Você está na página 1de 290

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE DIREITO

HENRIQUE NAPOLEÃO ALVES

CRÍTICA DA CIÊNCIA DO DIREITO

Belo Horizonte
2016
HENRIQUE NAPOLEÃO ALVES

CRÍTICA DA CIÊNCIA DO DIREITO

Tese apresentada ao programa de Pós-


graduação em Direito da Faculdade de Direito
da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) como requisito parcial para obtenção
do Título de Doutor em Direito (Área de
Concentração: Direito e Justiça).
Orientadora: Prof. Dra. Miracy Barbosa de
Sousa Gustin

Belo Horizonte
2016
A474 Alves, Henrique Napoleão.

Crítica da Ciência do Direito / Henrique Napoleão Alves;


Orientadora Miracy Barbosa de Sousa Gustin. – Belo Horizonte, 2016.
289 f.

Tese (Doutorado) -- Universidade Federal de Minas Gerais, 2016.

1 Filosofia da Ciência. 2 Epistemologia. 3 Filosofia do Direito. 4 Filosofia da


Ciência do Direito. 5 Epistemologia Jurídica. 6 Ciências Jurídicas. 7 Ciência do
Direito. 8 Dogmática Jurídica. 9 Hermenêutica (Direito). 10 Hermenêutica Jurídica. 11
Direito Constitucional. 12 Direito Tributário. 13 Direito Internacional.
CDU 340.12 I Gustin, Miracy Barbosa de Sousa. II Título
HENRIQUE NAPOLEÃO ALVES

CRÍTICA DA CIÊNCIA DO DIREITO


Tese apresentada ao programa de pós-
graduação em Direito da Faculdade de Direito
da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) como requisito parcial para obtenção
do Título de Doutor em Direito (Área de
Concentração: Direito e Justiça).
Orientadora: Prof. Dra. Miracy Barbosa de
Sousa Gustin

Banca Examinadora

__________________________________ __________________________________
Prof. Dra. Miracy Barbosa de Sousa Gustin Prof. Dra. Mônica Sette Lopes
Orientadora/UFMG Docente/UFMG

__________________________________ __________________________________
Prof. Dra. Misabel de Abreu Machado Derzi Prof. Dr. Antônio Augusto Cançado Trindade
Docente/UFMG Docente/UnB

__________________________________ __________________________________
Prof. Dr. Rafhael Frattari Bonito Prof. Dr. Thomas da Rosa de Bustamante
Docente/FUMEC Docente/UFMG

__________________________________
Prof. Dr. Lucas de Alvarenga Gontijo
Docente/PUC Minas

Belo Horizonte, 29 de agosto de 2016


À memória de Expedito Gabrich e Arnaud Napoleão: grandes
contadores de estórias, pessoas de bom coração. Alegra-me saber que,
caso estivessem entre nós, se orgulhariam de mim e com afeto
acrescentariam a minha ao rol de suas muitas estórias.

Aos meus pais, Maristela e Ilídio, e à minha irmã Andréia, por todo o
amor, compreensão e suporte.

Ao professor Noam Chomsky, bastião humano do compromisso com


justiça, razão e paz.
AGRADECIMENTOS

Sou muito grato a todas as pessoas e instituições que de algum modo contribuíram
para a conclusão da tese de doutorado e para a minha formação educacional de modo geral.
Agradeço, especialmente, à Universidade Federal de Minas Gerais (minha alma
mater); ao Centro Acadêmico Afonso Pena; às Faculdades Milton Campos; à Universidade do
Texas; às plataformas Saylor Academy e Coursera.org e às Universidades de Yale, de
Amsterdã e da Pensilvânia; à Universidade de Stanford e à Sociedade dos Amigos da
Enciclopédia de Filosofia da mesma universidade; à Universidade Autônoma do México e sua
biblioteca jurídica virtual; à Academia de Direito Internacional de Haia; à Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e sua plataforma de periódicos; ao Tribunal de
Justiça do Estado de Minas Gerais e à Escola Judicial do Amapá.
Muito obrigado aos professores que abriram as portas do mundo da pesquisa para
mim e que foram meus orientadores na graduação: Arthur José Almeida Diniz (que também
foi meu orientador no Mestrado em Direito), Daniela Muradas Reis e José Luiz Borges Horta;
e também aos professores marcantes da minha alma mater: Brunello Stancioli, Elza Miranda
Afonso, Emilio Peluso Neder, Fabiana Cordeiro de Menezes, Giordano Bruno Soares
Roberto, Iara Menezes Lima, Gustavo Siqueira, Igor Ascarelli Castro de Andrade, João
Antonio de Paula, João Baptista Villela, José Luiz Quadros de Magalhães, Juliana
Neuenschwander Magalhães, Marcelo Cattoni de Oliveira, Maria Fernanda Salcedo Repolês,
Menelick de Carvalho Netto, Miriam Campolina.
Agradeço ao escritório Sacha Calmon – Misabel Derzi Consultores e Advogados
e, em especial, Valter Lobato e Monica Barros por terem confiado no meu trabalho como
advogado e como professor universitário na cadeira de Metodologia da Especialização em
Direito Tributário das Faculdades Milton Campos. Agradeço também ao professor André
Mendes Moreira, incentivador e parceiro de advocacia e de bancas acadêmicas. Obrigado,
Eduardo Junqueira Coelho, advogado de grande experiência com quem tenho o prazer de
trabalhar em questões jurídicas de alta complexidade. Ao seu lado e junto dos professores
Misabel Derzi e Sacha Calmon, tenho vivido com intensidade alguns dos melhores anos da
minha vida profissional. Em especial, sinto-me afortunado por testemunhar rotineiramente a
grande capacidade de trabalho e sensibilidade da professora Misabel, a quem agradeço por
todas as oportunidades de aprendizado e crescimento e pelos exemplos de carreira e de vida.
Muitíssimo obrigado aos professores Mônica Sette Lopes e Rafhael Frattari por
terem participado da minha banca de qualificação. Ao lerem a versão final do meu trabalho,
estou seguro que logo perceberão a influência direta e decisiva das críticas e sugestões que me
fizeram, e que me levaram a efetuar mudanças importantes na ordem dos temas e argumentos,
e no foco que deveria ser dado a cada um deles.
Agradeço muito ao professor Antônio Augusto Cançado Trindade por todos os
anos de correspondência e intercâmbio de ideias, pela amizade e pelos conselhos valiosos, e
também por ter me recebido na Haia, franqueando-me acesso às sessões de julgamento da
Corte Internacional de Justiça e ao acervo impressionante da Academia de Direito
Internacional.
Obrigado a todos os professores que integram a banca – Mônica Sette Lopes,
Misabel Derzi, Rafhael Frattari, Antônio Augusto Cançado Trindade, Thomas Bustamante e
Lucas Alvarenga Gontijo – por aceitarem a incumbência de avaliar o meu trabalho. Agradeço-
lhes também, de antemão, pelas críticas e comentários. Considero este um momento único em
toda a minha vida acadêmica por representar a oportunidade de ver o meu trabalho ser
analisado e discutido por professores experientes. Oportunidade preciosa.
Agradeço a todos os meus alunos da UFMG e das Faculdades Milton Campos.
Tem sido um grande prazer contribuir para formar os juristas e cidadãos de amanhã. Com eles
me formo e me reformo sempre, de muitas maneiras. Como isso é bom.
Meu agradecimento a todos os amigos das turmas do Prédio saudoso, do Siduca,
da UFMG e do Santão FC. Minha caminhada teria sido radicalmente dificultada sem a
presença e o apoio do Álvaro Cioglia, do Juliano Napoleão e do Tádzio Coelho ao longo dos
anos e também durante o meu doutoramento. Sou imensamente grato a eles, e também a
Clarissa Gross, Arthur Bragança, Daniel Ribeiro, Fernanda Carvalho, Felipe Rocha, Henrique
Chaves, Sérgio Napoleão e Leonardo Napoleão.
Agradeço ao professor Noam Chomsky por ter influenciado diretamente a escolha
do tema e os rumos da investigação, por ter me permitido traduzir e divulgar livremente
alguns de seus textos no meu blog Velho Trapiche e por ser uma fonte inesgotável de
inspiração para mim e para milhares ou milhões de pessoas mundo afora.
Muitíssimo obrigado à professora Miracy Gustin, minha orientadora, exemplo de
dedicação à vida acadêmica e à promoção da justiça e da inclusão social. Faço questão de
registrar publicamente, nestes agradecimentos, como o meu modo de enxergar a vida e a
pesquisa jurídica se transformaram a partir das minhas primeiras experiências como seu aluno
no Mestrado em Direito na UFMG. Suas aulas de metodologia aumentaram as minhas
inquietações sobre o que distingue as boas das más razões na argumentação e na pesquisa, e
desde aquela época eu sonhava em converter estas mesmas inquietações em um projeto
exitoso de pesquisa para o Doutorado sob sua orientação. A professora Miracy nunca se
dobrou diante das dificuldades; ao longo dos anos de doutoramento, fui guiado por ela o
tempo todo, seja pela sua presença física, seja pela presença absolutamente tangível dos seus
escritos, do seu exemplo de mulher guerreira, dos seus ensinamentos que com alegria
carregarei comigo vida afora.
Muito obrigado à Elisa Torres Castro, pessoa incrível e companheira, por todo o
incentivo e apoio.
Agradeço aos meus pais pela luta e pelo esforço que tiveram para que eu tivesse
acesso a oportunidades educacionais importantíssimas nos meus anos de infância e juventude;
e, enfim, pela combinação de amor, exemplo, incentivo e apoio sem a qual eu jamais
conseguiria desenvolver as minhas potencialidades nem tampouco faria da educação
permanente uma razão de viver.
Meu sentimento de gratidão é imenso, alcança muitas pessoas e vem
acompanhado de um importante lembrete: os erros e os limites de qualquer sorte são todos de
minha inteira responsabilidade.
“The role of scientific knowledge is to ensure that decisions are made based on fact
and knowledge rather than belief, myth and superstition.”
– Nelson Mandela (1918-2013)

“Devo ser de fato tão antiquado, que venho sendo definido em algumas instâncias
como "ilustrado", devidamente entre aspas, e como alguém preso a uma visão de
tipo teleológico da história e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contrário do
que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio. Ela quer dizer que me
mantenho fiel à tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII,
segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode
e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como
horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de
harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa
possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os
alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O
essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque
isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em
nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo
insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do
contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a
existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada.”
– Antônio Candido (1918-)

“There is no more reason now than there has ever been to believe that we are
constrained by mysterious and unknown social laws, not simply decisions made
within institutions that are subject to human will - human institutions, which have to
face the test of legitimacy, and if they do not meet it, can be replaced by others that
are more free and more just, as often in the past.”
– Noam Chomsky (1928-)
RESUMO
Muitas vezes os juristas consideram científico o seu saber sobre normas jurídicas, sem maiores problematizações
a respeito da adjetivação, embora a cientificidade da dogmática jurídica (saber voltado à compreensão e
sistematização das normas jurídicas) seja um problema histórico da Filosofia do Direito. Em duas reflexões
recentes sobre o problema, Vega e Machado Segundo alcançaram conclusões opostas: para o primeiro, a
dogmática jurídica tem uma pretensão de racionalidade, mas não pode ser tida como científica nos termos de
nenhuma concepção sobre ciência; para o segundo, a dogmática jurídica pode ser científica, desde que mude de
nome e adote o falseabilismo. Ao enfrentar a mesma questão, argumento primeiramente a favor de uma
caracterização detalhada da dogmática jurídica enquanto Ciência do Direito que inclui os seguintes pontos: o
direito positivo carrega consigo uma pretensão de correção; não há neutralidade axiológica no enfrentamento de
problemas jurídicos; os direitos humanos e fundamentais devem servir na construção da hipótese interpretativa
não só pelo seu protagonismo em sistemas jurídicos como o nosso, como também por objetivarem a ideia de
justiça; entre hipóteses interpretativas de similar aderência ao direito positivo, prevalece a que melhor servir a
justiça. Em seguida, reflito sobre a cientificidade da Ciência do Direito a partir das seguintes concepções:
indutivismo, falseabilismo, programas de pesquisa, paradigmas, realismo não representativo, anarquismo
epistemológico e ciência pós-moderna. Examino as principais características e os eventuais pontos fracos de
cada uma delas. Particularmente em relação à última, demonstro como a ciência pós-moderna proposta por
Boaventura Sousa Santos incorre num relativismo tão radical que se autorrefuta, bem como em outros problemas
graves que incluem críticas indevidas à ciência moderna, confusão entre os diferentes sentidos do termo ciência,
rejeição do racionalismo, manipulação de termos rebuscados e pouco cuidado terminológico, rejeição da
distinção entre fatos e ficção, abandono do pensamento claro e da análise rigorosa da realidade social, uso de
discursos obscuros com afirmações grandiloquentes ambíguas ou arbitrárias, abuso de conceitos e termos
procedentes das ciências exatas e naturais e salto para conclusões sem o devido suporte. As concepções sobre
ciência examinadas indicam haver muitas divergências em torno do conceito de ciência, e a Ciência do Direito
não se amolda como científica à luz de nenhuma delas. Apesar das divergências, sustento que existem princípios
gerais (apreço pelas regras de inferência, abertura à crítica e à refutação argumentativa, desconfiança do
argumento de autoridade...) que conformam um conteúdo mínimo da ciência aplicável à Ciência do Direito. Ao
final, adapto a noção criada por Harris de uma paisagem moral para defender a ideia de que há uma paisagem
científica composta de picos e vales, pontos altos e baixos da cientificidade e da racionalidade. A partir dela,
destaco picos e vales da pesquisa e do debate acadêmico em Direito, com o objetivo autodeclarado de que sirvam
como advertência normativa para pesquisadores e juristas práticos.

PALAVRAS-CHAVE: Filosofia do Direito. Filosofia da Ciência. Dogmática Jurídica. Pós-Modernismo. Ciência


do Direito. Cientificidade do Direito.
ABSTRACT
Many lawyers regard their knowledge on legal norms as scientific without much concern with this powerful
adjective. However, the philosophical problem of whether legal dogmatics qualify as scientific is a relatively old
one. Recently, Vega sustained that legal dogmatics is not scientific in any terms, while Machado Segundo
considered legal dogmatics as scientific when it adopts a different name and also Popper’s falsificationism. In
this dissertation, I revisit this question.
First, I present a detailed characterization of legal dogmatics that includes the following: Law contains a claim to
correctness; there can be no value-free approach to legal questions; human rights must be examined in the
formulation of interpretative hypotheses not only due to its positive importance in legal systems such as the
Brazilian one but also because human rights gives a certain objectivity to the idea of justice.
Second, I consider the scientific character (or the absence of it) in light of the following scientific conceptions:
inductivism, falsificationism, Lakatos’ research programs, Kuhn’s paradigms, Chalmers’ non-representative
realism, Feyerabend’s anarchistic theory and Santos’ postmodern science. Concerning the latter, I claim that the
radical relativism endorsed by Santos approach leads to self-refutation. Additionally, I claim that Santos
approach is tainted with different issues that include: improper criticism of modern science; confusion regarding
the different meanings of science; irrationalism; adoption of obscure terms, rejection of the difference between
facts and fiction, abandonment of clear-thinking rigorous analysis of the social world, adoption of grandiloquent
but ambiguous or arbitrary statements, abuse of concepts and terms from mathematical and natural sciences and
presentation of weak conclusions.
The different conceptions of science indicate there is much disagreement on the concept of science. Legal
dogmatics does not fit into any of those conceptions. Despite the disagreement, there are general principles that
can be gathered as a minimum content of science as a concept, and they are applicable to Legal Dogmatics, to its
benefit. In the end, I departure from Harris’ metaphor of a moral landscape to claim that one can visualize a
scientific landscape with peaks and valleys, higher and lower points of rationality. I further discuss peaks and
valleys of legal research and legal academic debate with the self-declared objective of presenting them as a
normative warning to researchers and practical lawyers.

KEYWORDS: Philosophy of Law. Philosophy of Science. Legal Dogmatics. Postmodernism. Legal Science.
RESUMÉ
Plusieurs juristes considèrent leurs connaissances à propos des normes juridiques comme de la science, sans
problématiser cette attribution, bien que la dogmatique juridique scientifique (connaissances visant à la
compréhension et la systématisation des règles juridiques) soit un problème historique de la Philosophie du
Droit.
Récemment, Vega a soutenu que la dogmatique juridique a une prétention de rationalité, mais ne peut pas être
considérée comme scientifique en aucun termes de conception de la science. D’un autre côté, Machado Segundo
comprends que la dogmatique juridique peut être scientifique, à condition qu’elle change de nom et adopte la
théorie de Popper de réfutation.
Face à la même question, j’argumente, premièrement, en faveur d'une caractérisation détaillée de la dogmatique
juridique qui inclut les points suivants : le droit positif apporte une prétention de correction ; il n’y a pas de
neutralité axiologique face aux problèmes juridiques, les droits de l’homme et les droits fondamentaux doivent
servir pour la construction des hypothèses d’interprétation non seulement pour son rôle dans les systèmes
juridiques comme les nôtres, mais aussi par viser l'idée de justice; entre les hypothèses interprétatives d'adhésion
semblable au droit positif, doit faire valoir celle qui mieux servir à la justice.
Ensuite, j’analyse l'aspect scientifique de la dogmatique juridique des concepts suivants : l’inductivisme, la
réfutabilité, les programmes de recherche, les paradigmes, le réalisme représentatif, l'anarchisme
épistémologique et la science post-moderne. J’examine, ainsi, les principales caractéristiques et les éventuelles
faiblesses de chacun.
En particulier, par rapport à ce dernier, je démontre comment la science post-moderne proposé par Boaventura
Sousa Santos encourt un relativisme si radical qui se auto réfute, ainsi que d'autres problèmes graves, y compris
la critique indue de la science moderne, la confusion entre les différents sens du mot science, le rejet du
rationalisme, la manipulation des mots exagérés et peu de soins terminologique, le rejet de la distinction entre la
réalité et la fiction, l'abandon de la pensée claire et d’une analyse rigoureuse de la réalité sociale, l'utilisation du
discours obscurs avec les déclarations grandiloquentes ambiguës ou arbitraires, l’abus de concepts et de termes
qui viennent des sciences exactes et naturelles pour sauter aux conclusions sans le soutien approprié.
Les conceptions de la science examinés indiquent qu'il y a beaucoup de divergence autour du concept de science,
et la dogmatique juridique ne se retrouve comme scientifique à la lumière d’aucune des ces deux conceptions.
Malgré les divergences, je soutien qu'il existe des principes généraux (appréciation des règles d'inférence,
ouverture à la critique et à la réfutation argumentative, la méfiance de l'argument de l'autorité ...) qui font un
contenu minimum de science qui est applicable à la dogmatique juridique.
À la fin, j’adapte le concept créé par Harris d’un paysage moral pour défendre l'idée qu'il y a un paysage
scientifique qui se compose par des pics et des vallées, des hauts et des bas de la scientificité et de la rationalité.
À partir de là, je mets en évidence les pics et les vallées de la recherche et du débat académique en Droit, dans le
but auto-déclarée de servir comme un avertissement normatif aux chercheurs et aux avocats pratiques.

MOTS-CLÉS: Philosophie du Droit. Philosophie des Sciences. Dogmatique juridique. Postmodernisme. Science
du Droit.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Cômica montagem de Newton com uma espada laser ............................................ 28


Figura 2 - Anedota sobre ciência e filosofia. ............................................................................ 32
Figura 3 - Síntese do “indutivismo ingênuo”. ........................................................................ 100
Figura 4 - Escada de Schröder ................................................................................................ 105
Figura 5 - Um cubo de Necker ............................................................................................... 107
Figura 6 - Pelicanos, antílopes, ou ainda outra coisa? ............................................................ 109
Figura 7 - Progresso da Ciência segundo o Falseabilismo. .................................................... 128
Figura 8 - “Astronomer Copernicus: Conversation with God”, de Jan Matejko.................... 212
Figura 9 - Ementa da disciplina Introdução à Filosofia: Filosofia da Ciência e Epistemologia -
2012 – UFMG......................................................................................................................... 285
Figura 10 - Ementa da disciplina Ensino de Ciências: Contribuições da Epistemologia - 2014
– UFSC ................................................................................................................................... 287
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Disciplinas de base empírica ou observacional sobre a ciência. ............................ 24


Quadro 2 - Características atribuídas à Filosofia da Ciência.................................................... 25
Quadro 3 - Pressupostos da crítica filosófica da racionalidade jurídica ................................... 39
Quadro 4 - Comparação entre Ciência do Direito e Política Jurídica, segundo Kelsen. .......... 44
Quadro 5 - Problemas de sentido que podem acometer textos normativos .............................. 52
Quadro 6 - Comparação entre zetética e dogmática ................................................................. 58
Quadro 7 - Tipos de investigação zetética segundo Ferraz Jr. ................................................. 59
Quadro 8 - Modelos teóricos de produção do saber jurídico .................................................... 60
Quadro 9 - Grandes vertentes teórico-metodológicas da pesquisa jurídica.............................. 61
Quadro 10 - Tipos de raciocínio da pesquisa jurídica. ............................................................. 63
Quadro 11 - Elementos extratextuais envolvidos na interpretação .......................................... 80
Quadro 12 - Padrões de justificação de decisões judiciais. ...................................................... 83
Quadro 13 - Problemas do indutivismo ingênuo. ................................................................... 102
Quadro 14 - Desfazimento de enganos comuns na rejeição do indutivismo. ......................... 117
Quadro 15 - Síntese das teses de Dworkin feita por André Coelho ....................................... 142
Quadro 16 - Exemplos de núcleos irredutíveis. ...................................................................... 145
Quadro 17 - Frentes do programa de pesquisa. ...................................................................... 146
Quadro 18 - Realismo e Instrumentalismo. ............................................................................ 163
Quadro 19 - Críticas de Santos às leis, à causalidade e à distinção sujeito-objeto ................. 189
Quadro 20 - Tipos principais de afirmações científicas ......................................................... 219
Quadro 21 - Características da pesquisa jurídica inadequada ................................................ 234
Quadro 22 - Características da boa pesquisa jurídica ............................................................. 235
Quadro 23 - Problemas do Discurso Jurídico e suas causas (segundo Spitzer). .................... 239
Quadro 24 - Falácias no debate Ávila x Carvalho .................................................................. 247
Quadro 25 - Comparativo entre as diferentes concepções de ciência analisadas ................... 280
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................... 16
2 FILOSOFIA DA CIÊNCIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA DO DIREITO ......................................... 24
2.1. Filosofia da Ciência: conceito e diferenciação em relação a campos empíricos do saber .......................... 24
2.2. A filosofia é inútil? A “Espada Flamejante de Newton” e as críticas de Nöe a Halking e Mlodinow ....... 26
2.2.1. “A Espada Flamejante de Newton”, segundo Mike Alder ......................................................................... 26
2.2.2. Crítica a Alder: ao invés de confirmar a inutilidade, só atesta a importância da filosofia e da filosofia da
ciência ........................................................................................................................................................ 31
2.2.3. As críticas de Alva Noë a Stephen Hawking e Leonard Mlodinow ........................................................... 33
2.3. Filosofia da Ciência do Direito .................................................................................................................. 35
3 FILOSOFIA DA CIÊNCIA DO DIREITO ............................................................................................ 37
3.1. Introdução .................................................................................................................................................. 37
3.2. Um saber sobre textos e normas ................................................................................................................. 39
3.3. Dogmática jurídica ou Ciência do Direito? ................................................................................................ 41
3.4. A Ciência do Direito não é descritiva num sentido forte ........................................................................... 50
3.5. A Ciência do Direito se diferencia de outros saberes jurídicos .................................................................. 57
3.6. A Ciência do Direito é valorativa e combina elementos textuais e extratextuais ....................................... 65
3.7. Ciência do Direito e pretensão de racionalidade ........................................................................................ 81
3.8. A Ciência do Direito admite respostas melhores e piores .......................................................................... 83
3.9. dogmática jurídica e direitos humanos ....................................................................................................... 85
4 INDUTIVISMO OU REALISMO INGÊNUO ....................................................................................... 97
4.1. Considerações iniciais ................................................................................................................................ 97
4.2. Indutivismo ingênuo e indutivismo probabilístico ..................................................................................... 98
4.2.1. O indutivismo ingênuo (e seus problemas) ................................................................................................ 98
4.2.2. A versão probabilística do indutivismo (e seus problemas) ..................................................................... 103
4.3. O papel da teoria na observação ............................................................................................................... 104
4.4. Observações conclusivas sobre o indutivismo ......................................................................................... 117
4.5. Indutivismo e Ciência do Direito ............................................................................................................. 118
5 FALSEABILISMO OU REALISMO CRÍTICO ................................................................................. 121
5.1. Introdução ao falseabilismo ..................................................................................................................... 121
5.2. Falseabilismo e progresso da ciência ....................................................................................................... 126
5.3. Modificações ad hoc e o falseabilismo sofisticado .................................................................................. 128
5.4. Críticas ao falseabilismo .......................................................................................................................... 132
5.5. Falseabilismo e Ciência do Direito .......................................................................................................... 138
6 PARADIGMAS, PROGRAMAS DE PESQUISA E REALISMO NÃO REPRESENTATIVO ...... 144
6.1. A teoria (estrutural) dos programas de pesquisa ...................................................................................... 144
6.2. Racionalismo, relativismo e críticas adicionais a Lakatos ....................................................................... 149
6.3. A teoria (estruturada) dos paradigmas científicos de Thomas Kuhn ........................................................ 152
6.4. Kuhn, Lakatos e a mudança dos termos do debate ................................................................................... 159
6.5. Instrumentalismo e realismo .................................................................................................................... 163
6.6. Realismo não representativo .................................................................................................................... 168
6.7. Aspectos relativistas e não relativistas do realismo não representativo ................................................... 169
6.8. Teorias como estruturas, realismo não representativo e a Ciência do Direito .......................................... 173
7 ANARQUISMO E CIÊNCIA PÓS-MODERNA ................................................................................. 179
7.1. O anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend .................................................................................. 179
7.2. A ciência pós-moderna segundo Santos: uma síntese .............................................................................. 185
7.3. Crítica do pós-modernismo e da ciência pós-moderna ............................................................................. 192
7.4. Pós-modernismo e Ciência do Direito ...................................................................................................... 221
8 A PAISAGEM CIENTÍFICA ................................................................................................................ 225
8.1. Conteúdo mínimo da ciência .................................................................................................................... 225
8.2. A paisagem moral e a paisagem científica ............................................................................................... 229
8.3. Picos e vales no Direito ............................................................................................................................ 230
8.3.1. Os vales da pesquisa jurídica ................................................................................................................... 230
8.3.2. Os vales no debate jurídico-acadêmico .................................................................................................... 241
8.4. Ciência do Direito: ciência ou pseudociência? ......................................................................................... 248
9 CONCLUSÕES ....................................................................................................................................... 251
REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................... 266
APÊNDICE A – Comparativo entre as diferentes concepções de ciência analisadas ............................. 280
ANEXO A – Ementas e planos de ensino selecionados ............................................................................. 285
16

1 INTRODUÇÃO
O Direito importa. Um de seus grandes estudiosos abriu o prefácio de uma de suas
principais obras salientando o quanto o Direito permeia as nossas relações, o quanto as
constitui. E escolheu fazer isso através de exemplos variados de situações que fazem parte do
cotidiano da vida social em sociedades como a nossa. “Nós vivemos no e pelo Direito. [...]
Demandamos nosso salário, recusamos a pagar o aluguel, somos forçados a pagar multas ou
somos encarcerados, tudo em nome do nosso soberano abstrato e etéreo, o Direito.”1
A racionalidade importa para o Direito. Em uma de suas teses sobre a
racionalidade jurídica, Vega acertadamente afirma que o Direito se constitui como uma
normatividade social de segunda ordem, i.e., que se afirma em precedência das demais; e se
positiva de uma maneira altamente formalizada e por meio de uma linguagem específica cujos
interlocutores primários são os próprios atores jurídicos.2 A crescente complexidade e a
independência relativa entre as instituições legislativa e aplicativa exige a presença de um
mecanismo adicional de racionalização que seja capaz de reconstruir as teorias incorporadas
ao processo dinâmico da técnica jurídica: a dogmática jurídica.3
Muitas vezes os juristas consideram científico o seu saber e o seu fazer sobre
normas jurídicas, sem maiores problematizações a respeito da adjetivação. Neste sentido, e.g.,
Paulo Bonavides referiu-se ao estudo do Direito Constitucional, das normas e instituições do
ordenamento, como uma “autêntica Ciência Jurídica”; e do Direito Constitucional Especial,
i.e., estudo do Direito de um determinado Estado, como uma “ciência prática” que “consiste
na averiguação, desenvolvimento, coordenação e sistematização de conceitos, princípios,
normas e institutos inteiros que, embora abstratos, são sempre ‘positivos’”4; Carlos Velloso,
então Ministro do STF, afirmou que Aires Barreto cuidou do tema da base de cálculo “com
rigor científico”, que a classificação de tributos feita por Geraldo Ataliba reflete um “labor
científico” da parte do citado jurista, e que “são poderosos e científicos” os argumentos de
Geraldo Ataliba e de Roque Carrazza sobre o tema das taxas e preços públicos5; Benedito

1
DWORKIN, 1986, p.vii.
2
VEGA, 2009, p.393-394; No mesmo sentido, a professora Mônica Sette Lopes assevera que a língua do Direito
“é uma língua estrangeira para o destinatário”, e acrescenta que isso se dá especialmente devido ao “percurso
completo dos processos que envolvem o fazer da lei e a conexão entre todas as suas fases e fenômenos
impressivos até os resultados finais da aplicação.” LOPES, 2004a, p.78-79.
3
VEGA, 2009, p.387, 393-394.
4
BONAVIDES, 2004, p.41. Adicionalmente, considerou o estudo de várias outras disciplinas (Direito Privado,
Direito Internacional, Direito Tributário, Direito Penal, o Direito do Trabalho etc.) como “outras ciências”.
BONAVIDES, 2004, p.43 ss.
5
BRASIL, 1993.
17

Gonçalves, Ministro do STJ, tratou do conhecimento a respeito do direito processual como a


“ciência do direito processual”6, e seu colega Luiz Fux, hoje Ministro do STF, referiu-se ao
fundamento de conclusões sobre o tema da substituição tributária como “jurídico-científico” 7;
para ficarmos em apenas alguns exemplos.
Uma das experiências filosóficas por excelência é a que envolve tomar um
fenômeno ou conceito que nos seja comum, parte da paisagem não questionada das nossas
vivências, e colocá-lo em perspectiva.8 Isso foi feito em relação à dogmática jurídica e à sua
cientificidade, e muito provavelmente continuará sendo feito: a Filosofia preocupa-se não só
em fornecer respostas, mas em renovar respostas a velhas perguntas. Essa é uma delas. Basta
lembrarmos que a colocação do direito como objeto de ciência já foi objeto de preocupação
no trabalho de Savigny (1779-1861) e de seus contemporâneos9; e que uma das mais famosas
respostas ao problema da cientificidade do Direito, qual seja, a de que o conhecimento sobre
normas jurídicas não poderia ser tido como ciência em virtude da mutabilidade do seu objeto,
foi dada por Julius von Kirchmann no século XIX. Sua resposta foi sintetizada na famosa
sentença: “três palavras retificadoras do legislador convertem bibliotecas inteiras em lixo.”10
Recentemente, dois autores retomaram a pergunta, e cada um a respondeu de uma
maneira distinta. Para o citado Vega, a dogmática jurídica não pode ser considerada uma
ciência nem no sentido mais frágil desta palavra. Para Machado Segundo, a dogmática
jurídica pode ser considerada uma ciência se mudar de nome e se incorporar a lógica do
falseabilismo. As duas respostas antagônicas tiveram algo em comum: compararam a
dogmática jurídica com alguma concepção mais ampla de ciência: no caso de Vega, conceitos
gerais de ciência antiga e medieval e de ciência moderna; no caso de Machado Segundo, o
conceito de ciência dado pela filosofia popperiana.11
Neste trabalho, enfrento a mesma questão: a dogmática jurídica é uma ciência? É
possível falar em uma dogmática jurídica científica tendo em vista diferentes concepções
sobre ciência? Ao assim proceder, naturalmente não repito as abordagens de Vega e de
Machado Segundo, mas dialogo com elas num percurso próprio, marcado pela caracterização
detalhada da dogmática jurídica e de considerações sobre sua cientificidade tendo em vista
não somente o falseabilismo popperiano, como também o indutivismo, a teoria dos programas
6
BRASIL, 2010.
7
BRASIL, 2009.
8
Cf., neste sentido: HOYNINGEN-HUENE, 2010.
9
LOPES, 2004b, p.185.
10
Sobre o tema, ver: SALDANHA, 1990, p.275-278; MARTINS, 2006; LOPES, 2004b, p.197, 206.
11
Cf. VEGA, 2009, passim; MACHADO SEGUNDO, 2008a, 2008b, 2008c; MACHADO SEGUNDO, 2014,
passim.
18

de pesquisa, a teoria dos paradigmas, o realismo não representativo, o anarquismo


epistemológico, a ciência pós-moderna e a ideia de conteúdo mínimo da ciência.
A minha hipótese é a de que, como colocado por Vega, a dogmática jurídica, que
justificadamente prefiro denominar de Ciência do Direito, provavelmente não pode ser
considerada como ciência se levadas em conta as concepções tradicionais sobre ciência
(normalmente legatárias da chamada epistemologia naturalista, o que torna o resultado
esperado); mas que, diferentemente do que coloca Vega, ainda assim ela pode ser considerada
científica segundo um conceito mais amplo de ciência, que abarca a questão da refutabilidade
argumentativa defendida por Machado Segundo, mas não apenas.
Colocando a hipótese de maneira mais analítica e completa: considerando as
concepções sobre a ciência do indutivismo, do falseabilismo, dos paradigmas científicos, dos
programas de pesquisa, do anarquismo epistemológico e da ciência pós-moderna, a Ciência
do Direito não deve ser considerada científica, mas ela pode ser tida como científica levando-
se em conta a ideia de um conteúdo mínimo da ciência, associado a princípios gerais como a
desconfiança em relação ao argumento de autoridade e a adoção das regras de inferência, e à
adoção de procedimentos metodológicos (com identificação de problemas e formulação e
testagem de hipóteses). Considerando os diferentes tipos de variável propostos por Gustin e
Dias também para pesquisas qualitativas e filosóficas12, as variáveis independentes envolvidas
são: cada uma das diferentes concepções de ciência mencionadas; a noção de conteúdo
mínimo da ciência; a caracterização da Ciência do Direito. As variáveis dependentes são: a
cientificidade da Ciência do Direito segundo cada uma das diferentes concepções de ciência
mencionadas; a cientificidade da Ciência do Direito segundo a noção de conteúdo mínimo da
ciência. Embora este não seja um estudo científico nem cuide de causalidades, o raciocínio
por meio das variáveis pode ser proveitoso para dar mais clareza e consistência interna ao
trabalho, do seu desenvolvimento ao relatório final. Neste sentido, a estrutura da tese mostra
como se deram os cruzamentos de “dados” (entendidos aqui num sentido amplo, tal como
proposto por Gustin e Dias) envolvidos nas testagens da hipótese sobre a cientificidade da
Ciência do Direito.
Com efeito, para o teste, sendo este um trabalho teórico e filosófico, procurei
compreender quais são as características gerais da Ciência do Direito e como ela deve ser
encarada em virtude delas, para depois examinar diferentes concepções de ciência e como elas
se relacionam com a Ciência do Direito. Este percurso está presente na organização dos

12
Cf. GUSTIN; DIAS, 2006, p.73 ss.
19

capítulos que compõem a tese. No capítulo 2, faço esclarecimentos mais detidos sobre o que é
a Filosofia da Ciência e como o meu trabalho se situa enquanto tese de Filosofia da Ciência
voltada ao Direito. No capítulo 3, traço as características gerais da Ciência do Direito e
defendo, normativamente, que dadas essas características as respostas fornecidas pela Ciência
do Direito devem ser avaliadas também segundo critérios de justiça centrados nos direitos
humanos e fundamentais. Nos capítulos 4 a 7, examino diferentes concepções a respeito da
ciência, suas características e eventuais pontos fracos, e como elas se relacionam com a
Ciência do Direito. No capítulo 8, argumento que apesar das muitas divergências sobre o que
se qualifica como ciência, há alguns pontos gerais que compõem o que chamei de paisagem
científica, metáfora que criei para compreender melhor o conteúdo mínimo da ciência e como
a Ciência do Direito pode transitar entre picos de ciência e racionalidade e vales de
irracionalidade. Encerro, no capítulo 9, com as minhas conclusões, seguindo dois modos de
proceder: a ideia do recorte transversal, que consiste em retomar os pontos discutidos ao
longo da tese e as conclusões que eles permitem sejam alcançadas de uma maneira tal que
haja um diálogo e uma interrelação entre os diferentes conteúdos; e a ideia do sumário
executivo, muito comum em algumas obras jurídicas nacionais, que consiste em uma cortesia
ao leitor, mostrando-lhe o que há de essencial no raciocínio e no “argumento central” de todo
o texto.
A Filosofia da Ciência geral é um continente em tamanho, e uma árvore de
incontáveis galhos em estrutura. Dados os recursos inexoráveis de tempo que me foram
concedidos, tive que fazer uma difícil escolha de delimitação a respeito de qual parcela
explorar. Ao lado das tradicionais reflexões que costumam dar mais ênfase à compreensão das
ciências naturais (e, apenas por consequência, da forma como elas se aproximam e se
distanciam de outras disciplinas, teorias e até pseudociências), existem vários outros
exercícios de Filosofia da Ciência, como aqueles voltados especificamente para as ciências
sociais e humanas.
Sendo um iniciante nos estudos de epistemologia e tendo grande deficiência de
formação nas ciências naturais que acabam sendo protagonistas nas análises do que estou aqui
chamando de epistemologia tradicional, entendi como prudente afiançar-me num referencial
teórico da área: a obra “O Que é Ciência, afinal?”, de Alan Francis Chalmers. Nascido em
1939, o autor é professor de Filosofia da Ciência da Universidade de Sidnei, Austrália. Seu
livro foi escrito para iniciantes na área e rapidamente tornou-se um best-seller, tendo sido
traduzido para muitos idiomas diferentes e adotado pelo syllabus de várias universidades. Para
20

fins de exemplificação, é o principal livro da bibliografia básica da disciplina “Introdução à


Filosofia: Filosofia da Ciência e Epistemologia”, oferecida pela Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas da nossa Universidade Federal de Minas Gerais; e da disciplina “Ensino de
Ciências: Contribuições da Epistemologia”, do Programa de Pós-Graduação em Educação
Científica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina (que abrange o Centro de
Ciências Físicas e Matemáticas, o Centro de Ciências da Educação e o Centro de Ciências
Biológicas).13
Seguindo as recomendações metodológicas dos professores Miracy Gustin e
Maria Tereza Fonseca Dias, Rafhael Frattari e Cançado Trindade sobre a questão do marco
teórico, adotei a obra de Chalmers como um dos referenciais teóricos sem abrir mão do meu
próprio pensamento e da busca independente por respostas, não permitindo que o marco
teórico me inibisse de ler o máximo que pudesse.14 A obra de Chalmers e os textos do curso
“Philosophy of Science”, oferecido gratuitamente pela plataforma Saylor Academy, foram os
meus guias para o mundo relativamente novo da epistemologia. Ao analisar o percurso da
pesquisa de doutorado retrospectivamente, percebo que a natural insegurança do neófito fez
com que por vezes meus fichamentos e relatórios de pesquisa ficassem por vezes muito presos
às fontes. Porém, acredito que a postura é compreensível pelas circunstâncias e tem a
vantagem de dar ao leitor uma indicação rigorosa das fontes envolvidas. Espero contar com a
compreensão do leitor quando o texto revelar-se mais árido ou menos fluido. O mais
importante é que tomei os referenciais mencionados com excesso de cautela, mas
verdadeiramente como guias iniciais, e não como autoridades inarredáveis, sempre
perseguindo os textos por eles mencionados e comparando ideias e registros.

13
Cf. Anexo A.
14
“... não se deve entender que o marco teórico tenha o efeito de “engessar” a pesquisa. Ao contrário, é o marco
teórico que fornece à pesquisa o caráter de sistematização do conhecimento (que distingue o conhecimento
científico do senso comum) e torna possível a verificação e controle dos resultados obtidos e dos
procedimentos metodológicos utilizados.” GUSTIN; DIAS, 2006, p.40.
“A escolha do marco teórico tem, pois, função de orientar a abordagem do tema-problema. Essa escolha deve ser
feita com base em determinado quadro de teorias.” FRATTARI, 2014, p.250. “[E]u repudio o Marco Teórico
como algo que inibe o jovem pesquisador a ler o máximo que ele puder ler. Eu sou um livre pensador.”
CANÇADO TRINDADE,; YASSINE; LOPES; VELLOSO, 2009. “Sempre me considerei um livre pensador
e sempre defendi o livre pensamento e a busca, por parte de cada um, de suas próprias respostas às perguntas
que fazem a si mesmos. Sempre me opus a isso que hoje nós chamamos de “marco teórico”. Não acredito em
marco teórico, sou contrário a marco teórico e creio que é uma moda nefasta que se estabeleceu em nossas
Faculdades. Cada um deve buscar por si mesmo as respostas para as perguntas que surgem no decorrer dos
anos de formação tanto pessoal como profissional. Não existe uma fórmula apriorística para todos, e creio que
cada um deve seguir aquilo com que se identifica e abrir o seu próprio caminho. Basicamente, essa é a lição da
minha experiência nos meus passos iniciais. [...] O pensamento de Radbruch, em sua etapa final, foi um dos
que eu tomei muito em conta. No entanto, eu não tenho “marco teórico”, não me identifico com ninguém,
tenho meu próprio pensamento.” CANÇADO TRINDADE; CONSELHO EDITORIAL,2009.
21

Paralelamente, também busquei aprofundar meus conhecimentos sobre Filosofia


da Ciência por meio dos excelentes textos sobre temas científicos da Enciclopédia de
Filosofia da Universidade de Stanford, cuja Sociedade de Amigos passei a integrar desde
março de 2015; bem das reflexões extremamente críticas de Chomsky, Brimont e Sokal a
respeito da ciência, das ciências humanas e sociais e da filosofia da ciência. Ademais, fiz três
cursos de aperfeiçoamento voltados para a área: “Think Again: How to Reason and Argue”,
oferecido pela Universidade de Yale e coordenado pelos professores Walter Sinnot-
Armstrong e Ram Neta, curso sobre argumentação em geral, argumentos indutivos,
argumentos dedutivos e falácias lógicas / argumentativas (concluído em 2015); “Quantitative
Methods”, oferecido pela Universidade de Amsterdã e coordenado pela professora Annemarie
Zand Scholten, curso sobre metodologias quantitativas nas ciências sociais (concluído no
início de 2016); e “Qualitative Research Methods”, oferecido pela Universidade de Amsterdã
e coordenado pelo professor Gerben Moerman – curso sobre metodologias qualitativas nas
ciências sociais (em vias de conclusão).
Uma das minhas metas particulares era a abarcar o maior número de concepções
epistemológicas que pudesse. Os capítulos 4 e seguintes registram este esforço. Neles,
exponho as principais ideias do indutivismo, do falseabilismo, da teoria dos paradigmas de
Kuhn, da teoria dos programas de pesquisa de Lakatos, do realismo não representativo do
próprio Chalmers, do anarquismo epistemológico de Feyerabend e da ciência pós-moderna de
Santos.15
O fato de essas diferentes concepções darem especial atenção às ciências exatas e
naturais não impediu que fossem e continuem sendo bastante estudadas e utilizadas nas
ciências humanas e sociais, inclusive no Direito, e mesmo por acadêmicos que, como eu, não
têm uma formação básica sólida nas referidas ciências. Confesso, no entanto, que quanto mais
estudava epistemologia ao longo dos anos, mais percebia a importância de complementar a
minha formação com boas noções de lógica, matemática e ferramentas de pesquisa
quantitativa e qualitativa, o que farei nos anos subsequentes.
Este é um estudo de Filosofia do Direito que, do ponto de vista metodológico,
enquadra-se como pesquisa jurídico-teórica, jurídico-compreensiva e jurídico-propositiva. A
pesquisa se pretende crítica, o que significa a combinação de uma postura relativamente cética

15
Para uma síntese das diferentes concepções, ver o Apêndice A da presente tese.
22

em busca do discernimento do valor de cada teoria e argumento.16 Quanto à sua justificação,


destaco que, como já dito, o Direito importa, e a Ciência do Direito desempenha um papel
crucial nele enquanto instituição e prática social. Daí a importância de investigá-la
criticamente.
Além disso, justifica-se em virtude da importância social do próprio rótulo de
ciência, e dos riscos envolvidos na apropriação do rótulo para a promoção de agendas
particulares como se objetivas e sociais fossem.
Por fim, também se justifica porque, além do Direito e do saber sobre o Direito
importarem, também os porquês importam. Heranças iluministas nos dizem que somos seres
por natureza curiosos, entusiasmados, criativos.17 A infância comum a todo ser humano adulto
serve de testemunho de que pelo menos em algum momento estes predicados foram
verdadeiros em todos nós, e com grande intensidade. Os porquês fazem parte dos fios de
tempo e de vivência com os quais costuramos nossa extraordinária existência – respirações
em um pálido ponto azul cercado de imensidões escuras.
“Tiger got to hunt, bird got to fly; Man got to sit and wonder, 'Why, why, why?'
Tiger got to sleep, bird got to land; Man got to tell himself he understand.” Para preservar o
sentido e a musicalidade, traduzi os versos assim: “Tigre tem de caçar, ave tem de voar,
homem tem de perguntar “por quê”, e mais outro “por quê” perguntar. Tigre precisa dormir,
ave precisa pousar, e o homem de acreditar que compreende, de acreditar...” Os versos são de
um poema que consta do romance “Cat’s Cradle”, do autor Kurt Vonnegut. 18 No enredo,
curiosamente integram um livro sagrado de uma religião meio niilista e pós-moderna, mas
aqui são destacados do contexto original para ilustrar expressivamente algo importante sobre

16
Como esclarecem Gustin e Dias, a pesquisa teórica acentua os aspectos conceituais; a pesquisa jurídico-
compreensiva leva a cabo um procedimento analítico de decomposição de um problema jurídico (no caso,
jurídico-filosófico) em vários aspectos, relações e níveis; a pesquisa jurídico-propositiva é aquela que tem
como finalidade oferecer um produto. Cf. GUSTIN; DIAS, 2006, p.21-22 ss. Aqui, entendo que ele se dá
sobretudo na forma de melhor compreensão do estatuto epistemológico da dogmática jurídica e de como ela
pode almejar maior racionalidade ou evitar os chamados “vales” da ausência de cientificidade e racionalidade.
Este último ponto fica mais claro ao longo do desenvolvimento da tese e especialmente nos capítulos 8 e 9, a
seguir.
17
Cf., por exemplo, o que uma das principais figuras do chamado Iluminismo Escocês, Adam Smith, tem a dizer
sobre o tipo de trabalho que contraria a natureza criativa e questionadora do ser humano: “Com o progresso da
divisão do trabalho, o emprego da grande maioria daqueles que vivem do trabalho, ou seja, da grande maioria
do povo, passa a ser confinado à realização de poucas tarefas muito simples, frequentemente uma ou duas. [...]
O homem cuja vida é gasta na realização de poucas operações simples, cujos efeitos são sempre, ou quase
sempre os mesmos, não tem a oportunidade de exercer sua capacidade de compreensão ou sua criatividade na
descoberta de soluções para problemas. Ele naturalmente perde, portanto, o hábito de tal esforço, e, de modo
geral, torna-se tão estúpido e ignorante quanto é possível que uma criatura humana se torne.” SMITH, 1979
[1776], p.781-782.
18
VONNEGUT, 1998 [1963]. Tomei conhecimento deles por intermédio do colega jurista Wagner Artur Cabral.
23

nós mesmos. Somos feitos de porquês, mesmo e quiçá principalmente quando não há
respostas ou pontos finais, nem acessos diretos, imediatos, ao real. Se a ciência, séria,
atravessar a terra montada num trator; e a poesia, solta, voar pelos ares montada numa
vassoura; é bem capaz de a filosofia, coruja, plainar entre uma e outra enquanto pergunta aos
condutores: quem sois, o que são, para onde vão, e por quê?
24

2 FILOSOFIA DA CIÊNCIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA DO DIREITO


2.1. FILOSOFIA DA CIÊNCIA: CONCEITO E DIFERENCIAÇÃO EM RELAÇÃO A CAMPOS
EMPÍRICOS DO SABER

A Filosofia da Ciência pertence ao campo temático da filosofia e, como a


Filosofia da História e a Filosofia da Arte, elege como foco particular uma certa parte do
mundo ou um tipo específico de atividade humana.19
Em relação à ênfase e aos métodos de pesquisa, a Filosofia da Ciência se distingue
das disciplinas de base empírica ou observacional sobre a ciência, como a Sociologia, a
História ou a Psicologia da Ciência, sintetizadas no quadro a seguir:20

Quadro 1 - Disciplinas de base empírica ou observacional sobre a ciência.


DISCIPLINAS DE BASE EMPÍRICA OU OBSERVACIONAL SOBRE A CIÊNCIA
Estuda como os cientistas interagem enquanto grupos sociais, como se envolvem em
SOCIOLOGIA
pesquisa, como determinam a quais teorias ou programas de pesquisa vale a pena se
DA CIÊNCIA
dedicar, dentre outros.
Estuda como os cientistas raciocinam; quais são os processos mentais que seguem
PSICOLOGIA quando julgam o mérito de certos tipos de pesquisa ou especulação teórica; como
DA CIÊNCIA refletem sobre dados, experimentos, teorias, e as relações entre eles; como criam
novas teorias ou procedimentos experimentais.
Estuda como os cientistas se envolveram, ao longo do tempo, nas várias atividades
citadas acima; como ocorreram as interações sociais entre cientistas e entre cientistas e
HISTÓRIA a sociedade e como os estilos de raciocínio científico se deram e se modificaram
DA CIÊNCIA diante dos acontecimentos e dos desafios; como determinadas realizações científicas
vieram a ser aceitas por cientistas individuais e pela comunidade científica como um
todo.
FONTE: Elaboração própria a partir de IOWA STATE UNIVERSITY, 1994.

O conceito de “Filosofia da Ciência” e a forma como ela se difere das disciplinas


mencionadas são, ambos, temas controversos. Apesar disso, é possível salientar, em linhas
gerais21, que:
I. A Filosofia da Ciência não é essencialmente um estudo empírico da ciência,
apesar de estudos empíricos serem sem dúvida relevantes para o filósofo da ciência22 (um
19
IOWA STATE UNIVERSITY, 1994 (Notas divulgadas pela Universidade do Estado de Iowa a respeito da
primeira conferência do curso “Introduction to the Philosophy of Science”, ministrado por Lyle Zynda em
1994 da Universidade de Princeton; integram o material didático do curso “Philosophy of Science”,
promovido pela Saylor Academy).
20
IOWA STATE UNIVERSITY, 1994.
21
IOWA STATE UNIVERSITY, 1994.
25

conhecimento básico sobre a dimensão empírica da ciência é necessário para se falar


filosoficamente sobre a ciência de maneira crível ou inteligível).
II. A filosofia volta-se principalmente para a chamada elucidação ou
“esclarecimento conceitual”, um tipo de pesquisa crítica e analítica sobre a ciência, que se
volta para questões como “O que é metodologia científica?”, “Como a metodologia científica
difere dos procedimentos que usamos para adquirir conhecimento no dia a dia?”, dentre
outras.
III. A Filosofia da Ciência é normativa no sentido de indagar se e como os
métodos que os cientistas usam e as conclusões que alcançam a partir deles são adequados ou
justificáveis. A filosofia, desde Platão, preocupa-se em definir a essência de uma determinada
coisa ou o seu significado. A Filosofia da Ciência volta-se, fundamentalmente, para a tarefa
de definir o que é ciência, e de compreender o que caracteriza a prática científica. Isso faz
com que o filósofo da ciência procure compreender a prática da ciência de modo a justificá-la,
abrindo espaço para correções em relação àquilo que não seja capaz de justificação
(conquanto correções sejam raras).

Quadro 2 - Características atribuídas à Filosofia da Ciência.

CARACTERÍSTICAS ATRIBUÍDAS À FILOSOFIA DA CIÊNCIA

Embora leve em conta a dimensão empírica da ciência, é uma subdisciplina analítica, e não empírica.

Tem como enfoque o esclarecimento conceitual, o que envolve perguntas como: “O que é Ciência?”, “O
que é metodologia científica?”, “Como a ciência se diferencia do senso comum?” etc.

É normativa: questiona se e como os métodos e resultados científicos são adequados e justificáveis.

FONTE: Elaboração própria a partir de IOWA STATE UNIVERSITY, 1994.

É importante que seja corretamente entendido o papel legítimo da Filosofia da


Ciência em relação à prática científica: ao mesmo tempo em que a Filosofia da Ciência cuida
de ser uma descrição da prática científica, ela não é uma descrição neutra, porque contém
tanto uma dimensão conceitual descritiva quanto uma dimensão conceitual normativa. Não é
um campo do conhecimento apologético, mas descritivo e também, quando necessário,
corretivo. Busca compreender a prática científica, torná-la inteligível, a partir de uma
conceituação filosófica que envolve descrição e abstração. A ciência é caracterizada tanto a
partir dos seus predicados mais práticos quanto dos valores que conformam sua identidade e a

22
Um bom exemplo disso é o trabalho de Brewer e Lambert, mencionado no capítulo 3.
26

do labor científico. Por isso, quando as notas divulgadas pela Universidade do Estado de Iowa
(Iowa State University), que serviram de base para a minha exposição até o momento, dizem
que a Filosofia da Ciência busca “compreender a prática da ciência de modo a justificá-la”,
deve-se entender que a justificação não é uma certeza (como no caso da apologia), mas uma
possibilidade (daí seu caráter normativo). A tarefa da Filosofia da Ciência é descritivo-
conceitual e normativo-conceitual.

2.2. A FILOSOFIA É INÚTIL? A “ESPADA FLAMEJANTE DE NEWTON” E AS CRÍTICAS DE NÖE


A HALKING E MLODINOW

2.2.1. “A Espada Flamejante de Newton”, segundo Mike Alder

Mike Alder é um acadêmico com formação em Física, Matemática Pura e


Engenharia, que trabalha como matemático na Universidade da Austrália Ocidental
(University of Western Australia).
No texto “Newton’s Flaming Laser Sword”, Alder parte do pressuposto de que a
maior parte dos cientistas e matemáticos não tem a filosofia em boa conta e busca explicar o
que os leva a isso.
O clássico paradoxo da força irresistível consiste na seguinte formulação: “O que
aconteceria se uma força irresistível atuasse num objeto amovível?”. Para Alder, o cientista
responde ao paradoxo da seguinte forma: (i) a linguagem é maior que o universo no sentido
de permitir que se fale de coisas que não podem ser encontráveis no mundo23; (ii) a forma de
resolver o paradoxo é testar as suas premissas, e o resultado revelaria se o objeto imovível era
de fato movível, ou se a força irresistível era, ou não, irresistível.24
Em outras palavras: à parte do jogo da linguagem, há uma falha nas próprias
premissas do paradoxo.
Segundo Alder, a percepção do cientista é a de que “uma análise filosófica é um
jogo estéril de palavras jogado num estado de desordem mental”:

Se você perguntar a um cientista se ele tem livre arbítrio ou se somente pensa que
tem, ele perguntará de volta: “Que medições ou observações, na sua opinião,
resolveriam a questão?”. Se a sua resposta for: “Pensar profundamente sobre ela”,
ele irá sorrir, com pena, e continuar seu caminho. Ele não estará disposto a
acompanhá-lo nisso que ele percebe como sendo um jogo um tanto quanto tolo. 25

23
Alder está correto, e a poesia de Manoel de Barros, com constante humanização fantástica do mundo natural,
parecem ser excelente fonte de exemplos disso.
24
ALDER, 2004.
25
“When you ask of a scientist if we have free will, or only think we have, he would ask in turn: “What
measurements or observations would, in your view, settle the matter?” If your reply is “Thinking deeply about
27

Para exemplificar novamente o conflito entre ciência e filosofia, Alder menciona


um diálogo que travou certa vez com um filósofo a respeito de suas investigações para o
desenvolvimento de redes neurais artificiais. Para o filósofo, seres humanos e máquinas se
diferenciam fundamentalmente porque somente os primeiros podem cometer erros, o que faria
com que a pesquisa de Alder fosse uma perda de tempo. Alder respondeu dizendo que seus
programas, suas redes neurais, foram programados e treinados para reconhecer determinados
dígitos, e, ainda assim, por vezes cometiam erros, ao que o filósofo teria respondido: “Ah,
mas não são erros reais, porque decorrem do que a máquina foi programada para fazer”.26
O fato da mesma posição do interlocutor de Alder ter sido também adotada por
John Searle27 em nada ajuda, afinal, nullius in verba28; como Alder esclarece, trata-se de um
posicionamento incorreto, fundamentalmente, porque cria uma distinção arbitrária entre
“erros reais” (humanos) e “erros falsos” ou “simulados” (máquinas) que contraria as razões
que sustentam que o cérebro humano, com sua programação (biológica, genética) e posterior
treinamento / aprendizado, comete erros da mesma forma que aqueles cometidos por redes
neurais artificiais. A racionalização sobre predicados do mundo a partir da linguagem usada
para descrevê-lo não é (por si só) um modo confiável de descobrir como o mundo de fato
funciona29; daí a importância da ciência.30
Alder associa à filosofia clássica, particularmente ao pensamento de Platão, a
ideia de que é possível alcançar verdades confiáveis exclusivamente por meio da razão.31 Por
um lado, Alder reconhece que talvez o platonismo fosse aceitável no seu tempo, admitindo,
ademais, que dificilmente alguém não se impressiona com o que pode ser feito pela via do
pensamento após ler “Elementos”, de Euclides, no qual o matemático grego deduz
proposições matemáticas de um número muito pequeno de axiomas. Porém, os axiomas da
geometria euclidiana não confirmavam a noção filosófica de axioma, i.e., não eram verdades

it”, he will smile pityingly and pass you by. He would be unwilling to join you in playing what he sees as a
rather silly game.” ALDER, 2004.
26
ALDER, 2004.
27
Alder menciona de forma genérica o argumento da sala chinesa de Searle, sem indicar a fonte. Em
levantamento próprio, apurei que o argumento está presente em: SEARLE, 1999.
28
Sobre o mesmo tema, cf. o tópico 8.3.1 da presente tese.
29
Alder acrescenta que “métodos filosóficos” para se alcançar a verdade estão obsoletos há pelo menos três
séculos. Cf. ALDER, 2004.
30
“… reasoning about properties of the world from the language used to describe it […] is not a reliable way of
finding out how the world actually behaves. Which is why we have Science.” ALDER, 2004.
31
Alder menciona uma carta de Platão a Arquimedes na qual o filósofo teria advertido o destinatário de que ele
deveria realizar suas reflexões com sua própria mente ao invés de mexer com cordas e alavancas reais, e
conclui: “Arquimedes, que era um verdadeiro matemático e umas vinte vezes mais inteligente que Platão,
estava provavelmente muito ocupado para responder a tamanha tolice.” (“Archimedes, who was a real
mathematician and about twenty times as smart as Plato, was probably much too busy to answer such
silliness.”). Cf. ALDER, 2004.
28

autoevidentes alcançadas (num universo ou mundo de ideias) pelo pensamento puro; o ponto
de partida da geometria plana, a definição de pontos e retas, decorria de uma abstração a partir
do hábito egípcio de usar pinos unidos por cordas bem apertadas ao longo do rio Nilo como
forma de demarcação de área, ou seja, os axiomas guardam uma conexão íntima com o
mundo real. Além disso, Alder apresenta duas razões principais que levam cientistas e
matemáticos a rejeitar o platonismo. A primeira diz respeito à própria geometria euclidiana e
aos trabalhos subsequentes de Bolyai, Lobachevsky e Riemann a respeito do axioma das
paralelas, que contribuíram para o entendimento de que axiomas são apenas postulados que
podem ou não ser interpretados como proposições verdadeiras a respeito do mundo:

A matemática não fornece verdades, mas consequências. O axioma das paralelas é


apenas um postulado de que o espaço no qual se está trabalhando é plano. Ele não
diz nada sobre se de fato o espaço em que vivemos é plano – talvez seja, talvez não.
Precisaríamos de descobrir isso por meio da observação [...]. 32

Figura 1 - Cômica montagem de Newton com uma espada laser

Cômica montagem de Newton com uma espada laser (similar ao sabre de luz da conhecida saga “Guerra nas
Estrelas”), concebida a partir do texto de Alder. FONTE: Blog “Bainite”, do engenheiro Mathew Peet. Cf.
PEET, 2015.

32
“Mathematics doesn’t give truths, it gives consequences. The axiom of parallels is merely the postulate that
the space in which we are working is flat. This tells us nothing about whether the space we live in really is flat
– maybe it is and maybe it isn’t. We would need to find out by observation.” Cf. ALDER, 2004.
29

A segunda razão diz respeito à revolução causada na filosofia por Isaac Newton,
cujo método era claro: fazer apenas proposições que pudessem ser testadas, seja diretamente,
seja pela análise e testagem de suas consequências lógicas. Para tanto, era necessário
estabelecer as proposições com um alto grau de clareza, preferencialmente na linguagem da
álgebra e, em segundo plano, do latim (segunda opção atualmente descartada, como ressalva
Alder).33 Daí a famosa expressão newtoniana Hypotheses non fingo que, pelo seu contexto,
segundo Alder, seria melhor traduzida como “Não me envolvo com especulação não
testável.”34
O princípio metodológico newtoniano, condensado na ideia de que não vale a
pena debater aquilo que não possa ser resolvido por experimentação, foi caricaturalmente
denominado por Alder de “a Espada Laser Flamejante de Newton”, em alusão à conhecida
“Navalha de Occam”.35 Segundo o mesmo Alder, os filósofos que seguiram Newton passaram
a ser conhecidos como “cientistas”, e sua prática foi eventualmente codificada por Karl
Popper e seu critério do falseabilismo. Os cientistas, para ele, são em sua maioria positivistas
popperianos36 por adotarem o entendimento de que sua prática consiste em observações
finitas, hipóteses gerais universais a partir das quais podem ser feitas deduções, e testagem
posterior das deduções (já que a lógica não lhes garante correção).37
Ao exigir que não se deve debater proposições a não ser que seja possível
demonstrar, pela lógica e/ou pela matemática, suas consequências observáveis, a espada teria
a vantagem de deixar de lado uma série de tolices, mas a desvantagem de igualmente excluir,
33
ALDER, 2004. Ao pensarmos sobre clareza e objetividade, a opção newtoniana pela linguagem pura da
matemática faz sentido. A menção ao latim também não deixa de ser evidente, já que, no tempo de Newton, o
latim era o idioma “universal” das letras e da filosofia no Velho Continente. Especulo, ademais, se os
pensadores dos séculos anteriores já não tinham a intuição de que poderiam ser mais racionais no uso de uma
língua estrangeira – especulação que se arvora no caráter filosófico do meu trabalho. É que não posso deixar
de relacionar o uso do latim pela “filosofia natural”, ao lado da matemática, com um recentíssimo estudo de
psicologia que apontou resultados instigantes. Conduzido por Boaz Keysar, Sayuri L. Hayakawa e Sun Gyu
An, o estudo envolveu 368 estudantes, submetidos a perguntas que envolviam tomada de decisão
especialmente preparadas para testar a capacidade deles de se desvencilhar de vieses cognitivos típicos, feitas
no idioma nativo e num segundo idioma do conhecimento dos sujeitos testados (que eram de três grupos:
falantes nativos de inglês que falavam japonês como segundo idioma; falantes nativos de coreano que falavam
inglês como segundo idioma e falantes nativos de inglês que falavam francês como segundo idioma). Os
resultados indicam que, em todos os três grupos, os estudantes tendem a tomar decisões mais racionais (menos
enviesadas) quando utilizam o segundo idioma. Os pesquisadores propõem que isso se dá porque o uso de um
idioma estrangeiro oportuna ao falante um distanciamento cognitivo e emocional maior em comparação com o
idioma nativo. Cf. KEYSAR; HAYAKAWA; AN, 2012, p. 661-668. Naturalmente, o estudo tem os seus
limites de objeto e de amostragem, daí também o caráter assumidamente especulativo da minha digressão.
34
ALDER, 2004.
35
Segundo o mesmo Alder (2004), a Espada de Newton é “muito mais afiada e perigosa” que a Navalha de
Occam.
36
Esta é uma afirmação exagerada para a qual Alder não fornece razões suficientes de suporte. Para uma crítica a
Alder, ver o tópico 2.2.2 da tese, a seguir.
37
ALDER, 2004.
30

por sua força, muitos outros elementos importantes, incluindo temas de grande valor relativos
a direitos38, política ou religião. Ao reconhecer isso, Alder, com humor, vai além para dizer
que o newtoniano não é lá um sujeito muito interessante para se convidar a uma festa, pois só
se dispõe a conversar sobre aquilo que conhece (e pode conhecer) a fundo. Admite, também,
que o mesmo princípio pode conduzir cientistas e matemáticos a adotarem abordagens
monótonas e pouco reflexivas na docência e em textos acadêmicos. Ao mesmo tempo, e por
outro lado, denuncia a falta de rigor de filósofos “pré-newtonianos”, como John Searle, e
afirma que a “espada”, ao ser utilizada adequadamente, transforma a filosofia em algo capaz
de resolver problemas de forma bem distinta de quem procura platonicamente deduzir
princípios por pensamento puro para defender, e.g., que a eutanásia ou o aborto são sempre
errados. Em reforço à polêmica com a filosofia pré-newtoniana, Alder conclui seu texto da
seguinte forma:

Parece-me justo usar a espada flamejante contra o filósofo que se mete em ciência,
mesmo sem compreendê-la. De modo algum me oponho quando ele faz perguntas e
está disposto a aprender. Quando, porém, ele está apenas tentando atraí-lo para um
jogo de palavras que não tem nenhuma perspectiva de nos levar a lugar algum, você
passa a ter o dever de decidir se gosta de jogar esse tipo de jogo ou não.
Matemáticos e cientistas sentem que encontraram um jogo bem mais difícil, mas
muito mais satisfatório. A Espada Laser Flamejante de Newton é uma das regras
desse jogo.39

38
“Um debate sobre, e.g., se gatos ou pedras possuem direitos, assim como pessoas, não seria iniciado antes que
alguns esclarecimentos fossem obtidos. A primeira pergunta que o filósofo newtoniano faria é: Que conjunto
de observações você considera apto a estabelecer a verdade da alegação? Se a resposta consistir n’algum
conjunto finito de observações que de fato possam ser realizadas e produzir os resultados exigidos, o próximo
passo seria o de exigir que sejam apresentadas as conexões lógicas entre as observações e a alegação. No caso
do debate sobre direitos de gatos ou pedras, ninguém teria problema algum de questionar que tipo de dados
observáveis poderiam confirmar a alegação, sob as bases nada desarrazoadas de que argumentos sobre o
problema não poderiam resultar numa resposta definitiva porque nós sequer definimos o termo “direito” de
forma suficientemente precisa. Qualquer um que pense que sabe exatamente o que é um “direito” está
convidado a defini-lo em álgebra. Até que faça isso, os filósofos newtonianos considerarão o problema inapto
para ser analisado seriamente.” (“An argument about, for example, whether cats or rocks have rights, the same
as people do, would not be entered into until some clarification has been obtained. The first question the
Newtonian philosopher asks is: What set of observations do you consider would establish the truth of your
claim? If the answer consists of some definite set of observations and these are in fact made and produce the
results required, the next step is to demand that the logical connections between the observations and the claim
be provided. In the case of debate about the rights of cats or rocks, nobody would have troubled to ask what
observable data would have confirmed the claim, on the not unreasonable grounds that arguments about it
cannot give a definitive answer because we have not yet defined the term ‘right’ with sufficient precision.
Anyone who thinks he knows exactly what a ‘right’ is, is invited to define it in algebra. Until someone does,
Newtonian philosophers have declared it unfit for serious consideration.”). ALDER, 2004.
39
“It seems to me fair game to use the flaming sword on the philosopher who meddles in science which he does
not understand. When he asks questions and is willing to learn, I have no quarrel with him. When he is merely
trying to lure you into a word game which has no prospect of leading anywhere, you really have to decide if
you like playing that sort of game. Mathematicians and scientists feel that they have found a more difficult but
much more satisfying game to play. Newton’s Flaming Laser Sword is one of the rules of that game.”. Cf.
ALDER, 2004.
31

2.2.2. Crítica a Alder: ao invés de confirmar a inutilidade, só atesta a importância da


filosofia e da filosofia da ciência

Embora Alder tenha razão em criticar a (falta de) pertinência de abordagens


filosóficas idealistas em relação ao mundo físico40, não é correto supor que o empreendimento
filosófico se resuma a isso. Nem tudo se resume ao platonismo nos termos em que Alder o
caracteriza; nem toda filosofia é “um jogo estéril de palavras jogado num estado de desordem
mental”, para lembrar algumas de suas palavras mais duras.
Mas houve e possivelmente sempre haverá quem questione a relevância da
filosofia de alguma forma. “A Filosofia da Ciência é tão útil para os cientistas quanto a
ornitologia é para os pássaros.”41 Relativamente famosa entre os estudiosos da Filosofia da
Ciência, a frase é atribuída a Richard Philips Feynman42 (1918-1988), físico norte-americano,
um dos pioneiros da eletrodinâmica quântica, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1965. A
analogia com a ornitologia sugere que a Filosofia da Ciência se dedique ao estudo dos
cientistas, ao estudo de sua prática. A analogia permite também supor que a Filosofia da
Ciência em nada influencia o fazer dos cientistas (do mesmo modo que a ornitologia em nada
influencia a existência das aves). Por fim, pode-se depreender da frase que, assim como os
pássaros ignoram a ornitologia (por incapacidade natural), os cientistas também ignoram a
Filosofia da Ciência (de maneira irrefletida?43).
As duas razões principais que Alder dá para justificar a rejeição da filosofia por
parte dos cientistas e matemáticos são, elas mesmas, filosóficas. O libelo de Alder contra a
filosofia idealista como forma de explicar a realidade é, ele mesmo, um trabalho filosófico no
campo da epistemologia. Ao tratar da primeira razão, o que Alder faz é argumentar a partir de
bases históricas que, conceitualmente, axioma não é algo idealmente concebido, mas um
ponto de partida estabelecido em conexão com a realidade. Isso é filosofar. Ao cuidar da
segunda razão, o que Alder faz é apontar o princípio metodológico fundamental da ciência, o
que a individualiza, o que também é, por excelência, um exercício de filosofia – não do
mesmo tipo que erroneamente o interlocutor de Alder realizou no debate sobre inteligência
artificial, mas, ainda assim, evidentemente, filosofia: abstração conceitual a respeito do que
caracteriza a ciência e do que lhe confere dignidade.
40
Pensar sobre o mundo a partir da linguagem usada para descrevê-lo não é, por si só, um modo confiável de
descobrir como o mundo de fato funciona. Tampouco se pode esperar muito do filósofo que se mete em
ciência, mesmo sem compreendê-la.
41
Em inglês: “Philosophy of science is about as useful to scientists as ornithology is to birds.”
42
HOLDEN; SIMANEK, 2002, p.215.
43
Sugestivamente, uma alternativa menos conhecida e menos utilizada para a expressão idiomática comum
“falar para as paredes” é “falar para os pássaros”.
32

Figura 2 - Anedota sobre ciência e filosofia44.

FONTE: EXISTENTIAL COMICS, 2015.

O fato do próprio Alder ter associado a “Espada Laser de Newton” à concepção


popperiana de ciência deveria ter servido para chamar a atenção do autor para a necessidade
de não reduzir o campo filosófico àquilo que nele é de fato insustentável. Se não valesse a
pena debater aquilo que não pode ser resolvido por experimentação, Alder não poderia sequer
escrever o texto que escreveu, cujo objetivo é, fundamentalmente, debater a relação entre
ciência e filosofia. Isso faz com que a filosofia seja útil para a ciência e, logo, para os
cientistas; ao menos desde que, para eles, seja importante compreender a prática científica, o
que a caracteriza e o que a fundamenta. Ademais, cientistas nunca ignoram a Filosofia da
Ciência (como acontece com os pássaros em relação à ornitologia), pois, conscientemente ou
não, de uma maneira ou de outra, sempre estão vivenciando-a ao concretizarem seu labor,
cujos fundamentos últimos são sempre elementos de natureza epistemológica. “A Espada
Laser Flamejante de Newton é uma das regras do jogo científico”, diz Alder. Poderíamos
dizer, em contrapartida, que ela é também um dos elementos que constitui uma das formas de
compreender a ciência filosoficamente.
O texto de Alder é, ele mesmo, um exercício de filosofia da ciência, e um
exercício bastante limitado, por pelo menos quatro razões:
I. Não apresenta claramente todas as premissas teóricas por trás da afirmação da
“espada flamejante de Newton”. Isso fica evidente se forem postas ao texto algumas das
44
O diálogo retratado na imagem:
“- Por que a filosofia importa?
- Não sei, por que a ciência importa?
- Ah, porque a ci...
- Rá, isso é filosofar!”
33

perguntas básicas que as diferentes concepções filosóficas sobre a ciência procuram


responder, tais como: Qual é a base do conhecimento científico: fatos, teorias, uma
combinação entre os dois, algum outro elemento? Qual é o papel do sujeito, e quão subjetivo
ou objetivo é e pode ser o conhecimento científico? Do texto é possível, no máximo,
depreender algumas respostas incompletas aos questionamentos apontados. Alder faz,
portanto, uma Filosofia da Ciência incompleta.45
II. O texto perde em clareza ao atribuir a toda a prática científica o caráter
popperiano e, noutro momento, dizer que a maioria dos cientistas é popperiana. Afinal,
maioria ou totalidade?
III. O texto faz afirmações sobre aspectos fáticos (como a de que a maioria dos
cientistas é popperiana, por exemplo) sem apresentar o suporte mínimo que se espera para que
a assertiva possa ser crível ou, pelo menos, plausível.
IV. A concepção popperiana de ciência é assumida implicitamente pelo texto de
Alder como a correta, quando na verdade é apenas uma entre as candidatas de explicação do
conceito de ciência e, como será visto melhor no capítulo 5, uma concepção acometida de
grandes dificuldades.
O debate sobre o conceito de ciência e sobre quais procedimentos e atributos a
caracterizam nunca aponta para respostas fáceis, nem óbvias. Isso fica ainda mais manifesto
ao examinarmos a crítica que Alva Noë, professor de Filosofia da Universidade da Califórnia
– Berkeley (University of California), faz aos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.

2.2.3. As críticas de Alva Noë a Stephen Hawking e Leonard Mlodinow

Na primeira página do livro “The Grand Design”, Stephen Hawking e Leonard


Mlodinow anunciam que a filosofia já está morta. Também alegam, na mesma obra, que “a
visão ingênua da realidade” é incompatível com a física moderna, com o que Alva Noë
concorda a partir de um exemplo: uma mesa vista por alguém aparenta ser marrom, retangular
e sólida, quando, na verdade, é “uma nuvem incolor de partículas se movendo no espaço
vazio”. Noë acrescenta que o mesmo vale para nós mesmos: somos “não coisas num mundo
desprovido de quaisquer das propriedades que ‘nós’ parecemos perceber”. Para Noë, porém, é
precisamente isso que faz com que o anúncio de Hawking e Mlodinow esteja incorreto, pois o
problema de “como reconciliar o que a física nos ensina sobre como são as coisas com a

45
O leitor poderá atestar isso de forma mais abrangente nos capítulos 4 a 8, onde diferentes concepções
filosóficas sobre a ciência são discutidas com maior detalhamento.
34

concepção comum que temos de nós mesmos e do mundo em que vivemos” não é um
problema da física, mas um problema “sobre a” física, o que reclama uma abordagem
filosófica. Noë argumenta ainda que problemas filosóficos surgem diante da incerteza:
“Problemas filosóficos surgem quando não temos certeza de como prosseguir, ou quando não
estamos seguros sobre o que estamos acostumados a fazer; e surgem em qualquer domínio
(neurociência, biologia, religião, política, moralidade, e, claro, física)”.46
Segundo Noë, o que Hawking e Mlodinow oferecem como resposta ao problema
da reconciliação entre física e senso comum é o “realismo dependente de modelos” (model-
dependent realism), segundo o qual o que se deve fazer é indagar não se um modelo é real,
mas se está de acordo com a observação, de tal modo que, se dois modelos estiverem
condizentes com a observação, não se pode dizer que um é mais real que o outro; para os
mesmos físicos, o realismo dependente de modelos aplica-se igualmente a modelos científicos
e aos modelos mentais conscientes e subconscientes que todos criamos para interpretar e
compreender o mundo cotidiano. Na contraposição de Noë a Hawking e Mlodinow, há três
momentos principais: (i) a própria “observação” é um tipo de juízo ou julgamento que surge
em resposta ao nosso próprio contexto teórico (theoretical framework), i.e., quais dúvidas nos
interessam, quais as nossas expectativas etc.47; (ii) na medida em que consideram que o senso
comum é um tipo de construção teórica que cada um de nós desenvolve a partir da
estimulação sensorial que nos bombardeia, Hawking e Mlodinow são legatários filosóficos de
Carnap e de Hume, apesar de não haver, no texto, sinais de que eles próprios tenham
consciência a respeito da história das ideias que levam adiante, ou seja, o realismo dependente
de modelos não é uma solução da física a um problema filosófico, mas “uma repetição de
ideias filosóficas”; (iii) nestes termos, conquanto problemas difíceis por vezes admitam
soluções simples, “nenhum serviço é prestado quando pessoas inteligentes fingem que
problemas difíceis são simples”.48
É plenamente possível e, ademais, correto, concordar com Noë em relação à
existência e correção da distinção entre problemas da física em particular ou da ciência em
geral, de um lado, e problemas sobre a física ou problemas sobre a ciência, de outro. Noë
também tem razão ao perceber que o realismo dependente de modelos repete ideias filosóficas
anteriores, e ao defender que questões epistemológicas são difíceis, e que, portanto, soluções
fáceis terminam por prestar um desserviço aos desafios epistemológicos.

46
NOË, 2011.
47
Detenho-me neste ponto em pormenor no capítulo 4, ao discutir os limites do indutivismo.
48
NOË, 2011.
35

Todavia, o problema específico que Noë coloca sobre como reconciliar, de um


lado, o que a física ensina sobre como as coisas são e, de outro, o que percebemos diretamente
pelos nossos sentidos e a concepção comum que temos de nós mesmos e do mundo à nossa
volta, na verdade parece ser um falso problema do ponto de vista filosófico, ou um problema
superado. Partindo do pressuposto de que a ciência dá explicações mais convincentes / mais
justificadas a respeito da realidade, um conflito entre ela e o senso comum sobre algo
pertencente ao seu domínio se resolve com prejuízo desse último. Além disso, a superação do
empirismo, na epistemologia, deu-se no sentido de entender que o conhecimento não decorre
totalmente dos sentidos, não decorre da observação, mas de teorias testadas por ela.

2.3. FILOSOFIA DA CIÊNCIA DO DIREITO

Há uma forma de saber jurídico denominada Ciência do Direito, e ele se coloca


como uma das Ciências do Direito. Assim como “ciência”, o conceito de “Ciência do Direito”
é permeado de muitas controvérsias, a começar pelo seu objeto: o Direito. Há todo um ramo
da filosofia analítica preocupado em defini-lo, e o que não faltam são divergências: o Direito
é definido somente a partir de fatos sociais? O conceito de Direito inclui elementos morais?
Se sim, de forma necessária ou contingente? O Direito injusto pode ser tido como Direito
mesmo assim? Qual é o papel da sanção na definição do Direito? Há uma relação conceitual
entre Direito e poder? O salão da teoria do direito é animado por conversas permanentes em
torno de perguntas como essas, e muitas outras mais. Além de refletir as dúvidas sobre o
conceito de Direito, a Ciência do Direito também é permeada de questões conceituais
próprias. A Ciência do Direito é descritiva ou criativa? Qual é o papel dos valores no trabalho
do jurista dogmático? O jurista deve buscar a justiça? A Ciência do Direito é ou deve ser uma
prática interpretativa? O dogma da legalidade é absoluto ou admite exceções? A Ciência do
Direito pode valer-se de critérios não jurídicos para resolver problemas? A Ciência do Direito
é um conhecimento objetivo ou subjetivo? E assim por diante.
A Filosofia da Ciência do Direito pode ser considerada como um exercício de
Filosofia da Ciência voltado para a Ciência do Direito. A Filosofia da Ciência busca
analiticamente esclarecer o que é ciência e como ela pode ser demarcada (e.g., perante outras
formas de conhecimento). Ao empreender a sua tarefa conceitual, ela leva em conta a
dimensão empírica da ciência. Por isso, pode-se dizer que a Filosofia da Ciência possui um
caráter descritivo: ela pretende ser uma explicação do que é ciência que faça sentido em
relação à ciência praticada ao longo do tempo. Mas ela não é só descritiva. Há também um
36

elemento normativo, pois ao buscar a compreensão daquilo que caracteriza a prática


científica, o filósofo questiona se e como os métodos e resultados científicos são adequados e
justificáveis. Além disso, ao definir o que é ciência, ele também estabelece um parâmetro
(normativo) ao qual o conhecimento deve aspirar para ser considerado como científico.
Através das mesmas ferramentas básicas empregadas pelos filósofos da ciência, o
filósofo do Direito pode buscar a resposta para questões semelhantes relativas a essa forma
específica de conhecimento denominada Ciência do Direito. A Filosofia da Ciência que aqui
empreendo também tem objetivos descritivo-conceituais e normativos: pretende compreender
o que é a Ciência do Direito, e se e como ela pode ser considerada uma disciplina científica.
Este exercício de Filosofia da Ciência do Direito beneficia-se da Filosofia da Ciência geral de
diferentes maneiras: nas ferramentas filosóficas de análise conceitual, compreensão e
comparação de ideias e textos; na reflexão sobre como as diferentes concepções gerais de
ciência propostas no seio da Filosofia da Ciência se aplicam ou não à Ciência do Direito.
37

3 FILOSOFIA DA CIÊNCIA DO DIREITO


3.1. INTRODUÇÃO

No ensaio “Las calificaciones del saber jurídico y la pretensión de racionalidad


del derecho” publicado no excelente periódico DOXA em 2009, Vega tratou de analisar
filosoficamente a racionalidade jurídica, defendendo, em suma, que nem o mais frouxo
conceito de ciência dá à dogmática jurídica o caráter de racionalidade científica, mas que,
ainda assim, a racionalidade jurídica conecta-se com a racionalidade científica em virtude de
uma pretensão de racionalidade do Direito.49
Minha tese dialoga com o trabalho de Vega e com o trabalho de Machado
Segundo, que, contrariamente a Vega, concluiu pela cientificidade da dogmática jurídica a
partir das recomendações de mudança terminológica e adoção de um marco teórico
falibilista.50 Sem antecipar o conteúdo das conclusões, divirjo de Vega em alguns pontos
importantes, mas considero adequado o modo como compreende a análise da racionalidade
jurídica e seus pressupostos.
Vega corretamente situa a análise da racionalidade jurídica como um tema central
da Filosofia do Direito, intimamente ligado ao problema da racionalidade científica do Direito
e que, enquanto problema epistemológico, condiciona a pretensão de correção ou justiça do
Direito (i.e., sua justificação num sentido moral).51 Dentro do tema, distingue entre o estatuto
interno e o estatuto externo da racionalidade jurídica: o primeiro refere-se ao tipo de
racionalidade que estrutura internamente o Direito enquanto instituição; o segundo se refere
às relações entre a racionalidade jurídica e as outras formas de racionalidade.52 É aí, no
estatuto externo, que reside a questão de saber se o Direito se qualifica ou não,
comparativamente, como ciência.
Qualquer análise do problema do estatuto interno e externo da racionalidade do
Direito, para Vega, deve partir de cinco premissas, descritas a seguir53:
I. O problema da racionalidade jurídica tem tanto caráter epistemológico (análise
do conhecimento do e sobre o Direito) quanto ontológico (análise do tipo de realidade
envolvida no Direito), porque teses epistemológicas impactam imediatamente teses
ontológicas, e são condicionadas por elas.

49
VEGA, 2009, p.375-414.
50
MACHADO SEGUNDO, 2008a; 2008b; 2008c; 2014.
51
VEGA, 2009, p.376.
52
VEGA, 2009, p.376.
53
VEGA, 2009, p.376-379.
38

II. A análise filosófica da racionalidade jurídica tem cunho de crítica das


concepções que conformam o discurso jurídico (autoconcepções dos juristas), como
considerações de “segundo nível”, especialmente porque os juristas, de modo geral,
costumam enxergar o saber jurídico como científico sem maiores problematizações (chamam
o saber jurídico geral e suas especialidades de “ciências jurídicas”, entendem as pesquisas
jurídicas como investigações de cunho “científico” etc.).
III. Como qualquer outra crítica, a crítica filosófica da racionalidade jurídica parte
de um critério, “um modelo epistemológico ou teoria geral da ciência que permita determinar
qual é o lugar que ocupa o Direito”. Afinal, qualquer resposta à questão do caráter científico e
racional do Direito envolve uma afirmação de uma ideia geral de ciência e racionalidade.
Mais que um problema do Direito, o problema da racionalidade jurídica é um problema da
Filosofia da Ciência que impõe uma tarefa comparativa, classificatória, segundo esse modelo
geral; uma questão que não é de “tudo ou nada”, de dizer se o Direito é ou não racional, mas
de dizer “como” ele é em comparação com outras disciplinas, ciências, formas de
racionalidade.
IV. Diferentemente do que defendem o relativismo e o ceticismo epistemológicos,
a questão da natureza racional do Direito não é um pseudoproblema em face dos usos
ideológicos dos rótulos “científico” ou “racional” ou do caráter convencional desses termos.
Na verdade, esse mesmo uso demonstra a importância filosófica da questão, cujo
enfrentamento envolve problematizar os usos ideológicos desses rótulos; e a questão não é
matéria de simples “convenção ou consenso”, mas depende de uma abordagem filosófica
sobre o próprio Direito e sua racionalidade. Ademais, o ceticismo sobre a cientificidade do
Direito, em particular, corre o risco de ser um ceticismo sobre o próprio Direito, sobre sua
racionalidade interna e pretensão de correção, o que é pragmaticamente autocontraditório
(impugnar a ideia de verdade no Direito, e.g., impede ao cético diferenciar o processo judicial
e suas garantias do juízo do ordálio).
V. Questionar a racionalidade e a cientificidade do Direito não significa condenar
sua dignidade ou utilidade e importância social nem desautorizar o valor e sistematicidade do
saber jurídico (isso seria uma falácia, uma petitio principi54), mas apenas descrever e
classificar esse saber perante os demais, contribuindo para esclarecer até onde a
autoconcepção do Direito como atividade científica pode chegar.

54
A petição de princípio caracteriza-se como argumento no qual, para se acreditar na(s) premissa(s), é preciso já
ter alguma boa razão para crer na conclusão que independe dessa(s) mesma(s) premissa(s) (SINNOTT-
ARMSTRONG; NETA, 2015). É um tipo de argumento circular.
39

No quadro abaixo, sintetizei as premissas mencionadas:

Quadro 3 - Pressupostos da crítica filosófica da racionalidade jurídica


PRESSUPOSTOS DA CRÍTICA FILOSÓFICA DA RACIONALIDADE JURÍDICA
● O problema da racionalidade jurídica tem caráter epistemológico e ontológico
● A análise filosófica da racionalidade jurídica é crítica de segunda ordem do saber jurídico, em
especial da autoconcepção do Direito como atividade científica
● Por ser crítica, parte de um critério, de uma ideia geral de ciência e racionalidade; envolve tarefa
comparativa, classificatória do saber jurídico diante dos demais
● O problema da racionalidade jurídica não é um pseudoproblema relativo aos usos ideológicos dos
rótulos “científico” ou “racional” ou ao seu alegado caráter convencional, mas reclama uma
abordagem filosófica sobre o Direito
● Questionar a racionalidade jurídica não é desmerecer o Direito, mas examinar até onde a
autoconcepção do Direito como atividade científica pode chegar
FONTE: Elaboração própria a partir de VEGA, 2009, p.376-379.

Nos tópicos a seguir, argumento, em suma: que a dogmática jurídica é um saber que
lida com textos normativos e como resolver problemas sobre o sentido e o alcance das normas
jurídicas relacionadas aos textos, bem como a respeito de sua validade e do que fazer quando
normas entram em conflito; que a concepção que entende a dogmática jurídica como ciência
descritiva das normas em vigor, vistas como dogmas imodificáveis, obrigatórios e
inquestionáveis é errônea por diferentes razões; que imprecisões e incertezas sobre o sentido e
alcance das normas e sobre a solução de conflitos normativos existem, mas não inviabilizam a
distinção entre pesquisa de lege lata e pesquisa de lege ferenda; que a distinção entre zetética
e dogmática é questionável, devendo ser adotada a expressão “Ciência do Direito” como meio
de superar sua dualidade rígida; que não há neutralidade axiológica nos fazeres da Ciência do
Direito; que a Ciência do Direito reflete a pretensão de correção e de racionalidade do Direito.

3.2. UM SABER SOBRE TEXTOS E NORMAS

Qual é o tipo de realidade envolvida no Direito, e como isso se relaciona com o


conhecimento sobre o Direito? Parece haver algo mais ou menos consensual sobre a
dogmática jurídica. Qualquer que seja a sua abrangência para além do direito positivo e
quaisquer que sejam as soluções adotadas para problemas fundamentais como o da relação
entre Direito e Moral, a dogmática jurídica é uma disciplina do conhecimento que lida com a
compreensão do direito positivo, do direito de uma determinada comunidade. Pode envolver a
análise de muitas coisas, mas lida essencialmente com textos normativos (cartas, tratados,
40

constituições, leis, decretos, decisões judiciais e administrativas etc.) e como resolver


problemas e dúvidas sobre o sentido e o alcance das normas jurídicas relacionadas aos textos,
bem como a respeito de sua validade e do que fazer quando normas entram em conflito. É um
conhecimento sobre normas jurídicas, e não sobre aspectos do mundo físico e social (embora
estes sejam relevantes para o conhecimento sobre as normas jurídicas de diferentes maneiras).
Apenas para exemplificar, em seu “Curso de Direito do Trabalho”, Maurício Godinho
Delgado não conceitua dogmática jurídica nem emprega o termo, apesar de dedicar-se
bastante a ela ao longo da obra. Num raro momento em que o termo foi empregado, ao tratar
do princípio da intangibilidade salarial, Maurício Godinho Delgado afirma que boa parte de
seu conteúdo já está normatizada, concretizada em distintas regras legais e, assim, “seu estudo
passa a ser, praticamente, um estudo de dogmática jurídica.”55 Ao cuidar do problema da
autonomia do Direito Financeiro na obra “Direito Tributário Brasileiro, Aliomar Baleeiro
afirmou que seu saber é disciplina dotada de “autonomia dogmática”, com “princípios e
conceitos próprios” e “unidade orgânica de suas normas.”56 A atualizadora de sua obra e
verdadeira coautora, professora Misabel Derzi, também sinaliza, em diferentes momentos,
para o mesmo predicado da dogmática jurídica.57 Tratando do Direito Tributário, Hugo de
Brito Machado destaca que: “Direito Tributário é um conjunto de normas. Ciência do Direito
Tributário é o conhecimento que se tem desse conjunto de normas.” “O tributarista, que tem
ciência do Direito Tributário, conhece o conjunto de normas que disciplinam a atividade de
tributação.” “A Ciência do Direito Tributário bem como a Ciência do Direito Financeiro são
ciências do dever-ser. Suas leis são leis de imputação, sendo enunciadas sempre como dever-
ser.”58 A menção às “leis de imputação” é uma provável referência indireta a Kelsen, jurista
que influenciou Machado e outros tributaristas de sua geração, como Paulo de Barros
Carvalho. Este último afirma que toda ciência pressupõe um corte metodológico, e que o
mesmo sistema jurídico-normativo, a depender do “corte”, da “posição cognoscitiva”, pode
servir como objeto da Sociologia Jurídica, da Ética Jurídica, da História do Direito, da Política
Jurídica e, entre outras, da Ciência do Direito ou Dogmática Jurídica, que investiga “a
natureza do ser jurídico”, “de que maneira se articulam e de que modo funcionam as
prescrições normativas.” A Dogmática, continua Carvalho, ocupa-se de “descrever o direito
positivo tal como ele se apresenta”; “a ordem jurídica posta”, o direito do presente, “o direito

55
DELGADO, 2012, p.202.
56
BALEEIRO; DERZI, p.xxi.
57
BALEEIRO; DERZI, p.37, 40, 50, 55, 119, 181 etc.
58
MACHADO, 2004.
41

positivo considerado hic et nunc”.59 O trecho reflete o intento de Carvalho de adotar a


concepção kelseniana de Ciência do Direito. Contrapondo-se a Carvalho, Ávila afirma que a
dogmática jurídica é um saber voltado ao direito positivo, mas é um saber construtivo, e não
descritivo. Entre eles existe o ponto em comum de que a dogmática lida com o direito
positivo, ainda que haja divergências sobre como a dogmática lida ou deve lidar com o
mesmo. Aos exemplos dados eu poderia acrescentar muitos outros, mas que a dogmática lida
com o direito positivo é quase um truísmo.
Além de lidar com textos normativos, a dogmática jurídica também se relaciona
com o mundo físico e social priorizado pelas abordagens empíricas típicas das ciências
levadas em consideração pela epistemologia tradicional. Isso se dá por meio de duas formas
principais: quando o jurista faz um levantamento dos textos normativos relevantes (que são
dados da realidade empírica); quando o jurista precisa examinar os fatos relevantes (como
aqueles que integram o suporte fático da norma). São, ambos, aspectos importantes do
trabalho jurídico, embora o exame dos fatos relevantes normalmente envolva uma
complexidade bem maior do que a demandada no levantamento dos textos normativos. A
tarefa por excelência da dogmática jurídica, no entanto, é a interpretação de textos normativos
com a correspondente leitura e qualificação jurídica dos fatos envolvidos. O produto do
estudo pode depender de afirmações fáticas, pode incluir premissas fáticas, mas é uma
conclusão normativa que conta com textos normativos entre suas premissas. Neste sentido,
Tércio Sampaio Ferraz Jr., por exemplo, afirma que a dogmática jurídica adota como
vinculantes premissas resultantes de uma decisão, e não premissas assentadas através de
critérios de verdade.60

3.3. DOGMÁTICA JURÍDICA OU CIÊNCIA DO DIREITO?

Antes de prosseguir, é importante fazer um esclarecimento terminológico e


conceitual a respeito de como a expressão “dogmática jurídica” se relaciona com a expressão
“Ciência do Direito”.
Para Kelsen, em síntese, a ciência jurídica se diferencia das ciências sociais
causais por não descrever como se processa a conduta humana determinada por leis causais,

59
CARVALHO, 2012.
60
FERRAZ JR., 2003, p.48. Ferraz Jr. dá como exemplo desse tipo de premissa, no direito contemporâneo, o
princípio da legalidade “inscrito na Constituição, e que obriga o jurista a pensar os problemas
comportamentais com base na lei, conforme à lei, para além da lei, mas nunca contra a lei.” A última parte da
afirmação pode ser criticada diante da possibilidade de interpretação contra legem. Sobre o tema da
argumentação contra legem, ver: BUSTAMANTE, 2005.
42

no domínio da realidade natural, mas como ela se processa determinada por normas
positivas, i.e., postas no espaço e no tempo através de atos humanos. O domínio da primeira,
a esfera da realidade natural, contrapõe-se ao domínio da segunda, a esfera da realidade
social, i.e., a esfera de valores constituídos por normas positivas (o objeto das ciências
normativas não é irreal; “também a ele lhe pertence ou corresponde uma realidade qualquer –
só que, neste caso, uma realidade diferente da natural, a saber, uma realidade social”).61
A ciência jurídica concebida por Kelsen não se confunde com o seu objeto. As
normas jurídicas são mandamentos, prescrições, e não instruções ou ensinamentos. São
também expressas em linguagem, i.e., em palavras e proposições, e por isso são dadas ao
conhecimento, a enunciados do mesmo tipo dos que constatam fatos. Proposições jurídicas
são precisamente os juízos hipotéticos a respeito das normas, que enunciam que, de
conformidade com o sentido de uma ordem jurídica dada ao conhecimento jurídico, sob certas
condições ou pressupostos fixados por esse ordenamento, devem intervir certas consequências
também juridicamente determinadas.62
A fórmula geral da proposição jurídica é a seguinte: “sob determinados
pressupostos, fixados pela ordem jurídica, deve efetivar-se um ato de coerção, pela mesma
ordem jurídica estabelecido”.63 Ou, noutra formulação do mesmo Kelsen: “de acordo com
determinada ordem jurídica positiva, sob certos pressupostos deverá intervir uma determinada
consequência.”64 As proposições jurídicas são normativas por descreverem normas de dever-
ser, mas não são prescritivas, pois o dever-ser da proposição não tem um sentido prescritivo
como o dever-ser da norma.65 Não tem o sentido usual66; “o dever-ser tem, na proposição
jurídica, um caráter simplesmente descritivo.”67 Do mesmo modo, a afirmação de que uma
norma que prescreve determinada conduta está “em vigor” significa não que essa conduta
efetivamente se realiza, mas que ela deve realizar-se.68 A proposição jurídica “não é um
imperativo: é um juízo, a afirmação sobre um objeto dado ao conhecimento.”69 A proposição
jurídica, descritiva, e a norma jurídica, prescritiva, carregam atos com sentidos diferentes, e
também se diferenciam em outros pontos:

61
KELSEN, 1998 [1960], p.96.
62
KELSEN, 1998 [1960], p.81, 80.
63
KELSEN, 1998 [1960], p.86.
64
KELSEN, 1998 [1960], p.88.
65
KELSEN, 1998 [1960], p.84. “As proposições jurídicas a serem formuladas pela ciência do Direito apenas
podem ser proposições normativas (Soll-sätze)”. KELSEN, 1998 [1960], p.88-89.
66
KELSEN, 1998 [1960], p.87-88.
67
KELSEN, 1998 [1960], p.89.
68
KELSEN, 1998 [1960], p.88.
69
KELSEN, 1998 [1960], p.89.
43

I. A função relacionada à proposição jurídica é a de conhecimento jurídico,


conhecimento “de fora” e descrição com base nesse conhecimento; a função da norma
jurídica, por sua vez, é de autoridade jurídica, produção do Direito, atribuição de direitos e
deveres aos sujeitos jurídicos.70
II. Assim como na ciência os fatos existem ou não existem e as afirmações sobre
esses fatos podem ser verídicas ou inverídicas, na ciência jurídica as normas são válidas ou
inválidas (i.e., se vigora ou não dentro de determinada ordem jurídica), e somente as
proposições jurídicas podem ser tidas como verídicas ou inverídicas.71 Como a norma válida é
produzida por um ato empiricamente verificável, é possível verificar empiricamente a
validade da norma através desse ato.72 Já a proposição jurídica é tida como verídica ou
inverídica segundo corresponda ou não ao Direito.73
A teoria kelseniana se insere no âmbito do positivismo normativista que tem como
tarefa principal enfrenta o problema do conceito de Direito. Este problema, na visão de
autores como Kelsen e diferentemente de autores como Dworkin74, não envolve uma teoria da
interpretação e da decisão que transcenda o que foi colocado pelo próprio Kelsen no afamado
capítulo VIII da “Teoria Pura do Direito”. Ali, Kelsen sustenta que, através dos diferentes
métodos, o intérprete evidencia os possíveis significados da norma, que compõem o quadro
ou moldura de sentidos possíveis. Esta, para ele, é uma atividade cognoscente. A decisão por
um dos sentidos, contudo, envolve não um ato cognitivo, mas um ato de vontade. Não é
científica, mas política. “Todos os métodos de interpretação, até o presente elaborados,
conduzem sempre a um resultado apenas possível, nunca a um resultado que seja o único
correto.”75

70
Os órgãos aplicadores do Direito exercem autoridade jurídica e também precisam primeiro conhecer o Direito
a aplicar, mas conhecem “de dentro”, e esse conhecimento não é essencial por ser apenas preparatório para sua
função de produção jurídica (geral, por parte do legislador, e individual por parte do juiz). KELSEN, 1998
[1960], p.81-82. “A ciência jurídica […] apenas pode descrever o Direito; ela não pode, como o Direito
produzido pela autoridade jurídica (através de normas gerais ou individuais), prescrever seja o que for.”
KELSEN, 1998 [1960], p.82.
71
KELSEN, 1998 [1960], p.82-83.
72
“A resposta à questão de saber se uma tal norma jurídica vigora ou não dentro de determinada ordem jurídica é
– não direta mas indiretamente – verificável, pois uma tal norma tem – para vigorar – de ser produzida através
de um ato empiricamente verificável”. KELSEN, 1998 [1960], p.83.
73
“A proposição contida num tratado de Direito civil em que se afirme que (em conformidade com o Direito
estadual que forma objeto do tratado) quem não cumpre uma dada promessa de casamento tem de indenizar
pelo prejuízo que por tal fato cause, caso contrário deverá proceder-se a execução forçada no seu patrimônio, é
inverídica se no Direito estadual que constitui o objeto deste tratado – tratado que se propõe descrever o
Direito – se não prescreve tal dever, já que se não prevê essa execução forçada.” KELSEN, 1998 [1960], p.82-
83.
74
Cf. DWORKIN, 1986.
75
KELSEN, 1998, p.391-392.
44

Quadro 4 - Comparação entre Ciência do Direito e Política Jurídica, segundo Kelsen.


CIÊNCIA DO DIREITO POLÍTICA JURÍDICA
Estabelecer a moldura Decidir por um dos sentidos
Função jurídico-científica Função jurídico-política
Ato cognitivo Ato de vontade
FONTE: Elaboração própria a partir de KELSEN, 1998.

Machado Segundo apresentou uma posição distinta. Em 2008, publicou dois


artigos de conteúdo idêntico, à exceção do título: “Por que Dogmática Jurídica?” e “É
apropriado falar-se em uma ‘Dogmática Jurídica’?”.76 No mesmo ano, publicou um pequeno
livro também intitulado “Por que Dogmática Jurídica?”, e que seguiu a mesma linha de
raciocínio.77
Em resumo, sustenta que a expressão “dogmática jurídica”, apesar de comumente
usada para designar o estudo científico do Direito, deve ser abandonada por mais confundir do
que esclarecer, uma vez que ciência é conceito que se define como antônimo do que é
dogmático, bem como a hermenêutica atual entende que o intérprete não descreve o sentido
dos textos normativos, mas os constrói segundo sua pré-compreensão, as particularidades do
caso e os valores prestigiados pelo ordenamento.78
A primeira premissa da sua conclusão a favor do abandono da expressão
“dogmática jurídica” envolve o conceito de ciência e como ciência e dogma são antagônicos.
Arvorando-se em Agostinho Ramalho Marques Neto, Johannes Hessen, Karl
Popper e Arnaldo Vasconcelos, Machado Segundo expõe um conceito de ciência baseado nos
seguintes pontos79:
I. A ciência se distingue do conhecimento comum. Este é prático, empírico e
assistemático. Aquela é dotada de sistematicidade, consistência teórica e caráter
autoquestionador.
II. Ao conhecer o objeto, o sujeito constrói uma imagem dele através de seus
sentidos, filtrada por sua pré-compreensão; uma imagem que não se confunde com o objeto,
por isso, uma verdade provisória e relativa, apta a reconstruções, aperfeiçoamentos,
retificações.

76
Respectivamente: MACHADO SEGUNDO, 2008a; MACHADO SEGUNDO, 2008b.
77
MACHADO SEGUNDO, 2008c.
78
MACHADO SEGUNDO, 2008b, p.159.
79
MACHADO SEGUNDO, 2008b, p.161-166; MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.13-24.
45

II. A ciência não mais se caracteriza pela objetividade, neutralidade, clareza e


certeza, mas por ser essencialmente provisória. A relação entre imagem e objeto é sempre
imperfeita e imprecisa porque não há meios para verificar a correspondência exata entre o
objeto real e a imagem. Com isso, não há conhecimento definitivo.
IV. Essa seria, segundo ele, a visão de Popper, para quem o cientista formula e
põe teorias à prova, numa seleção daquelas que resistem em detrimento das que são rejeitadas,
de forma comparável à seleção natural. Os enunciados estão sempre abertos a novas provas, e
serão científicos até não serem falseados: a ciência é um jogo, em princípio, interminável.
Não importa o método ou a neutralidade das afirmações, mas se elas são refutáveis e até
quando são ou não refutadas.
V. A ciência se divide em fases: descritiva (Antiguidade e Idade Média;
Aristóteles e a Escolástica), compreensiva-explicativa (Renascimento; Galileu e esquemas
matemáticos de inteligibilidade), construtiva-prescritiva (Modernidade; Bacon e a ciência
autorizada a criar seu próprio objeto, desde que fértil e eficaz; orientada não a descrever a
realidade, mas a alterá-la).
VI. Por ser aberta, crítica e provisória, a ciência se define negativamente como
conhecimento não dogmático. O dogmático é retratado como pré-científico, privado de
crítica, ortodoxo, incapaz de produzir resultados satisfatórios e incapaz de ver o conhecimento
como uma relação entre sujeito e objeto, preferindo, ao revés, entender o objeto do
conhecimento como absolutamente dado. Essa última parte se aplica, em especial, ao
positivismo legalista, que reservou papel pouco relevante para o intérprete. Como dogmas são
inabaláveis e irrefutáveis, não podem fazer parte da ciência; combinam com a religião e com
o acesso aos assuntos divinos através de fé, crença ou revelação (e não de conhecimento
racional).
Além de cuidar do conceito de ciência, Machado Segundo analisa os sentidos que
diferentes juristas dão à expressão “dogmática jurídica”, que procurei sistematizar e resumir
abaixo80:
• Dogmática jurídica como ciência do direito positivo. A dogmática jurídica é a
ciência do direito positivo, o conhecimento das normas jurídicas em vigor, o estudo
sistemático das regras e institutos jurídicos vigentes. A dogmática jurídica parte das normas
jurídicas para abordar problemas de interpretação e aplicação.

80
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.3-11, 25, 31, 34.
46

• Dogmática jurídica como distinta da Teoria Geral do Direito e da Filosofia


do Direito. A dogmática jurídica se diferencia da Teoria Geral do Direito, que cuida de
conceitos e características comuns aos diferentes ordenamentos jurídicos; e da Filosofia do
Direito, que lida com questões fundamentais ligadas à própria ideia de Direito. A dogmática é
a Ciência do Direito em sentido estrito.
• Dogmática jurídica como ciência descritiva das normas em vigor, vistas
como dogmas imodificáveis, obrigatórios e inquestionáveis. A dogmática jurídica é uma
ciência descritiva das normas jurídicas em vigor. Preocupa-se em descrever o que o Direito é
(discurso de lege lata), e não o que deveria ser (discurso de lege ferenda). Assume as normas
que busca descrever como dogmas imodificáveis e como obrigatórias e inquestionáveis pelo
simples fato de serem vigentes.
• Dogmática jurídica como ciência não dogmática construtiva de sentidos.
Diferentemente da concepção da dogmática como ciência descritiva de dogmas imodificáveis,
obrigatórios e inquestionáveis, entende que o jurista não apenas descreve, mas constrói os
sentidos dos textos normativos (já que não há norma existente fora do intérprete para ser
simplesmente “descrita” por ele); e que o conhecimento jurídico-dogmático não se confunde
com o dogmatismo (i.e., com o afastamento de qualquer crítica, refutação ou objeção).
Dentro da concepção indicada no item anterior, há duas posições: a de Machado
Segundo, que além de entender a Ciência do Direito em sentido estrito como construtiva e não
dogmática, defende que ela abandone a expressão “dogmática jurídica” como denominação de
seu saber; e a posição daqueles que mantém o termo por tradição. Machado Segundo
preocupa-se em reconhecer que suas críticas ao dogmatismo, por definição antagônico à
ciência, não se aplicam a esse grupo81, mas também em endereçar e refutar os possíveis
argumentos a favor da manutenção do termo, passíveis de serem levantados seja pelos que
entendem a dogmática como construtiva e não dogmatista, seja por aqueles que defendem a
dogmática como descritiva.
Um primeiro argumento seria o de que a expressão “dogmática jurídica” deve ser
mantida por melhor designar a natureza descritiva de dogmas imodificáveis, obrigatórios e
inquestionáveis, que possui ou deve possuir a ciência jurídica. Em oposição a esse argumento,
do texto de Machado Segundo depreendem-se os seguintes contrapontos82: (i) a norma não
existe objetivamente fora do intérprete, de modo a ser apenas descrita por ele, mas é o sentido

81
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.30-31.
82
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.34-40.
47

que o intérprete constrói a partir dos textos normativos; (ii) há uma diferença entre texto e
norma, e mesmo um texto claro pode tornar-se menos claro diante de um determinado caso
concreto (como no caso do texto “é proibida a entrada de cães” diante da presença de um cego
e seu cão-guia); (iii) a tese descritiva não é capaz de explicar como juízes de posições
ideológicas distintas podem concordar com o texto pré-interpretativo e ainda assim discordar
sobre o que é o Direito pós-interpretativo, nem de explicar os desacordos sobre o número e a
hierarquia dos métodos ou elementos de interpretação, as divergências interpretativas, as
decisões tanto praeter quanto contra legem e a ponderação de regras; (iv) embora existam
critérios interpretativos e conquanto seja possível debater racionalmente a respeito do
conteúdo do Direito a ser aplicado, a interpretação está longe de ser automática, objetiva e
descritiva.
Os contrapontos de Machado Segundo fazem sentido, mas não parecem ser muito
sólidos enquanto argumentos a favor do abandono do termo “dogmática jurídica” porque o
próprio Machado Segundo admite que a expressão seja empregada por juristas que não
partilham deste modo de ver o Direito.
Um segundo argumento seria a já citada questão da tradição. Contra ele, Machado
Segundo afirma que: “O sentido que o termo tradicionalmente tem contamina sempre o ato de
sua invocação com o dogmatismo.”83 Não é uma boa crítica por parte de Machado Segundo,
já que ele próprio reconhece a possibilidade do uso da expressão dogmática jurídica sem que
isso incorra em assumir o dogmatismo.
Um terceiro argumento seria o de que, mesmo reconhecendo que a dogmática
jurídica não deve ser acometida por dogmatismos, a expressão “dogmática jurídica” ainda
seria interessante na medida em que os cientistas do Direito não modificam o seu objeto de
estudo. Neste ponto, a crítica de Machado Segundo parece ser sólida: ele indica que também
para outras ciências o objeto pode ser um dado não alterável sem que isso as faça adotar
qualquer termo alusivo a dogma.84
Um quarto argumento seria o de que o termo está consolidado, logo, não deve ser
abandonado. Machado Segundo afirma que o fato de um termo ser consolidado não é
suficiente para justificar o seu uso, pois:

Do contrário, consolidado que a geração espontânea fazia brotar ratos em pães


umedecidos com leite e guardados em um quarto escuro, não se poderia jamais

83
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.32.
84
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.30-31, 34.
48

mudar o curso da biologia. Da mesma forma, consolidado o geocentrismo, o


heliocentrismo não teria lugar.85

Como já ressaltado, o próprio Machado Segundo dá exemplos de juristas que


conseguem empregar o termo dogmática jurídica sem assumir dogmatismos. Isso enfraquece
a ideia da mudança terminológica como imperativa para que haja também uma mudança
conceitual comparável à mudança do geocentrismo para o heliocentrismo.
Finalmente, um quinto argumento seria o de que o termo se liga ao dogmatismo
apenas historicamente (ou seja, a relação entre um e outro faz parte do passado). Machado
Segundo rebate que não são poucos os que ainda confundem dogmática com dogmatismo.86
Na verdade, afirma Machado Segundo, a história serviria a favor do abandono do uso da
expressão, pois sua origem histórica remete à ultrapassada Escola da Exegese. Ademais,
argumenta que a precisão terminológica (que se espera da denominação de um campo do
saber) está ausente diante dos muitos sentidos diferentes dados à expressão.87 Novamente, não
são argumentos que impressionam. A expressão “antropologia criminal”, por exemplo, já foi
associada a Cesare Lombroso, cujas visões sobre o fenômeno social do crime, arrisco-me a
dizer, são de modo geral tanto quanto ou bem mais rechaçadas do que as visões do
exegetismo sobre a Ciência do Direito. Nem por isso a expressão deixa de ser usada 88, e nem
deveria, afinal, os significados das palavras podem ser muitos, e podem se modificar
enormemente com o passar dos anos. É algo próprio das linguagens naturais. O argumento da
precisão semântica também não parece ser sólido pela mesma razão.
No libelo sincero de Machado Segundo, há também argumentos mais razoáveis
contra a expressão “dogmática jurídica”, como o de que a manutenção do termo envolve, por
parte dos juristas que não são dogmatistas, um “esforço esclarecedor” para afastar a
“aparência verbal” do termo “dogmática” (o que seria evitado com a mudança). 89 De fato,
Machado Segundo tem razão ao apontar a estranha equação da “Ciência Dogmática Não
Dogmática”, em que o termo “Dogmática” é acrescido para em seguida ser subtraído.90
É perfeitamente possível concordar com isso, porém, seria ingênuo imaginar que a
mudança terminológica traria mudanças conceituais, teóricas, bem como supor que essas
mudanças só podem vir acompanhadas da mudança terminológica. A expressão “dogmática

85
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.59-60.
86
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.60.
87
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.52.
88
Cf., v.g., CESARE LOMBROSO, 2016; CRIMINOLOGIA, 2016.
89
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.54-58.
90
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.61.
49

jurídica” está consagrada, especialmente na literatura jurídica nacional (e inclusive na mais


racional parte dela), e isso pode sim ser uma boa razão para mantê-la. A linguagem é
convencional, há uma economia comunicacional envolvida.
Para Machado Segundo, a confusão entre dogmática jurídica e dogmatismo
acontece, e acontece porque é “evidente” que “ser dogmático realmente implica – a
linguagem está a dizer – dogmatismo”. Segundo ele, é correto tomar a palavra dogma como
uma imposição à inteligência, e errôneo utilizá-la para designar um conhecimento científico
do Direito. Quem quer fazer ciência deve usar o termo “ciência”, e não algo relacionado ao
dogma.91
Compartilho da preocupação de Machado Segundo com o aprimoramento da
dogmática jurídica, mas não é o uso da palavra que faz com que uma parcela da dogmática
seja dogmatista, como ele mesmo aponta ao mencionar quem adote o termo sem incorrer no
problema. Há uma diferença entre mudanças teóricas e mudanças terminológicas. Por vezes,
elas podem coincidir, como no caso da passagem de uma teoria geocentrista para uma teoria
heliocentrista. Por vezes, não. A mudança teórica que Machado Segundo persegue de um
saber jurídico dogmatista para um saber jurídico crítico e racional não virá com uma simples
mudança de termo, com o mero abandono da expressão “dogmática jurídica”, mas com o
abandono de práticas e ideias dogmatistas, o que prescinde da mudança terminológica. Pode-
se, por outro lado, questionar se essa mudança teórica não seria facilitada pela mudança
terminológica, e se essa mudança teórica não é dificultada pela manutenção do termo. É uma
questão empírica. Se a resposta for afirmativa, então o argumento de Machado Segundo terá
sólido suporte.
Apesar das críticas que faço, chego à mesma conclusão de Machado Segundo, i.e.,
a de preferir a denominação “Ciência do Direito” para o saber racional a respeito das normas
jurídicas que não se confunde com o empreendimento positivista no sentido de Teoria Geral
do Direito constante de autores como Kelsen ou Bobbio.
Como buscarei explicitar nos tópicos a seguir, entendo que a dogmática jurídica,
enquanto saber sobre o direito positivo, tem como tarefa fundamentar racionalmente a
resolução de problemas jurídicos como o de dúvidas sobre o sentido e alcance de
determinadas normas, e deve fazê-lo tendo em vista a pretensão de correção e de
racionalidade do Direito. Apropriando-me da metáfora usada por Martti Koskenniemi de que
cuidarei em detalhe no tópico 3.9 a seguir, a Ciência do Direito se faz entre a utopia e a

91
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.60-61.
50

apologia, e com especial atenção à primeira sem se descuidar da segunda. Como se trata de
um saber se abre para a questão da justiça, o termo “Ciência do Direito” parece ser mais
adequado como superação de uma dualidade muito rígida entre zetética e dogmática.
Contudo, não deixarei de empregar o termo consagrado “dogmática jurídica” quando abordar
ideias de outros autores que o adotam.

3.4. A CIÊNCIA DO DIREITO NÃO É DESCRITIVA NUM SENTIDO FORTE

Num texto posterior aos mencionados até aqui, e, na minha visão, mais maduro e
mais consistente, Machado Segundo desenvolveu melhor a sua reflexão sobre como a
dogmática jurídica pode se beneficiar de uma abordagem epistemológica falibilista. No
trabalho, intitulado “Epistemologia falibilista e teoria do direito”, Machado Segundo defende
duas teses principais. A primeira delas está sendo chamada aqui de tese holística, pelo
significado do termo e por ele ter sido empregado pelo próprio Machado Segundo num dado
momento do texto; consiste basicamente em afirmar que a interpretação jurídica não pode ser
apenas descritiva de textos, sendo, na verdade, uma atividade criativa que envolve textos
normativos, fatos e valores.92
A tese holística é contraposta à “postura epistemológica positivista”, entendida e
criticada por Machado como descritivista, reducionista e normativa, nos seguintes termos: (i)
pretende examinar o que está posto como ele é, e não como poderia ou deveria ser (este
último o campo dos valores que, na visão positivista, são incompatíveis com o “rigor
científico”); (ii) seu objeto é mutilado nem tanto pelo processo de simplificação da realidade,
mas pela recusa do aspecto decisório envolvido nesse processo e do caráter inafastável do
estudo dos valores (que, no Direito, servem como fundamento e finalidade); (iii) embora diga
que pretende apenas descrever a realidade, em verdade prescreve como a realidade deve ser
descrita para que a descrição possa ser científica.93
Machado Segundo destaca que “as palavras não têm um sentido dado pela
natureza, de forma prévia ao homem.” Não possuem sentidos rígidos e pré-estabelecidos,
dados a priori pela natureza e passíveis de serem descobertos tal como um astrônomo
investiga e descobre um exoplaneta.94 Seu sentido é construído pela participação de cada um

92
MACHADO SEGUNDO, 2014, passim e p.237.
93
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.236-237.
94
Cf. MACHADO SEGUNDO, 2014, p.241, 210.
51

nos contextos em que as palavras são usadas.95 O contexto e os fatores aí envolvidos


(econômicos, sócio-políticos, históricos etc.) são essenciais para a compreensão do texto96, e
podem fazer com que palavras até mesmo exprimam ideias opostas às que usualmente lhes
são associadas, como ilustram os casos de ironia.97 Do ponto de vista das ciências cognitivas,
o cérebro constantemente simula ou reconstrói internamente a realidade e a memória é uma
forma de reconstruir essa realidade relativamente ao passado numa intensidade menor, mas
ainda assim capaz de provocar sensações semelhantes ao que a memória emula. As palavras
escritas e faladas evocam a memória da realidade aludida por elas, daí a leitura de um
romance provocar sensações semelhantes às de assistir a um filme. Neste contexto, atribuir
sentido é, mais do que descrever, recriar o que foi sentido anteriormente.98
Estas são boas razões para rejeitar o que chamarei de tese descritivista forte,
segundo a qual cabe ao cientista do Direito descrever objetivamente a norma como ela é,
entendida como um objeto externo a ele (e que, frise-se, não é a posição de Kelsen). A estas
razões, somam-se outras duas que servem para fundamentar a ideia de que o jurista, ao
interpretar normas jurídicas, necessariamente faz juízos de valor, porque é impossível não
fazê-lo (ou pelo menos não se tem notícia de nenhum método que assegure isso). São elas: os
limites de precisão da linguagem natural empregada nos textos normativos; a complexidade
comum a sistemas jurídicos como o brasileiro.
Uma boa forma de ilustrar a primeira consiste em sintetizar e reproduzir os
problemas de equivocidade dos textos normativos mencionados por Humberto Ávila, para
quem: os textos normativos são o objeto da interpretação, e seu sentido o resultado dela; não

95
Cf. MACHADO SEGUNDO, 2014, p.241. Neste ponto, Machado Segundo chega a dizer que: “A criança
aprende a falar observando e ouvindo a fala dos adultos.” Isso é verdade, mas é preciso lembrar que o output
que a criança que adquire a linguagem é capaz de produzir é muitas vezes maior e mais complexo do que o
input que recebeu do seu entorno, o que sugere a correção da tese da gramática universal de Noam Chomsky.
96
Cf. MACHADO SEGUNDO, 2014, p.241-242. “Um exemplo pode ilustrar o que se está a dizer aqui.
Imagine-se o texto “é proibido o uso de biquínis”. Não há como “descrever” o sentido a ser atribuído a ele, se
não se estiver diante, também, de um contexto, real ou imaginário. Se o texto é colocado à porta de uma igreja,
supõe-se que exige o uso de vestimenta que cubra mais que um biquíni. Se, porém, o mesmo texto, talvez até a
mesmo letreiro plástico, for afixado à entrada de uma praia de nudismo, o que será considerado como exigido
é o uso de nenhuma vestimenta, de sorte a que todo o corpo de quem ali adentra esteja descoberto. Proposições
opostas, atribuídas ao mesmo texto normativo, em função de um diferente contexto em que empregado, o que
evidencia a necessidade de também se estudarem os contextos, dentre muitas outras coisas, para que se possa
adequadamente teorizar em torno da atribuição de sentido aos textos e se possam submeter à crítica
intersubjetiva essas interpretações.” MACHADO SEGUNDO, 2014, p.243.
97
Cf. MACHADO SEGUNDO, 2014, p.210.
98
Cf. MACHADO SEGUNDO, 2014, p.244. “[O] sentido de textos é determinado por experiências prévias do
intérprete, que as associa aos textos. [...] [E]ssa influência se dá por conta de uma “simulação” feita pelo
cérebro (embodied simulation), que tem ativados quando da leitura de certas palavras (ou da observação de
certas imagens), os mesmos circuitos neurais que se ativam quando a experiência representada é vivenciada,
só que em menor intensidade.” MACHADO SEGUNDO, 2014, p.215-216.
52

temos certeza prévia do sentido do dispositivo ao consultá-lo; o sentido é variável; como


objeto, os textos, “queiramos ou não”, são equívocos.99

Quadro 5 - Problemas de sentido que podem acometer textos normativos


PROBLEMAS DE SENTIDO QUE PODEM ACOMETER TEXTOS NORMATIVOS
Palavras adotadas por dispositivos podem ter mais de um significado ao
mesmo tempo. Exemplos: “tributo” como gênero, e “tributo” como sinônimo
AMBIGUIDADE
da espécie “imposto”; “responsabilidade” no sentido patrimonial e
“responsabilidade” no sentido subjetivo.
Um só texto pode ter significados simultâneos; pode significar muitas coisas
COMPLEXIDADE
ao mesmo tempo.
Textos podem gerar significados gerais, mas situações anormais podem surgir.
DEFECTIBILIDADE
Com isso, exceções implícitas podem ser abertas.
Por vezes, princípios genéricos podem ser concretizados de maneiras diversas
IMPLICAÇÃO e alternativas (como é o que ocorre com os princípios estruturantes da nossa
Constituição).
Depois de construída a norma através da interpretação, ela precisa ser aplicada
ao caso concreto, mas normas são vagas por não possuírem em si a
VAGUEZA
determinação de quais são precisamente os casos que se enquadram no seu
âmbito normativo.
FONTE: Elaboração própria a partir de ÁVILA, 2015; 2013.

Se o jurista deve interpretar o direito positivo, ele não pode fazê-lo em fatias. A
premissa de que o jurista interpreta todo o Direito, e não apenas uma parte, aliada à
complexidade comum a sistemas jurídicos como o brasileiro, faz com que: (i) seja bem
possível que o jurista se depare com algum texto normativo relevante para o caso que tenha,
em algum grau, problemas de equivocidade ou vagueza; (ii) seja também bem possível que o
jurista se depare com conflitos normativos. Sobre estes últimos, nem mesmo quando o
intérprete resolve conflitos através das regras clássicas de solução de antinomias se trata de
uma atividade mecânica ou avalorativa, porque todos os critérios relacionam-se, em última
instância, com valores. A norma posterior prevalece em relação à norma anterior porque se
presume que quem cria normas não faz isso em vão e está em melhores condições de atualizar
o Direito (que, afinal, deve ser estável, mas não pode ser estático). A norma hierarquicamente
superior prevalece em relação à norma hierarquicamente anterior por estar mais próxima do
centro último de criação de normas, do núcleo de presumida legitimidade legiferante; por

99
ÁVILA, 2015.
53

repousar-se no princípio da unidade. E a norma mais específica prevalece sobre a geral por
uma questão de igualdade: presumivelmente a mais específica é mais adequada às
peculiaridades daquilo que pretende regular, e uma das expressões da igualdade é o
tratamento desigual dos desiguais, ou seja, o tratamento jurídico atento a idiossincrasias num
horizonte de promoção da igualdade.100
A Ciência do Direito não é descritiva num sentido forte, como aquele que
combina com o indutivismo ingênuo sobre o qual falarei com detalhamento no capítulo 4. A
Ciência do Direito envolve o direito positivo, mas não no sentido de o jurista restringir-se a
apenas descrever as normas como um dado externo da realidade, acessível diretamente por
um observador supostamente neutro e imparcial.
Por outro lado, é concebível que a Ciência do Direito seja descritiva num sentido
fraco, que admite as imprecisões do direito positivo como objeto de conhecimento e o papel
do jurista e de suas teorias e pré-concepções, sem abrir mão da possibilidade de distinção
entre problemas jurídicos descritivos e problemas jurídicos prescritivos, e entre pesquisas
jurídicas de lege lata e pesquisas de lege ferenda.
Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Marina Feferbaum foram responsáveis por
organizar uma das obras mais úteis e instigantes sobre pesquisa jurídica de que tenho
notícia.101 Num de seus capítulos, Queiroz apresenta algumas considerações sobre a pesquisa
jurídica em geral, e sobre a dogmática jurídica particularmente iluminativas a respeito do
tema.
A propósito do conceito de dogmática jurídica, Queiroz parte da correta assertiva
de que o direito posto precisa ser interpretado para ser aplicado ao caso concreto e a partir
disso concebe a dogmática como um grande repositório de saber jurídico formado pela
atividade interpretativa compartilhada por todos os atores jurídicos de uma dada comunidade
– advogados, juízes, acadêmicos etc. – e que nos indica como devemos entender o regramento
jurídico de uma dada situação.102 Algumas perguntas tipicamente enfrentadas por uma
pesquisa de dogmática jurídica são listadas por Queiroz: “Tal coisa é permitida? Proibida?
Obrigatória?” “Quais são as consequências jurídicas da violação à regra posta?” “Tal
operação é ou não uma compra e venda, para fins tributários?” “Esta outra operação é crime?
100
Sobre os critérios ou regras clássicos de solução de antinomias, ver: BOBBIO, 1995. Para um estudo
avançado sobre conflitos normativos, ver: HUERTA OCHOA, 2003.
101
FEFERBAUM; QUEIROZ, 2013, passim.
102
QUEIROZ, 2013, p.72-73. “Este contrato é válido? Como devo realizar esta operação societária? Este tributo
é constitucional? Esta peça publicitária viola direitos dos consumidores? As respostas a essas perguntas são
dadas a partir da dogmática jurídica (dogmática civil, comercial, tributária) e conhecê-las bem é aquilo que se
espera dos chamados “operadores do Direito”.” QUEIROZ, 2013, p.73.
54

É ilícito administrativo? Seria ilícito civil?” Todas elas têm natureza dogmática porque “quem
as formula quer saber como deve agir, à luz dos dogmas do direito”, e pretende “propor
respostas dogmaticamente fundamentadas”.103
Em qualquer pesquisa, o pesquisador deve ter consciência da natureza do
problema. Um dos tipos comuns de problema lida com os chamados “problemas descritivos”,
nos quais o pesquisador pretende “oferecer um retrato compreensível de fenômenos
complexos, que ajudam a entender melhor as particularidades neles envolvidas.” Queiroz dá
dois exemplos de problemas descritivos. No primeiro, dentro do tema mais amplo da
morosidade judicial, o pesquisador busca enfrentar a pergunta: “Quanto demora cada juiz para
julgar, e como explicar as eventuais diferenças de desempenho entre eles?” Não é um
problema de interpretação legal ou de divergências doutrinárias, mas um problema fático,
como diz Queiroz. Já o segundo exemplo trata da dogmática jurídica como objeto, e tem
como propósito “descrever qual é o estado da arte da regulação jurídica de certo assunto ou
problema, com vistas a facilitar a construção de respostas jurídicas daquela matéria”. Neste
contexto, enfrenta a seguinte pergunta: como o ordenamento jurídico tutela o direito à vida?
Qual o seu conteúdo e seus limites ou exceções? Na realização do estudo, o pesquisador
deverá levantar os dispositivos legais que tutelam a vida ou permitem seu sacrifício e
reconstruir e organizar as normas jurídicas que podem ser deles extraídas a partir das boas
regras de hermenêutica jurídica, ajudando assim a esclarecer o disciplinamento jurídico
concernente.104
Diferentemente dos problemas descritivos, nos problemas prescritivos os
pesquisadores não retratam o objeto de pesquisa, mas esforçam-se para oferecer uma resposta
bem fundamentada sobre como o problema deve ser juridicamente considerado ou
respondido. É uma resposta normativa por extrair de regras sociais de caráter prático (éticas,
morais, jurídicas, econômicas) a prescrição de uma ação. Como afirma Queiroz, “respostas
prescritivas sempre são dadas a partir de critérios, parâmetros normativos”. No Direito, “os
mais importantes provêm das normas jurídicas válidas em um dado ordenamento jurídico.”105
Queiroz também divide os trabalhos de dogmática jurídica em pesquisas de lege
lata (“segundo a lei criada”, “de acordo com a lei existente”) e pesquisas de lege ferenda (“de
encontro à lei”, “contra a lei”). A pesquisa de lege lata adota como objeto um problema

103
QUEIROZ, 2013, p.74.
104
QUEIROZ, 2013, p.69-71.
105
QUEIROZ, 2013, p.72.
55

interpretativo-jurídico para o qual ela pretende oferecer a melhor resposta jurídica. Isso se dá
em cinco etapas106:
I. “Identificação do problema interpretativo a ser tratado, com explicitação da sua
natureza.” Dúvidas interpretativas podem variar (e.g., uma dúvida mais ou menos restrita a
um conceito ou palavra, como no caso de saber se o Imposto sobre a Propriedade de Veículos
Automotores (IPVA) incide ou não sobre aeronaves; ou uma dúvida sobre expressões
legislativas de conteúdo mais aberto, como “de forma proporcional”), e identificar o tipo de
problema interpretativo ajuda o pesquisador a saber com que materiais precisará trabalhar, e
segundo qual método.
II. “Seleção do conteúdo normativo relevante para a resposta à pergunta.” Nesta
etapa, o pesquisador deve coletar as normas jurídicas pertinentes ao tema e suas principais
interpretações doutrinárias e jurisprudenciais.
III. “Precisar as respostas interpretativas rivais que têm sido propostas pelos
principais debatedores do tema.” Aqui, o pesquisador esmiúça o estado da arte dos trabalhos
escritos sobre o assunto, o que os juristas de referência dizem sobre ele, de modo a não só
elencar as diferentes posições, mas também tentar identificar a questão de fundo sobre a qual
discordam os adversários do tema. “Ler textos dogmáticos “adversários”, buscando a questão
subjacente, é uma boa maneira de trabalhar divergências interpretativas de forma mais
convincente do que o simples “há quem diga A..., no entanto, há quem diga B...”, de onde
pouca coisa se pode efetivamente concluir”.
III. “Encontrar o melhor critério a partir do qual é possível eleger uma
“vencedora” entre as diversas respostas rivais analisadas.” O pesquisador deve identificar e
explicitar o critério que fundamenta sua resposta.107
IV. “Conclusão”. Apresentação do resultado da análise da questão interpretativa à
luz do problema identificado em face da matriz teórica escolhida para seu enfrentamento, com

106
QUEIROZ, 2013, p.75-77.
107
Queiroz dá o seguinte exemplo: “Imaginemos que meu tema de interesse seja sobre as políticas de ação
afirmativa no ensino superior: se estipulei, por exemplo, que a questão de fundo diz respeito à forma de
alocação de um bem escasso (vagas no ensino superior gratuito) com vistas à redução dos níveis de
desigualdade, posso então decidir que a melhor resposta será aquela que determinar a forma mais justa de
alocação dessas vagas. O critério que me permitiria escolher entre respostas rivais, neste caso, seria uma teoria
da justiça. Mas há outras opções: posso me convencer de que a verdadeira questão não é a maneira mais justa,
mas sim a maneira mais eficiente, do ponto de vista da geração social de riquezas, de alocação desses recursos
sociais escassos, por onde poderia desaguar em alguma teoria de caráter utilitarista. A escolha entre ambas é
possível, e há juristas de primeiro time que optaram por cada uma delas. Cientificamente, o importante é ser
honesto e explícito nas suas opções: dizer qual é seu critério de escolha, e por que ele lhe parece ser a melhor
alternativa.” QUEIROZ, 2013, p.76-77.
56

a “construção de uma opinião interpretativa bem fundamentada e explícita em seus critérios


de escolha, o que lhe agrega um bom valor metodológico”.
A atribuição de “valor metodológico” à construção de uma opinião interpretativa
bem fundamentada e que é transparente quanto aos seus critérios é um acerto da análise de
Queiroz que mostra a dimensão inelutavelmente valorativa da Ciência do Direito. Há valores
epistêmicos que fundamentam qualquer empreitada de busca por conhecimento. Isso serve
como razão adicional para que o descritivismo ingênuo seja deixado de lado: há sempre
valores envolvidos no trabalho do jurista. O debate deve ser outro: quais valores são bem-
vindos, e quais podem deturpar o caráter científico ou racional da pesquisa.
Os estudos de lege ferenda, por sua vez, são caracterizados por Queiroz como
pesquisas que não visam investigar dúvidas interpretativas, mas partem de uma resposta
dogmática estabelecida para criticá-la, eventualmente propondo alterações. Apesar da
distinção, partilha com a pesquisa de lege lata o percurso de identificação de um problema e
avaliação de propostas alternativas segundo uma matriz teórica até a conclusão (proposta de
alteração).108
O problema identificado pode dizer respeito: à redação concreta de uma lei; a uma
determinada interpretação predominante; a um elemento de legislação antigo ainda vigente,
mas em desacordo com o contexto político, econômico ou social. Em todos os casos, há a
mesma ideia de que uma norma, por sua redação ou interpretação corrente, “é por alguma
razão ruim ou insatisfatória e precisa de alteração.” Queiroz apresenta dois exemplos. No
primeiro, a questão dos direitos civis de casais homoafetivos é enfrentada segundo uma matriz
teórica de uma teoria dos direitos fundamentais das minorias. No segundo, a questão do
estrito controle penal sobre a evasão de divisas previsto na Lei 7492/86 – adequado para
aquele momento de economia tormentosa, mas não para o momento atual –, enfrentado
segundo uma matriz teórica de uma teoria sobre a intervenção estatal na área
macroeconômica.109
É possível assumir a possibilidade de um descritivismo num sentido fraco, capaz
de distinguir estudos de lege lata e estudos de lege ferenda, sem que isso signifique uma
adesão a algum tipo de positivismo jurídico. Um persuasivo exemplo vem de da obra
“International Law For Humankind: Towards A New Jus Gentium – General Course on
Public International Law”, publicada por Antônio Augusto Cançado Trindade.

108
QUEIROZ, 2013, p.77-78.
109
QUEIROZ, 2013, p.78.
57

Seu autor é marcadamente não positivista, e sua obra reflete isso, especialmente
quando contraria a separação conceitual entre Direito e Moral para afirmar que a consciência
humana é o fundamento último de todo e qualquer ordenamento jurídico.110 Ao tratar do tema
do caráter compulsório ou facultativo da jurisdição internacional, o não positivista Cançado
Trindade propõe, de lege ferenda, a expansão da compulsoriedade da jurisdição internacional,
especialmente em matéria de direitos humanos.111

3.5. A CIÊNCIA DO DIREITO SE DIFERENCIA DE OUTROS SABERES JURÍDICOS

Uma das mais populares concepções sobre Ciência do Direito da cultura jurídica
nacional é aquela desenvolvida por Tércio Sampaio Ferraz Jr., em boa medida a partir do
alemão Theodor Viehweg, em duas obras muito similares: “A Ciência do Direito”, de 1980, e
o best-seller “Introdução ao Estudo do Direito”, cuja primeira edição é de 1987. A segunda
deve ser lida como em boa parte reprodução, em alguma parte atualização da primeira. Apesar
de ser uma obra amplamente adotada como livro didático de disciplinas introdutórias do
primeiro e / ou segundo ano do curso de Direito há muitos anos no país, trata-se de texto
relativamente avançado a respeito do caráter do Direito e do conhecimento sobre o Direito.112
A partir das ideias de Theodor Viehweg, Ferraz Jr. distingue dois tipos principais
de abordagem ou enfoque do fenômeno jurídico: o zetético e o dogmático. Uma forma
criativa de distingui-los se dá através de uma situação hipotética na qual um homem passa
correndo na frente da casa de Sócrates (que encarna o enfoque zetético), sendo seguido por
um grupo de soldados (que representam o enfoque dogmático). Os soldados gritam para
Sócrates: “Agarre esse sujeito, ele é um ladrão!” E Sócrates responde: “O que você entende
por ‘ladrão’?” No enfoque dogmático, há uma premissa estabelecida, uma solução já dada e
pressuposta, e a grande preocupação é com um problema de ação, de como agir. No enfoque
zetético, o ponto de partida não é uma solução, mas uma pergunta; a preocupação é com um
problema especulativo.113
Ao longo do texto de Ferraz Jr., os enfoques vão sendo melhor delineados e
contrapostos um ao outro por meio de diferentes predicados, funções e características.
Sintetizo-as analiticamente no quadro a seguir.

110
CANÇADO TRINDADE, 2006, p.177-202.
111
CANÇADO TRINDADE, 2006, p.231-235.
112
Marcos Nobre, v.g., considera a contribuição de Tércio Sampaio Ferraz Jr. como “a reflexão mais consistente
e poderosa sobre o problema da dogmática de que dispomos no Brasil”. Cf. NOBRE, 2003.
113
FERRAZ JR., 2003, p.40.
58

Quadro 6 - Comparação entre zetética e dogmática


ZETÉTICA DOGMÁTICA
Vem de zetein, que significa perquirir. Vem de dokein, que significa ensinar, doutrinar.
Desintegra, dissolve as opiniões, pondo-as em Releva o ato de opinar e ressalva algumas das
dúvida. opiniões.
Suas questões têm uma função especulativa Suas questões têm uma função diretiva explícita e
explícita e são infinitas. são finitas.
O problema tematizado é configurado como um A situação captada em suas questões configura-se
ser (que é algo?). como um dever-ser (como deve-ser algo?).
Visa saber o que é uma coisa. Visa possibilitar uma decisão e orientar a ação.
Ponto de partida: premissas estabelecidas como
Ponto de partida: enunciados ou premissas que
inquestionáveis por um arbítrio, ato de vontade ou
lidam com evidências (plenas ou frágeis). Não
de poder; relacionadas a dogmas assumidos não
são questionadas porque são assumidas como
por veicular uma verdade, mas por impor uma
verdades (ainda que precárias e sujeitas a
certeza (que põe fim a uma dúvida, que impede a
verificação / comprovação).
paralisia da ação).
O dogmático, por mais que se esmere em
O Direito posto é somente um dos dados a ser
interpretações, está adstrito à ordem vigente (suas
levado em conta.
soluções têm de ser propostas nos quadros dela).
Descompromisso com a decisão dos conflitos. O Compromisso com a decisão dos conflitos sociais,
objeto pode, por isso, ser questionado em todas políticos, econômicos relevantes para o Direito;
as direções (daí as questões serem infinitas; daí a com a criação das condições para a decisão
abertura para a especulação). jurídica dos conflitos.
FONTE: Elaboração própria a partir de FERRAZ JR., 2003, passim.

A distinção entre zetética e Ciência do Direito, porém, não deve ser lida para
reforçar a ideia de dogmática como saber adstrito ao direito positivo enquanto conjunto de
premissas inquestionáveis estabelecidas pelo poder e que impõem certezas; na verdade, o
direito positivo não é nem inquestionável, nem certo.
O próprio Ferraz Jr. afirma que a Ciência do Direito adota como vinculantes
premissas resultantes de uma decisão, mas a vinculação da dogmática ao direito posto,
segundo ele, não significa que ela trabalhe com certezas. As incertezas não são eliminadas
pelos dogmas, mas apenas inicialmente delimitadas. O trabalho do jurista vincula-se aos
dogmas, mas não se limita a repeti-los; assume o direito posto como ponto de partida
59

inquestionável, vinculante, mas esclarece o significado das normas segundo um “âmbito de


disponibilidade significativa”.114
Segundo o nível no qual se dá a investigação zetética, Tércio Sampaio Ferraz Jr. a
distingue em zetética empírica, em que investigação que se dá no nível empírico, segundo os
limites da experiência; e zetética analítica, em que investigação que se dá no nível formal (da
lógica, da teoria do conhecimento ou da metafísica etc.). Ademais, conforme o sentido, o tipo
de resultado, a investigação zetética se divide, ainda, em zetética pura, com sentido puramente
especulativo; e zetética aplicada, i.e., que pode produzir resultados que sirvam de base para
uma eventual aplicação técnica à realidade.115 A combinação dos critérios faz com que
tenhamos quatro tipos de disciplinas zetéticas116: a zetética analítica pura, voltada aos
pressupostos últimos e condicionantes do fenômeno jurídico e de seu conhecimento, bem
como à crítica de seus fundamentos formais e materiais; a zetética analítica aplicada, que
cuida da instrumentalidade dos mencionados pressupostos últimos e condicionais e
fundamentos formais e materiais do fenômeno jurídico e de seu conhecimento; a zetética
empírica pura, que lida com o fenômeno jurídico enquanto fenômeno social com sentido de
conhecer; e, finalmente, a zetética empírica aplicada, que lida com o fenômeno jurídico
enquanto fenômeno social com sentido de conhecer e de aplicar, enquanto instrumento que
atua socialmente segundo determinadas condições sociais.

Quadro 7 - Tipos de investigação zetética segundo Ferraz Jr.


TIPOS DE INVESTIGAÇÃO ZETÉTICA SEGUNDO FERRAZ JR.
TIPO CARACTERÍSTICAS EXEMPLOS
Lida com os pressupostos últimos e condicionantes
Filosofia do Direito, Lógica
ANALÍTICA e com a crítica dos fundamentos formais e
Formal das Normas, Metodologia
PURA materiais do fenômeno jurídico e de seu
Jurídica
conhecimento

114
FERRAZ JR., 2003, p.49-50.
115
FERRAZ JR., 2003, p.44-45.
116
FERRAZ JR., 2003, p.45-46 e seguintes.
60

Lida com a instrumentalidade dos pressupostos


ANALÍTICA Teoria Geral do Direito, Lógica
últimos e condicionantes do fenômeno jurídico e
APLICADA do Raciocínio Jurídico
seu conhecimento, nos aspectos formais e materiais
Cuida do Direito enquanto regularidades de
Sociologia jurídica, Antropologia
EMPÍRICA comportamento, enquanto atitudes e expectativas
jurídica, História do Direito,
PURA generalizadas que permitam explicar os diferentes
Psicologia Jurídica etc.
fenômenos sociais
EMPÍRICA Cuida do Direito como um instrumento que atua Psicologia forense, criminologia,
APLICADA socialmente dentro de certas condições sociais medicina legal etc.
FONTE: Elaboração própria a partir de FERRAZ JR., 2003, passim.

É possível definir a dogmática jurídica, assim, como o conhecimento sobre o


Direito que não seja zetético, ou que não seja predominantemente zetético; e também como o
conhecimento que exibe as características expostas até aqui, como função diretiva e finalidade
de criar as condições para a decisão jurídica de conflitos sociais dentro dos quadros do direito
vigente.
Na obra “(Re)Pensando a Pesquisa Jurídica”, Miracy Barbosa Sousa Gustin e
Maria Teresa Fonseca Dias apresentam elementos adicionais para uma contextualização
crítica da dogmática jurídica, a começar pelo destaque de quatro modelos teóricos de
produção do saber jurídico:

Quadro 8 - Modelos teóricos de produção do saber jurídico


MODELOS TEÓRICOS DE PRODUÇÃO DO SABER JURÍDICO
MODELO DESCRIÇÃO
Dirige-se “às questões voltadas ao ordenamento jurídico e às suas relações
internas”, e preocupa-se com “a sistematização de regras e de normas”. Logo,
ANALÍTICO tem como “elemento primordial a norma, e, como paradigma, o Direito como
campo autônomo em relação à sociedade”. Por isso a ele reputa-se um caráter
“formalista”.
Também conhecido como “teoria da interpretação”, tal qual
“tradicionalmente concebido”, “constrói-se como sistema jurídico aplicado e
HERMENÊUTICO
compreensivo das condutas humanas por meio da atividade discursiva-
interpretativa”.
61

“[R]azoavelmente trabalhado por Viehweg, e, entre nós, por Tércio Sampaio


Ferraz Júnior, constitui-se como teoria da decisão jurídica no sentido de
EMPÍRICO investigar normas de convivência, no interior ou no exterior do ordenamento
jurídico, para facilitar os procedimentos decisórios formais e não
formalizados”.
Também conhecido como “teoria da argumentação jurídica”, “é aquele que
sustenta a necessidade de convencimento, por meio da atribuição de validade
aos argumentos utilizados e de legitimidade dos procedimentos decisórios e
dos próprios argumentos”, invertendo “o procedimento da subsunção
ARGUMENTATIVO
silogística”, pois segue a “tendência contemporânea” de “construção da
premissa maior a partir do esclarecimento do caso”, já que “as premissas
maiores, por si, já não dão conta da complexidade do “real” como dado
antecedente ou construído”.
FONTE: Elaboração própria a partir de GUSTIN; DIAS, 2006, p.12.

“Nessa análise dos modelos mais correntes”, destacam Gustin e Dias, “é


necessário entender que há uma interação entre esses modelos que não se constitui, porém,
como uma unidade sistemática (forma tradicionalmente utilizada).” E prosseguem:

A interação entre esses modelos dá-se por meio de um processo dialético de


inclusão/complementação/distinção. Ou seja, cada um deles deve ser entendido
dentro de suas particularidades e, na aplicação, esses modelos podem ser
complementares e inclusivos, apesar de se distinguirem em seus fundamentos. Essa
complementaridade, entretanto, dá-se a partir de permanentes conflitos de
contraditoriedade, por ser um processo dialético de realização. 117

A partir das contribuições metodológicas do jurista mexicano Jorge Witker, Dias e


Gustin também situam a dogmática entre três grandes vertentes da pesquisa jurídica:

Quadro 9 - Grandes vertentes teórico-metodológicas da pesquisa jurídica.


GRANDES VERTENTES TEÓRICO-METODOLÓGICAS DA PESQUISA JURÍDICA
VERTENTE DESCRIÇÃO
Essa vertente “considera o Direito com autossuficiência metodológica e trabalha
com os elementos internos ao ordenamento jurídico. Desenvolve investigações
com vistas à compreensão das relações normativas nos vários campos do Direito
JURÍDICO-
com a avaliação das estruturas interiores ao ordenamento jurídico. Acentua a noção
DOGMÁTICA
de eficiência das relações entre e nos institutos jurídicos, restringindo a análise do
discurso normativo aos limites do ordenamento”, o que, por outro lado, não
necessariamente se confunde com “estar voltado apenas para o interior do

117
GUSTIN; DIAS, 2006, p.12.
62

ordenamento ou ali enclausurado”, pois as “relações normativas devem, também,


ser pensadas de forma externa, vital, no mundo dos valores e relações da vida”, e a
preocupação não só com a “eficiência das relações normativas, mas, inclusive, sua
eficácia”, não implica transformar “a vertente dogmática em um tipo sociológico
puro”.
Essa vertente “propõe-se a compreender o fenômeno jurídico no ambiente social
mais amplo”, colocando o Direito “como variável dependente da sociedade”, com
foco nas “noções de eficiência, eficácia e de efetividade das relações
Direito/sociedade”. “Preocupa-se com a facticidade do Direito e com as relações
contraditórias que estabelece com o próprio Direito e com as relações
contraditórias que estabelece com o próprio Direito e com os demais campos:
JURÍDICO- sociocultural, político e antropológico”. Assim, enquanto a vertente jurídico-
SOCIOLÓGICA dogmática “preocupa-se prioritariamente, mas não apenas, com a noção de
eficiência”, a vertente jurídico-sociológica, “a partir do sentido de eficácia, estuda
a realização concreta de objetivos propostos pela lei, por regulamentos de todas as
ordens e de políticas públicas ou sociais. A análise de efetividade que essa segunda
também faz, cumpre o mesmo papel da eficácia, complementando-o com a análise
de demandas e de necessidades sociais e de sua adequação aos institutos jurídicos,
sociais e políticos”.
Essa vertente “acentua os aspectos conceituais, ideológicos e doutrinários de
determinado campo que se deseja investigar”. “Essa vertente relaciona-se, mais
JURÍDICO- diretamente, com a esfera da Filosofia do Direito e com as áreas teórico-gerais dos
TEÓRICA demais campos jurídicos. E deverá seguir os mesmos passos das demais, à exceção
dos procedimentos metodológicos das pesquisas de campo”, o que não significa
que pesquisas jurídico-teóricas “não tenham natureza aplicada com as demais”.
FONTE: Elaboração própria a partir de GUSTIN; DIAS, 2006, p.21-22.

A rigor, Gustin e Dias criticam a vertente jurídico-teórica como vertente


autônoma, apregoando que, a rigor, existiriam apenas duas grandes vertentes, a jurídico-
dogmática e a jurídico-sociológica, cada qual sendo passível de fazer uso de procedimentos
metodológicos de investigação tanto teóricos quanto de campo.118
Por fim, destaco os tipos de raciocínio das pesquisas jurídico-dogmáticas e
jurídico-sociológicas sistematizados por Gustin e Dias, peça importante para o complexo
mosaico que compõe a dogmática jurídica em sua melhor versão. Basicamente, as
investigações jurídicas podem assumir raciocínios dos tipos indutivo, dedutivo, indutivo-

118
GUSTIN; DIAS, 2006, p.22.
63

dedutivo, hipotético-dedutivo e dialético, nenhum deles isentos completamente de críticas ou


ressalvas. O quadro a seguir visa sintetizá-los:

Quadro 10 - Tipos de raciocínio da pesquisa jurídica.


TIPOS DE RACIOCÍNIO DAS PESQUISAS JURÍDICAS
TIPO DESCRIÇÃO E CRÍTICAS
É “o caminho do particular para o geral”, i.e., um “processo mental que parte de
dados particulares e localizados e se dirige a constatações gerais”, que não
estavam, “nem implicitamente, nas premissas”. “Assim, as conclusões do processo
indutivo de raciocínio são sempre mais amplas do que os dados ou premissas dos
INDUTIVO quais derivaram”. É marcado por três fases: “a observação dos fatos ou fenômenos,
a procura da relação entre eles e o processo de generalização dos achados nas duas
primeiras fases”. “A indução está originariamente ligada a Francis Bacon e o
empirismo”. “Nas Ciências Sociais Aplicadas, a crítica que se pode fazer ao uso da
indução é que as pesquisas dessa área não permitem generalizações completas por
se restringirem a campos sociais específicos, sendo difíceis as universalizações dos
conhecimentos obtidos”.
É “o processo que faz referência aos dados de nossa experiência ou às normas e
regras em relação a leis e princípios gerais e ao maior número de casos que a eles
possam ser referidos. Esse raciocínio trabalha com a suposição de subordinação,
ou seja, uma especificidade subordina-se a uma regularidade geral”.
Diferentemente do tipo indutivo, aqui, “se todas as premissas são verdadeiras, a
conclusão deve ser verdadeira”, e essa conclusão “já estava” presente, “ao menos
DEDUTIVO implicitamente, nas premissas”. Esse processo “relaciona-se, também em suas
origens, ao racionalismo cartesiano”. “Critica-se o raciocínio dedutivo porque [...]
fornece premissas gerais das quais fatos ou regularidades podem ser derivados,
mas isso nem sempre é suficiente para uma compreensão mais ampliada”, e,
ademais, muitas vezes é possível fornecer explicações sem conectá-las a leis ou
princípios gerais, o que leva a afirmativa de que o tipo dedutivo não seria
“condição suficiente de explicação, nem necessária”.
É uma tentativa de combinação dos tipos dedutivo e indutivo, com o intuito de
“solucionar de alguma forma as insuficiências de cada um deles per si”, o que lhe
INDUTIVO-
rende a crítica de que a combinação desses tipos não deve ocorrer, por possuírem
DEDUTIVO
“fundamentos que se contrapõem”. Apesar da crítica, “esse tipo tem sido
crescentemente utilizado e a partir dele tem-se obtido resultados razoáveis”.
64

Defendido por Karl Popper na obra “A lógica da pesquisa científica”, não como
tipo de raciocínio, mas como “método”, ele se caracteriza a partir das seguintes
características: “a) existem expectativas ou teorias já existentes; b) surge o
problema de conflitos com as expectativas ou teorias já existentes; c) propõem-se
soluções a partir de conjecturas (dedução de consequências na forma de
proposições passíveis de teste; d) teste de “falseamento” (tentativa de refutação
HIPOTÉTICO-
pela observação e experimentação ou por outros procedimentos)”. Com isso, “se a
DEDUTIVO
hipótese não suporta o teste, será refutada”; se o contrário ocorrer, “a hipótese será
ratificada, porém provisoriamente, até que outra posterior possa falsificá-la”. As
críticas feitas ao tipo hipotético-dedutivo, além das normalmente feitas ao tipo
dedutivo em geral, residem no fato de que “não são possíveis raciocínios somente
fundamentados na eliminação do erro sem estarmos interessados em vislumbrar
certezas que, é claro, não são pensadas como verdades absolutas”.
É um tipo de raciocínio que, em brevíssima suma, considera seu objeto como um
processo contínuo de coexistência e superação de contrários. Popper criticou o
raciocínio dialético erroneamente na sua obra “Conjecturas e refutações”, porque
confundiu a unidade dialética dos contrários como uma identidade de
DIALÉTICO
contraditórios – esta última, logicamente impossível. Esse erro é decorrente em
especial do mal-uso do tipo dialético, i.e., quando a partir dele são realizadas
reflexões puramente teóricas e abstraídas de “um processo de análise crítica da
realidade prática”.
FONTE: Elaboração própria a partir de GUSTIN; DIAS, 2006, p.22-26.

A partir deste últimos elementos, a dogmática jurídica é contextualizada como


saber que se preocupa com as tarefas de sistematização e de interpretação do direito positivo e
com finalidades práticas institucionais, com o que é chamado de dimensão tecnológica do
saber jurídico, mas não só. Se for possível uma síntese em duas palavras do algo a mais que
também integra a dogmática jurídica, assim a faria: complexidade e função social. Isso se
reforça também pelo que é exposto nos próximos tópicos. Antes deles, esclareço uma razão
adicional para a preferência pela expressão “Ciência do Direito” em detrimento de
“dogmática jurídica”.
Miracy Gustin e Maria Teresa Fonseca Dias apontam que, até meados do século
XX a Ciência do Direito limitava-se ao saber dogmático no sentido de teorias sobre as normas
vigentes e suas exigências práticas, com fito de sistematização e interpretação unidisciplinar
do Direito como elenco de normas e instituições. Era dado maior realce ao aspecto regulador
do Direito, e o saber jurídico tinha natureza dogmático-tecnológica. Nas palavras das autoras,
65

“priorizava-se a criação de condições para a ação e para o aumento da possibilidade de


decisão dos conflitos sociais, sem se preocupar com a problematização dos fenômenos sócio-
jurídicos”.119 É interessante notar que, embora a concepção de dogmática jurídica de Tércio
Sampaio Ferraz Jr. seja mais uma teorização mais recente e se abra de algum modo para
considerações de justiça (e que incluem até a justiça e a razoabilidade como fontes da
vinculação jurídica), ela não deixa de se aproximar bastante da descrição feita por Gustin e
Dias.
Não que a decisão não seja importante, mas algo muda: segundo Gustin e Dias, a
partir de novas condições da Ciência do Direito e das demais Ciências Sociais Aplicadas
diante da complexidade das relações sociais. “A Ciência Jurídica contemporânea”, afirmam
Gustin e Dias, “apela à razoabilidade, ao conhecimento crítico e à reconceituação do ato
justo.” Seu conjunto de complexos argumentativos deve trabalhar com a validade dos
argumentos segundo sua relevância prática e capacidade de emancipação de indivíduos e
grupos sociais.120 Complexos argumentativos a serviço da justiça, ou submetidos à avaliação
crítica afiançada, em última instância, no que seja justo, emancipatório.

3.6. A CIÊNCIA DO DIREITO É VALORATIVA E COMBINA ELEMENTOS TEXTUAIS E


EXTRATEXTUAIS

O positivismo jurídico é a corrente filosófica que entende que a existência e o


conteúdo do Direito dependem de fatos sociais, e não de seu mérito ou valor. Neste sentido,
enfatiza a “natureza convencional do direito”, o fato de ele ser “socialmente construído”, e
coloca o Direito como sinônimo de normas positivadas, socialmente postas.121
Historicamente, o positivismo jurídico emergiu em oposição à teoria jusnaturalista
clássica, caracterizada resumidamente por Keneth Himma como sendo a corrente que defende
haver, necessariamente, limites morais em relação ao conteúdo do Direito. O mesmo Himma
especula que o termo “positivismo” foi provavelmente usado para se referir ao direito “posto”
ou “positivado”, em contraposição ao direito “natural”.122
Seus antecedentes filosóficos modernos estão na filosofia política
convencionalista de Hobbes e Hume, e sua primeira formulação completa (adotada,
modificada e popularizada por John Austin) é atribuída a Jeremy Bentham. A visão positivista
predominante no século XIX, um amálgama das concepções de Bentham e Austin, identifica

119
GUSTIN; DIAS, 2006, p.11.
120
GUSTIN; DIAS, 2006, p.11.
121
HIMMA, s.d.; GREEN, 2009.
122
HIMMA, s.d.
66

o Direito, em linhas gerais, com o comando ou os comandos dados pelo soberano e apoiados
pela ameaça do uso da força. Nela, há uma ênfase em quem dá os comandos, em quem cria as
normas, e a força coercitiva tem um papel central. No século XX, essa visão sofre
reformulações importantes, como as capitaneadas por Hans Kelsen (1881-1973), Herbert Hart
(1907-1992) e Joseph Raz. Nelas, se sobressai o caráter sistemático e normativo do Direito, e
há maior atenção com as instituições de aplicação do Direito. Fora da teoria do direito de
cunho filosófico e analítico, o argumento nuclear ao positivismo de que a existência e o
conteúdo do Direito dependem de fatos sociais pode ser encontrado em diferentes autores e
correntes, incluindo os três “pais” da sociologia moderna – Karl Marx (1818-1883), Max
Weber (1864-1920) e Émile Durkheim (1858-1917) –, os realistas práticos estadunidenses, as
feministas contemporâneas, dentre outros.123
A associação entre Direito e neutralidade pode ser feita tanto em relação ao
conteúdo do Direito, quanto em relação à descrição desse conteúdo. A primeira possibilidade
é descrita por Green, com acerto, como tão errônea que não pode nem mesmo ser tida como
falsa. A ideia de que o Direito possa ser axiologicamente neutro (value-neutral) é
simplesmente incoerente, uma vez que o Direito é um sistema normativo que promove certos
valores ao mesmo tempo em que reprime outros. O Direito, ressalta Green, não é neutro
diante do proprietário e do ladrão, da vítima ou do agressor. Reclamações de que o Direito
não está sendo neutro têm normalmente outro foco: são exigências de que ele seja justo,
imparcial etc. O positivismo jurídico, contudo, é por vezes associado não a essa, mas à outra
possibilidade: à ideia de que a filosofia ou teoria do direito deve ser axiologicamente neutra.
Hart, e.g., descreve sua obra como sendo de “sociologia descritiva”; e Kelsen, por sua vez,
afirma que “a função da ciência do Direito não é a de avaliar seu objetivo, mas de descrevê-lo
objetivamente”.124 A expressão “tese da neutralidade” será aplicada para designar essa ideia.
Para Green, a tese da neutralidade não se sustenta. A presença de argumentos
fortes em favor da impossibilidade de eliminação da influência dos valores nas ciências
sociais, reforçada pelos paradigmas de Kuhn (que abordo em detalhe no capítulo 6 da presente
tese), podem conduzir à rejeição, a priori, de certa neutralidade descritiva (por prometer algo
que nenhuma teoria é capaz de cumprir). Isso não quer dizer que o positivismo jurídico, ao
afirmar a tese dos fatos sociais, esteja necessariamente avaliando o Direito, porque dizer que
sua existência depende de fatos sociais não conduz a defender que isso seja algo bom ou ruim.

123
GREEN, 2009.
124
GREEN, 2009.
67

Ainda assim, uma descrição livre de qualquer tipo de valoração revela-se impossível. Seja
qual for a relação entre fatos e valores, não há dúvidas sobre a relação entre descrições e
valores: toda descrição é permeada por valores, já que seleciona e sistematiza apenas um
subconjunto de um número infinito de fatos, o que pressupõe uma escolha justificada de por
que esse subconjunto é relevante para a análise ou descrição (e o porquê da exclusão dos
demais fatos que não integram o subconjunto examinado). Ademais, “Direito” é matéria
antropocêntrica dependente não apenas de capacidades sensoriais, mas também de
capacidades morais. Tribunais, decisões e normas jurídicas não aparecem numa descrição
puramente física do universo.125
A tese da neutralidade discutida por Green diz respeito à filosofia analítica do
Direito e à sua tarefa de descrição conceitual do Direito. É uma tese de teoria do direito, e não
de Ciência do Direito em sentido estrito, i.e., não é uma tese da neutralidade relativa às tarefas
de enfrentamento de problemas jurídicos relacionados a um direito positivo específico.
Como visto no subtópico anterior, Machado Segundo atribui ao positivismo uma
abordagem descritivista (pretende examinar o direito posto, o que o direito é), reducionista
(rejeita o aspecto decisório e o caráter inafastável dos valores) e normativa (embora pretenda
apenas descrever a realidade, prescreve como a realidade deve ser descrita para que a
descrição seja científica). Em relação ao ponto do reducionismo, é possível distinguir dois
positivismos: o positivismo que crê na tese que chamei de descritivista forte, segundo a qual
cabe ao cientista do Direito descrever objetivamente a norma como ela é, entendida como um
objeto externo a ele; e o positivismo que reconhece a existência de situações em que há
diferentes interpretações possíveis e um juízo do intérprete por uma delas, mas rejeita esse
juízo como não sendo científico ou passível de fazer parte da “Ciência do Direito”.
A tese descritivista forte é associada a uma tese da neutralidade própria da Ciência
do Direito: quem adere a ela crê que é possível e desejável que o jurista limite-se a descrever
o direito posto sem a emissão de qualquer juízo de valor. Há aí um engano de muitas facetas.
Valores estão presentes nos sentidos possíveis do texto normativo, no sujeito que compreende
esses sentidos e precisa fazer uma escolha justificada por uma das hipóteses interpretativas, na
escolha e delimitação do próprio problema jurídico que enseja a investigação, na maneira
como o jurista seleciona quais materiais são relevantes para as situações concretas ou
hipotéticas que integram o seu problema e quais materiais não o são, na forma pela qual o

125
GREEN, 2009. É por isso que Dickson, lembra Green, irá considerar que a teoria do Direito é, pelo menos,
“indiretamente valorativa” (indirectly evaluative).
68

jurista resolve possíveis conflitos entre normas e entre resultados contrários de critérios ou
métodos interpretativos, no modo do jurista resolver problemas de imprecisão da linguagem
dos textos normativos, enfim, não é possível imaginar uma pesquisa sobre problemas jurídico-
dogmáticos que não envolva valores e juízos de valor. Eles fazem parte da essência do
trabalho do jurista.
A filosofia é feita de diferentes técnicas e estratégias. Dentre elas, é muito comum
que os filósofos explorem cenários contrafactuais ou hipotetizem sobre como alguém com um
ponto de vista externo encararia determinada situação. Noam Chomsky, Marc D. Hauser e W.
Tecumseh Fitch, por exemplo, abrem o artigo “The Faculty of Language: What Is It, Who
Has It, and How Did It Evolve?” com um exercício desse tipo. Os autores imaginam o que um
visitante alienígena, um marciano, pensaria sobre as criaturas vivas do nosso planeta, e supõe
que ele perceberia uma similaridade notável entre todas elas – seu design baseado em
sistemas escritos numa linguagem quase universal codificada em pares de DNA –, e uma
igualmente notável diferença: a faculdade que media a comunicação humana, marcadamente
distinta de qualquer coisa encontrável nas demais criaturas.126 Para perceber que o trabalho
jurídico envolve juízos de valor, não é preciso ir tão longe. Há um exemplo real do ponto de
vista externo de um humano a respeito do Direito que vale a pena ser registrado, e foi
trabalhado por mim no texto “O que os juristas podem aprender com um físico teórico?”.127
Sem embargo, na obra “Physics of the Future — How Science will shape human
destiny and our daily lives by the year 2100”, o professor e físico teórico estadunidense
Michio Kaku arrisca previsões sobre como os esperados avanços da ciência e da tecnologia
modificarão as sociedades humanas nas próximas décadas. Confira as considerações dele
sobre o futuro do trabalho dos juristas em meados do século XXI (2030 a 2070)128:

Os profissionais envolvidos com relações humanas, como os juristas, terão emprego.


Um advogado-robô será capaz de responder questões rudimentares sobre o Direito;
mas, o próprio Direito está em constante mudança, a depender dos cambiantes
padrões sociais e costumes. Em última análise, a interpretação do Direito resume-se
a um juízo de valor, campo em que robôs são deficientes. Se o Direito fosse claro e
inequívoco, com interpretações precisas e evidentes, não haveria necessidade de
[existirem] tribunais, magistrados e júris. Um robô não pode substituir um júri,
porque júris normalmente representam os costumes de um grupo específico, que
estão em constante mudança ao longo do tempo. Isso se revelou mais aparente
quando, certa vez, o ministro da Suprema Corte Potter Stewart teve de definir
‘pornografia’. Ele não conseguiu fazê-lo, mas concluiu: ‘Eu sei o que é quando me
deparo com ela’. Além disso, será provavelmente ilegal que robôs substituam o
sistema de justiça, já que as nossas normas têm consagrado um princípio

126
HAUSER; CHOMSKY; FITCH, 2002, p.1569.
127
ALVES, 2014.
128
KAKU, 2011.
69

fundamental: o de que os júris devem ser constituídos pelos nossos pares. Como
robôs não podem ser nossos pares, será [provavelmente] ilegal que eles possam
substituir o sistema de justiça. Na superfície, as normas parecem ser exatas e bem
definidas, com formulações linguísticas precisas e rigorosas e títulos e definições
que soam solenes e arcanos. Mas trata-se de mera aparência, pois as interpretações
dadas a essas definições constantemente se modificam. A Constituição dos Estados
Unidos, por exemplo, parece ser um documento bem definido; ainda assim, a
Suprema Corte se encontra constantemente dividida em meio a questões
controversas, e está permanentemente reinterpretando cada palavra e frase do texto
constitucional. A natureza cambiante dos valores humanos pode ser facilmente
percebida na história. Por exemplo: a Suprema Corte decidiu, em 1857, que escravos
jamais poderiam se tornar cidadãos dos Estados Unidos. Em certo sentido, foi
necessária uma guerra civil e a morte de milhares de pessoas para que essa decisão
fosse derrubada.

As colocações de Kaku são instigantes por várias razões. Em primeiro lugar, é


bem interessante perceber a visão de um cientista, não jurista, sobre o Direito. Enquanto rios
de tinta correram e correm nos debates sobre o papel dos juízos de valor e da moralidade em
geral no campo jurídico, Kaku não tem nenhuma hesitação em afirmar que robôs não
substituirão juristas precisamente em virtude da natureza do Direito: essencialmente
cambiante, interpretativa e valorativa, associada fundamentalmente à moralidade.
Para exemplificar esse caráter do Direito, o autor lança mão de dois exemplos
principais: a dificuldade de fechamento conceitual no caso da definição jurídica de
“pornografia” num caso da Suprema Corte estadunidense e a mudança da jurisprudência da
mesma corte em relação à escravidão. Esse segundo exemplo, aliás, é particularmente
ilustrativo do caráter político do Direito, tantas vezes ocultado. No momento, vou me ater ao
primeiro exemplo, que nos leva a um outro ponto de particular importância para o jurista: a
velha questão dos conceitos jurídicos abstratos, de maior grau de indeterminabilidade (e,
portanto, maior abertura para o trabalho interpretativo criativo dos juristas).129
As democracias capitalistas contemporâneas estão associadas a sistemas jurídicos
abstrusos, que têm o desafio fundamental de regular condutas em sociedades altamente
complexas e em constante e célere transformação, na linha tênue entre mudança e
continuidade (e continuidade na mudança, e mudanças na continuidade). Atrás do jogo de
palavras existe um drama jurídico concreto — um dos muitos lugares dialéticos do Direito,
como diria o professor João Baptista Villela —, resumido num adágio formulado pelo jurista
Nathan Roscoe Pound, compatriota de Kaku: “O Direito deve ser estável, mas não pode ser
estático” (Law must be stable, and yet it cannot stand still).130

129
KAKU, 2011.
130
VILLELA, 2004.
70

A fala do ministro da Suprema Corte Potter Stewart sobre o caso específico da


definição jurídica de “pornografia” lembrada por Kaku nada estranhamente se assemelha ao
tratamento dado pela poetisa Cecília Meireles ao conceito de “liberdade”, no seu clássico
Romanceiro da Inconfidência: “Liberdade / essa palavra / que o sonho humano alimenta / que
não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda”.131 A ausência de fechamento
conceitual pode ser, a um só tempo, insatisfatória para as expectativas de segurança e certeza,
e necessária para a abertura do Direito à moralidade, à legitimidade social, ao progressismo e
às mudanças sociais. Uma espada de dois fios de corte, que exige do jurista um trabalho
perigoso que supera até mesmo as capacidades dos robôs das previsões do físico teórico.
Este equilíbrio, ou melhor, este equilibrismo entre segurança e justiça se manifesta
numa tentativa teórica muito pertinente de compreender a dogmática jurídica, levada a cabo
por Carlos Santiago Nino. Ao considerar a relação entre teoria e prática jurídicas, Brian Bix
salientou que costumeiramente juristas justificam sua preferência por uma determinada teoria
jurídica com base em dois critérios: a adequação descritiva, entendida em suma como a
capacidade de explicar a prática; e a superioridade prescritiva, i.e., a capacidade da teoria de,
em determinados casos, conduzir a resultados melhores.132 O que a caracterização da
dogmática jurídica por Santiago Nino transparece é uma preocupação em descrever como a
prática dogmática de fato se opera, quer os juristas estejam conscientes disso, quer não;
arroubo descritivo muito mais do que prescritivo, se de alguma maneira prescritivo um pouco
for.
Segundo Santiago Nino, os juristas, mesmo sabendo “que sua atividade está
sujeita a regras metodológicas com algum rigor e que os resultados que obtêm são avaliáveis
por outros dogmáticos com base em critérios compartilhados”133, ao refletirem sobre ela “com
grande frequência incorrem em um conjunto de afirmações superficiais, imprecisas e
contraditórias.”134 Até grandes cultores do estudo do Direito formulam, em geral,
“elucubrações vãs”, como ilustra a “Metodología del Derecho” de Francesco Carnelutti, na
qual podem ser encontradas “afirmações literárias sobre a necessidade de abandonar os livros
e observar a vida”, “sobre a alta dignidade dos juristas”, “sobre o caráter amargo dos
penalistas” etc.135

131
MEIRELES, 1977.
132
BIX, 2006.
133
SANTIAGO NINO, 1989, p.104.
134
SANTIAGO NINO, 1989, p.103.
135
SANTIAGO NINO, 1989, p.103. Às críticas de Santiago Nino, eu acrescentaria que Carnelutti defende uma
concepção de ciência jurídica bastante questionável por razões que já apresentei aqui em páginas anteriores, ao
71

Teóricos do Direito, segundo ele, não se animaram o suficiente para investigar os


ideais e as funções da dogmática enquanto tal, conformando-se em certificar as notórias
diferenças entre ela e as atividades científicas e buscando algum esquema de ciência jurídica,
como ocorre no exemplo típico da jurisprudência realista de Alf Ross, para quem cabe à
Ciência do Direito apresentar proposições descritivas sobre a vigência da norma em um
determinado lugar, reduzidas a predições sobre o comportamento futuro dos juízes (vigente
sendo a norma que provavelmente será levada em conta pelos juízes no futuro).136 Em sua
perspectiva, a explicação de Ross falha ao adotar um ideal de ciência que pode até ser o do
advogado prático, mas não reflete aquele compartilhado pelos juristas de maneira geral: o
ideal de ciência jurídico não consiste em estabelecer como os juízes irão decidir, mas como
devem decidir.137
Para Santiago Nino, a atividade dos juristas é frequentemente pautada por uma
“ideologia dogmática” que abarca, simultaneamente, o dogma de que o Direito positivo, tal
qual sancionado pelo criador da norma (via de regra, o legislador), deve ser aplicado; o dogma
de que o Direito positivo não possui lacunas ou contradições e que suas normas apresentam
significado unívoco; o ideal de que a dogmática jurídica deve orientar as decisões e adequá-
las aos padrões valorativos vigentes.138
A compreensão dessa pauta e de como seus componentes emergem e relacionam
entre si depende de um percurso teórico e histórico que envolve transformações no Direito e
nos modos de enxergar e trabalhar o Direito, a começar pela justaposição entre os programas
jusnaturalista e positivista, sendo a interpretação desse autor.
O programa jusnaturalista, para quem a ideia de justiça integra necessariamente o
conceito de Direito (sendo justiça condição de validade), envolve: (i) compreender que o
Direito possui implicitamente algum tipo de propriedade ética específica que o distingue de
uma ordem de força pura e, assim, o jurista deve realizar uma apreciação axiológica das
normas para determinar seu objeto; (ii) postular, mais ou menos vagamente, os critérios
valorativos para julgar o caráter jurídico de um ordenamento. Nestes termos, a validade não é

defender, v.g., que a função da ciência do Direito é o “descobrimento da regra da experiência jurídica”, e que a
estrutura da ciência do Direito se desdobra em dois níveis: “observação e elaboração dos dados”; ou, na
linguagem do trabalho manual, “provisão das primeiras matérias e produção das manufaturas”, o que, no
campo do trabalho intelectual, significa dizer que “a matéria-prima são os fenômenos e o produto são os
conceitos”. Cf. CARNELUTTI, 2002 [1938], passim e p.18.
136
SANTIAGO NINO, 1989, p.104-105.
137
SANTIAGO NINO, 1989, p.105.
138
SANTIAGO NINO, 1989, p.105.
72

uma característica observável ou verificável empiricamente, mas apreensível por uma intuição
ou captação intelectual.139
O positivismo jurídico, a seu turno, defende que termos éticos (como a “validade”
no programa jusnaturalista) não designam propriedades objetivas com existência verificável;
juízos éticos não se sujeitam a critérios de verdade ou falsidade. Por isso, para ser científico o
estudo do Direito deve afastar-se de apreciações valorativas do sistema normativo em prol de
descrições puramente fáticas, i.e., baseadas em características observáveis.140
Há juristas que aceitam o jusnaturalismo, outros que aderem ao positivismo
jurídico, mas mesmo nos tempos em que o primeiro imperava os juristas desenvolviam
elaborações dogmáticas francamente positivistas, não raro aliando profissões de fé
jusnaturalista em partes gerais com a defesa de uma ciência e interpretação jurídica de lege
lata e não de lege ferenda.141
O jusnaturalismo, no trabalho de Santiago Nino, é tratado a partir de duas
vertentes: o jusnaturalismo teológico e o jusnaturalismo racionalista. O segundo substituiu as
bases teológicas do direito natural por bases racionais, num caminho que já estava muito
claramente marcado por Hugo Grócio ao defender a possibilidade de o direito natural
constituir-se mesmo num cenário de inexistência de Deus.142 Em seu desenvolvimento, esse
racionalismo jurídico levou à formulação de sistemas de soluções jurídicas independentes do
direito positivo, ao qual dirigiu cáusticas críticas (por sua incompletude, inconsistência,
irracionalidade etc.), baseadas em operações dedutivas a partir de axiomas autoevidentes.
Enquanto o jusnaturalismo teológico, com suas pautas gerais, não interferia
significativamente na investigação do direito positivo, o racionalismo fez seu direito natural

139
SANTIAGO NINO, 1989, p.19; ROSS, 2008, p.204-205: “[H]ay una idea común a todas las escuelas del
derecho natural: la creencia en que existen algunos principios universalmente válidos que gobiernan la vida
del hombre en sociedad, principios que no han sido creados por el hombre sino que son descubiertos,
principios verdaderos, que son obligatorios para todos, incluso para aquellos que no pueden o no quieren
reconocer su existencia. La verdad de estas leyes no puede ser establecida por medio de los métodos de la
ciencia empírica sino que presupone una interpretación metafísica de la naturaleza del hombre.10 Por esta
razón, la validez de estas leyes y las obligaciones que derivan de ellas no apuntan a nada observable. La
validez de las leyes del derecho natural nada tiene que ver con su aceptación o reconocimiento en los espíritus
de los hombres, y la obligación que ellas crean nada tiene que ver con ningún sentimiento de sentirse obligado,
con ninguna sanción de la conciencia, con ninguna otra experiencia. La validez incondicional de las leyes y el
carácter no psicológico de la obligación son simples consecuencias del punto de partida según el cual esas
leyes son descubiertas, son dadas objetivamente, son una realidad, aunque no la realidad susceptible de
observación sensorial. El proceso cognoscitivo por medio del cual esas leyes son descubiertas y enunciadas es
diferente del proceso empírico, pero el resultado es el mismo; conocimiento, captación (insight), verdad. La
validez “universal” de las leyes significa lo mismo que la universalidad de un enunciado verdadero, lógico o
empírico, a saber, su independencia de las variables condiciones subjetivas.”
140
SANTIAGO NINO, 1989, p.20.
141
SANTIAGO NINO, 1989, p.21.
142
SANTIAGO NINO, 1989, p.21-22.
73

chegar aos contratos, hipotecas, sucessões, enfim, a pautas específicas, alimentando uma
tensão entre direito natural e direito positivo que resultaria, ao lado de outros fatores, nas
profundas reformas do próprio direito positivo traduzidas no movimento de codificação.
Enquanto tradução, para o direito positivo, do ideal racionalista, o código mudou a atitude dos
juristas com o direito positivo, embalados por uma percepção otimista de que os princípios
últimos, imutáveis e absolutos que regem a convivência do homem em sociedade haviam sido
descobertos.143 De inimigo da razão natural, o direito positivo passa a ser a sua expressão.
O direito positivo anterior era “um conjunto de disposições assistemáticas,
incompletas, muitas vezes contraditórias, ditadas sob a pressão de necessidades específicas,
com alto grau de imprecisão”, variável “segundo as diferentes regiões e condados e cuja
origem era geralmente consuetudinária”. Isso dificultava a própria identificação do Direito,
facilitada pela nova ordem, que além de refletir os ideais racionalistas foi construída sob sua
influência.144
As escolas de pensamento mais alinhadas a esse movimento (Escola da Exegese e
Jurisprudência dos Conceitos) sofreram fortes reações representadas por outras linhas de
teoria jurídica, aí incluídas a escola científica, a escola do direito livre, a jurisprudência dos
interesses, e também por movimentos políticos marxistas e fascistas. Entre as críticas, o
exegetismo foi questionado quanto à fundamentação, com propostas de retorno ao direito
natural teológico; acusado de congelar o Direito, de não atender às exigências da realidade
social e de restringir a função judicial ao colocar a decisão judicial como simples conclusão
de silogismo desprovido do exame de fatores axiológicos e sociológicos; implicado como
defensor dos interesses burgueses; dentre outras. Ainda assim, em relação a dois dentre os

143
SANTIAGO NINO, 1989, p.21-24.
144
“El derecho anterior a la codificación de los siglos XVIII y XIX era un conjunto de disposiciones
asistemáticas, incompletas, muchas veces contradictorias, dictadas bajo la presión de necesidades específicas,
con un grado muy grande de imprecisión, que variaban según las distintas regiones y condados y cuyo origen
era generalmente consuetudinario. Estas características hacían que fuera, en general, muy difícil identificar
con precisión el derecho positivo, por lo cual el jurista tenía un amplio juego de normas para justificar
determinada solución. Siempre era posible encontrar una disposición legal o una coutume en apoyo de
determinada tesis jurídica. Ahora el jurista se encontraba con un cuerpo orgánico y con un alto grado de
completitud y coherencia compuesto por relativamente pocas normas. Esto representó un fenómeno nuevo en
la historia del derecho.” SANTIAGO NINO, 1989, p.24. Para Santiago Nino (1989, p.24), a novidade tornou o
direito mais facilmente identificável, estreitando consideravelmente o campo de possibilidades interpretativas,
ao revés do sistema anterior, que dava ao jurista um amplo rol de normas para justificar determinada solução.
Na minha opinião, entre os extremos colocados o efeito parece ser correto: mais normas codificadas, maior
organização e detalhamento na regulação social, mais segurança ou certeza, menos espaço para arbitrariedades
interpretativas, por assim (algo impropriamente) dizer. Mas deve também haver um ponto ótimo na relação
entre segurança e mais normas codificadas a partir do qual essa mesma relação se inverte. Minha intuição
sobre isso baseia-se na minha própria experiência como advogado e como estudioso do mundo jurídico
prático, por perceber que um volume maior de normas e de detalhamento normativo pode também significar
um volume maior de disputas interpretativas.
74

axiomas exegéticos principais – preeminência à lei como fonte do Direito e vontade do


legislador como único critério de significação da lei –, as críticas tiveram somente o condão
de limitar o segundo axioma e incluir ao lado da vontade do legislador outros critérios de
adjudicação do sentido da norma, e de exercer efeito “absolutamente atenuado” em relação ao
primeiro axioma. Na visão de Santiago Nino, em resumo, as reações e críticas ao exegetismo
não impediram o movimento de lançar as bases da ideologia jurídica atual, construídas em
torno da “aceitação dogmática do direito positivo”.145
O papel do jurista dogmático de indicar aos órgãos jurisdicionais a solução correta
para cada caso, recomendando a aplicação do direito positivo tal como sancionado pelo
legislador, era justificado pelo racionalismo como decorrente do princípio da separação dos
poderes e da primazia do parlamento como expressão da vontade geral. Nestes termos, a
aceitação do direito positivo por parte do racionalismo e da exegese não deve ser tida como
“dogmática”, já que assentada em critérios valorativos pré-estabelecidos. Seu legado para a
ideologia jurídica não residiu, contudo, nestes critérios valorativos, mas na adesão ao direito
positivo, na sua aceitação baseada em critérios puramente formais.146 Em menos palavras: na
sua aceitação “dogmática”.
Aí chegamos numa compreensão melhor a respeito da “ideologia dogmática” e de
como ela se formou, valendo repisar seus três pilares: o dogma de que o Direito positivo, tal
qual sancionado pelo criador da norma (via de regra, o legislador), deve ser aplicado; o dogma
de que o Direito positivo não possui lacunas ou contradições e que suas normas apresentam
significado unívoco; o ideal de que a dogmática jurídica deve orientar as decisões e adequá-
las aos padrões valorativos vigentes.147
Neste quadrante, a legislação constitui um conjunto de expressões linguísticas às
quais o dogmático outorga sentido de acordo com determinadas regras sintáticas e semânticas
do seu sistema. Na atribuição de sentido, a dogmática se opõe ao exegetismo por incluir, entre
suas bases ideológicas, a recusa do axioma da intenção ou vontade do legislador (entendido
aqui como o legislador real, concreto, histórico, e não com a abstração conhecida como
“legislador racional”). Com isso, se diferencia de contextos cotidianos de comunicação, nos
quais usualmente a compreensão da fala do outro se dá pelo recurso ao uso comum das
palavras utilizadas como consequência de uma presunção – a de que o falante assim pretendeu
–, de tal sorte que se temos prova do contrário, abandonamos a presunção para seguir a

145
SANTIAGO NINO, 1989, p.25-28, 32.
146
SANTIAGO NINO, 1989, p.30-32.
147
SANTIAGO NINO, 1989, p.105.
75

verdadeira intenção do falante. O jurista não se vincula, pois, a sentido que o legislador
outorgou as palavras que decidiu utilizar, mas apenas às palavras utilizadas, cujo significado é
adjudicado pelo próprio jurista segundo determinadas regras. É certo que pode haver
coincidência entre o significado atribuído pelo jurista dogmático e aquele que o legislador
pretendia ao elaborar a norma, mas isso não é algo necessário; trata-se, pois, de mera
contingência.148
Para além de identificar as bases da ideologia dogmática, importa enormemente
perceber como há conflito entre elas, ao invés de harmonia; e, adicionalmente, como o jurista
resolve esse conflito, ainda que com alguma dose de engano ou mesmo autoengano.
Apesar de regularmente colocar sua atividade como descrição objetiva do direito
positivo, livre de opiniões pessoais, o dogmático ao mesmo tempo procede a uma verdadeira
reformulação desse Direito. Isso é incompatível com a aceitação dogmática do Direito
positivo, mas o dogmático faz com que pareça compatível ao ocultar o caráter original de sua
opinião sobre o Direito positivo para fazê-la parecer como decorrente de algum princípio ou
norma da ordem vigente. É a saída encontrada para cumprir duas exigências ou deveres
distintos: não fazer pouco da norma quando a julgar sem valor; construir um sistema de
soluções coerentes com postulados valorativos específicos. O dogmático atende parcialmente
a essas exigências através de um aparato conceitual e retórico, tendo o equilíbrio entre elas
como critério de excelência do seu trabalho jurídico, cumprindo assim a importante missão de
adequar o Direito legislado às mudanças fáticas e preferências sociais.149 Exerce, portanto,
uma função criadora do Direito, da qual quase nunca é consciente. A crença sincera de que as
soluções que encontra estão incluídas no sistema jurídico vigente e que coube a ele encontra-
las ou descobri-las é acompanhada pelo esforço do dogmático de fundamentá-las
juridicamente.150
A doutrina do legislador racional é um exemplo de aparato conceitual de largo
escopo usado para semelhante função de atuar criativamente sobre o Direito e ao mesmo
tempo manter a crença de que essa atuação não contraria o dogma do respeito ao Direito
positivo. De modo geral, o Direito positivo tem lacunas, contradições, vagueza semântica e

148
SANTIAGO NINO, 1989, p.111.
149
SANTIAGO NINO, 1989, p.32-33. “Para cumprir parcialmente com ambas as exigências, o dogmático utiliza
um aparato conceitual e retórico que lhe permite oferecer soluções com um alto grau de conformidade com
critérios valorativos que são simultaneamente apresentados como derivados do direito positivo.” SANTIAGO
NINO, 1989, p.33.
150
SANTIAGO NINO, 1989, p.33. “Para a dogmática a lei é a lei, mas também a lei oferece suficiente
flexibilidade para satisfazer, quase sempre, as expectativas acerca das soluções adequadas para os casos que se
apresentam.” SANTIAGO NINO, 1989, p.34.
76

ambiguidade semântica e sintática. É certamente equivocado o dogma que apregoa o


contrário, mas procura mantê-lo de pé através de refinada técnica retórica baseada no
pressuposto da racionalidade do legislador. O legislador racional é acionado para resolver a
situação de normas aparentemente incompatíveis através, v.g., da investigação de princípio
pressuposto que permita dar a elas âmbitos independentes, com eventual alteração pontual do
seu significado para preservar sua adequação a parâmetros valorativos aceitos, dando vazão à
“vontade real” de quem as criou. Também é acionado para afirmar a inexistência de lacunas,
já que o legislador jamais iria querer deixar âmbito algum de relações jurídicas sem regulação.
Diante da aparente lacuna, torna-se necessário descobrir algum princípio pressuposto pelo
legislador que lhe dê solução. Por fim, também as ambiguidades “aparentes” poderão ser
resolvidas pela inserção da norma no contexto sistemático apto a lhe dar significado
unívoco151 – contexto que, pois sim, também terá suas bases na obra do racional legislador.
Essas são, para Santiago Nino, “ficções” que “respondem, geralmente, a uma
constelação de concepções sinceras dos juristas sobre a natureza do Direito que se vinculam
às ideias do racionalismo.” “A maioria dos grandes dogmáticos”, prossegue o autor, entendem
que o ideal de sua atividade é descobrir os “princípios implícitos” do ordenamento jurídico,
valendo-se de variado instrumental de teorias, conceitos, critérios, classificações e pautas
interpretativas.152
O retrato da dogmática jurídica e das suas “bases ideológicas” feito por Santiago
Nino, creio, é parcial, mas tem a vantagem de captar a dinâmica de seguir o direito positivo,
interpretá-lo e aplicá-lo, e ao mesmo tempo, em alguma medida, criá-lo ou adequá-lo segundo
pautas valorativas, num quase jogo que se situa nalgum ponto entre o extremo objetivista de
quem segue uma ordem sem questionar ou de quem descreve um dado tal qual ele é sem
qualquer interferência subjetiva, e o extremo subjetivista de quem cria algo ex nihilo à
imagem de seus desejos e vontades.
151
SANTIAGO NINO, 1989, p.106.
152
SANTIAGO NINO, 1989, p.106-107. “Essas ficções respondem, geralmente, a uma constelação de
concepções sinceras dos juristas sobre a natureza do Direito que se vinculam às ideias do racionalismo. A
maioria dos grandes dogmáticos consideram como ideal de sua atividade não criar novo Direito, nem propor
soluções normativas baseadas nas consequências práticas, mas principalmente descobrir seus princípios
implícitos. Para isso, utilizam um variado instrumental que inclui teorias sobre a natureza jurídica de um
instituto; critérios seletivos de normas jurídicas; teorias sobre a finalidade de uma regulação; classificações
pretensamente ‘naturais’; definições ‘reais’; pautas para interpretar a ‘verdadeira’ vontade do legislador;
princípios supostamente necessários para todo Direito, como o do fechamento; princípios característicos de
determinados sistemas políticos, como o nullum crimen sine lege, nulla poena sine culpa e non bis in idem;
regras derivadas de uma pretendida estrutura dos conceitos fundamentais do Direito, como as que dispõem as
consequências do ‘abuso do Direito’, a ‘função social da propriedade’, a ‘autonomia da vontade contratual’, a
‘inexigibilidade de conduta diversa’ como causa de ausência de culpabilidade e o ‘consentimento do
interessado’ como causa de justificação; etecetera.” SANTIAGO NINO, 1989, p.106-107.
77

Como ressaltado anteriormente, além do positivismo que assume o descritivismo


forte, há também o que reconhece o caráter criativo do trabalho jurídico, mas o exclui do
âmbito da ciência jurídica. É tipicamente a posição de Hans Kelsen no famoso capítulo VIII
de sua “Teoria Pura do Direito”, já comentado anteriormente. Kelsen está certo em admitir a
plurissignificação das normas e a multiplicidade de critérios de interpretação, mas há uma
necessidade epistemológica, social e jurídica de racionalizar a decisão. O desenvolvimento de
critérios racionais e intersubjetivos de interpretação e decisão, no âmbito epistemológico,
permite que aquilo que sob as lentes de certo positivismo é “farinha de um mesmo saco” de
subjetividades possa tornar-se conjunto de afirmações mais e menos críveis ou melhor e pior
fundamentadas; no âmbito jurídico e social, atende às expectativas de que o Direito seja uma
técnica de regulação da vida em sociedade não arbitrária ou o menos arbitrária possível.
Neste sentido, entre as diferentes acepções da expressão “dogmática jurídica” 153,
Machado Segundo incluiu, como já ressaltado, a ideia de dogmática como ciência não
dogmatista que constrói sentidos, i.e., que não assume nem o ponto de vista descritivista
dogmatista nem o ponto de vista positivista que reconhece o caráter criativo, mas não o inclui
em preocupações científicas. Este meio termo é o do jurista que constrói os sentidos dos
textos normativos e que deve fazê-lo de tal forma que as hipóteses interpretativas que afirmar
possam ser criticadas e eventualmente refutadas pela comunidade.154 Dito de outro modo,
ignorar contextos ou a recusar-se em considerá-los dificulta ou torna inviável a descrição e
obscurece grande parte do processo de “construção”, obstando o controle intersubjetivo da
interpretação necessário para que ela possa ser falseável e, assim, científica. No âmbito de
uma Ciência do Direito que despreza o contexto, a determinação do sentido certamente
ocorrerá, mas de modo dogmatista, i.e., sem a apresentação “das razões ou dos fundamentos
de por que esta e não aquela interpretação foi considerada a mais adequada”.155
Em torno do mesmo tema, Ávila defendeu em dois artigos relativamente recentes
a ideia de que a Ciência do Direito exerce atividades de descrição, adscrição, reconstrução e
criação de significados, e deve fazê-lo de forma estruturada.156 Há semelhanças entre sua
posição e a defendida por Machado Segundo, que o havia incluído entre suas próprias
referências.

153
MACHADO SEGUNDO, 2008c, p.3-11, 25, 31, 34.
154
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.237 ss.
155
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.242-244.
156
ÁVILA, 2013, p.181-204; ÁVILA, 2014, p.159.
78

Resumidamente, Humberto Ávila cuidou de expor o que chama de descritivismo


jurídico para criticá-lo em prol do chamado estruturalismo argumentativo. Para ele, o
paradigma científico descritivista e empirista (segundo o qual cabe à ciência uma descrição
objetiva e exata do dado) teria sido adotado no meio jurídico como ponto de partida para
defender que o conteúdo do direito é objetivo, pré-constituído e suscetível de conhecimento
pelo cientista, a quem cabe descrevê-lo com o máximo de objetividade e exatidão possível. A
mesma visão, chamada por Ávila de “tese descritivista”, teria sido adotada, no Brasil, por
Lourival Vilanova, e migrada para o Direito Tributário através das obras de Alfredo Augusto
Becker e Paulo de Barros Carvalho. Também são associados à tese descritivista os seguintes
pontos: (i) a Ciência do Direito limita-se à análise de textos normativos, de estruturas
linguísticas, com o fito de descrever significados (unívocos e determinados); (ii) o cientista do
Direito pode conhecer seu objeto de maneira imediata.157
Dentro do esquema classificatório das espécies de interpretação, proposto por
Riccardo Guastini, Ávila diz que a tese descritivista enxerga a interpretação como uma
atividade cognitiva, puramente descritiva, em que o intérprete somente identifica os
significados dos dispositivos; e que isso a torna incompatível com a interpretação decisória
(em que o intérprete não apenas identifica alternativas, mas decide qual delas é a correta) e
com a interpretação criativa (em que o intérprete, diante de um dispositivo ambíguo, introduz
e atribui um significado não respaldado pelos significados mínimos de seus termos).158
Quanto às teorias interpretativas, Ávila defende que a tese descritivista pode
assumir duas vertentes, e a cada uma caberá um tipo de teoria: (i) a vertente segundo a qual
cabe ao intérprete apenas descrever o significado unívoco, compatível com a teoria
cognitivista (que compreende a interpretação como atividade que envolve apenas atos de
conhecimento); (ii) a vertente que sustenta que cabe ao intérprete indicar os significados
possíveis, compatível com versões “restritas” das teorias cética moderada e eclética da
interpretação.159
As críticas principais de Ávila à posição descritivista podem ser assim
resumidas160:

157
ÁVILA, 2013, passim e p.182-183.
158
ÁVILA, 2013, passim e p.182-183.
159
ÁVILA, 2013, 185-186 ss. A teoria cética moderada compreende que a interpretação mescla atos de
conhecimento (identificação de significados possíveis) e de vontade (escolha de um dos significados como o
correto). A teoria eclética também admite atos de conhecimento ou atos de vontade, conforme se trate de um
caso fácil (imediatamente enquadrável na hipótese normativa) ou difícil (de enquadramento duvidoso), ou de
texto claro (com significado imediatamente apreensível) ou equívoco (que admite mais de um significado).
160
ÁVILA, 2013, p.188-202.
79

I. A Ciência do Direito envolve não apenas a análise de textos normativos, mas


também elementos extratextuais, como fatos, atos, costumes, finalidades e efeitos. Isso faz
com que o intérprete seja levado a não somente declarar significados, mas realizar atividades
descritivas e adscritivas; não apenas conhecer, mas também decidir e criar.
II. Textos normativos estão sujeitos a problemas de equivocidade (ambiguidade,
complexidade, implicação e defectibilidade) e de indeterminação ou vagueza (próprios da
incapacidade da linguagem de confinar o futuro em modelos concebidos no passado, que abre
potenciais dúvidas quanto a quais fatos recaem no seu âmbito de aplicação). Esses problemas
mostram que normas não têm um único conteúdo, não proporcionam uma única solução, nem
têm um predeterminado âmbito de aplicação. Também por isso, a atividade do intérprete não
pode ser limitada apenas à análise de estruturas linguísticas para a descrição de significados.
III. O Direito não é um objeto pronto e acabado, capaz de ser apreendido tal como
encontrado; nem os significados preexistem à atividade interpretativa. O Direito não é
suscetível de conhecimento de maneira imediata, mas depende da intermediação de
instrumentos discursivos, tais como métodos (dedutivo e indutivo), argumentos (linguístico,
histórico evolutivo, genético, finalístico, sistemático) e teorias (de normas, de sistemas, de
argumentação). Sempre há interpretação: textos fáceis ou casos claros são assim qualificados
também através dela. Não há significado unívoco, nem preexistente ao ou independente do
processo interpretativo. Toda interpretação envolve uma decisão interpretativa estruturada por
um ou mais métodos e baseada em um ou mais argumentos, e que deve ser alicerçada em uma
teoria jurídica abrangente.
IV. A tese descritivista, além de normativa (não meramente descreve o que o
intérprete faz, mas prescreve o que ele deve fazer para que seu discurso seja científico:
descrever neutra e avalorativamente significados preexistentes suscetíveis de conhecimento),
é reducionista, pois pressupõe um conceito muito estrito de conhecimento (como juízo
teórico, e não como juízo prático) e um espectro muito restrito de atividades interpretativas
(cognitivas, mas não adscritivas ou criativas). Seu reducionismo restringe o objeto da Ciência
do Direito a textos e algumas espécies de regras, e sua atividade à interpretação cognitiva,
fazendo com que ela perca quase totalmente o seu sentido prático (traduzido em sua
capacidade orientadora), e limitando o escopo de seus estudos tributários ao estudo de regras
descritivas de âmbitos de poder em detrimento da investigação de finalidades, efeitos e bens
jurídicos.
80

Quadro 11 - Elementos extratextuais envolvidos na interpretação


ELEMENTOS EXTRATEXTUAIS ENVOLVIDOS NA INTERPRETAÇÃO
INTERPRETAÇÃO DE FATOS
Envolve conjecturas e ilações a respeito de causas e efeitos de eventos. É feita em concreto, pelo
aplicador, e em abstrato, pelo cientista (quando confrontado com normas que preveem fatos ou estados
de coisas).

Exemplos: regras que preveem fatos geradores de tributos; princípios que exigem a promoção de estados
ideais, como o princípio da moralidade, que exige a promoção de um estado de confiança e de lealdade
entre o Estado e os contribuintes.
INTERPRETAÇÃO DE ATOS
Investigação de intenções de agentes e enquadramento de um ato numa classe de atos.

Exemplos: quando o aplicador precisa interpretar atos ou negócios jurídicos praticados pelos
contribuintes; quando o cientista precisa examinar intenções, como ocorre em relação ao dispositivo que
preveja multa agravada para atos praticados com intuito de fraude.
INTERPRETAÇÃO DE COSTUMES
Atribuição de sentido a determinada prática social. Também é feita pelo cientista em abstrato ao
interpretar dispositivos que se referem a costumes ou práticas.

Exemplos: dispositivo que afasta a imposição de penalidades, quando o contribuinte baseia sua conduta
na prática reiterada da administração tributária; dispositivo que impede a eficácia retroativa, quando há
mudança de entendimento da administração na interpretação da legislação tributária
INTERPRETAÇÃO DE FINALIDADES E DE EFEITOS
Refere-se a normas que lidam com a promoção de estados de coisas ou fazem menção a determinados
fins, e da justificação de sua incidência em relação a algum comportamento.

Exemplos: princípio que protege a liberdade de exercício de atividade econômica, cujo âmbito de
aplicação pressupõe a indicação das circunstâncias que impedem a proteção mínima da liberdade, como
são os casos de impedimento de abertura do estabelecimento ou de negativa de autorização para a
emissão de notas fiscais; regras que fazem menção a finalidades extrafiscais, cujo âmbito de aplicação
pressupõe a indicação dos fins buscados e dos efeitos presumidos.
FONTE: Elaboração própria a partir de ÁVILA, 2013, 189-190.

A Ciência do Direito é lida com uma relação complexa entre sujeito e objeto; seus
produtos – soluções para dúvidas a respeito do sentido e do alcance de normas e de conflitos
normativos – envolvem elementos textuais e extratextuais. O direito positivo, como objeto,
não se permite captar pelo sujeito, mas é em (significativa) parte construído por ele. Isso deve
se dar em respeito à pretensão de correção e à pretensão de racionalidade do Direito.
81

3.7. CIÊNCIA DO DIREITO E PRETENSÃO DE RACIONALIDADE

Além dos pressupostos que mencionei na introdução do presente capítulo, e aos


quais adiro, Jesús Vega apresenta diferentes teses a respeito da racionalidade jurídica, a
começar pela seguinte: “O Direito é uma categoria constituída em torno de um complexo de
instituições práticas, o que impõe a ‘escala’ de sua racionalidade.”
Ao desdobrá-la, Vega argumenta que o Direito é uma instituição complexa, “um
regime altamente especializado de controle social”, que impõe socialmente normas por meio
de sua formulação in genere e in abstracto (através de subinstituições legislativas) e de sua
aplicação in casu (através de subinstituições judicativas ou aplicativas); um sistema de
controle diferido e generalizado do comportamento através do aparato do Estado, cuja
autoridade se faz presente não somente em termos de dominação, poder, coação etc. por
conectar-se com a ideia de racionalidade: além das normas, o Direito é composto por certos
ideais e por uma técnica capaz de articular ambos e com isso conduzir o controle social
institucionalizado, e sobre essa técnica está a racionalidade jurídica como “conjunto de
métodos e procedimento de produção, desenvolvimento, interpretação e aplicação dos
materiais normativos” com o horizonte da tomada de decisões jurídicas que pretendem
“resolver os conflitos sociais e dirigir racionalmente a ação dos indivíduos em função de
certos propósitos ou valores político-morais.” Por isso, mais do que um sistema de controle do
comportamento, o Direito é um “sistema de controle das práticas sociais publicamente
justificadas no âmbito político e moral”, uma instituição que opera “uma racionalização do
poder político e da moralidade” através da justificação das decisões em função de materiais
normativos.161
A isso Vega dá o nome de “técnica jurídica”.162 A técnica jurídica reflete, ou
melhor, representa o atributo do Direito de autorregulação de suas decisões, de suas funções
de produção e aplicação de normas. A “técnica jurídica”, contudo, não se confunde com o que
o jusfilósofo entende por “dogmática jurídica” (e que está sendo chamado aqui, mais
adequadamente, de Ciência do Direito).
A crescente complexidade e a independência relativa entre as subinstituições
legislativa e aplicativa exige a presença de um mecanismo adicional de racionalização que
seja capaz de reconstruir as teorias incorporadas ao “processo dinâmico” da técnica jurídica e

161
VEGA, 2009, p.393-394.
162
A técnica jurídica abarca, neste sentido, “o conjunto de pautas normativas que desde a instância legislativa se
desenham para regular as práticas aplicativas e interpretativas das autoridades que integram o aparato
jurisdicional e administrativo como parte de sua função motivadora.” VEGA, 2009, p.402.
82

de dar conta da “recursividade das decisões da técnica jurídica” e da “harmonização das


representações normativas que a justificam”. Esse novo mecanismo de racionalização gera
uma subinstituição a mais, “tão imprescindível para a conformação do Direito como as outras
duas, legislativa e aplicativa”: a dogmática jurídica, sugestivamente chamada por Lombardi,
em expressão retomada por Vega, de “quarto poder”.163
A dogmática jurídica é entendida, portanto, como instituição (parte da instituição
maior que é o Direito) distinta das outras instituições que “conformam a técnica jurídica”
(legislação e jurisdição).164 A dogmática opera em continuidade com a técnica jurídica (mas
não se confunde com ela), sendo a fonte principal das teorias formais e materiais exigidas
pelo manejo dessa técnica.
As teorias formais são entendidas como aquelas associadas à visão do Direito
como um sistema, abarcando as pautas de produção, interpretação e aplicação das normas
jurídicas segundo princípios formais como coerência, consistência, completude,
decidibilidade etc. As teorias materiais dividem-se em gerais, voltadas a “proporcionar ao
jurista uma representação global de sua função” (algo que Vega compara, mas não equipara,
aos paradigmas do Direito descritos por Habermas como aquelas “imagens explícitas da
própria sociedade que dão perspectiva à prática da produção legislativa e da aplicação do
Direito”); e setoriais, voltadas a dar conteúdo para os institutos jurídicos de cada disciplina
(regras, princípios, valores fundamentais, doutrinas).165
Vega defende que o Direito é “a mais abstrata, tecnificada e abrangente das
normatividades sociais” e uma “técnica normativa notadamente doutrinal, reflexiva ou
‘teórica’” em função de duas características principais166:
I. O Direito se constitui como uma normatividade social de segunda ordem, i.e.,
que se afirma em precedência das demais.
II. Além disso, se positiva “de uma maneira altamente formalizada” e por meio de
uma “linguagem específica cujos interlocutores primários são fundamentalmente os próprios
atores jurídicos”.
Adicionalmente, é reconhecida a função, exercida pela dogmática jurídica, de
“veículo” de “formação especializada” e “aprendizagem profissional dos juristas”, bem como
de “transferência social e estabilização das interpretações juridicamente aceitas ao longo do

163
VEGA, 2009, p.394, 387.
164
VEGA, 2009, p.402.
165
VEGA, 2009, p.394.
166
VEGA, 2009, p.393-394.
83

tempo”, o que reforça o argumento da posição estruturante da dogmática jurídica, lado a lado
com os Poderes estatais formais do Estado contemporâneo, especialmente pelo fato, notado
por Vega, de as teorias e conceitos dogmáticos estabelecidos incorporarem a própria
“estrutura normativa” do Direito.167

3.8. A CIÊNCIA DO DIREITO ADMITE RESPOSTAS MELHORES E PIORES

No contexto de uma pesquisa coletiva internacional sobre justificação de decisões


judiciais, os pesquisadores responsáveis pelo texto de sistematização dos dados, Summers e
Taruffo, propuseram a identificação de três principais padrões de justificação de decisões:

Quadro 12 - Padrões de justificação de decisões judiciais.


PADRÕES DE JUSTIFICAÇÃO DE DECISÕES JUDICIAIS
PADRÃO BÁSICO
É o padrão mais simples, e se caracteriza pela utilização de um único argumento na justificação da
decisão – geralmente argumentos linguísticos de palavras ou termos comuns ou técnicos (jurídicos e
não jurídicos).
PADRÃO CUMULATIVO
É o padrão que apresenta vários argumentos diferentes que concorrem para uma mesma conclusão
interpretativa. Geralmente é adotado em virtude de diferentes fatores, como: dúvidas sobre a força
justificatória de um único argumento; a importância social da matéria decidida; receio de que a decisão
do tribunal seja tida como uma extrapolação de função; necessidade de justificação mais detida diante
do grave ônus que a decisão trará para a parte derrotada; necessidade de levar em consideração os
argumentos suscitados pelo advogado; irrecorribilidade da decisão [foreclosure of appeals]. Este
padrão adquire duas formas básicas: na primeira, tem-se um sentido (linguístico) comum ou técnico
que é corroborado por argumentos de outros tipos (de harmonização contextual, analogia, congruência
com precedentes ou princípios gerais, intenção do legislador, finalidade da norma etc.); na segunda,
inexistem argumentos linguísticos viáveis, daí a referência a outros tipos de argumento para esclarecer
o sentido da linguagem vaga, ambígua ou indeterminada do texto normativo interpretado.
PADRÃO DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS
É o padrão mais complexo, e nele a decisão trata de vários argumentos cumulados em cada um dos
sentidos conflitantes, resolvendo o conflito entre os argumentos por algum dos seguintes modos de
solução: (i) um argumento prevalece sobre o outro que se revelou inaplicável, como, e.g., quando
demonstra-se que um sentido comum inicialmente arguido não tem nenhuma força em virtude da
inexistência da convenção linguística que o fundamentaria; (ii) a força inicial de um argumento é
anulada, como, e.g., quando um argumento linguístico perde sua força diante de um argumento

167
VEGA, 2009, p.394-395.
84

contextual que demonstra que o legislador usou as palavras interpretadas num sentido especial, e não
no sentido comum defendido; (iii) o argumento está subordinado ao argumento contrário em virtude de
uma norma que assim determina (contudo, por vezes tal norma é derrotável); (iv) um argumento tem
uma dimensão de peso maior do que o seu rival (as razões por trás dos argumentos ou as evidências
são mais fortes do que as rivais – processo que pode ou não depender do emprego de algum outro tipo
de argumento ou da menção a valores num segundo nível de discussão).
FONTE: Elaboração própria a partir de SUMMERS; TARUFFO, 1991, p. 479-481.

Não desconsidero as diferenças entre o jurista que enfrenta um problema


academicamente e a juíza ou o juiz que decide um caso que envolve a mesma dúvida
interpretativa, mas creio que os padrões pensados por Summers e Taruffo para examinar as
decisões judiciais pode ser corretamente transposto para analisar as respostas acadêmicas aos
problemas jurídicos.
Além disso, defendo que, em problemas jurídicos que admitem argumentos para
hipóteses interpretativas rivais, as respostas que correspondam ao padrão complexo (resposta
que leva em conta os argumentos rivais e justifica a escolha por uma linha interpretativa em
detrimento da outra) são preferíveis às respostas que correspondam ao padrão básico (resposta
baseada em um único argumento) ou ao padrão cumulativo (resposta baseada em vários
argumentos de uma só linha interpretativa).
Tenho o cuidado, aqui, de aceitar como pelo menos concebíveis situações em que
o padrão básico é suficiente: por exemplo, no caso de uma norma cuja formulação linguística,
circunstância fática de aplicação e inserção no ordenamento jurídico não ensejem nenhum
problema ou dúvida; e situações em que o padrão cumulativo é suficiente: um caso
semelhante ao citado na conjectura sobre o padrão básico, mas que admita mais de um
argumento a favor da mesma conclusão. No entanto, situações assim ou não são relevantes, ou
são pouco relevantes em termos de exigência de trabalho para o juiz ou para o verdadeiro juiz
epistemológico que é o jurista acadêmico.
Mas, por que é em que medida uma resposta a um problema que admita vários
argumentos em sentidos opostos que siga o padrão complexo é preferível e melhor? Como
dito na introdução, a experiência filosófica abrange tomar um fenômeno que nos seja comum,
parte da paisagem não questionada das nossas vivências, e colocá-lo em perspectiva.168 Há
respostas melhores e piores, disso provavelmente todo jurista não tem dúvida. Mas o que as

168
HOYNINGEN-HUENE, 2010.
85

torna melhores ou piores? O modo como se aproximam de determinados valores, valores


epistêmicos.
Ao levar em consideração os argumentos contrários e os rejeita de maneira
justificada, a resposta do padrão complexo se aproxima mais de um valor, de um ideal de
racionalidade, do que a resposta do padrão básico ou do padrão cumulativo. É menos
arbitrária. Como analisa mais argumentos jurídicos, também pode ser considerada melhor
segundo a aproximação de um outro ideal ou valor epistêmico importante para a dogmática
jurídica: a capacidade de a resposta se adequar ao ordenamento jurídico como um todo, de
levar em conta o conjunto frequentemente contraditório de materiais normativos e fazer com
que ele tenha sentido.

3.9. DOGMÁTICA JURÍDICA E DIREITOS HUMANOS

Ferraz Jr. acentua o papel da dogmática jurídica como teorização para a decisão, e
numa mesma direção Vega destaca o papel da dogmática jurídica em face das instituições
legiferantes e de solução de controvérsias englobadas por ele na mesma categoria de “técnica
jurídica”. A dogmática jurídica é isso, e é mais.
O mundo social faz surgir dúvidas sobre as normas jurídicas, seu conteúdo, como
se aplicam. Para Ferraz Jr., o trabalho do jurista é retomar essas dúvidas ou “incertezas
primitivas”, lidando com elas e mesmo ampliando-as de modo controlado, aumentando-as
segundo “um grau de suportabilidade social, de modo que torne decidíveis os eventuais
conflitos”, tendo em vista as duas “exigências centrais da disciplina jurídica”: “a vinculação a
normas que não podem ser ignoradas, e a pressão para decidir os conflitos”. E como o jurista
realiza isso? Por meio de uma “técnica especializada” que exige “longa formação e uma
experiência mais longa ainda”; uma técnica imprescindível para que o jurista crie dúvidas sem
romper com essas exigências, sem descuidar-se dos “quadros da ordem estabelecida” e do fim
de “orientação da ação do homem em sociedade”. Ao assim proceder, o jurista, para Ferraz
Jr., não constrói livremente opiniões, mas lida com incertezas a partir da técnica dogmática,
que tanto as constrói quanto as torna controláveis, fazendo com que seja falsa a ideia de que
qualquer interpretação pode valer.169
Neste ponto Ferraz Jr. não inclui, portanto, a justiça como uma das exigências
centrais da disciplina jurídica, e noutros momentos da obra dá sinais de que a questão da
justiça não necessariamente faz parte do saber dogmático e de suas preocupações. Assim, por

169
FERRAZ JR., 2003, p.50.
86

exemplo, ao tratar da distinção entre zetética e dogmática, usa o exemplo da questão de se


saber se funcionário público pode ou não fazer greve tal como qualquer trabalhador para dizer
que o dogmático, diante dela, só pode propor soluções nos quadros da ordem vigente que, por
sua vez, “embora não resolva a questão da justiça ou injustiça de uma greve de funcionários
públicos (a questão da justiça é permanente), põe fim às disputas sobre o agir”. 170 Ademais, se
por um lado Ferraz Jr. não tenha dito que a legalidade seja a única e absoluta premissa ao usá-
la como exemplo de premissa assumida pela dogmática jurídica contemporânea, por outro não
deixou de colocá-la como exigência incompatível com eventual solução contra legem171 (por
exemplo, uma solução contra legem num caso de extrema injustiça).
Ainda assim, a questão da justiça se faz presente no exemplo que Ferraz Jr. adota
para esclarecer a questão das incertezas do direito posto e de como o jurista lida com elas:

Para dar um exemplo mais singelo, se, diante da incerteza sobre se é justo e
equitativo que condôminos tenham animais em seus apartamentos e o condomínio
baixa uma regra proibindo essa prática, cabe ao saber dogmático retomar a incerteza
primitiva, indagando, digamos, se a proibição vale para todos ou se devemos
respeitar o direito dos que já possuíam animais, se ela se refere a animais em geral
ou só àqueles que possam perturbar a convivência (sendo permitido ter um aquário
com peixes) etc. Com isso, o jurista retoma a incerteza primitiva, ampliando-a, mas
de modo controlado, isto é, aumentando-a a um grau de suportabilidade social, de
modo que torne decidíveis os eventuais conflitos. 172

A questão da justiça está presente também quando Ferraz Jr. afirma que diante do
seu objeto – “o direito posto e dado previamente”, o “conjunto de normas, instituições e
decisões que lhe compete sistematizar, interpretar e direcionar” – o jurista preocupa-se que ele
seja “um todo coerente, relativamente preciso em suas determinações, orientado para uma
ordem finalista, que protege a todos indistintamente”. 173
Chamadas, no conjunto, de “doutrina”, as teorias da dogmática jurídica não são,
para Ferraz Jr., teorias no sentido zetético (sistema de proposições descritivas que relaciona
termos primitivos, não observáveis, a fenômenos observáveis). São, na verdade, “complexos
argumentativos”, “fórmulas persuasivas” que “influem no comportamento dos destinatários,
mas sem vinculá-los, salvo pelo apelo à razoabilidade e à justiça”, e sempre “tendo em vista a
decidibilidade de possíveis conflitos”. Na sistematização feita por Ferraz Jr., as proposições
doutrinárias podem tomar a forma de: (i) orientações, proposições que pretendem dar
elementos cognitivos (esquemas, sistematizações) para iluminar o tomador de decisões; (ii)

170
FERRAZ JR., 2003, p.43.
171
FERRAZ JR., 2003, p.48.
172
FERRAZ JR., 2003, p.50.
173
FERRAZ JR., 2003, p.82, 84.
87

recomendações, proposições persuasivas para acautelar o tomador de decisões com fatos e


experiências comprovadas que tomam a forma de regras técnicas (“se queres x, deves z”) ou
pragmáticas (“visto que deves x, então deves z”); (iii) exortações, proposições persuasivas
que apelam a sentimentos sociais e valores.174
Tudo isso só reforça a necessidade de superação da dualidade rígida entre
dogmática e zetética, e é ela a principal razão para a adoção da expressão Ciência do Direito
como meio de denominar o saber que combina direito positivo e justiça. Mas, qual justiça?
Na obra “Das necessidades humanas aos direitos”, Miracy Gustin expõe uma
interessante esquematização de quatro suposições teóricas sobre as necessidades humanas: (i)
as pessoas necessitam sobreviver, o que é natural, genérico a todos os seres humanos, assim
como é também dotado de especificidades segundo determinações socioculturais e históricas
ou temporais; (ii) as pessoas necessitam integrar-se à sociedade, trocar experiências,
relacionarem-se uns com os outros e participar de uma alocação justa de bens e serviços numa
integração social construída historicamente dentro de um corpo de normas; (iii) as pessoas
necessitam de uma identidade, de atribuição de consciência e responsabilidade e da
capacidade de agir e fazer escolhas no contexto social; (iv) para superar limitações naturais e
ambientais, deve haver um patamar mínimo de progresso humano que permita às pessoas sua
autodeterminação e emancipação no sentido do múltiplo desenvolvimento das
potencialidades. Ademais, relaciona a satisfação das necessidades à afirmação e efetivação
dos direitos fundamentais e humanos.175
Como Gustin e Dias, defendo que o Direito deve ser justo e que os direitos
fundamentais e humanos servem como principal parâmetro para a dogmática jurídica. Isso
quer dizer que, entre as diferentes hipóteses interpretativas que possam ser formuladas diante
dos problemas jurídicos e em atenção ao direito positivo, a melhor resposta será aquela que
melhor servir à finalidade última do Direito, a justiça, entendida como objetivada pelos
direitos fundamentais e humanos. Ao defender este ponto de vista, buscarei indicar os
argumentos contrários e afirmarei, dentre outras coisas, que a dogmática jurídica é uma
profecia autorrealizável e que isso serve também como razão para que justiça e direitos
humanos sejam o seu fundamento último.
No clássico texto “Cinco Minutos de Filosofia do Direito” (título original: Fünf
Minuten Rechtsphilosophie), o jurista alemão Gustav Radbruch (1878-1949) caracteriza o

174
FERRAZ JR., 2003, p.84-85.
175
RADBRUCH, 2006 [1945].
88

positivismo como a concepção que entende que a lei é válida e deve ser obedecida
simplesmente por ser lei e por ter o poder de prevalecer na maior parte dos casos. Com isso, o
Direito é equiparado ao poder: “há Direito somente se houver poder”.
O jurista alemão argumenta filosoficamente que, desde a morte do último
jusnaturalista, o jurista diz (positivisticamente) que “lei é lei” sem aceitar nenhuma exceção à
validade da norma ou à obrigação de obedecê-la. Enquanto isso, mesmo o ditame “ordem é
ordem” dito ao soldado admite exceções: ele não é obrigado, nem por dever, nem por direito,
a obedecer uma ordem que tenha por objeto um crime. Essa concepção do Direito, para ele,
deixa os juristas e as pessoas em geral indefesas diante de leis arbitrárias, cruéis ou
criminosas.176
Outros buscaram afirmar que “O Direito é o que beneficia o povo”. Na prática, o
que as autoridades estatais definem como benéfico ao povo é fixado como Direito – mesmo
caprichos despóticos, punições não assentadas em normas e decisões judiciais e assassinatos
de pessoas doentes. Os benefícios dos detentores do poder que convertem o Estado de Direito
em Estado Fora da Lei são colocados como benefícios públicos.177
Nenhuma dessas concepções é aceitável. O Direito é o compromisso ou a vontade
de justiça (will to justice), entendida como julgamento imparcial e igual tratamento (to judge
without regard to the person, to measure everyone by the same standard). Se as normas traem
esse compromisso, as pessoas em geral não devem obedecê-las, e também os juristas devem
negá-las e rejeitar seu caráter jurídico. Radbruch ilustra a questão destacando que o
assassinato de adversários políticos e de pessoas de outras raças e a sectária imposição de
punições cruéis e degradantes não são nem justos, nem jurídicos. E conclui178:

Se as leis deliberadamente traem a vontade de justiça – através, por exemplo, da


concessão e revogação arbitrária de direitos humanos – então não têm validade, as
pessoas não lhes devem obediência e os juristas, também, devem encontrar a
coragem para negar-lhes caráter jurídico.179

É neste mesmo contexto teórico que Robert Alexy formula e defende a tese da
pretensão de correção do Direito (claim to correctness), segundo a qual todos os atos de
produção e aplicação do Direito carregam consigo uma pretensão de que o ato em questão
seja um ato correto. Para fundamentar a tese, levanta a hipótese de uma Constituição que

176
RADBRUCH, 2006 [1945].
177
RADBRUCH, 2006 [1945].
178
RADBRUCH, 2006 [1945].
179
“If laws deliberately betray the will to justice—by, for example, arbitrarily granting and withholding human
rights—then these laws lack validity, the people owe them no obedience, and jurists, too, must find the
courage to deny them legal character.” RADBRUCH, 2006 [1945].
89

contenha o seguinte artigo: “X é uma república soberana, federal e injusta.” O fato de o artigo
poder ser tido como absurdo sinaliza para a existência (implícita) da pretensão de correção,
pois é ela que, em conflito com o que está expresso no artigo, faz com que ele soe
disparatado.180
Isso faz de Alexy um não positivista, porque a tese da pretensão de correção
indica que há uma relação conceitual entre Direito e Moral. É que o positivismo jurídico, além
de normalmente ser caracterizado pela já citada tese dos fatos sociais, o é também tendo em
vista a tese da separabilidade, que pode ser resumida na ideia de que “direito” e “moralidade”
são conceitualmente distintos: não há uma conexão necessária entre Direito e Moral; são
conceitos sempre “separáveis”, conquanto por vezes possam não estar “separados”.181
Na teoria do direito, poucos são os autores contemporâneos de grande projeção
que se colocam assumidamente como jusnaturalistas. Diferentemente do que ocorre em
relação à teoria do direito, onde pelo menos alguns nomes associáveis ao jusnaturalismo em
maior ou menos medida podem ser lembrados com certa facilidade (Gustav Radbruch, Lon
Fuller, John Finnis, o próprio Ronald Dworkin), não consigo pensar em nenhum estudioso das
diferentes disciplinas de dogmática jurídica do direito brasileiro que seja assumidamente
jusnaturalista, e o mesmo parece ocorrer entre julgadores: na minha experiência de mais de
uma década de pesquisa jurisprudencial em diferentes instâncias administrativas e judiciais,
jamais me deparei com decisão em que o julgador aplicasse o direito natural ou se afirmasse
como jusnaturalista, nem me recordo de julgador que fosse assim caracterizado por seus pares
ou pela comunidade jurídica de modo geral. No direito internacional, parece haver uma
semelhante dominância do positivismo jurídico sobre o jusnaturalismo tanto entre os
estudiosos, quanto entre os práticos (especialmente, entre os juízes). No ensaio “Natural Law
in International Legal Theory: Linear and Dialectical Presentations”, Geoff Gordon destaca
com precisão, a posição do professor e juiz Antônio Augusto Cançado Trindade como uma
notável exceção à regra.182 Menciono-a aqui por sua caracterização do e crítica ao positivismo
jurídico, e pela ideia da consciência como fundamento último do Direito, que tomo aqui como
complementar às posições de Gustin e Alexy.
Um dos elementos centrais atribuídos ao positivismo jurídico por Cançado
Trindade diz respeito à forma como positivistas encaram o tema central dos fundamentos

180
ALEXY, 1989, p.179; BUSTAMANTE, 2008, p.158-159.
181
HIMMA, s.d.; GREEN, 2009.
182
GORDON, 2016, p.279-280. “[Natural law] is hardly found in practice, and has been described as dead.” “A
notable exception is the jurisprudence of Judge Cançado Trindade”. GORDON, 2016, p.280.
90

jurídicos, da validade jurídica, da formação e identificação das normas jurídicas. O enfoque


positivista, em suma, resume-se e autolimita-se aos modelos e procedimentos pelos quais as
normas são formalmente criadas, i.e., às chamadas fontes formais. No caso do direito
internacional público, esse enfoque faz coincidir as fontes formais que para ele esgotam a
questão da validade com o rol de fontes estabelecido pelo art. 38 do Estatuto da Corte
Internacional de Justiça, e dá ênfase na vontade, no consentimento dos Estados como
protagonista da validade.183
O enfoque positivista torna o tema mais árido e superficial através de uma
abordagem reducionista (reducionismo à forma) e, com isso, termina por apresentar resultados
insatisfatórios e consequências prejudiciais, como o esvaziamento da ordem jurídica,
insensível aos valores, e a incapacidade de satisfazer as necessidades sociais. Sua visão
hermética exclui da análise o substratum das normas jurídicas – crenças, valores, ética, ideias
e aspirações humanas – e ignora os “princípios que transcendem as normas do direito
positivo”. Com isso, revela-se incompatível com a experiência humana ao longo do século
XX, marcada por grandes avanços tecnológicos e por atrocidades sem precedentes que
demonstram “que não é possível conceber uma ordem jurídica que se abstraia de uma ordem
moral”. Além de ignorar os novos desafios e as novas necessidades e aspirações da
comunidade internacional, o positivismo desconsidera o multifacetado, vasto e complexo
processo de formação do direito internacional contemporâneo (que inclui, por exemplo,
legiferância de organizações internacionais, como ilustra o caso das resoluções da Assembleia
Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) vis-à-vis a evolução da opinio juris da
comunidade internacional).184
A postura reducionista do positivismo e sua rejeição do substratum valorativo das
normas jurídicas se dá de maneira dogmatista, não justificada: o positivismo nunca
demonstrou “a impossibilidade lógica ou jurídica de também se levar em conta o substratum
das normas jurídicas”, apenas se recusou a fazê-lo, sem maiores explicações.185
Como solução aos problemas e limitações atribuídos ao positivismo, Cançado
Trindade propõe uma nova forma de abordar o tema das fontes que leve em conta tanto a
experiência humana acumulada quanto os novos desafios enfrentados pela humanidade: a de

183
CANÇADO TRINDADE, 2006.
184
CANÇADO TRINDADE, 2006.
185
CANÇADO TRINDADE, 2006.
91

considerar a consciência humana como fonte última, como fonte material do direito
internacional186:

[L]evando-se em conta a dura experiência humana acumulada nas últimas décadas e


os novos desafios enfrentados pela humanidade, não vejo como deixar de considerar
a fonte material do direito internacional. Afinal, o direito internacional não está de
modo algum reduzido a um instrumento a serviço do poder; seus destinatários finais
são, em última instância, os seres humanos, cabendo ao direito satisfazer as suas
necessidades, entre as quais a realização da justiça. A fonte material do direito
internacional reside na própria consciência humana.187

Preferi encarar a relação entre direito positivo e justiça como uma dinâmica, e não
como uma antítese. Ela parece ser mesmo constitutiva da dogmática jurídica que se
desenvolve em sistemas jurídicos complexos, e diferentes teorias mencionadas até aqui
atestam isso. Entendo, a partir dos subsídios de Gustin, Radbruch, Alexy e Cançado Trindade,
que a dinâmica entre justiça e direito positivo se dá da seguinte maneira:
• O direito positivo como um todo carrega consigo uma pretensão de correção.
• A objetividade, no sentido de neutralidade axiológica diante da pretensão de
correção, não existe. Quem defende que não existe uma pretensão de correção está
defendendo uma tábua de valores, e uma não muito atraente.
• Dada uma determinada situação ou problema, o direito positivo pode se mostrar
incerto. Diferentes hipóteses interpretativas podem ser apontadas, e podem inicialmente exibir
o mesmo nível de aderência, por assim dizer, ao direito positivo. Nestas situações, deve
prevalecer, dentre as hipóteses ou teorias rivais, a que melhor servir à justiça.
• O conceito de justiça é controverso, e todo um ramo do saber, a teoria da justiça,
atesta o predicado. No âmbito do Direito, os direitos humanos e fundamentais expressos nas
declarações de direitos, nas constituições e nos tratados contribuem como medida de justiça.
Isso não significa que a dogmática jurídica orientada pela métrica dos direitos humanos
apresenta resultados exatos. As características do saber jurídico, sua racionalidade prática, não
permitem isso a nenhum método (sendo ilusão supor que o positivismo, ou os positivismos
geram resultados mais seguros ou precisos). Mas isso significa que a dogmática jurídica
humanizada é mais transparente quanto às escolhas valorativas envolvidas na solução de
problemas jurídicos, e gera respostas mais adequadas.
Um teórico do direito internacional distante da tradição jusnaturalista e iluminista
de Cançado Trindade, Martti Koskenniemi assevera que o direito internacional

186
CANÇADO TRINDADE, 2004, p. 72-73; CANÇADO TRINDADE, 2006.
187
CANÇADO TRINDADE, 2006.
92

presumivelmente emerge da política e da diplomacia, assim como presumivelmente dela deve


se distinguir. Ao mesmo tempo, não pode manter-se completamente independente do
comportamento, da vontade ou dos interesses dos Estados, pois isso traria prejuízos de
cognição e de justificação. Assim, para demonstrar a existência do direito internacional com
algum grau de veracidade, o jurista necessita mostrar que o direito é, simultaneamente,
normativo e concreto, pois um Direito sem distância alguma do comportamento, da vontade
ou dos interesses dos Estados seria uma apologia não normativa; e o Direito baseado em
princípios que não guardam nenhuma relação com o comportamento, a vontade ou os
interesses dos Estados seria uma utopia, especialmente porque incapaz de demonstrar seu
conteúdo de modo confiável.188
À “utopia” Koskenniemi atribui, em suma, os seguintes problemas:
incompatibilidade com as bases (desencantadas) do pensamento moderno; risco da imposição
camuflada de posições políticas subjetivas (como se objetivas fossem); impossibilidade de
demonstrar quais são as normas de maneira tangível. Já a falta de “distância crítica” em
relação ao comportamento, à vontade ou aos interesses dos Estados que culmina na
“apologia” faz com que o Direito perca sua nota de regulação (pois restaria “incapaz de opor-
se aos parâmetros estatais”). Sem um certo grau de autonomia em relação ao comportamento,
à vontade e aos interesses dos Estados; sem ser normativo “no sentido de ser capaz de
determinação e aplicação imparcial”, o Direito “é incapaz de realizar quaisquer funções”. 189
Apesar de emergir da política, o Direito constitui um sistema normativo autônomo em que se
fazem presentes tanto o ponto de vista do legislador quanto do aplicador e do destinatário.190
Nos termos apresentados, a posição de Cançado Trindade não é utópica, como não
são as posições de Gustin, Radbruch e Alexy, pois não há negligência total do direito posto,
mas a defesa do direito posto extremamente injusto como inaceitável e de todo e qualquer
direito posto como caracterizado por uma pretensão de correção e por uma subordinação ou
serventia à pessoa humana. Se fosse possível situá-los metricamente entre a utopia e a
apologia, ocupariam pontos mais próximos da primeira, é verdade, e que bom que é assim.
Koskenniemi atribui ao extremo da utopia o risco da imposição camuflada de
posições políticas subjetivas (como se objetivas fossem) e a impossibilidade de demonstrar
188
KOSKENNIEMI, 2005, p.17-18.
189
Apesar de não esclarecer quais são as funções neste ponto do texto, um pouco mais à frente Koskenniemi
lembra que ao Direito é associada a função social de regular comportamentos e de ser um recurso ou meio
para a solução de problemas com concretude (Direito verificável) e normatividade (exclusão, da justificação,
de tudo o que não estiver contido nas normas verificadas), cumprindo assim a tarefa de manter subjetividades
sob controle na resolução dos problemas sociais. Cf. KOSKENNIEMI, 2005, p.24-25.
190
KOSKENNIEMI, 2005, p.18-20.
93

quais são as normas de maneira tangível, mas, na verdade, aqueles que se negam a
racionalmente enfrentar a pretensão de correção e a utilização dos direitos humanos como
critério último para julgar hipóteses teóricas rivais são os que mais risco correm de incorrer
nas faltas indicadas.
Na apresentação à edição brasileira da Teoria do Ordenamento Jurídico de
Norberto Bobbio, o próprio Ferraz Jr. relembra um exemplo usado pelo italiano em seu ensaio
sobre as antinomias, onde afirma que, à pergunta “Entre duas normas opostas, qual
prevalece?”, um jurista e um caminhoneiro hão de não sair da mesma resposta simples e
direta: “A mais justa!”191
Reconheço que justiça é conceito polissêmico e controverso, mas entendo que não
há alternativa para o jurista. Quer ele queira reconhecer isso, quer não, sempre que a realidade
complexa dos fatos e das normas aplicáveis aos fatos se apresenta a ele, o conjunto que inclui
eventuais incertezas fáticas, limites da linguagem natural empregada nos textos normativos e
complexidade dos sistemas jurídicos impõe escolhas. Melhor que sejam fundamentadas
publicamente e alicerçadas pela possibilidade mais justa possível. Se justiça é por vezes
conceito vago, a consubstanciação das diferentes ideias de justiça na normatividade dos
direitos humanos e fundamentais dá ao jurista uma bússola significativa para formular
respostas adequadas aos problemas jurídicos. Ignorar esta realidade é também uma escolha
valorativa, e uma escolha bem menos defensável.
Acrescento um último argumento a favor da posição normativa de que a Ciência
do Direito combina direito positivo e juízos de valor mais ou menos objetiváveis segundo a
moralidade assumida pelos direitos humanos e fundamentais: o argumento da Ciência do
Direito como profecia autorrealizável.
Nas ciências sociais, é famoso o Teorema de Thomas, proposto por Dorothy
Swaine Thomas e William Isaac Thomas em 1928: “Se as pessoas definem certas situações
como reais, elas são reais em suas consequências.” Dentre as muitas dogmáticas jurídicas
possíveis, há a que pretende servir à pessoa humana e à justiça, e aquela que se preocupa em
servir apenas ao poder (e dele se servir). Ambas são reais em suas consequências. E os juristas
envolvidos, individualmente considerados, são responsáveis por elas em seu quinhão
correspondente.
O argumento não resolve a celeuma sobre a correção ou não tese da
separabilidade, porque não é um argumento a favor da Moral como conceitualmente ligada,

191
FERRAZ JR., 1995, p.8.
94

de modo necessário, ao Direito. Contudo, contribui para o desfecho da justiça como bússola
interpretativa: se os juristas assumem uma concepção de Ciência do Direito que se
compromete com os direitos humanos e sociais, isso é real em suas consequências.
No ensaio “Lon L. Fuller, Gustav Radbruch e as teses ‘positivistas’” (Lon L.
Fuller, Gustav Radbruch, and the "Positivist" Theses), Stanley Paulson examina quais são os
argumentos de Radbruch e Fuller a respeito da relação entre o positivismo jurídico e o regime
nazista alemão, bem como se esses argumentos se sustentam.
Segundo o estudo de Paulson, nos textos pós-Segunda Guerra, Radbruch parece
abordar duas concepções concorrentes sobre o positivismo jurídico: uma versão restritiva,
conhecida como positivismo jurídico legalista (statutory legal positivism); e uma versão mais
aberta, tida por Paulson como a variante jurídico-filosófica do “vale-tudo” de Paul
Feyerabend (que analiso no capítulo 7 da presente tese), denominada positivismo jurídico
aberto (open legal positivism).192
Para o positivismo jurídico legalista, o Direito (Recht) equivale à lei, ao direito
posto, ao direito positivado (Gesetz), sua única fonte; a ciência do Direito, à interpretação da
lei; e a atuação do juiz (adjudication), à aplicação da lei, restando sua atividade vinculada à
“letra da lei” (the letter of the law). Nestes termos, uma lei não jurídica é uma contradição.193
O positivismo jurídico aberto, por sua vez, abarca duas teses principais: a tese da
separabilidade (separability thesis), no sentido de não admitir nenhuma exceção, em nome da
moral, à validade jurídica ou à obrigação de obediência que as normas jurídicas impõem; e a
tese do poder (power thesis), formulada no sentido de afirmar o poder ou eficácia como
condição suficiente e como condição necessária para a validade jurídica, e o próprio Direito
como equivalente ao poder, law qua power.194
Do positivismo jurídico legalista e da vinculação do juiz à letra da lei, Radbruch
extrai a tese da exculpação, segundo a qual o princípio positivista de que “lei é lei” deixou os
juristas indefesos contra normas arbitrárias e criminosas. Paulson identifica dois pontos
contidos no argumento radbruchiano: (1) o positivismo prescreveu adesão e fidelidade ao
direito posto por parte dos juízes durante o nazismo e (2) os juízes efetivamente se
comportaram assim, i.e., com fidelidade à lei.195

192
PAULSON, 1994, p.328.
193
PAULSON, 1994, p.329-330, 328.
194
PAULSON, 1994, p.334-335, 323.
195
PAULSON, 1994, p.331.
95

O argumento, no entanto, estaria equivocado, na medida em que há razões para


acreditar que juízes no período nazista não necessariamente se comportaram com adesão ou
fidelidade à lei, ao direito então em vigor. É neste sentido que argumenta Paulson, destacando
que o direito positivo válido antes de 1933 permaneceu, em sua maior parte, em vigor196, e
que os juízes e outros agentes, na verdade, se distanciavam da “letra da lei” e de
interpretações assentadas a respeito do direito positivo segundo lhes fosse conveniente, e não
de maneira sorrateira, mas pública e abertamente, através de racionalizações abertas de
variados tipos, como a identificação e justificação do Direito com a vontade do Führer e o
apelo ao Führerprinzip, ao programa do partido nazista, ao Geist do nacional-socialismo, aos
“sentimentos morais” do povo etc. Com expedientes de tal sorte, interpretações consagradas
do princípio nulla poena sine lege afirmado no Código Penal alemão de 1871 (v.g., no sentido
de o princípio abarcar a proibição da retroatividade de leis penais e a proibição da analogia
em normas penais incriminadoras) foram rechaçadas pelos juízes sem a necessidade de
qualquer alteração legislativa.197
Em síntese: os juristas alemães não eram exatamente legalistas, muitas vezes
longe disso; decisões consideradas injustas ou graves (entre elas, em especial, as de direito
penal) não decorriam necessariamente de um apego inescapável à lei. A tese da exculpação
não é capaz de explicar a jurisprudência alemã do período, especialmente nos casos a que ela
mais especialmente se destina.198
A concepção do positivismo jurídico aberto, por sua vez, parece ser melhor capaz
de explicar a teoria e prática do direito no período nazista, ou certamente faz um trabalho
melhor, neste sentido, do que o positivismo jurídico legalista. 199 No entanto, Paulson
argumenta que não parece ser o caso de Radbruch justificar a tese da exculpação com base no
positivismo jurídico aberto, como ilustra sua posição crítica sobre os juízes que condenaram
Göttig à morte, mencionados nos fatos do caso Puttfarken.200
Independentemente de Radbruch estar correto ou não, como a Ciência do Direito é
uma profecia autorrealizável, não é incorreto assumir que, caso considerassem o compromisso
com os direitos humanos como parte intrínseca do seu trabalho jurídico e caso levassem esse

196
Inclusive normas de direito penal. Com efeito, apesar de diferentes anteprojetos de inspiração nazista terem
sido elaborados, não houve, de fato, nenhuma reforma nazista da legislação criminal. PAULSON, 1994, p.331
e nr.39.
197
PAULSON, 1994, p.332-333.
198
PAULSON, 1994, p.328.
199
PAULSON, 1994, p.335, 338, 328.
200
PAULSON, 1994, p.336-338.
96

compromisso a sério, os juristas que foram historicamente coniventes ou promovedores do


nazismo e das atrocidades correspondentes simplesmente não teriam agido assim.
A postura de Koskenniemi, que parece flertar bem mais com a apologia do que
com a utopia, também é, ela própria, uma profecia autorrealizável, assim como a concepção
do Direito como subserviente ao poder assumida pelos Ministros do Supremo Tribunal
Federal no histórico Caso Olga Benário201 também foi, ela própria, uma profecia
autorrealizável que custou a ratificação, em verniz jurídico, da expulsão de uma mulher judia
e comunista grávida para a Alemanha nazista em 1936, com consequências tão reais e
terríveis quanto se pode imaginar.202 Juristas humanistas, seus trabalhos acadêmicos e suas
decisões, são reais, e geram consequências moralmente superiores. Há, pois, uma
responsabilidade moral em encarar a dogmática jurídica não apenas como dogmática, mas
como Ciência do Direito, nos termos aqui propostos: entre a utopia e a apologia, sim, e com a
primeira como bússola e horizonte.

201
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2007.
202
De volta ao país de origem, Olga foi levada para a prisão de mulheres da Gestapo, a Barnimstraße, onde teve
sua filha, Anita Leocádia Prestes, que com ela ficou até o fim do período de amamentação. Nos primeiros dias
de março de 1938, foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg e, em 1939, para o campo de
concentração feminino de Ravensbrück, onde prisioneiras eram submetidas à escravidão e a experimentos
médicos. Em 1942, foi enviada para o campo de extermínio de Bernburg, onde seria executada, aos trinta e
quatro anos de idade, ao lado de outras cento e noventa e nove mulheres. Cf. OLGA BENÁRIO PRESTES,
2016; MORAIS, 1994.
97

4 INDUTIVISMO OU REALISMO INGÊNUO


4.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Como cada um de nós adquire conhecimento a respeito do mundo? Uma forma


básica de responder a um questionamento como esse consiste em identificar duas maneiras
essenciais: o pensamento e a observação.203 E é a partir disso que são conformadas as duas
teorias clássicas do conhecimento: o racionalismo e o empirismo.
Em suas versões clássicas, para o primeiro, os fundamentos do conhecimento são
acessíveis à mente pensante, consistem em axiomas autoevidentes e, a partir deles, é possível
chegar a proposições verdadeiras por meio da dedução; para o segundo, os verdadeiros
fundamentos do conhecimento são acessíveis por meio dos sentidos, a verdade de uma
proposição é atestada por meio de confrontação com o mundo a partir dos sentidos, e o
conhecimento adicional é construído por meio de algum tipo de inferência indutiva.204
Contrariamente às considerações de Deutsch205, o indutivismo responde à
pergunta sobre o que é ciência e o que a distingue de outras formas de conhecimento e cultura
através de uma ênfase especial na observação como meio de coletar dados da realidade. O
ponto de vista indutivista da ciência representa um tipo central de empirismo, e admite
diferentes versões.
Neste capítulo, os chamados indutivismo ingênuo206 e indutivismo probabilístico
ou sofisticado serão apresentados e criticamente analisados, com especial atenção à relação
entre teoria e observação e como ela impacta as explicações indutivistas da ciência.

203
“For centuries knowledge meant proven knowledge – proven either by the power of the intellect or by the
evidence of the senses.” LAKATOS, 1974, p.91.
204
CHALMERS, 1993, p.153. Em suas várias vertentes o empirismo mantém a percepção como base de
validação científica. FOLSE, 2005.
205
Cf. DEUTSCH, 2009.
206
Autores de um experimento instigante sobre como crenças influenciam observações, Moti Nissani e Donna
Hoefler-Nissani caracterizaram resumidamente o “empirismo ingênuo” como a concepção para a qual a
observação é inferencial, influenciada pela teoria, mas sem que os processos inferenciais sejam tão soltos a
ponto de permitir que façamos a observação que quisermos. Cf. NISSANI; HOEFLER-NISSANI, 1992. A
expressão “indutivismo ingênuo”, empregada por Chalmers, não é um sinônimo da concepção descrita por
Nissani e Hoefler-Nissani, como restará evidente no tópico 3.2 abaixo. Ainda sobre o tema, é interessante
notar que Karl Popper tenha também usado o mesmo adjetivo “ingênuo” (naïve, em inglês) para tratar do
“empirista ingênuo”, entendido por ele como aquele que crê na lógica indutiva. Cf. POPPER, 2005[1935],
p.88. Concordo com o adjetivo desde que o empirista ingênuo seja entendido como aquele que crê na lógica
indutiva como base do conhecimento científico.
98

4.2. INDUTIVISMO INGÊNUO E INDUTIVISMO PROBABILÍSTICO

Em sua exposição sobre o indutivismo, Chalmers distingue duas de suas versões:


o que foi chamado de indutivismo ingênuo, e uma versão mais sofisticada e probabilística de
indutivismo.

4.2.1. O indutivismo ingênuo (e seus problemas)

Para o indutivismo ingênuo, o conhecimento científico depende da observação. O


cientista deve registrar o que observa, por meio de sentidos normais e inalterados, e deve fazê-
lo sem preconceitos, sem “a intrusão de nenhum elemento pessoal, subjetivo”. As afirmações
decorrentes, as chamadas “proposições de observação”, formam então a base a partir da qual
são derivadas as leis e teorias que constituirão o conhecimento científico, e sua verdade pode
ser estabelecida ou conferida pelo uso direto dos sentidos.207
Todas as proposições de observação resultam do uso dos sentidos do observador
num lugar e tempo específicos. Por isso, são afirmações singulares, definidas por referirem-se
“a uma ocorrência específica ou a um estado de coisas num lugar específico, num tempo
específico”, como, por exemplo: “À meia-noite de 1º de janeiro de 1975, Marte apareceu em
tal e tal posição no céu”; “Essa vara, parcialmente imersa na água, parece dobrada”; “O Sr.
Smith bateu em sua esposa”; “O papel de tornassol ficou vermelho ao ser imerso no
líquido”.208
O conhecimento científico, porém, não se resume às afirmações singulares, mas
delas parte rumo às afirmações universais, i.e., aquelas que ditam coisas sobres as
propriedades ou comportamento de algum aspecto do universo, referindo-se não a um evento,
mas a todos os eventos de um tipo específico, em todos os lugares e em todos os tempos. São
as leis ou teorias científicas de caráter geral. Exemplos: “Os planetas se movem em elipses em
torno de seu Sol” (conhecimento científico da astronomia); “Quando um raio de luz passa de
um meio para outro, muda de direção de tal forma que o seno do ângulo de incidência
dividido pelo seno do ângulo de refração é uma característica constante do par em média”
(conhecimento científico da física); “Animais em geral têm uma necessidade inerente de
algum tipo de liberdade agressiva” (conhecimento científico da psicologia); “Os ácidos fazem
o tornassol ficar vermelho” (conhecimento científico da química).209

207
CHALMERS, 1993, p.24, 34, 24-25.
208
CHALMERS, 1993, p.25.
209
CHALMERS, 1993, p.26, 25.
99

O caminho das afirmações singulares para as universais deve satisfazer três


condições: (i) o número de proposições de observação que forma a base de uma generalização
deve ser grande; (ii) as observações devem ser repetidas sob uma ampla variedade de
condições; (iii) nenhuma proposição de observação deve conflitar com a lei universal
derivada. Assim, e.g., a afirmação geral de que todos os metais se expandem quando
aquecidos (i) não pode se basear na observação de uma única barra de metal em expansão; (ii)
vários tipos diferentes de metais devem ser aquecidos em diferentes condições de temperatura
e pressão etc.; (iii) a generalização não poderá ser mantida se uma das amostras não expandir-
se quando aquecida. Disso decorre o princípio da indução, que pode ser assim resumido: “Se
um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos
esses As observados possuíam sem exceção a propriedade B, então todos os As têm a
propriedade B”.210 Mas o indutivismo não para por aí. Explicado o princípio indutivista e o
papel da indução no caminho dos fatos às leis e teorias, ao quadro geral do indutivismo falta
ainda destacar o papel da dedução.
Como uma das características do conhecimento científico “é sua capacidade
de explicar e prever”, por indução o cientista alcança leis e teorias a partir da observação dos
fatos e, por dedução a partir das leis e teorias formuladas, propõe previsões e explicações.
Assim, e.g., da lei de expansão dos metais quando aquecidos decorre, por raciocínio dedutivo,
que trilhos contínuos de ferrovias não interrompidos por pequenos espaços irão sofrer
alterações potencialmente dramáticas sob o calor do sol.211
O papel da dedução, porém, é limitado: se bem serve para obter uma conclusão
logicamente válida a partir de determinadas premissas, ele não pode, entretanto, atestar a
verdade das próprias premissas. Por isso, é plenamente possível realizar deduções
logicamente válidas de premissas que sejam evidentemente falsas, como, por exemplo:
“Todos os gatos têm cinco patas. Joana é uma gata. Logo, Joana tem cinco patas.”212

210
CHALMERS, 1993, p.26-27.
211
CHALMERS, 1993, p.28-33.
212
CHALMERS, 1993, p.30. Sobre argumentos dedutivos e as diferenças entre eles e argumentos indutivos, ver:
SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
100

Figura 3 - Síntese do “indutivismo ingênuo”.

FONTE: CHALMERS, 1993, p.28.

Conquanto possa parecer uma explicação atraente e crível sobre a ciência,


sobretudo para o leigo, o indutivismo ingênuo padece de problemas sérios, a começar pela
justificação de sua viga-mestra: o princípio da indução.
Em primeiro lugar, o princípio da indução não pode ser justificado com base na
lógica, que só permite a justificação de argumentos lógicos válidos (que se caracterizam pelo
fato de que, se a premissa do argumento é verdadeira, então a conclusão deve ser verdadeira);
somente os argumentos dedutivos teriam esta característica.213 Chalmers relata, neste sentido,
o famoso caso do “peru indutivista” concebido por Bertrand Russell. Após recolher um
grande número de observações do fato de que ele era alimentado sempre às nove da manhã, e
após verificar que isso se repetia, em dias chuvosos e secos, quentes e frios, em diferentes dias
da semana, enfim, em várias circunstâncias diferentes, o peru indutivista concluiu, por meio
de um raciocínio indutivo, que era alimentado todos os dias às nove horas da manhã. A

213
Na explicação de Chalmers, se o raciocínio dedutivo parte da máxima geral para a particular, o raciocínio
indutivo faz o contrário. Num raciocínio dedutivo, da premissa maior segundo a qual todos os corvos são
pretos e da premissa menor de que “Pretinho” é um corvo decorre logicamente a conclusão de que “Pretinho”
é preto. Num raciocínio indutivo, da premissa de que muitos corvos observados sob uma ampla variedade de
circunstâncias eram, todos eles, pretos, eu infiro que todos os corvos são pretos. No exemplo do raciocínio
dedutivo, seria contraditório dizer que a conclusão que “Pretinho” é preto é falsa, mas manter como
verdadeiras as premissas que todos os corvos são pretos e que “Pretinho” é um corvo. No exemplo do
raciocínio indutivo, porém, afirmar que todos os corvos observados se revelaram pretos não está em
contradição com a afirmativa de que nem todos os corvos são pretos. CHALMERS, 1993, p.37. Sinnott-
Armstrong e Neta definem argumentos dedutivos não conforme o raciocínio do geral para o particular, mas
por pretenderem ser válidos de forma lógica. Cf. SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015. A propósito, um
erro comum é o de considerar, a contrario sensu, que a indução sempre nos leva do âmbito particular para o
geral. Isso também é um equívoco, pois a generalização indutiva (inductive generalization) é somente um dos
diferentes tipos de argumento indutivo. SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
101

conclusão, contudo, revelou-se falsa quando, na manhã de Natal, ele foi degolado.214
Conclusão: uma inferência indutiva com premissas verdadeiras pode levar a uma conclusão
falsa.215
Em segundo lugar, o princípio da indução tampouco pode ser justificado com base
na experiência. Tal tipo de justificação se daria, em síntese, da seguinte forma: como o
conhecimento gerado pelo princípio da indução conseguiu ser bem-sucedido em previsões e
explicações por muitas vezes, então ele será bem-sucedido sempre. O problema – apontado
por David Hume já em meados do século XVIII216 e é tradicionalmente conhecido como
“problema da indução” – é que se configura uma justificação circular, de modo que o
princípio da indução passa a ser justificado por um argumento indutivo: a afirmação geral que
assegura a validade do princípio da indução é induzida a partir das várias afirmações
singulares de que ele foi bem-sucedido no passado.217 Sinnott-Armstrong e Neta tratam em
detalhes das chamadas falácias de vacuidade, dentre elas a falácia da circularidade. Na falácia
de vacuidade, o argumento começa já supondo o que se espera que ele estabeleça. Por isso, é
um argumento que não leva a lugar algum; seu ponto de partida pressupõe o que se espera que
o argumento prove / sustente. A circularidade, em particular, ocorre quando a conclusão do
argumento já está contida na premissa. É o que ocorre quando a indução é usada como
justificativa para ela mesma.218
Além disso, o princípio da indução padece de outros problemas de vagueza e
dubiedade dos seus requisitos. Como saber se foi, de fato, realizado um “grande número” de
observações em uma “ampla variedade” de circunstâncias? Quantas observações constituem
um “grande número”, e em quais circunstâncias este número será necessário para validar o
conhecimento produzido?

214
Cf. RUSSELL, 2009 [1912] (capítulo VI: “On Induction”). “Domestic animals expect food when they see the
person who usually feeds them. We know that all these rather crude expectations of uniformity are liable to be
misleading. The man who has fed the chicken every day throughout its life at last wrings its neck instead,
showing that more refined views as to the uniformity of nature would have been useful to the chicken. But in
spite of the misleadingness of such expectations, they nevertheless exist. The mere fact that something has
happened a certain number of times causes animals and men to expect that it will happen again. Thus our
instincts certainly cause us to believe that the sun will rise tomorrow, but we may be in no better a position
than the chicken which unexpectedly has its neck wrung. We have therefore to distinguish the fact that past
uniformities cause expectations as to the future, from the question whether there is any reasonable ground for
giving weight to such expectations after the question of their validity has been raised.” RUSSELL, 2009
[1912].
215
CHALMERS, 1993, p.37-38.
216
HUME, 1960 [c. 1739–40] (Book I, Part III, section VI). Ver, também: VICKERS, 2016.
217
CHALMERS, 1993, p.38-39.
218
SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
102

Em certos casos, a exigência de um “grande número” de observações parece


plausível: não parece ser justificável afirmar a causalidade entre tabagismo e câncer no
pulmão com base num único fumante inveterado que contraiu a moléstia, nem afirmar que
uma cartomante tem poderes sobrenaturais com base numa única previsão correta. Em outros
casos, porém, a mesma exigência se revela totalmente descabida: não é necessário repetir o
emprego de armas atômicas contra cidades, como foi realizado pelos Estados Unidos em
Hiroshima, para se condenar o ato, assim como não parece ser necessário queimar as mãos
incontáveis vezes numa panela quente para se concluir que o fogo queima. Além disso, a
“ampla variedade” de circunstâncias pode significar, e.g., que na investigação sobre o ponto
de fervura da água haja repetidos experimentos com variações em relação às condições de
pressão ou à pureza da água, mas seriam irrelevantes os experimentos em que fosse
modificado o método de aquecimento ou a hora do dia. Há, portanto, uma seleção prévia das
circunstâncias relevantes para a observação, e isso depende do conhecimento teórico da
situação e dos tipos de mecanismos físicos em vigor, o que significa reconhecer algo que o
indutivista ingênuo não estaria inclinado a admitir: que a teoria desempenha um papel
vital anterior à própria observação.219
Ainda assim, há várias respostas possíveis para o problema da indução: (i) a
resposta cética, segundo a qual a ciência se baseia na indução sem que isso possa ser
racionalmente justificado em bases da lógica ou da experiência, de modo que crenças em leis
e teorias seriam advindas, em última análise, apenas de hábitos psicológicos adquiridos como
resultado de repetições de observações; (ii) defender o princípio da indução como óbvio ou
razoável por si só (o que é contestável, pois muitas teorias falsas já foram tidas como
verdadeiras porquanto óbvias, como a forma achatada da Terra ou a necessidade de uma causa
ou força para provocar o movimento de um objeto); (iii) defender uma fundamentação do
conhecimento científico em bases outras que não a da indução, como fez, e.g., Karl Popper.220

Quadro 13 - Problemas do indutivismo ingênuo.


PROBLEMAS DO INDUTIVISMO
PROBLEMAS DE ● O princípio da indução não pode ser justificado com base na lógica, que só
JUSTIFICAÇÃO permite a justificação de argumentos lógicos válidos. Dito de outro modo: uma
DO PRINCÍPIO inferência indutiva com premissas verdadeiras pode levar a uma conclusão falsa.
DA INDUÇÃO ● O princípio da indução não pode ser justificado com base na experiência,

219
CHALMERS, 1993, p.39-40.
220
CHALMERS, 1993, p.43-44. O falseabilismo de Popper é examinado no capítulo 5.
103

porque isso equivale a justificá-lo por um argumento indutivo do tipo “a


afirmação geral que assegura a validade do princípio da indução é induzida a
partir das várias afirmações singulares que atestam que o princípio foi bem-
sucedido no passado”.
● Como saber se foi, de fato, realizado um “grande número” de observações em
uma “ampla variedade” de circunstâncias? Quantas observações constituem um
PROBLEMAS DE
“grande número”, e em quais circunstâncias este número será necessário para
VAGUEZA E
validar o conhecimento produzido? Se as respostas passarem por seleção prévia
DUBIEDADE
orientada por concepções teóricas, então a teoria desempenha um papel anterior à
própria observação.
FONTE: Elaboração própria a partir de CHALMERS, 1993, p.33-40.

4.2.2. A versão probabilística do indutivismo (e seus problemas)

As generalizações por indução não permitem afirmações sempre verdadeiras. Mas


será que não permitem afirmações provavelmente verdadeiras? Quanto maior o número de
observações formando a base de uma indução e maior a variedade de condições sob as quais
essas observações são feitas, não seria maior também a probabilidade de que as
generalizações resultantes sejam verdadeiras? A versão probabilística do indutivismo
responde que sim, e reconceitua o princípio indutivo da seguinte forma: “Se um grande
número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As
observados, sem exceção, possuíam a propriedade B, então todos os As provavelmente
possuem a propriedade B”.221
O problema da indução, contudo, permanece, porque o princípio probabilístico da
indução ainda é uma afirmação universal e implica que todas as aplicações do princípio
levarão a conclusões provavelmente verdadeiras.222
Além dos problemas que acometem a versão original do indutivismo, o
indutivismo probabilístico ainda enfrenta outras dificuldades. Por mais “intuitivamente
plausível” que seja considerar que quanto maior for o número de fenômenos observados,
maior a probabilidade de acerto da afirmação universal induzida, as evidências observáveis
constituem, em todos os casos, um número finito de proposições de observação, “enquanto
uma afirmação universal reivindica um número infinito de situações possíveis”, de modo que
a divisão de um por outro será sempre zero.223

221
CHALMERS, 1993, p.41.
222
CHALMERS, 1993, p.41.
223
CHALMERS, 1993, p.41-42.
104

Uma forma de contornar o problema seria a de desistir da atribuição de


probabilidades a leis e teorias científicas válidas em um número infinito de situações para
dirigir a probabilidade apenas a previsões individuais; dito de outro modo, a ciência cuidaria
da probabilidade de o Sol nascer amanhã ao invés da probabilidade de que ele nasça sempre.
Contudo, uma resposta assim enfrentaria pelo menos dois problemas:
I. A ideia de uma ciência como conjunto de previsões individuais ao invés de um
complexo de afirmações gerais é contraintuitiva (counterintuitive).
II. A própria probabilidade da correção ou exatidão de previsões individuais
sofrerá influência de proposições teóricas gerais (teorias e leis universais); assim, e.g., a
previsão individual de que o Sol nascerá amanhã terá suas estimativas de probabilidade
aumentadas “uma vez que o conhecimento das leis que governam o comportamento do
sistema solar seja levado em consideração”.224
Ou seja, ao contrário do que quer aceitar o indutivista, a teoria tem um papel
importante na definição da ciência e da qualidade do conhecimento adquirido também, mas
não apenas através da observação. Como será demonstrado a seguir, há ótimas razões para
acreditar que, diferentemente do que sugere o relato indutivista da ciência, observações são
carregadas / imbuídas de teoria (theory-laden), o que coloca os pressupostos do indutivismo
em grande dificuldade.

4.3. O PAPEL DA TEORIA NA OBSERVAÇÃO

O indutivismo credita à observação duas funções cruciais e contestáveis: a de que


a ciência começa com a observação e a de que a observação produz uma base segura da qual o
conhecimento pode ser derivado.225 No entanto, a concepção indutivista de ciência não é
capaz de dar à teoria e à observação, bem como à relação entre uma e outra, uma explicação
adequada.
No contexto das observações científicas, a visão humana é um sentido importante
para o indutivista, que a tem como confiável, de modo geral, por duas razões: (i) um
observador humano “tem acesso mais ou menos direto a algumas propriedades do mundo
externo à medida que essas propriedades são registradas pelo cérebro no ato da visão”; (ii)
uma “combinação idêntica de raios de luz vai atingir o olho de cada observador, vai ser
focada em suas retinas normais pelas suas lentes normais e produzirá imagens similares” que

224
CHALMERS, 1993, p.42-43.
225
CHALMERS, 1993, p.46.
105

alcançarão o cérebro de cada observador por meio dos nervos óticos normais, fazendo com
que os dois observadores diferentes “vejam” a mesma coisa.226
Esta, contudo, é uma percepção equivocada. Diferentes experimentos demonstram
que dois observadores normais vendo o mesmo objeto do mesmo lugar e sob as mesmas
circunstâncias físicas podem ter imagens idênticas formadas em suas retinas e, ainda assim,
não ter a mesma experiência visual.227 Para ilustrar o argumento, Chalmers emprega a
seguinte figura:

Figura 4 - Escada de Schröder

FONTE: CHALMERS, 1993, p.48.

A figura acima é uma figura reversível por ser apreendida de diversas formas:
como a representação de uma escada vista de cima; como a representação de uma escada vista
de baixo; e, no caso de observadores vindos de culturas que não têm o costume de representar
objetos tridimensionais por desenhos em perspectiva bidimensional, como a representação de
um arranjo bidimensional de linhas.228
Conquanto Chalmers não diga, a figura supra é famosamente conhecida como
“escada de Schröder”.229 O filósofo da ciência Norwood Russell Hanson tratou
extensivamente do fenômeno das figuras reversíveis, incluindo em sua análise diversos outros
exemplos para além da escada de Schröder.
O ponto de partida de Hanson é compreender como pode ser que dois relatórios
observacionais elaborados em relação às mesmas condições sejam, ainda assim, diferentes.230
O mesmo dado (e.g., uma lâmina para visualização através de microscópio) é apresentado a
dois biólogos, e cada um descreve algo diferente do outro. Como interpretar o fato? Hanson

226
CHALMERS, 1993, p.47-48.
227
CHALMERS, 1993, p.48.
228
CHALMERS, 1993, p.49.
229
SCHROEDER STAIRS, 2016.
230
FOLSE, 2005.
106

começa a enfrentar a pergunta criando uma situação hipotética em que Tycho Brahe e
Johannes Kepler estão ambos em cima de uma montanha, diante do nascer do sol. Para Brahe,
a Terra é fixa e os demais astros giram ao seu redor. Para Kepler, o Sol é fixo, e a Terra,
móvel. Eles veem a mesma coisa?
Quanto aos processos físicos relativos à situação, fótons idênticos são emitidos
pelo sol, atravessam o espaço e nossa atmosfera; ambos os astrônomos têm visão normal, i.e.,
os fótons passam através da córnea, humor aquoso, íris, cristalino e vítreo de ambos os pares
de olhos, tudo da mesma maneira; ambas as retinas são afetadas, e mudanças eletroquímicas
similares ocorrem em suas células nervosas. No entanto, não são os olhos que veem, mas as
pessoas. Enxergar é uma experiência que não se limita ao estado físico de uma reação da
retina, de uma excitação fotoquímica.231
O que um entende por “sol” é diferente do que entende o outro; as respostas do
que cada um vê refletirão alguma controvérsia. Se perguntarmos, contudo, não se eles veem a
mesma coisa, mas o que de comum eles veem, uma resposta incontroversa pode ser dada:
estão ambos cientes de um disco brilhante branco e amarelo. Se fossem instados a fazer uma
representação gráfica do que veem, desenhariam algo parecido. Eles têm a mesma
experiência, no sentido da forma como biologicamente seus órgãos sensoriais percebem a
imagem. A imagem nas retinas é a mesma. Contudo, para Brahe, o Sol está se movendo num
horizonte parado; para Kepler, o horizonte se move e expõe um sol que está parado. Em
síntese: a identidade da experiência física ou da representação gráfica não é relevante para
sabermos ao certo se Brahe e Kepler veem a mesma coisa e apenas a interpretam
diferentemente.232
Para demonstrar melhor o argumento sobre a irrelevância da questão da identidade
de representação gráfica, como já dito, Hanson vale-se de uma série de figuras reversíveis
para além da escada de Schöder, a começar pelo conhecidíssimo “cubo de Necker”.233 Diante
da figura a seguir, alguns enxergarão um cubo visto de baixo; outros, um cubo visto de cima;
outros, uma espécie de joia de corte poligonal; outros, ainda, apenas linhas que se cruzam
num plano; e pode-se até mesmo especular que haja quem enxergue na figura um bloco de
gelo, um aquário, uma armação de arame para uma pipa ou papagaio, e muitas outras
coisas.234

231
HANSON, 1965.
232
HANSON, 1965; FOLSE, 2005.
233
CUBO DE NECKER, 2013.
234
HANSON, 1965.
107

Figura 5 - Um cubo de Necker

FONTE: HANSON, 1965.

As reações das retinas são as mesmas e, se instados a representar graficamente o


que veem, os observadores também desenhariam algo parecido. As diferenças, então, dizem
respeito à forma como cada um interpreta o mesmo dado? Hanson argumenta que não parece
ser este o caso, pois as pessoas não veem primeiro e interpretam depois; o que se está a
chamar de interpretação, nestas circunstâncias, é algo que se dá de forma instantânea
(imediata, irrefletida).235
A conclusão é reforçada pelo que se entende comumente por “interpretação”.
Tucídides é tido como o historiador grego que apresentava os fatos objetivamente, e Heródoto
como o historiador que os interpretava. É possível conceber um momento em que Heródoto
esteve no meio do caminho de seu trabalho de interpretação das guerras grego-persas236, mas
não há “meio do caminho” na interpretação da figura supra. Ademais, se por um lado saber se
um historiador está ou não dando uma interpretação (subjetiva) dos fatos é concebivelmente
uma questão empírica, não parece ser este o caso em relação à interpretação da figura, pois
não é possível imaginar o que poderia contar como evidência para saber se há, de fato, uma
“interpretação” ou não.237 Enfim: não parece haver razões para supor que todos os
observadores veem a mesma coisa, mas a interpretam de forma diferente. Em síntese,
interpretar pressupõe pensar, refletir, ao passo que ver uma figura é algo imediato:

Interpretar é pensar, fazer algo; ver é um estado experiencial. As diferentes formas


pelas quais as figuras podem ser vistas não ocorrem em virtude de diferentes
pensamentos que estejam por trás das reações visuais. O que a palavra “espontâneo”
poderia significar se considerássemos essas reações como não espontâneas? Quando
o lance de escadas “fica ao contrário”, ele assim se apresenta espontaneamente ao
observador. O observador não pensa em nada especial; na verdade, não pensa em

235
HANSON, 1965.
236
Também conhecidas por “Guerras Médicas”.
237
Talvez hoje isso seja possível com experimentos neurocientíficos.
108

coisa alguma. Tampouco interpreta. Apenas vê, ora a escada de cima para baixo, ora
a escada de baixo para cima.238

O sol da situação hipotética envolvendo Brahe e Kepler não é uma entidade que
permite a mesma variação de perspectiva. Ainda assim, sustenta Hanson, as figuras
reversíveis são relevantes para demonstrar que diferenças no que as pessoas veem podem
ocorrer em cenários onde não há diferenças visuais quanto à figura observada, nem tampouco
espaço para algum tipo de “interpretação” sobreposta à sensação visual. Todas as retinas
normais formam a mesma figura, todos os observadores podem representá-la num desenho da
mesma forma, e, ainda assim, uns veem algo, outros veem outra coisa.
Para Chalmers, em suma, a experiência visual que um observador tem ao ver um
objeto “depende em parte de sua experiência passada, de seu conhecimento e de suas
expectativas”, bem como do “estado geral interior do observador”.239 Não é que existe uma
mesma imagem formada na retina de cada observador normal diante da mesma situação física
sendo interpretada diferentemente pelos observadores; a experiência visual é direta e
imediata240, dependendo em parte das causas físicas relacionadas às imagens formadas nas
retinas dos observadores, e em parte do estado interior de suas mentes ou cérebros.241 A
dependência do que vemos em relação ao estado das nossas mentes, contudo, não inviabiliza a
comunicação e a ciência; ao contrário, “há um sentido no qual todos os observadores veem a
mesma coisa”, porque “um único mundo físico existe independente de observadores”. O que
não se sustenta é a assertiva de que todas as experiências perceptivas serão idênticas, apenas
isso.242

238
“To interpret is to think, to do something; seeing is an experiential state. The different ways in which these
figures are seen are not due to different thoughts lying behind the visual reactions. What could 'spontaneous'
mean if these reactions are not spontaneous? When the staircase 'goes into reverse' it does so spontaneously.
One does not think of anything special; one does not think at all. Nor does one interpret. One just sees, now a
staircase as from above, now a staircase as from below.” HANSON, 1965.
239
CHALMERS, 1993, p. 49-50.
240
“Uma resposta comum à afirmação que estou fazendo sobre a observação, apoiada pelos tipos de exemplos
que utilizei, é que observadores vendo a mesma cena do mesmo lugar veem a mesma coisa mas interpretam o
que veem diferentemente. Gostaria de questionar esta ideia. Na medida em que se trata da percepção, a única
coisa com a qual um observador tem contato direto e imediato são suas experiências. Essas experiências não
são dadas como únicas e imutáveis, mas variam com as expectativas e conhecimento do observador. O que é
dado unicamente pela situação física é a imagem sobre a retina de um observador, mas um observador não tem
contato perceptivo direto com essa imagem. Quando o indutivista ingênuo e muitos outros empiristas supõem
que algo único nos é dado pela experiência e que pode ser interpretado de várias maneiras, eles estão supondo,
sem argumento e a despeito de muitas provas em contrário, alguma correspondência entre as imagens sobre
nossas retinas e as experiências subjetivas que temos quando vemos. Eles estão levando longe demais a
analogia da câmera”. CHALMERS, 1993, p.51-52.
241
CHALMERS, 1993, p. 51-53.
242
CHALMERS, 1993, p. 53.
109

De sua parte, Hanson dá uma explicação mais sofisticada, mas numa direção
similar. Para ele, as diferenças podem ser compreendidas a partir do conceito de
“organização”: algo que não é visto da mesma forma que as linhas e cores das figuras e nem
as integra como um de seus elementos, mas a forma mesma pela qual os elementos são
compreendidos, aquilo que dá um padrão às diferentes linhas e formas, é o que as torna
inteligíveis.243
Hanson trabalha ainda com as três figuras abaixo.

Figura 6 - Pelicanos, antílopes, ou ainda outra coisa?

FONTE: BRAINDEN.COM, s.d.

243
HANSON, 1965.
110

Por razões didáticas, adotarei o binômio “pelicano/antílope” proposto por Folse


em suas notas a respeito do texto de Hanson para denominar o conjunto de figuras acima.244
O elemento principal da primeira figura pode ser igualmente visto no canto
inferior direito das figuras seguintes. Hanson não explica isso claramente ao leitor, mas é uma
informação importante que reforça o ponto de chegada do argumento de que o contexto
influencia a forma como o objeto é visto. O que podemos ver nas figuras? Ver a primeira
figura separadamente nos induz a algum resultado? Outra pergunta importante: até que ponto
nosso conhecimento prévio sobre o mundo também influencia o que vemos nas figuras?
No mesmo sentido, Hanson questiona: alguém que nunca viu um antílope antes,
mas que já viu aves, poderia enxergar aí um antílope?245 Da reflexão de Hanson, outra questão
também se depreende: pelo contexto decorrente, sobretudo, da terceira figura, é possível que o
antílope seja visto mais facilmente ou mais provavelmente?
O que cada pessoa vê é algo que depende do contexto da figura e de sua bagagem
prévia, o que reforça a retidão da hipótese de que dois observadores podem ter a mesma
experiência física, representá-la da mesma maneira e, ainda assim, enxergarem coisas
diferentes. Eu mesmo confesso ter visto coelhos na primeira e na segunda figuras,
possibilidade que sequer foi aventada por Hanson. E o leitor, o que vê? Quantas outras
possibilidades se abrem aos diferentes observadores? Minha experiência subjetiva também
reforça a posição hansoniana.
O que cada um vê pode decorrer tanto de um contexto descrito ou explícito,
quanto do contexto implícito das experiências de vida e dos conhecimentos de cada um.
Quanto ao primeiro caso, por exemplo, o fato de Hanson ter mencionado antílopes em seu
texto me levou a enxergá-los nas figuras, sobretudo após a última delas, mas, mais ainda,
principalmente em virtude das palavras usadas por ele. O próprio Hanson não chega a
sistematizar os diferentes tipos com as denominações “contexto explícito” e “contexto
implícito”, mas julgo serem pertinentes e também fiéis à exposição, pois o filósofo chega a
falar de um contexto apresentado “explicitamente” (set out exclusively) e de um contexto
“contido” (built into) no pensar (thinking), no imaginar (imagining) e no representar
(picturing).246
A física busca primariamente inteligibilidade (daí ser uma filosofia natural), novos
modos de organização conceitual. Kepler e Brahe, na situação hipotética, têm elementos da

244
FOLSE, 2005.
245
HANSON, 1965.
246
HANSON, 1965.
111

experiência idênticos, mas uma organização conceitual muito diferente.247 A busca por fatos e
objetos é secundária e acessória à busca principal por inteligibilidade. Os dados analisados
por um cientista exigem mais do que um simples apontar para um objeto observável. Ao
realizar uma observação, o cientista procura averiguar se ela condiz com o conhecimento
estabelecido. Toda observação é carregada de teoria (theory-laden). A observação de x é
moldada pelo conhecimento prévio a respeito de x. Um observador que veja um tubo de raios-
X, por exemplo, sabe ao menos que, se ele fosse jogado contra uma pedra, quebraria. Um
observador que vê uma taça sabe ou ao menos pressupõe que ela tenha um interior côncavo.
Alguém que veja o “cubo de Necker” como um cubo de gelo vê que ele possui seis faces, é
tangível, ocupa um espaço no universo e não desaparece num piscar de olhos.248
As pressuposições fortes contidas na própria observação podem revelar-se
surpreendentemente incorretas; o resultado surpreendente, para existir, depende da
normalidade. Ou é essa a minha compreensão da fala de Hanson: “Ver um objeto x é ver que
ele pode se comportar da forma como sabemos que x se comporta”249; e também de seu
arremate, que não prescindiu de algum lirismo: “[Exatamente] [p]orque o mundo não é um
conjunto de truques de mágica é que mágicos podem existir”.250 Isso seria conhecimento: ver
algo como x e atribuir a esse algo os predicados de x, saber que (presumivelmente) esse algo
exibirá tais predicados. Ver é também estabelecer conexões. Nas palavras de Hanson: “toda
percepção envolve uma etiologia e um prognóstico”.251 O “prognóstico” contido no próprio
ato de ver algo pode revelar-se incorreto, ou seja, é corrigível). O conhecimento não é
acessório ao ato de ver; está presente no próprio ato. Nós não perguntamos “O que é isso?”
todas as vezes que vemos uma bicicleta.252 Também não nos esforçamos ao ver a página de
um livro como algo que possui outro lado, ainda que inexistam garantias de que, ao virarmos
a página, ela deixe de existir.253

247
HANSON, 1965.
248
HANSON, 1965.
249
“Seeing an object x is to see that it may behave in the ways we know x's do behave: if the object's behaviour
does not accord with what we expect of x's we may be blocked from seeing it as a straightforward x any
longer.” Cf. HANSON, 1965.
250
“Because the world is not a cluster of conjurer's tricks, conjurers can exist.” Cf. HANSON, 1965.
251
“This is knowledge: it is knowing what kind of a thing 'box' or 'cube' denotes and something about what
materials can make up such an entity. 'Transparent box' or 'glass cube' would not express what was seen were
any of these further considerations denied. Seeing a bird in the sky involves seeing that it will not suddenly do
vertical snap rolls; and this is more than marks the retina. We could be wrong. But to see a bird, even
momentarily, is to see it in all these connexions. As Wisdom would say, every perception involves an
aetiology and a prognosis.” Cf. HANSON, 1965.
252
Uma ressalva: desde que o conceito já nos seja familiar.
253
HANSON, 1965.
112

Enfim: para Hanson, diferenças de perspectiva nos casos em que as imagens


retinais são as mesmas explicam-se na organização daquilo que é somente óptico, que não
está na retina, mas depende do contexto e das crenças [beliefs] do observador. Ver não é
somente um evento perceptivo; é um evento epistêmico. O observador não recebe
passivamente um “dado”. Ver algo envolve uma proposição com valor de verdade.254
Brahe e Kepler veem coisas diferentes porque atribuem ao “disco brilhante branco
e amarelo” diferentes predicados e expectativas que fazem parte da própria observação. Se há
alguma “construção”, ela faz parte do ato de ver, assim como o som e a composição
integram/são a música e as cores e seus arranjos são a pintura. Não há duas operações
distintas, “ver” e “interpretar”.255 Por isso, Folse corretamente compreende a posição de
Hanson como a de que a observação é essencialmente carregada de teoria, já que a teoria é
parte indispensável da observação, num grau tal que a própria noção de observação sem
“teoria” faria com que ver fosse irrelevante para teorias.256
O ato de ver é um amálgama de figuras e linguagem, de visão essencialmente
pictórica e conhecimento fundamentalmente linguístico. Sem a linguagem, nada que
observamos pode ter relevância para nosso conhecimento; não poderíamos falar sobre nossas
observações, e nada do que observamos faria sentido, pois “fazer sentido” não é outra coisa
senão descrever a observação com frases inteligíveis. O conhecimento não mudou em virtude
dos insights de Galileu, do gênio de Newton ou da imaginação de Einstein, mas em
decorrência das coisas verdadeiras que eles disseram. O conhecimento sobre o mundo não é
uma montagem de paus, pedras, cores e sons, mas um sistema de proposições que podem ser
verdadeiras ou falsas; diferentemente das proposições, figuras ou imagens sensoriais não são
nem verdadeiras, nem falsas. O “conhecimento científico” equivale a “proposições tidas como
verdadeiras”.257 Ainda em relação à comparação entre figuras e proposições, Hanson salienta
que as últimas servem como representações ou cópias da realidade sem, contudo, replicarem
nenhuma característica do que representam, o que não ocorre com as imagens, com os mapas
ou com as gravações, que contêm elementos do objeto original (e.g., elementos de “urso” ou
árvore” estão na figura, mas não nas palavras “urso” ou “árvore”).258 Daí a linguagem ser tida
como “mais versátil”, já que não precisa ser uma “cópia” de “mesmo tipo” que o objeto

254
FOLSE, 2005; HANSON, 1965.
255
HANSON, 1965.
256
FOLSE, 2005.
257
“… scientific knowledge, that is, propositions known to be true…”. HANSON, 1965.
258
A rigor, é possível que este argumento específico de Hanson seja pontualmente falho quando as proposições
linguísticas tratam da própria linguagem. A palavra “palavra” é, afinal, uma palavra.
113

original para representá-lo. A linguagem copia o mínimo possível. Há palavras (mais ou


menos) onomatopéicas259, mas são exceções que também confirmam o quão convencional é a
linguagem. Seu caráter convencional fica claro ao pensarmos sobre a palavra “urso”: não há
nada aí que se assemelhe a um urso, ao som que o animal faz ou algo do tipo; que a união das
letras “u”, “r”, “s” e “o”, nesta ordem, tenha o significado que conhecemos é decorrência de
uma convenção que coordena a palavra com o objeto.260
Segundo Chalmers, o indutivismo erra em pelo menos três pontos261:
I. Diferentemente do que supõe, proposições de observação sempre são precedidas
por algum tipo de teoria.
II. As proposições de observação não podem ser uma base firme para o
conhecimento científico por estarem sujeitas a falhas tanto quanto as teorias que pressupõem.
Isso não significa, contudo, que as proposições de observação devam ser descartadas, mas
apenas que o papel dado a elas pelos indutivistas é incorreto.
III. A base do conhecimento científico não decorre de observações feitas por um
observador imparcial e sem qualquer tipo de pré-concepção. Ao orientar a forma como as
observações serão feitas, os pressupostos teóricos provocam uma seleção prévia de dados a
serem catalogados, bem como de outros dados a serem ignorados. Isso faz com que o
pesquisador não seja, ao menos no sentido indutivista ingênuo, totalmente desprendido de
pré-concepções.
A seleção de dados é inerente à verificação científica, mas isso não quer dizer,
evidentemente, que ela não possa provocar erros.262
O exemplo trazido por Chalmers refere-se aos experimentos elétricos conduzidos
por Heinrich Hertz em 1888, e que visavam testar a teoria eletromagnética de Maxwell e as
ondas de rádio por ela previstas. Durante os experimentos, Hertz registrou as leituras dos
medidores, a presença ou ausência de faíscas nos vários locais críticos nos circuitos elétricos,
as dimensões do circuito... Por outro lado, ignorou outros dados claramente “irrelevantes”
para o tipo de teoria que estava sendo testado, como, por exemplo, a cor dos medidores, as
dimensões do laboratório, a meteorologia, o tamanho de seus sapatos etc. Ao assim proceder,

259
Hanson (1965) cita, em inglês, as palavras “buzz”, “tinkle” and “toot” como exemplos disso.
260
HANSON, 1965.
261
CHALMERS, 1993, p.58.
262
“Observações e experimentos são realizados no sentido de testar ou lançar luz sobre alguma teoria, e apenas
aquelas observações consideradas relevantes devem ser registradas. Entretanto, na medida em que as teorias
que constituem nosso conhecimento científico são falíveis e incompletas, a orientação que elas oferecem,
como, por exemplo, as observações relevantes para algum fenômeno sob investigação, podem ser enganosas, e
podem resultar no descuido com alguns importantes fatores.” CHALMERS, 1993, p.59.
114

Hertz percebeu diferenças em relação às velocidades de suas ondas de rádio, mas nunca soube
compreendê-las devidamente. Apenas após a sua morte descobriu-se que um dos dados tidos a
princípio como “irrelevantes” era, sim, relevante e interferiu nas mensurações: as dimensões
do laboratório (as ondas de rádio emitidas pelo aparelho de Hertz eram refletidas pelas
paredes do laboratório de volta ao aparelho). A solução para as eventuais orientações falsas
dadas pelo corpo teórico ao observador reside no aperfeiçoamento das teorias.263
O exemplo pode servir como demonstrativo de algo mais simples: é preciso
cuidado na hora de excluir variáveis da observação. É preciso testar sua influência antes da
exclusão.
Os indutivistas modernos, mais sofisticados, não apoiam o indutivismo ingênuo
na assertiva de que a ciência começa com a observação livre de preconceitos e parcialidades.
Diferentemente, eles diferenciam a maneira pela qual uma teoria é primeiro pensada ou
descoberta e a maneira pela qual uma teoria é justificada. O que importaria para a Filosofia da
Ciência não seria a questão da origem de novas teorias, mas a questão de sua adequação,
medida como já descrito: os fatos relevantes à teoria são averiguados por observação sob uma
ampla variedade de circunstâncias e, assim, ela é verdadeira ou não por meio de algum tipo de
inferência dedutiva.264 A diferenciação refere-se à distinção entre “contexto de descoberta” e
“contexto de justificação” das teorias, dualidade comum na filosofia da ciência: o primeiro
refere-se à geração de uma nova ideia ou hipótese, aos processos mentais de fato; o segundo,
ao teste, à verificação, essencialmente, à defesa da correção da ideia.265
Ainda assim, permanece a crítica de que as proposições de observação são falíveis
e carregadas de teoria, o que coloca em questionamento a ideia de que a observação possa ser
um fundamento seguro para o conhecimento científico. O positivismo lógico que pode ser
lido como indutivismo extremado chegou até mesmo a dizer que o fundamento reside na
observação direta, e que qualquer teoria que não possa ser por ela validada carece de
significado. As mesmas críticas se aplicam a ele.266 “Besouros podem ser colecionados;
observações, não.”267

263
CHALMERS, 1993, p.59-60.
264
CHALMERS, 1993, p.60-61.
265
SCHICKORE, 2014.
266
CHALMERS, 1993, p.61-62. Assim como Chalmers, também Popper entende que a versão sofisticada,
probabilística, do indutivismo tampouco se salva: “My own view is that the various difficulties of inductive
logic here sketched are insurmountable. So also, I fear, are those inherent in the doctrine, so widely current
today, that inductive inference, although not ‘strictly valid’, can attain some degree of ‘reliability’ or of
‘probability’.” POPPER, 2005[1935], p.6.
267
POPPER, 1962, p.46.
115

As filosofias da ciência rivais sofrem também de dificuldades similares às


enfrentadas pelo indutivismo, mas são superiores a ele porque lançam uma luz nova e
interessante sobre a natureza da ciência, dando explicações sobre a ciência “crescentemente
mais adequadas, mais interessantes e mais frutíferas”.268
No texto “The Theory-Ladenness of Observation and the Theory-Ladenness of the
Rest of the Scientific Process”, William F. Brewer e Bruce L. Lambert examinam a tese de
que as observações são carregadas de teoria a partir de evidências da psicologia cognitiva e da
história da ciência, além de cuidarem de outros aspectos do trabalho ou processo científico
para além da observação perceptual, como atenção, percepção, interpretação e produção de
dados, memória e comunicação. Após constatarem a correção da tese, não sustentam, porém,
uma conclusão relativista: compreender a observação como carregada de teoria, segundo os
autores, não significa que informações sensoriais não possam nunca contrariá-la.269
Brewer e Lambert partem do pressuposto teórico de que a percepção resulta da
interação de informação teórica de cima para baixo (top-down theory information) e
informação sensorial de baixo para cima (bottom-up sensory information). Nos casos dos
experimentos mencionados, a informação sensorial de baixo para cima era fraca, o que
permitiu que influências de cima para baixo tivessem um impacto forte na experiência
perceptiva. Os pesquisadores sugerem, neste sentido, que se a informação sensorial fosse a de
uma agulha num instrumento de medição registrando um numeral 10 numa escala clara de 1 a
10, dificilmente as “crenças teóricas” do cientista seriam capazes de passar por cima da forte
informação perceptiva.270
Na história da ciência, Galileu e muitos outros cientistas nas décadas seguintes
registraram em suas observações que Saturno era um planeta com luas ao seu redor, e não
anéis. Aparentemente, a crença de que alguns planetas tinham luas distorceu a percepção dos
cientistas em relação aos anéis de Saturno. Outro exemplo refere-se aos “raios-N” na física.
Logo após a descoberta dos raios-X, físicos experimentais iniciaram buscas por outras formas
de radiação. Em 1903, Prosper-René Blondlot anunciou a descoberta de uma nova forma de

268
CHALMERS, 1993, p.62.
269
BREWER; LAMBERT, 2001, p.179.
270
“In these cases the weak bottom-up information allowed the top-down influences to have a strong impact on
perceptual experience. It seems likely that strong bottom-up information will override top-down information.
If the information to be perceived is whether a needle on an instrument is registering a 10 on a clear 1-10
scale, it is unlikely the theoretical beliefs of the scientist will be able to override the strong bottom-up
perceptual information. Thus, the top-down/bottom-up analysis allows one to have cases of theory-laden
perception, but does not necessarily lead down the slippery slope to relativism”. BREWER; LAMBERT,
2001, p.179.
116

radiação, os “raios-N”. A descoberta foi sucedida pela publicação de mais de trezentos


trabalhos por cem cientistas distintos sobre as propriedades dos raios-N, até que outro físico,
Robert Wood, ao visitar o laboratório de Blondlot, percebeu que observadores continuavam a
detectar raios-N mesmo depois de Wood ter (secretamente) alterado o aparato de modo a
torná-lo inútil.271
A influência da teoria no primeiro exemplo é compreensível, pois observadores
astrônomos tradicionalmente levam seus instrumentos ao limite da tecnologia disponível e,
por isso, frequentemente fazem observações a partir de informações de baixo para cima muito
fracas. Quanto aos “raios-N”, se Blondlot tivesse desenvolvido um medidor capaz de permitir
uma leitura mais clara quando exposto aos raios-N (ou seja, se tivesse tornado as informações
de baixo para cima mais seguras), dificilmente o episódio teria ocorrido. Assim como os
experimentos mencionados antes, os exemplos também aparentam reforçar a ideia de que toda
percepção é carregada de teoria, quando, na verdade, igualmente lidaram com fenômenos
ambíguos ou limitados, que exigiam um difícil juízo de percepção (perceptual judgement) por
parte do observador. Na história da ciência, a astronomia traz exemplos interessantes de
observações anteriores a uma descoberta que foram descartadas por razões metodológicas,
ignoradas ou reinterpretadas, dentre elas evidências que apontam 22 observações de Urano
anteriores à descoberta desse planeta.272
Ainda assim, da mesma forma que ocorre em relação à percepção, existem limites
de baixo para cima impostos aos processos de atenção: quando os processos de baixo para
cima são fortes, o observador se dá conta do fenômeno mesmo quando ele é de todo
inesperado. É por isso que Tycho Brahe pôde ver uma nova estrela ao observar o céu em
algum momento do ano de 1672 (uma supernova), mesmo que sua experiência prévia e seu
marco teórico aristotélico o levavam a jamais esperar a ocorrência de tal fenômeno.273
Também em relação à interpretação dos dados há evidência da influência de
processos de cima para baixo, como, e.g., um estudo cujos resultados mostram que estudantes
de música interpretam um texto ambíguo como sendo relativo a ensaios musicais, enquanto o
mesmo texto é interpretado por estudantes de outras disciplinas como relativo a um jogo de
cartas; e também exemplos de influência de processos de baixo para cima, como na

271
BREWER; LAMBERT, 2001, p.179-180.
272
BREWER; LAMBERT, 2001, p. 179-180.
273
BREWER; LAMBERT, 2001, p.181.
117

arqueologia: o dinossauro Iguanodon foi primeiramente tido como similar a uma iguana, mas
essa interpretação foi descartada à medida em que mais evidências foram encontradas.274
Em virtude disso, a conclusão geral de Brewer e Lambert foi a de que há
evidências em defesa da tese de Hanson e de Kuhn, i.e., teorias influenciam a percepção e o
trabalho científico; contudo, a abordagem de cima para baixo / de baixo para cima (top-
down/bottom-up approach) reduz a força da tese na medida em que aceita que, quando a
evidência de baixo para cima é forte, ela não é facilmente superada por informações de cima
para baixo.275

4.4. OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS SOBRE O INDUTIVISMO

Em linhas gerais, a explicação da ciência dada pelo indutivismo entende que o


conhecimento científico caracteriza-se pela realização e pelo registro público (publicizado,
formulado numa linguagem pública) e objetivo de observações por parte do cientista, a partir
das quais são inferidas, por indução, teorias ou leis das quais, num caminho inverso, dedutivo,
podem ser propostas explicações e previsões. Há, a partir daí, um critério de demarcação do
que conta como ciência e do que não deve contar, e também um critério para comparar teorias
diferentes: será melhor aquela que se assentar num número maior de observações e variedade
de condições de observação. Disso decorre, ademais, uma explicação a respeito do progresso
da ciência: uma teoria ou lei nova pode substituir a teoria ou lei anterior se for construída
sobre uma base maior de observações.
Em resumo, o indutivismo falha enquanto explicação da ciência e do papel da
teoria ao lado dos dados sensoriais na produção do conhecimento científico. A afirmação da
tese de que a observação é carregada de teoria, por outro lado, não deve ser confundida com
os enganos comuns sistematizados a seguir:

Quadro 14 - Desfazimento de enganos comuns na rejeição do indutivismo.


DESFAZIMENTO DE ENGANOS COMUNS NA REJEIÇÃO DO INDUTIVISMO
A tese de que a observação é carregada de teoria não se confunde com a ideia de que observadores
diferentes veem a mesma coisa, mas a interpretam diferentemente; ao revés, a ela se opõe por entender
que visões diferentes se dão antes mesmo que qualquer processo interpretativo se inicie.
Reconhecer que a experiência não é determinada apenas pelo caráter do mundo, mas também, de modo
significativo, pelas crenças e expectativas do observador, não é o mesmo que afirmar que o observador é

274
BREWER; LAMBERT, 2001, p.181-182.
275
BREWER; LAMBERT, 2001, p.181-184.
118

capaz de ver qualquer coisa que queira. O mundo real limita as possibilidades de experiência que o
observador pode ter.
A tese de que a observação é carregada de teoria não se confunde com a visão metafísica idealista de que
o mundo é produto da atividade da minha ou de outra mente. A realidade do mundo como independente
da mente não é negada; apenas entende-se que ela não é diretamente relevante para a questão da
neutralidade da observação, pois relatórios observacionais dependem muito da mente do observador.
A tese de que a observação é carregada de teoria não se confunde com a tese de que os cientistas veem
apenas aquilo que querem ver, i.e., aquilo que confirma suas hipóteses, deixando de lado tudo aquilo que
poderia refutá-las. Observações enviesadas existem, mas podem ser evitadas, mitigadas (pela replicação
por outros cientistas) ou identificadas e criticadas / punidas.
A rejeição do indutivismo em prol da tese de que a observação é carregada de teoria não significa que as
proposições de observação devam ser descartadas, mas apenas que há um erro na forma como o
indutivismo as concebe.
A rejeição do indutivismo em prol da tese de que a observação é carregada de teoria não significa uma
rejeição da indução: a indução e os diferentes tipos de argumento indutivo continuam sendo úteis para
vários tipos de conhecimento científico e racional.
Afirmar a tese de que a observação é carregada de teoria não equivale a entender que as pressuposições
fortes contidas na própria observação são infalíveis; elas podem revelar-se incorretas de várias maneiras,
dentre elas, por meio da descoberta de um novo fenômeno inteiramente inesperado pela teoria
dominante. A anomalia, enquanto falha da natureza em se adequar às expectativas, depende do contexto
de uma teoria que gere tais expectativas, e pode conduzir ao desenvolvimento de uma nova teoria.
FONTE: Elaboração própria.

4.5. INDUTIVISMO E CIÊNCIA DO DIREITO

A concepção indutivista de ciência pressupõe um mundo físico acessível pelos


sentidos. O cientista pode registrar o que capta e, por indução, propor teorias ou leis que
expliquem fenômenos do mundo, e que permitam, por dedução, prever o seu comportamento
futuro. Nestes termos, a Ciência do Direito não é uma ciência, já que seu trabalho principal
volta-se não para o mundo físico, mas para o mundo normativo. O cientista do Direito não
coleciona informações sensoriais para propor, por indução, teorias ou leis, mas busca
compreender o sentido e o alcance de normas. A veracidade das proposições da Ciência do
Direito não pode ser julgada conforme o conceito estrito de verdade por correspondência que
subjaz ao indutivismo. É certo que as afirmações fáticas que integram o raciocínio jurídico
podem ser científicas, caso forem capazes de respeitar os requisitos indutivistas, mas não têm
o condão de fazer com que a Ciência do Direito como um todo possa ser tratada como uma
ciência.
119

No entanto, considerando as fragilidades do indutivismo enquanto explicação da


ciência, perde em importância o fato de a Ciência do Direito não se amoldar a ele. Por outro
lado, a discussão teórica a respeito das fragilidades do indutivismo pode muito bem ser
proveitosa para o estatuto epistemológico da Ciência do Direito.
Em relação ao ponto de as observações serem falíveis e carregadas de teoria,
parece-me que comparações e analogias razoáveis podem ser traçadas com o estudo do
Direito sem violar as particularidades e a autonomia do último. Se mesmo algo tão
instantâneo e natural como uma experiência sensorial visual é condicionado por informações
contextuais e pressupostos do observador, é um evento epistêmico; e se mesmo outros
aspectos do trabalho científico são imbuídos de teoria; parece ser razoável supor que o mesmo
se dê na interpretação de textos normativos, quer o intérprete esteja parcial ou totalmente
cônscio disso, quer não.
A ideia de que a teoria condiciona, mas não determina totalmente a experiência
sensorial e como ela será encarada, de modo que informações sensoriais muito fortes podem
contrariar crenças teóricas também termina por oferecer ao jurista uma comparação de bom
quinhão de plausibilidade. Uma combinação de crenças teóricas (explícitas e implícitas,
conhecidas e não conhecidas pelo próprio sujeito) e informações contextuais (por exemplo, as
circunstâncias do caso concreto dado ou hipotetizado pelo jurista) parece mesmo condicionar
a forma como o cientista do Direito compreenderá o texto normativo, e há casos em que, por
algum encontro ou soma de contexto, formulação linguística, usos comuns da linguagem e
preconcepções comuns, o significado da norma parece claro mesmo quando ele contraria as
expectativas mais afeitas às crenças teóricas ou aos interesses do intérprete. Faço a
comparação com todo o cuidado, pois não estou a dizer que a experiência de uma norma que
porventura não pareça vaga ou ambígua para o intérprete é equivalente àquela que vivencia o
cientista que adota determinado marco teórico diante de uma informação sensorial que
radicalmente o contraria e que não pode ser ignorada. Trato de semelhanças cognitivas, não
equivalências.
Nas diferentes ciências, e também na Ciência do Direito, há ou pode haver alguma
influência do sujeito na compreensão do objeto, como na observação ou na interpretação
carregadas de teoria. A partir disso, elaborei a síntese a seguir para afastar enganos possíveis
em relação ao reconhecimento de que, similarmente ao que ocorre com o cientista natural, o
trabalho de interpretação jurídica também está carregado de teoria (i.e., de informações
contextuais e de predicados do intérprete, como crenças teóricas):
120

• Reconhecer que o sentido e o alcance das normas não são determinados apenas
pelos textos normativos, mas também, de modo significativo, pelas crenças e expectativas do
jurista, não é o mesmo que afirmar que o jurista é capaz de interpretar qualquer coisa que
queira. As possibilidades de interpretação não são ilimitadas.
• A tese de que a interpretação é carregada de teoria não se confunde com a tese
de que os juristas veem apenas aquilo que querem ver, i.e., aquilo que confirma suas hipóteses
interpretativas, deixando de lado tudo aquilo que poderia refutá-las. Também não se confunde
com aceitar como legítima toda e qualquer influência de crenças e afins do intérprete no
resultado da interpretação. Interpretações enviesadas existem, como aquelas intencional e
estrategicamente construídas para confirmar uma determinada hipótese interpretativa. Existem
e podem ser evitadas, mitigadas ou identificadas e criticadas.
• A indução e os diferentes tipos de argumento indutivo continuam sendo úteis
para vários tipos de conhecimento científico e racional, e isso é verdade para a Ciência do
Direito, cujas proposições também podem compor argumentos indutivos. Para ilustrar,
consideremos duas pesquisas rivais. Na primeira, o jurista afirma que a jurisprudência de um
determinado tribunal é uníssona ao afirmar a interpretação X, mas oferece apenas um
punhado de acórdãos comuns para dar suporte à afirmação, enquanto outro jurista apresenta a
teoria rival de que o citado tribunal na verdade favorece, em mais de noventa por cento dos
casos, a interpretação Y, apontando como suporte para sua afirmação a análise de duas
centenas de acórdãos. A indução realizada pelo segundo é mais consistente que aquela
realizada pelo primeiro. As regras de inferência servem como árbitro racional para a melhor
teoria. Outro uso recorrente da indução é na argumentação a favor da existência de normas
jurídicas implícitas.
• Afirmar a tese de que a interpretação é carregada de teoria não equivale a
entender que as pressuposições teóricas não possam ser enfraquecidas, refutadas ou
modificadas diante de críticas, novos fatos, novas normas e novas hipóteses de interpretação
normativa. Em outras palavras: ela não equivale à tese de que a teoria imbuída na
interpretação e o tipo de resultado que ela tende a atrair são imutáveis.
121

5 FALSEABILISMO OU REALISMO CRÍTICO


5.1. INTRODUÇÃO AO FALSEABILISMO

A concepção de ciência proposta por Karl Popper tem especial importância não
somente pelo seu conteúdo, como também pelo seu impacto. Sinal disso é o fato de que parte
substancial dos aportes modernos à epistemologia formulou-se como reação aos seus
enunciados.276
Para Popper, dois tipos de afirmação têm valor especial para os cientistas277:
I. Afirmações ou proposições de observação, também chamadas de afirmações
existenciais singulares. Exemplo: “Existe um cisne branco.” A afirmação é equivalente a:
“Existe um x, x é um cisne e x é branco.”
II. Afirmações universais, que categorizam todos os casos ou circunstâncias de
algo. Exemplo: “Todos os cisnes são brancos”. A afirmação é equivalente a: “Para todos os x,
se x for um cisne, então x é branco.” Leis científicas são normalmente afirmações universais.
Como se dá o salto do singular para o universal? Quando é possível inferir
validamente uma afirmação universal de algum número de afirmações singulares?
O problema da indução põe em risco ou dúvida a base que o indutivismo elegeu
para o conhecimento científico, na medida em que nenhum número de observações será
suficiente para a verificação de uma generalização como “Todos os corvos são pretos” ou
“Todos os cisnes são brancos”.278
A inferência indutiva é inválida do ponto de vista lógico: é possível que as
premissas compostas por afirmações singulares sejam verdadeiras e a conclusão universal,
falsa279 (como, aliás, ocorreu de fato com o exemplo dos cisnes brancos a partir da descoberta
dos cisnes negros australianos).
Uma resposta possível para o problema, como mencionado no capítulo anterior, é
defender uma fundamentação do conhecimento científico em bases outras que não a da
indução, como fez Karl Popper através do falsificacionismo ou falseabilismo
(falsificationism).
Para o falseabilismo, o conhecimento científico caracteriza-se a partir de hipóteses
ou teorias concebidas como conjecturas especulativas criadas pelo intelecto humano para
superar problemas encontrados por teorias anteriores, com o fito de dar uma explicação
276
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.73.
277
POPPER, 2005[1935], p.47-50.
278
POPPER, 2005[1935], p.4, 266.
279
SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
122

adequada do comportamento de aspectos do universo. Uma vez propostas, as teorias são


rigorosa e inexoravelmente testadas (por observação, por experimento) e, caso não passem no
teste, são eliminadas e substituídas por novas conjecturas. Com isso a ciência progride por
conjecturas e refutações. Não é possível dizer que uma teoria é verdadeira, mas pode-se
legitimamente dizer que ela é a melhor teoria disponível. O fundamento da ciência reside não
na verificabilidade (a partir de múltiplas observações e posterior indução, por exemplo), mas
na refutabilidade das teorias.280 A ciência é essencialmente um conjunto de hipóteses que
almeja descrever o comportamento de algum aspecto do universo e que são falseáveis, i.e.,
sujeitas à confirmação ou refutação. Uma hipótese será falseável sempre que houver uma
proposição de observação ou um conjunto delas, logicamente possíveis, que sejam
inconsistentes com ela (i.e., que, se verdadeiras, tornam a hipótese falsa). A ciência é um
sistema de teorias refutáveis e, por isso, “a lógica do conhecimento científico pode ser
descrita como uma teoria sobre teorias”.281
O empirismo tradicional defende que todo conhecimento deriva da experiência e
que proposições universais podem ser verificadas através dela. A contradição implícita ao
empirismo é eliminada por Popper ao rejeitar a exigência de verificação empírica em prol da
refutabilidade empírica das proposições universais. Para ele, teorias científicas não são
inferidas indutivamente da experiência, nem a empreitada científica é levada a cabo para
verificar ou estabelecer a verdade das teorias. Ao invés disso, todo conhecimento científico é
provisório, conjectural, hipotético; pode ser no máximo temporariamente confirmado ou
conclusivamente refutado. O pensamento crítico é a essência da racionalidade e da ciência,
pois através dele teorias falsas são eliminadas e uma decisão racional é tomada em relação às
teorias não regutadas, segundo o nível mais alto de capacidade ou força explanatória e poder
de previsão.282

280
CHALMERS, 1993, p.64. “[N]ot the verifiability but the falsifiability of a system is to be taken as a criterion
of demarcation. In other words: I shall not require of a scientific system that it shall be capable of being
singled out, once and for all, in a positive sense; but I shall require that its logical form shall be such that it can
be singled out, by means of empirical tests, in a negative sense: it must be possible for an empirical scientific
system to be refuted by experience.” POPPER, 2005[1935], p.18.
281
POPPER, 2005[1935], p.37-38 (“The empirical sciences are systems of theories. The logic of scientific
knowledge can therefore be described as a theory of theories. Scientific theories are universal statements. Like
all linguistic representations they are systems of signs or symbols. Thus I do not think it helpful to express the
difference between universal theories and singular statements by saying that the latter are ‘concrete’ whereas
theories are merely symbolic formulae or symbolic schemata; for exactly the same may be said of even the
most ‘concrete’ statements. Theories are nets cast to catch what we call ‘the world’: to rationalize, to explain,
and to master it. We endeavour to make the mesh ever finer and finer.”); CHALMERS, 1993, p.65-66.
282
THORNTON, 2015.
123

O princípio da indução não pode ser justificado com base na lógica, como ilustra
bem o caso do “peru indutivista” de Russell. A lógica, porém, pode ser usada para alcançar a
refutação de leis e teorias universais por dedução. Basta considerar uma afirmação universal
U que proíba uma observação O (U → ⌐O) e a ocorrência da observação O que, pelo modus
tollens, a afirmação universal U será negada (⌐U).283 No exemplo bastante simples dado por
Chalmers, a proposição “Um corvo, que não era preto, foi observado no local x no momento
m” permite que se deduza logicamente a falsidade da proposição “Todos os corvos são
pretos”.284 A ele, somam-se outros exemplos de hipóteses falseáveis285:
I. “Nunca chove às quartas-feiras” (pode ser falseada com a observação de chuva
caindo numa quarta-feira).
II. “Todas as substâncias se expandem quando aquecidas” (pode ser falseada com
a observação de uma substância que não se expanda quando aquecida).
III. “Quando um raio de luz é refletido de um espelho plano, o ângulo de
incidência é igual ao ângulo de reflexão” (pode ser uma proposição verdadeira, mas também é
falseável “porque um raio de luz incidente sobre um espelho em ângulo obliquo poderia
concebivelmente ser refletido numa direção perpendicular ao espelho” sem que isso
representasse uma contradição lógica).
E, também, exemplos de hipóteses que não são falseáveis286:
I. “Ou está chovendo ou não está chovendo” (nenhuma proposição de observação
logicamente possível poderia refutar esta hipótese; ela é verdadeira em qualquer tempo).
II. “Todos os pontos num círculo euclidiano são equidistantes do centro” (uma
figura que não tenha todos os pontos equidistantes do centro não pode ser, por definição, um
círculo euclidiano).
III. “A sorte é possível na especulação esportiva” (a frase, retirada de um
horóscopo de jornal, significa que, se o leitor fizer uma aposta, poderá ganhar, o que é
verdadeiro mesmo se ele não fizer uma aposta, e quer ele ganhe ou perca caso decida fazê-la).
Na visão de Popper, somente as hipóteses falseáveis podem ser científicas porque
apenas elas possuem caráter informativo; dão alguma informação sobre como o mundo de
fato se comporta. Isso não ocorre com hipóteses não falseáveis; à luz de uma afirmação não
283
POPPER, 2005[1935], p.19. Sobre o modus tollens e sua pertinência para a avaliação de argumentos
dedutivos, ver: SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
284
CHALMERS, 1993, p.65.
285
CHALMERS, 1993, p.66-67.
286
CHALMERS, 1993, p.67; POPPER, 2005[1935], p.19 (“the statement, ‘It will rain or not rain here tomorrow’
will not be regarded as empirical, simply because it cannot be refuted; whereas the statement, ‘It will rain here
tomorrow’ will be regarded as empirical.”).
124

falseável, “o mundo pode ter quaisquer propriedades, pode se comportar de qualquer maneira,
sem conflitar com a afirmação”. É por isso que as afirmações não falseáveis acima nada
dizem a respeito de como o mundo se comporta.287
Para o falseabilismo, algumas teorias podem superficialmente ter as características
de boas teorias científicas, mas, no fundo, não o serem por não serem, de fato, falseáveis.
Assim, e.g., uma teoria psicológica que tenha como um dos seus princípios o de que as ações
humanas são motivadas por algum tipo de sentimento de inferioridade não é científica por não
ser falseável, e não é falseável porque pode ser consistente com qualquer tipo de
comportamento humano, sendo incapaz de dizer qualquer coisa sobre ele. No exemplo, um
homem está parado na margem de um rio e vê uma criança cair e se afogar. Se ele mergulha
para salvar a criança, fala-se que procurou superar “seu sentimento de inferioridade
demonstrando que era corajoso o suficiente para saltar no rio”; se ele não salta, fala-se que
“estava superando seus sentimentos de inferioridade demonstrando que tinha a força para
permanecer na margem, sem se perturbar, enquanto a criança se afogava”. 288 Nas palavras de
Chalmers, “há muitas teorias sociais, psicológicas e religiosas que despertam a suspeita de
que, em sua preocupação de explicar tudo, elas não explicam nada”. A “existência de um
Deus amoroso e a ocorrência de algum desastre podem ser tornadas compatíveis pela
interpretação do desastre como tendo sido mandado para nos pôr à prova ou punir”. Do
mesmo modo, uma afirmação como “Os animais são planejados de maneira a melhor
preencherem a função para a qual eles foram pretendidos” nada diz sobre o comportamento
animal, porque virtualmente qualquer comportamento pode se adequar à assertiva.289
Segundo o falseabilismo, uma teoria muito boa faz afirmações amplas a respeito
do mundo, sendo, em virtude disso, altamente falseável e capaz de resistir às refutações em
todas as vezes em que é testada. A lei “Todos os planetas se movem em elipses em torno de
seus sóis” é mais falseável que a lei “Marte se move numa elipse em torno do Sol”, porque
nos fala o mesmo que a segunda, e mais. Proposições referentes às órbitas de outros planetas,
e.g., seriam irrelevantes para falsear a segunda, mas poderiam falsear a primeira. Proposições
assim são chamadas por Popper de “falseadores potenciais”. O conjunto de falseadores
potenciais de uma lei mais abrangente é maior do que aquele de uma lei menos abrangente.290

287
CHALMERS, 1993, p.67.
288
CHALMERS, 1993, p.67-68.
289
CHALMERS, 1993, p.68-69.
290
CHALMERS, 1993, p.69; POPPER, 2005[1935], p.65-66 (“A theory is to be called ‘empirical’ or
‘falsifiable’ if it divides the class of all possible basic statements unambiguously into the following two non-
empty subclasses. First, the class of all those basic statements with which it is inconsistent (or which it rules
125

As três leis de Kepler sobre o movimento planetário tinham como falseadores


potenciais afirmações referentes a posições planetárias relativas ao Sol em períodos
especificados. As leis do movimento de Newton, aliadas à sua lei da gravidade (segundo a
qual todos os pares de corpos no universo se atraem mutuamente com uma força que varia
inversamente ao quadrado de sua distância), têm como falseadores potenciais tanto conjuntos
de afirmações de posições planetárias em períodos especificados quanto afirmações acerca do
comportamento de corpos em queda e pêndulos, da correlação entre as marés e as localizações
do Sol e da Lua etc. Por isso, e pelo fato de ter resistido às refutações tentadas, a teoria de
Newton estabeleceu-se como superior à de Kepler.291
Se teorias mais falseáveis são preferidas às menos falseáveis, também aquelas que
foram refutadas devem ser imediatamente rejeitadas. Para os falseabilistas, “[o]
empreendimento da ciência consiste na proposição de hipóteses altamente falsificáveis
[falseáveis], seguida de tentativas deliberadas e tenazes de falsificá-las [refutá-las]”.292 A
ciência, para o falseabilismo, progride por conjecturas e refutações e conta principalmente
com as últimas como seus pontos de referência, dada a impossibilidade lógica da derivação de
leis e teorias universais a partir de proposições de observações.293 Com isso, o falseabilismo,
mesmo ao dar as boas-vindas às teorias mais audazes e engenhosas, não incorre no perigo de
fazer proliferar teorias especulativas demais, porque qualquer uma que for inadequada como
descrição do mundo é, de pronto, “impiedosamente eliminada”.294

out, or prohibits): we call this the class of the potential falsifiers of the theory; and secondly, the class of those
basic statements which it does not contradict (or which it ‘permits’). We can put this more briefly by saying: a
theory is falsifiable if the class of its potential falsifiers is not empty.”).
291
CHALMERS, 1993, p.69-70; POPPER, 2005[1935], p.386-387.
292
CHALMERS, 1993, p.70.
293
CHALMERS, 1993, p.70-71. “The belief that science proceeds from observation to theory is still so widely
and so firmly held that my denial of it is often met with incredulity. I have even been suspected of being
insincere--of denying what nobody in his senses can doubt. But in fact the belief that we can start with pure
observations alone, without anything in the nature of a theory, is absurd; as may be illustrated by the story of
the man who dedicated his life to natural science, wrote down everything he could observe, and bequeathed
his priceless collection of observations to the Royal Society to be used as inductive evidence. This story
should show us that though beetles may profitably be collected, observations may not.” POPPER, 1962, p.46.
“Assume that we have deliberately made it our task to live in this unknown world of ours; to adjust ourselves
to it as well as we can; to take advantage of the opportunities we can find in it; and to explain it, if possible
(we need not assume that it is), and as far as possible, with the help of laws and explanatory theories. If we
have made this our task, then there is no more rational procedure than the method of trial and error—of
conjecture and refutation: of boldly proposing theories; of trying our best to show that these are erroneous; and
of accepting them tentatively if our critical efforts are unsuccessful.” POPPER, 1962, p.51.
294
CHALMERS, 1993, p.71.
126

5.2. FALSEABILISMO E PROGRESSO DA CIÊNCIA

A exigência de que as teorias sejam altamente falseáveis, além da vantagem do


conteúdo informativo, também gera a consequência benéfica de fazer com que as teorias ou
hipóteses sejam assertivas e precisas, bem-delimitadas, já que teorias vagamente afirmativas,
ao serem testadas, podem ser consistentes com quaisquer resultados e, com isso, podem
deixar de ser, de fato, falseáveis.295 A precisão das teorias e hipóteses claramente favorece o
falseabilismo: a afirmação de que a velocidade da luz no vácuo é de 299,8 x 10 6 metros é
preferível àquela de que a velocidade da luz é de “cerca de” 300 x 106 metros por segundo, e
isso ocorre porque ela é mais falseável.296
Como é assim que evolui a ciência, “[n]unca se pode dizer de uma teoria que ela é
verdadeira, por mais que ela tenha superado testes rigorosos”; contudo, é possível dizer que
uma teoria “é superior às suas predecessoras no sentido de que ela é capaz de superar os testes
que falsificaram [refutaram] aquelas predecessoras”.297
Para ilustrar melhor esse processo, Chalmers traz um exemplo que envolve
morcegos. O ponto de partida é um problema: morcegos têm olhos fracos, mas ainda assim
são capazes de voar com facilidade e velocidade, inclusive à noite, o que aparentemente
falseia a teoria plausível de que os animais veem com seus olhos. O cientista falseabilista
propõe uma conjectura testável para resolver o problema: de algum modo o morcego é capaz
de enxergar eficazmente à noite com o uso de seus olhos. “Morcegos são capazes de voar
evitando obstáculos com o uso de seus olhos, e não podem fazê-lo sem o uso de seus olhos”.
No teste, um morcego é solto num quarto escuro com obstáculos e sua habilidade de evitá-los
é medida; e, em seguida, solto novamente, mas desta vez com os olhos vendados. Nas duas
situações, o morcego evita eficazmente os obstáculos: o teste refuta a hipótese, abre-se espaço
para novas conjecturas. Um cientista sugere que de algum modo as orelhas do morcego são
relevantes. A nova hipótese é testada, tapando-se os ouvidos do morcego na segunda situação,
e os resultados a confirmam: com as orelhas tapadas, a habilidade do animal fica
consideravelmente prejudicada. O cientista então busca tornar a hipótese mais precisa e
falseável, sugerindo que o morcego ouve os ecos dos seus guinchos. No novo teste, o
morcego é amordaçado, e novamente sua habilidade de evitar os obstáculos é prejudicada. O
problema parece encaminhar-se para uma solução, mas quaisquer fatores podem mostrar que

295
CHALMERS, 1993, p.71-72.
296
CHALMERS, 1993, p.72.
297
CHALMERS, 1993, p.73.
127

o cientista se enganou (o morcego do experimento pode não ser representativo; o morcego


pode detectar ecos não com os ouvidos, mas com regiões próximas etc.).298
O exemplo mostra uma outra diferença importante na comparação entre
falseabilismo e indutivismo: o ponto de partida do conhecimento científico, para o indutivista
ingênuo, é a observação, ao passo que, para o falseabilista, é o problema científico.
Essencialmente, um problema científico, para o falseabilismo, pode envolver observações que
são sempre problematizadas à luz de alguma teoria, e é por isso que ele não se confunde com
o indutivismo ingênuo, para quem a ciência começa com a simples observação; ou seja,
também o falseabilismo é compatível com a ideia de prioridade e precedência das teorias
sobre a observação e as proposições de observação.299

298
CHALMES, 1993, p.74-75.
299
CHALMERS, 1993, p.73-74.
128

Figura 7 - Progresso da Ciência segundo o Falseabilismo.

PROGRESSO DA CIÊNCIA SEGUNDO O FALSEABILISMO

Início: problema associado ao comportamento de algum aspecto do universo

Proposta de hipóteses falseáveis pelos cientistas como soluções para o problema

Crítica e testagem das hipóteses conjecturadas

Eliminação de algumas hipóteses

Novas críticas e testes mais rigorosos frente às hipóteses restantes

Prevalência da hipótese mais exitosa

Superação da teoria exitosa

Surgimento de um novo problema, distante do problema originalmente resolvido

Invenção de novas hipóteses

Novo ciclo de críticas e testes ...

FONTE: Elaboração própria a partir de CHALMERS, 1993, p.73.

5.3. MODIFICAÇÕES AD HOC E O FALSEABILISMO SOFISTICADO

Para a compreensão da concepção popperiana de ciência em geral, e de como ela


encara o progresso científico em particular, é preciso distinguir o falseabilismo ingênuo do
falseabilismo sofisticado.
O falseabilismo ingênuo300 leva em conta as afirmações científicas
individualmente. Já os falseabilistas sofisticados entendem que a ciência, além de tratar de
hipóteses falseáveis, mas ainda não refutadas, cuida também de seu próprio progresso, e é a
necessidade de progredir que exige que uma hipótese seja mais falseável do que aquela que
ela se propõe a substituir. Com isso, o falseabilismo sofisticado “desvia o foco de atenção dos
méritos de uma teoria isolada para os méritos relativos de teorias concorrentes”, de modo que,

300
Ou “falseabilismo ingênuo metodológico” (naive methdological falsificationism), como prefere Lakatos. Cf.
LAKATOS, 1974, p.93.
129

em geral, uma teoria nova será considerada se for mais falseável que a sua rival, e,
especialmente, se for capaz de prever “um novo tipo de fenômeno não tocado pela rival”.301
Isso fica mais claro diante das modificações ad hoc, e de como o falseabilismo as
encara. A noção de “modificação ad hoc” corresponde à modificação numa teoria (e.g.
alterações em postulados já existentes ou acréscimo de postulados extra) para defendê-la de
uma refutação, e que, contudo, não conduz a consequências testáveis. Um exemplo trivial de
modificação ad hoc: a generalização “o pão alimenta” equivale a dizer que, se o trigo cresce
normalmente e assim é convertido em pão para ser ingerido por humanos, estes estarão
alimentados. Certa vez, numa aldeia francesa tudo isso ocorreu, mas a maioria das pessoas
que comeu o pão adoeceu e morreu. O fato refuta a teoria. Para evitar a refutação, ela é
modificada para: “o pão alimenta, com a exceção do pão produzido na aldeia francesa na
época determinada”. O falseabilismo rejeita a tese modificada por ser menos falseável que a
original.302
No exemplo trivial do pão, a modificação da teoria original poderia não ter sido
ad hoc, como, por exemplo: “o pão alimenta, exceto o pão feito de trigo contaminado por uma
espécie específica de fungo”. Aqui, a modificação leva a novos testes e, com isso, avança o
conhecimento: algo novo é aprendido. Um exemplo histórico de modificação deste tipo
envolve a descoberta do planeta Netuno. A movimentação do planeta Urano, à luz da teoria
gravitacional de Newton, sugeria ou a refutação da teoria, ou a existência de um planeta ainda
desconhecido em seus arredores (hipótese levantada por Leverrier na França e por Adams na
Inglaterra). A mudança para salvar a teoria de Newton conduziu a um novo tipo de teste,
levado a cabo por Johann Gottfried Galle, responsável por avistar Netuno pela primeira vez
através de um telescópio.303

301
CHALMERS, 1993, p.78.
302
CHALMERS, 1993, p.79-80. “A meta da ciência é falsear [refutar] teorias e substituí-las por outras melhores,
que demonstrem maior possibilidade de serem testadas”. CHALMERS, 1993, p.87. Chalmers menciona ainda
dois exemplos históricos de modificações ad hoc que seriam igualmente rejeitados pelo falseabilismo:
Exemplo 1. Galileu observou que a Lua não era uma esfera homogênea, como supunha a física aristotélica e
sua tese de que todos os corpos celestes são esferas perfeitas, mas continha muitas montanhas e crateras na sua
superfície. Seu adversário aristotélico sugeriu que havia uma substância invisível que preenchia as crateras e
cobria as montanhas lunares, fazendo com que a Lua fosse perfeitamente esférica. A teoria modificada não
levava a novas consequências testáveis. Galileu reagiu espirituosamente, aceitando a tese da substância
invisível, mas insistindo que, na verdade, ela se acumulava nos topos das montanhas, fazendo-as ainda mais
altas do que o que aparecia no telescópio (e ainda mais irregular a superfície da Lua). Exemplo 2. Antes de
Lavoisier, entendia-se que as substâncias, ao se queimarem, liberavam no ar uma matéria chamada “flogisto”.
Quando a teoria foi ameaçada pela descoberta de substâncias que ganhavam peso após a combustão, sugeriu-
se que o flogisto tinha peso negativo, o que é uma modificação ad hoc típica, por não levar a novos testes. Cf.
CHALMERS, 1993, p.80-81.
303
CHALMERS, 1993, p.81-82.
130

Uma das vantagens do falseabilismo sofisticado em relação ao falseabilismo


ingênuo consiste em facilitar a mensuração da falseabilidade das teorias. A ênfase na ciência
como corpo de conhecimento em crescimento e evolução leva à comparação de graus de
falseabilidade de diferentes teorias, o que, por sua vez, possui uma vantagem técnica
considerável: se por um lado é impossível mensurar de forma absoluta a falseabilidade de
uma teoria isolada, é frequentemente possível comparar a falseabilidade de diferentes leis ou
teorias e concluir pela maior falseabilidade de uma em relação às demais. Um exemplo: a
afirmação “todos os pares de corpos se atraem mutuamente com uma força que varia
inversamente ao quadrado de sua distância” é mais falseável que a afirmação “todos os
planetas no sistema solar se atraem mutuamente com uma força que varia inversamente ao
quadrado de sua distância”, inclusive porque a abarca, de modo que, se a primeira for falsa,
também o será a segunda (mas não o inverso).304
A partir da noção de conhecimento prévio de uma época como o complexo das
teorias geralmente aceitas e bem estabelecidas num dado estágio da história, é possível
diferenciar as hipóteses ou conjecturas audaciosas (bald conjectures) das conjecturas
conservadoras ou cautelosas. Neste sentido, uma conjectura é audaciosa se afirma o que é
improvável à luz do conhecimento prévio da época, e uma conjectura cautelosa aquela que
compõe o próprio conhecimento prévio (equivalente a conhecimento bem estabelecido, tido
como não problemático). Também à luz da noção de conhecimento prévio, é possível
conceituar uma previsão nova como a que envolve algum fenômeno que não figura no
conhecimento prévio.305
O falseabilismo prefere conjecturas audaciosas.306 Para Chalmers, a afirmação da
importância de conjecturas audaciosas e de seu impiedoso descarte caso não sobrevivam aos
testes sugerem que, para o falseabilismo, os avanços significativos da ciência se dão

304
CHALMERS, 1993, p.78-79.
305
CHALMERS, 1993, p.85-86.
306
“Eu posso, portanto, admitir alegremente que falseabilistas como eu preferem uma tentativa de resolver um
problema interessante por uma conjectura audaciosa, mesmo (e especialmente) se ela logo se revela falsa, a
alguma récita da sequência de truísmos irrelevantes. Preferimos isto porque acreditamos que esta é a maneira
pela qual podemos aprender com nossos erros; e porque ao descobrirmos que nossa conjectura era falsa
podemos ter aprendido muito sobre a verdade, e teremos chegado mais perto dela.” (“I can therefore gladly
admit that falsificationists like myself much prefer an attempt to solve an interesting problem by a bold
conjecture, even (and especially) if it soon turns out to be false, to any recital of a sequence of irrelevant
truisms. We prefer this because we believe that this is the way in which we can learn from our mistakes; and
that in finding that our conjecture was false, we shall have learnt much about the truth, and shall have got
nearer to the truth.”). POPPER, 1962, p.231. A tradução do trecho para o português foi retirada de
CHALMERS, 1993, p.70. Chalmers cita a passagem e a obra, mas não a página. Tive acesso à obra original de
Popper e pude confirmar todas as informações concernentes.
131

exatamente pela refutação de conjecturas desse tipo.307 Na verdade, a ciência avança


significativamente por meio de diferentes formas, como na confirmação de conjecturas
audaciosas (e.g. descoberta de Netuno; “a confirmação de Eddington da arriscada previsão de
Einstein de que os raios de luz se curvariam em campos gravitacionais fortes”) e na refutação
de conjecturas cautelosas, i.e., conjecturas que não pareçam envolver riscos significativos
(e.g. a demonstração feita por Russell de que o indutivismo ingênuo, apesar de basear-se em
proposições quase autoevidentes, é, de fato, inconsistente). Os cenários opostos comprovam o
mesmo. Quando uma conjectura audaciosa revela-se falsa, “tudo o que se aprende é que mais
uma ideia maluca revelou-se errada”: a física pouco avançou quando revelou-se falsa “a
especulação de Kepler de que o espaçamento das órbitas planetárias pudesse ser explicado por
referência aos cinco sólidos regulares de Platão”. E quando uma hipótese cautelosa se
confirma, o que se tem é apenas a indicação de “que alguma teoria que era bem estabelecida e
vista como não problemática foi aplicada com sucesso mais uma vez”: pouco se avança
quando a conjectura de que aços obtidos de um novo minério irão, como qualquer outro aço,
expandir-se quando aquecidos.308 Em poucas palavras: o conhecimento avança na direção do
inesperado.
O falseabilismo ingênuo entende que a atividade científica deve se voltar a
tentativas de refutar teorias por meio do estabelecimento da verdade de proposições de
observação que sejam inconsistentes com elas, ao passo que o falseabilismo sofisticado
reconhece a importância tanto da confirmação de teorias especulativas quanto da refutação de
teorias bem estabelecidas. Ambos, contudo, defendem a verdade na refutação, mas não na
confirmação de hipóteses, de modo que a rejeição seja decisiva, mas a aceitação sempre
tentada.309
A noção de conhecimento prévio é também importante numa diferenciação
adicional entre o indutivismo e o falseabilismo, por introduzir o contexto histórico como
importante na discussão sobre ciência.
Segundo Chalmers, para o indutivismo ingênuo, a confirmação ou refutação de
uma teoria decorre apenas do relacionamento lógico entre ela e as proposições de observação,
e quanto maior o número de instâncias de confirmação estabelecidas, “maior será o apoio para
a teoria e a probabilidade dela ser verdadeira”. Por isso, é uma concepção de ciência não
histórica, e este caráter tem a “consequência pouco atraente” de fazer com que a repetição de

307
CHALMERS, 1993, p.82-83.
308
CHALMERS, 1993, p.83-84.
309
CHALMERS, 1993, p.90.
132

instâncias de confirmação desinteressantes leve a aumentos na estimativa da probabilidade


(e.g., seria ainda assim científico repetir observações sobre quedas de pedras para estimar a
probabilidade de verdade da lei da gravidade). O falseabilismo, por sua vez, dá ao contexto
histórico um papel muito importante, de modo que uma confirmação de uma teoria será de
grande valor ao se contrapor ao conhecimento prévio. Por isso, repetições de confirmações de
teorias que já fazem parte do conhecimento prévio não têm, para o falseabilismo, nenhuma
relevância científica.310

5.4. CRÍTICAS AO FALSEABILISMO

As ideias básicas de Popper são muito conhecidas: o filósofo da ciência buscava


um critério de demarcação entre ciência e não ciência e julgou tê-lo encontrado na noção de
falseabilidade: “para que uma teoria seja científica, precisa fazer previsões que, em princípio,
podem ser falsas no mundo real.” Se uma teoria é falseável, é possível comparar as previsões
empíricas da teoria com observações ou experimentos que, se as contradizerem, levam à
conclusão de que a teoria é falsa e deve ser descartada. Nunca se pode provar que uma teoria é
verdadeira, mas é possível demonstrar que ela é falsa, bastando, para isso, que pelo menos
uma observação confiável a contradiga.311 Para Popper, teorias astrológicas ou psicanalíticas
não fazem previsões precisas ou dão aos seus enunciados um caráter ad hoc que permite a
assimilação de resultados empíricos contrários e, por isso, não podem ser consideradas
científicas.312
A epistemologia popperiana contém intuições válidas. Assim, e.g., é certo que
uma teoria científica precisa ser verificada empiricamente de alguma forma, e que quanto
mais rigorosos os testes, melhor; também é certo que previsões de fenômenos inesperados
tenham grande valor do ponto de vista dos testes; além do mais, é mais fácil mostrar que uma
previsão quantitativamente precisa é falsa do que mostrar que é verdadeira.313 Apesar disso, o
falseabilismo é objeto de diferentes desafios, críticas e objeções, uns menos, outros mais
convincentes.
Um primeiro desafio para o falseabilismo mencionado por Chalmers diz respeito à
impossibilidade de se afirmar que todas as proposições de observação inconsistentes com uma
teoria necessariamente conduzem à sua refutação. Como dito anteriormente, apesar do

310
CHALMERS, 1993, p.87-88.
311
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.73-74.
312
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.73.
313
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.79.
133

princípio da indução não ser passível de justificação com base na lógica, pode-se chegar à
refutação de leis e teorias universais por dedução lógica, como no exemplo da proposição de
observação “Um corvo, que não era preto, foi observado no local x no momento m”, que, por
dedução, invalida a proposição universal “Todos os corvos são pretos”. 314 No entanto, todas
as proposições de observação dependem da teoria e são falíveis. Por essa razão, o conflito
entre uma afirmação universal e uma proposição de observação não necessariamente leva à
refutação da primeira.315
O falseabilismo tem uma resposta ao desafio, e ela consiste, basicamente, em
reconhecer e afirmar que também as proposições de observação devem ser testadas e, caso
não resistam aos testes, refutadas.
A resposta encontra-se no capítulo 5 do livro “The Logic of Scientific Discovery”,
intitulado “The Problem of the Empirical Base”, ou “O Problema da Base Empírica”. 316
Popper distingue as experiências perceptivas privadas de observadores individuais e as
proposições de observação públicas, chamadas por ele de “afirmações básicas”; as últimas,
formuladas numa linguagem pública, permitem crítica, testagem e eventual modificação ou
refutação, e sua aceitabilidade residirá precisamente na sua capacidade ou incapacidade de
sobreviver a testes. Com isso, a aceitabilidade das afirmações básicas reveste-se de um caráter
convencional, e Popper chega mesmo a afirmar que: “As afirmações básicas são aceitas como
o resultado de uma decisão ou acordo, e nesta medida elas são convenções”.317
Na síntese de Chalmers, para o falseabilismo “uma proposição de observação é
aceitável, experimentalmente, se, num determinado estágio do desenvolvimento de uma
ciência, ela é capaz de passar por todos os testes tornados possíveis pelo estado de
desenvolvimento da ciência em questão naquele estágio”.318
Nada obstante, Sokal e Bricmont defendem com consistência que a concepção de
ciência de Popper é acometida de três graves problemas, enunciados a seguir.

314
CHALMERS, 1993, p.65. Cf., outrossim, o capítulo 4 da presente tese.
315
CHALMERS, 1993, p.90-91.
316
POPPER, 2005[1935], p.74-94; CHALMERS, 1993, p.91-92.
317
POPPER, 2005[1935], p.88 (“Basic statements are accepted as the result of a decision or agreement; and to
that extent they are conventions.”); CHALMERS, 1993, p.93. Um exemplo interessante envolve a proposição
de afirmação feita por Galileu sobre luas de Júpiter visíveis por meio de telescópio, que foi contestada por
adversários sob a alegação de que seriam manchas decorrentes de defeitos ou limitações do telescópio, e
reafirmada por Galileu sob o contra-argumento de que, caso fosse assim, manchas seriam observadas em
relação a outros planetas. Posteriormente, com o desenvolvimento da teoria ótica e com o aperfeiçoamento dos
telescópios, a afirmação de Galileu foi reconfirmada, e a observação de Kepler a respeito do formato e da cor
de Marte, por sua vez, não sobreviveu à crítica e aos testes, e terminou rejeitada. CHALMERS, 1993, p.92-93.
318
CHALMERS, 1993, p.93-94.
134

I. Ao abandonar a ideia de verificação em prol da ideia de falseabilidade e


refutação, a concepção de ciência de Popper paga um preço caro. A solução ao problema de
Hume proposta por Popper, tomada ao pé da letra, é puramente negativa (i.e., podemos saber
que algumas teorias científicas são falsas, mas não que são verdadeiras ou, pelo menos,
provavelmente verdadeiras), e seu menosprezo à indução por não ser passível de justificação
exclusivamente lógica conduz a um resultado insatisfatório do ponto de vista científico, pois
uma das funções da ciência é fazer previsões, baseadas em alguma forma de indução, que
fundamentam outras atividades importantes (como as afeitas à engenharia ou à medicina).
Ademais, se a rejeição da indução for levada a sério, não será possível dizer que existem
razões boas para uma crença tão básica como a de que o Sol nascerá amanhã. Por fim, a
história da ciência indica que teorias são aceitas sobretudo em virtude de seus êxitos, e resulta
inverossímil que uma teoria como a mecânica de Newton, tendo sido capaz de tantas
previsões acertadas de eventos e fenômenos inéditos, ainda assim não seja tida pelo menos
como aproximadamente verdadeira.319
II. A concepção de Popper não dá ao leitor o que promete, porquanto a refutação é
bem menos segura do que aparenta ser no papel: refutar uma teoria é muito mais complicado
do que realizar uma observação que a contradiga ou algo semelhante. Na verdade,
proposições científicas não podem ser refutadas uma a uma por inserirem-se em um corpo
mais complexo, uma combinação de partes. A dedução de qualquer proposição empírica a
partir de proposições científicas envolve a assunção (implícita) ou a elaboração de hipóteses
auxiliares. Assim, e.g., observações astronômicas dependem de enunciados teóricos e de
hipóteses óticas sobre o funcionamento dos telescópios e sobre a propagação da luz no
espaço. Os cientistas estão perfeitamente conscientes disso, e quando um experimento
contradiz uma teoria, apresentam numerosas questões relativas a possíveis erros na realização
ou na análise do experimento, à possibilidade de refutação de hipóteses auxiliares ao invés da
própria teoria etc. O “dogma empirista”, i.e., a ideia de que proposições científicas são
passíveis de verificação uma a uma, “faz da ciência um conto de fadas”.320
III. Tomada ao pé da letra, a concepção popperiana conduziria à rejeição de
teorias importantíssimas para a história da ciência, como a própria mecânica newtoniana.
Fossem aplicados os termos popperianos, ela teria sido falseada em meados do século XIX
pelo comportamento anômalo da órbita de Mercúrio. Contudo, seria irracional rejeitar uma

319
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.74-76.
320
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.74, 76-78.
135

teoria com muitos acertos em razão de uma única observação que aparentemente contrariaria
uma de suas previsões. Melhor proceder como foi feito: deixar de lado algumas dificuldades
com a esperança de que sejam temporais, sob pena de tornar a empreitada científica
impossível, já que há sempre dificuldades, experiências ou observações que não podem ser
explicadas de modo plenamente satisfatório, e que podem ser deixadas de lado na espera de
tempos melhores.321
Ao tratar deste último ponto, Bricmont e Sokal asseveram que “[a] ciência é uma
empreitada racional, mas difícil de codificar”.322 Para mim, não há dificuldade, pelo menos
neste ponto. A possibilidade de erros de todo tipo em torno de um experimento ou observação
faz com que seja inteiramente racional a postura cautelosa quanto à refutação.
Outras críticas, algumas delas bastante similares às feitas por Bricmont e Sokal,
são apresentadas por Chalmers. Primeiramente, como proposições de observação podem ser
refutadas à luz do conhecimento prévio ou de inovações teóricas e experimentais (e o próprio
falseabilismo admite que afirmações singulares também são falhas), o falseabilismo não pode
pretender que as refutações de teorias possam ser consideradas conclusivas.323
Há um argumento adicional contra a possibilidade de refutações conclusivas: a
complexidade que comumente se faz presente nos testes permite que uma previsão errada seja
decorrente não do erro de toda a teoria, mas apenas de uma de suas premissas.
O exemplo da refutação da afirmação de que “todos os cisnes são brancos” pela
observação de um cisne não branco é simplificado demais. Qualquer situação realista de teste
é bem mais complexa, de modo que algum resultado inconsistente com a teoria testada pode
representar não um sinal de que a teoria deva ser descartada, mas apenas que alguma parte da
complexa situação do teste resultou na previsão errada.324

321
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.78-79.
322
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.79.
323
CHALMERS, 1993, p.94.
324
CHALMERS, 1993, p.94-95. Imre Lakatos dá um exemplo hipotético de como isso pode se dar numa
situação real em meio à comunidade científica, ilustrando a defesa de uma teoria a partir do deslocamento de
falhas para alguma das partes que compõem a complexa teia de testagem: “A história é sobre um caso
imaginário de mau comportamento planetário. Um físico da era pré-einsteiniana toma a mecânica de Newton e
sua lei da gravidade, N, como as condições iniciais aceitas, I, e calcula, com sua ajuda, o percurso de um
pequeno planeta recentemente descoberto, p. Mas o planeta desvia-se do percurso calculado. Por acaso, nosso
físico considera que o desvio era proibido pela teoria de Newton e portanto que, uma vez estabelecido, refuta a
teoria N? Não. Ele sugere que deve haver um desconhecido planeta p’, que perturba o percurso de p. Ele
calcula a massa, órbita etc. de seu hipotético planeta e pede então a um astrônomo experimental que teste sua
hipótese. O planeta p’ é tão pequeno que mesmo os maiores telescópios disponíveis não podem observá-lo; o
astrônomo experimental pede uma verba de pesquisa para construir um ainda maior. Em três anos o novo
telescópio está pronto. Se o desconhecido planeta p’ for descoberto será uma nova vitória para a ciência
newtoniana. Mas não é. E nosso cientista abandona a teoria de Newton e sua ideia de um planeta perturbador?
Não. Ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica esconde-nos o planeta. Calcula a localização e as
136

Em segundo lugar, em termos muito parecidos aos de Bricmont e Sokal quanto à


“refutação” da mecânica quântica, Chalmers argumenta que, se levado à risca, o falseabilismo
faria com que teorias que alcançaram o status de bem estabelecidas no meio científico (e que
resultaram em produtos de enorme impacto social) fossem simplesmente rejeitadas na sua
infância, nos seus primeiros anos de formulação e desenvolvimento. Chalmers menciona três
exemplos impactantes325, sendo o primeiro deles idêntico ao apresentado por Sokal e
Bricmont. Vamos a eles.
Exemplo I. Teoria gravitacional de Newton. Em seus primeiros anos, a teoria
gravitacional de Newton foi falseada por observações da órbita lunar, e somente cinquenta
anos depois a refutação foi desviada para outras causas que não a teoria newtoniana. Mais
tarde, descobriu-se que a mesma teoria era inconsistente com detalhes da órbita do planeta
Mercúrio, sem haver explicações suficientes para proteger a teoria (que, ainda assim, não foi
abandonada).326
Exemplo II. Teoria cinética dos gases de Maxwell. A teoria cinética dos gases
proposta por Maxwell em 1859 era inconsistente com mensurações dos calores específicos
dos gases desde a sua origem, e o fato foi reconhecido pelo próprio autor também desde o
início. Ao não ser rejeitada por isso, a teoria permitiu importantes avanços neste campo de
conhecimento.327
Exemplo III. A Revolução Copernicana. O universo aristotélico era finito, e
tinha a Terra como seu centro, em torno do qual orbitavam o Sol, os planetas e as estrelas. O
universo dividia-se em: região sublunar, ou região interna, do centro da Terra até a órbita
lunar; região sobrelunar, ou externa, da órbita da Lua à esfera das estrelas, limite externo do
universo finito. Na região sobrelunar, todos os objetos celestes eram feitos de éter, um
elemento incorruptível com propensão natural a mover-se em torno do centro do universo em
círculos perfeitos. Ptolomeu absorveu as observações de posições planetárias que não se

propriedades dessa nuvem e pede uma verba de pesquisa para mandar um satélite testar seus cálculos. Se os
instrumentos do satélite (possivelmente de tipo novo, baseados numa teoria pouco testada) registrarem a
existência da nuvem conjecturai, o resultado será visto como uma notável vitória para a ciência newtoniana.
Mas a nuvem não é descoberta. O nosso dentista abandona a teoria de Newton, junto com sua ideia do planeta
perturbador e a ideia da nuvem que o esconde? Não. Ele sugere que há algum campo magnético naquela
região do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Um novo satélite é enviado. Se o campo
magnético for encontrado, os newtonianos celebrarão uma vitória sensacional. Mas ele não é. Isto é visto
como uma refutação da física newtoniana? Não. Ou uma outra engenhosa hipótese auxiliar é proposta ou... a
história toda é enterrada nos valores empoeirados de publicações periódicas e a história nunca mais será
mencionada.” LAKATOS, 1974, p.100-101. CHALMERS, 1993, p.97.
325
CHALMERS, 1993, p.97-107.
326
CHALMERS, 1993, p.97-98.
327
CHALMERS, 1993, p.98-99.
137

conciliavam com órbitas circulares centradas na Terra pela introdução de círculos ulteriores
ou epiciclos cujos centros moviam-se em círculos em torno do nosso planeta, em órbitas que
aceitavam a introdução de epiciclos para acomodar outras observações de posições
planetárias. Na região sublunar, todas as substâncias eram corruptíveis e misturas dos quatro
elementos – ar, terra, fogo e água. Cada elemento tinha um lugar natural no universo: o centro
do universo, ou o centro da Terra, era o lugar natural do elemento terra; a superfície da Terra,
o lugar natural da água; a região imediatamente acima da superfície da Terra, o lugar natural
do ar; e o topo da atmosfera, nas proximidades da órbita lunar, o lugar natural do fogo. Cada
objeto tinha propensão a se mover em linhas retas, para cima ou para baixo, em direção ao seu
lugar natural: pedras se moviam naturalmente para baixo, chamas para cima. Os demais
movimentos além dos movimentos naturais pressupunham uma causa.328
A revolução copernicana estende-se aproximadamente das primeiras décadas do
século XVI aos cento e cinquenta anos seguintes, num processo que resultou na substituição
da visão de mundo aristotélica pela newtoniana. Em resumo, Copérnico projetou uma nova
astronomia em que a Terra era móvel e orbitava o Sol junto dos demais planetas. Na época em
que foi apresentada, a teoria copernicana foi criticada por meio de diferentes argumentos que,
considerando o conhecimento científico da época, eram sólidos e não foram satisfatoriamente
respondidos, em sua integralidade, por Copérnico. Dentre eles, encontrava-se o famoso
“argumento da torre”, resumido nos seguintes pontos: (i) se a Terra gira sobre seu eixo, então
qualquer ponto da superfície da Terra vai deslocar-se a uma distância considerável em um
segundo; (ii) uma pedra jogada do alto de uma Torre, nestes termos, deverá atingir o solo a
alguma distância do pé da torre, pois a torre estará partilhando do movimento da Terra; (iii) na
prática, isso não acontece, afinal, a pedra atinge o solo na base da torre.329
Apesar disso, a teoria copernicana não foi rejeitada, mas desenvolvida
sucessivamente através das contribuições de diferentes cientistas – em especial Galileu
Galilei, Johannes Kepler (baseando-se nas notações de Tycho Brahe) e Isaac Newton –, cujos
novos conceitos não necessariamente surgiram como resultado de observação e
experimentação, nem pela refutação de conjecturas audaciosas e sua contínua substituição por
novas conjecturas, como preveem as explicações indutivista e falseabilista da ciência e do seu
progresso.330

328
CHALMERS, 1993, p.99-101.
329
CHALMERS, 1993, p.99-101.
330
CHALMERS, 1993, p.101-107. “As formulações iniciais da nova teoria, envolvendo concepções novas
incompletamente formuladas, foram mantidas com perseverança e desenvolvidas a despeito de aparentes
138

5.5. FALSEABILISMO E CIÊNCIA DO DIREITO

A concepção de ciência do direito defendida por Machado Segundo em


“Epistemologia falibilista e teoria do direito” compõe-se de duas teses principais. A primeira
tese, que chamei de tese holística, foi exposta no capítulo 3.
A segunda tese, de cunho epistemológico e normativo, é a de que a interpretação
jurídica deve almejar objetividade e cientificidade e a melhor maneira de fazer isso é adotar
uma forma falibilista331, o que significa, em suma, a tomada das afirmações verdadeiras como
provisórias e permanentemente abertas à crítica e à refutação. As razões a favor do falibilismo
ou falseabilismo decorrentes do texto são sintetizadas a seguir.
I. O raciocínio falibilista administra melhor os riscos relativos ao erro. Como
saber que uma afirmação é correta, diante das limitações cognitivas humanas e da
complexidade da realidade? Uma resposta é a do realismo ingênuo, que considera que a
realidade é direta e perfeitamente acessível em sua objetividade pelos sentidos, pouco
importando a imperfeição sensorial ou a interpretação que a mente faz dos dados sensoriais.
Segundo ela, a ciência é descritiva e opera por indução, e o conhecimento progride quanto
mais se observa e experimenta a realidade.332 Um problema contraposto ao realismo ingênuo
é o do regresso ao infinito, que pode ser respondido pela aceitação de sua infinitude, por meio
de um dogmatismo (“Porque sim!”) e também por um psicologismo que encerra a cadeia não
com outro enunciado, mas através de uma intuição baseada na percepção – solução que
termina por ser circular, já que usa como fundamento o que precisa ser fundamentado, além
de tratar da questão da verdade por meio da ideia de consenso ou coerência entre os diferentes
relatos.333 O falibilismo admite a imperfeição cognitiva e, ao invés de deixá-la conduzir ao
ceticismo total (para quem tudo seria falso) ou ao relativismo epistemológico (para quem tudo
é verdadeiro), não abandona o conhecimento imperfeito de pronto, mas exige que seu
abandono seja justificado e sirva para que algo melhor tome seu lugar. Diante do problema do
regresso do infinito, ao invés de responder a quem o questiona a respeito dos porquês de suas
afirmações, devolve-lhe a pergunta: “- Por que não?”. Como o conhecimento é imperfeito, o

refutações. Apenas depois de um novo sistema de física ter sido projetado – processo que envolveu o trabalho
intelectual de muitos cientistas por vários séculos – é que a nova teoria pôde ser comparada com sucesso aos
resultados da observação e do experimento de forma detalhada. Nenhuma explicação da ciência pode ser
aceita como suficiente a menos que possa acomodar fatores como estes.” CHALMERS, 1993, p.107.
331
MACHADO SEGUNDO, 2014, passim e p.237.
332
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.219-220.
333
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.220-222.
139

raciocínio falseabilista admite afirmações consideradas corretas apenas até que se demonstre o
contrário; presunções sempre passíveis de retificação.334
II. O raciocínio falibilista corresponde à forma como o cérebro se relaciona
com a realidade. A forma de encarar a realidade aceitando como provisoriamente o juízo
razoavelmente fundamentado até que se demonstre o contrário é característica de como
humanos e outros animais encaram adequadamente a realidade. Um homem com sede não
fica dias e dias sem beber o copo d’àgua à sua frente considerando a hipótese de que tudo
aquilo seja uma ilusão, mas presume estar mesmo com sede e presume que o copo é mesmo
de água – presunção que pode ser refutada em virtude de novas sensações (como, por
exemplo, a percepção de um forte odor de álcool). Sem esse tipo de comportamento, a vida
não seria possível.335
As vertentes positivistas que afirmam a tese epistemológica da discricionariedade
não levam em conta os fatores que orientam a decisão por um dos sentidos dos textos
normativos, o que Machado Segundo entende como similar a afirmar não existe um sentido
correto, e defende o ponto de vista oposto de que a solução correta existe. Tal solução poderia
ser atingida por quem lograsse conhecer todos os fatores relevantes à determinação de sentido
(um juiz Hércules), mas pode e deve ser buscada pelos juristas de carne e osso segundo
tentativas dentro da lógica do falibilismo, tomada de empréstimo das ciências naturais para,
no âmbito do Direito, significar o seguinte: o jurista deve defender determinada interpretação
como correta apresentando para isso suas razões (sistemáticas, factuais, axiológicas etc.), que
podem ser falseadas por rivais através do questionamento da pertinência das razões
apresentadas ou do oferecimento de novas razões.336

[O] raciocínio falibilista consiste, precisamente, em determinar um sentido em um


primeiro momento, mas deixá-lo sujeito a possíveis refutações, que podem estar
calcadas em elementos (normativos, fáticos ou axiológicos) que não haviam sido
inicialmente pensados quando da primeira interpretação. 337

Machado Segundo preocupa-se em demonstrar a pertinência do raciocínio


falibilista para o Direito em outras esferas importantes do trabalho jurídico, como a probatória
e a de fundamentação das decisões jurídicas.
Quanto à primeira, além de abarcar a interpretação de textos normativos e como
parte dessa tarefa, o estudo do Direito também deve se preocupar com a ocorrência dos fatos

334
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.258, 224-226.
335
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.225-258.
336
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.246.
337
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.247.
140

sobre os quais incidem as normas correspondentes. Machado Segundo argumenta que a


aplicação do raciocínio falibilista ao Direito também se amolda e tem grande utilidade para a
questão da determinação jurídica da verdade dos fatos. Como o acesso à realidade é precário e
a certeza absoluta é inalcançável, considera-se possível presumir verdadeira uma afirmação
até que se prove o contrário. A verdade sobre um fato controvertido estabelece-se quando há a
demonstração de que o fato ocorreu para além da dúvida razoável, momento no qual o ônus
argumentativo e probatório se inverte, cabendo ao interessado falsear a verdade
provisoriamente estabelecida.338
Quanto à decisão, sua fundamentação deve abarcar a apresentação dos motivos
que justificam o sentido atribuído aos textos normativos em detrimento dos sentidos
alternativos e, igualmente, os motivos que justificam a relevância dos fatos determinantes e de
suas fontes em face de outros. Não é uma descrição de processos mentais havidos na cabeça
do julgador nem tentativa de persuadir terceiros, mas apresentação de razões que sustentam a
conclusão da decisão e que são aptas a conduzir terceiros a concordar ou discordar dela.339
É o contrário do magistrado que, invocando seu “livre convencimento”, “descreve
rapidamente alguns elementos constantes do processo para em seguida indicar a versão dos
fatos por ele acolhida”, sem apontar “por que desacolhe as outras, e por que os meios de prova
que embasariam essas outras – e desautorizariam aquela por ele acolhida – não são
considerados como tendo esse efeito ou resultado”; e é o contrário também do advogado que,
na visão de Machado Segundo, pode até omitir os elementos dos autos que eventualmente são
incompatíveis com a conclusão que defende.340 Neste ponto, concordo que haja uma distinção
entre advogado e juiz e entre advogado e pesquisador quanto à posição de busca por
imparcialidade ou de compromisso com o cliente que os distingue e que orienta a
argumentação de cada qual, mas considero problemática a forma como Machado Segundo
coloca essa distinção.

338
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.249-251.
339
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.251-252. “Exemplificando, se nos autos alguns meios de prova geram a
presunção de que o contribuinte omitiu rendimentos, enquanto outros geram a presunção de que ele não
omitiu, o magistrado deve examiná-los todos, dando especial atenção àqueles que conduzem a conclusão
contrária àquela por ele acolhida na sentença. Se considera que houve omissão de rendimentos, mas o perito
afirmou que não houve, o magistrado deve apontar as razões pelas quais considera que o laudo está
equivocado. Evidentemente, não será uma “fundamentação”, nesse caso, a mera referência ao art. 436 do
CPC99 e aos meios de prova (v.g., cópia do auto de infração) que conduzem a conclusão diferente, dizendo
que “prefere” esses outros. É preciso dizer por que o laudo é tido por equivocado, ou, por outros termos, por
que se deu preferência aos outros meios de prova que apontam em sentido contrário.” MACHADO
SEGUNDO, 2014, p.252.
340
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.252.
141

Melhor é a abordagem de Epstein e King que, ao criticarem a baixa qualidade da


pesquisa jurídica estadunidense e a associarem ao ensino jurídico daquele país, afirmam que
as escolas de Direito voltam-se para formar advogados, e não pesquisadores. Enquanto o
pesquisador de alto nível é “ensinado a submeter sua hipótese preferida a todos os testes e
fontes de dados concebíveis, procurando todas as evidências possíveis contra sua teoria”, o
advogado é “ensinado a compilar todas as evidências em prol de sua hipótese e desviar a
atenção de qualquer coisa que possa ser vista como informação contraditória”.341
Além das citadas esferas, do texto de Machado Segundo é possível depreender
também uma outra utilidade de destaque do falibilismo para o Direito. Como o ser humano
tem um acesso imperfeito e precário à realidade, é natural que seu conhecimento seja
colocado como provisório, aberto a críticas e passível de aperfeiçoamento pelo próprio sujeito
e pelos demais membros da comunidade acadêmica. A discordância é a maior manifestação
de respeito acadêmico.342 No entanto, afirma Machado Segundo, críticas e discordâncias nem
sempre são bem recebidas no meio jurídico, e podem até mesmo ser tomadas como declaração
de guerra ou motivo para eterna inimizade; algo “paradoxal”, em suas palavras, para quem
pretenda fazer ciência.343 A postura falseabilista pode contribuir para um meio jurídico mais
aberto às discordâncias teóricas e mais racional na recepção de críticas e comentários.
Machado Segundo consegue ter êxito em criticar a ideia de que a Ciência do
Direito é uma ciência descritiva de normas. Também defende com sucesso a importância de
as teorias jurídicas serem transparentes quanto à fundamentação e abertas a críticas e
eventuais superações. É possível concordar com todos estes pontos, que são mesmo cruciais
para uma Ciência do Direito menos dogmática, e ainda assim perceber que o realismo crítico
falseabilista, num sentido forte e específico, não aceita a Ciência do Direito como ciência.
Para o falseabilismo, a ciência é essencialmente composta por um conjunto de
hipóteses que almejam descrever o comportamento de algum aspecto do universo e que são
falseáveis, i.e., sujeitas à confirmação ou refutação. Uma hipótese será falseável sempre que
haja uma proposição de observação ou um conjunto delas, logicamente possíveis, que sejam
inconsistentes com ela (i.e., que, se verdadeiras, tornam a hipótese falsa). A ciência é um
sistema de teorias refutáveis. A teoria melhor é a que sobrevive aos testes. O pensamento
341
EPSTEIN; KING, 2013, p.15. “Um advogado que trata seu cliente como uma hipótese teria retirada sua
licença; um Ph.D. que advoga uma hipótese como um cliente, seria ignorado.” EPSTEIN; KING, 2013, p.15.
342
MACHADO, 2014, p.200-201, 258.
343
MACHADO SEGUNDO, 2014, p.201-202. Na própria Filosofia da Ciência há um exemplo notável de
autores – Lakatos e Feyerabend – que não deixavam as divergências acadêmicas atrapalharem a sua amizade.
Foram também lembrados por MACHADO SEGUNDO (2014, p.202). Adicionalmente, é muito plausível o
contrário, i.e., que as divergências tenham servido para fortalecer ou manter a amizade entre os dois.
142

crítico é a essência da racionalidade e da ciência, pois através dele teorias falsas são
eliminadas e uma decisão racional é tomada em relação às teorias não refutadas segundo o
nível mais alto de capacidade ou força explanatória e poder de previsão. Somente as hipóteses
falseáveis podem ser científicas porque apenas elas possuem caráter informativo; dão alguma
informação sobre como o mundo de fato se comporta. Para o falseabilista, conhecimento
científico é, em suma, conhecimento refutável.
Teorias jurídicas não são como teorias científicas voltadas ao mundo físico.
Podem se beneficiar enormemente do pensamento crítico e racional que integram o modo
como Popper encara a ciência, mas não são, a rigor, empiricamente refutáveis. Outra
dificuldade reside em quais critérios devem ser levados em conta para que uma teoria jurídica
falseie a outra (falseamento ou refutação, aqui, no sentido de Machado Segundo). Quais
razões podem ser incluídas, e como saber quais são as mais pertinentes? Não há, na reflexão
de Machado Segundo, uma resposta satisfatória para isso, embora o anúncio de uma
epistemologia falibilista para o Direito crie a expectativa de saber como a teoria melhor é
estabelecida, a qual tipo de teste ela se submete.
Uma resposta alternativa foi desenvolvida por Ronald Dworkin, que defendeu,
primeiramente em artigo publicado na clássica obra “Levando os Direitos a Sério”, que diante
de casos difíceis juízes devem decidir levando em conta a dimensão ou critério da adequação
(ao lado do critério da justificação, resumido na escolha, dentre as hipóteses interpretativas
que se adequem ou que adiram ao direito positivo, daquela que forneça a melhor justificação
moral para o Direito como um todo).344 Posteriormente, desenvolve sua teoria de resolução de
problemas jurídicos de acordo com as dimensões da adequação institucional e do apelo moral
na obra “O Império do Direito”.345 O quadro abaixo sintetiza as teses de Dworkin. O texto é
de André Coelho; coube a mim apenas a concepção do quadro e de seus itens e algumas
adaptações do texto original.

Quadro 15 - Síntese das teses de Dworkin feita por André Coelho

SÍNTESE SOBRE AS TESES DE DWORKIN


DIREITO COMO INTEGRIDADE
O sistema jurídico está comprometido com uma norma fundamental de justiça: a norma do igual respeito
(que preserva a liberdade de cada um) e da igual consideração (que promove a igualdade entre todos). O
modo como realiza e mantém esse compromisso se chama integridade: característica de uma

344
DWORKIN, 1977, p.81 ss.
345
Cf. DWORKIN, 1986, passim.
143

comunidade política pela qual se espera que ela trate casos iguais de maneira igual e ao mesmo tempo
realize para cada um deles sua concepção mais desenvolvida de justiça.
DIREITO COMO SISTEMA DE REGRAS E PRINCÍPIOS
O sistema jurídico é formado de regras, que se aplicam segundo a lógica do tudo ou nada; e princípios,
que se aplicam segundo a lógica do mais e menos. Os princípios encarnam direitos e têm o status de
“trunfos” dos indivíduos contra metas socialmente relevantes. O uso dos princípios na interpretação e na
aplicação do direito é o que permite a uma comunidade política a manutenção da sua integridade.
ESQUEMA TEÓRICO DE INTERPRETAÇÃO DO DIREITO
O jurista deve proceder por meio do seguinte esquema teórico: (a) dado um histórico de decisões
legislativas e judiciais do passado, deve-se encontrar um princípio ou conjunto de princípios capaz de
explicar as decisões tomadas até aqui (é o chamado ajuste institucional); (b) se o histórico de decisões é
explicável por mais que um princípio ou conjunto de princípios, prevalece o que for moralmente mais
atraente (é o chamado apelo moral) não no sentido da moralidade do intérprete, mas segundo a
moralidade pública que realiza a melhor versão da norma fundamental do igual respeito e da igual
consideração.
COERÊNCIA ENTRE DECISÕES
As decisões devem ser coerentes entre si não no resultado
As decisões, portanto, têm que manter entre si uma coerência; mas essa coerência não é uma coerência
de resultados, do tipo que prescreve que as decisões posteriores têm que ser iguais às decisões anteriores
para o mesmo tipo de caso; mas uma coerência de princípio, do tipo que prescreve que uma decisão
posterior têm que recorrer aos mesmos princípios a que as decisões anteriores para os mesmos casos
recorreram.
FONTE: Elaboração própria; mera adaptação do texto de COELHO, 2011.
144

6 PARADIGMAS, PROGRAMAS DE PESQUISA E REALISMO NÃO


REPRESENTATIVO
6.1. A TEORIA (ESTRUTURAL) DOS PROGRAMAS DE PESQUISA

Diante da incapacidade do indutivismo e do falseabilismo de caracterizar


adequadamente a gênese e desenvolvimento de teorias científicas reais – evidentemente mais
complexas do que exemplos hipotéticos simplificados – surge a explicação das teorias como
“todos estruturados”.346 A concepção da ciência segundo a noção de programa de pesquisa é
uma explicação desse tipo, e foi desenvolvida por Imre Lakatos tendo em vista as objeções e
críticas ao falseabilismo popperiano.347
Um programa de pesquisa é uma estrutura que fornece orientações para a pesquisa
futura em duas frentes: (i) a partir de uma heurística negativa, fixa um núcleo irredutível348
cujas suposições não podem ser refutadas ou modificadas por decisão metodológica dos
protagonistas do programa; (ii) com uma heurística positiva, indica como o programa de
pesquisa deve ser desenvolvido de modo a explicar fenômenos previamente conhecidos e
prever fenômenos novos por meio de suposições adicionais ao núcleo irredutível.349
Um programa de pesquisa precisa ter chance de realizar o seu potencial. Para isso,
inadequações entre o programa e os dados de observação devem ser atribuídas a alguma outra
parte da estrutura teórica que funciona como “cinturão protetor” do núcleo irredutível. Um
exemplo: na teoria copernicana, as órbitas planetárias eram tidas como circulares, e
observações contrárias eram absorvidas pela adição e modificação de numerosos epiciclos às
órbitas planetárias.350
Ao desrespeitar a heurística negativa do programa de pesquisa, o cientista se retira
dele. Assim, ao propor que todos os planetas, à exceção da Terra, orbitam o Sol, e que este,
por sua vez, orbita uma Terra estacionária, Tycho Brahe optou por sair do programa de
pesquisa copernicano.351

346
CHALMERS, 1993, p.109.
347
LAKATOS, 1974, p.91-196; LAKATOS, 1978, p.8 ss.; CHALMERS, 1993, p.113.
348
“[A]lguma hipótese teórica muito geral que constitui a base a partir da qual o programa deve se desenvolver”.
CHALMERS, 1993, p.111.
349
LAKATOS, 1974, p.132-138; CHALMERS, 1993, p.111-113.
350
CHALMERS, 1993, p.113-114, 116-117.
351
CHALMERS, 1993, p.114.
145

Quadro 16 - Exemplos de núcleos irredutíveis.


EXEMPLOS DE NÚCLEOS IRREDUTÍVEIS
TEORIA NÚCLEO
Suposições que a Terra e os planetas orbitam (circularmente)
ASTRONOMIA
um Sol estacionário e que a Terra gira em seu eixo uma vez por
COPERNICANA
dia.
FÍSICA NEWTONIANA Leis do movimento e Lei da gravidade
Suposição de que a mudança histórica deva ser explicada em
MATERIALISMO HISTÓRICO termos de lutas de classes e a natureza das classes e os detalhes
MARXISTA das lutas sendo determinados, em última instância, pela base
econômica
FONTE: Elaboração própria a partir de CHALMERS, 1993, p.113.

A heurística positiva, por sua vez, indica aos cientistas o que devem fazer, e os
orienta a modificar ou desenvolver as variáveis refutáveis do programa de pesquisa e
sofisticar o cinturão protetor refutável. Isso envolve a adição de hipóteses auxiliares
adequadas e o desenvolvimento de técnicas teóricas (matemáticas) e experimentais
adequadas.352 Um exemplo disso é a teoria gravitacional de Newton. Inicialmente, o físico
chegou à lei da atração do inverso do quadrado a partir do movimento elíptico de um planeta
ao redor do Sol. Houve, em seguida, um desenvolvimento teórico que incluiu, e.g., a ideia de
que o Sol também se move sob a influência de sua atração mútua; o tratamento dos planetas
como esferas; a solução das complicações advindas da possibilidade de um planeta girar e das
forças gravitacionais entre os planetas e entre cada um deles e o Sol. Quando Newton havia
progredido no programa, preocupou-se com a correspondência entre teoria e observação, e
quando ela deixou a desejar, Newton moveu-se para outras hipóteses (e.g. planetas não
esféricos). Além do programa teórico, a teoria continha um programa experimental que
incluía o desenvolvimento de telescópios mais precisos e de teorias auxiliares necessárias para
o seu uso (e.g. as que lidam com a refração da luz na atmosfera terrestre), bem como a
importância da construção de aparatos capazes de detectar a atração gravitacional numa escala
de laboratório (o que foi feito pioneiramente por Cavendish).353

352
LAKATOS, 1974, p.135 ss.; CHALMERS, 1993, p.115.
353
LAKATOS, 1974, p.135-137, 145; CHALMERS, 1993, p.116.
146

Quadro 17 - Frentes do programa de pesquisa.


FRENTES DO PROGRAMA DE PESQUISA
HEURÍSTICA Fixa um núcleo irredutível cujas suposições não podem ser refutadas ou
NEGATIVA modificadas por decisão metodológica dos protagonistas do programa
Indica como o programa de pesquisa deve ser desenvolvido de modo a explicar
HEURÍSTICA
fenômenos previamente conhecidos e prever fenômenos novos por meio de
POSITIVA
suposições adicionais ao núcleo irredutível.
FONTE: Elaboração própria a partir de LAKATOS, 1974, p.132-138 ss.; CHALMERS, 1993, p.113 ss.

A avaliação do mérito científico de um programa de pesquisa se dá


principalmente através de duas formas: (i) o programa “deve possuir um grau de coerência
que envolva o mapeamento de um programa definido para a pesquisa futura”; (ii) o programa
“deve levar à descoberta de fenômenos novos, ao menos ocasionalmente”. 354 Para Lakatos, o
marxismo e a psicologia freudiana satisfazem o ponto (i), mas não o ponto (ii).355
Sucessos são as marcas do caráter progressivo do programa: um programa exitoso
é aquele capaz de fazer previsões novas que são confirmadas (i.e., cujos resultados de teste
experimental sustentam a teoria testada). A teoria de Newton experimentou sucessos deste
tipo com a observação de Netuno feita por Galle e com a detecção da atração gravitacional em
escala de laboratório feita por Cavendish, diferentemente da astronomia ptolemaica, que não
foi capaz de realizar previsões novas durante toda a Idade Média.356
Na leitura de Chalmers sobre a proposta lakatosiana, a metodologia científica
pode ser discutida a partir de dois pontos de vista: (i) um ponto de vista interno ao programa;
(ii) uma abordagem comparativa dos métodos de programas de pesquisa rivais.357
A discussão interna refere-se à expansão e modificação do cinturão protetor pela
adição e articulação de diferentes hipóteses, e uma boa metodologia será aquela que permite
todos os tipos de adições e modificações, desde que: (i) não sejam ad hoc; (ii) possam ser
testadas independentemente (i.e., oferecem a oportunidade de novos testes, logo, de novas
descobertas); (iii) não contrariem o núcleo irredutível do programa no qual se inserem (sob
pena de negar o programa). Exemplo: no desenvolvimento da teoria de Newton, Leverrier e
Adams se dedicaram à problemática órbita do planeta Urano, e sua modificação do cinturão
protetor do programa, testável independentemente, levou à descoberta do planeta Netuno. Não

354
CHALMERS, 1993, p.117.
355
LAKATOS, 1974, p.175-176. É um ponto controverso sobre o qual não tenho posição formada. Para uma
defesa do marxismo, ver: LEKTORSKY, s.d.
356
CHALMERS, 1993, p.117.
357
CHALMERS, 1993, p.117-118.
147

seria científico se, ao revés, tivessem proposto que o movimento do planeta Urano se dava
assim porque a força entre Urano e o Sol obedece a algo mais que a lei do inverso do
quadrado (núcleo irredutível), ou que isso se deu apenas por ser este o movimento natural
daquele planeta (inexistência de hipótese testável).358
Na discussão comparativa, a princípio, programas de pesquisa concorrentes
devem ser julgados de modo que o programa que esteja progredindo se sobreponha ao
programa degenerescente, como ocorreu com a prevalência da teoria copernicana em relação
à astronomia ptolemaica.359
Há, porém, consideráveis dificuldades práticas na aplicação do critério, a começar
pelo fator tempo: previsões podem demorar muitos anos até serem confirmadas ou refutadas,
e o progresso ou degeneração dos programas está diretamente relacionado à presença ou não
de confirmações. Um exemplo histórico: a previsão copernicana acerca das fases de Vênus foi
confirmada apenas setenta anos depois.360
Em virtude disso, é impossível fazer afirmações irrestritas de que um programa é
melhor do que o seu rival.361 Um bom exemplo histórico diz respeito às teorias da
eletricidade. De um lado, a teoria da ação à distância considerava a eletricidade como fluido
presente em corpos eletricamente carregados e em circuitos elétricos, e supunha que
elementos separados da eletricidade agiam uns nos outros à distância, através do espaço
vazio; de outro, a teoria do campo entendia que a eletricidade era explicável em termos de
ações no meio que cerca os corpos carregados e os circuitos elétricos. O primeiro programa
era progressivo, levando, ao longo do século XVIII, à descoberta do armazenamento de
eletricidade numa garrafa de Leyden e da lei do inverso do quadrado da atração e repulsão
entre corpos por Henry Cavendish, até que Michael Faraday descobre a indução
eletromagnética e inventa o motor elétrico, o dínamo e o transformador nos anos 1830,
fazendo com que a teoria de campo passasse a ser o programa progressivo, alcançando,
algumas décadas mais tarde, a demonstração em laboratório da existência das ondas de rádio
por Heinrich Hertz. O programa da teoria de ação à distância, porém, ainda não estava
liquidado: previu o elétron no século XIX, detectado experimentalmente por Joseph John

358
CHALMERS, 1993, p. 118-119.
359
CHALMERS, 1993, p. 119-120; LAKATOS, 1974, p.133.
360
CHALMERS, 1993, p. 120. “Por causa da incerteza do resultado de tentativas futuras de desenvolver e testar
um programa de pesquisa, não se pode nunca dizer, de programa algum, que ele degenerou para além de toda
a esperança. Sempre é possível que alguma modificação engenhosa de seu cinturão protetor conduza a alguma
descoberta espetacular, que trará o programa de volta à vida e o colocará numa fase progressiva”.
CHALMERS, 1993, p. 120.
361
CHALMERS, 1993, p. 121.
148

Thomson e sua equipe em 1897. O fato das duas teorias terem se desenvolvido a despeito do
progresso superior de uma em relação à outra, numa determinada época, permitiu que a
própria teoria eletromagnética clássica se desenvolvesse a partir da noção de elétron de uma, e
de campo da outra. Ou seja: não é possível afirmar a superioridade de um programa sobre o
rival, nem os programas são autônomos como sugere a perspectiva dos programas de
pesquisa.362
Similarmente, Paul Feyerabend criticou o modelo lakatosiano, contrapondo-o ao
falseabilismo. O falseabilismo ingênuo aceita ou condena uma teoria de pronto, enquanto a
proposta lakatosiana aguarda, dá à teoria tempo para se desenvolver, julgando-a depois a
respeito de seu caráter progressivo ou degenerescente. Mas, se for para aguardar, deve-se
aguardar por quanto tempo? A ausência de resposta torna o critério proposto por Lakatos
inócuo, e a fixação de um limite de tempo o deixa vulnerável a crítica semelhante à
direcionada ao próprio falseabilismo. Para Feyerabend, diante de tais circunstâncias há
somente duas coisas a fazer: parar de apelar a critérios permanentes e atemporais ou preservar
esses critérios como um “ornamento verbal” em memória dos “tempos felizes quando era
ainda tido como possível realizar uma empreitada complexa e frequentemente catastrófica
como a ciência seguindo umas poucas regras simples e ‘racionais’.” Ainda segundo ele,
Lakatos quer escolher a última alternativa.363 A crítica parece procedente, mas a posição de
Feyerabend não pode ser integralmente endossada, como ficará melhor evidenciado no
capítulo 7.

362
CHALMERS, 1993, p.120-121; ELÉTRON, 2016; GARRAFA DE LEIDEN, 2015; HENY CAVENDISH,
2016; MICHAEL FARADAY, 2016; ONDA DE RÁDIO, 2016.
363
“Let us now see what can be said against the Lakatos model of scientific growth. Naive falsificationism
judges (i.e. accepts, or condemns) a theory as soon as it is introduced into the discussion. Lakatos gives a
theory time, he permits it to develop, he permits it to show its hidden strength, and he judges it only ‘in the
long run’. The ‘critical standards’ he employs provide for an interval of hesitation. They are applied ‘with
hindsight’. They are applied after the occurrence of either ‘progressive’ or of ‘degenerating’ problem shifts.
Now it is easy to see that standards of this kind have practical force only if they are combined with a time limit
(what looks like a degenerating problem shift may be the beginning of a much longer period of advance). But
introduce the time limit and the argument against naive falsificationism reappears with only a minor
modification (if you are permitted to wait, why not wait a little longer?) Thus the standards which Lakatos
wants to defend are either vacuous-—one does not know when to apply them—or they can be criticized on
grounds very similar to those which led to them in the first place. In these circumstances one can do one of the
following two things. One can stop appealing to permanent standards which remain in force throughout
history and govern every single period of scientific development and every transition from one period to
another. Or one can retain such standards as a verbal ornament, as a memorial to happier times when it was
still thought possible to run a complex and often catastrophic business like science by following a few simple
and ‘rational’ rules. It seems that Lakatos wants to choose the second alternative.”. FEYERABEND, 1974,
p.215.
149

6.2. RACIONALISMO, RELATIVISMO E CRÍTICAS ADICIONAIS A LAKATOS

No contexto do debate sobre racionalismo e relativismo, a concepção de Lakatos a


respeito da ciência aproxima-se mais do primeiro. Para melhor compreender o ponto, são
necessários alguns esclarecimentos prévios sobre o que significam, em relação à ciência, as
posições extremadas de racionalismo e relativismo, e qual a sua relevância para a distinção
entre ciência e não ciência (importante para que um relato sobre a ciência seja completo ou
minimamente equipado).
Para o racionalismo extremado, em primeiro lugar, “verdade”, “racionalidade” e
“ciência” são intrinsecamente boas; em segundo lugar, há um critério único, atemporal (não
histórico) e universal que: (i) permite avaliar os méritos relativos de teorias rivais; (ii) permite
afirmar que teorias que se conformam às suas exigências são verdadeiras, aproximadamente
verdadeiras ou provavelmente verdadeiras; (iii) permite distinguir facilmente ciência e não
ciência; (iv) explica as decisões e escolhas dos cientistas. Assim, o racionalista indutivista,
e.g., pode afirmar que a astrologia não é uma ciência por não ser derivada indutivamente de
fatos observados; e o racionalista falseabilista pode afirmar que o marxismo não é científico
por não ser falseável.364 Por ser universal, o critério pode julgar os méritos relativos de coisas
tão distintas quanto a “física de Aristóteles e de Demócrito, a astronomia ptolemaica e a
copernicana, a psicologia freudiana e a behaviorista ou o big bang e as teorias do estado
constante do universo”.365
Já para o relativismo extremado, não há um padrão de racionalidade universal e
atemporal (não histórico), mas padrões (caracterizações de progresso, critérios para julgar
méritos de teorias...) que variam de indivíduo para indivíduo e de comunidade para
comunidade, de tal sorte que as decisões e escolhas feitas por cientistas são governadas
exatamente pelo que os indivíduos ou grupos atribuem valor.366 Neste sentido, e.g., o controle
material sobre a natureza tem um alto status nas sociedades capitalistas ocidentais, e um status
baixo “numa cultura em que o conhecimento é projetado para produzir sentimentos de
contentamento ou de paz”.367
A distinção entre ciência e não ciência é, naturalmente, mais importante para o
racionalista do que para o relativista extremado, que a vê como arbitrária. Para o relativista,

364
CHALMERS, 1993, p.137-138.
365
CHALMERS, 1993, p.138.
366
CHALMERS, 1993, p.138-139. Por essa razão, compreender as escolhas feitas por um cientista envolve tanto
uma investigação psicológica quanto sociológica. Cf. CHALMERS, 1993, p.139.
367
CHALMERS, 1993, p.139.
150

não existe uma categoria única de ciência intrinsecamente superior a outras formas de
conhecimento, e a compreensão da superioridade da ciência numa determinada sociedade se
dá por uma análise da sociedade, e não da natureza da ciência.368
Lakatos, a quem Paul Feyerabend saudou como um de seus melhores amigos e
também como um “amigo e companheiro anarquista”369, é lido por Chalmers370 como alguém
que defende uma posição semelhante ao racionalismo – leitura afiançada por evidências
importantes. Num texto em que compara e analisa criticamente as visões de ciência de Karl
Popper e de Thomas Kuhn, Lakatos preocupa-se em buscar uma alternativa racional contra os
julgamentos de teorias científicas baseados no número, na fé e na energia vocal de seus
apoiadores e contra a visão do progresso científico como conversão religiosa (posição que
atrela a Kuhn, ainda que o último não tenha adotado o irracionalismo intencionalmente371).
Ademais, reconhece o mérito do relato sobre ciência do seu amigo Feyerabend, mas o critica
pelo seu relativismo cultural, contrapondo sua proposta de explicação da ciência por meio da
noção de programas de pesquisa aos exemplos da história da ciência de teorias cuja vitória
não é racionalmente explicável, mas baseada em questões de gosto ou propaganda. Neste
contexto, o relato da ciência, segundo os programas de pesquisa, é colocado por ele
justamente como racional.372 Por fim, Lakatos afirmou que o “problema central da Filosofia
da Ciência é o problema da avaliação normativa das teorias científicas; e, em especial, o
problema de afirmar condições universais sob as quais uma teoria é científica”, à luz do qual
pode-se defender como “racional a rejeição de uma teoria que afirme ser uma realização
científica revolucionária” (diferenciando-o do problema de por que e como surgem novas
teorias).373

368
CHALMERS, 1993, p.140.
369
FEYERABEND, 1993 e FEYERABEND, 1993, p.ivii.
370
CHALMERS, 1993, p.140-141.
371
LAKATOS, 1978, p.9-10 (“If even in science there is no other way of judging a theory but by assessing the
number, faith and vocal energy of its supporters, then this must be even more so in the social sciences: truth
lies in power. Thus Kuhn's position vindicates, no doubt, unintentionally, the basic political credo of
contemporary religious maniacs ('student revolutionaries'). […] I shall try to explain - and further strengthen -
this stronger Popperian position which, I think, may escape Kuhn's strictures and present scientific revolutions
not as constituting religious conversions but rather as rational progress.”).
372
LAKATOS, 1978, p.178 (“Feyerabend's account is much more difficult to rebut than anybody else's. Indeed,
we may in the end have to admit that Copernicus's and Kepler's and Galileo's adoption of the heliocentric
theory and its victory is not rationally explicable, that it was largely a matter of taste, a Gestalt-switch, or a
propaganda victory. But even if this did turn out to be the case we need not allow ourselves to be
steamrollered by Feyerabend into general cultural relativism or by Kuhn into general elitism. […] If it were
irrational to work on a theory whose superiority was not yet established then almost all of the history of
science would indeed be rationally inexplicable. But, as it happens, the Copernican Revolution can be
explained as rational on the basis of the methodology of scientific research programmes.”).
373
LAKATOS, 1978, p.168 (“The central problem in philosophy of science is the problem of normative
appraisal of scientific theories; and, in particular, the problem of stating universal conditions under which a
151

Como visto, Popper sustenta que as proposições de observação devem ser aceitas
ou não segundo sua capacidade de sobreviver a testes, de modo que, em certo sentido, são
aceitas como o resultado de uma decisão ou acordo.374 A teoria de Lakatos também terá um
caráter convencional, mas que não se limita à aceitação de proposições de observação
(afirmações singulares); indo além, abrange as afirmações universais que compõem o núcleo
irredutível do programa de pesquisa.375 Além disso, a concepção lakatosiana tem a vantagem
de trabalhar com uma linguagem de observação bastante estável, definida pelo núcleo
irredutível e pela heurística positiva do programa, fazendo com que a observação seja menos
problemática do que pode ser dentro da concepção popperiana de ciência. O relato da ciência
de Lakatos tem também a vantagem de ser suficientemente estruturado para evitar que uma
única refutação aparente de qualquer parte de uma teoria complexa possa ser capaz de ser
problemática, como ocorre no relato baseado num método incondicional de conjecturas e
refutações.376 Contudo, além da crítica sobre as dificuldades de comparação entre programas
de pesquisa rivais, outras são endereçadas por Chalmers à concepção de ciência lakatosiana.
Chalmers argumenta que Lakatos define a boa ciência tendo em vista a física,
entendida como superior a outras formas de conhecimento, sem, no entanto, justificar sua
posição, o que coloca sua concepção de ciência numa situação de vulnerabilidade.377 Para dar
suporte à crítica, indica uma passagem em que Lakatos “considera a afirmação de que ‘a
física possui uma verossimilhança maior que a astrologia’ plausível e pergunta por que ela
não deve ser aceita enquanto não for oferecida uma alternativa séria”.378

theory is scientific […,] and in the light of which one can defend as rational the rejection of a theory which
claims to constitute a revolutionary scientific achievement. This problem of appraisal is completely different
from the problem of why and how new theories emerge.”).
374
CHALMERS, 1993, p.93.
375
CHALMERS, 1993, p.114-115.
376
“A importância de uma observação para uma hipótese sendo testada não é tão problemática dentro de um
programa de pesquisa, pois o núcleo irredutível e a heurística positiva servem para definir uma linguagem de
observação bastante estável”. “O fato de que qualquer parte de um labirinto teórico complexo possa ser
responsável por uma refutação aparente coloca um problema sério para o falseabilista que confia num método
incondicional de conjecturas e refutações. Para ele, a inabilidade em localizar a origem do problema resultou
num caos ametódico. O relato da ciência de Lakatos é suficientemente estruturado para evitar aquela
consequência. A ordem é mantida pela inviolabilidade do núcleo irredutível de um programa e pela heurística
positiva que o acompanha”. CHALMERS, 1993, p.119.
377
CHALMERS, 1993, p.144-145.
378
CHALMERS, 1993, p.144. Ao buscar a fonte indicada por Chalmers para entender o contexto e averiguar se
a crítica procede, encontrei, basicamente, um questionamento de Lakatos a Popper por atribuir um status
altamente racional e científico a afirmações básicas, mas não a afirmações metafísicas, o que levaria a um
resultado absurdo do tipo valorizar “afirmações absurdas como ‘nada pode ter velocidade maior do que a
velocidade da luz’, ou ‘há uma atração entre duas massas distantes’,” e ao mesmo tempo considerar como
“crença animal” uma “afirmação plausível como ‘[a] física possui mais verossimilhança do que a astrologia’”.
Isso se deu num contexto em que Lakatos afirmou que a resposta popperiana ao problema da indução e sua
campanha anti-indutivista acaba levando-o a uma teoria irracionalista. Cf. LAKATOS, 1978, p.166 (“Why
152

Ademais, apesar de indícios de que a metodologia dos programas de pesquisa


serviria para orientar os cientistas na adoção e rejeição de teorias, o próprio Lakatos afirma
que não indica ao cientista individual o que ele deve fazer diante de dois programas de
pesquisa rivais, nem mesmo no sentido de abandonar programas degenerescentes, pois é
sempre possível que um programa degenerescente seja reabilitado. A metodologia de Lakatos
serve antes ao historiador, e não tem caráter prospectivo / normativo, mas retrospectivo:
pretende ser uma explicação melhor da história da ciência e do progresso científico, e não
propriamente um guia presente e futuro para cientistas individuais.379 Qual seria, então, a
utilidade e importância da metodologia dos programas de pesquisa para o cientista?

6.3. A TEORIA (ESTRUTURADA) DOS PARADIGMAS CIENTÍFICOS DE THOMAS KUHN

Na obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”, Thomas Kuhn, a exemplo de


Lakatos, também desenvolve um ponto de vista de que uma teoria científica é uma estrutura
complexa. Ao mover-se dos seus estudos como físico para a história da ciência, Kuhn percebe
que nem o indutivismo, nem o falseabilismo são capazes de explicá-la satisfatoriamente, e é a
partir disso que constrói sua própria teoria, marcada pela ênfase nas características
sociológicas das comunidades científicas e no caráter revolucionário do progresso
científico.380
Para Kuhn, o desenvolvimento da ciência não é uniforme, alternando entre fases
de normalidade e revolução, que podem ser compreendidas segundo o esquema: pré-ciência

should Popper attribute high rational-scientific (although, as I have mentioned, not genuinely epistemological)
status to absurd statements like' nothing can assume higher velocity than the velocity of light', or 'there is
attraction between two distant masses', but classify a plausible statement like' physics has higher verisimilitude
than astrology' as 'animal belief'? Why should only a 'basic', but not a 'metaphysical', statement be accepted as
long as there is no serious alternative offered?”). Isso se deu num contexto em que Lakatos afirmou que a
resposta popperiana ao problema da indução e sua campanha anti-indutivista acaba levando-o a uma teoria
irracionalista. Cf. LAKATOS, 1978, p.166 (“Thus the third prong of Popper's anti-inductivist campaign leads
into a H umean irrationalist theory of practical human action and of applied science. 1 Indeed, only a positive
solution of the problem of induction can save Popperian rationalism from Feyerabend's epistemological
anarchism.”).
379
CHALMERS, 1993, p.143-144; LAKATOS, 1971, p.178 (“I, of course, do not prescribe to the individual
scientist what to try to do in a situation characterised by two rival progressive research programmes: whether
to try to elaborate one or the other or whether to withdraw from both and try to supersede them with a Great
Dialectical Leap Forward. Whatever they have done, I can judge: I can say whether they have made progress
or not. But I cannot advise them - and do not wish to advise them - about exactly what to worry and about in
which direction they should seek progress.”); LAKATOS, 1978, p.154 (“I hold that philosophy of science is
more of a guide to the historian of science than to the scientist. Since I think that philosophies of rationality lag
behind scientific rationality even today, I find it difficult fully to share Popper's optimism that a better
philosophy of science will be of considerable help to the scientist; although no doubt it may help - and
Popper's philosophy has helped - those great scientists whose scientific judgment was warped by the influence
of previous, worse philosophies.”).
380
KUHN, 1996; CHALMERS, 1993, p.123.
153

paradigmática – ciência normal – crise-revolução – nova ciência normal – nova crise. A


formação da ciência se dá com a passagem da atividade desorganizada e diversa que a precede
(fase pré-paradigmática) para uma atividade estruturada e dirigida, em que a comunidade
científica atém-se a um único paradigma (conjunto de suposições teóricas gerais e de leis e
técnicas). Os cientistas que trabalham dentro de um paradigma (v.g. mecânica newtoniana,
ótica de ondas, química analítica etc.) praticam a “ciência normal”: desenvolvem o paradigma
para explicar e acomodar aspectos relevantes do mundo real e, naturalmente, encontram
dificuldades e refutações aparentes. O acúmulo de dificuldades pode levar a uma crise,
resolvida com o surgimento de um paradigma novo que atrai a adesão de um número
crescente de cientistas, até o esvaziamento do paradigma anterior. Ocorre uma “revolução
científica” com a mudança descontínua de um paradigma a outro, e o paradigma novo passa a
orientar uma nova atividade científica normal até o advento de uma nova crise.381
O paradigma, no sentido de “matriz disciplinar”, coordena e dirige a solução de
problemas, determinando os padrões para o trabalho legítimo dentro da ciência. Com isso,
sustenta uma tradição de ciência normal e distingue a ciência da não ciência.382
É difícil definir um paradigma de maneira precisa. Destaco, em particular, duas
definições básicas dadas por Kuhn: (i) “os logros científicos universalmente reconhecidos que
por um tempo fornecem modelos de problemas e soluções para uma comunidade de
praticantes”383; (ii) uma “constelação inteira de crenças, valores, técnicas etc. compartilhada
pelos membros de uma dada comunidade [científica]”.384 São claras, suficientes? Num pós-
escrito à “Estrutura das Revoluções Científicas”, o mesmo Kuhn reconhece que seu texto
original é obscuro quanto a isso, e registra a contribuição de um simpático leitor que
identificou vinte e duas maneiras diferentes em que o termo paradigma foi utilizado na

381
CHALMERS, 1993, p.124-125; KUHN, 1996, passim; BIRD, 2013. Em menos palavras: para Kuhn, o grosso
da atividade científica, a chamada “ciência normal”, desenvolve-se no interior de um paradigma que define o
tipo de problema a ser estudado, os critérios por meio dos quais deve ser avaliada a solução e os
procedimentos experimentais considerados aceitáveis. De vez em quando a ciência normal entra em crise, o
que, após um período revolucionário, pode resultar numa mudança de paradigma. SOKAL; BRICMONT,
1999, p.83.
382
CHALMERS, 1993, p.125; KUHN, 1996, p.182 (buscando o melhor termo para designar o que os cientistas
compartilham que leva à integridade de sua comunicação e de seus julgamentos profissionais e encontrando a
solução na expressão matriz disciplinar: “'disciplinary' because it refers to the common possession of the
practitioners of a particular discipline; 'matrix' because it is composed of ordered elements of various sorts,
each requiring further specification”).
383
“[Paradigms are] universally recognized scientific achievements that for a time provide model problems and
solutions to a community of practitioners.” KUHN, 1996, p.x.
384
“[An] entire constellation of beliefs, values, techniques, and so on shared by the members of a given
[scientific] community.” KUHN, 1996, p.175.
154

obra385, mantendo, assim, a pertinência da frase que inaugura o parágrafo corrente. Chalmers
fez uma interessante sistematização, analiticamente satisfatória, que elenca os seguintes
componentes típicos de um paradigma386:
I. Recomendações metodológicas muito gerais (do tipo “Faça tentativas sérias
para o paradigma corresponder à natureza” ou “Trate os fracassos na tentativa de fazer o seu
paradigma corresponder à ciência como problemas sérios”).
II. Princípios metafísicos muito gerais que orientam o trabalho no interior do
paradigma (e.g. o paradigma newtoniano foi regido pela ideia geral de que o mundo físico
pode ser explicado como um sistema mecânico que opera sob várias forças segundo as leis do
movimento de Newton).
III. “Leis explicitamente declaradas” e suposições teóricas similares ao núcleo
irredutível lakatosiano.
IV. Maneiras-padrão de aplicação das leis fundamentais (e.g., o paradigma
newtoniano é composto pelas leis do movimento e inclui métodos para aplicar as leis aos
movimentos planetários, aos pêndulos e às colisões de bolas de bilhar387).
V. Técnicas instrumentais necessárias à aplicação das leis (e.g., uso de tipos
aprovados de telescópios para a aplicação do paradigma newtoniano na astronomia).
Um paradigma é sempre aberto e impreciso o suficiente para ensejar muitas
tentativas de melhorar a correspondência entre ele e a natureza (o que é análogo à heurística
positiva de Lakatos, conquanto a noção de paradigma seja melhor elaborada).388
A ciência normal389 se caracteriza como atividade de solução de problemas pelas
regras de um paradigma, problemas estes que podem ser tanto de natureza teórica (e.g. dentro
do paradigma newtoniano, projetar técnicas matemáticas para lidar com o movimento de um
planeta sujeito a mais de uma força de atração), quanto de natureza experimental (e.g.
promover a melhoria da precisão das observações telescópicas, desenvolvimento de técnicas
experimentais mais precisas e confiáveis de modo geral).390
Os cientistas normais391 pressupõem que o paradigma lhes dê os meios para
solucionar os problemas ali propostos, de modo que um fracasso é visto mais como fracasso
individual do cientista do que inadequação do paradigma, e mais como anomalia do que
385
KUHN, 1996, p.181.
386
CHALMERS, 1993, p.125-126.
387
Bolas de bilhar são frequentemente utilizadas para ilustrar as leis de movimento de Isaac Newton.
388
CHALMERS, 1993, p.126.
389
Expressão que corresponde ao período em que o paradigma vigente não está em crise.
390
CHALMERS, 1993, p.126-127; KUHN, 1996, p.35-42.
391
Expressão que corresponde aos cientistas que trabalham dentro de um paradigma que não está em crise.
155

refutação do paradigma (e, de fato, todos os paradigmas conterão algumas anomalias, como
ilustra o tamanho aparente de Vênus em relação à teoria copernicana ou a órbita de Mercúrio
em face do paradigma newtoniano).392
Na ciência normal, o cientista não é crítico do paradigma em que trabalha,
concentrando seus esforços apenas em sondar a natureza com profundidade, ao passo que na
pré-ciência há desacordo e constante debate a respeito dos fundamentos (tanto suposições
teóricas fundamentais quanto qual tipo de fenômeno de observação são relevantes ao
paradigma), o que torna impossível que o cientista se dedique ao trabalho detalhado. 393 Com
efeito, no prefácio à “Estrutura das Revoluções Científicas”, Kuhn indica a definição básica
de paradigma mencionada anteriormente como saída para explicar a diferença entre o que via
ocorrer entre os praticantes de astronomia, física, química ou biologia, de um lado, e os
cientistas sociais, de outro. Entre os últimos, Kuhn relata a surpresa de ter encontrado
desacordos sobre a natureza de seus métodos e problemas em grande número e extensão.394
O treinamento do cientista normal envolve a incorporação tácita do paradigma. O
cientista individual é treinado resolvendo problemas-padrão, desempenhando experiências-
padrão e fazendo pesquisa sob a orientação de um supervisor treinado dentro do paradigma,
assim conhecendo seus métodos, técnicas e padrões. Com isso, o cientista normal incorpora o
paradigma sem estar cônscio da natureza precisa do paradigma e sem ser capaz de articulá-la.
Isso porque há mais no paradigma do que suas regras e orientações explícitas, tal como a
discussão da noção de “jogo” feita por Wittgenstein (ao ser conceituada, invariavelmente
descobrem-se atividades incluídas ou excluídas indevidamente da definição).395
Kuhn defende que, no desenvolvimento de qualquer ciência, o paradigma inicia-se
como suficiente para explicar observações e experimentos acessíveis aos praticantes, e seus
desdobramentos passam a pedir pela construção de equipamentos elaborados, pelo
392
CHALMERS, 1993, p.127; KUHN, 1996, p.81.
393
KUHN, 1996, p.11; CHALMERS, 1993, p.127. Neste cenário, “[h]averá quase tantas teorias quanto há
trabalhadores no campo, e cada teórico será obrigado a começar de novo e a justificar sua própria abordagem
específica”. CHALMERS, 1993, p.127.
394
“I was struck by the number and extent of the overt disagreements between social scientists about the nature
of legitimate scientific problems and methods. Both history and acquaintance made me doubt that practitioners
of the natural sciences possess firmer or more permanent answers to such questions than their colleagues in
social science. Yet, somehow, the practice of astronomy, physics, chemistry, or biology normally fails to evoke
the controversies over fundamentals that today often seem endemic among, say, psychologists or sociologists.
Attempting to discover the source of that difference led me to recognize the role in scientific research of what I
have since called "paradigms." These I take to be universally recognized scientific achievements that for a time
provide model problems and solutions to a community of practitioners. Once that piece of my puzzle fell into
place, a draft of this essay emerged rapidly.” KUHN, 1996, p.x.
395
CHALMERS, 1993, p. 127-129; KUHN, 1996, p.16-17, p.43, 44 nr.1. Disso não decorre que o cientista seja
incapaz de tentar articular as pressuposições do seu paradigma; quando o paradigma é ameaçado por um rival,
há inclusive a necessidade que ele assim o faça. CHALMERS, 1993, p. 128-129.
156

desenvolvimento de vocabulário e habilidades herméticos e pelo aperfeiçoamento de


conceitos, com uma consequente especialização que representa tanto uma restrição do escopo
do cientista396 quanto uma resistência a mudanças paradigmáticas. A ciência, mais rígida,
conduz os cientistas focados a informações mais detalhadas e a casamentos mais precisos
entre teoria e observação. Descobertas e anomalias (violações de expectativa397), pressupõem
este estado de coisas, pressupõem o paradigma e a ciência normal, porque somente o homem
que sabe com exatidão o que esperar é capaz de reconhecer o inusual.398
Para que ocorra a mudança de um paradigma a outro, há primeiro uma crise do
paradigma corrente, e é a partir dela que se instaura uma revolução. A crise não decorre
apenas da simples presença de problemas não resolvidos ou anomalias, mas, normalmente,
pela presença: (i) de anomalias sérias, entendidas ou como aquelas que atacam os próprios
fundamentos do paradigma e resistem às tentativas dos membros da comunidade científica
normal de removê-la (e.g. o movimento da Terra em relação ao éter na teoria eletromagnética
de Maxwell), ou como as que se relacionam com uma necessidade social urgente (e.g.
problemas da astronomia ptolemaica à luz da necessidade social de reforma do calendário);
(ii) de anomalias duradouras, i.e., que tenham resistido a muitas tentativas de remoção ao
longo do tempo; (iii) de um grande número de anomalias sérias e duradouras.399
Quando as anomalias tornam-se problemas sérios para o paradigma, inicia-se um
período de insegurança profissional em que: (i) as tentativas de solução do problema tornam-
se cada vez mais radicais; (ii) as regras paradigmáticas para solução de problemas tornam-se
mais frouxas; (iii) os cientistas normais envolvem-se em disputas metafísicas; (iv) os
cientistas começam a expressar abertamente seu descontentamento com o paradigma; (v) os
proponentes do paradigma perdem a confiança nele; (vi) crise se aprofunda com o surgimento
de um paradigma rival400, sem o qual não há rejeição do paradigma em crise, pois a decisão de
rejeitá-lo “é sempre, simultaneamente, a decisão de aceitar o rival”.401

396
“Paradigm procedures and applications are as necessary to science as paradigm laws and theories, and they
have the same effects. Inevitably they restrict the phenomenological field accessible for scientific investigation
at any given time.” KUHN, 1996, p.59-60.
397
KUHN, 1996, p.xi e p.52-53 (“… awareness of anomaly, i.e., with the recognition that nature has somehow
violated the paradigm-induced expectations that govern normal science.”).
398
KUHN, 1996, p.64-65.
399
CHALMERS, 1993, p.129-130; KUHN, 1996, p.82.
400
CHALMERS, 1993, p.130; KUHN, 1996, p.83-91.
401
“The decision to reject one paradigm is always simultaneously the decision to accept another.” KUHN, 1996,
p.77.
157

O paradigma antigo é diferente e incompatível com o novo. As diferenças radicais


podem assumir várias formas402:
I. Cada paradigma vê o mundo como composto por diferentes tipos de coisas (e.g.
o paradigma aristotélico dividia o universo em região sobrelunar – incorruptível, imutável – e
região terrestre – corruptível, mutável –, enquanto paradigmas posteriores sustentavam que o
universo é composto pelos mesmos tipos de substâncias materiais).
II. Cada paradigma considera diferentes tipos de questões como legítimas ou
significativas (e.g. questões sobre massa dos planetas eram importantes para os newtonianos e
heréticas para os aristotélicos).
III. Além de propor diferentes questões, os paradigmas envolvem padrões
incompatíveis (e.g. os eventos possíveis da microfísica moderna envolvem uma
indeterminabilidade que não tem lugar no paradigma newtoniano).
IV. Paradigmas diferentes envolvem maneiras diferentes de ver o mundo, como se
cientistas de paradigmas diferentes vivessem em mundos diferentes (e.g., mudanças no céu
começaram a ser registradas e debatidas por astrônomos ocidentais após a teoria copernicana,
pois isso não faria sentido na teoria aristotélica).
Nos termos da concepção de ciência de Kuhn, não há como demonstrar a
superioridade de um paradigma sobre outro com base num argumento logicamente
convincente ou critério único (que leve o cientista a racionalmente abandonar um paradigma
pelo outro), por duas razões principais: em primeiro lugar, ao decidir pela adesão ou não ao
novo paradigma, os cientistas podem levar em conta uma ampla variedade de fatores muito
distintos, como simplicidade, ligação com alguma necessidade social urgente, habilidade de
resolver um tipo de problema específico, convicções pessoais (mesmo religiosas); em
segundo lugar, como cada paradigma adota conjuntos diferentes de padrões, princípios
metafísicos etc., os critérios de um levam ao julgamento de sua superioridade, e vice-versa.403
Por isso, Kuhn compara a adesão de cientistas individuais a um paradigma alternativo a uma
“troca gestáltica” ou a uma “conversão religiosa”, e compara as revoluções científicas às

402
CHALMERS, 1993, p.130-131.
403
CHALMERS, 1993, p.131-132; KUHN, 1996, p.150 (“Just because it is a transition between
incommensurables, the transition between competing paradigms cannot be made a step at a time, forced by
logic and neutral experience. Like the gestalt switch, it must occur all at once (though not necessarily in an
instant) or not at all.”). O que não quer dizer que argumentos não possam e não tenham sido apresentados para
persuadir os membros ao longo da crise e da revolução rumo ao novo paradigma. Como coloca o próprio
Kuhn, “to say that resistance is inevitable and legitimate, that paradigm change cannot be justified by proof, is
not to say that no arguments are relevant or that scientists cannot be persuaded to change their minds.” Cf.
KUHN, 1996, p.152.
158

revoluções políticas, já que nestas a mudança também ocorre através de formas proibidas
pelas instituições estabelecidas.404 A mudança é como o momento em que, diante da figura
reversível, você não mais enxerga um vaso, mas duas faces frente a frente.405
Uma revolução científica ocorre quando toda a comunidade científica se converte
ao novo paradigma406, de modo que existam apenas uns poucos dissidentes que “serão
excluídos da nova comunidade científica e se refugiarão, talvez, no departamento de
filosofia”.407
Traduzindo a concepção científica de Kuhn em menos palavras: para ele, o grosso
da atividade científica, a chamada “ciência normal”, desenvolve-se no interior de um
paradigma que define o tipo de problema a ser estudado, os critérios por meio dos quais deve
ser avaliada a solução e os procedimentos experimentais considerados aceitáveis. De vez em
quando a ciência normal entra em crise, o que, após um período revolucionário, pode resultar
numa mudança de paradigma.408
Os escritos de Kuhn sugerem que seu relato sobre a natureza da ciência é
puramente descritivo, mas isso atrairia para ele as críticas feitas ao indutivismo ingênuo. Na
verdade, seu relato também possui um filtro teórico, caso contrário, ele precisaria documentar
as atividades de cientistas sérios tanto quanto de charlatães.409 Em suma, a teoria exerce o
papel de filtro do que é relevante de se observar e explicar.
O relato de Kuhn não pretende ser apenas uma descrição do trabalho dos
cientistas, mas constitui uma teoria da ciência por incluir uma explicação das funções
necessárias exercidas pela ciência normal e pelas revoluções, que rivaliza com a explicação
indutivista do avanço da ciência.410 Para o indutivista, a ciência avança à medida que
observações mais numerosas e variadas são feitas, possibilitando aprimoramentos conceituais.
Para Kuhn, esta é uma explicação equivocada porque ignora tanto o papel da teoria na
constituição da realidade411 (que serve de referência para a correspondência que busca o
indutivista) quanto o papel do paradigma na orientação do trabalho científico. Nos períodos

404
“[T]he switch of gestalt, particularly because it is today so familiar, is a useful elementary prototype for what
occurs in full-scale paradigm shift.” KUHN, 1996, p.85. Ver, também: KUHN, 1996, p.111-120, 150, 204;
CHALMERS, 1993, p.131-132.
405
Cf. capítulo 3.
406
KUHN, 1996, p.18-19, 150.
407
CHALMERS, 1993, p.133.
408
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.83.
409
CHALMERS, 1993, p.133-134.
410
CHALMERS, 1993, p.134 ss.
411
“There is, I think, no theory-independent way to reconstruct phrases like 'really there'; the notion of a match
between the ontology of a theory and its "real" counterpart in nature now seems to me illusive in principle.”
KUHN, 1996, p.206.
159

de ciência normal, o paradigma possui uma influência persuasiva o suficiente para, por
exemplo, evitar disputas sobre a legitimidade das suposições fundamentais, liberando assim
os cientistas para desenvolverem “trabalhos teóricos e experimentais rigorosos”, levando “a
correspondência entre o paradigma e a natureza a um grau cada vez mais alto”.412 Como não
há paradigmas perfeitos (nem motivos, “a priori, para que se espere que um paradigma seja
perfeito”) nem procedimentos indutivos para se chegar a paradigmas perfeitos, as
inadequações presentes em todos os paradigmas podem levar a uma crise e a uma revolução, e
são precisamente as revoluções que permitem que a ciência não fique presa a um único
paradigma e progrida para além dele.413 A confiança na adequação do paradigma que move
adiante a ciência normal só pode se quebrar a ponto de um paradigma ser substituído por
outro na ocorrência de uma revolução.414

6.4. KUHN, LAKATOS E A MUDANÇA DOS TERMOS DO DEBATE

Há semelhanças importantes entre Kuhn e Lakatos, a começar pelo principal


ponto comum: o fato de ambos apresentarem concepções segundo as quais uma teoria
científica é essencialmente uma estrutura complexa. Do texto de Chalmers depreendem-se
três argumentos a favor da explicação das teorias como estruturas:
I. O argumento histórico. Diante da incapacidade do indutivismo e do
falseabilismo de caracterizar adequadamente a gênese e crescimento de teorias científicas
reais (mais complexas do que exemplos hipotéticos simplificados), i.e., tal como ocorrido na
história da ciência, surge a explicação das teorias como “todos estruturados”.415
II. O argumento da necessidade de expansão da ciência. Nas palavras de
Chalmers, a ciência avança mais eficazmente quando as teorias são estruturadas “de maneira a
conter em seu interior indícios e receitas bastante claros quanto à forma como elas devem ser
desenvolvidas e expandidas”.416
III. O argumento filosófico. Além do argumento histórico, há também um
argumento filosófico a fundamentar esta proposta explicativa, relacionado à dependência que
a observação tem da teoria. As proposições de observação devem ser formuladas na
412
De modo que é visto como “necessário que a ciência normal seja amplamente não crítica.” CHALMERS,
1993, p.134.
413
“Todos os paradigmas serão inadequados, em alguma medida, no que se refere à sua correspondência com a
natureza. Quando esta falta de correspondência se torna séria, isto é, quando aparece crise, a medida
revolucionária de substituir todo um paradigma por um outro torna-se essencial para o efetivo progresso da
ciência.” CHALMERS, 1993, p.135.
414
CHALMERS, 1993, p.134-135.
415
CHALMERS, 1993, p.109.
416
CHALMERS, 1993, p.112.
160

linguagem de alguma teoria, de modo que as afirmações e os conceitos nela contidos serão tão
precisos e informativos quanto mais precisa e informativa for a linguagem em que forem
expressos.417 Termos precisos e aptos a desempenharem bom papel dependem de teorias
coerentemente estruturadas; os sentidos dos conceitos dependem da estrutura da teoria em que
ocorrem, de sua precisão e grau de coerência.418
Em suporte ao argumento filosófico, Chalmers insere a discussão sobre os
diferentes modos de explicar como um conceito adquire sentido. Um deles é a ideia de que
conceitos adquirem sentido por meio de uma definição. Como os conceitos somente podem
ser definidos em termos de outros conceitos, a alternativa está fadada a um regresso infinito,
pois os demais conceitos de que depende a definição do conceito analisado também precisam,
por sua vez, de ter seus sentidos definidos (por outros conceitos), e assim por diante. É por
isso que um dicionário é inútil se não existir um conhecimento prévio do sentido de muitas
palavras.419 O outro reside na ideia de que o sentido do conceito é estabelecido através da
observação.420 Como já colocado anteriormente, o indutivista, ao explicar o conceito de
“vermelho” como sendo o elemento comum induzido pelo observador a partir da observação
de objetos vermelhos, ignora que a própria observação pressupõe um critério que inclui certos
objetos no conjunto (e exclui outros).421 Similarmente, não se chega ao conceito newtoniano
de “massa” apenas por meio da observação, nem é possível ensiná-lo somente com a
indicação de fenômenos como colisões de bolas de bilhar, movimentos de planetas em órbita
etc.422
Além disso, Chalmers sustenta que a afirmação de que conceitos adquirem sentido
(ao menos em parte) pelo papel que desempenham numa teoria, é corroborada por exemplos
históricos: (i) ao estruturar sua teoria, Galileu Galilei valeu-se mais de experiências de
pensamento, analogias e metáforas ilustrativas do que de experimentação detalhada, o que
sugere novamente que conceitos não são definidos empiricamente; (ii) ao ser introduzido por

417
CHALMERS, 1993, p.109-110. Neste sentido, o conceito newtoniano de “massa” possui um sentido mais
preciso que o conceito de “democracia” porque desempenha um “papel específico e bem definido em uma
teoria precisa e estruturada” (a mecânica newtoniana), diferentemente do que ocorre com o conceito
“democracia”, que costuma ser empregado em teorias “notoriamente vagas e variadas”. CHALMERS, 1993,
p.110.
418
CHALMERS, 1993, p.109-110.
419
“Não era possível para Newton definir massa ou força em termos de conceitos pré-newtonianos. Foi
necessário que ele transcendesse os termos do velho sistema conceitual e desenvolvesse um novo.”
CHALMERS, 1993, p.110.
420
CHALMERS, 1993, p.110.
421
CHALMERS, 1993, p.54-55.
422
CHALMERS, 1993, p.110-11. “[S]e tentarmos ensinar um cão por meio da definição ostensiva, ele reagirá
invariavelmente cheirando o dedo que aponta”. CHALMERS, 1993, p.111.
161

Faraday, na primeira metade do século XIX, o conceito de campo elétrico ainda era muito
vago, e tornou-se mais bem definido quando desdobrou-se em contraposição a outras
quantidades eletromagnéticas, a partir do desenvolvimento da teoria eletromagnética realizado
por Maxwell. Isso sugere que os conceitos surgem inicialmente como uma “vaga ideia”,
passando a agregar esclarecimentos graduais até a formulação mais precisa e coerente das
teorias que os conformam.423
A abordagem de Kuhn precede, histórica ou cronologicamente, a de Lakatos. Para
Chalmers, “Lakatos adaptou alguns dos resultados de Kuhn para seus próprios propósitos”.
Uma diferença importante, que marca também a distinção entre Kuhn e Popper, reside na
ênfase de Kuhn em aspectos e fatores sociológicos.424 Na comparação entre um e outro, a
noção de paradigma aproxima-se da de heurística positiva, como já dito, e também a ideia
lakatosiana de proteção do núcleo irredutível do programa de pesquisa aproxima-se da
resistência do cientista normal diante de evidências contrárias ao paradigma.425
A epistemologia de Kuhn parece adaptar-se bem à experiência que os cientistas
têm de sua atividade, o que torna à primeira vista mais difícil que ela possa ser tida como
revolucionária ou ser usada para fins anticientíficos. Seu maior problema surge com a noção
de incomensurabilidade dos paradigmas, na medida em que os cientistas, de modo geral,
creem na possibilidade de escolha racional entre teorias concorrentes com base em
observações e experiências, e isso é rejeitado fortemente por pelo menos uma das versões da
tese da incomensurabilidade: a que sustenta que a experiência do mundo está radicalmente
condicionada pela teoria que, por sua vez, depende do paradigma.426
Sokal e Bricmont mencionam um intérprete de Kuhn, Tim Maudlin, que distingue
o “Kuhn moderado” e o “Kuhn desenfreado”: enquanto o primeiro admite que nos debates
científicos do passado houve racionalidade, mas também a interferência de considerações
extracientíficas, o segundo afirma que mudanças de paradigma devem-se principalmente a
fatores não empíricos e que os paradigmas condicionam tão fortemente a percepção de mundo
dos cientistas que só podem ser confirmados por experiências posteriores à sua adoção.427
Enquanto o “Kuhn moderado” pode ser plenamente aceito, as ideias do “Kuhn desenfreado” –

423
CHALMERS, 1993, p.111-112. “Suponho que a história típica de um conceito, seja ele “elemento químico”,
“átomo”, “o inconsciente” ou qualquer outro, envolve uma aparição inicial do conceito como uma ideia vaga,
seguido por seu esclarecimento gradual quando a teoria na qual ele desempenha um papel assume uma forma
mais precisa e coerente.” CHALMERS, 1993, p. p.111.
424
CHALMERS, 1993, p.124.
425
CHALMERS, 1993, p.126-127.
426
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.83-84.
427
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.85-86
162

“convertido, quiçá contra sua vontade, em um dos pais fundadores do relativismo


contemporâneo” – não podem ser aceitas: há uma mescla de boas e más razões que presidem
a aparição de uma nova teoria, e se é certo que o paradigma do observador pode influenciar
sua experiência do mundo, é incorreto supor que ele age com tanta força que garante que sua
experiência esteja sempre de acordo com suas teorias e que teorias nunca são postas em
dúvida ou revisadas; a teoria não determina a percepção dos resultados experimentais.428
Problemas similares foram identificados por Alan Chalmers. Dentro da discussão
sobre os extremos do racionalismo e do relativismo, Chalmers defende que Kuhn pode muito
bem ser entendido como um autor relativista, embora o próprio Kuhn tenha se preocupado, no
pós-escrito à “Estrutura das Revoluções Científicas”, em defender o oposto ao dizer que
teorias podem ser comparadas segundo sua capacidade de resolver problemas, quebra-
cabeças, nos diferentes ambientes nos quais são aplicadas.429 É que, apesar dessa afirmação
não relativista sobre o progresso da ciência, Kuhn dá sinais explícitos de defesa de uma
posição relativista ao longo de sua obra, como corretamente sustentou Chalmers ao lembrar,
por exemplo, que ele compara mudanças paradigmáticas a trocas gestálticas como a que
ocorre em figuras reversíveis, o que é a antítese de uma escolha justificada430; e que ele diz,
no pós-escrito à “Estrutura das Revoluções Científicas”, que o conhecimento científico,
“como a linguagem, é intrinsecamente a propriedade comum de um grupo ou então não é
nada”, razão pela qual, para compreendê-lo, torna-se necessário “que saibamos as
características especiais dos grupos que a criam e usam”.431
Além da objeção à incomensurabilidade, a epistemologia de Kuhn é deficiente
também em virtude do argumento da autorrefutação, que pode ser assim resumido: como a
história usa métodos similares à ciência para analisar fontes e realizar inferências racionais a
partir dos dados disponíveis etc., nenhum argumento histórico – e a epistemologia kuhniana é

428
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.85-86
429
“Considering any two such theories, chosen from points not too near their origin, it should be easy to design a
list of criteria that would enable an uncommitted observer to distinguish the earlier from the more recent
theory time after time. Among the most useful would be: accuracy of prediction, particularly of quantitative
prediction; the balance between esoteric and everyday subject matter; and the number of different problems
solved. Less useful for this purpose, though also important determinants of scientific life, would be such
values as simplicity, scope, and compatibility with other specialties. Those lists are not yet the ones required,
but I have no doubt that they can be completed. If they can, then scientific development is, like biological, a
unidirectional and irreversible process. Later scientific theories are better than earlier ones for solving puzzles
in the often quite different environments to which they are applied. That is not a relativist's position, and it
displays the sense in which I am a convinced believer in scientific progress.” KUHN, 1996, p.205-206.
430
CHALMERS, 1999, p.123.
431
CHALMERS, 1993, p.145. São as últimas palavras do pós-escrito: “Scientific knowledge, like language, is
intrinsically the common property of a group or else nothing at all. To understand it we shall need to know the
special characteristics of the groups that create and use it.” KUHN, 1996, p.210.
163

histórica, a começar pela própria noção de paradigma – pode ser usado para desafiar a
confiança no conhecimento científico.432 Numa direção semelhante, Feyerabend afirmou que
não argumentos históricos não são suficientes para minar a autoridade da ciência.433
Ao argumentar que as diferentes concepções analisadas até aqui dão ênfase aos
indivíduos ou grupos com suas escolhas e decisões ou os critérios que podem ou devem eleger
para enfrentar questões como a superioridade de uma teoria em relação à rival o
desenvolvimento da ciência ou o critério de demarcação do que conta como científico,
Chalmers propõe uma mudança nos termos do debate para considerar como a ciência pode ser
analisada sem levar em conta aquilo que possam pensar indivíduos ou grupos. 434 Os
desdobramentos desta via são descritos em seguida.

6.5. INSTRUMENTALISMO E REALISMO

Como as teorias científicas, construções humanas sujeitas a mudanças e


desenvolvimentos, relacionam-se com o mundo no qual são aplicadas, “cujo modo de
comportamento, ao menos no caso do mundo físico, não está sujeito a mudança”? Dois tipos
de resposta se contrapõem: a realista e a instrumentalista.435

Quadro 18 - Realismo e Instrumentalismo.


RESPOSTA DESCRIÇÃO
As teorias descrevem ou têm como objetivo descrever o mundo como ele
REALISTA
realmente é.
O componente teórico da ciência não descreve a realidade. Teorias são
INSTRUMENTALISTA instrumentos projetados para relacionar um conjunto de estados de coisas
observáveis com outro.
FONTE: Elaboração própria a partir de CHALMERS, 1993, p.188-189.

O realismo envolve a noção de verdade porque entende que o cientista “visa


descrições verdadeiras de como o mundo realmente é.” Ademais, envolve tipicamente a ideia
de que o mundo existe independentemente do sujeito e de suas teorias.436

432
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.87-88.
433
“Para minar a autoridade da ciência, argumentos históricos não bastam: por que motivo seria maior a
autoridade da história que, digamos, a da física?” (“[I]t is not enough to undermine the authority of the
sciences by historical arguments: why should the authority of history be greater than that of, say, physics?”).
FEYERABEND, 1993, p.271.
434
Cf. CHALMERS, 1993, p.148-149, 164-165.
435
CHALMERS, 1993, p.188 ss.
436
CHALMERS, 1993, p.189.
164

O instrumentalismo assume uma noção mais restrita de verdade, que se aplica às


descrições do mundo observável, mas não às elaborações teóricas projetadas para dar ao
cientista um controle instrumental do mundo observável. Essas últimas são apenas
“instrumentos convenientes para ligar um conjunto de situações observáveis com um outro” e
não podem ser julgadas segundo sua verdade ou falsidade, mas somente de acordo com sua
utilidade como instrumento. O instrumentalismo assume uma distinção clara entre entidades
observáveis / termos observacionais e entidades teóricas / termos ou conceitos teóricos, e
entende que “não é atividade da ciência estabelecer aquilo que possa existir para além do
reino do observável”. O instrumentalista ingênuo, e.g., entenderá que existem realmente bolas
de bilhar no mundo, e que a mecânica newtoniana é apenas um esquema de cálculo capaz de
habilitar as posições observáveis e as velocidades das bolas de bilhar num instante, de forma a
serem inferidas de suas posições observáveis e velocidades noutro instante. Para o
instrumentalista, as forças envolvidas nos cálculos não são entidades com existência real, mas
invenções do físico, ficções teóricas convenientes.437
A principal crítica feita ao instrumentalismo diz respeito à distinção entre termos
observáveis e termos teóricos, e pode ser assim resumida438:
I. Termos observacionais são também carregados de teoria. A posição
instrumentalista (que também é assumida pelo indutivista) de “não afirmar nada além daquilo
que pode ser extraído de uma base de observação segura” é solapada pelo fato de que “todas
as proposições de observações são dependentes de teoria e falíveis.” No exemplo da mecânica
newtoniana assumida pelo instrumentalista ingênuo, o próprio conceito de bola de bilhar
implica propriedades teóricas (individualidade, rigidez), e as velocidades que o
instrumentalista atribui a elas ilustram um conceito teórico sofisticado que abarca a ideia de
limite matemático.
II. A posição instrumentalista de entender teorias como meros esquemas de
cálculo e conceitos teóricos como ficções é incompatível com o fato de teorias conduzirem a
novas predições e à descoberta de novos tipos de fenômenos observáveis. É também
incompatível com relatos como o de Hertz ao afirmar ter sido capaz de produzir os campos
eletromagnéticos numa “forma visível e quase tangível”.
Ao não assumir as mesmas distinções nem prender-se à ideia de que não cabe à
ciência estabelecer o que possa existir para além do reino do observável, a atitude realista é

437
CHALMERS, 1993, p.189-191. “Amperímetros, limalha de ferro, planetas e raios de luz existem no mundo.
Elétrons, campos magnéticos, epiciclos ptolemaicos e éter não existem.” CHALMERS, 1993, p.190.
438
CHALMERS, 1993, p.191-192.
165

mais produtiva que a instrumentalista. Assim, se lida segundo o instrumentalismo, a teoria


copernicana não descreve como o mundo é, não afirma que a Terra realmente se move ao
redor do Sol, mas é somente um artifício de cálculo que permite a ligação de um conjunto de
posições planetárias observáveis a outros conjuntos. Essa postura evita controvérsias entre a
teoria copernicana, de um lado, e o cristianismo e a metafísica aristotélica, de outro (dentre
outras dificuldades). Se lida, porém, à luz do realismo, a teoria copernicana abre mais
oportunidades de desenvolvimento, pois enfrenta mais dificuldades ou problemas que
serviram, especificamente, de grande incentivo para o desenvolvimento da ótica e da
mecânica.439
Nada disso quer dizer, porém, que o realismo e a noção de verdade por ele
assumidos sejam imunes a críticas sérias.
Como dito, o realismo entende que o cientista visa descrever verdadeiramente o
mundo, que existe independentemente dele e de suas teorias.440 O único relato sobre a verdade
capaz de atender as exigências do realismo é a que explica verdade em termos de
correspondência, segundo a qual uma sentença como “o gato está na mesa” é verdadeira se
corresponde aos fatos, i.e., se houver mesmo um gato na mesa, e falsa se não houver. Apesar
de parecer simples e quase trivial, a ideia da verdade como correspondência entre uma
sentença e os fatos facilmente conduz a paradoxos, como o famoso paradoxo do mentiroso,
ilustrado por Chalmers da seguinte forma: “Se eu digo ‘eu nunca falo a verdade’ então, se o
que eu disse é verdade, o que eu disse é falso.”. 441
Para defender que faz sentido falar da verdade como objetivo da ciência, Karl
Popper tenta elucidar a ideia de verdade como correspondência com os fatos por meio de duas
formulações que declaram de forma muito simples sob que condições uma certa afirmação
corresponde aos fatos442:
“A declaração, ou a afirmação “a neve é branca” corresponde aos fatos se, e
somente se, a neve for de fato branca.”
“A declaração, ou a afirmação “a grama é vermelha” corresponde aos fatos se, e
somente se, a grama for de fato vermelha”.
Para Chalmers, aparentemente, as formulações são “obviamente corretas”,
contudo, repousam numa noção de verdade do senso comum problemática. Antes de
439
CHALMERS, 1993, p.192-193.
440
CHALMERS, 1993, p.189.
441
CHALMERS, 1993, p.194. Sobre o paradoxo do mentiroso, ver: DOWDEN, s.d.; BEALL, GLANZBERG,
2014.
442
POPPER, 1963, p.223; CHALMERS, 1993, p.196.
166

esclarecer o ponto, Chalmers cuida de afastar uma objeção equivocada à teoria da verdade por
correspondência, e que, em resumo, consiste no seguinte: se uma pessoa pergunta a que
corresponde uma afirmação como “o gato está na mesa” e a outra responde que corresponde a
um gato estar na mesa, ela estaria, segundo a crítica, relacionando uma afirmação com outra, e
não com o mundo. Essa objeção, contudo, se equivoca porque se a pergunta é verbal, a
resposta é verbal, o que não significa que não se refira a uma palavra ou conjunto de palavras,
em vez de algum objeto do mundo. Neste sentido, se uma pessoa com o mapa da Austrália é
indagada sobre a que ele se refere e responde que o mapa se refere à Austrália, esclarece
Chalmers, ela não está dizendo que o mapa se refere à palavra Austrália.443
O problema maior com a noção de verdade do senso comum assumida por Popper
é o de que as correspondências envolvidas em teorias científicas são notavelmente diferentes
daquelas relacionadas aos exemplos dos gatos sobre mesas. Leis e teorias científicas não
podem ser interpretadas como expressando relações entre conjuntos de eventos ou estados de
coisas localizados (como gatos estarem em mesas). Ao ser assumida como verdadeira, a
primeira lei newtoniana do movimento, por exemplo, não é tida como verdadeira apenas sob
as condições de um experimento específico que tenha sido concebido para testá-la (que é, por
definição, arquitetado, montado e executado por agentes humanos); por extrapolá-lo, ela não
corresponde a um estado de coisas, mas a uma tendência transfactual.444 Além disso, outros
elementos põem em dúvida ou em risco a noção de verdade como correspondência445:
A história da ciência fornece exemplos que desautorizam a percepção segundo a
qual uma sequência de teorias seja interpretada como uma aproximação cada vez maior de
uma descrição verdadeira de como o mundo é, como o exemplo da progressão da ótica após
as contribuições de Newton: para quem um raio de luz é descrito primeiro como corrente de
partículas, depois como onda e mais tarde como algo que não é nem uma coisa, nem outra,
sem garantias de que tais desdobramentos sejam passos à frente no caminho para o reino da
verdade.
A história da ciência também fornece exemplos de explicações alternativas que se
equivalem, “no sentido de que qualquer coisa que possa ser prevista ou explicada por uma
pode ser prevista e explicada pela outra”. Se existirem, alternativas equivalentes constituem
um embaraço para os defensores da teoria da verdade como correspondência, que ficam sem
meios de dizer se o mundo realmente é o que diz uma, e não outra.

443
CHALMERS, 1993, p.196-197.
444
CHALMERS, 1993, p.198-199.
445
CHALMERS, 1993, p.199-201.
167

As teorias são produtos humanos sujeitos ao desenvolvimento e à mudança,


enquanto o seu objeto, o mundo físico, não. Se o objetivo da ciência for a verdade como
correspondência, seu ponto final será a verdade objetiva ou absoluta, estágio no qual as
teorias usadas para tratar das características preexistentes do mundo deverão deixar de ser um
produto social, humano (o que soa, no mínimo, implausível).
Realistas falseabilistas defendem sua posição através do conceito de
verossimilhança ou aproximação da verdade, de acordo com o qual a substituição de uma
teoria por outra através do falseamento nada mais é do que o progresso da ciência cada vez
mais para perto da verdade. Cada teoria tem um conteúdo de verdade, que abarca o conjunto
de todas as consequências verdadeiras da teoria; e um conteúdo de falsidade, que abrange o
conjunto de todas as consequências falsas. Ao ser comparada com uma teoria T2, uma teoria
T1 se aproxima mais da verdade quando o conteúdo de verdade de T1 excede o conteúdo de
verdade de T2, e o conteúdo de falsidade de T2 excede o de T1.446
O progresso da ciência, porém, parece desmentir a ideia de aproximação da
verdade e os conceitos de conteúdo de verdade e conteúdo de falsidade a ela ligados,
enfraquecendo, assim, a concepção de verdade como correspondência. Para demonstrar isso,
Chalmers considera uma mudança revolucionária no desenvolvimento da física para comparar
a teoria mecânica newtoniana com a teoria de Einstein. A rigor, se fosse possível atribuir um
número à medida de conteúdo de verdade de cada teoria, o conteúdo de verdade da teoria
newtoniana seria zero, pois adota conceitos e propriedades transmitidos para todas as suas
consequências dedutivas que são simplesmente errôneos ou inexistentes segundo a teoria
seguinte; e a própria teoria einsteiniana poderia ter o seu conteúdo de verdade provado como
zero após a revolução científica seguinte.447
O conceito de aproximação da verdade até poderia ser salvo pelo seguinte
artifício: medir o conteúdo de verdade de cada teoria de acordo com a precisão experimental
dada segundo procedimentos práticos que visem testar suas previsões. No entanto, isso
envolveria adotar uma interpretação instrumentalista das teorias científicas, o que é
incompatível com a própria rejeição realista, popperiana, do instrumentalismo.448

446
POPPER, 1963, p.233; CHALMERS, 1993, p.201-202.
447
CHALMERS, 1993, p.202-203.
448
CHALMERS, 1993, p.203.
168

6.6. REALISMO NÃO REPRESENTATIVO

O realismo não representativo é colocado como alternativa ao instrumentalismo e


ao realismo que incorpora uma teoria da verdade como correspondência. Para ele, as teorias
aplicam-se ao mundo físico em certo grau e, “em geral, num grau que excede suas
predecessoras na maioria dos aspectos”.449
O realismo não representativo é realista em dois sentidos: por supor que o mundo
físico é como é independentemente do nosso conhecimento sobre ele; por supor que, “na
medida em que as teorias são aplicáveis ao mundo, são aplicáveis dentro e fora das situações
experimentais”, não se limitando a fazer “correlações entre conjuntos de proposições de
observação”. E é não representativo por não incorporar uma teoria da verdade como
correspondência, já que não supõe que teorias são descrições de entidades do mundo segundo
o senso comum, tal como a linguagem descreve gatos e mesas.
Segundo o realismo não representativo, teorias são avaliadas conforme a
“extensão em que lidam com sucesso com algum aspecto do mundo”, e não de acordo com a
extensão em que descrevem o mundo como ele é, “simplesmente porque não temos acesso ao
mundo independentemente de nossas teorias”.450
Ao rejeitar a verdade como correspondência, o realismo não representativo evita
as dificuldades atribuídas ao realismo típico, como a questão das teorias sucessivas diante da
ideia de aproximação da realidade, a existência de alternativas equivalentes com
representações muito distintas da realidade, e também o fato de teorias obsoletas, mesmo “não
correspondendo à realidade”, serem capazes de fazer previsões bem-sucedidas. Ademais, não
assume a verdade correspondencial objetiva ou absoluta como ponto final da ciência, sendo,
por isso, mais compatível com o caráter social e humano da empreitada científica.451
O realismo não representativo tem também a vantagem de ser imune à crítica
comum feita ao instrumentalismo: ao excluir especulações potencialmente produtivas sobre
entidades teóricas, o instrumentalismo terminaria por ter caráter conservador e por inibir o
progresso. O realismo não representativo, ao revés, defende que é preciso determinar a
extensão da aplicabilidade das teorias por meio de uma série completa de testes,
reconhecendo “que a extensão de aplicabilidade de uma teoria pode ser melhor verificada à
luz de uma teoria sucessora que a explique em um nível mais profundo.” A ciência, tal como

449
CHALMERS, 1993, p.205, 207.
450
CHALMERS, 1993, p.208.
451
CHALMERS, 1993, p.208-209.
169

o realismo não representativo a encara, não busca a verdade como ponto final, mas o
desenvolvimento sem fim do conhecimento.452

6.7. ASPECTOS RELATIVISTAS E NÃO RELATIVISTAS DO REALISMO NÃO REPRESENTATIVO

O realismo não representativo é, em alguns aspectos, relativista: defende que não


há uma categoria geral, “a ciência”, nem um conceito de verdade que permita a caracterização
da ciência como uma busca da verdade; sustenta que cada área do conhecimento deve ser
julgada pelos seus próprios méritos, segundo a investigação de seus objetivos e em que
extensão é capaz de alcançá-los; e, quanto à avaliação de teorias rivais, nega que exista algum
critério absoluto de julgamento.453
Por outro lado, o realismo não representativo endossa o objetivismo e o relato
objetivista da mudança de teoria, que se consubstanciam como aspectos não relativistas.
Antes disso, é preciso esclarecer o que o objetivismo implica.
Em resumo, para o individualismo o conhecimento é compreendido como um
conjunto especial de crenças de indivíduos, que residem em suas respectivas mentes.454 Sendo
o posto do individualismo, o objetivismo tenta escapar do problema fundamental do regresso
ao infinito (uma afirmação precisa ser justificada, e também a afirmação que a justifica...).455
Para o objetivismo, o conhecimento humano, de proposições simples a teorias
complexas, apresenta propriedades e características que transcendem as crenças e estados de
consciência dos indivíduos. “O labirinto de proposições que envolve um corpo de
conhecimento em algum estágio de seu desenvolvimento tem [...] propriedades que os
próprios indivíduos que nele trabalham desconhecem.” Nestes termos, o conhecimento é tido
como algo exterior, antes que interior, às mentes.456 Neste sentido, o objetivista foca nas

452
CHALMERS, 1993, p.209-210. “Por mais amplas que sejam nossas teorias, e por mais profundas que sejam
suas investigações na estrutura do mundo, sempre permanece a possibilidade de desenvolvê-las a um nível
mais profundo ou em frentes mais amplas ou mais novas.” CHALMERS, 1993, p.210.
453
CHALMERS, 1993, p.212.
454
CHALMERS, 1993, p.151. Conhecimento, para o individualista, é composto de crenças justificadas. “[O]
individualista que aceita esta forma de compreender o conhecimento em termos de crença não aceitará todas
as crenças como constituindo conhecimento genuíno. [...] Se uma crença deve ser considerada como
conhecimento genuíno, deve ser possível então justificá-la, demonstrando- a como verdadeira, ou como
provavelmente verdadeira, recorrendo-se às provas apropriadas.” CHALMERS, 1993, p.152.
455
“Se o conhecimento for visto da posição individualista não é difícil ver como surge um problema
fundamental. É o chamado regresso infinito dos motivos que, no mínimo, remonta a Platão. Se alguma
afirmação deve ser justificada, isto então será feito recorrendo-se a outras afirmações que constituem as provas
para ela. Mas temos aqui o problema de como justificar as próprias afirmações que constituem as provas. Se as
justificarmos por um recurso adicional a mais afirmações de provas, então o problema se repete e continuará a
repetir-se até que se descubra uma maneira de deter o regresso infinito iminente.” CHALMERS, 1993, p.152.
456
CHALMERS, 1993, p.151-155. Chalmers dá, interessantemente, um exemplo jurídico de como as coisas têm
propriedades independentes de qualquer indivíduo estar cônscio delas: “Um advogado num julgamento de um
170

características das teorias ou programas em vez das crenças dos indivíduos que neles
trabalham.457
O objetivismo tem virtudes explicativas relevantes. Seu relato abrange, e.g., o fato
de teorias científicas possuírem consequências não previstas ou ignoradas pelos seus próprios
autores, como a previsão de algum tipo novo de fenômeno ou um conflito com alguma outra
área ou teoria.458 Ademais, o objetivismo é compatível com a ideia da existência objetiva de
situações problemáticas no interior da ciência, que podem ser ou não percebidas pelo
cientista, mas que são importantes para compreender e explicar os exemplos de descobertas
simultâneas na ciência.459
Uma das propriedades objetivas das teorias é o seu grau de fertilidade. Segundo
Chalmers, dada uma teoria e a prática a ela associada, apresenta-se uma variedade de
oportunidades objetivas para seu desenvolvimento; o grau de fertilidade será aquilo que
descreve a conglomeração de oportunidades presentes. Por ser uma propriedade objetiva, o
grau de fertilidade difere-se da noção lakatosiana de heurística positiva, “que é uma política
de pesquisa adotada de forma mais ou menos consciente por cientistas”.460

assassinato, por exemplo, pode, depois de uma análise cuidadosa, descobrir que o relatório de uma testemunha
contradiz o de uma outra. Se este for realmente o caso, trata-se, então, de qual era a intenção das testemunhas
e se elas estavam ou não cônscias ou se acreditavam nisso. Além do mais, se o advogado do nosso exemplo
não houvesse descoberto a inconsistência, ela poderia não ter sido descoberta de modo que ninguém dela se
aperceberia. No entanto, permaneceria o fato de que o relatório das duas testemunhas era inconsistente. As
proposições podem ter, portanto, propriedades, independentemente de qualquer indivíduo estar cônscio delas.
Elas possuem propriedades ‘objetivas’.” CHALMERS, 1993, p.154-155.
457
“Ao seguir questões relativas ao status de alguma teoria ou programa de pesquisa, o objetivista se concentrará
nas características daquelas teorias ou programas, em vez de ater-se às crenças, sentimentos de convicção ou
outras atitudes dos indivíduos ou grupos que nelas trabalhem. Eles se preocuparão, por exemplo, com a
relação entre a teoria de Newton e a de Galileu, e estarão especialmente interessados em mostrar em que
sentido se pode dizer que a primeira constitui um avanço em relação à segunda. Não se preocuparão com
questões acerca da atitude de Galileu ou de Newton para com suas teorias. Se Galileu acreditava, ou não,
firmemente na verdade de suas teorias, não será de importância fundamental para uma compreensão da física e
seu crescimento, embora importante, é claro, se o objetivo fosse compreender Galileu.” CHALMERS, 1993,
p.157-158.
458
Exemplos: “Poisson foi capaz de descobrir e demonstrar que a teoria ondular da luz de Fresnel tinha como
consequência que deveria haver um ponto brilhante no centro do lado de sombra de um disco iluminado, uma
consequência que o próprio Fresnel havia ignorado. Conflitos vários entre a teoria de Fresnel e a teoria de
partículas newtoniana que ela contestava foram também descobertos. Por exemplo, a primeira previa que a luz
deveria andar mais depressa no ar que na água, ao passo que a segunda previa que a velocidade na água
deveria ser maior”. CHALMERS, 1993, p.155. Tais consequências são sinais ou provas persuasivas de que
teorias científicas possuem “uma estrutura objetiva externa à mente dos cientistas individuais” e “propriedades
que podem ou não ser descobertas ou produzidas e que podem ou não ser compreendidas por cientistas
individuais ou grupos de cientistas.” CHALMERS, 1993, p.155-156.
459
“Há situações problemáticas objetivamente existentes no interior da ciência que dão aos cientistas uma
oportunidade que existe quer eles a percebam, quer não. Isso “ajuda a explicar os exemplos de descobertas
simultâneas na ciência, tal como a ‘descoberta’ simultânea da lei da conservação de energia por vários
trabalhadores independentes na década de 1840”. CHALMERS, 1993, p.157.
460
CHALMERS, 1993, p.161-162.
171

Chalmers descreve quatro possíveis objeções ao conceito de “grau de


461
fertilidade” :
I. O conceito é vago demais para permitir uma medida quantitativa.
II. Quanto mais vago o programa ou teoria, maior o grau de fertilidade, o que é
um problema.
III. Oportunidades de desenvolvimento somente vêm à luz depois que são
aproveitadas, ou seja, explicitar o grau de fertilidade é apenas registrar como o programa se
desenvolveu de fato.
IV. Como o grau de fertilidade só pode ser analisado em retrospecto, o conceito
não ajuda a explicar o desenvolvimento da ciência.
As objeções, por sua vez, são assim respondidas por ele462:
I. Conquanto não possa haver medida quantitativa individual, é possível comparar
qualitativamente os graus de fertilidade de programas rivais, de forma semelhante ao que
ocorre com outros conceitos da filosofia da ciência, como o grau de falseabilismo de Popper.
II. Uma oportunidade não é algo vago463, e o desenvolvimento associado a um alto
grau de fertilidade “não é um desenvolvimento qualquer, mas um desenvolvimento na direção
de predições novas num sentido semelhante ao de Lakatos”.
III. Há oportunidades de desenvolvimento que não foram aproveitadas.464
IV. Ainda assim, o grau de fertilidade é analisado retrospectivamente 465, mas isso
não funciona como objeção porque “o fato de que os cientistas não estão cônscios do grau de

461
CHALMERS, 1993, p.166-167.
462
CHALMERS, 1993, p.167-169.
463
Uma oportunidade “deve ser especificada de forma precisa, em termos das técnicas definidas
experimentalmente, matemática e teoricamente à disposição dos cientistas em algum momento histórico,
juntamente com as teorias e as hipóteses específicas que constituem o núcleo irredutível e o cinturão protetor
daquele momento, e fornecendo a matéria-prima em que se podem aplicar as técnicas mencionadas.”
CHALMERS, 1993, p.167.
464
“A física de Arquimedes deu oportunidades de desenvolvimento que passaram desapercebidas por séculos.
Em sua obra sobre o equilíbrio e centros de gravidade, e sobre hidrostática, ele apresentou técnicas que
poderiam muito bem ter sido levadas para outras áreas e postas para funcionar em outras matérias-primas
existentes. Por exemplo, a técnica para formular os fundamentos de uma teoria numa forma matemática
idealizada, tratanto os sistemas num espaço euclidiano, matemático, uma técnica que ele introduziu na
estática, poderia ter sido levada para a dinâmica, considerando- se alavancas móveis, bem como estacionárias,
e objetos caindo através de um meio, bem como flutuando neles. Foi somente com Galileu que se
aproveitaram tais oportunidades, em cuja época, claro, havia mais matéria-prima para o trabalho que havia
estado disponível para Arquimedes.” CHALMERS, 1993, p.167-168. Outro exemplo interessante,
mencionado por Chalmers com base em Ronchi, diz respeito ao hiato entre a introdução das lentes de óculos
(circa 1280-1285) e o primeiro telescópio (circa 1590), que nada mais era do que a sobreposição de uma lente
à outra. I.e., houve uma oportunidade objetiva não aproveitada durante três séculos.
465
“Admitidamente, ao descrever estas oportunidades objetivas faz-se uso de material da história, da física e da
filosofia que não estava disponível nos períodos históricos sob investigação. As caracterizações adequadas das
172

fertilidade dos programas em que trabalham – e nem precisam estar – constitui sua força”,
corroborando o relato objetivista da mudança de teoria ao invés de enfraquecê-la.
A noção de grau de fertilidade é absolutamente central para o relato objetivista do
desenvolvimento da ciência, construído em torno da física, que assume a seguinte suposição
sociológica: nas sociedades em que se pratica a física, há cientistas com as habilidades, os
recursos e o enfoque mental para desenvolvê-la. A partir dela, argumenta Chalmers, é
possível supor que, havendo uma oportunidade objetiva para o desenvolvimento de um
programa, “mais cedo ou mais tarde algum cientista ou grupo de cientistas dela se
aproveitará.” E, com isso, o programa que oferece mais oportunidades objetivas tenderá a
ultrapassar o programa rival na medida em que as oportunidades forem aproveitadas ou, em
outras palavras, tenderá a expulsar o programa com grau de fertilidade menor.466 Um alto grau
de fertilidade, contudo, não garante o êxito de um programa. Tendo isso em mente, o relato
objetivista precisa levar em conta, ao lado da fertilidade, a extensão em que os programas
levam a previsões novas.467
O relato objetivista não significa negar a importância das ações e habilidades dos
cientistas individuais, mas apenas que o processo de mudança transcende suas escolhas e
intenções conscientes.468 Além disso, não ignora que a suposição sociológica pode não ser
preenchida, como ocorrido na Europa medieval e talvez como ocorre na sociedade
contemporânea469, limitando-se a afirmar que ela foi preenchida nos pouco mais de duzentos
anos de física.470
Para Chalmers, os indivíduos inserem-se numa situação social que possui “certas
características, estejam ou não cônscios disso, e têm à sua disposição uma variedade de
maneiras de mudar a situação, quer gostem ou não”, de tal sorte que qualquer ação tomada
para mudar uma dada situação tem “consequências que dependem do caráter objetivo da
situação e que podem diferir notadamente das intenções do ator”. Isso se reflete no
conhecimento, como exemplifica o relato objetivista do desenvolvimento da ciência, ilustrado
pela história da física, baseado numa compreensão das mudanças teóricas, nem tanto em

oportunidades objetivas e dos graus de fertilidade são possíveis somente em retrospecto.” CHALMERS, 1993,
p.168.
466
CHALMERS, 1993, p.169-170.
467
CHALMERS, 1993, p.170-171.
468
CHALMERS, 1993, p.172.
469
Neste sentido, Chalmers especula que “[é] provável que a maneira como as dotações para pesquisas é
influenciada pelos governos e monopólios industriais na sociedade contemporânea seja tal que não se possam
aproveitar algumas oportunidades objetivas, de modo que o progresso da física esteja ficando controlado cada
vez mais por fatores externos à física.” CHALMERS, 1993, p.172.
470
CHALMERS, 1993, p.172-173.
173

termos do resultado de julgamentos humanos específicos, mas especialmente segundo


propriedades objetivas.471

6.8. TEORIAS COMO ESTRUTURAS, REALISMO NÃO REPRESENTATIVO E A CIÊNCIA DO


DIREITO

Segundo a Filosofia da Ciência de Lakatos, conhecimento científico é o que se


comporta de acordo com a estrutura do programa de pesquisa, marcada por uma heurística
negativa que fixa um núcleo irredutível cujas suposições não podem ser refutadas ou
modificadas por decisão metodológica dos protagonistas do programa; e uma heurística
positiva, que indica como o programa de pesquisa deve ser desenvolvido de modo a explicar
fenômenos previamente conhecidos e prever fenômenos novos por meio de suposições
adicionais ao núcleo irredutível. Com isso, o programa tem a chance de realizar o seu
potencial. O programa precisa possuir um grau de coerência que envolva o mapeamento de
um programa definido para a pesquisa futura e ser capaz de levar à descoberta de fenômenos
novos. Uma boa metodologia será aquela que permite todos os tipos de adições e
modificações do cinturão protetor, desde que: (i) não sejam ad hoc; (ii) possam ser testadas
independentemente (i.e., oferecem a oportunidade de novos testes, logo, de novas
descobertas); (iii) não contrariem o núcleo irredutível do programa no qual se inserem (sob
pena de negar o programa). Na comparação entre programas de pesquisa, o que estiver
progredindo – v.g. com previsões novas confirmadas – deve se sobrepor ao degenerescente.
É difícil imaginar algum cenário em que a dogmática apresenta um programa de
pesquisa com todas as características apontadas, até porque ela não tem como objetivo
explicar fenômenos e prever novos fenômenos nem pode dar ensejo a novos testes e novas
confirmações no sentido usualmente pensado pela epistemologia naturalista. Não parece ser o
caso que a Ciência do Direito possa qualificar-se como ciência nos termos dos programas de
pesquisa. Ainda assim, há algo de comparável, como a possibilidade da existência de grupos
que afirmem um núcleo irredutível e que trabalhem a partir daí. No Direito Tributário
brasileiro, por exemplo, Ávila recentemente atribuiu a muitos dos tributaristas de gerações
anteriores algo que pode ser comparado a isso: o desenvolvimento de estudos tributários a
partir de premissas positivistas e descritivistas472; e James Marins, num exercício de
sociologia da ciência do Direito Tributário brasileiro, aborda a questão da concentração de
“capital científico” e indica que muitos trabalhos de pesquisa de pós-graduação em Direito

471
CHALMERS, 1993, p.212-213.
472
Cf. ÁVILA, 2013; ÁVILA, 2014.
174

Tributário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo adotam a teoria jurídica de Paulo
de Barros Carvalho como premissa ou objeto nuclear, sem nunca problematizá-la.473
Dentro da Ciência do Direito há várias teorias e escolas de pensamento diferentes.
Conquanto a teoria de Lakatos permita a existência de programas de pesquisa
contemporâneos e rivais, a Ciência do Direito se afasta da concepção lakatosiana de ciência
também por contar com desacordos teóricos em maior número sobre questões epistemológicas
gerais e fundamentais. É isso, ao lado da característica normativa do seu objeto, que também
coloca a Ciência do Direito como não científica dentro da epistemologia de Kuhn.
Segundo Kuhn, a ciência é uma estrutura complexa que alterna fases de
normalidade e revolução. Na ciência normal, os cientistas desenvolvem o paradigma
(conjunto de suposições teóricas gerais e de leis e técnicas que determina os padrões para o
trabalho legítimo dentro da ciência) para explicar e acomodar aspectos relevantes do mundo
real. A formação da ciência se dá com a passagem da atividade desorganizada e diversa que a
precede (fase pré-paradigmática) para uma atividade estruturada e dirigida, em que a
comunidade científica atém-se a um único paradigma. Na ciência normal, o cientista não é
crítico do paradigma em que trabalha, concentrando seus esforços apenas em sondar a
natureza com profundidade, ao passo que na pré-ciência há desacordo e constante debate a
respeito dos fundamentos (tanto suposições teóricas fundamentais quanto qual tipo de
fenômeno de observação é relevante ao paradigma), o que torna impossível que o cientista se
dedique a desenvolver trabalhos teóricos e experimentais rigorosos com fito à
correspondência entre o paradigma e a natureza a um grau cada vez mais alto.
Os desacordos teóricos existentes entre os juristas na resolução dos problemas de
que se ocupa a Ciência do Direito474 sugerem que este ramo do saber pode ser identificado
mais facilmente com a chamada fase pré-paradigmática, em que não há uma organização da
comunidade em torno de um único paradigma e prosperam os debates e desacordos sobre
princípios metafísicos e similares, do que propriamente com a ciência normal preconizada por
Kuhn. Isso não quer dizer, porém, que reflexões teóricas ou filosóficas sobre o Direito e sobre
o estudo do Direito não possam se beneficiar de noções adaptadas e de insights oriundos da
Filosofia da Ciência kuhniana, e há mesmo uma literatura relativamente ampla que cuida de
levar esforços adiante como esses. Na teoria do Estado, por exemplo, é comum que os
473
MARINS, 2015, p.145-146.
474
Desacordos estes que formam inclusive uma das premissas das teses de Dworkin em defesa da ideia de
Direito como integridade. Cf. DWORKIN, 1986, p.3-6. No direito brasileiro, apenas para ilustrar, Ávila e
Machado Segundo preocupam-se em defender uma teoria construtivista da interpretação jurídica, que
contrapõem às teorias descritivistas. Cf. ÁVILA, 2013; ÁVILA, 2014; MACHADO SEGUNDO, 2014.
175

distintos tipos de constitucionalismo sejam explicados em termos de diferentes paradigmas


jurídicos: o paradigma liberal, o paradigma social etc.475 Há uma utilidade pedagógica nesse
tipo de abordagem, além de algum poder de explicação, ainda mais por realmente o tipo de
Constituição e o dogma da legalidade (a ideia de que cabe ao jurista aplicar o direito positivo)
levarem a uma certa convergência de comportamento dos estudiosos e demais trabalhadores
jurídicos e instituições. É preciso, contudo, ficar alerta também com os limites e riscos desse
mesmo tipo de abordagem, principalmente o de simplificar a história do constitucionalismo e
dos Estados Modernos, e mesmo de adulterá-la em prol de uma visão evolucionista, como se
as comunidades políticas tivessem dado saltos de um modelo de Estado, de um paradigma a
outro, quase que numa escada ascendente de afirmação de direitos: primeiro os individuais,
depois os sociais, em seguida os de solidariedade etc. Cançado Trindade e Eugenio Zaffaroni
corretamente criticam essa visão evolucionista da história do Estado e dos direitos: o primeiro
coloca em xeque a noção de gerações de direitos humanos, destacando como a história a
desmente (no plano internacional, muitos direitos sociais antecedem muitos direitos
individuais, por exemplo) e como os direitos podem perpassar as diferentes dimensões, como
ilustra o direito à vida (a um só tempo civil, político, econômico-social e cultural)476; o
segundo, destacando como na própria França não houve uma transição evolucionista de um
Estado Absolutista para um Estado Liberal, e dali escada acima, mas avanços e retrocessos,
dentre eles os Estados autoritários imediatamente posteriores à revolução.477
Também na teoria conceitual do direito e na teoria da interpretação jurídica pode-
se ganhar algum insight em tratar de diferentes concepções metódicas como paradigmas.
Neste sentido, poderíamos ter o paradigma positivista inclusivo, o paradigma positivista
exclusivo, o paradigma interpretativista, o paradigma filosófico-hermenêutico, o paradigma
não positivista, o paradigma humanista etc. Poderíamos refletir sobre como os diferentes

475
Cf., e.g., CARVALHO NETTO, 1999; CATTONI; 2002; BONAVIDES, 1996.
476
“[E]ssa tese das gerações de direitos não tem nenhum fundamento jurídico, nem na realidade. Essa teoria é
fragmentadora, atomista e toma os direitos de maneira absolutamente dividida, o que não corresponde à
realidade. Eu conversei com Karel Vasak e perguntei: “Por que você formulou essa tese em 1979?”. Ele
respondeu: “Ah, eu não tinha tempo de preparar uma exposição, então me ocorreu fazer alguma reflexão, e eu
me lembrei da –bandeira francesa” – ele nasceu na velha Tchecoslováquia. Ele mesmo não levou essa tese
muita a sério, mas, como tudo que é palavra “chavão”, pegou. Aí Norberto Bobbio começou a construir
gerações de direitos etc. Quais são as razões de ordem jurídica que me fazem rechaçar essa tese nos meus
livros e nos meus votos? Inclusive, citei aqui no caso dos meninos de rua, é um rechaço à tese de gerações de
direitos, porque creio que o próprio direito fundamental à vida é de primeira, segunda, terceira e de todas as
gerações. É civil, político, econômico-social e cultural. [...] No plano internacional, os direitos que apareceram
primeiro foram os econômicos e os sociais. As primeiras convenções da OIT, anteriores às Nações Unidas,
surgiram nos anos 20 e 30. O direito ao trabalho, o direito às condições de trabalho, é a primeira geração, do
ponto de vista do Direito Internacional.” CANÇADO TRINDADE, 2000.
477
ZAFFARONI, 2007.
176

paradigmas competem entre si, como resolver disputas entre eles, como identificar
paradigmas em florescimento e paradigmas em crise... E é perfeitamente possível que
reflexões assim resultem em alguma compreensão melhor a respeito das teorias jurídicas e
especialmente das respectivas comunidades acadêmicas e profissionais.
Em semelhante direção, a partir de bases habermasianas o jurista Menelick de
Carvalho Netto defende a interpretação constitucional, a reconstituição do sentido de textos,
como uma questão central que requer a noção de paradigma, mais adequada para explicar o
que o Estado Democrático de Direito significa numa ordem constitucional como a nossa.
Baseando-se em Kuhn e na filosofia da linguagem, Carvalho Netto argumenta que nós
compartilhamos tacitamente um pano de fundo de sentidos naturalizados, composto de nossas
pré-compreensões, que viabiliza a nossa comunicação e decorre de uma gramática de práticas
sociais que realizamos irrefletidamente no cotidiano que molda o nosso modo de olhar e
também o que não enxergaremos. Este pano de fundo e este modo de ver, este paradigma,
marca a condição humana. Estamos sempre numa condição paradigmática: podemos até
trocar de paradigmas, mas o paradigma em voga sempre filtra a forma como vemos a
realidade.478 Ao aplicar essa noção à história do constitucionalismo, Carvalho Netto defende a
existência de três grandes paradigmas constitucionais: o Estado de Direito, o Estado Social e o
Estado Democrático de Direito.479 Ao tratar do paradigma do Estado de Direito, v.g.,
Carvalho Netto destaca que ele rompe com o paradigma antigo-medieval e a escravidão e
servidão para afirmar que todos os homens são (formalmente) livres, iguais e proprietários
segundo uma ideia de liberdade como a possibilidade de fazer tudo aquilo que um mínimo de
leis não proíba (uma mudança considerável diante da ideia de liberdade como capacidade de
domar instintos internos), e expõe como o novo paradigma implica mudanças sociais
profundas, como a afirmação da igualdade formal em detrimento das ordens escalonadas e a
propriedade como propriedade de si para venda no mercado de trabalho, bem como
transformações na relação entre Direito e política.480 Parece-me fecundo considerar como esse

478
CARVALHO NETTO, 2002, p.73-74.
479
CARVALHO NETTO, 2002, p.75-80.
480
CARVALHO NETTO, 2002, p.75-76. Sobre o último ponto: “A Constituição como aquisição evolutiva, em
que o autor mostra que, apesar das intenções, aqueles iluministas, aqueles racionalistas que inventaram a
formalidade constitucional, a Constituição rígida e, portanto, a possibilidade de controle de
constitucionalidade, inventaram, precisamente, uma distinção entre o Direito Constitucional e os demais
Direitos, que possibilitou, em termos sistêmicos, o deslocamento da ideia de Direito natural e o fechamento
operacional dos sistemas do Direito e da política. Haveria, a partir de então, a possibilidade do
relacionamento, em termos modernos finais, do Direito e da política, tal como Niklas Luhmann o descreve
enquanto característico da modernidade. Quero dizer, para Luhmann, o Direito é um sistema fechado, é um
sistema autopoiético, que se dá suas próprias razões, e que tem uma lógica interna, um código binário de
177

paradigma, ou qualquer outro paradigma constitucional, ao envolver transformações sociais,


econômicas e culturais profundas, se converte ou não, ou reflete-se ou não em termos de
recomendações metodológicas, princípios metafísicos, suposições teóricas, práticas
padronizadas e técnicas instrumentais (ou noções equivalentes) para o jurista, para pautar o
fazer dogmático, o trabalho jurídico de tradução ou transfiguração de materiais normativos em
normas e de solução de conflitos entre elas, o trabalho de interpretar, dizer e aplicar o Direito.
De sua parte, a concepção científica do realismo não representativo também não
abarca um conhecimento sobre normas como a Ciência do Direito, mas seus pressupostos
permitem paralelos interessantes. Do mesmo modo que o realismo não representativo encara a
ciência como uma empreitada humana, limitada, permanente e de acentuado caráter social,
assim também a dogmática pode e deve ser vista. Ademais, se para o realismo não
representativo as teorias são avaliadas segundo seu êxito em lidar com algum aspecto do
mundo, e não de acordo com o modo como descrevem o mundo como ele é (já que não há
uma realidade objetiva que nos permita acesso imediato e independente de nossas teorias), no
âmbito da Ciência do Direito também é possível comparar teorias não com base na forma
como supostamente descrevem o seu objeto como um dado externo ao sujeito e
imediatamente cognoscível por ele, mas na medida e intensidade com as quais as diferentes
teorias jurídicas atendem as metas que buscam este tipo de conhecimento. Seu objeto é
distinto daquele das ciências de que fala o realismo não representativo, e a dogmática delas se
diferencia também por não almejar um conhecimento de aspectos do mundo físico, mas é
possível racionalmente comparar teorias segundo sua aproximação das metas próprias da
Ciência do Direito, que envolvem algum ponto de equilíbrio de segurança (aderência ao

atribuição de sentido jurídico ou antijurídico, assim como a política também é outro sistema que, por sua vez,
tem seu próprio código binário, mais poder/menos poder, também operando autonomamente em termos
internos, fechada sobre si mesma. A modernidade, como sociedade complexa, exatamente para garantir o seu
pluralismo, precisa de sistemas especializados, o que não quer dizer que, precisamente por serem
diferenciados, eles não se relacionem entre si, eles não se prestem serviços mútuos. A invenção da
Constituição vai possibilitar, para Luhmann, esse mecanismo de acoplamento estrutural entre Direito e
política, um acoplamento que, se formos olhar, por exemplo, na Inglaterra, onde a Constituição formal não
existe, a relação da política com o Direito é bastante problemática pois ali é visível a dependência do Direito
Constitucional da política traduzida no princípio da supremacia do parlamento. Nos demais países que gozam
desse instrumento de acoplamento estrutural, quando a Constituição funciona bem, precisamente o que ela
oculta é a dependência da ordem jurídica da ordem política e vice-versa, porque o Direito moderno é um
Direito que regula comportamentos externos, voltado para o futuro, um Direito de normas abstratas, que só
podem impor comportamentos se tiverem o auxílio da política, ou seja, da sanção estatal organizada. Como,
por outro lado, esse Estado organizado só pode atuar se autorizado pela lei, se legitimado pelo Direito, se
através do Direito. Então, é precisamente mediante esse instrumento, a Constituição formal, que Direito e
política se diferenciam e se acoplam, que Direito e política podem prestar, um ao outro, os seus serviços
recíprocos, sem perder a sua respectiva identidade, na medida em que a Constituição, por intermédio dos
códigos específicos de cada um, os articula.” CARVALHO NETTO, 2002, p.76-77.
178

direito positivo), justiça (aderência a um ideal e rejeição do direito positivo extremamente


injusto) e intersubjetividade (transparência e fundamentação das hipóteses interpretativas).
Por fim, parece ser possível tratar das diferentes teorias e dos avanços do conhecimento
jurídico (entendidos nos termos de uma adequação descritiva e superioridade prescritiva)
considerando a possibilidade de cada teoria oferecer oportunidades objetivas aos juristas
investigadores que podem ou não ser aproveitadas. 481

481
Para ilustrar, uma teoria que entende o Direito como um conjunto de regras que devem ser descritas pelo
cientista do Direito oferece menos oportunidades de investigação do que uma teoria que entende o Direito
como formado por normas de diferentes tipos e graus de abstração, por regras e princípios que são
interpretados de maneiras distintas.
179

7 ANARQUISMO E CIÊNCIA PÓS-MODERNA


7.1. O ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO DE PAUL FEYERABEND

Tida como um dos “mais estimulantes e provocadores” relatos sobre a ciência482,


a visão sobre a ciência de Paul Feyerabend repousa na crítica à própria filosofia da ciência,
especialmente às tentativas racionalistas de estabelecer ou descobrir as regras do método
científico483, através da tese central de que não há um único método capaz de explicar a
história da ciência e como o conhecimento progride e se desenvolve, nem de estabelecer a
superioridade da ciência sobre outras formas de conhecimento; nenhuma das metodologias da
ciência foram bem-sucedidas em fornecer regras adequadas para orientar as atividades dos
cientistas e, dada a complexidade da história, é extremamente implausível que a ciência possa
ser explicada com base em algumas poucas regras metodológicas simples. Como todas as
metodologias possuem suas limitações, a única “regra” capaz de sobreviver é a do “vale
tudo”. Na síntese do próprio autor, a ciência é essencialmente uma empreitada anárquica, e o
“anarquismo teórico” (theoretical anarchism), em comparação com as alternativas compostas
por regras metodológicas, é mais humanitário e tem mais chances de incentivar o progresso
do conhecimento.484 A maneira principal usada por Feyerabend para fundamentar sua posição
é a de demonstrar como as metodologias são incompatíveis com a história da física.485
Para Feyerabend, a ideia de que a ciência possa e deva ser governada por regras
fixas e universais – i.e., o monismo metodológico (crença numa única metodologia e na sua
aptidão de produzir progresso científico)486 – não é realista, pois supõe uma visão muito
simplificada dos talentos do homem e das circunstâncias de seu florescimento; ademais, é
prejudicial à ciência, pois negligencia as complexas circunstâncias que influenciam a
mudança científica e torna a ciência menos adaptável e mais dogmática. 487 Num dos
principais exemplos que emprega, Feyerabend toma a cosmologia heliocêntrica proposta por
Galileu como um exemplo de progresso científico, demonstrando que Galileu não aderiu ao
monismo metodológico, e que isso foi essencial para o seu êxito.488 Em oposição ao monismo,

482
CHALMERS, 1993, p.174.
483
PRESTON, 2016.
484
FEYERABEND, 1993, p.9.
485
FEYERABEND, 1975a, passim; CHALMERS, 1993, p.174-183.
486
LLOYD, 1997, p.397.
487
FEYERABEND, 1975a, p.295-296; CHALMERS, 1993, p.175-176.
488
FEYERABEND, 1993, p.106 ss.
180

Feyerabend entende que os cientistas e suas escolhas e decisões não devem ser restringidos
pelas regras (explícitas ou implícitas) de metodologia.489
A oposição ao monismo é correta e conta também com a adesão de Jean Bricmont
e de Alan Sokal (sobre a qual tratarei um pouco mais a seguir neste mesmo tópico), e do
próprio Alan Chalmers, para quem, dada a complexidade das situações dentro da ciência e a
impossibilidade de previsão de seu desenvolvimento, não é razoável esperar que a definição
de qual teoria é a melhor, em qualquer situação, possa ser definida por uma só metodologia ou
regra determinada, como “adote aquela teoria que recebe o máximo de apoio indutivo dos
fatos aceitos” ou “rejeite as teorias que são incompatíveis com os fatos geralmente aceitos”.490
Um ponto importante da análise da ciência de Feyerabend diz respeito ao seu
ponto de vista sobre a incomensurabilidade, i.e., quando teorias rivais são tão distintas em
seus conceitos e princípios fundamentais que não é possível compará-las logicamente, não é
possível deduzir logicamente consequências de uma e de outra para propósitos de
comparação. É o que ocorre entre a mecânica clássica e a teoria da relatividade, como também
entre a mecânica quântica e a mecânica clássica, entre a teoria do ímpeto e a mecânica
newtoniana e entre o dualismo mente-corpo e o materialismo.491
Embora não possam ser comparadas logicamente, as teorias acabam sendo
comparadas de outras formas, o que enseja um outro tipo de problema: Quais os critérios de
comparação que devem prevalecer num conflito entre critérios? Para Feyerabend, a escolha
entre critérios que não envolvam conteúdo. Com isso, a própria escolha entre teorias
incomensuráveis acaba sendo não um procedimento racional e objetivo, mas um aspecto
subjetivo da ciência (onde preferências e desejos subjetivos, julgamentos de gosto,
julgamentos estéticos, preconceitos metafísicos, desejos religiosos e mesmo propaganda
podem ser relevantes).492
Chalmers aceita o ponto de vista de Feyerabend de que algumas teorias rivais são
incomensuráveis entre si, mas questiona as consequências subjetivistas atribuídas por ele.
Embora a opção do cientista por trabalhar numa e não em outra teoria envolva elementos
subjetivos, mencionados por Feyerabend, e fatores “externos” como perspectivas de carreira e
disponibilidade de fundos, os julgamentos e desejos individuais não são imunes a argumentos
racionais, a críticas às preferências individuais como inconsistentes ou como conducentes a

489
FEYERABEND, 1975a, p.196; CHALMERS, 1993, p.177.
490
CHALMERS, 1993, p.175.
491
FEYERABEND, 1975a, p.196; CHALMERS, 1993, p.177.
492
FEYERABEND, 1975a, p.285; FEYERABEND, 1977, p.366; CHALMERS, 1993, p.179.
181

consequências que o próprio indivíduo não aprovaria. Afinal, diz Chalmers, um indivíduo que
não se importa “se suas preferências forem seriamente inconsistentes” e que “não tem uma
resposta às objeções comuns às inconsistências” não deve ter seus pontos de vista levados a
sério. Em conclusão, conquanto as preferências não sejam determinadas apenas pela
argumentação racional, julgamentos e desejos subjetivos “não são sacrossantos nem
simplesmente dados”; estão abertos “à crítica e à mudança pelos argumentos.”493 Chalmers
também defende seu relato objetivista de mudança de teoria como compatível com o exposto,
uma vez que supõe que cientistas e grupos de cientistas diferentes podem fazer escolhas
distintas em resposta a uma mesma situação, mas a mudança de teoria continua não
dependendo das preferências individuais que orientam estas escolhas.494
Paul Feyerabend critica a posição que assume a superioridade da ciência sem
argumento e sem investigar adequadamente as outras formas de conhecimento. Neste sentido,
assevera que Lakatos, e.g., promove uma reconstrução racional da ciência moderna que não
demonstra que ela seja melhor do que a magia ou a ciência aristotélica495; e que os
racionalistas críticos examinaram a ciência detalhadamente, mas não tiveram o mesmo
cuidado com o marxismo, a astrologia e outras “heresias tradicionais”.496
Chalmers concorda com o ponto central de que é preciso investigar
adequadamente as outras formas de conhecimento para se tirar conclusões sobre elas, e
destaca o papel prejudicial que a “falsa suposição de que há um método científico universal a
que devem se conformar todas as formas de conhecimento” exerce na sociedade,
particularmente quando esse método se confunde com algum empirismo ou indutivismo
grosseiro e é aplicado à teoria social. Neste ponto, discorda mais frontalmente de Feyerabend
por entender que ele deveria ter se dedicado a problemas sociais relevantes relacionados à
questão, em vez de contrastar a ciência com o vodu, com a astrologia e “coisas semelhantes”,
cujos status não se configuram como problema relevante para a “nossa sociedade, aqui e
agora”.497 Chalmers também salienta não estar convencido “de que um estudo detalhado como
vodu ou astrologia revelaria que eles possuem objetivos bem definidos e métodos de alcançá-

493
CHALMERS, 1993, p. 179-180.
494
CHALMERS, 1993, p. 181.
495
FEYERABEND, 1981, p.211.
496
“The attitude towards Marxism, or astrology, or other traditional heresies is very different. Here the most
superficial examination and the most shoddy arguments are deemed sufficient.” FEYERABEND, 2009 [1976],
p.315, nr.9. Neste ponto, Feyerabend não endossa o ponto de vista de o marxismo ser comparável à astrologia,
mas alude a epistemólogos como Karl Popper, que consideram o marxismo ou uma pseudociência, ou, no
mínimo, uma teoria não científica.
497
CHALMERS, 1993, p. 182-184.
182

los”, reconhecendo, porém, que, como não fez a análise, isto seja “mais ou menos um
preconceito.”498
Feyerabend concentra-se em negar o monismo metodológico e a assumida
superioridade da ciência frente a outras formas de conhecimento, o que fez com que Chalmers
caracterizasse sua tese como sendo, em grande parte, negativa.499 Mas há um conteúdo
positivo500, evidenciado na segunda parte do argumento principal de Feyerabend: a de que o
“anarquismo teórico” (theoretical anarchism), em comparação com as alternativas compostas
por regras metodológicas, é mais humanitário.501
Porém, “mais humanitário” em que sentido? Neste ponto, Feyerabend busca
defender um ideal de liberdade semelhante ao do ensaio “On Liberty”, de John Stuart Mill,
afirmando, ao tratar do tema da educação e da educação científica, que o que produz ou pode
produzir seres humanos desenvolvidos é o cultivo da individualidade, e que a tentativa de
expandir a liberdade, viver uma vida plena e recompensadora, bem como a tentativa
correspondente de descobrir os segredos da natureza e do homem “acarretam a rejeição de
todos os padrões universais e de todas as tradições rígidas”, o que inclui “a rejeição de grande
parte da ciência contemporânea”502, e também a rejeição da forma geral pela qual a ciência foi
institucionalizada nas sociedades ocidentais modernas. Sobre este último ponto, Feyerabend
critica o fato de o estadunidense poder escolher a religião que quiser, mas não que seus filhos
aprendam magia em vez de ciência nas escolas. Ele defende que o Estado assuma uma
posição ideologicamente neutra com a função de “orquestrar a luta entre as ideologias para
assegurar que os indivíduos mantenham sua liberdade de escolha”.503
A posição correta não é correta, seja pelo relativismo cognitivo radical que ela
pressupõe, seja porque há local adequado para as diferentes ações e aprendizados humanos.504

498
CHALMERS, 1993, p. 184.
499
CHALMERS, 1993, p. 184.
500
CHALMERS, 1993, p. 184.
501
FEYERABEND, 1993, p.9.
502
FEYERABEND, 1993, p.12.
503
Cf. FEYERABEND, 1975b (“… while an American can now choose the religion he likes, he is still not
permitted to demand that his children learn magic rather than science at school. There is a separation between
state and church, there is no separation between state and science.”); FEYERABEND, 1993, p.viiii (“In a
democracy scientific institutions, research programmes, and suggestions must therefore be subjected to public
control, there must be a separation of state and science just as there is a separation between state and religious
institutions, and science should be taught as one view among many and not as the one and only road to truth
and reality. There is nothing in the nature of science that excludes such institutional arrangements or shows
that they are liable to lead to disaster.”); CHALMERS, 1993, p. 185.
504
Para uma crítica deste ponto do pensamento de Feyerabend, ver: MUSGRAVE, 1999, p.253 ss.
183

A noção de liberdade assumida por Feyerabend – liberdade de todas as restrições,


como liberdade de seguir inclinações individuais e de fazer o que quiser – é criticada por
Chalmers a partir de três pontos principais505 (ou assim os depreendi de seu texto):
I. A noção de liberdade, como “liberdade do indivíduo de todas as restrições”,
negligencia as possibilidades, no interior da estrutura social, a que os indivíduos têm acesso.
A liberdade de expressão, por exemplo, deve ser analisada como liberdade de censura, mas
também implica saber a que extensão os diferentes indivíduos têm acesso aos meios de
comunicação.
II. Como todo indivíduo nasce numa sociedade que já existia antes dele e tem sua
liberdade associada à posição que nela ocupa, a análise dessa estrutura social se impõe como
pré-requisito para a compreensão da liberdade individual. O tema, porém, não recebe a devida
atenção de Feyerabend.
III. A afirmação de que todos devem seguir suas inclinações individuais conduz
mais provavelmente “a uma situação em que aqueles que já têm o acesso ao poder o
retenham”, fazendo com que o “vale tudo” se transforme em um “tudo permanece como está”.
Noam Chomsky defende que razão e investigação racional existem e são
ferramentas poderosas que o discurso pós-moderno pretende rejeitar, reduzindo com isso as
chances de emancipação, especialmente, dos mais pobres e oprimidos.506 Se o “vale tudo” for
conducente a algum tipo de menosprezo em relação ao poder da razão e da ciência enquanto
ferramentas de compreensão e domínio do mundo, seguirá o mesmo caminho antitético à
liberdade.
Sokal e Bricmont avaliam Feyerabend como um “personagem complicado”,
responsável por atitudes pessoais e políticas merecedoras de simpatia, mas também de críticas
procedentes às tentativas de codificação da prática científica, e também por afirmações
ambíguas ou confusas que desembocam em araques virulentos contra a ciência moderna,
ainda que, na visão dos citados analistas, Feyerabend nunca tenha se convertido “total e
abertamente” em um irracionalista.507 Soma-se a isso a possibilidade genuína de dúvida sobre
quando Feyerabend está falando sério, dúvida esta justificada por passagens508 em que ele,
v.g., afirma aceitar a alcunha de anarquista que seu amigo Imre Lakatos atrelou a ele em tom
505
CHALMERS, 1993, p. 185-187.
506
CHOMSKY, 2014[1992]. No mesmo sentido: SOKAL; BRICMONT, 1999, p.222.
507
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.88-89. Sobre o último ponto, Sokal e Bricmont destacam uma passagem em
que Feyerabend critica os místicos charlatães, os profetas da New Age e os relativistas de todo o tipo por
festejarem a mecânica quântica como suposto ponto de mudança ao mesmo tempo em que desprezam as
previsões e a tecnologia. SOKAL; BRICMONT, 1999, p.88, nr.48.
508
Cf. SOKAL; BRICMONT, 1999, p.89.
184

de piada509, ou quando insiste que suas ideias são triviais e que prefere formulá-las em termos
absurdos. Salienta que as demonstrações e a retórica que emprega não expressam nenhuma
“convicção profunda”.510
Ainda segundo Sokal e Bricmont511, ao considerar o método científico em
abstrato, Feyerabend está correto em se opor à ideia de que a ciência possa ou deva organizar-
se em torno de regras fixas e universais. Essa ideia é tida por ele como “utópica” e
“perniciosa”.512 De fato, argumentam Sokal e Bricmont, é dificílimo, se não for impossível,
codificar o método científico. Isso, porém, não quer dizer que não possam ser desenvolvidas
certas regras, de validade mais ou menos geral, a partir da experiência prévia, e é aí que reside
o erro maior de Feyerabend: da premissa correta de que não há regras fixas e universais, ele
apresenta a conclusão incorreta de que, como todas as metodologias têm limites, a única regra
válida é a do “vale tudo”.513 Esta inferência errônea, na análise acertada de Sokal e Bricmont,
é típica do relativismo, que comumente parte de uma observação correta (“todas as
metodologias têm seus limites”) para alcançar uma conclusão completamente falsa (“vale
tudo”). Na analogia dos autores, não é porque há vários estilos de natação, de investigação
policial ou de ciência, cada qual com suas limitações, que todos sejam igualmente válidos ou
confiáveis.514
Como já dito anteriormente, é comum, na filosofia da ciência, a diferenciação
entre “contexto de descoberta” e “contexto de justificação” das teorias: o primeiro, referindo-
se aos processos mentais de geração de uma nova ideia ou hipótese (e que podem ser
intuitivos, irracionais); o segundo, referindo-se ao teste, à verificação, essencialmente, à
defesa da correção da ideia (campo da racionalidade e da normatividade da filosofia da
ciência).515 Considerando essa dualidade, conjecturam Sokal e Bricmont516, poder-se-ia alegar
que as ilustrações extremadas de interferência de fatores não racionais na ciência a que se
refere Feyerabend ao longo do seu trabalho, relacionam-se, na verdade, ao contexto de
descoberta, lugar onde todos os métodos podem se manifestar, da dedução e da indução à

509
“lmre Lakatos, somewhat jokingly, called me an anarchist and I had no objection to putting on the anarchist's
mask.” FEYERABEND, 1993, p.vii.
510
“Always remember that the demonstrations and the rhetorics used do not express any 'deep convictions' of
mine. They merely show how easy it is to lead people by the nose in a rational way. An anarchist is like an
undercover agent who plays the game of Reason in order to undercut the authority of Reason (Truth, Honesty,
Justice, and so on).” FEYERABEND, 1993, p.23.
511
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.89-90.
512
FEYERABEND, 1993, p.295.
513
FEYERABEND, 1993, p.296.
514
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.90.
515
SCHICKORE, 2014.
516
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.91-92.
185

intuição e até mesmo ao sonho, já que o único critério verdadeiramente importante seria o
pragmático, cabendo, assim, ao contexto de justificação ser palco da racionalidade. No
entanto, e como também registram Sokal e Bricmont, o próprio Feyerabend nega
explicitamente a validade da distinção entre descobrimento e justificação.517
Ao defender-se, Feyerabend argumentou que é o “anarquista ingênuo” quem parte
da ideia de que as regras dependem do contexto e possuem limites, para inferir que todas as
regras e critérios carecem de valor, e devem ser abandonados. Ele sustentaria apenas que as
regras têm limites e que não há uma racionalidade global, e não que regras e critérios devam
ser abandonados.518 O problema, porém, é que Feyerabend não oferece nenhuma indicação
abrangente do conteúdo de regras e critérios que, sem se afiançarem em alguma noção de
racionalidade, permitem que se chegue facilmente ao relativismo extremo.519 Coerente com o
apelo relativista, Feyerabend compara constantemente a ciência com a mitologia e com a
religião520, o que é esperado de quem fez o salto para o “tudo vale”.521
Assim como ocorre com Kuhn, Sokal e Bricmont acertadamente aplicam a
Feyerabend o argumento da autorrefutação ao acentuar que “seu relativismo metodológico é
tão radical que, tomado literalmente, se autorrefuta”. De fato, sem um mínimo de método,
Feyerabend sequer poderia ser capaz de elaborar muitos dos seus argumentos contra a
ciência.522

7.2. A CIÊNCIA PÓS-MODERNA SEGUNDO SANTOS: UMA SÍNTESE

O professor Boaventura de Sousa Santos proferiu uma Oração de Sapiência como


abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra no ano letivo de 1985/1986, cujo
conteúdo foi ampliado e publicado pela editora Afrontamento em 1987, sob o título “Um
discurso sobre as Ciências”. O pequeno livro foi ainda publicado no Brasil e nos Estados
Unidos523, tendo tido grande êxito e aceitação no meio acadêmico universitário e secundarista,
como registra o próprio autor no prefácio à edição brasileira.524 Minha experiência pessoal

517
FEYERABEND, 1993, p.147-149. “The results obtained so for suggest abolishing the distinction between a
context of discovery and a context of justification, norms and facts, observational terms and theoretical terms.
None of these distinctions plays a role in scientific practice. Attempts to enforce them would have disastrous
consequences. Popper's 'critical ' rationalism fails for the same reasons.” FEYERABEND, 1993, p.147.
518
FEYERABEND, 1993, p.231.
519
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.91.
520
Cf., v.g., FEYERABEND, 1993, p.15, 21, 33 n.1, 33 ss., 52, 160-161, 215 ss., 249.
521
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.92-93.
522
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.93-94.
523
Cf. SANTOS, 1992, p.9-47.
524
Cf. SANTOS, 2008, p.8.
186

segue a mesma direção da assertiva de Santos quanto ao impacto de sua pequena obra.
Enquanto aluno da pós-graduação em Direito (Mestrado e Doutorado), tive o texto como
indicação de leitura em duas ocasiões: nas aulas de Metodologia da Pesquisa Jurídica da
professora Miracy Gustin (no primeiro semestre de 2009), e de Hermenêutica Jurídica da
professora Maria Helena Megale (no primeiro semestre de 2014).
Na obra, Santos avança três pontos principais: (i) uma caracterização do
paradigma dominante da ciência moderna; (ii) a alegação de que vivemos em um período de
crise do paradigma atual e transição para um novo paradigma e (iii) uma apresentação
especulativa (segundo ele, uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica) do
paradigma emergente.
Segundo Santos, o “paradigma dominante” constitui-se e se desenvolve ao longo
dos séculos XVI e XIX no âmbito das ciências naturais. No século XIX, estende-se às
“ciências sociais emergentes”. Sua característica fundamental é negar a racionalidade de
outras formas de conhecimento, como o conhecimento do senso comum e das humanidades.
Além disso, o paradigma se opõe a todas as formas de dogmatismo e autoridade; afirma os
dualismos “ciência / senso comum” e “homem / natureza”; assume a matemática como
basilar, o que implica ideias de que conhecer é quantificar (exclusão de aspectos qualitativos),
dividir e classificar (uso do método científico para reduzir complexidades); busca leis que
expliquem o “como” do funcionamento das coisas (em detrimento do “quem” e do “para
que”); ao basear-se na formulação de leis, adota como “pressuposto metateórico” o
“determinismo mecanicista”, a ideia de um mundo estável, ordenado e fora da história.525
Este “determinismo mecanicista” é colocado como aspecto ideológico do
paradigma dominante, como visão de mundo que funcionou como um dos pilares da ideia de
progresso e como “horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia”. Nas
ciências sociais, deu-se através dos percursores na busca pelas leis da sociedade – Francis
Bacon, Giambattista Vico e Montesquieu – e de marcos teóricos como o estado positivo de
Comte, a sociedade industrial de Spencer e a solidariedade orgânica de Durkheim.526
A adoção do “modelo mecanicista” pelas ciências sociais deu-se em duas
vertentes: (i) como aplicação do mesmo modelo teórico das ciências naturais às sociais; e (ii)
com o desenvolvimento de um modelo próprio, distinto das ciências naturais. A primeira
vertente assume as ciências naturais como modelo universalmente válido, adota a ideia central

525
Cf. SANTOS, 2008, p.20 ss.
526
Cf. SANTOS, 2008, p.30-33.
187

do atraso (superável) das ciências sociais em relação às ciências naturais e entende que
existem diferenças entre fenômenos naturais e sociais, que atuam contra as últimas, pois
tornam o cumprimento do método mais difícil e o conhecimento a que se chega menos
rigoroso. A segunda vertente parte da visão de que a ação humana é radicalmente subjetiva e,
por isso, não pode ser descrita / explicada a partir de características externas, objetiváveis,
fazendo com que as ciências sociais, enquanto ciências subjetivas, adotem métodos
qualitativos. As duas vertentes pertencem ao paradigma da ciência moderna e suas
características, como a distinção entre homem e natureza e a prioridade cognitiva das ciências
naturais.527
Mas este é um paradigma em crise. Segundo Santos, o próprio aprofundamento do
conhecimento propiciado pela ciência “permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se
funda”. Os cientistas “chegámos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase
desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com [...] o conhecimento de nós
próprios”.528
Santos cita quatro condições teóricas da crise do paradigma moderno529:
I. Relatividade da simultaneidade de Einstein: inexistindo “simultaneidade
universal, o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir”.
II. Mecânica quântica: introduziu a consciência no ato do conhecimento e,
fundamentalmente, colocou em xeque o rigor da medição e a distinção (forte) entre sujeito e
objeto.
III. Teoremas de Gödel: abalam o rigor da medição ao questionar o rigor da
matemática (veículo formal da medição e base do rigor das leis da natureza), ao mostrar que é
possível formular “proposições que não se podem demonstrar nem refutar, sendo que uma
dessas proposições é precisamente a que postula o carácter não contraditório do sistema”.
IV. Avanços da microfísica, da química e da biologia em geral; teoria das
estruturas dissipativas e o princípio da “ordem através de flutuações” de Prigogine: “nova
concepção da matéria e da natureza” que transcende a física clássica.
O sociólogo português sintetiza as mudanças teóricas que relata nos seguintes
termos:

Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em


vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em

527
Cf. SANTOS, 2008, p.33-40.
528
Cf. SANTOS, 2008, p.40 ss.
529
Cf. SANTOS, 2008, p.41-47.
188

vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a


desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente. 530

Ao lado das condições teóricas, menciona a existência de um movimento


científico convergente, de vocação transdisciplinar, também chamado de “paradigma da auto-
organização”, aflorado pelas seguintes inovações: a teoria de Prigogine, a sinergética de
Haken, o conceito de hiperciclo e teoria da origem da vida de Eigen, o conceito de autopoiesis
do Maturana e Varela, a teoria das catástrofes de Thom, a teoria da evolução de Jantsch, a
teoria da “ordem implicada” de David Bohm e finalmente, a teoria da matriz-S de Geoffrey
Chew e a filosofia do “bootstrap”.531
Santos associa a crise a limites qualitativos do conhecimento científico – limites
que não podem ser superados por “maiores quantidades de investigação ou maior precisão dos
instrumentos” –, bem como a limites quanto à sua precisão quantitativa. Sobre o último ponto,
salienta que o teorema de Brillouin permite concluir que “a experiência rigorosa é irrealizável,
pois que exigiria um dispêndio infinito de atividades humanas”, e que a mesma via da
“parcelização do objeto” que fez avançar o conhecimento científico “confirma a
irredutibilidade das totalidades orgânicas ou inorgânicas às partes que as constituem”, logo, o
“caráter distorcivo” do conhecimento centrado na observação das partes.532
Dentre as condições sociais da crise, destaca que o que a ciência ganhou em rigor,
perdeu em capacidade de autorregulação diante do fenômeno da industrialização da ciência,
compromisso com os centros de poder econômico, social e político, cujas consequências, no
âmbito da aplicação, são os perigos de uma catástrofe ecológica e de um holocausto nuclear;
e, no âmbito da organização do trabalho científico, a estratificação e proletarização da
comunidade científica e o aumento da desigualdade entre os países centrais e periféricos em
virtude da investigação capital-intensiva. Entre as facetas sociológicas da crise, menciona
reflexões feitas por cientistas, nunca antes tão interessados em problematizar suas práticas,
sobre questões a respeito das condições sociais de produção da ciência, que antes eram
tratadas por sociólogos.533
A crise é pautada por críticas às leis da natureza, ao conceito de causalidade e à
relação sujeito-objeto:

530
Cf. SANTOS, 2008, p.48.
531
Cf. SANTOS, 2008, p.48-49.
532
Cf. SANTOS, 2008, p.55.
533
Cf. SANTOS, 2008, p. 56-57 e 50.
189

Quadro 19 - Críticas de Santos às leis, à causalidade e à distinção sujeito-objeto


CRÍTICA ÀS LEIS DA NATUREZA
● A ideia de que os fenômenos dependem somente de um conjunto razoavelmente pequeno de condições
iniciais obriga a separações grosseiras
● As separações são sempre provisórias e precárias, já que a verificação da não interferência de outros
fatores é produto de um conhecimento imperfeito
● Na verdade, as leis têm somente “um carácter probabilístico, aproximativo e provisório, bem expresso
no princípio da falsificabilidade de Popper.”
CRÍTICA AO CONCEITO DE CAUSALIDADE
● O conceito adequa-se a uma ciência que visa intervir no real e que mede o seu êxito pelo âmbito dessa
intervenção
● Problema ontológico: O nexo causal existe? Quais as suas características?
● Problema metodológico: Quais os critérios da causalidade? Como reconhecer um nexo causal ou testar
uma hipótese causal?
● O conceito ocupa um lugar central na ciência moderna “menos por razões ontológicas ou
metodológicas do que por razões pragmáticas”.
CRÍTICA À RELAÇÃO SUJEITO / OBJETO
● O conhecimento científico dominante transforma a natureza num autômato ou num interlocutor
terrivelmente estúpido, o que prejudica o próprio cientista ao reduzir seu diálogo experimental
● A ciência, ao quantificar os fenômenos, os desqualifica; ao objetivá-los, os objetualiza e os degrada;
ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza; ao afirmar a personalidade do cientista, destrói a
personalidade da natureza.
FONTE: Elaboração própria a partir de SANTOS, 2008, p.51 a 54. O que está entre aspas refere-se a citações
ipsis litteris do texto do autor em questão.

Santos apresenta um conjunto de teses que conformariam o “paradigma


emergente”, por ele também chamado de “paradigma de um conhecimento prudente para uma
vida decente”. Ao assim proceder, assumidamente adota uma “via especulativa” que, segundo
ele, é a única possível para abordar a “configuração do paradigma que se anuncia no
horizonte”. Em suas palavras, o paradigma emergente que identifica decorre de uma
especulação “fundada nos sinais que a crise do paradigma atual emite” e é também “produto
de uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica”.534
O paradigma emergente gira em torno de três máximas:
I. “Todo conhecimento científico-natural é científico-social.”535 No paradigma
emergente, a distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais passa a ser

534
Cf. SANTOS, 2008, p.61-73.
535
Cf. SANTOS, 2008, p.73-79.
190

superada. Os avanços da física e da biologia põem em causa as distinções orgânico /


inorgânico, seres vivos / matéria inerte e humano / não humano, e diferentes teorias teriam
introduzido na matéria “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de
autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Neste processo, as ciências
sociais e as humanidades assumem protagonismo. Segundo ele, há uma “emergente
inteligibilidade da natureza” presidida “por conceitos, teorias, metáforas e analogias das
ciências sociais”, e é notável a facilidade com que as teorias físico-naturais, uma vez
formuladas no seu domínio específico, se aplicam ou aspiram a aplicar-se no domínio social.
Além disso, a ciência pós-moderna abraça a concepção humanística das ciências sociais,
segundo a qual a ação humana é radicalmente subjetiva, necessitando, assim, de um método
próprio (qualitativo); e o faz por essa concepção exibir maior resistência à separação sujeito /
objeto, preferir a compreensão do mundo à sua transformação, e colocar a pessoa como centro
do conhecimento (e, no paradigma emergente, também a natureza no centro da pessoa). A
ciência pós-moderna, a partir das humanidades, se constituirá a partir de analogias
humanísticas como “categorias de inteligibilidade universais”, em que cada uma “desvela
uma ponta do mundo”; e terá como “categorias matriciais” a analogia textual (filológica), a
analogia lúdica, a analogia dramática e a analogia biográfica. Feita a transição, o mundo será
natural e social ao mesmo tempo e será visto como um texto, como um jogo, como um palco
ou ainda como uma autobiografia.
II. “Todo conhecimento é local e total.” 536 A ciência moderna é um
conhecimento parcial, i.e., que avança por especialização e é mais rigoroso quanto mais
restrito é o objeto e quanto mais arbitrariamente espartilha o real; e também disciplinar, que
“segrega uma organização do saber orientada para policiar as fronteiras entre as disciplinas e
reprimir os que as quiserem transpor”. Do caráter parcial e disciplinar decorrem males de
todos os tipos, impassíveis de solução no âmbito do paradigma da ciência moderna. A ciência
pós-moderna, ao revés, será local, i.e., se constituirá a partir de temas importantes para os
grupos sociais e seus projetos de vida; e será total, elegendo como horizonte “a totalidade
universal de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm”. Sendo total, será
também local, pois assume-se como analógica e como tradutora, incentivando o uso de
conceitos e teorias fora do seu contexto de origem. A ciência pós-moderna contará com
conhecimento “relativamente imetódico”, “pluralidade metodológica”, “fusão de estilos”,
“interpenetrações entre cânones de escrita”, “uso de vários estilos segundo o critério e a

536
Cf. SANTOS, 2008, p.80-87.
191

imaginação pessoal” e “constelação de métodos” para “captar o silêncio que persiste entre
cada língua que pergunta”.
III. “Todo conhecimento é autoconhecimento.”537 Para Santos, a distinção entre
sujeito e objeto nunca foi pacífica nas ciências sociais, tendo sido questionada também nas
ciências naturais. Nestas, em suma, o sujeito teria regressado “na veste do objeto”. Sinais
disso são: a mecânica quântica, ao mostrar que o ato do conhecimento e o produto do mesmo
são inseparáveis; os avanços da microfísica, da astrofísica e da biologia; a verificação de que
a tecnologia nos separou da natureza ao invés de nos integrar a ela, e que a exploração da
natureza, tendo sido veículo da exploração do homem, consolidou uma “nova dignidade da
natureza”. Segundo ele, a validade da ciência decorre de um juízo de valor e, sendo assim,
não há nenhuma razão científica para considerar a ciência melhor do que explicações
alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. A ciência, natural
ou social, é necessariamente subjetiva e autobiográfica: “o objeto é a continuação do sujeito
por outros meios”, e a subjetividade do cientista (seus pressupostos metafísicos, sistemas de
crenças, juízos de valor) é parte integrante de sua explicação da natureza ou da sociedade. “A
ciência não descobre, cria”. Diferentemente da ciência moderna, a ciência pós-moderna
assume-se como autobiográfica e autorreferenciável. Ademais, preocupa-se menos com
sobreviver, e mais com “saber viver”; busca ser “uma outra forma de conhecimento, um
conhecimento compreensivo e íntimo” que nos une pessoalmente ao que estudamos; vê a
incerteza como “chave do entendimento”; entende que, mais do que controlado, o mundo
deve ser contemplado; avalia o conhecimento menos pelo que ele controla e mais pela
satisfação pessoal que ele gera em quem lhe acede e partilha; aproxima-se das criações
artísticas, porque subordina a transformação do real à contemplação do resultado.
Santos considera que o paradigma emergente é ao mesmo tempo científico
(conhecimento prudente) e social (vida decente), e que isso resulta do fato de que a revolução
científica que daria azo ao novo paradigma seria uma revolução numa sociedade já
transformada pela revolução científica do século XVI.538
Ao final de seu discurso, afirma o que se segue539:

Tal como Descartes, no limiar da ciência moderna, exerceu a dúvida em vez de a


sofrer, nós, no limiar da ciência pós-moderna, devemos exercer a insegurança em
vez de a sofrer.

537
Cf. SANTOS, 2008, p.88-91.
538
Cf. SANTOS, 2008, p.60.
539
Cf. SANTOS, 2008, p.91-92.
192

Na fase de transição e de revolução cientifica, esta insegurança resulta ainda do


facto de a nossa reflexão epistemológica ser muito mais avançada e sofisticada que a
nossa prática científica.

Nenhum de nós pode neste momento visualizar projectos concretos de investigação


que correspondam inteiramente ao paradigma emergente que aqui delineei. E isso é
assim precisamente por estarmos numa fase de transição. Duvidamos
suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos
demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Estamos divididos,
fragmentados. Sabemo-nos a caminho mas não exactamente onde estamos na
jornada. A condição epistemológica da ciência repercute-se na condição existencial
dos cientistas. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhecimento, também todo o
desconhecimento é autodesconhecimento.

7.3. CRÍTICA DO PÓS-MODERNISMO E DA CIÊNCIA PÓS-MODERNA


"Se todo discurso não é mais que um “relato” ou uma “narrativa” e se ninguém é
mais objetivo ou mais verdadeiro que o outro, então não há outro remédio a não ser
admitir que as teorias socioeconômicas mais reacionárias e os piores preconceitos
racistas e sexistas são “igualmente válidos”, ao menos como descrições ou análises
do mundo real (supondo que se admita sua existência). Obviamente, o relativismo é
um fundamento extremamente fraco para erigir uma crítica da ordem social
estabelecida.”

– Alan Sokal e Jean Bricmont, “Imposturas Intelectuais” 540

Para compreender e criticar o pós-modernismo, é preciso primeiro considerar em


minudência uma de suas mais frequentes bases, o relativismo, especialmente o relativismo
cognitivo.
O relativismo é entendido como “toda filosofia que pretende que a verdade ou
falsidade de uma afirmação seja relativa a um indivíduo ou a um grupo social”. A partir daí,
podem ser distinguidos três tipos de relativismo conforme a natureza do enunciado em
questão: o relativismo cognitivo ou epistêmico, quando se trata de uma afirmação de fato (i.e.,
do que existe ou se dá por existente); o relativismo ético ou moral, quando se trata de um
juízo de valor (do bom e do mau, do desejável e do censurável); e o relativismo estético,
quando se trata de um juízo artístico (do que é belo ou feio, agradável ou desagradável).541

540
“Si todo discurso no es más que un «relato» o una «narración» y si ninguno es más objetivo o más verdadero
que otro, entonces no queda otro remedio que admitir las teorías socioeconómicas más reaccionarias y los
peores prejuicios racistas y sexistas como «igualmente válidos», al menos como descripciones o análisis del
mundo real (suponiendo que se admita la existencia de éste). Obviamente, el relativismo es un fundamento
extremadamente débil para erigir una crítica del orden social establecido.” SOKAL; BRICMONT, 1999,
p.226.
541
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.64-65. No capítulo 6, já havíamos tratado de um exemplo de relativismo
cognitivo colocado por Chalmers, o “relativismo extremado”. Recapitulando, o relativismo extremado é
entendido, em resumo, como a posição que defende haver padrões (caracterizações de progresso, critérios para
julgar méritos de teorias...) que variam de indivíduo para indivíduo e de comunidade para comunidade, de tal
sorte que as decisões e escolhas feitas por cientistas são governadas exatamente pelo que os indivíduos ou
grupos atribuem valor. Quanto à ciência, o relativista extremado defende que não existe uma categoria única
de ciência intrinsecamente superior a outras formas de conhecimento, e que a compreensão da superioridade
da ciência numa determinada sociedade deve se dar por uma análise da sociedade, e não da natureza da
193

Para Bricmont e Sokal, o relativismo tem uma dupla origem que reside nas
tentativas da epistemologia do século XX de codificar o método científico, e no seu fracasso
parcial, conducente, em alguns círculos, ao ceticismo irracional, i.e., basicamente alguma
versão da crença de que ou o mundo externo não existe efetivamente, ou existe, mas não
permite que se possa chegar a um conhecimento fidedigno a seu respeito.542
Tendo em vista o percurso da tese até aqui, basta pensarmos na tentativa
falseabilista de codificar a ciência e nas reações mais ou menos relativistas a ele,
encontráveis, sobremaneira, na epistemologia de Kuhn e de Feyerabend.
E é também o que sugerem Bricmont e Sokal. Segundo eles, o Zeitgeist relativista
tem várias fontes, do romantismo à filosofia heideggeriana, mas parece resultar especialmente
da leitura de certas obras da filosofia da ciência, como a Estrutura das Revoluções Científicas,
de Kuhn, a Contra o Método, de Feyerabend, e de extrapolações abusivas a partir de
ambos.543
Enquanto cientistas tentam conseguir um conhecimento objetivo sobre aspectos
do mundo, os pensadores relativistas descartam a empreitada como ilusão e perda de
tempo.544
O pós-modernismo é termo que designa um “conjunto complicado”545 ou “galáxia
pouco definida de ideias”546 cuja dificuldade de caracterização precisa faz com que Bricmont
e Sokal prefiram tomá-lo como tomam o relativismo547, i.e., como um “nebuloso Zeitgeist”.548
A relação entre relativismo e pós-modernismo vai além de ambos se diluírem na
cultura como espíritos de época. Muitos autores pós-modernos flertam com alguma forma de
relativismo cognitivo ou invocam argumentos que podem fomentar o relativismo549, e eu
argumentarei mais adiante que Boaventura Sousa Santos é um exemplo disso. Ademais, a
certa falta de rigor intelectual que costuma marcar a veia pós-moderna e o relativismo,

ciência. Cf. CHALMERS, 1993, p.138-139. Para uma crítica do relativismo estético, vale a pena conferir o
que Harold Bloom diz a respeito do que chamou de “escola do ressentimento”. Cf. BLOOM, 1994, p. 4-41,
53-61, 99, 314.
542
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.72, 66 ss.
543
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.64.
544
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.65.
545
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.227.
546
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.202.
547
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.64.
548
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.22, 227-228.
549
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.63.
194

conquanto conceitualmente distintos, alimentam-se mutuamente; afinal, como Sokal e


Bricmont550 corretamente argumentam:
• “[S]e é possível colocar na boca do discurso científico qualquer coisa, ou quase
qualquer coisa, por que a ciência deveria ser levada a sério como explicação objetiva do
mundo?”
• “[R]eciprocamente, se é adotada a filosofia relativista, os comentários arbitrários
sobre as teorias científicas parecem legítimos.”
Além de tratar do pós-modernismo como difuso espírito de época, Sokal e
Bricmont também o definem. Uma definição mais analítica e completa, porém,
interessantemente vem também com uma análise do livro “Imposturas Intelectuais” como um
todo, em busca dos itens espalhados que compõem melhor o mosaico. Foi o que procurei
fazer. O resultado, o que pude depreender do texto, é o que se segue.
O pós-modernismo pode ser entendido como uma filosofia ou corrente intelectual
adotada nas últimas décadas, principalmente, por setores pertencentes às humanidades e às
ciências sociais, cujos adeptos costumam incorrer nas seguintes práticas551:
• Adoção de um relativismo epistêmico unido a um ceticismo generalizado a
respeito da ciência moderna que não raro culmina em atitudes anticientíficas.
• Afirmação de um relativismo cognitivo e cultural que considera a ciência como
uma narrativa, um mito ou uma construção social.
• Rejeição mais ou menos explícita da tradição racionalista do Iluminismo,
incluindo um dos seus mais importantes traços: a desconfiança em relação ao argumento de
autoridade. Valor intelectual medido constantemente segundo os títulos e o status do autor, e
não de acordo com o conteúdo da fala ou do texto. Veneração quase religiosa dos “grandes
intelectuais”, que tornam-se figuras internacionais por razões sociológicas, não intelectuais,
particularmente pelo impacto de sua habilidade em manipular termos rebuscados. Indiferença
profunda ou mesmo desprezo pelos fatos, pela lógica e pelos cânones da racionalidade e da
honradez intelectual.
• Elaborações teóricas desconectadas de qualquer prova empírica. Ênfase no
discurso e na linguagem em oposição aos fatos a que se referem. Omissão do aspecto
empírico da ciência e enfoque quase exclusivo no formalismo teórico e na linguagem.
Eventualmente, rejeição da distinção entre fatos e ficção e mesmo da própria existência de

550
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.25.
551
Sistematização feita a partir de SOKAL; BRICMONT, 1999, passim e p.19, 22-29, 31, 202, 207-208, 220-
225. Cf., similarmente: CHOMSKY, 2014[1992]; CHOMSKY, 2012 [1995].
195

fatos aos quais seja possível referir-se; compreensão da realidade física e da realidade social
como construções linguísticas e sociais, e da ideia de que há um mundo exterior com
propriedades independentes de qualquer ser humano individual e da humanidade em seu
conjunto como um dogma burlesco (ceticismo radical).
• Interesse excessivo por crenças subjetivas independentemente da sua verdade ou
falsidade.
• Abandono do pensamento claro e da análise crítica e rigorosa das realidades
sociais em prol do nonsense e de jogos de palavras. Discursos desnecessária e
deliberadamente obscuros ou de difícil acesso, jargão truncado, estilo quase sempre pesado e
pomposo. Afirmações grandiloquentes ou frases de efeito, afirmações ambíguas que ou são
truísmos, ou são afirmações radicais (manifestamente falsas).552 Abuso reiterado de conceitos
e termos procedentes das ciências exatas e naturais, o que inclui: fala prolixa sobre teorias
científicas das quais os autores possuem, na melhor das hipóteses, uma ideia vaga; emprego
arbitrário (e frequentemente metafórico) de terminologia científica ou pseudocientífica sem
maiores preocupações sobre significado; incorporação, às ciências humanas ou sociais, de
noções próprias das ciências naturais sem nenhum tipo de justificação empírica ou conceitual
e em desrespeito à autonomia das próprias ciências humanas e sociais; analogias entre teorias
bem estabelecidas das ciências naturais e teorias excessivamente vagas para serem
empiricamente verificadas; uso de avalanches de termos técnicos num contexto em que
resultam absolutamente incongruentes, com o objetivo de exibir superficial erudição e de
impressionar e intimidar o leitor; manipulação de frases sem sentido, combinada com uma
profunda indiferença pelo significado das palavras.
• Salto de premissas mais ou menos razoáveis e aceitáveis para conclusões
ilegítimas. É o que ocorre quando a crítica a aspectos sociais de fato criticáveis, relativos à
forma como a ciência é utilizada (sexismo, militarismo etc.), se transforma numa crítica ao
empenho intelectual que aspira a uma compreensão racional do mundo como um todo, e aos
seus fundamentos.
Entre as fontes intelectuais do relativismo e do pós-modernismo, Sokal e
Bricmont incluem o esquecimento do empírico. Em suma, há uma crítica legítima ao
empirismo quando ele é tido como “método supostamente imutável que permite extrair teorias

552
Sokal e Bricmont levantam a plausível hipótese de que, em muitos casos, as ambiguidades sejam
deliberadamente geradas, pois oferecem a grande vantagem de atrair leitores menos experientes com as
afirmações radicais, ao mesmo tempo em que permitem ao autor um refúgio para a interpretação banal se a
absurdez da interpretação radical for evidenciada por algum crítico.
196

de fatos”. Tal concepção não é mais do que uma caricatura, pois a ciência sempre se
comportou como uma interação complexa entre observação e teoria.553 Alguns textos pós-
modernos, porém, omitem totalmente o aspecto empírico da ciência, como se para que um
discurso seja científico bastasse que fosse capaz de exibir, na superfície, uma aparente
coerência; como se os discursos pudessem prescindir de preocupações e testes empíricos,
como se bastasse, e.g., inserir fórmulas matemáticas para fazer a pesquisa avançar.554
Também se encontra em meio às fontes intelectuais do pós-modernismo a
confusão entre ciência e cientificismo e a desmoralização da ciência a ela associada.
Cientificismo é “a ilusão de que determinados métodos simplistas, mas
supostamente ‘objetivos’ ou ‘científicos’, nos permitirão resolver problemas muito
complexos”. Quando o cientificismo simultaneamente é confundido com ciência e não
funciona, abrem-se as portas para a desmoralização da ciência, resumida no seguinte
raciocínio equivocado: “como o método (simplista, dogmaticamente adotado) não funciona,
então nada funciona, todo conhecimento é impossível ou subjetivo etc.”555
Finalmente, o prestígio das ciências naturais, decorrente de seus êxitos teóricos e
práticos, é muitas vezes abusado pelos cientistas, o que faz com que a ciência termine por ter
uma imagem deformada – o que contribui para o florescimento de uma cultura
anticientífica.556
Algo semelhante ao relativismo e ao pós-modernismo em vários pontos é descrito
pelo professor e historiador brasileiro José Murilo de Carvalho no texto “Como escrever a
tese certa e vencer”, uma sátira da vida acadêmica nas ciências humanas e sociais. Com boa
dose de humor e ironia, Carvalho dá, ao longo do texto, “dicas” para que o pesquisador seja
exitoso, como citar os autores da moda (muitos deles pós-modernos) sempre e
abundantemente para mostrar erudição e evitar os autores que cheiram a naftalina (muitos
deles de base objetivista); fazer uso dos termos do dia (muitos deles relativistas) e evitar a
qualquer custo os termos démodé (muitos deles relativos à ciência e ao racionalismo)557;

553
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.209.
554
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.209-210.
555
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.211-212.
556
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.212.
557
“O vocabulário é a outra peça-chave. Uma palavra correta e você será logo bem-visto. Uma palavra errada e
você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento,
não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras:
olhar (as pessoas não veem, opinam, comentam, analisam, elas têm um olhar); descentrar (descentre sobretudo
o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que for possível,
história, memória, cultura, Deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois); polissêmico (nada de
“mono”); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença,
197

seguir as três regras básicas da escrita intelectual: nunca use uma palavra curta se puder
substituí-la por outra maior; nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais; nunca diga
de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. 558 Subjacentes às dicas,
preferências pelo relativismo e pelo obscurantismo como chaves para o sucesso acadêmico.
O pós-modernismo não tem apenas raízes intelectuais, e o exame da origem
política do pós-modernismo, marcada pela ascensão de novos movimentos sociais, pelo
desânimo político com as esquerdas e pela eleição da ciência como alvo fácil é, na minha
visão, um dos pontos mais interessantes da abrangente análise crítica que Sokal e Bricmont
fazem do pós-modernismo.
A partir dos anos 1960 e 1970, passaram a ganhar mais e mais força os novos
movimentos sociais voltados para formas diversas de opressão, como o racismo, o machismo,
o preconceito contra homossexuais, dentre outros. Essas formas haviam sido lamentavelmente
negligenciadas ou subestimadas pela esquerda tradicional, que dava primazia ou mesmo
exclusividade às lutas econômicas e de classes. O fato de essa mesma esquerda tradicional ter
habitualmente se identificado como herdeira do iluminismo e encarnação da ciência e da
racionalidade fez com que algumas correntes dos novos movimentos sociais
compreensivelmente passassem a recusar ou pelo menos a desconfiar da ciência e da
racionalidade, e mesmo a concluir que o pós-modernismo é a filosofia que mais
adequadamente responde às suas aspirações. É isso que explica que a esquerda,

fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos
produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a
imaginação), cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano,
por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e
mulheres); povos (sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda,
lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo,
reivindicou etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor
ainda: resgate o olhar do outro. Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do
multiculturalismo. E assim por diante. Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você
parecerá demodé se falar em classe social, modo de produção, infraestrutura, camponês, burguesia,
nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.” CARVALHO,
1999.
558
“Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda apreender a escrever como um intelectual acadêmico
(note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à Universidade). Sobretudo, não
deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de
profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a
ajuda do editor S. T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior:
não é “crítica” mas “criticismo”. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: “é provável”
deve ser substituído por “ a evidência disponível sugere não ser improvável”. Terceira: nunca diga de maneira
simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: “os
mendigos devem ter seus direitos respeitados”. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: “o
discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua””.
CARVALHO, 1999.
198

caracteristicamente identificada com a ciência e contra o obscurantismo ao longo dos dois


últimos séculos559, tenha em parte se deixado seduzir pelo discurso pós-moderno.560
A conjuntura de desespero e de desorientação geral da esquerda – decorrente, v.g.,
da queda dos regimes comunistas; da aplicação de políticas neoliberais pelos partidos
socialdemocratas no poder; da abdicação, por parte dos movimentos terceiro-mundistas, de
qualquer tentativa de desenvolvimento autônomo; da hegemonização da mais crua forma de
capitalismo de livre mercado, convertida em realidade implacável do futuro previsível –
também contribuiu para o florescimento de ideias pós-modernas.561
Por fim, existe também a questão de a ciência ser um alvo fácil. Numa atmosfera
de desânimo geral, passam a ser maiores as chances de as pessoas caírem na tentação de
desistir de enfrentar a concentração de poder e renda, por considerarem que estão fora de
alcance, optando por atacar qualquer coisa mais próxima que porventura, esteja
suficientemente vinculada ao poder estabelecido. Como colocado por Noam Chomsky, há
muitas formas de fugir dos verdadeiros problemas quando eles parecem ser demasiado
difíceis, e dentre elas encontra-se a perseguição de quimeras sem a menor importância e a
adesão a cultos acadêmicos alijados de qualquer realidade e que permitem ao adepto não
afrontar o mundo como ele é.562 A ciência é basicamente uma ferramenta que pode ser
utilizada tanto para fins emancipatórios quanto para promover e perpetuar injustiças. E assim
tem sido. O pós-modernismo foca nos usos de segundo tipo, e permite aos desiludidos uma
ilusão de criticidade, ousadia, rebeldia contra o poder, que, em realidade, consiste apenas no
ataque de uma das ferramentas que, sim, tem sido usada por ele, mas que também pode e deve
muito bem ser usada contra ele.
Conquanto seja associado à esquerda política, o pós-modernismo parece provocar
efeitos negativos para ela, listados a seguir563:
I. Isolamento dos intelectuais. A persistência de ideias confusas e de discursos
obscuros, o enfoque extremo na linguagem e o elitismo vinculado ao uso de um jargão
truncado e pretensioso, característicos do pós-modernismo, isolam os intelectuais dos
movimentos sociais e os encerram em debates estéreis.

559
“Ao longo dos dois últimos séculos, a esquerda se identificou com a ciência e contra o obscurantismo, por
crer que o pensamento racional e a análise direta da realidade objetiva (natural ou social) erma instrumentos
eficazes para combater as mistificações fomentadas pelo poder, além de serem fins humanos que devem ser
buscados por si mesmos.” SOKAL; BRICMONT, 1999, p.216-217.
560
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.216-217.
561
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.219.
562
CHOMSKY, 1994, p.163; SOKAL; BRICMONT, 1999, p.219-220.
563
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.226-227.
199

II. Ridicularização da esquerda como um todo. Como a direita não deixa passar
a chance de demagogicamente conectar a esquerda - em geral - ao pós-modernismo, as
posturas pós-modernistas acabam contribuindo para que a esquerda seja desacreditada em
bloco.
III. Desmobilização estudantil e desperdício de tempo e energia. Outro efeito
negativo diz respeito aos estudantes universitários progressistas: ao chegarem numa
universidade que siga em boa medida o tom pós-modernista, terminam por aprender que o
mais radical, inclusive do ponto de vista político, é abraçar o ceticismo integral e mergulhar
na análise textual. Com isso, termina desperdiçada uma preciosa energia que noutro contexto
poderia muito bem ser gasta com atividades de pesquisa, organização e mobilização.
IV. Prejuízos à crítica social e sua propagação. Nenhuma crítica social pode ser
estabelecida e divulgada com base num relativismo que entenda que todo discurso é só mais
um relato ou narrativa, e se todos os discursos são igualmente válidos, porque este ponto de
vista implica admitir a validade de teorias socioeconômicas reacionárias e preconceitos
racistas e sexistas, para citar alguns exemplos. Em semelhantes termos, é logicamente
impossível que a crítica social possa ser feita e possa alcançar os que não estão convencidos
de antemão, ainda mais quando os intelectuais, ao invés de desmistificar os discursos
dominantes, estão simplesmente somando a estes últimos suas próprias mistificações.
Os efeitos negativos do pós-modernismo não se limitam à política em linhas
gerais; alcançam também as ciências e, entre elas, mais dramaticamente as ciências sociais.
Também aqui os efeitos são graves e preocupantes564:
I. Prejuízo para a análise crítica da sociedade. Adotados os pressupostos pós-
modernos em detrimento dos cânones racionais e da preocupação com os dados empíricos, a
análise crítica e rigorosa das realidades sociais acaba dando lugar ao nonsense e a jogos de
palavras que nada têm de progressistas.
II. Prejuízos para a educação e para a cultura intelectual. O abandono do
pensamento claro, os discursos deliberadamente obscuros e a falta de honradez intelectual
envenenam parte da vida intelectual: os estudantes aprendem a repetir e a adornar discursos
que praticamente não entendem; com sorte, alguns se tornam professores, experts na arte de
manipular o jargão falsamente erudito. Além disso, fortalecem o anti-intelectualismo fácil já
presente em meio ao público.

564
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.223-226.
200

III. Irresponsabilidade frente ao obscurantismo. O pós-modernismo abdica de


uma visão racional do mundo, e com isso abre mão dos cânones que historicamente têm sido
o principal bastião contra a superstição, o obscurantismo e o fanatismo nacionalista e
religioso. Os autores pós-modernos podem até não ter a intenção de favorecer o
obscurantismo, mas isso acaba sendo uma das consequências do seu enfoque.
Além da caracterização e da crítica ao pós-modernismo, o texto de Sokal e
Bricmont propõe também antídotos ou alternativas a ele, a começar por uma ontologia realista
como ponto de partida para uma empreitada séria de busca por conhecimento da realidade.
Como é possível alcançar um conhecimento objetivo a respeito do mundo, mesmo
que seja somente um conhecimento aproximado e parcial? Como saber que existe algo fora
das nossas sensações, se o que temos são elas, e não um acesso direto ao mundo? Com estes
questionamentos, Sokal e Bricmont iniciam sua reflexão sobre o tema do relativismo
epistêmico.565 É um bom ponto de partida. São perguntas básicas que fazem parte do absurdo
e da maravilha que é a existência. Numa reflexão em torno do mesmo tema, René Descartes
famosamente formulou o conceito do gênio ou demônio maligno, uma personificação
extremamente inteligente, traiçoeira e poderosa que teria direcionado todos os seus esforços
para enganá-lo através da ilusão de um mundo externo e de um corpo que supostamente
percebe ou sente esse mundo fantasmal.566 E, muito recentemente, o célebre empreendedor
Elon Musk causou um rebuliço ao dizer que, dado o crescimento exponencial da tecnologia, a
chance de estarmos no universo real, e não numa simulação, é de uma em bilhões.567
A resposta dada por Sokal e Bricmont é simples: não temos nenhuma prova da
existência do mundo, que, no entanto, é uma hipótese perfeitamente razoável e intuitiva, pois
o modo mais natural de explicar a permanência das nossas sensações consiste em supor que
elas procedem de algo exterior à nossa consciência. Nossa consciência, nosso pensamento,
pode modificar as sensações que são produto da nossa imaginação, mas não é capaz de parar
guerras ou colocar um automóvel em movimento. Apesar disso, não há nada que realmente
garanta que o solipsista esteja errado. O solipsismo é uma opinião irrefutável, mas isso não
implica que exista a menor razão para crer que seja uma opinião verdadeira.568
Próximo a ele reside o ceticismo radical, formulado nos seguintes termos: “Como
eu tenho acesso apenas às minhas sensações, o mundo externo pode existir, mas eu jamais

565
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.66.
566
BRANDHORST, 2010, p.44-47; MUSGRAVE, 1993, p.202.
567
CAMPBELL, 2016.
568
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.66.
201

poderei chegar a ter um conhecimento fidedigno a respeito dele.” O ceticismo radical vale
para todo conhecimento, inclusive o conhecimento mais trivial da realidade, como saber que
há um gato sobre a mesa, e é na sua universalidade que reside sua debilidade. A resposta dada
ao ceticismo radical é também parecida àquela dada ao solipsista: ou nossas sensações nos
enganam sistematicamente, ou são realmente produzidas por coisas exteriores a nós mesmos.
A melhor maneira de explicar a coerência da nossa experiência consiste em supor que o
mundo exterior pode ser, pelo menos de um modo aproximado, conhecido.569
Deixados de lado o solipsismo e o ceticismo radical e admitida a possibilidade de
obtermos algum conhecimento, mais ou menos fidedigno, sobre o mundo, resta-nos
perguntar: como isso se dá ou pode se dar?
A resposta de Sokal e Bricmont é a de que é possível comparar as impressões
sensoriais entre si e variar os parâmetros da nossa experiência a cada dia, construindo assim,
pouco a pouco, uma racionalidade prática, habitual, que, robustecida de sistematicidade e
precisão suficiente, faz surgir a ciência. Os mesmos métodos básicos de indução, dedução e
avaliação de dados que compõem a atitude racional estão presentes no conhecimento da vida
cotidiana e no conhecimento científico, que se difere fundamentalmente apenas por buscar o
mesmo intento de uma maneira mais cuidadosa e sistemática, com medições mais precisas
que aquelas das observações do dia a dia. A ciência ocasionalmente contraria o conhecimento
comum – como quando explica a água em termos dos seus átomos e não como o fluído
contínuo que ela aparenta ser para os sentidos vulgares –, mas isso se dá mais propriamente
nos resultados ou conclusões do que nos meios ou na abordagem básica. Há uma continuidade
entre ciência e conhecimento comum, o que, por outro lado, não implica negar que a ciência
introduza conceitos difíceis de ser captados de forma intuitiva ou conectados com noções do
senso comum.570
Sokal e Bricmont defendem que, embora não seja possível alcançar uma
codificação completa da racionalidade científica, é correto dizer que a ciência caracteriza-se
por princípios epistemológicos gerais (como a desconfiança em relação a argumentos
apriorísticos, à revelação e a argumentos de autoridade) e por princípios metodológicos mais
ou menos gerais (como a repetição de experiências, o uso de mecanismos de controle, a
aplicação de procedimentos duplamente cegos etc.) que podem ser justificados por meio de
argumentos racionais. Teorias científicas bem desenvolvidas baseiam-se em bons

569
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.66-68.
570
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.68-69.
202

argumentos.571 Não há critérios de racionalidade absolutos ou independentes das


circunstâncias, nem uma justificação geral para o princípio da indução, mas ainda assim é
claramente possível distinguir induções justificadas e não justificadas em cada caso. Não é
possível demonstrar literalmente nenhuma afirmação sobre o mundo real, mas pode-se
demonstrá-la para além de qualquer dúvida razoável.572 Para ilustrar o que defendem, Sokal e
Bricmont usam um exemplo intermediário ao conhecimento científico e ao conhecimento
comum: as investigações policiais. Quase sempre, a investigação infere o não observado
(quem cometeu o crime) a partir do observado (as provas e evidências coletadas etc.) e, como
no caso da ciência, há inferências mais e menos racionais. Apesar de não haver nenhum meio
de decidir o que distingue a boa da má investigação a priori, ou seja, independentemente das
circunstâncias, não há dúvida sobre a pertinência de algumas regras e procedimentos
racionais, não arbitrários, baseados numa análise detalhada da experiência anterior e que
incluam, v.g., a desconfiança de confissões obtidas por meio de violência ou tortura, a
comparação de testemunhos, as acareações, a busca por provas tangíveis etc.573
Como as ciências humanas e sociais se inserem neste contexto, e como devem se
relacionar com as ciências naturais? A resposta que pode ser depreendida das reflexões de
Sokal e Bricmont é a de que as ciências são autônomas entre si ao mesmo tempo em que
podem se beneficiar dos mesmos princípios gerais. É importante que a autonomia seja
reconhecida, como também é importante o reconhecimento daquilo que de comum têm ou
podem ter as diferentes ciências.
A ciência sempre se comportou como uma interação complexa entre observação e
teoria. Com o descarte dos argumentos apriorísticos, dos argumentos de autoridade e da
referência a textos sagrados, o que resta é a confrontação sistemática de teorias com
observações e experimentos. Toda teoria necessita do apoio, pelo menos indireto, de
argumentos empíricos. A atitude científica, entendida num sentido mais amplo como respeito
à clareza e coerência lógica das teorias e confrontação das mesmas com os dados empíricos, é
pertinente tanto para as ciências naturais como para as ciências sociais.574

571
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.70.
572
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.71-72.
573
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.70-72.
574
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.209-211. Um exemplo prático interessante pode ser depreendido da seguinte
passagem do texto de Sokal e Bricmont: “O nexo sociológico entre o pós-modernismo e os novos movimentos
sociais é extremamente complexo. Uma análise satisfatória exigiria pelo menos desvendar as várias vertentes
que compõem o tecido pós-modernista (dado que as relações lógicas entre elas são bastante fracas), tratando
individualmente cada novo movimento social (uma vez que suas histórias são muito diferentes), classificando
as diferentes correntes que integram estes movimentos e distinguindo os papéis desempenhados por seus
ativistas e teóricos. Este problema exige (ousaremos dizê-lo?) uma pesquisa empírica cuidadosa que deixamos
203

Isso não deve ser confundido com o desrespeito à autonomia das ciências.
Ciências humanas e sociais e ciências naturais possuem, cada qual, seus próprios métodos e
problemas, de modo que não é necessário que uma procure copiar a outra. 575 É preciso ser
prudente com as pretensões de cientificidade das ciências sociais, porque os problemas de que
cuidam são extremamente complexos e os dados empíricos que dão suporte a suas teorias são
frequentemente bem mais fracos.576

[É] natural introduzir uma hierarquia no grau de certeza que é atribuído às diferentes
teorias, dependendo da quantidade e qualidade dos argumentos que a sustentam.
Todos os cientistas e, na verdade todos os seres humanos, procedem deste modo e
atribuem maior probabilidade às teorias melhor fundamentadas (por exemplo, a
evolução das espécies ou a existência de átomos) e menor probabilidade às teorias
mais especulativas (por exemplo, teorias detalhadas da gravidade quântica). O
mesmo raciocínio se aplica quando são comparadas as teorias das ciências naturais
com as teorias históricas ou sociológicas. Assim, por exemplo, as evidências a favor
da rotação da Terra são muito mais fortes do que Kuhn poderia fornecer para apoiar
qualquer uma de suas teorias históricas. Naturalmente, isso não significa que os
físicos são mais inteligentes do que os historiadores ou usam métodos melhores, mas
simplesmente que, em termos gerais, os problemas estudados não são tão complexos
e incluem um número menor de variáveis que são também mais fáceis de medir e
controlar. A introdução desta hierarquia nas nossas certezas é inevitável, e é claro
que nenhum argumento concebível com base na opinião de Kuhn sobre a história
pode vir em auxílio de sociólogos ou filósofos que procuram desafiar, globalmente,
a confiabilidade dos conhecimentos científicos. 577

Uma certa atitude relativista pode ser até mesmo metodologicamente natural em
algumas disciplinas das ciências sociais. Neste sentido, e.g., um pesquisador que busca
compreender determinados gostos e costumes não ganhará em nada se inserir na pesquisa suas
próprias preferências estéticas; e uma pesquisa que pretenda compreender a forma em que

para sociólogos e historiadores da cultura. No entanto, ousamos conjecturar que a inclinação dos novos
movimentos sociais em direção ao pós-modernismo é própria principalmente do âmbito acadêmico e é muito
mais frágil do que a esquerda pós-moderna e a direita tradicional costumam pensar.” SOKAL; BRICMONT,
1999, p.218-219.
575
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.206.
576
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.211-212.
577
“Pero aún se puede ir más lejos: es natural introducir una jerarquía en el grado de certidumbre que se concede
a diferentes teorías en función de la cantidad y la calidad de los argumentos que la fundamentan. Todos los
científicos, y a decir verdad todos los seres humanos, proceden de este modo y asignan mayor probabilidad
subjetiva a las teorías mejor fundamentadas (por ejemplo, la evolución de las especies o la existencia de
átomos) y menor probabilidad subjetiva a las teorías más especulativas (por ejemplo, las teorías detalladas de
la gravedad cuántica). El mismo razonamiento es aplicable cuando se comparan teorías de las ciencias de la
naturaleza con teorías históricas o sociológicas. Así, por ejemplo, las pruebas a favor de la rotación de la
Tierra son mucho más sólidas que las que podría aportar Kuhn para sostener cualquiera de sus teorías
históricas. Naturalmente, eso no quiere decir que los físicos sean más inteligentes que los historiadores, ni que
utilicen métodos mejores, sino simplemente que, en términos generales, los problemas que estudian no son tan
complejos e incluyen un menor número de variables que, además, son más fáciles de medir y de controlar. La
introducción de esta jerarquía en nuestras certidumbres resulta inevitable, y de ella se desprende que ningún
argumento concebible fundado en la visión kuhniana de la historia puede acudir en ayuda de los sociólogos o
filósofos que pretendan desafiar, de forma global, la fiabilidad de los conocimientos científicos.” SOKAL;
BRICMONT, 1999, p.87-88.
204

operam crenças cosmológicas numa determinada cultura prescinde do juízo de veracidade ou


falsidade das crenças envolvidas. O que não é correto é que essa atitude metodológica
razoável se transforme, em razão de confusões linguísticas e de pensamento, num relativismo
cognitivo radical, definido por Sokal e Bricmont como a tese de que as afirmações de fato
podem ser consideradas verdadeiras ou falsas somente em relação a uma cultura
particular.578
Um exemplo disso diz respeito a dois relatos sobre a origem de povos indígenas
americanos: o científico, fundamentado em numerosos dados arqueológicos, apregoa que os
antepassados dos indígenas americanos vieram da Ásia, cruzaram o estreito de Bering e
alcançaram o continente há cerca de vinte mil anos; e um dos muitos mitos de criação
indígenas que afirma que seus ancestrais vieram de um mundo subterrâneo habitado por
espíritos e habitaram somente a América a partir daí. Um relativista cognitivo radical
defenderia que os dois relatos são igualmente válidos como formas de conhecer o mundo. Do
ponto de vista cognitivo, o relativista está errado. A filosofia e a linguagem cotidiana
distinguem o conhecimento (entendido, grosso modo, como crença verdadeira, justificada) da
crença pura e simples, e assinalam uma conotação positiva para o primeiro, e mais ou menos
neutra para o segundo. Antropólogos relativistas pretendem negar a distinção entre
conhecimento e mera crença e a possibilidade de crenças cognitivas sobre o mundo externo
serem objetivamente (ou transculturalmente) verdadeiras ou falsas, mas acaso a assertiva de
que milhões de ameríndios foram mortos durante a invasão europeia é apenas uma crença apta
a ser verdadeira somente entre alguns indivíduos de algumas culturas? A resposta é: não. Se,
ao revés, o relativista se defendesse de alguma crítica salientando que sustenta apenas que
pessoas diferentes possuem crenças diferentes, essa última afirmativa será tão verdadeira
quanto banal. Por mais que o relativista possa ter sido movido por simpatias políticas e
culturais louváveis, não há nenhuma justificativa para sua posição. É perfeitamente possível
“recordar as vítimas de um genocídio horrível e apoiar seus descendentes em objetivos
políticos válidos sem ter que aceitar acrítica ou hipocritamente seus mitos criacionistas
tradicionais.”579
Como foi dito anteriormente, o pós-modernismo muitas vezes parte de pontos
legítimos para alcançar conclusões ilegítimas, especialmente no âmbito da crítica da ciência.

578
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.212.
579
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.213-214.
205

Um contraponto importante ao pós-modernismo reside nos esclarecimentos apresentados por


Sokal e Bricmont a respeito de alguns sentidos diferentes do termo “ciência”.
Para os autores, é essencial distinguir, no mínimo, quatro sentidos diferentes para
“ciência”: empenho intelectual que aspira a uma compreensão racional do mundo; conjunto
de ideias teóricas e experimentais aceitas; comunidade social com tradições, instituições e
vínculos sociais próprios; ciência aplicada e tecnologia.580
A confusão entre os sentidos pode fazer com que uma crítica procedente se torne
uma crítica improcedente da ciência. Neste sentido, é inegável que, enquanto instituição
social, a ciência está vinculada ao poder político, econômico e militar e que, com frequência,
a função social desempenhada pelos cientistas é perniciosa. Também é verdade que a
tecnologia tem efeitos contraditórios, que vão do desastre ao milagre, e que a ciência,
enquanto corpo de conhecimentos, não só é falível como por vezes os erros dos cientistas
decorrem de todo tipo de preconceitos sociais, políticos, filosóficos ou religiosos. Todas estas
podem ser críticas válidas e bem-vindas, se não houver confusão entre os diferentes sentidos
de ciência. Entretanto, acentuam Bricmont e Sokal, desgraçadamente algumas críticas vão
além do ataque aos piores aspectos da ciência (militarismo, sexismo etc.) para atacar seus
aspectos mais positivos: a tentativa de alcançar uma compreensão racional do mundo e o
método científico, entendido num sentido amplo como o respeito aos dados empíricos e à
lógica.581
Há coisas ilegítimas que devem ser denunciadas: o modernismo ingênuo que crê
num progresso indefinido e continuado; o cientificismo; o eurocentrismo cultural etc. 582 Isso
não pode descambar na rejeição da racionalidade como um todo. Tal rejeição é também um
contrassenso, pois a crítica aos preconceitos na ciência pressupõe os próprios cânones
racionais para ser rigorosamente identificada e superada:

Em particular, as críticas à ciência vista como um corpo de conhecimentos (ao


menos as que são mais convincentes) seguem uma pauta uniforme: primeiro se
mostra, mediante argumentos científicos convencionais, por que a investigação
criticada é defeituosa com base nos cânones ordinários da boa ciência; então, e só
então, intenta-se determinar como os preconceitos sociais dos investigadores (dos
quais eles próprios provavelmente não são cônscios) conduziram à violação dos
citados cânones. Pode-se estar tentado a passar diretamente para a segunda fase, mas
neste caso a crítica perde grande parte de sua força.583

580
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.220.
581
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.220-221.
582
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.202.
583
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.221.
206

A ciência e a racionalidade são alvos fáceis do pós-modernismo e de sua ofensiva


contra a atitude racional em concreto também porque, em matéria de ataque à razão, não
faltam aliados: basicamente, todos aqueles que creem em superstições tradicionais (como, por
exemplo, o conservadorismo ou integrismo religioso) e modernas (como as da chamada New
Age). Chega a ser uma luta relativamente popular, ainda que não progressista. Acaba sendo
um verdadeiro tiro no pé, pois “é precisamente a insistência na objetividade e na verificação
aquilo que oferece a melhor proteção contra a tendenciosidade ideológica disfarçada de
ciência”. Ganham os que detêm o poder político e econômico, pois preferem que sejam a
racionalidade, a ciência e a tecnologia a sofrer ataques; em tal cenário, ganham duas vezes:
com a dissimulação das relações de força sobre as quais se funda seu poder e com o não uso
da racionalidade, instrumento poderoso para criticar a ordem social, pela esquerda.584
Além da ontologia realista, da concepção de ciência como contínua em relação ao
senso comum e composta de preocupações mínimas com raciocínio e experiência, e da
maneira pela qual isso se relaciona com as ciências humanas e sociais, Sokal e Bricmont
apresentam também algumas recomendações gerais585 que, se adotadas, podem mitigar a
prática pós-moderna:
I. Saber do que se fala. Ninguém é obrigado a falar sobre as ciências naturais,
mas aqueles que quiserem fazê-lo precisam saber o que estão falando, precisam estar bem
informados sobre o tema para que não terminem por sustentar afirmações arbitrárias. “Nada
impede ser psicólogo ou filósofo e falar de ciências naturais com conhecimento de causa ou
não falar disso e ocupar-se de outras necessidades.” Não é vergonha nenhuma, e.g., ignorar o
cálculo infinitesimal ou a mecânica quântica. O problema é afirmar conhecê-los quando, no
melhor dos cenários, há um conhecimento bastante básico, comparável ao nível das obras de
divulgação científica para o grande público.
II. Não confundir obscuridade com profundidade. Há uma diferença enorme
entre discursos de difícil acesso, pela própria natureza do tema tratado, e aqueles em que uma
obscuridade deliberada da prosa é usada para ocultar o vazio ou a banalidade. No primeiro

584
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.221, 221 nr.34 e 222. Críticas ao pós-modernismo não equivalem a ataques
ao “multiculturalismo” ou ao “politicamente correto”. Sokal e Bricmont não rejeitam “em absoluto a abertura
a outras culturas ou o respeito às minorias”. Tampouco os críticos do pós-modernismos devem ser
considerados de direita, e os seus defensores como pessoas de esquerda. O debate entre o pós-modernismo e
aqueles que o criticam não pode ser reduzido a um debate entre esquerda e direita. Muitos que se identificam
com ideias de esquerda não rejeitam a ciência e a objetividade, nem há vínculo lógico simples entre opiniões
epistemológicas e políticas. O próprio Sokal ensinou matemática na Nicarágua sandinista. Cf. SOKAL;
BRICMONT, 1999, p.222-223.
585
SOKAL; BRICMONT, 1999, p. 23-24, 204-208, 212.
207

caso, o autor pode respeitar as dificuldades autênticas do leitor e ajudá-lo através da tentativa
de explicar, em termos simples, num nível elementar, quais são os fenômenos que
determinada teoria pretende analisar, seus principais resultados e os argumentos mais fortes a
seu favor; e também através do apontamento de um caminho claro, ainda que seja longo, que
permita ao leitor interessado um conhecimento mais profundo sobre o tema em questão. No
segundo caso, porém, o autor termina por passar para o leitor a impressão de que, para que ele
alcance alguma compreensão do texto, será necessária uma espécie de salto qualitativo, uma
experiência quase religiosa de revelação, ou algo semelhante.
III. Não tomar a ciência como texto sem contexto. As ciências naturais não são
um repositório de metáforas para serem usadas nas ciências humanas; seus termos não podem
ser analisados de maneira puramente verbal.586 Teorias científicas não são romances; há um
contexto científico no qual cada um dos termos possui um significado preciso que se
diferencia de eventuais significados cotidianos, compreensível somente dentro de uma
“complexa trama de teoria e experimentação”. Ignorar o contexto para empregar termos
metaforicamente pode conduzir a conclusões sem sentido (por exemplo, julgar que os termos
“descontinuidade” e “interconectividade”, próprios da mecânica quântica, são contraditórios,
quando na verdade, dentro da teoria científica em comento, não o são).
IV. Respeitar a autonomia das ciências sociais e das ciências naturais. Não há
necessidade de as ciências sociais seguirem cada mudança de paradigma, real ou imaginária,
das ciências naturais. Umas e outras são autônomas, possuem seus próprios problemas e
métodos.587
V. Desconfiar do argumento de autoridade. Ao invés de se apropriarem
incorretamente dos conceitos técnicos das ciências naturais, as ciências humanas podem
inspirar-se no que há de positivo em seus princípios metodológicos, como a desconfiança em
relação ao argumento de autoridade, herança iluminista, e a ideia de que devemos medir a

586
Sokal e Bricmont mencionam os seguintes termos como exemplos: “indeterminação”, “descontinuidade”,
“caos”, “não linearidade”. Poderíamos acrescentar vários outros, dentre eles, um que parece ser
frequentemente (ab)usado: “relatividade”. Sobre o último, vale a pena conferir o esclarecedor artigo “Einstein
falou que tudo é relativo?”, de Riis Rhavia Assis Bachega. Cf. BACHEGA, 2015.
587
“Os psicólogos, por exemplo, não precisam apoiar-se na mecânica quântica para sustentar que em seu âmbito
de saber “o observador influi no observado”. “Não há nenhuma razão para imitar as ciências naturais quando
se deseja abordar problemas humanos complexos. É perfeitamente legítimo recorrer à intuição ou à literatura
para obter algum tipo de compreensão, não científica, daqueles aspectos da experiência humana que escapam,
ao menos por ora, a um conhecimento mais rigoroso.” SOKAL; BRICMONT, 1999, p.206.
208

validade de uma proposição em função dos fatos e dos raciocínios que o fundamentam, e não
nas características pessoais ou no status social dos seus críticos ou defensores.588
VI. Distinguir o ceticismo específico do ceticismo radical. Críticas à ciência
ancoradas no ceticismo radical são irrefutáveis e desinteressantes em função de sua
universalidade, pois se alguém quiser contribuir para o conhecimento, para a ciência, seja ela
natural ou social, precisará abandonar as dúvidas radicais sobre a viabilidade da lógica ou a
possibilidade de o mundo ser conhecido por meio de observações ou experimentos. Mais
interessantes são as críticas que adotam não um ceticismo radical, mas um ceticismo
específico, que permite refutação.
VII. Não utilizar a ambiguidade como subterfúgio. Dentre os textos pós-
modernos, há muitos trechos ambíguos que permitem tanto uma interpretação que os têm
como afirmações verdadeiras, mas relativamente banais, ou truísmos, quanto uma
interpretação que os tem como afirmações radicais, mas efetiva e manifestamente falsas. É
possível que em muitos casos as ambiguidades tenham sido deliberadamente geradas, pois
oferecem a grande vantagem de atrair leitores menos experientes com as afirmações radicais,
ao mesmo tempo em que permitem ao autor um refúgio para a interpretação banal se a
absurdez da interpretação radical for evidenciada por algum crítico. Evitá-las é um grande
antídoto contra o discurso pós-modernista.
Feitas as considerações acima sobre o pós-modernismo e sobre as críticas e visões
pós-modernistas sobre a ciência, passo a expor as razões que me levam a (i) identificar o
discurso de Boaventura Sousa Santos como um discurso pós-modernista e (ii) apontar críticas
ao seu discurso e à ciência pós-moderna que propõe.
O pós-modernismo de Santos vai muito além de sua adoção deliberada do termo:
é formal e material. No seu discurso, é possível identificar vários dos traços característicos do
pós-modernismo, como o relativismo epistêmico, a atribuição de críticas indevidas à ciência
moderna, a confusão entre os diferentes sentidos do termo ciência e os distintos níveis
(metodológico, social) da prática científica, a consideração da ciência como uma construção
social, a rejeição do racionalismo, a manipulação de termos rebuscados e o pouco cuidado
com o significado das palavras, a rejeição da distinção entre fatos e ficção, a concessão de
588
Sokal e Bricmont relatam que encontraram um estudante em Paris que, depois de concluir brilhantemente
estudos em física, começou a ler filosofia e a estudar detidamente a obra “Diferença e Repetição”, de Gilles
Deleuze, concluindo não ser possível entender onde o filósofo francês pretendia chegar com seus fragmentos
matemáticos. A fama de autor “profundo” que gozava Deleuze era tanta que fazia com que o estudante,
alguém com muitos anos de treinamento em cálculo diferencial e integral, temesse chegar à conclusão de que,
se alguém como ele não compreendia os escritos de Deleuze, era porque provavelmente eles não faziam
mesmo muito sentido. SOKAL; BRICMONT, 1999, p.207-208.
209

importância para crenças subjetivas sem maiores preocupações com sua verdade ou falsidade,
o abandono do pensamento claro e da análise rigorosa da realidade social, o uso de discursos
obscuros com afirmações grandiloquentes ambíguas ou arbitrárias, o abuso de conceitos e
termos procedentes das ciências exatas e naturais (com emprego arbitrário de terminologia
científica sem maiores preocupações, analogias entre teorias bem estabelecidas das ciências
naturais, avalanches de termos técnicos) e o salto para conclusões sem substância.
A falta de rigor terminológico é bem ilustrada pela própria ideia de “paradigma”:
conquanto use a palavra ou derivados em dezenas de ocasiões ao longo do texto, Santos não a
define. É uma noção central para o que está tratando, e ainda assim ele não parece se
preocupar em defini-la de modo claro, permitindo que floresçam lacunas e possíveis
ambiguidades. O leitor sempre pode, claro, buscar uma definição ou ter alguma ideia do que
Santos quer dizer por “paradigma” através dos usos do termo e de seus derivados ao longo da
obra, mas isso é convite para imprecisões e ambiguidades, além de não ser muito cortês do
ponto de vista intelectual. Fosse um termo com significado mais ou menos consensual, a
omissão até não seria tão problemática, mas mesmo Thomas Kuhn, quem o introduziu na
Filosofia da Ciência, reconheceu sua ampla polissemia589, como visto no capítulo 6. Por que
não esclarecer, mesmo que em poucas linhas ou em nota de rodapé, o que deve ser entendido
como “paradigma”, e como a noção se aproxima e se diferencia daquela presente na obra de
Kuhn? Por que optar pela via menos rigorosa e menos transparente? Afinal, sendo um termo
consagrado na filosofia da ciência, por Kuhn, é natural que o leitor espere de Santos alguma
menção a isso, apontamentos de semelhanças e diferenças de abordagem... São poucas as
menções a Kuhn no texto de Santos, e nenhuma delas a respeito do termo. Há também, no
texto, uma troca constante de termos que parecem indicar a mesma coisa ou coisas bastante
parecidas: “paradigma dominante”, “modelo global de racionalidade científica”, “modelo de
racionalidade que preside a ciência moderna”, “novo paradigma científico”, “paradigma
newtoniano” etc.
O paradigma dominante resume, para Santos, a ciência moderna do século XVI ao
século XX. Ele até se preocupa em dizer que o paradigma admite “variedade interna”, mas
não a explica. Não seria uma exacerbada simplificação da história da ciência? A resposta é
afirmativa. Enquanto outros filósofos reconhecem as dificuldades de codificação geral da
ciência, Santos afirma que o paradigma dominante tem como característica fundamental a
negação da racionalidade de outras formas de conhecimento que não seguem os seus

589
KUHN, 1996, p.181.
210

princípios e regras epistemológicos.590 Quais princípios e regras? Ele também não diz. O
leitor também aqui precisa especular, pelo contexto, o que significam. Se o faz, alcança algo
mais claro do que o que ocorre com a noção de paradigma, pois num dado momento Santos
chega a tratar da ciência moderna como o “conhecimento causal que aspira a formulação de
leis, à luz de regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos
fenómenos”; que busca descobrir as “leis da natureza” a partir do “isolamento das condições
iniciais relevantes” (e.g., a posição inicial e a velocidade do corpo no caso da queda dos
corpos) e do “pressuposto de que o resultado se produzirá independentemente do lugar e do
tempo em que se realizarem as condições iniciais”.591 Aí fica clara a simplificação exacerbada
e errônea, pois Santos assume a observação como base da ciência a partir da qual são
formuladas leis para posterior predição, ou seja, uma forma de indutivismo e de monismo
metodológico.
Santos chega a afirmar que o tal paradigma dominante e sua negação da
racionalidade alheia – particularmente, da racionalidade do senso comum e das humanidades
– é “totalitário.”592 Totalitário? Como? Em que sentido? Segundo Santos, a característica da
exclusão que torna a ciência totalitária está presente, por exemplo, “na teoria heliocêntrica do
movimento dos planetas, de Copérnico”, “nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas” e
“nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos”.593 Quando alguém lê o texto de um sociólogo
consagrado em que ele afirma que a ciência é totalitária por negar a racionalidade do senso
comum, imagina que serão apresentados exemplos contundentes de como a rejeição da
racionalidade foi aguda e violenta. Então, se depara com o exposto. A ciência é totalitária por
contrariar o nosso senso comum de que estamos parados? De que a Terra está estacionada, e,
portanto, devem ser os astros que giram ao nosso redor? Minha intuição básica é a de que o
meu computador, o chão e eu estamos todos fixos; deve ser a mesma que tem o leitor diante
das páginas da tese física ou digital. Contrariar essa intuição básica por meio de avanços do
conhecimento sobre o mundo é um tipo de totalitarismo? O ponto de partida da astronomia
evidencia o totalitarismo da ciência? E pensar que, no mesmo texto, Santos cita passagem de
Einstein sobre o esforço de Galileu Galilei em demonstrar que a hipótese dos movimentos de
rotação e translação da Terra não é refutada pelo fato de ela aparentar estar parada...594
Alguém que esteja acostumado a pensar no totalitarismo como a trágica combinação de
590
SANTOS, 2008, p.21.
591
SANTOS, 2008, p.29.
592
SANTOS, 2008, p.21.
593
SANTOS, 2008, p.22.
594
SANTOS, 2008, p.24-26.
211

Estado autoritário, partido único de massas, repressão e polícia secreta, ideologia racista,
monopólio dos meios de comunicação e cerceamento de liberdades básicas não pode deixar
de ficar chocado com o adjetivo “totalitário” empregado por Santos com tanto desmazelo.
O caráter totalitário e excludente do paradigma dominante também é defendido
por Santos com base em trechos nos quais Kepler e Descartes arrogantemente exibem sua
“confiança epistemológica”: o primeiro diz que seu livro “Harmonia do Mundo” pode esperar
muitos séculos por um leitor, tal como Deus esperou seis mil anos por aqueles que pudessem
contemplar seu trabalho; o segundo assevera sua extrema satisfação com o progresso que
julgou ter feito em busca da verdade.595 Ou seja: Santos emprega duas passagens curtas de
duas figuras importantes da ciência como uma das bases para um argumento geral contendo
uma acusação gravíssima de que a ciência é totalitária, o que está longe de ser suficiente.
Ademais, não se preocupa em qualificar a importância de duas passagens textuais, nem de
conectá-las com fatos e evidências mais significativos do padrão que pretende estabelecer por
generalização. Focando no conteúdo dos trechos em si, as passagens podem até ser indícios de
arrogância, e mesmo essa afirmação, bem menos incisiva e polêmica do que a de atribuir à
ciência um caráter totalitário, pode ser em parte questionada. Séculos de filosofia e ciência
podem servir como prova dos progressos que Descartes alcançou, e Kepler tinha lá suas
razões: tanto de se preocupar com a possibilidade do seu tempo não receber tão bem sua
Harmonices Mundi e suas descobertas, quanto de se orgulhar de tudo que alcançou. A
comparação com Deus é de grande soberba, sem dúvida alguma; mas... “totalitarismo”?
O descuido de Santos com as palavras faz-se presente também nos diferentes usos
que fez da expressão “confiança epistemológica”; além do sentido pejorativo, assim
considerado por ser a expressão ligada à ideia de arrogância de cientistas sobre o seu saber596,
o autor também a emprega no seguinte contexto:

... estamos de novo perplexos, perdemos a confiança epistemológica; instalou-se em


nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao
certo o que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, noutros momentos, que
essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as
novas abundâncias da nossa vida individual e colectiva. 597

595
SANTOS, 2008, p.22-23.
596
SANTOS, 2008, p.22-23.
597
SANTOS, 2008, p.17.
212

Figura 8 - “Astronomer Copernicus: Conversation with God”, de Jan Matejko.

FONTE: NICOLAU COPÉRNICO, 2016.

Também a crise da ciência, como ele a coloca, não é isenta de problemas. Por
exemplo, ele afirma que a mecânica quântica introduziu a consciência no ato de conhecimento
e colocou em xeque o rigor da medição e a distinção forte entre sujeito e objeto. Então, quer
dizer que não havia consciência no ato de conhecimento antes da mecânica quântica? Santos
afirma, a partir da mecânica quântica, um extremado relativismo cognitivo resumido em sua
sentença de que “não conhecemos do real senão o que nele introduzimos”.598 Com base em
quê é possível dizer que ela (a mecânica quântica) tem repercussões tão grandiosas para o
conhecimento e para a relação entre sujeito e objeto em geral?
Santos não apresenta um argumento estruturado com uma ponte feita de premissas
capaz de justificar o salto da mecânica quântica para sua grandiosa conclusão, o que gera
suspeitas, ainda mais por se tratar de alguém que não tem formação alguma em física (ou seja,
possivelmente nem compreende aquilo sobre o qual está a falar para além de um nível básico,
de textos de divulgação científica). Como Santos, também não tenho treinamento em
mecânica quântica, mas posso julgar a veracidade da afirmação, do salto, me informando a

598
SANTOS, 2008, p.44.
213

respeito. Um treinamento em física e em física quântica me tomaria alguns anos, mas posso
de pronto consultar o que a literatura especializada diz a respeito, e confiar na credibilidade
das pessoas envolvidas e nos mecanismos autocorretivos de que as comunidades acadêmicas
dispõem.599 Foi o que fiz.
Na obra “Imposturas Intelectuais”, os físicos Alan Sokal e Jean Bricmont
comentam que “em algumas interpretações – muito discutíveis – da mecânica quântica,
questiona-se a noção de ‘realidade objetiva’ no nível atômico”. Que o leitor me perdoe pela
repetição: o que eles estão a dizer é que há interpretações da mecânica quântica que
questionam a noção de realidade objetiva, mas elas (i) a questionam no nível atômico e (ii)
são, elas próprias, bastante discutíveis.600 Nada mais distante do que a afirmação
grandiloquente de Santos de que a mecânica quântica põe em xeque uma distinção forte entre
sujeito e objeto em todos os níveis.
Neste ponto, parece-me de grande sabedoria e relevância retomar o alerta de Sokal
e Bricmont a respeito da psicologia, e que pode ser aplicado às reflexões mais generalistas
sobre a relação entre sujeito e objeto em ciências humanas e sociais: “Os psicólogos [...] não
precisam apoiar-se na mecânica quântica para sustentar que em seu âmbito de saber ‘o
observador influi no observado’.”601
Santos menciona também o teorema da incompletude, de Kurt Gödel, considerado
por Sokal e Bricmont como “uma fonte inesgotável de abusos intelectuais”.602 Segundo
Santos, o teorema da incompletude, ao lado dos “teoremas sobre a impossibilidade, em certas
circunstâncias, de encontrar dentro de um dado sistema formal a prova da sua consistência”,
vieram mostrar que é possível formular “proposições indecidíveis”, dentre elas “que postulam
o carácter não contraditório do sistema”. Vieram demonstrar, em síntese, “que o rigor da
matemática carece ele próprio de fundamento”; que esse rigor matemático, como “qualquer
outra forma de rigor, assenta num critério de selectividade e que, como tal, tem um lado
construtivo e um lado destrutivo”.603 Novamente, parece que o salto para a grande conclusão,
dado por Santos, não se sustenta. No livro “Teorema de Gödel: um guia incompleto para o seu
uso e abuso”, o matemático sueco Torkel Franzén trata das extrapolações pós-modernas e

599
Faço estes esclarecimentos para que a minha posição não seja confundida com a adesão acrítica a argumentos
de autoridade.
600
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.116.
601
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.207.
602
SOKAL; BRICMONT, 1999, p.116.
603
SANTOS, 2008, p.45-46.
214

teológicas a respeito dos teoremas de Gödel. Num dado momento do texto, afirma o que se
segue:

É tido que a incompletude leva a uma profusão de diferentes teorias consistentes, e


que ninguém sabe onde a verdade – ou “verdade” – pode ser encontrada, logo, a
razão não pode, sozinha, nos colocar no caminho certo [...]. [A] fraqueza dessa linha
de argumento é que não há semelhante ramificação do pensamento matemático em
várias direções, nenhum afundamento [da razão] num mar de indecidibilidade. A
"confusão total" no pensamento matemático é apenas um sonho teológico.604

Mesmo um físico simpático a Santos, Samuel MacDowell (professor de Física da


Universidade de Yale), questiona sua abordagem do teorema de Gödel e sua assertiva de que
“[e]m qualquer sistema matemático podem-se formular princípios que o sistema não permite
determinar se são corretos ou falsos”, salientando que:

[N]a física, as questões que são postas sempre têm respostas bem definidas. Em
particular, um dos mais importantes instrumentos da matemática são as equações
diferenciais derivadas do princípio de mínima ação.

Quer na mecânica clássica, onde as equações diferenciais do movimento são as


equações de Newton, ou de Einstein na mecânica relativística, ou as equações de
Schrödinger na mecânica quântica não relativística ou as de Dirac e de Klein-
Gordon na mecânica quântica relativística, a evolução do sistema físico é obtida a
partir das condições iniciais.

Também o Eletromagnetismo, que é um dos ramos fundamentais da física, é


governado por equações diferenciais, as equações de Maxwell, cujas soluções
dependem das posições e movimento de cargas elétricas e dipolos magnéticos.

Entre estas soluções, é importante destacar as que correspondem à propagação de


ondas eletromagnéticas que incluem em particular a luz visível. Um dos grandes
resultados da Física, obtido por Maxwell, foi a síntese de eletricidade, magnetismo e
fenômenos luminosos através das equações que têm o seu nome.

Portanto, o teorema de Gödel não invalida os princípios fundamentais da física, uma


vez que estes princípios não requerem a formulação de questões para as quais não há
respostas bem definidas. Convém mencionar que o Princípio de Incerteza de
Heisenberg – que estabelece que a posição e o momento de uma partícula (ou
qualquer par de variáveis conjugadas) não podem ser determinados
simultaneamente, invalidando, portanto, o sistema clássico da mecânica newtoniana
– dá origem à interpretação probabilística da mecânica quântica, cujas leis de
movimento são determinadas pela função de onda. Entretanto, a evolução da função
de onda no tempo é governada por equações diferenciais cuja solução depende de
condições iniciais satisfazendo o princípio de causalidade.605

As considerações acima a respeito do uso da mecânica quântica e do teorema da


incompletude de Gödel por Santos apontam extrapolações indevidas e desrespeito à
autonomia das ciências humanas e sociais, e sugerem que talvez Santos não conheça
suficientemente bem as teorias e conceitos das ciências exatas e naturais que menciona. Esta

604
FRANZÉN, 2005, p.95.
605
MACDOWELL, 2004, p.536-537.
215

última hipótese ganha força em virtude de Santos não ter formação nas referidas ciências 606, e
por ser bastante difícil que alguém possua conhecimento suficiente de teorias complexas607 de
áreas tão diferentes – física, química, matemática, biologia... – num nível que o permita tirar
conclusões que nem os especialistas de cada área aceitam, de modo geral, como válidas.
Apenas para ilustrar o último raciocínio, enquanto Santos escreve dando ao seu leitor a forte
impressão de que o autor conhece e transita bem em todas as áreas em questão, alguém que
comprovadamente causou e continua causando enorme impacto nas ciências humanas e nas
ciências exatas, sendo uma referência fortíssima em ambas age de forma diferente. É o caso
de Noam Chomsky, talvez um nome único em termos de conhecimento e reconhecimento nas
diferentes disciplinas, costuma ter extremo cuidado ao comentar teorias e ideias de áreas
diferentes e não vê problema algum em reconhecer as limitações do seu próprio conhecimento
de disciplinas variadas.
Ao abordar as condições sociais da crise que julga ter identificado, Santos diz que
o que a ciência ganhou em rigor, perdeu em capacidade de autorregulação, construção
ambígua que permite a interpretação insubsistente de que haja uma relação forte entre uma
coisa e outra, i.e., que o ganho em rigor necessariamente traga consigo o compromisso com os
centros de poder econômico, social e político. E a posição de Santos parece mesmo depender
da existência de relações como essa, pois seria uma forma (insubsistente) de enfrentar o
problema do salto de críticas a aspectos de como a ciência é feita para o rechaço da
metodologia científica e da racionalidade: algo como “o preço dos ganhos em rigor é o
compromisso com os centros de poder econômico, social e político”.
De fato, anos depois do “Discurso sobre as Ciências”, Santos procurou atribuir
práticas históricas de colonização, violência e exclusão social ao próprio pensamento, dizendo
que o “pensamento ocidental” opera por “linhas abissais que dividem o mundo humano do
sub-humano” e propondo uma mudança no pensamento como forma da superação dos
problemas: um “pensamento pós-abissal” que parta da ideia de que a diversidade do mundo
precisa ser provida de uma epistemologia adequada.608 É interessante notar que Santos cita o
filósofo latino-americano Enrique Dussel entre muitos outros e marginalmente, quando ideias
parecidíssimas foram defendidas por Dussel, mas usando outros termos. Segundo Dussel, a

606
Cf. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 2016 (currículo biográfico de Santos).
607
Como já destacado, Santos menciona teorias tão distintas quanto a sinergética de Haken, o conceito de
hiperciclo e teoria da origem da vida de Eigen, o conceito de autopoiesis do Maturana e Varela, a teoria das
catástrofes de Thom, a teoria da evolução de Jantsch, a teoria da “ordem implicada” de David Bohm e a teoria
da matriz-S de Chew.
608
SANTOS, 2007.
216

Modernidade tem um conteúdo primário e positivo conceitual de emancipação racional como


saída da imaturidade através da razão. Ambígua e simultaneamente, apresenta também um
conteúdo secundário e negativo mítico de justificação de uma práxis irracional de violência609.
O mito da Modernidade se inicia empiricamente quando o europeu vivencia uma suposta
superioridade a partir da dominação e destruição dos povos ameríndios, do “encobrimento do
Outro”. O ano de 1492 seria o nascimento da Modernidade, a materialização do mito da
Modernidade e suas facetas610. Antes de cometer os massacres nas Américas, a Europa não se
entendia como centro da história, sendo uma cultura isolada que fracassou nas Cruzadas611.
Como discurso de legitimação para o chamado primeiro genocídio da Modernidade, em um
processo de racionalização próprio da Modernidade, elaborou-se um mito de bondade, um
“mito civilizador”, com o qual o europeu justifica sua violência e se declara inocente pelo
assassinato do Outro612, ou seja, encobre a práxis irracional de violência negando-a. A partir
do descobrimento e superação do “mito civilizador”, do eurocentrismo da razão ilustrada, nas
palavras de Dussel, quando eticamente se descobre a dignidade do Outro, finalmente teríamos
uma razão libertadora. Não seria um projeto pré-moderno ou pós-moderno, mas
“transmoderno”, em um processo de correalização de solidariedade, chamado “analética”, do
Centro / Periferia, Cultura Ocidental / Culturas do Mundo, Humanidade / Terra.613
O que pode ser dito para associar conceitualmente razão e violência? O martelo
pode ser empregado para ajudar a construir uma casa para que uma família pobre tenha onde
se abrigar, e pode também ser usado para torturar um ser humano. Nem por isso, acusamos o
martelo. As metodologias científicas são, do mesmo modo, ferramentas. Podem ser usadas
para promover e para justificar a violência614, e também para criticá-la e propor maneiras
racionais de superá-la. O que Santos, Dussel o qualquer antirracionalista podem oferecer
como justificativa para associá-las necessariamente à violência e à exclusão? Quando muito, o
argumento de que a ciência exclui outras formas de saber. Mas, a rigor, quem opera isso são
pessoas, e não o raciocínio e suas regras. O que integra a ciência é o julgamento da validade

609
DUSSEL, 1993, p. 185.
610
DUSSEL, 1993, p. 188.
611
DINIZ, 2005, p.61.
612
DUSSEL, 1993, p.58-59.
613
DUSSEL, 1993, p.186-190.
614
Sobre a questão da justificação, continua correta e atual a reflexão condensada de Chomsky: “Não
esqueçamos de como uma ideologia se afirma. Para dominar, a violência não basta. É preciso uma justificativa
de outra natureza. Assim, quando uma pessoa exerce poder sobre outra, seja um ditador, um colonizador, um
burocrata, um patrão ou um marido, ele precisa de uma ideologia justificadora, que sempre redunda na mesma
coisa: a dominação é exercida para ‘o bem’ do dominado. Em outras palavras, o poder se apresenta sempre
como altruísta, desinteressado, generoso.” CHOMSKY, 2007.
217

das crenças sobre o mundo, sem o qual nenhum avanço seria alcançado. Não há, aí,
obrigatoriamente, exclusão social. Bem manejada, a ferramenta aponta apenas as formas
melhores que encontramos de alcançar alguns objetivos, como o de conhecer eficazmente o
mundo que nos cerca. Disso não decorre a negação da relevância de outros objetivos, como a
construção de sociedades mais tolerantes e menos violentas, nem das práticas que possam
conduzir a eles, como a valorização da diversidade (que muito pode ganhar com o uso de
instrumentos científicos e racionais).
A crítica feita por Santos às leis da natureza também guarda imprecisões. Quando
ele diz que as leis da natureza baseiam-se num conjunto pequeno de condições que obriga a
“separações grosseiras” entre os fenômenos observados, não há uma definição precisa e
aproveitável do que ele entende por “separações grosseiras”. A crítica que faz ao
conhecimento baseado em leis, considerando-o como imperfeito, probabilístico, aproximativo
e provisório, “bem expresso no princípio da falsificabilidade de Popper”615, é objeto de pelo
menos três observações críticas:
I. Dizer que o conhecimento científico, seja ele expresso em leis ou não, é
“imperfeito” e “provisório” é um truísmo que nada acrescenta à análise crítica da ciência.
Uma das formas mínimas de se caracterizar a ciência é exatamente entendê-la por oposição à
noção de dogma, i.e., no sentido de conhecimento que se assume por definição como
provisório, imperfeito, aberto a críticas, refutações e reformulações.
II. Colocar a imperfeição e o caráter provisório da ciência num contexto de crítica,
ou seja, como um problema, num texto que se propõe a identificar o paradigma hegemônico e
apontar o paradigma emergente, convida a pergunta: um conhecimento definitivo e perfeito é
possível, é desejável, é atingível pela tal ciência pós-moderna? Não há razões para acreditar
numa resposta afirmativa em nenhum dos aspectos indicados.
III. A relação entre o caráter probabilístico, aproximativo e provisório das leis e o
falseabilismo de Popper, indicada por Santos, não é justificada por ele, e é só parcialmente
correta, porque o caráter probabilístico não necessariamente se relaciona com a ideia de que
teorias científicas são falseáveis (i.e., podem existir experimentos ou observações cujos
resultados possam ser capazes de refutá-las).

615
SANTOS, 2008, p.51.
218

As leis são acusadas por Santos de serem uma “simplificação arbitrária da


616
realidade”. Simplificação, em algum sentido podem até o ser, como qualquer teoria
científica o é. Mas, “arbitrária”? Por qual razão?
A razão parece ser, segundo o texto de Santos, a de que a simplicidade das leis da
natureza nos priva de “outros conhecimentos”, “provavelmente mais ricos e com mais
interesse humano”. São muitas as dúvidas em aberto. Quais outros conhecimentos? Por que
são provavelmente mais ricos e com mais interesse humano? E por que mesmo as leis nos
privam desses outros conhecimentos? Sobre a última, existe uma grande diferença entre
afirmar uma forma de conhecer e negar todas as outras.
Para melhor ilustrar o que quero dizer com isso, ao falar sobre a Lua a partir de
uma lei que explica seus movimentos, o astrofísico não proíbe o poeta Mário Quintana de
propor, poeticamente, um epitáfio para o grande poeta e músico Catulo da Paixão Cearense
com os dizeres: “Catulo da Paixão Cearense não morreu: Luarizou-se.”617 E muito menos
censura o próprio Catulo (ou teria sido João Pernambuco?) de cantar que “Não há, ó gente, ó
não, luar como esse do sertão!”618
É sugerida pelo texto de Santos também uma relação entre o “declínio da
hegemonia da legalidade” e o “declínio da hegemonia da causalidade”. Aparentemente, um e
outro caem por serem peças cruciais do paradigma hegemônico, mas a ciência sempre foi
mais do que a causalidade e do que as leis. Sobre as últimas, a ciência sempre trabalhou e
diferentes disciplinas científicas, inclusive no âmbito das ciências sociais, continuam a
trabalhar com diferentes tipos de afirmação que incluem a lei e outros.
Neste sentido, Annemarie Zand Scholten, professora de metodologia das ciências
sociais da Universidade de Amsterdã (UvA – University of Amsterdam), aponta diferenças
entre as afirmações científicas: algumas explicam mais fenômenos do que outras; algumas
fornecem mais descrições ou explicações plausíveis do mundo à nossa volta; algumas são
mais certas ou contam com apoio maior de evidências. Ademais, propõe uma sistematização
que as organiza em quatro tipos principais [segundo um grau de generalidade]: observações;
hipóteses; leis; teorias.619

616
SANTOS, 2008, p.51.
617
QUINTANA, 2009 [1994], p.113.
618
LUAR DO SERTÃO, 2016.
619
SCHOLTEN, 2016.
219

Quadro 20 - Tipos principais de afirmações científicas


TIPOS PRINCIPAIS DE AFIRMAÇÕES CIENTÍFICAS
OBSERVAÇÃO
Consiste, essencialmente, numa representação (precisa ou não) do mundo.
Sozinha, não informa tanto; não descreve uma relação geral entre propriedades, e não explica nada.
Ainda assim, é muito importante; é o “tijolo” que as ciências empíricas usam na construção do
conhecimento.
Torna-se especialmente útil quando servem para confirmar ou refutar uma hipótese.
HIPÓTESE
Afirmação que descreve um padrão ou uma relação geral entre propriedades.
Além de descrever, uma hipótese também pode explicar um padrão.
A plausibilidade de uma hipótese varia muito, do muito incerto / inseguro (very uncertain) ao muito
seguro (very certain).
Uma hipótese incerta ou insegura é aquela que ainda não se apoia em evidências; uma hipótese muito
segura é aquela que se apoia em um número grande de evidências, por muitos estudos empíricos
diferentes.
LEI
Tipo especial de hipótese que traz descrições muito precisas de relações ou padrões, usualmente
expressas em equações matemáticas e fortemente apoiadas em evidências (daí decorre o grau de
precisão das suas descrições).
Contudo, leis costumam apenas descrever, i.e., normalmente não explicam as relações descritas.
Nas ciências sociais, quase nunca se formulam leis, especialmente porque ainda compreendemos muito
pouco sobre pessoas e grupos de pessoas a ponto de especificar padrões de comportamento com
tamanho grau de precisão.
TEORIA
Termo polissêmico. No âmbito das relações cotidianas, costuma ser somente uma afirmação infundada
(unsubstantiated statement) ou um palpite simples. No campo científico de maneira geral, refere-se a
uma explicação bastante abrangente de muitos fenômenos inter-relacionados; ao mais bem estabelecido
tipo de explicação, àquilo de mais próximo da certeza ou da verdade que um cientista pode ter (no
campo científico, não há verdadeiramente certezas ou verdades estabelecidas, mas apenas a melhor
explicação do momento, provisória por definição).
Nas ciências naturais, em particular, teorias são hipóteses com forte apoio em evidências empíricas.
Nas ciências sociais, nas quais abordagens qualitativas e históricas têm maior impacto e abrangência,
uma teoria é tida como altamente plausível quando resistiu a tentativas de refutação baseadas em
fundamentos lógicos ou em análise histórica / qualitativa.
FONTE: Elaboração própria a partir de: SCHOLTEN, 2016.
220

Quanto à causalidade, ela não resume a empreitada científica, que considera seus
limites, as falácias causais, e também a distinção entre causação e correlação620; mas continua
sendo bastante útil para o conhecimento, valendo lembrar, mais uma vez, o que disseram
Sokal e Bricmont sobre a validade das teorias deterministas em determinado âmbito, mesmo
diante do caráter probabilístico dos “habitantes” do mundo atômico.621 Ao fim e ao cabo, o
próprio Santos elogia a ideia de causalidade ao dizer que ela é adequada para a ciência “que
visa intervir no real e que mede o seu êxito pelo âmbito dessa intervenção”.622
Os ataques de Santos à distinção entre sujeito e objeto também poderiam ser mais
claros. Segundo ele, a dualidade e a ciência que nela se baseia transforma a natureza num
autômato ou num “interlocutor terrivelmente estúpido”, o que prejudica o próprio cientista ao
reduzir seu diálogo experimental. Ao quantificar os fenômenos, os desqualifica; ao objetivá-
los, os objetualiza e os degrada; ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza; ao afirmar a
personalidade do cientista, destrói a personalidade da natureza. Santos também chama esse
conhecimento de desencantado e “triste”.623
É de difícil compreensão o que Santos quer dizer, e como isso realmente ocorre.
Também não encontro no texto nenhum argumento sólido a favor do abandono de uma ideia
tão importante quanto a de que a distinção entre sujeito e objeto e a busca por mitigar as
interferências do sujeito no objeto estudado podem conduzir a um conhecimento mais
consistente e confiável da realidade.
Ademais, a ideia de natureza como um autômato parece ser mais um sinal de que
Santos toma a ciência como um todo por uma de suas filosofias, a filosofia mecânica. À parte
disso, o que ele quer dizer com a natureza como interlocutor, e o que quer dizer com diálogo
experimental? A falta de precisão do texto convida o leitor a considerar a interpretação
possível de que haveria aí a sugestão de algum tipo de antropomorfismo. A hipótese ganha
fôlego diante do fato de Santos falar sobre a personalidade da natureza e defender, no mesmo
texto, que a ciência pós-moderna mostrará o mundo natural e social como um texto, como um
jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia.624 A antropomorfização cai bem na
poesia, e não consigo pensar em melhor testemunha disso do que a obra do mestre pantaneiro
Manoel de Barros. Sua adoção na explicação da natureza não nos levou muito longe: foi a

620
Para uma abordagem bastante didática do raciocínio causal, das falácias causais e da distinção entre causação
e correlação, ver: SINNOTT-ARMSTRONG; NETA, 2015.
621
SOKAL, BRICMONT, 1999, p.206.
622
SANTOS, 2008, p.52.
623
SANTOS, 2008, p.53-54.
624
SANTOS, 2008, p.79.
221

ciência moderna que nos levou à Lua, não a mitologia grega, pré-ciência que explicava o Sol
como um deus antropomórfico numa carruagem de fogo.
Numa conferência em 2014, Santos chegou a dizer: “Se eu preciso ir à Lua,
preciso do conhecimento científico; se eu preciso preservar a biodiversidade na Terra, preciso
do conhecimento indígena.” Posso concordar com isso. Sou também capaz de reconhecer nas
culturas que tratam o planeta como uma mãe, como a pachamama, potenciais predicados
importantes na relação com a natureza. Mas não preciso questionar a ciência para isso, não
preciso abrir mão dela, e raciocínios causais ou correlacionais podem muito bem me ajudar a
compreender as virtudes das culturas ambientalmente sustentáveis, primeiro passo para
espalhá-las.

7.4. PÓS-MODERNISMO E CIÊNCIA DO DIREITO

Os anseios por uma ciência que seja menos subordinada ao poder político e
econômico e mais voltada às necessidades humanas, mais aberta e menos discriminatória são
legítimos, e podem ser validamente transpostos para a ciência jurídica, que muito tem a
ganhar se puder contribuir mais com a emancipação humana do que com a sua subjugação. O
mesmo não pode ser dito do relativismo moral e cognitivo característico do pós-modernismo
(no caso do “Discurso Sobre as Ciências” de Santos, sobretudo o último se faz presente, i.e., o
relativismo cognitivo).
O relativismo cognitivo pode, inclusive, prejudicar pautas progressistas, como
bem apontaram Alan Sokal e Bricmont. “Se todo discurso não é mais que um “relato” ou uma
“narrativa” e se ninguém é mais objetivo ou mais verdadeiro que o outro,” afirmam estes
autores, “então não há outro remédio a não ser admitir que as teorias socioeconômicas mais
reacionárias e os piores preconceitos racistas e sexistas são ‘igualmente válidos’.” É por isso
que consideram como óbvia a constatação de que o relativismo é um fundamento
extremamente fraco para erigir uma crítica da ordem social estabelecida.625
A ideia de que a verdade, incluindo a verdade científica, é sempre decorrente de
“regimes de verdade” inextricavelmente ligados ao poder, reflete basicamente um exagero
enorme a partir de algo real. Há um certo truísmo de que sistemas de poder provocam algum
efeito sobre como a ciência procede. Exemplo extremo disso é a biologia estalinista.626 Há

625
SOKAL, BRICMONT, 1999, p.226.
626
Nikolai Ivanovich Vavilov (1887-1943), foi um botânico e geneticista russo perseguido pelo Estado: “O
pseudocientista Trofim Denissovich Lysenko (1898-1976) argumentava que o estudo da genética era uma
pseudociência burguesa que procurava dar justificativa biológica as diferenças de classe, e que aplicando o
222

outros: a influência de empresas em testes de medicamentos, os limites profissionais impostos


aos próprios acadêmicos etc. Tudo isso é verdade. O próprio Chomsky, por exemplo, sofreu
isso na pele, quando não conseguiu publicar, nos anos 1950, seu primeiro livro porque seu
conteúdo entrava muito em conflito com ideias aceitas na época. Enfim, tudo isso é real, mas
não reflete o todo da prática da ciência. São eventos marginais, e há procedimentos
autocorretivos que não são perfeitos, mas funcionam muito bem.627
Numa sessão de perguntas e respostas ocorrida no Théâtre National Raison em 19
de março de 2011, Noam Chomsky fez comentários esclarecedores a respeito do relativismo
moral628, resumidos a seguir:
• Enquanto conceito, “relativismo moral” abarca um espectro amplo. Há coisas
sobre ele que são evidentemente verdadeiras, incontroversas, como, e.g., a afirmação de que
normas éticas variam no tempo e no espaço. Esta, aliás, é uma observação fática que ninguém
nega. Similarmente, outros aspectos sobre nós mesmos variam enormemente, como nossos
sistemas visuais, que podem se diferenciar bastante uns dos outros de acordo com a
experiência prévia de cada um. Nós somos organismos biológicos, e todo sistema biológico
pode variar muito, dependendo da experiência. Isso não é controverso, e abrange também
valores morais.
• Há uma tendência de partir do que é incontroverso para incorrer naquilo que é
incoerente: dizer que valores morais podem variar no tempo e no espaço, e daí afirmar
também que valores morais podem variar ilimitadamente. Essa crença é literalmente
incoerente. Baseia-se na suposição de que valores morais refletem a cultura, o que levanta a
questão: como uma pessoa adquire sua cultura? Ela não é adquirida por meio de uma pílula e
um copo d’água, mas pela observação de um conjunto bastante limitado de comportamentos e
ações a partir do qual cada um constrói, mentalmente, o conjunto de comportamentos e de
crenças que constituem sua cultura. Esse ato é muito semelhante à forma pela qual adquirimos

materialismo dialético, era possível chegar ao triunfo da ciência proletária sobre a ciência burguesa. A
influência de Lysenko sobre a política agrária soviética se estendeu desde 1929 a 1948. Enquanto Vavilov
procedia de una família abastada, Lysenko era filho de um camponês ucraniano, o qual, para os dirigentes
bolchevistas, o colocava num sítio privilegiado. O ano 1936 marca o início de uma campanha oficial de
propaganda a favor do "lysenkoismo". Bujarin deixa de ser diretor do Instituto da Ciência e a Tecnologia, e
depois é expulso da Academia de Ciências da Rússia, condenado e executado. Vários biólogos comunistas são
presos e o Congresso Internacional de Genética, que devia reunir-se em Moscou em 1937, foi cancelado e os
geneticistas denunciados como "sabotadores trotskistas". Em 1938, Lisenko é designado presidente da
Academia de Ciências Agrícolas. Em 1940 Vavilov é condenado à morte, depois se lhe comutou a pena por
prisão perpétua e foi deportado a Sibéria... foi sua primeira morte civil. Fisicamente morreu em 1943.” Cf.
NIKOLAI VAVILOV, 2016.
627
CHOMSKY, 2015 [2013].
628
CHOMSKY, 2015 [2013].
223

a linguagem, desenvolvemos nosso sistema visual ou encontramos uma teoria científica: é


uma questão de dar um grande salto, de dados dispersos para a alta complexidade. Indivíduos
variados só podem ser capazes disso se compartilharem uma ampla estrutura inata, que
confere possibilidades e limites. Uma pessoa só pode desenvolver um sistema visual humano,
e não de um inseto, por haver instruções genéticas bastante específicas. O mesmo vale para a
aquisição da linguagem, da habilidade aritmética ou da cultura como um todo (o que inclui os
valores morais).
• A forma mais extrema de relativismo moral está na verdade comprometida com
valores universais sobre a existência, quais sejam, os que estabelecem a moldura (frame) no
qual o grande salto se dá. Isso porque, ao reconhecer variações, na verdade o relativismo
reconhece a moldura de possibilidades a ela subjacente. Ademais, o próprio relativismo é uma
das possibilidades.
• Debater o relativismo moral é difícil; é como debater o ceticismo radical. É
possível debatê-los num seminário de filosofia, mas não há céticos radicais, nenhum ser
humano pode ser cético e sobreviver. O mesmo se dá com o relativismo moral: não há
relativistas. Há pessoas que o professam, ele é debatido abstratamente, mas ele não existe na
vida comum.
• Temas como a escravidão, subjugação de mulheres e a repressão de
homossexuais confirmam a fraqueza do relativismo moral e também a possibilidade de
progresso moral.629

629
Numa análise não de outras culturas, mas da nossa própria, é possível perceber que não faz muito tempo
escravidão, subjugação de mulheres, repressão de homossexuais eram práticas perfeitamente aceitáveis. Há
poucas décadas atrás, quando Chomsky era estudante de pós-graduação, o governo britânico chegou inclusive
a matar um matemático e herói de guerra, Alan Turing, ao forçá-lo a um tratamento para curar sua
homossexualidade, vista como uma doença. Hoje, isso seria inaceitável. Nossos valores morais avançaram.
Nossa esfera moral expandiu-se. Quanto à subjugação de mulheres, apesar de ainda haver muito a ser feito, os
últimos trinta ou quarenta anos foram marcados por mudanças muito significativas, catalisadas pela militância
de grupos voltados a aumentar a conscientização das pessoas a respeito do problema, mostrando como coisas
tidas como normais e aceitáveis na verdade não o eram. E a mesma coisa se deu aqui: uma expansão da nossa
esfera moral. A escravidão, por sua vez, ainda existe no mundo, e segundo estimativas oprime trinta milhões
de pessoas. Ainda assim, houve avanços inquestionáveis. A escravidão é amplamente tida como inaceitável e
repreensível. O debate em torno da escravidão enseja um outro ponto importante: o de que existem desacordos
morais que podem ser debatidos, que podem ser enfrentados racionalmente. As pessoas não precisam gritar
umas com as outras. Elas podem examinar argumentos, buscar alguma convergência (common ground),
alcançar conclusões. A superação da escravidão no Ocidente envolveu precisamente intensos debates morais.
Há sempre uma base fixa sem a qual o indivíduo não consegue nem adquirir cultura, e é uma base estritamente
determinada; é ela que nos dá nossos valores morais. Existe progresso moral, e ele é perceptível na nossa
própria cultura e história. Os exemplos dados ilustram fortemente isso, são evidências – porque nos assuntos
humanos não há provas, não os compreendemos o suficiente –; de algum modo, estamos a penetrar mais
profundamente nos nossos próprios valores normativos reais e expandindo nossa esfera moral. Cf.
CHOMSKY, 2015 [2013].
224

A incorporação do relativismo moral e cognitivo pela Ciência do Direito levaria a


resultados desastrosos do ponto de vista metodológico e institucional.
Metodologicamente, a Ciência do Direito é um saber que pode e deve ser racional.
Mesmo em casos difíceis630, e creio que especialmente neles, é possível discernir entre
respostas melhores e piores segundo as razões apresentadas e em que medida são capazes de
se aproximar de ideais ou valores epistêmicos, como a adequação ao direito positivo e a
realização dos direitos humanos e da justiça a eles subjacente, e também a transparência
argumentativa.
Institucionalmente, o papel central que a moral desempenha no Direito e na
interpretação e argumentação jurídica, além de ingrediente para a racionalidade das respostas
jurídicas (em negação ao relativismo cognitivo), contraria o relativismo moral.
Particularmente, um jurista que se afirme um relativista moral ao propor uma solução para
uma dúvida jurídica é contraditório, pois toda solução envolve juízos de valor, além de não
ser transparente (esconde suas preferências valorativas, prejudicando com isso o valor
epistêmico da transparência, indispensável para a refutabilidade). Ademais, e numa linha
próxima da de Chomsky, pondero: se o relativismo cognitivo e moral pudesse ser levado a
sério, levaria o jurista à imobilidade.

630
Para Luís Roberto Barroso, casos fáceis são aqueles em que há solução pré-pronta no ordenamento jurídico.
Casos difíceis são aqueles em que o intérprete precisa construir argumentativamente uma solução, valendo-se
da normatividade dos princípios, equacionando a colisão de direitos fundamentais e demais normas,
ponderando valores contrapostos e potencializando a argumentação jurídica. Cf. BARROSO, 2014.
225

8 A PAISAGEM CIENTÍFICA
8.1. CONTEÚDO MÍNIMO DA CIÊNCIA

Os capítulos anteriores ilustram as muitas divergências existentes em torno do


conceito de ciência. Ainda assim, há traços comuns às diferentes disciplinas científicas cuja
reunião denominarei aqui, não sem algum receio (justificado), de conteúdo mínimo da
ciência.
Há uma pluralidade enorme de métodos, técnicas, preocupações e objetos típicos
entre os diferentes saberes que comumente se pretendem científicos, e essa pluralidade se
manifesta historicamente dentro de cada saber. O que pode ser essencial para um saber, pode
não o ser para outro, sem que isso signifique que um seja científico e o outro não ou que um
seja superior ao outro; assinalo apenas a existência de diferenças que inviabilizam qualquer
tipo de monismo metodológico. Mesmo na Física, modelo de cientificidade para os
epistemólogos naturalistas, uma característica como a experimentação parece ser mesmo
indispensável para a validade das investigações da chamada Física experimental, mas
aparentemente não para a Física teórica, ao menos não diretamente ou em prazo curto.631 E
certamente a experimentação não será importante para as investigações matemáticas
conduzidas por Arthur Ávila, por exemplo.632
A tarefa da demarcação do que é ciência e do que não é não pode fechar os olhos
para essa realidade. Mas, afinal, a ciência não seria, grosso modo, um arranjo complexo de
teoria e observação / experimentação? Não é isso que a diferencia da filosofia, onde a
preocupação com evidências não ocuparia o primeiro plano?
Há críticas que podem ser feitas às perguntas, porém, mais decisivamente, há
muitos riscos envolvidos nas respostas a elas e à grande pergunta da demarcação. As minhas

631
FÍSICA TEÓRICA, 2016.
632
Em um texto brilhante sobre a rotina de Arthur antes de ele ser o primeiro brasileiro a ganhar a Medalha
Fields, João Moreira Salles assim se referiu à matemática: “Um teorema não pode ser desfeito, escreveu o
grande matemático inglês G. H. Hardy. A matemática é a única ciência que lida com a verdade, o que se
comprova em qualquer biblioteca: a literatura matemática é perene, enquanto a das outras ciências se torna
rapidamente obsoleta. Dois mil anos de história não acrescentaram uma ruga ao teorema de Pitágoras. Salvo
por interesse histórico, ninguém mais estuda o sistema solar de Ptolomeu. Já Euclides continua de pé. A
matemática funciona por acúmulo, e não por substituição. A validade permanente das verdades matemáticas se
relaciona com o fato de ela estar apartada do mundo real, fora do tempo e das circunstâncias do universo. O
matemático e filósofo francês Henri Poincaré escreveu que a descoberta matemática é o processo mental que
menos toma de empréstimo elementos do mundo exterior. A mente se alimenta da mente. O início clássico de
um tratado de geometria diz: “Vamos considerar três sistemas de coisas. As coisas que compõem o primeiro
sistema nós as chamaremos de pontos; o segundo, de linhas; o terceiro, de planos.” Coisas. A matemática
obriga a lidar com os objetos mais remotos e inumanos que a mente dos homens já concebeu, diz o belga
David Ruelle.” SALLES, 2010.
226

leituras sobre as ciências e sobre a Filosofia da Ciência me trouxeram cautela e humildade. A


resposta mais grandiosa pode ser mais vistosa e, na verdade, acabar sendo como um balão
enorme, colorido e majestoso, mas que não sai do chão senão em ilusões de retórica. Melhor a
resposta segura, modesta; grandeza maior é a da solidez.
Autores de diferentes modos de pensar, como Noam Chomsky, o biólogo Richard
Dawkins e a cientista social Annemarie Scholten procedem de maneira parecida ao destacar
elementos que, no meu entender, compõem o conteúdo mínimo da ideia de ciência.
Chomsky associa a ideia de ciência a recomendações metodológicas gerais, como:
respeitar os cânones da racionalidade (não incorrendo, e.g., no auge da irracionalidade, i.e.,
aquilo que Orwell chamou de “duplipensar”: a capacidade de ter na mente duas ideias
contraditórias ao mesmo tempo e de acreditar em ambas); ter compromisso com consistência
(coerência e fundamentação dos argumentos) e com fatos633; buscar aquilo que é importante a
partir de uma moldura de compreensão sem deixar de se manter cético (no sentido de ter
sempre em mente que existe a chance de sua crença não estar correta); abrir-se para críticas,
levá-las a sério, examinadando-as com cuidado; escrever textos inteligíveis, com argumentos
claros e, sempre que possível ou pertinente, com o apontamento das evidências concernentes
(por exemplo, estudos históricos e sociais com a indicação e eventual anexação de
documentos e outras fontes).634
No livro “O Capelão do Diabo”, o cientista britânico Richard Dawkins publicou
uma carta que escreveu para sua filha Juliet quando ela tinha dez anos, intitulada “Boas e Más
Razões para Acreditar”. É uma exposição bastante didática do que ele entende por ciência.
Em resumo, evidências são boas razões para acreditar em algo: sejam aquelas percebidas
pelos sentidos, sejam as que são interpretadas conjuntamente para chegarmos a uma verdade.
No caso de um homicídio, por exemplo, é comum que ele não tenha sido observado
diretamente por ninguém além do morto e do assassino. Assim, o detetive busca reunir muitas
outras observações, que, assim, possam apontar suspeitos e, quem sabe, até mesmo um
provável responsável. Por isso, Dawkins diz que os cientistas, “especialistas em descobrir o
que é verdadeiro sobre o mundo e o universo”, comumente trabalham como detetives. Eles
dão um palpite sobre o que deve ser a verdade: a hipótese. Então, eles passam a imaginar
quais seriam as evidências que deveriam existir, caso a hipótese seja verdadeira. É a chamada

633
Quando esse compromisso se faz necessário, quando há alguma relação entre fatos e o saber em comento,
acrescento eu.
634
CHOMSKY, 2014 [1992]; CHOMSKY, 2015 [2010]; CHOMSKY; SACKUR, 2009; CHOMSKY, 2012
[1995].
227

predição científica. Se admitirmos que a Terra é redonda, então é possível prever que, se
viajarmos em volta dela, eventualmente voltaremos ao nosso ponto de partida. O trabalho de
diagnóstico de uma doença funciona da mesma forma: os sintomas são evidências; o médico
parte da hipótese de uma determinada doença, prevê sintomas e busca identificá-los, seja
através da observação direta, seja por meio de exames que ajudam os seus sentidos na feitura
de observações (como o raio-X).635
Contrapondo-se às evidências, há três más razões para acreditar, sobre as quais é
preciso advertir: a “tradição”, a “revelação” e a “autoridade”636:
• O conhecimento tradicional, para Dawkins, seria aquele que não guarda relação
alguma com evidências, e que é aceito apenas porque foi repassado de geração em geração
durante um período considerável de tempo, como se a perpetuação de uma estória no tempo
fosse capaz de torná-la mais verdadeira.
• O conhecimento revelado, por sua vez, seria aquele que não tem qualquer
compromisso com evidências para além do relato de quem revela a verdade: para ilustrá-lo,
Dawkins relata uma situação hipotética em que conta à sua filha que seu cachorrinho Pepe
havia morrido, e ela, muito triste, ao perguntar a ele “Pai, o Sr. tem certeza disso?”, recebe,
como resposta: “Na verdade, não tenho certeza. Tenho apenas um sentimento estranho, dentro
de mim, algo que me diz que ele está morto”. Nessa situação, diz Dawkins, sua filha
certamente ficaria brava por ele tê-la assustado dessa forma, porque ela saberia que um
“sentimento” não é, por si só, uma boa razão para acreditar que o cãozinho está morto.
• Por fim, o conhecimento advindo da autoridade é aquele que impõe que se deve
acreditar em algo apenas porque foi dito por alguém importante.
Annemarie Zand Scholten, professora de metodologia das ciências sociais da
Universidade de Amsterdã, apresenta posição similar à de Dawkins ao apregoar a importância
do método científico pela comparação com os métodos não científicos nos quais as pessoas
costumam se afiançar no dia a dia.
Uma das bases do conhecimento comum é a intuição ou crença em si considerada;
acreditar fortemente em alguma coisa devido a um sentimento ou intuição que faz com que a
pessoa “saiba” que aquilo é verdadeiro. Outras duas bases recorrentes são a do consenso ou
vontade da maioria (acreditar em algo porque muitas pessoas também acreditam na mesma

635
DAWKINS, 2003, p.242-243.
636
DAWKINS, 2003, p.242-246.
228

coisa) e a da opinião da autoridade (acreditar em algo porque dito por uma figura de
autoridade, como políticos, cientistas, especialistas etc.).637
Todas elas são falhas. Apenas sentir, acreditar ou intuir não faz com que a coisa
seja verdadeira (coisas nas quais acreditamos fortemente podem simplesmente ser falsas),
além de não fornecer nenhum critério para decidir, no caso de conflito de crenças ou
intuições, qual delas deve prevalecer. Tampouco a existência de um consenso ou de uma
maioria é razão suficiente: o fato de muitas pessoas acreditarem em algo não é razão, por si
só, que ateste que a crença em questão seja verdadeira, e a própria história mostra que o
consenso esteve muitas vezes equivocado (como ilustra, e.g., o fato de muitas pessoas terem
acreditado durante muito tempo que o nosso planeta é plano). Ademais, Scholten critica o
embasamento de crenças na opinião de uma autoridade por ela ser carente de objetividade em
virtude de duas razões: primeiro, porque a opinião de uma autoridade continua sendo
“apenas” uma opinião, e autoridades também se equivocam; segundo, porque pode haver um
conflito de interesse que torna enviesada a opinião da autoridade – v.g., interesse próprio de
manter-se como autoridade, de reforçar sua posição e imagem pública; outros interesses
pessoais; interesses de clientes; etc. Autoridades têm contra si a desconfiança decorrente do
fato de que comumente buscam que suas opiniões sejam aceitas em virtude de possíveis
ganhos pessoais.638
A melhor forma de resolver conflitos de opinião, dirá Scholten, é por meio de
evidências. Há diferentes formas de busca por evidências, umas mais, outras menos objetivas.
A interessante síntese de Scholten inicia-se pela forma mais básica de busca por evidências, a
observação casual, que, apesar de ser superior aos métodos ou formas não científicas, acaba
sendo limitada por comumente padecer de dois problemas: a observação seletiva (pessoas não
são boas observadoras, tendem a observar seletivamente e a se lembrar mais das coisas que
estão de acordo com suas crenças); erros lógicos (nossa “lógica informal”, nosso raciocínio
cotidiano, frequentemente distorcido por falácias e similares).639
Um pensamento preciso, um raciocínio acurado, não pode repousar nem em fontes
não verificáveis (crenças, opiniões, opiniões majoritárias...), nem em fontes sujeitas a pesadas
distorções causadas pela nossa subjetividade (observação casual, lógica informal). São
subjetivas demais e sujeitas a falhas. É aí que entra o fazer científico, associado por Scholten

637
SCHOLTEN, 2016.
638
SCHOLTEN, 2016.
639
SCHOLTEN, 2016. As assertivas de Scholten sobre os limites da nossa cognição “natural” são, hoje,
praticamente truísmos no âmbito da neurociência, da psicologia e das ciências cognitivas em geral.
229

a uma postura ou atitude científica composta por dois pontos principais: (i) pesquisadores
precisam ser críticos em relação a si mesmos, aos seus próprios estudos, e também em relação
aos demais; (ii) pesquisadores precisam ser transparentes e abertos, no sentido de aceitar
críticas e se livrar de suas hipóteses caso outras forneçam explicações melhores.
Diferentemente dos pontos afirmados por Chomsky, Dawkins e Scholten têm um
enfoque voltado para ciências sobre o mundo físico ou social. Ainda assim, há elementos que
podem ser abstraídos deste contexto para serem incluídos no conteúdo mínimo: desconfiança
da tradição, da autoridade, da intuição, da revelação e do consenso; adoção de raciocínio claro
e sólido e busca por mitigar falácias e vieses; uso de sistematização e de método para
organizar ideias e produzir respostas; produção de respostas passíveis de controle
intersubjetivo (respostas totalmente subjetivas são incomparáveis); transparência de meio e de
resultado; abertura para argumentos e evidências em contrário; ausência de contradições
internas; rejeição da seleção ou interpretação enviesada de fontes, argumentos, evidências;
postura crítica consigo mesmo e com os demais; abertura e aceitação de críticas, quando
procedentes, mesmo que isso envolva sacrificar crenças ou teorias que o pesquisador estime.

8.2. A PAISAGEM MORAL E A PAISAGEM CIENTÍFICA

No livro “The Moral Landscape”, o filósofo e neurocientista Sam Harris insurge-


se contra a crença comum de que a ciência é excelente para determinados assuntos, mas não
tem nada a acrescentar para questões morais e deve deixá-las para a filosofia e para as
religiões. Segundo ele, questões morais podem sim ser analisadas cientificamente, e a ciência
que cuida disso, a ciência da moralidade, é atualmente apenas um ramo pouco desenvolvido
da ciência.640
Harris parte da premissa de que tudo que valorizamos do ponto de vista moral
pode ser reconduzido ao bem-estar e ao não sofrimento de seres dotados de consciência, e que
isso remonta, em última instância, a fatos do mundo físico, como comportamentos e reações
cerebrais. A consciência como base, portanto – muito semelhantemente à posição de Cançado
Trindade a respeito da razão de ser do Direito. Como ainda estamos engatinhando nos estudos
sobre o cérebro (estudos objetivos a respeito do sofrimento e do bem-estar), há muitas
questões morais que não somos capazes de responder cientificamente. No entanto, diz Harris,
não podemos confundir respostas na prática com respostas em tese. O fato de não termos
muitas respostas hoje (ausência de respostas na prática) não significa que elas não existam,

640
HARRIS, 2010.
230

nem que não possamos alcançá-las (existência de respostas em tese ou em princípio). É entre
os limites do conhecimento atual e o potencial do conhecimento futuro que Harris
filosoficamente propõe o conceito da paisagem moral: tal como uma paisagem geográfica
dotada de picos e vales, mesmo diante de dúvidas ou incertezas é possível desde já reconhecer
picos e vales morais, i.e., práticas e ações que representam pontos altos e pontos baixos na
escala da moralidade, entendida, vale repetir, na sua relação com o bem-estar das criaturas
dotadas de consciência.
Não irei, aqui, avaliar os méritos ou não da corajosa teoria de Harris. Quero
apenas tomar a sua metáfora de empréstimo para imaginar uma paisagem científica que, a
exemplo da “paisagem moral” concebida por ele, também tem picos e vales, pontos altos e
baixos. Neste sentido, pode haver muita divergência sobre o que é ciência, mas não as há
quanto ao fato de a crença acrítica em argumentos de autoridade constituir um vale ou ponto
baixo na paisagem científica, por exemplo.

8.3. PICOS E VALES NO DIREITO

Tendo em mente a metáfora da paisagem científica, abordarei picos e vales de


racionalidade em dois pontos principais: primeiramente, na pesquisa jurídica (contextualizada
numa cultura jurídica que exibe preocupantes sinais); em segundo lugar, no debate jurídico.
Ao abordar a pesquisa e o debate jurídicos em geral, abarco o cenário maior em que se insere
a Ciência do Direito, sendo certo que as afirmações que se seguirão aplicam-se perfeitamente
ao contexto específico da pesquisa jurídico-dogmática.

8.3.1. Os vales da pesquisa jurídica

A oposição entre ciência e verdades impostas ou fundadas em más razões (como a


autoridade), é antiga, e está na própria origem da ciência moderna: a primeira academia de
ciência do mundo, a Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge de
Londres, criada em 1660, tinha e tem até hoje como lema, desde então, a sentença latina
“Nullius in verba”, traduzida para o inglês como “On the Word of No Man”, ou “Na Palavra
de Ninguém!”641 Antes disso, Francis Bacon (1561-1626) e outros traduziam o pensamento do
seu tempo ao insistirem que, para compreender a natureza, é melhor consultar a própria
natureza, e não os escritos de Aristóteles…642

641
PENA, 2009.
642
Cf. CHALMERS, 1993, p.23.
231

Mas também a democracia moderna, enquanto ideal de socialização livre, se


coloca como opositora às verdades impostas ou fundadas na autoridade. Em 22 de Março de
2002, numa edição do conhecido círculo de entrevistas “Conversations with History”, em
entrevista a Harry Kreisler, o professor Noam Chomsky (re)afirma a ideia de que o poder é
sempre ilegítimo, até que se prove o contrário. “Se eu estou andando na rua com a minha neta
de quatro anos e ela começa a correr”, diz o professor Chomsky, “e em seguida eu a pego
pelos braços e a puxo de volta, isso é um exercício de poder e autoridade, mas eu posso dar
uma justificativa para isso”.643 Exemplo modesto, mas muito significativo. A ideia de poder
como algo que deve ser justificado, e bem justificado, para se tornar legítimo, é, para
Chomsky, uma das ideias nucleares do socialismo libertário político por ele defendido.
Questionado num outro momento sobre se o anarquismo seria compatível com a democracia,
o mesmo Chomsky respondeu que a democracia deveria ser o ideal a ser perseguido por um
sistema social libertário.
O que os argumentos de Chomsky sugerem é uma visão muito madura de
democracia: não como o governo das maiorias, nem como um ingênuo sistema onde inexiste
o exercício de poder ou a sua concentração em algum grau, mas, antes de tudo isso, como
uma forma de organização social em que o poder só poderá ser legítimo se estiver calcado em
justificativas plausíveis, se puder ser desafiado a todo momento e se for capaz de responder
aos desafios com a força da razão. O Estado Democrático de Direito, do ponto de vista
normativo, não deixa de ser uma manifestação dessa ideia: o Estado só se legitima se estiver a
serviço dos direitos fundamentais das pessoas, direitos que não podem, portanto, ser
desconsiderados por eventuais maiorias sem que se frustre a própria democracia. Ilya
Prigogine, no prefácio de “O fim das certezas”, afirma: “A democracia e as ciências modernas
são ambas herdeiras da mesma história...”.644 Quando a autoridade das melhores razões é
deixada de lado na política, no Direito ou na ciência, há uma perda enorme de legitimidade.
No texto “Apontamentos sobre a pesquisa em Direito no Brasil”, o professor
Marcos Nobre, da Unicamp, argumenta que a produção acadêmica jurídica é marcada por um
modelo de pesquisa pernicioso, por ele denominado “modelo do parecer”, que, ao contrário
do método científico – no qual o pesquisador identifica um problema, formula uma hipótese e
busca confirmá-la ou refutá-la segundo técnicas ou procedimentos rigorosos –, se caracteriza
pela seleção prévia de dados (argumentos da literatura jurídica, precedentes, instrumentos

643
CHOMSKY; KREISLER, 2002.
644
PRIGOGINE, 1996, p.14.
232

normativos etc.), por parte do pesquisador, para servir a uma finalidade estratégica definida a
priori, i.e., para corroborar uma resposta previamente formulada. Esse procedimento é levado
a cabo pelo jurista de modo muito semelhante à formulação de uma peça profissional, na qual,
diferentemente do trabalho acadêmico, está explícita a orientação contratual. Entretanto, no
trabalho acadêmico o jurista se posta, tal qual um parecerista, como um sujeito dotado de
autonomia, que livremente se posiciona como defensor de uma determinada tese, “por
convicção”. Esse modelo, para Nobre, seria o “elemento formal determinante” que concorre
para a crise do ensino e da pesquisa jurídica no Brasil.645
Roberto da Silva Fragale Filho, da Universidade Federal Fluminense (UFF),
apesar de reconhecer que “é inequívoco” que “o parecer é um modelo vigente na produção de
pesquisa em Direito”, defende que o modelo apresentado por Nobre merece reparos, pois não
é que o pesquisador-padrão faça uma seleção prévia do material disponível para coletar
apenas o que lhe é conveniente, i.e., uma seleção das fontes; na verdade, o que se dá é um
“mapeamento das fontes” seguido de argumentos de autoridade “que permitam que uma delas
prevaleça sobre as demais”. Assim, a lógica do parecer se caracterizaria especialmente por
não estar “calcada em uma demonstração”, i.e., por não trabalhar “com a formulação de uma
hipótese e sua demonstração”, mas sim valer-se de “um recenseamento em que se utiliza, de
forma inequívoca, um argumento de autoridade para dizer onde está a suposta razão”.646
Das colocações de Fragale, é possível depreender, ainda, outras características que
integrariam o modelo hegemônico de pesquisa jurídica, como, e.g., a “adjetivação bastante
intensa” nas citações de “autoridades”; uma lógica partidária na tomada de posições em
relação aos diferentes tipos de argumentação citados (e.g., “filio-me à corrente de fulano,
cicrano e beltrano”); e, ainda, um “sincretismo epistemológico” caracterizado por citações
descontextualizadas, não raro de autores de teorias incompatíveis.647
No mesmo debate, o professor Oscar Vilhena Vieira, da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), concordando com as críticas de Marcos Nobre em relação à falta de autonomia ou
imparcialidade do pensamento jurídico produzido por atores autointeressados, ressalvou,
contudo, que tomar o “modelo do parecer” como modelo hegemônico seria um diagnóstico
generoso demais diante da precariedade do cenário atual da pesquisa jurídica, porque o
“modelo do parecer”, com todas as suas limitações, ainda assim parte de um problema real. A

645
NOBRE, 2004.
646
ALVES e outros, 2008, p.24-25.
647
Virgílio Afonso da Silva (2005) é responsável por uma interessante crítica ao sincretismo no âmbito da teoria
do direito constitucional.
233

maior parte da produção acadêmica jurídica, ao contrário, seria marcada “por uma profunda
falta de compromisso com a realidade”, limitada a reproduzir teses fundadas em manuais e,
por isso, incapaz de formular perguntas relevantes; mais ainda, teria como características a
ausência de autorreflexão sobre a atividade de pesquisa (que tipo de ciência é a praticada no
trabalho, qual é o objeto de análise, que concepção de direito ela pressupõe etc.); a ausência
de sistematização do conhecimento, trocada, ao revés, por meras revisões de bibliografia
manualesca, “baseada em argumentos de autoridade”, e tratamento geral das fontes segundo
“um sincretismo da pior qualidade” (usam-se “as fontes que estão à mão sem estabelecer uma
hierarquia entre elas”); como resultado, impossibilidade de gerar “uma resposta objetiva e
racionalmente fundamentada” ao que se tenha pretendido examinar.648
Críticas semelhantes às descritas já haviam sido feitas por outros autores, como é
o caso das distinções entre pesquisas científicas e simples aprofundamentos de estudos e entre
pesquisas científicas e meros levantamentos de opiniões alheias, feitas pelas professoras
Miracy Barbosa de Sousa Gustin e Maria Teresa Fonseca Dias.649 As autoras denunciam
acertadamente a confusão entre esses conceitos na prática dos trabalhos acadêmicos em
Direito das universidades brasileiras – mencionando, inclusive, características das práticas de
“não pesquisa” que coincidem com o diagnóstico de Nobre, Fragale Filho e Vilhena:

Existe [...] em nossas universidades, especialmente nas áreas onde a produção de


conhecimento é muito incipiente, uma grande simplificação dos significados
atribuídos à pesquisa jurídica. Em sentido corrente, várias acepções de pesquisa têm
sido utilizadas, algumas extraídas de concepções de senso comum.

Uma delas, a mais corriqueira, é a que concebe a pesquisa como uma simples
consulta de determinado tema em manuais didáticos, enciclopédias, jornais, revistas
ou outros textos com maior ou menor aprofundamento do assunto. Essa acepção foi-
nos transmitida, supostamente, por professores, que insistiam em denominar
“pesquisa” todo e qualquer aprofundamento de estudo sobre determinado tema
previamente escolhido e indicado aos alunos. Quase sempre o produto desse estudo
restringia-se à repetição de trechos (com uma linguagem bem mais superficial do
que no original) de livros ou de revistas, algumas vezes até mesmo acompanhados
de sínteses e análises bem formuladas e inovadoras. Apesar disso, o produto desse
esforço não passa de um estudo mais ou menos aprofundado sobre determinado
tema que não deve ser visto como uma investigação científica. Isso não significa que
bons estudos sejam desnecessários ou, até mesmo, que não colaborem com o
desenvolvimento de pesquisas científicas. O que se pode afirmar, contudo, é que não
devem ser considerados como pesquisas científicas, mas tão-somente
aprofundamentos de estudos.650

Eduardo Marchi, professor da Universidade de São Paulo (USP), denuncia, em


seu conciso “Guia de metodologia jurídica”, as “meras compilações ou retalhos de longas

648
ALVES e outros, 2008, p.42-45.
649
GUSTIN; DIAS, 2006, p.5-7.
650
GUSTIN; DIAS, 2006, p.5-6.
234

citações entre aspas”, as “teses com tesoura e goma arábica”, “baseadas em fontes suspeitas
ou de segunda mão”, e que terminam por ser, “do ponto de vista científico”, “completamente
inútil” – e que infelizmente, “na atual conjuntura da literatura jurídica produzida no Brasil”,
respondem por “parte considerável do que se publica, quer sejam teses de pós-graduação
(mestrado e doutorado), quer de livre-docência ou titularidade ou ainda obras jurídicas em
geral”.651 Como espectador privilegiado de falsas pesquisas jurídicas durante anos a fio,
Marchi não usa meias palavras para tratar do tema:

Justamente na fase intermediária de reelaboração de dados, muitas teses ou obras


jurídicas entre nós, ao invés de “reelaborarem” o material recolhido, apenas o
“reproduzem” mediante um festival de citações entre aspas de frases longuíssimas
de variados autores [...]. Não se faz nem mesmo a paráfrase dos textos, tarefa, aliás,
não tão simples (o que explicaria a sua ausência), pois pressupõe disponibilidade de
tempo para a leitura aprofundada dos autores e, principalmente, para a redação de
texto próprio, parafraseando-os. Imagine-se o acréscimo de ideias novas ou críticas
(inovadoras e fundamentadas)! Uma tese ou obra jurídica recheada, portanto, de
inúmeras e longas citações de trechos de texto entre aspas não pode apresentar
nenhum caráter científico.652

Numa tentativa de sistematização do que foi dito pelas professoras e professores


acima, e também a partir dos meus próprios estudos sobre metodologia da pesquisa jurídica,
elaborei o seguinte quadro, com o resumo das características perniciosas que integrariam a
pesquisa jurídica ruim:

Quadro 21 - Características da pesquisa jurídica inadequada


CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA JURÍDICA INADEQUADA
O pesquisador não delimita o seu problema ou coloca um falso problema, i.e., um problema de solução
fácil em consulta simples a fontes tradicionais/acessíveis
O pesquisador não se preocupa em conhecer a fundo o tema no qual o problema se insere, nem a
bibliografia que já foi produzida sobre o tema e que se relaciona com o problema, não raro se refugiando
em manuais ou livros mais básicos
Como o pesquisador não delimita o seu problema ou coloca um falso problema e não conhece a
bibliografia existente, não é capaz de formular uma hipótese, ou, ao invés dela, já carrega consigo a
resposta prévia ao problema
O pesquisador não apresenta de forma expressa e clara qual é o método, ou comumente adota o não
método da coletânea de citações, na filiação aos “entendimentos” desta ou daquela autoridade
No curso da pesquisa, são coletados dados apenas para confirmar a resposta prévia, sendo que os dados
contrários a ela, quando mencionados, são colocados somente como ilustração de aparente divergência,
havendo uma lógica partidária de filiação a essa ou àquela corrente sem maiores fundamentações

651
MARCHI, 2009, p.22.
652
MARCHI, 2009, p.22-24.
235

racionais
O tratamento dos dados é feito de forma assistemática e descontextualizada, o que, de um lado, acarreta
uma ausência de hierarquia entre as fontes de pesquisa, e, de outro, um sincretismo epistemológico
comumente evidenciado pela conjugação de autores-autoridades cujas teorias são, na verdade e na
matéria de fundo não avaliada pelo pesquisador, parcial ou integralmente incompatíveis entre si
Ao final, o pesquisador não é capaz de apresentar uma resposta objetiva, racionalmente fundamentada e
intersubjetivamente controlável
Elaboração própria.

A contrapasso, seria igualmente possível supor quais seriam, então, as


características de uma pesquisa jurídica adequada:

Quadro 22 - Características da boa pesquisa jurídica


CARACTERÍSTICAS DA BOA PESQUISA JURÍDICA
O pesquisador parte de uma dúvida que não é facilmente respondida por consulta simples a fontes
tradicionais/acessíveis
O pesquisador conhece bem o tema no qual está inserida a dúvida, e, por isso, foi capaz de chegar a ela
A dúvida também não é respondida satisfatoriamente pela bibliografia existente, que é de conhecimento
prévio do pesquisador
O pesquisador, por conhecer o tema e a bibliografia existente, além de ser capaz de formular uma
dúvida relevante, é também capaz de formular uma resposta provisória a ser testada (hipótese)
O pesquisador apresenta de forma expressa e clara qual é o método que utiliza para testar a hipótese
No curso da pesquisa, a resposta provisória (hipótese) é confirmada ou refutada
O pesquisador parte de um corpo teórico expressamente delimitado para não só coletar, mas interpretar
os dados que servirão como base para a confirmação ou refutação da hipótese
O problema, a hipótese, a forma de testar a hipótese, os pressupostos teóricos e a conclusão, porque são
colocados de forma clara e expressa, estão abertos ao debate racional, às críticas, ao controle
intersubjetivo
FONTE: Elaboração própria.

Nos meus estudos, percebi que as críticas feitas por Nobre, e seus desdobramentos
em termos de debate crítico sobre a pesquisa jurídica no Brasil, guardavam muitas
similaridades com as críticas feitas à pesquisa jurídica estadunidense pelo politólogo Robert J.
Spitzer, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade do Estado de Nova
Iorque (State University of New York – SUNY), autor de um livro com sugestivo título:
“Salvando a Constituição dos Juristas”.
Como cientista político, dedicou-se, em particular, a estudar a Presidência dos
Estados Unidos e políticas relacionadas a armamentos. Em virtude de suas áreas de interesse,
236

o politólogo teve a oportunidade de analisar um elevado número de artigos acadêmicos do


campo jurídico.653 Em um deles (William Michael Treanor. Fame, the Founding, and the
Power to Declare War. Cornell Law Review v.82, p.695-772, May 1997), o autor afirmava
categoricamente que os fundadores dos Estados Unidos pretendiam que a/o Presidenta/e não
tivesse direito de vetar declarações de guerra feitas pelo Congresso, e que o fato tinha sido
ignorado por “todos os estudiosos” do assunto. No entanto, a afirmação, além de contrariar
um dispositivo expresso (art. 1, seção 7) da Constituição estadunidense, não repousava em
nenhuma evidência que a tornasse minimamente plausível. Ademais, outros autores já haviam
se dedicado ao tema, o que servia como demonstração de que a assertiva de que o fato havia
sido ignorado por “todos os estudiosos” era simplesmente falsa.654
Spitzer afirma que os problemas que identificou no trabalho mencionado –
afirmações exageradas, imprecisas e inadequadas; descaracterização da literatura sobre o
assunto – são raríssimos na literatura de outras disciplinas do conhecimento, pela “razão
óbvia” de que o uso de retórica desse tipo é “desnecessário, injustificável, carente de
profissionalismo e arriscado”.655 Por mais cuidadosa (e completa) que seja uma pesquisa, um
tom menos grandiloquente é sempre recomendável no âmbito das ciências.
Ademais, Spitzer esclarece que os mesmos problemas (ou problemas semelhantes)
foram encontrados por ele com enorme frequência nos demais artigos acadêmicos jurídicos
que analisou: “afirmações exageradas, excessos retóricos, lacunas na pesquisa básica, e
conclusões que simplesmente não decorriam das evidências apresentadas”.656
Outros estudos alcançaram resultados semelhantes: (i) no estudo conduzido por
Lee Epstein e Gary King a partir de mais de duzentos artigos de periódicos jurídicos, foram
comumente encontradas, e.g., “conclusões estridentemente afirmadas e excessivamente
confiantes”; (ii) na obra “Seeking Certainty: The Misguided Quest for Constitutional
Foundationism”, os autores Daniel A. Farber e Suzanna Sherry analisaram os escritos de seis
juristas proeminentes (Robert Bork, Antonin Scalia, Richard Epstein, Akhil Amar, Bruce
Ackerman e Ronald Dworkin) e concluíram que todos eles apresentam “conclusões simples,
elegantes e totalmente erradas”.657
O politólogo estadunidense associa os problemas mencionados a duas causas que
constituem as principais hipóteses do seu trabalho: (i) os próprios periódicos jurídicos das
653
Em suas palavras, “muitas centenas de artigos [publicados] em periódicos jurídicos”. SPITZER, 2008, p.3.
654
SPITZER, 2008, p.1-3.
655
SPITZER, 2008, p.3.
656
SPITZER, 2008, p.3.
657
SPITZER, 2008, p.4.
237

faculdades estadunidenses, “campo fértil para a teorização constitucional irregular”,


especialmente por serem, na esmagadora maioria dos casos, editados por estudantes sem a
utilização da revisão dos pares (peer review) na seleção dos artigos a serem publicados658; (ii)
a formação educacional do jurista baseia-se em princípios forenses muito diferentes e mesmo
contrários àqueles das demais disciplinas acadêmicas, centrados que são na defesa dos
interesses do cliente em processos baseados na ampla defesa e no contraditório (adversarial
system). Em tal contexto, prevalece a lealdade ao cliente mesmo quando a defesa dos seus
interesses se dá com a “apresentação de algo menos do que a verdade”.659
A conclusão de Spitzer neste ponto vale a pena ser reproduzida ipsis litteris:

Não é à toa que parte da escrita acadêmica jurídica pareça-se mais com um discurso
de Perry Mason660 para um júri do que com um argumento jurídico cuidadosamente
(até mesmo tediosamente) colocado e parcimoniosamente construído, redigido com
qualificadores / adjetivos menos dramáticos, porém mais precisos. 661

Spitzer sustenta que o tom estridente e os lapsos factuais básicos, típicos dos
trabalhos jurídicos que encontrou, podem ser explicados como decorrência lógica, até mesmo
natural, destes dois fatores: “educação” e “periódicos jurídicos”. O primeiro fator explica o
discurso demasiadamente assertivo, e o segundo explica como trabalhos com problemas
básicos acabam sendo publicados. Neste ponto, apesar de reconhecer que o sistema de
avaliação dos pares (peer review) não é perfeito, o autor parece depositar confiança demais
nele ao afirmar que, apesar de suas possíveis falhas, o mesmo possui a virtude de ser o melhor
sistema já inventado para separar pesquisas publicáveis de trabalhos defeituosos.662
Não discordo que seja o melhor sistema possível, mas entendo que ele deve ser
aprimorado, por exemplo, com a formação contínua de seus avaliadores em geral, e com o
estabelecimento de critérios específicos de avaliação, em particular. Até porque os “pares”
podem (muito, muito provavelmente) ter tido o mesmo tipo de treinamento ou formação que
leva os juristas a cometerem equívocos (é curioso que, ao menos neste ponto do texto, Spitzer
não levante essa consideração, apesar de colocar a educação jurídica como primeiro fator ou
causa da baixa qualidade acadêmica dos trabalhos jurídicos).

658
A decisão sobre se um artigo será publicado ou não “não se baseia em nenhuma avaliação de um especialista
sobre a lógica, precisão, significado ou relação entre o artigo e a literatura com a qual ele visa contribuir”.
SPITZER, 2008, p.4-5.
659
SPITZER, 2008, p.4-5.
660
Famoso advogado fictício criado pelo escritor Erle Stanley Gardner (1887-1970), presente em mais de oitenta
de suas obras.
661
SPITZER, 2008, p.5.
662
SPITZER, 2008, p.4-5.
238

O propósito da obra, portanto, é criticar o discurso jurídico acadêmico. Logo após


anunciá-lo, com a exposição dos fatores principais que associa ao problema da má qualidade
dos trabalhos publicados em periódicos, Spitzer preocupa-se em colocar-se como um amante
do Direito e da comunidade jurídica e suas instituições, e em ressalvar que a questão associa-
se a causas estruturais, ou seja, não é de modo algum o produto de arranjos inescrupulosos por
parte de advogados ou de fraudes acadêmicas.663 Nesse sentido, escolhe uma interessante
metáfora para resumir o que pretende evidenciar: “este não é o caso de ‘maçãs podres que
estragam todo o barril’; é, ao revés, um problema com o [próprio] barril”.664
A introdução de Spitzer não elenca, analiticamente, os diferentes problemas
(frequentes) do discurso jurídico acadêmico. Ao contrário, em sua exposição há, por vezes, a
indicação de problemas semelhantes, mas com formulações linguísticas distintas; por
exemplo, há menções ao “tom estridente”, a “afirmações exageradas”, a “excessos retóricos”
etc.
No quadro a seguir, busco condensar os problemas que podem ser depreendidos
da introdução de Spitzer, da maneira mais analítica possível.

663
SPITZER, 2008, p.6-7.
664
SPITZER, 2008, p.7.
239

Quadro 23 - Problemas do Discurso Jurídico e suas causas (segundo Spitzer).


PROBLEMAS DO DISCURSO JURÍDICO E SUAS CAUSAS (A PARTIR DE SPITZER)
CARACTERÍSTICAS ASSOCIADAS AO DISCURSO JURÍDICO
● Argumentação dramatizada, estridente, assertiva em demasia (inclusive nas conclusões)
● Afirmações exageradas, inadequadas; excessos retóricos
●Afirmações imprecisas
● Lacunas na pesquisa básica, lapsos factuais básicos
● Descaracterização da literatura sobre o assunto
● Conclusões que não decorrem das evidências apresentadas
● Conclusões excessivamente assertivas/confiantes
● Conclusões equivocadas
CAUSAS DOS PROBLEMAS DO DISCURSO JURÍDICO
● Periódicos normalmente editados por estudantes sem a utilização da revisão dos pares (peer review) na
seleção dos artigos a serem publicados (decisão pela publicação não depende da avaliação de um
especialista sobre a lógica, precisão e significado do trabalho e se contribui ou não para a literatura
existente)
● Formação acadêmica voltada à capacitação profissional; ênfase em princípios forenses (preeminência
da lealdade ao cliente, no limite, até mesmo em relação à verdade), que são muito distintos dos
princípios acadêmicos comuns às disciplinas
FONTE: Elaboração própria a partir de SPITZER, 2008, p.1-8.

Particularmente em relação à formação acadêmica, o argumento de Spitzer,


basicamente, é o de que ela se volta à capacitação profissional, adotando princípios forenses
incompatíveis com os princípios acadêmicos.
Para Spitzer, o “propósito da educação jurídica é, evidentemente, produzir
advogados”, i.e., profissionais cuja tarefa é “funcionar bem dentro da estrutura do sistema
jurídico” baseado no contraditório.665 A assertiva é altamente criticável do ponto de vista
normativo666, mas aqui parece ser uma descrição fiel da centralidade histórica, nos cursos
jurídicos estadunidenses, da meta de formação de advogados.
A “produção” de advogados, também chamada por Spitzer de “treinamento”
(training) e até mesmo de “doutrinamento”, estrutura-se a partir de um determinado conjunto
de valores, bem como de uma composição curricular padronizada. O aprendizado do chamado
“raciocínio jurídico”, aqui identificado com a expressão “como pensar como um advogado”

665
SPITZER, 2008, p.17.
666
A linguagem adotada por Spitzer, por exemplo, que sugere o tratamento do estudante como mercadoria e da
faculdade como fábrica, o que, a propósito, é análoga à tese de István Mészáros (1930-) em “A Educação para
além do Capital”.
240

(thinking like a lawyer), não costuma se dar em disciplinas específicas, mas – de forma
diluída nas diferentes matérias – ocupa uma posição de protagonismo neste processo
produtivo. Nele estão contidas as capacidades úteis à boa condução no âmbito forense, como
o manejo de precedentes e da doutrina, o uso da analogia e do raciocínio jurídico dedutivo, o
raciocínio analítico e a aquisição de conhecimentos básicos das diferentes áreas do direito.667
Apesar de não ter se mantido estática, a educação jurídica estadunidense parece
não ter sofrido alterações significativas, como sugerem as poucas alterações em relação à
estrutura curricular do século XIX, a consistente hegemonia de docentes com formação
jurídica (em detrimento de formações multidisciplinares) e o predomínio de habilidades de
persuasão e de debate (oratória, retórica) como traços distintivos dos bons profissionais desde
o século XVIII.668
Os ditames do mundo forense terminam por ocupar, portanto, um espaço
absolutamente primordial na formação acadêmica dos juristas estadunidenses. Segundo
Spitzer, os critérios de argumentação e a forma complexa como é tratado o tema da verdade
no contexto forense terminam por criar dificuldades ao discurso jurídico acadêmico.
Com efeito, sustenta o politólogo estadunidense que, embora os advogados não
considerem que haja algo como uma permissão para mentir em prol dos interesses de seus
clientes, o compromisso com a verdade parece não ocupar uma posição alta nas prioridades da
profissão por algumas razões: (i) a obrigação profissional dos advogados de defender seus
clientes com zelo pode fazer com que o compromisso com a verdade seja eclipsado pela
obrigação maior de defender os interesses do cliente; (ii) as normas que tutelam o sigilo
profissional do advogado (lawyer-client privilege) obrigam os advogados, salvo algumas
exceções, a não divulgar informações referentes ao cliente, mesmo se altamente
incriminadoras; (iii) a cultura política e jurídica, marcada pela prevalência dos interesses do
cliente, permite que um jurista possa defender uma posição pública a respeito de um tema
(controverso) segundo a visão do cliente sem que isso vincule, de fato, a sua posição
individual sobre a questão.669

667
SPITZER, 2008, p.14, 16.
668
SPITZER, 2008, p.15-18.
669
SPITZER, 2008, p.11-13. No exemplo concreto, John Roberts (1955-) e Samuel Alito (1950-), dois juristas
que expressaram posições públicas contrárias ao aborto, foram nomeados para a Suprema Corte. Na sabatina
política, eles poderiam alegar que as posições antiaborto não refletiram nenhum entendimento pessoal sobre a
matéria, mas decorreram apenas de suas funções respectivas de advogados de clientes que tinham esta pauta
(de modo que suas opiniões veementes eram, antes de tudo, a realização de uma boa advocacia). No limite, um
advogado agindo assim poderia, em prol dos interesses antiaborto do cliente, assumir essa posição mesmo que
ela não fosse a sua própria, mesmo que isso significasse “mentir para seu cliente ou para o país”. SPITZER,
2008, p.13.
241

Mais ainda: a prática forense é pautada pelo contraditório, estruturado a partir da


crença de que a melhor forma de se alcançar a verdade do caso é fazer com que as partes
rivais possam apresentar, respectivamente, os argumentos mais fortes que puderem conceber,
de modo a dar ao árbitro neutro ou imparcial (o julgador) as melhores condições de decisão.
Portanto, três elementos principais: um julgador neutro; advogados partidários das partes em
conflito; um corpo de normas que governam as atividades dos advogados
(processuais/procedimentais, materiais / de conduta etc.).670 Conquanto não deva mentir para
o cliente ou encorajar o cliente a mentir e apesar de funcionar como colaborador em relação
ao trabalho do julgador (officer of the court), o advogado pode agir para reduzir a
credibilidade de uma prova testemunhal verdadeira, por exemplo.671 O advogado não possui
qualquer obrigação com a justiça ou com o resultado correto da demanda, mas apenas com a
parte que representa. Isso decorre da essência do sistema do contraditório, e sua prática
chegou mesmo a revelar uma “tendência” entre os advogados de buscar a vitória a qualquer
custo672, como se tudo não passasse de um jogo.673

8.3.2. Os vales no debate jurídico-acadêmico

Um conhecimento que se pretenda sistematizado e racional não pode prescindir de


um ambiente de colaboração e crítica, sem o qual dificilmente consegue algum avanço
significativo. Isso vale para as ciências no sentido mais tradicional, e também para a filosofia
e para a ciência jurídica.
Uma cultura jurídica antidemocrática, acostumada com a reverência nada
republicana, nem científica, a autoridades, é presumivelmente uma cultura onde este ambiente
ou não existe, ou é muito incipiente. Num tal contexto, não soa estranho que críticas a ideias e
argumentos sejam encaradas como ataques pessoais, e/ou respondidas assim.
Ao responder a uma pergunta sobre o que é a ciência, Chomsky preferiu destacar
o que não é ciência: aquilo que é irracional. E deu o exemplo do duplipensar como “o pico da

670
SPITZER, 2008, p.18. À consideração de Spitzer é importante acrescentar que as normas tratam da conduta
das partes e de seus advogados, e também dos julgadores.
671
SPITZER, 2008, p.18-19.
672
SPITZER, 2008, p.18.
673
A associação entre “jogo” e processo judicial é razoavelmente comum na cultura popular estadunidense. Um
bom exemplo reside nos famosos versos de “Hurricane”, canção composta por Bob Dylan (1941) e Jacques
Levy (1935-2004) a respeito do caso verídico do boxer negro Rubin “Hurricane” Carter (1937-2014), vítima
de racismo: “Rubin Carter was falsely tried / The crime was murder “one,” guess who testified? / Bello and
Bradley and they both baldly lied / And the newspapers, they all went along for the ride. / How can the life of
such a man / Be in the palm of some fool’s hand? / To see him obviously framed. / Couldn’t help but make me
feel ashamed to live in a land / Where justice is a game” (destaques meus). O mesmo caso inspirou o filme
biográfico “Hurricane”, de 1999, estrelado pelo ator Denzel Washington (1954-).
242

irracionalidade”.674 Ao lado disso, outro pico da irracionalidade é sem dúvida a


impossibilidade ou dificuldade de debate racional. E, se é pico da irracionalidade, é vale, é
ponto baixo da paisagem científica.
A pergunta sobre até que ponto a cultura jurídica brasileira está, em grande
medida, situada neste vale de irracionalidade é uma pergunta empírica, e pode ser respondida
com mais precisão por pesquisas com este enfoque. Meu trabalho filosófico tem por objetivo
autodeclarado apenas o de explicitar algumas situações como advertências normativas aos
pesquisadores e juristas práticos, além, é claro, de sugerir a existência do problema, deixando
assim o convite para que trabalhos de sociologia da ciência jurídica possam prosperar na
exploração deste insight afiançado por tantos sinais, como os que serão reportados a seguir,
relativos à resposta inaceitável dada por Eros Grau a uma correta crítica de ideias feita por
Virgílio Afonso da Silva.
No texto “Princípios e regras: mitos e equívocos acerca de uma distinção”,
Virgílio Afonso da Silva, dentre outras coisas, estabelece: a distinção e incompatibilidade
entre as teorias de Friedrich Müller e de Robert Alexy sobre normas, interpretação jurídica e
conflitos entre normas; e como diferentes autores ainda assim defendem ambas as teorias
simultaneamente, incorrendo, com isso, num censurável “sincretismo metodológico”.675
Para Silva, as teorias são implicitamente colocadas como complementares, o que
significa dizer que os autores que assim procedem se limitam a apresentá-las, sem indicação
das razões que justificariam essa posição (com a exceção de José Joaquim Gomes Canotilho,
que, na visão de Silva, tampouco parece ser capaz de dar conta de realmente realizar a tarefa
de combinar corretamente essas teorias).676
O tema é retomado pelo constitucionalista noutro texto, “Interpretação
Constitucional e Sincretismo Epistemológico”677, em que critica a doutrina brasileira sobre
interpretação constitucional, de modo geral, atribuindo a ela, dentre outras, as seguintes
características678:
I. Afirmação e difusão, como uma certeza, de uma distinção entre o “arcaico”,
identificado com os cânones sistematizados por Savigny (interpretação gramatical, lógica,
histórica e sistemática), e o “moderno”, correspondente à condenação dos métodos

674
CHOMSKY, 2015 [2010].
675
SILVA, 2003, p.626-627.
676
SILVA, 2003, p.626.
677
SILVA, 2005, p.115-143.
678
SILVA, 2005, p.116, 118-133.
243

tradicionais pelo seu caráter privatista e pela defesa de métodos e princípios exclusivos à
interpretação constitucional.
II. Recepção, “de forma muitas vezes pouco ponderada”, de doutrina estrangeira,
especialmente alemã (que “parece gozar de uma posição privilegiada”: “por razões
desconhecidas, tudo o que é produzido na literatura jurídica germânica parece ser encarado
como revestido de uma aura de cientificidade e verdade indiscutíveis”).
III. Adoção acrítica da lista de princípios de interpretação constitucional elencada
por Konrad Hesse, incorrendo, v.g., na irrelevância de alguns deles ou na falta de
diferenciação entre eles ao desconsiderar que: (i) inexistem indícios de que Hesse quisesse
criar uma teoria geral da interpretação constitucional; (ii) a lista de Hesse foi pouco difundida
em seu próprio país; (iii) os princípios em questão tiveram pouca importância prática para a
interpretação constitucional; (iv) alguns deles em nada se diferenciam dos cânones
tradicionais da interpretação jurídica ou se assemelham a eles de tal forma que não há como
descobrir especificidade capaz de justificar sua existência autônoma; (v) um deles sequer se
refere â interpretação da Constituição.
IV. Adoção acrítica da lista de métodos de interpretação constitucional elaborada
por Ernst-Wolfgang Böckenförde, incorrendo no grande problema do “sincretismo
metodológico”, em especial, ao apresentar os métodos como: (i) complementares entre si,
como um conjunto; (ii) complementares em relação aos princípios de interpretação; (iii)
complementares em relação a outras práticas de interpretação constitucional. Os métodos são
“resumidamente explicados”, de modo a somente “expor a ideia teórica central de cada
método”, e “não raro com base apenas na obra de Canotilho” (que, como Silva alerta, a
despeito da “abrangência e profundidade”, não deixa de ser um manual de caráter didático).
Não costumam ser usados exemplos concretos de sua possível aplicação prática, o que, para
Silva, pode ser resultado do fato de que casos concretos mostrariam incompatibilidades entre
os métodos e a incorreção da ideia de que eles sejam um conjunto.
Particularmente em relação aos pontos III e IV acima, Silva critica os princípios e
métodos, em sequência, por muitos deles não passarem de “métodos civilistas rebatizados”,
“meras reações a situações históricas passadas” ou “máximas sem maiores significados além
daqueles que o simples bom senso do intérprete já requereria”; e dá ênfase à crítica, relativa
aos métodos, de que aí “domina uma discussão meramente teórica, sem qualquer preocupação
244

com a aplicabilidade prática deles”, e que isso acabou gerando o “sincretismo


metodológico”.679
A partir daí, o autor desenvolve sua crítica ao sincretismo metodológico
assumidamente numa só direção: a de criticar a utilização conjunta da teoria estruturante do
direito de Müller e da teoria do sopesamento de direitos fundamentais de Alexy. A escolha é
justificada por razões de espaço e de importância (para ele, o tema escolhido é a “mais
importante manifestação” de sincretismo metodológico).680
No texto anterior, Silva esclarece que, para Müller, a norma não existe antes do
confronto com os fatos e, por isso, não há aplicação do Direito como subsunção do fato à
norma preexistente; e que o sopesamento, como método de aplicação de normas, é entendido
pelo mesmo jurista alemão como irracional. Isso mostra que a teoria de Müller é incompatível
com a de Alexy, fincada que está numa distinção entre regras e princípios que exige o
sopesamento de princípios como forma de aplicá-los.681 No novo texto, retoma o argumento e
esclarece melhor as razões da incompatibilidade, que, longe de estarem fincadas apenas na
opinião de um sobre a irracionalidade da teoria do outro, decorrem da base teórico-normativa
de cada uma das teorias.
Uma das principais características da teoria estruturante de Müller é a de que
somente a concretização da norma jurídica, tarefa de árdua análise e delimitação do âmbito da
norma, é capaz de bem cumprir as demandas de racionalidade e controle intersubjetivo da
interpretação e aplicação do Direito. Com isso, não há espaço para colisões de normas em sua
teoria, porque a norma, já concretizada, vai apenas ser entendida como não aplicável a um
determinado caso. Assim, a decisão contrária à publicação de uma obra ofensiva à honra de
alguém pode ser entendida não como o resultado da colisão entre liberdade de expressão e
proteção da honra, mas como a concretização de normas que aponta para um âmbito
normativo da liberdade de expressão que não abarca a publicação de obra ofensiva à honra
alheia). Alexy, no entanto, parte de uma premissa totalmente diferente ao entender que
direitos fundamentais possuem suporte fático amplo.682 Com isso, a publicação de livro
ofensivo à honra alheia é primeiro considerada isoladamente como subsumível à hipótese de

679
SILVA, 2005, p.140.
680
SILVA, 2005, p.136.
681
SILVA, 2003, p.626-627.
682
I.e., “toda situação que possui alguma característica que, isoladamente considerada, poderia ser subsumida à
hipótese de incidência de determinado direito fundamental deve ser considerada como abrangida por seu
suporte fático, independentemente da consideração de outras variáveis.” (SILVA, 2005, p.138).
245

incidência da liberdade de expressão, só havendo limitação dessa liberdade – e.g., em virtude


da proteção da honra – após o sopesamento de argumentos e contra-argumentos.683
Para Silva, a “ânsia por emancipação” [em relação aos cânones civilistas] levou a
doutrina a se apegar “às primeiras teorias a que teve acesso, elevando-as à condição de
dogma”. Ao assim proceder, tratou teorias incompatíveis como parte de um mesmo conjunto;
apegou-se a fórmulas sem contato com o direito constitucional brasileiro; congelou a
discussão a respeito da interpretação e de sua aplicabilidade prática.684
Além do problema do sincretismo metodológico, Silva argumenta que o apego aos
princípios de Hesse e aos métodos sintetizados por Böckenförde ilustra um outro problema, o
da unilateralidade, que se relaciona com ignorar contribuições teóricas sobre interpretação e
aplicação do Direito de diferentes países (além da Alemanha), “discussões muito mais férteis
sobre interpretação constitucional” (“como a que é levada a cabo nos Estados Unidos”, por
exemplo).685
Um dos autores criticados por Silva por incorrer em sincretismo metodológico é
Eros Grau686, a quem são expressamente atribuídos, no primeiro texto mencionado, a já
referida crítica de combinação (implícita) das teorias de Alexy e de Müller como
complementares, e também outro equívoco similar, traduzido na combinação implícita de
concepções conflitantes sobre o Direito defendidas por Alexy e por Jürgen Habermas,
respectivamente.687
A réplica de Grau foi dada em nova edição de seu livro “Ensaio e Discurso sobre
a Interpretação / Aplicação do Direito”. Uma informação importante, de partida, diz respeito
ao fato de Grau não mencionar em nenhum momento a fonte da crítica, i.e., o artigo de Silva.
Grau, aliás, não menciona nem mesmo o nome de Silva. Pelo conteúdo da resposta, porém,
não sobra nenhuma dúvida de que ela cuida exatamente dos textos citados: Grau descreve,
v.g., o argumento de Silva de que as teorias de Müller e Alexy são incompatíveis e inclusive
menciona o exemplo do livro com conteúdo ofensivo à honra alheia688; também diz que ele e

683
SILVA, 2005, p.137-138. Em resumo mais apertado: “Müller defende que a definição do âmbito de proteção
de cada direito fundamental é feita de antemão, por intermédio dos procedimentos e métodos de sua teoria
estruturante e, principalmente, sem a necessidade de sopesamento; enquanto Alexy defende que não há
decisões corretas no ãmbito dos direitos fundamentais que não sejam produto de um sopesamento.” SILVA,
2005, p.139.
684
SILVA, 2005, p.140-141.
685
SILVA, 2005, p.140.
686
Os demais são: Fábio Konder Comparato, Paulo Bonavides, Luis Vergilio Dalla-Rosa, Gilmar Ferreira
Mendes e Joaquim José Gomes Canotilho.
687
SILVA, 2003, p.626.
688
GRAU, 2006, p.67-68.
246

outros autores brasileiros, ao defender teorias incompatíveis como se compatíveis fossem,


estariam colocando-as “em um mesmo saco”689 – exatamente a expressão usada pelo seu
crítico.690 Há outros sinais do mesmo, que verdadeiramente eliminam qualquer dúvida sobre a
quem Eros Grau se refere, como os ataques pessoais que Grau faz a Silva (e que serão
examinados adiante), ou ainda a descrição que ele faz da crítica de Silva a ele. 691 Quanto ao
conteúdo da resposta de Grau692, ele pode ser assim resumido:
I. Ataques pessoais a Silva, acusado de ter feito “má leitura” do texto de Grau e
chamado de “crítico brasileiro dos autores brasileiros em geral, intérprete autêntico de Alexy,
munido de muita ciência trazida da Alemanha, obtida diretamente de seus assistentes”.
II. Esclarecimento de que não pretendeu defender essa ou aquela teoria, mas
apresentar um “relatório de pesquisa e meditação, minhas, sobre a interpretação do direito”;
meditações “para produzir não uma teoria ou discurso normativo sobre a interpretação do
direito, mas sim para tentar descrever como é operada essa atividade”, descrição passível de
ser resumida na afirmação de que “o texto normativo é alográfico”.
III. Afirmação de que não subscreve à teoria estruturante de Müller, “como o
leitor atento de Müller poderá perceber”; e de que essa teoria é incompatível com suas
afirmações “de que a interpretação é uma prudência e de que inexiste a única solução
correta”, como resta “evidente” “para quem não se limita a ler, mas preserva o bom costume
de refletir sobre o que lê”.
IV. Advertência de que “a alusão à exposição de Müller e à concretização do
direito não significa automática adesão à teoria jurídica estruturante.”
Um caso semelhante ao da reação de Eros Grau ocorreu no debate entre Humberto
Ávila e Paulo de Barros Carvalho.
Ávila, no texto “Função da Ciência do Direito Tributário: do Formalismo
Epistemológico ao Estruturalismo Argumentativo”, cuidou basicamente de expor o que chama
de descritivismo jurídico para criticá-lo em prol do chamado estruturalismo argumentativo e,
ao fazê-lo, atribuiu a Carvalho a posição descritivista (dentre outros autores).693

689
GRAU, 2006, p.69.
690
Cf. SILVA, 2005, p.141.
691
“Especialmente em relação a mim, diz o mesmo crítico, alhures, que defendo ambas as teorias
simultaneamente e deixo implícita a compatibilidade entre elas em trechos deste Ensaio e Discurso sobre a
Interpretação/Aplicação do Direito (itens 6 e 67 e ss. do ensaio).” GRAU, 2006, p.69.
692
GRAU, 2006, p.69.
693
ÁVILA, 2013, passim e p.182-183.
247

Descontente com a crítica, Carvalho escreveu uma réplica, “Breves considerações


sobre a função descritiva da Ciência do Direito Tributário”694, por meio da qual não se limitou
a discordar de Ávila com base em argumentos, mas incorreu em falácias argumentativas que,
aliás, não passaram despercebidas do próprio Ávila, que as apontou em sua tréplica.695
O quadro a seguir as sintetiza:

Quadro 24 - Falácias no debate Ávila x Carvalho


FALÁCIAS NO DEBATE ÁVILA x CARVALHO
TIPO DESCRIÇÃO
Falácias que
Qualificação de Ávila como “jovem professor” que não lida “com mais
procuram
intimidade com as categorias da Teoria Geral do Direito” e que teria se
desqualificar o
“aventurado num campo bem mais difícil do que imaginara”.
oponente
Qualificação do texto de Ávila como um trabalho que apresenta uma “visão
Falácias que
superficial e incorreta de tema tão relevante [o aprimoramento da Ciência]”,
procuram
além de “referências isoladas, apressadas” a autores e do uso de expressões
desqualificar os
que não satisfariam “ao menos impertinente fiscal da correção semântica dos
argumentos, ao
termos do discurso”, em “má retórica, tal como aquelas utilizadas pelos
invés de combatê-los
políticos em horário eleitoral”.
Falácias que Centralização das objeções em questões que não compõem o núcleo do
procuram desviar o debate, como as objeções de Carvalho quanto à fixação da data inicial do
foco da discussão positivismo e ao emprego de termos como “formalismo” ou “estruturalismo”.
Qualificação da crítica de Ávila como despropositada desde o início. Nessa
direção, Carvalho sustenta que “não serão necessárias muitas linhas para
demonstrar a improcedência dos fundamentos oferecidos pelo autor”, que
“bastariam dois dedos de paciência e a atenção que escritos de tal
profundidade cobram incessantemente do leitor”, que “não vale a pena
Falácias que
ingressar naquele tipo de vertente epistemológica” e que “contra-argumentar,
procuram bloquear
neste passo, representaria um estipêndio inútil, de tal arte que me dispenso
ou neutralizar a
fazê-lo”.
discussão
Frases / expressões com o intuito de neutralizar a discussão, como “... quem
lida com mais intimidade com as categorias da Teoria Geral do Direito sabe
muito bem...”, “... [Ávila] não lida à vontade com categorias desse tope...”,
“... quem sabe a locução, submetida ao esmeril de especialistas ilustres...”.
Insinuam que aqueles que lidam “com mais intimidade com as categorias da

694
CARVALHO, 2013.
695
ÁVILA, 2014, passim e p. 161 ss.
248

Teoria Geral do Direito” etc. concordam com ele, ou seja, os que discordam
não exibem tais predicados.
FONTE: CARVALHO, 2013; ÁVILA, 2014.

Em um sentido, o último exemplo é menos problemático do que o primeiro,


porque Grau, como visto, critica Silva sem sequer mencionar a fonte. No entanto, é
problemático o suficiente, revelando práticas inquestionavelmente ilegítimas e avessas ao que
qualquer ramo do conhecimento espera de participantes de um debate racional.

8.4. CIÊNCIA DO DIREITO: CIÊNCIA OU PSEUDOCIÊNCIA?

Uma das tarefas comuns da Filosofia da Ciência, como visto, é a de demarcar o


conhecimento científico e de diferenciá-lo dos demais. Ao assumir um conteúdo mínimo de
ciência, reconheço que, enquanto critério de demarcação, ele dificilmente funciona para
distinguir as ciências da filosofia, pois a última pode e deve adotar as mesmas características
que atribuí ao conteúdo mínimo da ciência – desconfiança em relação ao argumento de
autoridade, adoção de argumentos bem estruturados, rigor teórico (ao contrário do
sincretismo), debate racional de ideias etc.
Um outro problema típico de demarcação concerne à distinção entre ciências e
pseudociências. É um tema controverso. A demarcação da fronteira entre ciência e
pseudociência integra a tarefa mais ampla de determinar quais crenças são epistemicamente
legítimas (epistemically warranted).696
A demarcação justifica-se por razões teóricas, contribuindo em esclarecimento
para a filosofia da ciência, assim como o estudo das falácias contribui para o estudo da lógica
informal e da argumentação racional; e também por razões práticas, como guia para a tomada
de decisões na vida pública e privada, já que, em muitas áreas diferentes, a ciência é a mais
confiável fonte de conhecimento e, sendo assim, distingui-la de similares ou de pretensas
ciências torna-se particularmente relevante.697
A questão possui repercussões e aplicações práticas em muitos campos diferentes
da vida social, incluindo, particularmente, áreas como o cuidado médico, as políticas de meio
ambiente, a educação e a ciência na etapa escolar e as provas periciais. Sobre as últimas, “é
essencial para o Estado de Direito que tribunais apurem os fatos corretamente”, e por vezes
isso pode ser deturpado através de práticas não científicas travestidas de ciência em virtude

696
HANSSON, 2015, p.1, 6.
697
HANSSON, 2015, p.2.
249

dos interesses das partes698; em contextos assim, a demarcação torna-se dramática, porque só
ela poderá diferenciar a prova viciada pelos interesses particulares das partes e por uma
estratégia processual inescrupulosa da prova legítima.
Existe aquilo que não é científico; aquilo que é anticientífico; e aquilo que é
pseudocientífico. Não são necessariamente coincidentes. O prefixo “pseudo” tem o sentido de
“falso”. O consagrado “Oxford English Dictionary” define pseudociência como “ciência falsa
ou espúria; um conjunto de crenças sobre o mundo erroneamente tidas como sendo baseadas
no método científico ou como tendo o mesmo status que as verdades científicas possuem
atualmente”. Hansson define inicialmente pseudociência como a atividade ou o ensinamento
que satisfaz aos seguintes critérios: “(1) não é ciência; e (2) seus principais proponentes
tentam criar a impressão de que é científica.”699 Não é uma definição isenta de problemas, ao
contrário.
Um dos problemas com a definição de pseudociência apresentada é o de que ela é
ampla demais, e termina por abarcar coisas que cumprem os dois critérios, mas não são
comumente tidas como pseudocientíficas, como é o caso da fraude na ciência.700
Para compreender melhor a separação entre ciência ruim e pseudociência,
Hansson concebe três casos hipotéticos701:
1. Um bioquímico realiza um experimento e o interpreta como demonstração de
que uma proteína específica possui um papel essencial na contração muscular, enquanto seus
colegas consensualmente consideram o resultado como desprezível em virtude de erro
experimental.
2. Um bioquímico realiza uma série de experimentos descuidados, e os interpreta
como demonstração de que uma proteína específica possui um papel essencial na contração
muscular não aceito por outros cientistas.
3. Um bioquímico realiza uma série de experimentos descuidados em áreas
diferentes (um deles sendo o mesmo experimento descrito no caso 1 acima). A maior parte do
seu trabalho é igualmente ruim. Ele não defende nenhuma teoria heterodoxa (diferente do
bioquímico do caso 2).
Segundo usos comuns do termo pseudociência, Hansson argumenta que apenas o
caso 2 é tido como tal, restando os casos 1 e 3 caracterizados apenas como ciência ruim, por

698
HANSSON, 2015, p.2-3.
699
HANSSON, 2015, p.7.
700
HANSSON, 2015, p.8.
701
HANSSON, 2015, p.8.
250

haver uma diferença entre ocasionalmente violar requisitos da ciência (casos 1 e 3) e sustentar
e promover uma doutrina viciada (deviant doctrine) ao longo do tempo (caso 2).702
A filosofia da ciência costuma conceituar “ciência” a partir não das doutrinas, mas
dos métodos de investigação. E mesmo neste sentido a pseudociência se coloca normalmente
como antitética, pois comumente a doutrina que afirma é assumida como fechada e acabada,
ou seja, o contrário do que preconiza uma metodologia de investigação permanente
(methodology for open-ended inquiry).703
Isso explica por que a fraude científica não é considerada pseudociência: quem a
comete não pretende sustentar uma doutrina heterodoxa, mas dar a aparência (falsa) de que
seus resultados são consistentes com o contexto estabelecido por teorias científicas
estabelecidas.704
Considero importante pensar na Ciência do Direito em termos críticos como, por
vezes, uma pseudociência, mesmo diante das falhas da definição inicial de “pseudociência”
exposta por Hansson. Defendo, em suma, que a Ciência do Direito deve ser criticada como
pseudociência se as violações ao conteúdo mínimo da ciência forem recorrentes e, ainda
assim, os proponentes colocarem suas teorias e afirmações como “científicas”. Neste sentido,
e para exemplificar, a Ciência do Direito que rotineiramente se baseia em argumentos de
autoridade, que não leva a sério os argumentos contrários à posição que porventura considere
inicialmente como a mais adequada ou defensável e / ou que ignora a necessidade de
justificação da defesa de uma dentre as diferentes possibilidades interpretativas, é uma
Ciência do Direito que não faz jus ao seu nome; é uma pseudociência.

702
HANSSON, 2015, p.8-9.
703
HANSSON, 2015, p.9-10.
704
HANSSON, 2015, p.9.
251

9 CONCLUSÕES
A partir do que foi examinado e debatido neste ensaio de Filosofia do Direito,
apresento, nos parágrafos seguintes, pontos de síntese e conclusão:
9.1. A Filosofia da Ciência é um ramo da Filosofia que tem como enfoque o
esclarecimento conceitual, que envolve perguntas como: “O que é Ciência?”; “O que é
metodologia científica?”; “Como a ciência se diferencia do senso comum?”; etc. Embora leve
em conta a dimensão empírica da ciência, é uma disciplina analítica, e não empírica. É
também normativa: questiona se e como os métodos e resultados científicos são adequados e
justificáveis.
9.2. A Filosofia da Ciência do Direito pode ser considerada uma aplicação da
Filosofia da Ciência à dogmática jurídica, voltando-se para perguntas como: “O que é
dogmática jurídica?”; “A dogmática jurídica é ou pode ser considerada uma ciência? Se sim,
em que sentido?”. Ao empreender a sua tarefa conceitual, possui um caráter descritivo: ela
pretende ser uma que explicação faça sentido em relação à prática a que se refere. Mas não é
só descritiva. Há também um elemento normativo que se manifesta no questionamento de se e
como determinados elementos são adequados e justificáveis e na fixação de um parâmetro ao
qual o conhecimento deve aspirar para ser científico.
9.3. O enfrentamento das perguntas pela Filosofia da Ciência do Direito tem tanto
caráter epistemológico (análise do conhecimento sobre o Direito) quanto ontológico (análise
do tipo de realidade envolvida no Direito). Ademais, possui cunho crítico das concepções que
conformam o discurso jurídico. Questionar a racionalidade e a cientificidade do Direito não
significa, porém, condenar sua dignidade ou utilidade e importância social nem desautorizar o
valor e sistematicidade do saber jurídico, mas apenas descrever e classificar esse saber perante
os demais, contribuindo para esclarecer até que ponto a autoconcepção do Direito e do saber
jurídico como atividade científica pode chegar.
9.4. A Ciência do Direito lida com textos normativos e como resolver problemas
sobre o sentido e o alcance das normas jurídicas relacionadas aos textos, bem como a respeito
de sua validade e do que fazer quando normas entram em conflito. Além de lidar com textos
normativos, a Ciência do Direito também se relaciona com o mundo físico e social priorizado
pelas abordagens empíricas. Isso se dá por meio de duas formas principais: quando o jurista
faz um levantamento dos textos normativos relevantes, e quando precisa examinar os fatos
relevantes. No entanto, a tarefa por excelência da Ciência do Direito é a interpretação de
textos normativos com a correspondente leitura e qualificação jurídica dos fatos
252

normativamente relevantes. O produto do estudo pode depender de afirmações fáticas, pode


incluir premissas fáticas, mas é uma conclusão normativa que conta com textos normativos
entre suas premissas.
9.5. A concepção que entende a Ciência do Direito como ciência descritiva das
normas em vigor, vistas como dogmas imodificáveis, obrigatórios e inquestionáveis é errônea
por diferentes razões: embora afirme que pretende apenas descrever a realidade, em verdade
prescreve como a realidade deve ser descrita para que a descrição possa ser qualificada como
científica; as palavras não têm sentidos rígidos e pré-estabelecidos, dados a priori pela
natureza e passíveis de serem “descobertos”; do ponto de vista cognitivo, atribuir sentido é,
mais do que descrever, recriar; a linguagem natural empregada nos textos normativos possui
limites de precisão, e é permeada de problemas de ambiguidade, incompletude, vagueza;
sistemas jurídicos contemporâneos, desenvolvidos, são normalmente muito complexos, sendo
grandes as chances de o intérprete se deparar com textos que incorram nos problemas da
linguagem e/ou cujos sentidos possíveis geram situações de conflito normativo que, por sua
vez, reclamam mais do que uma descrição supostamente neutra, avalorativa. Por isso, a
Ciência do Direito não pode ser um saber descritivo num sentido forte.
9.6. Por outro lado, a Ciência do Direito pode ser um saber descritivo num sentido
fraco, que admite as imprecisões do direito positivo como objeto de conhecimento e o papel
do jurista e de suas teorias e pré-concepções sem abrir mão da possibilidade de distinção entre
problemas jurídicos descritivos e problemas jurídicos prescritivos e entre pesquisas jurídicas
de lege lata e pesquisas de lege ferenda. Um consultor jurídico, por exemplo, pode ser
contratado para fazer uma análise de risco sobre comportamentos possíveis que o cliente
pretenda adotar e, ao fazê-lo, buscará descrever determinados aspectos do direito positivo
(ainda que este seja frequentemente impreciso, valorativo etc.). Um jurista pode
normativamente propor alterações do direito positivo tendo em vista o que percebe que as
normas são no momento (e o que elas são é sempre uma combinação de textos e
interpretações de textos).
9.7. A distinção entre zetética e dogmática jurídica não deve ser lida para reforçar
a ideia de dogmática como saber adstrito a um direito positivo entendido como conjunto de
premissas inquestionáveis estabelecidas pelo poder e que impõem certezas. Na verdade, o
direito positivo não é nem inquestionável, nem certo. Por isso, é preferível usar o termo
Ciência do Direito como superação mesma de um dualismo muito rígido entre zetética e
dogmática: afinal, o saber sobre normas e problemas de conflitos normativos e de dúvidas
253

interpretativas, o saber que deve se chamar “Ciência do Direito” é tal que combina elementos
zetéticos e dogmáticos.
9.8. Valores estão presentes nos sentidos possíveis do texto normativo, no sujeito
que compreende esses sentidos e precisa fazer uma escolha justificada por uma das hipóteses
interpretativas, na escolha e delimitação do próprio problema jurídico que enseja a
investigação, na maneira como o jurista seleciona quais materiais são relevantes para as
situações concretas ou hipotéticas que integram o seu problema e quais materiais não o são,
na forma pela qual o jurista resolve possíveis conflitos entre normas e entre resultados
contrários de critérios ou métodos interpretativos, no modo do jurista resolver problemas de
imprecisão da linguagem dos textos normativos, enfim, não é possível imaginar uma pesquisa
sobre problemas jurídico-dogmáticos que não envolva valores e juízos de valor. A ideia de
que juristas em geral seguem uma ideologia que combina a crença de que o direito positivo
deve ser aplicado com o ideal de que a Ciência do Direito deve orientar as decisões e adequá-
las aos padrões valorativos vigentes (aprimorando o direito positivo) parece ser correta como
caracterização da ideologia jurídica, e mostra como a Ciência do Direito envolve elementos
textuais e extratextuais numa relação dinâmica.
9.9. O Direito é um regime altamente especializado de controle diferido e
generalizado do comportamento social, cuja autoridade se faz presente não somente em
termos de dominação, poder, coação etc., mas também por conectar-se com a ideia de
racionalidade, de justificação pública política e moral do seu poder. O Direito se constitui
como uma normatividade social de segunda ordem, i.e., que se afirma em precedência das
demais, e se positiva de uma maneira altamente formalizada e por meio de uma linguagem
específica cujos interlocutores primários são os próprios atores jurídicos. A crescente
complexidade e a independência relativa entre as instituições legislativa e aplicativa (que
compõem a técnica jurídica) exige a presença de um mecanismo adicional de racionalização
que seja capaz de reconstruir as teorias incorporadas ao processo dinâmico da técnica jurídica:
a Ciência do Direito, sugestivamente denominada de “quarto poder”, fonte principal das
teorias formais e materiais exigidas pelo manejo dessa técnica.
9.10. O positivismo jurídico admite várias vertentes, como a que reconhece a
pluralidade de sentidos possíveis de normas, mas entende que é científico apenas o
estabelecimento da moldura. Entendo que a Ciência do Direito pode ser um saber racional, e
que isso inclui estabelecer critérios racionais para a decisão por um dos sentidos possíveis da
254

norma ou, de modo mais amplo, para a decisão por uma das respostas possíveis aos problemas
jurídicos.
9.11. Ao ser chamado para decidir um conflito social e jurídico, o juiz tem o dever
de decidir da melhor forma. Summers e Taruffo identificam três padrões de decisão: o padrão
básico, em que o julgador usa apenas um argumento na justificação; o padrão cumulativo, em
que o julgador usa dois ou mais argumentos que concorrem para a mesma conclusão; e o
padrão complexo, em que o julgador não só apresenta argumentos que dão suporte à sua
conclusão, mas também fornece razões de por que ela é melhor do que a conclusão rival. O
jurista pesquisador não é como o juiz investido; suas interpretações não geram efeitos
jurídicos imediatos. Ainda assim, ele é uma espécie de juiz epistemológico: precisa examinar
argumentos e decidir pela linha argumentativa melhor fundamentada. Neste sentido, defendo
como possível e desejável a transposição dos citados padrões de decisão para julgar as
respostas que o jurista pesquisador dê a problemas dogmáticos (o padrão complexo
correspondendo ao mais alto padrão de racionalidade em virtude de sua carga de justificação e
do seu respeito com a posição não prevalente). A Ciência do Direito é um saber que fornece
razões melhores ou piores, segundo se aproximam ou não de ideais ou valores sistêmicos,
como o padrão complexo de justificação, a dimensão ou critério da adequação (capacidade da
hipótese interpretativa de refletir o direito positivo) e a dimensão ou critério do apelo moral
(capacidade da hipótese interpretativa de refletir ideais de justiça).
9.12. A dinâmica entre justiça e direito positivo pode e possivelmente deve se dar
da seguinte maneira: o direito positivo como um todo carrega consigo uma pretensão de
correção; a objetividade, no sentido de absoluta neutralidade axiológica diante da pretensão de
correção, não existe; os direitos humanos e fundamentais expressos nas declarações de
direitos, nas constituições e nos tratados devem servir na construção da hipótese interpretativa
não só pelo seu protagonismo em sistemas jurídicos como o nosso, como também por
contribuírem como parâmetro intersubjetivo da ideia de justiça; entre hipóteses interpretativas
de similar aderência ao direito positivo, prevalece a que melhor servir à justiça, objetivada
pelos direitos humanos e fundamentais. Isso não significa que a Ciência do Direito orientada
pela métrica dos direitos humanos apresenta resultados exatos. Contudo, a Ciência do Direito
humanizada é mais transparente quanto às escolhas valorativas envolvidas na solução de
problemas jurídicos, e espera-se gerar respostas mais adequadas valorativa e positivamente.
9.13. Machado Segundo considera que a Ciência do Direito deve ser considerada
científica se for capaz de gerar respostas abertas à crítica e à refutação argumentativa, em
255

moldes falseabilistas. Vega considera que a Ciência do Direito está no domínio da razão
prática (ligada à ação humana, por isso contingente e variável) e é racionalidade técnica ou
prática intermediária entre a ética e a política, não podendo ser científica aos olhos da teoria
da ciência antiga e medieval, tampouco da teoria da ciência moderna e contemporânea, nem,
enfim, da mais frouxa definição de ciência. Para decidir-me sobre a questão da cientificidade
da Ciência do Direito entre a resposta de um e a de outro, ou mesmo por meio de uma terceira
via, resolvi investigar diferentes concepções de ciência, comparando-as com a Ciência do
Direito e suas características. Foram examinadas as seguintes concepções: indutivismo,
falseabilismo, teoria dos paradigmas, teoria dos programas de pesquisa, realismo não
representativo, anarquismo epistemológico e ciência pós-moderna.
9.14. Para o indutivismo, o conhecimento científico caracteriza-se pela realização
e pelo registro público e objetivo de observações por parte do cientista, a partir das quais são
inferidas, por indução, teorias ou leis das quais, num caminho inverso, dedutivo, podem ser
propostas explicações e previsões. É uma visão falha, nem tanto porque o princípio
indutivo não pode ser justificado por meio da lógica, mas especialmente porque observações
são carregadas de teoria e pelas limitações do indutivismo como explicação do fazer científico
ao longo da história. De toda sorte, a Ciência do Direito não se qualifica como científica para
o indutivismo: não é um saber sobre fatos, mas sobre normas; não pode ser valorativamente
neutro; é carregado de teoria. Não é possível que o jurista se comporte como o cientista
indutivista (e, a rigor, não é possível nem que o cientista em geral, inclusive o cientista
natural, se comporte como o cientista indutivista). Apesar disso, sendo um saber racional, a
Ciência do Direito pode se beneficiar de raciocínios indutivos, bem como de raciocínios de
outros tipos.
9.15. Sobre o fato de a Ciência do Direito ser carregada de teoria, entendo ser
importante esclarecer que: reconhecer que o sentido e o alcance das normas não são
determinados apenas pelos textos normativos, mas também, de modo significativo, pelas
crenças e expectativas do jurista, não é o mesmo que afirmar que o jurista é capaz de alcançar
o resultado interpretativo que quiser. A tese de que a interpretação é carregada de teoria não
se confunde com a tese de que os juristas veem apenas aquilo que querem ver, i.e., aquilo que
confirma suas hipóteses interpretativas; também não equivale a entender que as
pressuposições teóricas não possam ser enfraquecidas, refutadas ou modificadas diante de
críticas, novos fatos, novas normas e novas hipóteses de interpretação normativa.
256

9.16. Para o falseabilismo, a ciência é um conjunto de hipóteses que almejam


descrever o comportamento de algum aspecto do universo, e que são falseáveis, i.e., que
geram, ao menos em tese, proposições de observação que podem confirmá-las ou refutá-las. A
teoria melhor é a que sobrevive aos testes. O pensamento crítico é a essência da racionalidade
e da ciência, pois através dele teorias falsas são eliminadas e uma decisão racional é tomada
em relação às teorias sobreviventes segundo o nível mais alto de capacidade ou força
explanatória e poder de previsão. A ciência progride por conjecturas e refutações, e só as
teorias mais adaptadas sobrevivem. Há um problema, são propostas e testadas hipóteses
falseáveis, novas críticas e testes são feitos às hipóteses sobreviventes, e assim
sucessivamente.
9.17. Enquanto teoria sobre a ciência, o falseabilismo apresenta limitações: a
“refutação” pode indicar erro não da teoria, mas de uma premissa ou do meio de refutação e,
com isso, nenhuma refutação pode ser conclusiva; levado à risca, o falseabilismo rejeita
teorias fecundas na sua infância; sua solução ao problema da indução é negativa e menospreza
a indução, em prejuízo da ciência e de sua função preditiva; teorias que acumulam acertos
devem ser entendidas como aproximações da verdade.
9.18. Teorias jurídicas não se preocupam com a compreensão de aspectos do
universo no sentido científico ortodoxo e, por isso, não geram nem em tese a possibilidade de
confirmação ou refutação empírica. Não são científicas à luz do falseabilismo. No entanto,
podem se beneficiar enormemente do cerne do falseabilismo: o pensamento crítico e racional
e a abertura permanente para o debate e para a refutação da resposta jurídico-dogmática diante
de razões sólidas do contrário. É nesse sentido que a posição de Machado Segundo pode ser
defendida, e não como aplicação não adaptada do falseabilismo ao mundo do Direito. Esta
versão argumentativa do falseabilismo, por assim dizer, é um critério importante de
racionalidade que permite discernir teorias jurídicas melhores e piores, legítimas e ilegítimas.
9.19. Para a teoria dos programas de pesquisa, conhecimento científico é aquele
que exiba: uma heurística negativa que fixa um núcleo irredutível cujas suposições não podem
ser refutadas ou modificadas; uma heurística positiva que indica como o programa deve ser
desenvolvido de modo a explicar fenômenos previamente conhecidos e prever fenômenos
novos por meio de suposições adicionais ao núcleo irredutível. O programa precisa possuir
um grau de coerência que envolva o mapeamento de um programa definido para a pesquisa
futura e ser capaz de levar à descoberta de fenômenos novos. Uma boa metodologia será
aquela que permite todos os tipos de adições e modificações do cinturão protetor, desde que:
257

não sejam ad hoc; possam ser testadas independentemente; não contrariem o núcleo
irredutível. Na comparação entre programas de pesquisa, o que estiver progredindo – v.g. com
previsões normas confirmadas – deve se sobrepor ao degenerescente.
9.20. Enquanto teoria sobre a ciência, a ideia dos programas de pesquisa apresenta
limitações. O falseabilismo aceita ou condena uma teoria de pronto, enquanto a proposta
lakatosiana aguarda. Mas, por quanto tempo? A ausência de resposta torna o critério proposto
por Lakatos inócuo, e a fixação de um limite de tempo o deixa vulnerável como o
falseabilismo. Além disso, a concepção não indica ao cientista individual o que ele deve fazer
diante de dois programas de pesquisa rivais, nem mesmo no sentido de abandonar programas
degenerescentes, pois é sempre possível que um programa degenerescente seja reabilitado.
Serve, antes, ao historiador. Não tem caráter prospectivo / normativo, mas retrospectivo.
9.21. Limitações à parte, a Ciência do Direito também não é uma ciência nos
termos da teoria dos programas de pesquisa: não tem como objetivo explicar fenômenos e
prever novos fenômenos nem pode dar ensejo a novos testes e novas confirmações no sentido
usualmente pensado pela epistemologia naturalista. Ademais, conquanto a teoria de Lakatos
permita a existência de programas de pesquisa contemporâneos e rivais, a Ciência do Direito
se afasta da concepção lakatosiana de ciência também por contar com desacordos teóricos em
maior número sobre questões epistemológicas gerais e fundamentais. Ainda assim, há algo de
comparável, como a possibilidade da existência de grupos que afirmem uma espécie de
“núcleo irredutível” e que desenvolvam seus trabalhos a partir daí.
9.22. Segundo a teoria dos paradigmas, a ciência é uma estrutura complexa que
alterna fases de normalidade e revolução. Na ciência normal, os cientistas desenvolvem o
paradigma (conjunto de suposições teóricas gerais e de leis e técnicas que determina os
padrões para o trabalho legítimo dentro da ciência) para explicar e acomodar aspectos
relevantes do mundo real. A fase normal se diferencia da pré-paradigmática, onde ao invés de
uma atividade estruturada e dirigida, em que a comunidade científica atém-se a um único
paradigma, há uma atividade desorganizada, em desacordo e constante debate a respeito dos
fundamentos, o que torna impossível que o cientista se dedique a desenvolver trabalhos
teóricos e experimentais rigorosos com fito à correspondência entre o paradigma e a natureza
a um grau cada vez mais alto. Mudanças de paradigma se dão por ampla variedade de fatores
muito distintos, e a adesão de cientistas individuais a um paradigma alternativo é comparável
a uma “troca gestáltica” ou a uma “conversão religiosa”. Ocorre uma “revolução científica”
258

com a mudança descontínua de um paradigma a outro, e o paradigma novo passa a orientar


uma nova atividade científica normal até o advento de uma nova crise.
9.23. Enquanto teoria sobre a ciência, a teoria dos paradigmas apresenta
limitações. Paradigmas não determinam a percepção de mundo dos cientistas, nem impedem
que a mudança de paradigmas possa ser, em importante parte, racional, justificada. A teoria
dos paradigmas é sociológica, e por isso não fornece para o cientista elementos para uma
crítica racional dos métodos e de sua adequação. Por fim, como a história usa métodos
similares à ciência para analisar fontes e realizar inferências racionais a partir dos dados
disponíveis, nenhum argumento histórico pode ser usado para desafiar a confiança no
conhecimento científico.
9.24. Limitações à parte, a Ciência do Direito também não é uma ciência nos
termos da teoria dos paradigmas. A Ciência do Direito identifica-se muito mais com a
chamada fase pré-paradigmática, em que não há uma organização da comunidade em torno de
um paradigma e prosperam os debates e desacordos sobre princípios metafísicos e similares.
Sinal forte disso é o fato de os juristas, com certa frequência, demonstrarem preocupação com
o caráter científico ou não do seu saber, enquanto cientistas de outras áreas não encontram o
mesmo sentido em, nem têm a mesma necessidade de, empreender reflexões semelhantes.
Isso não quer dizer, porém, que reflexões teóricas ou filosóficas sobre o Direito e sobre o
estudo do Direito não possam se beneficiar de noções adaptadas e de insights oriundos da
filosofia da ciência de Thomas Kuhn, e há mesmo uma literatura relativamente ampla que
cuida de levar esforços como esses adiante. Na teoria do Estado e da Constituição, por
exemplo, é comum que os distintos tipos de constitucionalismo sejam explicados em termos
de diferentes paradigmas jurídicos: o paradigma liberal, o paradigma social etc. Também na
teoria conceitual do direito e na teoria da interpretação jurídica pode-se ganhar algum insight
em tratar de diferentes concepções metódicas como paradigmas. Nesse sentido, poderíamos
ter o paradigma positivista inclusivo, o paradigma positivista exclusivo, o paradigma
interpretativista, o paradigma filosófico-hermenêutico, o paradigma não positivista, o
paradigma humanista etc. Poderíamos refletir sobre como os diferentes paradigmas competem
entre si, como resolver disputas entre eles, como identificar paradigmas em florescimento e
paradigmas em crise... E é perfeitamente possível que reflexões assim resultem em alguma
compreensão melhor a respeito das teorias jurídicas e especialmente das comunidades
acadêmicas e profissionais respectivas.
259

9.25. Para o realismo não representativo, há um mundo físico independente do


nosso conhecimento; as teorias científicas não são descrições de entidades do mundo, mas
aplicam-se ao mundo em certo grau que deve exceder o de suas predecessoras; a ciência não
busca a verdade correspondencial objetiva ou absoluta como ponto final, mas o
desenvolvimento sem fim do conhecimento. É, assim, uma empreitada humana, limitada, e de
acentuado caráter social. Teorias são avaliadas segundo a extensão em que lidam com sucesso
com algum aspecto do mundo, e não de acordo com a extensão em que descrevem o mundo
como ele é. O grau de fertilidade descreve as oportunidades objetivas de desenvolvimento de
cada teoria. Havendo uma oportunidade objetiva, mais cedo ou mais tarde alguém dela se
aproveita. O programa que oferece mais oportunidades tenderá a ultrapassar o programa rival
na medida em que as oportunidades forem aproveitadas.
9.26. A concepção científica do realismo não representativo também não abarca
um conhecimento sobre normas como a Ciência do Direito, mas seus pressupostos permitem
paralelos interessantes. Do mesmo modo que o realismo não representativo encara a ciência
como uma empreitada humana, limitada, permanente e de acentuado caráter social, assim
também a dogmática pode e deve ser vista. Ademais, se para o realismo não representativo as
teorias são avaliadas segundo seu êxito em lidar com algum aspecto do mundo, e não de
acordo com o modo como descrevem o mundo como ele é (já que não há uma realidade
objetiva que nos permita acesso imediato e independente de nossas teorias), no âmbito da
Ciência do Direito também é possível comparar teorias não com base na forma como
supostamente descrevem o seu objeto como um dado externo ao sujeito e imediatamente
cognoscível por ele, mas na medida e intensidade com a qual as diferentes teorias jurídicas
atendem as metas que esse tipo de conhecimento busca (transparência, fundamentação das
hipóteses interpretativas, adequação ao direito positivo e aos ideais de justiça). Por fim,
parece ser possível tratar das diferentes teorias e dos avanços do conhecimento jurídico
(entendidos nos termos de uma adequação descritiva e superioridade prescritiva)
considerando a possibilidade de cada teoria oferecer oportunidades objetivas aos juristas
investigadores que podem ou não ser aproveitadas. Para ilustrar, uma teoria que entende o
Direito como um conjunto de regras que devem ser descritas pelo cientista do Direito oferece
menos oportunidades de investigação do que uma teoria que entende o Direito como formado
por normas de diferentes tipos e graus de abstração, por regras e princípios que são
interpretados de maneiras distintas.
260

9.27. Para o anarquismo epistemológico, a ciência não pode nem deve organizar-
se em torno de regras fixas e universais. Na ausência delas, a única regra válida é a do “vale
tudo”. A ciência é comparável à mitologia e à religião. Teorias rivais podem ser tão distintas
que não é possível compará-las logicamente. As teorias acabam sendo comparadas segundo
outros fatores, como preferências e desejos subjetivos, julgamentos de gosto, julgamentos
estéticos, preconceitos metafísicos, desejos religiosos e até mesmo propaganda. Não há um
único método capaz de explicar a história da ciência e como o conhecimento progride e se
desenvolve, nem de estabelecer a superioridade da ciência sobre outras formas de
conhecimento.
9.28. O anarquismo epistemológico também apresenta limitações. A dificuldade
ou impossibilidade de codificar o método científico não quer dizer que não possam ser
desenvolvidas regras, de validade mais ou menos geral, a partir da experiência prévia. Da
premissa correta de que não parece haver regras fixas e universais, Feyerabend apresenta a
conclusão incorreta de que, como todas as metodologias têm limites, a única regra válida é a
do “vale tudo”. Seu relativismo metodológico é tão radical que, tomado literalmente, se
autorrefuta.
9.29. A Ciência do Direito seria científica diante do anarquismo epistemológico?
O relativismo cognitivo que parece subjazer ao anarquismo epistemológico acomodaria a
Ciência do Direito pelo menos como saber tão válido quanto o científico. Simultaneamente, o
mesmo relativismo não se compatibilizaria com as pretensões de correção e racionalidade do
Direito e o papel da Ciência do Direito neste contexto. Por outro lado, o trabalho de crítica da
ciência promovido por Feyerabend pode inspirar estudos importantes, que desmascarem
respostas jurídicas movidas a interesses particulares e dadas como se fossem racionais,
objetivas e metodológicas.
9.30. A ciência pós-moderna preconizada por Santos como paradigma emergente
refletiria o seguinte: superação da distinção entre sujeito e objeto pela afirmação de que a
ciência é necessariamente subjetiva e autobiográfica; superação da distinção dicotômica entre
ciências naturais e ciências sociais a partir do protagonismo das últimas, com a adoção de
analogias humanísticas como categorias matriciais; conhecimento “relativamente imetódico”,
“pluralidade metodológica”, “fusão de estilos”, “interpenetrações entre cânones de escrita”,
“uso de vários estilos segundo o critério e a imaginação pessoal”; como a validade da ciência
decorre de um juízo de valor, não há razão científica para considerar a ciência melhor do que
a astrologia, a arte ou a poesia.
261

9.31. Similarmente ao que ocorre com o anarquismo epistemológico, o


relativismo da ciência pós-moderna é tão radical que se autorrefuta. Ademais, o discurso de
Santos apresenta os seguintes problemas: críticas indevidas à ciência moderna, confusão entre
os diferentes sentidos do termo ciência e os distintos níveis (metodológico, social) da prática
científica, rejeição do racionalismo, manipulação de termos rebuscados e pouco cuidado com
o significado das palavras, rejeição da distinção entre fatos e ficção, concessão de importância
para crenças subjetivas sem maiores preocupações com sua verdade ou falsidade, abandono
do pensamento claro e da análise rigorosa da realidade social, uso de discursos obscuros com
afirmações grandiloquentes ambíguas ou arbitrárias, abuso de conceitos e termos procedentes
das ciências exatas e naturais e salto para conclusões sem o devido suporte.
9.32. Os anseios por uma ciência que seja menos subordinada ao poder político e
econômico e mais voltada às necessidades humanas, mais aberta e menos discriminatória são
legítimos, e podem ser validamente transpostos para a ciência jurídica, que muito tem a
ganhar se puder contribuir mais com a emancipação humana do que com a sua subjugação. O
mesmo não pode ser dito do relativismo, fundamento extremamente fraco para erigir uma
crítica da ordem social estabelecida e elemento de todo estranho ao Direito e à Ciência do
Direito. São esperadas do jurista, especialmente do juiz e do pesquisador, respostas que
possuam a melhor fundamentação possível e que sejam minimamente objetivas ou
intersubjetivas, o que contrasta com a postura relativista de virtualmente não fazer diferença
entre realidade e ficção.
9.33. Apesar das muitas divergências existentes em torno do conceito de ciência,
ilustradas pelas diferenças entre as concepções abordadas, há elementos que compõem um
conteúdo mínimo da cientificidade: desconfiança da tradição, da autoridade, da intuição, da
revelação e do consenso; adoção das regras da investigação racional (como as regras de
inferência) e busca por mitigar falácias e vieses; uso de sistematização e de método para
organizar ideias e produzir respostas; produção de respostas passíveis de controle
intersubjetivo (afinal, respostas totalmente subjetivas são incomparáveis); transparência de
meio e de resultado; abertura para argumentos e evidências em contrário; ausência de
contradições internas; rejeição da seleção ou interpretação enviesada de fontes, argumentos,
evidências; postura crítica consigo mesmo e com os demais; abertura e aceitação de críticas,
quando procedentes, mesmo que isso envolva sacrificar crenças ou teorias que o pesquisador
estime.
262

9.34. Harris defende que questões morais podem ser analisadas cientificamente e
que a ciência da moralidade é apenas um ramo pouco desenvolvido da ciência. Harris propõe
– filosoficamente – o conceito da paisagem moral: tal como uma paisagem geográfica dotada
de picos e vales, mesmo diante de dúvidas ou incertezas atuais é possível reconhecer picos e
vales morais, i.e., práticas e ações que representam pontos altos e pontos baixos na escala da
moralidade, entendida, vale repetir, na sua relação com o bem-estar das criaturas dotadas de
consciência. Sem adentrar no mérito de sua proposta, limito-me a tomar a metáfora de
empréstimo para imaginar uma paisagem científica com picos (como a observância das regras
de inferência, por exemplo) e vales (como a crença acrítica em argumentos de autoridade).
9.35. Um dos vales da paisagem jurídica é a pesquisa que incorre em uma ou mais
das seguintes características: o pesquisador não delimita o seu problema ou coloca um falso
problema, i.e., um problema de solução fácil em consulta simples a fontes
tradicionais/acessíveis; o pesquisador não se preocupa em conhecer a fundo o tema no qual o
problema se insere, nem a bibliografia que já foi produzida sobre o tema e que se relaciona
com o problema, não raro se refugiando em manuais ou livros mais básicos; como o
pesquisador não delimita o seu problema ou coloca um falso problema e não conhece a
bibliografia existente, não é capaz de formular uma hipótese, ou, ao invés dela, já carrega
consigo a resposta prévia ao problema; o pesquisador não apresenta de forma expressa e clara
qual é o método, ou comumente adota o não método da coletânea de citações, na filiação aos
“entendimentos” desta ou daquela autoridade; no curso da pesquisa, são coletados dados
apenas para confirmar a resposta prévia, sendo que os dados contrários a ela, quando
mencionados, são colocados apenas como ilustração de aparente divergência, havendo uma
lógica partidária de filiação a essa ou àquela corrente sem maiores fundamentações racionais;
o tratamento dos dados é feito de forma assistemática e descontextualizada, o que, de um
lado, acarreta uma ausência de hierarquia entre as fontes de pesquisa, e, de outro, um
sincretismo epistemológico comumente evidenciado pela conjugação de autores-autoridades
cujas teorias são, na verdade e na matéria de fundo não avaliada pelo pesquisador, parcial ou
integralmente incompatíveis entre si; o pesquisador não é capaz de apresentar uma resposta
objetiva, racionalmente fundamentada e intersubjetivamente controlável.
9.36. Um dos picos da paisagem jurídica é a pesquisa que incorre em uma ou mais
das seguintes características: o pesquisador parte de uma dúvida que não é facilmente
respondida por consulta simples a fontes tradicionais/acessíveis; o pesquisador conhece bem o
tema no qual está inserida a dúvida, e, por isso, foi capaz de chegar a ela; a dúvida também
263

não é respondida satisfatoriamente pela bibliografia existente, que é de conhecimento prévio


do pesquisador; o pesquisador, por conhecer o tema e a bibliografia existente, além de ser
capaz de formular uma dúvida relevante, é também capaz de formular uma resposta provisória
a ser testada (hipótese); o pesquisador apresenta de forma expressa e clara qual é o método
que utiliza para testar a hipótese; no curso da pesquisa, a resposta provisória (hipótese) é
confirmada ou refutada; o pesquisador parte de um corpo teórico expressamente delimitado
para não só coletar, mas interpretar os dados que servirão como base para a confirmação ou
refutação da hipótese; o problema, a hipótese, a forma de testar a hipótese, os pressupostos
teóricos e a conclusão, porque são colocados de forma clara e expressa, estão abertos ao
debate racional, às críticas, ao controle intersubjetivo.
9.37. Ao sistematizar os problemas que Spitzer atribui ao discurso jurídico,
consigo apontar outras características que igualmente representam vales da paisagem da
cientificidade e racionalidade do saber: argumentação dramatizada, estridente, assertiva em
demasia (inclusive nas conclusões); afirmações exageradas e inadequadas, excessos retóricos;
afirmações imprecisas; lacunas na pesquisa básica, lapsos factuais básicos; descaracterização
da literatura sobre o assunto; conclusões que não decorrem das evidências apresentadas;
conclusões excessivamente assertivas/confiantes; conclusões equivocadas.
9.38. Similarmente a Nobre, Spitzer entende que as características problemáticas
em questão relacionam-se com uma confusão entre teoria e prática forense que é propagada
desde os bancos escolares do Direito. Neste sentido, menciona, tendo em mente a realidade
estadunidense, os seguintes fatores: formação acadêmica voltada à capacitação profissional;
ênfase em princípios forenses (preeminência da lealdade ao cliente, no limite, até mesmo em
relação à verdade), em detrimento dos princípios acadêmicos compartilhados com as demais
áreas. Embora as hipóteses empíricas de Spitzer e de Nobre sobre o Direito não prescindam
de pesquisas sociológicas, elas soam muito plausíveis, e revela-se como um quase truísmo a
ideia de que a produção acadêmica no Direito se beneficiaria muito de uma formação básica
mais sólida em metodologia.
9.39. Spitzer inclui outro fator para explicar a falta de rigor e cientificidade do
discurso jurídico: o fato de os periódicos jurídicos estadunidenses serem normalmente
editados por estudantes sem a utilização da revisão dos pares na seleção dos artigos. É
interessante comparar as duas realidades – estadunidense e brasileira – e perceber que a
presença de procedimentos de revisão cega dos pares talvez não tenha garantido ao cenário
264

brasileiro um discurso qualitativamente diferente. É um assunto muito fecundo para uma


pesquisa de sociologia da ciência jurídica.
9.40. Concordo que a presença de interesses particulares e a lógica parcial própria
da advocacia pode influenciar o resultado das respostas propostas pelos juristas aos problemas
jurídico-dogmáticos. Não nego a “lógica do parecer”, i.e., a apresentação de respostas
enviesadas por motivos profissionais como se fossem completamente isentas, como um
problema sério. No entanto, considero que a resposta ao problema não é a exclusão do
advogado do debate acadêmico sobre o Direito. Como o sistema do contraditório é
constitutivo da técnica jurídica e como a Ciência do Direito é também um saber que tem uma
função prática de fornecer critérios para decisões e afins, considero que o ponto de vista do
advogado é muito importante, inclusive para quem estiver na posição de juiz ou de juiz
epistemológico. Por isso, proponho uma saída alternativa: a de que a comunidade jurídica
assuma como prática cogente a identificação do emissor como advogado e, quando for o caso,
a indicação de que a matéria abordada é do interesse de algum cliente ou foi desenvolvida
como tese para fins advocatícios. Seria algo similar ao que os médicos fazem ao indicarem
nos textos e apresentações que foram financiados por determinada empresa farmacêutica.
9.41. Um conhecimento que se pretenda sistematizado e racional não pode
prescindir de um ambiente de colaboração e crítica, sem o qual dificilmente consegue algum
avanço significativo. Isso vale para as ciências no sentido mais tradicional, e também para a
filosofia e para a ciência jurídica. Uma cultura jurídica antidemocrática, acostumada com a
reverência nada republicana, nem científica, a autoridades, é presumivelmente uma cultura
onde este ambiente ou não existe, ou é muito incipiente. A pergunta sobre até que ponto a
cultura jurídica brasileira está, em grande medida, situada neste vale de irracionalidade é uma
pergunta empírica, e pode ser respondida com mais precisão por pesquisas com este enfoque.
Meu trabalho filosófico tem por objetivo autodeclarado tratar de algumas situações em que
refletem este tipo de vale como advertência normativa para que pesquisadores e juristas
práticos não caiam em buracos parecidos.
9.42. Silva distinguiu as teorias de Müller e Alexy e criticou alguns autores –
dentre eles, Eros Grau – que, por “sincretismo metodológico”, as trataram como compatíveis
no âmbito das normas e da interpretação jurídica. Ao invés de agradecer Silva pela crítica e ou
acatá-la, ou rejeitá-la de maneira justificada, Grau apresentou uma réplica na qual, dentre
outras coisas: (i) não menciona o nome de Silva, nem a fonte de onde partiram as críticas
(mas, pelo conteúdo, o leitor que conhece ambos os textos pode concluir sem nenhuma dúvida
265

a quem a réplica se refere); (ii) faz ataques pessoais a Silva, acusado de ter feito “má leitura”
do texto de Grau e chamado de “crítico brasileiro dos autores brasileiros em geral, intérprete
autêntico de Alexy, munido de muita ciência trazida da Alemanha, obtida diretamente de seus
assistentes”. Quanto ao primeiro ponto, há aí um déficit de transparência e publicização,
essenciais para um debate público e racional. Quanto ao segundo ponto, há falácias de
desqualificação do oponente, além de uma acusação gravíssima de apropriação do trabalho
acadêmico alheio.
9.43. Um caso semelhante ao da reação de Grau ocorreu no debate entre Ávila e
Carvalho. Ávila cuidou basicamente de expor o que chama de descritivismo jurídico para
criticá-lo em prol do chamado estruturalismo argumentativo e, ao fazê-lo, atribuiu a Carvalho
a posição descritivista. Descontente com a crítica, Carvalho escreveu uma réplica por meio da
qual não se limitou a discordar de Ávila com base em argumentos, mas incorreu em falácias
argumentativas que, aliás, não passaram despercebidas ao próprio Ávila, que as apontou em
sua tréplica. Dentre elas: falácias que procuram desqualificar o oponente (qualificação de
Ávila como “jovem professor” que não lida “com mais intimidade com as categorias da
Teoria Geral do Direito” e que teria se “aventurado num campo bem mais difícil do que
imaginara”); falácias que procuram desqualificar os argumentos (qualificação do texto de
Ávila como trabalho que apresenta “visão superficial e incorreta”, “referências isoladas” e
“apressadas”, uso de expressões que não satisfariam “ao menos impertinente fiscal da
correção semântica dos termos do discurso”, em “má retórica, tal como aquelas utilizadas
pelos políticos em horário eleitoral”); falácias que procuram bloquear ou neutralizar a
discussão (qualificação da crítica de Ávila como despropositada desde o início etc.).
9.44. Inicialmente, Hansson define “pseudociência” como a atividade ou o
ensinamento que satisfaz aos seguintes critérios: (1) não é ciência; (2) seus principais
proponentes tentam criar a impressão de que é científica. Não é uma definição isenta de
problemas (apontados, aliás, pelo próprio Hansson), mas ainda assim revela-se útil para
pensar criticamente a Ciência do Direito. Quando, no Direito, as violações ao conteúdo
mínimo da ciência são recorrentes e, mesmo assim, os proponentes colocam suas teorias e
afirmações como “científicas”, a atividade que nestes termos se desenvolve é
pseudocientífica. Assim, a Ciência do Direito que rotineiramente se baseia em argumentos de
autoridade, por exemplo, é uma Ciência do Direito que não faz jus ao seu nome; é uma
pseudociência.
266

REFERÊNCIAS
ALDER, Mike. Newton’s Flaming Laser Sword. Philosophy Now, Issue 46, 2004. Disponível
em: https://philosophynow.org/issues/46/Newtons_Flaming_Laser_Sword. Acesso em: 05
ago. 2015.

ALEXY, Robert. On Necessary Relations between Law and Morality. Ratio Juris, v.2, p.167-
183, 1989.

ALVES, Rafael Francisco; BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos; CAMPILONGO, Celso


Fernantes; FRAGALE FILHO, Roberto da Silva; VIEIRA, Oscar Vilhena. Tema 1 -
Panorama atual da pesquisa em Direito no Brasil. Cadernos Direito GV, n.25, setembro de
2008, p.17-59.

ALVES, Henrique Napoleão. Juristas têm muito o que aprender com um físico teórico.
Revista Consultor Jurídico, 18 de outubro de 2014.

ÁVILA, Humberto. A hermenêutica constitucional como instrumento da segurança jurídica


em matéria tributária. Abradt [XVIII Congresso Internacional de Direito Tributário],
Setembro de 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jaFUCOWQTjg>.
Acesso em: 9 mai. 2016.

ÁVILA, Humberto. Ciência do Direito Tributário e Discussão Crítica. Revista Direito


Tributário Atual, n.32, p.159-197, 2014.

ÁVILA, Humberto. Função da Ciência do Direito Tributário: do Formalismo Epistemológico


ao Estruturalismo Argumentativo. Revista Direito Tributário Atual, n.29, p.181-204, 2013.

ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos.
4 ed. 3 tiragem. São Paulo: Malheiros, 2005.

ÁVILA, Humberto. Argumentação jurídica e a imunidade do livro eletrônico. Revista


Diálogo Jurídico, v. I, nº. 5, agosto, 2001, p.1-33. Disponível em:

<http://www.direitopublico.com.br/pdf_5/DIALOGO-JURIDICO-05-AGOSTO-2001-
HUMBERTO-AVILA.pdf >. Acesso em: 12.01.2011.

BACHEGA, Riis Rhavia Assis. Einstein falou que tudo é relativo? Universo Racionalista, 17
fev. 2015. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/einstein-falou-que-tudo-e-
relativo/>. Acesso em 1 mar. 2016.

BALEEIRO, Aliomar; DERZI, Misabel Abreu Machado. Direito Tributário Brasileiro. 12 ed.
Rio de Janeiro: Forense, 2013.

BALEEIRO, Aliomar; DERZI, Misabel Abreu Machado. Limitações Constitucionais ao


Poder de Tributar. Rio de Janeiro: Forense, 2003.

BARROSO, Luís Roberto. A Razão sem Voto: a função representativa do STF. 7 nov. 2014.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=f8FJHoYkhp8>. Acesso em: 9 mai.
2016.
267

BEALL, Jc; GLANZBERG, Michael. Liar Paradox. The Stanford Encyclopedia of


Philosophy, Fall 2014. Disponível em:
<http://plato.stanford.edu/archives/fall2014/entries/liar-paradox/>. Acesso em: 21 jul. 2016.

BIRD, Alexander. Thomas Kuhn. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Fall 2013.
Disponível em: <http://plato.stanford.edu/archives/fall2013/entries/thomas-kuhn/>. Acesso
em 1 jun. 2016.

BIX, Brian. Robert Alexy, Radbruch's Formula, and the Nature of Legal Theory.
RechtsTheorie, v.37, p.139-149, 2006.

BLOOM, Harold. The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York:
Harcourt Brace & Company, 1994.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida:


Wikimedia Foundatio