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BALCÃO DE REDAÇÃO

BALCÃO DE REDAÇÃO Tema 10 – 2017 EF 8 O E 9 O ANO| PERÍODO DE

Tema 10 – 2017

EF 8 O E 9 O ANO| PERÍODO DE 2 A 7 DE MAIO

CRÔNICA

PROPOSTA DE PRODUÇÃO TEXTUALEF 8 O E 9 O ANO| PERÍODO DE 2 A 7 DE MAIO CRÔNICA A

A crônica nasceu nos jornais: os cronistas escreviam em narrativas suas opiniões e visões sobre algum fato noticiado, que seriam publicadas nesses mesmos veículos. Hoje, a crônica aparece em muitos outros veículos – como televisão (linguagem audiovisual) e revistas (linguagem escrita), e até mesmo em livros dedicados só a elas. Esse gênero de texto é uma narração curta (sem grandes variações de tempo, espaço, enredo e personagens), que fala de um acontecimento do dia a dia, contado em primeira pessoa (isto é, o narrador participa do acontecimento) – e essa voz que conta a história, normalmente, é a do próprio autor. Veja alguns exemplos:

TEXTO 1normalmente, é a do próprio autor. Veja alguns exemplos: A carroça dos cachorros Quando de manhã

TEXTO 1

A carroça dos cachorros

Quando de manhã cedo, saio da minha casa, triste e saudoso da minha mocidade que se foi fecunda, na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida. Amo os animais e todos eles me enchem do prazer natureza. Sozinho, mais ou menos esbodegado, eu, pela manhã desço a rua e vejo.

O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros. [

]

— Lá vem a carrocinha! — dizem.

E todos os homens, mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros. Diz Dona Marocas a Dona Eugênia:

— Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi!

E toda a “avenida” se agita e os cachorrinhos vão presos e

escondidos. Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que for- ma profunda nós homens nos ligamos aos animais. Nada de útil, na verdade, o cão nos dá; entretanto, nós o ama- mos e nós o queremos. Quem os ama mais, não somos nós os homens; mas são as mulheres e as mulheres pobres, depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade - o Amor. São elas que defendem os cachorros dos praças de polícia e dos guardas municipais; são elas que amam os cães sem dono, os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa. Todas as manhãs, quando vejo semelhante espetáculo, eu ben- digo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães.

A lei, com a sua cavalaria e guardas municipais, está no seu di-

reito em persegui-los; elas, porém, estão no seu dever em acoitá-los. Careta, 20-9-1919

Lima Barreto. Marginália. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/bv000154.pdf>. Link acessado em 19 abr. 2017.

TEXTO 2

TEXTO 2

TEXTO 2

O primeiro texto era um pouco reflexivo, agora veja este, que tem um caráter mais engraçado.

Se não me falha a memória

Memória boa tinha aquele velho. Correu os olhos pelo cartório onde eu era escrivão e veio direto à minha mesa:

- Sr. Escrivão, meus respeitos - fez um salamaleque: - Queria que o senhor me desse informações sobre um inventário.

- Às suas ordens - e retribuí o cumprimento: - Inventário de quem?

- Já lhe digo o nome do falecido. Minha memória ainda é das

melhores - apesar de ter sofrido uma comoção cerebral há poucos dias, ainda não estou inteiramente bom. Espera aí, deixa eu ver Sou advogado há mais de quarenta anos, não esqueço o nome de

um constituinte, vivo ou morto. Hoje em dia

Benvindo!

- Como?

O nome do falecido era Benvindo. Isto! Benvindo Lopes. Marido

da minha cozinheira. Faleceu há pouco tempo. Ela já não está boa

da cabeça e se eu não me lembrasse o nome do marido dela, quem

é que haveria de lembrar? Levindo Lopes.

- O senhor disse Benvindo.

- Eu disse Benvindo? Veja o senhor!

- É Levindo ou Benvindo?

Ele ficou pensativo um instante:

- Benvindo seja - respondeu afinal, muito sério.

Depois de verificar no fichário, expliquei-lhe que deveria trazer

uma petição. O velho agradeceu e saiu, assegurando-me que sim, não esqueceria. Nem dez minutos haviam decorrido e tornou a sur-

gir na porta:

- Sr. Escrivão, já que o senhor ainda há pouco foi tão amável,

e sem querer abusar, posso lhe pedir uma informação? É sobre um

inventário, esqueci de lhe dizer. Minha memória é muito boa, mas sofri há dias uma comoção cerebral

- O senhor me disse - sorri-lhe, solícito: - Qual é o inventário, desta vez?

- Inventário de

de

O marido dela.

Não vê o senhor? A minha cozinheira

BALCÃO DE REDAÇÃO – TEMA 10 – 2017

– Benvindo Lopes?

– Isso! Benvindo Lopes. Como é que o senhor sabe?

– O senhor já me tinha dito.

– Mas sim senhor! Vejo que também tem boa memória.

Tornei a explicar-lhe a mesma coisa, isto é, que deveria trazer uma petição. Não esquecesse.

– Não, não me esqueço.

Agradeceu e se afastou. Deteve-se a meio caminho da porta.

– Veja o senhor! Já ia me esquecendo é do motivo principal que

me trouxe aqui: a minha cozinheira, que está mais velha do que eu, perdeu o marido há pouco tempo e estou cuidando do inventário dele

– Sabe o nome do falecido? - perguntei, sem me alterar.

– Como não? Minha memória ainda funciona, para nomes en-

tão, principalmente. Ora, pois. É Levindo não sei o quê

– Não será Benvindo?

– Isso! Benvindo

– Este nome não me é estranho - limitei-me a murmurar.

Benvindo Lopes, se não me engano.

Fernando Sabino. Se não me falha a memória. In:

Crônicas: para gostar de ler. São Paulo: Ática.

. In: Crônicas: para gostar de ler. São Paulo: Ática. ORIENTAÇÕES PARA O ALUNO Sua vez!
ORIENTAÇÕES PARA O ALUNO

ORIENTAÇÕES PARA O ALUNO

Sua vez! Escreva uma crônica sobre um dia de avaliação na escola. Decida se sua crônica terá um aspecto de humor (vai contar com um elemento engraçado), ou se será descritiva (vai descrever o dia), reflexiva (vai colocar uma reflexão que você tenha a respeito do evento) ou opinativa (colocar sua opinião). Pense em uma cena que você tenha vivenciado ou imaginado e que represente bem essa situação de prova na escola. Lembre-se que você será um personagem na cena narrada! Em um rascunho, escreva sua crônica na linguagem padrão e dê um título chamativo para seu texto.

Faça a revisão e passe-a a limpo, levando em conta se:

• Sua crônica deixa claro qual é a cena.

• A cena narrada é uma situação de prova escolar.

• O autor é o narrador, e ele é um personagem da cena.

• A linguagem está adequada: dentro da norma padrão

• O texto está compreensível pelo leitor.

• O título está adequado.

Bom trabalho! Profa. Ana Latgé

Orientações para o professor

O gênero é uma narrativa, mas uma narrativa concisa. Assim sendo, não há muito espaço para desenvolvimento de alguns elementos característicos da

narrativa, como o espaço, o enredo e o tempo narrativo (ressaltar aos alunos que os dois exemplos apresentados não contam com uma apresentação dos personagens, por exemplo). A história não precisa ser real, e o ideal é que a narrativa se limite a uma única cena (ou duas no máximo), em que sejam

trabalhados a coerência, a coesão e o estilo pessoal do aluno. A intenção é proporcionar ferramentas para essa forma de escrita e expressão e desenvolver

no aluno um olhar atento ao que lhe cerca no cotidiano. Quanto aos textos, explicar aos alunos que o livro Marginália é uma coleção de contos do autor,

enquanto a revista Careta, que aparece ao final do texto, é onde ele foi publicado originalmente, no dia 20 de setembro de 1919. Se possível, apresente

outros exemplos para a turma, de modo a auxiliá-los a reconhecer e a criar no gênero.