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Exercícios de micro-história

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MÔNICA RIBEIRO DE OLIVEIRA
CARLA MARIA CARVALHO DE ALMEIDA
ORGANIZADORAS

Exercícios de micro-história

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Copyright © 2009 Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida

Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV


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em parte, constitui violação do copyright (Lei no 9.610/98).

Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor.

Este livro foi editado segundo as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa,
aprovado pelo Decreto Legislativo no 54, de 18 de abril de 1995, e promulgado pelo Decreto
no 6.583, de 29 de setembro de 2008.

1a edição — 2009
Versão digital — 2012

Preparação de originais: Daniela Duarte Candido, Maria Lúcia Leão Velloso


de Magalhães, Sandra Frank

Revisão: Adriana Alves Ferreira e Catalina Arica

Capa e Diagramação: Santa Fé ag.


Ficha catalográfica elaborada pela
Biblioteca Mario Henrique Simonsen / FGV

Exercícios de micro-história / Organizadores: Mônica Ribeiro de


Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida. — Rio de Janeiro : Editora
FGV, 2009.
300 p.

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-225-0898-3

1. História — Metodologia — Coletânea. 2. Historiografia —


Coletânea. 3. História social — Coletânea. I. Oliveira, Mônica Ribeiro
de. II. Almeida, Carla Maria Carvalho de. III. Fundação Getulio Vargas.

CDD – 907-2
Sumário

Apresentação 7
Mônica Ribeiro de Oliveira
e Carla Maria Carvalho de Almeida

Prefácio 11
Giovanni Levi

Parte I: A micro-história e seus precursores 17


1. Microanálise e história social 19
Edoardo Grendi

2. Paradoxos da história contemporânea 39


Edoardo Grendi

3. Reciprocidade mediterrânea 51
Giovanni Levi

4. Economia camponesa e mercado de terra 87


no Piemonte do Antigo Regime
Giovanni Levi

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Parte II: O diálogo com a história e a historiografia 111
5. Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura 113
Cássio da Silva Fernandes

6. Pensando as transformações e a recepção da micro-história


no debate histórico hoje 131
Henrique Espada Lima

Parte III: Exercícios de micro-história 155


7. O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio:
notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII 157
João Fragoso

8. Indivíduos, famílias e comunidades: trajetórias percorridas no tempo


e no espaço em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX 209
Mônica Ribeiro de Oliveira

9. Redes de compadrio em Vila Rica: um estudo de caso 239


Renato Pinto Venâncio

10. Os vínculos interfamiliares, sociais e políticos da elite mercantil


de Lima no final do período colonial e início da República:
estudos de caso, metodologia e fontes 263
Cristina Mazzeo de Vivó

Sobre os autores 297

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Apresentação
Mônica Ribeiro de Oliveira
Carla Maria Carvalho de Almeida

A grande ressonância da perspectiva metodológica da micro-história


é hoje um fenômeno inquestionável. Esse movimento, inicialmente
restrito à produção historiográfica italiana, vem ganhando adeptos
em todo o mundo, inclusive no Brasil.
Desde as últimas décadas do século XX, os questionamentos à
validade das grandes sínteses começaram a chamar a atenção para o
perigo de se excluir o sujeito da história ou de se perder a historici-
dade de suas ações. As análises estruturais baseadas em grandes cor-
tes cronológicos e na quantificação não incorporariam a ação do
sujeito como ator histórico importante na defi nição do rumo dos
fenômenos e dos processos históricos. E mais ainda — e em decor-
rência disso —, não conseguiriam compreender as estratégias indi-
viduais que podiam tornar mais compreensível aquela realidade mais
estrutural. Também não permitiriam apreender as ações daqueles
atores históricos que eram motivadas por outras lógicas que não as
da sociedade contemporânea. Outra ordem de problemas levantados
por esses questionamentos dizia respeito à organização comparti-
mentada da disciplina história, o que acabou por criar fronteiras rí-
gidas entre as histórias social, econômica, política e cultural.
Em meio aos grandes embates travados por força de tais pondera-
ções, teve início um processo de compreensão de que seria necessário

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8 repensar o papel do sujeito na história e reduzir a escala de observação.
A experiência — individual ou coletiva — resgatada empiricamente
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passou a desempenhar um papel mais destacado no trabalho dos his-


toriadores do que as explicações baseadas nas deduções lógicas que as
grandes sínteses teóricas produziam.
A micro-história italiana foi uma das respostas formuladas a partir
de tais questionamentos. Ao conceber a priori toda a história como
social e ao buscar uma alternativa de análise capaz de transcender as
análises de cunho generalizante dos denominados agregados anôni-
mos, a micro-história surgiu como uma proposta de análise dinâmi-
ca da sociedade que não impunha ao estudo do passado uma ordem
artificial e automática. A micro-história propõe uma reflexão histó-
rica em constante busca da totalidade, mesmo sendo esta compreen-
dida como resultante do reconhecimento da ação individual e da
percepção de sua trajetória. Parte do pressuposto de que os indivídu-
os e os grupos têm uma complexidade difícil de ser reduzida aos fe-
nômenos econômicos ou políticos. O interesse volta-se para a análi-
se das diferenças, dos confl itos e das escolhas, situações em que a
complexidade dos fenômenos históricos teria maior possibilidade de
ser resgatada. A micro-história propõe um procedimento quase ar-
tesanal de aproximação do objeto, à semelhança do olhar através de
um microscópio, que revela uma série de aspectos antes impossíveis
de detectar pelos procedimentos formais da disciplina. Utilizando-se
da redução de escala de observação para o entendimento de questões
mais gerais, a micro-história resgata o elo entre o micro e o macro.
Este livro é em grande parte resultado das reflexões desenvolvidas
durante o II Colóquio do Lahes: Micro-História e os Caminhos da
História Social, realizado em outubro de 2008 na Universidade Fede-
ral de Juiz de Fora (UFJF), com o apoio da Fapemig, da Capes e do
PPGHIS/UFJF. O Laboratório de História Econômica e Social (Lahes),
criado em 1997, está ligado à linha de pesquisa História, Mercado e
Poder, do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Nesse
encontro, o objetivo foi definir alguns eixos temáticos caros à história
social (redes sociais, família, parentesco, estratégias sociais) e discutir

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até que ponto as proposições da micro-história se adequam aos objeti- 9
vos dos historiadores que lidam com tais temas, ou se outras opções

APRESENTAÇÃO
metodológicas seriam mais apropriadas para abordá-los.1
Na primeira parte do livro, dedicada aos precursores da micro-
história, são apresentados à comunidade acadêmica brasileira, tradu-
zidos para o português, quatro importantes textos de Edoardo
Grendi e Giovanni Levi. Os dois primeiros — “Microanálise e his-
tória social” e “Paradoxos da história contemporânea” —, de 1977
e 1981, respectivamente, e ainda inéditos em língua portuguesa, são
da autoria de Edoardo Grendi, considerado o principal responsável
pela difusão desse campo de investigação e pela dimensão que o
debate teórico sobre a micro-história alcançou, a partir da década de
1970, através do periódico italiano Quaderni Storici.
Originariamente publicados em 1990 e 2000, e também inéditos
em língua portuguesa, os outros dois textos que compõem a primei-
ra parte deste livro são da autoria de Giovanni Levi. Em “Recipro-
cidade mediterrânea”, partindo das noções de equidade, analogia e
reciprocidade, Levi discute as especificidades das formas jurídicas das
nações católicas do sul da Europa e sugere uma polarização entre
países com direitos fortes em que a lei restringe a liberdade de inter-
pretação dos juízes e países em que a origem teológica do conceito
de justiça permite aos juízes uma ampla margem de interpretação,
mediante uma leitura muito específica da equidade. No texto “Eco-
nomia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regi-
me”, Giovanni Levi emite valiosos alertas aos historiadores interes-
sados em investigar as transações mercantis com a terra nas sociedades
da Idade Moderna. Segundo Levi, a terra era a base da produção,
mas também do sistema de poder e de proteção social que caracteri-
zava todo o sistema político nessas sociedades. Assim sendo, “a cir-
culação mercantil da terra, não impossível, mas complexa e viscosa,
obstaculizava a fluidez: direitos familiares, senhoris, comunitários,

1
Para a organização desse evento e da presente obra contamos com o precioso
apoio do professor dr. Cássio da Silva Fernandes, da professora dra. Ângela Brandão
e do professor dr. Henrique Espada Lima.

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10 monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo que só
muito arbitrariamente podia ser considerado um investimento pelo
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mercado”. Nos dois textos ficam evidentes as especificidades das so-


ciedades modernas cujas lógicas de funcionamento são muito distin-
tas daquelas que caracterizam as sociedades capitalistas. Presente ao
II Colóquio, Giovanni Levi brindou ainda a todos com as importan-
tes reflexões contidas no prefácio deste livro, no qual traça uma bre-
ve trajetória da micro-história, desde sua origem à ressonância nos
meios acadêmicos, e deixa também explícita sua própria concepção
de micro-história e sua expectativa em relação ao seu devir.
Na segunda parte, são apresentados dois textos de caráter historio-
gráfico. Em “Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultu-
ra”, Cássio da Silva Fernandes procura discutir as interlocuções possí-
veis entre micro-história, história da cultura e história interpretativa,
analisando alguns aspectos do percurso de Delio Cantimori que tan-
genciariam a perspectiva metodológica que depois de sua morte ficou
conhecida como micro-história. Em “Pensando as transformações e a
recepção da micro-história no debate histórico hoje”, Henrique Espa-
da Lima trata das transformações e da recepção da micro-história no
debate histórico atual, centrando sua atenção no panorama intelectu-
al mais amplo que transformou de modo significativo o campo da
história social entre os anos 1970 e tempos mais recentes.
Na terceira e última parte do livro, a exemplo da exortação de
Giovanni Levi em sua última frase do Prefácio, os historiadores João
Fragoso, Mônica Ribeiro de Oliveira, Renato Pinto Venâncio e
Cristina Mazzeo de Vivó apresentam suas pesquisas empíricas volta-
das para o resgate de como os homens organizavam suas vidas no
passado, e o significado e o sentido do mundo para indivíduos, famí-
lias, aventureiros, escravos e comerciantes. Ou seja, os quatro últimos
capítulos constituem bons exemplos de exercícios de micro-história.

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Prefácio*
Giovanni Levi

Farei uma imagem muito particular da micro-história ao dizer que seu


surgimento no final dos anos 1960 teve para mim, antes de tudo, uma
origem política. Eram anos de cansaço para a esquerda italiana, nos
quais muitas tensões e muitos acontecimentos misteriosos e jamais so-
lucionados — entre a restauração conservadora depois do outono quen-
te e o ano de 1968, o terrorismo, atentados e a desconfiança do movi-
mento sindical e das suas instâncias conciliares e igualitárias —, tinham
posto em evidência a fragilidade das forças progressivas na Itália e os
limites e a inércia de suas análises políticas. Filha de uma longa tradição
operária, a esquerda italiana se afirmou segundo o pertencimento de
classe, escolhas políticas e ideológicas. E diante da profunda mutação da
ordem econômica e social, as simplificações de leitura começavam a
revelar toda a sua esterilidade. Isso era tanto mais verdadeiro na histo-
riografia, na história do movimento operário, quanto na interpretação
histórica do desenvolvimento distorcido da economia italiana.
A micro-história nasceu então, pelo menos para mim, da neces-
sidade de recuperar a complexidade das análises; da renúncia, por-
tanto, às leituras esquemáticas e gerais, para realmente compreender
como se originavam comportamentos, escolhas, solidariedades.


Tradução de Ângela Brandão.

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12 Havia modelos importantes dessa reflexão, a começar pela leitura
de Gramsci feita pela historiografia marxista inglesa — E. P. Thomp-
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son em particular —, ou pelo trabalho minucioso dos antropólogos


de Manchester — Clyde Mitchell, por exemplo —, ou por pesqui-
sadores no fundo isolados, mas muito inovadores, como Natalie Ze-
mon Davis. E, portanto, na redação da revista Quaderni Storici, com
a qual muitos de nós colaborávamos (Edoardo Grendi, Carlo Poni,
Carlo Ginzburg), teve início o debate do problema que poderíamos
defi nir como de recuperação da complexidade.
Em 1980/1981, surgiu assim a coletânea Micro-histórias, lançada
pelo editor Einaudi, com um breve manifesto — “Notiziario Ei-
naudi”, de junho de 1981 — que, apesar de levar minha assinatura,
era produto do debate com outros pesquisadores, sobretudo com
Ginzburg, com quem passei depois a dirigir a coleção. Acredito que
esta seja uma boa ocasião para me referir a esse documento, que,
depois, pareceu-me injustamente desaparecido da discussão.
Os historiadores discutem frequentemente suas classificações,
como o duque d’Auge no Flores azuis, de Queneau, ao interrogar
dom Biroton, o capelão:

— Diga-me uma coisa, este Concílio de Basileia é história universal?


— Mas sim: é história universal em geral.
— E os meus canhõezinhos?
— História geral em particular.
— E o matrimônio das minhas fi lhinhas?
— Com esforço, é história acontecimental. No máximo, micro-
história.
— História como? – grita o duque d’Auge – que diabo de lin-
guagem é essa? Que dia é hoje? Pentecostes?
— Queira desculpar-me, senhor. Efeitos do cansaço.

Essa irônica hierarquia das histórias e o cansaço do capelão são,


por certo, muito diversos das motivações que deram origem à cole-
tânea Micro-histórias. A condenação do acontecimento em prol dos

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fenômenos estruturais é uma discussão que então teve o seu tempo. 13
Mas o problema permanece. Como fazer para chegar às generaliza-

PREFÁCIO
ções sem descartar os indivíduos, as situações? Ou, vice-versa, como
descrever situações, pessoas, sem cair em tipologias, exemplos, e sem
renunciar à compreensão dos problemas gerais?
Talvez seja partindo desse problema insolúvel que os historiado-
res frequentemente são levados a falar de suas insatisfações, muitas
vezes confrontadas com a descoberta de situações novas, objetos no-
vos. O resultado corre o risco de ser um tanto lamentável: a histo-
riografia excluiu as classes populares, as mulheres, as culturas orais,
a vida cotidiana, os mundos marginais, as sociedades diferentes da
nossa. E não quero, por certo, subtrair minha parte de lamentação.
Mas não basta falar de alguém para incluí-lo na história do mundo,
para mostrar sua presença e relevância. O importante é como falar
desse alguém.
A micro-história pretende ser antes de tudo uma tentativa: narra,
mas sem esconder as regras do jogo que o historiador seguiu. Cer-
tamente, não apenas remetendo aos documentos — isso faz parte da
ética profissional —, mas por meio de uma clara declaração do pro-
cesso pelo qual a história foi construída: os caminhos certos e erra-
dos, o modo de formular as perguntas e procurar as respostas. Por-
que o minucioso trabalho de laboratório não deve permanecer
escondido, e a receita não deve permanecer um segredo do cozi-
nheiro. Porque talvez os verdadeiros excluídos da atenção dos his-
toriadores não sejam os protagonistas descuidados dos eventos, mas,
sim, os leitores esmagados pelas pesadas interpretações gerais, pelas
opiniões discutidas com as armas díspares de quem escreve e de
quem lê, pelos mecanismos causais simplificados e estabelecidos a
partir de uma percepção tardia. Por essas indagações serem feitas a
partir da revelação do nome do assassino, o verdadeiro excluído é o
consumidor de livros de história.
Portanto, a micro-história não é, necessariamente, a história dos
excluídos, dos pequenos, dos distantes. Pretende ser a reconstrução
de momentos, de situações, de pessoas que, investigadas com olho

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14 analítico, em âmbito circunscrito, recuperam um peso e uma cor;
não como exemplos, na falta de explicações melhores, mas como re-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

ferências dos fatos à complexidade dos contextos nos quais os homens


se movem.
A escala é habitualmente reduzida e isso coloca repentinamente
em discussão os instrumentos conceituais do nosso ofício: desgasta-
dos pelo uso, entre alusão e metáfora, cobriram-se da ferrugem da
ambiguidade. Pensemos, por exemplo, nas defi nições cômodas que
agora se dão para explorar posicionamentos e comportamentos po-
líticos ou estratificações sociais de poder: cultura popular, setores
médios, classe operária, Estado absoluto, camponeses. Malgrado sua
utilidade hoje, requerem cada vez mais a especificação e a verifica-
ção das situações concretas, nas quais o indivíduo abstrato torna a
pertencer, na realidade, a uma forma particular de sociedade, cujas
circunstâncias concretas permitem compreender os sucessos e os in-
sucessos dos seus esforços para mudá-la.
Ao escolhermos os títulos da coletânea, partimos dessas conside-
rações, que nos propunham duas alternativas não mistificadoras para
o estudo dos mecanismos causadores de fatos sociais. Por um lado, o
consciente isolamento de um sistema normativo — as leis dos matri-
mônios consanguíneos do livro de Raul Merzario, por exemplo —,
sem introduzir sub-repticiamente a pretensão de que isso explique
uma sociedade em sua complexidade: é o isolamento de um frag-
mento sob a lente do pesquisador e do leitor que, para funcionar,
estará imerso no contexto complexo, mas que experimentalmente se
faz mover no vazio. Por outro lado, o próprio estudo das situações ou
pessoas no seu contexto, isto é, na complexa relação de escolha livre
e dos vínculos que indivíduos e grupos estabelecem nos interstícios
da pluralidade contraditória dos sistemas normativos que coman-
dam. Essas escolhas e contradições são o motor interno da mutação
social, que, desse modo, não é vista em sentido único, como um
poder imóvel e imutável apenas nos momentos extraordinários de
revolta aberta, mas como fruto de um contínuo confl ito, cujos efei-
tos o historiador pode mensurar. O normal e o cotidiano tornam-se

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assim protagonistas da história, e situações singulares assumem a in- 15
tensidade dos pontos de vista pelos quais se podem explicar os fun-

PREFÁCIO
cionamentos sociais complexos.
Muito frequentemente, as explicações que elucidam os mecanis-
mos casuais tendem a descrever o passado como um feroz mecanismo
de necessidades biológicas, políticas, econômicas. Introduziu-se, as-
sim, uma visão evolucionista, apologética do presente e do fato exis-
tente. Nesse sentido, as duas alternativas que procuraremos docu-
mentar e as regras em confl ito atuantes em cada situação pretendem
também ser uma perspectiva de pesquisa diferente. Os escritos de E.
P. Thompson, que estão na raiz de toda a renovação da história so-
cial, são, segundo o autor, uma resposta àqueles que descrevem “o
homem como subjugado pela necessidade e sobre o qual domina um
único absoluto”.
As palavras-chave eram então evidentes: lente ou microscópio,
experimento, contestação, complexidade, escolha, vínculos, inters-
tícios, confl ito, ponto de vista. Mais uma série de práticas e de mé-
todos do que uma teoria. Todavia, a proposta da micro-história atin-
gia um mundo historiográfico muito sensível. Não foi apenas o tom
de reviravolta que caracterizou os anos 1980 desde o seu início.
Também a crise do sistema soviético que se avizinhava e a fragmen-
tação do sistema mundial depois do fi m da bipolaridade fizeram sen-
tir, com brutal evidência, seus efeitos no debate historiográfico, pon-
do em crise a historiografia de inspiração marxista, mas também de
modo mais geral a história social, a experiência central dos Annales
franceses, que falavam de ponto de mutação, ou dos Subalterns studies
indianos, que abandonaram o marxismo para voltar sua atenção de
modo especialmente confuso para os estudos pós-coloniais: no cen-
tro das atenções progressivamente apareceram temáticas culturais
que pouco a pouco se abriram às dúvidas relativísticas do descons-
trutivismo ou à identificação da historiografia com a ficção. Afi nal,
a própria historiografia perdera sua centralidade nas ciências huma-
nas, porque é difícil estudar o passado quando não há perspectivas de
futuro e também porque o papel central que desempenhara até os

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16 anos 1960 a tinha atrasado com relação ao debate que outras ciências
humanas travavam, sobretudo no que diz respeito à defi nição de
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

uma racionalidade incompleta e não uniforme na teoria econômica,


à autoridade do cientista na antropologia, à ambiguidade das identi-
dades pessoais e a não linearidade do personagem homem na teoria
literária e no romance. E, contemporaneamente, também o senso
comum historiográfico tinha mudado devido à simplificação e à agi-
lidade com que os mass media propunham temáticas, que a lentidão e
a complexidade da pesquisa histórica não estavam em condições de
fazer frente sem uma profunda renovação. E também os leitores ti-
nham diminuído, frequentemente mais atraídos pelas imagens do
que pela página escrita, mais pela internet do que pelos livros. Uma
atmosfera modificada que hoje ainda encontra dificuldade para se
organizar em um quadro mais sólido.
Também a micro-história, pressionada por todos os lados, sofreu
alterações, interpretações distorcidas, simplificações. No entanto,
sua proposta teve e continua a ter forte ressonância, também porque
revelou, a meu ver, maior sensibilidade do que a história mais acadê-
mica às novas instâncias que os novos pesquisadores e os novos leito-
res colocavam. Quis, no fundo, mostrar não a fragilidade das gene-
ralizações em história, mas que aquilo que o historiador pode e deve
generalizar são as perguntas, que podem ser colocadas em contextos
de temporalidades e espacialidades diferentes, deixando às situações
singulares a sua especificidade irrepetível. Em um mundo que não
acredita mais na possibilidade de encontrar fundamentos comuns e
universais, a indagação sobre como organizar os homens e dar senti-
do ao mundo de cada um continua a exigir de nós exercícios de
micro-história.

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PARTE I

A micro-história e
seus precursores

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1
Microanálise e história social*
Edoardo Grendi

1
No número 34 de Quaderni Storici, Villani e Romanelli retomam a
discussão sobre a história (social) contemporânea.1 O primeiro, um
típico “otimista”, tenta descobrir a nova alvorada em uma série de
trabalhos recentes de valor e coerência desigual; o segundo, um tí-
pico “pessimista”, pergunta-se por que a alvorada não chega e atri-
bui a culpa disso aos esquemas práticos e mentais dos historiadores
contemporaneístas. Tal “reificação” acontece em duas direções:
contra a simplificação ideológico-política da análise marxista como
princípio historiográfico, e contra a simplificação teórica que deriva
da aceitação generalizada de categorias e de um modelo interpreta-
tivo destinados a explicar um processo histórico específico, como a

*
Tradução e notas de Henrique Espada Lima do artigo “Microanalisi e storia so-
ciale”, publicado em Quaderni Storici, v. 12, n. 35, p. 506-520, ago. 1977. O texto é,
na verdade, uma intervenção em um debate sobre história social que acontecia nas
páginas da revista e seguiu textos publicados por Pasquale Villani e Raffaele Roma-
nelli, dois historiadores da Itália contemporânea. O debate em torno da história
social continuou em outros artigos, mas este texto em especial acabou por tornar-se
uma referência central no debate sobre a microanálise social e, a partir daí, sobre as
escolhas metodológicas da chamada “micro-história” italiana.
1
Os textos a que Grendi faz referência aqui são Villani (1977) e Romanelli (1977).

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20 revolução industrial e o capitalismo ingleses. Consequentemente, a
crítica é dupla, no sentido de que uma simplificação se sobrepõe à
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

outra. Daí uma conclusão cética, temperada ou acentuada, como se


diz, por um tipo de escatologia historiográfica, confiada à microa-
nálise. Menos dramaticamente, Villani, que prefere o “devir histo-
ricista”, vê na microanálise histórica um momento complementar e
subalterno a um trabalho de síntese, colocando explicitamente o
problema da reconstrução da estratificação social na escala nacional
em uma perspectiva de “grandes problemas” — mas sem indicar o
suporte analítico e os modos operativos. Um exemplo de “simplifi-
cação teórica”? Com efeito, os grandes problemas adquiriram certa
dimensão intuitivo-ideológica: um pouco como aquele sujeito que
invariavelmente responde às nossas perguntas remetendo-se à com-
plexidade do real — o que, no fi m das contas, acaba sendo um con-
vite para deixar para lá.
Uma atitude, de todo modo, bastante difundida: a história social
é identificada com a questão das classes, da estratificação e da estru-
tura social, partindo-se do pressuposto de que se trata de realidades
em si, objetais. A esse propósito cabe recordar a polêmica dos antro-
pólogos (de Edmund Leach em diante) contra essa entificação da
estrutura — a estrutura de parentesco, por exemplo —, coerente
com o ponto de vista de E. P. Thompson, que nega essa realidade em
si à classe, propondo-a, ao contrário, como “relação”. Mas vale tam-
bém o ensinamento que os historiadores podem tirar dos trabalhos
de Adeline Daumard e de seus colaboradores, nos quais as classes são
empiricamente articuladas nos grupos socioprofissionais, assim como
fazem os marxistas, que distinguem “classe em si” e “classe para si”,
tendo como base aquela discriminante “consciência” que precisa-
mente Thompson resolve na relação (que ele tenha feito isso em
termos impressionistas e literários, essa é outra questão).
Se esse é, aproximadamente, o emaranhado crítico ante o qual nos
encontramos, é preciso considerar a possibilidade da pesquisa histórica
a partir de seu ângulo analítico. Não há dúvida de que a abstração em
termos de profissões e níveis de fortuna permite o máximo de agre-

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gação geral (basta “contar”), prescindindo, obviamente, das infinitas 21
possibilidades das agregações ideológico-intuitivas, manipuláveis a

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


gosto. O fato é, porém, que essa pesquisa acaba revelando sua própria
qualidade abstrata, de modo a exigir integrações complementares,
que remetem a um exame dos comportamentos: para qualificar tanto
os grupos — por exemplo, os “estilos de vida” ou os regimes alimen-
tares — quanto à relação entre os grupos — como interagem, como
um é reflexo da consciência do outro. De modo que o projeto agre-
gativo corre o risco de fraturar-se: o exame das relações entre grupos
(e nos grupos) impõe uma rígida concretude socioparcial.
Sublinhemos a passagem analítica do conceito de classe ao de gru-
po social: não sem razão Eric Wolf lamentou a carência de uma teo-
ria dos grupos sociais na elaboração teórica marxista, o que acabou
por confinar o conceito de classe a uma dimensão de pré-julgamento,
isto é, não analítico-operativa. E esses grupos sociais podem ser qua-
lificados diversamente, integrando-se dados (idade, sexo, riqueza,
profissões) e comportamentos (residência, escolha no cônjuge, alian-
ça/rivalidade etc.). Gostaria de recordar a Villani o interesse de algu-
mas pesquisas recentes — Le Couturier, A. Anderson, J. Foster —,
que propõem, em termos rigorosamente quantitativos, o exame das
solidariedades sociais, cruzando, assim, dados e comportamentos.
Vale a pena observar a propósito como a nova história urbana re-
corre sistematicamente não aos censos, mas à revelação de base cons-
tituída pelos “formulários de recenseamento”, anteriores a qualquer
elaboração: e isso corresponde a uma verdade óbvia, isto é, a diferen-
ça entre os objetivos dos historiadores de hoje e os das autoridades
censitárias de ontem. O recurso aos formulários de dados das famí-
lias individuais é um pressuposto de toda integração prosopográfica
e, portanto, da própria base concreta da pesquisa analítica; partir dos
censos elaborados significa já condicionar unilateralmente o traba-
lho, abstrair o social, envolver-se em um confronto estéril com as
categorias de agregação das autoridades administrativas do passado.
Como deixar de lado, por exemplo, um aspecto de relevância já
comprovada, como o da correspondência entre a morfologia social e

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22 a morfologia da ocupação do espaço, na qual insistem de comum
acordo historiadores antigos e medievais, antropólogos e sociólogos,
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

e que a própria dinâmica das cidades contemporâneas repropôs e


repropõe constantemente? O mesmo se aplicando ao exame dos
comportamentos matrimoniais, um tema recente da história demo-
gráfica, mas desde sempre um tema óbvio para a qualificação das
homogeneidades dos grupos sociais. Nesse sentido, de resto, os te-
mas de análise têm por destino multiplicar-se também em termos
qualitativos, quando amadurecer uma metodologia adequada.
E é por esse caminho, que exige certamente um maior esforço de
trabalho, que poderá ser colocada uma questão igualmente impor-
tante como a do crescimento da escala social, isto é, da ampliação da
unidade socioparcial relevante. Mesmo que ainda não saibamos como
operar no domínio histórico-analítico para corresponder ao diagnós-
tico dos processos de unificação cultural em andamento como efeito
de uma estruturação institucional articulada, da alfabetização, da po-
litização e dos modelos de imitação. Coloquemos uma simples ques-
tão: a industrialização distinguiu ou uniformizou as estruturas so-
ciais? Posto nesses termos, o problema cabe à história comparativa, e
uma vez que faz obviamente referência a espaço e tempo, torna-se
difícil ver como proceder de outro modo que não através de uma
série de case studies, para depois, eventualmente, considerar tipolo-
gias. Villani parece postular que existe um mapa mudo de dimensões
nacionais (o do censo) a ser preenchido com sinais conhecidos ou, de
todo modo, pré-constituídos (as classes ou os grupos socioprofissio-
nais retirados dos censos). Na base, o que opera aqui é o mesmo
processo de simplificação teórica que Romanelli denuncia: a expec-
tativa de que por esse caminho se possa chegar a quadros comparáveis
no tempo, que qualifiquem a dinâmica social como progresso, sem-
pre prescindindo do espaço, segundo os módulos correntes do mode-
lo liberal-marxista. Esse é, de fato, o “devir historicista”, o “sentido”
para Romanelli, ante o qual a microanálise vale como uma “suspen-
são do juízo, uma tomada de consciência da perda de sentido — que
me parece o primeiro passo da reconquista de uma verdade”. Aceite-

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mos a apresentação retórica de uma inversão de valores (sentido/não 23
sentido). Na verdade, reconheço uma disjunção entre as teses teóri-

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


cas do pensamento dominante às quais se refere Romanelli e grande
parte dos produtos historiográficos, considerados uma ilustração de
uma operatividade analítica independente. Com relação às teses que
não dizem respeito apenas ao modelo do capitalismo industrial, a
perspectiva de microanálise histórica que se tenta ilustrar aqui tem
certamente um significado radicalmente contestatório.

2
Vale indicar de imediato o “campo de interesse” específico, mesmo
com o risco de cair no ridículo da abstração mais grave, aquela do
concreto total. Digamos que se trate do “universo relacional”; por-
tanto, do campo das relações interpessoais, forçosamente válido para
uma microárea. Essa escolha explica o interesse pela história demo-
gráfica, ou seja, a disciplina que coloca seus problemas em relação
direta com a sociedade total. Que a demografia faça isso recorrendo
antes de tudo a números e, em particular, para contar eventos vitais
é relativamente secundário. De fato, a reconstrução das famílias per-
mite a identificação desses núcleos-base, a qualificação de sua situa-
ção em um ciclo de desenvolvimento, a posterior elaboração de ge-
nealogias. Os apontamentos daí derivados podem ser enriquecidos,
antes de tudo, a partir da utilização mais sistemática da própria fonte
dos registros paroquiais, identificando, por exemplo, testemunhas de
núpcias, padrinhos de batismo e de crisma, operações que permitem
mapear relações não secundárias. E ainda, sobretudo, a partir do es-
tudo de fontes até agora pouco utilizadas, como contratos notariais,
atos de jurisdição civil e criminal, cadastros, parlamenti, registros con-
tábeis, atos privados que remetem a fontes “centrais” de caráter judi-
ciário, contábil, fiscal, político, censitário. Cada informação exprime
um dado ou, mais frequentemente, uma relação. Existe assim a pos-
sibilidade de reconstruir histórias de família e, às vezes, por alguma
feliz coincidência de fontes, histórias individuais suficientemente ri-

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24 cas — típicas ou excepcionais —, sendo ainda possível pôr em relevo
relações interindividuais contínuas, isto é, estruturadas (por exem-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

plo, relações de débito/crédito).


Consideremos o cartório. Podemos distinguir nele diversos tipos
de informações, como doações, testamentos, reconhecimento de dé-
bitos (dos mais diferentes tipos), quitações, vendas, aluguéis, contra-
tos de trabalho, procurações, arrendamentos, e ainda reuniões de
ordens e irmandades, congregações religiosas, universidades, comu-
nidades etc. A linguagem e o tipo de relação documentadas valem
como documentos históricos no sentido pleno da expressão: além de
revelarem as relações entre dois ou mais sujeitos, têm, também por
isso, um sentido cultural, na medida em que atestam um costume ou
uma tipicidade.
Apresenta-se nesse ponto um problema técnico específico: o de
como recolher os dados e como elaborá-los — um problema que Le
Couturier, em particular, discutiu há tempos e que induziu outros a
declarar a morte do historiador-artesão. Não pretendo, porém, tra-
tar dessa questão, mas da organização “conceitual” dos dados, que é,
de resto, anterior à questão citada.
Considero que o estudo das sociedades camponesas, do que cos-
tuma se chamar de antropologia das sociedades complexas, pode
oferecer diversas sugestões e instrumentos conceituais operativos.
Isso, mesmo tendo consciência de que o mapeamento documental
das relações interpessoais corresponde apenas aproximadamente à
pesquisa de campo.
De resto, a rápida expansão dos estudos das comunidades euro-
peias nos anos 1960-1970 e na década corrente colocou o problema
específico da utilização das fontes históricas. W. A. Douglass (1975),
comentando alguns desses trabalhos, insiste em que os dados do
antropólogo não são apenas “o fluxo da vida social assim como se
desenrola diante dos olhos do observador participante”. O trabalho
de campo é, em geral, breve demais, não podendo seguir direta-
mente os muitos ciclos de atividade que caracterizam mesmo as me-
nores comunidades, o que justificaria o recurso a enquetes, técnicas

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de amostragem, entrevistas informais e diretas, documentos escri- 25
tos. O que distingue a antropologia das outras ciências humanas,

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


portanto, não é tanto a metodologia, mas a ênfase característica na
abordagem holística para o estudo do comportamento humano, não
obstante o fato de que, por óbvias razões heurísticas, seja sempre
necessário impor limites para demarcar a pesquisa em curso. Dou-
glass sustenta a complementaridade entre trabalho histórico e traba-
lho antropológico; Davis, autor de uma pesquisa sobre Pisticci, fala
a respeito de um “uso criativo da história”. O que ele entende por
isso fica claro no capítulo 6 do seu People of the Mediterranean (1976).
É difícil, contudo, encontrar desenvolvimentos ou exemplos poste-
riores desses temas e outros semelhantes, na medida em que se trata
de uma questão que comporta uma correspondente defi nição do
trabalho histórico que não o considera apenas, de modo redutivo,
como a simples utilização de fontes escritas. Cole e Wolf (1974) de-
fi niram a relevância da história a partir da experiência de campo:
“uma história das estruturas relevantes para a nossa zona, o seu de-
terminar-se no tempo e as suas relações recíprocas”.
Nós nos colocamos no outro extremo dessa perspectiva de com-
plementaridade. Mas é claro que não se trata de estabelecer uma
relevância correspondente do presente com o passado, mas, por as-
sim dizer, de uma relevância “analógica”, que cria a possibilidade do
emprego de conceitos e esquemas heurísticos ligados à supracitada
abordagem holística e que tem consequências radicalmente críticas
em contraposição a certos parâmetros setoriais que governam a pes-
quisa histórica e distinguem os campos de investigação — o políti-
co, o econômico, o religioso, o demográfico, o social etc. —, fre-
quentemente correlacionados a disciplinas científicas específicas — a
ciência econômica, a demografia...
Problemas como aquele, de caráter histórico-demográfico, do
planejamento familiar em uma sociedade camponesa de ancien régime
evocaram recentemente elementos de necessidade, de coerção cul-
tural no âmbito familiar e social que podem se revelar congruentes
com modelos de explicação geral, como o do “familismo amoral”

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26 de Banfield (1958) ou o da “imagem do bem limitado” de Foster
(1965). O historiador volta sua atenção mais insistentemente para os
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

elementos de necessidade econômica, embora dirija sua análise tam-


bém para o problema da distância entre os matrimônios no interior
da família, considere as fases críticas do ciclo familiar, examine as
práticas de sucessão hereditária e coloque em relevo seu papel con-
dicionante. Nesse campo, pode-se dizer, de todo modo, que o en-
contro entre os historiadores e os antropólogos já está acontecendo.
Mas, se a verificação do comportamento factual é comum às duas
disciplinas, uma característica parece permanecer distintiva no caso
do antropólogo: a projeção cultural mais ampla. Pensemos, por
exemplo, no significado que o “ciclo de sucessão hereditária” assu-
me no citado trabalho de Cole e Wolf, na dicotomia que ele propõe
entre ideologia e prática e, juntamente com isso, na relevância da
distinção ideológica — primogenitura em São Félix, divisão iguali-
tária em Tret — para a organização das relações sociais nas duas al-
deias alpinas como um todo. Esse é um indubitável benefício do
trabalho de campo: a possibilidade de se colher imediatamente as
conexões entre fenômenos diversos, entre o problema que é objeto
de análise e “o resto”, lá onde o historiador parece destinado a jus-
tapor uma série de análises distintas: o que não impede, analogica-
mente, que este último planeje e oriente sua estratégia analítica geral
(e sucessiva).
Por outro lado, é verdade que o modelo cultural geral pode pri-
vilegiar um diagnóstico sintético e intuitivo, não plenamente cir-
cunstanciado pelas análises e, portanto, eventualmente preconcebi-
do. De todo modo, também a elaboração de temas como o papel da
inveja como mecanismo de controle social ou os valores de honra e
vergonha no processo de conformação da comunidade podem mos-
trar-se pertinentes considerando-se diretamente a qualidade das re-
lações interpessoais, mais difíceis de serem reconstruídas no domí-
nio da história. Pelo menos na falta de sua precisa institucionalização
e guardadas, de todo modo, as possibilidades de “revelações” (sobre-
tudo nos documentos judiciários). Caracteristicamente, o historia-

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dor trabalha com muitos testemunhos indiretos: nessa situação, o 27
documento excepcional pode ser extraordinariamente “normal”,

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


precisamente por ser revelador.
Sem dúvida, a orientação sincrônica comum às duas disciplinas
sugere uma epistemologia funcionalista: o próprio tema diacrônico
do ciclo familiar postula a reprodução cultural “simples” da socieda-
de que de algum modo resulta entificada na sua estrutura. Desse
ponto de vista, não basta considerar uma tipologia das comunidades
— como fez Wolf —, o que, apesar de ser um modo indireto de
acolher o princípio da transformação (confronto de uma morfologia
que postula a passagem de um tipo a outro), resolve analiticamente
o problema dos nexos indivíduo-sociedade. Do ponto de vista da
antropologia social, essa é a instância do assim chamado “individua-
lismo metodológico”.2 Da perspectiva histórica, pode-se supor que a
justaposição das análises não aconteça de forma congruente e unidi-
recional, mas multidirecional, fazendo registrar margens estatísticas
de desvio quanto ao significado indubitável das congruências ou
correlações. O próprio historiador-demógrafo registra fenômenos de
divergência, com relação à continuidade de residência e endogamia,
nos vértices e na base da comunidade. Todavia, divergências simila-
res de comportamento valem sobretudo para qualificar os grupos
sociais, isto é, para evidenciar regularidades diferenciais. Isso não
impede que, por algum aspecto, a verificação das correlações não
seja unívoca no interior de um grupo (qualificado pela correspon-
dência das outras), permitindo a identificação de fenômenos de des-
vio como elementos inovadores ou desagregadores, ou simplesmente
marginais, da cultura da comunidade. Um modelo de divergência de
grupo nos vértices da comunidade (sendo a exogamia e a mobilidade
de residência certamente alguns desses elementos) exprime um típi-
co conceito antropológico, o do elite-broker, isto é, um mediador en-
tre a comunidade e a sociedade mais ampla: posição que tem uma
importância estratégica fundamental para o sistema político local.

2
Ver ensaios reunidos (após a redação original deste texto) em Barth (1981).

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28 Não menos importante, a característica qualificação da sociedade
camponesa como “sociedade e cultura parciais”3 não se limita ao fato
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

dessa mediação. As alternativas “econômicas” que interessam a toda


comunidade postulam um brassage demográfico de variada relevância
e, sobretudo, formas de mobilidade não definitivas, frequentemente
ligadas à idade e diferenciadas pelo sexo.
Desse ponto de vista, como de outros, a história das sociedades
europeias redescobre, aprofundando as tradições folclóricas, as cons-
tantes de uma estrutura social distinta por sexo e grupos etários.4
Assim como a história rural europeia parece indicar a extraordinária
constância das associações territoriais — agregados de vizinhos não
necessariamente aparentados —, solidárias na execução de certos ob-
jetivos, como a repartição, a disposição ou a provisão de recursos de
interesse comum. “Uma das máximas contribuições da pesquisa eu-
ropeia à antropologia social — escreve S. Freeman [1973] — poderia,
acredito, derivar de um estudo amplo, histórico e etnológico das
formas de organização comunitária.” Daí o interesse pelo estudo das
formas de ocupação do espaço e a possibilidade de traçar um quadro
móvel e funcionalmente diferenciado das referências socioterrito-
riais. De fato, a estrutura social tem necessariamente uma relevância
espacial defi nida: como tal, é mais bem caracterizada a partir de
relações que indiquem homogeneidade (por exemplo, a troca matri-
monial) ou de outras que indiquem assimetria (como, em geral, a
troca econômica).
O interesse por instituições como a clientela e o parentesco ritual
— mais bem exploradas até agora pelos antropólogos — deriva do fato
de elas permitirem fazer o mapeamento das relações interpessoais,
tanto verticais, quanto, no caso do parentesco fictício, horizontais, e
talvez ambos, pelo menos no contexto mediterrâneo, relações mais
bem enquadráveis na fórmula do “contrato diádico”.5 De fato, essas
relações postulam uma troca que, em alguns casos — como nos de

3
Ver Kroeber (1948).
4
Ver Davis (1975); e Castan (1974).
5
Ver Foster (1965).

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empréstimo de dinheiro —, pode ser sistematicamente documentada. 29
A dilatação dessas relações para além do espaço da comunidade amplia

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


por isso mesmo a dimensão territorial da estrutura social para o nível
de uma assimetria fundamental intracomunitária, o que não exclui o
aprofundamento analítico da estrutura específica da comunidade su-
balterna. O conflito político, assim como, por outro lado, a festa, pa-
recem momentos de revelação da estrutura social subjacente, já exaus-
tivamente mapeada com base na reconstrução sistemática das relações
interpessoais. As análises tipicamente antropológicas do ritual e do
simbolismo descobrem assim toda a sua relevância analógica para a
pesquisa histórica.

3
Uma vez que a ciência econômica constituiu até agora um suporte
privilegiado para a pesquisa histórica, parece-me útil mostrar as im-
plicações da abordagem acima ilustrada em confronto com tal “or-
todoxia”.
Cito uma súplica do fi nal do Seiscentos, na qual a comunidade de
Monterosso — hoje pertencente à província de La Spezia —, sujeita
às méte (impostos) aplicadas por Gênova ao vinho rossese, típico do
lugar e um de seus poucos recursos, protesta contra o fato de que
eram sempre os mesmos mercadores que iam ao burgo, que eles
ofereciam tecidos velhos e grãos estragados a preços fi xados por seu
próprio arbítrio, em troca de um vinho com preço defi nido pela
administração. Em termos de análise econômica, a assimetria da
troca deriva de um jogo oferta/demanda livre contra um jogo de-
manda/oferta prefi xado. Mas a “liberdade” do primeiro continua
sendo uma função da estreiteza do mercado, o que é absolutamente
normal em uma sociedade pré-industrial: o mercado não só é restri-
to, como também ocasional, e tal ocasionalidade está estritamente
ligada “àqueles” mercadores. Que o preço do grão seja fruto de uma
relação oferta/procura é no mínimo tautológico: de fato, pode-se
assumir preliminarmente que seja assim, mas isso não quer dizer que

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30 a análise processual da relação deva ser posta de lado. Os pobres vi-
nhateiros de Monterosso estavam cobertos de razão ao apresentarem
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

sua situação em termos de uma relação interpessoal: não podiam


esperar outros mercadores e, portanto, não tinham alternativas. Os
mercadores “acrescentavam” a seus produtos um lucro ad libitum,
exatamente como costuma acontecer, mas nesse caso não era possí-
vel contrapor uma contratação, que contrabalançaria em alguma
medida o preço do rossese: e essa era, de fato, a variação-chave com
respeito ao costume que resultou no protesto e na exigência, utópi-
ca, de outro tipo de relações interpessoais, que, enquanto tais, não
estavam em questão. Como disse alguém, não existe troca que não
seja desigual, e é por isso que as relações de troca são um sinal essen-
cial da articulação e da estrutura social.6 Isso volta a se ligar com o
que foi observado no parágrafo precedente. Mas o caráter excepcio-
nal do protesto, motivado pela inovação das méte, induz a postular
uma adaptação, em tempos “normais”, à situação de troca.
Os camponeses tinham necessidade de grãos e não tinham nada a
oferecer senão seu vinho. No caso específico, parece não ter existido
uma elite de negociantes locais (brokers ou intermediários com a so-
ciedade mais ampla), mas não há dúvida de que, sendo recorrentes
essas visitas periódicas, criaram-se relações pessoais de mão dupla
entre compradores e vendedores que poderiam incluir a possibilida-
de, talvez mais difícil no caso de mercadores visitantes, de compen-
sações no tempo. Considerando que os dados da situação de troca
eram elementares, é razoável supor que a novidade administrativa se
resolvesse na possibilidade de obter menos grãos com a mesma quan-
tidade de vinho do ano precedente — abstraindo, no que diz respei-
to às variações de produção que certamente aconteciam, a solidarie-
dade entre os próprios negociantes (o monopólio dos compradores).
Uma troca natural, portanto, mas reconduzida às medidas mone-
tárias (condicionantes dos preços da méta). Essa era certamente uma
constante importante nas transações comerciais pré-industriais e

6
Ver, entre outros, Mintz (1971).

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que acabava por reforçar o elemento pessoal da transação, ligado 31
também ao costume eventual de diferir e resolver no tempo as com-

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


pensações monetárias. Apesar de tudo, a possibilidade dessas solu-
ções era limitada, dadas as diversas urgências de vender e comprar
entre produtores e produtores, bem como de produtores e negocian-
tes, que acabavam por favorecer a consolidação de uma elite de no-
táveis, capazes de generalizar as próprias posições de privilégio eco-
nômico: grandes proprietários, negociantes e transportadores. É
possível intuir assim a possibilidade de haver uma correspondência
entre clientela e endividamento. E é evidente que se torna muito
difícil fazer distinções entre relações sociais, relações econômicas e
relações políticas: na base dessa afi rmação está o fato de que as rela-
ções de significado “econômico” eram antes de tudo relações inter-
pessoais, de modo que não há motivo para privilegiar os esquemas
da análise econômica no estudo dessas situações. Pode-se, por outro
lado, considerar que o mercado mais amplo envolvesse sobretudo os
grupos dirigentes (que assumiam uma função de “mediação”) e ape-
nas indiretamente os subalternos, sobre os quais os dirigentes po-
diam descarregar eventualmente o peso da conjuntura negativa, mas
sempre em circunstâncias e segundo avaliações que não podem ser
reduzidas à simples “racionalidade econômica”. A análise e a relação
entre os preços estão, assim, inseridos nessa dimensão, assinalando
crises imprevistas da estrutura social, deslocamentos de solidarieda-
de, emigrações etc. Como se apontou antes, as fontes cartoriais (e os
documentos judiciário-civis) nos permitem reconstruir essas estru-
turas de dependência: se a transação mercantil não aparece senão
raramente como tal, mais regular é a certificação ou a quitação de
um débito, de modo que, muitas vezes, a liquidação de um débito é
condição para um novo crédito. Os inventários post mortem (sobre-
tudo os redigidos para a divisão de bens comuns entre fi lhos) nos
permitem, através dos registros dos créditos, mapear a clientela de
um notável, e essas relações específicas podem ser investigadas de
geração em geração. A relação pode mudar de qualidade: os débitos
podem ser consolidados em uma renda ou em uma venda que têm

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32 por garantia e objeto, em primeiro lugar, a terra, de modo que o
ex-proprietário torna-se um locatário ou arrendatário.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Examinado analiticamente, o mercado de terra evidencia não


apenas — como mostrou Giovanni Levi (1976) — as lógicas dos
ciclos familiares, mas também as divergências nos diversos níveis do
objeto da transação. Chaianov (1966) nos explicou bem que o preço
não corresponde ao valor da renda capitalizada. Diremos com ele
que o preço é simplesmente uma função da demografi a e, portanto,
uma vez mais, da demanda? Considerando processualmente o es-
quema “vertical” que acabamos de delinear acima, esse não me pa-
rece ser o caso. A ficção do jogo equilibrado entre oferta e demanda
torna-se, nesse caso, digna de riso. Com efeito, é preciso considerar
se a análise econômica adquire maior significado quanto mais as
referências a procura e oferta assumem caráter de “massa”, e que
possibilidades estratégicas daí derivam. De todo modo, não se pode
abandonar completamente e com a consciência tranquila o patrimô-
nio de racionalização interpretativa dos processos sociais e a com-
preensão do curso da história que essa racionalização permite.
Naturalmente, porém, a troca de bens e serviços tem também
suas dimensões horizontais. Em particular, é essa a dimensão carac-
terística da reciprocidade camponesa, entendida mais frequente-
mente como reciprocidade prolongada de serviços (trabalho), um
fenômeno mais difícil de ilustrar historicamente. Mas as transações
horizontais vão além dessas trocas, como se evidencia hoje em mui-
tas sociedades camponesas, nas quais a intermediação é particular-
mente desenvolvida e uma série de ligações diádicas preferenciais
solidifica os canais de comércio através da institucionalização de re-
lações interpessoais.7 É óbvio que essas práticas dificilmente podem
ser encontradas no registro cartorial, onde, todavia, é possível en-
contrar transações minúsculas que dizem respeito não só a pequenas
porções de terra, mas também à repartição de animais, assim como
a débitos mínimos. São registradas, particularmente, as transações

7
A pratik haitiana de S. Mintz (1961).

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de dote: a troca cruzada de despesas que permite economizar dotes 33
representa para os mais pobres uma forma de reciprocidade rigoro-

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


samente balanceada.
Podemos imaginar facilmente diferenças e limites entre as distin-
tas comunidades, como consequência da penetração diversa da eco-
nomia mercantil e, portanto, do papel diverso da autossubsistência:
o que pode significar também que certas transações encontrem, nos
distintos casos, objeções culturais. Como escreveu D. Riches, em
Man (1975): “a proteção do setor de subsistência é a base provável
para a ideologia de muitas economias camponesas com relação às
esferas de troca”. Com efeito, o conceito antropológico de esferas de
troca tem possibilidade de generalização também em uma economia
monetária em que, por exemplo, as transações de alguns bens com-
portem a sua resolução no âmbito do sistema de crédito, enquanto as
transações de outros bens comportem o emprego imediato de moe-
da, de modo que, uma vez sabidos quais são os bens protagonistas
dessas trocas, têm-se duas esferas de intercâmbio relativamente dis-
tintas. Essa pode ser indicada como uma terceira linha de defesa da
sociedade camponesa, depois da defesa da autossubsistência, que
comporta uma orientação produtiva articulada e a desaprovação
cultural de transações que lidem com bens alimentares de base, e
depois a troca horizontal que opera frequentemente como forma de
mutualismo (S. Mintz). Isso no quadro de uma resistência comum
das sociedades camponesas a uma monetarização radical das trocas
que lhes interessam.
Considerando a sociedade agrária como um todo, a historiografia
econômica coloca como fundamental o problema da relação entre
população e recurso e, em geral, utiliza ampla escala territorial (de
região para cima). Daí a construção ex-post de uma hipótese home-
ostática fundada no malthusianismo. No nível microanalítico que
aqui se propõe, pode ser colocado o problema das unidades domés-
ticas singulares que investem trabalho (não contabilizável em termos
monetários) e obtêm bens destinados, em parte por meio da sua
conversão de mercado, à defesa e à reprodução do status tradicional.

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34 Na medida em que tal “status” é definido culturalmente a partir de
termos eminentemente relacionais, são as formas de organização so-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

cial da comunidade que estão em questão e que têm, por conseguin-


te, relevância “econômica”. Ainda que a base produtiva seja restrita
e atomizada e origine, em parte, atitudes culturais, está presente,
entretanto, uma solidariedade de destinos que explica em última
instância as formas de integração social. Sahlins mostrou como a
aplicação do modelo de Chaianov (defi nido pela evolução da ratio
consumidores-produtores segundo o ciclo de desenvolvimento do-
méstico) não explica a continuidade de algumas sociedades simples,
que se torna então inconcebível sem a presença de formas institucio-
nalizadas de coparticipação (Stone Age Economics, 1975); 8 um modo
de evidenciar o caráter “econômico” da estrutura social. Nas socie-
dades complexas, a mobilidade dos recursos de apoio ou substituti-
vos cresce por meio da intensificação do trabalho, diversificação da
forma de exploração dos recursos, oportunidades “externas” (traba-
lho, mercado). Em outras palavras, a comunidade — se é verdade
que a família pode em certa medida controlar as suas próprias di-
mensões — pode adaptar-se e assegurar a sua sobrevivência de mui-
tos modos. O que significa que a necessidade de chegar a uma irre-
parável e fatal “contradição” entre a comunidade e os recursos que
dispõe não é necessariamente automática e inevitável, isto é, deverá
ser verificada nas diversas situações. A dramática dialética entre po-
pulação e recursos que serve como explicação do desenvolvimento
histórico é uma simples hipótese que, além de tudo, é inverificável
na escala territorial em que foi colocada. Tanto isso é verdade que E.
Boserup (1970), em Evolution agraire et pression démographique, pôde
apresentar de modo inteiramente plausível a hipótese oposta. Com
efeito, ela é representativa da tese que se afasta de outra grande pro-
jeção histórico-etnocêntrica da “civilisation” europeia: o desenvol-
vimento entendido como o triunfo progressivo do mercador, do
mercado e da cidade.

8
Sahlins, 1972.

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4 35
Retornamos assim ao tema inicial deste artigo. Se Romanelli de-

MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


nunciava a ancoragem das perspectivas historiográficas contemporâ-
neas em um modelo unívoco e pouco “elástico”, podemos, acredito
que com razão, sustentar que se tratam de perspectivas historiográ-
ficas gerais, largamente condicionadas pela economia como “ciência
social mais avançada”. A “perda de sentido” é a recusa de um sentido
largamente pré-constituído, “ideológico” nesta acepção.
O que se desenha, de modo mais ou menos explícito, é a recondu-
ção da história a uma contextualização e a uma vocação analítica em
que o objeto da análise é basicamente indicado pela série ou a rede
das relações interpessoais. Daí a escolha de uma sociedade em escala
reduzida como é a aldeia camponesa, uma opção guiada, sem dúvida,
pelo exemplo paralelo da antropologia. Em princípio, a escolha po-
deria cair também sobre um bairro urbano. Mas mesmo prescindin-
do da escala da sociedade indicada, que satisfaz ao menos teorica-
mente a “virtù” da abordagem holística, acredito que a abordagem
conserva sua validade como perspectiva geral de história social, onde,
em minha opinião, a estrada mestra é indicada pelo estudo dos com-
portamentos ou das relações interpessoais (como paradigma de refe-
rência). Obviamente, para a época contemporânea é mais abundante
a documentação quantificada ou quantificável, enquanto provavel-
mente se perde em parte o benefício das convergências locais da do-
cumentação como material imediatamente utilizável para os fins das
reconstruções prosopográficas. Mas isso quer dizer, como é mostrado
pelos exemplos já indicados, que análises mais seccionais e rigorosas
podem ser multiplicadas.
Assim, a microanálise social liga-se mais ao caráter da base de
dados examinada do que à dimensão da área social enquanto tal.
Nesse sentido, não há por que haver ruptura entre história medieval
e história contemporânea no plano teórico e metodológico. Ao con-
trário, aquilo que nós registramos hoje é um hiato gigantesco nos
critérios de relevância da produção historiográfica; em um setor se
premia a novidade histórico-analítica; no outro, ao menos na Itália,

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36 predomina uma expectativa de síntese político-ideológica que des-
carta sistematicamente os processos sociais, considerando-os dedutí-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

veis e reconhecíveis por meio de uma grade de teses e temas que são,
frequentemente, uma mistura de “ideias recebidas”.
É significativo que a antropologia, mesmo tratando necessaria-
mente de sociedades contemporâneas, venha sendo, há bastante
tempo, capaz de estimular, sobretudo, a história medieval e mesmo
a história antiga. E isso não pode ser atribuído à correspondência do
objeto (sociedades relativamente mais “simples”). De fato, o mesmo
problema da social change foi discutido e ilustrado analiticamente pe-
los antropólogos. E o que pode ser a história contemporânea senão
uma história das transformações sociais? E por que deve ser o agre-
gado-nação e não a comunidade, ou a cidade, ou o ofício, o lugar de
eleição para o estudo dessas transformações?
No fundo, a argumentação que procurei ilustrar nesta interven-
ção equivale à defesa de um princípio: que a história social é a his-
tória das relações entre pessoas e grupos. O problema posterior e
fundamental da identificação dos conceitos e das possibilidades ope-
rativas, que foi aqui desenvolvido de modo muito parcial, pode ser
enriquecido indefi nidamente. Me parece indubitável que, no âmbi-
to da vida social contemporânea, tais possibilidades podem apenas
crescer e jamais diminuir, mesmo que não utilizemos as indicações
da história oral (das quais, é claro, não há motivos para prescindir).
O crescimento da “administração” multiplicou as observações e le-
vantamentos, e inumeráveis depósitos de documentação (seccional,
funcional ou de associações), hoje destinados ao descarte, são per-
feitamente capazes de se tornar objeto de imprevistas iluminações
histórico-analíticas.
Assim, o objetivo de uma historiografia social contemporânea é
o de conquistar a distância cultural da sociedade que estamos viven-
do, de objetivá-la nos seus conteúdos de relação, de reconstruir a
evolução e a dinâmica dos seus comportamentos sociais.

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REFERÊNCIAS
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MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL


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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

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Paradoxos da história contemporânea*
Edoardo Grendi

A história contemporânea é, pelas próprias características do seu


objeto, atravessada mais do que qualquer outra pelas várias perspecti-
vas das ciências sociais e pela miríade de interrogações da consciência
presente. É paradoxal, portanto, que ao menos na Itália ela se apre-
sente como a mais repetitiva e a menos inovadora. Isso nos faz pensar
que o historiador da idade contemporânea parte de um sistema con-
ceitual de certezas quase absolutas e considera o trabalho histórico
não como uma operação analítica capaz de descobrir nexos significa-
tivos e propor interpretações, mas como uma operação política su-
bordinada às suas certezas teóricas, e, assim, a uma interpretação ge-
ral e preconcebida que será sustentada ou, no máximo, enriquecida.


Tradução de Henrique Espada Lima. “Paradossi della storia contemporanea” foi
publicado originalmente em maio de 1981, em uma coletânea intitulada Dieci interven-
ti sulla storia sociale, lançada pela editora Rosenberg & Sellier, em Turim (Itália). A
origem do volume foi a organização das intervenções em um debate promovido pela
editora sobre as tendências e instituições da história social e das classes subalternas na
Itália. Edoardo Grendi, que havia escrito sobre o movimento operário inglês e o tra-
balhismo britânico, participou do debate, que incluiu ainda contribuições de Sergio
Bologna, Gabriela Bonacchi, Federico Bozzini, Maurizio Carbognin, Vittorio Foa,
Antonio Gibelli, Giovanni Levi, Dora Marucco, Luisa Passerini e Franco Ramella.

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40 O estatuto da história não é nem mesmo colocado em discussão:
o historiador é um especialista que deve explicar o passado e respon-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

der à banal questão: “Como chegamos aqui?”. Mas aqui onde? O


advérbio é, na verdade, caracteristicamente opcional e capaz de ditar
escolhas de relevância absoluta: a sociedade democrática, o capitalis-
mo maduro, o partido, a vanguarda. Imaginemo-nos no dia seguin-
te à catástrofe nuclear. A interrogação será a mesma, mas é fácil in-
tuir que a escolha das relevâncias seria diferente, ou ao menos isso
podemos desejar aos sobreviventes.
A noção do “aqui” é sempre uma noção retórica, assim como é
retórica a sua projeção educativo-política: assume-se que o indiví-
duo, o estudioso, o cidadão, ampliariam em alguns centímetros a
sua consciência se tivessem conhecimento de “como chegamos
aqui”. Noção retórica, como disse, na medida em que tem uma ca-
pacidade de dilatação infinita no espaço e no tempo retrospectivo da
“grande história” e postula uma escolha de escala não reversível,
ainda mais clamorosa porque o único “aqui” histórico simples é a
personalidade do indivíduo singular, a própria biografia.
Por outro lado, o objeto se torna, sub-repticiamente, a civilização,
e a retrospectiva é o desenvolvimento, seja qual for seu sentido, posi-
tivo ou negativo, sejam quais forem as contradições. E a seletividade
teleológica do tema da civilização segue normalmente como um tra-
tor, é perfeitamente congruente com os parâmetros curriculares (e
com as orientações políticas), absorve e unifica, na celebração das
sínteses, os milênios da conquista cultural: a matemática dos babilô-
nios, a fi losofia e as artes dos gregos, a lei dos romanos, os bispos, os
monges e os mercadores da Idade Média, a arte e a política do Renas-
cimento, as descobertas geográficas, a revolução científica, as institui-
ções políticas, a revolução industrial, a revolução proletária. Na práti-
ca é uma proposta de aculturação ao nosso eurocentrismo mais
comum: este é o verdadeiro sentido da história como disciplina insti-
tucional. E o historiador é o funcionário desta instituição, um funcio-
nário que se considera “cientificamente” resguardado, proclamando
que a história deve, de todo modo, ser novamente escrita a cada gera-

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ção. O mecanismo da seleção cultural opera de forma perfeitamente 41
paralela ao mecanismo da exclusão. A opção da grande escala espaço-

PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA


temporal responde bem a esta exigência. Qualquer sistema social ad-
quire, de fato, em uma perspectiva interpretativa diacrônica, uma
hiper-racionalidade própria, obtida da distribuição do poder no inte-
rior do próprio sistema. Seja qual for a confl itualidade, o que conta é
o seu êxito e esse responde à lógica de uma organização posfactual
dos acontecimentos. Curiosamente, podemos imputar ao historicis-
mo um defeito análogo àquele imputado ao funcionalismo: “tudo se
sustém mutuamente entre si”, tanto em um caso como no outro. En-
quanto a chave funcionalista organiza “todo o empírico” segundo a
teleologia do equilíbrio, a chave historicista organiza teleologicamen-
te as relevâncias (os Estados, as relações de produção) segundo uma
sucessão lógica, expelindo todo o resto e limitando-se, assim, a regis-
trar a confl itualidade (afirmada, mas nunca analisada).
Os contemporaneístas aparecem como as vítimas predestinadas
deste estatuto da história, mesmo quando não praticam o exercício
conhecido como “cavalgada nos séculos”: a verificação pontual está
no fato de que eles respondem muito raramente às indagações do
presente (exorcizadas como o “campo das ciências sociais”), privile-
giando invariavelmente as questões ideológico-políticas. Quando
não são deputados, ministros ou prefeitos, não por acaso estão am-
plamente envolvidos nas instituições de informação (jornais, televi-
são), as mesmas que enfatizam a relevância do mundo dos partidos
políticos, aspirando assim, paradoxalmente, a uma hegemonia tam-
bém cultural. O macroteleologismo historiográfico é o ponto de
conexão dessa homogeneidade.
Mas consideremos empiricamente o trabalho histórico corrente.
É muito mais normal e frequente que sejam os historiadores medie-
vais e modernos a escolher temas mais variados, a abrir novos can-
teiros de pesquisa, em outras palavras, a descobrir novas fontes e
novos objetos, a verificar hipóteses e questões novas, a renovar, tal-
vez graças à inspiração de disciplinas irmãs, o aparato conceitual e as
interpretações. O padrão científico do trabalho, nesse caso, é referi-

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42 do à sua qualidade analítico-imaginativa, capaz de elevar o estudo
singular a um valor ilustrativo geral. Não está mais em questão uma
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

síntese que não se fará jamais, e um trabalho histórico pode vir a ser
discutido, contestado, imitado, mas não refeito a cada geração. A
história termina por ser redimensionada a uma experiência cognos-
citiva como as outras, com os mesmos elementos de gratuidade, a
mesma amplidão de opções temáticas, a possibilidade absolutamente
livre de selecionar e organizar as relevâncias. De resto, não se vê
porque o historiador deveria condenar-se a uma perpétua esquizo-
frenia: ocupar-se de cadastros, fontes criminais ou greves singulares
e depois disso refazer ou repetir o enésimo manual, voltando a con-
tar o costumeiro périplo secular do homem. E pelo menos neste caso
estamos diante de um contraste entre diferentes estatutos da histó-
ria. O contemporaneísta parece ignorar esta antinomia: o episódio
individual vem de tal modo carregado de valores ideológicos que
nem mesmo interessa mais enquanto tal, não se torna campo espe-
cífico de análise.
Dentro deste campo da história contemporânea, a escolha entre as
interrogações mais ou menos relevantes já está feita, assim como o
esquema das relevâncias explicativas está já predefinido. Podemos
falar, acredito, também de uma orientação ideológica, desde que por
isso não entendamos equivocadamente uma acusação de parcialidade
e se tenha presente que a crítica refere-se antes ao tipo de orientação
mental que a ideologia representa quando opera como omnicompre-
ensividade de categorias prontas para o uso, isto é, para o enquadra-
mento dos fatos e fenômenos históricos. Os temas mais comuns são
o événémentiel, a instituição ou o debate ideológico: tudo dentro de
uma estrutura analiticamente esgotada e dominada pelas classes e
pelos partidos, que reproduz o debate político, ou seja, uma das ma-
nifestações mais deprimentes do nosso tempo (os discursos de Moro,
as entrevistas de Berlinguer, em meio ao esotérico e o oracular).
Pode-se dizer, a propósito da orientação macroteleológica, que
toda sociedade civil é autocelebrativa, e o mesmo vale para toda ins-
tituição interessada naquele etnocentrismo do qual tira sua autojusti-

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ficação. A história, e sobretudo a história contemporânea, está com- 43
pletamente envolvida nesta celebração de idola. Não está em questão

PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA


uma oposição entre macro e microanálise. Ninguém gostaria de ne-
gar o significado da macroanálise — mormente em uma época em
que as estruturas de interdependência entre fenômenos diversos em
escala mundial parecem tão evidentes — como referência aos mode-
los interpretativos da politologia e a economia enquanto suportes
analíticos. Em todo caso, devemos concordar que a função da mode-
lística não é a de mecanicamente simplificar, reduzindo realidades de
relações a simples nexos de causa-efeito: exatamente porque um mo-
delo é válido enquanto propõe uma articulação de variáveis, fica
evidente que os objetivos analíticos são somente alcançados através
da reconstrução das relações em cadeia que não deduzam as muta-
ções do impacto externo, mas as verifiquem criticamente sobre o
corpo social e cultural que é objeto da própria transformação.
O tema bem-sucedido da economia-mundo, apontado por Brau-
del como justificativa para uma macroanálise histórica (e, não por
acaso, serializado pelos mass media em uma sucessão de imagens ex-
clamativas sobre o homem europeu), arrisca-se, me parece, a resol-
ver-se em um grande afresco de racionalização posfactual, isto é,
uma geopolítica descritiva do intercâmbio desigual, sem que seja
colocado o problema da mudança social que, no entanto, foi propos-
to aos economistas do crescimento pela densidade das realidades so-
cioculturais (“etnológicas”). A perspectiva da grande escala espacial,
combinada à grande escala temporal, parece fatalmente propor uma
teleologia da “civilisation”, com finalidades ideológico-políticas. E a
instituição educativa encarrega-se de transmitir o conforto desta
pseudoconsciência: como “missão” e não segundo esquemas de hi-
póteses-verificação didáticas. E é por meio deste ângulo de visão que
o historiador se faz funcionário, e o seu papel de aculturador se dila-
ta universalmente, corifeu das instituições e da sociedade civil.
As ambiguidades de tal papel são inesgotáveis. O romancista quer
ser lido, mas essa escolha é voluntária; o cientista, por outro lado,
move-se entre a elaboração analítica e as verificações empíricas, e

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44 ainda que marginalizado, seu papel parece encontrar um consenso
unânime. O historiador oscila entre a gratuidade de um trabalho
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

sem leitores e a sacralidade ridícula de um educador geral que se


subtrai às verificações concretas do seu papel didático. E isso é possí-
vel graças a um genérico consenso retórico inteiramente superficial.
Fora destas antinomias, me parece que vale a pena desenvolver as
implicações de um estatuto alternativo para a história. No que diz
respeito ao mercado, o exemplo francês sugere que o público prefere
histórias particulares, histórias de momentos e episódios individuais,
biografias, o que de algum modo assimila o historiador ao papel do
romancista. E sobre o terreno da didática deve-se observar que ne-
nhuma matéria de ensino é mais distante da fórmula de “laborató-
rio” quanto a história, que propõe um confronto com uma narrativa
que não pode descompor-se como se descompõe o texto literário, e
que também não é suscetível de ser discutida logicamente, como se
faz com o texto fi losófico. As ênfases alternativas são ou a tradicional
acentuação pragmática do protagonismo, ou o exercício de uma
complexidade com um fi m em si mesmo, ou o incentivo à curiosida-
de: todas operações confiadas ao capricho (ou mesmo à preguiça) do
docente. É provável que a história com estatuto analítico possa cons-
tituir uma referência idônea para a refundação da didática. E isso vale
também para a sociedade contemporânea, em que a retórica se torna
cumplicidade (ou seja, estupidez, e em proveito oportunista).
A proposta da microanálise histórica tem aqui, claramente, um
sentido provocador, ou pelo menos, como se viu, um certo efeito de
provocação. Observemos, entretanto, que está em operação uma
certa convergência de avaliações que se dirigem ao micro: cito o
recente boom de histórias da família, o modelo de uma história social
como prosopografia generalizada, a técnica de estudo fundamentada
na análise de microepisódios e na reconstrução de biografias ilustra-
tivas, as “histórias de vida”. Um único episódio da crônica do coti-
diano pode fornecer elementos para a determinação das estruturas
de uma sociedade: o que vale dizer que o repetitivo, a estrutura, não
é determinado pelo cálculo, já que normalmente este se funda sobre

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elementos que emanam dos processos de relação. Nesse sentido, é 45
preciso redescobrir toda a utilidade das fontes qualitativo-narrativas,

PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA


ou seja, da crônica do passado.
A escolha de escala da microanálise é exatamente em função dos
objetos analíticos propostos, isto é, as relações interpessoais: isso vale
para os grupos sociais e para as comunidades. A opção pela segunda,
que constitui o nexo de correspondência entre o agregado social e o
espaço, é feita em função de uma mais completa reconstrução das
estruturas de dependência internas, ainda que reconheça que se
mantém em pé para este fi m também a relevância crucial dos papéis
de mediação com a sociedade externa. A fidelidade ao contexto tem
um significado heurístico preciso: antes de tudo possibilita a recons-
trução em termos dinâmicos da estrutura social que postula um sis-
tema de papéis, e papéis inovadores, permitindo assim estudar con-
cretamente a mudança social.
Em segundo lugar está a análise da estrutura política, que se en-
contra vinculada a um nexo complexo constituído por sentimentos
de identidade coletiva, símbolos de prestígio, funções desempenha-
das, grupos formais e informais de gestão da universitas e da comuni-
dade, alianças parentais e familiares, a partir do elemento primário da
instalação da habitação. Em terceiro lugar, as transações econômicas
que incluem serviços e bens, e que postulam, do mesmo modo que as
outras relações, continuidades, rupturas, compensações no tempo. A
projeção sobre elas do modelo mercantil (demanda/oferta=preço) su-
põe um procedimento de abstração que corresponde a três perspecti-
vas fictícias: 1) a ficção de que se trata de uma situação temporalmen-
te determinada; 2) a ficção de que a transação seja o resultado de um
confronto específico; 3) a ficção de que este confronto não tenha
determinações espaciais. Partamos da hipótese de que a transação
tenha por objeto um bem produzido, colocando-nos assim o proble-
ma de uma relação entre produtores e comerciantes: é claro que a
pré-venda, a venda vinculada, as compensações débito/crédito etc.,
conferem às transações uma dimensão maior, que é de tempo médio;
por outro lado, também é evidente que a razão da troca ocorre em

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46 função da profundidade dessas mesmas transações, em uma circuns-
tância onde não estão presentes opções alternativas relevantes fora da
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

área social dessa mesma troca. E é por todos esses elementos que o
indício de uma transação assume um significado revelador do con-
junto da estrutura social, entendida esta última, não por acaso, tam-
bém como uma pirâmide de rendimentos.
Em quarto lugar, a cultura. A continuidade ou a renovação das
formas expressivas coletivas constituem certamente um problema, já
que se trata de compreendê-las e apreender seus significados. Mas o
problema central é o da função do fenômeno expressivo e, portanto,
do seu significado sociocultural contextual: apenas desse modo po-
deremos capturá-lo como orientação de valor. Naturalmente, tal
expressividade não é apenas palavra, gesto ou rito, mas também ação
social, violência coletiva, organização.
Certamente a relevância destas temáticas não é válida apenas para
os estudos do Ancien Régime. Seu significado encontra-se, de fato,
em um processo coerente que recoloca o problema do próprio sujei-
to histórico: se não sempre a comunidade (que pode ser uma comu-
nidade de produtores industriais-têxteis, de mineradores etc.), cer-
tamente o grupo social, pois trata-se sempre de tecidos de relações
interpessoais inseridos em contextos sociais mais amplos. E tudo o
que dissemos sobre a transação de um bem produzido vale também
para o bem trabalho. Podemos realmente dizer que o preço/salário
é fi xado por uma oferta/demanda de trabalho? Com certeza não
pode ser provado ou negado que uma escolha voluntária tenha um
papel na determinação do nível do salário. De resto, demanda e
oferta confrontam-se em uma rede de relações interpessoais: por
uma parte, formas diversas de delegação e subarrendamento a ter-
ceiros; por outra, os mecanismos muito humanos da imigração e da
admissão, mais ou menos ligados entre si. E tudo isso cria a oportu-
nidade da intermediação, que é um tema inesperado. O proletário,
por um lado, não é um trabalhador eventual, e isso oferece uma
continuidade de referência com relação ao seu ambiente de trabalho,
especialmente à fábrica, que lhe outorga então a ocasião para uma

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socialização específica, seja no nível do grupo de qualificação, seja 47
no nível de agregados mais amplos.

PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA


Formalmente, o que temos que reconstruir são sempre as relações
entre pessoas, tanto em sentido vertical quanto horizontal, o que
equivale a uma análise dinâmica da estrutura social. Antes de uma
teoria geral das classes sociais, o historiador deve verificar uma teoria
dos grupos sociais. Os modelos que lhe são oferecidos são altamente
formais: isso exatamente para permitir apenas aquele amplo enqua-
dramento das evidências empíricas (etnológicas) necessário para
operar as necessárias construções morfológicas. Não é por acaso que
uma das propostas mais sugestivas e mais discutidas de história social
tenha sido e seja aquela que enfatiza as relações entre os grupos fa-
miliares (ou de residência) e os grupos de trabalho, quer tendo como
referência uma situação regional de protoindustrialização, ou, sobre-
tudo, uma situação de industrialização. De fato, o estudo dos grupos
sociais comporta a análise complementar da sua cultura. Deve se
observar aqui que há um singular paralelo entre o uso da categoria
“mercado de trabalho” e o uso da categoria “consciência de classe”,
no sentido de que a sua simples evocação parece esgotar os objetivos
da pesquisa e bloquear, portanto, qualquer exploração analítica pos-
terior: uma circunstância extraordinária se considerarmos que, à luz
do bom-senso, não é possível pensar a atribuição de uma qualifica-
ção tão tipicamente cultural como “consciência de classe” fora de
um estudo dos comportamentos, pois só deles é possível extrair a
presença operante de valores sociais. Não é por acaso que emerge
esse problema histórico da cultura, tão difícil para o nosso historia-
dor contemporaneísta, governado pelo desejo de etiquetar, apenas
um pouco mais sofisticado do que o desejo do político, que notoria-
mente se ocupa de outro ofício. Donde, portanto, esse necessário
ajustamento àquilo que deriva e alude falar todo o tempo de uma
certa “diferença”, assim como também a referência evasiva à com-
plexidade das situações — que aparecem tão vaga e metafisicamente
“complexas” precisamente porque não foram verdadeiramente con-
sideradas de uma maneira analítica.

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48 Mercado, estado, classe, consciência de classe... estas categorias da
macro-história cuja apologia soa como uma explicação “em última
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

instância” ou “fundamental” — o que vale como uma tradução, não


muito bem dissimulada, de uma precedente opção por uma hierar-
quia de relevâncias. De fato, mesmo que admitamos um papel efeti-
vo do mercado, isso não justifica seu determinismo. A ação social,
assim como a ação individual, comportam uma escolha em um cam-
po de alternativas limitadas que constituem a “fábrica da realidade
social e psicológica do homem”. O mercado é apenas um dos seus
componentes. Esta me parece a perspectiva de uma coerente ima-
nência, capaz de resolver a assinalada ambiguidade de algumas cate-
gorias interpretativas, como aquela, por exemplo, de “adaptação”.
O que normalmente se objeta à microanálise histórica é que não se
pode explicar o comportamento do grupo isolando-o. Recordo que
a instância da microanálise parte exatamente do confronto com a
tendência triunfante de explicar o comportamento dos grupos sociais
ignorando-os. A hipótese alternativa é a de uma reconstrução das con-
figurações da sociedade como um todo a partir do grupo-comunida-
de, isto é, a partir da reconstrução analítica das experiências coletivas:
os próprios mediadores se configuram como grupo social e, sob o
ponto de vista do perfi l politológico, a classe dirigente se apresenta
como composição e decomposição de grupos. Uma nova prova dos
danos de uma ortodoxia historiográfica pode ser encontrada na emer-
gência das temáticas “à parte”, concebidas como um conjunto de
elementos que se encontram temporariamente fora da síntese (e que
teriam que ser, portanto, reabsorvidos no futuro). Assim, o tema do
“privado” repercute pela historiografia: a vida cotidiana, a mentali-
dade, a mulher... tantos campos de especialização, que serão de todo
modo restituídos ao fundamento comum do contexto sociocultural.
E é a esta última referência, o contexto, que responde a hipótese de
princípio sobre a unidade sociocultural que é o grupo-comunidade.
É nesse sentido que a referência à microanálise histórica vale
como um sinal de forte coerência de uma metodologia geral para a
história social.

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E insistamos na hipótese de que os resultados da micro-história 49
poderiam representar algo muito próximo ao modelo de didática-la-

PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA


boratório que estamos tentando alcançar. O elemento-guia é a refe-
rência a um quadro social global, cujo tratamento implica elaborações
teóricas formalizadas, a construção de quadros morfológicos, a sínte-
se entre a lógica histórica e a atenção ao indivíduo e ao episódio.
E quem nos diz que a mente do adolescente e do jovem (e, de res-
to, do adulto) se satisfaz ou é estimulada pelas sínteses interpretativas
periodicamente revisadas que deveriam enriquecer a consciência his-
tórica e civil (a aproximação é comum) do aluno? E por que não?
Aquilo que importa nos termos do sentido histórico é a consciên-
cia de dimensões socioculturais outras com relação à cultura social
em que vivemos: reencontros possíveis para ponderar um pouco
mais a fundo sobre a especificidade do presente. E esse é, na minha
opinião, o sentido profundo de uma convergência entre formação
histórica e formação antropológica. Tudo isso me parece sóbrio e
sensato. E é, todavia, indicativo do universo mental de alguns histo-
riadores contemporaneístas que a história social se tenha conectado
com o tema da Autonomia: o que, na verdade, parece valer como
uma feliz, e inesperada, confi rmação dos meus diagnósticos.

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3
Reciprocidade mediterrânea*
Giovanni Levi

1
Se quisermos empregar o conceito de reciprocidade em sentido con-
creto e não meramente formal, parece-me imprescindível incluí-lo
em um marco amplo de relações jurídicas e econômicas relativas a um
tempo e a uma região de referência específicos. Portanto, buscarei
mostrar de que modo esse conceito assume sua especificidade na Ida-
de Moderna, em relação com os sistemas jurídicos que, utilizando
uma expressão inadequada, chamarei de direito débil, ou seja, siste-
mas jurídicos nos quais predomina a jurisprudência sobre a lei, em
oposição à ação dos juízes com respeito ao caráter central do poder
legislativo soberano, ao qual, outra vez inadequadamente, chamarei
sistemas de direito forte. Na área mediterrânea é possível incluir nesta
categoria de direito débil pelo menos três tradições — o direito canô-
nico, o direito islâmico e o direito talmúdico — que extraem de
princípios gerais de origem religiosa as bases imutáveis às quais se re-


Publicado originalmente em Hispania (Madri), LX/1, núm. 204 (2000), p. 103-
126 e reproduzido com a permissão da revista. Tradução para o castelhano de Mar-
co A. Galmarini e para o português de Ronald Polito.

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52 ferem as práticas jurídicas. E a primeira análise destes sistemas pode
orientar-se de acordo com três princípios: reciprocidade, equidade e
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

analogia. Um estudioso da sociedade de Ancien Régime que particular-


mente se ocupa de países mediterrâneos, não se pode propor a questão
das formas de reciprocidade sem se referir a sociedades complexas em
cujo centro se encontram os mecanismos de solidariedade que carac-
terizam um projeto social baseado na justiça distributiva e, ao mesmo
tempo, na rígida hierarquização social. Portanto, a justiça na desi-
gualdade será o marco no qual se inserirão as formas específicas da
reciprocidade neste esboço, que pretende ser mais uma primeira refle-
xão teórica que a exposição de uma investigação verificada nos fatos.
Contudo, é preciso dizer que o ponto de partida destas reflexões
é um campo concreto de investigação que se pode adotar como
exemplo para compreender a importância do problema que me pro-
ponho. Há tempos que estudo o consumo em Veneza de 1500 a
1700 para responder a uma pergunta que parece essencial para com-
preender a sociedade de Ancien Régime, a saber: como se estrutura o
consumo em uma situação em que as diversidades — e sobretudo as
diversidades de consumo — entre irmãos, entre grupos sociais, en-
tre gêneros, se construíram estrategicamente para garantir a sobre-
vivência? E também como se passa desta sociedade onde a desigual-
dade é estratégica, aceita e racional, para uma sociedade que
governa seus comportamentos mediante um idioma — só um idio-
ma, que se legitima nas codificações — de igualdade entre herdei-
ros, entre irmãos, entre grupos sociais e, idiomaticamente, entre
gêneros. Quais são, pois, as formas que adota a justiça em uma dis-
tribuição desigual de bens em que os valores de equidade se chocam
com os de igualdade?
Em minha opinião, a chamada revolução do consumo não é na
realidade um problema de quantidade, de incremento das rendas
nem de disposição de novos bens, como com farta frequência os
historiadores têm opinado.1 Pelo contrário, trata-se de um problema

1
Cf., por exemplo, Brewer e Porter (1993).

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de lenta transformação cultural da desigualdade estratégica em igual- 53
dade idiomática, transformação que requer uma profunda revolução

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
cultural que implica, e provavelmente simplifica, a própria ideia de
reciprocidade, na qual a relação de dom e contradom resulta menos
importante que o sistema global de intercâmbio em uma sociedade
governada por um sistema aceito de justiça da desigualdade.2

2
No centro do discurso devemos pôr a equidade, conceito que gover-
na alguns dos sistemas jurídicos dos países mediterrâneos e certos
aspectos profundos da cultura e da estrutura antropológica do senti-
do comum de justiça das populações mediterrâneas. Em uma socie-
dade governada pela justiça distributiva, isto é, por uma justiça que
aspira a garantir a cada um o que lhe corresponde segundo seu status
social, complica-se inclusive o modelo polanyiano de reciprocidade,3
a saber, o movimento recíproco e bilateral através do qual passam os
bens no intercâmbio: não se trata só de reciprocidade generalizada
ou equilibrada, mas de uma multiplicação de reciprocidades possí-
veis nas quais — nas relações de cada grupo com todo outro grupo
e no próprio seio de cada grupo ou no limite das relações de cada
pessoa com todas as outras — as interpretações da reciprocidade se
multiplicam de acordo com significados complexos que misturam
tipo de reciprocidade e nível social dos protagonistas do intercâm-
bio. Desta forma, todo intercâmbio mercantil teoricamente equili-
brado pode considerar a determinação do preço segundo os níveis
sociais e as relações dos contratantes, e todo intercâmbio de bens
pode parecer o resultado de uma reciprocidade equilibrada ou gene-
ralizada segundo quem realiza o intercâmbio e com quem. Do mes-
mo modo, é impossível examinar uma sociedade que põe os valores
puramente econômicos acima dos valores de boa vontade e amizade,

2
Cf. Levi, 1996.
3
Polanyi, 1977:61-74.

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54 de dom e de contradom, sem ter em conta se sua fi nalidade é cons-
truir uma sociedade de iguais ou se, pelo contrário, se propõe con-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

fi rmar uma estrutura social hierárquica.4


Queria, além disso, destacar que, todavia, se trata de um proble-
ma vigente na sociedade atual, tanto no terreno jurídico como no
econômico. A cultura social católica e amiúde também a socialista,
ainda que com significados diversos devido à distinta atenção que
uma e outra prestam à igualdade, falam com frequência de capitalis-
mo solidário, o qual é antes uma paradoxal figura retórica que um
conceito operativo, em que pese a importância de seu reflexo nas
práticas políticas. Mas o confl ito entre rigor da lei e equidade se
manifesta especialmente na dificuldade frequentemente comprova-
da para aceitar a impessoalidade da justiça,5 que tantas vezes se dis-
cute em nome de uma concepção de equidade que talvez estivesse já
latente à margem dos sistemas jurídicos formais, mas que agora tem
a possibilidade de se expressar: a indeterminação dos limites que se
põe à lei e o papel do juiz em relação com a lei ocupam o centro da

4
O importante livro de Clavero (1991) me parece que subestima a necessidade de
inserir o dom e o contradom no modelo geral de sociedade — hierárquico e prote-
gido — que aspira construir a segunda escolástica. Duas coisas não partilho com
Clavero: a insuficiente avaliação do sentido comum de justiça, como se se pudesse
explicar as práticas sociais através das leis e dos códigos exclusivamente. Em segun-
do lugar — e como consequência —, a insuficiente avaliação da permanência, nos
comportamentos políticos nos países católicos de hoje, de uma concepção de justiça
em confl ito com as instituições estatais. Para observações muito interessantes sobre
a distância entre a interpretação do direito do antropólogo e do jurista, veja-se
Geertz (1983).
5
Na Itália são frequentes os movimentos de repúdio às leis em nome de um senti-
do indefi nido de justiça mais justa que a lei. Recentemente, um médico, o doutor
Di Bella, provocou uma autêntica insurreição popular com uma manifestação de
mais de dez mil pessoas perante o Ministério da Saúde e conseguiu que dois juízes
municipais se pronunciassem a favor de que o sistema sanitário público se encarre-
gasse de uma terapia sua contra o câncer que havia se demonstrado ineficaz. Apaga-
do o caso na Itália, tentou — sem êxito — relançar a questão em outro país católico,
a Argentina. Há anos houve um caso de adoção ilegal, anulada pelo juiz, que deu
lugar a uma discussão que se prolongou vários meses. Sobre este tema foi publicado
um livro exemplarmente representativo do sentido comum de justiça, escrito por
uma conhecida autora, Natalia Ginzburg (1990:2), que sustentava precisamente que
“o fi m de proteger a universalidade dos meninos não justifica uma ação cruel reali-
zada sobre a pessoa de um só menino [...] É preciso perguntar-se qual é a ação mais
justa à luz da verdadeira justiça”.

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crise da justiça em muitos países europeus. Hoje retornam ao centro 55
do debate jurídico e político tanto a intervenção da jurisprudência

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
na elaboração do direito propondo interpretações, como a consciên-
cia da impossibilidade de individualizar uma interpretação única do
texto. A relação entre elaboração, aplicação e interpretação da lei
caracteriza de uma maneira muito particular a história cultural dos
países do Mediterrâneo. Certamente não de modo unívoco; contu-
do, tenho a impressão de que os sistemas jurídicos dos países católi-
cos e dos islâmicos, enquanto tradição jurídica do judaísmo, têm
deixado — com grandes variantes, repito — muito espaço para as
interpretações jurisprudenciais, para o uso da analogia, para o papel
corretivo dos juízes no sentido da equidade na hora de aplicar a casos
concretos a lei demasiadamente geral.
Portanto, trata-se de um problema de caráter mais antropológico
que estritamente histórico-jurídico. O papel do sentido comum de
justiça difundido entre as pessoas que vivem nesta área parece parti-
cularmente confl itivo em relação com os sistemas jurídicos que se
foram constituindo sucessivamente. A debilidade das instituições
em relação ao sentido comum de equidade parece associar-se a um
papel particularmente forte de tradições políticas de origem teológi-
ca e à permanência, na consciência comum, da imagem de um plu-
ralismo jurídico que na multiplicidade das fontes de produção das
normas vê em realidade a possibilidade intersticial de mover-se com
relativa liberdade entre sistemas normativos contraditórios, cada um
deles já debilitado e erodido pela própria multiplicidade. A defi nição
da área que temos chamado mediterrânea, não obstante sua dificul-
dade e sua grande arbitrariedade, pode encontrar-se em todas as
realidades nas quais, em que pesem os esforços realizados, não se
tem alcançado estabelecer uma separação e uma hierarquização ní-
tida a favor das instituições do Estado sobre a presença de institui-
ções religiosas. Excluiria deste modelo a França, porque a formação
do Estado moderno neste país através do absolutismo defi niu preco-
cemente a supremacia das instituições do Estado também no sentido
comum de justiça.

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56 Uma última consideração sobre a importância do problema. Nes-
ta reconsideração da relação entre justiça e história, entre tarefas do
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

juiz e tarefas do historiador, não só se tem visto implicado o debate


recente sobre a ética e a justiça como equidade, como também a
própria prática historiográfica recente; a remissão ao sentido comum
acerca do que é justo, a difundida prática de processar a história e o
papel jurídico (mais testemunhos de experts) que se tem confiado
aos historiadores nos processos recentes por crimes contra a huma-
nidade, têm voltado a pôr sobre a mesa problemas complexos de
relação entre sistemas positivos de leis e sistemas éticos, o que reme-
te a difíceis operações analógicas e a apelações a imagens universais
de equidade.6

3
Mas partamos de Polanyi. Apesar de que os comentaristas não o
tenham observado e de que não se possa encontrar neste autor uma
elaboração ampla do conceito de equidade, o próprio Polanyi vê
uma estreita relação entre reciprocidade e equidade:

Para retornar à reciprocidade, um grupo que decidisse organizar


as relações próprias sobre essa base deveria, para alcançar seu en-
cargo, subdividir-se em subgrupos simétricos cujos membros res-
pectivos pudessem identificar-se reciprocamente enquanto tais.
Então os membros do grupo A poderiam estabelecer relações de
reciprocidade com suas contrapartidas do grupo B e inversamen-
te; ou bem se pode dizer que três, quatro ou mais grupos são si-
métricos com relação a dois ou mais eixos e que os membros
desses grupos não têm por que praticar necessariamente a recipro-
cidade entre si, senão com os membros correspondentes de outros
grupos com os quais se encontram em relações análogas... o que

6
Cf., por exemplo, o dossiê Verité judiciaire, vérité historique, com artigos de F. Har-
tog, M. Baruch, Y. Thomas e P. Y. Gaudard em Le débat, 102 (1998), p. 4-52.

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dá vida a uma cadeia ilimitada de reciprocidades sem que exista 57
reciprocidade alguma entre eles.

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
Um sistema de reciprocidades não é, pois, o pózinho dos atos de
reciprocidade, de dom e contradom, que “tem lugar em ocasiões
diferentes, segundo um cerimonial que impede qualquer noção de
equivalência, porque com frequência as atitudes pessoais individuais
carecem de efeitos sociais”. Só em um ambiente organizado simetri-
camente, as atitudes de reciprocidade darão lugar a instituições eco-
nômicas de certa importância.7 As formas de integração devem
criar, portanto, um sistema. E a regra das sociedades que se baseiam
na reciprocidade não será senão a adequação:

Enquanto nosso sentido de justiça busca a adequação em termos


de castigo e recompensa, os movimentos recíprocos dos bens re-
clamam a adequação em termos de dom e contradom. Neste caso,
adequação significa sobretudo que a pessoa justa deveria recom-
pensar um dom com o objeto de tipo justo no momento justo.
Naturalmente, a pessoa justa é a que se encontra em uma posição
de simetria. De fato, a não ser por esta simetria, seria impossível
o funcionamento do conjunto das ações de dar e receber implíci-
to em um sistema de reciprocidade. Com frequência o compor-
tamento adequado é o que se inspira na equidade e na consideração
do outro, ou que pelo menos parece inspirar-se nela, e, em con-
sequência, é diferente da atitude stricti juris da lei antiga, que pode
ser exemplificada na insistência de Shylock em ter sua libra de
carne. O costume dos dons recíprocos não vai quase nunca acom-
panhado de rígidas práticas contratuais. Seja qual for a razão da
elasticidade que leve a preferir a equidade ao rigor, tende clara-
mente a desalentar as manifestações de egoísmo econômico nas
relações de reciprocidade baseadas no dar e no receber.8

7
Polanyi, 1977:64-65.
8
Polanyi (1977:66). O grifo de equidade é meu.

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58 Durante muito tempo, as sociedades complexas islâmicas e católicas
tiveram a reciprocidade entre suas imagens centrais, em um sonho pro-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

vavelmente irrealizável, uma vez superadas as pequenas dimensões das


comunidades nas quais operam simetrias mais limitadas, suficientes
para sistemas sociais mais simples. A força de um poder central, garan-
tia da justiça distributiva, e a institucionalização de classificações sociais
de sociedades hierarquizadas não bastavam para garantir o funciona-
mento de um sistema de integração baseado na reciprocidade, mesmo
quando a mistura de mecanismos de integração baseada na redistribui-
ção se propusera conviver com uma sociedade em que as células básicas
— família e comunidade — puderam continuar operando através da
reciprocidade que emanava da boa vontade e da amizade, da solidarie-
dade e do dom-contradom. E contudo — e nisto não estou de acordo
com Polanyi — não se tratava de um conflito entre rigor e adequação,
quer dizer, entre mensurabilidade das equivalências e arbitrariedade
relativa do intercâmbio de dons e contradons: também a equidade tem
de ter sua medida, um rigor referido à simetria que governa o conjunto
do sistema, distinto da equivalência. Uma medida que se deve estabe-
lecer caso a caso, transação a transação, mas que remete a uma percep-
ção social que os protagonistas possam identificar e que mantenha a
equidade de uma relação de intercâmbio entre pessoas desiguais.

Muitas vezes o todo que se dá será consequência desta justiça


(distributiva); por exemplo, o soldado serve bem a seu príncipe
ou ao capitão pelo soldo estabelecido, o criado serve bem a seu
patrão, de quem recebe o salário, ou o fi lho responde bem às
atenções paternas; em estrito rigor de justiça comunicativa, que
os juristas explicam como ação civil, com capacidade para apre-
sentar-se em juizo, nenhum deles poderá aspirar a outra mercê,
porque já a recebeu, e fez o que devia fazer; mas se o príncipe, o
capitão, o patrão ou o pai, em relação com uma diligência par-
ticular, delicadeza no serviço ou atenções, impulsionados por
aquela obrigação natural, que os juristas chamam antidoral, lhes
fazem um donativo, ou lhes concedem outra mercê, cometerão

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um ato de justiça distributiva contanto que o exerçam com 59
aquilo do que podiam dispor livremente sem molestar as posi-

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
ções de outro e na devida proporção da circunferência a seu
centro do mérito, porém não sem esta condição.

A justiça distributiva, de fato,

se assemelha a uma esfera cuja circunferência está regulada por


seu centro, onde têm origem todo raio e toda linha, e é regra
bem proporcionada por muito que seus raios ou linhas se distan-
ciem do centro. Portanto, o mérito ou o demérito são o centro
desta justiça, sem os quais esta não existe; porém no modo de
quem tem o poder para exercê-la, se pode dar maior distancia-
mento, da mesma maneira em que se dá nos raios ou nas linhas,
sem perda da proporção devida.9

Portanto, a medida é a proporção, que pode defi nir-se caso a caso


através da avaliação que só uma autoridade pode determinar. Porém
se trata de uma medida exata, não arbitrária, “posto que o dar ou o
premiar sem mérito não será ato de virtude de liberdade, mas vício
de prodigalidade, que comporta injustiça ao tirar dos meritórios e
dar aos que carecem de mérito”. O cardeal De Luca parece aqui
imaginar um mundo de bens limitados no qual todo ato de genero-
sidade não só premia alguém, como tira de outros. E isto é precisa-
mente o que requer uma proporção ponderada. A lei existe, porém
é distinta para todos, segundo as condições e os méritos. Contudo,
requer o rigor da proporcionalidade geométrica.
A esfericidade da justiça distributiva é uma metáfora: a esfera é a
totalidade, o bem limitado a distribuir em sua perfeição; mas os
méritos e deméritos produzem variações na longitude dos raios. E
também é uma metáfora a imagem com que De Luca nos descreve a
justiça comutativa e a proporcionalidade aritmética:

9
De Luca, 1740:54-65.

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60 Pelo contrário, a justiça comutativa se assemelha à figura qua-
drada, que por necessidade requer a igualdade e a proporção das
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

linhas, nenhuma das quais deve ser maior que as outras, ou en-
tão à balança, que para estar em equilíbrio deve ter tanto peso
em um prato como no outro: e em consequência, que a cada um
se dê o seu e o que lhe é devido, mas não mais nem menos.10

Portanto, não só no seio da relação entre indivíduos se pode apre-


ender a medida, mas também na coerência entre os comportamentos
individuais e o modelo geral que a sociedade prescreve. E neste caso
se trata das prescrições da teologia e da moral cristã em suas impli-
cações políticas: se não há na revelação divina nada do qual se possa
deduzir uma política especificamente cristã, as instituições tempo-
rais “relinquuntur humano arbitrio”, porém, devem tender ao bem co-
mum político prescrevendo as virtudes e combatendo os vícios, seja
qual for a forma pré-selecionada entre a pluralidade de formas que a
comunidade dos homens possa assumir. Portanto, a liberdade dos
homens deve estar presidida pela superioridade moral da Igreja, com
sua função corretiva e de controle.11
Muitas vezes, os que têm se ocupado da antropologia política das
sociedades católicas do Ancien Régime têm se surpreendido perante o
caráter aparentemente libertário das regras sociais: os homens são
completamente livres em suas eleições, seus sistemas políticos não
são criações de Deus, mas fruto de seu livre-arbítrio. Porém esta li-
berdade está sob tutela: como meninos que experimentam sua rela-
ção com a realidade sob o olhar atento dos pais, os homens se aven-
turam, por sua conta e risco, na empresa prescrita de formar uma
sociedade política e econômica; porém à Igreja, encarnação do po-
der diretivo e coativo de Deus, corresponde a tarefa de controle e de
atração para dirigir os homens, de acordo com a lei, para a consecu-
ção de seus fi ns sobrenaturais, dos quais continuamente se distan-

10
De Luca, 1740:66.
11
Cf. Villey (1991). Mais em geral, cf. Villey (1985).

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ciam enquanto pecadores.12 Na realidade, o aspecto libertário da 61
doutrina católica que vendem Skinner e Clavero,13 por exemplo, só

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
é aparente: é a liberdade do pecador sob tutela.
Há, pois, uma aparência de incomensurabilidade nas relações de
reciprocidade porque há uma aparência de liberdade absoluta. Po-
rém, nela se oculta um sentido determinado de justiça que se mede
em função da adequação na criação de uma sociedade hierarquizada
e corporativa em que não são justos os atos econômicos que têm
como fi nalidade o enriquecimento, a não ser os que tendem a favo-
recer a circulação de bens e o bem-estar coletivo e desigual, em que,
portanto, predominem a amizade e a boa vontade e no qual cada um
tenha o que lhe corresponde segundo equidade, ou seja, conservan-
do a proporção relativa a seu status. Em consequência, a equidade é
um ideal que não se mede sobre a base de regras abstratas, mas sobre
a base de referências ao processo geral de melhora progressiva da
sociedade rumo a seus destinos sobrenaturais; não são objeto de me-
dição por parte dos atos particulares, mas de juízo por parte da Igre-
ja em seu papel de tutora.
Sendo assim, como podemos caracterizar mais detalhadamente
este conceito de equidade?

4
É obrigatório remontar o conceito de equidade (epiéicheia) a este
conhecidíssimo fragmento da Ética a Nicômaco:

O justo e o equitativo são o mesmo, e, apesar de serem excelen-


tes ambas as coisas, o equitativo é melhor. A aporia é produto de
que o equitativo é justo, porém não o é segundo a lei, senão que,
pelo contrário, é uma correção do legalmente justo. Causa disso
é que toda lei é universal, mas sobre determinados temas é im-

12
Skinner, 1978:213.
13
Cf. Skinner (1978:199-253) sobre o renascimento do tomismo, e Clavero (1991).

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62 possível pronunciar-se corretamente em forma universal. Por-
tanto, nos casos em que é necessário pronunciar-se de maneira
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

universal, porém, por outro lado, é impossível fazê-lo correta-


mente, a lei tem em conta o que sucede ordinariamente, sem
ignorar o erro [...] Portanto, quando a lei se pronuncia em geral,
porém no âmbito da ação sucede algo que vai contra o universal,
é justo corrigir a omissão ali onde o legislador deixou o caso
incompleto e errou porque se pronunciou em geral [...] Portan-
to, o equitativo é justo e é melhor que certo tipo do justo, não
que o justo em absoluto, mas que o erro que tem como causa a
formulação absoluta. E esta é a natureza do equitativo, a de ser
correção da lei na medida en que esta perde valor por causa de
sua formulação geral.14

Porém o conceito surgiu e teve importância em sociedades que


não reconheciam a igualdade entre cidadãos abstratos — segundo a
qual a lei é igual para todos —, mas que, pelo contrário, acentuam
a desigualdade de uma sociedade hierárquica e segmentada, em que
conviviam sistemas hierárquicos correspondentes a diversos siste-
mas de privilégio e de classificação social: portanto, uma pluralida-
de de equidades segundo o direito de cada um ao qual se reconheça
o que lhe corresponde sobre a base de sua situação social e de acordo
com um princípio de justiça distributivo. Na sociedade de Ancien
Régime, o conceito de equidade era o protagonista central de seu
sonho impossível — ou, melhor dizendo, já impossível — de cons-
truir uma sociedade justa de desiguais. Nela a impossibilidade não
se sustentava tanto no confl ito entre aequitas y aequalitas quanto no
sonho de que cada um fosse classificável com exatidão em um papel
ou em uma condição social unívoca, defi nida e estável. A lei difere
para cada estrato social, quando não para cada pessoa, em uma jus-
tiça do caso concreto determinado segundo as desigualdades sociais
defi nidas.

14
Aristóteles. Ética a Nicômaco, livro V, 14, p. 5-25.

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Frequentemente se tem imaginado na história do direito a equi- 63
dade como mero instrumento com eficácia derrogadora do direito,

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
embora sem atribuir-lhe natureza antijurídica ou ilícita.15 Para mim,
em contrapartida, me parece que a equidade — ou, melhor, as equi-
dades — são a própria raiz de um sistema jurídico que aspira orga-
nizar uma sociedade estratificada, porém móvel, na qual convivem
muitos sistemas normativos no esforço de conhecer o que é justo
para cada um.
Não poderíamos compreender as revoltas camponesas da Idade
Moderna se as concebêssemos como revoltas contra um sistema es-
tratificado e não como destinadas a obter o justo e equitativo para os
camponeses no seio de um sistema de desigualdades aceitas. O mes-
mo ocorre com as revoltas anonárias básicas, segundo Edward P.
Thompson,16 para a interpretação da economia moral do povo e que
são precisamente revoltas pelo preço justo ou, melhor ainda, pela
reafi rmação de um sistema adquirido diferenciado e equitativo de
preços, mas não movimentos igualitários ou contrários à existência
do mercado; para confi rmar e não para modificar a estrutura social.
Além disso, me parece que acentuar a equidade contribui para
explicar os esforços classificatórios que caracterizam a sociedade de
Ancien Régime, esforços desprendidos justamente para defi nir de ma-
neira estável condições sociais às quais se reconhecem privilégios
específicos. Para dar um exemplo extremo, pense-se no gênero pic-
tórico mexicano que floreceu nos séculos XVII e XVIII, que repro-
duz “a sociedade de castas” e que trata de classificar os efeitos das
mestiçagens e das mestiçagens de mestiçagens entre índios, brancos,
negros e orientais: “de mulato e mestiça se produz mulato tornatrás”,
ou “de índio e mestiça nasce coyote”, ou “de espanhol e índia nasce
mestiço; de espanhol e mestiça, castizo; de espanhol e castiza, espa-

15
Veja-se, por exemplo, as sínteses: Calasso (1966:65-68); Guarino (1960:619-
624); Varano (1989:1-14).
16
Thompson (1993). Até que ponto os cardeais que administravam a anona roma-
na tinham presente o problema do preço justo dos alimentos é mostrado em Marti-
nat (1999).

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64 nhol”. Além da necessidade, evidente no último caso, de fechar o
círculo com o retorno ao espanhol, para fazer manipulável, embora
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

fictício, um processo que do contrário seria infi nito, a classificação


das mestiçagens chega a uma lista paradoxal que compreende criollo,
mestiço, mulato, zambo, castizo, mourisco, albino, ahí te estás, albara-
zado, barcino, calpamulo, cabujo, coyote, chamizo, chino, cholo, grifo, jeníza-
ro, jíbaro lobo, no te entiendo, salta-atrás, tenté en el aire, tornatrás, zambai-
go.17 Este esforço revela a impossibilidade de se criar uma classe para
cada diferença e a ilusão de que todo indivíduo podia ser incluído
em uma classe segundo uma regra uniforme de atribuição. Mas os
homens recebem muitos papéis ao mesmo tempo e criam realidades
ambíguas que requerem equidades diferentes, não só indivíduo a
indivíduo, como também situação a situação. Os arquivos dos tribu-
nais do Ancien Régime estão cheios de procedimentos nos quais os
protagonistas fazem seu jogo intersticial mediante a reivindicação de
diferentes pertencimentos para gozar de diferentes privilégios; ou se
inscrevem em classes impróprias pela exigência de ingressar no es-
quema classificatório requerido para gozar do mesmo privilégio de
existência jurídica.18

Que Dante Alighieri estivesse inscrito no grêmio florentino dos


médicos e dos boticários, e que, dois séculos e meio depois, João
Calvino, ao chegar como prófugo em Estrasburgo, entrasse no
grêmio dos alfaiates, quando na realidade nenhum deles dois
jamais praticou o ofício em cuja corporação tinha sido inscrito,
tornou quase proverbial a desconfiança dos historiadores nas
qualificações corporativas.19

Eram simplemente qualificações para existir: “no discurso me-


dieval da cidadania, a visibilidade do sujeito está mediada, pois, por

17
Cf. García Sáinz, 1989.
18
Uma interessante casuística neste sentido, com referência aos tribunais civis ro-
manos, pode ser vista em Groppi (1999). Cf. também Ago (1998).
19
Berengo, 1999:339.

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seu pertencimento ao corpo”,20 mesmo quando esse pertencimento 65
ordenado fosse fictício.

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
5
Mas o que agora me interessa não é a história do conceito jurídico
de equidade, senão sua importância tanto para os sistemas jurídicos
como para a elaboração dos sistemas políticos e a realidade antropo-
lógica das sociedades do Mediterrâneo. Contudo, toda a história do
conceito de equidade pode ser sintetizada em dois processos contra-
postos: enquanto alguns ordenamentos — quase todos os dos Esta-
dos modernos continentais — tendiam a deixar de lado toda refe-
rência à equidade, reduzindo-a em realidade a instrumento perigoso
ao qual recorrer unicamente em casos extremos de ausência de re-
gras no campo civil, outros ordenamentos — os que acentuam mais
o papel dos tribunais e da jurisprudência — tendiam a fazer da equi-
dade um instrumento central da interpretação e da aplicação da lei.
Tenho a impressão de que precisamente nas sociedades mediterrâneas
não predominou nenhuma destas orientações, porém entre uma e
outra se seguiu uma história própria e paralela nas atitudes e nos sis-
temas informais de direito, embora não nos ordenamentos.
Escolherei três momentos como particularmente significativos.
Comecemos pela equidade canônica que ilustram, por exemplo, Ch.
Lefebvre,21 P. Fedele22 e, com particular atenção ao significado políti-
co de longa duração do conceito, P. Grossi,23 a quem remeto também
para uma análise mais profunda. Neste momento só me urge destacar
que a equidade é um elemento central de um sistema normativo que,
contrapondo a inflexibilidade e a imobilidade abstrata da justiça divi-
na à especificidade da justiça humana, prescreve diretamente como

20
Costa, 1999:19.
21
Lefebvre, 1951a.
22
Fedele, 1966.
23
Grossi (1995:203-222). Pelo contrário, em Gaudemet (1994) deixa-se de lado
por completo a importância do problema.

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66 dever do juiz a aplicação da lei de acordo com os princípios da rationa-
bilitas (isto é, da conformidade da razão à teologia), da salus animarum
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

e da charitas, e especial atenção à ratio peccatum vitandi e ao periculum


animae. E disso nasce uma complexa série de normas de comporta-
mento para o juiz canônico, que tanta importância terão nas doutri-
nas políticas dos séculos XVI e XVII: por exemplo, a tolerantia é no
essencial a dissimulatio. Em particular seria muito útil — e só o digo de
passagem — ver em que medida as doutrinas católicas da razão de
Estado e a discussão sobre a dissimulação honesta tomavam muitos de
seus elementos constitutivos não só da tradição estoica, como também
da tradição jurídica canônica. E isto nos permitiria esclarecer melhor
em que sentido é católica a razão de Estado católica.24 A dissimulação
tem, na prática canônica, um fim fundamentalmente positivo, ligado
precisamente à gestão da justiça em estrita referência à contextualiza-
ção dos casos singulares, em função de uma melhora moral geral.
Portanto, não me parece suficiente vê-la como técnica política de
domínio, como faz, por exemplo, Villari quando comenta Della dissi-
mulazione onesta, de Torquato Accetto, nestes termos: “Concebida
pelo pensamento clássico e medieval como problema eterno do ho-
mem, da relação entre aparência e realidade, entre mentira e verdade,
em fins do século XVI e durante o século seguinte foi considerada
sobretudo como um aspecto específico da vida política e do costume
da época”,25 tanto que “também o mundo da oposição e da resistência
ativa ao poder recebeu e fez sua uma técnica elaborada oficial e exclu-
sivamente para a ação de governo”.26 Precisamente nos limites da dis-
simulação se apoia o problema central de sua legitimidade e sua ho-
nestidade, limites que têm sua definição na prática jurídica católica. O
que se traduza em técnica de governo ou de resistência ao poder, pas-
sando por Maquiavel, não afeta no fundamental a relação da razão de
Estado católica com as origens jurídico-canônicas.27

24
Lefebvre, 1951b.
25
Villari (1987:18). Tampouco me parece que encare este problema Borrelli (1993).
26
Villari, 1987:25.
27
Olivero, 1953.

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Grossi fala da 67

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
notável influência do direito canônico clássico no desenvolvi-
mento de toda a juridicidade ocidental. A posição central da
equidade canônica, verdadeira norma constitucional não escri-
ta; o sentimento constante da mutabilidade do direito humano;
a consequente e forçosa elasticidade deste e o importante papel
do juiz que o aplica: eis aqui pontos fi rmes que, ao transbordar
os termos fechados da sociedade eclesial, penetrarão na ordem
jurídica da sociedade civil, a solicitarão, a impregnarão.28

Mas vale a pena destacar que não se trata tão só de relação entre
ordem jurídica canônica e civil, senão também de influência da con-
cepção de unidade em um campo menos defi nido, como é o do
sentido comum de justiça, o modo de perceber o justo e o injusto
das sociedades católicas e, portanto, o modo de relacionar-se com o
Estado e suas instituições. Convivência complexa que, não obstante
os ordenamentos e as codificações, não se resolve em uma sucessão
de concepções jurídicas: de fato, no sentimento comum convivem
“nossa igualdade formal, abstrata, igualdade jurídica de sujeitos na
realidade desiguais e que continuam sendo desiguais apesar da cíni-
ca afi rmação de princípio” e “a igualdade que a aequitas pretende
garantir e que, pelo contrário, é pura substância […] a unicidade do
sujeito — do sujeito civil abstrato — é um futurível das invenções
iluministas. Não existe aqui o sujeito, mas os sujeitos, e sujeitos bem
encarnados, com toda sua carga de faticidade, ou seja, de imersão
nos fatos”29 e, portanto, de status e de papéis diferentes.
A equidade não se proporá sem gravíssimos confl itos: a conciên-
cia que a equidade contrapõe à própria concepção de Estado moder-
no, e em particular à monarquia absoluta, pouco a pouco abrirá ca-

28
Grossi (1995:216). A referência é também à equity do sistema jurídico inglês, que
contudo não estudaremos aqui, pois nos distanciaria demasiadamente desta análise
mediterrânea.
29
Grossi, 1995:179.

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68 minho para si. Da mesma maneira, cada vez será mais evidente a
explícita contradição entre o poder do juiz na aplicação equitativa
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

da norma e da segurança do direito.

6
Podemos exemplificar isto com Bodin, que na interpretação dos
juízes de acordo com a equidade via precisamente uma ameaça ao
próprio princípio de soberania: na base mesma das teorias absolutis-
tas reside a contradição que deriva da interpretação da lei e da apli-
cação equitativa das normas como modo de operar dos juízes. No
primeiro livro de La République, capítulo X, Bodin defi ne “as ver-
dadeiras marcas de soberania”.

A primeira marca do príncipe soberano é o poder para dar a lei a


todos em geral e a cada um em particular [...] sem consentimento
dos maiores, nem de semelhante, nem de menor em relação a si
mesmo [...] A segunda marca de majestade [...] declarar a guerra
ou tratar da paz [...] A terceira marca de soberania é a de instituir
os principais funcionários [...] Não é a eleição dos funcionários o
que comporta direito de soberania, (mas) sua confirmação e sua
provisão [...] A outra marca soberana é a instância última, que é e
sempre tem sido um dos principas direitos da soberania [...] A
quinta marca de soberania [...] o poder de outorgar graça aos
condenados, por cima das sentenças e contra o rigor das leis, seja
para a vida, os bens, a honra ou o regresso do desterro.30

30
Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “La
premiere marque du prince souverain, c’est la puisssance de donner loi à tous en général et à
chacun en particulier [...] sans le consentement de plus grand, ni de pareil, ni de moindre que
soi [...] La seconde marque de majesté […] décerner La guerre ou traiter la pax [...] La troi-
sième marque de souveraineté est d’instituer lês principaux offi ciers [...] Ce n’est pas I’élection
des offi ciers que emporte droit de souveraineté, (mais) la confirmation et provisión [...] L’autre
marque souveraine, c’est á savoir du dernier ressort, qui est et a toujours eté l’un des principaux
droits de La souveraineté [...] La cinquiéme marque de souveraineté [...] la puissance d’octroyer
gráce aux condamnés par-dessus les arrêts et contre la rigueur des lois, soit pour La vie, soit
pour les biens, soit pour I’honneur, soit pour le rappel du ban”.

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Todos estes signos de soberania, que deixam a ação derrogatória 69
da lei à discrição do soberano, embora dentro dos limites da equida-

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
de, são inalienáveis. Só um aspecto da equidade escapa ao soberano:

Mas entre as marcas de soberania, há os que têm posto o poder


de julgar segundo sua consciência: o que é comum a todos os
juízes em caso de não haver lei nem costume expresso [...] Se há
costume ou ordenação em sentido contrário, o juiz não tem
poder para passar por cima da lei, nem para discutir a lei [...]
Porém o Príncipe pode fazê-lo se a lei de Deus — única limita-
ção da soberania — não é expressa a respeito.31

De tudo isto decorre a rígida atitude com que Bodin limita a


interpretação da lei, deixando à consciência dos juízes a tarefa de
julgar somente na ausência da lei e nunca em oposição à lei. Portan-
to, não se consente aos juízes a aplicação desigual da lei segundo a
variedade de lugares, momentos e pessoas; a equidade, em contra-
partida, é o princípio próprio do soberano, a quem, precisamente
em função da exclusividade dos direitos que defi nem a soberania,
primeiro entre todos e do qual os outros aspectos são só especifica-
ções, se consente que faça as leis. A interpretação e a aplicação equi-
tativa da lei transformariam de algum modo o juiz em legislador, o
que dissolveria a soberania.
Mas em que consiste a equidade para Bodin? Ele o esclarecerá no
capítulo VI do livro sexto. A característica da justiça distributiva e
da proporção geométrica é uma igualdade geométrica que governa
este tipo de justiça, típica da sociedade aristocrática e hierárquica, na
qual cada um tem direitos diferenciados e todo semelhante em status
deve unir-se e ser tratado com seus semelhantes. Tem muitos aspec-

31
Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “Mais
entre les marques de souveraineté, plusiers on mis la puissance de juger selon sa conscience:
chose qui est commune á tous juges, s’il n’y a loi ou coutume expresse [...] S’il y a coutume ou
ordonnance au contraste, il n’est pas en la puissance du juge de passer par-dessus la loi, ni
disputer la loi [...] Mais le Prince le peut faire si la loi de Dieu —única limitação a la sobera-
nía— n’y est expresse”.

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70 tos de equidade, mas não pode funcionar por si só devido a sua rigi-
dez, “la fermeté de la regle de Polycléte”. A isto se opõe a igualdade
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

da proporção aritmética da sociedade democrática, que não aceita


diferenças de status, se baseia na justiça comutativa e está em poder
“de la variété et incertitude de la regle Lesbienne”. Em contraste
com as duas formas de justiça aristotélica é preciso, pois, “suivre la
justice harmonique, et accoler ces quatre points ensemble, á savoir
loi, equité, exécution de la loi, et le devoir du magistrat”. E a justiça
harmônica, que é a proporção que funde ambas as igualdades, é a
equidade garantida pela soberania absoluta do príncipe, o único que
pode “accomoder l’équité á la varieté particuliére des lieux, des
temps et des personnes”.32

7
Durante todo o século XVII — de Hobbes a Leibniz —, o sonho de
uma lei tão simples e clara que reduzisse o papel de juiz ao de mero
agente de aplicação mecânica das normas dominaria as escolas fun-
damentais do pensamento jurídico-político. Quer se trate das inter-
pretações voluntaristas e nominalistas da justiça para as quais as coi-
sas são justas porque assim Deus o quis, quer das interpretações
essencialistas ou realistas, para as quais Deus quis que as coisas fos-
sem assim porque eram justas, quer das interpretações do positivis-
mo jurídico que deixam à vontade do homem a criação das normas
jurídicas para que sirvam a seus apetites nas cambiantes circunstân-
cias da vida, todas têm em comum a ideia de que há uma única
fonte de justiça e que, portanto, é possível criar uma justiça exata e
uniforme. A justiça distributiva tende a desaparecer dos objetivos do

32
Bodin, J. Les six livres de la République, livro VI, cap. 6. Sobre Bodin e a equidade,
veja-se Beaud (1994:191-196). Tradução das quatro citações em francês deste pará-
grafo: “a incomovível fi rmeza da regra de Policleto”; “da variedade e incerteza da
regra lesbiana”; “seguir a justiça harmônica e reunir os quatro pontos, a saber, a Lei,
a Equidade, a Execução da lei e o dever do Magistrado” e “acomodar a equidade à
variedade particular de lugares, momentos e pessoas” (N. do T.).

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direito propriamente dito, do ius strictum,33 enquanto a equidade ten- 71
de a ser reabsorvida na justiça como a moral e a vontade na razão,

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
sem contrastes. Em suas reflexões jurídicas, por exemplo nas Medita-
ções sobre o sentido comum de justiça (c. 1702), Leibniz (1994) chega ao
que talvez seja a posição mais extrema quando sonha com uma jus-
tiça praticamente mecânica, de acordo com sua teoria lógica que
buscava a coordenação rigorosa entre signo e significado, que fi xas-
se de uma vez por todas a proporção entre caracteres e coisas, que é
o fundamento da verdade. A justiça é uma das

ciências necessárias e demonstrativas que não dependem de fa-


tos, mas unicamente da razão, como o são a lógica, a metafísica,
a aritmética, a geometria, a ciência dos movimentos e também a
ciência do direito, que não se fundam na experiência e nos fatos
e servem antes para aplicá-los e regulá-los por antecipação, o que
também valeria para o direito se não houvesse leis no mundo.

Em consequência, este é o objetivo por agora não realizado, mas


que poderá sê-lo quando os homens se submeterem à lei de Deus e
à razão. Dessa forma, “quando surgirem controvérsias, já não serão
mais necessárias as disputas entre dois fi lósofos que entre dois calcu-
listas. De fato, bastará pegar a pena, sentar-se perante o ábaco e di-
zer-se reciprocamente: calculemos” (De scientia universalis).34
A equidade, a interpretação equitativa, são, em consequência, so-
luções subalternas e parciais em um mundo imperfeito que contudo
tem que recorrer a uma distinção entre strictum ius, bondade e equi-
dade. O conceito de equidade iniciou assim um processo progressi-
vo de marginalização e de redução, cujo desenvolvimento não se-
guirei porque nos distanciaria muito das costas mediterrâneas.

33
A busca de uma distribuição justa dos bens seria sem dúvida um objetivo dema-
siadamente ambicioso para o jurista e que, ou bem não forma parte de suas tarefas,
ou bem carece diretamente de todo sentido para ele. Grócio descarta a justiça dis-
tributiva do campo do direito propriamente dito. Villey (1985:529).
34
Leibniz, 1994.

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72 Mas não ocorre o mesmo na Itália e na Espanha, sociedades nas
quais o direito canônico conserva uma presença notável no sentido
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

comum e na realidade cotidiana. A ação da Inquisição e a prática da


confissão, do arrependimento e do perdão, difundida por toda parte,
não puderam ter deixado de incidir, em um nível inconsciente, no
sentido comum de justiça que o tribunal das consciências sugeria aos
fiéis. Assim se criou uma cultura específica, que pouco a pouco se
converteu em antropologia concreta, sentido muito estendido de um
duplo valor da moral, de um significado distante e fraco das institui-
ções do Estado.

8
Disto se dava conta Vico — que utilizarei como último exemplo da
evolução comparada do significado da equidade —, muito influen-
ciado pelo sentido católico da comunidade política no caminho
rumo à redenção, isto é, “o progresso não interrompido de toda a
história profana”. A semelhança com Leibniz é mera aparência: para
o primeiro, a equidade desaparece na lei, enquanto para o segundo,
a lei desaparece na equidade. Em De universi iuris uno principio et fine
uno (1720),35 Vico divide o direito natural em ius naturale prius e ius
naturale posterius, em que o primeiro mostra o indivíduo em sua exi-
gência de conservação, para a qual o critério individual de cada um,
dirigido à conservação, faz as vezes de norma. Em seu curso, a his-
tória tem a função de desvelar progressivamente uma ordem natural
diferente, fundada na capacidade da razão para transformar o prin-
cípio de conservação individual em coletivo, quer dizer, referido aos
corpos sociais. Este processo passa pelo ius gentium e pelo desenvol-
vimento do direito civil, que transformam a luta de todos contra
todos em relações de proteção baseadas no domínio e na subordina-
ção. Da equidade natural do ius prius, que se contrapõe à verdade
porque “ex ipsa hominis sociali natura duplex existit naturalis rerum socíe-

35
Vico (1974). A tradução italiana é de Carlo Sarchi, Milão, P. Agnelli, 1866.

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tas: altera veri, altera aequi boni”,36 Vico nos conduz à equidade civil: 73
parte da descrição da jurisprudência benigna ou ateniense e do ius

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
pretorio, no qual “o vulgo (é) sensível à equidade natural e ignora a
equidade política (vulgus naturalis solens, civilis aequitatis ignarum)”.
Com a manutenção invariável das fórmulas das ações — segundo as
XII tábuas —, o pretor provia a estabilidade da região civil, e com
as exceções, quando se tratavam questões não contidas nas XII tábu-
as ou quando a lei das XII tábuas resultava demasiadadamente dura
(si aequitati lex surda durave esset), lhes introduzia, em caso de neces-
sidade, a equidade do ius naturale.37
Assim se introduz uma jurisprudência benigna, “ars adqui boni”,
segundo a defi nição de Celso. A equidade natural se caracteriza,
pois, por acolher muitas exceções nas regras que a lei expressa, por-
que no ius naturale prius domina contudo um hiato entre indivíduo e
conveniência racional. A equidade civil, em troca, parece e é auto-
ritária, pelo que “muito frequentemente recebe o nome de rigor da
lei porque o rigor civil que se sofre imerecidamente é muito grave e
amargo (magis appellata est ‘iuris rigo’, quia civilis rigor est sane rigor in
causis in quibus contra immerente duratur)”.38 Só com o desenvolvimen-
to da racionalidade e da communitas, o direito natural posterius faz
coincidir aequitas e lei. Porém se trata de uma aequitas que tem sua
raiz na aequitas natural, que a comunidade consente realizar.

A alma de uma república é o direito equitativo para todos, cuja


ideia — como temos demonstrado — é uma ideia eterna que
vem de Deus. Portanto, temos concluído que a constituição
eterna da república é a ordem natural e que, em consequência,
a alma da república não é equitativa para a equidade civil, mas
para a equidade natural animus republicae ius aequum omnibus,
cuius ideam aeternam a Deo esse demonstravimus. Unde formam re-
rumpublicarum aeternam ordinem naturalem esse confecimus; ac proin-

36
Vico, 1974:65.
37
Vico, 1974:283-285.
38
Vico, 1974: 289.

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74 de animum reipublicae non esse aequum aequitate civili, sed aequitate
naturali).39
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

porque o direito existe na natureza (ius esse in natura) e é demonstrá-


vel matematicamente. “At quod est aequum dum metiris, idem est iustum
quod eligis”.40 Portanto, a passagem do ius prius ao ius posterius marca
a passagem de uma equidade natural individual para a equidade na-
tural absoluta, passando pela equidade civil. Porque a equidade civil
expressa a manipulação autoritária da segurança da lei que justifica a
razão de Estado: “atque haec est aequitas civilis, qua Iustinianus in No-
vellis dicit niti usucapiones, et ‘impium praesidium’ eleganter appellat, quam
Itali elegantiori phrasi vertunt ‘razão de Estado”.41 O processo de civili-
zação nos leva, pois, da utilidade privada à pública, na qual se fun-
dem o sentido (utilidade e necessidade) e a razão sob o domínio
desta última e em polêmica com o ius naturale philosophicum de Gró-
cio, que reduzia só à razão a fase fi nal do sistema jurídico em que
coincidiam aequum y justum.

Eiusque iurisprudentiae regula aeterna est aequitas naturalis, quae mul-


ta contra communes iuris regulas recipit et admittit ac iuris civilis rigores
temperat. Sed ea ipsa durior est iuris rigor [...] neque enim ex suo iure
immutabili quequam solvit, nec ullum unquam hominis meritum tan-
tum est ut ratio naturalis ipsi indulget quod non dictet honestas. Tamen
totius generis nomen occupavit; et aequitas civilis magis appellata est
“iuris rigor”, quia civilis rigor est sane rigor in caussis in quibus contra
immerentes duratur. At aequitas naturalis ex genere “aequitas” dicta
est, quia in ipsis caussis in quibus immota haeret — haeret autem in
omnibus — in ipsis, inquam, caussis benigna est. Et parvum est homi-
num iudicium qui eam iniquo animo ferunt, nam de ea sensuum sapien-
ta, quam stultitiam definivimus, iudicant.42

39
De constantia jurisprudentis (Vico, 1974:381).
40
Vico, 1974:57.
41
Vico, 1974:261.
42
Vico (1974:289). “A norma eterna de uma jurisprudência assim realizada é a

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Em Vico — e especialmente no Vico de De universi iuris uno prin- 75
cipio et fine uno — é muito marcada a inspiração no cosmopolitismo

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
católico e no pensamento político tomista quando descreve o pro-
cesso que, através da realização progressiva da communitas entre os
homens dominados pelas paixões e pelo pecado, leva à explicitação
de uma racionalidade comum, que progressivamente elimina a força
das relações entre os homens. Em síntese, uma racionalidade que
conhece um desenvolvimento paralelo ao desenvolvimento das for-
mas de convivência social.

9
A fi nalidade dos exemplos que examinei era mostrar que as imagens
de justiça que se vão estruturando na Idade Moderna nos países eu-
ropeus e nos do Mediterrâneo nascem de modos diferentes de en-
frentar a oposição entre ordenamentos que, reforçando o peso da lei,
abrem passagem pouco a pouco para a codificação e o ordenamento
que reforçam — sem renunciar a certa forma de medida e de segu-
rança do direito — o poder interpretativo dos juízes nas práticas
judiciais. Desta forma, o problema vai se concentrando no espaço
concedido aos juízes perante os casos não previstos explicitamente
pela lei ou de difícil redução aos princípios fundacionais do ordena-
mento: é assim como o conceito de analogia vem cumprir um papel
muito importante, seja em sua forma mais limitada de analogia legis,
seja na mais geral de analogia iuris.

equidade natural, e por isso recebe e acolhe muitas exceções às regras que a lei ex-
pressa, e se esforça em temperar os rigores da razão civil. Mas por sua própria con-
dição, a equidade natural implica um rigor mais inflexível ainda; não exclui nin-
guém de sua lei imutável, e a nenhum homem pode a razão natural agradar com o
distanciamento da honestidade, pois a equidade natural é o nome genérico, que
compreende todas as formas do equitativo. Que a equidade civil receba mais fre-
quentemente o nome de ‘rigor de lei’ se deve a que o rigor civil sofrido imerecida-
mente é muito grave e amargo, enquanto, pelo contrário, a equidade natural, isto é,
a ‘equidade’ genérica e absoluta, se mostra sempre benigna inclusive nas causas nas
quais se mostra mais estreitamente unida (e em todas é encontrada); e perverso é o
conselho dos que a toleram de má vontade, porque têm o juízo ofuscado pela sabe-
doria dos sentidos, que temos defi nido como estultícia”.

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76 O procedimento mediante o qual se busca a disciplina do caso não
regulado pode adotar três formas: a interpretação extensiva, que não
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tem caráter integrador, mas interpretativo; a remissão aos princípios


gerais do ordenamento, com um papel interpretativo e integrador, e
a analogia, cuja função é integradora.43 Só me deterei na analogia,
dada a particular clareza com que, no tocante a este conceito, se
mostram as tendências contrastantes dos sistemas jurídicos; de fato,
enquanto, do ponto de vista da análise teórica, a analogia tem de-
sempenhado um papel cada vez mais limitado nos sistemas jurídicos
europeus, foi em contrapartida aumentando sua importância nos or-
denamentos do direito hebreu, do islâmico e do canônico.
Em geral, podemos dizer que o problema central na evolução para a
codificação dos ordenamentos jurídicos tem sido o da limitação da ana-
logia em duas direções. Entretanto, foi-se dando uma definição cada
vez mais estreita de analogia, isto é, retirando dela esse caráter um tan-
to indefinido de semelhança que já haviam combatido o tomismo e
depois Cayetano.44 O próprio conceito de analogia vai perdendo pouco
a pouco a indefinição da semelhança para converter-se em um concei-
to exato de proporção. Analogia — dirá Kant — não significa, “como
se costuma interpretar a palavra, uma semelhança imperfeita de duas
coisas, mas uma semelhança perfeita de duas relações entre coisas inclu-
sive completamente diferentes”; isto é, precisamente, a proporção.45 E
se recordará que para o cardeal De Luca a proporção também é a regra
geometricamente exata da justiça distributiva e da equidade.
A segunda via, mais explícita, embora conserve o caráter da se-
melhança como faticamente defi nitório da analogia, tem sido a de
pôr limites ao uso das práticas judiciais, excluindo-a especialmente

43
Bobbio (1960). Cf. também Carcaterra (1988), com particular referência à rela-
ção entre equidade e analogia, p. 12-14.
44
Cf. Secretan (1984). Sobre as posições de Tomasso de Vio Cayetano a propósito
da analogia, veja-se Nef (1993) e Riva (1955). Sobre Tomás de Aquino e Suárez, cf.
Bastit (1990).
45
O Kant dos Prolegomena zu einer jeden künstigen Metaphysik die als Wissenschaft wird
ausreten können (1783) é citado por Needham (1980) em seu importante ensaio sobre
analogia intitulado “Analogical classification”.

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do perigoso caminho das leis excepcionais e do direito penal, com 77
maior razão no caso de leis penais incriminatórias.46

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
Pelo contrário, é preciso destacar que todos os ordenamentos que
tendem à individualização da pena, de grande predomínio nas so-
ciedades desiguais e hierárquicas do Ancien Régime, utilizam com
amplidão a analogia.47 Precisamente com referência à consideração
subjetiva do delito, à sua diferenciação de acordo com os momentos,
os lugares e as pessoas, à diferencialidade social de conjunto do sis-
tema jurídico, a equidade impõe o procedimento analógico como
instrumento central de direito. Não é necessário recordar o papel
central da analogia (qiyás) nos sistemas jurídicos islâmicos,48 nos
quais constitui uma das quatro fontes da lei muçulmana referida aos
casos em que não exista uma prescrição textual explícita do Corão
ou de uma tradição. Na realidade, o raciocínio analógico contém
um vigoroso elemento de insegurança e permite, por exemplo, in-
terpretações diferentes. Contudo, remete rigorosamente aos deveres
morais dos juízes e à equidade: de fato, coincide com o esforço de
investigação pessoal (ijtihâd).49
Mas o foco de toda a discussão sobre a analogia está ocupado pelo
problema da segurança e da uniformidade do direito: mesmo quan-
do o papel interpretativo do juiz seja na verdade amplíssimo, o pro-
blema da proporção entre as penas e a segurança se desloca — no
caso do direito islâmico — para o testemunho, para a multiplicidade
das provas, para a confissão do réu e para a coerência com os princí-
pios e as regras do direito de Deus.
Problemas semelhantes apresenta o papel da analogia (héqèsh y gezéra
chava) na exegese jurídica do direito talmúdico, no qual o raciocínio

46
Cf. Vassalli, 1960.
47
Sobre semelhança e analogia na sociedade moderna é útil referir-se também ao
capítulo 2, “Les quatre similitudes”, de Foucault (1966).
48
Veja-se a palavra “kiyas”, redigida por Bernard (1980:238-242). Cf. também
Schacht (1964:64-75), Coulson (1964:59-60) e Brunschvig (1976, vol. I, p. 303-
327; vol. II, p. 347-403).
49
Em um dos textos fundadores da metodologia jurídica islâmica, Muhammad lbn
Idrîs Ash-Shâfi î (767-820) defi ne com clareza tanto o raciocínio analógico como o
esforço de investigação pessoal: Shâfi (1997:317-338).

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78 analógico leva a conclusões prováveis porque se baseia em semelhanças
e não na identidade matemática da proporção. Portanto, tem caráter
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

orientativo e hipotético. Porém — como nos lembra Weingort —, a


analogia é um instrumento necessário para o procedimento mesmo
com o qual os Amoraim — os redatores do Talmud — construíram as
regras gerais.

O Talmud emprega a forma casuística, graças à qual, com uso


do método indutivo, o princípio geral abstrato é extraído a par-
tir do caso particular. O Talmud, portanto, deve assegurar-se de
que o caso particular que cita como exemplo do princípio geral
ilustre um princípio legal e só um, com exclusão de qualquer
outro. Isto unicamente é possível mediante a elaboração de mo-
delos que respondam ao critério de excluir qualquer ensinamen-
to distinto do que os sábios têm requerido [...] Esta formulação
artificial, em oposição aos casos da vida real, permite fazer abs-
tração dos detalhes concretos que poderiam produzir, por con-
tato, um princípio distinto do desejado.50

Porém isto admite tanto uma referência continuada à equidade


como um uso extenso da analogia. Melhor dizendo, uma verdadeira
proliferação da analogia: em todo o debate jurídico talmúdico vão
se desenvolvendo progressivamente regras específicas que consen-
tem a analogia, frequentemente distintas tanto da semelhança como
da proporção, como, por exemplo, quando se afi rma (como ocorre
nas sete middot de Hillel o Antigo) a analogia de lugares bíblicos
sobre a base da semelhança fonética das palavras ou a analogia de
duas disposições, apesar de sua grande diferença, por sua presença no
mesmo versículo bíblico. Em síntese, tanto no direito hebreu como
no resto da hermenêutica talmúdica, a analogia desempenha um
papel básico. Porém — à diferença da tradição lógica aristotélica —
sua caracterização também toma forma em obediência a regras que

50
Wingort, 1998:xix.

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derivam da sacralidade do texto de referência, no qual contam ele- 79
mentos de vizinhança e distância entre palavras, semelhança fonéti-

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
ca ou valor numérico das letras. Seus limites, contudo, são específi-
cos e rigorosos porque se defi nem progressivamente a partir das sete
regras de Hillel para passar através das treze middot de Rabbi Ismaél,
para chegar às chamadas trinta e duas middot que devem seu nome a
Eliezer ben Yosé há-Gelili.51
No direito canônico se apela expressamente para a analogia no
cân. 20 C.J.C., que detalha os quatro meios para preencher as lacu-
nas. O primero destes meios é precisamente a analogia em sua versão
débil de semelhança: “Si certa de re desit expressum praescriptum legis sive
generalis sive particularis, norma sumenda est, nisi agitur de ponis applican-
dis, a legibus latis in similibus, a generalibus juris principiis cum aequitate
canonica servatis, a stylo et praxi Curiae Romanae; a communi constantique
sententia doctorum”.
No direito canônico, a distinção entre analogia tesis (o recurso a
leges latas in similibus) e analogia iuris, com referência aos princípios
gerais, levará Suarez ao princípio geral em virtude do qual é legíti-
ma a interpretação extensiva de qualquer lei eclesiástica, inclusive
penal, porque se funda no fi m da lei, que acentua a salus animarum e
a aequitas canonica. Mas tampouco aqui se trata de arbitrariedade,
senão de uma proporção geométrica que refere o caso específico ao
sistema de conjunto e proporciona méritos e culpas entre eles.
Contudo, é importante recordar que no campo católico — subs-
tancialmente uniforme no que diz respeito aos procedimentos jurí-
dicos — a discussão sobre a analogia apresenta profundos contrastes
de grande importância político-teológica. Contra as posições domi-
nicanas de Cayetano, que privilegiam a analogia de proporcionali-
dade e que consideram a analogia como diferença gradual, Suárez
sustenta a analogia dos atributos, a analogia da atribuição. Assim, em
De Legibus, afi rma que Deus transmite ao povo o poder soberano

51
Abitbol (1993:94-210). Para a relação com a equidade, cf. também Cohen
(1991:145-184).

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80 para instituir o poder. Esta soberania popular não é totalmente dis-
tinta da divina, nem totalmente idêntica a ela: é análoga por partici-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

pação. Daqui que o poder do Estado só será legítimo se o povo o


reconhece, o que resulta bastante mais difícil na interpretação de
Cayetano, que se remete a Deus para legitimar o poder político.52

10
Após esta viagem, demasiado rápida sem dúvida, pelos conceitos
mencionados, voltemos à reciprocidade. O que tratei de sugerir é
que, quando referimos a reciprocidade equilibrada e a reciprocida-
de generalizada às sociedades complexas do Mediterrâneo e às for-
mas econômicas, sociais e jurídicas que nelas predominam, é neces-
sário complexar a diferenciação entre esses conceitos, hoje em dia
moeda corrente entre os antropólogos. De fato, não se trata de
identificar transações presumivelmente altruístas, modeladas sobre
o padrão da assistência prestada e, se é possível e necessário, recom-
pensada, mas sem a expectativa de uma contrapartida material di-
reta de transações diretas nas quais a compensação seja um equiva-
lente consuetudinário e instantâneo do bem recebido.53 Em uma
sociedade que não tem uma defi nição clara da determinação dos
valores econômicos,54 que não conhece um mercado impessoal e
autorregulado, os problemas de defi nição do preço justo e do salá-
rio justo são complexos e remetem continuamente ao conceito de
equidade. Não se trata de deduzir o valor dos bens intercambiados
de uma determinação defi nida no intercâmbio, nem de uma carac-
terística intrínseca dos bens, mas de construir um sistema de inter-

52
Suárez, F. Tractatus de legibus ac Deo legislatore, III, viii, 4-6 y III, xv, 11.12. Utili-
zou-se a edição do Corpus Hispanorum de Pace do CSIC, Madri, 1975, p. 103-107 e
p. 231-239. Sobre equidade, inclusive em relação com a analogia na interpretação
das leis, Suárez discute amplamente sobretudo no livro II, xvi, p. 1-16.
53
Retomo aqui a defi nição de Sahlins (1972:185-261).
54
Grenier (1996) tem proposto o problema com maior ênfase na dificuldade para a
elaboração de uma teoria do valor que no marco cultural distinto em que se colo-
cava a prática do intercâmbio.

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câmbio no qual os valores estejam determinados pelas característi- 81
cas específicas dos que os intercambiam, ao ponto de que um mesmo

RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA
bem adote valores distintos segundo quais sejam as pessoas que en-
tram na transação: “in salarii taxatione ad hoc, ut se cum dispositione
iuris conforment multarum rerum rationem habere debebunt, et primo qua-
litatis personae”.55 Como se pode pagar um médico, que se ocupa da
vida e da morte?, pergunta-se o jurista Zacchia. Ou a um juiz, que
se ocupa do justo e do injusto? Não pode haver um salário adequa-
do: eles serão pagos de maneira diferente, não por suas prestações,
nem por sua capacidade, mas de acordo con seu status social, seu
prestígio, sua honra: por isso se denomina “honorários” ao salário
do médico e do juiz.
Sendo assim, a mistura de economia e ética, de valores gerais da
sociedade e de valores específicos que entram na reciprocidade que
se manifesta nos intercâmbios, complica e dificulta a determinação
das medidas — imprescindíveis, contudo — da sociedade equitativa
e desigual que obedece a estas regras.
Isto não se opõe ao esforço de medir e assegurar os valores e dar
uma ordem legível à sociedade por meio de classificações simplifica-
doras: esta exigencia será precisamente a que favoreça o progressivo
predomínio de esquemas uniformes de valor que deslocarão a aten-
ção do uso e das pessoas para o intercâmbio e para as coisas. Mas
nunca haverá uma vitória total em nenhum campo, e menos ainda
no campo jurídico, setor no qual sempre será difícil separar a justiça
legal do sentido comum de justiça.
Creio que precisamente através do exame destes problemas, exa-
me que requereria sem dúvida muito mais espaço do que eu tivesse
podido dispor aqui, será possível esclarecer algumas diferenças subs-
tanciais na história e nas características culturais e antropológicas de
diferentes países e identificar uma série de especificidades mediter-
râneas que continuam operando ainda hoje.

55
Zacchia (1658:37). Um exemplo muito evidente da relação entre economia e
salário justo se encontrará em Trivellato (1999).

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82 Se contemplarmos em particular a Itália, parece-me importante
observar que a vigência do direito canônico junto ao positivo, o reco-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

nhecimento da superioridade moral dos clérigos sobre os laicos e prá-


ticas religiosas como a confissão, que propõem por toda parte formas
lógico-morais às consciências individuais, têm contribuído para cons-
truir uma forma específica de sentido comum do justo, típica desta e
de outras sociedades católicas nas quais não teve lugar uma subordi-
nação precoce da igreja ao Estado. E isto é também o que tem contri-
buído para debilitar as instituições e para propor formas intersticiais
de ação entre sistemas de normas contraditórias e paralelas.
Portanto, o tema da equidade confi rma seu papel central na ex-
periência dos países católicos, como critério dominante da justiça
distributiva em uma sociedade corporativa e hierárquica. E, embora
com significados diferentes, tem-me parecido que também as socie-
dades de tradição islâmica ou a tradição jurídica talmúdica apresen-
tam caracteres similares. A importância interpretativa deste conceito
excede em muito, contudo, o mero aspecto jurídico para converter-
se em critério de conjunto da integração e da regulação de todos os
aspectos sociais e econômicos. A dificuldade com que topam os ju-
ristas italianos (que exemplifiquei com Vico) em pleno século XVII
é justamente a de conservar este critério, embora lhe reconhecendo
natureza histórica.
Contudo, é impossível imaginar uma equidade, uma solidarieda-
de e uma reciprocidade carentes de rigor: porém se trata de um rigor
que requer um olhar autoritário que imprima proporção geométrica
nos prêmios e nos castigos, com simultânea atenção à especificidade
dos casos particulares e das perspectivas globais de melhora moral do
sistema político geral.
As sociedades católicas do mundo mediterrâneo têm acolhido, por
certo, sistemas jurídicos baseados em um idioma de igualdade. Não
obstante, a hipótese que quis propor é que, sobretudo nestas socieda-
des, a permanência de um sentido comum de equidade em oposição
às normas codificadas goza de tal vigor e de tal virulência, que che-
gou a ser um aspecto constitutivo de sua antropologia política.

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4
Economia camponesa e mercado de
terra no Piemonte do Antigo Regime*
Giovanni Levi

1. Terra como mercadoria?


O problema dos aspectos específicos da mercantilização da terra — suas
origens e desenvolvimento — é um tema recorrente do debate histo-
riográfico. E isso não apenas se deve à dificuldade de construir séries
homogêneas de preços, mas também à artificialidade e ao próprio peri-
go de considerar a natureza e o ambiente como mercadoria: o postula-
do de que tudo aquilo que é comprado e vendido foi produzido para a
venda é, para a terra, manifestadamente falso. A descrição do trabalho,
da terra e da moeda como mercadorias é inteiramente fictícia, e é exa-
tamente por meio desta ficção que tais categorias são organizadas.1
No centro da discussão está, portanto, a verificação da expansão
de um dos aspectos basilares do mercado capitalista e de quando este


Traduzido da versão italiana “Economia contadina e mercato della terra nel Pie-
monte di Antico Regime”. Publicado em Storia dell’agricoltura italiana in età contem-
porânea, II, Uomini e classi, Marsilio Editori, 1990, p. 535-553. Tradução e notas
para a versão em português de Ângela Brandão.
1
Polanyi, 1980:32-33.

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88 fator fundamental da produção se tornou, ao menos em parte e pro-
gressivamente, desvinculado de barreiras sociais que tornavam difí-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

cil a troca mercantil: antes de tudo o conjunto dos fatores coletivos


de posse (os direitos comunitários sobre a terra, que tornavam im-
perfeita a propriedade e extraordinariamente irregular o acesso ao
mercado, bem como os direitos senhoriais ou eclesiásticos, que obs-
taculizavam o livre desprender-se de forças da demanda e da oferta).
Sob o Antigo Regime, a terra, elemento essencial do ordenamento
feudal, era o alicerce do sistema militar, judiciário, administrativo e
político; seu estatuto e sua função eram determinados por regras
jurídicas e consuetudinárias. Ela era, portanto, não só a base da pro-
dução, mas também do sistema de poder e de proteção social que
caracterizava todo o sistema político, e isso tornava toda forma de
circulação mercantil da terra não impossível, mas complexa e visco-
sa, obstaculizando sua fluidez: direitos familiares, senhoriais, comu-
nitários, monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo
que só muito arbitrariamente podia ser considerado parte do merca-
do. A terra não era uma mercadoria como as outras; aliás, no fundo,
não era nem mesmo uma mercadoria. Se sua posse era transferível e,
em caso positivo, a quem e sob quais restrições, o que implicavam os
direitos de propriedade, a qual empenho podiam ser revertidos cer-
tos tipos de terra — todos esses problemas eram separados da orga-
nização habitual de compra e venda, e eram transferidos a um con-
junto completamente diverso de regulamentação institucional.2
E de resto, ainda que se levasse em consideração somente a terra
livre, a presença de terras comuns, de direitos coletivos, de áreas
feudais e senhoris contribuía para a deformação dos comportamen-
tos mercantis, multiplicando os níveis nos quais as transações se de-
senvolviam, entrelaçando lógicas econômicas diferentes e apenas
parcial e reciprocamente intercambiáveis.
Por outro lado, descobrir nos atos notariais medievais e modernos
um número enorme de transações mercantis sobre a terra contradizia

2
Polanyi, 1980:29.

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este quadro: chegou-se, por isso, ao ponto de atribuir ao processo 89
progressivo de trocas mercantis de terra a prova indiscutível da difu-

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


são de uma mentalidade individualista — se não capitalista—, que
incluía a terra nos circuitos impessoais do mercado, ao lado de outras
mercadorias, e que separava os homens da viscosidade3 social e corpo-
rativa do mundo familiar e coletivo para fazê-los agentes livres, dis-
postos a maximizar utilidades puramente econômicas.4
Esta é uma discussão importante, mas no fundo formulada de
modo estéril, e, por isso mesmo, periodicamente ressurgida sem
solução pela pesquisa historiográfica. Com a desvantagem de pola-
rizar as posições entre quem negava qualquer regularidade signifi-
cativa nos comportamentos mercantis da terra — renunciando, por
isso, ao estudo das características específicas daquelas transações,
que apareciam em grande número nos documentos redigidos por
notários — e quem, de outro lado, simplificava o quadro adequan-
do um mercado específico às regras do capitalismo contemporâneo
ao somente mensurar a quantidade de terra efetivamente revestida
das práticas de mercado. Tratava-se, de todo modo, de um mercado
que era, na forma, homogêneo pelo menos por seis séculos e gover-
nado por leis da oferta e da procura: daí porque série de preços e
preços médios, tendências seculares, variações conjunturais e cícli-
cas ocultavam, sob uma manipulação estatística, a dispersão dos
preços, muito acentuada entre cada ato de troca que não podia ser
explicada somente com uma variabilidade mais intensa da partici-
pação dos compradores e vendedores no mercado.5

3
O termo viscosidade, empregado por Giovanni Levi em diferentes momentos de
seu texto, foi mantido na tradução como oposição à ideia de fluidez, mas poderia ser
entendido como complexidade.
4
MacFarlane (1978). Em realidade, os estudos sobre o mercado da terra na Inglater-
ra medieval são mais atentos aos problemas aqui discutidos do que aquele extremo de
MacFarlane. Cf., em particular, Postan e Brooke (1960). Os estudos sobre a Inglater-
ra são muito numerosos e foram discutidos em Levi (1989:225-258). (N. do T.)
5
A utilização de preços médios que escondem as oscilações foi uma prática cor-
rente na historiografia que se ocupou do mercado da terra no Antigo Regime. Al-
guns exemplos: para a Inglaterra medieval, cf. Rafi s (1974); para a América colo-
nial, Davisson (1967). Ainda os ótimos estudos de Béaur (1984) e Masella (1976)
parecem-me pouco sensíveis ao problema da dispersão dos preços. Importantes con-

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90 A alternativa não está em procurar entre a ausência (ou a total di-
versidade) e a presença do mercado. Devemos, ao contrário, pergun-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tar-nos quais são as regras formais das transações de terra através do


mercado em um contexto social ainda amplamente feudal e o que se
pode inferir sobre os mecanismos sociais que caracterizam esta forma.
E ainda: quais regularidades ou leis se destacam sobre a extrema va-
riabilidade de preços registrados nos atos notariais. Utilizarei, nas pá-
ginas que se seguem, o exemplo do Piemonte entre o Seiscentos e o
Setecentos com o intento de elencar alguns problemas gerais que,
acredito, valham ao menos pela abstrata formulação que oferecem dos
aspectos relevantes sobre os quais devemos nos interrogar para outras
situações ainda que geográfica e cronologicamente distantes.
No Piemonte do Seiscentos e do Setecentos, o número de transa-
ções de mercado registradas nos atos notariais é extremamente alto
e, todavia, a dispersão dos preços não é derivada do leque muito
amplo da qualidade pedológica da terra ou de sua colocação mais ou
menos favorável em relação ao mercado ou às vias de comunicação.
Também em uma área muito circunscrita, a de um vilarejo em par-
ticular (refi ro-me a Santena, situado entre Turim e Asti),6 por pe-
daços de terra cultivada de modo semelhante em qualidade e di-
mensão os preços unitários oscilavam entre 20 e 500 liras por
jornada (cerca de um terço de hectar [1ha = 10.000 m²]). Isso torna
imediatamente evidente que o preço não é determinado pelo jogo
automático da demanda e da oferta. Se uma economia de mercado
é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido somente
pelos mercados em que a ordem na produção e na distribuição das
mercadorias é confiada a este mecanismo autorregulante; se, por-
tanto, supomos que numa economia deste tipo os seres humanos se

tribuições para o debate histórico estão reunidas no número especial de Quaderni


Storici, Il mercato della terra, n. 65, 1987.
6
Cf. Levi (1985a:83-121). O mercado da terra em Santena foi estudado nos anos
de 1678 a 1702; as variações de preço não se referem somente às diferenças de ano a
ano, mas se acentuam de modo semelhante no curso do mesmo ano. A jornada
piemontesa corresponde à área 38,0095 (N. do T.: no original não consta a medida
de terra utilizada).

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comportam de modo tal a conquistar um máximo de ganho mone- 91
tário e imaginamos que existem mercados nos quais a oferta das

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


mercadorias e dos serviços disponíveis a um determinado preço seja
equivalente à demanda do mesmo; e se a ordem na produção e na
distribuição das mercadorias é assegurada somente pelos preços, al-
gum obstáculo importante deve ter entrado em jogo para criar uma
situação tão dispersa no nível dos preços da terra.
A resposta mais evidente foi sugerida por Chayanov: numa eco-
nomia apenas parcialmente mercantilizada e na qual o objetivo pri-
mário não é a troca, o comércio, mas sim o autoconsumo; não é o
lucro monetário, mas a subsistência; em uma economia na qual os
mercados, portanto, são apenas elementos assessórios com relação à
vida econômica, os preços são ditados pelas necessidades. Não é o
mercado em geral que determina o preço da terra, mas, sim, a exi-
gência de cada família camponesa num momento específico de seu
ciclo de vida.7 A explicação de Chayanov é que a participação dos
camponeses no mercado é descontínua. O objetivo não é maximizar
o resultado monetário, mas encontrar e conservar um equilíbrio
entre as necessidades da família e o esforço distribuído:

O que determina o preço da terra? [...] Procurar terra para ar-


rendamento ou compra é evidentemente vantajoso para a famí-
lia camponesa somente se, com esta nova terra, a família, como
unidade econômica, pode alcançar um equilíbrio seja com me-
lhoramento do nível de vida, seja com uma diminuição da dis-
tribuição de trabalho. Os negócios camponeses que têm uma
quantidade considerável de terra e estão, portanto, em condição
de utilizar plenamente a força de trabalho familiar disponível
num grau ótimo de intensidade de cultivo não têm necessidade
de comprar ou arrendar terras. Qualquer despesa nesse sentido
parece irracional porque não aumenta a prosperidade da família
na medida em que subtrai recursos.

7
Chayanov, 1966:9-10.

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92 Ao contrário, se a família não dispõe de terra suficiente, estará
disposta a pagar um preço de terra acrescido, que melhore o equilí-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

brio entre a força de trabalho disponível e as necessidades, ainda que


para isso seja necessário utilizar a maior parte do produto bruto que
lhe advirá da utilização desse novo pedaço de terra: estará, portanto,
disposta a pagar um preço excedente, ainda que em muito, em rela-
ção ao preço determinado pela situação do mercado dos produtos
agrícolas ou pelo lucro que a agricultura almeja. O preço da terra
camponesa será, portanto, muito mais oscilante do que aquele de-
terminado pelo mercado capitalista; dependerá, por exemplo, mais
do crescimento da população do que da situação do mercado dos
produtos agrícolas: “os camponeses com pouca terra pagam preços
que significativamente excedem a renda capitalista”.8
Esta explicação — à qual deverei retornar — difere, em parte,
daquela dada por Clifford Geertz para os diferentes bens da terra,
mas segundo uma lógica que pode ser aqui utilmente retomada.
Geertz volta sua atenção mais acentuadamente para a fraqueza recí-
proca de demanda e oferta em situações apenas parcialmente mer-
cantilizadas, e, então, para o caráter acidental de seu encontro. Po-
demos parafrasear esta explicação dizendo que, particularmente em
comunidades rurais pobres, nas quais não exista uma demanda ex-
terna por terra, e nas quais a quantidade de moeda acumulada seja
escassa, as poucas ocasiões — em geral dramáticas — que levam
certa família a vender sua terra, colocam-na em dificuldade para
encontrar alguém em condição de comprar. Ou vice-versa: em caso
de necessidade, custa-se a encontrar alguém disposto a colocar suas
terras à venda.
Isso faz com que cada simples ato de compra e venda seja, de cer-
to modo, um mercado fechado em si mesmo, que determina os pre-
ços segundo regras muito mais indeterminadas do que aquelas que
Chayanov sugeriu.9

8
Chayanov, 1966:10.
9
Cf., em particular, Geertz (1963 e 1979).

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Finalmente, mas não menos importante, neste mercado descontí- 93
nuo o comércio não é nada mais que um dos momentos e dos objetos

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


de um complexo mecanismo de transações e de reciprocidade, que
deixa traços escritos nos atos notariais, diferentemente de outros ob-
jetos de comércio, porque o aparato estatal organizou precocemente
o registro cadastral das propriedades de terra (e, portanto, da muta-
ção relativa) como objeto de transação. O mesmo não ocorre de
maneira tão sistemática para outros gêneros mais móveis (como o
gado, produtos agrícolas, prestação de serviços e, até mesmo, para
muitas das trocas monetárias que precedem os empréstimos). Fre-
quentemente, então, o registro notarial das mudanças de propriedade
é apenas uma fase final ou intermediária de uma rede complexa de
transações, e os próprios preços exprimem algo mais, além da simples
transmissão de terra entre famílias por meio do mercado.
Uma prova disso tudo é a diferença de nível de preços segundo as
relações pessoais que mantêm os contraentes entre si: em Santena,
no fi nal do Seiscentos, os preços eram diferentes caso as transações
ocorressem entre parentes, vizinhos ou estranhos, e eram sensivel-
mente mais altos à medida que se reduzia a distância de parentesco:
justamente porque mudava o conteúdo das reciprocidades em jogo
e as relações de troca de terra tornavam-se progressivamente mais
puras, menos carregadas de transações precedentes, de deveres e de
proteções, que o ato notarial, com a passagem fi nal de propriedade,
reequilibrava de algum modo.10
De resto, o comércio no âmbito familiar é justamente um indica-
tivo da muito significativa viscosidade de circulação da terra, e foi
destacado no estudo da progressiva mercantilização da terra na In-
glaterra, como sendo a prevalência de longo período de comércio
interfamiliar, que não permite falar de mercado da terra em sentido
pleno além da ilusão de ótica produzida pelas transações fi xas, regis-
tradas nos atos notariais.11

10
Levi, 1985a.
11
Cf. Razi, 1980:28-30; 111-112.

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94 2. Matrimônio e hereditariedade
Também o processo de formação da propriedade era controlado nos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

negócios camponeses — mais por problemas de otimização do au-


toconsumo do que pela lógica do acesso ao mercado dos excedentes
agrícolas. Isso quer dizer que era a estrutura de cultura diversificada
a ser procurada mais do que a especialização, e que a fazenda seguia
uma lógica de formação escalonada, ao mesmo tempo que privile-
giava as culturas de subsistência e, portanto, a lavoura em primeiro
lugar. Seguia-se a vinha e, só sucessivamente, quando a dimensão
da propriedade possibilitasse, a criação de gado, o pasto. O bosque
de uso exclusivo, enfi m, era uma exceção e restringia-se somente a
fazendas particularmente complexas e amplas. Em muitas áreas do
Piemonte, onde os dotes incluíam não apenas bens móveis, mas
também bens imóveis, a transmissão da terra ocorria em duas fases:
no matrimônio, nos dotes propriamente e, portanto, pela via femi-
nina no momento de formação da nova família; e por herança, pela
via masculina, no momento da morte do patriarca da família de
origem e, então, numa fase sucessiva do ciclo de duração da família,
quando o novo núcleo doméstico tinha enfrentado alguns anos
(às vezes decênios, dependendo do índice de nascimentos e da idade
com que as pessoas se casavam) de existência autônoma.
Este processo em dois tempos fazia, sim, com que houvesse uma
substancial diversidade de fases: na primeira era essencial a produção
de cereais de subsistência, e a terra que entrava nos dotes era primor-
dialmente de lavoura (junto da moradia), enquanto as parcelas trans-
mitidas por herança davam uma contribuição mais casual e variada, e
continham vinha, pastos e bosques ao lado dos campos. Portanto,
existia, tendencialmente, segundo as dimensões da propriedade, uma
relação relativamente constante entre as destinações de cultivo (quan-
to mais cresciam as dimensões, mais aumentava a diversificação dos
cultivos) e as várias fases de constituição da fazenda, que implicavam,
com frequência, recorrer ao mercado: o dote implicava a procura de
terras para o plantio quando não era disponível um excedente interno
da propriedade familiar. De modo mais geral, o papel do mercado era

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aquele de criar um equilíbrio não somente dimensional, mas de des- 95
tinação, que contrabalançasse as situações familiares segundo as fases

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


do ciclo da vida. Há, portanto, um jogo recíproco entre possibilidade
de constituir novas famílias e disponibilidade de terra no mercado,
que entra como caso particular, mas bastante generalizado, a alterar a
lógica puramente maximizante na determinação da demanda e dos
preços da terra sobre o mercado camponês. Também aqui, em suma,
o mercado gerado pelo autoconsumo possui uma lógica diferente da-
quele, embora existente, da gestão eficiente e voltada ao lucro da
terra: variam a frequência de acesso ao mercado, a dimensão das por-
ções, as destinações de plantio, os preços pagos, as oportunidades.
O exemplo de Felizzano, no Alessandrino, durante o curso do
Setecentos,12 é uma demonstração de tudo isso: a boa conservação
da documentação cadastral e, especialmente, aquela rigorosa docu-
mentação das mudanças de propriedade que põem em evidência o
papel do mercado, do dote e da herança na devolução da terra per-
mitem confi rmar a função determinante da família e do matrimô-
nio, do autoconsumo e das relações entre gerações nas estruturações
do mercado da terra, na profunda imersão de sua lógica num mode-
lo social muito diversificado se comparado àquele capitalista ou ple-
namente mercantil. E isso além dos vínculos feudais e senhoris,
eclesiásticos e comunitários, que acrescentam suas intervenções, dis-
tanciando o funcionamento desse mercado complexo daquele sim-
ples e coerente — e talvez imaginário — do mercado autorregula-
do. Parece-me, então, impróprio supor um modelo de progressiva
absorção da terra no mercado, num único mercado fluido governa-
do por regras impessoais de demanda e oferta, como índice do pro-
cesso de modernização: é verdadeiramente certo que o mercado
viscoso e socialmente dominado pelo Antigo Regime fosse mais
fi xo do que aquele mercado fluido da sociedade capitalista nascente?
É este o problema que será enfrentado nas páginas seguintes.

12
Levi (1985b:151-177). Também sobre Brischerasio, no Piemonte, cf. Sclarandis
(1987).

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96 Até aqui as considerações que desenvolvi estão baseadas em duas
pesquisas microanalíticas relativas a dois vilarejos piemonteses na
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Idade Moderna: somente trabalhando sobre as relações de parentela


dos compradores e dos vendedores, e somente estudando cada ne-
gócio singular ao longo de seu ciclo de vida pode-se observar ple-
namente o caráter complexo da relação entre terra e mercado que
descrevi. Todavia, uma outra fonte mais agregada nos fornece mais
indicações. Trata-se do espólio que os funcionários piemonteses fi-
zeram de todos os contratos de compra e venda de terra por 29 anos
(1680-90 e 1700-17), para cada comunidade continental do estado
de Savoia aquém dos montes, a fi m de avaliar o preço médio da
terra, durante o trabalho preparatório do grande cadastramento
promovido por Vittorio Amedeo II, a assim chamada Equiparação.
Um trabalho colossal e revelado inútil, porque — apesar de ter sido
feito com grande rigor — os resultados, que resumiam, por ano,
cada transação em particular (extensão, destinação de cultivo e pre-
ço), terminaram por ser julgados demasiado heterogêneos (em par-
ticular no que se refere aos níveis dos preços, mesmo em cada co-
munidade singular) para que se pudesse utilizar as médias como
algo significativo. A terra a ser taxada a partir do cadastro devia ser,
de fato, avaliada não somente segundo grandes divisões específicas
de cultivo, mas também segundo níveis de qualidade e de fertilida-
de no âmbito de cada destinação de plantio, o que teria sido possível
somente através de um exame mais aproximado de cada contrato
singular — o que era claramente impossível. Assim, este enorme
trabalho foi deixado de lado depois de algumas experiências de uti-
lização nas avaliações, e passou-se a confiar nas estimativas mais
genéricas, porém mais manipuláveis, dos agrimensores e dos expe-
rientes avaliadores locais.
Também os historiadores sucessivamente fizeram uso muito parco
desse rico material: algo parecia não funcionar e os preços médios
que Giuseppe Prato tinha publicado, em nível de província, eram
evidentemente fruto de dados tão diferenciados e heterogêneos a
ponto de não suscitar, posteriormente, a curiosidade dos historiado-

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res.13 Também nas agregações em nível de província os dados eram 97
discordantes quanto ao fato de que, por exemplo, entre 1680-85 e

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


1686-90 os preços, de modo dificilmente explicável, aumentavam
nas províncias de Turim, Alba, Cuneo, Fossano, Mondovi, Saluzzo,
Susa, mas diminuíam em Asti, Biella, Ivrea, Pinerolo, Vercelli, ou,
entre 1706-10 e 1711-17, diminuíam em Turim, Alba, Fossano, Ivrea,
Mondovi, Pinerolo, Vercelli e aumentavam nas outras províncias.
“As disparidades fortíssimas que se notam entre a média geral por
província apresentam um desencontro ainda mais impressionante
nas variações não menos notáveis que se verificam de povoado em
povoado”, observa Prato,14 mas teria ele podido continuar obser-
vando que ainda mais fortes eram as variações de contrato a contra-
to, para os quais as médias não faziam mais do que tornar aparente-
mente uniformes realidades disparatadas. A impressão geral de um
aumento progressivo de período a período nas agregações de todo
o estado não faz mais do que exprimir outros fenômenos — a des-
valorização geral da moeda, por exemplo —, do que justificar a
consideração otimista de um “sintoma de crescente prosperidade
que se manifestava no emergente valor das terras”.15 Mas, repito, o
defeito não estava somente na excessiva sintetização com a qual
eram tratados os dados, na “variedade das fórmulas de contratos,
que indicavam de modo variado o objeto da compra/venda”.16 O
problema estava na dificuldade teórica de perceber, a partir do cen-
tro mercantilizado de um estado mercantilista, a lógica social que
presidia a compra/venda da terra por parte dos camponeses, que
multiplicava um mercado aparentemente único em mais setores fra-
gilmente interligados.

13
Prato (1908:192-201 e 1910:334-339). O fundo da equiparação relativo ao espó-
lio dos contratos de compra e venda sobre os quais estão baseados todos os dados
citados nas páginas seguintes encontra-se no Arquivo de Estado de Turim, Seções
Reunidas, Finanças, segundo arquivamento, pasta 21, maços 162-206. Os dados
sobre formas jurídicas de posse da terra foram retirados do maço 43 do mesmo fun-
do. Os dados sobre população estão na pasta 10, maços 1-9.
14
Prato, 1908:198.
15
Idem.
16
Bracco, 1981:51-52.

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98 E, todavia, o trabalho da equiparação sobre contratos nos pode
mostrar algumas coisas, mas somente se a atenção se voltar não tan-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

to para o nível dos preços, mas para a qualidade e a quantidade das


transações.

TA B E L A 1
Percentuais de terras vendidas em 29 anos sobre o total
da superfície disponível (1680-90 e 1700-17)

% sobre alódio % feudais e % bens comuns


% vendido sobre % vendido sobre
(excluídos feudais, eclesiásticos sobre sobre
superfície total superfície útil
eclesiásticos, comuns) superfície útil superfície útil

Turim 20,4 20,7 34,2 21,1 16,5

Asti 15,2 15,4 22,1 26,4 2,6

Alba 13,3 13,6 18,1 20,9 3,2

Biella 6,3 7,6 16,1 17,9 34,1

Cuneo 16,0 22,1 37,8 9,3 29,0

Fossano 23,5 23,6 35,7 25,2 6,1

Ivrea 10,6 12,2 19,9 11,1 25,9

Mondovi 11,8 12,8 17,9 15,3 13,0

Pinerolo 19,3 21,1 34,2 14,9 22,2

Susa 10,3 11,1 21,6 11,3 36,5

Saluzzo 19,2 20,8 38,4 20,1 23,2

Vercelli 7,6 7,9 15,0 31,0 14,7

Total 14,7 16,2 26,5 18,5 18,6

3. Duas lógicas diversas


Uma primeira observação: a sensibilíssima variação entre províncias
no percentual de terras que entram no mercado.
Antes de comentar os dados da tabela 1, algumas considerações so-
bre limites da fonte. O levantamento dos atos notariais feitos por fun-
cionários de Savoia implica duas formas de subavaliação da terra que
efetivamente passou pelo mercado: antes de tudo, as vendas por peça,

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e não por superfície, não eram levadas em consideração porque era 99
impossível fazer referência ao preço de uma extensão determinada de

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


terra vendida. Não tenho condições de apresentar nem mesmo uma
estimativa aproximada da importância de tais vendas e assinalo este
fato exclusivamente como indicação da fragilidade dos dados nos quais
me baseio. Quero, todavia, imaginar que esta fragilidade documental
não incidia de modo significativamente diferente nas várias províncias.
A outra subavaliação derivava do fato de que os empregados aos quais
tinha sido solicitado o inventário utilizaram exclusivamente os volu-
mes concernentes aos anos objeto do recenseamento (justamente 1680-
90 e 1700-17). Alguns atos eram, no entanto, registrados alguns meses
ou anos depois da estipulação do contrato, o que leva a uma incomple-
tude dos dados, tanto mais acentuada quando mais se aproxima dos
anos finais de cada período (em particular os anos 1689-90 e 1716-17).
Isso impede a utilização serial dos dados anuais, a menos que se elimi-
nem os últimos anos de cada série. O fato não deveria, no entanto,
alterar o confronto horizontal entre as várias áreas. Vale, enfim, recor-
dar que o território da cidade de Turim está excluído das medidas para
o cadastramento e, portanto, também deste recenseamento.
A primeira coluna da tabela não é muito indicativa porque con-
tém ainda os bens infrutíferos (montanhas, rios, pântanos), mas não
se distancia substancialmente (salvo para a província de Cuneo) da
segunda coluna, da qual foram justamente subtraídas as áreas infru-
tíferas, que representam 326,428 jornadas sobre uma superfície total
de 3.454.668 (9,4%). Como se vê, a situação é extremamente dife-
renciada: entram no mercado percentuais de superfície útil que os-
cilam entre 7,6% em Biella, uma província montanhosa e de agri-
cultura pobre, a 23,6% na rica província de Fossano. Esses extremos
parecem significativamente indicar que a participação no mercado
era proporcional à fertilidade do solo; as situações intermediárias
parecem disparatadas, mas bastante coerentes com essa hipótese: a
província de Vercelli, onde as terras são pouquíssimo comercializa-
das, é uma área escassamente populosa, insalubre e infestada pela
malária, nela prevalecendo os arrozais, reagrupados frequentemente

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100 em grandes propriedades feudais ou eclesiáticas; Asti e Alba, em
posição intermediária, são zonas em que há uma forte presença das
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

vinhas e da pequena propriedade; Cuneo, Pinerolo, Saluzzo e Tu-


rim são províncias compostas, nas quais estão presentes igualmente
montanhas e planícies. Susa, Ivrea e Mondovi são províncias nas
quais prevalece a montanha.
E, no entanto, nem toda terra é comercializável do mesmo modo,
ainda que somente por motivos jurídicos: feudo, propriedade eclesiás-
tica e bens comunais têm, sob vários títulos, rigidez — quando não
impossibilidade absoluta — de participação no mercado. É somente o
alódio, portanto, que pode ser tomado em consideração num mercado
de terra ao menos hipoteticamente homogêneo. Observe-se, por-
tanto, a terceira coluna, na qual todas as vendas são consideradas,
ainda que impropriamente, como relativas ao alódio e cujo peso
percentual é calculado exclusivamente sobre terra de propriedade
alodial. O quadro torna-se mais móvel, mas não muito: de novo
Turim, Cuneo, Fossano, Pinerolo e Saluzzo são as províncias mais
dinâmicas; mudam, ao contrário, as situações de Susa, por exemplo,
e de Ivrea, onde a expectativa seria a de encontrar pouca comercia-
lização devido à estrutura fragmentária de suas propriedades e à
grande prevalência das áreas montanhosas e pouco férteis. Procura-
rei, mais adiante, explicar o significado deste comportamento. As
últimas três colunas permitem verificar se a presença de muita terra
feudal e eclesiástica, se a disponibilidade de uma ampla superfície
comunal e, portanto, se a variação no peso do alódio mudam coe-
rentemente segundo as taxas de comercialização da terra. Mas ne-
nhuma resposta unívoca parece extrair-se: isto é, não parece que
uma redução da superfície livremente comercializável à disposição
dos camponeses os conduza a uma comercialização mais intensa,
nem mesmo que a presença de uma ampla terra de uso comum de-
sacelere a comercialização. São ainda perguntas que requereriam um
exame mais detalhado, em nível de comunidade, antes que essa res-
posta negativa (e, por outro lado, interessante) em nível provincial
pudesse ser assumida como absolutamente válida.

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Experimentemos, então, diminuir a escala de observação e estu- 101
dar algumas províncias mais detalhadamente. A amostra foi escolhi-

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


da por acaso e representa cerca de 31% da superfície útil (e 72.500
contratos sobre outros 520 mil).17
As áreas superiores a 10 jornadas compreendem todas as terras ocu-
padas, os estábulos com edifícios e são, portanto, propriedades me-
lhores. Podemos então considerá-las como indicadores suficiente-
mente bons de um mercado de mais alta qualidade que o das
fragmentadas terras camponesas. Todavia, como se pode ver pela ta-
bela 2, em todos os casos examinados, o percentual de dinheiro que
circula em relação a estas terras é menor do que aquele representado
pela extensão. Pode ser uma observação relativamente evidente, que,
em todo caso, confirma a opinião já citada de Chayanov, de que os
camponeses com uma pequena propriedade estão dispostos a pagar,
pela terra, preços que excedem significativamente a renda capitaliza-
da, ou seja, os preços pagos pela terra ocupada.

TA B E L A 2
Percentuais de contratos relativos a propriedades superiores a 10 jornadas
sobre o total das vendas (em jornadas e liras piamontesas)

Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli

Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro

1680-85 52,9 47,1 27,4 7,6 50,1 38,1 64,1 57,8

1686-90 52,3 46,4 31,2 10,1 44,2 29,6 47,7 34,3

1700-05 53,0 48,8 31,8 9,5 41,1 31,9 45,2 37,5

1705-10 57,3 51,6 18,9 6,2 41,5 29,4 47,4 40,6

1711-17 53,3 45,1 28,4 6,9 36,6 29,9 45,4 37,0

Total 53,9 48,1 27,3 7,7 42,2 31,10 50,1 41,5

17
O número de camponeses é uma hipótese, proporcional à superfície: o levantamen-
to completo do fundo — que tenho em curso — permitirá uma maior precisão.

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102 Uma segunda observação. Ivrea, uma zona, como dito antes, po-
bre e de propriedades fragmentadas, na qual é relativamente pouco
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

representativa a terra feudal e eclesiástica, e que tem um quarto da


superfície útil composta pelos bens comunais, apresenta um merca-
do de terra todo concentrado sobre áreas de pequeníssima extensão:
72% da superfície e 92% do dinheiro dizem respeito a contratos de
menos de 10 jornadas. Mas é ainda a província em que o número de
transações (cf. tabela 3) é de longe o mais alto, o que é imputável
apenas em pequena parte à diferença de superfície útil ou de pro-
priedade alodial. Tanto mais que o percentual da superfície ingres-
sada no mercado na província de Ivrea não era, por certo, um dos
mais altos entre as províncias piemontesas (cf. tabela 1). Fossano e
Saluzzo têm comportamentos muito parecidos no que se refere ao
número e à qualidade dos contratos, ainda que a superfície e o di-
nheiro para as propriedades superiores a 10 jornadas sejam conside-
ravelmente diversos em favor de Fossano, área mais rica. Vercelli,
que por este aspecto — um forte peso percentual das terras de mais
de 10 jornadas — comporta-se como Fossano, é, ao contrário, uma
província com pouquíssimas transações, ainda que sua superfície útil
seja de longe a mais alta, e a de puro alódio seja superada somente
pelo entorno de Ivrea, como se pode ver pela tabela 3.

TA B E L A 3
Número das transações em quatro províncias

Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli


o
N de contratos com mais
567 322 642 336
de 10 jornadas
Totalidade dos contratos 13.368 36.620 14.631 7.977
% dos contratos com mais
4,3 0,9 4,4 4,2
de 10 jornadas
Superfície útil 172.427 284.783 208.331 310.579

Superfície alodial* 114.138 174.919 113.000 163.410

N. do T.: No original não consta a medida de terra utilizada.

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TA B E L A 4
Distribuição percentual dos contratos segundo as dimensões 103

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


Jornadas Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli
Até 1 38,7 80,1 33,2 44,0
Até 2 35,6 13,1 34,6 27,5
Até 3 10,9 3,1 13,3 10,9
Até 4 4,1 1,2 5,6 5,3
Até 5 2,5 0,7 3,3 3,3
Até 6 1,4 0,3 1,9 1,6
Até 7 1,0 0,2 1,4 1,3
Até 8 0,7 0,2 1,0 0,8
Até 9 0,5 0,1 0,7 0,7
Até 10 0,4 0,1 0,6 0,5
Outras 4,3 0,9 4,4 4,2

Trata-se, no entanto, em todas as províncias, de um mercado


muito fracionado, no qual prevalecem as porções inferiores a 3 jor-
nadas, isto é, pouco mais de um hectare (cf. tabela 4). Aparece, em
cada caso, um dado de grande relevo: ao contrário daquilo que se
poderia esperar, o mercado mais ativo do ponto de vista do número
das transações é aquele das áreas dominadas pela pequena proprieda-
de camponesa. O hábito de trocar a terra por moeda é muito inten-
so justamente na província mais marginal e na qual a terra tem um
papel precípuo de atender ao autoconsumo.
É justo perguntar se a densidade da população é um fator de di-
namização do mercado da terra, isto é, se a presença de uma popu-
lação numerosa tende a fazer multiplicar as transações. Em realida-
de, é um problema de difícil solução e, por mais tentativas e
cruzamentos que eu tenha experimentado, não consegui chegar a
uma conclusão quantitativa aceitável: a diferença de estrutura pedo-
lógica e de posição de várias comunidades não permite encontrar
respostas unívocas e calcular correlações entre o número de transa-
ções e a terra à disposição de cada família. Além disso, a distribuição
da propriedade, a presença de atividades diversas da agricultura ou

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104 de trabalhos agrícolas em terras feudais, bem como a existência da
terra comum, podem tornar ainda mais frágil a possibilidade de uma
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

aferição. As tabelas 5 e 6, sobre as províncias de Ivrea e Saluzzo,


mostram justamente esta frágil correlação.

TA B E L A 5
Relação entre extensão de terra alodial per capita
e número de camponeses por família — província de Ivrea

No de jornadas Contratos por família (%)


No de comunidades
de alódio per capita Até 1 Até 2 Outros
Até 1 14 28,6 64,3 7,1
Até 2 79 18,9 49,4 31,7
Outros 24 37,5 41,7 20,8

TA B E L A 6
Relação entre extensão de terra alodial per capita
e número de contratos por família — província de Saluzzo

No de jornadas Contratos por família (%)


No de comunidades
de alódio per capita Até 1 Até 2 Outros
Até 1 2 100 — —
Até 2 14 28,6 64,3 7,1
Outros 26 30,8 50 19,2

Este mesmo silêncio é, no entanto, uma indicação de que a concen-


tração dos contratos, em todas as províncias, girou em torno da catego-
ria de até dois contratos por família nos 29 anos, independentemente da
terra à disposição, que foi, de resto, distribuída de maneira extraordi-
nariamente homogênea, num assentamento muito denso — uma refe-
rência a qualquer regularidade subjacente às práticas mercantis relati-
vas à terra. Não me parece imprudente imaginar que a verdadeira
relação entre mercado e população refira-se a episódios de ciclo de
vida de cada família que modelam o mercado em ritmos relativamen-

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te regulares: a formação de novas famílias e os matrimônios. Mas so- 105
mente uma pesquisa local poderá sustentar esta hipótese.

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


É, então, a pesquisa das condições sob as quais a terra circula
como mercadoria em diferentes regimes de valores aquilo que pare-
ce essencial ter presente quando falamos em mercado de terra no
Antigo Regime.18 É sempre um pouco arbitrário construir hipóteses
de forma negativa, mas é o que tenho sido compelido a fazer ao
longo dessas páginas: a escassa resposta que os dados forneciam a
respeito do que se podia prever, de fato, sobre demanda e oferta,
renda capitalizada, papel da terra comum e da propriedade feudal ou
eclesiástica permitem ao menos imaginar o contexto cultural das
trocas com uma pluralidade de arenas e, portanto, de significados
sociais contemporaneamente ativos, convivendo concomitantemen-
te e em confl ito direto, justamente graças às lógicas diferentes pelas
quais são governadas. E isso justamente porque a natureza específica
do negócio camponês, voltado em primeira instância ao equilíbrio
do autoconsumo não o subtrai do mercado, mas o torna um fator
relevante ao determinar seja a quantidade, seja o preço das transa-
ções. Para a agricultura organizada segundo princípios mercantis e
capitalistas, a aquisição de nova terra ou a introdução de melhora-
mentos técnicos depende de que o aumento da renda econômica
devida a este incremento ou a esta melhoria seja maior ou ao menos
igual à taxa de juros do capital investido. A decisão da família cam-
ponesa dependerá, ao contrário, do efeito que uma ampliação ou
melhoramento da terra terão sobre o equilíbrio entre distribuição
do trabalho e necessidades familiares. Numa situação de relativa es-
cassez de terra, a família camponesa estará disposta a pagar o preço
ou a introduzir melhoramentos considerados irracionais num em-
preendimento capitalista: os preços, portanto, excederão claramente
a renda econômica capitalizada, como é demonstrado pelo fato de
que são justamente as terras mais fragmentadas as que ativam uma

18
Uso aqui os termos de Appadurai (1986), que sustenta tese de grande interesse
(mas um pouco geral demais) também para o estudo do mercado da terra.

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106 circulação de moeda percentualmente superior à superfície de inte-
resse. E quanto mais pobre e sufocada a área de interesse — como
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

mostra do caso de Ivrea, ou, ainda, a diferença entre Fossano e Sa-


luzzo nas tabelas 2 e 3, justamente porque a segunda província é
mais populosa e mais pobre — tanto mais os percentuais entre terra
dos camponeses comercializada em pequenos pedaços e preços pa-
gos se distanciam.
Em síntese, a diferença entre as províncias piemontesas é explicá-
vel somente levando em conta esta contemporânea presença de uma
agricultura relativamente moderna e voltada ao mercado e de uma
agricultura camponesa. Nas zonas superpopulosas os limites dos
melhoramentos, de disponibilidade para comercializar, dos preços
são enormemente mais altos do que nas áreas em que prevalecem os
negócios capitalistas: o número vertiginoso de transações na pobre
província de Ivrea com relação à estagnada província de Vercelli,
que está na vanguarda da difusão do capitalismo no campo piemon-
tês, é uma prova evidente disso. São as mesmas conclusões de Chaya-
nov (1966) sobre a Rússia ou de Latur sobre a Suíça: “Isso leva a uma
conclusão paradoxal: nas áreas superpopulosas as famílias campone-
sas mais pobres pagarão os preços e os arrendamentos mais altos pela
terra”. E ainda:

Nas áreas em que há um excedente absoluto de terra, e também


onde a densidade da população corresponde à intensidade ótima
para a agricultura, não existem bases concretas de coalizão. Mas
nas áreas superpopulosas, quando os negócios capitalistas au-
mentam e tem-se uma escassez relativa de terra, comparecem
em número sempre crescente compradores e vendedores em
condições de pagar preços mais altos do que aqueles capitalistas
[...]. Gradualmente eles se tornam sempre mais relevantes tam-
bém na determinação do preço sobre o mercado capitalista, até
que as avaliações produzidas pelo setor camponês tornam-se de-
cisivas para o mercado e empurram para as margens o preço
baseado nas avaliações do setor capitalista. E não se trata somen-

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te de uma guerra sobre preços, mas também sobre a terra: ter- 107
se-á contemporaneamente uma clara transferência da terra do

ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


setor capitalista ao setor camponês.19

Mas, naturalmente, trata-se de situações em que a população é


densa, com uma suficiente quantidade de dinheiro em circulação e,
com frequência, de situações marginais em que a pressão dos negó-
cios orientados pelo mercado é relativamente escassa. Em outros
casos, nos quais por um certo período o setor capitalista estava em
condições de pagar rendas muito altas e, portanto, maiores do que
podia fazer o setor camponês, é isso que empurra os negócios cam-
poneses para a margem do sistema.
A quantidade de transações e a quantidade global de dinheiro co-
locado em circulação por dois setores, a própria diferença entre as
várias províncias piemontesas entre o Seiscentos e o Setecentos pare-
cem-me confirmar esta hipótese, com uma característica inesperada:
a vivacidade do mercado da terra, como número de transações, é
tanto mais forte quanto mais a área de interesse é dominada pelos
negócios camponeses, orientados em direção ao autoconsumo. Aqui-
lo que Raul Merzario (1989) definiria como capitalista nas monta-
nhas é, neste caso, uma ilusão de ótica: duas lógicas diferentes e não
coerentes presidem o advento do mercado da terra.20 O capitalismo
nascerá justamente ali, onde mais lento e viscoso nos parece o costu-
me nas transações e no comércio.21

19
Chayanov (1966:235-238). As pesquisas de Laur sobre a Suíça são temas de con-
tínuo confronto utilizado por Chayanov.
20
Concordo em grande parte com a tese sustentada no livro; no entanto, o papel da
terra parece-me subavaliado, em particular nas montanhas: como seria “superado
pelo tempo o problema de separar os produtores da terra” (Merzario,1989:13), uma
vez que me parece que seja bastante útil no estudo da proto indústria levar em con-
sideração o papel diferenciado que resulta do confl ito entre modelos diferentes de
mercado da terra.
21
As teses de Ester Boserup, que têm alguma analogia com tudo o que aqui susten-
tei sobre a capacidade dos negócios camponeses tradicionais de desenvolver novas
técnicas e de incrementar a produção, parecem-me não levar em conta esta diferen-
ça de confl ito de comportamento econômico. Cf. Boserup (1981).

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REFERÊNCIAS
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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

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POLANYI, Karl. Economie primitive, archaiche e moderne. Turim: Einaudi,
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109
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ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA


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PARTE II

O diálogo com a história


e a historiografia

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5
Delio Cantimori: um diálogo
com a história da cultura
Cássio da Silva Fernandes

Delio Cantimori (1904-1966) jamais falou de micro-história. Nem


mesmo em sua vasta e significativa obra ele buscou construir expli-
citamente um arcabouço metodológico que se antepusesse a suas
investigações ou indagações históricas. Em sua incursão no campo
da história da historiografia, que se consolidou com a publicação
póstuma de um volumoso livro intitulado Storici e storia, Cantimori
sempre procurou compreender, na obra dos historiadores, muito
mais questões de interpretação histórica do que aquelas de fundo
teórico. Ele entendeu a história da historiografia como pesquisa
conduzida não sobre pressupostos ou sobre concepções gerais a res-
peito da história, não sobre um plano especulativo e metodológico,
mas como um sofisticado instrumento analítico voltado para a com-
preensão dos julgamentos e das representações construídas pelos his-
toriadores sobre problemas ou panoramas históricos concretos.1 No
entanto, há um dado do percurso acadêmico de Delio Cantimori

1
Ver a esse respeito Miccoli (1970), esp. p. 223-228.

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114 que pode remetê-lo, ainda que tangencialmente, à vertente historio-
gráfica que ficou conhecida alguns anos depois de sua morte como
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

micro-história: Cantimori foi reconhecido por seu aluno, Carlo


Ginzburg, como o principal responsável por sua escolha em abraçar
a profissão de historiador.
Ginzburg citou, em algumas oportunidades, a importância que
Delio Cantimori teve em sua formação, durante os anos de estudo
na Scuola Normale Superiore di Pisa. É significativa a passagem em
que Carlo Ginzburg narra seu primeiro contato com Cantimori, no
ano acadêmico de 1957-1958:

[Cantimori] ia passar uma semana em Pisa, e disse que ia ler e co-


mentar a obra de Burckhardt, Considerações sobre a história universal
[Reflexões sobre a história, na edição brasileira]. Lembro-me muito
bem do momento em que o vi pela primeira vez: era um homem
gordo, não muito alto, de barba branca, com uma cara de cardeal,
como nos retratos de cardeais de El Greco. Falava com uma voz
pastosa e perguntou: “Algum de vocês lê alemão?”. Poucos liam.
Ele continuou: “Bom, vamos ler o livro de Burckhardt, mas vamos
comparar as traduções italiana, francesa, inglesa etc.”. Começamos,
e depois de uma semana tínhamos lido cerca de dez linhas. Aquilo
me marcou profundamente. Aquela maneira de ler o texto levan-
tando uma multiplicidade de problemas foi algo que me pareceu
realmente magnífico. Um ano depois, decidi estudar história.2

Em outra passagem, no prefácio a Mitos, emblemas, sinais, Ginzburg,


explicando as razões que o levaram a escrever “De A. Warburg a E.
H. Gombrich: notas sobre um problema de método”, publicado no
referido livro, afirma:

No começo dos anos 60, descobri, graças a Cantimori, o Warburg


Institute. A tentativa de acertar contas com a tradição a ele ligada

2
Ginzburg, apud Lima, 2006:286.

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obrigou-me a refletir, não só sobre o uso de testemunhos figurati- 115
vos como fonte histórica, mas também sobre a permanência de

DELIO CANTIMORI
formas e fórmulas para além do contexto em que nasceram.3

São de fato referências muito fortes à importância de Cantimori


para a formação de Ginzburg, reveladoras da atenção dedicada pelo
aluno às indicações do mestre. Seria necessária uma indagação pon-
tual a respeito da influência de Delio Cantimori sobre o primeiro
livro de Ginzburg, I benandanti, publicado no mesmo ano da morte
de Cantimori, em 1966, tendo em vista a semelhança do tema do
livro (tema, aliás, que persegue a obra de Ginzburg por muito tem-
po) e o foco central dos estudos do professor em Pisa. Não desenvol-
verei aqui uma reflexão sobre esse particular. Meu interesse se volta
especialmente para a obra de Cantimori. E, nesse sentido, há que se
ressaltar um dado presente nas duas citações de Ginzburg: em ambos
os casos a referência a Cantimori aparece ligada a um modelo histó-
rico-cultural de grande importância para o cenário historiográfico
europeu a partir da segunda metade do século XIX. Na primeira
passagem, Ginzburg refere-se às aulas de Cantimori sobre as Refle-
xões sobre a história, do historiador suíço Jacob Burckhardt (1961). De
fato, nesse período, Cantimori trabalhava numa tradução italiana
das Weltgeschichtliche Betrachtungen, de Burckhardt, editada na Itália
em 1959. Na segunda passagem, a referência de Ginzburg a Canti-
mori relaciona-o a Aby Warburg e à tradição da Kulturwissenschaft
(ciência da cultura) no instituto de pesquisa que leva seu nome. E é
sabido o quanto a obra de Burckhardt serviu de modelo para War-
burg e para seus seguidores. Entretanto, concentremo-nos em Can-
timori, notando possíveis relações entre sua perspectiva historiográ-
fica e o citado modelo histórico-cultural.
A obra de Delio Cantimori é marcada pela amplitude e pela pro-
fundidade com que desenvolveu a pesquisa de quase uma vida a
respeito dos hereges italianos do século XVI, fugidos das persegui-

3
Ginzburg, 2007:9-10.

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116 ções religiosas na Itália. Seu longo e paciente trabalho de pesquisa o
conduziu a inúmeros arquivos e bibliotecas em várias partes da Eu-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

ropa. A busca pelos sinais da passagem dessa multidão de homens das


mais variadas formações, desde doutos humanistas e homens de le-
tras até impressores, tecelões, sapateiros, teólogos, místicos, proce-
dentes das mais diversas regiões italianas, à procura de abrigo em
várias cidades da Confederação Suíça, da atual Alemanha, da Áus-
tria, Inglaterra, Polônia, levou Cantimori a iluminar, em sua mais
ampla e rica diversidade, os pequenos círculos de relações pessoais e
de elaboração e divulgação de ideias que aproximaram o mundo de
um e de outro lado dos Alpes. O produto desse trabalho ficou docu-
mentado em especial em dois livros: o volumoso Eretici italiani del
Cinquecento e Umanesimo e religioni nel Rinascimento.
A formação e a atuação de Delio Cantimori desenvolveram-se basi-
camente em torno de duas instituições de uma mesma cidade: a Uni-
versità degli Studi di Pisa e a Scuola Normale Superiore di Pisa. Como
ele mesmo afirmou mais de uma vez, não sem uma dose de ironia no
confronto com a modernidade dos grandes centros acadêmicos euro-
peus, e com uma pitada de crítica em relação à Europa contemporânea
(a Europa das grandes capitais), suas “pesquisas nasceram de problemas
juvenis de um estudante de liceu, amadurecido numa cidade de pro-
víncia, em ambiente de gente de escola”.4 De fato, o cosmopolitismo
que marca a história medieval da República de Pisa, com suas podero-
sas relações comerciais com o Ocidente e com o Oriente, propiciadas
por sua posição geográfica às margens do mar Tirreno e pela força da
civilização presente na memória que etruscos e romanos haviam dei-
xado ali, era, quando Cantimori chegou à cidade (em 1924), não mais
que memórias, ainda que com forte presença nas monumentais cons-
truções e no traçado urbano. Porém, a diminuta importância da cidade
no século XX não se reproduzia no papel de suas instituições acadêmi-
cas. À universidade medieval se somava a instituição de altos estudos
— a Scuola Normale Superiore —, fundada por Napoleão Bonaparte

4
Cantimori, 1992:11.

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seguindo o modelo da École Normale parisiense. Além disso, as várias 117
e importantes bibliotecas originadas na Idade Média, assim como os

DELIO CANTIMORI
arquivos e os museus, faziam de Pisa um dos mais importantes centros
de estudos humanísticos na Itália e passagem necessária de pesquisado-
res de toda a Europa. Nesse ambiente deu-se, quase integralmente, a
formação acadêmica e a prática docente de Delio Cantimori.
Em Pisa, Cantimori participou, como aluno, da escola de Giovan-
ni Gentile e de Giuseppe Saitta. No prefácio de Eretici italiani del Cin-
quecento, ele próprio afirmaria que seu interesse original em estudar
esse tema teria surgido da leitura do livro de Gentile, Giordano Bruno
e il pensiero del Rinascimento. Certamente também as conferências de
Gentile, em parte publicadas depois no livro Il pensiero italiano del Ri-
nascimento, conferências que mergulhavam com amplitude na ciência
e na fi losofia do Renascimento, teriam aberto ao jovem estudante o
universo do humanismo italiano. Com os escritos e o ensinamento
acadêmico de Gentile, Cantimori diz ter sido encorajado a retomar a
leitura (já realizada na juventude) da obra de Burckhardt sobre o Re-
nascimento italiano. Gentile, afinal, era um dos principais responsá-
veis pela recepção dos escritos de Burckhardt em solo italiano nas
primeiras décadas do século XX. Vale lembrar as páginas de Gentile
sobre o papel de Petrarca na formação do humanismo italiano, além
de seu estudo sobre o caráter do Renascimento ou aquele sobre o
conceito de homem no Renascimento, todos publicados em Il pensiero
italiano del Rinascimento. Esses escritos traziam a marca burckhardtiana
da compreensão do Renascimento italiano como berço e origem do
indivíduo moderno, e eram interpretados, pelas mãos de Gentile,
numa chave de cunho fi losófico-idealista que marcou um tipo de
leitura de Burckhardt nas primeiras décadas do século XX, e não
somente na Itália. A tese de perfezionamento de Cantimori sobre o
conceito de Renascimento fora discutida na Scuola Normale exata-
mente com Giovanni Gentile, e publicada em 1932.5 Sobre o papel
de Giuseppe Saitta, autor de livros como Marsilio Ficino e la filosofia

5
Cantimori, 1932:229-268, reed.: Cantimori, 1971:413-462.

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118 dell’Umanesimo (Bolonha, 1923) e L’educazione dell’Umanesimo in Ita-
lia (Veneza, 1927), em sua formação, afi rma Cantimori no prefácio
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

à edição suíça dos Eretici (p. 11):

A contemporânea experiência fi losófica neoidealista, fez[-me]


formular o problema primeiramente como problema de história
do pensamento fi losófico: no quadro das discussões sobre as re-
lações entre Renascimento e Reforma [...] e de uma acentuação
do caráter imanente do pensamento neoidealista de Giuseppe
Saitta [...].

Ele afirma que teve o primeiro impulso em direção aos hereges


italianos sob a ótica da relação entre fi losofia e história das ideias, que
tinha colocado isoladamente, como monumentos à memória, figuras
que representassem a resistência fi losófica e científica à ameaça das
perseguições religiosas e dos tribunais da Inquisição na Itália. Assim
tinham vindo à tona, até então, os estudos sobre Lelio e Fausto Sozzi-
ni e sobre Giordano Bruno. Em relação a Marsilio Ficino, Giuseppe
Saitta teve que se defender, nas reedições de seu livro (em 1942 e em
1953), da acusação de fornecer a demonstração de um Ficino idealista
e extemporâneo e de interpretar o pensamento de Ficino contra um
fundo subjetivista e revolucionário, e portanto também extemporâ-
neo. O fato é que o Ficino que G. Saitta apresenta em seu livro de
1923 é o representante, como ele mesmo afirma, “da nossa verdadei-
ra tradição, que tem início com o Humanismo, o berço da consciên-
cia italiana”.6 Era o problema da compreensão, em suas palavras, “della
nostra anima nazionale” [de nossa alma nacional].7 O estudo de G.
Saitta tinha um fundo romântico, sustentado na ideia de nação. Para-
lelamente, o Giordano Bruno de Giovanni Gentile (1955:ix) tinha
uma marca semelhante, à qual era acrescida a simbologia do mártir.
Desses modelos de interpretação de dois personagens do humanismo

6
Saitta, 1953:vi.
7
Idem.

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italiano, Marsilio Ficino, pelas mãos de G. Saitta, e Giordano Bruno, 119
por Gentile, havia partido Delio Cantimori, no momento inicial de

DELIO CANTIMORI
seus estudos sobre um grande tema de história moderna.
Mas o deslocamento da fi losofia para a história, de acordo com o
próprio Cantimori, teve no centro dois acontecimentos: a leitura do
livro do historiador Gioacchino Volpe, Movimenti religiosi e sette ereti-
cale nella società medievale italiana, e a permanência para estudos em
Basileia (Suíça), no início da década de 1930. A importância do li-
vro de Volpe ficaria atestada em uma carta dirigida a ele por Canti-
mori, em 30 de novembro de 1939, que dizia o seguinte:

O primeiro distante princípio nestes estudos o devo a seu livro.


Com aquela leitura começou o meu interesse a deslocar-se len-
tamente da fi losofia, da especulação para dizer melhor, àquela
concreta fi losofia que é o estudo da história.8

Mas o momento em que o projeto verdadeiramente amadureceu


teria sido entre dezembro de 1931 e julho de 1932, período em que
o historiador frequentou os cursos de história da Igreja na Faculdade
de Teologia da Universidade de Basileia, ministrados pelos professo-
res Ernst Stähelin e Johannes Wendland. Nesse período, enquanto
estudava a vida e a obra do historiador Alexandre Vinet (estudioso
oitocentista de história da Igreja), nas aulas de Stähelin, e lia o Ins-
titutio de Calvino, nas de Wendland, Cantimori iniciou suas pes-
quisas sobre os hereges e protestantes italianos em Basileia no século
XVI, trabalhando na Biblioteca Universitária e no Arquivo de Esta-
do de Basileia. Na verdade, Cantimori havia se decidido por Basileia
após um período de dúvida entre essa cidade e Genebra. A escolha
de Basileia representou a escolha por um problema histórico a ser
desenvolvido. Genebra, a cidade de Calvino, tinha sido uma indica-
ção de Benedetto Croce.9 No século XVI, a cidade era o destino

8
Apud Prosperi, 1971:XXVII.
9
A esse respeito, ver Miccoli (1970:54-62).

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120 dos hereges italianos que pretendiam assimilar a Reforma confessio-
nal e voltar as costas à Itália. Basileia, ao contrário, tinha uma at-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

mosfera de concórdia, estabelecida pela atuação de Erasmo na uni-


versidade e na vida erudita da cidade, pelo legado que havia deixado,
tanto de maneira difusa, quanto concretamente, nas mãos de seu
herdeiro testamentário, Bonifacius Amerbach, professor de direito
romano e fi lho do erudito impressor e amigo do humanista holan-
dês, Johannes Amerbach. Basileia, então, era o destino desejado pe-
los hereges italianos que pretendiam manter um olhar voltado para
a Itália e ficar apartados da aceitação confessional da Reforma. A
cidade, que havia sido o palco de onde Erasmo polemizara com Lu-
tero, seria, no contexto imediatamente posterior — naquele que
interessava a Cantimori —, o local das polêmicas dos humanistas
italianos ali refugiados, como Celio Secondo Curione e Pietro Per-
na, ou o “savoiardo” Sebastian Castellion, contra os luteranos e con-
tra Calvino. Vale lembrar, em especial, a polêmica de Castellion
(expulso da Genebra de Calvino exatamente por suas interpretações
“muito livres” da Bíblia) contra Calvino, polêmica que resultou
num livro célebre de um escritor célebre: Stefan Zweig. Basileia
seria, então, para Cantimori, o local de encontro, a fronteira, o limi-
te; a cidade cosmopolita, reformada e humanista: a cidade do refor-
mador Johann Oecolampad, mas também a cidade de Erasmo e dos
erasmianos, e que se abria ainda, logo após a morte de Erasmo, à
influência direta dos humanistas italianos (dos hereges, que Canti-
mori buscava).
Mas Basileia tinha sido importante, para Cantimori, também do
ponto de vista metodológico, como ele próprio revela no prefácio à
edição suíça dos Eretici:

Sob influência de G. Saitta, [...] a pesquisa da participação italia-


na no grande movimento europeu de reforma e de renovação
[...] não encontrava resposta satisfatória para quem não se con-
tentava com uma história intelectual de gênios, mas buscava
instintivamente uma [história] de homens [...].

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Relações entre ideias e ideias podiam-se estabelecer muitas, e
121
tão facilmente que ao fi nal surgia a suspeição de sua arbitrarie-

DELIO CANTIMORI
dade; mas as vidas dos homens, as suas atividades intelectuais, as
relações entre homens pareciam sempre menos claras e precisas;
assim sensivelmente se passou do estudo doutrinário ao estudo
erudito, pensando, porém, sempre em dar uma base concreta a
uma pesquisa de ordem puramente fi losófica ou de história da
vida intelectual fi losófico-religiosa. [...]

[A estada em Basileia proporcionou] uma passagem da “fi losofia”


à “história” que coincidiu com uma crítica à fi losofia e um distan-
ciamento de sua profissão, de sua função e de seus elementos.10

Para Cantimori, a passagem da fi losofia para a história significava


aproximar-se da concretude da vida dos homens, compreender o
espaço de suas vidas a partir da relação direta entre personagens. A
passagem da fi losofia à história significava, então, empreender uma
redução de escala (embora ele não utilize essa expressão) na obser-
vação dos fenômenos. Ele passaria a se concentrar nos contextos
mais específicos, nos círculos de contatos diretos entre personagens.
É assim que seu livro publicado na Itália em 1939 e traduzido em
Basileia em 1949, Eretici italiani del Cinquecento, foi inteiramente con-
cebido a partir desse ponto de vista. Para comprovar essa afi rmação,
basta observar a organização dos capítulos da obra. Eis alguns de
seus títulos: “A imigração italiana a Zurique e a Basileia”, “Curione
em Basileia. Curione e Bullinger”, “Os amigos basileenses de Curio-
ne: David Joris, M. Borrhaus, S. Castellione. A atmosfera mística e
iluminada do círculo de Basileia”, “Fausto Sozzini em Basileia”,
“Aconcio na Inglaterra”, “Cracóvia e os hereges italianos”, “Um
seguidor de Occhino e de Lelio Sozzini em Zurique (Anton Mario
Besozzi), e o seu processo”, “O processo de Curione”.
É claro que há, na apreciação historiográfica de Cantimori, ainda
que veladamente, um posicionamento quanto aos caminhos da po-

10
Cantimori, 1992:11-13.

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122 lítica na Europa contemporânea, interligado ainda a uma crítica
voltada para a compreensão da história da Europa pela historiogra-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

fia a partir do início do século XIX. O empenho de sua investiga-


ção, que culmina no livro sobre os Eretici, e que se estende em sua
pesquisa no pós-guerra, sustenta uma argumentação de cunho ao
mesmo tempo político e historiográfico. Em outras palavras, Can-
timori levanta-se contra a Europa das grandes nações, contra a Eu-
ropa dos Estados nacionais, que havia se ancorado sempre num dis-
curso histórico, ou melhor, de fi losofia da história e assumido pela
historiografia o discurso das identidades nacionais. A pesquisa de
Cantimori opunha-se à Europa das nações e à historiografia que
compreendia a Europa a partir do conceito romântico de “nação”.
Ao mesmo tempo, e também de maneira velada, ele mostrava a
impossibilidade de separar as raízes históricas formadoras dos povos
que vivem, no século XX, sob a égide dos Estados nacionais. As-
sim, ao buscar, através de caminhos muito concretos, as relações
transalpinas dos hereges italianos, Cantimori sinalizava na direção
dos contatos, das transposições, das fusões, em detrimento das no-
ções de identidades nacionais e da concepção de unidades espiritu-
ais impenetráveis. A pesquisa de Cantimori sobre os hereges italia-
nos do século XVI inaugura, em sua própria obra, um caminho em
direção à história da cultura, porém a uma vertente histórico-cul-
tural inteiramente estranha à perspectiva da Geistgeschichte (história
do espírito). Esta, sendo de origem prussiana, de viés marcadamen-
te hegeliano, estendeu seus tentáculos para além da Prússia e para
além da história política, influenciando certos modelos de história
cultural e de história da arte. Lembremos de boa parte dos repre-
sentantes da chamada “Escola de Viena”, da segunda metade do
século XIX ao início do XX: em Viena, o livro que representa o
testamento intelectual do historiador da arte Max Dvorák tem por
título Kunstgeschichte als Geistgeschichte (História da arte como histó-
ria do espírito). Essas correntes também atingiram a Itália no início
do século XX. A pesquisa de Cantimori, ao contrário dos modelos
histórico-espirituais, tinha aquele extraordinário sentido de preci-

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são e de concretude, de objetivo e pontual esclarecimento de parte 123
da realidade.11

DELIO CANTIMORI
Nesse sentido, é significativo que, no futuro, tenha sido a esposa
de Cantimori, Emma Cantimori, a tradutora para o italiano da obra
de Aby Warburg, editada na Itália em 1966. É também sintomático
que no primeiro número do Journal of the Warburg Institute, de 1937,
Delio Cantimori tenha publicado o artigo “Retórica e política no
humanismo italiano”. Em 1937, Aby Warburg não mais vivia. Po-
rém, seus estudos e sua memória eram celebrados por um círculo de
historiadores da arte e da cultura em torno do “Instituto Warburg
para a Ciência da Cultura”, então instalado em Londres. O historia-
dor alemão, que tinha eleito como mote de seu trabalho intelectual
a máxima de Flaubert, “Deus está no particular”, o estudioso do
Renascimento que já em 1902, concentrando-se no círculo erudito
de Lorenzo, o Magnífico, em Florença, observava as pinturas de
Domenico Ghirlandaio como “provas indiciárias” (Indizienbeweis)
do gosto clássico florentino, havia sido importante para Cantimori.12
Especialmente os estudos de Warburg sobre a “profecia antiga pagã
em textos e imagens da época de Lutero”13 (publicados em 1920)
tinham interessado ao estudioso italiano, e não apenas pelo tema. O
modo pelo qual Warburg percebia o traço de paganismo nas ima-
gens astrológicas elaboradas no âmbito do cristianismo luterano, e
especialmente no círculo de relações muito próximas a Lutero, abri-
ra os olhos de Cantimori, fazendo-o perceber que, no oceano de
diversidade que compõe o tecido histórico, a concretude da vida e
da ação dos homens instala-se sempre nas fronteiras dos modelos
ideais. Warburg, no texto em questão, percebia a presença dos de-
mônios astrais nas imagens e nos textos astrológicos elaborados no
ambiente de Lutero como produtos de um entrecruzamento cultural
que dizia respeito a interpretações árabes medievais de estudos astro-
lógicos gregos no âmbito de Aristóteles, depois aportadas na Itália

11
Ver, a esse respeito, Miccoli (1970:90).
12
Warburg, 1932a:96.
13
Warburg, 1932b:487-557.

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124 pelas mãos de um humanista florentino da segunda metade do século
XV, Marsilio Ficino. Ficino as interpretava à luz do classicismo flo-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

rentino de então. As interpretações astrológicas de Ficino, por sua


vez, atingiram, segundo o texto de Warburg, o ambiente de Lutero
através de um humanista germânico muito próximo ao monge refor-
mista: Filipe Melanchton. É aí então que os demônios astrais se mes-
clam ao universo pio e reformista em torno de Lutero, sofrendo novas
transformações. Decerto, o texto de Warburg, tão próximo dos pro-
blemas posteriormente tratados por Cantimori a respeito dos hereges
italianos do século XVI emigrados para ambientes reformados ao
norte dos Alpes, serviu-lhe de exemplo. Através dos textos de War-
burg, Cantimori percebeu que as imagens construídas pelos homens,
produtos de um contexto muito preciso de relações pessoais, não são
redutíveis às grandes correntes de ideias. Cantimori tornara-se um
crítico dos conceitos historiográficos, tais como Renascimento, Con-
trarreforma, Barroco, vistos, em suas palavras, como “meras e arbi-
trárias abstrações, derivadas de tendências e concepções gerais da his-
tória e do mundo”, portanto quase inúteis “para se entender situações
de fato, gerais ou particulares, individuais ou biográficas”.14 Diante
dessa postura, era preciso, então, reduzir a escala e observar com pre-
cisão os espaços de vida dos personagens e sua produção concreta.
Cantimori chegou a afirmar, tempos depois, que, diante da cena ita-
liana dos historiadores voltados para o estudo do mundo moderno,
que nos anos 1950 tinha no centro a figura de Federico Chabod, en-
tão professor em Roma, ele preferia a companhia dos historiadores da
arte. E ele tinha sido, quando aluno em Pisa, e agora o era como
professor também em Pisa, colega de um dos principais historiadores
da arte da Itália da época: Carlo Ludovico Ragghianti (1910-1987).
No que diz respeito aos historiadores da cultura, Cantimori en-
controu acolhida também fora da Itália. Certamente entre os compo-
nentes do Instituto Warburg, que procuravam fazer reverberar o es-
tudo da arte num fundo histórico-cultural. Mas não apenas ali. Em

14
Apud Miccoli, 1970:310.

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Basileia, nos anos 1930, encontrava-se o jovem Werner Kaegi, oriun- 125
do da escola de Ernst Walser, o grande representante em Basileia,

DELIO CANTIMORI
naquele momento, dos estudos sobre o humanismo italiano, aluno de
alunos de Jacob Burckhardt. Kaegi, por sua vez, discípulo de Walser,
era o estudioso do humanismo na Europa central, autor recente de
uma tese sobre Hutten e Erasmo. Com Kaegi iria se prolongar, por
parte de Cantimori, um frutífero diálogo erudito e uma sincera ami-
zade que levaria um e outro a transpor inúmeras vezes a barreira dos
Alpes. Além das várias conferências pronunciadas por Werner Kaegi
na Scuola Normale Superiore di Pisa e das muitas visitas de Cantimo-
ri à Universidade de Basileia, visitas que incluem a de 1960, para re-
ceber das mãos de seu ex-professor de história da Igreja, então reitor
Ernst Stähelin, o título de doutor honoris causa. O contato erudito
entre os dois ficaria registrado na história das edições de seus livros.
Kaegi foi o responsável pela publicação basileense dos Eretici italiani del
Cinquecento, em 1949. Cantimori foi o tradutor na Itália das Historische
Meditationen de Werner Kaegi. No dramático contexto da II Guerra
Mundial, as conferências de ambos juntaram-se à voz de um outro
historiador da cultura, o holandês Johan Huizinga. Os três haviam se
encontrado em Basileia, em 1936, para celebrarem o quarto centená-
rio de morte de Erasmo. Naquele momento, eram três conferencistas
refletindo sobre o humanismo na Europa central. Tempos depois,
Cantimori trabalharia na edição em italiano do livro do historiador
holandês, As sombras do amanhã, e Kaegi traduziria para o alemão o
último manuscrito de Huizinga, inédito até mesmo em idioma ori-
ginal, Quando falam as armas. Entre Cantimori e Kaegi havia ainda
outro ponto de aproximação. Enquanto Kaegi trabalhava no maior
empreendimento de sua vida, a biografia intelectual do historiador
de Basileia, Jacob Burckhardt, em sete volumes e editada entre 1947
e 1982 (o último publicado postumamente), Cantimori fazia a já
referida tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen de Bur-
ckhardt: as Meditazioni sulla storia universale15 publicadas na Itália em

15
Burckhardt, 1959.

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126 1959. É certo que a maneira de Kaegi mergulhar a biografia de Bur-
ckhardt na cultura citadina de Basileia serviu de exemplo para Canti-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

mori, nos anos 1940 e 1950, de como o contexto de vida de um


personagem pode, de fato, tocar o teor de sua obra. Na longa resenha
que Cantimori compôs, na Itália, do primeiro volume da biografia
intelectual de Burckhardt, escrita por Kaegi, tal afirmação se confir-
ma.16 Certamente, a imagem de Burckhardt iluminava as faces de
Kaegi, de Cantimori e de Huizinga, indicando um caminho para a
compreensão da trágica crise da Europa naquele momento tão obscu-
ro. Era, de novo, o cenário cosmopolita da cidade de Basileia a con-
ferir um sentido à obra de Delio Cantimori. E devemos levar em
consideração que os textos de Cantimori sobre Burckhardt represen-
tam uma virada na compreensão da obra do historiador suíço, perce-
bendo um novo Burckhardt em relação à imagem do pessimista e
niilista radical, do pensador espremido entre Nietzsche e Schope-
nhauer. Cantimori apresenta um Burckhardt até então conhecido
quase exclusivamente no erudito meio dos estudiosos de Basileia.
Exatamente o Burckhardt de quem Warburg se diz seguidor. E quan-
to o Burckhardt de Cantimori abriu caminho para os estudos atuais
sobre o historiador de Basileia!
De todo modo, o diálogo de Cantimori com esse grupo de histo-
riadores propiciou ainda a amplitude de sua perspectiva de pesquisa,
no sentido de ultrapassar os limites da história italiana para tocar
problemas relativos à vida religiosa e ao humanismo europeu. Além
disso, Cantimori frisava a importância de tirar o foco dos estudos
sobre os hereges e os movimentos reformistas no século XVI dos
grandes homens, para daí, com o auxílio da história da cultura, bus-
car os contextos mais precisos. Portanto, a perspectiva centrada em
pequenos grupos, em contextos precisos e concretos, propiciaria ao
mesmo tempo compreender o fenômeno histórico na diversidade e
profundidade de seu caráter europeu. Cantimori trata o problema
metodológico num curso ministrado na Scuola Normale Superiore

16
Ver Cantimori (1971).

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di Pisa em 1959. Essas aulas foram posteriormente editadas em livro, 127
sob o título Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento.17 Nes-

DELIO CANTIMORI
sas aulas, o historiador afi rma a necessidade de descentralizar os es-
tudos dos hereges italianos, apagando seu sentido de movimento
(entendido como corrente de algum modo unitária e contínua),
para integrá-los na vida religiosa italiana e europeia. Nas palavras de
Delio Cantimori (1992:424):

Há também que estudá-los, sob certos aspectos, pelo interesse


que apresentam as formas da vida religiosa de pequenas comu-
nidades ou de grupos de exilados e de emigrados, e entre estes
grupos, distribuídos e dispersos em seu interior, daquele núcleo
de pessoas mais inquietas e radicais que foram chamadas hereges
no sentido mais delimitado e restrito. [...] Poder-se-ia, assim,
falar de problemas e questões de história da vida religiosa do
Cinquecento europeu, na qual aqueles grupos e aqueles núcleos se
inserem, considerados na perspectiva e sob o ponto de vista da
história da cultura [...].

Nesse sentido, a história da cultura funcionava como uma ope-


ração de síntese que podia conferir um sentido cosmopolita ao fe-
nômeno histórico, visto que sua compreensão extrapola os limites
nacionais e a centralidade nos chamados “grandes personagens”.
Essa síntese histórico-cultural, entretanto, não era aplicada como
um amálgama uniformizador e, sim, como um campo de relações
diretas entre homens percebidos concretamente em suas ações e
inter-relações, de modo que a operação de tecitura histórica não
apagasse o brilho e a diversidade dos contextos locais, nem a face
multiforme de suas expressões e ideias. Como afi rmou o próprio
Cantimori (1992:426), ainda nessas aulas de 1959, essa operação
historiográfica

17
Cantimori, 1992:419-481.

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128 constitui para o estudioso um espelho que amplia de maneira
mais evidente os fenômenos da vida religiosa europeia, permi-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tindo assim usar (com um método análogo àquele da Wissensso-


ziologie) os materiais e os resultados da pesquisa microscópica
para uma indagação e consideração macroscópica, sem revogar
os cânones da concretude, da especificação e da cautela que são
próprios de todo estudioso de história, e sem incorrer em gene-
ralizações arriscadas ou fantásticas.

Foi assim que Delio Cantimori, quando se concentrou em peque-


nos círculos eruditos formados por italianos e não italianos fora da
Itália, pôde tocar um problema primordial de história moderna: a
transposição do humanismo italiano para o cenário da Europa central.
Essa era uma indagação cosmopolita (europeia), bem adequada à tradi-
ção histórico-cultural à qual ele podia se ligar por seu contato com as
obras de Jacob Burckhardt e de Aby Warburg, e por seu diálogo com
Werner Kaegi e com Johan Huizinga. A redução de escala, tal como a
realizava Cantimori, tinha sido certamente intuída desse diálogo. Mas
não apenas dele. A concentração na perspectiva microscópica, como
primeiro passo de sua operação metodológica, denunciava sua ligação
com a grande tradição historiográfica italiana, que desde os escritores
latinos antigos havia concebido a biografia como a forma primordial de
compreender a ação do homem com um profundo senso histórico.
Talvez, pelos elementos aqui apresentados, seja possível compreen-
der, pelo menos em alguns traços, a importância de Cantimori para a
formação de Carlo Ginzburg. Se assim for, que não apaguemos tam-
bém aquilo que os distancia. E nesse sentido, tenhamos presente que
um dos pontos mais instigantes da obra de Delio Cantimori é sua
aversão à aplicabilidade em contextos e pesquisas distintas de pressu-
postos metodológicos. Se há uma construção de caráter metódico em
sua obra, ela foi concebida como aparato analítico para compreender
um problema muito preciso de história. Esse aparato analítico, cons-
truído no próprio processo da pesquisa histórica, servia apenas para a
compreensão da história dos hereges italianos do século XVI.

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REFERÊNCIAS
BURCKHARDT, Jacob. Meditazioni sulla storia universale. Trad. Delio Can-
129

DELIO CANTIMORI
timori. Florença: Sansoni, 1959.
———. Refl exões sobre a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1961.
CANTIMORI, Delio. Sulla storia del concetto di Rinascimento. Annali
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———. Storici e storia. Turim: Giulio Einaudi, 1971.
———. Umanesimo e religioni nel Rinascimento. Turim: Giulio Einaudi, 1975.
———. Eretici italiani del Cinquecento. Turim: Giulio Einaudi, 1992.
GENTILE, Giovanni. Il pensiero italiano del Rinascimento. Florença: Sansoni,
1955.
GINZBURG, Carlo. História e cultura: conversa com Carlo Ginzburg. Es-
tudos Históricos, Rio de Janeiro, FGV, n. 6, p. 255-256, 1990.
———. Mitos, emblemas, sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana. Rio de Janeiro: Civiliza-
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MICCOLI, Giovanni. Delio Cantimori. La ricerca di una nuova critica sto-
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PROSPERI, Adriano. Introduzione. In: CANTIMORI, Delio. Storici e storia.
Turim: Giulio Einaudi, 1971.
SAITTA, Giuseppe. Marsílio Ficino e la filosofia dell’Umanesimo. 3. ed. Bolonha:
Fiammenghi & Nanni, 1953.
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BURG, A. Der Erneuerung der Heidnischen Antike. Leipzig, Berlim: B. G. Teu-
bner, 1932a. Band 1.
———. Heidnisch-antike Weissagung in Wort und Bild zu Luthers Zeiten.
In: WARBURG, A. Der Erneuerung der Heidnischen Antike. Leipzig, Berlim:
B. G. Teubner, 1932b. Band 1.

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6
Pensando as transformações e a recepção da
micro-história no debate histórico hoje
Henrique Espada Lima

Abordarei aqui três questões que me parecem pertinentes para refle-


tir sobre o lugar que a micro-história pode ocupar no debate histó-
rico no Brasil hoje. A primeira diz respeito ao panorama intelectual
mais amplo que transformou de modo significativo o campo da his-
tória social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. Essa primeira
indagação toca, portanto, aquele “contexto” em que, supostamente,
o debate — e sobretudo o debate italiano — sobre a micro-história
encontra de algum modo o seu lugar.
A segunda questão, que se relaciona bem estreitamente à primei-
ra, diz respeito a como a micro-história — ou pelo menos os histo-
riadores mais fortemente ligados a ela — respondeu a essas transfor-
mações ao longo da própria trajetória do debate.
Enfi m, a terceira questão que gostaria de abordar diz respeito à
recepção seletiva da micro-história no debate intelectual brasileiro,
desde o seu princípio, em meados dos anos 1980, até os dias atuais.
Como se verá, trato dessas três questões de modo desigual, mas
procurando tecê-las em um objetivo geral. Creio que a articulação

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132 dessas três dimensões pode ajudar tanto a pensar os modos pelos
quais o debate florescente sobre a micro-história no Brasil vem se
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

desenvolvendo, quanto a tornar mais claros os impasses — teóricos


e outros — que esse debate envolve.
Como já discuti em A micro-história italiana (2006a), em meados
dos anos 1960, o panorama intelectual no qual surgiram os debates
e propostas que se articularam sob o nome de micro-história na
Itália era marcado por um modelo de história social que tinha como
características mais destacadas a preocupação em explicar a socieda-
de através de suas variáveis materiais e estruturais, contando ainda
com um forte componente racionalista. Havia nisso o impulso de
construir modelos sintéticos de interpretação — sobretudo da socie-
dade europeia dos séculos XVI a XIX —, a partir de uma hierarquia
de relevâncias muito bem defi nida.
Essa versão “triunfante” da história social pode ser caracterizada
por certos eixos de que vale a pena lembrar. Primeiro, pode-se dizer
que ela se baseava na convicção otimista de que o questionário perti-
nente para explicar a sociedade havia sido construído de uma vez por
todas em seus aspectos mais fundamentais. Esse questionário — for-
temente “materialista” — previa, por um lado, um conjunto de diá-
logos entre a história e as ciências sociais que priorizavam muito
claramente aquelas disciplinas que, como a economia, a sociologia e
a demografia, utilizavam amplamenmte métodos quantitativos e
apresentavam, igualmente, forte tendência à modelização. Por outro,
era também marcado por modelos explicativos fortes, como — em
uma versão marxista — aquele que discutia a ascensão do capitalismo
e, em outras vertentes, o modelo da “modernização”.
Em suas distintas versões, sobretudo na Europa, esse era um mo-
delo de história social certamente triunfante, tanto do ponto de vis-
ta intelectual quanto do institucional (especialmente na França). A
história social era, desde o pós-guerra, um verdadeiro projeto
internacional,1 que havia produzido resultados sólidos, e era visto

1
Cf. Sewell Jr., 2005:25.

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e reconhecido como sinônimo de uma historiografia mais sofistica- 133
da. Portanto, também, um programa a ser seguido.

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
Esse quadro se transformou bastante entre o final dos anos 1960 e o
início dos 80. Os motivos são muitos, de natureza tanto historiográfica
quanto extra-historiográfica. Não há dúvida de que há uma relação
dialética entre as transformações políticas e culturais e as mudanças no
campo das ciências sociais. A crescente percepção de que uma “crise”
se abria no horizonte aconteceu simultaneamente nos dois campos.2
Não creio que haja necessidade de detalhar a natureza dessas
transformações. Falando dos Estados Unidos e da Europa ocidental,
pode-se acompanhar a análise de William Sewell Jr. (2005:30 et
seq.), que vê na falência do modelo “fordista” (uma expressão usada
por ele para classificar tanto as sociedades quanto as ciências sociais
que nelas se desenvolviam no período) um dos fatores essenciais
dessa crise. De acordo com Sewell Jr., a desconfiança crescente
quanto às virtudes de um modelo de sociedade padronizada e estru-
turada foi um dos fatores essenciais a mover tanto os movimentos
políticos de esquerda e a contracultura a partir do fi nal da década de
1960, quanto a própria agenda dos historiadores sociais.
Assim, o que se vê na década de 1970 é que o ponto alto do su-
cesso da história social coincidiu com o momento em que ela come-
çou a passar por profundos questionamentos sobre o próprio alcance
de seus resultados como disciplina. Dois diagnósticos, publicados
com duas décadas de diferença e realizados por protagonistas dos
debates sobre a história social, nos ajudam a compreender o alcance
e a direção das transformações que ocorreram no período.
Pensando o estado da história social em 1971, é perfeitamente ra-
zoável que Eric Hobsbawm concluísse seu amplo diagnóstico sobre o
campo afirmando que era “um bom momento para ser historiador
social”,3 sublinhando ao mesmo tempo as fronteiras ilimitadas da

2
Sobre alguns dos impasses que brotaram dessa conjuntura de “crise”, ver Lima
(2002:77-106).
3
Hobsbawm (1997:105), texto originariamente publicado em Daedalus, n. 100, p.
20-45, 1971.

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134 disciplina e o otimismo quanto a sua capacidade de assegurá-las. Por
outro lado, em contraste, em 1990, a historiadora americana Natalie
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Zemon Davis, em um artigo intitulado precisamente “As formas da


história social” — uma discussão sobre os rumos da disciplina na
década anterior — concluía seu diagnóstico dizendo: a história so-
cial, no início dos anos 1990, é, antes de tudo, história cultural. O
tom otimista permanece, mas uma mudança considerável certamente
se havia operado naqueles 20 anos.
Davis apontava alguns dos aspectos gerais dessa transformação: a
história social, que havia estabelecido seu domínio através de um
intercâmbio intenso com a sociologia, a economia e a antropologia
social, passou a se interessar cada vez mais pelo tema da cultura e,
rearticulando ao mesmo tempo seu horizonte de intercâmbio inte-
lectual na direção da antropologia cultural e simbólica, pelos estu-
dos literários e mesmo pela psicologia. No plano das fontes, a ênfase
na documentação serial e quantitativa havia se deslocado para fontes
menos serializáveis, mais capazes de ser interpretadas em uma chave
simbólica. Natalie Davis não hesitava em incluir a micro-história
italiana como um exemplo claro dessa nova estação de estudos.
Vocabulários, fontes de pesquisa, métodos de análise, temas de
investigação, estilo intelectual: os termos de defi nição da “nova his-
tória cultural” (para usar uma expressão que começou a circular
mais ou menos na mesma época4 ) passavam por uma reavaliação de
tudo isso. Claro que essa reavaliação não era homogênea e, certa-
mente, seria um equívoco imaginar que apenas um modelo alterna-
tivo de história cultural tenha surgido nesse horizonte. Desde um
“culturalismo” não inteiramente incompatível com as preocupações
clássicas da história social até as versões mais radicais e “pós-moder-
nas” de uma crítica radical e epistemologicamente cética dos pró-
prios fundamentos do conhecimento histórico, o que se via era uma
reorientação de prioridades e uma redefi nição do consenso em tor-
no daquilo que deveria ser o principal foco da pesquisa histórica.

4
Cf. Hunt, 1992.

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É verdade que muitos ramos da “velha” história social continua- 135
ram a florescer e a dar frutos, mas com menos alarde. Não há dúvida,

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
porém, de que o centro do palco — o que ecoava mais fortemente
nas caixas de reverberação acadêmica (sobretudo nos Estados Uni-
dos e na França) — era um debate que tematizava crescentemente a
cultura. O impacto sobre o vocabulário em circulação nos debates
centrais da historiografi a mostra isso: noções como “classe”, “estru-
tura”, “organização social” foram sendo menos escutadas, enquanto
termos como “identidade”, “gênero”, “subjetividade” e “representa-
ção” tomavam clamorosamente a dianteira.
A “virada cultural” (e mesmo, em uma versão mais extrema, uma
“virada linguística”) sintetizou essa busca por rearranjar a hierarquia
de importância na interpretação histórica entre os anos 1980 e o fi-
nal da década de 90. É importante notar, entretanto, que esse qua-
dro não deixou de se transformar. O último capítulo ou, quem sabe,
o último capítulo antes do último — para parafrasear Siegfried Kra-
cauer (1969) — dessa história é o que se vive hoje, com a revisão de
parte desse quadro, onde parece estar em curso uma nova inflexão
desse panorama teórico.5 Isso se deve, é preciso acrescentar, pelo
menos em parte, à dinâmica própria ao desenvolvimento de qual-
quer debate intelectual, e que faz com que fi nalmente se acabe con-
frontando as promessas feitas no momento com os resultados teóri-
cos e empíricos que as próprias pesquisas obtiveram ao longo do
tempo. Pretendo voltar a falar mais adiante sobre esse quadro de
reavaliação, após me deter no segundo ponto de discussão que le-
vantei no início deste capítulo.
A pergunta sobre os modos às vezes contraditórios pelos quais a
micro-história se relacionou com esse quadro de transformações da
história social levanta alguns pontos de discussão nos quais valeria a
pena nos deter mais.

5
Atestam isso, parece-me, as recentes avaliações dos caminhos do debate históri-
co nos Estados Unidos, das quais se pode destacar o já citado livro de William
Sewell Jr., Logics of history, e o de Geoff Eley, Una linea torcida (publicado originaria-
mente em inglês em 2005).

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136 O primeiro ponto diz respeito à relação entre a micro-história e
aquele primeiro panorama da história social triunfante no início dos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

anos 1970. Como foi dito, a sofisticada discussão historiográfica,


sobretudo na França (com os Annales) e na Inglaterra (com a história
social marxista britânica), aparecia como o horizonte a seguir e o
modelo historiográfico ante o qual se posicionar de algum modo.
Diante desse panorama, a “micro-história” surge simultaneamente
como resultado e como reação no debate italiano sobre a história de
início dos anos 1970.
Digo resultado e reação porque não há dúvida de que é como
uma tentativa de se aproximar desse modelo de uma história com
instrumentos e modelos interpretativos fortes e fôlego intelectual
amplo que os debates sobre a história social aparecem na Itália nos
anos 1960 e 1970.6 E esse, é preciso lembrar, era um debate que se
travava na Itália também contra um quadro de discussões históricas
bastante impermeável ao diálogo com as ciências sociais, marcado
por tradições intelectuais importantes e contrastantes, desde a histó-
ria ético-política, com forte interesse pela história intelectual e a
história do Estado, até uma historiografia de inspiração marxista,
também muito marcada pela busca de uma “história-síntese”.
Se tomarmos os primeiros textos em que se anuncia o que depois
viria a se chamar de micro-história, reconheceremos imediatamente
que são essas as preocupações que estão no horizonte do debate: a
necessidade de se construir modelos explicativos mais adequados, a
convicção de que era possível — através do aperfeiçoamento dos
métodos da história social — fortalecer a disciplina do ponto de vis-
ta científico. Claro que isso tudo vinha acompanhado de uma rejei-
ção muito clara aos modelos estrutural-funcionalistas adotados pelas

6
Edoardo Grendi (1998:258) afi rmou, em um artigo de balanço publicado pela
primeira vez em francês em 1996, que a “microanálise representou uma espécie de
‘via italiana’ para uma história social mais elaborada (e mais fundamentada teorica-
mente) num contexto particular, fechado às ciências sociais e dominada por uma
ortodoxia historiográfica que hierarquizava de maneira rígida a importância dos
objetos”. O diagnóstico, a meu ver, pode ser estendido ao debate sobre a micro-
história como um todo.

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ciências sociais, bem como de uma reapreciação crítica muito articu- 137
lada dos resultados alcançados pela história social naqueles anos.

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
O tema da “microanálise”, que emergiu inicialmente como o ter-
mo que sintetizava as preocupações teóricas e metodológicas, brota
das intervenções de Edoardo Grendi no debate sobre a história so-
cial nas páginas dos Quaderni Storici. A trajetória intelectual de
Grendi revela, por outro lado, o quanto a micro-história devia a esse
debate mais amplo que ocorria não só sobre a história social fora da
Itália, mas também sobre a forma original que poderia adquirir
(como, de fato, adquiriu) ao entrelaçar-se com discussões menos
óbvias e problemas de investigação que brotavam da própria histo-
riografia italiana.7
Um aspecto importante a ser ressaltado é que a microanálise ape-
nas lentamente ganhou substância em trabalhos de pesquisa empíri-
ca. Tratava-se antes de tudo de uma proposta metodológica, com
forte inspiração na antropologia social. Na medida em que o debate
se tornou mais amplo e mais diversificado, aquele programa intelec-
tual inicial foi bastante alterado. Como falou Carlo Ginzburg
(2007a:249), o fato é que, em meados dos anos 1970, a micro-histó-
ria mais parecia um rótulo em uma caixa vazia, a ser preenchida.
A citação de Ginzburg não é casual, pois ele é um dos responsá-
veis pela complicação do quadro da interpretação do debate. Como
já se falou muitas vezes, a trajetória de Ginzburg e suas preocupações
intelectuais não poderiam estar mais distantes das dos outros prota-
gonistas da micro-história, como Giovanni Levi, Edoardo Grendi e
mesmo Carlo Poni, com quem de resto Ginzburg escreveu um tex-
to sugestivo sobre o tema em 1979.8
A aproximação de Ginzburg passava por um conjunto muito
diferente de diálogos e aproximações, e sua abordagem da história

7
Sobre a trajetória intelectual de Grendi, ver a introdução de Osvaldo Raggio e
Angelo Torre ao livro de Grendi publicado postumamente, In altri termini. Ver tam-
bém o capítulo “História social e microanálise: Edoardo Grendi”, de Lima
(2006:151-224).
8
Ver Ginzburg e Poni (1989:169-178).

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138 social já era alimentada, desde meados dos anos 1960, por um in-
teresse de pesquisa em “crenças”, “atitudes religiosas” e “mentali-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

dades” do mundo camponês (para mencionar três expressões pre-


sentes na introdução de seu primeiro livro, em 1966).9 Quando
passou a colaborar com os Quaderni Storici, em meados dos anos
1970, O queijo e os vermes estava em processo de publicação e ele
preparava seu livro sobre Piero della Francesca.10 Os dois livros
abordavam o tema da “microanálise” por um ângulo bastante dis-
tante das propostas de Grendi e Levi: não se tratava da reconstru-
ção de teias de relações sociais, nem da recomposição das trajetó-
rias individuais e de grupo através da documentação serial, mas de
abordar a história a partir da observação de um episódio singular,
ou da análise de uma anomalia iconográfica localizada, na tentati-
va de investigar uma realidade mais profunda, que não havia dei-
xado traços documentais.
A contribuição de Ginzburg ao debate da micro-história não é
negligenciável, como se sabe. Basta lembrarmos o quanto as discus-
sões elaboradas por ele em um texto de 1979 chamado “Sinais” aca-
baram se tornando indissociáveis das propostas micro-históricas, mes-
mo sabendo que a fórmula do “paradigma indiciário” estava longe de
encontrar boa aceitação entre os próprios micro-historiadores.11
Havia, e isso foi reconhecido imediatamente, pontos de vista dis-
tintos no projeto micro-histórico. Não faltaram discussões sobre o
que os separava e os unia. Tentando sintetizar essas diferenças, em
1996, Edoardo Grendi identificou duas vertentes da microanálise
histórica: uma delas, representada antes de tudo por Ginzburg, deti-
nha-se no episódio ou no caso e projetava-o “sobre um contexto
histórico-cultural. E, nesse ponto”, nas palavras de Grendi (1998:253),
“sua pertinência era pelo menos dupla: ele servia para ilustrar, de um
lado, um problema historiográfico particular (por exemplo, as rela-

9
Ver Ginzburg (1988).
10
Ver Ginzburg (1987 e 1989a).
11
O texto a que me refiro é “Sinais. Raízes de um paradigma indiciário”, em Ginz-
burg (1989b).

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ções entre a cultura de elite e a cultura popular) e, de outro, a cultu- 139
ra de uma época (mais que a de um grupo social específico)”. A se-

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
gunda vertente microanalítica, na qual se incluía, Grendi qualificava
como voltada para a contextualização social, marcada por outros
“procedimentos analíticos” e interessada na “reconstrução de redes
de relações e [na] identificação de escolhas específicas (individuais e
coletivas)”, que reconhecia o “primado das relações interpessoais”
como seu principal plano de investigação.12
Esse quadro esquemático era problematizado, no entanto, mais
adiante pelo próprio Grendi. “Empréstimos e trocas recíprocas” aju-
davam a turvar esses limites, sendo a “alternativa original entre con-
textualização social e contextualização cultural” excessivamente
abstrata e havendo sido superada, ao menos parcialmente, pela pró-
pria pesquisa.13 Além disso, Grendi reconhecia que a mudança no
quadro de influências e diálogos que os historiadores ligados à mi-
cro-história empreenderam acabou sendo responsável por reforçar
temas não previstos no programa original, como a aproximação
com a antropologia cultural, o interesse por idiomas políticos, a dis-
cussão sobre as “práticas sociais”. De resto, o “elemento decisivo” a
marcar a experiência historiográfica entre meados dos anos 1980 e
meados dos 90 havia sido a “passagem de uma problemática da pro-
dução e da troca para a da linguagem e da representação”.14
O quadro abstrato que dividia arbitrariamente a micro-história
social da micro-história cultural permaneceu não resolvido no pla-
no da discussão teórica. Um dos motivos disso talvez tenha sido o
fato de nunca ter acontecido um verdadeiro diálogo sobre as dife-
renças e convergências entre as duas abordagens possíveis para a
micro-história. Isso talvez tenha acontecido — o que me parece
mais importante — no próprio trabalho dos micro-historiadores
nos anos seguintes e se mantido como uma das fontes de renovação
do próprio debate.

12
Grendi, 1998:253.
13
Cf. Grendi, 1998:259.
14
Grendi, 1998:254.

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140 O tema da “cultura” parece estar no centro dessa área de indefi-
nição na qual se desenvolveu o debate em torno da micro-história.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

É preciso olhar com mais atenção, portanto, o lugar que esse tema
ocupou nas “duas vertentes” micro-históricas, o que tem a ver, aliás,
com o próprio lugar da micro-história na reorientação do debate
sobre a história social durante as décadas de 1970 e 80.
O tema da cultura estava longe de ser uma preocupação ausente
nas discussões sobre a microanálise. Ao contrário, o projeto históri-
co-antropológico que inspirava a micro-história sugeria exatamente
que a avaliação da importância dos modelos culturais tinha um peso
significativo para a compreensão das lógicas e estratégias sociais. Nes-
se sentido, é digno de nota o entusiasmo com que um historiador
como Grendi acolheu os trabalhos publicados por Natalie Davis no
início dos anos 1970,15 bem como sua análise certamente positiva dos
trabalhos de antropologia histórica publicados por E. P. Thompson,
reunidos por Grendi em um volume intitulado Societá patrizia, cultura
plebea (Sociedade patrícia e cultura plebeia), publicado em 1981 como
o segundo número da coleção einaudiana “Micro-histórias”.16 Davis
e Thompson haviam sido pioneiros nessa exploração da interface
com a antropologia, sem abandonarem um programa forte de histó-
ria social.
Mas a questão que me parece mais relevante aqui é a maneira dis-
tintiva com que a vertente “social” da micro-história tratava o proble-
ma da cultura. Esse elemento está ligado, a meu ver, ao modo de in-
vestigar essa dimensão.
Se observarmos alguns dos principais trabalhos que levaram adian-
te as exigências de contextualização social que a microanálise havia
colocado em pauta — por exemplo, o livro de Giovanni Levi A he-
rança imaterial —, a cultura tinha um papel importante e confundia-se
com o modo pelo qual os sujeitos sociais organizavam suas vidas e o
horizonte de racionalidade em que suas ações faziam sentido. A cul-

15
Ver Grendi, 1976.
16
Thompson (1981). Sobre a avaliação de Grendi do trabalho de N. Davis, ver tam-
bém Lima (2006b:151-224).

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tura, desse modo, era lida através dos comportamentos dos atores 141
sociais: a lógica que guiava as estratégias dos grupos e definia seu le-

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
que de respostas para o problema da incerteza e definia um conjunto
de valores e de princípios comuns que davam sentido às escolhas fa-
miliares, a lógica do mercado de terra, a política e assim por diante.
O que Levi evitava fazer em seu livro era pensar a cultura como um
contexto autônomo, tomando uma distância considerável da história
das ideias. Assim, sua investigação sobre a trajetória de Giovan Battista
Chiesa não procura encontrar o sentido da pregação do padre exorcis-
ta nos livros religiosos ou nos manuais de exorcismo, mas busca-o so-
bretudo nos modos possíveis com que os camponeses que seguiam
Chiesa organizavam seu horizonte de expectativas diante de um mun-
do em colapso. A discussão de Levi ecoa em muitos pontos o programa
de pesquisa que Edoardo Grendi havia feito discutir alguns anos antes:
para Grendi (1981:71-72), entre os “objetos analíticos” de uma micro-
análise deveria estar seguramente a cultura, isto é, as “formas expressi-
vas coletivas” cujo significado, enquanto “orientação de valor”, pode-
ria ser capturado não só na palavra, no gesto ou rito, mas também na
“ação social, [na] violência coletiva, [na] organização”. Essa inspiração
etnográfica estava presente, em A herança imaterial, na pesquisa intensiva
sobre as formas de organização da vida camponesa, no funcionamento
do mercado de terras, no estudo do jogo de alianças verticais e hori-
zontais operado pelos vários sujeitos sociais, bem como na reflexão
sobre o caráter imaterial do poder político que dava título ao livro.
Em contraste, podemos pensar um pouco sobre aquilo que separa
e aproxima o livro de Levi de um outro trabalho que ajudou a dar
conteúdo ao termo “micro-história”: O queijo e os vermes, de Carlo
Ginzburg. Ali o autor procura reconstruir, através da leitura intensi-
va das palavras do moleiro Menocchio registradas no processo inqui-
sitorial de que fora objeto, um contexto cultural e intelectual perdi-
do. As ideias de Menocchio e, em especial, a grade de leitura que ele
projetava nos livros que lia faziam emergir um extrato cultural desa-
parecido de uma cultura camponesa com componentes materialistas
e radicais que não podiam ser intuídos através de outras fontes e,

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142 muito menos, das ideias heréticas eruditas que circulavam no perío-
do. A excepcionalidade e singularidade de Menocchio tornavam-se
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

uma via de acesso, uma sonda para explorar um contexto cultural


que não se conhecia precisamente.
Para além da distinção entre uma contextualização “cultural” e
uma contextualização “social”, as diferenças entre os dois livros
eram ligadas tanto à própria escolha do problema de pesquisa quan-
to às ferramentas intelectuais colocadas à serviço da investigação. A
análise intensiva das fontes cartoriais sob a inspiração da antropolo-
gia social e da network analysis, no caso de Levi; o uso da rica crônica
do processo inquisitorial, escrutado por uma leitura fi lológica, no
caso de Ginzburg. Mas, unindo os dois livros, uma convicção co-
mum na capacidade de penetrar, através da leitura intensa da docu-
mentação e da atenção obsessiva pelos aspectos singulares de cada
caso estudado, em uma realidade social e cultural cuja compreensão
anterior era julgada inadequada ou incompleta.
O que essa comparação permite ver — e, é preciso dizer, outras
comparações e outros livros poderiam ser chamados a comparecer
nessa mesma chave — é que, para além das diferenças evidentes, ha-
via uma coerência de perspectivas que dotava o empreendimento (ou
o programa) da micro-história de uma coerência de fundo. Portanto,
aquela linha fronteiriça entre duas maneiras de se pensar e fazer a
micro-história era, de fato, constantemente turvada. Se tomarmos
apenas os livros publicados na coleção “Micro-histórias” — organi-
zada por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi entre 1981 e 1992 —, ve-
remos a presença tanto de trabalhos que seguem muito de perto o
programa de uma microanálise histórica das redes sociais, como o
livro de Raul Merzario sobre as estratégias matrimoniais da diocese
de Como entre os séculos XVI e XVIII, até livros decididamente
voltados para o estudo do imaginário e da crença, como o de Alain
Boureau sobre a lenda medieval da papisa Joana, traduzido para o
italiano e proposto a ser lido sob o rótulo de “micro-história”.17 Não

17
Ver Merzario (1982); e Boureau (1991).

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vou continuar a lista, mas o que quero não é apenas reafirmar o cará- 143
ter aberto e experimental da micro-história, mas pensar um pouco

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
como o seu programa original foi também modificado e tornado
mais complexo com o tempo.
Aqui, vale a pena voltar um pouco à relação problemática que o
debate sobre a micro-história teve com o panorama cambiante dos
estudos históricos durante os anos 1980.
Creio que não se pode ignorar que alguns dos caminhos tomados
pelas pesquisas dos micro-historiadores estão diretamente ligados a
essas transformações. O erro, nesse caso, é tentar simplesmente en-
caixar a micro-história em um quadro mais geral e homogêneo de
“virada cultural”. Olhar o debate por esse ângulo — um ângulo
externo — é antes de tudo multiplicar os mal-entendidos.
O que se pode identificar de saída é uma clara reação ao rumo
que o debate histórico tomou a partir da década de 1980. De um
ponto de vista interno, acredito que as questões propostas pelo tra-
balho de Ginzburg não deixaram de ter algum efeito sobre as for-
mulações gerais do debate. As diferenças e aproximações foram ne-
gociadas nos resultados das próprias pesquisas dos historiadores e
historiadoras que tiveram sua formação sob essa inspiração. Por ou-
tro lado, a abertura ao debate internacional exigiu uma readequação
das discussões às novas questões que se impunham. Há também uma
dinâmica institucional da qual vale a pena falar brevemente.
Os estudos de história nas universidades italianas permaneceram
fortemente impermeáveis à micro-história, enquanto o interesse
pela micro-história fora da Itália apenas crescia. A circulação de
pessoas tem aqui um papel fundamental, não sendo uma informação
secundária considerar que vários dos ex-alunos dos micro-historia-
dores italianos foram fazer seus doutorados fora da Itália, na École
des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, bem como na In-
glaterra e nos Estados Unidos, onde mais tarde muitos se inseriram
profissionalmente. Assim, os temas e problemas teóricos em circula-
ção no debate histórico dos anos 1980 entraram no horizonte das
pesquisas que se inspiravam com maior ou menor intensidade no

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144 debate italiano sobre a micro-história. Também a mobilidade dos
historiadores garantiu que o programa da micro-história fosse refle-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tido e, eventualmente, reavaliado em confronto com os debates mais


amplos da disciplina.
O exemplo em que gostaria de me deter brevemente é mais uma
vez o de Giovanni Levi. Na introdução de A herança imaterial, Levi
assinala a oportunidade que teve de discutir seu livro nos seminários
do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, entre 1983 e 1984.
É verossímil pensar que foi essa temporada americana que o colocou
em contato com o debate corrente que se travava então entre os es-
tudos históricos e a antropologia cultural e interpretativa. A referên-
cia fundamental aqui é, naturalmente, Clifford Geertz, que fazia
parte do corpo permanente do instituto.
Ora, há pelo menos duas circunstâncias nas quais Levi se dedica
a explorar suas diferenças com a história interpretativa que brota
desse debate com Geertz. A primeira delas é em uma resenha muito
crítica sobre o livro recém-publicado de Robert Darnton, O grande
massacre dos gatos. O título da resenha era precisamente “Os perigos
do geertzismo”.18
Nesse texto, Levi criticava fortemente os pressupostos intelectuais
de Darnton, sobretudo sua proposta de aproximar a investigação his-
tórica do modelo hermenêutico de Geertz. Acompanhando o antro-
pólogo americano, Darnton propunha o modelo de uma disciplina
interpretativa que, baseada na leitura intensa de episódios singulares,
fosse capaz de atravessar a opacidade do passado, reconstituindo seus
significados historicamente localizados. O eixo central do livro era a
metáfora da “leitura”: a ideia de que o mundo social deveria ser en-
carado como um texto a ser decifrado.
A crítica de Levi apontava exatamente para a debilidade intelec-
tual de uma análise histórica construída nessas bases. A abordagem
hermenêutica deixava em aberto o problema de um conhecimento

18
Publicado originariamente em Quaderni Storici em 1985. Para a versão em por-
tuguês, ver Levi (1999).

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empiricamente mais sólido sobre o passado, dando espaço para o 145
relativismo historiográfico. Quanto à metodologia em si, os resulta-

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
dos também não apresentavam novidade: a atenção ao caso indivi-
dual, a descrição densa não resultavam em um verdadeiro ganho
cognitivo, apenas ilustravam um contexto estático. O episódio em si
era lido através de um vocabulário já conhecido.
Poucos anos depois, Levi (1992:149) retomou a discussão acerca
da história interpretativa, desta vez em um balanço seu sobre a mi-
cro-história. O julgamento, nesse caso, era mais claro:

Parece-me que uma das principais diferenças de perspectiva en-


tre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a últi-
ma enxerga um significado homogêneo nos sinais e símbolos
públicos, enquanto a micro-história busca defi ni-los e medi-los
como referência à multiplicidade das representações sociais que
eles produzem. Portanto, o problema não é simplesmente aque-
le do funcionamento do intelecto. Há também o perigo de se
perder a visão da natureza socialmente diferenciada dos signifi-
cados simbólicos e consequentemente de sua qualidade em par-
te ambígua.

Ora, a ênfase no caráter descontínuo, ambíguo e fragmentado das


representações (e, do mesmo modo, da própria experiência humana),
no caráter limitado e incompleto da sua “racionalidade”, comple-
mentam a crítica a certa forma de compreender a cultura, a lingua-
gem e o significado, que seriam marcados por uma tendência a pro-
curar a homogeneidade e a descrevê-la em termos normativos. O
projeto da microanálise — da redução da escala de observação com o
fim de explorar uma realidade não acessível de outra forma — apon-
tava para uma maneira distinta e muito mais complicada de enxergar
também o mundo dos significados.
Creio que essa polêmica é particularmente reveladora. A virulên-
cia da crítica de Levi a Darnton e, através dele, a Clifford Geertz e a
Georg Gadamer deve ser lida contra o fundo dos vários paralelos que

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146 se pode enxergar entre a micro-história e a proposta da “descrição
densa” formulada por Geertz,19 bem como a toda uma maneira de
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

pensar a “história cultural” que acabava por se inspirar nessa mesma


proposta.
O que essa atenção crítica à história interpretativa sugere é que
Levi reconhecia que havia questões importantes ali, questões para as
quais a micro-história — pelo menos aquela vertente da micro-his-
tória que ele e Grendi haviam defendido — talvez não tivesse dado
a atenção devida. Havia uma pergunta intelectualmente legítima ali,
ainda que a resposta — a dada por Darnton, por exemplo — não
fosse convincente.
Essa preocupação marcaria, a meu ver, muitas das reelaborações
que a micro-história sofreu ao longo dos anos. Sem dúvida é uma
preocupação fundamental nas discussões de Ginzburg, por exemplo,
que a partir de outras questões também se engajou no debate sobre
os limites da história das representações e a necessidade de levar a
sério o desafio daqueles que achavam por bem dissolver os limites
entre a história e a ficção.20
Mas essa foi também uma preocupação de Edoardo Grendi, que
manifestou isso claramente em seu balanço sobre a micro-história
publicado no livro organizado por Jacques Revel, Jogos de escalas.
Nele, Grendi (1998:261) reconhece o impacto das questões coloca-
das pela “virada cultural” sobre o seu próprio programa historiográ-
fico, apontando a necessidade de incorporar a preocupação com as
“formas expressivas” e o “problema da interpretação histórica”.
A geração de historiadores que se formaram sob o impacto da
micro-história talvez tenha sido responsável por enfrentar mais de
perto em suas próprias pesquisas esse diálogo. Reconhecemos isso
em trabalhos como o de Maurizio Gribaudi (1987) sobre os traba-

19
E, de fato, mais de um comentador da micro-história enfatizou essa suposta
“dívida” da micro-história para com a antropologia interpretativa de Geertz, como
é Ronaldo Vainfas (2002). Mesmo algumas passagens do autorretrato de Levi dis-
cutindo sua própria versão da micro-história sugerem essa ambiguidade (que, a
propósito, me parece equivocada). Ver, por exemplo, Levi (1992:141).
20
Ver, por exemplo, Ginsburg (2002 e 2007b).

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lhadores de um bairro operário de Turim no entreguerras — um 147
trabalho marcado por uma verdadeira desconstrução da ideia de

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
uma “classe trabalhadora” homogênea e dotada de interesses co-
muns e coerentes, explorando amplamente o papel construtivo das
linguagens políticas. Temas igualmente presentes no livro de Simo-
na Cerutti (1992) sobre o nascimento de uma linguagem corporati-
va no Piemonte do século XVII. Poderíamos acrescentar outros li-
vros, como o de Oswaldo Raggio (1990), colega e orientando de
Edoardo Grendi em Gênova, sobre os rituais de violência e de poder
na vida familiar e comunitária da Fontanabuona, na Liguria, ou
ainda o livro de Angelo Torre (1995) sobre o consumo das devoções
no Piemonte moderno. Também os estudos de gênero passaram a
ocupar aí um lugar importante, como nos trabalhos de outras histo-
riadoras ligadas à micro-história, por exemplo Gianna Pomata e
Sandra Cavallo.21
Poderia citar outros, mas o que essa breve lista quer dizer é que os
temas da cultura (e da pluralidade das culturas), dos significados, da
dimensão ritual e simbólica, da subjetividade, que pareciam aspectos
negligenciados pelo programa de microanálise social colocado ini-
cialmente em circulação por Grendi e Levi, acabaram sendo incor-
porados ao universo de temas e questões centrais da micro-história.
O debate em torno dessas questões, bem como sobre o alargamento
não só do leque de interesses dos micro-historiadores, mas das cate-
gorias de análise e dos procedimentos interpretativos, continua.
Muito recentemente, Simona Cerutti (2004:17-40), uma das
principais responsáveis por levar adiante a pesquisa micro-histórica
nos últimos anos, debruçou-se sobre essas mesmas questões e for-
mulou uma autocrítica muito articulada tanto à forma pela qual a

21
Pomata vem trabalhando com temas relacionados ao gênero e à história da saúde
desde o fi nal dos anos 1980. O primeiro livro de Sandra Cavallo (1995) é um exem-
plo dessa convergência entre microanálise e estudos de gênero. A temática do gêne-
ro estava presente, de todo modo, na discussão dos Quaderni Storici (a revista que
reuniu a maior parte das colaborações dos micro-historiadores) desde o início dos
anos 1980, como atesta a coletânea organizada por Edward Muir e Guido Ruggie-
ro, Sex & gender in historical perspective (1990).

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148 chamada micro-história cultural ao estilo de Ginzburg ocupava-se
dessas questões quanto à micro-história social que ela mesma havia
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

encampado em seu trabalho anterior. Para Cerutti, os próprios mi-


cro-historiadores sentiram a necessidade de superar essa dicotomia
artificial entre uma perspectiva voltada estritamente para o estudo
das relações sociais e outra dedicada ao estudo dos modelos cultu-
rais. Para ela, a necessidade de uma nova contextualização cultural
brota da pesquisa das próprias relações sociais, sendo possível “ana-
lisar melhor significados profundos (e recônditos) se nós não desco-
nectarmos a análise dos modelos culturais da análise do comporta-
mento, mas os mantivermos juntos”. Afi rma, portanto, “que é o
comportamento que explica a eficácia e a vitalidade dos modelos
culturais”.22
O objetivo de Cerutti de pensar uma convergência possível de
interesses entre as duas exigências intelectuais que moldaram a mi-
cro-história ilustra o caráter dinâmico de um debate que, aparente-
mente, está longe de ter visto seus últimos momentos. Essa vitalida-
de que a micro-história ainda parece possuir está ligada ao caráter
experimental que ela desenvolveu desde os seus primórdios e que
também se expressa em uma saudável “autossubversão”. Como se
sabe, boa parte do “senso comum historiográfico” contra o qual a
micro-história se insurgiu foi também bastante alterado. As tradi-
cionais hierarquias de relevância foram desafiadas por histórias que
chamavam a atenção para os grupos marginais, as histórias locais, as
histórias ligadas às identidades étnicas, sexuais, de gênero. A micro-
história foi um dos vetores dessa transformação no debate contem-
porâneo, ao mesmo tempo em que se viu transformada por ele. A
pluralização de temas, a emergência de novas categorias de análise e
de novos diálogos disciplinares significaram também o aparecimen-
to de novas contradições e simplificações que reestruturaram o ho-
rizonte de crítica e reflexão histórica. A inflexão recente que parece
representar uma revisão do quadro teórico que fez triunfar a “virada

22
Cerutti, 2004:19.

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cultural”23 pode sugerir que as questões levantadas pela micro-his- 149
tória ainda podem ter muito a dizer sobre os caminhos do debate

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
historiográfico nos próximos anos.
Chegando às últimas considerações deste texto, seria importante
concluir com uma constatação, que toca o terceiro ponto que eu
havia me proposto a discutir nas primeiras páginas do capítulo.
No início dos anos 1990 — época em começa a circular a palavra
“micro-história” no Brasil —, a atenção a esse debate italiano era
muito seletiva e, ao mesmo tempo, excessivamente impressionista e
lacunar. Em contraste, o debate sobre a micro-história parece hoje
muito mais rico e atento às sugestões e propostas que a própria pes-
quisa dos micro-historiadores produziu ao longo dos anos. Ainda
que se possa lamentar a ausência de traduções de muitos livros e
textos importantes sobre a micro-história — e a centralização da
atenção e da leitura, que daí deriva, em um pequeno número de
autores selecionados —, não há dúvida de que o debate brasileiro
vem conseguindo articular as sugestões de pesquisa oriundas dos
trabalhos dos micro-historiadores com as próprias conquistas da his-
tória social e cultural no Brasil dos últimos anos, que passou por
uma rearticulação de problemas e um vigor renovado de pesquisa
certamente notáveis.
A primeira recepção da micro-história coincide com a própria
recepção de um debate mais amplo sobre a historiografia que se in-
ternacionalizava. Esse foi o contexto que permitiu, em meados da
década de 1980, o contato com um conjunto amplo de leituras que
vinham traduzidas para o português e lidas, pelo menos nos cursos
universitários, de modo quase simultâneo: a tradução maciça de his-
toriadores franceses ligados aos Annales, como Jacques Le Goff e
Georges Duby, bem como historiadores ingleses e anglo-america-
nos, como Edward Thompson, Eugene Genovese e Natalie Davis,
além de todo um leque de discussões que brotavam da fi losofia, da

23
E aqui, como referência desse quadro de revisão, aponto para os livros de Geoff
Eley (2008) e William Sewell Jr. (2005).

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150 antropologia ou da sociologia — como é o caso, por exemplo, de
Michel Foulcault e, mais tarde, Pierre Bourdieu, que tiveram todos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

enorme impacto sobre as discussões dos historiadores brasileiros.


Pode-se dizer que esse foi também um momento em que a historio-
grafia brasileira descobriu com mais intensidade seu próprio cami-
nho para uma “história social”, isto é, uma história simultaneamen-
te em sintonia com o debate internacional e disposta a intensificar
suas relações com as outras disciplinas das ciências humanas.
A recepção dessa impressionante massa de textos, ideias e suges-
tões de pesquisa foi mediada — como talvez não pudesse deixar de
ser — por leituras parciais e aproximações inesperadas. Esse é o en-
quadramento que permite compreender como a micro-história
pode se tornar não só sinônimo da obra de Carlo Ginzburg (tradu-
zido conspicuamente a partir de 1987), mas uma das modalidades de
uma “história cultural” ou “história das mentalidades” cujos signi-
ficados permaneciam suficientemente ambíguos para permitir com-
binações de toda ordem.
A micro-história, inicialmente capturada como parte de uma
constelação mais ampla de sugestões de pesquisa, foi tomando con-
tornos mais claros. De todo modo, a inspiração que o prefi xo “mi-
cro” sugeria acabou ainda por reforçar um quadro — que também
emerge dos desdobramentos do debate historiográfico dos anos 1980
e 90 — que parecia justificar uma atenção às singularidades e aos
estudos de caso, bem como uma história “a partir de baixo”.
A micro-história, nesse contexto, acabou também por reforçar
algumas das transformações mais significativas dos estudos históri-
cos no Brasil dos últimos anos. Se nos mantivermos apenas nos re-
sultados coletivos mais evidentes, cabe citar os estudos sobre a histó-
ria da escravidão e da pós-emancipação, os estudos de história social
do trabalho, bem como aqueles sobre o funcionamento do antigo
regime na América portuguesa, e todo o conjunto de questões que
tratam da renovação da história social e econômica.
Novas publicações, como o livro organizado por Jacques Revel
em 1996 e publicado quase em seguida no Brasil — Jogos de escalas; a

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experiência da microanálise — reunindo contribuições de historiadores 151
e antropólogos italianos e franceses sobre a micro-história em sua

PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES
versão “social”, certamente ajudaram a tornar o debate sobre a mi-
cro-história mais rico e mais fundamentado.
A publicação do livro de Giovanni Levi — A herança imaterial —
em 2000 tanto atesta a atenção aos desdobramentos da micro-histó-
ria para além da referência da obra de Ginzburg, como acabou por
acrescentar um elemento novo no quadro da recepção do debate no
Brasil, fazendo circular um texto que, entre outras qualidades, tem
o mérito de apresentar um exemplo de microanálise histórica cujos
procedimentos e estratégias de investigação são perfeitamente capa-
zes de instruir trabalhos do gênero que abordem temas de pesquisa
mais próximos das possibilidades oferecidas pelos arquivos brasilei-
ros. Por outro lado, manifesta-se o risco — já presente, pontual-
mente, em alguns dos debates recentes — de tomar a “microanálise”
como um procedimento com fi m em si mesmo, deixando de lado o
aspecto essencial da proposta, isto é, ser uma estratégia de pesquisa
colocada a serviço da investigação de um problema historiográfico
de amplo fôlego.
O que se atesta, portanto, é que o interesse pela micro-história
não deixa de crescer entre os pesquisadores brasileiros. Apesar de
esse interesse ainda ser mediado por traduções seletivas, que tendem
a ignorar os desenvolvimentos (mesmo contraditórios) do debate
sobre a micro-história, tanto na Itália quanto na França, ele também
testemunha aquela característica da micro-história enfatizada por
Giovanni Levi,24 que é sua capacidade de formular perguntas que
puderam ser generalizadas a ponto de servir de inspiração e contra-
ponto aos avanços recentes da história social no Brasil.
As transformações recentes no horizonte das discussões historio-
gráficas apontam para uma reconfiguração de temas e questões que
terão certamente impacto sobre o modo pelo qual a micro-história

24
Por exemplo, na entrevista dada a Diego Sempol na Costa Rica. Ver Levi
(1998:16-17).

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152 vem sendo lida no Brasil. O confronto entre esse quadro, o próprio
desenvolvimento das pesquisas inspiradas na micro-história realiza-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

das por historiadores brasileiros e as contribuições que o debate so-


bre a micro-história continua a fazer sugerem que, na verdade, o
debate está apenas começando.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

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PARTE III

Exercícios de micro-história

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7
O capitão João Pereira Lemos
e a parda Maria Sampaio:
notas sobre hierarquias rurais costumeiras
no Rio de Janeiro do século XVIII*
João Fragoso

Entre 1601 e 1800 o tráfico atlântico de escravos trouxe para as Amé-


ricas cerca de 5.609.869 escravos, dos quais aproximadamente 39% para
o Brasil, tornando-o o principal porto de destino daquele negócio.1
Assim, ao longo de dois séculos, o sistema atlântico luso, com suas prá-
ticas de resgate nas costas africanas, arrematações de contratos e econo-
mia de mercês, expedientes políticos da monarquia corporativa nada
regulados pelo mercado,2 conseguiu superar as importações tumbeiras
custeadas pelo capital mercantil-bancário de Londres e Amsterdã.


Pesquisa fi nanciada pelo CNPq.
1
Ver Eltis, Richardson, Berhens e Florentino, em <http://wilson.library.emory.edu>.
2
Sistema pelo qual a coroa concedia o privilégio do comércio de cativos em de-
terminadas áreas da costa africana. Por exemplo, no século XVI, os moradores de
Cabo Verde tinham tal exclusividade na área da Senegambia. Ver Teixeira (2005,
t.II); e Serrão e Marques (2005:85-89). Através da economia do dom, os serviços
prestados à monarquia, no Atlântico e em outras paragens, eram pagos com a con-
cessão de hábitos militares, tenças, monopólios etc. Sobre o tema, ver Xavier e
Hespanha (1993); e Fragoso (2000).

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158 No Caribe inglês, aqueles cativos, conforme Blackburn (2003) e Hig-
man (2000), foram usados nas chamadas plantations integradas — protó-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tipos do sistema manufatureiro europeu —, dirigidas pelo capital absen-


teísta situado em Londres. Na América lusa, os engenhos de açúcar, ao
contrário das imensas gangs de escravos de Barbados, se desdobravam nos
chamados partidos de canas, explorados em geral pelo dono do engenho
e por lavradores com seus parentes e escravos. Em 1795, o Engenho de
São João Batista de Sapopema, um dos 13 situados em Irajá, freguesia
rural da então principal praça comercial do Atlântico Sul português, con-
tava com 113 cativos responsáveis por cerca de um quarto do valor das
colheitas daquele ano. Os demais três quartos do açúcar, como se vê na
tabela 1, foram colhidos principalmente dos 14 partidos de cana de lavra-
dores livres, alguns dos quais consanguíneos e compadres dos senhores
do engenho, como Miguel Cardoso Castelo-Branco, primo e cunhado
do capitão João Pereira Lemos, senhor de Sapopema, e o tenente Antonio
Gomes de Abreu, compadre da mesma família senhorial. Um fenômeno
que transformava essa centenária empresa num empreendimento em que
as relações econômicas se confundiam com as parentais. Entretanto, a
tabela 1 também nos informa que, além daqueles lavradores, existiam os
chamados partidos dos pretos, ou seja, lavouras de cana nas mãos de 11
escravos da fazenda, como o cabra José Batista. A família de Batista, a
exemplo de outros integrantes dessa elite das senzalas, mantinha também
relações de parentesco ritual com a família senhorial.

TA B E L A 1
Distribuição dos partidos de cana entre diferentes estratos sociais:
Engenho São João de Sapopema

Partidos de cana No de lavradores Valor %


Do engenho 115$200 24,3
Dos lavradores livres 14 332$500 70,2
Dos libertos 2 5$200 1,1
Dos pretos da fazenda 11 20$500 4,3
Total 27 473$400 99,9
Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus, 1795, no 9.225, cx. 872.

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Não sei até que ponto as relações sociais vividas em Sapopema — 159
acesso de escravos a partidos de cana, presença de uma elite nas sen-

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


zalas, combinação de parentesco e economia — foram comuns a ou-
tros engenhos da região e da América lusa. Mas com certeza
Sapopema se distanciava daquilo que conheço sobre a plantation inte-
grada de Barbados. Assim como, também com certeza, Sapopema não
era uma colônia de marcianos encravada na economia exportadora e
escravista do Rio de Janeiro. Tenho conhecimento de outras fazendas
do século XVII e XVIII onde os escravos tinham acesso a plantações
de cana, e pardos livres tinham a posse de escravos.3 Sapopema, po-
rém, é a que apresenta maiores detalhes. Seja como for, as normas
sociais desse engenho foram produzidas conforme os parâmetros da
sociedade considerada. Para tanto basta lembrar que seu dono era ca-
pitão de ordenanças, portanto tinha legitimidade para exercer o man-
do local. Da mesma forma, sua família, de longa data senhorial, estava
envolvida em uma extensa rede parental da nobreza da terra da capi-
tania. Sapopema vivia ainda a ideia de autogoverno das casas, concei-
to presente na concepção da monarquia corporativa lusa.
Nas páginas a seguir procuro, através de fragmentos das trajetó-
rias de João Pereira Lemos, de José Batista e de outros sujeitos da
mesma capitania, contribuir para o entendimento da lógica de fun-
cionamento das empresas açucareiras do sistema atlântico luso,
aquelas que surgiram de mecanismos identificados com a economia
das mercês, a ideia de autogoverno etc. Para tanto, procuro combi-
nar a micro-história italiana (trajetórias de vidas como ponto de
encontro de diferentes relações sociais e, portanto, de outras vidas)
com a longa duração, esta entendida como uma temporalidade que
ultrapassa as existências de João Pereira e de seu cabra. Com isso, a
ideia é recuperar um antigo e bom chavão da história: capturar mu-

3
Ver escritura de entrega que faz Vicente João da Cruz ao capitão-mor Agostinho
de Carvalho, da fazenda do visconde Asseca, 1692, 1o Livro de Notas do Tabelião de
Campos. Agradeço a Sheila de Castro Faria a consulta dessa fonte. Sobre o início do
século XIX, ver inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher,
Maria Januária Galvez Palença, 1818, cx. 3622, DEP 511. Arquivo Nacional do Rio
de Janeiro.

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160 danças e permanências na vida social ao longo do tempo. Na minha
época de estudante, a professora Yedda Linhares gostava sempre de
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

repetir uma ideia de Pierre Vilar, algo como “ao historiador cabe o
estudo das mudanças principalmente das estruturas sociais, daí a ne-
cessidade de investigações sobre a longa duração”. Essa ideia talvez
esteja em desuso, mas acredito que cabe ao profissional de história o
estudo do tempo social e, nessa ótica, das mudanças e permanências.
No texto a seguir, minha intenção, como afi rmei, é estudar até que
ponto a chamada plantation açucareira brasileira do Setecentos seguia
a ideia de autogoverno das casas, um conceito caro à concepção cor-
porativa. Com esse intuito, procuro compreender os comportamen-
tos dos moradores — senhores, escravos e pardos — das plantations
no sistema normativo considerado.4 Escolhi duas freguesias — Ira-
já e Jacarepaguá — e, através dos registros paroquiais, procurei fazer
uma primeira aproximação das estratégias de vida de mais de 2 mil
famílias (casais e solitários) de diferentes status sociais, distribuídas
entre 1700 e 1800.

Capitão João Pereira Lemos — descendente postiço de conquistadores


e senhor de São João de Sapopema — e uma hierarquia social costumeira
no Antigo Regime nos trópicos
Na época em que João Pereira Lemos nasceu, no início do século
XVIII, a capitania do Rio de Janeiro estava prestes a se tornar a prin-
cipal praça comercial do Atlântico Sul escravista, dominada por nego-

4
A principal documentação utilizada foi a coleção dos registros paroquiais de batis-
mos do Rio de Janeiro, especialmente os das freguesias de Irajá e Jacarepaguá. Trata-
se de uma documentação seriada, o que permite acompanhar as decisões de escravos,
senhores e pardos, entre outros, quanto às suas alianças na vida (casamentos e com-
padrios); reconstruir redes parentais, o vocabulário social usado pelos fregueses, per-
guntas atinentes a uma antropologia da aldeia. Através dos registros também é pos-
sível ter ideia da dimensão dos plantéis, da taxa de fecundidade e das decisões dos
casais quanto a tais taxas etc. Essa fonte serviu como espinha dorsal, e a ela foram
incorporadas outras, como inventários post mortem, genealogias etc. Tudo faz parte de
um pesquisa minha em andamento — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada
pelo CNPq.

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ciantes de grosso trato e seus negócios. Porém, a cidade ainda guarda- 161
va traços da velha sociedade agrária seiscentista. Em outras palavras,

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


no primeiro quartel do século XVIII, prevalecia no recôncavo e cer-
canias uma economia escravista açucareira, e os postos honrosos eram
ocupados por senhores saídos de uma complexa rede de parentesco
autodenominada nobreza principal da terra. Isso porque se viam como
descendentes de conquistadores que, no século XVI, tinham vencido
os invasores franceses na região e, depois, construído a sociedade local
conforme os preceitos da monarquia e do cristianismo.5
João Pereira Lemos, no registro de batismo de seus fi lhos, aparece
como exposto na casa do padre Luis Pereira Lemos, senhor de Sapo-
pema. Porém, a condição de exposto não o impediu de se tornar
dono da fábrica. Desse modo, tal engenho escravista passara pelo me-
nos por duas gerações sem ser fragmentado, fenômeno com todo um
significado particular para seus moradores, escravos ou não. Tal esta-
bilidade permitiu aos escravos e pardos formarem famílias, escolhe-
rem aliados e afinarem estratégias num mundo escravista marcado
por incertezas.
Essa estabilidade, por seu turno, provavelmente resultara de uma
prática comum entre soldados profissionais (tropa paga e/ou integran-
te de ordens militares) a serviço da monarquia lusa no Atlântico.6 O
avô materno de Luis Pereira e bisavô postiço de nosso personagem,
Francisco de Lemos de Faria, aportou no Rio de Janeiro no segundo
quartel do século XVII. Natural de Fayal e descendente das famílias
fidalgas da casa real — a Abreu Lima, a Furtado de Mendonça e a
Vieira Fialho —, chegara à América na esquadra aprestada por seu tio,
o comendador Jorge Lemos de Bitencourt, com o intuito de povoar o
Maranhão, após a conquista feita por Jerônimo de Albuquerque Ma-
ranhão. Em razão dos serviços prestados no norte, Francisco Lemos
recebeu as comendas da Ilha de Santa Maria, São Miguel de Cássia e
do Termo dos Palhaes.7 Com tais insígnias passou ao Rio de Janeiro,

5
Ver Fragoso (2007), v. 1, p. 33-120.
6
Ver Olival (2001).
7
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Seção de Obras Raras, Ms. 5, 3, 13-15.

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162 onde se casou com d. Isabel Pereira de Carvalho, filha de Gaspar Pe-
reira de Carvalho e de Margarida Gomes de Oliveira, senhores do
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Engenho de Pendotiba, região situada no recôncavo da Guanabara,


porém do lado oposto ao de Irajá. Assim, a família Pereira Lemos, a
exemplo de outras tradicionais da capitania vindas da Madeira e dos
Açores, foi produto de algumas experiências do Atlântico luso nos
séculos XVI e XVII, quais sejam:
a descendência da clientela do duque de Viseu, que no século XV,
em nome de seu amo e a serviço de sua majestade, ocupou o se-
nhorio marítimo Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde;
o conhecimento, através da experiência na Madeira, do funcio-
namento das plantations de açúcar baseadas no trabalho escravo e
em partidos de cana distribuídos entre lavradores livres;
o uso de recursos provenientes de tais empresas no serviço ao rei
nas campanhas no norte da África contra o Islã como forma de
manter a grandeza de casas fidalgas; 8
a ideia de casa e, com ela, a de autogoverno — este entendido
como espaço social no qual existia um chefe e, sob sua tutela,
uma família extensa constituída por consanguíneos, parentes ri-
tuais, clientes, criados e agregados; e
a crescente dificuldade de formação de novas casas, em razão da
escassez de terras, coroada com o sistema do morgadio.

Em outras palavras, João Pereira, a princípio, resultava de um


ethos da fidalguia, que percebia no serviço ao rei, à custa de sua pró-
pria fazenda, a forma de manter e acrescentar grandeza e honra às
suas casas. Fenômeno que se traduzia, nos séculos considerados, na
circulação desses fidalgos pelo ultramar na defesa dos interesses da
monarquia, fosse na luta contra o Islã ou na ocupação de áreas ame-
açadas.9 Em troca desses serviços, tais fidalgos recebiam a gratidão

8
Sousa, 2005, t. I; e Serrão e Marques, 2005:140-150.
9
Um bom exemplo disso são as folhas de serviço dos capitães de fortaleza ou da-
queles que adquiriam ordens militares. Nesse ethos existia uma hierarquia das áreas
preferidas para a prestação do serviço. Ver Cunha e Monteiro (2005:191-252).

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régia, além de mercês (comendas, terras, ofícios etc.), e a possibili- 163
dade de formarem uma casa. Por isso a chegada às amplas terras

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


americanas dos avós postiços de João, assim como de outros con-
quistadores.
Nosso personagem tinha por orientação valorativa itens como
uma hierarquia estamental e a formação de uma casa, que provavel-
mente contribuíram para o casamento de seus bisavós postiços.
Francisco de Faria Lemos pertencia à fidalguia; portanto, sua posi-
ção social era reconhecida em qualquer canto do império, pois fora
concedida pela monarquia, sendo, desse modo, algo cobiçado, em
meados do século XVII, por boa parte dos moradores do Rio de
Janeiro. Entre eles, provavelmente, o sogro Gaspar Pereira Lemos,
cuja autoridade, apesar de possuir um engenho de açúcar, tinha os
limites do poder local: a república. Em contrapartida, para Lemos
Faria, vindo do distante Maranhão, aquele casamento significava o
ingresso em uma nova república e em sua respectiva estratificação
local, além da chance de criar sua própria casa, algo que talvez não
mais fosse possível em Faial, com o seu sistema de morgadio.
No século XVII, como no seguinte, pode-se encontrar consór-
cios maritais em que fidalgos da casa real ou portadores de hábitos
militares casam-se com fi lhas de donos de engenho e, com isso,
adquirem a possibilidade de construir suas próprias casas e galgar
uma posição cimeira na hierarquia social. Talvez este tenha sido o
caso do contrato entre o fidalgo da casa real Egaz Muniz Telo, da
Madeira, e os Pimenta Carvalho em 1667; dos Andrade Soutomaior
com Castro Morais (o casamento com o fi lho do mestre de campo
Gregório de Castro Morais) e com Francisco Camelo Pinto de Mi-
randa; de Gregório Nazianzeno da Fonseca com Bartolomeu da Si-
queira Cordovil, familiar do Santo Ofício e secretário da capitania;
de José Barreto de Faria e Sebastião Martins Coutinho com os fi lhos
de Egas Moniz da Silva, fidalgo da casa real.10

10
Cf. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada
pelo CNPq. Ver também Rheingantz, 1965, v. 1, p. 92, 165 e 217.

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164 Parece que essa sociedade americana, baseada no trabalho escravo
e em plantations, estimava tais consórcios e os valores por eles repre-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

sentados — leia-se Antigo Regime. Valores que, portanto, ultrapas-


savam as fronteiras da baía da Guanabara.11
Desse modo, a hierarquia da qual saíra João Pereira Lemos, quando
da fundação da cidade no Quinhentos, resultara dos serviços presta-
dos à coroa e à república, e suas orientações valorativas tinham um
quê de aristocráticas. Contudo, a elite senhorial que se formara na
América tinha as suas diferenças quanto às da Madeira e do reino.
Nem todos os fi lhos de fidalgos da casa real ou da nobreza principal
da terra serviram ao rei em longínquas paragens, como fizeram os da
Madeira. Assim como, na América, não prevaleceu entre os melhores
da terra o sistema de centralidade da autoridade familiar na forma do
morgadio. Para tanto é exemplar o caso dos Correa Vasqueanes, cujos
bens foram partilhados entre os herdeiros e, isso, sem pôr em perigo o
poder da família ou sua unidade política. Na verdade, houve a multi-
plicação de casas. Nesse ponto, temos no sistema de transmissão uma
das diferenças em relação às práticas aristocráticas do reino e das ilhas.
Na América, o morgadio não era imprescindível para manter a gran-
deza das famílias e, com o conjunto delas, a da monarquia. Porém,
prevalecia a ideia de casa. Na verdade, na América, as casas puderam
proliferar sem porem em risco a monarquia ou a elite local.
Por seu turno, ao que parece, na América prevaleceu uma hierar-
quia cujas posições cimeiras foram ocupadas por famílias de antiga e
conhecida nobreza, vindas da Conquista, e por fi lhos de fidalgos da

11
Um exemplo emblemático e talvez limite de tal ethos aristocrático é dado pela
trajetória do capitão Francisco de Lemos Peixoto, natural do Rio de Janeiro, neto
de Francisco Lemos de Azevedo, alcaide da cidade e senhor de engenho. Lemos
Peixoto serviu em Massagano e Luanda, retornando depois ao Rio de Janeiro, onde
recebeu em 1653 a ordem de Aviz. Ou ainda o caso de Salvador Correa Vasqueanes,
fidalgo da casa real, fi lho de Duarte Correa Vasqueanes (governador do Rio de Ja-
neiro na década de 1640 e dono de engenhos de açúcar). Salvador Correa lutou
contra os holandeses em Recife e serviu no Castelo de São Jorge de Mina, sendo por
essas atividades agraciado com uma tença por ano retirada do almoxarifado da ca-
pitania do Rio de Janeiro, vindo depois a se fi xar na Bahia. Arquivo do Instituto
Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), Inventário dos livros das portarias do
Reino, v. 1, p. 122, e v. 2, p. 482 (ARM. 34-8), p. 122.

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casa real recém-chegados à América. O hábito da Ordem de Cristo 165
por si só ou o foro de fidalgo da casa real não garantia o mando na

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


sociedade. O que não invalida o que escrevi anteriormente de alguns
potentados plebeus procurarem maior honra junto ao reino mediante
casamentos e genros fidalgos. Nos trópicos foi construída outra hie-
rarquia de mando.
Em outras palavras, vários dos conquistadores do Rio de Janeiro
eram velhos soldados, fidalgos e/ou cavaleiros das ordens milita-
res.12 Esses conquistadores fi zeram escolhas diferentes dos da Ma-
deira e do reino. Eles e/ou seus descendentes deixaram de circular
no império para defender o rei e o cristianismo. Com essa opção,
abriram mão desse aspecto do ethos aristocrático e passaram a com-
por uma elite local, com suas insígnias e normas. Mas alguns valores
vindos do reino permaneceram, entre os quais:
o de casa, sendo esta gerida por um capo, cuja autoridade, por
exemplo, se traduzia na possibilidade de dar liberdade a escravos
e de conceder acesso à terra;
o de uma hierarquia estamental, na qual recursos eram subtraídos
da sociedade e usufruídos por algumas poucas famílias. Por exem-
plo, a terra ser adquirida em sesmaria por conquistadores e fi lhos
e, depois, seu acesso, em grande medida, ocorrer conforme as
normas de tal grupo — através de pactos nupciais, do sistema de
transmissão de patrimônio do grupo, e de relações pessoais de
dependência, no caso dos lavradores e descendentes de escravos.

A ideia de hierarquia estamental estava presente nas regras que


presidiam as relações pessoais na casa: escravos, forros, pardos e li-
vres. Assim como nas classificações sociais rotineiras, que não guar-
davam uma exata correspondência com as do reino, mas decorriam
da conquista da região, tendo algumas de tais classificações, portan-
to, mais de 100 anos em 1700. Através do estudo das freguesias ru-

12
Entre eles, lembro Antonio de Mariz (Ordem de Cristo), Crispim da Cunha, João
Gomes da Silva, Afonso Guimarães, Pedro Gago da Camara etc. Ver Borrego (2008).

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166 rais do Rio de Janeiro é possível recuperar aspectos de tal hierarquia
nas categorias usadas pelos clérigos das freguesias para classificar seus
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

paroquianos. Eles recorriam, entre outros procedimentos, a patentes


de ordenanças, a títulos de dona, a qualitativos jurídicos como forro,
a qualitativos sociais como pardos ou ainda a expressões como “as-
sistente de casa”. Em seguida, procuro combinar tal classificação so-
cial com as informações disponíveis sobre a trajetória de vida e a
genealogia do sujeito considerado. Assim, grosso modo, nos séculos
XVII e XVIII, a população recenseada pelos curas era distribuída
em quatro categorias recorrentes:
“oficiais de milícia”13 para uns poucos homens e “dona” para algu-
mas mulheres. As patentes dos auxiliares não designam, no cotidia-
no municipal, postos milicianos em sentido restrito. Pelo menos na
América, tais postos foram apropriados pela república para sua or-
ganização política, ou melhor, como maneira de viabilizar a estra-
tificação social local conforme as negociações com a coroa e entre
os locais.14 Até princípios do século XVIII, em geral tais categorias
foram empregadas para designar os descendentes dos conquistado-
res da região e responsáveis pela montagem das instituições do An-
tigo Regime na região (municipais e régias). Em função ainda da
conquista, detinham o controle sobre as terras (via sesmarias) e
formavam grandes parentelas com diversas facções sedimentadas
com o tempo.15 A razão de alguns ostentarem títulos e outros não
é mais bem explicada pela história da família do portador do título.
A ostentação da patente de oficial ordenança ou dos auxiliares evo-

13
Para a caracterização das patentes de ordenanças na organização municipal portu-
guesa e da monarquia, ver Costa (1816), na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
14
A partir de fi nais do século XVII, os postos de oficiais de ordenança tinham de
ser confi rmados pelos governadores. Nesse processo, a câmara indicava ou podia
negociar os nomes para desempenhar esse papel. Cf. minha pesquisa em curso —
“Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada pelo CNPq.
15
Em diversos outros trabalhos procurei caracterizar esse grupo, que denominei
nobreza principal da terra (Fragoso, 2007). Gostaria somente de lembrar que essas
famílias absorviam estrangeiros conforme seus interesses. Desnecessário dizer que
as patentes das ordenanças e auxiliares serviam para identificar alguns dos homens
das famílias da nobreza da terra.

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cava a legitimidade social conferida pela freguesia e, ao mesmo 167
tempo, a universalidade da monarquia. Nunca é demais lembrar

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


que a concessão de tal patente dependia da confirmação do rei. Isso
significava que seu portador tinha uma autoridade e um prestígio
que ultrapassam os limites de sua república e era assim reconhecido
como tal em outras repúblicas ou municípios. O título de “dona”
para as mulheres, apesar de corresponder a uma posição de mando
em tal estratificação e, portanto, ser compatível com o de oficial das
ordenanças, diferencia-se deste por um simples motivo: sua conces-
são não era uma prerrogativa da monarquia, do governador ou dos
conselhos palacianos situados em Lisboa, mas dos párocos locais,
sendo concedido como uma deferência às freguesas, aos seus olhos
e aos dos demais paroquianos, de melhor qualidade. Assim, as mo-
ças portadoras de tal honra eram de fato as melhores da terra. Tal-
vez esse seja um dos melhores vocábulos locais para se identificar as
famílias mandatárias da freguesia;
“pardos, forros e libertos” — não consegui ainda precisar as dife-
renças existentes entre tais categorias. Porém, elas designavam
um passado de escravidão, valendo tal classificação para ambos os
sexos. Mais adiante falarei mais sobre o grupo;
“assistentes de casa” — pessoas de ambos os sexos que residiam
sob o teto de um outro personagem, em geral um oficial da orde-
nança ou uma dona. Muitos dos assistentes eram pardos. Por essa
categoria nota-se a ideia de casa para designar pertencimento e
proteção;
“população sem cor” ou aqui apresentados genericamente como
“livres”, muitos dos quais portugueses ou seus fi lhos. Consiste na
maior parte da população registrada nos livros paroquiais de li-
vres. Tais sujeitos aparecem sem qualificativo, ou seja, somente o
nome e apelido. Acompanhando a trajetória de certos pardos e/ou
forros pude verificar que alguns, a certa altura, apareciam sem
cor.16 Cabe ver se essa perda da cor correspondia a uma mudança

16
Para o século XIX, ver Mattos (1993).

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168 no quadro de alianças (casamentos e compadrio) do sujeito con-
siderado. Os sem cor também incluíam ex-forros e ex-pardos.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Assim, essa classificação social sublinhada pelo clérigo até meados


do século XVIII não tinha por base a riqueza material, como o nú-
mero de escravos. Ainda não dei tratamento mais elaborado a essa
classificação; falta, por exemplo, perceber as mudanças no quadro de
alianças e de inserção social, o significado da passagem dos pardos
para os sem cor. Também ainda não me detive em um outro grupo:
os expostos. De qualquer forma, pode-se agregar tais categorias em
três grupos: nobreza da terra (oficiais e donas), livres (os sem cor) e
pardos (forros, pardos, libertos etc).

Alguns traços da dinâmica das freguesias rurais


do Rio de Janeiro no século XVIII
A freguesia de Jacarepaguá, próxima da de Irajá, onde João Pereira
Lemos nasceu, dispõe de mais documentos preservados e pode nos
auxiliar na apresentação do Antigo Regime nos trópicos.
Segundo os livros das paróquias de Jacarepaguá da década de 1700
foram batizadas 558 crianças, 395 escravas e 163 ditas livres, sendo
oito pardas. Sabe-se de imediato que se está diante de uma sociedade
estamental, onde prevalece numericamente o estrato dos escravos.
Entretanto, caso se queira fugir de esquemas explicativos fáceis, o
entendimento dessa sociedade estamental não se esgota com o termo
“escravidão”, compreendido como palavra mágica, sinônimo de uma
disciplina social capaz de manter vastos continentes humanos por su-
cessivas gerações como estrangeiros; leia-se pessoas sem nexos sociais
(culturais, parentais ou de outro tipo de aliança) e, portanto, descere-
bradas. Caso a intenção seja encarar os cativos como agentes sociais é
necessário lembrar que Jacarepaguá consistia, a princípio, numa ver-
dadeira torre de babel. Suas lavouras eram trabalhadas por pessoas
vindas de sociedades africanas de diferentes complexidades — de rei-
nos a aldeias baseadas em linhagens matrilineares — e distintas lín-

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guas. Na década de 1700-1709 havia na freguesia de Jacarepaguá 290 169
mães escravas, casadas ou não, e destas, pelo menos 155, ou 81,6%,

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


vinham de distintas sociedades africanas.17
Como veremos mais adiante, tais pessoas incorporaram a ideia de
escravidão e de hierarquia social como normas suas. Nesse processo,
com certeza, alguns dos traços de suas regiões de origem devem ter
ajudado. Basta lembrar que, no golfo da Guiné ou no Congo-Ango-
la, eram comuns guerras para a produção de cativos e estas, por sua
vez, fundavam Estados e estratificações sociais.18 Porém, além disso,
para a incorporação pelos ditos africanos das normas hierárquicas do
Antigo Regime era necessário que eles se sentissem agentes sociais,
isto é, portadores de recursos (com certeza, diferentes e em menor
quantidade que os dos proprietários, porém recursos), e com estes
jogassem com seus donos.
Parece-me que um dos segredos para se entender tal jogo é per-
ceber que ele se inseria nos próprios preceitos da concepção corpo-
rativa tomista do Antigo Regime. Em outras palavras, em tal con-
cepção existia a ideia de estamento, e também a de casas. E estas
funcionavam conforme relações de dependência e pessoais. Os se-
nhores tinham a capacidade de conceder ou a alforria ou o acesso à
terra. A possibilidade da alforria resultava do autogoverno da casa, e
o guardião desse paradigma era a própria monarquia. Na casa, o
senhor podia também dar a um ex-escravo o uso de terras.
Por sua vez, a possibilidade de o gentio da Guiné, ou seu fi lho,
adquirir tais promoções implicava seguir certas regras, muitas das
quais, como veremos, apresentadas nas alianças do compadrio cató-
lico. Nesse momento, começamos a entrar nos códigos que compu-
nham o que chamo de autoridade moral dos conquistadores e sua
capacidade de brokers entre outros agentes sociais, como os curas
locais, de imprimir normas sociais compartilhadas pelas populações
provenientes de outras partes do império português.

17
Registros paroquiais de batismos de escravos de Jacarepaguá, 1700-1709, da
Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.
18
Ver Thornton (2004) Lovejoy (2002); e Silva (2002).

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170 A possibilidade de Jacarepaguá ter virado uma torre de babel, em
vez de uma sociedade, é ainda confi rmada quando nos lembramos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

de que ela era também povoada por açorianos, minhotos e outros


reinóis. Estes partilhavam da mesma língua, da mesma monarquia
corporativa e católica, mas vinham de aldeias distantes, com práticas
de organização familiar e de transmissão de patrimônio distantes.
Além disso, eram estrangeiros nesse lado do Atlântico. Assim, apesar
de as freguesias de Jacarepaguá e de Irajá ficarem nos confi ns do Rio
de Janeiro, elas continham alguns dos agentes do Atlântico luso:
açorianos, reinóis, madeirenses, africanos de diferentes procedên-
cias. O que, mais uma vez, sublinha o caráter complexo da socieda-
de considerada e destaca o papel dos descendentes dos conquistado-
res como elite local, ou ainda como fiadores ou brokers de uma
sociedade cujas bases foram lançadas no século XVI.
A natureza hierárquica da freguesia fica mais nítida quando, além
das diferenças de qualidade produzidas pela distribuição da proprie-
dade escrava, percebe-se aquelas existentes entre os 142 donos de
cativos. Dos 115 proprietários homens, somente nove eram oficiais
de tropas auxiliares, todos pertencendo a famílias com mais de 100
anos na terra. Portanto, a monarquia escolhia para mandatários na
terra os de antiga e conhecida nobreza. Pode-se usar ainda um outro
critério, não mais o da propriedade cativa ou da monarquia, mas a
percepção daquelas gentes, ou seja, que famílias os fregueses reco-
nheciam como de melhor qualidade. Neste último caso, podemos
nos valer do depoimento do pároco local (entendo que ele escrevia
numa linguagem aceita por todos). A quem ele concedia o título de
dona? Um título reservado a poucas mulheres, das mais seletas famí-
lias da freguesia. Nesse particular, tal título nada tinha a ver com as
leis do reino, como era o caso das ordenanças, mas com as práticas
costumeiras, sendo portanto mais útil para os nossos propósitos do
que as patentes das ordenanças.
Através das donas pode-se identificar as famílias que ocupavam as
posições cimeiras na estratificação social surgida na localidade e refe-
rendada pela ideia de casa e autogoverno dos conselhos. Das 27 pro-

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prietárias de escravos da década de 1700, somente seis tinham tal 171
respeitabilidade social. Todas, mais uma vez, descendentes de famílias

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


que comandaram a conquista e a formação da sociedade local no
Quinhentos. Esse era o caso da senhora dona Ignes, que quase sempre
aparece sem apelido no registro paroquial. Porém, essa Ignes era dife-
rente das demais homônimas das redondezas. Ela pertencia aos Pon-
tes, uma família vinda das ilhas do Atlântico no século XVI e cujos
homens serviram sempre nos cargos honrosos da república e, alguns,
nos ofícios régios. Algo semelhante acontecia com outra dona, dona
Brites, senhora de escravos em Irajá entre 1704 e 1707, numa época
anterior ao nascimento de João Pereira Lemos. Na ocasião, para o
pároco João Barcelos Machado e demais fregueses, o qualitativo dona
bastava para identificar a referida Brites. Isso talvez por ela pertencer
aos Azeredo Coutinho, expedicionários comandados por Estácio de
Sá nas lutas contra os franceses cerca de 140 anos atrás. Dona Brites
pertencia a uma velha família com “autoridade moral”19 de longa
data. Aliás, o próprio cura tinha descendência semelhante. Provavel-
mente, o clérigo passava a seu rebanho não só a moral católica, mas
também a do seu segmento, o dos conquistadores.
Por essa época Jacarepaguá devia contar com cerca de quatro ou
cinco engenhos de açúcar oriundos das velhas sesmarias concedidas
aos conquistadores da terra, como os Sampaio, ou de vendas feitas
pela família Correia de Sá e Benevides a seus aliados,20 todas no sé-
culo XVI. Aliás, os Sampaio, através de um sistema de transmissão de
patrimônio que será mais adiante examinado, mantinham em sua
casa as terras do Rio Grande e uma fábrica de açúcar, fato que lembra
a estabilidade de outro engenho — o São João Batista de Sapopema.

19
A expressão designa a capacidade de certas famílias de influenciarem na organi-
zação social da população. Por exemplo, impelindo as velhas famílias ao casamento
e ao compadrio católico, mediante a doação de dotes em testamento, a construção
e manutenção de capelas nas fazendas. Essas práticas estavam presentes nas famílias
conquistadoras da região. Além destas, foi também introduzido o costume da alfor-
ria, da formação da clientela via compadrio e a adoção do apelido da casa pelos não
consanguíneos.
20
Cf. Rudge (1983); e sobre o funcionamento do mercado, ver Fragoso (2009).

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172 Mas voltando aos dados agregados de Jacarepaguá na década de
1700. Dos 395 registros de escravos feitos na década, 163 (41%) foram
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

de crias cativas de plantéis de conquistadores, sendo o campeão, com


46 crias, o capitão Ignácio da Silveira Vilasboas. Assim, nessa época,
as famílias vindas do Quinhentos ainda dominavam a paisagem rural,
e algumas, a propriedade escrava. Porém, diversos conquistadores não
mais sobressaíam como grandes escravistas. A já mencionada dona
Ignes registrou apenas seis crias, e o capitão-mor Luis Vieira Medanha
Soutomaior, de tradicional família da capitania, cinco cativos. Na
mesma ocasião, comerciantes como Sebastião da Fonseca Coutinho
apareciam com 12 batismos. Assim, parece ser um equívoco associar
a patente de milícia ou a costumeira dona à propriedade escrava.
Passando à população livre, temos 163 registros de crianças, equiva-
lentes a 82 casais e/ou mães solteiras, e sete expostos. Daqueles 163
batizados, 25 o foram por 12 famílias descendentes de conquistadores.
Em 10 famílias, pai e mãe possuíam a mesma origem quinhentista e,
em duas, desconheço a procedência paterna, mas a materna era qui-
nhentista. Portanto, nessa década, como em outras passadas, prevalecia
a estratégia de endogamia nas escolhas matrimoniais entre as famílias
de antiga nobreza. Com isso, o grupo garantia o compartilhamento de
uma mesma identidade marcada pela conquista, pelo domínio dos car-
gos honrosos da república, pelo controle da terra e pela direção políti-
ca dos paroquianos. Essa sociedade ciosa de suas diferenças era também
uma conquista e, portanto, estava aberta à imigração reinol. E preva-
leciam nos registros de batismos, entre aqueles 163, os lavradores sem
cor, que somavam 58 famílias com 120 crianças. Quanto às famílias
designadas como pardas, eram oito (conjugais ou solitárias), registran-
do um mesmo número de rebentos. Três mães solteiras batizaram
também três filhos. Sete crianças foram expostas.
Em termos de relações de compadrio, temos 108 padrinhos: 35
conquistadores (32,4%) e 73 sem cor (67,6%). Desse modo, como era
de se esperar, havia um predomínio esmagador dos livres como pais
espirituais. Em primeiro lugar, temos um predomínio demográfico
dos sem cor sobre os conquistadores na freguesia; em segundo, nessa

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sociedade católica, prevalecia a prática de os pais convidarem os pró- 173
prios familiares (irmãos e avós) para batizarem suas crianças.

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Porém, o gráfico a seguir mostra que essa prática era acompanha-
da por outra. Vê-se que os padrinhos conquistadores, apesar de mi-
noritários, protegiam, em termos relativos, um maior número de
famílias que os padrinhos sem cor. Eram 35 padrinhos quinhentistas
e 38 famílias (1,1) e 73 padrinhos sem cor e 65 famílias (0,9). Em
diversas situações os conquistadores eram parentes rituais em mais
de uma família. Só o jovem capitão João Aires Aguirre foi convida-
do como padrinho por oito famílias diferentes, das quais sete de la-
vradores sem origens quinhentistas. O raio de ação dos conquista-
dores seria maior se considerássemos a ação de seus clientes como
padrinhos de crianças livres. Por exemplo, os lavradores ligados à
casa de um primo do capitão Aguirre, o também capitão Ignácio da
Silveira Vilasboas, mantinham laços de compadrio com outras qua-
tro famílias livres.21 Enfi m, através dos batizados, temos indícios da
formação de clientelas comandadas por quinhentistas e, portanto,
do seu poder moral sobre a região.

No de famílias batizadas por padrinhos livres e conquistadores, em Jacarepaguá,


entre 1700-1709 e 1750-1759

0,6
1750-9
1,9

0,9 # famílias batizadas por padrinhos livres


1700-9
1,1 # famílias batizadas por conquistadores

Como afi rmei, na época do nascimento do capitão João Pereira


Lemos, o Rio de Janeiro estava se convertendo na maior praça do
Atlântico Sul, e em suas freguesias rurais os conquistadores já não
eram mais os maiores donos de escravarias. Porém, tais modificações
tinham os seus limites.

21
Cf. Fragoso, 2009.

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174 Entre a primeira década do século XVIII e a de 1750, o número de
batismos por livres, em Jacarepaguá, passou de 163 para 352 registros
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

(ou 187 casais e/ou mães solteiras e 18 expostos). Esse fenômeno re-
trata principalmente a grande imigração de ilhéus e reinóis no Rio de
Janeiro da época. Já o de escravos decresce de 395 para 375 na fregue-
sia. Porém, no geral, entre a população de Jacarepaguá, o número de
batismos aumentou de 558 para 727, ou seja, 30%. É de supor que por
essa época o fantasma da torre de babel ainda rondasse a freguesia.
A tabela 2 nos dá uma ideia de tal imigração em Irajá, insinuando
mais uma vez a capacidade de organização dos conquistadores diante
dessas diferentes multidões. Pode-se identificar a procedência de 74
avôs paternos, dos quais uma metade era constituída de brasileiros e
a outra de ilhéus e reinóis, num universo de avôs paternos de 89. Para
avós paternas tivemos 83 mulheres, 48 (58,5%) nativas e as demais
provenientes do reino e das ilhas, sendo o total geral de 90. Assim,
considerando apenas a procedência dos avós paternos, tais números
mostram que cerca da metade da população sem cor era recém-insta-
lada na freguesia, fenômeno que nos informa sobre a diversidade po-
pulacional na qual as práticas costumeiras (tipos de compadrio, alfor-
rias, casa, acesso a terra, hierarquia social simbolizada pelas donas
etc.), criadas pelos conquistadores e primeiras gerações de escravos e
pardos na região, tiveram que se defrontar e que organizar.

TA B E L A 2

Naturalidade dos avôs e avós paternos em Irajá (1750-1759)

Ilhéus Reinóis Subtotal Brasileiros Totais


Avôs paternos 6 31 37 (50%) 37 74
Avós paternas 6 29 35 (43%) 48 83

Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1750-1759, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Conforme a classificação social utilizada para 1700, e tendo como cri-


tério a condição do esposo, as 142 famílias conjugais livres de 1750 assim

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se distribuíam: 20 casais de conquistadores, ou 14%, com 54 crianças; 97 175
casais sem cor, ou 67%, e 166 batismos; 25 casais pardos, ou 17,6%, com

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


46 rebentos. As famílias solitárias reuniam 41 mães e 45 filhos.

TA B E L A 3
Homens e mulheres e suas opções de união marital, segundo a condição social
Jacarepaguá, 1750-1759

Personagens e opções Casais Registros


Homem conquistador x mulher conquistadora 16 44
Homem conquistador x mulher livre 2 2
Homem conquistador x mulher exposta 1 5
Homem livre x mulher conquistadora 1 3
Total de conquistadores 20 54
Homem livre x mulher livre 83 143
Homem livre x mulher exposta 4 8
Homem livre x mulher parda 10 15
Total de sem cor ou livre 97 166
Homem pardo x mulher parda 19 36
Homem pardo x mulher livre 6 10
Total de pardos 25 46
Homem exposto x mulher exposta 2 2
Homem exposto x mulher parda 1 1
Homem exposto x mulher livre 1 2
Total de expostos 4 5
Mães solitárias pardas 29 34
Mães solitárias expostas 1 1
Mães solteiras sem cor 11 12
Expostos - 18
Mães solteiras e expostos 41 65
Total geral 187 336
Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1750-1759, da Cúria
Metropolitana do Rio de Janeiro.
Nota: Tipo de casal classificado conforme o tipo de pai.

Neste cenário, o grupo por mim classificado como “nobreza prin-


cipal da terra” permaneceu o mais resistente a mudanças. Dos 20 ca-
sais considerados, apenas quatro mulheres não tinham a mesma ori-
gem do marido e somente uma mulher de descendência quinhentista
casou-se com um sem cor, e mesmo assim este foi designado de dou-
tor. Esta última situação reafirma uma velha prática seiscentista do

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176 grupo, qual seja: ser refratário a estrangeiros, mas capturar os porta-
dores de foro de fidalgos, alguns grandes negociantes e letrados.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Entre 1700 e 1759, o grupo dos sem cor apresentou o maior cres-
cimento absoluto. No último período, ele constava com 97 casais e
166 batizados. Mais de dois terços da população era formada por essas
pessoas, às quais o cura não atribuiu qualquer qualidade particular. A
tabela 3 demonstra que o grupo abrigava diversas possibilidades de
alianças étnicas e sociais, na falta de melhores expressões. Dos 97
casais, em 10 (mais de 10% do total) a esposa era parda ou forra e em
quatro, exposta. Assim, apesar de 83 dos casais sem cor, ou mais de
85%, aparecerem com a mesma procedência, segundo os costumes
locais expressados por nosso padre, o grupo permitia a incorporação
de pessoas egressas da escravidão.
Além do crescimento populacional de Jacarepaguá na primeira
metade do século XVIII, a estratificação social da região e da capita-
nia tornou-se mais complexa, ou pelo menos foi assim registrada pelo
pároco. Na tabela 3, nota-se que as famílias em que um dos pais era
pardo, por exemplo, passaram de oito (10% das 82 famílias do início
do século) para 55 famílias conjugais ou solitárias, ou 29% do total
(187) da década de 1750. Explicando melhor: temos 19 casos em que
ambos os esposos eram pardos, 10 em que as mães pardas se juntam
com pais sem cor, um exposto, uma parda e 29 mães solitárias. Entre
outras coisas, isso indicava a maior sedimentação de um agregado fa-
miliar procedente da escravidão, ou um processo de ascensão social
em meio a uma estrutura estamental. Nesse momento, cabe lembrar
que o dito pardo não decorria de uma intervenção da monarquia, pois
fora produzido por relações pessoais no interior, principalmente dos
engenhos de açúcar. Além disso, o fato de pelo menos 10% dos 97
casais encabeçados por homens sem cor escolherem moças pardas in-
sinua a não racialização de tal estrato.
Ainda na tabela 3 verifica-se que, apesar do número de mães, os
pardos e pardas preferiam a união marital. Mas existiam outras for-
mas de organização familiar em que a mãe solitária (um quinto das
mães) tinha abrigo. Provavelmente, ela estava sob a tutela de uma

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casa ou de outro arranjo familiar: dificilmente uma mãe solteira 177
sobreviveria sozinha com uma criança.

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Vale ainda realçar a plasticidade da hierarquia estamental consi-
derada através do aumento dos pardos. A população total somava
187 famílias conjugais e ou solitárias, das quais pelo menos 28% ti-
nham um integrante pardo ou forro. Esse número nos informa que
estamos diante de uma sociedade escravista em que a alforria não
pode ser classificada apenas como fenômeno marginal.
Passemos ao parentesco fictício, outro tipo de aliança com o esta-
tuto formador de família e que transforma a autoridade moral em
um critério de classificação social.
A presença de padrinhos livres aumenta, indicando o alastramento
de novas formas de acumulação e entrada de personagens em velhas
práticas sociais, no caso o compadrio como formador de clientelas.
Na década de 1700, os sem cor representavam 63,8% dos padrinhos;
décadas depois, esse número subiu para 202, ou 86% dos 234 pais
espirituais (ver tabela 4). Em um universo de 217 casais e/ou mães
solteiras, os conquistadores apenas surgem como padrinhos em 56, ou
26%. Os cinco padrinhos pardos batizaram apenas rebentos de seis
famílias; ou seja, eles próprios não se escolhiam como padrinhos. Na
mesma tabela 4, das 75 famílias de pardos, 56 escolheram compadres
sem cor, 15 conquistadores e apenas quatro optaram por pardos.

TA B E L A 4
Padrinhos e afilhados em Jacarepaguá entre 1750 e 1759

Famílias afilhadas (conjugais e solitárias)


Padrinhos
Conquistadores Sem cor Pardos Totais
Conquistadores 27 (11,5%) 15 (23 reg.) 26 15 56 (26%)
Sem cor 202 (86%) 14 (19 reg.) 66 56 136 (63%)
Pardos/Forros 5 0 2 4 6 (3%)
Escravos 0 0 0 0 0
Totais 234 29 94 75 217

Obs.: Uma mesma família podia ser batizada por padrinhos de diferentes grupos.
Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá, 1750-1759, da
Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

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178 Os sem cor praticamente aparecem como padrinhos em todos os
lares, mesmo nos dos conquistadores. Dos 217 casais e/ou mães sol-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

teiras que levaram suas crianças à pia batismal, 136 pais, ou dois
terços, preferiram os sem cor. Algo bem diferente do que ocorria em
1700, quando todas as crianças de casais conquistadores foram bati-
zadas dentro do próprio grupo. É importante aqui qualificar os pa-
drinhos desses potentados locais. Em 1751, Francisco de Almeida
Jordão, cavaleiro da Ordem de Cristo e integrante de uma das mais
poderosas famílias de grosso trato do Rio de Janeiro da primeira
metade do século XVIII, foi a Jacarepaguá para batizar Joaquim,
neto do juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes. Sete anos depois,
em 1758, Francisco voltou à freguesia para batizar o fi lho do então
coronel das ordenanças e futuro mestre de campo dos auxiliares
João Barbosa de Sá Freire. Essas cerimônias demonstram as ligações
e mesmo a dependência dos potentados quinhentistas ao capital
mercantil. Por exemplo, desde finais do século XVII, os Barbosa de
Sá tinham ligações creditícias com os Almeida Jordão. Em meados
do Setecentos, tais ligações tornaram-se mais pessoais, no caso pa-
rentais, seguindo assim as normas do catolicismo em vigor. Talvez
seguindo também os costumes desse Antigo Regime nos trópicos, o
mesmo Francisco, cavaleiro da ordem de Cristo, batizou ainda em
Jacarepaguá, em 1753, outro menino de nome Manuel. A diferença
entre esse afi lhado e os já mencionados era o fato de Manuel ser fi-
lho de Bernarda parda, escrava do juiz de órfãos; a madrinha fora
Antonia Luzia de Menezes, fi lha do mesmo juiz.
Enfi m, o crescimento populacional verificado em 1750-1759
ocorreu em uma sociedade em transformação, porém ainda segundo
regras hierárquicas e costumeiras e, portanto, preexistentes. Na dé-
cada de 1750, existiam em Jacarepaguá seis engenhos e pelo menos
134 proprietários escravistas, que possuíam 276 famílias escravas e
mais expostos. O campeão nos registros de crias escravas e provavel-
mente o maior proprietário de cativos da região era o estrangeiro
José Rodrigues Aragão, com 37 crias. Ele era o proprietário do En-
genho da Serra, adquirido por meio de uma arrematação em 1751

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do tenente José Francisco Souza Leite, integrante, salvo engano, das 179
antigas famílias Coelho Cam e Teles de Menezes. O segundo colo-

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


cado era o já referido juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes, com
26 crias. Na ocasião, os conquistadores (num total de 25) registra-
ram 124 crias, ou um terço do total. Portanto, em meados do século
XVIII, o grupo perdeu o controle da propriedade cativa, mas não o
da terra e do sistema de normas local.
Na freguesia de Irajá ocorreu algo semelhante quanto à proprie-
dade cativa. Os negociantes e estrangeiros na terra, Antonio da Rosa
e Bráz de Pina, eram, respectivamente, o primeiro e o terceiro
maiores proprietários de cativos, conforme os registros de batismo;
o segundo era João Pereira Lemos. Aqueles dois senhores, nos anos
de 1740, fizeram 99, ou 15%, dos 668 registros de escravos da déca-
da. Desses 99, 88 eram adultos — homens e mulheres recém-adqui-
ridos do tráfico atlântico. Esses números informam provavelmente a
instalação de fazendas desses negociantes na freguesia, ou, o que é o
mesmo, a transformação de parte da acumulação mercantil atlântica
em terras e escravos; no caso, adentrando nas áreas dominadas até
então pela velha nobreza da terra. Assim, o mundo estava mudando.
Mas resta saber o que esses personagens vindos da mercancia preten-
diam de tal sociedade agroexportadora criada pelos conquistadores,
escravos e pardos.
Segundo as mesmas fontes, em Jacarepaguá, contrariando o mo-
vimento da propriedade sobre pessoas, a velha hierarquia social
abençoada pela tradição continuava de pé. Em outras palavras, por
essa época, a não correspondência entre a propriedade e as insígnias
de donas e os postos de ordenança continuava clara. Dos 95 proprie-
tários homens, quatro ostentavam patentes de auxiliares superiores
ou equivalentes a capitão. Três pertenciam a tradicionais famílias
quinhentistas e o outro desconheço a origem. Desse modo, a pri-
mazia do mando na freguesia permanecia fi rmemente nas mãos das
velhas parentelas da terra, apesar de a propriedade cativa ter escapa-
do. Bom exemplo disso é o coronel João Barbosa Sá Freire. Apesar
de ter a patente mais alta da freguesia, só registrou quatro cativos,

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180 enquanto seu subalterno, o capitão Manuel Pimenta de Sampaio,
registrou oito crias.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

A permanência da velha estratificação social costumeira é ainda


percebida na ostentação da insígnia de dona. Esta continuava reser-
vada às senhoras e moças das famílias quinhentistas. Trinta e quatro
mulheres aparecem como proprietárias de escravos, das quais so-
mente 16 o pároco reconhece como dona. Destas, 10 estavam ligadas
às mais honrosas famílias da terra (não tenho notícias precisas sobre
as outras seis).
Passando para Irajá, onde a instalação de reinóis negociantes era
flagrante, temos resultados semelhantes aos de Jacarepaguá. Apesar
disso, a tabela 5 confi rma a proeminência das famílias conquistado-
ras na freguesia, através da distribuição do título de dona entre as
madrinhas nos batismos livres. Na década de 1750, o pároco atri-
buiu tal reverência a 55 senhoras, das quais 33, ou 60%, vinham de
famílias do século XVI; desconheço a origem das demais. Em 1740,
apesar desse predomínio, moças de famílias mais recentes estavam
obtendo aquela honraria, como sugere a tabela 5. Na década de
1730, elas representavam 29, ou 70%, de 41 madrinhas. O fato de
novas famílias adquirirem o título de dona e o crescimento dos par-
dos são fenômenos que informam transformações na sociedade esta-
mental da época.
Entretanto, a força dessa hierarquia costumeira e sua não sincro-
nia com as demais, seja como derivada da propriedade cativa, seja da
autoridade da coroa, são demonstradas na freguesia de João Pereira
Lemos em 1745. Nesse ano, o açoriano Antonio da Rosa já era me-
recedor, aos olhos do rei, da patente de capitão das ordenanças, po-
rém essa opinião não coincidia com a do cura local, Francisco de
Araújo Macedo, que acredito ser de uma família quinhentista. Nas
duas vezes em que o dito padre batizou os netos do capitão Antonio,
sua esposa não foi reconhecida nos assentos como dona.
Os caminhos tortuosos da promoção social nessa sociedade são
percebidos quando confrontamos casos de mulheres da família de
João Pereira Lemos. Seu sogro jamais teve a dignidade do oficial das

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ordenanças e sua sogra nunca a de dona. Porém, o casamento da 181
fi lha destes, Ana Maria de Jesus, com o dito João Pereira — um

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


exposto de uma família tradicional — lhe valeu a entrada no rol das
donas. Assim, se o governador podia promover um reinol à condi-
ção de capitão, sua autoridade não bastava para criar donas. Esta úl-
tima distinção estava nas mãos da sociedade local. Na década de
1740, entre as mães de Irajá existiam 12 donas, e uma apenas era
portuguesa.

TA B E L A 5
No de madrinhas conquistadoras no universo das madrinhas qualificadas como donas
Irajá, décadas de 1730, 1740 e 1750

Madrinhas de famílias Madrinhas de famílias Total de madrinhas com


Décadas
quinhentistas conquistadoras desconhecidas ou recentes a insígnia de dona
1730 29 (70%) 12 41
1740 32 (53%) 28 60
1750 33 (60%) 22 55

Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1730-1750, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Voltando à Jacarepaguá de 1750, seus seis engenhos de açúcar


estavam em mãos dos já conhecidos coronel João Barbosa Sá Freire,
capitão Manuel Pimenta de Sampaio, juiz de órfãos (com duas fábri-
cas), o visconde Asseca (Correia de Sá e Benevides, residente no
reino), e o estrangeiro José Rodrigues Aragão. Desse modo, os fi-
lhos dos conquistadores ainda mantinham o controle sobre as terras
e a população da região. Em outras palavras, por essa época, a vida
dos fregueses ocorria conforme a lógica do que chamei de autorida-
de moral dos conquistadores. As paróquias consideradas eram divi-
didas em engenhos de açúcar, sendo administradas como casas con-
forme o princípio do autogoverno. Desse modo, em tais freguesias
prevaleciam relações pessoais de dependência, hierarquicamente
construídas dentro de casas. Porém, isso ainda não é tudo.

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182 Maria Sampaio — parda, senhora de escravos e assistente
no Rio Grande — e José Batista, cabra de João Pereira Lemos:
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

casa, costumes e hierarquia nas senzalas


Para entendermos um pouco melhor a realidade da estratificação
social construída pelas relações de dependência nos engenhos não
podemos tirar do horizonte a possibilidade de escravos, pardos e
demais lavradores atuarem como agentes. Isso fica patente quando
lembramos que a posse de terras, e principalmente de engenhos, não
significava necessariamente poder de mando na freguesia. José Ro-
drigues Aragão tinha a maior escravaria de Jacarepaguá e uma fábri-
ca de açúcar, mas não tinha, na década de 1750, o domínio moral e
político sobre a população, caso consideremos a patente de ordenan-
ça como um dos índices disso. Como ainda veremos, na mesma
década ele procurou deixar de ser visto como estrangeiro por meio
de negociações com os moradores, inclusive pardos e escravos, da
região, mediante a formação de clientelas. Provavelmente, essa polí-
tica deve ter contribuído para o agraciamento do título de capitão
pelo rei a Manuel, fi lho de José Aragão. Por conseguinte, entendo o
apadrinhamento como prática de autoridade moral. Ou melhor,
nele vejo uma negociação em âmbito hierárquico. O número de
afi lhados de uma casa informava sua posição na estratificação social.
Talvez um critério mais refi nado de classificação social seja o fato de
tais senhores darem vida, ou melhor, possibilitarem a formação de
arranjos familiares, através do acesso à terra e à liberdade. Os que
tinham tal poder ocupavam as posições cimeiras da sociedade.
Mas voltemos a um ponto que acima ficou perdido. Viver nas
freguesias açucareiras do Rio de Janeiro da época implicava residir
em um de seus engenhos e, consequentemente, aceitar as normas
que presidiam o autogoverno das casas. Para tanto, basta lembrar
alguns números. Na tabela 6 verifica-se que entre os 134 proprietá-
rios de escravos da freguesia, 37 pelo menos, ou 27,6%, moravam
nos seis engenhos já mencionados. Tais números seriam bem maiores
caso as informações dos registros paroquiais fossem mais completas.
Mesmo assim, esses proprietários tinham 122 famílias escravas com

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crias batizadas no período estudado, ou 44,2% do total dos casais e 183
mães solteiras presentes nos livros de batismos de escravos da época.

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


TA B E L A 6
Engenhos de açúcar e seus moradores proprietários de escravos em Jacarepaguá, 1750-1759

Proprietários de
Engenhos de açúcar Proprietário Famílias escravas*
escravos
Taquara Antonio Teles Barreto 5 40
Fora João Barbosa Sá Freire 4 9
Rio Grande Manuel Pimenta de Sampaio 20 37
Serra Antonio Teles Barreto 2 25
Água Visconde Asseca 6 11
Subtotal 37 (27,6%) 122 (44,2%)
Total 134 276

* Famílias conjugais ou solitárias.


Fontes: Rudge (1983); e Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepa-
guá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

Entre esses senhores temos não só parentes consanguíneos do dono


de engenho, lavradores da terra e reinóis, mas também pardos como
Maria Sampaio, moradora no Rio Grande com seus escravos, fi lhos,
genros e netos. Aliás, uma cria escrava de Manuel Pimenta Sampaio
era afi lhada do fi lho e da neta de Maria. Outro senhor de escravos
pardo e residente com sua família nas mesmas terras era Boaventura
Sampaio. João, seu fi lho, era afi lhado de Antonia Neves Sampaio,
fi lha do pardo José Rodrigues Homem, mas sem escravos, como vá-
rios outros pardos assistentes no Rio Grande. Esses fragmentos de his-
tórias têm em comum alguns traços: as três famílias saíram da escra-
vidão, tinham o apelido de Sampaio e residiam no mesmo engenho.
Em outras palavras, receberam alforria e depois terras. Nessa trajetó-
ria, incorporaram o apelido da casa Sampaio. Eles batizaram fi lhos de
escravos de seus antigos amos, servindo assim como instrumentos na
cadeia de autoridade cuja referência era o capo. Entretanto, esses par-

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184 dos também mantinham alianças entre si, via compadrio, reforçando
sua capacidade de negociação com o mesmo capo.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Provavelmente, Maria e Boaventura, entre outros ex-escravos,


conseguiram alforria como resultado de uma série de estratégias ou
de relações pessoais, horizontais e verticais, nas quais reconheciam a
autoridade dos Sampaio — cravado em seu nome. Mas, ao mesmo
tempo, conferiam legitimidade social aos Sampaio, transformando-
os em capitães de ordenança e em donas. Enfi m, estamos em meio a
uma série de jogos ou interações, nos quais os agentes possuíam re-
cursos desiguais e diferentes, mas eram sujeitos com suas devidas
estratégias. E a vida seguia nas freguesias.
A possibilidade desses jogos e histórias de escravos e pardos se
desenrolarem por várias gerações no Rio Grande, como terra dos
Sampaio, pressupõe um sistema de transmissão de patrimônio, uma
ideia de família, opções relativas ao mercado e outras estratégias da
nobreza principal. De imediato pode-se dizer que tal prática impli-
cava um sistema de transmissão de patrimônio que, apesar de preser-
var a casa no tempo, diferia do morgadio.22 Em gerações sucessivas
dos Pimenta de Almeida e dos Sampaio parece haver sido escolhido
um herdeiro preferencial.23 Em contrapartida, ele abrigava nas ditas
terras os demais herdeiros e parentes, adotando uma atitude distante
do morgadio. Daí que nos registros da década de 1750, pelo menos
13 dos 20 proprietários de escravos residentes do Rio Grande eram
tios, primos ou irmãos de Manuel. Nesse caso, portanto, optou-se
por um padrão de transmissão de patrimônio que protegesse a famí-
lia das inseguranças de uma sociedade rural pré-industrial, sujeita às
oscilações do comércio internacional (escravos e açúcar) e às intem-
péries da natureza. Fenômeno que, por sua vez, estava ligado aos
pactos nupciais, nos quais as famílias dos nubentes pré-acordavam a
não fragmentação das terras. O capitão Manuel Pimenta Sampaio
casou-se duas vezes (1742 e 1756), em ambas as ocasiões com moças

22
Tratei desses assuntos em outros textos. Ver Fragoso (2009).
23
Ver Pedroza (2008).

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de tradicionais famílias quinhentistas de nobreza reconhecida na lo- 185
calidade: os Machado Homem e os Muniz Telo (fidalgo da casa real).

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Com essas núpcias, em termos legais, as terras do Rio Grande passa-
vam a pertencer ao casal, ou seja, também à esposa do capitão, po-
rém, na prática, continuaram em mãos da família do marido; e isso
deve ter sido discutido nos pactos pré-nupciais.
Algo semelhante ocorreu com o engenho de São João Batista de
Sapopema. Pelo menos desde fi ns do século XVII ele estava em
mãos da família Pereira Lemos. Como vimos, primeiro com o padre
Luis, depois com João Pereira Lemos, e após sua morte com a espo-
sa Ana Maria de Jesus até seu falecimento em 1795, passando então
ao primogênito do casal — homônimo do pai —, como resultado de
um pedido em testamento de Ana Maria. Assim, a exemplo do Rio
Grande, por mais de três gerações as terras da fábrica continuaram
indivisas nas mãos de um único senhor, apesar de o acesso ser facul-
tado a outros parentes. No Engenho das Capoeiras, outro do capitão
João Pereira Lemos, quando da morte de Ana Maria de Jesus, em
1795, foram listados 20 lavradores de cana livres presentes, dos quais
dois pertenciam aos fi lhos e um ao irmão daquela senhora. O fato de
esse engenho e o de Sapopema terem ficado por todo o século XVIII
com a mesma família ajudou, entre outros pardos e escravos, João
Batista, forro, e Perpétua, sua mulher escrava, a montarem estraté-
gias que culminaram na alforria da segunda e na transformação de
João em um pequeno senhor de cativos.
Algo parecido deve ter ocorrido na vida de Boaventura Sampaio,
ex-escravo, forro e depois dono de escravos. A estabilidade ao longo
do tempo como prática costumeira provavelmente diminuiu as mar-
gens de insegurança de Boaventura, em um mundo marcado pela
compra e venda de escravos e de terras. Com certeza essa permanên-
cia da casa não reduziu as desigualdades sociais, nem o terror da es-
cravidão, mas talvez tenha facilitado a Boaventura e a outros escravos
— em meio a uma hierarquia social ciosa de suas diferenças — a
criação de estratégias para formar uma família, estabelecer alianças
dentro e fora das senzalas, assim como outros expedientes para me-

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186 lhorar suas condições de negociação com os senhores; enfi m, melho-
rar de vida. Parece, pois, que esse sistema de transmissão de patrimô-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

nio era vital na vida de diferentes grupos sociais da freguesia.


A avó paterna de Ana Maria de Jesus era parente do padre Luis
Pereira e sua família residia no Engenho do Sapopema. Pelo menos
Ana, com 15 anos, e o irmão batizaram escravos do dito domínio.
Além dessas ligações, temos o fato de João Pereira Lemos ser viúvo
de uma tia de Ana. Em outras palavras, o casamento de João e Ana
não resultara do acaso, mas de uma longa convivência e de pactos.
Ou melhor, de valores que orientavam as opções de João Pereira.
Como vimos, João era exposto. Porém, isso não o impediu de
receber do rei a patente de oficial das ordenanças, e o casamento
com a prima postiça rendeu a ela o título de dona, concedido pela
comunidade, uma prerrogativa que sua mãe não tivera. Portanto,
João tinha prestígio aos olhos daquela sociedade. Em razão disso,
podia ter se casado com uma esposa proveniente da nobreza da terra
e, com isso, ampliar seu cabedal. Mas preferiu se casar com uma
parente postiça, provavelmente mais pobre. Uma escolha que deu
maior alento a sua família postiça e permitiu a promoção social da
parte materna do velho padre, assegurando-lhes o acesso formal ao
senhorio das terras de Sapopema.24 Esse ato, portanto, informa so-
bre as orientações valorativas de João e sobre sua ideia de casa.
Desse modo, o tipo de transmissão de patrimônio no qual este é
indiviso pressupõe uma ideia de família. Algo que merece um estu-
do mais cuidadoso. Uma das interpretações possíveis é a prioridade
atribuída à manutenção da qualidade social dos integrantes da famí-
lia, garantida pelo compartilhamento costumeiro do senhorio das
terras e das relações de clientela nela estabelecidas.25 Condição que
seria posta em risco caso a partilha fosse igualitária ou através do
morgadio. Na primeira situação, a família podia perder sua qualida-
de através da fragmentação da terra e, com isso, a base material de

24
Sobre essas opções como resultado um conjunto de valores, ver Pedroza (2008).
25
Pedroza, 2008.

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suas relações de clientela. No segundo caso, a família e a casa conti- 187
nuavam através do primogênito em detrimento dos demais, o que

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


implicava a desqualificação dos outros herdeiros. Em Jacarepaguá,
Maria Madalena era dona, apesar de não ser senhora de engenho e
possuir poucos escravos. O título lhe fora dado, provavelmente, por
ser prima do capitão Manuel Pimenta Sampaio, em cuja casa morava,
compartilhando, de modo costumeiro, as terras do Rio Grande.
Por seu turno, os Correa Vasqueanes, fidalgos da casa real, entre
outras famílias, puderam ter outra opção. Pelo menos dois fi lhos,
Manuel e Salvador, montaram seus próprios engenhos ou casas no
início do século XVIII, mas, zelosos da manutenção de seus laços
familiares, agiam provavelmente de comum acordo no tocante aos
bens distribuídos entre eles.26 A família do desembargador João Pe-
reira Ramos de Azeredo Coutinho, primeiro senhor da casa/mor-
gado de Maripicu, achou por bem, em fins do século XVIII, desdo-
brar a casa em duas, ambas com engenhos: uma em Portugal e a
outra com sede no Brasil — esta última encabeçada pelo mestre de
campo dos auxiliares Ignácio de Andrade Soutomaior Rendon.27
Assim, na dita sociedade temos a chance de diferentes sistemas de
transmissão de patrimônio. Da mesma forma, há situações de emba-
tes judiciais entre herdeiros para o domínio do patrimônio da famí-
lia. Tal foi o caso dos embates entre os cunhados capitães-mores José
de Andrade Soutomaior Machado e Clemente Pereira Ramos de
Azeredo Coutinho pelos bens de Ana Alarcão e Luna, mãe do pri-
meiro e sogra do segundo.28
Com essas informações podemos voltar ao compadrio e, através
dele, verificar a linguagem política que vigorava na freguesia, agora
o considerando a partir da ideia de casa, sendo o formato desta mo-
delado ao mesmo tempo por relações de dependência vertical e ho-

26
Cf. “A reforma monetária, o rapto de noivas e o escravo cabra José Batista:
notas sobre hierarquias sociais costumeiras na monarquia pluricontinental lusa —
séculos XVII e XVIII”, texto ainda inédito de minha autoria.
27
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Seção de Obras Raras, Ms. 5, 3, 13-15.
28
Cf. minha pesquisa em curso “Fidalgos parentes de pretos”, financiada pelo
CNPq.

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188 rizontal. Ou ainda tentar perceber o grau de ligação entre o compa-
drio, a alforria e o acesso à terra. A tabela 4 mostrou o domínio dos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

sem cor no parentesco ritual, mas, examinando-o mais detidamen-


te, pode-se perceber reminiscências da supremacia dos conquistado-
res nesse campo. Estes somaram 27 padrinhos e batizaram em 56
famílias. Portanto, cada padrinho tinha sob sua tutela, em média,
duas famílias. No caso dos sem cor, essa relação cai para 202 padri-
nhos e 136 famílias (ou 0,67). Em outras palavras, entre os conquis-
tadores, a tendência de formação de redes clientelares foi bem maior,
tornando corriqueiros casos como o de Antonio Pacheco Cordeiro,
bisneto de conquistadores. Ele, ao longo da década de 1750, fora
convidado por seis famílias para batizar seus rebentos: duas de con-
quistadores, uma parda, uma de mãe solteira e duas sem cor. Anto-
nio Pacheco Cordeiro era um pequeno senhor de escravos, primo
do capitão Manuel Pimenta Sampaio, em cujas terras residia. A mes-
ma coisa ocorreu com Miguel de Almeida Sampaio, também primo
e morador nas terras do senhor do Rio Grande. Ele foi padrinho em
quatro diferentes famílias, sendo duas solitárias e pardas.
Os exemplos escolhidos não são aleatórios. Eles demonstram uma
cadeia de poder ou clientelar cujo capo é o senhor do Rio Grande. A
mesma cadeia pode ser observada nos demais senhores de engenho
da região. Por exemplo, a cadeia clientelar do coronel João Barbosa
Sá Freire chegava a freguesia vizinha de Irajá através de seus primos
compadres. Talvez esse fosse um de seus recursos para se tornar mais
tarde mestre de campo. Antonio Correia da Silva, primo e compadre
do dito coronel, na década de 1750 fora o campeão de batismos em
Irajá, sendo compadre de 10 famílias, entre elas reinóis e pardas.
Como disse, essas redes clientelares não se repetiam entre os sem
cor. Contudo, a tal norma social como ferramenta de poder estava
presente em suas cabeças. Estava no horizonte, por exemplo, de José
Rodrigues Aragão, que provavelmente por meio do compadrio pre-
tendia angariar a respeitabilidade dos fregueses da região. Seu fi lho,
Manuel, batizara quatro crianças livres, sendo duas pardas. Além
disso, seguira uma velha prática destinada aos fi lhos e netos de con-

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quistadores: foi padrinho de crianças escravas. Na mesma década, 189
José Joaquim Moura, neto do juiz de órfãos, batizara dois dos fi lhos

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


de Antonio Telles, escravo de seu avô e peça-chave na engenharia
política de sua casa. Segundo os registros de batismo de escravos da
época, Antonio Telles era compadre de diferentes famílias escravas,
tendo, portanto, autoridade sobre elas. Em outras palavras: José Ro-
drigues Aragão, provavelmente negociante, repetia antigas práticas
costumeiras adotadas pelos conquistadores há mais de 100 anos — a
construção de uma teia clientelar com pardos, escravos, e provavel-
mente o acesso deste às terras. Rodrigues Aragão, ao adotar a lin-
guagem política da região, construiu uma casa e possibilitou que seu
fi lho se convertesse em capitão.

O capitão Bento Luiz de Oliveira, senhor de engenho e sobrinho


de negociantes de grosso trato, e João Correia da Silva, forro:
a permanência de normas costumeiras em Irajá de fins do século XVIII
Como dei a entender, as transformações vividas pelo Rio de Janeiro
no século XVIII, com sua conversão em principal praça do Atlântico
Sul e, consequentemente, com seu domínio do capital mercantil,
resultaram na falência de parte da nobreza principal da terra e no
ingresso de novos personagens nas freguesias açucareiras.29 A essa
altura, porém, em tais freguesias já prevalecia um sistema de normas
do Antigo Regime dos trópicos, criado por conquistadores, pardos e
escravos, cujos traços já foram apontados. Na verdade, acompanhan-
do as práticas desses novos senhores ou de expostos como Lemos
Pereira, podemos ter pistas daquele sistema de normas construído ao
longo de mais de um século.
Por volta de 1779, a freguesia de Irajá, onde moravam Ana Maria
de Jesus, viúva de João Lemos Pereira, e seu escravo José Batista, con-
tava com 242 fogos e 13 engenhos de açúcar, que reuniam mais de
444 cativos. O maior engenho em população cativa era o da viúva de

29
Ver Fragoso, 2007, v. 1, p. 33-120.

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190 nosso herói, com 80 cativos ou pouco menos de um quinto da popu-
lação das fábricas de açúcar. O terceiro maior engenho em escravaria,
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

com 50 cativos, era o do capitão Bento Luiz de Oliveira Braga.30 Este


último personifica os novos ventos acima mencionados. Ele era filho
do sargento-mor Bento de Oliveira, cuja origem desconheço, e des-
cendente por parte materna do açoriano Antonio da Rosa. O primo
de Bento Luiz, Antonio de Oliveira Durão, também dono de enge-
nho em Irajá, com 34 escravos, tinha o mesmo nome de seu falecido
pai, salvo engano reinol, e em vida fora um dos maiores negociantes
da praça mercantil em meados do século.31 Enfim, o dito capitão
Bento vinha de uma família recheada de estrangeiros, mas que con-
seguiram ocupar posições de mando na sociedade local. O tio de
Bento, Francisco Caetano Oliveira, fora capitão na freguesia, e Bento,
além de também capitão, casou-se com Francisca Mariana de Olivei-
ra Coutinho, descendente de um alcaide-mor da Bahia e de Bento
Garcez, senhor de engenho nos primeiros tempos do século XVII.
A capacidade do sistema de normas do Antigo Regime nos trópi-
cos, de suas normas costumeiras, em transformar negociantes em
potentados rurais e de absorver contingentes humanos despejados
pelo tráfico atlântico de escravos continuava a ser testada em fi ns do
Setecentos. A tabela 7 mostra que cerca de um terço das mães escra-
vas, entre 1780 e 1795, vinham de diferentes sociedades africanas.

TA B E L A 7
Origem das mães escravas de Irajá entre 1780 e 1795, segundo os livros de batismo

Origens Mãe
Angola 92
Benguela 82
Congo 11
Guiné 6

30
Lavradio, 1842.
31
Ibid.; ver minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nan-
ciada pelo CNPq.

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Origens Mãe 191
Outras procedências africanas 39

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Subtotal 230 (36,7%)
Crioulos 352
Pardos e cabras 44
Subtotal 396 (62,3%)
Total 626

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Como insinuamos na tabela 1, esse mundo de grandes casas ou de


engenhos de açúcar, caso prefiram, era atravessado e circundado por
lavradores livres, pardos com ou sem cativos. Por essa época não havia
terras devolutas, sendo as que existiam entendidas como reservas de
lenha para as moendas. Portanto, todos os terrenos tinham donos e a
fronteira agrícola estava fechada. Desse modo, o acesso à terra conti-
nuava dependendo da vontade dos senhores de engenho, ou melhor,
daquelas casas senhoriais. Os lavradores pardos e livres sem terras es-
tavam assim sujeitos à ideia de autogoverno — às relações de clientela
e de mandonismo — que prevalecia naqueles engenhos. Cabe ainda
lembrar a inexistência de um mercado de arrendamentos em Irajá.
Pelo registro paroquial de batismo de escravos de Irajá de 1780 a
1795 tem-se uma primeira ideia da distribuição da propriedade cati-
va na região. Em um total de 349 proprietários e 781 registros de
crias escravas, há uma multidão de pequenos senhores, alguns pou-
cos com grandes escravarias. Os senhores com até três registros so-
mavam 307 proprietários, ou 88% do total, e detinham 443, ou
56,7%, dos batizados da época. Em compensação, três proprietários,
ou 1%, detinham 76, ou quase 10% dos registros. Percebe-se assim
um certo grau de concentração de cativos em poucas mãos.
Nesse universo, as crias da viúva de João Pereira Lemos somavam
25, ou somente 3,2% dos 781 batismos. Porém, as terras de Sapope-
ma abrigavam outros sete donos de cativos, presentes no livro paro-
quial, com 24 crias; entre eles João Batista, cabra pai do escravo José
Batista. Nesse instante, Sapopema reaparece como uma casa de An-

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192 tigo Regime. A exemplo dos engenhos de Jacarepaguá de 1750, Sa-
popema era povoada de diversas relações pessoais (ou seja, sem a
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

intervenção do rei) entre distintos estratos sociais, todas submetidas


ao mando de um único senhor capaz de influenciar a vida dos mo-
radores em sua casa, concedendo-lhes ou retirando deles, por exem-
plo, o acesso a terras e a liberdade aos escravos.

A hierarquia nas senzalas e escolhas escravas em finais do Setecentos


Na tabela 1, vimos que a casa do falecido capitão João Pereira Lemos
continha pelo menos três estratificações: uma de caráter jurídico,
cujo eixo era a escravidão e, portanto, o estatuto jurídico do persona-
gem; outra dada pelo acesso à terra, no caso partidos de cana; e uma
terceira no interior das senzalas, pois 11 cativos integrantes de oito
(29,6%) famílias escravas, em um total de 27, tiveram partidos, ou 21
(19%) pessoas em uma população de 114 cativos. As três hierarquias
dependiam, em maior ou menor grau, da ação dos agentes sociais
(recursos e restrições) envolvidos na casa, de suas relações pessoais.
José Batista, cabra de Ana de Jesus, vivia aquelas três estratificações.
Ele e parte de sua família eram escravos, porém possuíam terras, algo
que provavelmente nem todos os fregueses pardos e livres de Jacarepa-
guá tinham. Essa posição social difícil de ser definida, de qualquer for-
ma os colocava num patamar especial da hierarquia existente no inte-
rior das senzalas. Na tabela 8 apresento outras sete famílias, pertencentes
às 11 pretas da tabela 1, que viviam a mesma peculiaridade de José Ba-
tista, ou seja, eram grupos parentais escravos com acesso a plantações de
cana e, portanto, com uma posição cimeira na estratificação social das
senzalas, especialmente diante dos pardos livres sem terras. Na verdade,
tais famílias, além de possuírem canaviais, compartilhavam entre si ou-
tros traços: naturalidade e ofícios qualificados. Em cinco delas, os titu-
lares dos canaviais eram crioulos, correspondendo portanto pelo menos
à segunda geração de uma mesma família de escravos. Consequente-
mente, em tese, tal família crioula tinha 50 anos ou mais de vivência na
mesma fazenda, o que lhe permitia um melhor entendimento dos códi-
gos de normas da casa, o estabelecimento de alianças horizontais e ver-

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ticais com outros escravos, pactos com forros e com livres, assim como 193
o estabelecimento de negociações com os senhores da casa. Os cinco

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


escravos com partidos também tinham oficio qualificado. Na mesma
tabela nota-se que, apesar de os titulares dos partidos saírem de famílias
com mais de uma geração na terra, somente um teve filhos. Ou seja,
parece que tais famílias estavam desaparecendo.

TA B E L A 8
Hierarquia nas senzalas: escravos com partidos de cana e seu acesso a ofícios qualificados
Fazenda São João Batista de Sapopema, 1795

Estado Total de
Pai Origem Idade Profissão Mãe Origem Idade Filhos
civil familiares
João Cassange Angola 50 serviço de roça casado Ana Angola 30 0 2
Manuel Ignácio Angola caldeireiro casado ? ? ? ?
Thomaz ? 60 s/informação casado Josefa Angola 50 2 7
José Batista cabra 30 of. carpinteiro casado Efigênia Angola 40 0 2*
Joaquim Domingues pardo 30 barqueiro casado Isidora parda 20 0 2
Fabiano cabra 30 s/informação casado Arcângela parda 25 0 2
Raimundo crioulo 30 pastor casado Marcela angola 30 1 3
Martinho crioulo 30 s/informação solteiro 2

* Os pais de José Batista eram forros em 1795.


Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus, 1895, no 9.225, cx. 872.

Mas vejamos esses traços com mais cuidado. A tabela 9 trabalha com
a ideia de hierarquia nas senzalas, tendo como referência o acesso de
africanos e crioulos aos ofícios mais qualificados nas plantations. Nessa
tabela reúno quatro engenhos de açúcar das freguesias rurais do Rio de
Janeiro entre 1795 e 1818. Como se vê, a população total era de 453
escravos — 239 africanos (53%) e 214 crioulos (47%) —, dos quais 249
(55%) viviam em 85 famílias. Os cativos com ofícios qualificados esta-
vam em 17 famílias e somavam 56 pessoas, o equivalente a 12% da
população total escrava. Assim, não resta dúvida de que carpinteiros,
ferreiros, alfaiates, entre outros ofícios mecânicos, formavam uma elite

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194 profissional nos plantéis: eram os mais caros, os que tinham mais acesso
a famílias e alguma chance de ter canaviais. Para entrar nesse clube se-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

leto, os integrantes das famílias mais antigas tinham mais chances do


que os estrangeiros, leia-se os recém-desembarcados pelo tráfico atlân-
tico. Assim, se os africanos compõem a maior fração na população das
senzalas, os crioulos — entendidos como filhos e netos daqueles africa-
nos — prevaleciam na elite das mesmas senzalas.

TA B E L A 9
Hierarquia nas senzalas: famílias escravas
e acesso aos ofícios qualificados masculinos em quatro engenhos

Africanos Crioulos Totais


No de famílias com ofícios (x) 7 10 17
Integrantes das famílias com ofícios (y) 23 (41% de y) 33 (59%) 56 (12% de a)
População nos quatro engenhos 239 (53%) 214 (47%) 453 (a)

Obs.: africanos — família africana chefiada por pai africano ou mãe solitária afri-
cana; crioulos — família crioula chefiada por pai crioulo ou mãe solitária crioula.
Fontes: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus, 1795, no 9.225, cx. 872; in-
ventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher, Maria Januária
Galvez Palença, 1818, cx. 3.622, DEP 511. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

Indo mais adiante, nota-se que tal situação não decorria apenas da
antiguidade nas fazendas. Na verdade, a posição cimeira daquelas famílias
de oficiais resultava também de sua ação, ou melhor, de suas estratégias.
Raimundo, crioulo, pastor e com partido de cana, e sua mulher tiveram
três filhos, todos batizados por escravos oficiais casados, sendo um, cha-
mado Joaquim — pardo, também com lavoura. Um desses padrinhos,
Felizardo, angola, caldeireiro, escolhera para batizar sua filha Agueda o
acima mencionado Joaquim. Assim, Raimundo, Joaquim e Felizardo,
além de compartilharem a mesma posição na senzala, eram compadres,
ou seja, aliados diante das incertezas da vida em cativeiro. O nosso José
Batista, cabra, teve um comportamento semelhante. Ele era compadre de
Salvador, ferreiro e pai de dois rebentos. A figura a seguir indica clara-
mente que esses oficiais procuravam estabelecer alianças entre si.

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Compadrio entre escravos com ofícios e lavouras: Engenho Sapopema
195
Raimundo, Marcela,

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


crioulo, Angola
pastor com lavoura

Constância, Maurício, Eufrázio,


n. 1791 n. 1793 n. 1795
Felizardo, Florinda,
Angola, Angola
caldeireiro Agueda,
n. 1794
Joaquim, Izidora,
pardo, parda
barqueiro com lavoura

Na década em que José Batista nasceu, a de 1750, foram registrados


em Irajá e em Jacarepaguá poucos batismos de filhos de casais mistos
(pai livre ou forro e mãe escrava). Quando isso ocorreu, quase sempre
os padrinhos eram livres ou forros. Desse modo, a criança aparecia
como o ponto de encontro de duas relações sociais distintas, ou me-
lhor, estava entre dois segmentos sociais distintos. Algo marginal em
sociedades escravistas como as do Caribe inglês do Setecentos, onde a
alforria e os casamentos mistos eram legalmente coibidos, pois nessas
sociedades escravistas prevaleciam práticas legais e costumeiras que vi-
savam a não integração dos cativos à sociedade ou sua manutenção
como estrangeiros. Algo diferente ocorreu na América lusa e, disso, a
situação de José Batista, escravo, filho (por parte de pai) e afilhado de
forros, é um bom exemplo. Na verdade, a situação de alianças como a
personificada por Batista perde seu caráter ambíguo ou marginal e ga-
nha novas feições quando consideramos as opções de pactos dos escra-
vos via compadrio. Na tabela 10 nota-se que, na década considerada,
em Jacarepaguá, 295 famílias de cativos levaram seus filhos para o ba-
tismo. Destas, 126 (43%) escolheram padrinhos sem cor e menos de
um terço optou por compadres escravos. Portanto, mais de três quartos
das alianças feitas pelos cativos via compadrio ultrapassavam a senzala,
ou seja, chegavam aos segmentos sociais livres, inclusive aos conquista-
dores. Em meio a esse cenário, eram realizadas práticas que reiteravam
as hierarquias nas senzalas, assim como suas relações com a sociedade.

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TA B E L A 10
196 No de padrinhos e de afilhados escravos em Jacarepaguá, 1750-1759
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Afilhados, Afilhados, filhos Afilhados, filhos Afilhados, filhos


Tipo de Famílias
Padrinhos filhos de de mães de mães solteiras de mães solteiras
padrinhos compadres
casais solteiras pardas com apelidos
Conquistadores 13 16 2 9 5
Pardos/Forros 50 57 27 30
Livres 123 126 36 62 25 3
Escravos 98 96 60 34 2
Totais 284 295 125 135 30 5

Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá, 1750-1759, da


Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

Essa mistura de relações sociais em que um escravo pode ser pa-


rente ritual de forros e de livres (sem cor) é um dos traços estruturais
da vida nas freguesias açucareiras da capitania; ou, se preferirem, na
escravidão aberta da América lusa, comparada com a anglo-america-
na.32 Porém, essa plasticidade não deve esconder a natureza hierár-
quica da sociedade. Na verdade, tal flexibilidade foi o cenário para a
reiteração de estratificações nas senzalas e o trampolim para a liber-
dade. Esses fenômenos ficam mais claros nos registros paroquiais de
batismo de escravos de Irajá entre 1780 e 1795, cuja qualidade das
informações é melhor do que a de meados do século.33
Na tabela 11 procuro apresentar os traços segundo os quais os
escravos e demais personagens atuavam no período considerado.
Nessa tabela trabalho com informações sobre a procedência e o es-
tado civil das mães escravas, notando-se o predomínio das mães
africanas casadas. Elas correspondiam a mais de um quarto da amos-
tra e tinham a maior taxa de fecundidade: 1,26 fi lho por mãe. As-
sim, apesar de Irajá ser uma freguesia com mais de 200 anos, a repo-

32
Sobre escravidão aberta e fechada e suas respectivas sociedades, ver, entre outros,
Watson (1980), Isaacman e Isaacman (2004), Glassman (1995) e Willis (1980).
33
O século XVIII foi um período de várias transformações, desse modo, deve-se
ter certa cautela nas análises de conjunto da segunda metade do século. As observa-
ções a seguir não estão imunes a tais perigos.

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sição da mão de obra cativa dependia ainda em grande medida do 197
tráfico atlântico. Mais do que isso, as famílias conjugais eram majo-

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


ritariamente africanas. Das 142 mães casadas, 104 eram africanas e o
restante, 38, ou 26,7% do total, nascidas no Brasil.

TA B E L A 11
Estado civil das mães escravas por naturalidade e cor, Irajá 1780-1795

Mães No Casadas Solteiras


Africanas 217 104 113
Crioulas 137 35 102
Pardas 46 3 43
Total 400 142 258

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Examinando mais atentamente essa tabela, pode-se ter uma outra


leitura. De uma amostra de 400 mães, 258 mulheres ou dois terços
tiveram seus rebentos fora de uniões maritais, sendo essas moças ditas
solteiras, 145, ou 56,2% do total, majoritariamente da terra, no caso
nomeadas pelo cura como crioulas e pardas. Estas últimas notícias
nos impedem de classificar tais mães como famílias solitárias. Pri-
meiro, eram da terra, ou seja, pertenciam à segunda geração ou mais
de escravos na capitania, havendo portanto saído de famílias preexis-
tentes. Segundo, como já disse, numa sociedade pré-industrial, a
existência de uma família solitária — entendida como mãe e fi lho
— é pouco provável. Na verdade, estamos diante de uma situação
em que parte expressiva das moças pardas e de suas redes de perten-
cimento (redes que pouco conheço, mas que existiam) optava e/ou
era levada a escolher pactos maritais diferentes do casal formal.
A ideia de que tais mães solteiras — ou as relações sociais nelas
personificadas — resultavam de uma escolha fica mais patente quan-
do observamos que algumas tinham mais chance de alcançar tal si-
tuação do que outras. Na tabela 11 temos 46 pardas, das quais 43
aparecem como solteiras e apenas três, casadas. Algo bem distinto

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198 ocorre no caso das africanas, em que o número de solteiras e casadas
é quase o mesmo. Das 137 mulheres crioulas investigadas, dois ter-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

ços escolheram algo diferente do que o casamento formal na senza-


la. Em outras palavras, as mestiças — fi lhas de pardos ou de relações
interétnicas ou ainda entre pessoas livres e escravas — tinham mais
oportunidades de não se casarem com escravos e, portanto, de vive-
rem situações diferentes, em particular das africanas. Estas últimas
eram desterradas pelo tráfico, estrangeiras na terra e provavelmente
tinham mais pressa de reconstruírem seus laços de sociabilidade via
parentesco. Algo que não ocorria com as crioulas e pardas, ambas já
produtos de relações parentais pretéritas na terra. Assim, começamos
a voltar ao tema iniciado na tabela 1, ou seja, a existência de estrati-
ficações sociais nas senzalas.
As diferenças entre africanas, crioulas e pardas podem ser perce-
bidas também no compadrio (tabela 11.1). As pardas, ou mais de
90% delas, preferiam ou tinham chances de escolher aliados sem cor
ou livres. Quarenta e seis mães solteiras pardas tiveram também 46
compadres, dos quais 34 (74%) eram livres. As chances de estabele-
cer pactos com livres era bem menor para as mães africanas, fossem
elas casadas ou solteiras. Nos dois últimos casos, os aliados livres
correspondiam a menos de 30% do total de padrinhos.

TA B E L A 11.1
Escolhas das mães escravas — conforme naturalidade, estado civil
e status social — de seus compadres — conforme status social e jurídico, Irajá, 1785-1790

Padrinhos Padrinhos pardos/ Padrinhos Total de


Mães No de mães
escravos forros livres padrinhos
Africanas casadas 100 (127 filhos) 85 (94 afilhados) 12 (13 afilhados) 20 (20 afilhados) 117
Africanas solteiras 113 (124 filhos) 63 (65 afilhados) 17 (18 afilhados) 36 (38 afilhados) 116
Crioulas casadas 35 (43 filhos) 25 (25 afilhados) 6 (8 afilhados) 10 (10 afilhados) 51
Crioulas solteiras 102 (121 filhos) 34 (35) 16 (17) 62 (69) 112
Pardas casadas 3 (3 filhos) 1 (1) 0 2 (2) 3
Pardas solteiras 46 (48 filhos) 8 (8) 4 (4) 34 (34) 46

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

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Enfi m, parece que na sociedade escravista considerada os pardos 199
tinham mais oportunidades do que os demais segmentos da senzala.

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Um fenômeno que nos ajuda a defi nir melhor a escravidão tratada
como aberta em relação às demais sociedades escravistas, seja no
Novo Mundo, no Congo-Angola ou no Islã. Na verdade, o próprio
pardo, enquanto cor, personifica uma relação social entre status ju-
rídicos diferentes.
A argumentação até agora construída leva à alforria, compreendi-
da como resultado de relações pessoais desenvolvidas no interior de
uma casa, à margem da formalidade da monarquia, e como resultado
dos jogos dos grupos domiciliados ou não em tal casa. A frequência
desse ato de liberdade concedida pelo senhor da casa pode nos ajudar
a entender por que Irajá, apesar de ser uma velha freguesia escravista,
dependia tanto do tráfico atlântico de cativos. Isso, mesmo conside-
rando a baixa taxa de fecundidade das escravas. Conforme as tabelas
11 e 11.1, a baixa fecundidade das escravas angariava para elas a re-
compensa de alianças ou a proteção de sujeitos livres. O que, a prin-
cípio, soa como um paradoxo.
Parece que na sociedade estudada a alforria estava no horizonte
dos cativos. Entre eles, o segmento dos pardos teria mais chances do
que os demais grupos. As evidências apresentadas insinuam tal cená-
rio. A própria baixíssima fecundidade das pardas sugere que elas
mais adiante sumiram dos livros de batismo de escravos e reaparece-
ram nos dos livres. Em outro ensaio apresentei dados, mesmo toscos,
que demonstram que, entre os casais forros, a taxa de fecundidade
era bem superior à dos cativos.34
Entretanto, a classificação das mães e de seus grupos de pertenci-
mento em pardos, crioulos e africanos apenas abre a discussão sobre
hierarquias sociais nas senzalas e seus elos com outras estratificações
fora da senzala. Para tanto, basta voltar às tabelas 8 e 9. Em ambas se
vê que a elite da senzala era formada por homens naturais da terra,

34
Cf. “A reforma monetária, o rapto de noivas e o escravo cabra José Batista: notas
sobre hierarquias sociais costumeiras na monarquia pluricontinental lusa — séculos
XVII e XVIII”, ainda inédito.

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200 casados, com ofícios qualificados e com acesso a canaviais. Portanto,
para ingressar nesse seleto grupo, uma das condições era o casamen-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

to. José Batista era casado e fi lho de outro casal; e mais: sua esposa
era Efigênia, angola. Portanto, uma senhora que, segundo os crité-
rios já mencionados, se encontrava no último patamar entre as mu-
lheres da senzala. Na verdade, a história de José Batista destrói toda
a estratificação de moças acima construída. Ou melhor, nos obriga a
olhá-la com mais cautela.
Talvez uma saída para essa aparente confusão por mim construída
seja perceber que a sociedade escravista considerada comportava di-
ferentes estratégias escravas, mas visando a mesma coisa: reduzir as
margens de insegurança no cativeiro. Vejamos o mundo que José
Batista personificava.
A tabela 12, apesar de sua fragilidade, chama a atenção para o fato
de os casais com maior fecundidade serem os formados por crioulos
e africanas (1,92), seguidos dos africanos (1,19). Já a tabela 12.1 mos-
tra que os ditos casais mais férteis escolhiam seus compadres na sen-
zala. Eles privilegiavam, em primeiro lugar, alianças com outros
escravos e, não, com pessoas fora do cativeiro. Em segundo lugar,
usavam o batismo como instrumento para reforçar pactos com alia-
dos já conhecidos. Daí 14 padrinhos escravos terem batizado 21
crianças, à semelhança do apresentado na figura, onde Raimundo e
Marcela escolheram o casal Joaquim e Izidora para batizar dois de
seus três fi lhos. Aqui não há como esquecer que os pais eram criou-
los, portanto descendiam de escravos como os seus compadres escra-
vos crioulos e pardos também escravos; talvez tais pactos remontas-
sem a outros tempos e mesmo gerações.
Ao que parece tais práticas ocorriam em casas com grandes escra-
varias, e os escolhidos como padrinhos eram escravos da terra, leia-se
com mais de uma geração na mesma fazenda. Nesse momento, a es-
tabilidade no engenho ou o fato de pertencerem a uma antiga paren-
tela escrava implicava prestígio perante os demais cativos. Aqui en-
contramos um link entre uma elite de cônjuges e as mães pardas
aparentemente solitárias: ambos saíram de velhas parentelas escravas.

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TA B E L A 12
Tipos de casais em Irajá por origem dos cônjuges e número de filhos 201

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


Casais No Filhos

Africana x africano 93 111 1,19

Crioula x africano 24 27 1,12

Crioulo x africana 13 25 1,92

Crioulo x crioula 16 16 1

Forro x parda 1 3 3

Forro x forro 1 1 1

Forro x crioula 2 4 2

Total 150 187

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

TA B E L A 12 .1
Escolhas de padrinhos pelos 13 casais com pai crioulo e mãe africana
Tipos de padrinhos: origem e status social e jurídico, Irajá, 1785-1795

Tipos de padrinhos No de padrinhos No de casais Afilhados

Forros/Pardos 2 2 2

Livres 2 2 2

Escravos 14 9 21

Total 18 13 25

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Os casais de africanos adotavam uma estratégia bem diferente dos


casais formados por pais crioulos e mães africanas. Eles preferiam
diversificar suas alianças, escolhendo para cada um de seus rebentos
um padrinho diferente. Daí o número de padrinhos ser praticamen-
te igual ao de afi lhados, apesar de tais casais terem a segunda melhor
taxa de fecundidade entre os casais.

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202 Seja como for, o compadrio, ou a criação de aliados, parece ser
central na vida dos escravos, particularmente considerando que se
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

tratava de uma sociedade em grande medida formada por estrangei-


ros. E isso fica patente quando se percebe que tal prática possibilita-
va a formação de redes de aliados que podiam atravessar diferentes
segmentos sociais e mesmo casas. A tabela 13 procura demonstrar
isso. Nela, tomei por critério a montagem de alianças nas quais esta-
vam presentes mais de um casal de escravos enquanto pais. Assim,
eram redes em que a presença de casais não era fortuita, mas propo-
sital. Além disso, em tal rede encontramos casais que pertenciam à
elite das senzalas; como vimos, ela era formada por casais que pro-
curavam como aliados outros casais da mesma estirpe. Mais uma vez
a figura nos serve de exemplo. Nela temos compadrios em que um
mesmo padrinho é compadre de mais de um casal.
Feito esse cruzamento, pode-se observar que os padrinhos sem cor
ou livres aparentemente não tinham a preocupação de participar de
tal empreendimento. Portanto, para os escravos e forros, tal recurso
era mais vital do que para os livres, como se vê na tabela 13.1. Em
Irajá, entre 1780 e 1795, localizei 51 forros como compadres de 73
famílias escravas. Desses 51 padrinhos, seis estavam presentes em re-
des com mais de um casal de escravos. Ou seja, seis forros, ou 11,7%
do total, estavam envolvidos em amplas alianças, que reuniam 19 ou
mais de um quarto das 73 mães cujos fi lhos foram apadrinhados pelo
grupo na tabela 13.1. Entre essas 19 mães, algumas — as casadas com
crioulos — podiam pertencer à elite de suas senzalas. Os compadres
pardos pelo menos eram aliados de três famílias escravas. Apesar da
importância dos padrinhos forros/pardos para os escravos, os pardos,
quando escolhiam seus padrinhos, optavam por livres e não por ou-
tros pardos. A hierarquia estamental assim retornava. Isso fica claro
quando consideramos o comportamento de José Correia da Silva,
pardo. Ele e sua mulher batizaram dois casais e uma mãe solteira,
todos de senhores diferentes. Porém, não há como saber se tais pro-
prietários eram moradores ou não da mesma casa. O caso de José
Correia chama a atenção, a começar por seu nome e apelido. Ambos,

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provavelmente, uma deferência à família Correia da Silva, aparenta- 203
dos do mestre de campo João Barbosa Sá Freire e ex-potentados na

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


região. O fi lho mais velho de José foi batizado por um capitão, ou
seja, outra deferência à hierarquia estamental da região.

TA B E L A 13
Redes de compadrio com a participação de mais de um casal de escravos

Casais
Padrinhos No Africano x Africano x Crioulo x Crioulo x Africana Parda Crioula
Mães Forros
africana crioula africana crioula solteira solteira solteira
Forros/Pardos 6 5 3 2 1 4 2 2 19 21
Escravos 17 11 2 8 0 6 0 0 27 34

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

TA B E L A 13 .1
Escolhas, pelos padrinhos, de suas comadres escravas: origem e status social e jurídico

Padrinhos No de padrinhos Mães africanas Mães crioulas Mães pardas Total de mães
Forros/Pardos 51 35 34 4 73
Escravos 204 137 58 9 204
Livres 136 64 76 35 175
Total 391 236 168 48 452

Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1780-1795, da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro.

Por seu turno, a tabela 13 referenda a ideia de que os casais de


escravos escolhiam como compadres outros escravos (ver tabela
11.1). Um fenômeno que também sugere tal prática seria o daqueles
casais que formavam a elite nas senzalas: os casais de crioulos-africa-
nos, que preferiam outros cativos para padrinhos. Quando se passa
do dado agregado para a trajetória de vida, essa opção fica mais pa-
tente. O nosso José Batista, escravo de João Pereira Lemos e depois
de sua viúva, apadrinhou dois casais — um dos fi lhos de Salvador

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204 cabra e ferreiro e outro do casal de angolanos Caetano e Maria, este
pertencente, em 1794, ao fi lho mais velho de João Pereira, na época
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

já capitão e dono de um partido de cana em Sapopema. Outro


exemplo é o da casa do capitão Bento Luiz de Oliveira Braga. Qua-
tro escravos de seus escravos, entre 1791 e 1795, apadrinharam oito
crias de quatro casais. Entre eles, Roman, cativo pardo, batizou, por
exemplo, dois rebentos de Roque crioulo e de Joana angola e outra
cria de João camundongo e Maria benguela.
Estas últimas informações indicam que as redes de alianças com-
plexas vistas na tabela 13 talvez ocorressem com mais frequência nos
grandes plantéis, ou melhor, nas amplas casas senhoriais cujos mora-
dores incluíam também outros donos de escravarias. Portanto, eram
alianças de escravos dentro das casas, e seus objetivos talvez fossem
produzir recursos para lidar com os senhores nas relações clientela-
res, como a alforria e o acesso a terras. Mas qualquer tipo de conclu-
são nesse momento é precipitada.

***

Na verdade, para os temas levantados toda e qualquer conclusão


neste momento é precipitada. Porém, alguns fenômenos começam a
tomar contornos mais precisos. Por exemplo: o capitão Bento Luiz de
Oliveira Braga pertenceu a uma geração de senhores de engenho fru-
to do capital mercantil, ou seja, sua fortuna saiu dos negócios do
Atlântico. Apesar disso, ele seguia ainda uma moral ou sistema de
valores construída no tempo do predomínio dos conquistadores. Nes-
se sentido, as ideias de dona e de oficial da ordenança continuaram
como símbolos de poder até pelo menos fins do século XVIII. Da
mesma forma, a prática de apadrinhar pardos e, com menor intensida-
de, fi lhos de cativos perdurou. O próprio Bento Luiz, quando tinha
12 anos, batizou fi lhos de pardos, como vários filhos de conquistado-
res fizeram no século XVII. Maria Januária Galvez, esposa de Manuel
Antunes Suzano, dona de dois engenhos em Irajá somando mais 250
escravos, ao morrer em 1818 deixou em testamento a recomendação

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de alforriar 11 escravos e de dotar para o casamento três pardas.35 E em 205
seus engenhos existiam partidos de cana de lavradores livres e escra-

O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS


vos. Ou seja, ainda na segunda década do século XIX, senhores, es-
cravos e pardos compartilhavam uma moral vinda de séculos atrás e
cuja referência era a casa e suas relações clientelares.
Apesar dessas evidências, é necessário muito estudo para compreen-
der melhor temas como o sistema de normas das freguesias rurais do
Rio de Janeiro. Isso sem falar nos mecanismos de transmissão de patri-
mônio e nos expedientes usados pela velha nobreza principal da terra
para exercer domínio sobre a propriedade rural (e sua combinação
com os pactos nupciais). Por último, para estes e outros estudos é ne-
cessário, no Brasil, a elaboração de métodos de pesquisa que combi-
nem a micro-história italiana com técnicas seriais, a fim de driblar a
falta de fontes, fantasma que atormenta os pesquisadores profissionais.

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Janeiro: Record, 2003.
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res e capitães-mores do império atlântico português nos séculos XVII e
XVIII. In: MONTEIRO, Nuno G.; CARDIM, Pedro; CUNHA, Mafalda
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Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005. p. 191-252.
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TINO, Manolo. The trans-Atlantic slave trade database. Disponível em: <http://
wilson.library.emory.edu>.

35
Cf. Inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher Maria
Januária Galvez Palença — 1818, cx. 3.622, DEP 511. Arquivo Nacional do Rio de
Janeiro.

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FRAGOSO, João. A nobreza da República; notas sobre a formação da pri-
206
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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Janeiro, UFRJ, n. 1, p. 49-52, 2000.


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Antigo Regime nos trópicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
———. Capitão Manuel Pimenta Sampaio, senhor do Engenho do Rio
Grande, neto de conquistadores e compadre de João Soares, pardo: notas
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MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
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1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

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8
Indivíduos, famílias e comunidades:
trajetórias percorridas no tempo e no espaço
em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX*
Mônica Ribeiro de Oliveira

As diferentes matrizes culturais que conformaram a América portugue-


sa e especialmente as Minas Gerais encontram-se inscritas nos agrupa-
mentos sociais, tanto naqueles mais integrados à lógica de domínio do
Império português, quanto naqueles mais distantes e periféricos. Cons-
tituiu um importante traço desses indivíduos e grupos o movimento
contínuo no espaço e no tempo em busca de um destino, de uma terra
para se fixar, de uma família por formar e manter, de uma rede de ami-
zades e trocas para tecer. Esse tipo de agrupamento social ou comuni-
dade agrária constitui o substrato desta pesquisa. Pela leitura do signifi-
cado dos laços generativos e dos laços de afinidade, objetivo perceber o
universo cultural desses grupos, através da formação de redes de paren-
tesco e alianças, capazes de promover o enraizamento e a construção de
novas identidades a cada fronteira aberta no espaço colonial.


Resultados ainda parciais das reflexões que venho realizando em um projeto de
pesquisa intitulado “Destinos incertos: o comportamento familiar das comunidades
rurais da América portuguesa”, com apoio da Fapemig e do CNPq.

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210 Para atender a esse propósito, acompanho trajetórias de indivídu-
os e grupos em uma determinada região de Minas Gerais no século
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

XVIII. Essa opção não se deve ao fato de considerá-los detentores de


uma originalidade, muito pelo contrário. As diferentes escolhas des-
ses indivíduos e grupos remetem a todo um universo de práticas
culturais próprias de sua época. Ao mesmo tempo, a pesquisa não se
resume à história de uma comunidade, ao gênero de monografi a de
povoados e vilarejos. Proponho um estudo das relações sociais de
indivíduos e grupos inseridos no contexto de abertura da fronteira e
ocupação de terras, formação de povoados, controle e exploração
dos recursos naturais e formação de redes mercantis, analisando as
dificuldades enfrentadas e as transformações processadas nas famílias
como fruto das escolhas realizadas.1
Por outro lado, este trabalho não se enquadra em uma história da
cotidianidade, das percepções e das experiências, tal como criticada
por Jürgen Kocka (2002). O autor questiona a tendência à simplifi-
cação daqueles trabalhos que se propõem a estudar os modos de
vida, os nichos da vida cotidiana, como alternativa à história estru-
tural. Para ele, o historiador deve levar a sério as vivências e opiniões
de seus sujeitos e, ao mesmo tempo, compreendê-las em seus con-
textos, como parte de uma cultura que o cerca: “lograr una conexión
adecuada entre las experiencias, las percepciones, las actitudes y las acciones,
de um lado, y las estructuras e procesos, de outro, resulta crucial”.2
O presente trabalho se inspira nas proposições da micro-história
italiana, principalmente quando esta utiliza como procedimento de
pesquisa a redução da escala de análise, propondo-se a esclarecer cer-
tas questões gerais que, no nível micro, podem revelar o que em uma
escala maior não é possível compreender. O espaço para o individual
e, portanto, incerto é articulado com uma perspectiva mais ampla,

1
Não faz parte também de meu objetivo trafegar no vasto e rico debate sobre a
história da família no Brasil e sua demografi a, já bastante consolidado há quase 20
anos. Pretendo outra qualidade de investigação, que não passa prioritariamente pe-
los levantamentos demográficos sobre nascimentos, idades de casamento, ciclo de
vida e taxas de legitimidade/ilegitimidade.
2
Kocka, 2002:84.

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contextual. Ao acompanhar a trajetória de indivíduos e grupos fami- 211
liares mais abastados e suas diferentes escolhas, considerei concomi-

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


tantemente a tendência à reiteração de comportamentos mais gerais,
apreendidos na cultura política do Antigo Regime que os cercava.
Os povoados eleitos para esta pesquisa poderiam ser outros, como
considerou Giovanni Levi (1993): “Creo que didacticamente, necesaria-
mente, lo ideal es no tener ningún interes específi co por la localidad que se
estudia. Es una tarea instrumental, se busca una escala reducida como un
laboratorio, para devenir al problema general”. Diferentemente de uma
história da cotidianidade afastada de seu entorno, unilateral e abs-
trata, propõe-se, através de um recurso sistemático ao contexto, o
estudo das sociedades agrárias, analisando-se os significados, atitu-
des e formas de atuar no mundo.

A conformação do lugar
O “lugar” eleito para essa investigação formou-se como reflexo de um
amplo movimento migratório de portugueses e naturais da terra, es-
pecialmente os paulistas em direção à região das minas. A imigração se
constituía em um traço da identidade cultural do Império português,
e os números, às vezes divergentes, comprovam essa importância.
Charles Boxer calcula que, no século XVI, cerca de 2.400 pessoas
deixavam Portugal todos os anos com destino à Índia portuguesa. Já
Magalhães Godinho cita a saída de 3 mil a 4 mil por ano, chegando a
atingir 8 mil por volta de 1620. No século XVIII, o fluxo humano
teria aumentado consideravelmente, levando a efeitos catastróficos
para Portugal.3 Por outro lado, David Eltis (2003:18), ao analisar as
variáveis entre a imigração e a estratégia global, trabalha com números
mais baixos. Enquanto os espanhóis tiveram uma média de 2 mil mi-
grantes por ano no século XVI e os portugueses, 3 mil por ano no
século XVIII, é provável que antes do século XIX a migração europeia
não tenha excedido uma média quinquenal de 10 mil imigrantes.

3
Russel-Wood, 1998:95.

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212 Contudo, afora esses números divergentes, interessa-nos a análise
das motivações para tal comportamento populacional dos portugue-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

ses, e os fatores explicativos apresentados são muitos. As primeiras


saídas aconteciam em função do impacto do descobrimento de no-
vas terras, culturas e possibilidades de ganho para os trabalhadores
urbanos ou camponeses menos abastados, até a emigração de emis-
sários, embaixadores, missionários e enviados comerciais, num am-
plo processo de alargamento das fronteiras, englobando África, Ásia
e Américas. Já a emigração durante as primeiras décadas do XVIII
deveu-se à febre do descobrimento do ouro e, certamente, ao acesso
ao poder, não necessariamente para amealhar o metal em si, mas
pela posse de homens, terras, respeito e status que ele ensejava.
Nas últimas décadas do século XVII, para além dos fatores socio-
econômicos que, em nível local, influenciavam a forma predomi-
nante da corrente emigratória portuguesa, havia também fatores
culturais que acabavam por promover o abandono da paróquia de
origem. Entre os primeiros pode-se citar, genericamente, a pressão
populacional (válida para as saídas comprovadamente mais numero-
sas das regiões do norte e noroeste de Portugal) e também o sistema
sucessório. Este contemplaria, teoricamente, todos os descendentes,
e os obrigaria a criar diferentes estratégias para conciliar a igualdade
entre os herdeiros e a indivisibilidade da propriedade, garantindo
assim a sobrevivência econômica do núcleo doméstico.4
Quanto às motivações culturais, remeto-me ao movimento secu-
lar dos povos que se utilizavam da emigração por distintos fatores,
seja por sua força conservadora capaz de perpetuar certo agrupa-
mento social no tempo, seja por provocar um estímulo à mudança
social. Caroline Brettel, ao eleger a emigração como temática prin-
cipal de seu trabalho, buscou entender seu significado em Portugal
não só como solução para as dificuldades da zona rural, a densidade
das famílias, mas também como reflexo do sistema sucessório, co-
mum em outros países europeus. Para ela, o recurso à emigração

4
Durães, 2004.

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funcionava como uma resposta local às pressões e à necessidade de 213
manutenção de um equilíbrio demográfico. A migração foi analisa-

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


da como um fenômeno dependente do sistema sucessório, de paren-
tesco, do sistema fundiário, ou mesmo como resposta ao comporta-
mento dos níveis de fecundidade.5
Por volta de 1709, as províncias do norte português sofriam fortes
impactos das migrações aceleradas para o Novo Mundo. D. João V
reeditava ordens, com o objetivo de conter a saída desenfreada, se-
gundo as quais, para viajar, o pretendente deveria dispor de passa-
porte. Os capitães de navios, por sua vez, podiam sofrer penalidades
se não respeitassem tais medidas. Contudo, essas pressões não surti-
ram o efeito almejado, o que se comprova através da chegada de
navios sem a autorização requerida. Os destinos eram as capitanias
do Nordeste e, principalmente, o Rio de Janeiro, ponto mais próxi-
mo para a chegada à região das minas.6
Portanto, diferentes motivações, internas, específicas de cada re-
gião e período da história de Portugal, levaram milhares de pessoas
a emigrar para o espaço colonial. Fugir da escassez de recursos, das
pressões de ordem natural e do inchamento das famílias, diante das
alternativas abertas no além-mar de acesso à terra e aos bônus dela
advindos, constituíam os principais fatores a explicar o fenômeno da
emigração no longo prazo. O espaço colonial abrigou ao longo dos
séculos inúmeros indivíduos. Nobres, fidalgos, clérigos, mercado-
res, homens de negócios vários, mas a metrópole expulsou conco-
mitantemente milhares de camponeses, homem sem fortuna, honra
e prestígio.
Falar dos emigrados e da condição dos colonizadores em terras
coloniais em fi ns do século XVII e início do XVIII constitui apenas
um enfoque da questão da ocupação do Brasil. Juntamente com os
navios carregados de população portuguesa e das ilhas atlânticas,
esse período assistiu a um aumento considerável do número de en-

5
Brettel, 1991; e Lobo, 1992.
6
Russel-Wood, 1998:94.

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214 trada de escravos africanos. John Thorton (2004:395), ao analisar as
causas do prodigioso aumento do comércio de escravos no século
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

XVIII, cita o aumento da demanda de escravos, principalmente das


ilhas do Caribe, a produção de açúcar e tabaco no Brasil e, depois, a
dinâmica mineradora do Sudeste brasileiro ao promover um cresci-
mento continuado e o aumento dos preços de escravos num ciclo
vertical que perdurou por todo o século.
O incremento do tráfico de escravos em função do ouro, detec-
tado por todos os especialistas, quando analisado por dentro, ou seja,
pela ótica das áreas receptoras — na região das minas —, enfrenta
muitos obstáculos. Refi ro-me à ausência de trabalhos demográficos
que deem conta daquelas sociedades em constante transformação.
Ocorreu um vigoroso aumento populacional com a chegada de por-
tugueses, africanos e “paulistas” por todos os caminhos, além do
inevitável enfrentamento com os nativos.7 Russell-Wood
(2000:164) calcula que, entre 1698 e 1717, entraram aproximada-
mente 2.600 escravos por ano em Minas Gerais, número que se
elevou para 3.500-4 mil no período 1717-1723 e para 5.700-6 mil
em 1723-1735. O Rio de Janeiro tornou-se a principal porta de
entrada de africanos, em sua maioria angolanos, para a região minei-
ra. Entre 1715 e 1727, de acordo com os dados levantados por Ma-
nolo Florentino, saíam anualmente do Rio de Janeiro para as Minas
cerca de 2.300 cativos. Na década de 1730 aumentara em 40% o
volume de escravos africanos importados pelo Rio de Janeiro, gran-
de parte deles direcionados para as Minas. Concomitantemente ao
incremento das importações pelo Rio de Janeiro, crescia também a
importância da região congo-angolana como principal fornecedora
de cativos, suplantando, na década de 1730, a Costa da Mina.8
Botelho (2000:5), ao se utilizar de fontes fiscais como a cobrança
de quintos, conseguiu uma melhor aproximação com o movimento
populacional da região das Minas e preencheu uma importante la-

7
A respeito da chegada de “paulistas” e das considerações relativas ao emprego
desse termo, consultar Oliveira (2008).
8
Ver Florentino (1995:45).

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cuna ao produzir dados sobre a presença escrava nos principais ter- 215
mos e arraiais na primeira metade do século XVIII. A título de

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


exemplo, cito os dados do autor para o ano de 1721. Nesse período,
havia um total de 10.741 escravos em Vila Rica (fundada em 1711),
com 1.757 proprietários. Aproximadamente 57% desse total possuí-
am de um a quatro cativos; 25% possuíam de cinco a nove cativos;
13%, de 10 a 19, e menos de 5%, mais de 20 cativos. Esses dados
reiteram as pesquisas sobre a difusão da propriedade escrava, consta-
tada pela grande presença de pequenos proprietários, bem como um
padrão de propriedade de escravos desconcentrado, característico de
uma hierarquia desigual, própria das sociedades escravistas fora do
eixo da plantation exportadora.
Esse grande afluxo populacional para a região central da capitania
mudou definitivamente a paisagem dos sertões mineiros, antes habita-
dos por gentios e cortados por vias íngremes, trilhadas por aventurei-
ros. A presença indígena na região das Minas sofreu um quadro de
acomodação da fronteira originado da destruição e da assimilação
das sociedades indígenas, tal como relata Renato Pinto Venâncio.
Em uma cuidadosa investigação, o autor analisou como as popula-
ções indígenas foram afetadas pelo desenvolvimento das atividades
econômicas do litoral e pela expansão das fazendas de gado. Dessa
forma, o norte mineiro foi ocupado mobilizando habitantes da
Bahia, do Espírito Santo e paulistas, e um segundo eixo de penetra-
ção, mais tardio, que partia especialmente de São Paulo, levaria à
fundação das vilas e arraiais, como Taubaté, Guaratinguetá e Jacareí.
Dessas regiões, posteriormente, é que se irradiaram expedições à
serra da Mantiqueira. Foi através desse fundamental eixo de pene-
tração, em fi ns do século XVII, que a existência de lavras de ouro
foi descoberta e o movimento de captura de índios e retorno a São
Paulo foi transformado em colonização efetiva do território.9
Processou-se um importante florescimento urbano, caracterizado
inicialmente pela construção de capelas, vendas, tabernas e moradias

9
Venâncio, 2007, v. 1, p. 85-102.

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216 irregulares, em um movimento anterior ao da chegada do Estado,
capaz de ordenar, atribuir funções e estabelecer autoridade. Nesse
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

contexto foi fundado o arraial do Carmo (Mariana) em 1711 e tam-


bém Vila Rica e São João del Rei. No entorno da principal região
aurífera desenvolveram-se atividades econômicas de caráter essen-
cialmente rural, com diferentes conexões com o mercado, baixa
concentração populacional, poucos e esparsos núcleos urbanos es-
trategicamente localizados. Muitos desses núcleos, fundados como
reflexos da região mais dinâmica da extração, nasceram em função
da descoberta das lavras auríferas e logo perderam sua vocação mi-
neradora, pelo fato de as lavras serem pouco profundas, acabando
por assumir, posteriormente, uma função de reserva agrícola de
apoio aos centros urbanos mais florescentes.10

A conformação da paróquia
É nesse contexto de encontro de distintos indivíduos que a comuni-
dade eleita para nossa investigação se encontra. Quando opto pela
utilização do conceito de comunidade, faço-o sem me prender às
tradicionais reflexões acerca do termo.11 Ana Sílvia Volpi Scott, tri-
butária de uma longa tradição demográfica do Núcleo de Estudos e
Pesquisas Populacionais da Universidade do Minho (Neps), elegeu
uma freguesia do noroeste português para, mediante uma vasta pes-
quisa empírica, analisar as famílias, as formas de união e reprodução
social numa comunidade. A autora reflete sobre os riscos desse tipo de
opção metodológica, ressaltando os riscos do “paroquialismo” através

10
Há importantes trabalhos dedicados ao estudo da ocupação urbana em Minas
Gerais. Destaco Moraes (2007) e Borrego (2004).
11
Refi ro-me às questões propostas originariamente por Alan MacFarlane (1980 e
1990). O autor analisou a precisão da delimitação de uma comunidade; se as fron-
teiras defi nidas respeitavam os limites geográficos nos quais se realizavam os casa-
mentos e as trocas de produtos; ou mesmo se uma comunidade reuniria aquelas
pessoas que praticavam juntas seus cultos. O autor também dissociou os aspectos
sociais e geográficos dos estudos de comunidade, procurando demonstrar que os
relacionamentos sociais em uma área geográfica defi nida seriam distintos do sentido
de “pertencer a um grupo” e da proximidade física.

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de uma perspectiva reduzida e local, ou mesmo a falta de representa- 217
tividade estatística, inerente a esse tipo de estudo. Para Scott (1999:14),

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


o estudo de comunidade “é um dos meios mais indicados para se
avaliar como os indivíduos, que viveram em um determinado espaço
geográfico e num dado espaço temporal, definiram seus arranjos fa-
miliares, como organizaram seus agregados domésticos, como se re-
lacionaram com seus parentes e vizinhos...”.12
Edoardo Grendi, ao prefaciar um número da revista Quaderni Sto-
rici dedicado ao estudo da família e da comunidade em 1976, apre-
senta o tema tecendo críticas à proposição de modelos familiares de
P. Laslett e a sua tentativa de integrar a história demográfica à histó-
ria social. Para Grendi, a dimensão da família em determinado mo-
mento captado pelas fontes constitui apenas uma fase de seu ciclo
biológico, devendo-se levar em conta todo o ciclo de desenvolvi-
mento doméstico e de distribuição da riqueza familiar.13 O autor
defende a “direzione microscópica di uno studio della comunità rurale, di
sapore indubbiamente etnologica”,14 no qual não se deve prescindir do
tema da comunidade no estudo da família e de sua sucessão heredi-
tária, para se entender a convergência de interesses, seja na esfera
econômica, política ou sociocultural desta última.
Nessa mesma direção, Giovanni Levi (2003:257) ressalta que o
estudo da cultura das massas camponesas deve estar articulado às
funções e às interdependências que as redes sociais criam, através do
vínculo entre situações individuais, locais, comunitárias e a evolu-
ção da sociedade complexa na qual todas elas se encontram inseri-
das. Portanto, uma análise assentada em fichas de famílias, criadas a
partir de um dado ciclo biológico, é insuficiente e incapaz de aduzir

12
Para discussões mais amplas a esse respeito, consultar Brandão e Feijó (1984),
Pina Cabral (1989) e Rowland (1984).
13
A pertinente crítica de Grendi (1976) nos alerta para o uso indiscriminado de
certas fontes documentais sem o devido cruzamento com outras. Na pesquisa his-
tória no Brasil, por exemplo, alerto para a utilização dos inventários como única
fonte de pesquisa, uma vez que estes eram abertos no momento da morte do chefe
de família ou da esposa, o que coincidia, na maioria das vezes, com o período da
velhice e, portanto, de decadência do ciclo doméstico.
14
Grendi, 1976:883.

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218 a dinâmica dessas sociedades. Recorrer ao contexto, assim como a
uma análise que supere os limites da família em si, a fi m de analisar
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

o comportamento de “frentes familiares”, tal como proposto por G.


Levi em Herança imaterial, torna-se um procedimento metodológico
fundamental para o estudo da história da família.
A comunidade rural eleita para análise foi se delineando lenta-
mente, à medida que a pesquisa avançava. Primeiramente, o limite
foi se conformando a partir de um critério empírico. Parti de todos
os registros de batismo inscritos nos livros de assento de batismo de
Conceição do Ibitipoca. Aos poucos, percebi que esse povoado abri-
gava uma igreja matriz, que era a sede da paróquia, e que era o mais
próspero vilarejo de um conjunto mais amplo de outros povoados.
Os registros dos nascimentos, levantados a partir dos pais dos bati-
zandos, eram realizados em diferentes capelas, do que auferi que os
indivíduos e suas famílias estavam espalhados por uma rede de pe-
quenos povoados interligados pela paróquia central. Então, um se-
gundo critério de delimitação emergiu: a rede de relações sociais,
tecida pelo movimento das pessoas e grupos em busca de oportuni-
dades, terras férteis, lavra por descobrir, matrimônios, entre outras
motivações. As pessoas se movimentavam no espaço do alto da Bor-
da do Campo e, posteriormente, migravam para outras regiões da
comarca do Rio das Mortes. Posteriormente, esses dados primários
foram cruzados com distintas fontes cartoriais, a partir do nome dos
pais, principalmente inventários, com a fi nalidade de compreender
o perfi l das organizações familiares ali residentes, tal como a posse
de escravos, o número de fi lhos, a cultura material, entre outros.
Dados passíveis de quantificação que me pudessem fornecer infor-
mações sobre o número de livres e escravos, a composição dos gru-
pos por sexo, idade, profissão etc., tais como nos mapas de popula-
ção. Mas estes não existem para a localidade em estudo, o que
dificultou a formulação de uma base estatística mais ampla. Portan-
to, como o cruzamento nominal dos registros de batismo com as
demais fontes de natureza cartorial me permitia um acompanha-
mento das trajetórias individuais e familiares, essa atitude foi assu-

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mida como a única saída possível para a aproximação com esses gru- 219
pos periféricos, dispersos em uma área de fronteira.

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


A paróquia de Conceição de Ibitipoca localizava-se no alto da
serra da Mantiqueira, em uma região de difícil acesso, parte do ter-
mo da Borda do Campo, parte da comarca de São João del Rei e,
mais tarde, da comarca de Barbacena. As bandeiras paulistas chega-
ram à região na última década do século XVII e instalaram as pri-
meiras datas de exploração aurífera. Os índios encontrados foram
aos poucos exterminados ou expulsos da região logo nos primeiros
anos de exploração. Foram fundados os primeiros arraiais e, entre
eles, Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca. No livro de lança-
mento de escravos desse povoado para o procedimento da capitação
em 1715, consta a presença de 149 cativos, divididos entre 30 pro-
prietários:

TA B E L A 1
Livro de capitação de 1715, lançamento dos moradores de Ibitipoca

Faixas de posse Total % do total de cativos


No de proprietários
de cativos de escravos por faixa
1a2 19 12,75 12
3a5 30 20,13 9
6a8 28 18,80 4
Acima de 9 72 48,32 5
Total 149 100,00 30

Fonte: Arquivo Público Mineiro. Casa dos Contos 1012.

Esses dados demonstram que, nas duas primeiras décadas da ex-


tração aurífera, mesmo em regiões mais distantes dos principais cen-
tros de exploração mineral como Vila Rica e Mariana, já estava de
certa forma aberta a fronteira da Mantiqueira, com a formação de
unidades produtivas de diferentes dimensões, voltadas para suas datas
de exploração mineral e também agrícola, tendo em vista que a terra
nessa região prestava-se a atividades agropastoris, de acordo com os
relatos de época e dos documentos encontrados para o período.

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220 Entre esses primeiros povoadores percebe-se a presença de no mí-
nimo quatro sertanistas, reconhecidos pelos genealogistas como im-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

portantes desbravadores do sertão das Minas Gerais.15 Comprova-se


aí a associação dos serviços prestados ao reino, como os dos capitães
ou sargentos-mores, com o desbravamento, a interiorização e a con-
cessão das mercês de sesmarias. André Figueiredo Rodrigues (2002),
em seu trabalho sobre a ocupação e a posse de terras na freguesia da
Borda do Campo, ressalta a importância das doações de sesmarias a
esses primeiros homens e como, através de suas intrincadas redes
familiares, estes favoreceram muitos de seus parentes com a doação
de vastas terras, o que conduziu a uma rápida ocupação das terras, à
primeira vista em poucas mãos. Mas ele mesmo ressalta que, parale-
lamente a esse processo formal de doação, solicitação e confi rmação
de sesmarias, havia espaço para o intruso, o homem livre pobre,
disposto a arrendar terras para a produção agropastoril, ou mesmo
um assento para sua família com pequena roça de milho e feijão.
A tabela 1 oferece outro enfoque, que vem confi rmar importan-
tes trabalhos historiográficos sobre Minas Gerais colonial: a disse-
minação da propriedade escrava, em que 12 dos 30 proprietários
detinham de um a dois cativos e, por outro lado, a concentração
dessa posse. Entre os cinco maiores proprietários, encontramos pos-
ses de 11, 12, 13, 16 e 20 cativos, ou seja, esses proprietários deti-
nham mais de 48% da escravaria encontrada. Propriedades com essa
dimensão indicam grandes possibilidades de extração nessas duas
primeiras décadas, mas não necessariamente de profundidade das
lavras. A extração rápida e agressiva desse início não se perpetuou
nas décadas subsequentes, levando a uma nova configuração da pai-
sagem agrária e dos grupos sociais nela instalados.
Como se percebe, os povoados foram fundados seguindo o mes-
mo padrão de formação das mais florescentes áreas urbanas da região
das minas. Contudo, não se observa uma preocupação urbanizató-
ria, nem tampouco um interesse do Estado português em se estabe-

15
Franco, 1989.

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lecer oficialmente na região, a não ser pelo enquadramento aos tri- 221
butos. As lavras pouco profundas não ofereciam muitos atrativos

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


para a fi xação de famílias. O que se percebe pela captação é a pre-
sença de unidades movidas não por famílias nucleares, mas pelos
primeiros desbravadores, agraciados com títulos de terras e lavras.
No entanto, os mais abastados emigraram para outras regiões mais
dinâmicas da própria comarca do Rio das Mortes, e também mais
lucrativas, onde podiam instalar suas famílias em melhores condi-
ções de acesso ao mercado e vida social. A extração aurífera pressu-
punha a transitoriedade de pessoas, e a mobilidade espacial impedia
ligações mais duradouras. Não encontrei rastros desses primeiros
homens nos registros batismais, o que me leva a inferir que eles re-
almente não se fi xaram na localidade com suas famílias. A expansão
para outras áreas, possivelmente mais prósperas, era uma alternativa.
Eles mantiveram sua autonomia, não se enraizaram e não estabele-
ceram os laços espirituais que o sacramento do matrimônio e do
batismo ensejavam. Eram homens de seu tempo e, nesse tempo,
cumpriam uma missão fundamental de abertura do sertão, enfren-
tamento dos povos indígenas e implantação de todo um sistema de
exploração mineral.

A conformação da família
Entre 1750 e 1760, 399 responsáveis batizaram 555 ingênuos no Alto
da Borda do Campo.16 Utilizo o termo “responsáveis” porque mi-
nha opção de levantamento dos registros baseou-se no método de
“reconstituição de paróquias”, pelo qual foi criada uma ficha de fa-
mília a partir da entrada do nome do pai no registro de batismo e a

16
Não consegui mapear a primeira metade do século XVIII, a não ser pelos regis-
tros de capitação de 1715, acima analisados, que nos dão indícios da presença dos
primeiros mineradores. Os dados subsequentes referem-se à segunda metade do
Setecentos. Está sendo realizada uma varredura em todas as informações possíveis
sobre as localidades, a partir do levantamento nominal de cada indivíduo que pagou
impostos, batizou seus fi lhos, abriu inventário e demais processos cíveis. A pesquisa
ainda se encontra em desenvolvimento.

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222 ela foram anexados outros eventos da vida desse indivíduo que pu-
deram ser investigados ao longo da pesquisa. Mas encontrei incluí-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

dos nesse total 50 registros de “pais incógnitos” e 88 de pais não


citados, muitos deles com mães declaradas cativas, outros só com a
menção de padrinhos cativos, ou mesmo a simples menção de ex-
postos. Criei também uma ficha de família para aqueles registros
abertos pelas mães, contudo ainda estou buscando uma resposta me-
todológica para como trabalhar com esses dados. Optei por descon-
siderar as inúmeras implicações e diferentes olhares sobre essas mu-
lheres, que inferem questões relativas aos índices de ilegitimidade,
ou mesmo à condição das forras.
Nos registros com dados identificáveis entre 1750 e 1760, encon-
trei um total de 261 famílias. Desse total, 46,7% eram de pais de
ascendência portuguesa declarada, com dados detalhados acerca dos
avôs maternos e paternos do ingênuo, 38,3% eram daqueles consi-
derados naturais da terra e 14,9 de pais ou mães cativos declarados.
O percentual de “naturais da terra” é composto por aqueles que não
fi zeram menção a sua ascendência portuguesa e se autodesignaram
como moradores das capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro e Mi-
nas. Sobressai a referência constante a Taubaté, Guaratinguetá, San-
tos, Jacareí e Mogi para São Paulo; a capitania do Rio de Janeiro é
citada genericamente e na de Minas Gerais aparece a citação da co-
marca do Rio das Mortes, mais especialmente São João del Rei,
Mariana e a própria Ibitipoca.
A grande presença de paulistas na região das Minas já foi atestada
por importantes trabalhos, tendo sido foco de debates em torno do
confl ito dos emboabas que opôs, no início do século XVIII, paulis-
tas e portugueses pelo controle das minas. Em outro trabalho ana-
lisei os significados de ser “paulista” no período. Os paulistas eram
sobretudo fi lhos de portugueses nascidos no planalto paulistano, no
mínimo de segunda geração, ou já instalados há anos, possuidores
de toda uma organização social familiar específica, na qual o paren-
tesco tinha vital importância para cimentar as relações sociais, dian-
te da imprevisibilidade da vida na colônia. Uma sociedade marcada

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também pela mestiçagem, perceptível na presença de mamelucos e 223
bastardos entre os colonos.17 A presença destes nos povoados do

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


Alto da Borda do Campo está ligada à tradicional trajetória dos in-
divíduos, que saíam do planalto paulistano em direção ao interior
em busca de ouro ou de índios. Justificava-se também pela posse de
terras em uma área menos estratégica em comparação com as cida-
des de Vila Rica, Mariana, Ouro Preto e seu entorno, e principal-
mente mais inóspita, o que dificultava a disputa com outros indiví-
duos e grupos.
Portanto, um segundo movimento populacional, ainda no fi nal
da primeira metade do Setecentos, se estabeleceu, com a chegada de
portugueses da região do Minho, noroeste de Portugal, especial-
mente do arcebispado de Braga e de Viana do Castelo (termos de
Barcelos, Guimarães e suas diversas pequenas freguesias), e também
dos arquipélagos dos Açores e Madeira. A presença desses imigran-
tes portugueses na região corrobora as análises anteriores sobre os
fatores e os números da emigração portuguesa no século XVIII para
o Brasil. Júnia Furtado (1999:154), ao estudar a origem dos comer-
ciantes portugueses em Minas na primeira metade do século XVIII,
chegou ao número de 74,4%. Sobre o predomínio de naturais da
região norte de Portugal, Iraci del Nero Costa (1979:218), ao levan-
tar a população de Vila Rica, chegou a uma percentagem de aproxi-
madamente 68,1% de portugueses provenientes do norte do país.
Carla Almeida (2006:77-80), ao investigar a naturalidade da popu-
lação inventariada nas comarcas mineiras em geral, chegou a 75,6%
de portugueses entre 1750 e 1779. Em uma amostragem mais deta-
lhada, a mesma autora encontrou 89% de homens naturais das pro-
víncias do norte, 11% provenientes da região central do país e ne-
nhum do sul.
No grupo encontrado no Alto da Borda do Campo percebe-se
uma peculiaridade em relação aos trabalhos citados. Observe-se a
tabela 2:

17
Oliveira, 2007:257-268.

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TA B E L A 2
224 Origem do grupo de portugueses do Alto da Borda do Campo em 1750-1760
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Origem
Portuguesa declarada Arcebispado de Braga Ilhas atlânticas Dados incompletos
Total 122 73 46 3
% 100 60 37 3

Tal como nos trabalhos citados, observa-se a maior presença de


portugueses naturais das províncias do norte, da região do Minho,
especialmente do arcebispado de Braga. Chama a atenção apenas a
presença de muitos indivíduos originários das ilhas atlânticas, prin-
cipalmente do arquipélago dos Açores. A emigração das ilhas da
Madeira e Açores para o Brasil iniciou-se no século XVI, em função
das atividades ligadas à indústria açucareira. Considerados experien-
tes no plantio da cana, teriam sido muito importantes na difusão da
cultura na América portuguesa. Sua presença é assinalada também
na capitania de São Paulo, onde atuaram como produtores de cana e
nas incursões para o interior. Mas foi a descoberta de ouro que criou
um surto emigratório mais amplo, a ponto de decretos régios tenta-
rem impedir o fluxo sem muito êxito. A política do reino português
se modificou em 1746, quando o Conselho Ultramarino decidiu
colonizar Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, com vistas a ocu-
par as estratégicas áreas ao sul da América portuguesa contra o avan-
ço espanhol. O reino custeou o transporte, concedeu ajuda de custo
e garantiu a alimentação dos emigrados por um ano. Foi dada pre-
ferência a casais, para garantir uma colonização de famílias já está-
veis nas áreas praticamente vazias de colonização branca. Em 1757, a
pressão demográfica e a situação de pobreza da população das ilhas
acabaram por provocar a emigração de mais de 200 casais, além de
dezenas de homens solteiros para o sul do Brasil.
Apesar de haver indícios da presença de imigrantes das ilhas atlân-
ticas em outras povoações da região aurífera, o número encontrado na
Borda do Campo supera as previsões anteriores. Certamente, junta-

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mente com a política oficial de introdução de casais, muitas pessoas 225
saíram clandestinamente, por iniciativa própria, estimuladas não só

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


pelos fatores de dispersão nas ilhas, mas também pelos fatores de atra-
ção: acesso a terras minerais, agricultura e criação, disponíveis no
centro-sul da América portuguesa, e especialmente a presença de uma
população lusa já residente, de primeira ou segunda geração, entra-
nhada no território. O acesso a propriedade de terras, cativos, matri-
mônios, redes de amizade, parentesco e compadrio desse vasto grupo
possibilitava aos recém-chegados as condições necessárias para sua in-
tegração. A tabela 3 nos dá uma noção mais clara dessa assertiva:

TA B E L A 3
Origem das esposas dos imigrantes portugueses da Borda do Campo, 1750-1760

Matrimônio com esposas Número bruto %


Portuguesas 16 13,4
Mineiras 11 9,2
Paulistas 25 21,0
Fluminenses 3 2,5
De outras capitanias 2 1,7
De ascendência portuguesa e mineira 9 7,5
De ascendência portuguesa e paulista 15 12,6
De ascendência portuguesa e fluminense 20 16,8
De ascendência mineira e paulista 5 4,2
De ascendência fluminense e paulista 5 4,2
De ascendência mineira e fluminense 2 1,7
Sem declaração 6 5,0
Total 119
% 100

Dos matrimônios realizados pelos portugueses recém-chegados,


infere-se que apenas 13,4% desse grupo uniram-se a esposas portu-
guesas. Não tenho como afi rmar se chegaram casados ou se realiza-
ram o matrimônio no Brasil.18 Ao somar as uniões com esposas de

18
Os registros de casamento que ainda não foram levantados poderiam responder
a essas questões.

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226 ascendência portuguesa e naturalidade mineira, paulista ou flumi-
nense, cheguei a um percentual de aproximadamente 40%, ou seja,
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

percebe-se que a maioria emigrou solteira e realizou suas escolhas


matrimoniais na nova terra. Depreende-se que a escolha matrimo-
nial era uma importante instância de reconstituição dos laços fami-
liares, gerando o fortalecimento dos laços de identidade em uma
conjuntura de expansão de fronteiras e estabelecimento de redes
relacionais no novo espaço.19
Essa readaptação às novas condições da colônia, esse novo aprendi-
zado realizado por esses recém-chegados dependeu de sua integração
com os outros habitantes desse espaço, fossem eles africanos, indíge-
nas, mamelucos, pardos ou simplesmente paulistas. A preexistência de
fronteiras sociais entre os grupos em questão, a manutenção de crité-
rios de identificação, bem como a possibilidade de compartilhamento
desses critérios na vida social impediram a dicotomização dos gru-
pos.20 Muito pelo contrário, o encontro desses indivíduos e grupos
inseridos em um meio natural adverso estimulou a transposição dos
desafios próprios da expansão a áreas de fronteira.
O matrimônio, preferencialmente entre famílias de primeira ou
segunda geração de portugueses no Brasil, atuava como uma impor-
tante estratégia de enraizamento dos recém-chegados. Esse compor-
tamento permitiu que todos agissem com a mesma finalidade: recriar
laços sociofamiliares, multiplicar as possibilidades de crescimento,
perpetuar o grupo familiar e garantir o pagamento dos altos tributos
cobrados, tal como um contrato.21
Percebe-se a reiteração de outra estratégia — já observada em
outros trabalhos — entre portugueses e os nascidos na terra: a ex-

19
Carla Almeida (2006:76) chegou a outra conclusão. Segundo a autora, a maciça
presença de noivos naturais da província do norte de Portugal (86,7%) se aliou a
mulheres nascidas na região das Minas (83%). Na comunidade em foco, encontrei
apenas 9,2% de noivas oriundas do espaço regional stricto sensu.
20
Barth, 2000:25-30.
21
A cobrança da capitação é um bom exemplo desse “contrato”. Como seu mon-
tante era determinado pela Coroa com base na propriedade escrava de cada habitan-
te, cobrá-lo devidamente e fazer com que todos pagassem constituía uma obriga-
ção, a fi m de que o ônus pudesse ser partilhado.

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tensão das redes relacionais por meio dos apadrinhamentos. Um im- 227
portante trabalho de Marta D. Hameister (2006), centrado basica-

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


mente em registros de assento de batismo, buscou reconstituir a
trajetória de uma comunidade do sul do país para entender o signi-
ficado da formação das identidades e alianças através desse sacra-
mento. Utilizando como fio condutor o conceito de “família corpo-
rativa”, a autora analisou as estratégias matrimoniais através dos
casamentos endogâmicos e a extensão das redes relacionais através
do compadrio. Examinando os comportamentos familiares e de
grupos, Hameister tentou perceber os ganhos obtidos, as estratégias
subjacentes às escolhas que direcionavam as ações e a importância da
equidade e da reciprocidade na orientação dessas relações.
Esse e outros trabalhos comprovam que as sociedades setecentis-
tas serviam-se dos arranjos e alianças efetuados na pia batismal para
dar significado às suas existências diante do novo, do inusitado, ou
seja, a nova terra a ocupar, os recursos naturais a desenvolver e a
orientar para o consumo, as relações sociais a reconstruir. Na co-
munidade eleita para esta pesquisa o comportamento encontrado
não divergiu do delineado acima. No que se refere à origem étnica
(portugueses recém-chegados e nacionais), não se percebe qual-
quer lógica nos apadrinhamentos que remeta à ideia de exclusão. O
apadrinhamento é usufruído por todos, dos mais abastados aos
camponeses, como forma de aproximação e extensão dos laços de
afi nidade.
No entanto, subjaz o comportamento de consolidação dos laços
familiares entre aqueles de condição social mais abastada, perceptí-
vel na troca de posição entre indivíduos, ora na condição de pais, ora
na condição de padrinhos, sem contudo o recurso à realização de
matrimônios consanguíneos. Concomitantemente, percebe-se, no
caso das famílias com menor posse de escravos e baixa produção
agrícola, a busca de padrinhos de igual ou melhor condição social, o
que nos permite aduzir que o compadrio, além de referendar alian-
ças, relacionava-se com a obtenção de prestígio social para aqueles
menos abastados, que, em retribuição, ofereciam respeito, lealdade,

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228 além de uma maior probabilidade de esse ato ensejar a construção de
“pontes” entre universos sociais distintos.22
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

O cruzamento dos dados permitiu o acompanhamento de alguns


indivíduos e seus grupos familiares no momento de formação e ex-
tensão de suas relações sociais, tendo em vista que uma nova comu-
nidade ali se formava, com elementos de diferentes culturas — fa-
mílias lusas do norte do país, outras das ilhas do arquipélago dos
Açores, somadas às provenientes das capitanias de São Paulo, Rio de
Janeiro e do próprio espaço regional da comarca do Rio das Mortes,
além da presença de escravos e índios. Grupos com diferentes orien-
tações valorativas em busca de formas de convivência comunitária.
Evidentemente, essas interações eram permeadas por tensões, uma
vez que cada um buscava a maximização de seus interesses, seja atra-
vés da extração de ouro, seja através de uma produção agrícola mais
voltada para o mercado.23
Em uma sociedade na qual as atividades econômicas e as formas de
endividamento eram marcadas pelos laços de afinidade, que, se não
determinavam as ações, modificavam condições, prazos, juros e pre-
ços, a análise das dívidas ativas e passivas através dos inventários se
apresentou como uma instância de entendimento do comportamento
socioeconômico. Contudo, esse instrumento revelou-se ineficaz para
a comunidade em estudo. Encontrei pequenos empréstimos ainda
minimamente formalizados, característicos de uma sociedade parca-
mente monetizada. O próprio mercado, embrionário, estava sendo
aberto pelos mais abastados e incluía uma gama de pequenos proprie-
tários que recorriam a ele de forma pouco regular. As dívidas apare-
ciam nos inventários apenas com a menção do nome e do valor, sem
nenhum título de mão ou recibo de saldo assinado, havendo, na
maioria das vezes, a indicação de que tinham sido acertadas.
É evidente que essas frágeis e recentes alianças não bastavam para
assegurar a ausência de problemas. Considero as ações de “justifica-

22
Cunha, 2000:441.
23
Barth, 1981.

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ção de dívidas” e de “prestação de contas” encontradas na documen- 229
tação cível como registros que aduzem a ideia de confl ito.24 Através

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


delas eram arrolados os nomes dos devedores, o valor das dívidas, e
realizado um acordo sobre o prazo de pagamento. Observa-se que o
empréstimo e o endividamento eram formalizados especificamente
no caso de dívidas relativas a terras e escravos, portanto quando os
empréstimos envolviam produtos e valores mais altos e quando as
partilhas envolviam menores sob tutela. Ou seja, com essas ações,
indivíduos e famílias buscavam a intermediação da justiça para a
formalização da dívida e o compromisso de ressarcimento. Uma si-
tuação de intervenção legal no caso de a instância de resolução in-
formal e costumeira estar esgotada.
Outra importante questão que remete a um comportamento de
fronteira é a ausência de uma sociedade marcada por estratégias de
parentesco consanguíneo, traço muito comum em sociedades agrá-
rias, mais enraizadas, nas quais se percebe essa prática vinculada à
preocupação de preservar e manter o patrimônio entre grandes fa-
mílias. Se há uma tendência à endogamia na sociedade em estudo,
ela se dá entre aqueles de mesma condição social, mas não necessa-
riamente nas famílias extensas, mediante uniões entre primos, tios e
sobrinhas ou matrimônios unilaterais, bilaterais entre duas grandes
famílias. Eram todos recém-chegados, assentados em propriedades
agrárias dispersas e, portanto, uniam-se de acordo com as alternati-
vas restritas dentro das comunidades, caracterizadas por poucos mo-
mentos de sociabilidade. O matrimônio atuava como uma instância
de encontro, uma oportunidade para o estabelecimento das primei-
ras relações sociais.
A configuração familiar encontrada é do tipo nuclear, mas não
em seu sentido estrito, havendo a possibilidade de corresidência en-
tre a primeira e a segunda geração. Portanto, o grupo doméstico era
gerido pelo chefe da família, associado ao trabalho da esposa, fi lhos

24
Ações de justificação de dívidas e prestação de contas — Arquivo Mendes Pi-
mentel, Barbacena.

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230 e cativos. O sucesso da empreitada familiar dependia da atuação de
todos os componentes, mesmo os casados. Esses novos lares utiliza-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

vam parte do patrimônio familiar paterno como seu, como uma


forma de potencializar sua nova unidade. Nas partilhas encontrei
indicações de bens sob a custódia dos fi lhos, como potros, bois e,
principalmente, escravos. No comportamento dos dotes percebi a
mesma tendência. Dotava-se uma fi lha com bens que podiam forta-
lecer e multiplicar a unidade doméstica, mesmo quando esses bens
eram, para os pais, bastantes exíguos. A convergência de interesses
entre pais e fi lhos nessas situações atuava como uma estratégia para
o sucesso da empreitada.
O número de fi lhos era alto, numa média aproximada de oito por
unidade, com intervalos intergenésicos de dois anos. A disponibili-
dade de terras e mão de obra, assim como a estabilidade entre os
casais, atuavam como fatores de estímulo a esse padrão da demogra-
fia familiar. Por outro lado, sendo grande parte dessas comunidades
marcadas pela presença de unidades de padrão camponês, o maior
número de fi lhos vinculava-se a outra possibilidade: a potencializa-
ção da unidade produtiva através do maior número de fi lhos, por
proporcionarem mais braços para o trabalho e para a administração
da unidade.25 O modo de vida rude, com poucos móveis, utensílios
e objetos, era compensado pelas maiores possibilidades de produção
agrícola e investimentos em mão de obra escrava.
Com relação à configuração familiar recriada nas novas terras
ocupadas, Donald Ramos (2008:140) defende a presença de um elo
de convergência entre o norte de Portugal e o Brasil que teria per-
mitido a permanência de alguns caracteres minhotos nos domicílios

25
Creio que, no caso brasileiro, o modelo de campesinato delineado por Chaya-
nov, no qual o grau de atividade agrícola é que determinaria a composição da famí-
lia (o camponês providencia uma família de acordo com sua segurança material) é
plenamente adequado. Estimulada pela disponibilidade de terras e pelo consequen-
te grau de atividade agrícola, a organização familiar ensejava o aumento do número
de fi lhos e a redução dos intervalos intergenésicos: mais braços para a potencializa-
ção das oportunidades. Esse, certamente, pode ser considerado um traço do campe-
sinato constituído na América portuguesa do Setecentos. Ver Oliveira (2008:186).

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mineiros. A configuração que defi nia o norte [Portugal] era “mol- 231
dada pela ausência de homens e caracterizada por casamentos tardios

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


no tocante às mulheres, baixas taxas de casamento entre a população
geral, baixa proporção de famílias nucleares, bem como altas taxas
de ilegitimidade e abandono”.
Para o autor, essas mesmas características teriam sido identificadas
especialmente na região do ouro: predominância de noivos do nor-
te de Portugal e menor presença de mulheres portuguesas. A poste-
rior crise do ouro teria conduzido à imigração e a uma desproporção
entre o número de homens e mulheres, o que o levou a concluir que
o movimento de homens mineiros em busca de novas oportunida-
des econômicas foi semelhante à constatada entre os homens do nor-
te de Portugal. Esse complexo movimento teria interferido na for-
mação da família e na configuração do casamento.
Em linhas gerais, concordo que valores sociais e culturais do nor-
te de Portugal tenham influenciado o comportamento familiar no
espaço colonial, mas considero que existe um traço fundamental
que difere essencialmente esses comportamentos. Os dados encon-
trados a partir de 1720, ou seja, após a diáspora paulista pelos sertões
em consequência das notícias do descobrimento do ouro, permi-
tem-me afi rmar que a movimentação interna posterior não se deu
por homens que emigravam em busca apenas de oportunidades. Essa
“escolha” estava orientada por uma série de fatores conjunturais. A
escassez do ouro levou à diversificação das unidades produtivas e a
sua maior integração às redes de mercado interno. Portanto, as áreas
mais estrategicamente localizadas eram as mais desejáveis. A exten-
são das relações sociais por meio da política matrimonial ensejava a
realização de alianças que não podiam se restringir à localidade, sob
a ameaça de não se sustentarem. A constituição de lares e unidades
domésticas nos limites da comarca do Rio das Mortes, ou até em
outras capitanias mais ancestrais, constituía-se nas alternativas mais
viáveis, uma vez que esses lares e unidades disporiam de terras a
ocupar, além de acesso às doações de sesmarias. Na localidade em
estudo não se percebe uma mudança na configuração familiar, via

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232 diminuição do número de homens e aumento de lares chefi ados por
mulheres. Como esses grupos eram estendidos e fortemente inter-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

relacionados, as alianças matrimoniais eram realizadas fora dos limi-


tes da vizinhança e os casais recém-formados partiam para novas
áreas, abriam fronteiras, iniciavam processos produtivos e tendiam a
reproduzir o mesmo comportamento cultural assinalado anterior-
mente, como casamentos endogâmicos, arranjos e alianças sociais
através do batismo.26
Contudo, a imigração como traço revelador de uma configura-
ção familiar própria ao espaço colonial torna-se mais factível de ser
percebida quando realizada pelos mais abastados. Nas duas últimas
décadas do século XVIII não encontrei descendentes desse extenso
grupo de paulistas, fluminenses e portugueses que ocuparam o Alto
da Borda do Campo em meados do referido século. Certamente eles
engrossaram o longo processo de expansão das fronteiras e de reo-
cupação de terras no clássico movimento de dispersão de “mineiros”
por diversas regiões do centro-sul da América portuguesa.
Para além dessas mudanças, permaneceram os mesmos traços da
hierarquia de fortunas que identificavam esses grupos nas duas pri-
meiras décadas do século XVIII, tal como dispostos na tabela 1: um
grande número de pequenos proprietários de cativos, convivendo
com um grupo menor de médios proprietários, e um número redu-
zido de grandes proprietários no controle da maior parte da escrava-
ria. Como citado anteriormente, a comunidade em estudo foi mar-
cada pela transitoriedade de pessoas, muito característica da fase
inicial da extração aurífera. Grupos nômades, acompanhando o lei-
to dos rios, realizavam explorações menos invasivas nas encostas das
montanhas. Com o escasseamento do ouro de aluvião, a tendência
natural dos grupos foi a sedentarização e a montagem de unidades

26
Trabalhos recentes têm revelado interesse em analisar as teias de relações fami-
liares e estratégias socioeconômicas das elites que remontam ao século XVIII. No
processo de montagem do sistema exportador cafeeiro da Zona da Mata mineira,
entre 1780 e 1870, muitas das famílias constituidoras desse núcleo possuíam suas
raízes no termo de Barbacena e São João del Rei. Ver Oliveira (2005) e também
Ferreira (2008).

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de extração mineral ou mistas — de extração mineral e exploração 233
agrícola pastoril. Nessa conjuntura, muitos povoados passaram por

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


uma rápida e drástica diminuição das possibilidades de extração,
restando às unidades ali implantadas o investimento na agricultura e
no pastoreio voltados para o abastecimento interno e o estabeleci-
mento de vínculos com o mercado para a venda dos excedentes. Essa
atividade, mais regular e menos incerta, foi assumida pelas comuni-
dades em foco. Plantar, criar e, secundariamente, minerar. Essa se
tornou a alternativa para grupos familiares inteiros. Mas por que
permanecer em uma área inóspita, que, além de oferecer pouco
ouro, impunha muitas dificuldades de trânsito de pessoas e merca-
dorias? A melhor saída foi migrar para outras áreas, verdadeiras
fronteiras disponíveis para ocupação, aproveitando os laços socioe-
conômicos já estabelecidos.

Considerações finais
Tentei acompanhar a trajetória de uma comunidade e de seus indiví-
duos no espaço e no tempo. A análise das escolhas realizadas no mo-
mento da abertura da fronteira mineral e agrícola, as regras comunitá-
rias criadas e as transformações ocorridas na família no longo prazo
permitiram-me uma maior aproximação com o comportamento so-
cioeconômico das sociedades agrárias setecentistas. Grupos e indivídu-
os buscavam potencializar suas oportunidades, ordenando seus recur-
sos, interesses e necessidades particulares, nem sempre semelhantes.
Ao acompanhar um agrupamento social original em uma área de
fronteira que se reproduzia pela incorporação de outros espaços,
identifiquei os diferentes matizes do comportamento familiar: a es-
colha matrimonial, a esfera do nascimento, a formação dos laços de
parentesco rituais, as opções de ir e vir ao se cruzar o Atlântico, as
capitanias, a fi xação no alto de uma serra, a descida e a emigração
para outras áreas mais promissoras, entre outras. Essas trajetórias
revelaram-se diferentes respostas à série de desafios que foram sur-
gindo no decorrer das vidas dos indivíduos. No caso dos primeiros

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234 povoadores, o Alto da Borda do Campo não chegou a se constituir
em uma comunidade, pois agiam como errantes. O matrimônio e a
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

formação da família seriam realizados em outras paróquias. Já o


agrupamento posterior, formado por portugueses e famílias de pau-
listas, fluminenses e os próprios mineiros, começou a fi ncar raízes.
Criou uma política matrimonial que possibilitou a transposição das
barreiras e levou à formação de uma comunidade estendida pelos
laços de parentesco rituais e não necessariamente consanguíneos,
uma vez que se estavam recriando os primeiros laços de identidade
na nova terra que o abrigava. Esse grupo tinha que funcionar com
regras comunitárias capazes de possibilitar o acesso de todos aos re-
cursos naturais, ao mercado e ao pagamento de tributos. Alguns
conseguiram desenvolver suas unidades domésticas e tiraram pro-
veito dos privilégios e mercês concedidos. Tornaram-se sesmeiros,
tenentes e capitães das ordenanças.27 Outros, como parte da com-
plexa hierarquia social da América portuguesa, se mantiveram pe-
quenos e até despossuídos, convivendo lado a lado com os mais abas-
tados. Os descendentes diretos desse grupo, a segunda geração,
passou por outra série de enfrentamentos. O escasseamento do ouro
e das terras mais estrategicamente localizadas tornaram-se impor-
tantes obstáculos a serem ultrapassados. Outras áreas próximas fo-
ram sendo incorporadas quando do avanço da fronteira agrícola e
mercantil, e redes de aliança se estenderam para fora da comarca do
Rio das Mortes e da própria capitania mineira, ensejando a diversi-
ficação dos investimentos. Essa nova geração detentora de uma he-
rança de bons contatos e alianças se expandiu, incorporou terras,
realizou uma política matrimonial mais ostensiva de união e preser-
vação de patrimônio e status.
Essas reflexões só se viabilizaram na medida em que, servindo-me
das proposições da micro-história, reduzi a escala de investigação a

27
Em levantamento feito no Arquivo Ultramarino, tive acesso a várias solicitações
de mercês, não só de sesmarias, mas de capitães de cavalaria, infantaria, entre outras.
Essas solicitações constituem uma outra instância de investigação do comportamen-
to dos indivíduos e grupos, questão que tratarei em outros trabalhos.

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fi m de acompanhar as trajetórias dos indivíduos e seu entorno, con- 235
substanciado na família e na comunidade. Guiada pelas fontes, bus-

INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES


quei reconstituir os caminhos e descaminhos dos grupos eleitos ini-
cialmente para investigação, através de seu assento de batismo em
uma povoação mineira do século XVIII.
Por outro lado, estar diante de certas escolhas realizadas em um
universo de possibilidades não me habilita a tratá-las como únicas
ou como tipificadoras de todo comportamento familiar da América
portuguesa. As escolhas realizadas por esses indivíduos no tempo e
no espaço, aqui explicitadas, constituem uma das possibilidades de
compreensão do comportamento familiar no universo agrário sete-
centista, e devem ser analisadas como parte do conjunto de práticas
e de cultura política do Antigo Regime, que adquiriu diferentes
significados na América portuguesa.

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9
Redes de compadrio em Vila Rica:
um estudo de caso
Renato Pinto Venâncio

Este texto tem por objetivo analisar redes de compadrio de um


membro da elite de Vila Rica. Minha intenção é reafi rmar o resul-
tado de outros estudos, que revelam o quanto o compadrio permitia
a criação de um capital relacional de enorme importância. Nessa pes-
quisa recorri a dois conceitos, sendo o primeiro deles o da biografia
modal. Tal defi nição, como desenvolvida por Giovanni Levi (1989),
volta-se para a análise de indivíduos que expressam as características
do grupo social a que pertencem, indicando, na prática, o funciona-
mento das normas e regras estruturais existentes na sociedade.1
Na pesquisa, explorei alguns traços biográficos referentes à prática
do compadrio, no sentido modal, ou seja, como um exemplo represen-
tativo desse vínculo social em grupos da elite da América portuguesa.2
O segundo conceito a ser salientado é o de rede social. Trata-se de uma
noção que se contrapõe à de “grupo social: em um grupo organizado,

1
Em contraposição à biografia modal, a biografia caso-limite sublinha a irredutibilidade do
indivíduo e de seu comportamento em relação aos sistemas normativos existentes.
2
Para uma análise do perfil da elite da capitania de Minas Gerais, ver Almeida (2004).

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240 os indivíduos componentes formam um todo social mais abrangente,
tendo objetivos comuns, papéis interdependentes e uma subcultura
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

peculiar. Na formação da rede, por outro lado, somente alguns, e não


todos os indivíduos componentes, têm relações uns com os outros”.3
Nesse sentido, o conjunto de afi lhados e compadres de um indi-
víduo não forma um grupo social — por não haver elementos de ho-
mogeneidade que permitam fazer essa afi rmação — e, sim, uma rede
social, com conectividades mais ou menos intensas e que podem ser
acionadas em momentos e situações diversas.
O personagem escolhido para o estudo foi João Rodrigues de
Macedo, um conhecido potentado econômico e político de fi ns do
século XVIII. Natural de Coimbra, João Rodrigues de Macedo nas-
ceu em 1740 e, em 1769, começou a atuar na capitania de Minas
Gerais como comerciante de grosso trato, graças a recursos próprios
e às relações de parentesco que mantinha com membros da elite do
Rio de Janeiro. Em 1775, quando provavelmente fi xou residência
em Vila Rica, tornou-se contratador das entradas da capitania de
Minas Gerais, controlando a cobrança dos impostos que incidiam
sobre “toda e qualquer mercadoria que adentrasse em território mi-
neiro: secos, molhados, escravos e gado”.4
Em 1776, o futuro inconfidente também se tornou contratador
de dízimos de Minas Gerais, açambarcando ainda os contratos de
entradas das capitanias de São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Não é de
estranhar que ele tenha sido defi nido, na década que precedeu 1789,
“como o homem mais rico da capitania das Minas”5 ou mesmo de
todo o Império português.6
Talvez o melhor documento deixado por Rodrigues de Macedo
tenha sido a residência que construiu, entre 1782 e 1784, em Vila
Rica. A atual Casa dos Contos constitui em verdadeiro palácio parti-
cular, revelador da importância econômica e social de seu proprietá-

3
Both, 1976:76.
4
Silva e Fonseca, 2004:22.
5
Jardim, 1989:164.
6
Oliveira, 1981:5.

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rio. Outra expressão importante de sua riqueza era sua rede de deve- 241
dores e colaboradores. Nela estavam incluídos alguns dos homens

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


mais ricos da capitania, como José Álvares Maciel, capitão-mor de
Vila Rica, e José Aires Gomes, um dos maiores proprietários de terras
de Minas Gerais e de quem Macedo era compadre.7 A riqueza do
contratador também se expressava em atitudes nobres, de verdadeiro
mecenas, mantendo estudantes mineiros na Universidade de Coim-
bra ou apoiando poetas e músicos mediante empréstimos generosos.
Os dados a respeito da vida familiar de Macedo são incertos, em-
bora “haja a afi rmação de que se casara duas vezes, sem prova
confi rmatória”.8 Sabe-se, porém, que sua riqueza escoou rapida-
mente. Em 1789, o contratador devia à Real Fazenda valores bastan-
te elevados. Alguns autores calculam essa dívida em cerca de 400
contos de réis, o que equivaleria a 3.200 escravos,9 algo próximo à
média da escravaria de 80 engenhos baianos. Em outras palavras, o
contratador tinha uma dívida que dificilmente seria paga. Situação
ainda mais dramática quando lembramos a existência de estimativas
dessa dívida que a elevam a 763.168$019 réis, praticamente dobran-
do os cálculos acima apresentados.10
Na década de 1790, o capital político do contratador foi abalado
em razão de seu envolvimento com a Inconfidência Mineira. Embo-
ra João Rodrigues de Macedo não tenha sido chamado a depor,
pesaram sobre ele sérias suspeitas. Em 1797, a Real Fazenda proce-
deu ao sequestro de seus bens e, em 1802, quando houve risco de sua
prisão por ordem do Fisco, sua riqueza havia se tornado bastante
modesta, obrigando-o a se retirar para uma fazenda em São Gonça-
lo do Sapucaí, onde veio a falecer em 1807, aos 67 anos de idade.11
Utilizei como fonte para meu estudo alguns exemplos tirados da
extraordinária correspondência do contratador, assim como dados

7
Jardim, 1989:165; e Oliveira, 1981:15.
8
Jardim, 1989:166.
9
Mattoso (1982:95). Cabe sublinhar que o valor de um escravo adulto foi calculado,
para o ano de 1790, em 125$000 réis, correspondendo 400 contos a 400.000$000 réis.
10
Maxwell, 1977:90.
11
Jardim, 1989:168-169.

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242 que ele nos legou através dos registros paroquiais de batismo da
Igreja de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica.12 A correspondência
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

do contratador é surpreendentemente extensa. Até o presente mo-


mento foram identificadas 1.668 cartas, que se encontram distribuí-
das pelas seguintes instituições: Biblioteca Nacional (Rio de Janei-
ro), Arquivo Público Mineiro e Instituto Histórico e Geográfico de
Minas Gerais. Isso para não mencionar o material a ser identificado
no Fundo Casa dos Contos, do Arquivo Nacional.
A documentação batismal também é volumosa. Rastrear redes de
compadrio nessas séries documentais envolve a leitura de milhares de
atas paroquiais para que, pouco a pouco, sejam extraídas informações
úteis à pesquisa. Além de dispendioso, tal levantamento não diz res-
peito ao conjunto das relações de compadrio efetuadas pelo contra-
tador, apenas àquelas registradas na paróquia estudada. Embora re-
duzido em escala, tal levantamento permite que se vislumbrem as
práticas sociais, e fornece pistas para interpretações globais do fenô-
meno. Foi a partir dessa documentação que iniciei o rastreamento da
prática de compadrio envolvendo o contratador.
Em relação à correspondência, cabe salientar que ela se divide
entre a pública (que diz respeito a transações comerciais, cobrança de
impostos, indicações de cargos para postos de entradas e caminhos
etc.) e a privada (relações familiares, de vizinhança, de amizade etc.).
Com certeza, as preocupações de natureza econômica dominam o
conjunto da documentação epistolar em questão. No entanto, há
situações fronteiriças que acabam gerando nuances entre as duas dis-
tinções referidas.
Um exemplo disso pode ser percebido na correspondência entre
João Rodrigues de Macedo e Inácio José de Alvarenga Peixoto. Em
razão do envolvimento desses dois personagens na Inconfidência Mi-
neira, contei com detalhadas informações biográficas a respeito deles.
Soube, por exemplo, que, em 1788, Alvarenga Peixoto convidou Ma-

12
Banco de dados da paróquia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, Fapemig/
UFMG/Casa dos Contos. Sou grato a Maria José Ferro e Maria Teresa Gonçalves,
que trabalharam no levantamento dos dados.

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cedo para ser padrinho de seu terceiro fi lho, José Eleutério; conforme 243
se pode ler na missiva a seguir, redigida em São João del Rei:

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


Sr. João Rodrigues de Macedo,

Amigo e Senhor. Desejo-lhe todas as felicidades e muitas ocasiões


de obedecer-lhe.

Recebi a de Vossa Mercê em resposta da que lhe mandei, e fico


no que me diz, e não tenho partido para a Campanha à espera dos
homens que até o presente não têm chegado; e como a Senhora
Dona Bárbara já pariu um Menino que é mais um criado de Vos-
sa Mercê, nada mais me demora e por estes oito dias parto.13

Trata-se, como se pode notar, de uma correspondência privada.


No entanto, a continuação do texto revela que a carta também trata
de assuntos comerciais e pedidos de empréstimos:

Meu cunhado leva vinte negros, e vai de assistência para a Parou-


peva (sic); veremos o que ele faz, e conheceremos quanto difere,
sendo um Menino, do seu antecessor.

Faça-me o favor de mandar dar ao portador desta oito arrobas de


ferro e duas arrobas de aço, duas peças de baeta azul, e duas bruacas
de sal, que a casa ficou nua e destituída de tudo, e para tingir por
princípio, carece disto; o mais ele o irá pagando do que fizer, e isto
que eu mando dar, vá logo para a minha conta. Ele por ora não
pode botar mantimentos, porque até os paióis ficaram despejados
de todo. Deus me dê paciência. Ora pois a Campanha graças a Deus
pode com tudo. Bem sabe que eu sou.

Outra questão importante é como interpretar a correspondência


subsequente: ela deve ser decifrada sob o crivo das relações de com-

13
Apud Lapa (1960:73). Nesse documento, como nos que se seguem, a ortografi a
foi atualizada e as abreviaturas desdobradas.

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padrio? Ora, acredito que não e, para evitar interpretações mistifi-
244
cadoras da documentação, elegi como critério metodológico sele-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

cionar somente cartas que mencionassem de forma explícita o


vínculo de compadrio. Essa escolha só aparentemente é de fácil im-
plementação, pois ocorre de a referida relação ser apresentada de
forma muito sutil, como pode ser percebido no convite da carta
acima: “...um Menino que é mais um criado de Vossa Mercê”.
A documentação paroquial também não é destituída de proble-
mas e desafios. A pergunta que se faz frequentemente é sobre o nível
de cobertura do registro eclesiástico. Em termos mais simples: todas
as crianças recém-nascidas e escravos adultos recém-chegados eram
batizados? Para se entender isso, é necessário lembrar que o batismo
era a porta de entrada da Igreja Católica. Uma sociedade que não cui-
dasse de batizar crianças nem mesmo poderia ser considerada cristã.
Daí a preocupação constante das autoridades eclesiásticas em velar
que o sacramento fosse aplicado. Não se tratava, porém, de uma
iniciativa unilateral. Crenças populares muito arraigadas demanda-
vam rituais de purificação e proteção de recém-nascidos, o que con-
tribuía para a adesão geral ao sacramento ou mesmo um culto à água
batismal. A própria Igreja se reapropriava dessas crenças, colocando-
as a serviço da difusão do batismo, como ocorria nas pregações sobre
os perigos impostos aos infantes pelas feiticeiras:

Costumam estas bruxas entrar às crianças em figuras de gatos, ca-


chorros, e outros domésticos animais; por isso é necessário que,
naqueles dias antes do batismo, haja nisto muita vigilância, porque
isso é o que o demônio principalmente pretende. Os sinais de estar
a criança embruxada não são fáceis de conhecer; pode ser sinal
(como notou Del Rio) ver algumas gotas de sangue, ou picaduras
de alfinetes, ou os beicinhos feridos da peçonha; e se acaso enxergarem
algum destes sinais, é necessário acudir primeiro ao remédio da alma, que é o
batismo, e logo a Deus, e a seus santos pelo remédio do corpo.14

14
Gusmão (2004:141), grifo meu.

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Razões materiais também levavam à adesão ao sacramento. A 245
raridade de registros sobre a posse de escravos, nascidos localmente

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


ou importados da África, estimulava que senhores procurassem ba-
tizá-los. Pode-se mesmo suspeitar de que, em casos de cativos ven-
didos de uma fazenda ou de uma vila a outra, houvesse o risco do
super-registro (ou seja, rebatizados) e não do subregistro.
O Estado monárquico, da mesma forma, constituía uma fonte de
pressão para que o sacramento do batismo fosse difundido. Após o ato
sacramental, o padre elaborava o assento de batismo em um livro,
anotando a data do batismo, assim como o nome da criança, a legiti-
midade, a condição social, a cor e, eventualmente, a data de nasci-
mento; também deviam ser registrados os nomes e sobrenomes dos
pais e dos padrinhos e suas respectivas condições sociais e cor — de-
terminação, aliás, nem sempre seguida.
Numa sociedade marcada por elevado número de iletrados, esse
documento representava um dos raros testemunhos escritos que prova-
va o vínculo familiar e a condição social dos indivíduos. Os processos
matrimoniais dele dependiam, constituindo testemunho escrito, rela-
tivamente confiável, que podia ser utilizado na demonstração de pro-
vas genealógicas de pureza de sangue — elemento essencial no bom
provimento dos cargos administrativos, na concessão das mercês etc.
Tudo isso, porém, não garantia a universalização do batismo. Pe-
sava contra isso as próprias condições demográficas da época, marca-
das por elevadíssimas taxas de mortalidade infantil, principalmente
nos primeiros dias de vida, como no caso do tétano, que chegou a
receber a denominação popular de mal dos sete dias. A opção metodo-
lógica para minorar os efeitos disso foi a escolha de uma paróquia que
concentrasse população em seus arredores (sendo por isso defi nida
como urbana), evitando o risco que devia ser muito comum nas áreas
rurais, onde a distância entre o local de residência e a igreja acabava
por engrossar as fi leiras do Limbo.15

15
A crença no Limbo é um exemplo de como a morte de crianças sem o sacramento
do batismo devia ser comum no conjunto da cristandade, que teve de criar um “lugar”
intermediário — entre o Céu e o Inferno — para abrigá-las. Ver Le Goff (1993).

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246 Embora com maior ou menor rigor, não há como negar que,
tanto na área urbana quanto na rural, o sacramento batismal era re-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

gistrado em grande profusão. Sua existência possibilitava a consti-


tuição de laços com uma nova família espiritual, que influenciava
diretamente a carnal. Era usual, no momento do batismo, o pároco
fazer algumas perguntas aos padrinhos, às quais eles respondiam em
alto e bom tom, gesto que os transformava em fiadores públicos
daqueles que recebiam como afi lhados.16
Pesquisas recentes confi rmam essa situação, como nos casos de
testamentos que registram padrinhos declarando, em relação aos afi-
lhados: “criei em minha companhia; ou então reconhecendo uma
certa impessoalidade, mas afi rmando: deixo a cada afi lhado de ba-
tismo, que mostrar ser meu, doze mil e oitocentos réis a cada um e
a cada uma”.17
Como se vê, tal compromisso significava privilégios e deveres, os
quais eram reconhecidos através da obediência, da fidelidade e da
reverência do afi lhado, em contrapartida às múltiplas responsabili-
dades dos padrinhos. A inventividade e as resignificações desse laço
social — que constantemente justapunha ou mesclava o sagrado e o
profano — são tantas e tão surpreendentes que chegaram a ser defi-
nidas como exemplo do “pensamento selvagem do cristianismo”.18
O compadrio atendia a inquietações teológicas, no sentido de
sacralizar as relações sociais para além da família consanguínea,
criando laços de parentesco espiritual regidos pela doutrina cristã, e,
ao mesmo tempo, servia para incorporar ou ordenar interesses laicos
de natureza diversa. Nesse sentido, cabe salientar que a noção de
amizade era um dos princípios ordenadores das sociedades pré-mo-
dernas. Tanto no reino quanto na América portuguesa não se fugia
a essa situação. Ter maior ou menor acesso a cargos do Estado e às
demais mercês era algo regulado pela capacidade de estabelecer vín-
culos pessoais de amizade, não constituindo isso desvio da norma,

16
Venâncio, Sousa e Pereira, 2006:276.
17
Faria, 1998:216.
18
Klapisch-Zuber, 1999:740.

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tal como a entendemos no mundo contemporâneo, mas sua legítima 247
efetivação: “De fato, conceber mercês ao ‘mais amigo’ eram situa-

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


ções sociais cotidianas e corporificavam a natureza mesma das estru-
turas sociais, sendo, portanto, vistas como ‘normais’”.19
Os textos de época alertavam, porém, para a necessária distinção
entre a boa e a má amizade. A relação devia se constituir num “re-
cíproco amor de benevolência, fundado em boa razão e em virtude;
vínculo da vida civil, e o bem por meio do qual logram os homens
um dos maiores prodígios do ser Divino”. Muito aceito era o prin-
cípio aristotélico de a amizade representar a “unidade com plurali-
dade”, uma mesma alma em dois ou vários corpos, perspectiva tam-
bém expressa nos ditados populares: ter amigos é “ter, para o
conselho, muitas cabeças [...] e, para a execução, muitas mãos, mui-
tos olhos e muitos braços; nos perigos, e nas calúnias, muitas bocas
que o defendem”.20
No entanto, a amizade, por ter distintos fundamentos, que va-
riam da virtude à utilidade e sensualidade,21 poderia constituir uma
ameaça. Daí os dicionários alertarem para o “indigno do título de
amizade [...] a afeição fundada em conveniência, ou em sensualida-
de”. O compadrio era a solução teológica para que esse conjunto de
relações recebesse o crivo normativo da Igreja. O laço selado na pia
batismal permitia a criação da amizade ritualizada, um tipo de relação
teologicamente sacralizada, sujeita a várias formas de controle e
condenação.22
Na sociedade patriarcal isso permitia que homens e mulheres es-
tabelecessem convívio, ou mesmo trocassem cartas, sem que tal ges-
to fosse estigmatizado socialmente; fato, aliás, registrado nas missi-
vas de Bárbara Eliodora, esposa de Alvarenga Peixoto: “Senhor João
Rodrigues de Macedo, meu compadre e senhor de minha maior
veneração [...] Seu afi lhado vive, e por ele lhe rogo sua bênção com

19
Xavier e Hespanha, 1993, v. 4, p. 381-393.
20
Bluteau, 1712-1728.
21
Berti, 2002:318.
22
Klapisch-Zuber, 1999:742.

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248 o mais vivo desejo da saúde e felicidade de Vossa Mercê de quem sou
compadre a mais obrigada”.23
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

O sucesso popular do sacramento batismal, dessa forma, também


se deveu a seu lado profano. Pesquisas brasileiras a respeito do tema,
como as realizadas em outros países e períodos, têm revelado as
múltiplas reapropriações do compadrio. No mundo escravo, por
exemplo, as relações de compadrio permitiram a refundação de la-
ços comunitários estilhaçados pelo tráfico,24 ou mesmo regularam
relações potencialmente de confl ito nos casos em que grupos étnicos
rivais eram misturados nas senzalas.25
Atuando no sentido contrário à pregação religiosa, o compadrio
também permitiu que se camuflassem relações ilegítimas de concu-
binato — transfiguradas nas combatidas “amizades sensuais”.26 O
ritual, não raramente, subverteu projetos políticos, aspecto constata-
do quando se confi rma que “qualquer desejo por parte da Coroa
portuguesa de manter as autoridades reais independentes dos inte-
resses locais foi subvertido pelo compadrio”.27
É justamente essa apropriação laica do sacramento que a docu-
mentação analisada revela. Através das atas batismais, é possível per-
ceber que João Rodrigues de Macedo era muito requisitado como
padrinho. Como em outras partes da América portuguesa, ele cons-
tituiu ampla rede de compadrio.28 De seu estabelecimento em Vila
Rica, em 1775, até o ano da Inconfidência Mineira, Macedo apadri-
nhou, somente na paróquia de Nossa Senhora do Pilar, seis meninos
e nove meninas, ou seja, 15 crianças, praticamente uma ocorrência

23
Apud Oliveira, 1981:15.
24
Gudeman e Schwartz (1988:33-59), Brugger e Kjerve (1991:234), Goldschmidt
(1989:242), Rios (2000).
25
Florentino e Goes, 1997.
26
Maia, 2007.
27
Ramos, 2004:50; e Silva, 2004. Em Vila Rica, constatou-se que a maioria dos
governadores da capitania estabeleceu laços de compadrio com a elite local, ver Ve-
nâncio, Sousa e Pereira (2006:276).
28
Em Campos dos Goitacazes, São João del Rei e Juiz de Fora também foram cons-
tatadas redes semelhantes a essa, envolvendo dezenas ou até mesmo centenas de afi-
lhados de um mesmo padrinho, ver Faria (1998:216-217), Brugger (2007:303-312) e
Oliveira (2005:176).

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por ano. Em relação a essas crianças, registram-se 12 brancas e três 249
pardas livres, proporção semelhante sendo observada em relação à

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


fi liação: 10 fi lhos legítimos, três ilegítimas e duas enjeitadas. Con-
forme foi possível perceber, a relação de compadrio não era segmen-
tada socialmente. Ricos e pobres eram aceitos como compadres,
sugerindo uma concepção de sociedade baseada na troca de favores,
na circulação de dádivas e contradádivas.
No universo escravista, tal situação era, por assim dizer, funcional.
As relações clientelísticas compensavam a brutal diferenciação de natu-
reza social e econômica. As formas de tratamento e títulos registrados
na documentação relevam essa multiplicidade de laços sociais. Por
meio do sacramento na pia batismal, Rodrigues de Macedo se tornou
“parente espiritual” de crianças abandonadas ou bastardas, assim como
de ex-escravas, não descurando em tecer laços com membros das ca-
madas médias (como no caso do ajudante, patente militar no nível de
tenente)29 ou pertencentes à elite, caracterizados como doutor ou dona.
Em relação a este último segmento, registra-se na tabela o com-
padrio com doutor Antônio da Costa de Azevedo. Na documenta-
ção da Câmara de Vila Rica, em 1783, esse personagem é registrado
como um proeminente advogado.30 Eventualmente esse vínculo
também se expressava de forma indireta. Na primeira linha da refe-
rida tabela, percebe-se que João Rodrigues de Macedo, em 1777,
tornou-se compadre de d. Josefa Fidelis Molina de Velasco. Tratava-
se da fi lha de José Luis Saião, secretário de governo da capitania de
Minas Gerais e, até 1778, concubina de José João Teixeira Coelho,
intendente do ouro de Vila Rica. Essa aproximação reforçava laços
há muito existentes, que uniam o intendente Teixeira Coelho ao
contratador Rodrigues de Macedo, “possivelmente o homem mais

29
Bluteau, 1712-1728.
30
Solicitação de pagamento por serviços prestados à Câmara — Antônio da Costa
de Azevedo — advogado. Arquivo Público Mineiro, Câmara Municipal de Ouro
Preto — CMOP, cx. 58, doc. 68, 24-12-1783. Em 1791, ele aparece como “advoga-
do do auditório”. Arquivo Público Mineiro, Câmara Municipal de Ouro Preto —
CMOP, cx. 64, doc. 73. Cargo que exigia curso de oito anos de direito. Ver Salgado
(1985:328).

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250 rico da Capitania e, em simultâneo, o principal devedor da Real
Fazenda nos fi ns do século XVIII”.31
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Rede de compadrio de João Rodrigues de Macedo

Batismo Afilhado Condição Pai Mãe Madrinha


D. Josefa Fidelis
14-10-1777 Francisco Leg. João Correia Lima Maria da Conceição
Molina de Velasco
Domingos Fernandes D. Antônia Teresa D. Mariana de Jesus
30-4-1778 Mariana Leg.
Barros de Jesus e Lana
Alexandre da Costa Micaela Francisca D. Inácia Rosa Angélica
8-11-1778 João Leg.
de Oliveira dos Anjos da Silva
José Marques
19-11-1778 Maria Leg. Genoveva Maria Rosa N/C
Guimarães
Vitoriana Maria Guedes D. Francisca Antônia
22-5-1781 Maria Nal. Incógnito
parda forra Xavier de Souza
Prudência Constância D. Rosa Maria de
28-8-1781 Justiniana Nal. José Marques Ferreira
de Oliveira Fontes
Maria do Nascimento D. Inácia Rosa
10-10-1782 Josefa Leg. José Pedro Alves
de Jesus Angélica da Silva
D. Ana Maria
14-12-1782 Crecência Leg. João Guedes Pinto N/C
do Nascimento
Joana Perpétua Felícia
13-6-1785 João Leg. Manuel Luís Ana Maria do Pilar
de Castro
Genoveva Rosa Ana Maria de Queiróz
8-2-1786 Lourença Nal. Incógnito
parda forra Coimbra
Ana Maria de Queiróz
27-6-1786 João Ex. Incógnito Incógnita
Coimbra
Dr. Antônio da Costa D. Ana Margarida Ana Maria Caetana
15-10-1786 Raimundo Leg.
de Azevedo Antônia da Conceição Pereira
Ajudante Manoel D. Maria Micaela
18-2-1787 Gertrudes Leg. Ângela Teresa
Fagundes da Costa de Melo

21-10-1787 João Ex. Incógnito Incógnita D. Maria Teresa

Francisco Fernandes D. Ana Ferreira


25-3-1789 Florência Leg. Tomásia Leite da Silva
de Sales da Cunha

Fontes: Livros de batismo da paróquia de Nossa Senhora do Pilar, Ouro Preto.


Banco de Dados da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. UFMG/
Casa dos Contos/Fapemig.

31
Coelho (2007:128). Sou grato ao professor Caio Boschi pela lembrança dessa in-
formação.

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A documentação paroquial também sugere que os vínculos entre 251
os inconfidentes se formaram bem antes de 1789. Em 1782, Rodri-

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


gues de Macedo tornou-se compadre de João Guedes Pinto, furriel,
com parentes envolvidos na conspiração.32
Em outras áreas da América portuguesa, diferentemente de Ma-
cedo, a elite parece ter sido mais seletiva na aceitação de compadres
estranhos aos consanguíneos. Na cidade de Campos dos Goitacazes,
Rio de Janeiro, em fi ns do século XVIII: “os com mais de trinta
escravos foram os que tiveram maior percentual de familiares como
padrinhos de seus fi lhos”.33 O compadrio de consanguíneos reforça-
va laços preexistentes. Nesse sentido, sua incidência pode ser inter-
pretada como um sinal de diminuição de importância do vínculo de
parentesco espiritual, pois a proximidade entre irmãos, tios, avós
etc. existe independentemente da relação criada na pia batismal.34
As alianças tecidas pelo contratador parecem não seguir o princí-
pio da consanguinidade, devido à ausência de fi lhos batizados no
Pilar, assim como ao fato de o registro analisado não indicar compa-
drios com parentes residentes em outras localidades. De todo modo,
percebe-se, na ausência ou na raridade de parentes consanguíneos, a
importância do vínculo batismal na ampliação da rede familiar “es-
piritual” do Rodrigues de Macedo. Tais vínculos chegavam até
mesmo às camadas populares, como nos casos de compadrios com as
pardas forras Vitoriana Maria Guedes e Genoveva Rosa.
Em relação aos escravos, não foi constatado o estabelecimento de
qualquer laço de compadrio. Isso não decorria da falta de proximidade
com cativos. Mesmo no início do século XIX, quando o contratador
estava falido, 23 escravos e escravas trabalhavam em sua residência em
Vila Rica.35 Seja por paternalismo, seja por preocupação de proprietá-
rio, Rodrigues de Macedo se preocupava com o destino da escravaria,
tratando até mesmo de conseguir médicos para assistir aos doentes:

32
Catão, 2005:276.
33
Faria, 1998:213.
34
Souza, 1981:29.
35
Jardim, 1989:165.

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252 Março de 1801. Por assistir ao preto Carvalho com um reuma-
tismo gálico, todo este mês 5/8 e ½.
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

Por ir duas vezes à Chácara ver um negro casado, que foi para
Antonio Dias ... ½.

Por assistir a um negro que veio do Jacuba, com um reumatismo ...


6
/8.36

Por outro lado, a constatação da ausência de parentesco espiritual


com esses cativos não chega a ser uma surpresa. Há mais de uma dé-
cada, uma pesquisa realizada por Stephen Gudeman e Stuart Schwartz
(1988:49) revelou uma importante dimensão do compadrio na socie-
dade escravocrata. Os autores efetuaram o levantamento dos registros
de batismo de paróquias do recôncavo baiano, e este indicou que os
senhores nunca apadrinhavam os próprios escravos. Acreditava-se
que o compadrio e a escravidão eram instituições incompatíveis. Os
proprietários, embora não enfrentassem impedimentos legais, evita-
vam a todo custo aceitar essa incumbência, porque, se assim fizessem,
sugeririam “inclinação a revogar algo de seu próprio poder”. O com-
padrio criava laços de respeito e proteção superiores aos preceitos
escravistas. Conforme viajantes do início do século XIX observa-
ram, o senhor que aceitasse tal vínculo estaria socialmente condena-
do a não mais ordenar que o escravo fosse castigado. Em casos extre-
mos, como em Minas do início do século XVIII, o compadrio foi
alvo de política metropolitana. O governador da capitania tentou até
mesmo impedir que forros apadrinhassem escravos, temendo que “o
respeito e deferência devidos aos senhores fossem desviados para os
padrinhos [...] os quais, em contrapartida, poderiam se sentir moral-
mente obrigados a ajudar os afi lhados a escapar ou a se rebelar”.
No caso das forras registradas como comadres, também é neces-
sário evitar simplificações. No período analisado, que corresponde

36
Lista de dívida com os serviços médicos prestados aos escravos de João Rodrigues
de Macedo. Arquivo Público Mineiro, Casa dos Contos, CC-cx. 74, rolo 523.

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ao apogeu da fortuna de João Rodrigues de Macedo, esse vínculo 253
sugere uma típica relação clientelística de dependência. No entanto,

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


como veremos a seguir, a reconstituição das redes de compadrio re-
vela que, eventualmente, ex-escravas também podiam deter um capi-
tal relacional de primeira grandeza.
Em 1781, Vitoriana Maria Guedes — forra comadre de Rodri-
gues de Macedo — teve como madrinha de sua fi lha Maria, de pai
incógnito, dona Francisca Antonia Xavier de Souza. Ao reconstituir
a genealogia familiar dessa mulher, me deparei com a presença de
uma irmã, dona Leonor Francisca Xavier de Souza Albergaria.37
Tratava-se da esposa do doutor Gregório Pereira Soares de Alberga-
ria, homem muito poderoso e que, na década de 1780, foi “escrivão
da Receita e Despesa da Real Casa de Fundição de Vila Rica”.
Como se não bastasse isso, cabe lembrar que um ano antes do
batizado da fi lha da referida forra, Albergaria convidou para padri-
nho do fi lho o governador Rodrigo José de Menezes. Este último
não só aceitou esse encargo como também fez da esposa — d. Ma-
ria José de Eça e Bourbon — a madrinha. Portanto, uma hipótese
a ser desenvolvida é saber se, através de um laço de compadrio es-
tabelecido com uma simples forra, o contratador João Rodrigues
de Macedo não estaria, paradoxalmente, reforçando relações so-
ciais na elite.
Tal situação demonstra a importância de se pensar na noção de
rede de compadrio. Para além da criação de vínculos hierárquicos, po-
dia haver elementos de reciprocidade social, que transformavam
uma ex-escrava em uma importante intermediária. Em se tratando
de uma mulher forra, poder-se-ia suspeitar de que o compadrio seria
a forma de encobrir uma relação sexual extramatrimonial, que teria
gerado o nascimento da fi lha ilegítima apadrinhada. Mesmo que
isso tenha ocorrido, o simples fato de se estabelecer publicamente a
relação de compadrio implicava a imediata criação de expectativas
sociais que deveriam ser cumpridas.

37
Disponível em: <http://genealogia.sapo.pt>. Acesso em: 1 fev. 2005.

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254 Essa situação ficou registrada em outra série documental de gran-
de importância. Trata-se da correspondência legada pelo contrata-
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

dor (em sua esmagadora maioria passiva, embora também se registre


correspondência ativa). De certa forma, essa documentação comple-
ta lacunas dos livros paroquiais da Igreja do Pilar. As atas batismais
registram o compadrio vivenciado na paróquia em que o contrata-
dor residia. Nos casos em que ele batizou por procuração, as relações
com afi lhados e compadres passaram a depender da escrita ou de
intermediários que levassem recados pessoalmente. Uma estudiosa
do tema sublinhou que essa situação é reveladora da importância do
ritual: “a própria situação de existência de procuradores para batis-
mo demonstra o quanto o estabelecimento de relações rituais era
importante naquela sociedade. Escolhia-se cuidadosamente com
quem manter aliança”.38
Além dos apadrinhamentos em Vila Rica, João Rodrigues de
Macedo tinha afi lhados e afi lhadas em outras localidades. Da déca-
da de 1780 em diante, o contratador manteve correspondência di-
reta e indireta com uma de suas afi lhadas: Ana Maria do Espírito
Santo, moradora no Rio de Janeiro. Ainda muito jovem, Ana Ma-
ria havia sido enviada ao Convento de Nossa Senhora da Ajuda, 39
da referida cidade. Antes de a menina ser alfabetizada, a superiora
da instituição escreveu regularmente ao referido padrinho. Essa
correspondência revela que, mesmo em se tratando de um caso de
paternidade ilegítima, as demandas e expectativas sociais giravam
na órbita do compadrio, conforme é possível ler na missiva a seguir,
datada de 1785:

Meu Senhor de minha maior veneração e respeito. [...] presen-


temente [não] tem sido possível [...] responder por causa da mo-
léstia grave que tive e lancei sangue pela boca e agora que Nosso
Senhor me fez mercê dar melhora vou a presença de Vossa Mer-

38
Faria, 1998:214-215.
39
Tal convento foi fundado em 1749, por ordem do bispo d. frei João da Cruz. Ver
Algranti (1993:84).

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cê dar-lhe satisfação de mim e certificar-lhe alegrei-me muito 255
com as suas notícias e desejo Nosso Senhor lhe continue saúde

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


muito inteira, livre de moléstias [...] as felicidades que lhe sabe
apetecer o meu sincero afeto, pois desejo a Vossa Mercê todo
bem como próprio.

Cá veio Luis Pinto Gouveia pessoalmente trazer-me a carta, e


falar-me, e por estar de cama eu [mesma] lhe não falei, mas
mandei uma Religiosa [...] fazer minhas vezes e logo com toda
brevidade teve a entrada da menina, e o dito senhor com todo
cuidado [e] desvelo, e prontidão fez tudo que na verdade achei
[muito] capaz para em ausência servir a um amigo. A menina
entrou para esta Religião em dia de São Miguel com muito
gosto meu e demais Companheiras, ela fica boa, muito esperta,
e galante, que faz com que todas lhe queiram principalmente em
que lhe tenho grande amor, como se fora alguma das minhas
sobrinhas, basta ser afi lhada de Vossa Mercê [para] que eu a ame
e estime muito o cuido, muito na sua boa educação [...] 40

Era por ser padrinho que Rodrigues de Macedo deveria velar


pelo destino e pela vida material da menina. A importância do laço
de parentesco residia não na imediata e obrigatória concessão de
bens de fortuna ou mesmo de atenção, mas na possibilidade de soli-
citá-los. Eis um desses escritos, datado de 1791:

Meu Senhor muito da minha veneração e respeito, tenho escri-


to várias cartas a Vossa Mercê e de próximo o repeti e como
agora tenho este por certo, por via de Dona Francisca, que me
segura ser entregue, faça o mesmo que desejo ache a Vossa Mer-
cê assistido de boa saúde, livre de tudo que lhe pode dar molés-
tia, pois sou muito interessada em todas as suas felicidades.

40
Carta de Perpétua Maria de Santa Ana a João Rodrigues de Macedo sobre notí-
cias de sua afi lhada e agradecimento pela esmola, 25 dez. 1785, Arquivo Público
Mineiro, CC-cx. 101, rolo 20.499.

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256 Eu vou passando com as minhas moléstias, como Deus quer, a
nossa menina boa, e já muito crescida, ela é muito boa e com
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

muito bom procedimento, que se faz amável; eu não sei expres-


sar a Vossa Mercê o muito amor que lhe tenho. Nosso Senhor a
tome a sua conta, e Vossa Mercê a não desampare, pois vejo
Vossa Mercê muito esquecido dela, sem nenhuma Letra, nunca
lhe escreve e nem assistência tem, porque Luis Pinto, a quem
Vossa Mercê encarregou-o servir com as mesadas, há nove me-
ses que lhe não dá nada [...] e para ir passando tenho pedido
emprestado e peço a Vossa Mercê mande pagar e pelo amor de
Deus mande por assistência a Menina e Vossa Mercê a não de-
sampare, pois desejo vê-la bem arrumada.41

Em outras palavras, o padrinho não correspondia às expectativas


sociais depositadas na relação espiritual de parentesco. Uma vez
crescida, a própria Ana Maria passa a cobrar o auxílio a Rodrigues
de Macedo, às vezes escrevendo para a madrinha, solicitando auxílio
desta última nas intercessões:

Minha Madrinha e minha Senhora a quem sempre prezei muita


estimação, os [...] feitos desta foram bem prestados quando tive
o feliz recebimento desta estimadíssima carta. À minha amada
Madrinha, eu não tenho expressões com que possa expressar-
lhe os transportes que teve minha alma, esta indo se banha[r] de
prazer todas as vezes que por minha consolação [...]

Vossa Mercê não se esqueça com seu respeito de esforçar o meu


Padrinho na [...] grande esmola que ele quer fazer, a qual fico
esperando muito certa [...] 42

41
Carta de Perpétua Maria de Santa Ana a João Rodrigues de Macedo a respeito da
afi lhada, 15 ago. 1791, Arquivo Público Mineiro, CC-cx. 74, rolo 523.
42
Carta de Ana Maria do Espírito Santo à madrinha Ignácia M. da Pa. de Franca,
16 jun. 1797. Arquivo Público Mineiro, CC-cx. 74, rolo 523.

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A coleção de cartas mostra que esses pedidos eram atendidos, ou 257
pelo menos parcialmente atendidos. Em 1798, ao escrever ao padri-

REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA


nho, a afi lhada pede a doação de um escravo, avançando contradá-
divas em bens do dia a dia ou de natureza religiosa:

Meu Prezado Padrinho e Senhor [com aquele] afeto com que


sempre o venerei e com humildade e muita submissão vou nesta
[...] beijar-lhe a mão [...] sem merecimento algum, protegida até
o presente de um tão estimável Padrinho [...]

Mas preciso dizer a meu Padrinho e Senhor sobre a necessidade


[...] da sua costumada caridade para meu sustento [...] no que
tenho muitas faltas e também de escravo para meu serviço a que,
não dando incômodo a meu Padrinho e Senhor, quisera me
mandasse [...] um moleque para pôr ofício de sapateiro, que
além de fazer o meu calçado, que por [cá] está muito caro, e
juntamente para me servir de utilidade no seu jornal.

Ultimamente oferto a meu Padrinho e Senhor estes sabonetes,


para seu uso, e um Rosário de Jerusalém, que [...] será de sua es-
timação, e igualmente um bentinho, e tudo vai bento. Recebais
essa ninharia de dote que servirá para as orações de seu serviço.43

Diante dessa demanda, o contratador — num período em que


estava amargando grave crise fi nanceira decorrente de seu endivida-
mento — responde da seguinte forma:

Minha afi lhada. Recebi a vossa carta pelo próprio, que vossa mãe
me enviou, e por ele recebi também o vosso mimo, que muito
vos agradeço, não da [...] de sentir o incomodo que tivestes para
com ele me dareis melhor a conhecer o vosso afeto, o qual não
desconheço, e estou persuadido do muito que me amais [...]

43
Carta de Ana Maria do Espírito Santo a seu padrinho, João Rodrigues de Mace-
do, sobre sua escolha de vocação religiosa e pedido de compra de escravos, 19 abr.
1798. Arquivo Público Mineiro, CC-cx. 74, rolo 523.

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258 Agora pelo portador lhe torno a escrever, e pelo mesmo vos re-
meto uma barrinha [de ouro] com dezesseis mil e duzentos e
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

oitenta seis réis, para com ela vos comprares o de que mais care-
ce, certo de que nunca se afrouxará em mim, e de que o mais
breve que me for possível há de cuidar em [arrumar-vos] na
vocação que tendes e de que faço muito gosto de vendo vos
Rogar a Deus, que me ajude a cumprir o que desejo. A respeito
de vossa idade, creio que andais por 21 anos, pouco mais ou
menos [...] Lanço a minha bênção com todo amor e vos enco-
mendo que peçais a Deus por mim, e ele como lhe Rogo [...].44

Novas cartas indicam que os clamores da afi lhada, madrinha e


aliada religiosa surtiram efeito: em 1797, apesar de todas as dificul-
dades fi nanceiras que enfrentava, Macedo concedeu a Ana a “esmo-
la” de 2.588$800 réis, uma verdadeira fortuna, que permitia a com-
pra de 20 escravos adultos; 45 recurso que possibilitou a permanência
da protegida na vida religiosa.46
É a partir desses testemunhos epistolares que se deve interpretar
os dados brutos da tabela. As expectativas sociais depositadas no
compadrio davam origem a demandas, de ordem material ou senti-
mental, consideradas legítimas. O letramento facultava que isso
ocorresse mesmo em situações de ausência de convívio cotidiano
entre padrinhos e afi lhados.

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44
Carta de João Rodrigues de Macedo a Ana Maria do Espírito Santo, afi lhada,
s/d. Arquivo Público Mineiro, CC-cx. 74, rolo 523.
45
Mattoso (1982:95).
46
Carta de Manuel Joaquim a João Rodrigues de Macedo sobre a confi rmação da
entrega das cartas a madre Perpétua e sua afi lhada Ana e envio das despesas do
convento, 12 jun. 1797. Arquivo Público Mineiro, CC-cx. 79, rolo 20.104.

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10
Os vínculos interfamiliares, sociais
e políticos da elite mercantil de Lima no
final do período colonial e início da República:
estudos de caso, metodologia e fontes*
Cristina Mazzeo de Vivó

Na década de 1970, com o avanço da análise marxista e as teorias


estruturalistas que entendiam a história como processo, surgiram
interpretações importantes de caráter geral que marcaram o advento
de diferentes teorias, como, por exemplo, a da dependência, que
enfatizou o conceito de subdesenvolvimento na América Latina.
Mais tarde, no fi nal da década de 1980, com o enfraquecimento
do paradigma marxista, a história mais diversificada, mais local, ga-
nhou ênfase. Surgiram nessa época análises regionais para entender
as mudanças ocorridas em determinadas conjunturas, as histórias de
famílias superaram a análise puramente genealógica e passaram a ser
realizados estudos do ponto de vista prosopográfico, ou seja, estudos
de biografias coletivas dos membros de uma categoria social especí-
fica, em geral elites sociais e políticas.


Tradução de Catalina Arica.

AF_livro final ok.indd Sec11:263 4/12/2009 15:03:23


264 A ideia não era analisar grandes processos de mudança, mas che-
gar ao particular para entender de forma mais clara esses processos
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

de mudança. Histórias locais, histórias da vida cotidiana, história da


mulher, das pessoas comuns, das instituições foram tomando o lugar
das histórias totais, relacionadas à busca de interpretações globali-
zantes e teorias generalizantes. Os novos estudos de alguma forma
conseguiram esmiuçar aquelas teorias de conjuntos com o objetivo
de aprofundar mais as especificidades de cada sociedade.
Passou-se então da história política e econômica, da análise de
grandes assuntos como o Estado nacional, a Revolução Industrial, a
transição do feudalismo para o capitalismo, para uma história social
e cultural que se entrelaça com as mentalidades e que engloba, por
sua vez, conceitos da micro-história. A nova história social tomou
de empréstimo ferramentas de análise da sociologia e da antropolo-
gia e a influência enriquecedora da historiografia mais diversificada,
que têm sido determinantes quando relacionadas à expansão da mi-
cro-história.1 A micro-história, por sua vez, surgiu de um grupo de
historiadores italianos que lançaram uma série de propostas para tra-
balhar assuntos comuns. Não se trata de uma técnica ou de una
disciplina, como defende María Luz González, mas de um enfoque
diferente. Ou seja, é trocar a escala de observação, focar-se mais no
sujeito e em suas relações do que nas estruturas. Como sustenta Gio-
vanni Levi, é aumentar a escala de observação, como se pudéssemos
usar um microscópio. A utilização dessa metodologia permite, as-
sim, captar as especificidades, as qualidades e, a partir da análise de
diferentes estudos de caso, chegar a generalizações específicas.
O surgimento dessa nova história social, como sustentam G. Dalla
Corte e D. Barriera (2003), foi renovado graças a documentos que co-
meçaram a revelar discursos contraditórios, o que tornou obrigatório
recorrer a novas fontes primárias. Analisando-se o panorama geral era
possível chegar a determinadas conclusões que, mais tarde, ao se tratar
de casos específicos, colocavam em xeque essas mesmas conclusões.

1
Vincent, 2002.

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No Peru, por exemplo, a historiografia tradicional via nas refor- 265
mas bourbônicas, especialmente na abertura comercial de 1778, me-

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
didas que alteraram e prejudicaram os grandes comerciantes que es-
tavam muito ligados ao monopólio comercial espanhol. Essa
conclusão foi derivada das críticas que a instituição do Consulado do
Comércio levou à Coroa naquela época, e que relatavam a ruína dos
comerciantes. Entretanto, ao se realizar estudos de caso, comprovou-
se que nem todos foram prejudicados, e que, em certas situações, os
comerciantes conseguiram mais do que apenas se adaptar às novas
circunstâncias, inclusive tirando vantagem das medidas.
Portanto, o estudo das famílias de comerciantes apresenta-se
como um objeto de análise de grande importância não só para en-
tender e decifrar as estratégias utilizadas na época nos campos social,
econômico e político, como também para compreender o verdadei-
ro alcance das medidas tomadas pelos Bourbon que tanto afetaram a
classe mercantil, e que tipos de estratégias foram utilizados para dri-
blar os obstáculos surgidos nessa época. Foi necessário identificar os
principais comerciantes para analisar com quem tinham se relacio-
nado, como tiveram acesso ao poder econômico, que vínculos esta-
beleceram com o poder político, por que alguns se beneficiaram
mais do que outros, que tipos de atividades desenvolveram, quem
foram seus representantes no interior do país.
O estudo das famílias na América espanhola revela a existência de
“redes familiares”, ou seja, laços em vários setores da sociedade e da
economia. Trabalhos como os de D. Branding (1985), para o caso me-
xicano, Susan Socolow (1978 e 1985), para a Argentina, Susan Ramí-
rez (1991), para o norte do Peru, e minhas próprias pesquisas para Lima
(1994 e 1999) demonstram que houve um padrão de comportamento
no que se costuma definir como “atitudes coletivas” ou estratégias.

Conceito de estratégia
Jean Paul Zúñiga (2003) define o termo estratégia como um con-
junto de práticas e comportamentos que permitem alcançar ou che-

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266 gar a uma posição de privilégio como resultado de um esforço rea-
lizado. São habilidades postas em prática seja de forma individual,
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

seja através de um grupo familiar para alcançar ou manter um status


social, político e também econômico.
Por exemplo, no século XVIII, uma estratégia familiar era enca-
minhar um fi lho à carreira eclesiástica e outro à carreira militar,
enquanto alguém da família cumpria o papel de assumir um posto
na assembleia ou no cabildo. Que benefícios poderiam ser obtidos
dessa maneira? Ter acesso a diferentes instituições governamentais,
o que permitiria escalar posições na sociedade.
Ter um parente na Igreja funcionava como uma carta de apresen-
tação às autoridades religiosas para resolver problemas como a puri-
ficação do sangue, a solicitação de um cargo púbico ou de incorpo-
ração militar, ou até a compra de um título de nobreza. Além disso,
era uma espécie de escudo protetor contra a possibilidade de um
julgamento pela Inquisição.
Na América, as unidades do Exército estavam organizadas em
milícias compostas por pessoas do lugar; por isso, contar com um
parente nas milícias dava às famílias o controle da população, o aces-
so também a mão de obra, permitindo inclusive a distribuição de
mercadorias entre os indigentes, já que muitos capitães de milícias
eram também corregedores da região.
Um familiar na Assembleia significava ter um juiz por perto, al-
guém que poderia intervir em seu favor quando de algum confl ito
com o governo. Se a família tinha fi lhas, o recomendável era que
casassem com funcionários ou comerciantes recém-chegados, o que
permitia ampliar a rede de relações mercantis e sociais. Essas agendas
matrimoniais não foram aplicadas apenas ao longo do século XVIII,
e parecem ser um tipo de comportamento próprio das famílias de
elite. Quando realizei os estudos de caso, ficou comprovada a im-
portância da mulher e seu papel na ampliação da rede mercantil.
Essas foram algumas das estratégias utilizadas ao longo do perío-
do colonial e durante os primeiros anos da república. Por exemplo,
em 1823, os novos comerciantes estrangeiros, principalmente os in-

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gleses, que chegaram após a independência, casaram-se com mulhe- 267
res locais da elite, além de procurarem representações em determi-

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
nadas instituições ou cumprirem tarefas específicas para os novos
governos com a fi nalidade de conseguir um espaço na sociedade,
como demonstrarei mais adiante neste capítulo.
Apesar de tudo o que já foi dito até aqui, vale lembrar que os espaços
familiares nem sempre eram de afinidade e solidariedade. Algumas ve-
zes também se apresentaram como espaços de conflito. Havia conflitos
durante a distribuição de heranças, conflitos por dote e até pela proprie-
dade da terra. Trabalhos como os de Gabriela dalla Corte, Andrea Re-
guera e Darío Barriera fazem um estudo detalhado desses casos.2

Relações interfamiliares: elite


Ainda que as redes familiares sejam defi nidas como um conjunto de
famílias que configuram uma elite, que formaria um grupo
oligárquico,3 considero que rede é um conceito muito mais amplo
que elite. A rede abrange indivíduos que agem como conectores ou
“mediadores”, como diz Zacaría Moutokias (2000), e que não são
necessariamente integrantes da família. Esses indivíduos ligariam o
grande comerciante com seus correspondentes tanto no exterior
quanto no vice-reinado. Assim, levando em consideração os corres-
pondentes dos comerciantes, teríamos ou poderíamos reconstruir
redes sociais interligadas entre si, enquanto as relações interfamilia-
res têm a ver com a interação delas em um espaço social e econômi-
co determinado, formando assim uma unidade ou grupo de elite.
Pesquisá-las permite um aprofundamento no campo econômico, so-
cial e político. É um ponto de referência a partir do qual torna-se
possível esclarecer conceitos ou definições totalizadoras.4 Pode-se
ver, por exemplo, o complexo domínio de esferas de poder que essas
famílias conseguiam controlar.

2
Ver esses trabalhos em Corte e Barrier (2003).
3
Casaús, 1994.
4
Barriera em Corte e Barrier (2003:305).

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268 Entendo por elite, então, o conjunto de pessoas que comparti-
lham interesses comuns e, no caso das famílias de comerciantes —
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

nosso objeto de estudo neste capítulo —, desfrutam de prestígio


social, obtêm poder político, intervêm em instituições do Estado
colonial, possuem uma riqueza composta não só de capital líquido,
ou seja, fazendas e propriedades urbanas, mas também expressa na
capacidade de estabelecer importantes relações sociais. Trata-se de
um conjunto de comerciantes que realizaram funções comuns, fo-
ram integrantes e em alguns casos dirigentes do Consulado de Co-
mércio de Lima, além de pertencerem a uma ordem militar e con-
tarem com um título de nobreza obtido por mérito no serviço do
rei, por herança ou por compra, como costumava acontecer. Essas
características e a capacidade econômica, além das relações com seus
pares ou pessoas próximas ao governo do vice-reinado, os identifi-
cam como integrantes da elite. Uma elite mercantil que, diferente-
mente do que se acredita, conseguiu manter sua capacidade econô-
mica depois da independência, como veremos mais adiante.

Fontes para estudo


Trabalhar uma rede é muito mais complexo do que fazê-lo com um
grupo de família de elite. No primeiro caso, é necessário contar com
cartas pessoais dos comerciantes, não bastando o uso de cartórios e
testamentos. Já nos estudos de famílias, conta-se com uma quantidade
maior de fontes documentais, como documentos de cartório, nos
quais ficam evidenciadas transações mercantis, procurações, testamen-
tos e inventários de bens, depósitos outorgados, empréstimos recebi-
dos e pagos e dotes. Deve-se levar em consideração também os docu-
mentos de caráter social, como certidões de nascimento e casamento.
Para quantificar de alguma forma as atividades mercantis, é neces-
sário consultar, no caso de grandes comerciantes vinculados ao co-
mércio exterior, livros de alfândega, onde são anotados portos de
destino, consignatários, produtos, quantidades e preços. Além disso,
é importante consultar documentos do Consulado de Comércio, nos

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quais são registrados listas de eleitores, empréstimos ao Estado — co- 269
lonial ou republicano —, julgamentos, declarações de credores etc.,

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
documentos que especificam a situação do comerciante e sua relação
com o Estado. Por exemplo, os comerciantes foram os principais cre-
dores do governo espanhol na entrega de “donativos da graça”, vo-
luntários ou forçados, devido às necessidades da Coroa, o que poste-
riormente seria revertido em algum favor ou benefício econômico,
como conseguir importar mercadorias isentas do pagamento de al-
guns impostos. O Consulado de Comércio de Lima era o encarrega-
do da arrecadação desses empréstimos, entre os quais se encontra a
quantia de 1,5 milhões de pesos exigidos pela Coroa espanhola aos
comerciantes de Lima para enfrentar os portugueses às margens do
rio da Prata.
Quanto às cartas particulares, não constituem a maioria dos docu-
mentos dos arquivos, mas são as mais ricas no que se refere a dados
precisos sobre conjunturas políticas, questões comportamentais, situa-
ções familiares e de negócios. No caso do Peru, ainda existem arqui-
vos privados de famílias aos quais só é possível ter acesso através de
relações ou contatos muito precisos — ainda não estão ao alcance do
público em geral. No meu caso, consegui ter acesso ao arquivo parti-
cular da família Lavalle e, a partir dessas cartas, pude analisar o comér-
cio por ocasião da guerra com a Inglaterra, em 1804, e o comércio de
escravos realizado através de barcos neutros. Nesses arquivos há refe-
rências muito interessantes à situação política do momento. Por exem-
plo: Antonio diz ao irmão Juan Bautista, radicado em Lima, que se a
Europa se perder — refere-se às conquistas de Napoleão — não terá
dúvidas em se instalar em Londres e de lá realizar suas transações co-
merciais. Esse dado é muito importante porque dá a conhecer a capa-
cidade de locomoção e de adaptação que o comerciante chegou a ter
nessa época tão conflituosa de fins do século XVIII.
Para incursionar no mercado interno, é necessário utilizar outro
tipo de fontes. No caso da distribuição de mercadorias para o inte-
rior do vice-reinado é preciso revisar os livros de checagem, que
contêm registros dos contatos com os comerciantes itinerantes, pro-

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270 dutos e valor das mercadorias. No trabalho com uma rede, pode-se
seguir a trajetória da comercialização pelos nomes proporcionados
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

pelas cartas dos comerciantes e, dessa maneira, visualizar o raio de


ação do indivíduo.

Os comerciantes de Lima no século XVIII


No século XVIII, Lima era uma espécie de grande corte, onde as
mulheres gostavam de se vestir com muitos acessórios e vestidos
suntuosos. Basta ler os relatos dos viajantes da época, como Amadeé
Frezier e Antonio de Ulloa, que descrevem o modo de vida dos li-
menhos. Mas manter esse nível de consumo só era possível com
ganhos compatíveis — e isso acontecia através do comércio. Lima
era também o lugar das reuniões e debates, mas, acima de tudo, era
o empório comercial onde os artigos estrangeiros encontravam um
vasto mercado. A cidade tinha 37.237 habitantes, dos quais 19.632
espanhóis, 11.029 por castas, e 4.063 indígenas. Do grupo de espa-
nhóis e criollos,5 umas 213 famílias eram consideradas nobres ou pes-
soas de distinção. Considerando-se os indivíduos matriculados no
Consulado de Comércio de Lima, instituição que reunia os comer-
ciantes, chega-se à conclusão de que, entre 1779 e 1821, 938 pessoas
se dedicavam à atividade.
Havia comerciantes itinerantes, de província, dedicados às coisas
pequenas, armadores de barcos e caixeiros-viajantes. Ainda que os
grandes comerciantes pudessem aumentar suas fortunas devido às
grandes margens de lucro, existiam riscos e podiam perder grande
parte de seu capital em uma só transação. Mas também é necessário
levar em conta que os ganhos rápidos vinham do comércio, da troca.
O fazendeiro, por exemplo, tinha que esperar um tempo determinado
para fazer a colheita e vender o produto. A terra também não permitia
auferir rapidamente uma quantia em dinheiro — a não ser que fosse

5
N. do T.: criollo é o nome dado em toda a América hispânica aos fi lhos de espa-
nhóis nascidos nos vice-reinados.

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entregue como garantia para um empréstimo com juros. Já o comer- 271
ciante dispunha de dinheiro vivo para realizar suas transações, espe-

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
cialmente porque muitos deles recebiam empréstimos com juros de
instituições coloniais — a Igreja, o Consulado ou a Fazenda Pública.
A característica do comerciante na América foi a capacidade de
combinar as formas de vida típicas dos grandes senhores, como os
comerciantes venezianos do século XVII, com a capacidade de ino-
vação dos capitalistas europeus do século anterior, especificamente
de Amsterdã. Ainda assim, foram representantes de uma sociedade
do antigo regime, patriarcal, em que o prestígio e a hierarquia so-
cial eram o principal patrimônio para conseguir bons negócios
mercantis. Por isso se diz que no século XVIII houve um duplo
processo: uma aristocracia que se aburguesou e uma burguesia que
se aristocratizou.
Muitos dos comerciantes de destaque tinham chegado ao Peru no
início do século XVIII, como os Sáenz de Tejada e os Lavalle y
Cortés. Os recém-chegados traziam a pureza do sangue e, mediante
casamentos, se ligaram a prestigiadas família criollas, descendentes
dos primeiros colonizadores. Isso prova o grau de mobilidade social
que a vinda para a América permitia aos espanhóis — eles conse-
guiam aqui o que teria sido muito difícil de conquistar na mesma
época na Europa. Outros chegaram na segunda metade do século
em consequência das reformas implantadas pelos Bourbon, que ofe-
receram maiores possibilidades comerciais quando foram abertos ao
comércio vários portos espanhóis e americanos. Pode-se citar nomes
como os Santiago y Rotalde, os Pérez de Cortiguera, os irmãos Eli-
zalde e Isidro de Cortázar y Abarca, que começaram como princi-
piantes, empregados ou marinheiros e, depois de 30 anos, chegaram
a ocupar a posição mais alta na sociedade colonial.
Havia também os comerciantes por tradição, que descendiam por
linha materna dos primeiros conquistadores, como José Antonio de
Lavalle y Cortés, que chegou a ser conde de Prêmio Real. Seu pai
foi regente em Piura e um irmão mais velho morou primeiro no
Chile e depois em Buenos Aires. Essa família tem hoje descendentes

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272 não só na Argentina, mas no Chile, no Uruguai e na Colômbia.
Uma das diferenças das elites mercantis de Lima em relação a outras
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

regiões do vice-reino é que, na cidade, é possível encontrar várias


gerações de imigrantes espanhóis que se integraram à sociedade co-
lonial através do casamento.
O primeiro passo para dar início à pesquisa foi identificar as pes-
soas, quem eram esses grandes comerciantes. Para tanto recorri aos
dirigentes do Consulado e comecei a analisar cada um deles, para
personificar a instituição e adentrar nas diferentes atividades que
cada um desenvolveu. Comecei então a pesquisa de cada um deles,
recorrendo aos testamentos para, depois, ir aos cartórios de Lima e
ver os inventários de bens, quando existiam. Estudei quase todos os
25 dirigentes que apareciam na lista. Dessa vez, temos dois grupos
de famílias descendentes de um mesmo ramo e cujos herdeiros man-
tiveram as atividades mercantis após a independência do Peru, além
de um comerciante estrangeiro que ingressou na sociedade limenha
durante o período republicano.
Vamos analisar primeiramente o caso dos irmãos Sáenz de Tejada.
Antonio Sáenz de Tejada e Diego Sáenz de Tejada nasceram em Pi-
nillos (La Rioja), bispado de Calahorra, filhos de Diego Sáenz de Teja-
da e Catalina Sáenz de Codes. Não se sabe quando chegaram à Améri-
ca, mas os dois foram integrantes do Consulado de Comércio de Lima.
Diego participou em 1775, 1777, 1778 e 1782, anos em que colocou
grandes quantias em dinheiro a juros. Seu irmão Antonio foi cônsul do
Consulado em 1805 e 1806. Diego ocupou o cargo de corregedor na
província de Tomina, distrito da Real Audiência de Chuquisaca, na
Bolívia. Já em Lima, Diego casou-se com Rosa de la Cuadra y Molli-
nedo, levando ao casamento a quantia de 32 mil pesos.6 Diego não teve
filhos e todo o seu patrimônio foi herdado pela esposa.7
Para conseguir sobreviver, uma viúva na colônia precisava ter um
bom patrimônio ou casar novamente. Era comum que essas mulheres

6
AGN Lima, notario Valentín Torres Preciado, 1775:704-708.
7
AGN Lima, notario Antonio Luque, 1818/386:153/54; e José Joaquín Luque,
1825, 378:216-222.

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emprestassem dinheiro a juros como forma de obter uma renda men- 273
sal que permitisse uma vida mediana. Esse foi o caso de Rosa de la

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
Cuadra, que foi dona de uma grande casa, na qual morava com o
esposo, e depois da morte do marido emprestou a juros grandes quan-
tias de dinheiro a comerciantes importantes como o conde de Fuente
González e Fernando Carrillo y Udurraga, marquês de Santa Maria.
Ela também conseguiu obter uma renda mensal pelos 20 mil pesos
que emprestou a juros à Fazenda Huayte, de Pedro Carrillo y Albor-
noz, e pelos 4 mil pesos à chácara de García Alonso, em Chancay.
O casamento entre descendentes de duas famílias socialmente im-
portantes na colônia — e também no período pós-independência —
era uma das estratégias mais comuns. Isso respondia à necessidade, por
um lado, de garantir atividades econômicas e, por outro, de “prote-
ger” a mulher e dar a ela certa estabilidade ao colocá-la sob a tutela de
um marido ilustre e, consequentemente, poderoso na sociedade colo-
nial. Se o futuro marido ainda não fosse poderoso ou ilustre, porque
era recém-chegado e não tinha garantias sociais, o casamento dava à
mulher a oportunidade de não “cair” em uma união com outro grupo
racial que não fosse de seu nível.8 Vale lembrar que a pureza do san-
gue nessa época era uma das condições indispensáveis para obter qual-
quer título de nobreza ou pertencer a uma ordem militar, o que dava,
por sua vez, hierarquia ao grupo familiar como um todo.9
No caso da família estudada, Antonio Sáenz de Tejada casou-se
com uma irmã de Rosa, Josefa de la Cuadra e, dessa forma, torna-
ram-se parentes da família de la Bodega y Cuadra, da qual descendia
o importante comerciante José Antonio de Lavalle y Cortés, conde
de Prêmio Real, que desenvolveu intensa atividade mercantil du-
rante o século XVIII.10

8
Zúñiga, 2003:39.
9
Os litígios derivados da união de pessoas de qualidade racial diferente começaram a
aparecer no direito civil com o estabelecimento da Pragmática Sanción de 1776, que
proibia os casamentos entre pessoas social e racialmente desiguais. Ver Castillo Palma
(1998).
10
Josefa e Rosa eram fi lhas de Dorotea de Mollinedo y Lozada Agüero, irmã de Fran-
cisca que se casou com Tomás de la Bodega y Cuadra, sobrinho de Isabel de la Bodega

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274 Diego não teve fi lhos, mas Antonio teve 10 — apenas um do sexo
masculino. À primeira vista, poder-se-ia dizer que esse número de
EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

mulheres teria custado caro a seu patrimônio, devido à necessidade


de pagar o dote das fi lhas no casamento. Entretanto, a mulher per-
mitia a aliança, via matrimonial, com famílias de prestígio e, como
destaquei antes, incorporar novos integrantes espanhóis e comer-
ciantes ao clã original.
Quatro fi lhas de Antonio casaram-se com comerciantes. A mais
velha, Josefa Sáenz de Tejada, casou-se com um destacado comer-
ciante espanhol, Francisco Javier de Izcue, que chegou ao Peru no
início do século XIX, e de quem falarei mais adiante; Francisca, prin-
cipal herdeira de sua tia Rosa, casou com Francisco Javier de Inda,
também espanhol e comerciante; María Mercedes foi esposa de Pedro
Juan Sanz, espanhol e comerciante; Manuel, o fi lho homem, casou
com Eulalia Mendes Guzmán de la Cadena; Petronila Celestina foi
mulher de Juan del Valle Ponga, também espanhol e comerciante. As
outras irmãs tornaram-se freiras.11 Considerando-se que, no século
XVIII, os dotes em média eram de 34.825 pesos, e fazendo o cálculo
aproximado, pode-se dizer que Antonio disponibilizou mais de 300
mil pesos para os dotes de suas nove fi lhas. O dote permite não só
estimar o patrimônio da família, mas também, pelo seu conteúdo,
descobrir os hábitos de consumo e a mentalidade da época.12
O casamento dos dois com as irmãs Rosa e Josefa permitiu unir
dois importantes grupos mercantis, cujos descendentes deram con-
tinuidade ao ramo familiar.13 Diego foi testamenteiro de sua sogra,
Rosa de la Cuadra, de quem tomou emprestado a quantia de 38 mil
pesos. Ele se dedicava ao comércio de lenços e tecidos, que prova-
velmente importava de Quito. Sua esposa foi a única herdeira e re-
cebeu 105 mil pesos. Antonio Sáenz de Tejada deu continuidade aos

y Cuadra, casada com Simón de Lavalle y Cortés, pais de José Antonio de Lavalle y
Cortés, conde de Prêmio Real. Ver árvore genealógica em Mazzeo (1994:96).
11
AGN Lima, notario José Joaquín Luque, protocolo 378:216-222.
12
Rizo Patrón, 2000:134 e 272.
13
Ver árvore genealógica; AGN, sección Notarios, Felipe de Orellana, Protocolo
477:274.

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negócios da família. Ambos aparecem enviando grandes quantida- 275
des de prata e ouro para a Espanha para a compra de mercadorias no

OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES
valor de 178.045 pesos fortes e 140.280 dobrões de ouro em 1784,
1785 e 1796, nos navios La Mejicana, El Peruano, San Pedro Alcántara,
Francisco Javier e Astrea.14
Nessa família, são as mulheres que proporcionam os detalhes inte-