e derrotou as forças dos seus inimigos
na batalha do camelo. Talha e Zubair foram mortos e Aisha foi enviado para Meca. Ali
regressou a Kufa que passou a ser a sua capital. Depois disto, Ali teve conflitos com
Muawiya. Tiveram um confronto no qual, Muawiya exigiu a extradição e castigo dos
assassinos de Othman e a abdicação de Ali assim como a convocação de um novo shura
para eleger um novo califa. Neste contexto, um grupo de adeptos descontentes com a
aceitação de Ali e a sua recusa em combater Muawiya formaram um partido os kharijitas.

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Omíadas

Com os omíadas o Islão sagrou-se, em plena Idade Média, como prolongamento dos
grandes Impérios à antiga. Assim recobre a Grécia e a Ásia Menor.

Neste contexto podemos dizer que, Muawiya tornou-se chefe único do Islão. Assim
quando Muawiya subiu ao trono a situação apresentava-se difícil. A administração do
Império estava descentralizada e desorganizada. Havia ressurgido o anarquismo e a
indisciplina nómada que já não estava dependente de um vínculo religioso ou moral,
conduzia a uma falta de unidade no Império.

O vínculo teocrático que mantivera coeso o primitivo califado fora quebrado com o
assassinato de Othman, a guerra civil que lhe seguiu e a transferência da capital de
Medina.

A oligarquia de Meca estava desmembrada e desacreditada. Muawiya tinha de encontrar


uma nova base de coesão para o Império.

Deu então início à conversão da teocracia teórica islâmica numa monarquia árabe, assente
na casta dominante árabe.

Muawiya e os seus sucessores deram realce aos aspetos político-económicos do governo,


mas o fator religioso, embora em segundo plano, assumia uma importância considerável.

Através das campanhas contra os bizantinos, Muawiya teve o papel de defensor do Islão
e de condutor da guerra santa, exigindo e recebendo a fidelidade religiosa da maior parte
dos árabes.

O processo de centralização que se afigurava necessário para que o Império Árabe


sobrevivesse implicava a adoção de diversas medidas. A primeira era a transferência da
capital para a Síria, que se manteve a província metropolitana do Império ao longo de
todo o século omíada.

Muawiya estabeleceu-se em Damasco, cuja situação central e antigas tradições culturais


e administrativas deixavam pressupor a possibilidade de criar um governo capaz de
controlar as províncias mais remotas.

O novo vínculo moral que veio tomar o lugar do vínculo religioso desaparecido foi
moldado na lealdade da nação árabe ao seu chefe reconhecido.

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O principal instrumento do seu governo era o shura, um conselho de sheikhs, convocado
pelo califa ou por um governador provincial com funções consultivas ou executivas. Em
ligação com esses conselhos tribais havia as wufuds, delegações das tribos. Muawiya
raramente dava ordens, mas era muito hábil na sua atuação recorrendo aos métodos mais
engenhosos de persuasão. Nas províncias a sua autoridade era exercida por intermédio de
governadores designados para o efeito. O mais importante foi Ziyâd, governador do
Iraque.

Na sua administração, o califado omíada não era tanto um estado árabe quanto um
sucessor dos estados persas e bizantino. A máquina administrativa permaneceu intacta,
no que diz respeito aos quadros dos funcionários. Um dos problemas vitais para a
estabilização do Império residia na regulamentação da sucessão do califa. Antes dessa
regulamentação havia apenas dois processos: a eleição e a guerra civil.

O regime de sucessão por via hereditária era ainda demasiado estranho para os árabes.
Muawiya, com a sua habitual diplomacia, encontrou uma solução, de compromisso ao
designar o seu filho Yazid. Este constituiu um bom exemplo da forma como funcionava
o seu parlamentarismo tribal.

Durante o reinado de Muawiya o Império desenvolveu-se com firmeza. Na Ásia Central,


os Árabes foram progredindo. No Norte de África dirigiram-se para o Ocidente, para o
Atlântico. A guerra contra Bizâncio prosseguiu e a primeira grande vitória naval sobre os
bizantinos, na “Batalha dos Mastros”, surgiu em 655 quando Muawiya era ainda apenas
governador da Síria. Esta vitória resultou do desenvolvimento de uma poderosa frota
naval.

O grande acontecimento do seu reinado foi o ataque a Constantinopla em 670. As


guerras com Bizâncio tiveram um duplo propósito: reforçar o prestígio religioso de
Muawiya e dotar o exército árabe da Síria de uma melhor preparação, disciplina e
experiência.

Em 680, Yazid sucedeu no califado sem perturbações graves. Foi hábil e competente. A
sua fonte de preocupações foi o evoluir dos acontecimentos no Iraque. O regime rígido
de Ziyad e ainda mais duro do seu filho Ubaidallah haviam contribuído para acentuar o
descontentamento dos árabes no Iraque em relação ao domínio Sírio, levando a um
movimento favorável a Hussein, filho mais novo de Ali e neto de Maomé. No ano 680,

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Hussein e um pequeno grupo de familiares e de partidários foram massacrados pelo
exército omíada na batalha de Karbala. Nem mesmo assim cessou o desenvolvimento de
um partido opositor aos omíadas, centrado nas reivindicações da linha de Ali.

Em 683 Yazid morreu e sucedeu-lhe o seu filho Muawiya II. Seguiu-se um período de
crise e instabilidade, que assistiu ao surgimento dos primeiros conflitos tribais. A morte
de Muawiya II após um reinado de apenas 6 meses foi seguida de um interregno e da
eclosão da 2ª Guerra Civil do Islão. Na Árabia, Ibn az-Zubair filho de Zubair, que se
opusera a Ali, apresentou-se como pretendente ao califado, mas desperdiçou uma
oportunidade excelente devido à sua recusa obstinada em abandonar Meca e fixar-se na
Síria. Na Síria eclodiu um conflito aberto entre tribos árabes locais e hostis, que terminou
com a vitória dos omíadas sobre os seus adversários na batalha de Marj Rahit em 684.

Marwan, membro de um outro ramo da casa omíada foi então proclamado califa, com o
controlo efetivo da Síria e do Egipto. Antes da sua morte conseguiu providenciar no
sentido da sucessão do seu filho Abd al-Malik, a quem coube a tarefa de restaurar a
unidade do Império e a autoridade do governo, e de criar um novo organismo de Estado
que suprisse a situação de desagregação do governo de Muawiya II.

A 2ª Guerra Civil foi mais complexa e envolveu riscos mais graves do que a primeira. A
nível económico sabe-se pouco, mas os omíadas agiam de forma arbitrária e muitas
vezes inesperada, sem preocupações em respeitar precedentes consagrados ou planos.

A sociedade omíada tinha como base a ascendência exercida pelos árabes, os quais
formavam uma casta social hereditária à qual só podia ascender por via do nascimento.
Não pagavam impostos sobre as suas terras ficando sujeitos apenas ao pagamento de um
dízimo religioso. Só eles podiam ser recrutados para o Ansar, constituíam a grande
maioria dos guerreiros, com direito a pensões mensais e anuais e a subsídios em géneros
e espécie, provenientes de pilhagens e das receitas obtidas das províncias conquistadas.

Ainda antes da ascensão ao trono dos omíadas, os árabes começaram a adquirir terrenos
fora da Arabia. A partir do reinado de Muawiya, o número de propriedades rurais árabes
foi aumentando. Essas propriedades eram adquiridas de duas formas através da compra a
proprietários não árabes, ou mediante doação feita pelo governo árabe. O novo regime
árabe herdara os vastos domínios dos governos bizantinos e persa.

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A estes vieram juntar-se as terras abandonadas pelos grandes latifundiários bizantinos,
que se haviam posto em fuga com os exércitos imperiais derrotados. Estas terras
juntamente com os terrenos baldios e não cultivados constituíam os Mawat dos juristas
muçulmanos. No sentido de assegurar o cultivo dessas terras e garantir a cobrança de
impostos sobre estas, os califas puseram em prática a concessão de arrendamentos
denominados de Qatai, aos membros das suas famílias e a outros árabes ricos e
considerados. Assim estes implicavam a obrigação de cultivar a terra dentro de um
período de tempo estipulado e de cobrar os impostos e proceder à sua entrega ao governo.
Ao contrário dos proprietários rurais não árabes e dos camponeses que estavam sujeitos
ao pagamento integral do imposto herdado do antigo regime, os proprietários
muçulmanos-árabes limitavam-se a pagar o dízimo.

O número de Qatai aumentou rapidamente, cobrindo vastas áreas das melhores terras. Os
titulares dos qatai não residiam, normalmente nas propriedades, mas sim no Ansar ou na
capital, entregando o cultivo das terras a um rendeiro nativo ou a mão-de-obra semi-servil.

Os califas omíadas e muitos outros homens ricos viviam faustosamente nas cidades e
inclusivamente no deserto.

A economia da época era predominantemente monetária. Os impostos eram pagos tanto


em espécie como em género. A cunhagem herdada das administrações persa e bizantina
continuou a produzir moeda de ouro e de prata.

A circunstância da casta dominante árabe poder dispor de enormes quantias contribuiu


para o aparecimento de uma nova classe os Mawali. Estes eram todos os muçulmanos que
não pertencessem a uma tribo árabe por descendência. Incluíam assim os persas, arameus,
egípcios, berberes e outros não-árabes convertidos ao Islão.

A expressão não abrangia os não-muçulmanos, designados por Dhimis, ou seja, adeptos


das religiões protegidas que gozavam da tolerância do Estado muçulmano em troca de
uma tributação mais gravosa e de determinadas discriminações sociais.

Os Mawali afluíram em grande número aos Ansar árabes onde edificaram grandes burgos
exteriores de operários, artificies, lojistas, mercadores, satisfazendo a aristocracia árabe.

Os Mawali lutaram ao lado dos Árabes nos exércitos do Islão. A situação da inferioridade
social dos Mawali transparece claramente na literatura árabe.

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O número dos Mawali aumentou rapidamente, ultrapassando em breve o dos árabes. A
sua fixação maciça nas cidades fortificadas veio dar origem a uma população urbana,
descontente e insatisfeita, cada vez mais consciente da sua importância política, da sua
superioridade cultural e da sua participação cada vez maior mesmo nas operações
militares. O seu descontentamento era sobretudo de carácter económico.

O descontentamento dos Mawali encontrou expressão religiosa no movimento conhecido


por shia. O shiismo começou por ser uma fação puramente árabe e puramente política,
reunida à volta das pretensões de Ali e dos seus descendentes ao califado. A transferência
da capital para Kufa, por determinação de Ali, e a sua subsequente transferência para a
Síria pelos Omíadas trouxe ao shiismo o apoio do patriotismo local iraquiano.

No campo oposto estavam aqueles que se submetiam ao sunni ou doutrina ortodoxa


islâmica.

Mais do que uma revolta nacional contra os árabes, o shiismo foi uma revolta social contra
a aristocracia árabe, o seu credo e o seu estado.

Os Mawali persas e outros foram atraídos pelas formas mais extremistas e intransigentes
do shiismo. Uma das ideias fundamentais que introduziram na cena religiosa com origem
na experiência cristã, judaica e persa, foi a de Mahdi (aquele que é guiado pela justiça).

Dentro da shia os candidatos da linha de Fátima (filha do profeta) representavam a ala


moderada, contando com o apoio dos elementos descontentes dentro dos próprios árabes.
A linha de Muhammad ibn al-Hanafiya (filho de Ali) estava conotada com um
extremismo de credo e comportamento e representava mais de perto as reivindicações
prementes dos Mawali.

Os Omíadas, devido ao crescente descontentamento dos seus súbitos, não podiam contar
com o apoio unânime dos árabes. O sentido de independência tribal era ainda muito forte
entre os árabes nómadas. Em Meca e Medina, os pietistas, que nunca haviam aceitado o
compromisso de Muawiya de “arabismo” e “centralização”, formaram uma oposição
teocrática, acentuando o aspeto independente e religioso do califado patriarcal, cujo ideal
defendiam.

O movimento dos kharijitas constituiu uma expressão mais grave do desejo de rejeição
do Estado centralizado e de retorno a uma ordem pré-islâmica.

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O movimento kharijita começou por ser de cariz religioso evoluindo progressivamente no
sentido de uma oposição anarquista agressiva, reconhecendo como única autoridade a do
califa.

No espaço de 20 anos que se seguiu à morte de Ali, tiveram lugar no Iraque algumas
insurreições kharijitas pouco significativas, culminando com a revolta em massa por
morte de Yazid. Os kharijitas nunca foram bem-sucedidos devido a conflitos internos.
Durante o governo de Abd al- Malik, foram esmagados no Iraque e empurrados para a
Pérsia. Estavam praticamente aniquilados nos inícios do século VIII.

A principal fraqueza interna da ordem omíada e que acabou por determinar a sua queda
estava nas repetidas e constantes rixas entre as tribos árabes. A tradição nacional árabe
dividiu as tribos em dois grupos principais: os do Norte e os do Sul com uma elaborada
árvore genológica. Houve conflitos inter-tribais na Arábia pré-islâmica, mas entre tribos
vizinhas, muitas vezes aparentadas. O aumento dessas contendas entre grandes
confederações tribais foi uma consequência das conquistas.

O primeiro indício de litigio entre as “ligas” do norte e do sul data da época de Muawiya,
evoluindo depois e explodindo com toda a violência sempre que a autoridade do governo
central enfraquecia. Foi o que aconteceu quando, por morte de Yazid, Qais, uma das
principais tribos do Norte se recusou a reconhecer o seu sucessor, optando por Ibn al-
Zubair. Os Omíadas, com o apoio da tribo Kalb do Sul, conseguiram a vitória em
Marj Rahit, mas a casa Omíada havia perdido a sua neutralidade. Depois de Abd alMalik,
os califas passaram a depender do apoio de um dos lados, e o próprio califado degenerou
para uma eleição de carácter partidário dentro do conflito tribal.

A principal zona de conflito na 2ª guerra civil foi o Iraque. Kufa constituía o principal
centro e assistiu a uma série de convulsões. Os primeiros anos de reinado de Abd alMalik
foram dedicados ao restabelecimento da ordem entre os árabes, à resolução dos problemas
da dinastia e ao estabelecimento da paz na fronteira norte, através de um acordo com o
Imperador Bizantino.

Colocou-se o problema de conceber uma nova organização. A resposta traduzia-se num


maior grau de centralização, concentrando a autoridade no soberano e tendo como base o
poder militar do exército sírio. O califado de Abd al-Malik não era ainda uma autocracia

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do velho tipo oriental, mas antes uma monarquia centralizada. Durante o seu reinado, deu-
se início a um processo designado de “organização e ajustamento.”

Os antigos sistemas administrativos bizantino e persa, até então vigentes nas diferentes
províncias, foram dando lugar a um novo sistema imperial árabe, em que a língua árabe
era a língua oficial da administração e da contabilidade.

Em 696 foi instruída a cunhagem árabe em substituição das moedas bizantinas e persas.
Abd al-Malik e os seus conselheiros foram também responsáveis pelo início de um
processo de racionalização fiscal, que depois formou um novo sistema tributário
especificamente islâmico. Legou ao seu sucessor um império poderoso e pacificado,
enriquecido pelos esforços despendidos em obras públicas e de reconstrução.

O reinado de Walid foi o ponto culminante do poder omíada. O principal interesse desse
período foi o retomar das conquistas e da expansão, agora alargada a três novas áreas. Na
Ásia Central, para Sul e na Península Ibérica a partir de 710.

Durante o reinado de Sulaiman foi empreendida uma grande expansão (falhada) contra
Constantinopla. O seu fracasso acarretou uma grave crise para o poder omíada. O esforço
financeiro provocou o agravamento da situação fiscal e financeira. O total aniquilamento
da frota e do exército da Síria junto às muralhas de Constantinopla privou o regime da
sua principal base material de sustentação. Neste momento crítico, Sulaiman no leito da
morte indica como seu sucessor o piedoso Umar ibn Abd al-Aziz, que mais do que
qualquer outro dos princípes omíadas era a pessoa indicada para levar a cabo a tarefa de
reconciliação, única via possível para a salvação do estado Omíada.

Cabia a Umar a tarefa de manter a unidade dos árabes e do Império através da conciliação
(ou consolidação) dos Mawali. Procurou consegui-lo mediante um conjunto de medidas
fiscais que, embora tenham acabado por se desmoronar, conseguiram minorar a crise.

O principal problema com que se confrontou resultou da circunstância de a conversão


maciça dos dhimis do Islão e o aumento constante do número de proprietários rurais
árabes se terem conjugado, dando origem a que um número cada vez maior de pessoas se
recusassem a pagar mais do que a taxa mínima da tributação muçulmana. A solução
encontrada por Hajjaz, ao empurrar os Mawali de novo para as suas terras e ao exigir o
pagamento total do imposto a todos os proprietários rurais muçulmanos, provocara uma
onda de indignação e revolta, revelando-se impraticável. Umar II tentou superar estas

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dificuldades através de um acordo segundo o qual os proprietários muçulmanos ficavam
sujeitos apenas ao pagamento do Ushr e não ao kharaj (a tributação mais elevada), mas a
partir de 719 deixariam de ser reconhecidas as transferências de terras sujeitas a tributação
para os muçulmanos. A partir daí os muçulmanos só podiam arrendar os referidos
terrenos, ficando sujeitos ao kharaj. Com o propósito de pacificar os Mawali, permitiu
que se estabelecessem nas cidades fortificadas sem quaisquer impedimentos e isentou-as
do kharaj e da jizya, que começava a designar especificamente o imposto individual pago
pelos não-muçulmanos. No entanto, e à excepção de khurasan, continuavam a receber
uma remuneração muito inferior à dos guerreiros árabes. Relativamente aos próprios
árabes, concedeu um nivelamento das remunerações segundo a taxa vigente, na Síria e
ainda pensões para as viúvas e os filhos dos soldados. Estas medidas foram acompanhadas
de uma política mais austera em relação aos dhimis, prestes a serem excluídos da
administração onde até à data haviam prestado serviço em grande número, ficando
sujeitos às discriminações sociais e financeiras impostas por lei.

As reformas de Umar II acarretaram o aumento das despesas e a redução das receitas. A


sua recusa em manter os dhimis na administração provocou uma certa confusão e
desordem, e nos reinados dos seus sucessores, Yazid III e Hisham, foi concebido um novo
sistema que se manteve em vigor, apenas com algumas alterações, por muito tempo após
a queda dos omíadas.

Hisham terá sido um monarca ganancioso, mas pouco se sabe do seu governo a não ser
de alguns dados referentes à política seguida pelos três principais governadores
provinciais de Hisham: Ubaidallah ibn al-Habhad no Egipto; Khalid al-Qasrino no Iraque
e Nasr ibn Sayyar no Khurasan.

A base fundamental da nova ordem assentava na ficção legal de que o pagamento do


kharaj era devido pela terra e não pelo seu proprietário. A partir deste momento, todos os
terrenos passíveis do kharaj ficavam sujeitos à tributação integral, independente da
religião ou da nacionalidade do respetivo proprietário. Os dhimis pagavam também o
jizya (imposto individual). O funcionamento deste novo sistema, que viria a constituir o
sistema canónico da jurisprudência islâmica, tornou-se mais eficaz após a nomeação de
superintendentes financeiros autónomos, ao lado dos governadores provinciais, a quem
cabia a tarefa de levar a efeito o levantamento e o censo que serviriam de base à nova
tributação.

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Após a morte de Hisham, o reino árabe foi declinando até a sua queda. A intensificação
violenta dos conflitos tribais e o desenvolvimento de uma oposição ativa xiita e kharijita
processaram-se de tal modo que em 744 a legitimidade do governo central foi posta em
causa mesmo na Síria, e ignorada no resto do território. O último dos omíadas, Marwan
II foi um soberano inteligente e competente mas era demasiado tarde para salvar a
dinastia.

O fim chegou vindo do partido que se intulava Hashimiya. Abu Hashim, filho de
Muhammad ibn al- Henafiya estivera à cabeça de uma seita extremista xiita com o apoio
do Mawla. Por sua morte, sem deixar descendência masculina, a sucessão foi reclamada
por Muhammad ibn Ali ibn al-Abbas, descendente de um tio do profeta.

Muhammad foi aceite pela seita, obtendo o controlo da máquina revolucionária e de


propaganda. O seu centro de atividades era Khurasan, onde algumas colónias árabes,
sobretudo de Barsa, se haviam fixado por volta de 670.

Haviam trazido consigo os seus conflitos tribais que se desenvolveram e espalharam nos
novos territórios. Os árabes constituíam uma pequena minoria no seio da população persa,
de temperamento belicoso e descontentes com a situação de inferioridade social e
económica.

A propaganda hashimita partiu de Kufa, cerca de 718, fazendo apelo aqueles para quem
a família do profeta representava os chefes legítimos do Islão e que acreditavam no
advento de uma nova era de justiça. Dirigida inicialmente aos árabes pelos árabes, a
missão hashimita em breve atraiu muitos Mawali.

O sucessor de Muhammad foi o seu filho Ibrahim que em 745 enviou Abu Muslim, a
Mawala do Iraque como seu agente para o Khurasan onde este teve um êxito considerável
entre as populações árabe e persa, e mesmo entre a aristocracia rural.

A orientação de Abu Muslim foi aceite de um modo geral e em 747 teve início o putsch
kashimita e as bandeiras negras dos abássidas foram içadas no Khurasan. O conflito entre
as tribos árabes do Khurasan impediu-as de oferecerem resistência eficaz ao novo
movimento até ser demasiado tarde. Uma vez estabelecidos a leste, os exércitos de Abu
Muslim progrediram para Oeste e o que restava dos exércitos omíadas foi dizimado na
Batalha do Grande Zab. A casa omíada e o reino árabe desapareceram. Em seu lugar, o

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abássida Abul-Abbas que sucedera a seu irmão Ibrahim na chefia do partido, foi
proclamado califa com título de Saffah.

Síntese dos Omíadas

• Muawiya recusou prestar homenagem ao quarto califa (Ali), reclamou para si


mesmo as honras do califa, lutou por elas e por fim, autoproclamou-se califa;
• Em vez da religião e da teologia, o Islão concentrou-se no interesse dos califas
omíadas pela liderança política e pela administração rigorosa no novo Império;
• A Síria deteve toda a hegemonia;
• Damasco era uma cidade cultural Síria e constituía um centro político do Império
Islâmico Árabe;
• Muawiya teve o reconhecimento da maioria dos muçulmanos. Não por ser
omíada, mas porque em tempos difíceis demonstrou ser a pessoa certa no lugar
certo, visto que como governador da Síria era desde logo o homem mais poderoso
da Umma;
• Muawiya conseguiu estabelecer um exército constituído por guerreiros tribais, tão
combativo como legal, juntando a isso uma marinha de guerra, que não só repelou
todos os ataques bizantinos, mas também demonstrou ter capacidade para
conquistar Chipre e Rodes e para um bloqueio marítimo de 7 anos a
Constantinopla;
• Para Muawiya a jihad era uma guerra de fé que, tanto na Síria como no Hejaz foi
considerada não apenas uma obrigação de todo o muçulmano;
• Muawiya alargou o poder militar e administrativo do Estado. Conseguiu conjugar
os fortes interesses tribais particularistas com as exigências de um Estado cada
vez mais centralizado recorrendo à prática da «colegialidade»;
• Muawiya transformou o califado numa instituição monárquica de tipo persa ou
bizantino e o uniu o Império Árabe;
• Xiismo: Os xiitas tinham uma admiração por Ali e por Hussein. Ali era o símbolo
da valentia e da eloquência árabe de Kufa. A sepultura de Hussein em Kerbala era
o local de peregrinação preferido dos xiitas.

O xiismo era um produto da espiritualidade iraniana e surgiu no ambiente árabe


de Kufa. Era um movimento que lutou com todas as forças pelo califado, mas que

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nunca o conquistou, era muito mais um «partido de oposição político-religioso no
velho Islão»;
• O xiismo passou a impor-se como «confissão» própria dentro do Islão, com uma
fé e um culto próprio: Ali como único e verdadeiro califa e imã do xiismo, e
Hussein como sua primeira testemunha;
• O princípio dinástico foi subvertido pela oposição xiita, através da confissão direta
à família do profeta: em vez da dinastia hereditária do califado dos Omíadas,
tinhamos a sucessão dos imãs (chefes máximos espirituais);
• Omar II: Com Omar II, verificou-se, pela primeira vez, uma importante influência
positiva da erudição escrita islâmica, que manteve, uma atitude de hostilidade para
com o califado omíada. Omar II não se encontrou interessado em continuar a
expansão para o exterior, concentrando-se muito mais, desde o início, nos
problemas urgentes de política interna. Após a sua eleição, levantou o cerco a
Constantinopla, iniciando pelo seu antecessor direto, o califa Sulaiman, com
enorme esforço financeiro.
Os governadores impopulares foram destituídos e os mais importantes cargos
administrativos foram renovados. A sua maior preocupação foi a observância do
direito. Para ele, o mais importante era o retorno aos primeiros princípios
islâmicos e a restauração da união interna da Umma.
Desta forma, esperava impedir o colapso do Império Omíada e recuperar uma base
de confiança o mais alargada possível entre a população muçulmana. Mostrou-se
muito preocupado com a expansão da fé islâmica, autorizou os beduínos a darem
aulas de religião. Omar II realizou um esforço para a reconciliação com os
Iraquianos e os xiitas e, sobretudo para a igualdade absoluta de direitos dos
muçulmanos não árabes. Introduziu uma profunda reforma administrativa em que,
todos os muçulmanos não árabes do exército e da administração, do comércio e
do artesanato, que tinham um papel destacado na expansão do Islão, deviam ser
aceites no império como membros de pleno direito. A este aspeto juntou-se a
reforma tributária que era destinada a trazer maior justiça, mas que não
descuidava, os interesses financeiros do império.

20
Abássidas

Tópicos Principais

• Prometeram aos seus apoiantes que a religião teria um papel mais central se
tomassem o poder e que as diferenças entre os muçulmanos árabes e os não árabes
iriam terminar;
• Desencadearam uma revolta a partir do Khorasan;
• Capital em Bagdade;
• Esta dinastia teve o seu apogeu no reinado Harun al- Rashid;
• Após a morte de Harun houve um período de guerra civil entre Al Amin e Al
Mamun;
• A influência persa predominou na vida política do califado e a nível cultural o
fundo árabe misturou-se com elementos persas, sírios e indianos;
• Os Abássidas conseguiram derrotar militarmente o califa Marwan II e ocuparam
Damasco;
• Saffah queria liquidar a elite omíada. Acabou por capitular a grande
cidadefortaleza de Wasit, onde a maioria dos oficiais sírios foram enforcados;
• Abu Maslim foi nomeado governador do Khorasan pelos abássidas. Abu Maslim
começou a tornar-se, demasiado importante para os novos soberanos. Al-Mansur
mandou-o liquidar à traição. Assim Abu Maslim tornou-se o símbolo da oposição
sócio religiosa contra os abássidas;
A nova ordem tornou-se bastante clara e nítida sob o mandato do segundo califa
abássida, Al- Mansur que, devido à morte do seu irmão Saffah, tornou-se o
verdadeiro fundador do califado abássida e com a ajuda dos sunitas tudo fez para
consolidar o regime, após os inícios revolucionários com a ajuda dos aliados;
• Após ter mandado assassinar Abu Maslim, assim com vários outros partidários e
potenciais rivais e depois de se ter virado contra os antigos aliados e de também,
ter derrubado a oposição de Medina, fundou uma nova capital. A nova cidade
tornou-se o grande centro imperial (Bagdade);
• Al-Mansur e os seus sucessores mandaram construir um número cada vez maior
de palácios novos e complexos administrativos, com inúmeros jardins e termas
com bancos, nas duas margens do Tigre;

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• Os abássidas tiveram uma tendência governativa anti-síria iraquiana e
cosmopolita;
• O contingente principal do exército era constituído pelos não-árabes;
• Os califas eram vistos como líderes da Umma de todos os muçulmanos e como
paladinos do Islão como religião universal capaz de abarcar e de unir todos os
povos;
• Harun Al-Radhid ordenou que após a sua morte o império fosse dividido entre os
seus dois filhos Amin e Mamun;
• Revolução Abássida: legado cultural.

A substituição dos Omíadas pelos Abássidas traduziu-se numa revolução. Isto ocorreu
devido a uma propaganda e a uma organização revolucionária, representando e
expressando o descontentamento de elementos importantes das populações face ao
regime anterior.

Pretendia-se derrubar a ordem existente. Uma das primeiras medidas tomadas pelos
abássidas foi o aniquilamento da ala extremista do movimento, que os levou ao poder.
Abu Muslim e muitos dos seus companheiros foram executados. Foi na insatisfação
socioeconómica da população urbana menos favorecida, nomeadamente dos mercadores
e artesãos mawali que proliferaram nas praças-fortes fundadas pelos árabes, que a força
impulsionadora da revolução foi procurada.

O fim das guerras de conquista, única atividade produtora da aristocracia árabe, classe
dominante do reino omíada, tornou essa classe historicamente redundante, abrindo
caminho ao estabelecimento de uma nova ordem social assente numa economia serena,
agrícola e comercial, com uma classe cosmopolita dominante de funcionários,
comerciantes, banqueiros, proprietário rurais.

A dinastia abássida transferiu o centro de gravidade para o Iraque, centro tradicional dos
grandes impérios cosmopolitas do Próximo e Médio Oriente.

O primeiro califa abássida Saffah estabeleceu a sua capital na pequena cidade de Hasmiya.
Mais tarde, transferiu a sua capital para Anbar.

Mansur o segundo califa abássida, foi o fundador do novo regime. Assim estabeleceu a
base permanente da capital abássida numa cidade nova, Bagdade.

22
A cidade foi fundada próxima de um canal navegável que ligava o Tigre e o Eufrates e
ocupava uma posição-chave no cruzamento de rotas em todos os sentidos e na rota da
Índia.

Do sheikh tribal que governava de acordo com a casta árabe dominante, passou-se ao
califa autocrata, proclamando a origem divina da sua autoridade.

No novo regime, a linhagem deixou de ser um elemento de promoção, contando apenas


as boas graças do soberano, e a aristocracia árabe deu lugar a uma hierarquia de
funcionários. A nova dignidade do califa traduziu-se em novos títulos. Já não era o
representante de Deus, de quem recebia diretamente a sua autoridade.

O califa continuava sujeito aos preceitos da sharia a lei sagrada do Islão. O califado
abássida foi uma autocracia assente na força militar, e reivindicando um direito quase
divino.

A administração abássida constituiu um desenvolvimento dos últimos omíadas. Assim a


administração abássida não assentava na discriminação e exclusivismo social. No entanto,
a influência da antiga ordem pérsica dos Sassânidas foi-se reforçando progressivamente
e grande parte da prática abássida foi uma imitação deliberada dos costumes Sassânidas
divulgados pelos funcionários persas e pela literatura sassânida sobrevivente.

A classe dos escribas era recrutada de entre os mawali e gozavam de elevado estatuto
social. A classe era ordenada numa série de diwans (ministérios). O contingente de
funcionários empregados por esses diwans estava sob o controlo supremo do wazir. O
wazir era o chefe de toda a máquina administrativa e detinha vastos poderes.

Nas províncias a autoridade era exercida conjuntamente pelo Amir (governador) e o Amil
(superintendente financeiro), com os seus quadros e forças próprias e com uma certa
autonomia, sob a supervisão do correio-mor.

Quanto à economia o império dispunha de valiosos recursos: trigo, cevada, tâmara,


azeitona. Era igualmente rico em metais. A prata era trazida das províncias orientais
enquanto o ouro provinha do Ocidente (Núbia e Sudão). Havia ainda cobre, ferro, pedras
preciosas, pérolas (Golfo Pérsico) e madeira (Oriente). Fazia-se um comércio
considerável tanto a nível da importação como da exportação.

23
Os abássidas levaram ainda a cabo obras de irrigação e ampliação de terras cultivadas e
drenagem de pântanos. A revolução abássida deu aos camponeses maiores direitos de
propriedade e um sistema mais equitativo de tributação.

Porém a situação do camponês continuava a ser precária e foi-se agravando devido à


especulação de ricos comerciantes e proprietários rurais e devido à introdução de mão de-
obra escrava nas grandes propriedades.

A indústria mais importante era a dos têxteis, que se iniciara durante o regime omíada e
estava agora em ampla expansão. Produzia-se todo o tipo de produtos, para consumo
interno e exportação. A indústria estava organizada em parte sob o controlo do Estado e
em parte por iniciativa privada. O sistema normal de produção era doméstico.

A partir do século X existem provas do fabrico de papel no Iraque, Síria, Egipto e Arábia.
Outras indústrias importantes eram a da cerâmica, sabão, perfume e trabalhos de metal.

Os recursos do Império e também o tráfego comercial de vital importância entre a Europa


e o Extremo Oriente tornaram possível um grande desenvolvimento comercial,
acompanhado do restabelecimento da ordem e da segurança internas e de relações
pacíficas com os países vizinhos, em lugar de guerras de conquista dos omíadas.

O comércio do império islâmico era muito mais vasto. Viajava-se até à Índia, Ceilão,
China. Trazia-se seda, especiarias, essências, madeiras, estanho e outros produtos
destinados ao consumo interno e reexportação, e também papel, tintas, animais exóticos,
selins. Do Império Bizantino eram trazidos utensílios de ouro e prata, moedas de ouro,
drogas, escravas.

Havia também comércio com a zona do Norte da Europa, Escandinávia e Rússia, e com
a África. O comércio com a Europa Ocidental foi inicialmente interrompido pelas
conquistas árabes, mas retomado pelos judeus que serviam de elo de ligação entre os dois
povos hostis.

A economia do Império Islâmico fora desde o início bimetalista, com o dirham de prata
persa a circular no Leste e o denário (dinar) de ouro bizantino no Ocidente. Estas emissões
foram mantidas pelo califado. O sarraf ou cambista passou a ser essencial no mercado
muçulmano, dando depois origem aos grandes banqueiros. Aparecem os cheques, letras

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de crédito e contas bancárias. Esta florescente vida comercial da época reflete-se no
pensamento e na literatura.

Todas estas transformações económicas acarretaram alterações sociais e um novo jogo de


relações entre os componentes étnicos e sociais da população. A casta de guerreiros árabes
fora deposta. Perdera os benefícios concedidos pelo tesouro público e os anteriores
privilégios. A aristocracia tribal árabe havia perdido o seu poder de intervenção e a sua
influência nos negócios e os seus feudos e disputas já não revestiam grande importância.
A partir dessa altura os membros das tribos árabes começaram a abandonar o Ansar
voltando alguns ao nomadismo que nunca haviam abandonado por completo, e outros
estabeleceram-se no campo. A cidade islâmica converteu-se de praça-forte do exército
ocupante nas províncias conquistadas num mercado e bolsa de câmbios, onde os
mercadores e artesãos começaram a organizar-se em guildas para auxílio e defesa
comuns.

Porém, de início o governo era ainda predominantemente árabe nos seus cargos mais
elevados. A dinastia continuava a ser árabe e a língua árabe era ainda a única língua
governamental e cultural. A superioridade teórica dos árabes mantinha-se e levou ao
aparecimento do movimento shuubiya nos círculos literários e intelectuais, apoiando as
reivindicações de uma situação de igualdade para os não-árabes.

Mas a partir desta altura os árabes deixaram de ser uma casta fechada e hereditária e
passaram a ser um povo. A emancipação social dos mawali consistia na sua plena
aceitação como árabes e mesmo os pretorianos khurasanianos dos califas tornaram-se
completamente arabizados.

Em substituição da aristocracia árabe o Império tinha uma nova classe dirigente, os ricos
e os letrados. Quanto aos dhimis, estes eram cidadãos de segunda classe, pagando
impostos a uma taxa mais elevada, sofrendo algumas discriminações sociais. Gozavam
de livre exercício da sua religião, direitos de propriedade.

Os primeiros indícios de decadência nesta civilização dominante deram-se na estrutura da


unidade política. O Império construído por Mansur parecia suficientemente sólido apesar
de alguns rumores de rebelião, até ao reinado de Harun, que em muitos aspetos marca o
apogeu do poder abássida.

25
Depois da morte de Harun, conflitos explodiram em guerra civil aberta entre os seus filhos
Amin e Mamun. A força de Amin assentava na capital e no Iraque, a de Mamun na Pérsia.
Mamun venceu, mas manteve Bagdade como capital e centro das grandes rotas
comerciais.

Em 820, Tahir, general persa de Mamun, tornou-se independente e fundou um governo


hereditário. Outras dinastias persas como a dos Safáridas em 867 ou a dos Samânidas
cerca de 892 estabeleceram-se noutras partes da Pérsia.

No Ocidente o desmembramento político começou ainda mais cedo. A Espanha em 756,


Marrocos em 788 e a Tunísia em 800 tornaram-se virtualmente independentes. O Egipto
separou-se em 868.

A custo o califa recuperou o controlo direto do Iraque, mas quanto ao resto do Império
teve de se contentar com tributos ocasionais e o reconhecimento de dinastias locais. Mas
a situação em Bagdade agravou-se o excessivo luxo da corte e o peso exagerado da
burocracia produziram a desordem financeira e a escassez de dinheiro.

A partir de cerca de 945, embora mantendo a situação e a dignidade do soberano supremo


do Islão, cabeça das Igrejas e do Estado, o poder real do califa desaparecera.

Fatímidas

O Egipto fatímida não teve de se confrontar militarmente com o Ocidente. Vindos do


Magrebe Oriental, os fatímidas ismaelitas proclamaram no Cairo, um novo califado, com
gritos de esperança xiita.

Obaid-Allah declarava pertencer à descendência do Profeta pela sua filha Fátima. Assim
Abu Abd Allah encarregou-se de preparar a sua ascensão. Foi neste contexto que,
conseguiu ganhar as boas graças de berberes em peregrinação a Meca, seguiu-os até à
Pequena Cabília, daí marchou contra os Aglábidas e conseguiu abrir caminho para
Keruan, onde após diversas peripécias, Obaid Allah, fazendo-se tomar pelo mádi por
todos os xiitas entrou como um triunfador.

Assim as medidas brutais empregues pelo mádi para fazer aderir a população ao xiismo e
os processos fiscais abusivos, aos quais ele recorreu para preparar uma expedição ao
Oriente, provocaram a terrível revolta do berbere kharijita Abu Yazid, que pôs em perigo
o poder dos primeiros califas fatímidas.

26
Neste contexto podemos dizer que, os fatímidas tentaram muitas vezes implantar-se no
Egito entre 913 e 936. Após a queda dos Ikhchididas, o califa Al- Moizz retomou o
projecto em 926. Sendo que, o seu libertador Jaubar apoderou-se de Fostât e empreendeu
a construção de uma nova cidade no Cairo. Ao mesmo, o Cairo conseguiu anexar a Síria.
Al-Moizz entrou no Cairo em 973, depois de ter confiado Ifriqiya e o Magrebe central
aos príncipes berberes Sanhâja. O poderio fatímida atingiu então o seu apogeu,
favorecendo no Egipto a eclosão de uma das mais brilhantes civilizações que este país
conheceu.

Seljúcidas

No século XI, apareceram na cena política os turcos seljúcidas sunitas. Esmagando o


xiismo até então preponderante (buyidas e fatímidas), eles impuseram aos países
conquistados novas maneiras de pensar e de viver, sem atingirem o Ocidente, onde os
berberes se libertaram da tutela Oriental. Assim vimos que, o Oriente e o Magrebe ficaram
de costas voltadas.

Os Ghaznevidas fundaram um Império, que unificou, durante algum tempo, as províncias


persas. Toghrulbeg destruiu o poderio buyida e fez-se reconhecer sultão pelo califa de
Bagdade.

Assim Toghrulbeg juntamente com Alp-Arslan e Malik Châh, não só dotaram o seu
Império de uma organização política e social, que serviu de modelo a todo o Oriente
muçulmano, mas foram em todas as frentes os defensores do Islão sunita. Além disso,
não ficaram satisfeitos por terem libertado o califa abássida do jugo dos buyidas xiitas.
Foi com base neste aspeto que, aniquilaram a ação de seitas e esforçaram-se por expandir
o ensino da ortodoxia. Invadiram a Ásia Menor e retiraram o domínio aos bizantinos,
estabeleceram igualmente o seu poder sobre a Síria fatimita até ao momento em que, a
chegada dos cruzados transformou o Próximo Oriente, introduzindo nele os principais
francos.

Após a morte de Malik-Châh, o Império Seljúcida começou a fragmentar-se e a dividir-


se. Assim os governantes provinciais emanciparam-se e formaram-se dinastias locais na
Síria, Mesopotâmia, Arménia e Pérsia.

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Império Indiano Mongol: a religião unitária de Akbar

Desde o século VIII que havia invasões islâmicas na Índia principalmente a partir do
Afeganistão, e a partir do século XIII do Sulnato de Deli foi governado por uma dinastia
turco-afegã.

Assim podemos dizer que, o Islão demonstrou na Índia, os traços principais do paradigma
ulemá-sufi. No entanto, não apresentou uma estrutura social muçulmana unitária, nem
uma comunidade muçulmana uniforme.

Com o tempo, os sufis acabaram por se tornar mais importantes do que os ulemás apoiados
pelo Estado, os primeiros reconhecidos pelos seus indianos como seus «homens
sagrados».

A filosofia mística de um tal Ibn Arabi, que ensinava a unidade de todo o ser, veio muito
ao encontro da mentalidade indiana.

Os sufis mantinham um maior distanciamento crítico com o Estado dos ulemás, que
estavam ao serviço deste como juízes, funcionários públicos e professores.

As bases do Império Mongol Indiano foram lançadas no século XVI, na época da


Reforma na Europa por Zahir Babur. Graças a uma cavalaria e técnicas de luta e
armamento superiores, Babur conquistou Cabul em 1504, Khandahar em 1506 e o Norte
da Índia em 1526. Após a queda de Agra, Babur nomeou-se «Imperador do Indostão», na
mesquita de Deli.

Mais tarde, Akbar levou a cabo uma expansão territorial para Sul e para Leste. Aos 34
anos, governou um grande Império, que abarcava todo o Norte da Índia até para lá de
metade do subcontinente.

Em termos de política religiosa, tentou desde cedo alcançar um equilíbrio entre a pequena
minoria dominante dos muçulmanos e a grande maioria dos hindus, praticando uma
invulgar tolerância: proibição da escravização de prisioneiros de guerra hindus, abolição
do imposto individual, autorização para que os hindus desempenhassem cargos públicos.

«Paz para todos», eis a designação posterior da política religiosa de Akbar: as religiões
do Império deveriam considerar-se mutuamente parceiros em pé de igualdade, e entre elas
deveria alcançar-se uma «reconciliação geral».

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Como era evidente esta política tolerante foi criticada, sobretudo por parte dos ulemás
defensores da xariá, que nos debates sobre questões teológicas e práticas se revelavam,
muitas vezes inferiorizados. Akbar desejava ser um muçulmano fiel ao Alcorão, crê no
Deus único, mas que se pode revelar noutras religiões.

Mais tarde, Akbar fundou a sua ordem «Ser-um-só divino», ao serviço da única «religião
divina», composta por elementos das religiões que lhe eram conhecidas. A sua religião
única acabou por não se impor, mas restavam os membros da ordem, que na sua ligação
religiosa ao soberano constituíam um fator importante para a conservação das dinastias
mongóis.

O sistema clássico mongol conseguiu manter-se até à soberania do Aurangzeb. Foi com
ele que o Império Mongol adquiriu a sua maior expansão, mas entrou também uma crise
económica.

Otomanos

O Império sunita dos Otomanos expandiu-se pela Anatólia, que devido à imigração turca,
bem como à repressão e à conversão dos cristãos se tornou um território islâmico
independente.

Em 1354, os Otomanos teriam chegado aos Balcãs, subjugando o Norte da Grécia, a


Bulgária e a Sérvia. A batalha decisiva teve lugar no campo dos Melros, no Kosovo em
1389.

Depois da conquista de Constantinopla pelo sultão Mehmed II, em 1453, que se assumiu
como sucessor do imperador bizantino, a sede de conquistas dos Otomanos passou a ser
ilimitada. Assim o século XVI tornou-se numa época de nova expansão. O sultão passou
a ser divinizado como soberano de guerra, califa e conquistador imperial. Na dinastia
consolidada do sultanato, tínhamos um Estado militar e administrativo de organização
centralista: no topo, o grão-vizir e os restantes ministros (vizires). Desta forma, o Império
Otomano passou a assumir a hegemonia islâmica, com o Islão sunita como religião oficial
e um exército regular forte, cujo núcleo era constituído por uma artilharia modernizada e
uma infantaria de elite, composta pelos janízaros (nova tropa).

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O sultão Selim I foi o verdadeiro fundador do grande Império Otomano: soberania
marítima sobre a parte leste do mar Mediterrâneo, conquista do Azerbaijão e do Norte da
Mesopotâmia, desde a Síria até ao Egipto.

Os Mamelucos que detinham a soberania militar sobre o Egito e a Síria e que, durante
muito tempo, foram o bastião político, religioso e cultural contra os Mongóis, revelaram-
se totalmente impotentes perante os Otomanos, pois não tinham artilharia. Nas décadas
seguintes, a soberania otomana foi alargada à Arábia.

O sultão incorporava não só a autoridade patrimonial (otomana) e islâmica, mas também


a imperial que, na sua cultura cosmopolita, se baseava em elementos árabes, persas,
bizantinos e europeus. Os turcos, cuja presença se fez sentir por toda a parte com
representantes e tropas, tomaram o lugar dos Árabes como povo do Estado privilegiado.

Solimão reforçou o Estado a nível interno, reorganizou o exército, construiu mesquitas


monumentais e alargou o império até Bagdad, Bassorá e Bahrein.

Em 1571, a frota otomana foi derrotada na batalha naval de Lepanto contra uma aliança
cristã. O Império Otomano ultrapassou o zénite do seu poder, embora tenha conseguido
manter-se a nível elevado durante um século e meio.

O século XVII foi um século de preservação. Um segundo cerco a Viena, em 1683,


terminou em fracasso. O avanço dos turcos foi interrompido, tendo o Império Otomano
cometido o mesmo erro de todos os Impérios Mundiais: prolongou demasiado o seu
poder. Assim revelou-se cada vez mais difícil manter, e sobretudo, financiar os grandes e
disciplinados exércitos.

O Império Otomano nos tempos modernos deu origem ao mais forte dos Estados
muçulmanos. Assim devemos dizer que, Mehmed II destacou-se pela invasão da Europa
Balcânica, conquista da Síria e do Egipto aos Mamelucos por Selim I. O império
estendeu-se desde as portas de Viena até ao Nilo e de Bagdad a Tunes e Argel, ocupadas
pelos corsários turcos.

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Os 5 Pilares do Islão

1- Profissão de fé ou Shehada: É o pilar mais importante. Acredita-se na unidade


de Deus (Allah) e na veracidade da mensagem transmitida a Maomé.
2- Oração ou Salat: Todo o crente tem que rezar, exceto aquele que estiver doente
ou em viagem prolongada. Há cinco orações diárias que são obrigatórias e que
correspondem aos momentos do dia (pequeno – almoço, almoço, lanche, jantar e
seia). Obrigatórias são também as orações fúnebres e a oração de sexta-feira.
Depois há as orações super-rogatórias que são feitas nas festas, e as facultativas.
3- Esmola legal ou Zakat: Não é um ato de caridade, mas sim um dever religioso.
É um dever dos ricos e um direito dos pobres. Antigamente era obrigatória, mas
actualmente já é facultativa. Tenta-se assim ajudar aqueles que mais precisam,
para se viver numa sociedade mais igualitária.
4- Jejum ou Syam: É no 9ºmês do calendário islâmico (ramadão). É isto como uma
penitência ou ato de purificação do crente. Desde o nascer ao pôr-do-sol. São
feitas duas refeições uma antes do sol nascer e outra à noite depois do sol se pôr.
Neste mês os crentes devem disciplinar o corpo e a mente, dedicado mais do seu
tempo às orações. No entanto, há pessoas que não fazem o jejum: crianças que
ainda não tenham atingido a puberdade, pessoas alienadas e idosos (em fez do
jejum devem oferecer uma refeição a um pobre). Também existem aquelas
pessoas que não fazem o jejum logo na altura, e passado algum tempo fazem-no
é o caso dos doentes, dos muçulmanos em viagem desde que seja a mais de 50
milhas de casa, mulheres em período de menstruação e mulheres grávidas ou que
estejam a amamentar.
No fim do mês dá-se a noite do poder em que o crente fica acordado toda a noite
a ler o Alcorão e a rezar.
O jejum é quebrado na festa da rutura que assinala o fim do ramadão.
5- Peregrinação ou Hajj: O crente deve ir a Meca, vestido com uma túnica branca.
No 1º dia dão-se 7 voltas à kaaba com o objetivo de tentar beija-la. A peregrinação
pode ser: uma grande peregrinação, menor ou uma visitação (pode ser feita por
procuração e só são dadas as 7 voltas à kaaba e a al-ziyarah visita-se o túmulo de
Maomé em Medina. Isto vai acabar por ir contra um hadith que diz

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que não se deve adorar mais nada se não Allah. Porém, segundo a tradição, o
túmulo de Maomé passou a ser um local de culto.
O radicalismo muçulmano considera a existência de um 6º pilar a Jihad, ou seja,
a guerra não é um objetivo do Islão e nunca o foi. Só se deve recorrer à guerra
para defender o Islão e os muçulmanos. A Jihad é um esforço para manter a
unidade da fé e dos crentes, é um esforço para libertar os estados muçulmanos
dos infiéis, é um esforço para defender a pátria.

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